sexta-feira, 23 de julho de 2021

São todos cúmplices

Não resta espaço para dúvida de que o ministro da Defesa, general Braga Netto, mandou o recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), ameaçando caso o voto impresso não fosse aprovado.

Lira trucou a ameaça e, como o governo Jair Bolsonaro tem DNA golpista, mas é eminentemente composto de pessoas despreparadas e algo covardes, o presidente e seu general recolheram as ameaças, ao menos por ora, e o resultado foi que o PP e o Centrão avançaram algumas casas para tomar conta de tudo — se apossando de novo até de espaços dos militares.

Foi o Centrão que tirou o general Eduardo Pazuello da Saúde. Mantendo Roberto Dias, o assessor que o general e seu sub, o coronel Elcio Franco, não conseguiram demitir.

Agora é de novo um alto expoente do PP, seu presidente, Ciro Nogueira, que faz outro general pegar o quepe. Luiz Ramos, assim como Pazuello, verga a espinha e aceita ir para um ministério de menor importância.

O mesmo faz Paulo Guedes, ao bater continência para o capitão e para a ala política que já comanda a maior parte do Orçamento e aceitar perder um naco de seu “superministério” para acomodar outro demitido de luxo.


Para onde esses arranjos por baixo da mesa levam o Brasil? Para a esculhambação institucional e política a cada dia mais absoluta e para a constatação óbvia de que não temos um governo, mas uma bodega tocada à base de muita fisiologia, nenhum trabalho, zero planejamento e uma única ideia fixa: a reeleição cada vez mais difícil de alguém que nunca poderia presidir qualquer país.

Quem ameaçou, Braga Netto, e o aliado de quem foi ameaçado, Ciro Nogueira, dividirão a mesa às reuniões ministeriais como se nada tivesse acontecido. O resto das autoridades, aquelas a quem sempre cobro neste espaço, seguirão fingindo acreditar nos desmentidos frouxos, sem se dar conta de que, de bravata em bravata, vai-se corroendo a democracia a partir de dentro.

Está claro que Braga Netto não fala em nome do conjunto das Forças Armadas. Mas também resta evidente que a quantidade de golpistas que ousam dizer suas ideias em voz alta é maior hoje no meio militar que em 2018. Isso já é altamente nocivo para o ambiente político e institucional brasileiro. E nos cobrará um preço enorme.

Também é evidente que Lira, Nogueira e os demais “progressistas” — ah, as ironias das siglas partidárias — não vão com Bolsonaro para uma tentativa canhestra de invasão do Congresso, à Trump. Mas também é cristalino quanto ganharam poder e dinheiro do Orçamento, em múltiplas frentes, só para blindar o presidente e tentar ajudá-lo a se livrar da CPI da Covid e a emplacar seus nomes no Senado.

Além dos bilhões das emendas do relator, nome oficial do orçamento secreto cujo tesoureiro é Lira, agora há o fundão multiplicado. Será que Bolsonaro, agora que o PP deixou vazar a ameaça de Braga Netto e que Ciro Nogueira está de mudança para o Planalto, vai mesmo vetar a farra? Ainda mais diante da possibilidade de fusão de PSL, PP e DEM, partido que pode ser seu próprio destino numa cara campanha eleitoral no ano que vem? Difícil de acreditar nisso, hein?

Não espanta que Bolsonaro, diante desse cenário, declare seu amor filial ao Centrão. Nem mesmo surpreende que os militares, tirados por ele da caserna, comecem a demonstrar nostalgia da ditadura.

Mas chama muito a atenção o silêncio covarde dos que se diziam democratas, iam às ruas pedir o fim da corrupção — e agora se calam diante da escalada diária de mortes, ruína social e econômica e autoritarismo.

São industriais, integrantes do mercado, profissionais liberais e outros que apertaram 17 e agora não têm a coragem de admitir que elegeram o pior presidente do Brasil. São tão cúmplices quanto os fardados e o Centrão.

No Brasil, Robin Hood trabalha para os ricos

No país a que chamamos de Brasil, levou-se muito tempo, séculos, para os governantes se preocuparem minimamente com o desenvolvimento de seu próprio povo, particularmente com a maioria pobre e majoritariamente negra. No império, os negros eram proibidos de estudar. Depois da abolição da escravidão, em 1888, a proibição acabou, mas as poucas escolas construídas localizavam-se longe, muito longe, de onde viviam os negros dos grandes centros urbanos _ dificultar a mobilidade foi, aliás, um dos principais expedientes do apartheid sul-africano que tanto chocou o mundo de 1948 a 1991.


Na Ilha de Vera Cruz, o fim da escravidão como fator de acumulação de capital jamais foi aceito pelos “proprietários” de escravos. Barões do café e outros representantes das oligarquias rurais que detinham o poder econômico naquela época exigiram indenização pelo “prejuízo financeiro” imposto a eles pelo imperador Dom Pedro II. Insatisfeitos, ajudaram a acabar com a monarquia m 1889, pouco mais de um ano após a abolição, a fundar, por meio de golpe militar, uma República de araque (porque dominada por duas oligarquias de dois Estados), e a pressionar os presidentes do novo regime a importar mão-de-obra da Europa para embranquecer nossa classe trabalhadora.

Tanto ódio por outro ser humano condenou este país ao fracasso, à construção de uma sociedade profundamente injusta, desigual, racista, violenta com os mais pobres e com a maioria negra, irreconciliável. Um leitor indignado fez certa vez paralelo com os Estados Unidos para contestar a ideia de que o racismo, e não a taxa de juros, a péssima infraestrutura e o sistema tributário caótico, é o maior entrave ao desenvolvimento do Brasil. Ocorre que, nos EUA, os negros representam 12% da população; aqui, 56%, numa contagem subestimada.

Ora, se uma minoria branca e endinheirada não aceita conviver com a maioria negra e pobre, nós temos um problema, Houston. Negros americanos, descendentes como os do Brasil de africanos escravizados, lutam por direitos e igualdade desde sempre e, mesmo assim, foram submetidos a regimes de segregação racial, em alguns Estados, até a década de 1960. A segregação oficial foi banida, políticas afirmativas para tentar igualar oportunidades entre negros e brancos foram adotadas, iniciativas de compensação pelo horror sofrido durante séculos de escravidão e de segregação se tornaram realidade, mas, mesmo assim, a população negra americana continua sendo discriminada de maneira ignominiosa, talvez, pela maioria branca, em todos os setores da sociedade do país mais rico do mundo.

Aqui, a maioria da população, negra, oprimida por quase 400 anos de escravidão “oficial” e por outros 133 de discriminação dissimulada e, portanto, covarde, começou a se beneficiar de políticas afirmativas apenas neste século e restritas ao Estado.

Cotas de 10%, 20%, reservadas ao maior contingente populacional do país, são humilhantes e estão longe de resolver o problema secular que nos assola e nos impede se sermos uma nação.

As consequências do nosso péssimo começo _ não se pode falar nem em “contrato social”, afinal, como bem explica Luiz Guilherme Schymura, presidente do Ibre-FGV, não há contrato quando uma das partes é infinitamente mais beneficiada pelos recursos do Estado do que as outras _ estão aí, na paisagem urbana de nossos centros urbanos, na estagnação econômica que nos assola há 40 anos, na concentração de renda que relega 50 milhões à miséria e a mais de 100 milhões à pobreza e à falta de oportunidades para ascender e ter uma vida razoavelmente digna, na violência que tira a vida de cerca de 60 mil brasileiros todo ano, a maioria de pele negra ou parda. A Constituição de 1988 é, sem dúvida, o maior avanço que este país já teve na conformação de um arcabouço legal que nos permita começar a mudar essa paisagem. Desde então, os gastos sociais cresceram de forma significativa, mas os grandes problemas permanecem intocados.

Um deles é o domínio do orçamento público por interesses de grupos específicos, que curiosamente têm conseguido aumentar suas benesses nas últimas duas décadas, talvez, por saberem que, em algum momento, realizar-se-á em plena Brasília, localizada a mais de mil quilômetros do mar, o último baile da Ilha Fiscal (festa de gala que simbolizou o fim da monarquia, realizada no pequeno palácio, localizado na Baía da Guanabara).

"Não é segredo e tampouco exagero observar que muita gente enriqueceu no Brasil pela via da captura do Estado. Exemplos recentes incluem subsídios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), desonerações tributárias, gastos tributários e outros. Essa forma de enriquecimento constitui um verdadeiro veneno social”, escreve Arminio Fraga ex-presidente do Banco Central, em seu sucinto e ao mesmo tempo iconoclasta estudo “Estado, Desigualdade e Crescimento no Brasil”.

quinta-feira, 22 de julho de 2021

A volta dos que não partiram


A democracia brasileira é alvo de uma gravíssima ameaça, agora revelada. Ameaça armada, tentativa de amedrontar pelo terror
Renan Calheiros. senador (MDB-AL)

Militares golpistas em postos-chave têm tentado amedrontar o país

Os sinais de que um grupo de oficiais generais com ideias antidemocráticas se instalou em postos-chave no governo Bolsonaro aumentam a cada dia. É uma sequência de eventos. Só neste mês de julho houve a nota do ministro da Defesa, Braga Netto, com os comandantes militares, no dia sete, ameaçando a CPI, a entrevista do comandante da Aeronáutica, ao GLOBO, no qual o brigadeiro Carlos Almeida ameaçou claramente o Congresso e o país no dia oito. O comandante da Marinha o apoiou nas redes, no mesmo dia. E o presidente Bolsonaro, também no dia 8, afirmou que “ou vai ter eleição auditável ou não vai ter eleição”. 

É nesse contexto que é publicada nesta quinta-feira, 22, pelo "Estadão" a notícia de que o ministro Braga Netto, no mesmo dia 8, acompanhado dos comandantes militares, mandou um recado ao presidente da Câmara, Arthur Lira. "A quem interessar, diga que, se não tiver eleição auditável, não terá eleições.” Lira teria reagido indo ao próprio presidente para dizer que estaria com ele até o fim, mas que não contasse com ele nos planos de ruptura institucional. A informação das jornalistas Andreza Matais e Vera Rosa sacode o país hoje.

É claro que já preparam as notas de desmentido. O ministro Braga Neto, ao entrar agora de manhã no ministério da Defesa, disse: “é mentira, é invenção”, gritou de longe aos repórteres. Era previsível que diria isso. Mas é típico esse método: primeiro ameaçam, depois negam que o fizeram e repetem que estarão dentro das “quatro linhas da Constituição”. Hoje é o dia de falarem das quatro linhas. O problema é que esse grupo acha que está escrito nas quatro linhas que eles são o poder moderador. Não são. Como todas as instituições estão submetidos à Constituição.

Isso tudo é manobra para amedrontar o país e fazer com que as instituições recuem dando espaço para o bolsonarismo dominar inclusive as Forças Armadas. Há muitos que discordam de tudo isso dentro das Forças Armadas, mas quem está no comando foi colocado lá porque concorda com o projeto de Jair Bolsonaro que nunca foi, e jamais será, democrático. O caminho da venezuelização do Brasil fica mais claro a cada dia.

Só não entende os sinais quem desconhece a História do Brasil. Aqui houve duas longas ditaduras no século 20. A de Vargas foi garantida pelos militares, a outra foi feita pelos próprios militares que governaram o país por 21 anos rasgando a Constituição. É um caminho perigoso para as próprias Forças Armadas que deveriam conter os seus radicais que estão hoje dando o tom dos recados ameaçadores para o país. As instituições não podem subestimar os recados, os sinais, as notas, os tuítes, a tentativa de mais uma vez tutelar o poder civil no país.

O silêncio dos inocentes úteis baixou sobre os bolsonaristas de raiz

Os mais conhecidos devotos do presidente Jair Bolsonaro, aqueles donos de mandatos em Brasília e fora de lá, recolheram-se ao silêncio tão logo ficaram sabendo da troca do general Luiz Eduardo Ramos pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) na chefia da Casa Civil da presidência da República.


Nas redes sociais, entre bolsonaristas dos demais escalões, o silêncio também baixou. Deu-se por conta da perplexidade geral e, naturalmente, de falta de orientação sobre o que poderiam ou deveriam dizer, algo a ser corrigido nas próximas horas ou nos próximos dias. A orientação já está sendo elaborada.

O único devoto com mandato que se arriscou a dizer alguma coisa foi o deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS) que, à Folha de São Paulo, dissertou sobre a dinâmica da política, as condições do tempo, a necessidade que Bolsonaro tem de apoio, e sua certeza de que o Centrão não comandará o governo federal.

Os filhos do presidente também emudeceram, até mesmo Eduardo, que na convenção do PSL de 2018, quando seu pai foi lançado candidato a presidente, provocou:

“Eu queria tirar foto de cada um dos senhores aqui, para saber se em 2019, quando o couro comer pra valer, vocês vão se deixar seduzir pelo discurso do Centrão ou se vão se manter firmes e fortes com Bolsonaro”.

A declaração de Eduardo envelheceu. A dicotomia Bolsonaro-Centrão deixou de existir.

Pensamento do Dia

 


O roteirista bêbado

O enredo do governo do presidente Bolsonaro parece ter sido escrito por um roteirista bêbado que, farto de ganhar a vida com trabalhos medíocres, resolveu, no meio do caminho, ter um ataque de sincericídio e reescrever a história como ela é, e não como a encomendaram.

Quando colocou com destaque aquele que seria um dos principais ministros do governo, o general Augusto Heleno, cantando “se gritar pega Centrão, não fica um, meu irmão”, sabia que era mentira, mas engoliu. Do meio para o fim, contou a verdade, e o senador Ciro Nogueira acabou nomeado ministro-chefe da Casa Civil, o ponto nevrálgico de um governo.

O general desapareceu do mapa, talvez envergonhado pelo papel que desempenhou na campanha presidencial. A Casa Civil, aliás, já era ocupada por um general da reserva, Luiz Eduardo Ramos, que também assumiu o governo para acabar com as negociatas políticas e terminou sendo responsável por elas.

Não devia ser tão flexível quanto a relação com o Centrão exige, pois não seria desembarcado do governo sem a menor complacência por Bolsonaro. Soube pelos jornais que sairia da Casa Civil e sentiu-se “atropelado por um trem”. Mas, como “um manda, e o outro obedece”, deve se satisfazer com uma sobra qualquer no governo.

O ministro Onyx Lorenzoni, depois do vexame que passou na televisão afirmando, dramaticamente, apelando até a Deus, que o documento apresentado pelo deputado Luis Miranda era falso, também não se envergonha de pular de ministério em ministério, desde que mantenha uma aparência de poder. Mesmo que essa aparência já não resista aos fatos.

Já foi ministro da Casa Civil, ministro da Cidadania e ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Agora, recriarão o Ministério do Emprego e Previdência só para ele, uma vingança bolada pelo roteirista bêbado, que havia anunciado no início do governo que seriam apenas 15 ministérios.

Os superministros também se foram. O ex-juiz Sergio Moro, da Justiça e Segurança Pública, foi defenestrado justamente por causa do combate à corrupção que alegadamente o levou ao ministério. O czar da economia, o liberal Paulo Guedes, engole sapos imensos para permanecer no governo. Compreensivo, topa até gastar mais em ano eleitoral, para reeleger seu chefe.

O roteirista está tentando dar o troco, colocando Moro de volta à cena política como possível presidenciável, o nome da terceira via. Mas não sei se conseguirá dar ares de credibilidade a uma mudança tão drástica, que já fez com que Moro fosse considerado “suspeito” por um Supremo Tribunal Federal que muda de posição da noite para o dia e festeja a chegada de um futuro ministro, André Mendonça, que abre processos antidemocráticos contra os adversários do presidente.

A prisão em segunda instância já foi bandeira de Bolsonaro, mas agora ser contra ela virou ponto positivo para o indicado. Essas mudanças já provocaram consequências graves, como a absolvição, soltura ou anulação de vários processos envolvendo políticos apanhados na Lava-Jato, e não sei se o roteirista conseguirá revertê-las a tempo.

Um deles, Ciro Nogueira, já chegou ao topo do governo que iria prendê-lo, e o roteirista imaginou um advogado exibicionista, suposto defensor das liberdades públicas, mas que se especializou em soltar ladrões, dizendo que os vários processos a que Nogueira responde não o impedem de assumir um dos cargos mais importantes da República. Mas aí já seria imaginação demais.

Nem tanto, pois mandar um vice-presidente da República, ainda por cima general, ir a Angola para, como missão oficial, defender a Igreja Universal das acusações de corrupção naquele país é além de qualquer criatividade. Acho que o roteirista quis se vingar e agora está perdido em seu roteiro bêbado.

Até colocar o ex-presidente Lula e o atual presidente Bolsonaro criticando ao mesmo tempo, como se tivessem combinado, a possibilidade de haver uma terceira via para o eleitorado brasileiro, ele colocou. Fica tão óbvio que os dois querem a mesma coisa, um contra o outro no segundo turno, que acho que o roteirista exagerou na dose.

Quem precisa ir ao espaço?

Acompanhei os recentes passeios ao espaço sem entusiasmo. O primeiro motivo é apenas umbiguismo da minha parte. Não entendo a pressa nessa corrida quando ainda não podemos ir até a esquina sem medo de morrer de Covid.

O que mais me chamou a atenção realmente foi o momento inapropriado. Quando o mundo tem coisas urgentes, como resolver a pandemia em curso e encarar a desigualdade, que piorou justamente nos últimos anos, entrar num foguete e dar um rolê de alguns minutos parece uma versão mais sofisticada das motociatas promovidas por Jair Bolsonaro.

Ok que foi sem o mau gosto e a cafonice do bolsonarismo e, importante, sem o uso do dinheiro público do contribuinte brasileiro, mas uma demonstração de que, muitas vezes, a diferença entre meninos e homens é o preço do brinquedo. O leitor vai dizer que estou de má vontade e que deveria buscar informações sobre a importância dos programas espaciais. Tudo bem. Meu marido, ao ler este meu texto, não gostou.


Estou ciente de que, graças às explorações, temos novas tecnologias, que vão do GPS a previsões meteorológicas acuradas. Inúmeras pesquisas são conduzidas no espaço, aprendemos mais sobre asteróides e cometas, tentamos achar outro lugar para viver se as coisas desandarem de vez na Terra. E, claro, o ser humano tem o DNA de explorador.

Mas o fato é que, antes de pensar em ir ao espaço, eu queria poder abraçar as pessoas. Há anos planejo mostrar os Lençóis Maranhenses ao meu conje, um lugar tão inusitado e esplendoroso que parece outro planeta. Quero ir ao Samba do Trabalhador, um evento que não conheço, apesar de já morar há nove anos no Rio. Nunca estive em Ilha Grande... Acho que passear de foguete pode esperar. Daí o meu desdém.

Entendo que esse pulinho ao espaço pode ser mais um grande passo para a humanidade, mas por agora só gostaria de ir ao meu boteco de estimação sem usar máscara.

Guerra política na igreja da paz

São 8h da manhã de domingo, 18 de julho. Do lado de dentro da Paróquia da Paz ―uma igreja católica instalada no coração de uma ilha bolsonarista de Fortaleza―, os bancos de madeira vão sendo ocupados por pessoas vestindo camisas verde-amarelas, algumas delas com o nome do presidente Jair Bolsonaro estampado nas costas. O dress code pouco usual para uma celebração religiosa e divulgado em vários vídeos nas redes sociais tinha uma razão: mostrar a articulação de um grupo de aproximadamente 20 pessoas, formado majoritariamente por militares reformados e empresários, contra o credo progressista do padre italiano Lino Allegri, de 82 anos, que algumas vezes por mês celebra missas naquela paróquia.

Adepto da Teologia da Libertação e leal à visão de que é papel da igreja adaptar o Evangelho à realidade atual em defesa dos pobres, Allegri viu formar-se contra si uma espécie de patrulha aos seus sermões depois de fazer críticas, no início do mês, ao descaso de Bolsonaro na crise sanitária e dizer que o presidente também tem responsabilidade pelos mais de 544.000 mortos registrados no país. O grupo, apelidado pejorativamente pelos outros frequentadores de “pijamas patriotas”, achou que a missa daquele domingo seria celebrada por Allegri e compareceu em peso. Todos prontos para reagir caso ele voltasse a criticar o Governo. Do lado de fora, policiais militares vigiavam para evitar que a situação saísse do controle.


Mas Allegri não celebrou a missa na Igreja da Paz naquele dia por “orientação” de seus superiores, que argumentavam questões de segurança. O padre acatou. Já havia sido intimidado logo que acabou a missa de 4 de julho, o fatídico dia em que fez críticas à política bolsonarista frente a uma das maiores tragédias sanitárias do país. O culto transcorreu normalmente, mas após a missa um grupo de cerca de oito pessoas entrou na sacristia aos gritos. “O senhor deveria rezar pelo presidente, que é um exemplo de cristão”, ouviu. Tentou dialogar sobre o que significava ser um bom cristão, sem sucesso. “O senhor deveria voltar para a Itália. Nós não precisamos do senhor aqui”, bradou outro fiel bolsonarista, segundo fontes ouvidas pelo EL PAÍS.

Na missa do domingo seguinte, uma nota da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e outra de várias entidades foram lidas em solidariedade ao padre Lino Allegri, que não estava presente. Uma das entidades apoiadoras era o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST). Foi o suficiente para que um coronel reformado do Exército levantasse e desse gritos em protesto. “Este padre transformou o altar em um palanque político”, bradou. Acabou deixando a igreja após alguns fiéis gritarem “respeito”. O militar passou então a organizar, com outros bolsonaristas, uma presença massiva à igreja em protesto ao que considera “comunismo”. No último domingo, 18, eles comemoravam o sucesso do boicote em áudios que circulavam pelo Whatsapp. “Estava cheio de general, coronel, foram tudo de verde-amarelo. Não apareceu um dos vermelhos. Os padres pediram arrego, perdão. ʽAqui é pra rezarʼ... Já afastaram o padre lá. (...) Foi uma beleza a missa com a nossa presença”, diz um integrante do grupo. “Botamos os comunistas pra correr”, emenda no mesmo áudio. Allegri diz que cancelou uma celebração após ser aconselhado por superiores, mas espera voltar para a Igreja da Paz em breve.

“Foi uma intimidação”, define o padre italiano em entrevista ao EL PAÍS, com uma voz tão baixa quanto assertiva. “O presidente criou uma situação de antagonismo e ódio”, acrescenta ele, que teme que a situação piore com as eleições do ano que vem. Há semanas ele sofre ameaças e xingamentos pelo Whatsapp e pelas redes sociais. O vocabulário usado contra ele e o padre Oliveira Braga Rodrigues ―pároco oficial da Igreja da Paz, que passou a sofrer represálias por lhe dar espaço― é vasto: “comunista safado”, “picareta”, “imbecil”, “desagregador”, “comunista com a batina de padre” e por aí vai. Em alguns áudios, militantes bolsonaristas afirmam que a polícia destacada pelo governador petista Camilo Santana “será pouca” para o que preparam, sem dar detalhes. Santana mandou instaurar um inquérito para apurar as ameaças à segurança do padre.

“A tolerância precisa ser recíproca, mas eles não querem dialogar. Me chamam de comunista e esquerdista. Essas palavras não me ofendem”, diz Allegri. Ele não minimiza a gravidade da intolerância política que nos últimos anos vem ganhando mais espaço nas igrejas. Instado pela Defensoria Pública, aceitou se inscrever no programa estadual de proteção aos defensores de direitos humanos por precaução. Mesmo assim, o padre diz que ainda não perdeu o sono pela patrulha dos autointitulados patriotas.

A trajetória de mais de meio século no sacerdócio ajuda a entender a postura do italiano. Filho de operários, Lino Allegri foi ordenado padre na Itália em 1965. Tentou atuar em seu país como padre-operário, um missionário que atua em ambientes de trabalhadores, mas recebeu negativa de seus superiores na igreja. “Naquele tempo eu era bastante obediente”, ri. Poucos anos depois, na década de 1970, conseguiu ser enviado ao Brasil. Movido por uma forma diferente de viver a religião e ancorado nos resultados do Concílio Vaticano II ―uma série de conferências realizadas entre 1962 e 1965 para modernizar o catolicismo―, Allegri queria mergulhar na vertente da igreja latinoamericana cuja missão extrapola os muros dos templos, pois parte da premissa de que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres.

Chegou ao país em plena ditadura militar, durante o duro Governo Médici (1969-1974), quando padres considerados subversivos eram presos e reprimidos. Mesmo assim, sempre direcionou sua atuação religiosa para além das paredes da igreja. Trabalhou na Paraíba com comunidades de base, braço da igreja que atua em locais mais pobres. Depois, já no interior da Bahia, viu-se no centro das ameaças de grileiros e fazendeiros a agricultores que lutavam pelo direito à terra. Recebia tantas ameaças de morte ao apoiar os mais pobres que precisou buscar o Ministério da Justiça por proteção. “Eu sabia que não era brincadeira”, diz.

Somente nos anos 1990, Allegri seguiu em missão para Fortaleza, onde abraçou trabalhos sociais especialmente nas comunidades carentes, com apoio a menores em vulnerabilidade e à população em situação de rua. Coordena atualmente a Pastoral do Povo da Rua e, já aposentado, tornou-se também padre auxiliar da Paróquia da Paz, onde faz celebrações pontuais e agendadas a cada início do mês. Seu interesse é trabalhar nas “ilhas de pobreza” como as comunidades das Quadras e Trilhos do Senhor, que resistem na “área nobre” da capital cearense. “Não queria ser pároco nem vigário. Sempre trabalhei nas pastorais sociais”, conta.

Seu perfil progressista, porém, pode soar como um contraste ao perfil conservador e elitista da comunidade que cerca aquela igreja, localizada no bairro de maior IDH (índice de desenvolvimento humano) e com um dos mais caros metros quadrados de Fortaleza, o Meireles. A Igreja da Paz também está a poucos metros do maior palco da direita e da ultradireita fortalezense: a Praça Portugal. É lá que bolsonaristas costumam se reunir para protestar. Já houve manifestações em favor do presidente, contra o Supremo e o Congresso e até em prol da ditadura militar. Curiosamente, o bairro da igreja está na 3ª Zona Eleitoral, a única da capital cearense em que Bolsonaro venceu no primeiro turno das eleições de 2018, desbancando até mesmo o então candidato local, Ciro Gomes.

Padre Lino Allegri conta que, especialmente nos últimos anos, vinha percebendo que parte das pessoas que frequentam aquela paróquia não estava afinada às suas pregações, mas sempre considerou normal que nem todos concordassem com ele. “O jeito que falo e o que prego é igual para ricos e para pobres. O que eu faço é juntar a palavra de Deus com a vida das pessoas. Me sinto mais confortável nas comunidades, mas não agrado a todos lá. Haver discordâncias é normal, mas chegar a este ponto é uma violência e um desrespeito”, afirma.

Ele diz que acredita na igreja que exalta um Evangelho “pé no chão” e que não se fecha apenas às celebrações e ao culto a Deus. Seu papel, aponta, é também trazer reflexões sobre os ensinamentos de Jesus Cristo. “Quando há injustiça social, a gente toma uma posição”, defende. É por isso que, em uma de suas missas, trouxe à tona o assassinato da travesti Dandara dos Santos, linchada por ao menos dez pessoas no Ceará em 2017. “Vocês acham que Deus estava com Dandara ou com os homofóbicos?”, questionou aos fiéis. E deu sua própria visão: “Eu tenho certeza que Deus estava com a Dandara”.
“Há assuntos que não se pode tocar na igreja”

Allegri conta que reações a comentários como este no sermão tornaram-se mais enérgicas nos últimos dois anos, durante o Governo Bolsonaro. O presidente coleciona uma série de declarações machistas, racistas e de ódio a minorias que, nas palavras dele, devem “se curvar às maiorias” ou serão “esmagadas”. “Não quero um Deus como o dele [Bolsonaro] acima de todos. Quero seguir o que Jesus Cristo nos ensinou. Se for para ter um Deus como o dele, prefiro ser ateu. Bolsonaro contraria tudo o que Jesus nos ensinou”, declara o padre, em alusão ao lema bolsonarista “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”. Vários ativistas sociais alertam, desde o início do mandato, que as declarações controversas do presidente têm potencial em estimular a cultura do ódio. “Há assuntos que não se pode tocar. Não se pode usar a palavra pobre na igreja. A Teologia da Libertação é como se fosse o capeta. E eu tenho orgulho de ser da Teologia da Libertação”, segue Allegri, referindo-se à corrente teológica cristã latinoamericana.

Allegri prepara seus sermões com antecedência e, várias vezes, usa o ministério contra a homofobia, o racismo, a intolerância. Não costuma falar em candidatos a cargos públicos ou pedir votos. “Acho que eles têm o direito de votar em Bolsonaro. Vivemos em um Estado Democrático de Direito”, lembra. “Mas o respeito e a tolerância têm que ser recíprocos”, reforça ele. O padre toma muito cuidado ao falar sobre que tipo de política acredita caber dentro dos templos religiosos. “Não sei se essa palavra política é a mais adequada porque as pessoas entendem equivocadamente”, pondera. “A política que cabe na igreja é no sentido amplo, é a do bem comum. É a do Evangelho com os pés no chão. Não acredito que a religião seja apenas um culto a Deus, mas é aquela que deixa as pessoas mais humanas.'

“A fala de padre Lino na Igreja da Paz é como se fosse um corinthiano no meio da torcida do Palmeiras que gritou: Vai Corinthians!”, compara, com alguma dose de humor, o articulador paroquial da Igreja da Paz, Mário Fonseca. “É um público majoritariamente de classe média alta, politicamente ultraconservador e religiosamente pentecostal”, define. O episódio com o Padre Lino Allegri, analisa, não está restrito apenas à intolerância política, mas também ao embate de duas vertentes antagônicas da igreja: uma mais tradicional e focada nas celebrações dentro dos templos (pentecostal); e outra mais alinhada a um modelo defendido pelo Papa Francisco e pelo Movimento Igreja Em Saída, que pressupõe uma atuação fora dos templos e junto às comunidades.

O cientista político Ricardo Moura, que integra a Rede de Observatórios da Segurança e tem acompanhado as mensagens de ódio contra padres nas redes sociais, afirma que há um acirramento no discurso de confrontamento ideológico no país, e a igreja não está isenta de repercutir internamente este tipo de discurso. Os casos de hostilidade a religiosos de perfil mais progressista são vários. Também no Ceará, o frei Lorrane Clementino, da Ordem dos Frades Menores, vem sofrendo ataques pessoais e ameaças de morte por defender a população LGBTQIA+. Moura avalia que esses casos são ainda isolados e estão distantes de lideranças da política tradicional, mas têm potencial de repercutir em 2022.

“São padres que vivenciaram a ditadura, passaram por áreas bastante vulneráveis da cidade na luta por direitos básicos. Quando esta trajetória chega na atual fase, já octogenários, tendo que pedir proteção governamental para que possam exercer seu ministério, é um fato que preocupa. É um ponto de virada na degradação do nosso tecido social importante″, diz. O próprio Lino Allegri vê a hostilidade como um ensaio para as próximas eleições. “É um sinal do que virá no próximo ano, um acirramento violento”, prevê. “As religiões todas deveriam ajudar as pessoas a serem mais humanas.”

Propina e latrina são só rimas podres de vacina

“Geralmente, quando se fala em propina, é pelado e dentro da piscina”, disse o presidente Jair Bolsonaro à porta do hospital Vila Nova Star, em São Paulo, após passar quatro dias de folga, desfilando sem máscara pelos corredores, invadindo sem licença a intimidade de pacientes. E recebendo visitas da mulher, Michelle, e do maquiador dela. Como de hábito, é mentira: não há relação histórica ou factual entre corrupção, nudez e água.

A frase só se justifica pela rima, que não é rica nem pobre, mas podre, como a natureza escatológica das falcatruas. Contém a patranha de outras dez lorotas que lhe sucederam e lógica similar à frase em que o ignorante (de parca inteligência) e ignorantista (quem nega o óbvio) a apoiou: “Se eu estivesse na Saúde, eu teria apertado a mão daqueles caras todos. Ao receber (os representantes) ... ele não estava sentado à mesa. Geralmente, teria uma fotografia dele sentado à mesa e negociando. E se fosse propina, (Pazuello) não daria entrevista, meu Deus do céu, não faria aquele vídeo”. Em geral, feio não é roubar, é ser flagrado.


De fato, ninguém tomaria conhecimento da bandalheira encenada no Ministério da Saúde, em plena vigência de gemelares desgoverno Bolsonaro e pandemia da covid-19, se não houvesse a comissão parlamentar de inquérito do Senado para investigá-la. Depoimentos nela tomados revelaram que delongas nas transações com laboratórios na compra de vacina esclarecem que nunca houve razão ideológica (negacionismo) para isso, mas acertos com picaretas ralé vendendo doses inexistentes de imunizantes (negocionismo) sem o “atrapalho no trabalho” (apud John Lennon) do compliance. Dois bandos recebiam, sob a chefia do intendente incompetente Eduardo Pazuello, atravessadores com reconhecida experiência em negociar com governos e não entregar a mercadoria. Segundo os primeiros depoentes da CPI, o QG de um era a sala do secretário executivo, coronel da reserva do Exército Elcio Franco. Outro se subordinaria ao civil Roberto Dias, egresso do Paraná.

O primeiro compliance zero a oferecer doses com sobrepreço atraente, Francisco Emerson Domiciano, mora em Brasília, “paraíso dos lobistas, dos espertalhões”, segundo Bolsonaro. Mas também tem endereços em São Paulo. Sua empresa Global tinha vendido remédios caríssimos para doenças raras ao Distrito Federal, à época em que o paranaense Ricardo Barros foi ministro da Saúde, no governo Temer. Nunca entregou o que vendeu, nunca devolveu o que recebeu. O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, atestou sua “lisura”, por nunca ter sido condenado. O primogênito da famiglia presidencial, Flávio, levou-o ao presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Gustavo Montezano, para apresentar um projeto de banda larga para o Nordeste, uma “boa ideia” de uma de suas 13 empresas, a Xis Internet Fibra. Flávio mudou-se do Rio para Brasília em 2019. A Precisa Medicamentos intermediou compra de 20 milhões de doses de AstraZeneca, parceira da Fiocruz, por R$ 1,67 bilhão. A verba foi empenhada, o contrato foi suspenso e só agora cancelado. E o laboratório britânico desconhece qualquer entrega de tal vulto. A famiglia em primeiro lugar.

Depois da famiglia, Cristo, conexão entre o clã e o reverendo Amilton Gomes de Paula, presidente do Serviço Nacional de Assuntos Humanitários (Senah, antes Senar, de religiosos). A venda sem compliance foi muito mais volumosa (e, claro, mais vantajosa): 400 milhões de doses. O atravessador é o mais distante dos lobistas de Brasília: Herman Cardenas, dono da Davati, loja de material de construção, e de um escritório de negócios imobiliários, no Texas, EUA. Seu representante no Brasil, Cristiano Carvalho, mora em São Paulo, mas mostrou adestramento nos costumes dos “lobistas” de Bolsonaro: para ele, não existiu corrupção, mas “comissionamento”. Foi nesse negócio que o cabo PM-MG Luiz Paulo Dominguetti acusou Dias de ter cobrado um centavo de dólar de “comissão” por dose de AstraZeneca, de fornecimento “garantido” por um médico amigo do texano da origem do “rolo”.

A World Brands Distribuição, cujos representantes estrelam o vídeo com Pazuello, é de Jaime José Tomaseli, um dos três condenados pela Justiça Federal de Itajaí (SC), a milhares de quilômetros da capital federal, em 2014, por participar de conluio que fraudou documentos de importação de produtos.

O parco espaço destinado a este artigo não comporta a lista dos oficiais da ativa e da reserva das Forças Armadas envolvidos nas negociações tenebrosas que explicam parte considerável dos mais de 540 mil óbitos por covid-19 que teria sido evitada com o uso de imunizantes de laboratórios com compliance: Fiocruz, Butantan, AstraZeneca, Sinovac, Pfizer, Moderna e Johnson.

A diferença dos recentes “lobistas” em relação aos antigos é o ponto comum dos novos: o bolsonarismo de raiz pôs em contato o cabo PM de Minas na ativa e em horário de expediente, Dominguetti, e o “terrivelmente evangélico” Amilton sem agá. O resto é papo de latrina, outra rima podre de propina.

quarta-feira, 21 de julho de 2021

Pensamento do Dia

 


Bom Dia, Coreia do Norte: A TV Brasil nas mãos do bolsonarismo

A TV Brasil foi criada com a promessa de se tornar uma BBC brasileira. Nunca chegou perto disso — e agora virou um arremedo da emissora estatal da Coreia do Norte.

O canal prepara o lançamento de um telejornal só com “boas notícias”. O programa convidará o telespectador a passear num país imaginário, onde não existe fome, pandemia, inflação ou desemprego.

A nova atração ainda não foi ao ar, mas a TV Brasil já opera como um veículo de propaganda do bolsonarismo. Até o Sem Censura, herança da antiga TVE, foi rebaixado à categoria de programa chapa-branca. Deixou de promover debates para amplificar as vozes do regime.

Na segunda-feira, o canal promoveu mais um espetáculo de governismo. Anunciou uma “entrevista exclusiva” com Bolsonaro, mas transmitiu uma peça de campanha paga com dinheiro dos impostos.


Se havia alguma dúvida sobre o programa, ela desapareceu logo na segunda “pergunta”. A apresentadora exaltou as viagens do presidente e emendou: “Eu queria que o senhor falasse um pouco desse contato direto com a população...”.

Bolsonaro teve 35 minutos para fazer proselitismo em rede nacional. Prometeu aumentar o Bolsa Família, asfaltar estradas, distribuir terras e levar internet aos pobres. Ele também usou o palanque eletrônico para mentir sobre a Covid. “A vacina tem dado mostras de que ela não te protege”, disse. Todos os imunizantes aplicados no país foram aprovados pela Anvisa, que atestou sua segurança e eficácia.

Em outra passagem, o presidente voltou a destilar preconceito contra povos indígenas. “Tem índio que quando você conversa ele já está tão evoluído quanto um de nós”, afirmou. Os índios não foram procurados para se defender da comparação.

Numa frase, Bolsonaro escancarou que vê o canal público como instrumento de promoção pessoal: “Eu podia falar todo dia aqui”. No fim da “entrevista”, foi encorajado a deixar “um recado para o pessoal da Amazônia”. Falou sem interrupções durante 14 minutos, uma eternidade para os padrões televisivos.

O capitão ficou tão à vontade que convidou os telespectadores para sua próxima “motociata”. Se assistisse à TV Brasil, o camarada Kim Jong-un morreria de inveja.

Quem mandou patrocinar?

Uma parte dessa classe (política) tem-nos enxergado como peões — sacrificáveis — no tabuleiro de um jogo de interesses. Não o somos! Sempre estivemos prontos para participar do processo de construção do país, desde que nossos movimentos se alinhassem com o regramento constitucional
Otávio do Rêgo Barros, general da reserva  ex-porta-voz da Presidência

No altar da politicagem

O vice-presidente Hamilton Mourão foi a Angola para participar da reunião da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, mas, “por orientação do presidente” Jair Bolsonaro, aproveitou a viagem para tentar intervir num escândalo envolvendo a Igreja Universal do Reino de Deus. Ou seja, usou recursos públicos e sua posição institucional de Estado para cuidar de assuntos exclusivamente privados. Tudo isso a mando do chefe do Executivo.

E não foram assuntos quaisquer. A Universal passa por uma crise em Angola desde 2019, quando integrantes angolanos da igreja se rebelaram contra a direção brasileira da seita naquele país. Eles divulgaram um manifesto em que acusam o comando da Universal de lavagem de dinheiro, sonegação de impostos, associação criminosa e racismo. Em seguida, os angolanos tomaram parte dos templos e assumiram o controle da Universal no país.

Além disso, a TV Record, emissora ligada à Universal, foi forçada a sair do ar em Angola porque, segundo o governo, violou normas que proíbem estrangeiros no comando de TVs locais.

Como consequência do escândalo, o governo angolano começou a deportar missionários brasileiros da Universal, e corre processo na Justiça local contra os antigos comandantes da igreja em Angola.

Os problemas da Universal em Angola só dizem respeito à igreja. O máximo que o governo brasileiro deveria fazer no caso é se assegurar de que os compatriotas sejam bem tratados e que tenham toda a assistência jurídica de que necessitam – o que qualquer diplomata pode fazer.

Mas a Igreja Universal recebe do presidente Bolsonaro um tratamento vip. A iniciativa de enviar o vice-presidente Mourão para conversar com o governo angolano sobre o assunto foi apenas o mais recente de uma série de gestos de Bolsonaro para interceder em favor da Universal.

No final de 2019, o então chanceler, Ernesto Araújo, em visita a Angola, declarou que a Igreja Universal é uma “entidade extremamente importante para o Brasil”. Em julho de 2020, Bolsonaro enviou uma carta ao presidente de Angola, João Lourenço, na qual pediu “proteção” aos integrantes brasileiros da Universal no país. Em maio passado, o chanceler Carlos França convocou o embaixador de Angola, Florêncio Almeida, para pedir-lhe explicações sobre as deportações.

No mesmo mês, em encontro com a bancada evangélica no Itamaraty, o chanceler informou que intercederia junto ao governo angolano para que recebesse uma comitiva de parlamentares e de líderes da Universal.

Em junho, Bolsonaro indicou Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal e sobrinho do dono da igreja, Edir Macedo, para a Embaixada do Brasil na África do Sul, num movimento visto entre diplomatas como destinado a ajudar a igreja. Crivella ainda não pôde assumir o posto porque, como acusado de corrupção durante sua gestão como prefeito do Rio, teve seu passaporte retido.

Todo esse esforço do governo para socorrer a Universal chegou ao ápice agora com a visita do vice-presidente Mourão. Em Angola, ele declarou à agência Lusa que “essa questão da Universal aqui afeta o governo e a sociedade brasileiros, pela penetração que essa igreja tem e pela participação política que ela possui”.

Quando o governo brasileiro dá à Universal uma importância que a seita não tem, diz menos sobre as agruras da igreja do que sobre as aflições de Bolsonaro. Com a popularidade em baixa e acossado por denúncias de corrupção e de inépcia na condução do combate à pandemia, Bolsonaro tenta manter a todo custo o apoio que tem entre evangélicos.

Ou seja, nada sobre esse imbróglio tem a ver com o interesse público. Além dos negócios da Universal, estão em jogo os interesses particulares de Bolsonaro, explorados pelos “aliados” que hoje o mantêm como refém no Congresso – isto é, os partidos do Centrão, entre os quais está o Republicanos, “que representa o pessoal da Igreja Universal”, como bem disse o vice Mourão. Essa genuflexão de Bolsonaro ante a Universal mostra que o presidente não hesita em sacrificar o Estado brasileiro no altar da politicagem em troca de uma vaga promessa de salvação pessoal.

Jair Bolsonaro é Centrão; Jair Bolsonaro é Cifrão

A ida de Ciro Nogueira para o Ministério da Casa Civil e a criação do Ministério do Trabalho (esse é o nome verdadeiro da joça, não importa como a chamem), renascido de uma costela da pasta da Economia e chefiado por Onyx Lorenzoni, não é reforma ministerial, mas dique contra a abertura do processo de impeachment de Jair Bolsonaro. O Centrão vem cobrando um preço cada vez mais alto para manter o presidente no cargo, desde que estouraram os escândalos das vacinas e expoentes seus, como o próprio Ciro Nogueira, Arthur Lira e Ricardo Barros viram-se enredados nas negociações nebulosas em torno da compra de vacinas pelo Ministério da Saúde.

Além de citar Ricardo Barros, líder do governo, na conversa em que o deputado Luis Miranda e o seu irmão, Luis Ricardo, denunciaram o esquema em andamento na compra da Covaxin, o presidente da República teria citado Ciro Nogueira e Arthur Lira como supostos envolvidos na maracutaia. Isso tem um preço, e ele agora pode ser verificado com o que vem sendo chamado impropriamente de reforma ministerial.

Com Ciro Nogueira na Casa Civil e a criação de uma nova pasta na área econômica, que até então procurava (não muito) resistir à insaciabilidade do Centrão, abrem-se ainda mais as comportas para o fisiologismo que Jair Bolsonaro prometeu exterminar durante a sua campanha. O estelionato eleitoral perpetrado em 2018 fica ainda mais evidente. Para além de ceder ao fisiologismo que lhe garantirá o atual mandato, o presidente da República torna-se ainda mais refém do Centrão para tentar reeleger-se em 2022. Tudo ficará mais fácil com a Casa Civil comandada por Ciro Nogueira e o Ministério do Trabalho chefiado por Onyx Lorenzoni: as articulações com o objetivo de comprar votos por meio do assistencialismo, que é prática sistemática dessa vanguarda do atraso que domina a vida nacional, e a aquisição (o termo é perfeito) dos sindicalistas de resultados, que querem ver as suas mamatas restabelecidas, em troca de apoio político.

Jair Bolsonaro é Centrão. Jair Bolsonaro é Cifrão.

Precisamos de proteção climática, e não de turismo espacial

Eu me importo com o futuro, portanto me importo com o clima. Pertenço à vasta maioria dos cidadãos globais que, como demonstram tantas enquetes, está apreensiva com a direção para onde está indo o planeta, e entende a urgência e a natureza existencial da emergência climática iminente. As recentes inundações catastróficas na Europa Central e as temperaturas extremamente elevadas na América do Norte são apenas dois sintomas dessa ameaça.

Então, na minha família, nós fazemos algo a respeito, economizando e apertando o nosso orçamento carbônico: andamos a pé ou de bicicleta, em vez de de carro; comemos drasticamente menos carne do que a família média nos países industrializados; dispensamos aquela viagem transatlântica, mesmo querendo muito; cuidamos para não desperdiçar comida, além de compostarmos nossas sobras.

E aí, um ricaço dá uma volta pelo espaço, só para se divertir. Uma coisa incrivelmente egoísta, ou não? E que realmente desvaloriza, tanto do ponto de vista moral como material, os nossos esforços para proteger o clima.

A motivação para se agir contra a mudança climática definha quando se vê outros fazendo o que lhes dá na telha, sem atentar para as consequências. Para além dessa desmoralização, há a pegada carbônica concreta do turismo espacial.
1 hora e meia no espaço = quase 5 mil km de carro


Vejam só, eu não sou contra viagens espaciais, em princípio. Na verdade, sou até meio nerd da ficção científica, e fico super animada com as possibilidades de explorar o espaço. E sabe-se que todo turismo, mesmo na Terra, resulta em emissões de CO2. Não pretendo dizer que o turismo não deveria existir; mas o problema do turismo espacial é a proporção.

Tomemos como exemplo o voo da Virgin Galactic, de Richard Branson, em 11 de julho. A companhia afirma que as emissões carbônicas dessa volta suborbital de 160 quilômetros correspondem, mais ou menos, às de um passageiro numa viagem transatlântica de jato de ida e volta.

Segundo as informações disponíveis ao público, um voo de Londres a Nova York libera cerca de 1,24 tonelada métrica de CO2. Dito de outra maneira, uma voltinha de uma hora e meia pelo espaço foi o equivalente a dirigir 4.800 quilômetros num automóvel comum.

Se a Virgin Galactic está adicionando toda essa quilometragem de emissões carbônicas por um simples passeio para seis pessoas, isso desvaloriza os esforços de proteção ao clima – tanto do ponto de vista pessoal como da política. O problema pode se tornar especialmente agudo se o turismo espacial disparar, como tudo indica que em breve acontecerá: já foram feitas mais de 200 reservas com a Virgin Galactic, por preços que vão de 200 mil a 250 mil dólares por cabeça.

A empresa de Branson diz que atenta para a sustentabilidade ambiental – embora sem especificar o que isso envolve. Acho essa alegação muito duvidosa, sobretudo perante a pegada carbônica de seus voos.

Pelo menos bilionário Jeff Bezos, da Amazon, não tem só belas palavras para o meio ambiente: os foguetes de sua firma de viagem aeroespacial, a Blue Origin, são movidos a hidrogênio, que não emite dióxido de carbono. Mas não ignoremos o fato de que, embora possa ser produzido usando-se energia renovável, no momento o hidrogênio é gerado basicamente através da queima de – isso mesmo – combustíveis fósseis.
Uma proposta para os cowboys do espaço

É irônico: a imagem do planeta Terra visto a partir de sua órbita – uma joia de vida em meio ao vazio negro do espaço – tem a fama de inspirar o movimento ambiental contemporâneo. E agora a Blue Origin diz que sua visão é fazer o bem à Terra.

Com toda certeza foi essa a motivação para leiloar por 28 milhões de dólares uma passagem em seu voo atual a um super-rico arrematador secreto (o qual depois adiou sua participação para uma viagem futura). É para lá de irônico: eu diria que é cinismo.

Se as companhias de turismo espacial desejam realmente fazer jus às suas alegações verdes, sugiro o seguinte: para cada voo aeroespacial com turistas, que elas invistam uma quantia igual na proteção do clima. Desse modo, ricaços podem ter o barato deles, enquanto nós também tentamos consertar o clima.

O turismo espacial só deveria ser possível em troca de uma megacompensação, que garantisse um futuro nesta cintilante joia azul, verde e marrom. Afinal de contas, ela é a fonte das nossas vidas, e o único planeta capaz de nos manter.
Sonya Diehn

Brasil da fome

 


Sem pé nem cabeça

A obstrução intestinal do Capitão chama-se Luís Inácio Lula da Silva, CPI da Covid e roubalheira no Ministério da Saúde. Sucessivas pesquisas eleitorais dão vitória a Lula em 2022 e tiram o pouco equilíbrio que um dia restou a Bolsonaro. Lula acua o PR. Juntado à CPI e ao inacreditável fundo eleitoral de R$ 5,7 bilhões, aprovado pelo Congresso, semana passada.

Num país de miseráveis e desempregados, inflação em alta, não há como justificar essa grana para campanhas eleitorais. Não há desculpa. Bolsonaro quis jogar a bomba no colo do Parlamento. Ora, sua base e os filhos Eduardo e Flávio estavam de acordo e votaram a favor do fundo bilionário. Será difícil vetar sem criar nova crise política.


Cada vez mais complicada a vida do PR. Mais uma vez, desencavou a facada de 2018, desfechada durante campanha eleitoral, por um sujeito desequilibrado, em Juiz de Fora (MG). O Capitão e seus filhos cibernéticos não perderam a oportunidade da obstrução intestinal (razão alegada da internação de Bolsonaro, semana passada), para acusar a oposição.

Os Bolsonaro só convencem os seguidores, que mugiram muito na semana passada. Assombrados por Lula, apostam em Adélio Bispo de Oliveira para 2022. Misturam nos twitters PSOL (Adélio foi filiado ao partido, e daí?) e PT para tirar proveito político da facada de 2018. Naquele ano, o gesto insano de Adélio levou o Capitão para o segundo turno. Em 2022, será diferente.

Adélio agiu sozinha, diz a PF. Tem transtorno mental delirante persistente, diz a Justiça. É considerado inimputável. e está internado por tempo indeterminado em instituição psiquiátrica. Acabou aí. O resto é história da carochinha que Bolsonaro bateu e rebateu na sua discutível internação da última semana.

No dia seguinte às “fortes dores” que o levaram ao hospital das Forças Armadas, em Brasilia, e, em seguida, ao Vila Nova Star, em SP, Bolsonaro literalmente passeou pelos corredores do hospital, sem máscara, fazendo selfies e lives, expondo pacientes e profissionais ao coronavírus.

O Vila Nova Star, com seus lençóis de 400 fios, camas inteligentes, serviço de hotel de luxo, fez nada para impedir as andanças do Capitão, incluindo visitas a pacientes, sempre sem máscara. De propriedade do bilionário amigo Jorge Moll, o hospital serviu de cenário para mais um escarcéu de Bolsonaro e a facada de Adélio. Restaram dúvidas.

De mal a pior, Bolsonaro vai perdendo a razão e a eleição futura. Quase impossível uma reeleição. Duro será esperar até janeiro de 2023 para comemorarmos um novo governo com pé, cabeça e rumo.

Semipresidencialismo é um velho golpe

O tucanato, responsável pelo envenenamento do regime presidencialista brasileiro ao patrocinar o instituto da reeleição, voltou a namorar com o parlamentarismo. Chamam-no de semipresidencialismo por uma questão de pudor.

Uma experiência fracassada no século passado e rejeitada em dois plebiscitos não bastou para que um pedaço do andar de cima nacional desistisse da ideia.

Nesse namoro, juntam-se dois blocos. Num, estão os parlamentaristas sinceros; no outro, aqueles que temem uma vitória eleitoral de Lula. Em 1994, quando ele parecia ser uma ameaça, a revisão constitucional encurtou o mandato do presidente de cinco para quatro anos. Numa trapaça da História, Lula acabou beneficiado pelo dispositivo da reeleição que garantiu um segundo mandato a Fernando Henrique Cardoso e, em vez de cinco anos, acabou governando por oito, de 2003 a 2011, sem abalar as instituições ou balançar o coreto do andar de cima. Beneficiado pela mágica tucana, o PT reelegeu não só Lula, mas também Dilma Rousseff.


A ideia de que o semipresidencialismo limitaria os poderes de Jair Bolsonaro num eventual segundo mandato é golpista e pobre. É golpista porque cheira ao truque de 1961, quando foi instituído o parlamentarismo para permitir a posse do vice-presidente João Goulart. É pobre porque um Bolsonaro, uma vez reeleito, mastigaria o regime, como Goulart mastigou-o.

Os defensores do semipresidencialismo dizem que ele amenizaria as crises: em vez de cair o presidente, cairia o primeiro-ministro. Vira e mexe, apresenta-se a matriz do regime francês, criado pelo general Charles de Gaulle. Trata-se de uma falsidade histórica. O que De Gaulle fez na França foi o contrário, reciclou um parlamentarismo que ia de crise em crise, fortalecendo a figura do presidente. Ganha um fim de semana em Brasília quem souber o nome dos três últimos primeiros-ministros franceses. (Jean Castex, Édouard Philippe e Bernard Cazeneuve.)

A maior demonstração de que a proposta é apenas um truque está no fato de o ex-presidente Michel Temer defendê-la, argumentando que a praticou enquanto esteve no cargo. Ele governou olhando para o Congresso, respeitando os adversários e amortecendo crises. Se Jair Bolsonaro faz o contrário, o problema não está no regime, mas nele. Quem não quer vê-lo na cadeira poderá votar noutro candidato no ano que vem. Quem não quer ver Bolsonaro nem Lula terá tempo para achar um terceiro nome. Ciro Gomes e João Doria estão na pista.

De 1989 para cá, o regime democrático brasileiro elegeu cinco presidentes e defenestrou dois: Fernando Collor e Dilma Rousseff. Contudo Dilma 2.0 foi produzida pelo mecanismo da reeleição e pela tibieza de Lula, que não lhe pediu a vaga na chapa no pleito de 2010.

A máquina da política brasileira não rateia por causa do presidencialismo, mas pela possibilidade da reeleição. Ela transforma presidentes, governadores e prefeitos em mandatários que assumem as funções obcecados pela recondução.

Fernando Henrique Cardoso já reconheceu que, historicamente, cometeu um erro. Ele dizia não querê-la e, querendo-a, criou-a. Tanto Lula como Bolsonaro combateram a ideia da reeleição. Sentindo o quentinho da faixa, mudaram de ideia.

A pena de morte política para Bolsonaro

Nos últimos dias, quando o presidente Jair Bolsonaro foi internado com urgência por problemas intestinais, logo houve quem desejasse sua morte, lembrando que hoje ele é acusado de ser responsável por muitas vidas perdidas com sua política negacionista e desastrosa da pandemia.

É uma questão delicada e pessoal desejar a morte de um semelhante, por muitos que sejam os crimes que pesem sobre sua consciência. A pena de morte foi abolida na maior parte dos países civilizados, entre eles o Brasil, porque se considera que a vida deve prevalecer sobre a morte.

A Igreja Católica manteve a pena de morte no pequeno Estado do Vaticano até 1929. Foi abolida pelo papa Paulo VI em 1971, depois do Concílio Vaticano II, e só em 2001 foi excluída definitivamente das leis do Vaticano.

Estima-se que durante a Idade Média, principalmente durante a Inquisição, foram condenadas à morte pela Igreja 1.250 pessoas, segundo o historiador Andrea Del Col. São Tomás de Aquino, Doutor Universal da Igreja, defendia que se pudesse assassinar o tirano, pelo bem da comunidade.


Que Bolsonaro é a favor da tortura e da pena morte, é evidente para todos. Ainda hoje ele lamenta que a ditadura militar não tenha assassinado pelo menos mais 30.000 pessoas. Sua política está impregnada de destruição e morte.

Se hoje a abolição da pena de morte é considerada uma conquista civilizatória, o que não deve ser proibido é o desejo da morte política dos tiranos e ditadores que ameaçam a democracia e os valores fundamentais nos quais se baseia nossa civilização moderna. Eles devem ser condenados nas urnas, essas que o presidente tanto teme.

No Brasil, está claro que o presidente Bolsonaro atenta contra os valores da liberdade e da democracia, como bem revelou o trabalho investigativo “O método Bolsonaro: um assalto à democracia em câmera lenta”, realizado por sete jornalistas deste jornal e publicado no domingo. O estudo revela como o presidente vai minando dia a dia os fundamentos da democracia conquistada com tanto esforço após a ditadura militar.

Nestes casos em que um político coloca em perigo os valores da liberdade e ameaça todos os dias com um golpe militar, desejar sua morte política está mais do que justificado e é até um dever para aqueles que não renunciam a viver em liberdade.

O cenário montado em torno da hospitalização de Bolsonaro em São Paulo por seus problemas de soluço acabou se voltando contra ele. Ficou evidente que se destinou a fortalecer a campanha eleitoral, repetindo a instrumentalização feita com o atentado contra ele durante a campanha que o levou a poder em 2018. Desta vez, a campanha de mau gosto foi um tiro no pé, porque não só não despertou um movimento de compaixão, como também foi objeto de zombarias e piadas de todos os tons.

Segundo as primeiras sondagens, essa instrumentalização serviu, na verdade, para piorar seu declínio político. As redes sociais se divertiram muito produzindo memes e comentários jocosos sobre a montagem armada no hospital de luxo que o acolheu. Houve até comentários sangrentos lembrando que o presidente não só não se comoveu durante a pandemia que já ceifou mais de meio milhão de vidas, como também chegou a imitar o estertor dos doentes que estavam morrendo asfixiados em Manaus por falta de oxigênio, enquanto hoje está sendo descoberta uma suposta rede de corrupção dentro do Ministério da Saúde, à custa dos falecidos.

Desta vez, esse cenário no hospital de luxo de São Paulo foi visto e vivido pela maioria das pessoas mais como um espetáculo de marketing eleitoral do que com compaixão. Nem a entrevista que o presidente concedeu no hospital a uma TV amiga emocionou, obtendo pouca audiência.

Se sua operação após o atentado sofrido durante a campanha presidencial chegou a comover muitas pessoas, que acabaram votando nele por compaixão, e até o transformou em mito, desta vez o espetáculo, além de não convencer, foi objeto de comédia.

Aqueles que aconselham o presidente a fazer esses shows com suas doenças para despertar compaixão e empatia se equivocaram desta vez. Se o objetivo era criar uma vitimização para recuperar o consenso que está se perdendo, eles se enganaram. E o problema é que a partir de agora esse tipo de marketing eleitoral que apela para os sentimentos de compaixão das pessoas começou a se desfazer.

Hoje Bolsonaro é acusado até de genocídio por seu comportamento na pandemia. O presidente ou quem o aconselha poderia ter entendido que transformar seus ataques de soluço em moeda eleitoral, movendo sentimentos de compaixão, poderia se tornar um bumerangue contra ele.

O que fizeram, efetivamente, foi transformar seu mal-estar em chacota. Todos sabemos que a publicidade é hoje a alma do comércio, e até na política os bons marqueteiros são pagos a preço de ouro. Mas quando se tenta fazer essa publicidade explorando a dor e o sofrimento, ela acaba sendo contraproducente.

As pessoas, até as mais simples e sem cultura, podem ser enganadas uma vez, mas não duas. Essa publicidade fracassada das dores abdominais do presidente demonstraram isso. Que seus conselheiros publicitários estejam atentos, sejam seus filhos ou profissionais, porque as pessoas são mais inteligente do que imaginamos e sabem distinguir muito bem um drama verdadeiro de uma pura manobra para tentar ressuscitar o consenso político perdido.

Os brasileiros que sofreram e continuam sofrendo na pandemia as perdas de seus entes queridos dificilmente poderiam, neste momento, comover-se e chorar por ver o presidente padecer uma dor intestinal. E, como se sabe, quando a opinião pública se vê enganada e ludibriada uma vez, é difícil recuperar a confiança perdida.

As próximas manifestações nacionais marcadas para sábado poderão ser um termômetro para medir se roda essa montagem publicitária em torno da nova doença do presidente, que ele disse e repetiu até o cansaço que era consequência da facada recebida de um suposto “filiado ao PSOL, braço esquerdo do PT”, serviu para aumentar ou diminuir o já clássico “Fora Bolsonaro”, que equivale a lhe desejar a pena de morte “política” para que o Brasil possa recuperar sua normalidade democrática, cada dia mais ameaçada por um presidente que insiste em aparecer como um mito e um messias enviado por Deus.

Os mitos, porém, acabam, as mentiras são descobertas, os valores triunfam no final sobre as farsas, e os instintos de vida e anseios de liberdade acabam prevalecendo, cedo ou tarde, contra as fúrias assassinas dos tiranos.

terça-feira, 20 de julho de 2021

Supersalários e Fundo Partidário

Os supersalários mensais de todo o funcionalismo foram enquadrados ao limite constitucional de R$ 39.200,00. A Câmara aprovou na terça, dia 14, barreira extinguindo quase todos os artifícios usados para ferir a Constituição e receber salários de 50, 70, 100 mil reais por mês. Economia de alguns bilhões de reais com o fim do privilégio, escandaloso e ilegal.


Depois da terça veio a quinta, dia 16, e o Congresso triplicou os recursos para a campanha eleitoral de 2022. De R$ 2 bilhões em 2020 para R$ 5,7 bilhões ano que vem. Os políticos e os parlamentares conhecem as imensas oportunidades abertas pela era digital para o acesso aos cidadãos a custo praticamente zero, caso queiram divulgar seus nomes e suas ideias.

Para que, então, tantos bilhões? Vão monetizar votos? Não mais acreditam no poder das ideias, da sintonia com os anseios da população? Eleição virou balcão? Porque não destinar a economia com os supersalários para os milhões de brasileiros sem nenhuma renda?

São terríveis as notícias sobre o empobrecimento dos brasileiros. Poder de compra da metade da população vai cair 17% este ano. Nesta semana o jornal Valor publicou que 4 em cada 10 pobres são adolescentes e crianças: 20,8 milhões de pessoas. 6,1 milhões são crianças de zero a 5 anos.

Esse contingente de brasileiros enfrenta restrições que vão comprometer suas oportunidades no futuro. O custo para erradicar a pobreza infantil no Brasil é calculado em 50 bilhões por ano. O de queimar outra geração, como estamos fazendo, é incalculável.

O circo e a Justiça

Sempre que surge um novo processo judicial, habituamo-nos a ouvir e a ler que chegou o tempo da Justiça e que, portanto, todos os outros tempos – o da política, o da economia e até o dos interesses nem sempre confessos – devem ser congelados. O silêncio, costuma dizer-se nesses momentos, é crucial para deixar a Justiça funcionar. No entanto, é capaz de já ter chegado a altura de aceitar que a Justiça não tem um só tempo. Por aquilo a que temos assistido, com alguma frequência, será melhor passarmos a considerar que a Justiça em Portugal tem dois tempos: primeiro o do circo e só depois o da Justiça.


O tempo do circo é aquele em que nos tentam passar a ideia de que a Justiça é rápida, eficaz e implacável. É aquele em que acordamos a saber que um conjunto de buscas milimetricamente organizadas conseguiu desmantelar uma cadeia de movimentos suspeitos e que, por isso, a detenção de uns quantos figurões é, naturalmente, o desfecho normal desse processo. É o momento em que o cidadão comum sente que a Justiça está, de facto, a cumprir o seu papel e a ir atrás dos poderosos – aqueles que pareciam viver em clima de impunidade, protegidos por forças ocultas. Essa perceção é alicerçada, quase sempre, em pormenores que se vão libertando da investigação criminal: esquemas “ardilosos”, conversas em código, relações de causa-efeito que ajudam a construir uma narrativa que faz todo o sentido e que, pelos factos expostos, merece ser punida. Nos casos com figuras mais mediáticas, tudo isso é acompanhado por detenções para interrogatório através de justificações muito duvidosas, mas que ajudam ao circo: permitem, por exemplo, que os detidos sejam depois obrigados a deslocarem-se da esquadra ao tribunal, com escolta policial e a cruzar a cidade, ignorando as regras de trânsito, numa emergência despropositada, mas que faz o gáudio dos diretos televisivos – em especial quando já não há o autocarro da Seleção para acompanhar da mesma forma.

Depois temos, então, o tempo da Justiça. Aquele em que já não são as narrativas que contam, mas apenas as provas recolhidas durante as investigações, as buscas e os interrogatórios. E as conclusões do tempo da Justiça nem sempre são coincidentes com as do tempo do circo. No caso dos Vistos Gold, por exemplo, as provas, na era do circo, eram “arrasadoras” acerca do “lamaçal” existente no SEF – de acordo com o que se lia no texto da acusação. Depois, o ex-ministro Miguel Macedo foi absolvido pelo tribunal. Algo semelhante ocorreu no caso Tancos: há poucos dias, em tribunal, o próprio Ministério Púbico pediu a absolvição do também ex-ministro Azeredo Lopes, por não ter, afinal, provas concludentes para o acusar.

O tempo do circo tem sido, isso sim, terreno fértil para lançar acusações sobre o “regime”, alegadamente podre, em que vivemos. A narrativa não é despropositada, convenhamos – mas raramente tem sido sustentada em provas. Deixemos, portanto, o circo e concentremo-nos na Justiça – e no seu tempo.