segunda-feira, 7 de junho de 2021

Socorro!

No dia 13 de maio de 2021, a urna eletrônica fez bodas de prata. Completou 25 anos de casada com as eleições brasileiras. Esse casamento, celebrado nas eleições municipais de 1996, rendeu bons frutos.

Com o passar do tempo, os componentes de software e hardware foram aprimorados, em nenhuma eleição aconteceu qualquer indício de fraude, a confiabilidade na coleta e apuração dos votos aumentou, e a agilidade no anúncio dos resultados cresceu. Provando assim que o sistema digital é superior ao sistema impresso.

Estranhamente, nos últimos tempos, o governo federal iniciou uma forte campanha pelo retorno do voto impresso.

Os especialistas em política dizem que essa campanha acontece porque os votos no papel, depositados nas primitivas urnas de madeira, permitem contestar os resultados, alegando fraudes, como fez nas últimas eleições americanas Donald Trump, ídolo do presidente Jair Bolsonaro.

Alguns presidentes de partidos, como Carlos Lupi, do PDT, e Carlos Siqueira, do PSB, aderiram a essa campanha. E a deputada federal governista Bia Kicis (PSL-DF) contratou duas empresas, pagas com dinheiro público, para a missão de provar imperfeições nas urnas digitais.


Tomara que essa postura retrô não se concretize, mas, se ela ocorrer, dá pra imaginar uma porção de outros retrocessos que os políticos brasileiros poderiam tentar promover nos próximos tempos.

O ministro das Comunicações, Fábio Faria, poderia propor a proibição dos iPhones e a volta dos telefones pretos dentro das casas e nos estabelecimentos comerciais, assim como a instalação de alguns orelhões nas ruas.

A ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, poderia propor a volta do vestido tubinho, coisa que a ex-bolsonarista e atual opositora Joice Hasselmann contestaria imediatamente por ser adepta do tomara que caia. E que caia já.

Ainda sobre a ministra Damares, que tempos atrás cogitou proibir o sexo entre os jovens, neste momento e aproveitando a possibilidade de volta ao passado, ela poderia proibir a pílula anticoncepcional, criada por John Rock e Gregory Pincus, em 1960.

O refrigerante Grapette, estrondoso fracasso de vendas, lançado no Brasil pela Anderson Clayton & Co, em 1961, poderia voltar ao mercado a partir de agora, mas obviamente não recomendado nas escolas pelo ministro da Educação, Milton Ribeiro, porque “quem bebe Grapette repete”.

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes, poderia criar condições privilegiadas para a Ford Motor Company voltar ao Brasil, desde que a empresa se comprometesse a relançar o Corcel cor de mel, e esse mesmo ministro poderia sugerir também o relançamento da Vemaguet e ajudar na ressurreição da Fábrica Nacional de Motores, com seus caminhões Fenemê.

Enquanto isso, o ministro da Cidadania, João Roma, poderia mandar distribuir pelo país toneladas de vidros de coalhadas, substituindo os iogurtes de frutas que a Danone francesa introduziu no Brasil a partir dos anos 1970.

Finalizando com um assunto do momento, a Covid-19 e a possibilidade de outras pandemias, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, poderia incentivar a população a hostilizar qualquer incentivador da vacinação, como foi feito com Oswaldo Cruz, em 1904, quando ele criou o programa de vacinação contra a varíola. E poderia também fingir não estar vendo as “motociatas” e passeatas nas principais capitais do país, que ocorrem sem o uso de máscaras, promovendo aglomerações e novas contaminações.

Claro que, se tudo isso acontecesse, o que restaria para a maioria dos brasileiros de bom senso seria pedir a volta do programa de rádio “Telefone pedindo bis”, do consagrado Enzo de Almeida Passos, na Rádio Bandeirantes de São Paulo.

Telefonando para lá, esses brasileiros poderiam pedir que Enzo executasse mais uma vez aquela canção dos Beatles que foi um enorme sucesso em 1965 e acabou virando nome do novo LP e do segundo filme dos quatro rapazes de Liverpool.

Help!

Bolsonaro, o gigolô da facada que poderia tê-lo matado

A história das palavras mais usadas por Jair Bolsonaro divide-se em antes e depois da pandemia. Depois, sem dúvida, a palavra mais repetida pelo presidente foi cloroquina, uma droga ineficaz contra a Covid-19 que o mandatário ainda insiste em recomendar. Tem lá suas razões para isso que um dia serão mais bem contadas.

Antes da pandemia, a palavra que mais usou foi facada, para extrair vantagens políticas do ato insano de Adélio Bispo de tentar matá-lo no dia 6 de setembro de 2018, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Embora, à época, estivesse em ascensão nas pesquisas de intenção de voto, as chances de vitória de Bolsonaro eram incertas.

Seu tempo de televisão na propaganda eleitoral era minúsculo, irrelevante, se comparado com o dos seus adversários. Não conseguira tempo maior porque os partidos se recusaram a apoiá-lo. O despreparo de Bolsonaro era abissal, como ainda é, e por isso debates entre candidatos metiam-lhe medo.

A facada impulsionou sua candidatura. Ele foi para a cabeceira das pesquisas na condição de vítima. O atentado foi atribuído a um militante de partido de esquerda. A cobertura jornalística de sua recuperação funcionou como o tempo de propaganda que ele não tinha. E Bolsonaro pôde fugir dos debates.


Explorou o próprio sofrimento antes de se eleger, depois de eleito e antes de ser empossado, depois da posse, e até que a Covid chegasse. Não perde a chance de dizer que, se não morreu, foi porque Deus não quis, para que pudesse governar o Brasil. Ancorado em Deus e na facada, espera reeleger-se ano que vem.

O homicídio que não se consumou voltou a ser lembrado, desta vez pela Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), em resposta a uma reportagem da “The Economist”, a mais importante do mundo, publicada no jornal O Estado de S. Paulo sob o título: “A década sombria do Brasil”.

A revista apresenta Bolsonaro como um líder que pretende “destruir as instituições, não reformá-las”. E diz que “a prioridade mais urgente é derrotá-lo”. A Secom postou uma série de 23 posts no Twitter para dizer que ninguém levou a reportagem da revista a sério. Imagine se tivessem levado a sério…

A maioria dos posts é um panegírico a Bolsonaro e ao governo, distorce fatos, omite verdades e bate duro na revista, afirmando que a “The Economist” enterrou “a ética jornalística” e extrapolou “os limites do debate público”. Há limites para debate público? Se os há, o governo Bolsonaro costuma respeitá-los?

Às muitas provas de que o governo não os respeita, a Secom acrescentou mais uma ao sugerir que a revista fez a apologia à morte de Bolsonaro. Em um dos post, escreveu:

“Vejam bem: não falam apenas em vencer nas urnas, superar, destituir. Falam em eliminar. Estaria o artigo fazendo uma assustadora apologia ao homicídio do presidente?”

Na versão original da reportagem, está escrito: “The most urgente priority is to vote him out”. Na versão do Estadão, a frase foi traduzida assim: “A prioridade mais urgente é eliminá-lo”. A construção correta é: “A prioridade mais urgente é derrotá-lo (no voto, nas eleições)”. Deve haver na Secom quem domine o inglês…

A Secom insistiu em outro post: “Parece que o desespero da Economist e do jornalismo militante, antidemocrático e irresponsável é para que o presidente da República seja eliminado o quanto antes, antes que ele e seu governo concluam o excelente trabalho que fazem para o bem do Brasil”.

A reação do governo a uma reportagem “que não chamou a atenção de ninguém” dá a medida do sufoco que ele vive. A pandemia não foi detida, e uma nova onda do vírus se aproxima. Falta vacina. A CPI do Senado aperta-lhe os calos. E a oposição põe o povo de novo nas ruas.

(Atenção, Secom! O “poderia tê-lo matado” que consta do título acima não é apologia ao homicídio que não passou de uma tentativa malsucedida. Convenhamos que a facada poderia, sim, ter matado Bolsonaro.)

Pensamento do Dia

 


Não é Copa, é mata-mata

A grande jogada agora, meu capitão Casemiro, é ouvir o clamor dos deuses dos estádios e, solidário na dor pelos 500 mil mortos, na luta para que essa goleada pare, dispensar a copa fúnebre em que querem meter a seleção. A pedalada, a caneta, a tabelinha. Tudo isso espera. Se Pelé disse “love, love, love”, chegou a horar de você também entrar para a História. Diga “não, não, não” a tamanha maluquice.

Restaura a sanidade à amarelinha de nossas glórias e mostra que, mais do que nunca, o gol é detalhe. Em junho de 2021, o caneco em jogo é o da sobrevivência. Parte para cima dos que querem ampliar o placar de mortes contra nossas próprias cores, pede licença ao Tite e adota a única tática possível neste momento da partida – a das boas defesas sanitárias. Craque da rodada é o que fica em casa.

Mostra, meu caro Neymar, que você cresceu, o menino já não mais te habita as idiossincrasias, e, em nome dos arquibaldos e dos geraldinos que se foram com a Covid-19, assuma de voz grossa. Não vai ter Copa. Veste as chuteiras da humildade, esfrega a máscara na cara desses cartolas assediadores de vírus e se negue ao vexame de mais um 7 a 1 dentro de casa.


O Brasil já perdeu para a pandemia seis Maracanãs lotados de torcedores e, agora, meu Gabigol, os que restaram não querem saber de levantar Copa alguma. Querem levantar os filhos no colo, os netos nos ombros, a pessoa amada no abraço e brindar de vinho a vida futura. É hora de chamar o jogo para si, Richarlison, entrar de sola na ignorância nacional que campeia fora das quatro linhas e, sob os aplausos da torcida, tirar vitorioso o time de campo. 

Perguntem ao Everton Ribeiro, que organiza o jogo no meio de campo. Num momento desses ninguém distribui passes, distribui cepas, variantes vindas de jogadores de todos os cantos do planeta. Contra esse esquema do mais terrível dos adversários, a morte, é inútil avançar os beques, recuar os halfes ou ressuscitar o WM. A única chance de vitória é vacinar em dois toques.

O Brasil tem agrupamentos notáveis, como os cientistas de Manguinhos e os ritmistas da Mangueira, mas são os 11 da seleção canarinho, com a incomparável mistura de inteligência e jogo de cintura moleque, aqueles que melhor resumem o orgulho nacional. Eu te asseguro, meu jovem Lucas Paquetá, vai ser uma redenção dos nossos horrores, uma pausa nas humilhações, se todos vocês, a pátria em chuteiras, dispensarem o bicho e em protesto abaixarem o meião diante da convocação insana. 

O jogo de futebol, com suas regras seculares, disciplinas e exaltação dos talentos, é um dos mais deliciosos simulacros do processo civilizatório da Humanidade, e definitivamente, meu zagueirão Marquinhos, não há nada de civilizado em adentrar o gramado e enfrentar uma multidão assassina de vírus com o único e notório recurso do carrinho por trás.

Já bastava, meu caro Alisson, a clássica angústia do goleiro na hora do pênalti e eis que agora constata-se que há no Brasil quem esteja jogando contra o Brasil. Neguem-se aos que negam as evidências e caiam fora da loucura de enfrentar a pandemia com passes de trivela. Uma Copa dessas não tem turno, returno ou fase classificatória. É tudo mata-mata.

Vinte e uma dicas para deter o fim do mundo

Na última segunda-feira, comecei o dia espalhando, em rede social, dicas para a semana que se iniciava. Repito-as aqui sem saber se são valiosas, ainda que, imodestamente, creia que, mil vezes repetidas, elas nos auxiliariam a deter este momento assemelhado ao fim do mundo, senão o próprio.

Divida as tarefas domésticas / Manifeste-se contra o governo / Beba, se for o caso, mas não deixe de orar / Ore, se for o caso, mas não deixe de beber / Troque uma ideia com amigos / Ouça música. Leia. Cante. Dance / Manifeste-se mais uma vez contra o governo / Tenha saudades / Procure se informar. Desconfie de tudo / Agradeça a vacina tomada / Se prepare para tomar a vacina / Não se conforme com tantas mortes / Olhe para o Jacarezinho. Cobre justiça / Olhe para as aldeias indígenas. Cobre justiça / Manifeste-se mais uma vez contra o governo / Mande uma gracinha pelo ZAP / Confronte fake news / Faça planos / Chore / Ria / Olhe bem para os lados, não esteja sozinho.


À beira da autoajuda, as dicas beliscam temas que me mobilizam e misturam aquelas claramente políticas com as apenas afetuosas. Sabendo-se que o afeto, e isso está tão claro hoje, é mais político que muito grito de guerra, minhas dicas — com destaque para “divida as tarefas domésticas” — são absolutamente políticas e absolutamente afetuosas.

Escrevi as vinte e uma ações instigado, de um lado, pelas derrotas quase diárias, representadas pelas chacinas do Jacarezinho e de muitas aldeias indígenas: dois exemplos tirados de uma lista que, no dia 29 de maio, quando os descontentes com o governo tomamos a rua (não fui, mas, como acumulo crédito em protestos e passeatas, é como tivesse ido), foi acrescida por um ataque covarde da polícia pernambucana contra a população. Daniel Campelo da Silva e Jonas Correia de França, que nem estavam no protesto, perderam parte da visão depois de levarem tiros de bala de borracha. De outro lado, o impulso veio do brilho saído das ruas cheias e inconformadas. Escrevi, portanto, a partir de um lamento e de uma esperança. Olhemos para os lados e não estejamos sozinhos — não estamos!

A extrema direita, essa cobra por muito tempo escondida e alimentada pela própria fome, voltou ao poder com o intuito único e claro de desinventar o Brasil, o Brasil cordial. Digo cordial não no sentido de ser habitado exclusiva ou majoritariamente por pessoas afáveis e sinceras, mas sim por abrigar o povo que inventou o drible e que, se não o inventou, aperfeiçoou a gambiarra. Povo que, do trauma da escravidão e agarrado à ancestralidade africana, fez surgir o samba, nossa trilha da alegria, da congratulação, “o pai do prazer” e “o filho da dor”, nas palavras de Gil e Caetano. Cordial porque age de coração.

A direita quer acabar com os atravessamentos entre o antigo (e até o conservador) e o moderno que marcam este país em permanente exercício de autoconhecimento. Vandré e sua Disparada. O Lamento Sertanejo, de Gil e Dominguinhos. Os Mutantes cantando Dois mil e um, de Rita Lee e Tom Zé. Os irmãos Pena Branca e Xavantinho, crias do Brasil Central, rural, boiadeiro, acaipirando Cio da Terra, de Milton e Chico. Bethânia levando Evidências para além do que é. Emicida absorvendo Belchior. Todas essas experiências são o resultado de diálogos entre o centro e a periferia, entre o rural e o urbano, entre o interior e as capitais, entre a costa oceânica e os sertões e as florestas, entre o negro e o branco, entre distintas gerações, portanto diálogos feitos também ou principalmente de embates. O Brasil, bem ou mal, foi se construindo a partir dessas contradições que agora querem dizer que não existem, querem proibi-las de dar norte ao país.

A direita no comando não tem um projeto neoliberal claro, nesse ponto ela enfrenta suas contendas internas, mas, não resta dúvida, tem um projeto coerente de, agarrado às batidas agendas conservadoras, impor um poder que não é civil, também não é militar, é miliciano. As milícias nasceram oferecendo, mediante pagamento e de forma chantagista, “segurança” aos desassistidos (no subúrbio carioca, na Baixada Fluminense). Aonde a lei não chegava, as milícias agiam como se zelassem por ela. Lorota. Na verdade, reescreviam as leis e encarceravam — expandindo os serviços já oferecidos, que passaram a contar com o gatonet, a venda monopólica do gás etc. — primeiro os seus protegidos e, depois, todos os moradores dos territórios sob sua influência.

É nessa esquina que estamos. Se não reagirmos, de 500 mil mortos por Covid-19, saltaremos para um milhão. A esse um milhão, acrescentaremos outro milhão de mortos por perseguição e balas perdidas. E mais não sei quantos milhões vitimados pela fome. É hora de trazer o poder para o campo civilizatório, tomá-lo de volta desse projeto de destruição. Depois, bem, depois a gente retoma as velhas questões. Uma retomada que, embora anteponha projetos distintos, quiçá incompatíveis, garanta a alternância no poder e o estabelecimento de um consenso duradouro, qual seja, o de que situação e oposição agirão sempre respeitando a democracia.

Bebendo sem deixar de orar e orando sem deixar de beber, nos concentremos na luta civilizatória e resgatemos o Brasil da mão dos facínoras.

Charlatanismo a peso de ouro


Esse negócio que a hidroxicloroquina era isso, era aquilo, negativo! Era dinheiro. Vou ser mais claro: corrupção; passando a mão; esquema; advocacia administrativa. Nós temos provas disso na CPI
Randolfe Rodrigues, senador vice-presidente da CPI da Covid-19

Do verde ao amarelo

A decisão do Exército de não punir o general Eduardo Pazuello é dessas notícias que anunciam uma época.

Já tinha escrito que saberíamos por ela se há luz no fim do túnel ou se nos espera uma longa escuridão. Infelizmente, o Exército brasileiro amarelou diante da pressão de Bolsonaro. No futuro, saberemos se amarelou por covardia ou se aderiu conscientemente a um projeto autoritário.

Isso já não importa tanto. Ele já tomou o seu lado. O que importa agora é uma leitura correta do fato e uma preparação adequada para as consequências.

Sempre me exponho à acusação de exagero, mas, com tantos golpes na trajetória, minha tendência é avisar: quanto mais preparados estivermos, melhores condições teremos de resistir.

A primeira consequência tem de ser o estreitamento de laços entre todas as forças democráticas. Como assim, se elas se preparam para disputar uma eleição com candidatos diferentes?

É preciso ser ingênuo para supor que o processo eleitoral não contenha uma armadilha. Bolsonaro já afirmou que não aceitará resultados de urnas eletrônicas. Ele é defensor de rebelião armada, chegou a falar dessa possibilidade contra as restrições sanitárias na pandemia.


Policiais militares aqui e ali já se manifestam. No Recife, cegando as pessoas; em Goiás, prendendo manifestantes; em Brasília, no discurso bolsonarista do comandante.

Com a capitulação do Exército, é necessário começar desde agora a organizar a resistência.

É preciso admitir que tanto os autoritários quanto os democratas estão numa situação delicada. É complexo articular uma resistência a um golpe, mas também é complexo aplicá-lo neste momento da história.

Biden governa os Estados Unidos, e as eleições na Alemanha abrem espaço para Annalena Baerbock , líder do PV, que pode substituir Angela Merkel. Europa e Estados Unidos se movem numa mesma direção democrática e sustentável.

Isso tem pouca importância para o grupo no poder e possivelmente também para o Exército, que continua vendo a preocupação ecológica como fruto da cobiça estrangeira.

Quem confia apenas na força das armas ignora sistematicamente essas variáveis. Entretanto o exemplo venezuelano mostra que apoio externo sem grandes movimentos internos não resolve sozinho.

Estrategicamente, será preciso articular os dois e compreender como é vulnerável uma oposição dividida.

Bolsonaro jamais escondeu sua admiração pelo trabalho de Chávez. As Forças Armadas de lá tornaram-se cúmplices pelo mesmo caminho que as daqui. A diferença é que, lá, muitos cargos ocupados por militares abrem caminho para a corrupção.

Aqui, até o momento, são apenas vantagens materiais que ampliam legalmente os salários, além das benesses do poder.

Na Venezuela, há uma estrutura partidária no controle do governo. Aqui, alguns generais articulados entre si fazem a ligação entre governo e militares e entre governo e a parte fisiológica do Congresso.

Pazuello juntou-se ao grupo com o pomposo título de secretário de assuntos estratégicos. Mas é apenas mais um general do núcleo do Planalto que, na aparência, transmitiria sensatez a Bolsonaro. Na verdade, são o Estado-Maior desse regime em gestação.

Na Venezuela, tombaram militares, congressistas, juízes, e a imprensa foi detonada por Chávez e agora Maduro.

No Brasil, ainda estão de pé a imprensa, os juízes e uma parte do Congresso. Sem um grande apoio popular, não resistem sozinhos.

De uma certa forma, discutir outra coisa que não a resistência, em termos políticos, equivale à frase da doutora Luana Araújo para a crise sanitária: “É como se estivéssemos discutindo de qual borda da Terra plana vamos pular”.

Talvez tenhamos de esperar algum tempo para bloquear esse processo de cooptacão de nossas moralmente frágeis Forças Armadas. Certamente, o caminho será proibir por leis que militares da ativa participem de governo.

O mundo pós-covid será outro – e a Alemanha também

"Quem sou eu, se sou igual a tantos outros?" Com essa pergunta um tanto enigmática, certa vez o filósofo pop alemão Richard David Precht convidou seus leitores a uma viagem de exploração para dentro de si mesmos.

No momento muitos se colocam exatamente essa questão, ao finalmente verem luz no fim do túnel, após de meses de confinamento, o anúncio de uma época pós-coronavírus. A luz da normalidade, a expectativa de um despreocupado verão europeu, como tanto se desejou durante o longo período de distanciamento e e paralisação.

No entanto, cabe parar por um momento e se perguntar, duvidoso: ainda sou aquele de antigamente, de antes da pandemia de covid-19? Até que ponto me tornei um outro? E como vou me arranjar nesse novo velho mundo?

De peito inflado de orgulho, a política anuncia taxas de incidência cada vez menores. Na Alemanha, parece que conseguimos controlar o vírus Sars-Cov-2 – um motivo de alegria não só para a chanceler federal, Angela Merkel, e o ministro da Saúde, Jens Spahn.

Contudo, para além das cifras anônimas, muitas vezes se esquece o indivíduo. No que diz respeito a nós mesmos, a cada ser humano, não é raro que à queda da curva de incidência se contraponha um aumento das apreensões e temores.


Pois uma coisa é clara: assim como o caminho através da pandemia foi pedregoso e atormentado, o caminho para fora está longe de ser plano e tranquilo.

Isso não se aplica apenas aos seriamente abalados pacientes de uma covid-19 prolongada, ou ao grande grupo dos recuperados que agora de debatem com ansiedade patológica e oscilações de ânimo anormalmente fortes, como revelou um estudo britânico publicado na revista The Lancet Psychiatry. E tampouco se aplica só às não computadas vítimas de violência doméstica ou que sofrem de outros traumas.

E, por exemplo, as crianças que há meses estão privadas de aulas presenciais e da companhia dos amigos de escola? Ou, bem simplesmente: e nós, que pensamos ter atravessado bastante bem o tempo de isolamento e solidão?

E nós, que até certo ponto nos beneficiamos do ritmo mais lento, que trabalhamos diligentes no home-office, mas que também apreciamos a oportunidade de estar sós? E que renunciamos com muito gosto à loucura do business hiperintenso e dos excessos de ambição profissional?

Também para esses, o caminho para fora da pandemia não é plano. Estudos científicos e dados dos seguros de saúde comprovam que a pandemia afetou muitos psiquicamente. Uma maior tendência à depressão é um fenômeno difundido: ela permanece, não desaparece automaticamente junto com o coronavírus.

Nesse contexto, não é aceitável o prazo de espera para uma psicoterapia ambulante na Alemanha estar se alargando cada vez mais e, segundo dados da associação nacional dos psicoterapeutas, os pacientes dos planos de saúde terem que esperar 22 semanas por uma consulta.

Infelizmente a política não agiu de maneira previdente para ampliar as ofertas de acompanhamento psicológico. Assim como nas demais grandes instituições, nota-se a tendência para um acelerado e insensível "business as usual". Um bom exemplo desse descaso é a brutal chamada de certos empresários para que seus funcionários façam o favor de deixar o home-office e retornem o mais breve possível aos escritórios das firmas.

O empregado, que até há pouco era louvado por sua flexibilidade, esfrega os olhos, incrédulo. E com ele, também todos que constataram que pós-covid não é simplesmente igual a pré-covid: não só nós mudamos, também o mundo à nossa volta.

A reconfiguração do mundo do trabalho, as bênçãos da comunicação digital ou o retorno ao âmbito de atuação regional não devem ser degradados a sacrifícios emergenciais ditados pela pandemia, mas sim tornar-se parte de uma reconfiguração do nosso entorno e de uma redefinição da nossa vida.

Comecemos com isso: deixemo-nos inspirar pelo encontro com a nova realidade. Caso contrário, terão sido em vão todos os sacrifícios na luta contra o coronavírus.
Gero Schliess

Imagem do Brasil

 

Luc Descheemaeker (Bélgica)

Impostura em rede nacional

O presidente Jair Bolsonaro fez um pronunciamento em rede nacional na quarta-feira para prestar contas das ações de seu governo em meio à pandemia de covid-19. Na prática, contudo, o discurso serviu como mais uma das peças de propaganda de sua campanha à reeleição, iniciada assim que tomou posse. Nessa condição, Bolsonaro fez o que os maus políticos fazem nos palanques: distorceu fatos e inventou conquistas e qualidades inexistentes em seu governo.

A impostura começou logo na primeira frase: “Sinto profundamente cada vida perdida em nosso país”. Depois de passar mais de um ano desdenhando da morte em massa de seus compatriotas, o presidente resolveu “sentir profundamente” – mas, ocupado demais com passeios de moto, comícios golpistas e banhos de mar, ainda não encontrou tempo para visitar os hospitais, os familiares de doentes e mortos e os médicos que estão vivendo o pesadelo da pandemia.


Em seguida, Bolsonaro festejou “a marca de 100 milhões de doses de vacinas distribuídas a Estados e municípios”. Trata-se de escárnio: conforme constatou a CPI da Pandemia, o Brasil poderia ter 150 milhões de doses até maio passado, se o governo não tivesse sabotado a compra de vacinas quando foram oferecidas.

Segundo o presidente, “o Brasil é o quarto país do mundo que mais vacina no planeta”. No entanto, levando-se em conta o número de vacinados em relação à população, o Brasil é apenas o 79.º no ranking. Somente 10% receberam as duas doses da vacina – e, nesse ritmo, é difícil acreditar que “neste ano todos os brasileiros que assim o desejarem serão vacinados”, como anunciou Bolsonaro. Soa, portanto, como promessa demagógica de campanha.

A ênfase de Bolsonaro na vacinação poderia ser uma boa notícia se fosse autêntica, mas sabe-se que é só cálculo político. A maioria dos brasileiros quer tomar a vacina, conforme atestam as pesquisas, e a escassez dos imunizantes tem motivado o mau humor dos cidadãos com o presidente. Pressionado por seus súditos do Centrão, Bolsonaro parece ter sido convencido de que boicotar as vacinas não dá votos.

O presidente foi à TV para se passar por campeão da vacinação também como resposta às revelações chocantes da CPI da Pandemia. Durante a semana não faltaram depoimentos demonstrando como Bolsonaro fez de seu governo uma cidadela do negacionismo científico – um dos fatores cruciais para que estejamos perto de atingir 500 mil mortos pela pandemia.

Num dia, falou a oncologista Nise Yamaguchi, referência bolsonarista na defesa da cloroquina contra a covid-19. Incapaz de provar a seriedade dos “estudos” que citou para propagandear o elixir, a doutora, no entanto, demonstrou ter as qualidades exigidas por Bolsonaro: sustentou a mistificação mesmo diante de evidências em contrário.

No dia seguinte, falou a infectologista Luana Araújo, que havia sido convidada para chefiar a secretaria do Ministério da Saúde que centraliza o combate à pandemia, mas acabou dispensada depois de apenas dez dias de trabalho. O depoimento deixou claro por que a doutora foi preterida: é defensora da ciência contra o curandeirismo, algo inaceitável para Bolsonaro.

Nessa toada obscurantista, o “estadista” de fancaria que Bolsonaro incorporou na TV aproveitou também para faturar a alta do PIB e para dizer que “estamos avançando no difícil processo de privatizações” – uma falsidade que pode ser atestada por qualquer um dos vários assessores do Ministério da Economia que pediram demissão por frustração com o atraso nas privatizações.

Bolsonaro não citou nenhuma vez a palavra “cloroquina”, mas também não mencionou a palavra “reformas”. Segundo reportagem do Estado, o presidente já disse ao ministro Paulo Guedes que não quer mais a reforma administrativa. Informado por Guedes, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, questionou em público: “Há o compromisso do Executivo com a reforma administrativa?”.

É óbvio que não há, porque nunca houve. Para Bolsonaro, vacinas, reformas e privatizações são palavras vazias, que ele usa em seu discurso eleitoreiro para enganar otários.

Tá no forno


O Brasil ainda corre o risco de ficar obsoleto antes de ficar pronto
Claude Lévi-Strauss

Acorda, Brasil

Urge colocar um cabresto na cabeça do presidente da República, Jair Bolsonaro. E calibrar rápido essas correias para frear o insano galope presidencial em curso. Como demonstrou o engavetamento do processo disciplinar contra o general da reserva e ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, o desfibrilado Alto-Comando do Exército abriu porteira a uma anarquia fardada de cima para baixo. Com as PMs de vários estados já bandeadas como linha de frente do capitão, Bolsonaro sabe que também pode contar com a confraria fortemente armada das milícias, que aguarda apenas a ordem para sair das sombras e atropelar o que resta de Brasil civil e civilizado. Uma pesquisa de julho do ano passado já mostrava que 12% dos policiais militares eram favoráveis à prisão de ministros do STF e ao fechamento do Congresso.

As minudências do “episódio/provocação Pazuello”, desencadeado por Bolsonaro, conseguiram eclipsar por um dia outras constantes nacionais como o descontrole da Covid-19, cuja curva de mortandade aponta para a inimaginável marca de 500 mil vidas descartadas, além de 13 estados com UTIs novamente lotadas e uma CPI que desenterra os porões da (ir)responsabilidade do governo. O desmatamento da Amazônia também acaba de atingir o pior índice para maio desde 2016, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), enquanto a brutalidade policial contra o cidadão comum está cada dia mais escancarada. É um desmatamento institucional de vidas — a humana, a animal, a ambiental, a política —pela força.


Não bastasse, ainda temos a Copa América, rebatizada de Copa das Cepas pelo escritor Ruy Castro. Se é que Copa haverá. A absurda realização do evento deslocado às pressas para solo brasileiro, com a participação de dez seleções e um número indefinido de possíveis variantes do vírus, corre o risco de ter apenas um torcedor desvairado —Jair Bolsonaro. Além,é claro, da quadrilha de sempre — a CBF. O presidente apostou forte no poder anestesiante de uma bola rolando em estádios, com um possível triunfo da seleção canarinho.

Errou feio.

Cinquenta e um anos atrás, outro capitão, o jogador Carlos Alberto, tornara o Brasil o primeiro tricampeão do mundo ao marcar o último gol do histórico 4 a 1 contra a Itália, no México. Naquele junho de 1970, vivia-se aqui a fase mais repressiva da ditadura militar, mas a pátria dos “90 milhões em ação” comemorou como se não houvesse o amanhã da tortura, dos mortos e desaparecidos, do aniquilamento da vida nacional. Naqueles anos sombrios, venceu o “Ame-o ou deixe-o”.

Desta vez, será diferente: essa Copa bolsonarista tem tudo para dar errado. O enjeitado torneio, expelido da Colômbia e da Argentina por motivos diferentes, fará pouso arriscado num país que se arrasta em 79º lugar entre 180 países no ranking mundial de vacinados com duas doses. Somada à notícia de que vários convocados da seleção canarinho, atuantes em times europeus, poderão até desistir de jogar —seja por pressão, precaução ou convicção —, deve ter acendido alerta brabo nos organizadores. Mesmo que o evento seja disputado nos quatro estados acordados, a possibilidade de um desempenho pífio do Brasil agravará o efeito político bumerangue da coisa.

A propensão de Bolsonaro por gerar crises e planejar estultices é deliberada, fruto de sua insegurança conspiratória na Presidência. Impregnado de estratagemas usados à exaustão por Donald Trump, o primeiro presidente dos Estados Unidos a utilizar a expressão “meus generais” e a tentar um autogolpe para manter-se no poder apesar de derrotado nas eleições, o capitão no Planalto já quase oficializou sua estratégia para 2022, caso saia surrado nas urnas: simplesmente invalidar o resultado, convencer seus apoiadores de que houve fraude e convocá-los a mantê-lo no poder somando o uso da força ao caos nacional.

Convém não esquecer que, embora o assalto ao Congresso promovido por Trump não tenha conseguido impedir a posse de Joe Biden em 2021, a ala majoritária do Partido Republicano sustenta até hoje que o processo eleitoral foi fraudado e promete troco nas próximas eleições legislativas (2022) e presidenciais (2024). As conspirações para abalar a democracia nos Estados Unidos são bem financiadas, persistentes e alarmantes. Felizmente, nem todas chegam ao desvario do general da reserva Michael Flynn. Semanas atrás, o ex-assessor de Segurança Nacional de Trump sugeriu publicamente que as Forças Armadas dos EUA dessem um golpe de Estado semelhante ao dos militares de Mianmar, que causou perto de 800 mortes quatro meses atrás.

Tempos brabos, em resumo. Portanto, tempos de o Brasil encarar o pesadelo nacional de olhos bem abertos.

Escárnio, caos e retrocesso

Que o presidente Jair Bolsonaro não tem qualquer apreço por regras, normas, leis é algo sabido. Há mais de 30 anos, a indisciplina colocou fim à sua curta carreira militar lançando-o nos lucrativos braços da política do baixo clero, para a qual carreou a sua prole. De mau militar no passado se tornou um mau político e mau presidente, que insiste em dar maus exemplos.

A obsessão de Bolsonaro em romper regras beira o vício. Por vezes, desfila de motocicleta sem usar capacete, como fez no Acre, carregando o empresário Luciano Hang, e em Rondônia, com o ministro Tarcísio de Freitas na garupa, ambos também sem a proteção obrigatória. Tudo sob os olhos passivos da Polícia Rodoviária. Fanfarrão e sorridente, zomba dos mais de 470 mil mortos pela Covid-19 – de suas famílias e dos exauridos profissionais de saúde que se empenham pela vida – ao expor nas redes sociais vídeos de suas aglomerações, sem máscara, desafiando as normas sanitárias. Prega remédios milagrosos, inventa estatísticas, mente compulsivamente.


É tão avesso às normas que chegou ao absurdo de afrontar as estruturas de seu próprio governo ao estabelecer um gabinete paralelo para tocar os procedimentos de combate à pandemia, todos na contramão da ciência. No vídeo divulgado pelo Metrópoles de uma reunião de Bolsonaro com “conselheiros”, entre eles o deputado Osmar Terra, o mesmo que dizia que a Covid-19 faria menos vítimas do que a H1N1, e a imunologista Nise Yamaguchi, árdua defensora da hidroxicloroquina, o virologista Paolo Zanotto defende, sem qualquer constrangimento, a formação de um shadow cabinet (gabinete da sombra, literalmente).

O nome, importado do Reino Unido, refere-se à prática da oposição de juntar um time para fazer frente ao programa e ações do governo da vez, o que torna surreal uma formação semelhante patrocinada por quem está no poder. A iniciativa bolsonarista só se explica para fugir da publicidade, do Diário Oficial, da obrigação legal de transparência nos atos públicos.

Mas a consagração do desrespeito às regras foi o episódio da não punição do general Eduardo Pazuello, com quem Bolsonaro dividiu palanque no Rio de Janeiro depois de uma motosseata em que usou capacete e, mais uma vez, dispensou a máscara. O presidente premiou a transgressão do ex-ministro da Saúde nomeando-o para um cargo no Planalto, ao seu lado, deixando claríssimo que não aceitaria que ele recebesse nem mesmo um leve puxão de orelha. Foi atendido com a perigosa quebra do regulamento militar, expresso em lei de 2002, baliza da hierarquia e da disciplina.

Ao fazê-lo, o general Paulo Sérgio Nogueira também infringiu o código por “deixar de exercer autoridade compatível com seu posto ou graduação” – item quatro dos 113 expressos na relação de transgressões passíveis de punição. Mais do que se anular como comandante, deixou o Exército de cócoras diante de um presidente que da boca para fora tece loas às Forças Armadas, mas que por elas não nutre respeito algum. Quer apenas manipulá-las a seu bel prazer.

A falação contra as leis faz parte da história de Bolsonaro. Rendeu-lhe votos e continua sendo a chave para assegurar seguidores fiéis. Deputado, notabilizou-se como apologista da tortura. Cuspia na Lei da Anistia, aplaudia o pau-de-arara, a morte de comunistas – o eterno inimigo imaginário -, agradando à minoria carpideira, saudosa dos anos de chumbo.

Presidente, passou a operar cotidianamente para derrotar a legalidade e sujeitar o Estado às suas vontades. E já antecipou que sem voto impresso vai mandar às favas a legislação eleitoral, negando-se a aceitar o resultado das urnas diante de uma eventual – e provável – derrota em 2022. Recentemente, passou a alardear um falso respeito às “quatro linhas da Constituição”, divertindo-se com reiteradas ameaças de romper esse limite, descaradamente em nome do “poder do nosso povo”.

Bolsonaro se lixa para as instituições ou para as quatro linhas que tanto cita. Faz de tudo para detoná-las. Ao mesmo povo que prometia “respeitar” e fazer valer o lema “ordem e progresso”, entrega escárnio, caos e retrocesso.

Zé Bozo e Zé Ninguém

O psicanalista Wilhelm Reich acabou expulso do Partido Comunista alemão depois de publicar seu “Psicologia de massas do fascismo”. Entre outros, o conteúdo desagradara aos soviéticos. O ano era 1933, Hitler chegara ao poder, e Mussolini já realizava suas “motociatas” por cidades italianas. Ambos estimulavam a violência como arma política — ganham o poder pelo incentivo ao ódio, disseminação do medo e construção de fake news. Como Lênin.

A tese de Reich: os fascistas (e nazistas) chegaram ao poder como sintoma da repressão sexual que, praticada desde a infância, leva os adultos a abraçar o autoritarismo. Castrados em seus desejos, reprimirão quem possui outro comportamento, mais libertário. O reprimido precisa da ordem unida para acalmar sua ansiedade, fruto de suas vontades abortadas. Daí clamarem sempre por uma ditadura e darem pouco valor à vida (com a camisa da CBF).

Os cristãos adjetivam aqueles que vivem diferentes de seus conceitos como “pecadores”. Os fascistas, como “comunistas” e “depravados”. Os comunistas classificam seus opostos como… “fascistas”. Não à toa, o pobre Reich foge das tropas nazistas para a Noruega e depois se estabelece nos Estados Unidos, onde é encarcerado por suas ideias (como as narradas acima). Em 1954, o juiz ordena que seus livros sejam destruídos. Em plena Guerra Fria, ele conseguiu desagradar a russos e americanos.


'O Zé Ninguém, que é povo, odeia o povo'

Pena que o Bozo (e o Heleno) vivam afastados dos livros. Saberiam que, décadas atrás, eles e seus seguidores foram catalogados por Wilhelm Reich noutro clássico: “Escuta, Zé Ninguém”. A obra também desagradou ao Malafaia da época (1948) e acabou censurada em muitos países. O Zé Ninguém é o sujeito médio, do bom senso, medianamente inculto; poderia ser o homem comum; é ainda o sujeito que, tudo bem, pode se privar da liberdade e até de ter opinião própria, desde que possa imprimir sua frustração sobre os demais. É também o cara nomeado com pequenos poderes. Frustrado fundamentalista, oprime os amigos e obedece aos inimigos. Se chegou ao poder para salvar o povo, massacrará esse povo. Porque não tem empatia — e daí?

Dá pouco valor à existência, porque afinal a vida terrena é um inferno e, como garantiu o Malafaia de sempre, depois da tempestade vem a bonança ou o paraíso. Com adiantamento de dízimos.

A ascensão do Bozo ajudou a destampar a garrafa onde adormecia o espírito do Zé Ninguém. Perseguido pelo medo da falência sexual, o Zé Ninguém busca apoio (conforto) no confronto, no preconceito ou na encrenca. Também nos meios capazes de escamotear seu medo, como armas, fardas (mesmo que seja a de zelador) e máquinas velozes.

Pipocam diariamente exemplos de pequenos ditadores, aqueles munidos de uma autoridade restrita, porém capaz de azucrinar os demais. Desde o policial que prende o motorista com o carro adesivado em protesto contra as atrocidades do Bozo a outro mané, que processa o cidadão por externar num outdoor sua indignação com a falta de vacina. Alguém aí mentiu? Temos também os senadores da CPI da Covid, machos-alfa diante das mulheres, mas soltando miados fininhos diante do general Pazuello. Covardia.

Ou ainda se esconde na farda de soldadinho para dar os tiros assassinos em Recife contra manifestantes desarmados e pacíficos. Que pediam vacina! Ah, comunistas! De novo: o Zé Ninguém, que é povo, odeia o povo. Tem ódio de seu espelho, em especial quando não reza pelo mesmo credo.

Os sinais emitidos diariamente pelo Zé Bozo servem de guia a seus seguidores. A violência, movida por ressentimentos e frustrações, ocorre imitando a história. Foi assim sob Stálin (gente que entregava o vizinho para roubar sua casa), foi assim sob Hitler (deduragem por inveja pequena).

É onde entra em cena um ogro no papel de diretor da Fundação Palmares. Qual soldado descerebrado, vomita todo o ódio emanado pela chefia contra negros, esquerdistas e pessoas de talento. Pinçado no RH das redes sociais, exerce seu pequeno poder contra quem já é história em vida, como Gilberto Gil ou Martinho da Vila. É um ignorante pago com dinheiro público para tentar destruir aquilo já consagrado pelo público. Mussolini tentou algo igual e acabou no poste. De ponta-cabeça em praça pública.

domingo, 6 de junho de 2021

Pensamento do Dia

 


Missão cumprida: o Exército no governo

O general Paulo Sérgio Nogueira deve ter seus motivos para decidir poupar o general Eduardo Pazuello de qualquer das sanções previstas no Regulamento Disciplinar do Exército (RDE) para quem o transgredir. Mas depois dela, o Exército é menos confiável.

A defesa de Pazuello certamente não pode ser o respaldo do comandante do Exército, pois nega natureza política ao ato do presidente da República do qual participou o general perdoado.

O Exército aceitou uma explicação do general-réu que faz letra morta a máxima consagrada do político americano James Schlesinger, segundo a qual todos têm direito à própria opinião, mas não aos próprios fatos.

Não só o ato que levou Pazuello ao palanque era político, como também é inteiramente política a decisão de seu comandante. Pode ser um recuo tático decidido após uma avaliação da dimensão da crise em caso de uma punição vir a ser revogada pelo presidente da República.


Pode também resultar de uma relação custo/benefício com base na premissa de que punir o general enfraqueceria o presidente da República e, por extensão, fortaleceria o adversário inesperado, Lula da Silva, ameaçando a reeleição de Bolsonaro e o retorno da esquerda ao poder.

Pode ser ainda a inconveniência de arriscar o banquete dos contracheques, engordados pelos mais de três mil cargos militares no governo. Em qualquer hipótese – e em todas elas – Nogueira pode dizer “Missão Cumprida, em nome do Exército.

Com uma decisão política, o comandante do Exército nega ato político ao subordinado e negligencia aspectos sensíveis, como a mensagem de sublevação enviada às tropas não só das Forças Armadas, mas também das corporações militares estaduais que já dão sinais de insubordinação.

O preço político é caro especialmente para as altas patentes que sonharam reescrever a história de 64, cuja versão prevalecente consideram inverídica. A decisão de Paulo Sérgio devolve a desconfiança com relação ao compromisso constitucional dos militares reafirmado inúmeras vezes pelos seus antecessores.

Ocorresse em clima de absoluta normalidade, a exceção feita a Pazuello seria errada e condenável, por ser exceção. Mas antecedida das bravatas presidenciais como a de afirmar e reafirmar que o Exército lhe pertence e de empossar o general infrator em cargo estratégico enquanto seu caso era avaliado, soa como uma submissão envergonhada.

Com “seu” Exército (já se pode tirar as aspas do pronome possessivo), qualquer ação ou atitude do presidente da República, daqui para a frente, constitucional ou não, sóbria ou delirante, justa ou injusta, terá sempre o tom verde-oliva da ameaça implícita.

Depois de uma fala em rede nacional de televisão em que disse jogar “dentro das quatro linhas da Constituição”, Bolsonaro obtém do Exército aval para as Forças Armadas trafegarem na contramão de suas normas internas e da própria Carta Maior.

A confiança civil nas Forças Armadas é menor desde a decisão do comandante do Exército Paulo Sérgio Nogueira. O Exército se curva pela segunda vez a Bolsonaro na ilusão de que é melhor não comprar a provocação e reproduz em Pazuello hoje o Bolsonaro de ontem.

E ainda cabe uma desconfiança: especialistas em contrainformação, os militares que se manifestaram pela punição a Pazuello na mídia poderiam estar apenas emprestando credibilidade a um enredo que precisa sugerir uma análise séria e detida do caso.

Que pode sequer ter havido. Retardar o anúncio de uma decisão de primeira hora pode fazer parte do script.

Brasil e Venezuela irmanados

Os militares daqui estão enfrentando o que os da Venezuela enfrentaram no início do período chavista. Bolsonaro persegue o modelo de Chávez. Ele, como Chávez, quer reduzir o comando dos militares para transferi-lo para a política. Ou seja, para ele
Raul Jungmann, ex-ministro da Defesa

A carnificina bolsonarista

Jair Bolsonaro intensificou seu projeto de golpear as instituições democráticas e impor uma ditadura. Sempre deixou claro, desde a longa carreira parlamentar, que era um adversário do Estado democrático de Direito.

No exercício da Presidência — antes ainda da pandemia — deu inúmeras declarações, no Brasil e no exterior, de simpatia para com as ditaduras e de incômodo com os limites constitucionais estabelecidos ao poder Executivo pela Constituição de 1988. Ao mesmo tempo, foi solapando o aparelho de Estado, minando o que foi edificando, com muito esforço, nos últimos trinta anos.


Deve ser recordado que o Brasil tem uma longa presença autoritária na esfera política. A construção de uma cultura política democrática nunca foi um elemento presente no nosso cotidiano. As veleidades autoritárias sempre estiveram presentes, mesmo em momentos de relativo funcionamento de instituições democráticas. O uso da força rondou a nossa história republicana. O golpismo foi durante décadas uma carta guardada para ser utilizada em momentos de impasses. E desde 1889 inúmeras vezes foi utilizada. O entendimento que, na democracia, é necessário conviver com a diferença, com a pluralidade, com a alternância no poder, com o respeito às instituições, nunca foi compreendido pelas elites políticas. E o povo, no seu mutismo, não compreendeu que reside na democracia a única possibilidade de enfrentamento das desigualdades sociais – isto em um dos Países mais desiguais do mundo.

O ano de 2021 está expondo de forma absolutamente transparente as contradições da democracia brasileira, suas limitações e possibilidades. Só que apresentando uma variável inexistente em outras crises da República: a pandemia. Ela está atingindo o âmago do Estado democrático de Direito. O nazifascismo bolsonarista estabeleceu na morte o foco de sua ação política. O desprezo pela existência humana atingiu o ápice. Como não há guerra externa, restou aos extremistas atacar, pelo negacionismo, os brasileiros. A carnificina sem fim é o objetivo central dos genocidas. Resistir é uma tarefa de sobrevivência nacional.

Como de hábito — e a história republicana tem vários exemplos — a reação é normalmente tardia. Mas quando vêm, chega com força e de forma surpreendente.

As primeiras grandes manifestações de rua, somadas às pesquisas de impopularidade, o agravamento da pandemia, a lenta recuperação econômica, podem interromper a matança antes que seja tarde demais.

Amados bandidos

Um obscuro major das Forças Armadas Angolanas, Paulo Lussaty, foi preso em Luanda, há poucos dias, quando tentava abandonar o país carregando em várias malas mais de 10 milhões de dólares e quatro milhões de euros. O referido oficial, ligado à Casa de Segurança do Presidente da República, terá conseguido transferir para o exterior mais de um bilhão de dólares. 

Sempre que leio notícias como esta penso naqueles filmes ou séries, ao estilo “Casa de Papel”, nos quais um grupo de malfeitores se junta para montar um grande golpe. Estes bandidos são quase sempre gênios da informática. Passaram também muitos anos praticando equitação, esgrima, mergulho, e estudando filosofia, física nuclear e mecânica quântica. Se tiverem sorte, chegam ao final do filme com um milhão de dólares — a distribuir por todos. Quase nunca têm sorte.

Os malfeitores angolanos, esses, roubam um bilhão de dólares sem correrias nem sustos. Não se servem da inteligência e menos ainda da imaginação. Não investem anos a estudar. Não cansam o corpo a treinar artes marciais. Bastam-lhes dois gramas de ousadia e uma alegre e natural falta de escrúpulos.


Bandidos ao estilo da “Casa de Papel” suscitam inevitável simpatia. Admiramos neles a coragem com que enfrentam o tédio de um quotidiano que nos amarra a todos, e a inteligência com que ludibriam as regras do sistema. Ronald Biggs, que fugiu para o Brasil em 1970, após participar no assalto a um trem postal, na Inglaterra, levou no Rio uma existência feliz e festiva. Amados bandidos

Chegou até a tentar carreira como cantor. 

Em Portugal, o criminoso mais amado e respeitado da história atende pelo nome de Alves dos Reis. O português começou a sua carreira de vigarista aos 20 anos, falsificando um diploma de engenheiro que lhe permitiu trabalhar em Angola, onde ajudou a construir e ampliar uma importante estrada de ferro. Quando engenheiros legítimos colocaram em dúvida a segurança de uma ponte desenhada por ele, subiu na locomotiva, acompanhado pela mulher e filhos, e conduziu ele mesmo o trem. Em 1924, falsificou um contrato em nome do Banco de Portugal, com o qual conseguiu mandar imprimir em Londres 200 mil notas de 500 escudos — quase um por cento do PIB português de então. Com parte desse dinheiro fundou um banco em Angola. Preso no ano seguinte, alegou que engendrara todo o esquema com o único objetivo de promover o desenvolvimento de Angola. Ainda hoje há quem acredite nele e o defenda.

Acho mais difícil simpatizar com os atuais bandidos angolanos, que usam o dinheiro de todos para comprar carros e relógios; dinheiro esse que poderia servir para formar médicos e professores, construir escolas, ou combater epidemias. A rainha destes bandidos é Isabel dos Santos, a filha do anterior presidente, José Eduardo, que ainda há pouco era celebrada em todo o mundo como uma grande empresária, a mulher mais rica da África. Mesmo caída em desgraça continua tendo inúmeros admiradores. Basta visitar a sua página no Instagram.

Já não se fazem bandidos como antigamente. Não faltam, contudo, os tolos capazes de os amar.

Bolsonaro e a anarquia militar

A indulgência do comandante do Exército, Paulo Sérgio Nogueira, ao ato de flagrante indisciplina do general Eduardo Pazuello, terá consequências de alto risco para a conjuntura política brasileira. Mas não se pode dar a essa decisão a responsabilidade pela instalação da anarquia entre os fardados. Ela fomenta a anarquia, é certo. Mas o caldo da insubordinação começou a ferver faz tempo.

O marco mais explícito da permissividade nos quartéis deve-se a outro comandante da força, o general Villas Bôas, e seu post ameaçando o STF na véspera da votação do habeas corpus de Lula, em 2018. Na campanha daquele ano, militares da ativa engajaram-se com desenvoltura em exércitos digitais, públicos ou não, a favor de Bolsonaro. Como se sabe, em instituição hierarquizada o exemplo vem de cima.


Também deu mau exemplo o então ministro da Defesa, Fernando Azevedo, quando acompanhou Bolsonaro em sobrevoo de apoio à manifestação contra o Congresso e o STF, que pedia “intervenção militar”. Ao ser defenestrado, em março, afirmou ter preservado as Forças Armadas como “instituições de Estado”. Cinismo ou ingenuidade?

É claro que há nuances e divergências de pensamento entre os militares. Mas essas diferenças não abalam, por ora, o projeto que os trouxe de volta ao poder. Este é um governo colonizado por e para militares, com seus salários, cargos, mordomias, privilégios e outras benesses.

As Forças Armadas carregam a mancha de 21 anos de ditadura, tortura e morte de opositores. Com Bolsonaro, reforçam sua tradição golpista, associam-se ao morticínio de brasileiros na pandemia, afundam-se no pântano da história. Mas não estão sozinhas. Bolsonaro fermenta o caos com a complacência de parcelas da sociedade civil, como o capital financeiro, oligarcas do agronegócio, setores do Legislativo e do Judiciário, mídia, igrejas. A desgraça deste país é uma obra coletiva.

Um torneio na hora errada, no lugar errado

Autocratas gostam de eventos esportivos internacionais. Eles são ótimos para distrair a atenção de crises. A nação se volta em direção a seus supostos heróis, sob cuja luz o governo também gosta de se banhar. Portanto, é compreensível que o presidente Jair Bolsonaro tenha concordado imediatamente quando a Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol) lhe perguntou se a Copa América deste ano poderia ser realizada no Brasil a curtíssimo prazo.

A Conmebol estava num dilema. Inicialmente, o torneio seria realizado na Colômbia e na Argentina. Primeiro a Colômbia desistiu devido às manifestações populares por mais justiça social, que foram respondidas com violência assassina pelas forças de segurança. Em seguida, a Argentina também recuou porque o governo avaliou que a pandemia de covid-19 ainda estava fora de controle.

Aflito – o pontapé inicial do campeonato é em menos de duas semanas –, o presidente da Conmebol, o paraguaio Alejandro Domínguez, recorreu ao Brasil. Ele contactou o presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que por sua vez ligou para Bolsonaro – e em poucos minutos recebeu uma resposta positiva.


O evento chega na hora certa para Bolsonaro. O presidente de ultradireita está mergulhado em uma profunda crise. Seus índices de aprovação são os mais baixos desde que ele tomou posse, e centenas de milhares foram às ruas contra seu governo no sábado passado. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é suspeito de estar em conluio com a máfia madeireira. Além disso, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) expõe todos os dias o fracasso do governo na gestão da pandemia.

Bolsonaro pode ter pensado que, diante da situação atual, não seria uma má ideia ser fotografado com a superestrela Neymar e outros jogadores brasileiros, a maioria dos quais é completamente apolítica.

Os cerca de 500 mil brasileiros que provavelmente terão morrido de covid-19 no país até o início da Copa América não têm qualquer relevância nesse cálculo cínico. Desde o início Bolsonaro negou e minimizou a pandemia. Ele semeou dúvidas sobre as vacinas e fez pouco caso das mortes. Os brasileiros precisam parar de "frescura" e de "mimimi", disse o presidente.

Como resultado, as taxas de infecção no Brasil estão aumentando mais uma vez. Embora 46 milhões de brasileiros tenham recebido pelo menos uma dose da vacina contra a covid-19 (21% da população), uma média de cerca de 1.800 pessoas ainda sucumbem ao vírus todos os dias. Especialistas advertem sobre uma terceira onda de infecções e a disseminação de novas mutações. Para piorar a situação, a pobreza e a fome se espalham rapidamente no país. Cada vez mais cidadãos vivem nas ruas ou dependem de ajuda alimentar.

Mas nem Bolsonaro nem a Conmebol parecem se importar. A federação de futebol tem lutado para melhorar sua imagem desde que dezenas de membros de seu conselho foram investigados por corrupção em 2015. Para a entidade, trata-se de acordos lucrativos de patrocínio e venda de direitos para a transmissão dos jogos na televisão. Bolsonaro, por sua vez, quer passar um senso de normalidade e, de todas as formas, desviar a atenção de sua responsabilidade pelos mortos.

A CPI da Pandemia no Senado revelou que, desde o início da crise do coronavírus, Bolsonaro deixou sem resposta pelo menos 41 e-mails da farmacêutica Pfizer, nos quais a empresa oferecia ao país milhões de doses de sua vacina. Não sem razão, Bolsonaro está sendo chamado de "genocida" pela oposição.

Para Bolsonaro e para a Conmebol é, no entanto, à primeira vista, uma situação em que todos ganham. A confederação salva sua pele, e Bolsonaro desvia a atenção da pandemia. A Conmebol promete jogos seguros: sem espectadores e com delegações totalmente vacinadas dos dez países participantes. Também argumenta – corretamente – que a América do Sul já sedia campeonatos nacionais atualmente, assim como a Copa Libertadores e as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2022 no Catar. Por que não a Copa América também?

Mas a entidade esquece que não há motivos para celebrar tal torneio no Brasil ou na América do Sul – a região mais atingida pela pandemia. Se meio milhão de mortos e a ameaça de novas mutações não são motivos para suspender o campeonato, o que mais seria? Assim como a Fifa se tornou cúmplice de regimes autoritários na Rússia e no Catar, a Conmebol está agora se tornando cúmplice de Bolsonaro.

Que ambas as estratégias podem acabar não funcionando no fim das contas, é demonstrado pela oposição generalizada nas redes sociais e também entre os comentaristas da imprensa tradicional brasileira. A Copa América 2021 já foi renomeada para "Covid América" ou "Cova América". É um torneio no lugar errado, na hora errada.
Philipp Lichterbeck

sábado, 5 de junho de 2021

Governo de coices


Ironicamente, o apelido de Bolsonaro na intimidade familiar é "Cavalão". Sabe o que diz quando fala de "quadrúpedes". Não convém discutir com especialistas

A cloroquina está longe de ter sido o pior dos pecados do governo durante a pandemia

Não entendo a obsessão dos senadores da CPI da Covid com a cloroquina. A cloroquina está longe de ter sido o pior dos pecados do governo durante a pandemia. Foi uma aposta equivocada da meia dúzia de curiosos que constituíram o gabinete de crise do Idiota Supremo, mas, a rigor, não é a principal culpada pelo rumo sinistro que a pandemia tomou entre nós.

A CPI não foi instituída para determinar se a cloroquina funciona ou não funciona contra a Covid. Isso já foi estabelecido e, a essa altura, deveria ser página virada. A função da CPI seria, se bem entendi, avaliar ações e omissões do governo. A obsessão dos senadores pela cloroquina a transformou, porém, em palanque para pessoas que disfarçam o charlatanismo por trás de diplomas de medicina.

Não é à toa que que o mundo bolsonaro comemora os depoimentos de Mayra Pinheiro e Nise Yamaguchi como grandes vitórias.

É inacreditável que, em pleno ano de 2021, uma reles fórmula científica se transforme em símbolo ideológico. Nós rimos dos nossos antepassados que acreditavam no benefício das sangrias e tomavam ópio para a tosse, mas como sociedade evoluímos muito pouco de lá para cá.


Escrevi que a cloroquina está longe de ter sido o pior dos pecados do governo não porque o gasto de dinheiro público para a sua fabricação às toneladas seja irrelevante, ou porque não seja inadmissível ver o chefe da nação insistindo em fazer propaganda de remédio ineficaz, ou ainda porque a ideia de um “tratamento precoce” não possa levar a população a uma atitude displicente; mas porque a lista de ações e de omissões do presidente e de seus ministros é maior e mais grave, e é nela que a CPI deveria se concentrar.

Faltaram exemplos, encorajamento, trabalho e seriedade; faltaram cilindros de oxigênio e remédios necessários. Sobraram leviandade e incompetência. 

O Brasil não se ressentiu apenas da falta de vacinas, mas também da falta de compostura, de decoro e de comiseração pelos doentes e pelos mortos. Faltou espírito público onde sobrou deboche.

A pandemia tem sido um período duro para todos os países, mas tem sido particularmente difícil de enfrentar no Brasil onde, além do vírus, precisamos também enfrentar o negacionismo relinchante do palácio.

A foto de Bolsonaro sem máscara no meio dos ianomâmis, na semana passada, é o retrato perfeito da sua falta de cuidado e de respeito com os brasileiros — e chega a ser obscena quando confrontada com a foto feita dias antes, de máscara PFF2, no Equador.

A patafísica para fins genocidas

A Conmebol, dona do futebol na América do Sul, deve saber o que faz ao trazer a Copa América para o Brasil. Seus dirigentes leem jornais e não ignoram que somos o único país do mundo a combater a Covid 19 de forma patafísica.

A patafísica, para quem nunca ouviu falar, é uma escola filosófica entre a física e a metafísica. Ou acima ou abaixo delas, dependendo de seu estudioso estar ou não plantando bananeira. Sua lógica é a do absurdo, sua língua oficial é o nonsense e ela se diz a ciência das soluções imaginárias. Foi fundada pelo francês Alfred Jarry (1873-1907) e, por intuição, muitos já a adotaram para explicar (ou desexplicar) a vida: o tcheco Kafka, o americano Groucho Marx, o romeno Ionesco. Mas o primeiro a usá-la para fins genocidas é o brasileiro Jair Bolsonaro.


No Brasil, bem patafisicamente, o combate à Covid é a favor do vírus. Seu estrategista e líder, o dito Bolsonaro, usa sua condição de presidente da República para expor o máximo de brasileiros ao contágio, exortando-os a ir para as ruas sem máscara, aglomerando-se, arfando e cuspindo-se uns nos outros. Pregou enquanto pôde contra a vacina, sabotou sua importação, desequipou hospitais, sonegou oxigênio e, para apressar desfechos, induziu milhões —induz ainda— a tratar-se com uma droga, a cloroquina, tão eficaz contra a doença quanto o elixir paregórico.

Por tudo isso, admiro a coragem dos jogadores, comissões técnicas, auxiliares e administradores de nove países, além de seus familiares, agentes, amigos e agregados, sem falar nos jornalistas e nos funcionários e dirigentes da própria Conmebol, que virão misturar-se conosco nas ruas, nos estádios e, quem sabe, nas UTIs —se houver vagas nos hospitais, claro.

E quem sairá vencedor de uma possível e, esta, sim, patafísica Copa das Cepas —um vibrante torneio paralelo à Copa América entre as nossas variantes e as trazidas pelos visitantes?