sábado, 13 de fevereiro de 2021

'Divide e reina', a estratégia diabólica de Bolsonaro

A estratégia do “divide e reina” remonta ao Império Romano e a frase é atribuída ao imperador Júlio César. Foi também usada pelo cristianismo e atribuída a Satanás, o rei da discórdia e da divisão. Também foi adaptada às guerras e guerrilhas modernas e até mesmo às democracias, para ganhar eleições. Trata-se de criar confusão para confundir e dividir a sociedade enquanto o déspota se fortalece. 

Essa tem sido a tática de Bolsonaro, tanto na campanha eleitoral como agora no Governo. Se Satanás é visto como o rei da mentira, Bolsonaro é o melhor expoente das fake news, da mentira sistemática para confundir e desconcertar a população. Bolsonaro confundiu a sociedade e a dividiu com suas ambiguidades na gestão da pandemia, primeiro minimizando-a, depois aconselhando medicamentos que a ciência e a medicina consideram ineficazes e até perigosos.

Dividiu novamente a sociedade sobre a importância da vacina, criando uma corrente contra ela. Com isso, adiou a aquisição do imunizante, politizando-o.



Fomos um dos últimos países a iniciar o processo de vacinação, a única possibilidade de combater a propagação da covid-19 e suas variantes cada vez mais contagiosas. E assim ele dividiu a sociedade. Mentiu descaradamente, jogando por terra todas as promessas feitas durante a campanha eleitoral contra a velha política e contra a corrupção que agora está exposta em sua própria família. Ele se tornou assim o maior cruzado na guerra para encerrar a luta pela moralidade político-empresarial. 

E talvez sua estratégia de dividir para reinar tenha ficado mais clara nas eleições para a presidência da Câmara e do Senado. Bolsonaro conseguiu impor seus candidatos, mas à custa de dividir e pôr em confronto os partidos, que saíram desgastados da batalha. Foi uma jogada que fortaleceu seu poder ao mesmo tempo em que frustrou a possibilidade de criar uma frente ampla que poderia derrotá-lo nas eleições presidenciais. Sua tática deu bons resultados para ele, pois os partidos saíram da luta enfraquecidos e estão como baratas tontas tentando, por enquanto em vão, recolher os escombros da batalha perdida. 

E ainda tem mais. Bolsonaro também conseguiu criar cizânia e balbúrdia em todas as outras instituições, que parecem cada dia mais divididas e confusas. No Congresso, no Supremo Tribunal Federal e na Justiça, passou da ameaça de fechá-los a dividi-los entre si, acabando por politizá-los ainda mais. Tem sido sua tática diabólica ir contaminando as instituições e a sociedade, aproveitando-se disso para escapar das dezenas de pedidos de impeachment contra si que dormem no Congresso.

Enquanto as forças democráticas não entenderem a política de Bolsonaro de dividir para reinar, acabarão se devorando ao passo que o déspota e golpista vai ficando mais robusto, dando de presente bilhões em dinheiro público para comprá-las e tê-las a seus pés. Será necessário ver como a sua política de colocar uns contra os outros no melhor estilo de sua política negacionista e de desorientar a sociedade terá consequências na recuperação econômica de um país que ele próprio disse que está quebrado e onde as intrigas políticas criadas pelo presidente aumentam cada vez mais a pobreza e até a miséria. 

Isso faz com que a imagem do Brasil esteja no seu pior momento em décadas, segundo revelou um estudo realizado pela Curado Consultoria Associados, especializada em gestão de imagem, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O estudo analisou as informações sobre o Brasil que saíram nas sete publicações consideradas os mais influentes do mundo: The New York Times e The Washington Post. dos Estados Unidos, The Guardian e The Economist da Inglaterra, Le Monde da França, Der Spiegel, da Alemanha e El País global, da Espanha. O resultado do levantamento é devastador. Dos 1.179 textos publicados ao longo de 2020, 92% foram negativos, e isso significa que o Brasil vive uma “crise de reputação”. O estudo destaca que o Governo Bolsonaro tem sido “incompetente e vulnerável”. 

O que mais contribuiu para a criação dessa imagem negativa foi, segundo a referida pesquisa, a forma desastrosa com que Bolsonaro conduziu a crise da pandemia, sua política suicida de destruição da Amazônia, a crise econômica que tornou ainda mais aguda a já grave desigualdade social no país e uma política externa desastrosa. 

A imagem positiva de que o Brasil desfrutou durante décadas no mundo não excluía suas feridas ainda abertas, como o racismo, a violência e a pobreza. O que acontecia é que o Brasil sempre soube projetar o melhor do país, seus valores mais ancestrais e sua parte lúdica. E não só futebol e Carnaval, mas também sua multicultura, a música popular, com a particularidade do samba e da bossa nova, cujos grandes artistas conquistaram o mundo. E com isso tudo, o caráter acolhedor do brasileiro com os estrangeiros. 

Ainda hoje em São Paulo, a maior cidade da América Latina, convivem em paz pessoas de mais de 100 nacionalidades. Lembro-me de que nas viagens que fiz pelo mundo, na companhia de correspondentes de vários países, os mais bem recebidos sempre eram os brasileiros. Recordo-me da expressão de simpatia com que eram recebidos: “Ah, brasileiros!” 

Não há dúvida de que muito da imagem de simpatia de que o Brasil desfrutava se devia à sua magnífica política de relações exteriores. Seus ministros sempre foram figuras de grande prestígio e preparo intelectual, e enviavam pelo mundo como embaixadores pessoas de grande empatia e capazes de vender os aspectos mais positivos do país. De fato, a diplomacia brasileira sempre foi considerada uma das melhores do mundo. 

E agora? Passamos para o outro extremo com um ministro de Relações Exteriores que sempre cria problemas com os outros países e que esteve à ponto de azedar gravemente as relações com as grandes potências mundiais, ao mesmo tempo em que fazia de Trump seu ídolo pessoal. E quando o então presidente dos Estados Unidos perdeu as eleições, o Brasil foi o último país do G20 a parabenizar o vencedor Joe Biden, enquanto Bolsonaro continuava a defender que Trump havia vencido as eleições. 

Tudo isso e mais a desastrosa política para a educação e o desprezo pela cultura, humilhando artistas e intelectuais, criaram no exterior uma política de rejeição do Brasil que pode ter custos muito sérios, afastando os empresários estrangeiros de investir no país. E é sabido que quando um país começa a ser visto no exterior em contínua crise política e de valores, precisará de muitos anos para recuperar sua face positiva e atraente. 

Tudo isso vai destruindo internacionalmente a imagem positiva do país do futuro de que o Brasil desfrutava. Nada na política está separado da prosperidade econômica e das relações positivas com as outras nações. O resultado é sempre a perda não só de prestígio, mas também de credibilidade internacional que não pode deixar de afetar sua política econômica, empobrecendo ainda mais o país. 

Hoje, em um mundo globalizado e conectado a todo instante, não cabem mais nem as muralhas da China nem os muros entre o México e os Estados Unidos nem a ressurreição das fronteiras europeias. O mundo está mudando com tal velocidade que tentar se fechar em sua casca como o Governo fascista de Bolsonaro tenta fazer é ficar fora da história. 

Até os conceitos de tempo e espaço estão mudando no mundo. Dentro de pouco tempo será possível viajar do Brasil para a Europa ou EUA em 20 minutos. Um empresário de São Paulo poderá tomar o café da manhã em casa, ir a Londres dar uma palestra e voltar para almoçar com a família. E não se trata de ficção científica, mas de uma realidade que já está em experimentação. 

Por tudo isso, pretender que o Brasil, quinto maior país do mundo, permaneça fechado, envenenando suas relações com o restante do planeta em prol de uma política petrificada e empobrecida, é querer voltar às cavernas. Para recuperar o prestígio perdido, o Brasil merece algo mais do que essa política destrutiva e negacionista. 

Vírus e a Praga


Tudo o que tem o Brasil a fazer hoje é livrar-se da Coronavirus-19 e do Bolsonavirus-22 (e por este último entendo toda a corja que acompanha o nosso "presidemente"). Um vírus mata. O outro imbeciliza 
Augusto de Campos, poeta que completa 90 anos

Mapinguari

Noite de lua, no terreiro, os homens procuram se esquecer do assunto eterno que é a falta de chuva e recordam histórias do Amazonas. Recordam é modo de dizer: desses todos que estão aí nenhum foi do tempo em que se ia para o Amazonas, e o que sabem ouviram de pais e avós. Contam os casos clássicos de boto e curupira, e hoje saiu em cena um bicho pouco falado, o mapinguari.

Bicho não, que o mapinguari tem a figura de um caboclo gigante, 3 metros de altura, pés espalhados e braços enormes. Anda nu, o corpo azeitão e pelado é liso, sem o menor arranhão de mato. Cabelo só tem na cabeça, curto e ruivo, deixando à vista as orelhas pontudas.


Mapinguari só come coisa viva. O gosto dele é morder na carne quente e sentir o sangue esguichar. Come guariba e outros macacos que apanha nas árvores, com muita fome, é capaz de se agachar à beira d'água tentando pegar algum peixe de couro; de escama não gosta. Mas a comida predileta do mapinguari é mesmo gente e, só quando lhe falta carne de homem, come a dos bichos. Quando caça, imita pio de pássaro e voz humana; mas só sabe dar uma fala fininha, esquisita, que mal engana a distância.

Pois um dia saíram para o mato dois seringueiros, e um deles se chamava Luís. Pouco além se separaram, tomando cada um a sua estrada de trabalho. Mas não estavam afastados, tanto que um ouvia a machadinha do outro a abrir o corte do leite na seringueira.

Passou-se um tempo, e o que não se chamava Luís reparou que já não escutava a batida do companheiro. Prestou atenção - nada. Por um momento, teve a impressão de que ouvia a pisada de bicho grande quebrando o mato, mas devagar, cuidadoso. Teve medo e gritou: "Luís!"

E como se viesse de longe, uma vozinha fina respondeu:"Luíííís!"

Ai, por que tão fina a voz de Luís? E por que dizia Luís em resposta, se ele que chamara não se chamava Luís? Assustado, insistiu: "Luís!" E de novo o gritinho, como um eco: "Luís! Luíííííís!"

O caboclo aí compreendeu que era o mapinguari imitando a sua voz. Não quis saber mais de nada e, morrendo de medo, meteu-se pelo mato, trepou numa árvore alta e se escondeu entre os galhos.

Foi em tempo. Porque lá vinha o mapinguari pela vereda, vagaroso, olhando de um lado para o outro, caçando. Caçando a ele! Debaixo do braço o bruto trazia o pobre do Luís e, de vez em quando, baixava a boca sobre o desgraçado e lhe arrancava uma dentada, um naco da cara, a orelha, uma lasca do peito. Mas entre um mastigo e outro o mapinguari continuava a caçada - parava, escutava e soltava o seu gritinho: "Luíííííííís!"

Afinal desistiu, deu nova dentada no Luís, que ainda estrebuchava, e se afundou na mata. O outro esperou muitas horas, encolhido lá em cima, até o sol do meio-dia ficar bem alto; então escorregou da árvore e saiu correndo em procura de casa.
Rachel de Queiroz

O esgotamento da democracia de clientela e os perigos que se avizinham

Falar no esgotamento da democracia de clientela após duas vitórias sucessivas do Centrão, nas eleições municipais de 2020 e nas mesas do Congresso Nacional, pode parecer totalmente despropositado, mas não é. Já há praticamente um consenso, entre muitos analistas políticos, de que a Nova República se esgotou, ela, que não obstante os sinais vindos da luta democrática dos anos 1970-1980, se desenrolou, a partir dos anos 1990, como um movimento transformista que, sob o impulso da luta pelo governo representativo (presidencialismo de coalizão), instaurou, de fato, um regime semi-representativo (presidencialismo de cooptação).


Mas é preciso discutir mais detidamente de qual esgotamento estamos falando. Não se trata apenas, pelo alto, de como a degeneração e a fragmentação partidária erodiram o sistema de representação, mas também, por baixo, de como o eleitorado foi levado a participar, por meio da velha cultura (coronelismo), da política de clientela – que, no nosso caso, apenas em parte se parece com a política de clientela norte-americana, baseada em ativismo social (grupos de pressão) e em modelo partidário horizontal (primárias/caucus) emulado por sistema eleitoral majoritário.

Não apenas isto, mas é preciso entender ambos os fenômenos em chave com o modo de produção predominante no país, no caso, um capitalismo reprimarizado, baseado em exportação de commodities e importação de manufaturados ou seus componentes, com forte participação do setor de serviços e baixa qualificação da mão de obra. Tal modelo, semi-estagnacionista e dependente, não é compatível com o Estado de Bem-Estar e, portanto, com a tão almejada equalização social, e por um motivo básico: sua cadeia de produção/valorização não gera renda compatível, na forma de lucros, impostos e salários, capaz de sustentar tal pretensão. Assim, só resta o endividamento público como viga de sustentação das amplas expectativas sociais e dos interesses privados, a par de porto seguro para o emprego da classe média e de auxílio aos miseráveis, em condições crescentemente gravosas, dado o pesado custo dos juros imposto pelo sistema financeiro nacional – setor hegemônico do bloco histórico em crise.

Claro está que, sem a mudança deste modo de produção – que só pode ser viabilizado por coalizão política ampla de forças político-sociais, o que não se confunde com bloco parlamentar ou simples coalizão eleitoral –, a crise atual não tem solução efetiva, quando muito pode ser rolada e sempre em condições mais críticas. Ocorre que, como historicamente sabemos, são muitas as rotas para a mudança, o que, por si só, não garante que ela seja de fato alcançada, nem mesmo em seu modo mínimo – para não falar do ótimo.

O Governo Bolsonaro encarna a mais nova tentativa de mudança desde que o PT abdicou, de fato, desta postulação, em 2002, em prol de um “lugar ao sol” no sistema de domínio, com a diferença de que a extrema-direita sequer tinha um programa digno do nome e que chegou ao poder pela inusitada, embora prenunciada (junho de 2013), revolta de uma população apartada de instrumentos institucionais (partido político) para operar efetivas mudanças políticas.

Como não poderia deixar de ser, inclusive por suas idiossincrasias, tudo aconteceu de maneira mais rápida e atabalhoada com Bolsonaro, até mesmo se comparado à FCM. Já na largada, JMB expôs a fragilidade de sua coalizão eleitoral na crise com os Ministros Bebiano e Cruz, e embora tenha aprovado a Reforma da Previdência, esta se deveu mais a um consenso social, enquanto o Presidente iniciava sua luta desesperada pela própria sobrevivência. Em certa medida, o Governo foi “salvo” pela pandemia, que se transformou em álibi de sua anomia política, ao fim remediada pelo “porto seguro” do Centrão. É verdade que existem dúvidas fundadas sobre tal “segurança”, sobretudo diante de um governo tão frágil quanto atabalhoado. Mas é preciso olhar também para a crise do sistema, onde Bolsonaro se agarra.

Não se pode descartar que o liberalismo radical de Guedes tenha encontrado sua mediação clássica no Brasil neopatrimonial com a “nova” coalizão, o que possibilitará ao bolsonarismo, pelo menos em tese, por meio de sua ala militar, neutralizá-lo enquanto utopia burguesa e convertê-lo de obstáculo à catapulta de um novo arranjo nacional-desenvolvimentista, como já vislumbrado no PAEG em contexto histórico distinto, num cavalo de pau de difícil compreensão, inclusive para os observadores da história que ignoram as implicações da via prussiana em nosso longo processo de modernização.

O PAEG, é verdade, se desenvolveu sob a tutela militar, tutela que hoje seria esmaecida, o que pode comprometer o enquadramento dos atores políticos envolvidos na trama e, consequentemente, seus fins, caso não demonstrem a exata noção do que estão fazendo e em quais circunstâncias. Não obstante, a crise aguda força os atores a uma consciência diferenciada na luta pela própria sobrevivência, como nos ensinou Lênin, o que implica, hoje, em se observar e responder ao desespero social que se anuncia. Não apenas isto, será preciso também tratar da retomada econômica para garantir a renda do trabalho após a emergência, estimulando a esperança dos trabalhadores por dias melhores. Para que tal retomada aconteça, de outro lado, as reformas em discussão no Congresso deverão englobar medidas que contemplem a reindustrialização do país, a começar pelos setores que já dominamos e os que impliquem em enfrentamento da pandemia, como a indústria farmacêutica.

Se isto tiver sequência no âmbito do programa econômico da coalizão bolso-militar-centrista, restará observar a cena político-judiciária, ainda mais incerta em razão das pressões sociais que afetam os aparatos de justiça desde o Mensalão (2005). Mais especificamente, será preciso verificar se um eventual clima de otimismo econômico extra-Mercado será capaz de neutralizar o previsível aumento do mau humor dos cidadãos com seus representantes e a burocracia pública, em meio ao novo cenário de conforto projetado com o fim da Lava-Jato e a possível reabilitação jurídica de vários de suas “vítimas” de colarinho branco, que podem ensejar, a partir de agora, uma ida aos cofres com ímpeto represado, capaz de abalar a credibilidade que resta da reputação anti-sistêmica do bolsonarismo, além de acumular mais combustível sobre mata ressecada.

A própria blindagem de Bolsonaro pelas elites, em função, principalmente, do estancamento da sangria e seus supostos efeitos distensionistas sobre a política e a economia, é aposta inflamável no pior cenário. Nada disso deve passar desapercebido pelos estrategistas do bolsonarismo, que mantém na manga a carta do “auto-golpe”, que, no caso do bolsonarismo, como se sabe, está longe do inverossímil e brancaleônico “exército do Stédile”, configurando, de fato, perigo tangível.

Diante disso e da incrível capacidade interpelatória das narrativas bolsonaristas – cuja diferença essencial em relação às narrativas lulopetistas reside tão somente em sua maior facilidade assimilatória pela massa –, é possível que o ônus deum eventual insucesso da coalizão bolsocentrista, em meio às frustrações econômicas e/ou o pipocar de escândalos de corrupção, possa ser jogado, com grandes chances de êxito, nas costas do STF, do próprio Centrão – da qual Bolsonaro conseguiu se distanciar pela ótica popular, não obstante as rachadinhas – e da esquerda, por conta das manobras de anulação processual que podem favorecer LILS – sob o beneplácito de Bolsonaro, diga-se de passagem – e, em sequência, outros apenados, como Eduardo Cunha e Sérgio Cabral, entre outros.

Tudo isto estará sobre a mesa na campanha eleitoral de 2022, que se inicia agora, fora do controle do TSE, não devendo haver dúvidas sobre a disposição, inclusive já insinuada, de Bolsonaro entrar neste jogo com a intenção de “fazer o diabo para se reeleger” (DR), o que, na prática, projeta sua intenção de aceitar apenas o resultado que lhe beneficie. Isto, naturalmente, não dependerá apenas de sua vontade, mas também exigirá conjuntura favorável, como uma crise que conjugasse colapso social com desespero econômico e desmoralização das instituições republicanas, abrindo caminho para greves de caminhoneiros, alguma inquietação nos quartéis e apelos para a restauração da ordem, cenário em parte visto no pré-1964.

Um conflito desta envergadura não só é possível, como pode acontecer antes da suposta “fraude eleitoral”, em meio ao desarranjo de seu “novo” governo. Outra variável importante a considerar, é como a radicalização política e a frustração das massas com as instituições vai se manifestar, inclusive nos meios militares, já que desde 1930, como nos ensinou José Murilo de Carvalho[i], as FFAA se movimentam na cena política com vistas a conter as ameaças de ruptura vindas de baixo – como a de Prestes, em 1930/1935, e a de Jango/Brizola, em 1964. No contexto atual, todavia, a ameaça potencial vem do baixo-clero bolsonarista, o que tornaria o desenlace ainda mais complexo e incerto.

Fator decisivo para tal evolução da situação é como as massas reagiriam ao caos social. Não se pode descartar a hipótese de que um descontentamento geral se misture à anomia já instalada nas periferias das metrópoles, que, embora de difícil assimilação pelas elites intelectuais (liberais e socialistas) – tendentes a traduzí-la como questão ética –, segue sendo vivenciada pela população sitiada como desafio à sobrevivência, a exigir solução de força (desarmamento) sob os auspícios da lei, que, não acontecendo, escancara as portas para o puro arbítrio da força ilegal, alimentada pelas facções bolsonaristas. Em tal contexto, a politização da crise pela extrema direita poderia catalizar o desejo geral de estabilização e ordem, o que praticamente forçaria uma ação convergente por parte do Alto Comando das FFAA, embora ainda dentro da lei (GLO).

Tudo isto nos coloca questões para muito além da ideia de resistência democrática experimentada nos anos 1960-1970, ideias que fossem capazes de neutralizar a perspectiva tutelar dos militares sobre a República, perspectiva esta que é a pedra angular do intervencionismo militar desde 1889 e que teve no Gen. Góis Monteiro, nos idos de 1930, um arguto articulador que a traduzia como a expressão institucionalizada da nacionalidade, em cuja sombra poderiam “se organizar as demais forças da nacionalidade”[ii].

À rigor, na posologia deste velho remédio, Bolsonaro não teria lugar, mas tampouco estaríamos à salvo de seus conhecidos efeitos colaterais. O mais sábio, à luz da história, seria reconhecer tais riscos e buscar evitá-los pela franca assunção da crise de nossa democracia (clientelista), articulando, sob o signo da reconstrução nacional, uma saída democrático-desenvolvimentista para a crise em diálogo com os militares.

De novo, pode não ser o ideal, mas é o que nos cabe em meio aos perigos que se avizinham.
Hamilton Garcia de Lima
[i] Forças Armadas e Política no Brasil, ed. Todavia/SP, 2019.
[ii] Apud Carvalho, p. 120.
[iii] Universidade Estadual do Norte-Fluminense/Darcy Ribeiro.

O impeachment, o novo poder e a vida de gado

O impeachment é sempre um processo traumático de interrupção de um governo escolhido democraticamente. É um movimento de muitos interesses, no qual o detalhe jurídico, aos olhos do eleitor leigo, está muito mais no processo do que na imputação do crime de responsabilidade.

Com sua previsão constitucional, o impedimento é parte do jogo. Se for seguido o processo legal, deve ser acatado. Alguns podem até achar que é injusto, mas, respeitado o rito, não pode ser considerado ilegal, ou até mesmo um golpe. Apesar de a Constituição trazer o amparo para o enquadramento e o rito processual, a base dessa decisão é totalmente política. Se perder o apoio político, o mandatário será afastado pelos representantes do povo.

Nos últimos dias, esse tema tem sido pauta nacional. O debate sobre o impedimento do presidente da República está colocado. Alguns entendem que as condições estão presentes; outros, que não há ambiente político ou condições objetivas para essa decisão. Mas todos os debates giram em torno do olhar político do Planalto Central para o Brasil. Na verdade, as ruas definem os rumos. Em uma democracia, presidente com apoio popular tem a proteção política para se manter no cargo. O povo é quem decide a sua permanência, ou não, por meio da pressão sobre seus representantes.


A manipulação da população para a pressão pelo impeachment é parte do jogo político e sempre está presente nessa decisão. No passado, quem detinha o poder da formação de opinião era quem estimulava a sociedade a dar voz às ruas e fazer ecoar nos gabinetes de Brasília a vontade do povo pela interrupção de um mandato. Esses formadores de opinião centralizavam o poder, definindo o momento da mobilização do povo, aproveitando possíveis fragilidades na popularidade do governo. A pressão popular passou a ser arma que era disparada por poucos que detinham os canais para a mobilização popular.

Mas, o mundo contemporâneo trouxe a novidade dos canais digitais, que revolucionaram as relações humanas e, como consequência, minaram (ou atenuaram) o controle da ação dos formadores de opinião. A informação chega mais rápida e de forma mais direta ao cidadão. Quanto mais alinhamento entre a pauta colocada e a necessidade e interesse do povo, maior será o engajamento e sua repercussão. Quanto mais conectividade com a sociedade, maior o poder de mobilização. Nem sempre o início de uma mobilização popular finaliza como planejada, porque, nos canais digitais, o povo comandará a mobilização conforme seu próprio interesse, apoiando ou cancelando os protagonistas e as pautas debatidas. Esse é o chamado “novo poder”, assim bem definido por Henry Timms e Jeremy Heimans no livro de mesmo nome.

Isso não quer dizer que a sociedade esteja livre da manipulação no mundo digital. Ao contrário, a inteligência artificial e a psicologia comportamental foram utilizadas para a mudança no comportamento das pessoas, como comprovado pelo trabalho da empresa britânica Cambridge Analytica. Essa manipulação produziu a grande mudança político-ideológica no mundo, fato também bem visível aqui no Brasil. Foram criados exércitos ideológicos nesse mundo digital, que, muitas vezes, sem perceber, assim como gados nas fazendas, obedecem seus peões cegamente e muitas vezes inconscientemente.

Em 1979, Zé Ramalho traduzia em acordes a definição dessa manipulação popular com a música Admirável Gado Novo. Nela, o compositor anuncia a “vida de gado, povo marcado êh, povo feliz!” Quando se agrupa o gado na fazenda, ele passa a ter como referência o fazendeiro que os controla e passa a viver uma falsa ideia de felicidade, de satisfação. O gado marcado traduz a lógica do povo alienado, manipulado, sob qualquer bandeira, sob a cor ideológica de preferência, sempre com o mantra “do nós contra eles”. Se, antes, a liderança popular era construída por formadores de opinião, hoje, a forma de manipulação está na inteligência artificial e na conectividade com o povo. É assim que o gado marcado de Zé Ramalho, sendo ele de que cor for, responderá ao estímulo da mobilização nacional que reflete o novo poder.

Quem define a possibilidade de um impeachment sempre foi, e sempre será, o povo, com sua pressão. É ele que condena ou protege seu líder, exercendo o grito das ruas. Mas, esse povo, assim como o gado de Zé Ramalho, pode estar a serviço do interesse de outros, sem que ele mesmo perceba. Um gado marcado poderá ser a massa de manobra do interesse de poucos. Assim, quanto mais informação tiver o povo, maior a possibilidade de o “novo poder” das mídias digitais fazer a vontade popular vencer a manobra da inteligência artificial, mostrando que a cancela da fazenda pode ser aberta e fazer o gado livre para pensar, agir e decidir.

Zé Ramalho já cantava, nessa mesma música, a esperança de um gado livre, dizendo que o povo sonha com melhores tempos, fora da cancela. E, no final de tudo, dizia o cantor, esperam nova possibilidade de ver esse mundo se acabar. O desgaste de “dar muito mais que receber”, como diz a canção, pode fazer o gado se rebelar. É o sonho do encerramento de um ciclo para o início de um novo mundo. É nesse sentimento que o povo vai decidir se deve ou não apoiar a interrupção de um mandato. Se o gado souber que ele pode mudar a sua história, poderá ser o dono da fazenda e, de forma consciente, decidir os rumos da sociedade, com a manutenção ou impedimento do governo que elegeu.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Pensamento do Dia

 


Livro de general Villas Bôas é um histórico lixo golpista

O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA, militar mais poderoso da Terra, enfrentou as delinquências de Donald Trump recorrendo à Constituição americana. Por aqui, um general da reserva resolve narrar, em tom que aspira ao pudoroso, a ameaça golpista que fez para intimidar o Supremo.

No dia 3 de abril de 2018, véspera do julgamento de um habeas corpus impetrado pela defesa de Lula, o então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, escreveu no Twitter: "Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem d e repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais".

Os que dele discordavam não eram "homens de bem". Comandar tanques corresponderia a ter razão. O general ainda distinguiu os que pensavam "no bem do País" dos que estariam preocupados "com interesses pessoais". Adivinhem em que lado ele se via. A propósito: quantas divisões tinha o adversário?
Lembro: cinco dos seis ministros que votaram contra a concessão do habeas corpus foram indicados por Lula ou por Dilma. Três dos cinco favoráveis, por outros presidentes.


Villas Bôas concedeu um depoimento a Celso Castro, diretor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da FGV. A fala está condensada no livro "General Villas Bôas: Conversa com o Comandante".

Não é exatamente novidade. O próprio militar já havia tratado do assunto em entrevista, mas fica ainda mais claro desta feita que seus tuítes ameaçadores reproduziam o pensamento do Alto Comando do Exército —ao menos é isso o que diz. Não havendo contestação, assim é. Querem passar um paninho na biografia do general e nas tentações golpistas?

Então fiquem com a versão de que, ao mandar um ultimato ao Supremo, Villas Bôas evitou coisa pior —quem sabe uma tentativa de quartelada, à revelia do Alto Comando, estimulada por pijamas inflamados. Conhecemos, desde Castello Branco, a cascata do militar honrado, que resiste à quebra da hierarquia, mas acaba cedendo a contragosto... A versão vale uma dose de cloroquina contra o coronavírus, ministrada por Eduardo Pazuello, general da ativa.

Uma mentira essencial constitui o pano de fundo do relato de Villas Bôas: a de que Lula poderia concorrer à Presidência se deixasse, então, a cadeia. Falso. Tivesse acontecido, tratar-se-ia apenas de cumprir o que dispõe o inciso LVII do artigo 5º da Constituição.

O petista continuaria inelegível segundo a Lei da Ficha Limpa. Ainda que elegível fosse, a suposta legitimidade da intervenção, à qual o militar pretende emprestar dimensão constitucional, emana de que título legal?

Estou enganado, ou ele pretende legitimar com as baionetas a leitura do artigo 142 da Constituição no esforço de impedir o cumprimento de disposição do artigo 5º, que é cláusula pétrea?

Os militares teriam seus motivos para tanto rancor: estavam revoltados com as conclusões da Comissão da Verdade —jamais um golpista sofreu qualquer prejuízo pessoal--; viam a Amazônia submetida à cobiça de organizações estrangeiras, consideravam a demarcação de terras indígenas um risco à soberania...

Pouco me importam os fantasmas que povoam a imaginação criativa do golpismo. Fato: Lula foi o presidente que mais investiu no reaparelhamento das Forças Armadas desde a redemocratização. E desafio que se evidencie o contrário. A ideia de que se forjou um espírito antipetista num ambiente de penúria e de política entreguista (ao onguismo internacional) vale uma dose do vermífugo do astronauta.

Não tenho apreço por quem me ameaça. Os tuítes de Villas Bôas marcaram o engajamento explícito das Forças Armadas na candidatura de Bolsonaro. Um dos generais do poder organizou uma lista de compra de votos para eleger o presidente da Câmara. Outro, da ativa, poderá, no fim de fevereiro, discursar sobre 250 mil cadáveres.

Seriam esses os "anseios dos cidadãos de bem?" O depoimento de Villas Bôas tem óbvio interesse histórico. Merece um lugar na prateleira do lixo golpista.

Receita de golpe

Na Folha de quarta última, o ministro do STF Edson Fachin analisou com preocupação a cena nacional e listou fatos cuja soma me faz farejar uma receita de golpe de Estado, em preparo por um já declarado candidato em 2022 caso as eleições não o favoreçam. Os ingredientes dessa receita, com meus comentários, são:

1. Remilitarização do goveno civil. Milhares de militares de patentes inferiores, da ativa e da reserva, foram infiltrados na administração. Ensaio de compra das Forças Armadas. 2. Instigação ao fechamento dos demais Poderes. O Executivo tenta intimidar o Judiciário e o Legislativo com mobilizações populares e ameaça de tropa na rua. 3. Declarações acintosas de depreciação do valor do voto. Permanente pregação com fundo antidemocrático, sedimentando o terreno para uma possível alternativa totalitária.

4. Palavras e ações que atentam contra a liberdade de imprensa. Campanha incessante de desmoralização da imprensa livre, aliada à compra descarada do apoio de certos canais de TV —a velha e boa "mamata". 5. Incentivo às armas e à violência. A ideia é armar seus seguidores no caso de as forças da legalidade resolverem intervir no sentido de um impeachment ou interdição. 6. Recusa antecipada de resultado eleitoral adverso. Insinuações de fraude eleitoral, ao estilo Donald Trump, e tentativa de impor o voto por escrito, fácil de viciar, para levar o eleitorado a insurgir-se contra o resultado.

7. Corrupção de agentes administrativos. Inúmeros funcionários e aliados do governo, sem falar nos filhos, são investigados, denunciados ou réus por corrupção. O empenho em corromper atinge também juízes, procuradores, promotores, a Abin, o Coaf, a Polícia Federal, a Receita Federal etc., para controlá-los.

Os golpes desprendem seu mau cheiro muito antes de serem postos em marcha. Não é sensato tapar o nariz. Ainda mais quando já há um em marcha.

Sede ao pote

O exagero, a precipitação e a autoconfiança excessiva são inimigos mortais de quaisquer estratégias. Adver­sários na vida de modo geral, traduzidos no dito segundo o qual quebram-se os potes de água quando a eles se vai de modo atabalhoado para matar a sede, na política a velocidade desmedida e a imoderada segurança na corrida aos meios e modos do poder são fatais.

Podem até render vitórias imediatas, mas semeiam derrotas ao longo do tempo porque nada que extrapola dá bom resultado de modo perene. O que é demais não apenas enjoa como enoja e provoca reações no sentido contrário tão ou mais fortes que a ação abusiva.

A ascensão e queda do PT por exorbitâncias cometidas na falta de compreensão do que seria legal ou ilegal no, digamos, acesso à coisa pública é o exemplo mais eloquente no qual os parlamentares do Centrão poderiam e, sobretudo, deveriam mirar para fugir do risco da debacle anunciada no assalto que o grupo faz ao Planalto e adjacências.

Os rapazes e moças dessa banda não querem nada além do domínio total do governo. Chegaram já pretendendo desalojar os ditos ideológicos e dar um chega para lá nos militares.



Fosse pelos motivos corretos, o déficit de bom senso dos obscurantistas e o excesso de gente oriunda das Forças Armadas em regime de comando civil, ainda vai. Mas a ofensiva visa apenas à ocupação de espaços em ministérios, nas áreas de infraestrutura país afora, na coordenação política e até nas agências reguladoras, como demonstrado na ousada tentativa de enquadrar a Anvisa.

A sofreguidão contraria a celebrada competência política do grupo. Isso talvez se explique pelo fato de os mais experientes e habilidosos personagens do Centrão original, surgido na Assembleia Constituinte de 1987/1988, estarem hoje fora do jogo. Mortos, aposentados ou no ostracismo. Fato é que a nova geração, em boa medida à época integrante do baixo clero, não faz jus ao colégio de cardeais que a antecedeu.

Dos maus conselhos fornecidos pela voracidade desatenta ao real tamanho das próprias pernas deu notícia recente o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ao se enxergar maior do que era, fez uma manobra dúbia sobre a reeleição ao posto, apostou no apoio do Supremo Tribunal Federal e só colheu perdas. Perdeu tempo para elaborar um plano B, perdeu força dentro do próprio partido, que pulou para fora do barco dele a fim de garantir ganho no Senado, e perdeu prestígio externo.

O governador João Doria é outro que flerta com os riscos da ansiedade. Agora, forçando uma definição pelo domínio do PSDB irritando adversários internos, e antes, quando viu o que uma viagem a Miami em pleno aperto de restrições à população de São Paulo pode causar de estragos no capital positivo amealhado por sua gloriosa atuação em prol das vacinas.

Para fechar o rol, temos o rei dos açodados, o imperador dos exacerbados, na figura de Jair Bolsonaro. Tantas o presidente fez, tamanhos foram os erros que cometeu nesse campo das demasias desmedidas que não lhe restou alternativa a não ser negar uma a uma as suas proposições de campanha e até suas bandeiras junto aos fiéis mais fanáticos.

Da aludida nova política ao combate à corrupção, passando pela recente tentativa de sair à francesa do negacionismo em relação à pandemia, Bolsonaro foi sendo obrigado pela realidade a trocar de casca e ainda amargar o carimbo de estelionatário das urnas. Apesar desses pesares, saiu-se até agora sem maiores danos, embora esse tira-teima eleitoral esteja em aberto para ser resolvido em outubro de 2022.

Já os adeptos da seita do “mito” contabilizam prejuízos graves. No Congresso a deputada Bia Kicis não sofreria tanta contestação à indicação para a presidência da Comissão de Constituição e Justiça não fosse seu histórico de extremismos. Dessa doença senil do sectarismo entusiasmado padeceram outras estrelas agora cadentes. Onde estão as saras winters, os allan dos santos, os olavos de carvalho, os weintraubs?

Em casa de tornozeleira eletrônica, bloqueados nas redes sociais, condenados a pagar indenizações milionárias, em exílios mais ou menos voluntários, longe dos seus, sem palanque nem tribunas, processados, investigados, desacreditados e, sobretudo, ridicularizados.

Pergunte-se a qualquer um se valeu a pena. Na fala dirão que sim, mas na alma carregarão a paga das pragas incivilizadas por eles rogadas.

De volta ao pântano

Semana passada cometi um sincericídio do qual acabei sendo vítima, ao lembrar dos grandes cronistas que divertiam e emocionavam falando com leveza e elegância de tudo e de qualquer coisa, menos de política. Levei uma gozação do Diogo Mainardi, revoltado porque trabalha 18 horas por dia no lodaçal da política e inveja minha liberdade temática. Em compensação, recebi um e-mail estimulante de minha colega de caderno Martha Batalha sobre a missão da crônica, ela mesma uma cronista iniciante, mas brilhante romancista de “A vida invisível de Eurídice Gusmão” e “Nunca houve um castelo”, que me divertiram e emocionaram muito. Até ela, tão imaginativa, diz que muitas vezes fica tão revoltada que cai no lodaçal da política, arrastando junto o leitor, como já fiz muitas vezes, como fazem até cronistas de plantas, animais e comidas, levados pela fúria incontrolável que a política atual desperta.

O governo Bolsonaro se tornou assunto quase único de todos os cronistas, enchendo o saco dos leitores e chovendo no molhado dos comentaristas políticos. Mas nos tempos de pandemia e horror que vivemos, ele oferece diariamente novos motivos com suas mentiras, ofensas e descalabros.

Dizem que o destino dos que não gostam de política é ser dominado pelos que gostam. Faz sentido e é um bom pretexto para um mergulho no pântano, na esperança vã de contribuir para algum esclarecimento e transformação, que é pura ilusão, nós cronistas não fazemos a menor diferença. Há muito tempo já desisti de “fazer a cabeça”, como diziam os hippies, de qualquer pessoa sobre qualquer coisa. Apenas dou minha opinião e tanto faz se concordam ou não, mas não por arrogância, por realismo.

Com todas as desculpas esfarrapadas já alinhadas, vamos ao que interessa, o que é importante: 2022.

Uma das raras vezes que concordei com Bolsonaro foi quando ele disse: “Fora Bolsonaro, mas pra botar quem?” Todo mundo já desconfia que, por ser mais inteligente e preparado, o general Mourão pode ser ainda pior do que Bolsonaro.

Mas quem pode enfrentar Bolsonaro, numa oposição dividida e paralisada entre o culto da personalidade, ideias antigas e desastres recentes ? Guilherme Boulos falou certo, antes de escolher um nome, é preciso escolher um projeto de governo. Mas só uma grande coligação de partidos pode viabilizá-lo.

Por exemplo, um quadro político da qualidade, da integridade e da experiência de Fernando Haddad pode ser dessa vez um adversário competitivo. Desde que seja por uma coligação de partidos do centro à esquerda, inclusive o PT, mas sem liderança. Uma coligação só faz sentido se contemplar todos os partidos que a integram, democraticamente, harmonizando um projeto mínimo de governo.

Conhecendo nossos partidos e a vaidade de seus líderes, sabemos que eles não conseguem se unir nem em casa, imaginem em uma coligação da esquerda ao centro, como na campanha das Diretas Já. Bolsonaro confia na antiga máxima “a esquerda só se une na cadeia”.

Brasil e a 'solução final'

 


Bolsonaro, sem compromisso com o que diz e faz

De tanto ir e vir, dizer algo hoje e amanhã o seu oposto, o presidente Jair Bolsonaro criou as condições para escapar impune aos efeitos do seu comportamento errático. Salvo um bando cada vez menor de jornalistas incômodos, ninguém se espanta mais com o que ele diz ou faz. O país limita-se a observar entediado.

Normalizou-se o absurdo. Em novembro último, descobriu-se que um total de 7 milhões de testes da Covid-19 mofava em armazéns de Guarulhos, na Grande São Paulo, e que seu prazo de validade expiraria no final de dezembro. O que fez o Ministério da Saúde? Prorrogou o prazo para o final de abril próximo. Simples.

Agora, incapaz de aplicá-los em sua totalidade, decidiu doar parte dos testes ao Haiti. Um gesto humanitário de um governo que pouco se importa com a preservação de vidas, como cansou de demonstrar ao longo da pandemia. Dos 7 milhões de testes, os armazéns ainda acumulam 5 milhões. Melhor doá-los, pois.

Quem mais do que Bolsonaro pregou contra a vacinação e desqualificou as vacinas pondo em dúvida a sua eficácia? Quantos milhões de brasileiras não tomaram horror à vacina por acreditarem na palavra do presidente da República? Por que se vacinarem se Bolsonaro já disse e repetiu que não se vacinará?

Mas, em entrevista à Rede Bandeirantes de TV, Bolsonaro revelou que está sendo realizada uma votação entre seus irmãos para decidirem se vacinam ou não a mãe, Olinda Bonturi Bolsonaro, de 93 anos. E que ele votou a favor “mesmo com uma vacina que não está comprovada cientificamente”.


Se não há comprovação científica por que ele como presidente da República não se opôs à liberação de vacinas pelo Ministério da Saúde? E por que mesmo admitindo que drogas como a cloroquina e outras carecem de comprovação científica, no entanto as recomendou para tratamento precoce da doença?

No final de janeiro passado, Bolsonaro descartou a volta do pagamento do auxílio emergencial aos brasileiros mais pobres atingidos pela pandemia “porque isso quebraria o país”. Na entrevista à Band, afirmou que a volta do pagamento do benefício “é para ontem”, embora possa trazer “problema” para a economia.

Nada demais. Está em linha com ele mesmo. Não jurou que se fosse eleito não governaria com o Centrão e nem lotearia cargos entre os partidos? Rendeu-se ao Centrão para ganhar o comando da Câmara e do Senado e tentar se reeleger. Prometeu combater a corrupção e acabou com a Lava Jato.

Pelos filhos encrencados com a Justiça, fará qualquer coisa. José Vicente Santini, amigo dos garotos, foi demitido por Bolsonaro em 28 de janeiro de 2020 de um cargo na Casa Civil por ter viajado sem necessidade para o exterior em um avião da FAB. Foi para dar exemplo de que o seu era e seria um governo austero.

"Inadmissível o que aconteceu, tá? Já está destituído da função. Decisão minha. O que ele fez não é ilegal. Mas é completamente imoral", decretou Bolsonaro à época.

No dia seguinte, a nomeação de Santini para outro cargo na Casa Civil foi publicada em edição extra do Diário Oficial. Como pegou mal para ele, Bolsonaro mandou anular a nomeação. Finalmente, ontem, Bolsonaro nomeou Santini para 

Vai trabalhar, vagabundo


A vida continua, temos que enfrentar as adversidades. Não adianta ficar em casa chorando, não vai chegar a lugar nenhum. Vamos limitar o vírus, voltar a trabalhar, porque sem economia não tem Brasil
Jair Bolsonaro

A crise do presidencialismo

Desde a sessão de promulgação da Assembleia Constituinte, marcada por brincadeiras, despedidas emocionadas e pelo impressionante discurso de Ulysses Guimarães, até o dia de hoje se passaram 33 anos. Neste período, a democracia brasileira, jovem e frágil, assistiu de tudo.

Dois impeachments, escândalos de bom tamanho na área da corrupção, prisões de gente importante, desmandos e conflitos entre políticos e partidos. Consequência do sistema partidário caótico, com mais de trinta siglas, dentro de um regime de governo indefinido, com seu corpo parlamentarista e prática presidencialista. Não é nenhuma coisa, nem outra.

A resposta tem sido a crise. Houve inflação elevadíssima na casa de cem por cento ao mês. Surgiram vários planos econômicos, antes de a economia encontrar sua estabilidade. A frequente intromissão do Judiciário na área do Legislativo que se esquiva de tomar decisões profundas. Vive na superfície dos problemas.

As reformas essenciais, seja a tributária ou a administrativa, não caminham. Enfim existe a percepção, interna e externa, de que o estado precisa diminuir seu tamanho e aumentar sua eficiência. Mas nada se faz para corrigir essa anomalia. O resultado é a instabilidade.

Pior do que a instabilidade, é o fim das esperanças. O jovem no Brasil encontra enormes dificuldades para encontrar emprego no nível de suas capacidades. Melhor se arriscar no exterior. O Brasil está perdendo seus melhores cérebros.

Quem pode, pega o primeiro avião e caminha para o mundo desenvolvido. Encontrei em Harvard, há mais de ano, um surpreendente contingente de estudantes brasileiros. O Brasil mergulha na direção de níveis africanos. Isso não é derrotismo. É realismo.

A Argentina frequentou o clube dos países mais ricos do mundo, com povo alfabetizado, boa oferta de grãos, petróleo e carne de primeira linha. No início do século vinte, a economia do vizinho chegou perto de ser o dobro do Brasil. Hoje, o produto interno bruto deles está próximo de um terço do brasileiro.

O vizinho regrediu. Deixou o mundo desenvolvido e passou a figurar entre os emergentes. Os hermanos continuam a viver o inferno econômico sul-americano. Juros elevados, inflação alta, reservas internacionais escassas e desemprego feroz. Moeda sem valor. O mercado é indexado ao dólar.

No Brasil a crise é anunciada. O regime presidencialista é um desastre. Só deu certo nos Estados Unidos, porque lá funciona uma confederação de verdade. Houve a guerra da secessão no século 19 quando os estados do sul tentaram deixar a confederação. O presidente Lincoln salvou a União, libertou os escravos e por causa disto foi assassinado.

Na eleição seguinte, através de um acerto entre partidos, tudo retornou à situação anterior. Os negros perderam seus direitos. O sistema eleitoral, indireto, prevaleceu. Ou seja, fizeram questão de reafirmar sua própria autonomia. É a confederação.

Os exemplos recentes daqui são eloquentes. O governo de Dilma Rousseff vinha fazendo água a olhos vistos. Ela perdeu a capacidade de se articular com o Congresso e inventou uma política econômica anticíclica desastrosa. Surgiu o impeachment. O processo foi duro, difícil, provocou crises, queda da bolsa de valores, disparada do dólar, xingamentos de parte a parte e grandes traições. Um desastre.

Nos dias que correm, de novo, a ameaça de remover o presidente de sua cadeira aparece no horizonte. A resposta do governo é distribuir cargos e benesses para comprar alianças e se manter no poder. Não há projeto, a não ser permanecer dentro do Palácio do Planalto, mesmo que seja sangrando em praça pública pelos próximos dois anos.

Os partidos políticos se amoldam aos problemas. O Brasil bordeja o abismo. Se o regime fosse parlamentarista a crise seria menor. O parlamento aprovaria o voto de desconfiança, um novo primeiro-ministro assumiria o cargo e a vida continuaria. É assim no mundo todo. A Itália fica meses sem governo. O mesmo acontece na Bélgica ou em Israel. Nestes países exercício da política é distante do comando da administração.

O governo se defende praticando o conhecido toma lá, dá cá. Podem surgir novos ministérios. Farta distribuição de benesses, verbas e empregos. O impeachment pode ou não acontecer, mas a crise está anunciada. Os brasileiros não perdem a oportunidade de perder mais tempo, de se afastar do mundo desenvolvido, de regredir nos níveis de escolaridade e padecer do pesado desemprego.

Os jovens preparam seus passaportes. Especuladores esfregam as mãos. Já apostam na elevação de juros, no retorno do capital especulativo que produz lucros extravagantes sobre populações empobrecidas. Este foi o pano de fundo na eleição dos presidentes do Senado e da Câmara.

É comovente o esforço do governo Bolsonaro para transformar o Brasil num pária internacional

Não é nada fácil governar um país como o Brasil, o quinto maior do mundo, sexto em população e com a nona economia. O próprio presidente Jair Bolsonaro já fez um desabafo, dizendo: “Não consigo governar”. O motivo dessa incompatibilidade é que não é o presidente da República que governa diretamente, quem o faz é seu primeiro escalão.

O problema é que Bolsonaro escolheu o pior ministério da História, com algumas exceções, é claro, e o conjunto da obra do governo está transformando o Brasil num pária internacional ou “pária diplomático”, como prefere o chanceler Ernesto Araújo, que é destaque apadrinhado pelo filósofo Olavo de Carvalho e desfila na Comissão de Frente da irresponsabilidade institucional.



Entre os 22 ministros, somente quatro escapam da mediocridade reinante – o titular da Infraestrutura, Tarcísio Freitas, engenheiro de formação militar; a ministra da Agricultura, Teresa Cristina, engenheira agrônoma e produtora rural; o presidente do Banco Central, economista Roberto Campos Neto; e o corregedor-geral da União, Gilberto Waller Júnior, procurador federal .

Aliás, o tão competente no combate à corrupção que a Agência Brasileira de Informação (Abin) já pediu a demissão dele, por considerá-lo um obstáculo às manobras para inocentar o senador Flávio Bolsonaro, denunciado por prevaricação, lavagem de dinheiro e outros crimes, vejam só a que ponto chegamos.

Como diria o estadista Oswaldo Aranha, o atual governo é um deserto de homens e ideias, incluindo o multiministro da Economia, Trabalho, Previdência etc., Paulo Guedes, cujo prazo de validade está mais do que vencido.

O pior dessa situação é que o próprio Guedes sabe que o Brasil vai mesmo se transformar num pária internacional, em termos econômicos e diplomáticos, caso não interrompa imediatamente a perseguição à Lava Jato, à Receita Federal, ao Ministério Público, à Polícia Federal e ao Conselho de Controle de a Atividades Financeiras (Coaf).

Organismos internacionais, como o Banco Mundial (Bird), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), Organização Mundial do Comércio (OMC) e Transparência Internacional (TI), monitoram atentamente o combate à corrupção, lavagem de dinheiro, improbidade e enriquecimento ilícito em todos os países.

Os Estados Unidos, por exemplo, mantêm quatro instituições monitoradoras de atividades financeiras. O Brasil só tem a Coaf, que chegou a ser blindada pelo governo e o Supremo interveio, através do ministro Alexandre de Moraes.

Pauta do atraso de Lira começa com jornalistas

Não se trata de saudosismo, nem interesse corporativo. Passei uns bons e felizes anos da minha vida ali naquele comitê de imprensa da Câmara, um olho no plenário, outro na vista do gramado e da rampa, exibida pela ampla fachada envidraçada. Mas jornalista está acostumado a trabalhar onde precisa. Já escrevi muito no chão, sentada em calçadas das mais diversas cidades do país e do mundo, passei matéria por orelhão, telefone de padaria, telex e rádio – sobrevivíamos antes dos fantásticos processadores de texto, celulares, WiFi, etc. Sob o ponto de vista estrito da prática diária, não haveria grandes prejuízos à liberdade de expressão com uma mudança de sala do comitê como a que foi determinada pelo novo presidente da Câmara, Arthur Lira, além da perda do conforto de uma porta dando diretamente no plenário. Mas o problema não é esse.

A coisa muda de figura diante das razões de Lira, reveladas pelos próprios aliados: está transferindo seu gabinete para o lugar onde hoje é o comitê a fim de ter passagem direta para o plenário e escapar às abordagens dos jornalistas a cada vez que atravessar o Salão Verde rumo às sessões, como ainda ocorre hoje – e, diga-se, ocorreu com todos os seus antecessores. Ulysses Guimarães, que às vezes acumulava três presidências (da Câmara, da Constituinte e da República, como substituto de José Sarney), atravessava o Salão Verde todos os dias, frequentemente de quatro a seis vezes no mesmo dia.

>Enche a paciência? Enche. O próprio Ulysses às vezes fazia cara feia para nós. Outros presidentes bem que tentaram implementar o projeto arquitetônico que Lira está agora autorizando, que é antigo. Um a um, porém, foram desistindo, alertados por colegas e assessores, sob o argumento de que desalojar os jornalistas teria um simbolismo muito ruim, passando a ideia de desrespeito ao trabalho da imprensa. Responder perguntas de jornalistas, afinal, é um ritual da democracia, sobretudo para quem chegou naquele Salão pelo voto popular.

Lira parece não ligar a mínima para simbolismos, e muito menos para a prestação de contas de seus atos à sociedade, através da mídia, com a qual não tem boas relações. No seu caso, o que mais preocupa é a facilidade com que decidiu remover os jornalistas para uma sala no subsolo, sem explicações ou conversas, de forma autoritária e irreversível. É um comportamento que prenuncia outras ações do tipo – e não apenas contra jornalistas, mas principalmente contra ritos e direitos da democracia.

Um presidente da Câmara não pode tudo, mas pode muito. Não aprova projetos sozinho, mas os coloca em pauta e nomeia relatores e dirigentes de comissões. Todo mundo sabe que o Centrão, grupo que Lira lidera, não é reformista, e que boa parte da agenda liberal da economia vai acabar engavetada. É na pauta ideológica e de costumes que o novo presidente da Câmara pretende mostrar seus serviços ao Planalto. Armar a população, acabar com as leis do trânsito que salvam vidas, liberar policiais e militares para matar em serviço, dificultar ainda mais o aborto em casos de estupro&... Tudo isso, e muito mais, está na lista. Salve-se quem puder.

Em tempo: Arthur Lira pode pensar que ficou livre dos jornalistas. Não ficou, nem ficará. O pessoal já está se preparando para cercá-lo, na entrada e na saída, na Chapelaria da Câmara, onde o presidente é obrigado a passar para entrar e sair do carro. Não há como escapar. Fácil ou difícil, é preciso seguir correndo atrás da notícia. Assim como os projetos da agenda obscurantista só terão sucesso se a sociedade não se movimentar nos espaços e brechas que a democracia ainda nos oferece para agir contra o autoritarismo.

Helena Chagas

Bolsonaro sofre espancamento verbal e Pazuello evita defendê-lo no Senado

Jair Bolsonaro foi submetido a um espancamento verbal durante a audiência convocada pelo Senado para ouvir explicações do ministro Eduardo Pazuello (Saúde). O general escutou calado o capitão ser chamado de "genocida", "patético", "incompetente" e "negacionista".

Pazuello deixou que o chefe apanhasse indefeso. Mal conseguiu defender a si mesmo. Articulada com o propósito de esvaziar um requerimento de instalação de uma CPI sobre a pandemia, a audiência revelou-se constrangedora..

O mais embaraçoso não foi o lote de críticas e interrogações formuladas pelos senadores, mas as respostas que o general não foi capaz de prover. Restou a impressão de que o Planalto terá de ralar mais do que gostaria para deter a CPI.

Num dos ataques que Pazuello suportou em silêncio, o senador Fabiano Contarato (Rede-ES) bateu abaixo da linha da cintura: "Eu tenho fé em Deus que tanto o senhor como o presidente da República irão responder por genocídio, seja aqui no Brasil, seja no Tribunal Penal Internacional."

Contarato prosseguiu: "O senhor deve ser responsabilizado criminalmente, como o presidente, porque vocês estimularam aglomeração, o não distanciamento social, a não utilização de máscaras e o uso de medicação sem nenhuma comprovação científica".

Desculpando-se por usar "palavras duras", o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE) disse ter identificado na exposição feita por Pazuello na abertura da sessão "um misto de ignorância e mentira." O general não esboçou reação..

Para Alessandro, Pazuello soou ignorante ao declarar que o governo surpreendeu-se com a escalada de contágio que provocou o colapso do sistema hospitalar de Manaus. "Não surpreendeu a quem estava acompanhando o cenário técnico", declarou. "Fazia parte do roteiro traçado pelo vírus inclusive na Europa."

O senador considerou mentiroso o trecho em que Pazuello declarou que o governo agiu com rapidez e proatividade. Só houve agilidade no instante em que o governo minimizou a pandemia, avaliou Alessandro. Ele tachou de "patética" a previsão de Bolsonaro segundo a qual a pandemia seria uma "gripezinha".

Médico sanitarista, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) também mirou em Bolsonaro. Declarou que a "incompetência vem do centro do poder, da forma criminosa como, do ponto de vista sanitário, o presidente se conduziu." Na sua avaliação, o "grande responsável" pelo elevado número de mortos "foi o presidente, que não foi capaz de assumir a ciência". Pazuello reagiu com um silêncio de cemitério.

No comando da sessão, o novo presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), adotou um formato que favoreceu a fuga de Pazuello. Divididos em blocos de cinco, os senadores empilharam críticas e indagações. Ao responder coletivamente, o ministro desviou de interrogações incômodas e desconversou quando lhe pareceu mais cômodo.

Mesmo parlamentares com tendência governista crivaram Pazuello de críticas. Após ouvir a explanação em que o ministro negou ter sido alertado com antecedência sobre o colapso no fornecimento de oxigênio hospitalar no Amazonas o senador amazonense Eduardo Braga, do MDB, rodou a baiana:

"Não está tudo bem, não está tudo certo, e não foi feito tudo o que poderia ter sido feito", declarou Braga a Pazuello. "Eu estive com vossa excelência no seu gabinete, em dezembro. Eu já dizia que nós iríamos enfrentar uma onda no Amazonas muito grave."

Evitando fazer menção explícita à CPI da pandemia, Pazuello fez um "alerta". Traçou uma analogia inusitada entre o Brasil do coronavírus e a Alemanha de Adolf Hitler. Evocando os infortúnios de Hitler, insinuou que a abertura de uma frente de batalha política pode produzir mais mortes.

"Queria fazer o meu alerta: A Alemanha perdeu a guerra duas vezes porque ela abriu a frente russa", declarou o general. "Todo mundo avisou ao ditador que não devia abrir a frente russa - e ele abriu. Não há como manter duas frentes."

Pazuello engatou uma segunda marcha e foi adiante: "Nós temos uma guerra, é contra a covid. Ela é técnica, de saúde, não é política. Se abrir uma segunda frente, política e técnica, vamos apertar. Se nós entrarmos numa nova frente nessa guerra, que é a frente política, nós vamos ficar fixados. Se fixarmos a tropa que está no combate, vai ser mais difícil ganhar a guerra. O resultado disso é morrer mais gente."

Autor do pedido de CPI, o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) deu de ombros para o "alerta" do general: "A fala do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, aqui no Senado, não convence", anotou no Twitter. "O país ainda precisa de muitas respostas e soluções. A CPI da Covid-19 continua sendo INDISPENSÁVEL!".

Guindado ao comando do Senado com o apoio de Bolsonaro, Rodrigo Pacheco planeja cozinhar o pedido de CPI em banho-maria até pelo menos quinta-feira da semana que vem.

Pacheco parou o relógio para matar o tempo e oferecer ao Planalto a oportunidade de convencer senadores a retirarem suas assinaturas do requerimento. Até a noite desta quinta-feira (11), havia no documento 31 jamegões. Para enviar a CPI ao arquivo, o Planalto precisa passar na lâmina pelo menos quatro assinaturas.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Brasil põe bloco na rua

 


O capitão do mato como assessor de imprensa

Dia desses, um jornalista experiente, dos maiores do Brasil, observou com precisão: a atitude de não dar nenhuma resposta às perguntas da imprensa vai se tornando padrão no governo federal. Resta aos jornalistas reportar o silêncio oficial: “O palácio decidiu não comentar”; “o ministério não deu retorno”; “consultamos a Presidência da República, mas não obtivemos resposta”.

A prática sistemática de ignorar as perguntas dos repórteres é mais um capítulo no bestiário que inclui numerosos insultos às redações jornalísticas e a seus profissionais. O governo, que já se notabilizou por ofender rotineiramente as empresas de comunicação e o ofício dos que se dedicam a informar o público, passa agora a adotar como política diuturna a arrogância do mutismo ostensivo e o desprezo contumaz pelo direito à informação. O quadro só piora.

É difícil encontrar precedentes para esse tipo de aberração. Nem mesmo Armando Falcão, ministro da Justiça de Ernesto Geisel, na ditadura militar, que recorria a evasivas como “nada a declarar” ou “sem comentários”, chegou a tanto. O que se estabelece agora, muito mais do que a esquisitice de um ministro dado a chiliques, é uma norma não escrita de indiferença governamental aos jornalistas e ao direito que cada cidadão tem de saber o que se passa dentro do Poder Executivo. É como se as autoridades nos dissessem a toda hora: “Vocês que se danem”.

No curso dos desplantes continuados contra a imprensa e contra a sociedade há traços de uma truculência ancestral – e de uma obtusidade imemorial. O presidente que aí está já deu mostras sucessivas de seus limites cognitivos, que o impedem de alcançar a complexidade das relações políticas mediadas por institutos como a liberdade de expressão e o direito à informação em sociedades modernas. O estilo deseducado, quando visto pela perspectiva do indivíduo em questão, é antes produto da estreiteza mental que de uma revolta genuína ou refletida. Nele o excesso de infâmia resulta da escassez de pensamento, o que o leva a se portar como um bárbaro dentro de seu próprio país.


Violência é a palavra-chave. Nas forças que levaram Jair Bolsonaro ao poder encontramos pistas que nos remetem à brutalidade que nos definiu como nação, numa linha contínua que atravessa toda a História do Brasil. O pacto autoritário que o elegeu e o sustenta tem no seu núcleo a presunção de que a opressão física a mando de interesses privados resolve os supostos desvios da vida pública. Nesse pacto a obediência tem mais valor do que a consciência e a liberdade. O chefe de Estado não é simplesmente um tipo amalucado de efeitos genocidas, não é apenas um falastrão xucro que chegou lá porque o eleitorado é volúvel e conservador – ele é a forma concreta do método pelo qual as camadas mais ricas e mais fortes esperam resolver seus impasses particulares a despeito do bem público.

Na constituição de caráter (ou de ausência de caráter) do atual presidente comparecem o capitão do mato, o jagunço, o matador de aluguel, o feitor de escravos, o capataz, bem como as novíssimas afetações das empresas de segurança privada e as milícias, as milícias, as milícias. Por meio dele, a polícia manietada se sobrepõe à política ilustrada. Ele entrou em cena como um prestador de serviços sujos a senhores que, em geral, preferem se refugiar em anonimatos ilustres e jamais o convidariam para jantar, ainda que o vejam como um agente útil, capaz de carpir a terra agreste para cair fora em seguida. O presidente está para as elites de hoje assim como o chicote, a chibata e os esquadrões da morte estavam para as elites de outros tempos. É uma ferramenta necessária, embora sabidamente infame.

O que não ocorre aos senhores, chafurdados em privilégios, é que às vezes o leão de chácara vira dono da boate – vide Pinochet. Não lhes ocorre que a política civilizada, no nosso tempo, é a única via de acesso ao futuro – vide Biden. Não há atalhos. Por não terem visto nada disso, e por acreditarem que o serviço sujo traz a “limpeza” classista, mantêm seu apoio indigno a um provocador que usurpa o próprio mandato. Não, a nossa tragédia não é a persistência do presidente da República. A nossa tragédia pior são aqueles que o sustentam por ação ou omissão.

E assim estamos. Quando esse governo achincalha a imprensa, como vem fazendo seguidamente, quer achincalhar a instituições da democracia e da vida civilizada. Sem descanso, trabalha para expelir da cena pública qualquer olhar que não seja subserviente. O governante que alimenta o projeto de um Estado como a extensão de um quartel rebaixado quer a sociedade como uma plateia de bajuladores.

Enquanto isso, vai fazer mais vítimas entre os que lhe deram esteio, pavimentando o caminho para seu idílio de intolerância e desfaçatez, no qual ele não terá de dar respostas, nunca, apenas ordens. Fora isso, vai seguir batendo na imprensa, vai continuar a chamá-la de “lixo”, sempre para deixar patente que, em matéria de cultura, de civilidade e de boas maneiras, a ele bastam o penteado descentrado e a gravata desconforme.

Carnaval 2021 – só na política!

Eu sempre achei que o Carnaval fosse a época em que o mundo vira de cabeça para baixo. Em que os loucos tomam, por alguns dias, o poder. E que fosse a única época em que tudo é permitido. Agora, me parece que está tudo permitido, com ou sem Carnaval.

Fiquei surpreso, admito, com a responsabilidade que os organizadores mostraram ao cancelar a festa. O vice-governador do Rio de Janeiro ainda tentou inventar um Carnaval fora de época, em julho, para compensar as perdas econômicas. Mas os foliões se mostraram firmes, mesmo sabendo do sufoco pelo qual os trabalhadores do Carnaval estão passando. Abdicar de uma parte da própria liberdade em favor do bem comum é um gesto generoso, que é a base do processo civilizatório.

Enquanto isso, o presidente continua não disposto a fazer um gesto desses. Anda sem máscara e falando que não irá se vacinar. Certamente, ele acha que passa, com isso, um sinal de firmeza e de força. Mas o sentimento da maioria me parece diferente. Frente aos números de mais de 230 mil mortes pela covid-19, só os jovens fortões das baladas clandestinas se acham machos o suficiente para negar os cuidados básicos.

Revista Careta (1932)

Ao mesmo tempo, observo sim uma mudança nas atitudes do presidente. Este ano não haverá um tuíte sobre "golden shower" para desqualificar o pessoal do Carnaval. Bolsonaro entendeu que as brincadeiras nas redes sociais não serão suficientes para garantir seu poder e as chances à reeleição em 2022. Para isso, ele precisa ganhar primeiramente a corrida das vacinas contra o governador paulista, João Doria. E precisa abdicar das críticas aos comunistas chineses para garantir o fornecimento dos imunizantes.

E, em nome da reeleição, Bolsonaro assumiu de vez a "velha política", que ele criticou duramente em 2018, mas da qual nunca abriu mão. A entrada oficial do Centrão na cabine de pilotagem do governo segue uma tendência já histórica de ascensão do baixo clero dentro do Congresso brasileiro. Quando Severino Cavalcanti assumiu a presidência da Câmara, em 2005, era visto como a chegada do baixo clero ao poder. Custou caro aos governos Lula e Dilma precisar do apoio deles.

O próprio Bolsonaro tem sido um representante do baixo clero, transitando, ao longo de três décadas na política, de um partido fisiológico para o outro. Nada mais natural do que se juntar agora, na hora do maior aperto que ameaça sua presidência, ao baixo clero. De volta à pátria!

A grande surpresa desse movimento tem sido a fraqueza do centro tradicional. Tanto o DEM quanto o PSDB se deixaram rachar pelas avançadas de Bolsonaro. O presidente ganhou corpo para disputar 2022, enquanto a oposição a ele, tanto à esquerda quanto no centro moderado, anda com dificuldade de formar uma candidatura competitiva. Resta, para eles, observar com inveja as folias do Centrão.
Thomas Milz

Para Bolsonaro, a prioridade é devastar

Na semana passada, o presidente da República entregou ao novo titular da Câmara dos Deputados a pauta legislativa de interesse do Executivo, contendo 35 projetos já em tramitação no Congresso. Quem tem tantas metas a rigor não tem nenhuma. Ainda mais quando se considera o escasso tempo —coisa de um ano— antes que as disputas voltadas para as próximas eleições paralisem os trabalhos legislativos.

Em meio à pandemia, é de estarrecer a ausência de qualquer iniciativa para fortalecer o sistema público de saúde, apoiar as redes de escolas públicas confrontadas com o desafio da reabertura em circunstâncias difíceis ou, enfim, para fortalecer a capacidade do país de produzir ciência e conhecimento aplicado a fim de enfrentar a calamidade sanitária.

Rodrigo de Matos (Portugal)

Em compensação, quatro projetos, considerados prioritários pelo presidente, tem tudo para agravar a devastação da Amazônia e colocar em perigo o modo de vida --se não a própria existência-- de suas populações originárias.

Menina dos olhos de Bolsonaro, a mineração nas terras teoricamente protegidas que esses povos, por lei, ocupam é objeto do projeto de lei 191/2020, que pretende regulamentar a exploração de recursos minerais —incluindo o garimpo—, hídricos e orgânicos naquelas reservas. Hoje praticados de forma ilegal, se guiados por regras frouxas, mineração e garimpo poderão desfigurar 50% das terras indígenas da Amazônia Legal, 28% delas em toda sua extensão, afetar 28 comunidades indígenas e cerca de 65 povos isolados, segundo calcula o ISA (Instituto Socioambiental).

A regularização fundiária é tratada no projeto de lei 2633/2020, que substituiu a chamada medida provisória da grilagem (MP 910) e que, no entender dos especialistas, ao estimular a ocupação predatória e ilegal de terras, pode produzir retrocesso ambiental.

A lista do desastre se completa com os textos que tratam do licenciamento ambiental (projeto 3729/2004) e das concessões florestais (5518/2020). Nos dois casos, um cabo de guerra opõe os defensores de normas claras que imponham custos elevados à depredação àqueles que mexem os pauzinhos junto ao governo pela licença ilimitada para desmatar.

Os destinos da floresta e de seus povos são inextricáveis: é o que torna o Brasil original como cultura e decisivo, graças ao seu patrimônio ambiental, para o futuro do planeta --valores espezinhados pela combinação de cegueira, ignorância e vocação destrutiva da extrema direita que desgoverna o país. O Legislativo terá de enfrentar mais uma vez o desafio de impedir o pior. Resta saber se terá ânimo para tanto.

Sem vergonha alguma

Não tenho vergonha nenhuma, não. Tomei uma atitude coerente. Meu desprendimento de ter aberto mão da minha carreira no Exército mostra que estou a serviço do País. O governo hoje é do Bolsonaro, mas é do País.
Tenho contato com vários generais, amigos meus, não há isso, não. Eles entendem que é o momento político, que estou cumprindo uma missão 
Luiz Eduardo Ramos, general-ministro da Secretaria de Governo, articulador da venda do governo ao Centrão