sábado, 5 de junho de 2021

'Não é doença, é fome'

Era junho de 2020 quando a cantora e atendente em padaria Lígia Régia da Silva, de 38 anos, perdeu o emprego. No mesmo mês, o pedreiro Josimar Moraes, 48, foi despejado de casa porque não tinha como pagar aluguel de 600 reais, e passou a catar materiais recicláveis pelas ruas. A pandemia de coronavírus também mudou por completo a vida de Jaqueline Silva Viana, 40, uma cabeleireira que viu os dois salões em que trabalhava como freelancer fecharem no ano passado. Além da perda de renda durante a maior crise sanitária do planeta, há outro desastre que une esses três moradores de Brasília: eles estão doentes de fome. Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde relatam que, nos últimos meses, têm percebido um aumento no número de pessoas que dão entrada em centros de saúde pública com sintomas que acreditam ser de alguma doença, mas, na verdade, estão famintas. E em plena capital do país, a terceira cidade com o maior produto interno bruto (PIB) do Brasil.

“Todas as semanas, atendo mais ou menos cinco pacientes dizendo que estão doentes, mas, quando examinamos, notamos que, na verdade, não é doença, é fome”, disse a médica Natália, que trabalha em uma unidade de saúde de Sobradinho, cidade-satélite do Distrito Federal. “Em 15 anos de profissão, nunca imaginei que ouviria relatos como os que tenho ouvido ultimamente. Ainda mais em uma cidade tão rica”, completa a profissional. Para esta reportagem, foram ouvidos doze médicos, enfermeiros, gestores e terapeutas que trabalham no Sistema Único de Saúde. Como não tinham autorização do poder público para dar entrevista, seus nomes verdadeiros foram preservados para evitar que sofram punições.

Em São Sebastião, outra cidade-satélite, os relatos são parecidos. “Já atendi paciente que chegou aqui com tontura. Quase desmaiando. Dei o meu lanche da tarde para ele e notei que seu problema era fome, não doença”, conta Marcelo, médico há 22 anos. O mesmo ocorreu em Ceilândia. “Já atendíamos pessoas com alto índice de vulnerabilidade social. Mas, antes, elas diziam que tinham comido duas ou três vezes ao dia. Agora, dizem que, quando comem uma, já se dão por satisfeitas”, afirmou a terapeuta Mariana.


Sem maneira de botar comida em casa, é comum também aparecerem pessoas com crise de ansiedade e pânico. “Imagina você ter crianças em casa e não saber como vai levar comida pra casa? É de deixar qualquer um doente, mesmo. Temos visto muitos casos assim”, diz o agente de saúde Kleidson Oliveira, que há cinco anos trabalha em ONGs que dão assistência às pessoas que vivem nas ruas ou em comunidades pobres da capital brasileira. “Nunca vi tanta gente nas ruas e em condições tão desesperadoras”, afirma.

A situação é resultado do empobrecimento da população brasileira. No ano passado, o Brasil viu disparar o número de pessoas com insegurança alimentar grave ou moderada, 27,7% da população está neste grupo. Significa dizer que cerca de 58 milhões de brasileiros correm o risco de deixar de comer por não terem dinheiro. Os dados são de uma pesquisa feita por cientistas do grupo “Alimentos para a Justiça”, da Universidade de Berlim em parceria com as universidades Federal de Minas Gerais (UFMG) e de Brasília (UnB). O levantamento contou com o financiamento do Governo alemão e foi divulgado em abril.

Desde meados do ano passado, a cabeleireira Jaqueline teve de buscar novas fontes de renda. Passou a lavar roupas para vizinhos e a fazer cortes de cabelo em domicílio. Contudo, como seus clientes também estavam com poucos recursos financeiros, viu o dinheiro minguar. Na semana passada, com três meses de aluguel atrasado —uma dívida total de 2.400 reais— e a despensa vazia, ela caminhou dez quilômetros até um centro de saúde em Ceilândia, onde o filho Ítalo recebe tratamento psiquiátrico. Lá, enquanto o rapaz era atendido pela equipe médica, ela relatou a uma outra profissional que estava se sentindo fraca e um pouco perdida, sem saber o que fazer. O diagnóstico: fome e crise de ansiedade. O nervosismo ocorria principalmente por não saber como proporcionar uma vida digna aos seus dois filhos, de 21 e 11 anos, e um neto, de 3 anos, que dependem dela para viver.

“Me receitaram remédios que nem sempre tem no posto. Preciso de 100 reais para os meus remédios e os do meu filho. Mas como vou comprar, se nem dinheiro pra comer tenho?”, indigna-se. Sensibilizados pela situação, os profissionais da unidade de saúde doaram duas cestas de alimentos para a cabeleireira. Não puderam fazer diretamente, para não vincular o atendimento na unidade à doação. Então, pediram para um conhecido entregar os produtos no dia seguinte na casa dela. Pela primeira vez no mês ela pôde abastecer o armário da cozinha. “Foi uma bênção. Só que a situação é humilhante para quem trabalha e pagas suas contas desde os 14 anos de idade.”

Situação semelhante foi relatada pela cantora Lígia Régia. Além de perder seus shows na noite brasiliense, o carro da família foi roubado com parte dos equipamentos que ela e seu pai usavam nas apresentações. “Somos cantores amadores. Não tínhamos dinheiro para o combustível, quem dirá para seguro do carro. Agora, estamos sem equipamentos e sem comida”, declarou a cantora, que vive com o pai e as duas filhas, de 8 e 3 anos. “Eu tinha dois contratos perto de serem assinados. Não tenho perspectiva de nada mais”.

As campanhas de doações de alimentos que os postos de saúde realizam acabam por ajudar centenas de pessoas que não têm o que comer. Eles angariam apoio de vizinhos da comunidade que se mobilizam para entregar alimentos não perecíveis por meio de agentes comunitários. “Não chega a ser um trabalho organizado. É apenas um alento, um carinho, o único remédio pra fome é a comida”, afirma a gestora Eliza, uma das organizadoras dos programas de arrecadação.

As campanhas, no entanto, atingem apenas os pacientes que têm moradia fixa. Não é o caso do pedreiro e catador de recicláveis Josimar. “Fome? É claro que eu já passei e ainda passo, de vez em quando. Quando comecei a catar latinhas, eu nem sabia pra quem eu tinha de vender. Nos últimos dois meses me estruturei melhor, mas ainda tem dias que não sei se terei o almoço ou a janta”, diz ele em um acampamento em área pública na Asa Norte de Brasília. Raramente recebem doações por lá.

“Ouvi dizer que nos postos de saúde alguns trabalhadores estavam doando cestas. Mas pediram para eu dar um endereço. Como vou fazer isso, se vivemos na rua?”, afirmou ao lado de três filhos (de 5, 7 e 8 anos) e da esposa que está se recuperando de um resfriado e pouco tem ajudado no trabalho. No dia em que a reportagem o encontrou, Josimar teria o que comer. Ele tinha comprado um pacote de arroz, que cozinharia em uma fogueira, e ganhou dez pães velhos de uma padaria do bairro. “Hoje, o dia vai ser tranquilo. Amanhã, eu penso depois. Cada dia tem a sua agonia”.

Pensamento do Dia

 


Exército retoma "padrão Riocentro" de apreço pela verdade

Numa nota vergonhosa, pusilânime, o Centro de Comunicação Social do Exército informa que o comandante da Força, Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, “analisou e acolheu os argumentos apresentados por escrito e sustentados oralmente” por Eduardo Pazuello “acerca da participação em evento realizado na cidade no Rio de Janeiro no dia 23 de maio de 2021”. É incentivo à baderna.

E qual foi mesmo a desculpa de Pazuello para subir no palanque de Jair Bolsonaro? Segundo ele, não se tratava de um evento político-partidário porque o presidente ainda não está filiado a nenhum partido. Maus militares já mancharam a honra de suas respectivas Forças em muitas outras circunstâncias. Ocorre-me uma, em particular, em que nada sobrou além de desmoralização.


Na noite de 30 de abril de 1981, no Riocentro, uma bomba explodiu, por acidente, no Puma GT em que estavam o sargento Guilherme Pereira do Rosário e o capitão Wilson Dias Machado. O primeiro morreu. O segundo se feriu gravemente. Outra bomba explodiu na miniestação elétrica que fornecia energia ao local. O SNI culpou organizações de esquerda —as mesmas que, ora vejam!, promoviam no local um show de resistência em homenagem ao 1º de maio.

O inquérito policial-militar não chegou a lugar nenhum. Reaberto o caso em 1999, o Superior Tribunal Militar chegou à conclusão estupefaciente, no ano seguinte, de que o atentado terrorista praticado pelos dois militares, em associação com outros, estava coberto pela Lei da Anistia. E tudo foi arquivado. Não há espaço para entrar em minudências. Os argumentos eram tão sólidos como os de Pazuello.

Por que apelo a um caso extremo? Porque, mais uma vez, o Partido Militar é sócio do poder. Parcerias sempre carregam tensões. O capitão reformado que, na ativa, chegou a imaginar ataques terroristas a instalações militares em razão de insatisfação salarial, já demitiu nove generais da reserva —em alguns casos, tentando lhes impor a desonra.

E daí? O alinhamento ideológico e as vantagens objetivas dessa sociedade se sobrepõem, então, à própria noção de honra. Ainda que tenha havido descontentamento no Alto Comando —parte dele defendeu com ênfase a punição a Pazuello—, o fato é que todos concordaram em deixar a decisão nas mãos de Nogueira de Oliveira. E ele fez o que fez. Bolsonaro deixou claro que considerava uma afronta pessoal a punição a um auxiliar seu.

Não serão apenas os milhares de mortos desse período que acabarão por pesar nos ombros das Forças Armadas —do Exército em particular. Restará também o óbvio incentivo à indisciplina e à bagunça, de desdobramentos ainda incertos. Militares responsáveis, que estivessem, de fato, empenhados em garantir a lei e a ordem, já teriam mobilizado suas respectivas áreas de inteligência para combater a evidente politização dos quartéis e das PMs —que são, afinal, forças auxiliares do Exército por determinação constitucional.

É certo que não mais haverá golpe militar no Brasil com a plasticidade típica dos tempos em que a América Latina era comandada por gorilas. Mas esse não é o único caminho que leva à destruição da democracia. O ataque criminoso da PM de Pernambuco contra manifestantes pacíficos ainda resta sem explicação. E, no entanto, está plenamente explicado.

As ações subversivas de Bolsonaro estão em curso. A tese de que as instituições são sólidas e podem resistir a esses desaforos está começando a virar mera rotina burocrática. Se crimes contra as instituições e os direitos fundamentais vão se repetindo sem a devida punição, então o poder legal se transforma em mera fachada de cumplicidade.

O ato de que Pazuello participou, de fato, não era exatamente político-partidário. Bolsonaro comandou uma manifestação golpista ao lado do general. Afirmou então: “O meu Exército Brasileiro jamais irá à rua para manter vocês dentro de casa. O meu Exército Brasileiro, a nossa PM e a nossa PRF. É obrigação nossa lutar por liberdade, democracia. O nosso exército são vocês. Mais importante do que o Poder Executivo, Legislativo e Judiciário é o povo brasileiro”.

Por enquanto, temos as urnas.

Bolsonaro já está eleito

Jair Bolsonaro já está eleito. Com ou sem voto.

A decisão do comandante do Exército de poupar Eduardo Pazuello mostra que a cúpula militar imitou o gordinho bolsonarista e subiu no palanque de seu presidente. Se ele ganhar em 2022, leva. Se não ganhar, leva de qualquer maneira.

Na verdade, subir no palanque de Jair Bolsonaro foi o menor dos delitos de Eduardo Pazuello. O que ele fez durante a epidemia foi incomensuravelmente mais danoso para os brasileiros. Isentando-o, o Exército isentou-se de sua própria responsabilidade, sobretudo no que se refere à cloroquina.

Eduardo Pazuello, num jogo combinado, deve ir para a reserva depois da CPI da Covid, abafando a patuscada do Alto Comando. Mas isso não elimina o fato de que os militares já decidiram quem deve ganhar em 2022 – mesmo que ele perca.

O golpe está dado. A dúvida é se haverá um contragolpe.

Sociedade espera acenos do Exército na direção certa

É inegável que a participação do general Eduardo Pazuello, ao lado do presidente Jair Bolsonaro, numa manifestação de motocicletas seguida de comício no Rio de Janeiro, desrespeitou o Regulamento Disciplinar do Exército e o Estatuto das Forças Armadas. O primeiro veda a militares da ativa manifestar-se publicamente “a respeito de assuntos de natureza político-partidária”. O segundo proíbe manifestações de “caráter reivindicatório ou político”.

Ainda assim, o general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, decidiu não punir Pazuello e mandou arquivar o procedimento administrativo instaurado para apurar o caso. “Não restou comprovada transgressão disciplinar”, afirma o comunicado oficial. Aparentemente, depois de consulta entre os 15 generais do Alto-Comando do Exército, Nogueira acatou a alegação da defesa de Pazuello, segundo a qual não se tratava de manifestação política nem partidária, já que Bolsonaro está sem partido.


Não há como aceitar tal argumento, pois era óbvio o caráter político do evento, parte da campanha antecipada de Bolsonaro à reeleição. No alto do palanque, ambos agradeceram entusiasmados o apoio da multidão.

Do ponto de vista da manutenção da disciplina militar, o Exército cometeu um erro. Deveria ter punido Pazuello, nem que apenas com uma advertência formal. É o mínimo que as Forças Armadas costumam fazer em episódios dessa natureza. Basta lembrar o exemplo do então general da ativa e hoje vice-presidente Hamilton Mourão, removido de um cargo de comando depois do discurso em que criticou a então presidente Dilma Rousseff em 2015.

A decisão do comandante do Exército despertou uma preocupação legítima com o tipo de recado que transmite às tropas. Bolsonaro não poupa esforços para tentar sujeitar as instituições da República a seus desígnios. Já desafiou inúmeras vezes o Supremo Tribunal Federal, falou em “meu Exército” e insinuou que usaria a força dos militares para fazer valer as liberdades que julga ameaçadas pelas restrições impostas por governos locais em virtude da pandemia. Não para, também, de emitir sinais de que pretende ficar no poder, ainda que as urnas lhe sejam desfavoráveis em 2022, acenando desde já com denúncias de fraudes que, todos sabemos, são fantasiosas.

Há duas versões majoritárias para explicar a decisão do Exército. A primeira aponta para uma sujeição incondicional do Exército aos propósitos inconfessáveis de Bolsonaro. Essa versão não respeita a posição legalista que os militares vêm adotando de forma inequívoca desde a Constituição de 1988. Por mais confuso que seja o quadro político atual, essa teoria parece carecer de indícios mais concretos.

A segunda versão dá conta de que o Exército teria tentado impedir uma nova crise com o chefe de governo. O atual comandante, Paulo Sérgio Nogueira, chegou ao comando do Exército há dois meses, depois da crise que culminou na queda do então ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e dos três comandantes das Forças Armadas. Foi escolhido em respeito às normas de antiguidade no Exército e à revelia de Bolsonaro. Dias antes, defendera em entrevista uma política oposta à preconizada pelo presidente no combate ao coronavírus. Punir Pazuello, posição majoritária no Alto-Comando, significaria voltar a enfrentar Bolsonaro de modo explícito e abrir uma nova crise entre ele e o Exército. Nogueira teria preferido a cautela.

Melhor que essa tenha sido a verdade. Assim, a decisão não implica necessariamente que as Forças Armadas tenham se sujeitado ao projeto político bolsonarista. Até porque, num universo de 200 mil militares, há espaço para toda sorte de opinião e posição política.

Seja como for, diante da confusão e das especulações abertas pela absolvição de Pazuello, a sociedade espera agora os acenos na direção certa tanto dos comandantes das Forças Armadas quanto das polícias militares, outro foco de um sem-número de tentativas de mobilização promovidas pelo bolsonarismo.

Para transmitir os recados certos aos quartéis, quaisquer tipos de manifestação em apoio a ideologias ou projetos políticos não podem mais ser tolerados. Atos de insubordinação, menos ainda. Às vésperas de um ano eleitoral, não é aceitável que novos Pazuellos passem incólumes apenas porque se associam de modo incondicional àquele que ocasionalmente ocupa o poder.

Além disso, há cerca de 6 mil militares em cargos de confiança no governo. A possibilidade de envolvimento político de cada um deles é motivo para o Congresso dar mais celeridade ao exame da Proposta de Emenda Constitucional da deputada Perpétua Almeida (PCdoB-AC), que proíbe militares da ativa de ocupar cargos no governo. A presença de Pazuello no comício ao lado de Bolsonaro teria causado menos problema se ele estivesse na reserva. O próprio Exército não deveria poupar esforços para que ele fosse reformado o quanto antes.

As regras que vedam atos políticos aos militares da ativa existem porque preservam a essência da atividade deles: zelar pela ordem, pela democracia, pelas liberdades e pelos princípios constitucionais. Um país que sofreu durante anos as dores de uma ditadura militar conhece muito bem o custo do envolvimento das Forças Armadas na política. Não faz bem para elas. Não faz bem para o Brasil.

Convém não esquecer

Na véspera, dia 12, eu estava em Brasília. De madrugada, Carlos Castello Branco e eu fomos acordar o deputado Márcio Moreira Alves. Ninguém duvidava de que a tempestade ia desabar dentro de algumas horas. Nossa preocupação era saber se o Marcito tinha um esquema de fuga. Claro que tinha. Como apertar as cravelhas do arbítrio sem cair no ridículo? Era o que eu me perguntava, entre tantas interrogações e perplexidades.

Mas o discurso do Marcito era simples pretexto. Os acontecimentos tinham tomado o freio nos dentes, desde que se rompera a ordem constitucional em 1964. O primeiro ato era para durar seis meses e ponto final. Tudo voltaria à ordem democrática. Voltou? Uma ova! Com os freios nos dentes ou não, os acontecimentos conduzem os oportunistas de toda espécie. Chega um ponto em que fica difícil saber quem quer o quê.

O país se divide então entre vítimas e algozes. Muitas e poucos. Entre uns e outros, os espectadores. Há sempre o risco de bancar o Fabrice del Dongo. O herói de Stendhal não sabia que aquele pega-pra-capar era nada mais nada menos do que a batalha de Waterloo. Num país periférico, onde a história passa pelo ridículo sem se chamuscar, o espetáculo é de fato chinfrim. Bom. No dia seguinte, um agourento 13 de dezembro como hoje, só que de 1968, eu saí à noitinha do Jornal do Brasil.

Na praia do Flamengo, o táxi parou. Chovia fininho e triste. Pneu furado. E o carro não tinha estepe. Parece mentira, mas a realidade é inverossímil. Abrigado na porta do prédio, de repente me dei conta de que ali morava o Carlos Lacerda. Era o famoso triplex, de que a Última Hora tinha feito alarde. Subi até a cobertura. Uma empregada me abriu a porta. O dr. Carlos está lá em cima. Lá estava, sim, na bela biblioteca, sentado na cadeira de balanço. Sozinho.

A Frente Ampla tinha sido fechada em abril. O Carlos estava interessado em parapsicologia. Foi o nosso primeiro assunto. Depois, os anjos. Ele e eu, mera coincidência, tínhamos comprado um dicionário americano sobre anjos. Até que caímos na real. Sim, o AI-5. Ele achava que ia ser preso. E foi. O silêncio do telefone me afligia. Mais de uma hora depois, chegou o Renato Archer. Deixei lá os dois na conversa de gente grande. Fui ler o AI-5. Você já leu? Que coisa pífia, santo Deus! E aconteceu. No Brasil.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Bolsonaro esvazia comandante e põe Exército de joelhos

O capitão subiu a rampa com sete ministros militares. O loteamento se espalhou pelos escalões inferiores da máquina pública. Mais de seis mil fardados se penduraram em cargos civis.

Quem não ganhou emprego embolsou vantagens no contracheque. Os integrantes das Forças foram poupados da reforma da Previdência. Além de manter privilégios, arrancaram novos penduricalhos.

No mês passado, uma canetada autorizou militares da reserva a furar o teto constitucional. Alguns generais passarão a receber supersalários acima dos R$ 60 mil por mês.


O presidente nunca escondeu a regra do jogo: para manter as benesses, é preciso se curvar a ele e a seus filhos. No início do governo, o general Santos Cruz tentou contrariar interesses do vereador Carlos Bolsonaro. Puxou a fila dos demitidos antes de completar seis meses no cargo.

Outros oficiais toparam se humilhar para continuar no poder. Foi o caso do general Luiz Eduardo Ramos, chamado de “Maria Fofoca” e “Banana de Pijama” por um colega de gabinete. Ele engoliu os desaforos e foi promovido a chefe da Casa Civil.

Quando o governo começou a dar sinais de derretimento, o capitão elevou o tom das cobranças. Passou a exigir demonstrações públicas de apoio e ameaçou usar tanques contra prefeitos e governadores.

No fim de março, ele criou uma crise militar e derrubou o general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa. Agora esvazia o novo comandante do Exército, que assumiu há pouco mais de dois meses.

Bolsonaro montou uma armadilha para o general Paulo Sérgio Nogueira. Levou o ex-ministro Eduardo Pazuello, que é oficial da ativa, para um comício em seu favor. O comandante ficou emparedado: ou punia o subordinado, arriscando-se a ser demitido, ou fechava os olhos para a indisciplina, abrindo as portas para a anarquia militar.

O general aceitou ficar de joelhos para o capitão. Perdeu a autoridade e ainda pode vir a perder o cargo. Basta que ele contrarie a próxima vontade do chefe.

Sem memória , vão-se os valores, ficam as mentiras

Pior que esquecer a história é distorcê-la para avivar o ressentimento.

Distorcer a história é ainda pior do que esquecê-la. O perigoso são as meias memórias que os políticos utilizam para avivar o ressentimento e os medos.

[Os políticos] estão mais preocupados com os custos de suas decisões. Estamos lidando com uma geração de políticos que carecem há muito tempo de uma educação humanista como a que nós tivemos. Não há nada mais trágico do que um homem que perdeu a memória

Peter Brown, autor de ‘O Mundo da Antiguidade Tardia’

Vírus da anarquia militar ganha passe livre nos quartéis

Haverá alguma reação militar à decisão do general Paulo Sérgio Nogueira, comandante do Exército, de arquivar o procedimento administrativo instaurado contra seu colega Eduardo Pazuello, que participou no Rio de manifestação político-partidária ao lado do presidente Jair Bolsonaro?

Improvável. Nogueira poderia ter punido Pazuello com uma advertência oral, ou por escrito, ou com até 30 dias de prisão como previsto no código do Exército. A maioria dos generais do Estado Maior do Exército defendeu uma dura advertência por escrito. Nogueira escolheu a pior alternativa: não fazer nada.


Bolsonaro enquadrou o Comandante do Exército. A partir de agora, e com razão, poderá chamar o Exército de “meu Exército”. E exigir que os militares graduados só se refiram a ele como “o Comandante Supremo das Forças Armadas”. Pazuello ganhou uma nova sinecura no governo. Nogueira desmoralizou sua Arma.

Haverá choro e ranger de dentes entre generais da ativa e da reserva, mas por enquanto apenas isso. Embora tenha ouvido seus pares pelo menos três vezes desde que Pazuello rasgou o Regimento Disciplinar do Exército, cabia a Nogueira, e somente a ele, a palavra final. Na prática, a palavra final foi de Bolsonaro.

O vírus da anarquia militar ganhou passe livre para circular dentro dos quartéis. Se um general da ativa pode ignorar o que está escrito no Regimento Disciplinar do Exército, se o Comandante do Exército pode ignorar a transgressão cometida por um general, por que soldados, cabos e demais escalões não podem?

Eles também são filhos de Deus – ou do diabo.

No Curralzinho da História

Chamar o Bolsonaro de fascista pode até ser um elogio. Verdade. Não se espantem. O fascismo além de todos os erros que cometeu, de toda a ideologia arbitrária, segregacionista e economicamente predadora foi um partido organizado. Havia todo um ritual, patético digamos a verdade, mas era um ritual. Havia uniformes, gestos com os braços e um culto ao Duce que passava longe dos encontros no cercadinho do planalto. Bolsonaro se veste mal, fala mal, não tem preparo nem para ser nem líder fascista. Mussolini enfrentou uma guerra que acabou com o que existia da Itália, levou à morte milhares de pessoas e ele terminou pendurado na Piazzale Loreto , em Milão pelos executado pela Resistência.

Com tudo o que criou e sedimentou- até hoje existe um partido de extrema direita na Itália- acabou pendurado, mas não foi esquecido pela História, apesar de estar no capítulo dos tiranos derrotados. Aliás, se formos ver pela História, quase todos os tiranos acabam derrotados.

Adolf Hitler quase não pintava pessoas nos quadros

Chamá-lo também de nazista é ainda mais forte. Perto de Adolph Hitler, Bolsonaro não seria capaz nem de ser convocado para alimentar o pastor alemão que tomava conta do Castelo na Floresta Negra. O oficial destinado a essa função tinha que passar por um período de preparação rigoroso. Afinal, esses animais mereciam o carinho e o respeito do Führer e isso exigia um atendimento padrão Fifa. Bolsonaro lida com emas e jacarés, quis se apossar de um cachorro perdido e acabou tendo que devolver o cão, mas tem muitos animais irracionais no seu governo.

Devo dizer que isso não seria suficiente para trabalhar no Reich. Hitler formou um verdadeiro império com a ajuda de industriais alemães, juízes e forças armadas para derrotar o capital e a existência dos judeus na Europa. Foi um extermínio que misturou uma decisão econômica e política meio pífias com um sadismo criminoso que fez levantar o apoio de boa parte da Alemanha. Levados pelo medo ou não foi o que aconteceu. Além do espetáculo ser medonho, ele tinha elementos que ajudavam a reunir apoiadores. A motociata do Bozo foi ridícula apesar dele se inspirar em Mussolini que adorava se mover em duas rodas.

Pirotecnia a parte, o governo Bolsonaro é praticamente nada. Dá trabalho, é verdade. O Supremo, o Congresso, a sociedade e agora até a imprensa oficial têm que ficar alertas o tempo todo para impedir que o pior seja feito. Mas é um estilo de governo cafona, primário, desorganizado, elementar, rudimentar e violento. E foi eleito pela doença antipetista inventada e pelo desejo de um neoliberalismo cruel e falido. Prega a morte porque a morte é a única coisa segura que temos. Não precisamos questioná-la. Ela vai acontecer. Isso facilita o raciocínio de quem quase não o usa. A morte tem seu efeito. Ajuda nos números, diminui a divisão, afasta os inimigos. Morrer é um projeto, talvez o que se pareça mais com o italiano e o alemão aqui citados antes. Mas, desculpem-me todos, falta estilo. Estilo cruel, mortal, assassino e doentio. Mas falta. Se isso é bom ou ruim vamos saber daqui pra frente. Começamos bem com o Exército se recusando a punir Pazuello. A hierarquia é uma coisa que os militares prezam muito. Essa sim foi o que podemos chamar de quebra de patente. Os generais obedecendo ao capitão. Já obedeceram a um pintor. Vejam só, a História é danada.

O capitão dobrou os generais. O próximo passo é transformar o Exército em milícia

Se havia alguma dúvida sobre a posição do Exército em relação a Jair Bolsonaro, foi eliminada na tarde desta quinta-feira. Com a decisão de não punir o general Eduardo Pazuello por ter subido ao palanque de um ato de apoio ao presidente, no Rio de Janeiro, o comandante da principal força militar do país demonstra que os generais, afinal, não são capazes de conter o capitão. 

Os regulamentos militares são claríssimos ao proibir a participação de oficiais da ativa em "manifestações coletivas, tanto sobre atos de superiores quanto as de caráter reivindicatório ou político.” Portanto, ao consignar em nota oficial que "não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar por parte do general Pazuello", o comando do Exército passa algumas mensagens à própria tropa e à sociedade brasileira.

Ao Brasil, que não espere do Exército nenhum esforço de proteção à ordem democrática ou ao estado de direito se, do outro lado, forçando os limites, estiver Jair Bolsonaro. Se não foi capaz de contê-lo nem para proteger um pilar básico da força, o respeito a hierarquia e aos códigos militares; se aceitou se humilhar diante do presidente num impasse em que tinha a seu favor uma regra cristalina e inequívoca, não há por que supor que o comandante terá força para fazê-lo quando estiver em jogo alguma questão politicamente difusa, do tipo que se justifica pelas narrativas delirantes de Bolsonaro.

À tropa, o recado é claro. Cabos, soldados, majores, tenentes, coronéis, estão todos liberados para fazer reivindicações salariais, contestar as regras do comando ou mandar às favas o regulamento disciplinar do Exército. A partir de agora é lícito pensar que, se Pazuello pode, eles também podem. As pilhas de processos disciplinares que se acumulam nas mesas dos comandantes podem ser arquivadas ou jogadas no lixo, porque a partir de agora existe uma nova regra: quem tem costas quentes pode promover a anarquia, que está tudo bem. 

Era público e notório que Bolsonaro não aceitava nenhuma punição para Pazuello. E bancou a aposta ao nomeá-lo para um cargo no Palácio do Planalto. 


Em reação a esses movimentos, há dias generais de vários segmentos vinham procurando a imprensa, diretamente ou por meio de interlocutores, para dizer que não havia hipótese de Pazuello não ser punido. Podia até ser uma punição branda. O que não podia era acabar tudo em "pizza", como se apostava entre os recrutas. 

Mas as poucas informações que vazaram sobre a reunião do Alto Comando do Exército, na última quarta-feira, já indicavam que o desfecho do caso seria diferente. Quando um integrante do Alto Comando disse à repórter Jussara Soares que a decisão do comandante seria acatada por todos como uma “decisão do Exército, independentemente da posição pessoal de cada um”, estava claro que os generais entendiam que teriam de se dobrar à vontade de Bolsonaro. 

Agora, não vai faltar quem se apresse a enviar a imprensa recados na direção contrária. Vão dizer que Bolsonaro é, em última instância, o o comandante máximo das Forças Armadas. Dirão ainda que, se ele decidisse revogar a decisão de Paulo Sérgio, o prejuízo à imagem do Exército seria ainda maior. 

O Exército já desafiou a autoridade de outros presidentes para se preservar, quando achou conveniente. Quando Dilma Rousseff exigiu uma punição para o então general Hamilton Mourão, que em 2015 convocou militares para um "despertar patriótico" e para a mudança do status quo, o comandante, general Villas Boas, negociou uma espécie de punição branca e transferiu Mourão de um comando militar para um setor burocrático, sem tropas. Em 2017, quando Mourão novamente desafiou os militares a resolver "o problema político" do país, o presidente da República era Michel Temer, e não houve nenhuma punição.

Um Exército que não obedece a um comando único, em que cada um faz o que quer, já entra na guerra derrotado. Um Exército em que oficiais priorizam interesses políticos e pessoais em detrimento do todo não serve mais ao país. Transforma-se em partido político. E, armado, facilmente transmuta-se em milícia. 

Em última instância, é esse o preocupante sinal enviado ao Brasil pelo desfecho do caso Pazuello. Depois de entrar no governo, o Exército vai se transformando em partido. A continuar assim, o próximo passo é se transformar em milícia. 
Malu Gaspar

quinta-feira, 3 de junho de 2021

Brasil do pleno emprego

 


Bolsonaro fala em rede nacional como presidente sem comprovação científica

Em rede nacional de rádio e televisão, Bolsonaro reagiu ao cerco que se forma em torno do seu projeto de reeleição com um discurso de presidente sem comprovação científica. A boa notícia é que o índice de desfaçatez do orador não aumentou. Continua nos mesmos 100%. Falou mal dos outros, bem de si e do seu governo. Teve a voz abafada pelo som das panelas, trilha sonora do resto do seu mandato.

Bolsonaro despejou no tapete da sala dos lares brasileiros uma miscelânea confusa de temas —da Copa América à Ceagesp, estatal de alimentos de São Paulo. O enchimento de linguiça obscureceu as duas poses principais. O orador celebrou como conquista pessoal o bom resultado da economia no primeiro trimestre e prometeu vacinar até o final do ano todos os brasileiros que desejarem. No primeiro caso, soou como oportunista. No segundo, como usurpador.


Bolsonaro exagerou no oportunismo ao insinuar que o PIB cresceu acima do esperado por conta dos seus conselhos para que os "maricas" não ficassem em casa. Deve-se o grosso da reação da economia à alta das commodities no mercado internacional, não ao consumo dos brasileiros que são forçados a desafiar o vírus cotidianamente.

O capitão usurpou realização alheia ao prometer vacinas como se a CPI da Covid não tivesse descoberto nada sobre os 130 milhões de doses que ele impediu que o Ministério da Saúde comprasse da Pfizer e do Butantan em agosto de 2020. Oito em cada dez doses de vacinas espetadas nos braços dos brasileiros saíram do Instituto Butantan. Confundindo amnésia com consciência limpa, Bolsonaro finge que nunca disse que jamais compraria a "vacina chinesa do Doria".

O presidente repetiu a lorota segundo a qual "o Brasil é o quarto país que mais vacina no planeta". Essa fantasia considera o número absoluto de brasileiros que receberam a primeira dose da vacina. A imunização só é obtida após a segunda dose. E o sucesso da vacinação é medido pelo percentual da população vacinada. Hoje, receberam a primeira dose 22% dos brasileiros. As duas doses, menos de 11%.

A ansiada imunidade coletiva só será alcançada depois que mais de 70% dos brasileiros forem vacinados. Graças ao atraso da entrada do Brasil na corrida por vacinas, a imunização caminha em ritmo de lesma bêbada. Em vez de avançar, recua. Em maio, aplicaram-se 4,1 milhões de doses a menos em comparação com o mês anterior. Queda de 16%.

Fantasiado de Zé Gotinha, Bolsonaro demonizou os governadores. "O nosso governo não obrigou ninguém a ficar em casa, não fechou o comércio, não fechou igrejas ou escolas e não tirou o sustento de milhões de trabalhadores informais." Ao confundir ciência com ficção científica, o orador se abstém de informar que as restrições sanitárias são impostas pelo vírus, não por governadores malvados.

As pesquisas, o barulho das panelas e os gritos de "fora, Bolsonaro" sinalizam que é cada vez menor o número de brasileiros dispostos a suportar ofensas à inteligência alheia.

E tome Copa


Estamos na vanguarda da estupidez
Luana Araújo

Algo no ar

Há algo no ar além dos aviões de carreira
Barão de Itararé

No dia 2 de julho de 2012, dois caças supersônicos Mirage F-2000 da Força Aérea Brasileira sobrevoaram a Praça dos Três Poderes tão baixo que estilhaçaram todos os vidros do prédio do Supremo Tribunal Federal (STF). O fato se repetiria, não em forma de acidente, caso o desejo do presidente Bolsonaro se realizasse.

Irritado com uma decisão do Supremo, o presidente revelou a pessoas próximas que gostaria de dar um susto nos ministros, fazendo com que os novos caças Gripen dessem um voo rasante sobre o prédio. O mais próximo disso aconteceu no dia 21 de outubro do ano passado, quando os novos F-39E Gripen foram apresentados em voo sobre a Esplanada dos Ministérios, sendo ouvidos na sala em que o hoje ministro do STF Nunes Marques estava sendo sabatinado pelo Senado.


O desejo do presidente não foi atendido, em mais um episódio do que está sendo conhecido nos meios militares como bullying de Bolsonaro, que quer impor suas vontades às Forças Armadas. Os generais do Alto-Comando do Exército, reunidos ontem para debater a situação da indisciplina do general de divisão da ativa Eduardo Pazuello, decidiram não anunciar a decisão no momento.

Aproveitarão o feriado para amadurecer a tendência de puni-lo, em clima de indignação com a atitude do presidente de proteger seu ex-ministro da Saúde, em claro confronto com a instituição a que pertence. Embora o vice-presidente Hamilton Mourão tenha falado que a nomeação de Pazuello como assessor diretamente ligado ao presidente na secretaria de Assuntos Estratégicos não interferirá na sua punição, que ele defende, ela é um recado do presidente ao Exército.

Evidente que um general da ativa investigado por indisciplina não poderia ser nomeado para nenhum cargo, muito menos um diretamente ligado ao presidente da República, a menos que ele queira protegê-lo e impor sua condição de comandante em chefe das Forças Armadas para pressionar o comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira.

Bolsonaro não tem limites e não respeita nada nem ninguém. Ou você o aceita como é, ou será confrontado sempre, não apenas o STF, o Congresso, mas até as instituições militares a que ele é ligado, sempre marcado por indisciplina e insubordinações. A visão dele da Presidência da República é totalitária, acha que pode mandar em todo mundo. Caso Pazuello não seja punido, podem começar a surgir manifestações em escalões inferiores das Forças Armadas, que sempre foram proibidas.

Há um movimento muito claro de insubordinação incipiente, mas preocupante, nas polícias militares, como no caso do guarda de Goiás que queria obrigar um civil a tirar do carro um adesivo de “Bolsonaro genocida” e foi afastado. Em Pernambuco, o comandante da PM caiu, depois da violência excessiva contra manifestantes que estavam nas ruas contra o presidente. Cenas recentes de formatura de turma da Polícia Federal em tons marciais e pronunciamentos de coronéis da PM do Distrito Federal usando o mesmo slogan de Bolsonaro —“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”— reforçam a sensação de que a influência bolsonarista nos quartéis está se alastrando. Se a atividade política for liberada implicitamente, a chance de acontecer uma crise atrás da outra é grande. Até porque Bolsonaro incentiva a participação de militares na política.

Se Pazuello for punido, e se Bolsonaro cancelar a punição, estará desmoralizando o comandante do Exército. Já tivemos graves crises por causa de indisciplina militar, de embates entre presidentes da República e o Exército. A crise de 1955 é a mais clara, quando o general Lott, ministro da Guerra, reagiu contra um coronel que, mesmo à paisana, fez um discurso num velório contra a posse de Juscelino Kubitschek, recém-eleito presidente da República.

O coronel Bizarria Mamede acabou preso, e sua prisão gerou uma crise política que derrubou presidentes, até que Juscelino tomasse posse no tempo correto. Há ainda uma dúvida jurídica se o presidente da República, na condição de comandante em chefe das Forças Armadas, tem capacidade, pela Constituição, de interferir numa questão disciplinar de uma das Forças, que têm suas próprias regras e comandantes. Há quem considere que ele pode apenas indultar o punido, pois, no caso de um general de divisão, nem mesmo anistiar poderia, pois a anistia só pode ser concedida a cidadãos comuns, não a funcionários do Estado. Tomando esse caminho tortuoso, Bolsonaro estaria buscando uma crise institucional.

Bolsonaro semeia a anarquia militar para reeleger-se. Ou então…

De anarquia militar, o presidente Jair Bolsonaro entende. É doutor na matéria. E como dela aproveitou-se no passado para escapar de ser expulso do Exército e ganhar a patente de capitão, quer aproveitar-se dela mais uma vez para reeleger-se no ano que vem. Ou, se perder, para recusar-se a aceitar o resultado.

Presidente da República que nomeia para ocupar cargo de destaque, com direito a gabinete no Palácio do Planalto, general da ativa investigado pelo Exército por violar o código de disciplina da Arma, que recado manda às Forças Armadas? Simples. Anarquia militar a seu favor, pode e será bem-vinda.


O general Eduardo Pazuello, uma figura que se tornou bizarra desde que veio a público, perdeu o Ministério da Saúde para servir a Bolsonaro e ganhou um novo emprego para servir a Bolsonaro. Está-se para ver um general tão vassalo, desfrutável, medíocre e burlesco quanto ele. Burlesco, não, porque nem risos desperta.

A certa altura do avanço da pandemia no ano passado, dado que o governo deixou-a livre para matar quem tivesse de morrer, foi preciso que rolasse alguma cabeça para salvar a do presidente. Então rolou a do general que não metia medo a ninguém. Pegou mal para o Exército, mas e daí? Para Bolsonaro, pegou bem.

Ao pilotar uma moto no Rio, subir num carro de som e discursar para motociclistas em uma manifestação político-partidária, outra vez Pazuello prestou-se ao papel de cumprir a vontade do seu chefe. Afinal, manda quem pode, obedece quem tem juízo. Ali, o general desertou do Exército e aderiu à força inimiga. Um Calabar!

O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Noronha, encontra-se entre a cruz e a espada. Será crucificado por seus pares se não usar a espada contra Pazuello. Há maioria no Estado Maior do Exército favorável à punição de Pazuello com o rigor que o caso exige. No mínimo, que ele seja duramente censurado por escrito.

Intimidado por Bolsonaro, Noronha protela sua decisão. Cogita limitar-se a advertir Pazuello oralmente, sem que nada venha a constar na sua folha corrida depois que for para a reserva. Seria a punição mais branda prevista nos regulamentos. Equivale à reprimenda que um pai dá num filho travesso. Nem palmada é.

E quando o guarda da esquina, ou o soldado raso, concluir que um fardado armado jamais será punido de vez que o general bolsonarista não foi? Ou ao general é permitido desrespeitar regulamentos, mas ao soldado não? O exemplo de insubordinação de Bolsonaro no seu tempo de quartel começa a dar frutos.

Era 14 de maio último, quando o deputado Major Vítor Hugo (PSL-BA) deu início a mais uma live no Instagram, apareceu Luan Ferreira de Freitas Rocha, 3.º sargento de Material Bélico da ativa, que trabalha na Companhia de Comando da 15.ª Brigada de Infantaria Mecanizada, com sede em Cascavel, no Paraná.

Como conta Marcelo Godoy em O Estado de S. Paulo, Luan dividiu a tela com o deputado para reclamar do aumento de tempo de permanência como terceiro-sargento imposto aos graduados pela chamada reforma da previdência dos militares, que os obrigou a ficar mais cinco anos no posto antes de se aposentar.

O sargento quer a criação da graduação de “sargento-mór”, logo abaixo dos subtenentes. Diz que seus colegas que trabalham em São Paulo não conseguem viver com o que ganham. Se os generais do Planalto podem furar o teto do funcionalismo e ganhar até 69% de aumento, por que os sargentos devem ficar à míngua?

Foi com um discurso parecido com esse que surgiu Bolsonaro. Como seus superiores não lhe deram ouvido, ele planejou atentados a bomba a unidades militares do Rio.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Pensamento do Dia

 


Não se trata de genocídio, mas de crime contra a humanidade

Na candente retórica da política não configura crime qualificar o presidente da República de genocida em razão de sua estratégia de amistosa convivência com o coronavírus. Tampouco é crime desejar a sua morte, pois a causa supralegal do “direito à perversão” isenta de punição quem deseja o falecimento de outrem, desde que não faça preparativos para tanto e, por óbvio, muito menos atue para consumar o ato.

Ainda que recorrente como palavra polissêmica nas manifestações populares, a imputação leiga de genocídio estiliza a legítima crítica pública sem encontrar adequação técnica no Direito Internacional, mas é indubitável que, à luz da boa doutrina, tal conduta mais se identificaria com a que vem definida como crime contra a humanidade.


Criados pelo jurista polonês Raphael Lemkin, em 1943, com a união das palavras grega génos (família, tribo, raça) e latina caedere (matar) a partir dos episódios de extermínio de armênios e judeus, os termos genocídio/genocida foram introduzidos no Direito pelo Estatuto de Roma, tratado que estabeleceu o Tribunal Penal Internacional (TPI), em 1998, do qual o Brasil se tornou signatário pelo decreto de número 4.388/2002.

O artigo 6.º define o crime de genocídio como “qualquer um dos atos que a seguir se enumeram, praticado com intenção de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, enquanto tal: a) Homicídio de membros do grupo; b) Ofensas graves à integridade física ou mental de membros do grupo; c) Sujeição intencional do grupo a condições de vida com vista a provocar a sua destruição física, total ou parcial; d) Imposição de medidas destinadas a impedir nascimentos no seio do grupo; e) Transferência, à força, de crianças do grupo para outro grupo”.

Os crimes contra a humanidade estão conceituados no artigo 7.º, em que se tipificam as iniciativas de ataque sistemático e generalizado a populações civis, sem distinção de características físicas ou culturais, entre eles “atos desumanos de caráter semelhante, que causem intencionalmente grande sofrimento, ou afetem gravemente a integridade física ou a saúde física ou mental”.

Nessa barbárie se enquadraria a performance do presidente brasileiro – suficiente para levá-lo às barras do TPI, a exemplo do general croata Ante Gotovina, do ditador líbio Muamar Kadafi e do ex-ministro queniano William Samoei Ruto.

Os “atos desumanos” do presidente do Brasil estão demonstrados em entrevistas, lives, memes e outras manifestações tão trágicas quanto sarcásticas, para sustentar uma política sanitária na qual especialistas identificam, antes de descaso com a saúde pública, uma campanha pró-vírus.

Não se trata apenas de manifestações pessoais, mas de atos oficiais – como demonstrou um levantamento de 3.049 normas federais para a covid-19, analisadas pelo Centro de Pesquisas e Estudos de Direito Sanitário da Universidade de São Paulo e pela Conectas Direitos Humanos.

O incremento descontrolado do coronavírus se deu por ações e omissões. Como um mecenas da doença, o presidente não equipou o serviço de saúde para o combate à pandemia e boicotou medidas recomendadas pelas organizações internacionais, como o confinamento, o uso de máscara e a restrição a aglomerações, tanto quanto deixou de adquirir vacinas em tempo hábil, e ainda pôs em dúvida a eficácia de imunizantes, ao mesmo tempo que, como um taumaturgo desastrado, tentou sobressair com a receita de remédios ineficazes, a buscar um quiproquó diversionista de “tratamento precoce” – contradição terapêutica e semântica. Que mais poderia fazer, se, como justificou, “não é coveiro?”

A coreografia de abre-alas da pandemia, apregoando laissez-faire, laissez-aller, laissez-passer, ou deixai fazer, deixai ir, deixai passar, foi incentivo para a população viver e trabalhar como se o perigo fosse uma “gripezinha” que segrega um agente infeccioso só maléfico para os predestinados à morte, aos portadores de comorbidades e, no linguajar chulo, aos “maricas”.

A degenerada epidemiologia do Planalto consistiu em deixar a natureza seguir seu curso, o vírus abater os que, em darwinismo imunológico, não adaptassem o organismo à resistência ao mal, enquanto a maioria ficaria naturalmente refratária, e sobreviesse a chamada imunidade de rebanho – ao custo, quem sabe, de alguns milhões de vidas. De quebra, a economia não sofreria tanto e a reeleição do messias estaria assegurada.

O conjunto da obra aponta para o crime contra a humanidade. Advogados brasileiros já protocolaram pedido de investigação no Tribunal Penal Internacional. Embora lento, pois segue o rito do indispensável devido processo legal, com audiências de instrução e amplo direito de defesa, o inquérito do TPI pode declarar a infâmia de uma administração que elegeu a morte como opção preferencial.

Tudo considerado, porém, não se pode negar que “#genocida” tem força de palavra de ordem e internacionaliza o problema, ao correr o mundo como motivo já invocado para intervenção estrangeira no Brasil.

A catimba de Bolsonaro

Vai ter Copa. Sete anos depois da controvérsia envolvendo a realização da Copa do Mundo no Brasil, e em plena pandemia, nos vemos na situação surrealista de sediar um evento futebolístico que dois vizinhos entenderam ser inoportuno abrigar.

E por quê? É simples: porque é desse tipo de coisa que gosta Jair Bolsonaro, é esse tipo de evento, e de confusão, que move o presidente do Brasil. Decisões administrativas, montagem de gabinetes de crise, planejamento de políticas públicas, definição de diretrizes de Estado, tudo isso aborrece e entedia o capitão.

A discussão a respeito da realização da Copa América no Brasil é um exemplo acabado de como o modo caótico de decisão de Bolsonaro nos trouxe até aqui. Ela desnuda a forma de pensar e decidir do presidente. Mostra que qualquer esforço narrativo para mostrá-lo como alguém que agora se preocupa com vacinas e com razoabilidade é apenas maquiagem.

Bolsonaro levou meses para decidir cobrar de seu ministro da Saúde, o agora premiado Eduardo Pazuello, alguma providência para que o Brasil estivesse bem posicionado na corrida pelas vacinas.

Mas bastou um telefonema de um cartola para que ele mobilizasse todo o governo para aceitar realizar aqui o campeonato futebolístico que Colômbia e Argentina recusaram por razões políticas, sociais e sanitárias. Razões essas presentes no Brasil, que vive o início de uma terceira onda de Covid-19.

Em sua compreensão tosca e maniqueísta do que seja governar e, principalmente, do que sejam trunfos possíveis para sua reeleição, Bolsonaro acha que trazer um evento festivo para o país pode ajudar a mudar o clima a seu favor.

Ele sentiu o calor das ruas no último fim de semana. Percebeu que sua batata está assando junto a um eleitorado cansado de não ver acelerar o ritmo da vacinação, que ainda não enxerga na carteira de trabalho e no prato os ventos de recuperação econômica que começam a soprar nos indicadores macroeconômicos.

Nada melhor, diante desse quadro, do que uma bola rolando, não é mesmo? Aqueles que sempre encontrarão um jeito de defender qualquer nonsense que o presidente faça dizem que não há diferença entre a Copa América e outros torneios que já estão ocorrendo, inclusive a Libertadores.

Mas os cientistas são unânimes em apontar a inconveniência de promover um entra e sai de delegações quando tentamos, sem sucesso, promover uma barreira sanitária que impeça a entrada de novas variantes do vírus, justamente no momento em que a curva de casos volta a subir.

Além disso, transparece desse episódio algo essencial a compreender no momento em que uma CPI avança na discussão de responsabilidades por nosso fracasso na pandemia: ele decorre do pouco-caso com que o presidente da República encara a doença, as vidas daqueles que governa e as mortes que continuam a se suceder aos milhares.

Faltou vacina porque Bolsonaro não quis comprar e não comprou enquanto pôde. E, por ele, a vida segue, e a bola corre, porque não há nada com que ele se importe acontecendo fora das quatro linhas do campo da política, aquele único em que ele sabe jogar.

Que todos — senadores, eleitores, ministros do Supremo, procuradores da República — extraiam desse episódio que é puro suco de bolsonarismo uma lição definitiva, que precisará estar no centro de qualquer estratégia para 2022: Bolsonaro não vai se moderar, não vai se conscientizar, não vai se importar. Seguirá governando impelido pelo objetivo único do poder para si e para os seus.

É essa a compreensão que tem de nortear o relatório da CPI no nevoeiro de mentiras, empulhações e tentativas de dourar a história da pandemia que paira sobre depoimentos cada vez mais dispersos. Ou a investigação não sairá do zero a zero num jogo ruim.

Subversão ao vivo em verde-oliva

 

A soberba e a subversão da ordem imperam, absolutas, desde que Bolsonaro subiu ao Planalto. Cabe à cidadania lutar contra o arbítrio em todos os níveis, do guarda da esquina ao presidente da República 
Roberto Romano

Os milicos que se cuidem

Foi num dia de semana à tarde, em 1970, auge da ditadura —me contaram. Um garoto de seus 15 anos ganhou uma flautinha de plástico e foi à praia com ela. Sentado na areia, numa Ipanema vazia, tentou tirar o Hino Nacional —afinal, ouvia-o todo dia. Ao extrair algo parecido com a frase inicial, percebeu uma sombra entre ele e o Sol. Olhou para cima e viu um sujeito forte, bronzeado, de cabelo reco. O homem rugiu: "Por que está tocando isso?". O garoto, surpreso, ficou mudo. Não havia resposta. O homem emendou: "Estou ali naquela barraca escutando tudo. Se continuar com gracinha vai se dar mal!". Um vendedor de mate sussurrou para o garoto: "Coronel do Exército".

É típico das ditaduras se apoderarem dos símbolos nacionais. O Brasil de Médici era uma diarreia verde-amarela. Uma geração de escolares foi submetida a anos de bandeira e hino diários, de pé, no pátio do colégio. Talvez por isso, um garoto de cabelo comprido tocando o Hino Nacional na praia pudesse ser um deboche, uma contestação.

O governo Bolsonaro não é uma ditadura — ainda. Mas, em algumas matérias, já se comporta como. Assenhorou-se, por exemplo, das cores nacionais e de conceitos como "povo", "democracia" e "liberdade" e da expressão "homem de bem". São "homens de bem" os que, contra a corrupção do PT, apoiam o extermínio de brasileiros pela Covid, promovido por ele.

Mas, agora, Bolsonaro se superou. Apropriou-se daquele que se considera o detentor do monopólio dos símbolos —o próprio Exército. Do mais tosco soldado ao mais empafiado general, Bolsonaro embolsou-os com benesses, empregos, cargos e uma ideologia intangível, em nome da qual passou a ditar-lhes o regulamento e fazê-los abdicar até de uma de suas cláusulas pétreas: a disciplina.

Os milicos que se cuidem. Um dia, ainda veremos Bolsonaro de dedo no nariz de um deles por tocar o Hino numa flautinha de plástico.

Essa Copa é nossa, Brasil

 


Somos todos idiotas

Sendo uma das idiotas que não saem de casa, na gentil descrição do senhor Presidente da República, tenho tido muito tempo para pensar na vida; o que me leva, invariavelmente, a concluir que, num mundo de idiotas, o melhor a fazer é não pensar. 

Todos nós, idiotas, estamos cansados. Do isolamento e das restrições da pandemia, da solidão e da monotonia, mas, sobretudo, das notícias que nos chegam a respeito dos outros idiotas, aqueles que se rebelam contra as máscaras, não respeitam distanciamento social e acham que vírus se combate no grito. 

Eles não aprenderam que, além dos cientistas que desenvolvem vacinas, ninguém pode fazer nada de concreto contra uma pandemia. 


Nós idiotas que ficamos em casa fazemos o possível para evitar que o vírus circule. É pouco, de fato, mas é o que podemos fazer. Ficar em casa quando se pode ficar em casa não é desdouro nem falta de coragem, é consciência social: quanto menos gente houver nas ruas menos o vírus estará em circulação e menos pessoas serão contaminadas. 

Não parece difícil de explicar, mas, pelo visto, é impossível de entender. Há alguma mutação genética ou ausência de atividade cerebral que impede que os idiotas, aqueles, compreendam essa verdade basilar. Um dia eles ainda vão ser estudados pela Ciência. 

A nossa idiotice de isolados é um sentimento tingido pela melancolia, intenso mas inofensivo. Passamos os dias trabalhando, lendo, cozinhando, lavando louça, participando de lives, cuidando de plantas e de bichos, refletindo e torcendo para que haja vacina logo para todo mundo. 

Enquanto isso o idiota lá desdenha das máscaras, aglomera, voa de helicóptero, faz churrasco, anda de moto, cavalga pela Esplanada dos Ministérios e oferece ao mundo o espetáculo da sua estupidez relinchante e orgulhosa de si mesma. 

Genocida.
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Desde os tempos em que trabalhei em Brasília, numa outra encarnação, eu já sabia que educação, caráter e hombridade não são requisitos básicos para assumir cargos importantes na administração pública. Mas eu ainda guardava uma ilusão solitária, e imaginava que era preciso ter um mínimo de inteligência e de sofisticação intelectual para ser Ministro das Relações Exteriores.
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A Mauritânia fica na costa africana, ao Norte, logo abaixo do Marrocos e colada à Argélia, em pleno Saara: sua capital Nouakchott, com cerca de um milhão de habitantes, é a maior cidade do deserto. 

Eu não sabia disso, e não foi por falta de interesse na região, porque antes da chegada do Exército Islâmico ao Mali cheguei a fazer planos de viajar para o país, ali ao lado. Eu também não sabia que a Mauritânia só aboliu a escravidão oficialmente em 1981 e que conserva o antigo hábito berbere de engordar as mulheres: meninas com 8 ou 9 anos são obrigadas a beber leite de camelo aos litros e, aos 12, já são obesas de 30 anos. 

Como idiota que sou, tenho fugido da vida real mergulhando em documentários, e foi no canal Tracks, no YouTube, que encontrei uma série holandesa sobre os países do Saara. Ela é apresentada por Bram Vermeulen, e está em inglês; há opção de legendas automáticas. O Tracks é um aglutinador de conteúdo que reúne documentários sobre o mundo todo realizados por emissoras de diversos países, e tem uma coleção extraordinária de vídeos.
Cora Rónai

Governo minúsculo

Um presidente de verdade, unificaria o país, pacificando-o. Visitaria não os palanques, mas os hospitais. Renderia homenagens a médicos e enfermeiros. Confortaria as famílias dos mortos. Pregaria a vacinação. O "despresidente" Bolsonaro faz tudo ao contrário. Muitos imaginam que o inquilino do Planalto sofre de insanidade. Engano. Ele aproveita cada segundo dela. 

O guarda da esquina está de volta

O Ato Institucional número 5, que em dezembro de 1968 fez a ditadura ainda branda tirar a máscara e revelar sua face mais cruel, causou assombro ao então vice-presidente Pedro Aleixo (PSD-MG).

Ele foi o único que votou contra a adoção do ato na reunião comandada pelo presidente Arthur da Costa e Silva, um general bonachão, que só lia palavras cruzadas e se dizia democrata.

Aleixo alegou na ocasião: “O problema de uma lei assim não é o senhor [Costa e Silva], nem os que com o senhor governam o país. O problema é o guarda da esquina”.


Acertou na mosca, como se viu a partir dali e até que a ditadura se esgotasse em janeiro de 1985. A anarquia agitou os quartéis. Os mais pavorosos crimes foram cometidos por soldados e generais.

Com uma democracia ainda plena, embora ameaçada por um ex-capitão afastado do Exército por indisciplina e órfão assumido da ditadura de 64, o guarda da esquina reapareceu.

Foi visto, ontem, em Goiânia, ao prender o professor da rede pública estadual e secretário estadual do Partido dos Trabalhadores (PT) de Goiás, Arquidones Bites Leão.

Com a farda da Polícia Militar, o guarda exigiu que o professor retirasse do capô do seu carro uma faixa onde estava escrito: “Fora Bolsonaro Genocida”.

Como o professor não o fez, o guarda leu para ele um trecho da Lei de Segurança Nacional que proíbe ofensas ao presidente da República e a um grupo limitado de autoridades.

Em seguida, deu-lhe voz de prisão e levou-o preso para a sede da Polícia Federal, onde o professor foi interrogado e libertado mais tarde. O guarda de Goiânia tem fotos com Bolsonaro.

O que tanto Aleixo temeu à sua época começa a repetir-se 53 anos depois aqui e acolá.

A anarquia militar de Bolsonaro

O vice-presidente Hamilton Mourão defendeu a necessidade de punição do general Eduardo Pazuello dizendo que é preciso “evitar que a anarquia se instaure dentro das Forças”.

Santas palavras. A partir da Proclamação da República, em 1889, a anarquia militar empesteou a política brasileira do século XX com pelo menos 14 levantes e seis golpes. Pode-se dizer que alguns foram de direita, outros de esquerda, mas todos tinham uma essência política. Os tenentes dos anos 20 queriam uma nova República. Até mesmo os generais que, em 1969, empossaram a junta militar dos Três Patetas (expressão usada por Ernesto Geisel em conversas privadas e Ulysses Guimarães em declaração pública) agiram em nome de uma suposta defesa da ordem.


A má notícia é que hoje a anarquia militar tem um pé na delinquência civil, para dizer o mínimo. Gregório Fortunato, o “Anjo Negro” e chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas, era paisano. Fabrício Queiroz, o chevalier servant dos Bolsonaros, é um ex-policial militar. Nenhuma crise militar do século passado teve PMs, muito menos conexões com milicianos. Em 1964, o general Humberto Castello Branco disse que “não sendo milícia, as Forças Armadas não são armas para empreendimentos antidemocráticos, destinam-se a garantir os poderes constitucionais e sua coexistência”. À época, a palavra “milícia” tinha outro significado.

Não passava pela cabeça dos generais do século passado conviver com a ideia de PMs amotinados. Em 1961, quando policiais militares de São Paulo rebelaram-se, o comandante da tropa de São Paulo, general Arthur da Costa e Silva, acabou com o levante no grito e prendeu os indisciplinados.

A essência política da anarquia militar do século XX cumpria um relativo ritual hierárquico. Em 1955, o general Odylio Denys foi decisivo para que seu colega, o ministro Henrique Lott, depusesse dois presidentes numa só noite. Seis anos depois, como ministro, prendeu-o por ter defendido a posse de João Goulart.

Nessa anarquia, prevaleciam os generais silenciosos, aqueles de que ninguém lembra o nome.

Bolsonaro gosta de falar em “minhas Forças Armadas”. As tropas de chefes militares que comiam abelhas, como Floriano Peixoto, não tinham dono. Também não existiam PMs amotinadas, milicianos, nem generais da ativa em manifestações de motoqueiros paramentados. Cenas como as da ação da PM no Recife no último domingo são um aviso de que a anarquia pode vir de baixo. Os disparos de balas de borracha contra manifestantes foram uma clara provocação anárquica, porém deliberada.

Hoje esses personagens existem e são um fator relevante na desordem política e administrativa do país. A anarquia militar de Bolsonaro é nova — e pior.

O risco de “que a anarquia se instaure dentro das Forças” tornou-se visível com o general Pazuello subindo no carro de som de Bolsonaro, mas ele está aí desde 2018, quando o comandante do Exército sugeriu com seu famoso tuíte que o Supremo Tribunal Federal negasse o habeas corpus que impediria a prisão de Lula. Ele ecoava uma manifestação do comandante das tropas do Sul, general Jair Dantas Ribeiro, em 1962, forçando a realização de um plebiscito para enterrar o regime parlamentarista. João Goulart apostava na anarquia militar.

Elio Gaspari

O quadrúpede que grunhe

Os disparates de Jair Bolsonaro costumavam atrair os leitores. Sempre que reproduzíamos uma de suas barbaridades, o ponteiro do Google Analytics subia vertiginosamente.

Isso mudou. Ele pode até insultar os velhos campeões de audiência do nosso site, dizendo que Lula “grunhe” e que Dilma é uma “quadrúpede”, mas ninguém mais se importa. O efeito se dissipou. Não cola. A sua estupidez, que provocava estupor, agora só provoca repulsa. Ou, pior ainda, desalento.

Até o ano passado, muita gente, inclusive na imprensa, acreditava que a estupidez de Jair Bolsonaro fosse premeditada, e que escondesse alguma forma de esperteza. Agora todos sabem que ele é só isso mesmo. Ele parece raso porque é raso, parece primário porque é primário.

Ontem à noite, enquanto lamentava as 460 mil mortes de Covid, ele riu. Uma de suas macacas de auditório perguntou-lhe o motivo de tanto contentamento, e ele explicou:

“Alguns acham, tem gente filmando aqui, vai sair eu rindo. ‘Não pode, não sei o quê, o problema’. Isso acontece. Se a gente não tentar ser feliz, vai esperar o quê? Eu pergunto: essa pandemia vai acabar quando? Alguém sabe? Vai até as eleições do ano que vem?”

Só há isso na cabecinha obtusa de Jair Bolsonaro: 2022. Ele não é capaz de ver nada além disso. Não é esperteza, não é estratégia, não é xadrez: ele é apenas mais um quadrúpede que grunhe.

terça-feira, 1 de junho de 2021

Outono e Antares

Mais um. O sol vai se afastando do Hemisfério Sul e iluminando mais o Hemisfério Norte. Outono aqui, primavera lá. Como sempre. Neste ano, aqui como lá, somamos medos, contamos mortos. Outono 2 de tempos da pandemia.

Marcela contou no Face que, ontem, perdeu um ex-companheiro, grande amor da sua vida, amigo para sempre. 31 de maio foi o dia do para sempre ficar na lembrança.

Não faz muito tempo, Vanda também ficou sem o marido, parceiro de uma vida inteira, deixou filha, deixou netos e dor impar. Mais um a morrer de descaso – com o vírus, com a vida.


Perto ou longe da gente, toda hora, vão se amores de alguém. Chegamos até aos 2.000 por dia. Neste outono, o Brasil bordeia 500 mil mortos. Números de guerra.


Passamos Benito Mussolini, o fascista italiano, que teve em sua conta 440 mil mortes. Além dos 410 mil italianos mortos na 2ª Guerra, matou outros 30 mil na Etiópia e na Espanha.

Estamos prestes a empatar com Idi Amin Dada, de Ruanda. Em 8 anos de ditadura – de 1971 a 79 – matou 500 mil pessoas, vitimas de perseguições étnicas, políticas e religiosas.

Sábado, 29, milhares de brasileiros, em todos os estados e no DF, enfrentaram o medo da contaminação e foram às ruas – de máscaras, álcool em gel na bolsa, coração aos saltos.

Não foi desafio ao vírus. Não foi política partidária. Foi chega – deu! – para um governo que fala e atende apenas a uma facção de brasileiros – os negacionistas, os preconceituosos, os violentos, apaixonados defensores das armas, dos agrotóxicos, dos desmatamentos.

Uma gente de caráter e objetivos duvidosos. Gente com ganas de matar e arrebentar adversários – “cambada de comunistas, defensores de direitos humanos pra bandidos”.

Em mais uma das tensas semanas, que temos vivido nos derradeiros cinco anos, alguém nas redes sociais relembrou texto de Érico Veríssimo, no romance Incidente em Antares. “Comunista é o pseudônimo que os conservadores, os conformistas e os saudosistas do fascismo inventaram para designar simplesmente todo o sujeito que clama e luta por justiça social”.

O livro é de 1971. Ficção. Relata greve geral na cidade que alcança até os coveiros e faz fantasmas atuantes seis mortos – insepultos por falta de mão de obra.

Na história, os tais mortos perambulam por ruas e casas, descobrindo e apontando vilanias, maldades e desgraças de impolutos moradores. O mau cheiro exalado pelos corpos mortos é alegoria da podridão moral da cidade.

Erico Veríssimo fez sátira política contundente. Tragicomédia corajosa que, mesmo lançada em plena ditadura militar, abordou temas como tortura, corrupção, clientelismo e coronelismo. Coisas tão a gosto de parte da gente brasileira.

Cinquenta anos depois, qualquer semelhança é só retrato de um Brasil que não muda. Mexe e remexe para cair no mesmo lugar.

Tão repetitivo que, no final de semana, fez veículos de imprensa brasileira retomarem comportamento de 1983/84, quando ignoraram a campanha das Diretas Já. Movimento apartidário, levou multidões às ruas em favor de eleições diretas para presidente da República e pelo fim da ditadura militar, que agonizava, mas não largava o osso.

Agora, ignoraram as grandes manifestações nas ruas contra o governo do inominável genocida mais famoso da história brasileira, e por vacinas já.

O povo esteve nas ruas. Apesar da pandemia. Apanhou muito da PM em Recife. Mais uma vez, jornais e TVs não contaram que viram. No futuro farão mea culpa. Como costumam fazer. São repetitivos contumazes.

No outono, os dias são mais curtos, as noites longas o suficiente para a conspiração da vez – empurrar goela abaixo do combalido Brasil a Copa América, trazendo atletas e vírus com suas novas cepas para o triste picadeiro nacional.

Seis meses para decidir a compra de vacinas. Uma madrugada para dar sim a Conmebol. Cartolagem.

Venham. São bem vindos. Estamos fazendo o possível e o impossível para matar mais do que Idi Amin Dada – e em tempo bem mais curto.