quinta-feira, 5 de maio de 2022

As cinco dificuldades para escrever a verdade

Hoje, o escritor que deseje combater a mentira e a ignorância tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades. É-lhe necessária a coragem de dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufocá-la; a inteligência de a reconhecer, quando por toda a parte a ocultam; a arte de a tornar manejável como uma arma; o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas mãos ela se tornará eficaz; finalmente, precisa de ter habilidade para difundir entre eles. Estas dificuldades são grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos também sentem o peso delas; e até os que escrevem num regime de liberdades burguesas não estão livres da sua acção.

1- A CORAGEM DE DIZER A VERDADE

É evidente que o escritor deve dizer a verdade, não a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. É sua obrigação evitar rebaixar-se diante dos poderosos, não enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir à tentação do lucro que advém de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao salário do seu trabalho equivale por vezes a não poder trabalhar, e recusar ser célebre entre os poderosos é muitas vezes recusar qualquer espécie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As épocas de extrema opressão costumam ser também aquelas em que os grandes e nobres temas estão na ordem do dia. Em tais épocas, quando o espírito de sacrifício é exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas tão mesquinhos e tão baixos como a alimentação dos trabalhadores e o seu alojamento.

Quando os camponeses são cobertos de honrarias e apontados como exemplo, é corajoso o escritor que fala da maquinaria agrícola e dos pastos baratos que aliviariam o tão exaltado trabalho dos campos. Quando todos os altifalantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instruído, é preciso coragem para perguntar: vale mais porquê? Quando se fala de raças nobres e de raças inferiores, é corajoso o que pergunta se a fome, a ignorância e a guerra não produzem odiosas deformidades. É igualmente necessária coragem para se dizer a verdade a nosso próprio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A perseguição parece-lhes uma monstruosa injustiça. Os perseguidores são maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, são perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida à impotência. Bem fraca virtude ela era! Má, inconsistente e pouco segura virtude, pois não é admissível aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a humidade da chuva. É necessária coragem para dizer que os bons não foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de ambíguo e de geral; este estilo de falar dela convém justamente à mentira. Quando se afirma que alguém disse a verdade é porque houve outros, vários, muitos ou um só, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de prático, concreto, impossível de negar, disse a única coisa que era preciso dizer.

Não se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrupção do mundo e para falar num tom ameaçador, nos sítios onde a coisa ainda é permitida, da desforra do Espírito. Muitos simulam a bravura como se os canhões estivessem apontados sobre eles; a verdade é que apenas servem de mira a binóculos de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindicações, à face dum mundo onde as pessoas inofensivas são estimadas. Reclamam em termos gerais uma justiça para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum espólio que sempre têm partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela só há aridez, números e factos, se para a encontrar forem precisos estudos e muito esforço, então essa verdade não é para eles, não possui a seus olhos nada de exaltante. Da verdade, só lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgraça é não possuírem a mínima noção dela.

2- A INTELIGÊNCIA DE RECONHECER A VERDADE

Como é difícil dizer a verdade, já que por toda a parte a sufocam, dizê-la ou não parece à maioria uma simples questão de honestidade. Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade.

Em primeiro lugar, já não é fácil descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo, as grandes nações civilizadas vão soçobrando uma após outra na pior das barbáries diante dos olhos pasmados do universo.

Acresce ainda o facto de todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais horríveis, pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra exterior que só deixará um montão de escombros no sitio onde outrora havia o nosso continente. Esta é uma verdade que não admite dúvidas, mas é claro que existem outras verdades. Por exemplo: não é falso que as cadeiras sirvam para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para baixo. Muitos poetas escrevem verdades deste género. Assemelham-se a pintores que esboçassem naturezas mortas a bordo dum navio em risco de naufragar. A primeira dificuldade de que falamos não existe para eles, e contudo têm a consciência tranquila. “Esgalham” o quadro num desprezo soberano pelos poderosos, mas também sem se deixarem impressionar pelos gritos das vítimas. O absurdo do seu comportamento engendra neles um “profundo” pessimismo que se vende bem; os outros é que têm motivos para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem. Já nem sequer é fácil reconhecer que as suas verdades dizem respeito ao destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades soam normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com coisas essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar de importância aos temas de que trata.

Só olhando os quadros de muito perto é que podemos discernir a simplicidade do que dizem: “Uma cadeira é uma cadeira” e “Ninguém pode impedir a chuva de cair de cima para baixo”. As pessoas não encontram ali a verdade que merece a pena ser dita.

Alguns consagram-se verdadeiramente às tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou á pobreza, e no entanto não conseguem encontrar a verdade. Faltam-lhe conhecimentos. As velhas superstições não os largam, assim como os preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma forma bela. Acham o mundo complicado em demasia, não conhecem os dados nem distinguem as relações. A honestidade não basta; são precisos conhecimentos que se podem adquirir e métodos que se podem aprender. Todos os que escrevem sobre as complicações desta época e sobre as transformações que nela ocorrem necessitam de conhecer a dialéctica materialista, a economia e a história. Estes conhecimentos podem adquirir-se nos livros e através da aprendizagem prática, por mínima que seja a vontade necessária. Muitas verdades podem ser encontradas com a ajuda de meios bastante mais simples, através de fragmentos de verdades ou dos dados que conduzem à sua descoberta. Quando se quer procurar, é conveniente ter-se um método, mas também se pode encontrar sem método e até sem procura. Contudo, através dos diversos modos como o acaso se exprime, não se pode esperar a representação da verdade que permite aos homens saber como devem agir. As pessoas que só se empenham em anotar os factos insignificantes são incapazes de tornar manejáveis as coisas deste mundo. O objectivo da verdade é uno e indivisível. As pessoas que apenas são capazes de dizer generalidades sobre a verdade não estão à altura dessa obrigação.

Se alguém está pronto a dizer a verdade e é capaz de a reconhecer, ainda tem de vencer três dificuldades.

3-A ARTE DE TORNAR A VERDADE MANEJÁVEL COMO UMA ARMA

O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade são as consequências que isso implica no que diz respeito à conduta prática. Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poderão tirar consequências falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos países reina um estado de coisas nefasto, resultante da barbárie. Para esta concepção, o fascismo é uma vaga de barbárie que alagou certos países com a violência de um fenómeno natural.

Os que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento, uma terceira força justaposta ao capitalismo e ao socialismo (e que os domina). Para quem partilha esta opinião, não só o movimento socialista, mas também o capitalismo teriam podido, se não fosse o fascismo, continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirmação fascista, de uma capitulação perante o fascismo. O fascismo é uma fase histórica na qual o capitalismo entrou; por consequência, algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos países fascistas, a existência do capitalismo assume a forma do fascismo, e não é possível combater o fascismo senão enquanto capitalismo, senão enquanto forma mais nua, mais cínica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.

Como se poderá dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se abstêm de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual será o alcance prático dessa verdade?

Aqueles que estão contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barbárie causada pela barbárie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas não querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas não querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o magarefe lave as mãos antes de servir a carne. Não são contra as relações de propriedade que produzem a barbárie, mas são contra a barbárie.

As recriminações contra as medidas bárbaras podem ter uma eficácia episódica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas não são possíveis na sociedade onde vivem. Certos países gozam do raro privilégio de manter relações de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os serviços que noutras partes do mundo só podem ser prestados mediante o recurso à violência, quer dizer, aí a democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios de produção. O monopólio das fábricas, das minas, dos latifúndios gera em toda a parte condições bárbaras; digamos que em alguns sítios a democracia torna essas condições menos visíveis. A barbárie torna-se visível logo que o monopólio já só pode encontrar protecção na violência nua.

Certas nações que conseguem preservar os monopólios bárbaros sem renunciar às garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os hóspedes cujos discursos procuram desculpar o seu país natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes será útil nas guerras vindouras. É licito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha, apresentada como verdadeira pátria do mal da nossa época, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, não será exagerado pensar que não passam de impotentes e nefastos imbecis, já que a conclusão do seu blá-blá-blá aponta para a destruição desse pais inteiro e de todos os seus habitantes (o gás asfixiante, quando mata, não escolhe os culpados).

O homem frívolo, que não conhece a verdade, exprime-se através de generalidades, em termos nobres e imprecisos. Encanta-o perorar sobre “os” alemães ou lançar-se em grandes tiradas sobre “o” Mal, mas a verdade é que nós, aqueles a quem o homem frívolo fala, ficamos embaraçados, sem saber que fazer de semelhantes ditames. Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alemão? E lá por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? São desta espécie as grandes frases sobre a barbárie. Para os seus autores, a barbárie vem da barbárie e desaparece graças à educação moral que vem da educação. Que miséria a destas generalidades, que não visam qualquer aplicação pratica e, no fundo, não se dirigem a ninguém.

Não nos admiremos que se digam de esquerda, “mas” democratas, os que só conseguem elevar-se a tão fracas e improfícuas verdades. A “esquerda democrática” é outra destas generalidades-álibís onde correm a acoitar-se as pessoas inconsequentes, isto é, os incapazes de viver até as últimas consequências as verdades que quer a esquerda, quer a democracia contêm. Reclamar-se alguém da “esquerda democrática” significa, em termos práticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar ou conservar as coisas, ao clã dos generalistas da verdade.

Não é a mim, fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me vão apresentar o fascismo como uma espécie de força motriz natural impossível de dominar. A escuridade dessas descrições esconde as verdadeiras forças que produzem as catástrofes. Um pouco de luz, e logo se vê que são homens a causa das catástrofes. Pois é, amigos: vivemos num tempo em que o homem é o destino do homem.

O fascismo não é uma calamidade natural, que se possa compreender a partir da “natureza” humana. Mas mesmo confrontados com catástrofes naturais, há um modo de descrevê-las digno do homem, um modo que apela para as suas qualidades combativas.

O cronista de grandes catástrofes como o fascismo e a guerra (que não são catástrofes naturais) deve elaborar uma verdade praticável, mostrar as calamidades que os que possuem os meios de produção infligem às massas imensas dos que trabalham e não os possuem.

Se se pretende dizer eficazmente a verdade sobre um mau estado de coisas, é preciso dizê-la de maneira que permita reconhecer as suas causas evitáveis. Uma vez reconhecidas as causas evitáveis, o mau estado de coisas pode ser combatido.

4- DISCERNIMENTO SUFICIENTE PARA ESCOLHER OS QUE TORNARÃO A VERDADE EFICAZ

Tirando ao escritor a preocupação pelo destino dos seus textos, as usanças seculares do comércio da coisa escrita no mercado das opiniões deram-lhe a impressão de que a sua missão terminava logo que o intermediário, cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos outros a obra acabada. O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele falava e quem podia pagar ouvia-o. Nem todos ouviam as suas palavras, e os que as ouviam não estavam dispostos a ouvir tudo o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta questão, mas mesmo assim ainda não chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a acentuar que “escrever a alguém” tornou-se pura e simplesmente “escrever”. Ora não se pode escrever a verdade e basta: é absolutamente necessário escrevê-la a “alguém” que possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade é um processo comum aos que lêem e aos que escrevem. Para dizer boas coisas, é preciso ouvir bem e ouvir boas coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem a ouve. E para nós que escrevemos, é essencial saber a quem a dizemos e quem no-la diz.

Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas àqueles que o consideram o pior estado de coisas, e é desses que devemos aprender a verdade. Devemos não só dirigir-nos às pessoas que têm uma certa opinião, mas também aos que ainda a não têm e deviam tê-la, ditada pela sua própria situação. Os nossos auditores transformam-se continuamente! Até se pode falar com os próprios carrascos quando o prémio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo de estar com os assassinos se torna muito grande. Os camponeses da Baviera não costumam querer nada com revoluções, mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso, não arranjam trabalho nas quintas, tem sido possível ganhá-los para a revolução.

Para quem escreve, é importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave, lamentoso, de quem é incapaz de fazer mal a uma mosca, não serve. Quem, estando na miséria, ouve tais lamúrias, sente-se ainda mais miserável. Em nada o anima a cantilena dos que, não sendo seus inimigos, não são certamente seus companheiros de luta. A verdade é guerreira, não combate só a mentira, mas certos homens bem determinados que a propagam.

5- HABILIDADE PARA DIFUNDIR A VERDADE

Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura fatigados com o esforço necessário para lhe dar uma forma manejável, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem a tomem em suas mãos e consideram desnecessário o uso de manhas e estratagemas para a difundir. Frequentemente, é assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi necessário recorrer a “truques” para espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abafá-la e ocultá-la. Confúcio falsificou um velho calendário histórico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia: “o senhor de Kun condenou à morte o filósofo Wan por ter dito frito e cozido”, Confúcio substituía “condenou à morte” por “assassinou”. Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia “foi executado”. Com este processo, Confúcio abriu caminho a uma nova concepção da história.

Na nossa época, aquele que em vez de “povo”, diz “população”, e em lugar de terra”, fala de “latifúndio”, evita já muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha. A palavra “povo” exprime uma certa unidade e sugere interesses comuns; a “população” de um território tem interesses diferentes e opostos. Da mesma forma, aquele que fala em “terra” e evoca a visão pastoral e o perfume dos campos favorece as mentiras dos poderosos, porque não fala do preço do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos ricaços das cidades e não aos dos camponeses que se matam a tornar fértil o “paraíso”. “Latifúndio” é a expressão justa: torna a aldrabice menos fácil. Nos sítios onde reina a opressão, deve-se escolher, em vez de “disciplina”, a palavra “obediência”, já que mesmo sem amos e chefes a disciplina é possível, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obediência. Do mesmo modo, “dignidade humana” vale mais do que “honra”: com a primeira expressão o indivíduo não desaparece tão facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de ginjeira o género de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem “honrarias” pelos famélicos que os engordam.

Ao substituir avaliações inexactas de acontecimentos nacionais por notações exactas, o método de Confúcio ainda hoje é aplicável. Lénine, por exemplo, ameaçado pela polícia do czar, quis descrever a exploração e a opressão da ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu “Rússia” por “Japão” e “Sakalina” por “Coreia”. Os métodos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os métodos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura não foi proibida, porque o Japão era inimigo da Rússia. Muitas coisas que não podem ser ditas na Alemanha a propósito da Alemanha, podem sê-lo a propósito da Áustria. Há muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.

Voltaire combateu a fé da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual são descritos os milagres que sem dúvida foram necessários para Joana d’Arc permanecer virgem no exército, na Corte e no meio dos frades.

Pela elegância do seu estilo e a descrição de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma religião que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta. Mais e melhor deu assim às suas obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difusão dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a polícia que protegia os seus prazeres. E o grande Lucrécio sublinha expressamente que, para propagar o ateísmo epicurista confiava muito na beleza dos seus versos.

Não há dúvida de que um alto nível literário pode servir de salvo-conduto à expressão de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Então, pode ser indicado baixá-lo intencionalmente. É o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz à socapa, em lugares discretos, a descrição dos males da sociedade. O grande Shakespeare baixou o seu nível por considerações bem mais fracas, quando tratou com uma voluntária ausência de vigor o discurso com que a mãe de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projecto, não por causa de razões sólidas ou de uma emoção profunda, mas por uma certa fraqueza de carácter que o entregava aos seus velhos hábitos. Encontramos igualmente em Shakespeare um modelo de manhas na difusão da verdade: o discurso de Marco António perante o corpo de César, quando repete com insistência que Brutus, assassino de César, é um homem honrado, descrevendo ao mesmo tempo o seu acto, e a descrição do acto provoca mais impressão que a do autor.

Jonathan Swift propôs numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vendê-los como carniça no talho. Através de minuciosos cálculos, provava que se podem fazer grandes economias quando não se recua diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar abominável e cuja ignomínia saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo aquele que ainda não tinha pensado nas consequências decorrentes de certas concepções.

São consideradas baixas as actividades úteis aos que são mantidos no fundo da escala: a preocupação constante pela satisfação de necessidades; o desdém pelas honrarias com que procuram engodar os que defendem o país onde morrem de fome; a falta de confiança no chefe quando o chefe nos leva a todos à catástrofe; a falta de gosto pelo trabalho quando ele não alimenta o trabalhador; o protesto contra a obrigação de ter um comportamento de idiotas; a indiferença para com a família, quando de nada serve a gente interessar-se por ela. Os esfomeados são acusados de gulodice; os que não têm nada a defender, de cobardia; os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua própria força; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de preguiça, etc.

Numa época como a nossa, os governos que conduzem as massas humanas à miséria, têm de evitar que nessa miséria se pense no governo, e por isso estão sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar à prisão antes que a sua busca atinja o governo. Mas é sempre possível opormo-nos à conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunstâncias, que a fatalidade do homem é obra de outros homens. Até na descrição de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme à verdade, quando se incorporam à natureza as coisas criadas pelo homem.

RECAPITULAÇÃO

A grande verdade da nossa época (só seu conhecimento em nada nos faz avançar, mas sem ela não se pode alcançar nenhuma outra verdade importante) é que o nosso continente se afunda na barbárie porque nele se mantêm pela violência determinadas relações de propriedade dos meios de produção. De que serve escrever frases corajosas mostrando que é bárbaro o estado de coisas em que nos afundamos (o que é verdade), se a razão de termos caído nesse estado não se descortina com clareza? É nossa obrigação dizer que, se se tortura, é para manter as relações de propriedade. Claro que ao dizermos isso perdemos muitos amigos; aqueles que são contra a tortura porque julgam ser possível manter sem ela as relações de propriedade (o que é falso).

Devemos dizer a verdade sobre as condições bárbaras que reinam no nosso país a fim de tornar possível a acção que as fará desaparecer, isto é, que transformará as relações de propriedade.

Devemos dizê-la aos que mais sofrem com as relações de propriedade e estão mais interessados na sua transformação, ou seja: aos operários e aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por não serem proprietários dos meios de produção, embora associados aos lucros e benefícios da exploração de quem produz. E, é claro, devemos proceder com astúcia.

Devemos resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, já que não podemos procurar a verdade sobre condições bárbaras sem pensar nos que sofrem essas condições e estão dispostos a utilizar esse conhecimento. Além disso, temos de pensar em apresentar-lhes a verdade sob uma forma susceptível de se transformar numa arma nas suas mãos, e simultaneamente com a astúcia suficiente para que a operação não seja descoberta e impedida pelo inimigo.

São estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.
Bertolt Brecht, texto escrito em 1934 e publicado no “Diário de Lisboa”, em 25 de abril de 1982

Pensamento do Dia

 


A seguir: ditadura com Bolsonaro

Há dois anos, quando comecei a dizer aqui que a cooptação por Jair Bolsonaro de militares, policiais e civis armados era a preparação para um golpe em caso de derrota na eleição, ouvi que estava vendo fantasmas debaixo da cama. No passado, essa imagem se aplicava aos comunistas, que, solertes, esperavam a hora de se pôr de pé, acender a luz e render os inocentes de pijama e camisola. Passaram-se 60 anos. Os comunistas seguem debaixo da cama, de onde nunca saíram, e quem hoje prepara o golpe — o autogolpe, como o definiu, com descaro, um general— é quem já está no poder.

É um golpe preparado às claras, com direito a ser pregado em carreatas, motociatas, cavalatas e outras atas bancadas com dinheiro público, sob a indiferença de instituições também pagas para coibi-las. E é tão ostensivo que, desde há algumas semanas, passou a ser abertamente denunciado pelos jornais e demais veículos de opinião, e nem assim os suspeitos de tramá-lo se dão à pachorra de desmenti-lo. É como se já o déssemos de barato —algo previsto para acontecer entre a eleição e o Dia de Finados.

Os golpes são dados para manter ou derrubar o status quo. O golpe que se anuncia pertence à primeira categoria. Significa que seus adeptos militares e civis estão contentes com o Brasil de Bolsonaro. Para eles, não há alta corrupção, destruição do meio ambiente, estupro e assassinato de indígenas, dissolução das instituições e afronta à autoridade por mandriões bombados açulados pelo mandrião mor.

É normal que nada disso diga respeito aos empresários. Mas eles parecem não se alterar também pelo desemprego, inflação, miséria, asco administrativo e estagnação da economia. A Bolsa não acaba de perder R$ 7,7 bi de investimento estrangeiro e o Brasil não continua fora do G7 nem cada vez mais esnobado pela comunidade internacional.

A solução? Ditadura com Bolsonaro — é o que nos prometem a seguir.

Escravismo persistente

Em 1850, o deputado baiano Silva Guimarães teve a estranha ideia de propor lei declarando livres os filhos das escravas nascidos a partir daquela data. A proposta foi obviamente arquivada porque era inconcebível romper o princípio jurídico de que o ventre da escrava pertencia ao seu senhor. Além disso, o recém-nascido era negro, não fazia sentido declará-lo livre sem alforria individual proclamada por seu dono. Cento e setenta anos depois, ainda parece estranha a ideia de pobre estudar na mesma escola de brasileiro rico.

Foi necessário esperar até 1871 para que a ideia do "ventre livre" chegasse ao parlamento com chance de aprovação. Depois de seis meses de debates, a lei foi aprovada por 56 votos contra 47 deputados que se opunham ao que consideravam injusta ilegalidade de "desapropriar os donos e sequestrar os filhos de escravas".

Para conseguir os votos, foi necessário determinar que os filhos só seriam livres ao completar 21 anos, as filhas aos 18. Achando pouco, o sistema encontrou forma de impedir que a lei fosse posta em prática: negar escola aos libertos. Os escravocratas perceberam que o ser humano nasce duas vezes: ao sair do ventre da mãe e ao entrar na escola.

Para abolir a escravidão de uma criança, não basta declarar livre o ventre de sua mãe, é preciso libertar o cérebro da criança ao receber conhecimento para se orientar e usufruir do mundo. O trabalho é servil por compra de escravo ou por negação de educação que assegure a possibilidade do trabalho livre. A Lei do Ventre Livre ficou incompleta por não libertar os cérebros. Os libertos receberam alforria para usar os pés e as mãos, mas não a educação necessária para usufruírem da liberdade.


Mais 20 anos foram necessários para abolir a escravidão no 13 de maio de 1888, mas manteve-se o mesmo antídoto à liberdade plena, negando escola aos pobres, descendentes sociais dos escravos; e mais 100 anos para aprovarem leis que assegurassem vaga em escola a toda criança a partir de quatro aos 17 anos; e adotar o programa Bolsa Escola, para dar aos pobres as condições de frequentarem aulas, no lugar do trabalho.

Também para a criação dos programas de Merenda Escolar, Livro Didático, Piso Salarial Nacional para o Professor, Planos Nacionais de Educação I e II, Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Básico, Base Nacional Comum Curricular. Apesar disso tudo, o sistema escravocrata não se submeteu à abolição plena da escravidão.

Na próxima semana, faz 134 anos da Abolição, mas a escravidão continua mantida por sua última trincheira: a desigualdade na qualidade da escola. Não sendo mais possível negar matrícula a todos, o escravismo entranhado na mente brasileira mantém as escolas divididas entre "escolas casa grande" e "escolas senzala", de acordo com a renda da criança: os pobres, descendentes sociais dos escravos, separados dos descendentes sociais dos senhores.

Até hoje, a ideia de filhos de pobres estudarem na mesma escola de filhos de ricos parece tão estranha quanto, em 1850, a ideia de libertar os filhos das escravas. Ainda não se aceita a ideia de que a escola é a continuação do ventre; não se busca promover uma lei do cérebro livre para entrar no colégio independentemente da renda. Ainda vale a regra jurídica de que o conhecimento pertence a quem pode comprá-lo.

A proposta do deputado Silva Guimarães foi arquivada no século 19, tanto quanto no século 21 foram arquivadas a proposta de lei que declarava falta de decoro o parlamentar matricular o filho em escola privada e a proposta de emenda à Constituição determinando prazo de 30 anos para todas as escolas serem de acesso público, mesmo não sendo estatais, todas parte de um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base.

A escravidão sobreviverá enquanto os descendentes sociais dos escravos não tiverem seus filhos em escolas com a mesma qualidade daqueles são descendentes dos senhores de escravos: todas em um sistema único. A lei da abolição só estará completa quando, além do seu artigo "é declarada extinta, desde a data desta lei, a escravidão no Brasil", um outro determinar: "fica implantado um Sistema Único Nacional Público de Educação de Base em todo território nacional", que assegure a mesma qualidade na educação oferecida a cada brasileiro, independentemente da renda e do endereço dos pais.

Por que Bolsonaro ainda pode crescer

Até pouco tempo atrás, as passeatas de esquerda encenavam uma predisposição para o embate físico. A característica se fazia presente na coreografia de todos os comícios anticapitalistas, e não apenas no Brasil. Punhos erguidos socando o espaço sinalizavam a vontade de esmurrar o oponente. As palavras de ordem jorravam carregadas de agressividade quase bélica. Com frequência, lá vinham os black blocs atirando pedras nas vitrines e coquetéis molotov nos policiais. Naqueles tempos idos, embora tão recentes, a voz e o corpo da esquerda se opunham à ordem estabelecida, e sua linguagem eram as jornadas teatrais contra o establishment, a autoridade, as regras de trânsito e as boas maneiras.

Agora é o oposto. A velha gramática dos protestos virou de ponta-cabeça. Ano passado, nos Estados Unidos, quem promoveu arruaças foi a extrema-direita trumpista, que chegou ao cúmulo de promover a invasão do Capitólio. O símbolo mais icônico do atentado foi aquele sujeito enrolado num cobertor que parecia pele de urso e coroado, usando um capacete com dois chifres hediondos. O tipo ganhou o apelido midiático de “viking” e ficou famoso (no Brasil, um imitador do tal “viking” tem animado os convescotes golpistas do bolsonarismo).

A esquerda seguiu por outra via. Nos Estados Unidos, por exemplo, andou mais preocupada em filiar eleitores na Georgia para garantir a vitória do Partido Democrata. Enquanto a extrema-direita tomou para si o gestual, a coreografia e a torpeza dos vândalos, a esquerda se reagrupou na defesa da legalidade e do Estado de Direito. Em Paris, foi a mesma coisa. Agora mesmo, tão logo foi anunciada a derrota de Le Pen no segundo turno, seus cabos eleitorais (neonazistas e congêneres) saíram pelos logradouros públicos chutando portas e latas de lixo; os personagens da esquerda, de sua parte, preferiram ritualizar o congraçamento entre as classes. Num mundo em que ninguém tem mais endereço certo e sabido, a pancadaria mudou de lado, espetacularmente.

Essa inversão dá ao presidente da República, Jair Bolsonaro, uma oportunidade eleitoral explosiva. Não obstante seja o incumbente da vez, encarregado de cuidar da máquina pública, ele bombardeia a máquina pública todos os dias, sem tréguas. Seu lema é destruir a institucionalidade. Seu método é empregar o aparelho de Estado para demolir o aparelho de Estado. Com a aproximação das eleições, não rivaliza com os adversários ou com a oposição: sua guerra preferencial é contra as urnas eletrônicas e contra a Justiça Eleitoral. Ele não quer derrotar seus rivais, ele quer derrotar todo o sistema eleitoral.

Bolsonaro está em cruzada permanente. Na falta de um inimigo externo, elegeu o Supremo, a imprensa e os ecologistas, além de artistas, cientistas e intelectuais, como alvos prioritários. Ele não tem apenas uma “narrativa”, palavra mágica que seus apoiadores se comprazem em repetir: sua estratégia de comunicação consiste em convocar seus fanáticos para assumir o papel de protagonistas anônimos nas batalhas campais contra a lei e a ordem. Bolsonaro entrega às suas falanges, além das certezas feitas exclusivamente de mentiras (certezas que lhes acalentam a alma ressentida), a emoção de agir diretamente no combate discursivo, corporal e armado contra os inimigos da Pátria e de Deus. Esse combate não passa de um delírio, mas isso também não importa a mínima.

O que está vindo aí é uma onda, e essa onda pode crescer. Com sua lógica colada na dinâmica das redes sociais, o presidente aposta suas fichas na conflagração e no convulsionamento. O resultado não importa; o que lhe rende pontos é o movimento. Ele não tem nem precisa ter compromisso com a coerência ou com os fatos, pois sua fonte de energia política é a barulheira incendiária. Quanto ao mais, seus seguidores também não ligam para os fatos.

Estamos aprendendo, tarde demais, que não é por desinformação que muita gente o idolatra, mas por ódio a tudo o que seja informação. As multidões obcecadas pelo presidente abominam a verdade factual e, mais ainda, repudiam os que falam em nome da verdade factual. Para as massas ensandecidas e sedentas de tirania, a onda bolsonarista oferece uma paixão violenta e irresistível, que combina paixão e certezas irracionais, mais ou menos como se deu com o fascismo no século 20. O desastre quica na área.

“O trabalhador se sentirá autorizado a descontar no corpo de sua esposa toda a opressão vivida na cidade”, antecipa o cientista político Miguel Lago, um dos pouquíssimos que enxergam, ouvem e sentem o que está para desabar sobre a Nação. O alerta está no ensaio Como explicar a resiliência de Bolsonaro?, que faz parte do livro Linguagem da destruição (Companhia das Letras, 2022), que tem Heloisa Starling e Newton Bignotto como coautores. “O homofóbico se sentirá autorizado a espancar uma pessoa por sua orientação sexual”, prossegue Miguel Lago, desfiando a longa lista de “guardas da esquina”. Com a nossa pasmaceira hesitante e paralisante, nós estamos pagando para ver o pior acontecer.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

Paredão Brasil

Difícil hoje alguém não saber o que é o BBB – sigla de Big Brother Brasil, reality show da TV Globo. Reúne 20 pessoas, selecionadas, em longo processo, pela produção do programa. Esses irão conviver por três meses, numa casa fechada e recheada de câmeras.

Assinantes do programa têm o direito de acompanhar o dia a dia inteiro dos confinados. Quem não paga pode assistir um resumão diário do cotidiano do grupo, na TV aberta, em horário nobre, depois da novela das 21h. Assim vai se formando opinião sobre a performance de cada um. O que resulta em gigantescas torcidas virtuais contra ou a favor de uns e de outros.

Os participantes – homens e mulheres, chamados de elenco – vão se digladiando até que, por escolha do público, sobre um vencedor. Esse campeão leva prêmio de um milhão e meio de reais, além de fama e da conquista de milhares que seguidores. Vira mais um influencer. O que, nos dias de hoje, resultará em muito mais dinheiro no bolso. Benção, que costuma alcançar a maioria dos brothers. Inclusive os não mocinhos. Há quem goste de bandidos.

No BBB, toda a semana três ou quatro participantes vão ao paredão. Significa que, indicados pelos colegas de elenco, estarão sujeitos ao voto eletrônico do público, que decide qual dos emparedados deixará o programa.


A regra básica é evitar o paredão. Confinados, não sabem como está sendo avaliado seu desempenho no convívio em grupo. Ou seja, indo ao paredão, pode sair. Então, corra dele, ensina diariamente o apresentador do programa.

Ao longo do jogo, os que vão e voltam de distintos paredões acabam intuindo que seu comportamento vem sendo aprovado pelo público. Ganham confiança e firmeza na sua estratégia de sobrevivência no jogo.

O BBB é um jogo de habilidade e de esperteza na convivência forçada dos brothers. Como dezenas de câmeras exibem quase tudo daquele cotidiano, o programa é também um jogo de sedução do público telespectador. Assim, vão se fazendo os amados e os odiados – esses costumam sair com altas doses de rejeição popular. Serão “cancelados” aqui fora. (Cancelamento é péssimo). Vão-se seguidores e, com eles, o dinheiro que trazem.

Nos últimos dois anos, pra animar a festa, a produção do BBB seleciona o elenco com ditos famosos e gente-como-a-gente. Serão as turmas camarote e pipoca. Camarote, mundo afora, é espaço onde só cabe gente especial – de fama ou de dinheiro.

O termo pipoca vem do carnaval da Bahia, definindo os que, na rua, acompanham os trios elétricos, animadíssimos, mas fora da corda, estendida para demarcar espaço dos foliões devidamente trajados com a fantasia do trio/bloco. Esse traje, comprado e caro, é chamado de abadá pelos baianos e nas Micaretas que acontecem (ou aconteciam) em todo Brasil. Pipoca é quem sobrou na periferia da festa.

Há os que odeiam e os que amam o programa, que há 22 anos marca o começo do ano da TV Globo. E rende milhões a emissora. Até hoje, alguns poucos participantes, mesmo sem vencer, encontraram espaço de brilho pessoal no pós BBB. Ano passado, a vencedora, uma paraibana retada, virou paixão nacional. Se não conhece, nem nunca ouviu falar na Juliette tá muito out, bugado, flopado.

Flopar, nos dias de hoje, é uma tragédia. O ex-juiz Moro, por exemplo, é o maior flopado da cena política brasileira atual. Deu muito ruim pra ele.

No BBB22 venceu Arthur Aguiar, um jovem ator-cantor que entrou no programa cancelado por mau comportamento no casamento, mas, mesmo pouco amado pelos colegas de confinamento, deu seu jeito. Seduziu o público votante, levou o prêmio e saiu com mais de 13 milhões de seguidores que valem $$.

O BBB não é muito diferente da vida. Nós mortais – pipocas ou não – não temos câmeras abertas para permitir o julgamento público de nosso comportamento social, transformado em votos de sim e de não.

Finalizado o BBB da Globo, partimos para o difícil paredão da eleição presidencial de outubro. Até aqui, muitos dos previamente selecionados para o julgamento nas urnas já foram completamente cancelados, a terceira via flopou. No Paredão eleitoral deste ano ainda seguem firmes o ex-presidente Lula e o atual presidente do Brasil.

Lula, já vitimado pelo processo de produção de cancelamentos públicos, lidera as pesquisas. O outro, que concorre à reeleição, é especialista em flopar respeito, civilidade e outras questões que distinguem o racional do irracional.

Notícia de ontem, segunda, 2 de maio. “Há 77,7% de brasileiros endividados. Inadimplência alcançou o nível mais alto desde 2010, quando a pesquisa começou a ser feita: 28,6% das famílias têm dívidas atrasadas”.

A inadimplência é só mais um sintoma do desacerto brasileiro no paredão eleitoral de 2018, quando, emparedando presente e futuro, aboletamos na Presidência da República o mais despreparado dos candidatos. E eram muitos. Venceu um mico batizado de mito.

Uma letra trocada e micado ficou o país. Um C pelo T e, vapt, vupt , 200 milhões emparedados no Big Bobos Brasil.

Aprendeu? Sentiu? Então não flopa de novo no paredão de outubro!

Vai ter golpe

Saudade da época de poucas certezas. A minha única era que "amanhã é um novo dia". Parece-me, hoje, uma mistura de ingenuidade juvenil com crença na imortalidade, mas um tanto de boçalidade. Não faço ideia de como não morri lá atrás, não apenas uma vez, mas inúmeras delas, tal a certeza de que amanhã teria sempre um novo dia.

Mas se, de um lado, eu dava como certo que, fizesse chuva ou sol, o amanhã estaria ali na curva do horizonte, do outro lado, o que girava a roda da vida era um redemoinho de incertezas —e isso não era ruim. O futuro sem respostas, mas cheio de possibilidades, é ainda mais bonito do que um novo amanhecer.


Nessa curva da vida, imaginava que as certezas fossem chegando e que, enfim, me cansasse da adrenalina e pudesse só me acomodar numa caminhada com menos solavancos, mas com menos riscos de não estar aqui para um novo dia. A vida é uma coisa bem fácil de ser gostada, e a gente vai se apegando quanto mais o fim fica mais perto do que o começo.

E embora saiba mais coisas sobre a vida, sobre os homens, sobre a miséria humana, as certezas viraram desassossegos que têm consumido a mim e a todos ao meu redor a cada novo dia. Às vezes, tudo o que eu queria era só um tédio bem gostoso para abraçar e dormir mais um pouco. Mas o marasmo em que vivemos é só o das piores certezas.

Pode ser só pessimismo ou maturidade e overdose de informação. Nada se compara à ressaca que as notícias têm provocado. Nem vinho de garrafão me derrubava tanto quanto as manchetes dos jornais hoje.

Vai ter golpe. Bolsonaro só pensa nisso. As Forças Armadas estão ajoelhadas. As instituições não estão funcionando. O Legislativo e o Judiciário estão acovardados. A oposição ficou presa em 2002. A imprensa está falando com as paredes. E as paredes estão fazendo dancinhas no TikTok. Nunca haverá o Brasil que nos foi prometido. Amanhã pode não ter mais amanhã.

Brasil assassino

 


O amanhã

Existe um único lugar onde o ontem e o hoje se encontram e se reconhecem e se abraçam, e este lugar é o amanhã. Soam como futuras certas vozes do passado americano muito antigo. As antigas vozes, digamos, que ainda nos dizem que somos filhos da terra, e que mãe a gente não vende nem aluga. Enquanto chovem pássaros mortos sobre a Cidade do México e os rios se transformam em cloacas, os mares em depósitos de lixo e as selvas em deserto, essas vozes teimosamente vivas nos anunciam outro mundo que não seja este, envenenador da agua, do solo, do ar e da alma.

Também nos anunciam outro mundo possível as vozes antigas que nos falam de comunidade. A comunidade, o modo comunitário de produção e de vida, e a mais remota tradição das Américas, a mais americana de todas: pertence aos primeiros tempos e as primeiras pessoas, mas pertence também aos tempos que vem e pressentem um novo Mundo Novo. Porque nada existe menos estrangeiro que o socialismo nestas terras nossas. Estrangeiro e, na verdade, o capitalismo: como a varíola, como a gripe, veio de longe.
Eduardo Galeano, "O livro dos abraços"

Desastre anunciado

O país iria sofrer muito, caso ocorresse isso (releição). Seria um desastre. E o problema é que a história nos diz que tudo que está ruim tem espaço para piorar mais. Esse é o ponto. Nós temos que evitar que isso aconteça, sem dúvida
Henrique Meirelles, ex-ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central

Cão que Ladra

E aí vem O Elon Musk, tira 44 bilhões do bolso e compra o Twitter. Será que foi assim? Será que ele tem essa grana assim disponível e será que ele vai ser o dono do Twitter como se costumava entender como patrão? Esses novos bilionários espaciais, assim como os oligarcas russos e os sheiks árabes estabelecem um governo paralelo no planeta. A compra do Twitter pelo Elon Musk pode ter o mesmo significado geopolítico -exagero a parte pelo qual já peço perdão- que a guerra da Ucrânia. Lamentando os mortos que sempre são as primeiras vítimas da insanidade dos políticos temos outro tipo de vítima que são os navegadores da internet, o gado cibernético que caminha para o matadouro sem tirar o olho da tela do computador. Os governantes do mundo inteiro não conseguem mais desligar o celular e o equilíbrio de forças no planeta é elaborado também pelos algorítmos.


O Twitter, o Whatsapp e o Telegram funcionam como oráculos modernos. Dali vem a verdade mastigada e definitiva. Se você acredita ou não é outra coisa. A campanha eleitoral vai ser na sua maioria virtual. A mentira dita é muitas vezes maior que o seu desmentido. Por isso vale ser dita e até pagar multas por ela. Os primeiros vídeos de campanha do Bolsonaro (que aliás circulam pela web como se a campanha já tivesse começado) podem até ser bem feitos, mas são repletos de mentiras, histórias antigas sobre roubalheira e corrupção. Apesar de terem sido desmentidos pelo Supremo e pela ONU continuam como material de construção das ofensas e mentiras. Projetos não existem. Programas não são divulgados. Destruir continua sendo a grande ideia.

A desobediência do Daniel Silveira às ordens do Supremo, o atropelamento do Bolsonaro em relação às eleições, o desmando total no país e a juventude transviada que seus filhos representam me dão a sensação, por um lado de uma impunidade clássica do Brasil, uma passada de pano histórica como se a lei aqui não pegasse e por outro lado a impressão de que esses cães todos ladram mas mordem pouco. De qualquer forma a balbúrdia, termo que eles gostam de usar, precisa acabar e quem descumpre a lei tem, no mínimo, que pagar a multa. Se isso não for feito a desmoralização será geral e essa sensação, essa ideia passa. As pessoas seguem o exemplo que vem de cima.

Enquanto o bolsonarismo faz barulho, o Brasil sofre

Em março, o Brasil registrou a mais alta inflação para o mês em 28 anos, com um litro de gasolina custando agora mais de R$ 7. Ao mesmo tempo, a renda média dos brasileiros nas regiões metropolitanas caiu e atingiu uma mínima histórica (R$ 1.378) – o menor rendimento domiciliar per capita em dez anos. A taxa de desemprego do país deve ficar entre as mais altas do mundo em 2022 (13,7%). O desmatamento da Floresta Amazônica atingiu novos recordes no primeiro trimestre deste ano. Mais da metade da população do Brasil – 116 milhões de pessoas – vive com algum grau de insegurança alimentar.

Mas o que o país está discutindo? Que tema domina as manchetes? Com que assunto o presidente Jair Bolsonaro orgulhosamente preenche seus discursos? Sobre o que se fala no Congresso? Sobre um homem chamado Daniel Silveira. Alguém que, em tempos normais, seria completamente sem importância. É somente graças ao bolsonarismo que ele conseguiu se destacar no Brasil. Faz parte do bolsonarismo catapultar pessoas periféricas e muitas vezes extremamente desagradáveis para os holofotes, onde roubam nosso tempo e atenção.


Olhemos rapidamente para a ficha corrida do deputado Silveira, que costuma dizer que tem orgulho de já ter sido preso "mais de 90 vezes" pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Em abril de 2007, Silveira, que então trabalhava como cobrador de ônibus, prestou depoimento na delegacia de Polícia Civil de Petrópolis sobre o uso de atestados médicos falsos no trabalho. Em 2011, Silveira foi reprovado numa pesquisa social exigida pela Polícia Militar para o ingresso na carreira. Ele só conseguiu ser integrado em 2014, após recorrer à Justiça.

Durante sua carreira como PM, Silveira acumulou faltas injustificadas por oito meses, entre 2015 e 2016. Nos Carnavais de 2015 e 2016 estava escalado para trabalhar, mas não apareceu. Ao longo de cinco anos, nove meses e 17 dias como policial militar, contabilizou 26 dias de prisão, 54 de detenção, 14 repreensões e duas advertências.

O histórico criminal de Silveira inclui também a invasão de um colégio no Rio sob o pretexto de contestar o método de ensino e uma agressão a um jornalista por ter se sentido incomodado com suas perguntas. Silveira ganhou notoriedade em 2018, quando vandalizou uma placa com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco.

Silveira é o típico bolsonarista: barulhento, prepotente, agressivo, medíocre e sem contribuições para o bem do país. Mas o presidente se disse "orgulhoso e feliz" por ter lhe concedido um indulto depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) o condenou à prisão por ataques contra a ordem constitucional. Para Bolsonaro, Silveira é um herói, alguém que ele convida para viajar junto com ele no avião presidencial.

Bolsonaro diz que, assim, defende a liberdade de todos. Como se a liberdade fosse o direito de infringir regras e leis. Como se a liberdade não implicasse também responsabilidade. Como se todos pudessem dizer e fazer o que quisessem sem medo de enfrentar consequências. É uma ideia infantil de liberdade.

Apesar dos enormes problemas do Brasil (ver acima), a nação está agora novamente discutindo uma suposta "crise entre os Poderes". Alguém se lembra de quantas "crises entre os Poderes" já houve desde que Bolsonaro está no poder? Na verdade, trata-se do "método Trump", que Bolsonaro tem estudado diligentemente e volta e meia aplica com sucesso. É sempre o mesmo jogo. O presidente e seus adeptos nas redes sociais e na política desafiam, provocam e ameaçam o STF para distrair, confundir, dominar as manchetes e mobilizar a base radical. E a mídia joga o jogo deles. As capas dos jornais deveriam ser dedicadas todos os dias aos 19 milhões de brasileiros que passam fome atualmente – um dos maiores escândalos neste rico país. É óbvio que o governo não tem interesse em falar sobre isso. É por isso que agora se discute a suposta crise institucional.

Bolsonaro se candidatou com a promessa de fazer valer a lei no Brasil. Disse que queria acabar com a corrupção e o crime e restabelecer valores tradicionais. Na verdade, o bolsonarismo despreza valores tradicionais, a lei e regras de convivência. Sempre se acha no direito, e, como uma criança mal-educada, começa a gritar, chorar e ficar agressivo quando não consegue o que quer. A cúpula do bolsonarismo é composta por pessoas sem respeito pela lei e as instituições.

Um acontecimento recente que ilustra perfeitamente a mentalidade do bolsonarismo foi protagonizado pelo ex-ministro da Educação Milton Ribeiro. Foi a um aeroporto com uma arma carregada que não soube segurar e disparou um tiro colocando a vida de muitas pessoas em risco. Existe uma imagem melhor para a prepotência, a incompetência e o perigo que o bolsonarismo representa?

Enquanto isso, o país sofre.

Os que dizem defender a democracia já a cancelaram por 21 anos

Nada a ver com procurar pelo em cabeça de ovo. Mas há diferenças importantes nas notas distribuídas pelo Supremo Tribunal Federal e o Ministério da Defesa a respeito do encontro, ontem à tarde, entre o ministro Luiz Fux, presidente do tribunal, e o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, ministro da Defesa.

Segundo a nota do tribunal, o general “afirmou que as Forças Armadas estão comprometidas com a democracia brasileira e que os militares atuarão, no âmbito de suas competências, para que o processo eleitoral transcorra normalmente e sem incidentes”. A nota do Ministério da Defesa não fala em democracia.

O general disse que as Forças Armadas estão em “permanente estado de prontidão para o cumprimento das suas missões constitucionais”. A expressão “estado de prontidão” costuma ser usada na caserna para situações em que a tropa fica de sobreaviso, aquartelada, pronta para agir diante de algum tipo de ameaça.


Antes de reunir-se com Fux, Paulo Sérgio esteve com Bolsonaro e, depois, com os comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. Embora o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), tenha estado também com Fux e dito que não considera “que haja uma crise”, existe uma crise, sim, deflagrada por Bolsonaro.


Por 10 votos contra 1, o Supremo condenou a 8 anos e 9 meses de prisão, à perda do mandato, a pagamento de multa e à inelegibilidade o deputado Daniel Silveira (PTB-RJ), acusado de atacar o tribunal e de participar de atos hostis à democracia. Bolsonaro assinou decreto livrando Silveira da pena.

Na semana passada, o ministro Luís Roberto Barroso disse em uma palestra que as Forças Armadas estariam sendo orientadas a acicatar a democracia. Instruído por Bolsonaro, o general Paulo Sérgio rebateu a fala de Barroso dizendo que sua declaração “era irresponsável” e constituía “ofensa grave” aos militares.

A maioria dos ministros do Supremo preferiu não contestar a decisão de Bolsonaro de perdoar Silveira, mas um deles, Alexandre de Moraes, relator do caso, anunciou que o deputado está inelegível, e por ter desrespeitado a ordem de usar tornozeleira eletrônica, novamente multado, desta vez a pagar 405 mil reais.

Sob o comando de Bolsonaro, só faz avançar a manobra de intimidação do Supremo. Bolsonaro quer que os militares atuem na apuração dos votos no dia das eleições. A Constituição não prevê isso em nenhum dos seus artigos. A bancada bolsonarista no Senado exige o impeachment de ministros do Supremo.

O general que representa os militares na comissão montada pelo Tribunal Superior Eleitoral para aprimorar o processo eleitoral ocupa-se em procurar pelo em cabeça de ovo, apontando falhas que não existem nas urnas eletrônicas e duvidando das explicações técnicas que o tribunal lhe oferece. Foi escalado para isso.

Há um propósito deliberado de Bolsonaro e dos militares em lançar suspeitas sobre a segurança das eleições. Havia fraude com o voto impresso. Desde a adoção do eletrônico, não houve mais. Mesmo assim, Bolsonaro chegou ao ponto de dizer que lhe roubaram a eleição de 2018, ganha por ele no primeiro turno.

Apresentou provas de que a eleição foi roubada? Nenhuma. Mas ele não precisa de provas para dizer o que quer. Seus devotos não lhe cobram provas, só as cobram dos adversários. Os militares recusam-se a aceitar um eventual retorno de Lula ao Poder. Por mais que digam defender a democracia, desconfiam dela.

Foi em nome da defesa da democracia que eles, em 1964, patrocinaram uma ditadura que durou 21 anos.

terça-feira, 3 de maio de 2022

Pensamento do Dia

 


O pântano da política

A política não é um fim em si mesma. É um sistema-meio para administrar as necessidades do povo. Na visão aristotélica, política é missão, cabendo ao cidadão o dever ético de servir à polis.

Na contemporaneidade, transformou-se em profissão. Que propicia aos seus participantes fatiar o bolo e comê-lo quando tiver vontade. Virou uma escada para muitos subirem na vida.

A política deixou de ser um sistema que desenvolve a capacidade de responder aspirações, transformar expectativas em programas, coordenar comportamentos coletivos e recrutar para a vida pública quem deseja cumprir uma missão social.


No Brasil, infelizmente, o ideal político é uma quimera, mesmo que esteja na boca de participantes, principalmente em anos eleitorais como o que vivemos: “vamos melhorar as condições dos trabalhadores, facilitar o acesso ao crédito, qualificar a educação, equipar hospitais, dar segurança ao povo”.

Em suma, a política se tornou um dos maiores e melhores negócios da Federação. O empreendimento é a conquista de um mandato, seja como vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador ou presidente da República.

Um dos produtos é a intermediação, o caminho que usa a burocracia pública e os mandatários para políticos obterem recursos, benefícios e vantagens. Estamos no fundo do poço, ou, para usar a terminologia lembrada por Hélio Schwartsman, em seu artiguete de quarta, 27, na FSP, estamos vivendo um jogo pesado, “constitutional hardball – jogo pesado constitucional”, na expressão de Mark Tushnet, de Harvard. Uso uma metáfora: vemos a derrubada do Muro Constitucional.

Querem o exemplo mais recente do desmoronamento dos pilares do nosso edifício democrático? O perdão concedido pelo presidente a um deputado, amigo e parceiro, condenado pela Justiça e, pasmem, a escolha desse parlamentar para integrar comissões na Câmara, entre as quais, a mais importante, a CCJ, Comissão de Constituição e Justiça. Significa escolher alguém que afronta Justiça para decidir sobre leis, ou seja, sobre justiça. O cúmulo da distorção.

O negócio da política mexe com cerca de 150 milhões de consumidores, que formam o contingente eleitoral. Para chegar até eles, um candidato gasta, em média, R$ 7 reais por eleitor, quantia que pode ser cinco a seis vezes maior, se o candidato for agraciado com recursos do polpudo orçamento partidário para a gastança eleitoral. Ou se for rico. A maioria gastará bem mais que a soma dos salários em quatro anos de mandato. A questão é: se a campanha política no Brasil é tão dispendiosa e se os candidatos gastam acima do que ganham, por que se empenham tanto em assumir a espinhosa e sacrificada missão de servir ao povo?

É arriscado inferir sobre as ações e os comportamentos do nosso corpo político, sob o reconhecimento de que parcela do Congresso tem atuado de maneira nobre na defesa de seus representados. Mas sofre críticas por conta da corrupção cometida por alguns.

Outro sistema que erode os cofres públicos é a indústria do superfaturamento. As obras públicas, nas três malhas da administração (federal, estadual e municipal), geralmente são feitas com um “plus”, um dinheiro a mais. Registra-se, até, a figura de um ex-governador de um Estado do Sudeste, que era conhecido pela alcunha de “quinzão”. Parcelas dos recursos se somam às verbas da indústria do achaque e vão para os cofres das campanhas, formando o círculo vicioso responsável pelo lamaçal. Os desvios só acontecem porque nos postos chaves estão pessoas de confiança dos políticos. Resposta da charada. A malha de dirigentes abre espaços, possibilitando contratos, facilitando negócios, costurando o tapete financeiro que cobre a sala de estar da administração. O PIB informal da política é algo escandaloso, chegando a superar a imaginação de alquimistas financeiros sofisticados.

Esse é um tapete difícil de ser lavado. Contém milhões de ácaros que se alimentam das camadas de pele do corpo político. Ninguém vê, mas todos sabem que eles estão lá. Na velha cama, suja e embolorada, dormem perfis identificados com a manutenção do status quo. O ciclo é fechado: a sujeira alimenta os ácaros – agentes e intermediários – e estes suprem sua matriz alimentícia – os patrocinadores – perpetuando e multiplicando formas de corrupção.

Não é qualquer detergente que pode limpar os porões da política.

Milagres existem

A extrema direita jamais escondeu sua pulsão pela morte. Tampouco seu maior instrumento — a violência física.

Em um só exemplo, o que Putin faz contra os ucranianos.

Parte do universo religioso tem seu quinhão de inferno em seu acasalamento oportunista com o discurso direitista. De padres a pastores, principalmente, há um apadrinhamento — bênção? — ao ódio, à cizânia e inconformismo autoritário diante de seu mundo idealizado.

Papa Francisco começa a punir padres pedófilos, eliminando as “más ovelhas” de seu rebanho, mas no Brasil se invoca a figura da intolerância religiosa quando se tenta investigar os pastores do MEC.

A religião soa como um biombo para a ocultação de esqueletos. Na Rússia, o arcebispo da Igreja Ortodoxa, em nome da Virgem Maria, apoia a fratricida invasão da Ucrânia empreendida por Putin. Enxerga na luta um corpo a corpo contra a alegada decadência do Ocidente, estampada principalmente pelas paradas gays. Tá. Por isso, tudo bem matar crianças em orfanatos e idosos em asilos e doentes em hospitais... O arcebispo russo já colhe ventos contrários dos ortodoxos ucranianos e de outras regiões. “O Patriarca de Moscou não está engajado na teologia, mas simplesmente interessado em apoiar a ideologia de Estado”, atestou o arcebispo Volodymyr Melnichuk, em Udine, na Itália.


Vamos ficar mais perto. No Brasil, o discurso bozofrênico da violência encontra apoio nos pastores da situação. Adulados pelas prebendas, como isenções de impostos, não se tem notícia de que tais religiosos se oponham ao liberou geral da circulação de armas legislado pelo governo federal. Difícil imaginar que Jesus Cristo, tão lembrado nas palavras de ordem dos pastores, apoiasse o armamento indiscriminado da população. E mais. Em plena pandemia, ainda tentaram manter seus templos abertos, em busca de um rebanho doador de dízimos. Como se diz, isso seria coisa de um bom cristão?

A vingança divina veio rápida. O ministro André Mendonça, acusado de traição e cobrado pelos evangélicos por seu voto de condenação ao deputado Daniel Silveira, deu nome aos bois. “Como cristão, não creio tenha sido chamado para endossar comportamentos que incitam atos de violência contra pessoas determinadas; e [b] como jurista, a avalizar graves ameaças físicas contra quem quer que seja. Há formas e formas de se fazerem as coisas”, tuitou o ministro evangélico, que chegou ao cargo apoiado por parceiros de crença.

Mendonça, em poucos caracteres, largou Malafaia e grupo pendurados na brocha. Ao contrário de muitos pastores, deixou explícito não apoiar o instrumento da violência como ferramenta de conversão ou método de convencimento ideológico. Porque as ameaças do deputado não podem ser confundidas com defesa de tese acadêmica ou estribilho de samba. São, perdigoto sobre perdigoto, perigosas ameaças à civilização contemporânea — aquela baseada em tolerância e respeito ao semelhante.

O caminho trilhado pelo parlamentar bombado abre espaço para algo semelhante à defesa da invasão russa na Ucrânia (não é que ela é apoiada pelos bozominions?) ou a uma repetição da Inquisição Católica em sua perseguição aos dissidentes do credo. Um cheiro de morte surge escondido entre tais gritos de aleluia.

Pela primeira vez na Era Bozofrênica, se escuta um apelo contrário à pulsão de morte ecoado de dentro do templo direitista. É cedo ainda para dizer, mas não deixa de ser uma bonança o ministro evangélico votar contra o incentivo à violência física (não é figura de retórica: o deputado clamou que os juízes do STF fossem agredidos). Não apenas ao se posicionar na Corte, como principalmente ao se defender dos ataques dos próceres evangélicos, cujas declarações pós-julgamento colocam a ideologia acima de qualquer ensejo teológico.

É luta política com verniz religioso. Nada cristão. O deputado não traz um conteúdo revolucionário, como os sicários ou zelotes, inimigos dos domínios romanos, para ser fielmente defendido pelos políticos da bancada evangélica.

O voto e a justificativa do ministro Mendonça sugerem haver uma discordância entre as denominações terrivelmente evangélicas. Dissenso que mostra a diferença de interpretação nos instrumentos de luta — não à liberdade de violência e ao livre-arbítrio do incentivo ao ódio.

Começa a haver de fato uma demarcação de terreno entre os fiéis cristãos e os aproveitadores do templo? Nada indica que haja verdadeiramente um racha entre a extrema direita, com seu discurso de constante clivagem, e a pregação política de parte dos pastores. Mas o tuitado ataque de consciência do ministro Mendonça, que lembrou outras maneiras de “fazer as coisas”, se posiciona de maneira contundente à opção pela incivilidade pregada por Silveira e apoiada pelo pensamento miliciano.

Talvez os milagres existam.

Vivemos um profundo déficit democrático

Muitos eleitores que não querem Jair Bolsonaro nem Lula têm defendido o voto branco ou nulo nas eleições de outubro. Alegam que seria uma forma de protesto. O problema é que a legislação brasileira não considera o voto branco/nulo no cálculo eleitoral. Ou seja, na prática, é como protestar no Twitter em vez de ocupar as ruas.

É um assombro, sem dúvida. Qualquer regime democrático que se preze deveria considerar o voto nulo como voto válido e expressão máxima de insatisfação do eleitor diante da oferta precária de candidatos, entre desqualificados e criminosos em geral, incluídos genocidas e corruptos.

O fiasco dos protestos no Dia do Trabalho se espelha na pesquisa do Instituto Paraná, divulgada hoje, mostrando que 85% dos eleitores paulistas não têm candidato ao governo estadual.


Se válido fosse o voto de protesto, o eleitorado daria um rotundo ‘cai fora’ a Fernando Haddad, Márcio França, Tarcísio de Freitas, entre outros. O mesmo se daria com Lula, Bolsonaro, Ciro etc. Seria uma revolução política, sem armas. Teriam de ser convocadas novas eleições, até o surgimento de nomes palatáveis. Democracia em estado bruto.

Em artigo publicado em 2013, a analista judiciária do TSE Renata A. de Bessa Dias defendeu o aspecto político e sociológico dos votos brancos e nulos, “como um importante meio de questionamento da ordem política estabelecida no Brasil, sobretudo quando expressos em forma de protesto”.

“A não consideração desses votos para efeito de validade de determinada eleição equivale a desrespeitar o Estado democrático de direito, que tem como um dos pilares a soberania popular”, escreveu.

Ela estava e está certa. Na conclusão do seu texto, Renata lembra que o sufrágio corresponde à “significativa expressão da democracia representativa, motivo pelo qual se pressupõe que a manifestação popular consubstanciada no ato de votar em branco e nulo é legítima e merece ser reconsiderada para efeitos de mudança da atual percepção jurídica do sistema“.

Por fim, conclui que voto consciente “não significa apenas escolher um dos candidatos, senão também protestar”. “Desse modo, mesmo que o voto nulo ou em branco não tenha efeito algum – do ponto de vista legal –, o eleitor tem o direito de se recusar a escolher um candidato, independentemente do motivo, e optar por invalidar o seu voto.”

Para mudar essa realidade hoje seria necessária a aprovação de uma PEC, mas não devemos ter esperança de que o atual Congresso, comandado por Arthur Lira e Rodrigo Pacheco, se dedicará a tema tão relevante.

Sem falar que temos uma Câmara dos Deputados com apenas 5% de seus integrantes eleitos pelo voto direto. O resto ganhou o mandato via quociente eleitoral, de carona nos puxadores de voto, resultado de um sistema proporcional que só aprofunda o já abissal déficit democrático.

segunda-feira, 2 de maio de 2022

Pensamento do Dia

 


Macabra humanidade

Sofro e choro pensando no pensamento da população ucraniana, em particular os mais fracos, os idosos e as crianças, diante da terrível notícia de crianças expulsas e deportadas, enquanto assistimos a uma regressão macabra da humanidade
Papa Francisco

O pântano da política

Na contemporaneidade, transformou-se em profissão. Que propicia aos seus participantes fatiar o bolo e comê-lo quando tiver vontade. Virou uma escada para muitos subirem na vida.

A política deixou de ser um sistema que desenvolve a capacidade de responder aspirações, transformar expectativas em programas, coordenar comportamentos coletivos e recrutar para a vida pública quem deseja cumprir uma missão social.

No Brasil, infelizmente, o ideal político é uma quimera, mesmo que esteja na boca de participantes, principalmente em anos eleitorais como o que vivemos: “vamos melhorar as condições dos trabalhadores, facilitar o acesso ao crédito, qualificar a educação, equipar hospitais, dar segurança ao povo”.

Em suma, a política se tornou um dos maiores e melhores negócios da Federação. O empreendimento é a conquista de um mandato, seja como vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador ou presidente da República.

Um dos produtos é a intermediação, o caminho que usa a burocracia pública e os mandatários para políticos obterem recursos, benefícios e vantagens. Estamos no fundo do poço, ou, para usar a terminologia lembrada por Hélio Schwartsman, em seu artiguete de quarta, 27, na FSP, estamos vivendo um jogo pesado, “constitutional hardball – jogo pesado constitucional”, na expressão de Mark Tushnet, de Harvard. Uso uma metáfora: vemos a derrubada do Muro Constitucional.

Querem o exemplo mais recente do desmoronamento dos pilares do nosso edifício democrático? O perdão concedido pelo presidente a um deputado, amigo e parceiro, condenado pela Justiça e, pasmem, a escolha desse parlamentar para integrar comissões na Câmara, entre as quais, a mais importante, a CCJ, Comissão de Constituição e Justiça. Significa escolher alguém que afronta Justiça para decidir sobre leis, ou seja, sobre justiça. O cúmulo da distorção.

O negócio da política mexe com cerca de 150 milhões de consumidores, que formam o contingente eleitoral. Para chegar até eles, um candidato gasta, em média, R$ 7 reais por eleitor, quantia que pode ser cinco a seis vezes maior, se o candidato for agraciado com recursos do polpudo orçamento partidário para a gastança eleitoral. Ou se for rico. A maioria gastará bem mais que a soma dos salários em quatro anos de mandato. A questão é: se a campanha política no Brasil é tão dispendiosa e se os candidatos gastam acima do que ganham, por que se empenham tanto em assumir a espinhosa e sacrificada missão de servir ao povo?

É arriscado inferir sobre as ações e os comportamentos do nosso corpo político, sob o reconhecimento de que parcela do Congresso tem atuado de maneira nobre na defesa de seus representados. Mas sofre críticas por conta da corrupção cometida por alguns.

Outro sistema que erode os cofres públicos é a indústria do superfaturamento. As obras públicas, nas três malhas da administração (federal, estadual e municipal), geralmente são feitas com um “plus”, um dinheiro a mais. Registra-se, até, a figura de um ex-governador de um Estado do Sudeste, que era conhecido pela alcunha de “quinzão”. Parcelas dos recursos se somam às verbas da indústria do achaque e vão para os cofres das campanhas, formando o círculo vicioso responsável pelo lamaçal. Os desvios só acontecem porque nos postos chaves estão pessoas de confiança dos políticos. Resposta da charada. A malha de dirigentes abre espaços, possibilitando contratos, facilitando negócios, costurando o tapete financeiro que cobre a sala de estar da administração. O PIB informal da política é algo escandaloso, chegando a superar a imaginação de alquimistas financeiros sofisticados.

Esse é um tapete difícil de ser lavado. Contém milhões de ácaros que se alimentam das camadas de pele do corpo político. Ninguém vê, mas todos sabem que eles estão lá. Na velha cama, suja e embolorada, dormem perfis identificados com a manutenção do status quo. O ciclo é fechado: a sujeira alimenta os ácaros – agentes e intermediários – e estes suprem sua matriz alimentícia – os patrocinadores – perpetuando e multiplicando formas de corrupção.

Não é qualquer detergente que pode limpar os porões da política.

Da Internacional ao 1º de Maio, os sinais estão trocados

Quando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi fundado, em 25 de março de 1922, Astrojildo Pereira e seus oito companheiros de origem anarquista não sabiam cantar A Internacional, como registrou em seu poema Ferreira Gullar. Desde então, apenas os mais empedernidos comunistas sabem a letra do hino composto em 18 de junho de 1888 por Pierre Degeyter — um operário anarquista de origem belga, residente na cidade francesa de Lille —, com base no poema do também anarquista Eugéne Pottier, operário francês membro da Comuna de Paris.

O hino se tornou conhecido na França e se espalhou pela Europa após o congresso do Partido Operário Francês, em 1896. A ideia original de Pottier era fazer uma paródia da Marselhesa, o hino da Revolução Francesa, mas Degeyter deu-lhe vida própria. C’est la lutte finale./Groupons-nous et demain/L’Internationale/Sera le genre humain, o refrão original, na tradução portuguesa ficou assim: “Bem unidos façamos, / Nesta luta final, / Uma terra sem amos /A Internacional”.

A versão em russo serviu como hino da antiga União Soviética de 1917 a 1941, quando foi criado o hino soviético por Stalin, mas A Internacional continuou sendo o hino da maioria dos partidos comunistas. Entretanto, alguns partidos socialistas e social-democratas também haviam adotado o hino, antes do racha da II Internacional, por ocasião da Primeira Guerra Mundial. Hoje, são raros os que o mantêm.



O Partido Socialista Brasileiro (PSB) não tem absolutamente nada a ver com essa história. A legenda foi refundada em 2 de julho de 1985, por Antônio Houaiss (presidente), Marcelo Cerqueira, Roberto Amaral, Evandro Lins e Silva, Jamil Haddad, Joel Silveira, Rubem Braga e Evaristo de Moraes Filho, à frente de um grupo de estudantes e intelectuais. Reivindicaram o legado da antiga Esquerda Democrática, que deu origem ao antigo PSB, em 1947, sob liderança de João Mangabeira, Hermes Lima, Antônio Cândido, Bruno de Mendonça Lima, Paulo Emílio Sales Gomes e José da Costa Pimenta.

Não se sabe de quem foi a ideia, mas em todos os congressos recentes do PSB — que ganhou musculatura após a entrada de Miguel Arraes, então governador de Pernambuco, em 1990 —, A Internacional é executada com pompa e circunstância. Quase ninguém sabe cantar o hino. No último congresso, não foi diferente, mas o contexto era inadequado, porque as estrelas da abertura do evento, na quinta-feira passada, eram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador Geraldo Alckmin. O constrangimento de ambos era visível, sobretudo do segundo, que trocou o PSDB pelo PSB. Alguns, como Carlos Siqueira, presidente do PSB, cantaram o refrão com o punho direito erguido, quando a tradição é usar o punho esquerdo.

O estrago que A Internacional está fazendo nas redes sociais às imagens de Lula e Alckmin ainda não foi aferido, mas o meme faz a festa de ativistas bolsonaristas, com ajuda de robôs, é claro. Nada mais simbólico para corroborar a falsa tese de que Lula e Alckmin são comunistas enrustidos. A grande massa de eleitores não sabe nem do ocorrido, mas a extrema-direita tem o discurso na ponta da língua, ou do dedo, pois estamos falando de redes sociais. O PSB deu farta munição para Lula e Alckmin serem atacados pelos adversários, o que de resto já vinha acontecendo, em razão da aliança com o PT. Fatos como esse, numa campanha eleitoral radicalizada, alimentam a narrativa do bem contra o mal e da liberdade contra o comunismo, adotada pelo presidente Bolsonaro.

E o 1º de Maio? Não é comemorado apenas no Brasil. As manifestações ocorrem nas Américas, na Europa Ocidental, na Rússia, na Índia, na China e em muitos países da África. A data foi escolhida em homenagem aos trabalhadores dos Estados Unidos. Num sábado, 1º de maio de 1886, cerca de 300 mil manifestantes foram às ruas em Nova York, Chicago, Detroit e Milwaukee, entre outras cidades, para pedir a redução da carga horária máxima de trabalho para oito horas por dia. Àquela época, se trabalhava até 16 horas, seis dias na semana.

Em Chicago, os protestos duraram vários dias e foram muito reprimidos, o que resultou na morte de quatro trabalhadores e sete policiais, além de 130 pessoas feridas, em 4 de maio. Dos 2.500 manifestantes, 100 foram presos, sendo oito condenados à morte. Dois tiveram a pena convertida em prisão perpétua, um apareceu morto na cela e os sindicalistas Adolph Fischer, George Engel, Albert Parsons e August Spies foram enforcados. Em 1893, o governador John Altgeld concedeu perdão aos sobreviventes.

As manifestações convocadas por Bolsonaro, portanto, não têm nada a ver com o 1º de Maio, data em que as centrais sindicais fazem grandes festas e manifestações nas principais cidades do país. São contra o Supremo Tribunal Federal (STF) e têm jeito de provocação golpista. Mais um sinal trocado na política brasileira.

Putin cometeu um erro de cálculo grave na Ucrânia

O presidente russo, Vladimir Putin, está ficando sem tempo. Será que ele conseguirá declarar algum tipo de vitória até 9 de maio, data que marca a vitória da Rússia sobre os nazistas em 1945? Afinal, os ucranianos resistem ferozmente à agressão de Moscou, defendendo suas casas e famílias.

A Rússia, por outro lado, não está demonstrando tal determinação. O mundo tem visto repetidamente que as forças russas estão sofrendo com moral baixo e que seus soldados – alguns com apenas 18 ou 19 anos – não querem lutar nesta guerra.

Eles não estão encontrando um regime fascista na Ucrânia ou uma minoria de língua russa esperando para ser libertada. Os russos estão sendo recebidos com feroz resistência, não com flores. Na verdade, os ucranianos desfrutam de maior liberdade em casa do que os russos comuns em seu país, onde reina o medo, onde os meios de comunicação mentem e onde as autoridades reprimem todo tipo de dissidência.


O exército da Rússia falhou com Putin. Seus propagandistas precisarão sonhar algum tipo de conquista vitoriosa a tempo do desfile de 9 de maio, e então disseminar essa mentira na televisão controlada pelo Estado. Isso, infelizmente, não é novidade na Rússia. Afinal, é o país de Grigory Potemkin.

A cada dia de guerra, mais sombria é a situação do território e maior é o número de soldados mortos. Ao mesmo tempo, restaurantes, cafés e bares de Moscou estão cheios de clientes bebendo vodca e dançando. A vida continua.

E aí está de novo: a esquizofrenia coletiva que é padrão para o "homo sovieticus". Ele vive e sobrevive de mentiras, com medo do serviço secreto, com vergonha de sua própria covardia.

Muitos russos continuam a desviar os olhos hoje, tentando suprimir qualquer conhecimento de crimes cometidos em seu nome. Um dia, quando o massacre de irmãos e irmãs ucranianos não puder mais ser negado, eles alegarão que não sabiam, que não eram responsáveis, e tentarão se safar de tudo, assim como fizeram após o colapso da União Soviética em 1991.

Putin deve isolar ainda mais seu país e escalar o conflito, para sua própria sobrevivência política. Quão grande deve ser seu desespero, se ele agora recorre a ameaças de usar armas nucleares? As armas convencionais aparentemente não produziram os resultados esperados.

As ações dele também estão levando o Ocidente à independência das importações de energia russa em poucos meses, algo que nunca teria ocorrido de outra forma.

A conduta de Putin convenceu a maioria dos alemães – um povo que geralmente prefere a harmonia – a aprovar uma postura dura contra o agressor. Eles estão dispostos a fazer sacrifícios para garantir que a Ucrânia mantenha a vantagem. Parlamentares alemães relutantes em enviar armas pesadas à Ucrânia estão sob pressão. Esquerdistas do Partido Social-Democrata (PSD) e do Partido Verde deram o aval de bilhões de euros em gastos com defesa para fortalecer as próprias forças armadas alemãs.

Em poucos meses, a geralmente sonolenta Alemanha mudou de uma maneira que não ocorria há décadas. Está explorando seus talentos tradicionais: proeza organizacional, diligência e disposição para fazer sacrifícios. Outros países europeus reagiram de forma semelhante. A Finlândia e a Suécia estão considerando ingressar na Otan. E o Japão pacifista decidiu aumentar suas capacidades de defesa à luz da agressão russa. Tudo isso graças a Putin.

Ele revigorou a Otan, a qual alguns membros haviam dito sofrer de "morte cerebral". Os Estados Unidos prometeram mais de 30 bilhões de dólares para ajudar a Ucrânia a se defender. A União Europeia segue o exemplo. Graças a Putin, os livros de encomendas dos fabricantes de armas estão tão cheios quanto durante a Guerra Fria.

Ninguém está falando em uma vitória rápida contra a Rússia – pelo contrário. A Otan espera que esse confronto se arraste por muitos anos. Não se deve permitir nunca que Moscou seja tão forte novamente, capaz de travar guerra contra outras nações.

A Rússia deve ser obrigada a pagar pela reconstrução ucraniana no pós-guerra, deve ser obrigada a retirar as suas tropas da Geórgia e da Moldávia e a deixar Belarus. Durante a década de 1980, o Ocidente economicamente superior usou a corrida armamentista para levar a Rússia à falência. A história está se repetindo. Contudo, a Rússia de hoje é mais fraca do que era a União Soviética. E o Ocidente está maior, mais unido e mais poderoso do que nunca.

Como se chegou a isso? Ninguém na Rússia se atreve a contradizer Putin. Até o ditador soviético Stalin era mais esperto. O Politburo o temia, mas alguns de seus membros o avisavam quando ele estava errado.

Stalin era mais pé no chão do que Putin, preferindo dormir em uma simples cama de campo. Putin, por outro lado, desfruta de uma vida luxuosa em palácios e superiates. Stalin foi cuidadoso, enquanto Putin é um jogador. Ele não entende o mundo moderno. Dizem que ele não usa internet sozinho, nem sabe enviar e-mails.

A conduta dele mais se assemelha à do czar russo Ivan 4º, também conhecido como Ivan, o Terrível, durante a Guerra da Livônia no século 16. A Rússia perdeu essa guerra, lutando contra várias potências menores, e descendeu para o que viria a ser conhecido como o politicamente tumultuado "Smutnoye Vremya", ou Tempo de Dificuldades.

Então quanto tempo durará a guerra da Rússia na Ucrânia? Enquanto os ucranianos estiverem dispostos a defender sua pátria. E quanto ao apoio do Ocidente a Kiev, está apenas começando.