terça-feira, 1 de setembro de 2020

Náufragos

Nós nos sentíamos um tanto confortáveis nas ilhas de civilidade que este país tinha há alguns poucos anos, por algumas poucas décadas desde a redemocratização. E tivemos a ilusão de que elas se expandiriam, quase de forma natural, se apenas fôssemos dignos e seguíssemos a marcha da Constituição e até mesmo se fôssemos um tanto conciliatórios — não era para sermos radicais, não é mesmo?

Essas ilhas encolheram e estamos cada vez mais náufragos.

Se a gente pudesse levar cinco coisas para uma ilha deserta, o que levaríamos? Esse exercício ancestral de imaginação ganha contornos mórbidos em meio a este país que implode. Com a velocidade do recuo só pudemos levar uma coisinha e outra, e diante disso restringimos nossas causas (é como se tivéssemos escolhido apenas algumas causas para levar adiante) àquelas que mais diretamente nos diziam respeito. Quase nos tornamos uns canibais.

Enquanto isso os direitos da infância foram sendo esquecidos. Durante os anos 2000 eles eram uma pauta bem mais ativa. Mas aí cada um passou a cuidar do seu assunto, a fazer com cada vez mais orgulho seus combates mais narcisistas. Não priorizamos as crianças, não demos mais a elas (a não ser no plano individual, em nossas famílias imediatas) o destaque que mereciam no espaço público, no debate público.

Não porque fôssemos uns calhordas. Mas talvez porque isso tenha sido planejado. Talvez tenhamos sido marionetes rumo ao fratricídio. Perdemos a noção de conjunto. E encolhemos as utopias, o tempo foi comprimido, nos tornamos mais imediatistas. A ideia de futuro (estamos a falar de crianças, afinal) foi sendo deixada de lado, as editorias de educação e as míseras pautas que reservávamos para a infância foram sendo demolidas.

Penso em tudo isso ao tentar entender o desvio gigantesco que terá ocorrido em algum momento — essa gigantesca fratura no solo que não vimos, esse monumental buraco na camada de ozônio que não quisemos ver — para que tomássemos uma criança de 10 anos como assassina. (Salvo alguns casos estudados na psiquiatria, algumas crianças precocemente psicopatas, cruéis. Mas nossa distração para com a sociopatia pode ficar para depois.)

Quando eu tinha 10 anos eu jogava bolinha de gude e disputava gol a gol com meu irmão (ou destruíamos os vasos da minha mãe jogando paredão na garagem) e era um CDF na escola, estava na quinta série e sentava quase sempre na segunda carteira, tirava ótimas notas e eu não sabia ainda o que era sexo (acreditem) e gostava de jogar bolinha de gude sozinho, jogava cartas sozinho. Não fui vítima de extrema violência, de alguma atrocidade, lembro-me bem que eu pude desenvolver minhas inadequações com certa liberdade.

Tempos depois eu era repórter de um jornalão e coincidiu de cobrir muitas pautas relativas aos direitos da criança e do adolescente. Cobri muita Febem. Essa que chamam hoje de Fundação Casa. E me lembro de reportar maus tratos sistemáticos e de ouvir (sim, isto não é uma absoluta novidade) de colegas de redação que aqueles meninos eram mais parrudos que muito adulto. “Leva o Champinha para casa, então!” (Esse foi o título de um artigo de jornalista que andou pela Veja e hoje dirige uma revista de extrema-direita.)

Escrevo tudo isso para tentar entender de qual pântano terá emergido não a Sara Winter (pois exatamente ela talvez entre no tema que deixei de lado, acima), mas seu séquito de apoiadores fanáticos, esses que gostaríamos de ver como zumbis, mas são nossos pares, nossos colegas, nossos vizinhos. Essas pessoas acabaram de sair, insaciáveis, da fogueira que matou Joana D’Arc ou temos alguns elementos mais recentes, nesta sociedade com outros tipos de espetáculo, que expliquem melhor a barbárie atual?

Não tenho muita duvida em relação ao fato de o bolsonarismo ser mais um sintoma do que uma causa. Esses vizinhos e parentes tão fálicos, com essas tochas, apoiam Bolsonaro e aceitam um genocídio porque, em algum momento, a gangorra da barbárie subiu vertiginosamente, nós nos esquecemos dos adolescentes em conflitos com a lei (eles continuam sendo espancados) e erguemos ainda mais nossos muros. Não nos preocupamos mais com nossas crianças e nossas meninas — Gilberto Dimenstein morreu com seus temas fora de moda.

E tudo se inverteu. Ou melhor, se amalgamou, ou se inverteu brutalmente como amálgama. Os assassinos passaram a definir os assassinos como se não fossem assassinos, os corruptos passaram a definir outros corruptos como corruptos, desde que conviesse a objetivos que nada tivessem a ver com corrupção, e a Sara Winter se tornou possível porque a variação súbita de paixões passou a ser algo quase recomendável. Passamos a jogar uma roleta-russa coletiva. E as crianças ou foram convidadas a brincar também de ódio (o ódio nas redes foi sendo antecipado) ou esquecemos que elas são alvos naturais nessa cultura da destruição, da morte.

Desconfio que a luta contra essas pós-senhoras de Santana não deva se restringir à estupefação com suas rezas macabras, com seus fervores raivosos, com suas tochas compungidas. E não que não tenhamos de pensar em lutas convencionais contra as tochas compungidas, mas penso que falta entender em que momento exato nos fodemos, deixamos que tudo ficasse misturado a ponto de essa mescla (como um câncer maldito mesmo) pudesse crescer do lado da barbárie, e não da civilização.

A adesão à barbárie — linguagem que, em tese, os bárbaros dominam melhor que a gente — talvez apenas atice esse fogo que matará novamente Joana D’Arc (não fui eu que matei, fomos todos nós) e a dignidade de cada criança de 10 anos, não apenas essa que está agora ameaçada por essas tochas. Até porque adesões à barbárie costumam ser mais sutis do que gostaríamos de supor. A invisibilidade do abuso sexual, da violência sexual contra crianças, por certo nunca deixou de existir. Mas por que deixamos de falar desse tema nos últimos anos?

Eu tenho medo que o tio da menina seja um herói para seus filhos e um respeitável homem de bem no seu trabalho, na sua patota que joga futebol às quartas. Mas não somente que ele seja um herói para esses filhos e colegas pelo que ele tenha dito ou feito de explicitamente nocivo aos nossos olhos resistentes, mas pelo que o tio da menina e da Sukita e do pavê represente (e não apenas como vilão evidente, portanto) de naturalização coletiva de códigos que deveríamos ter repudiado com mais ênfase, há algum tempo.

Mais ou menos como se, além de tudo, tivéssemos de nos defender de nós mesmos. Seja de nossa passividade, seja dos espasmos súbitos de justiçamento. (Notem que não estou a pregar ausência de reações de legítima defesa, de desobediência civil ou mesmo de violência quando for o momento de retirarmos violentadores em série de nossas instituições e de nossos portões. E sim que tudo isso só poderá ser feito a partir de uma linguagem que não esteja amalgamada com a dos adversários.)

E não que a culpa seja das vítimas ou dos resistentes, claro. Mas supostamente estou me dirigindo a vítimas e a resistentes, àqueles que ainda conseguem, em tese, identificar que estamos ilhados e essas ilhas civilizatórias estão encolhendo e os piratas estão vindo com sangue nos olhos, eles querem nossas ilhas para plantar mais soja e atear fogo em nossas artes e nos contaminar com doenças palpáveis e pandemias impalpáveis, eles farão isso e ainda dirão que estamos a desafiar o sagrado direito à propriedade e que a nossa defesa será um atentado às cruzes que eles portam — nós, despejados, é que seremos definidos como os culpados.

Por isso precisávamos ter defendido com mais ênfase os meninos da Febem e os bebês indígenas mortos por diarreia, as verbas congeladas da educação e (mil vezes mais) cada criança assassinada pela polícia no Rio e em nossas fuças, nós naturalizamos o avanço da barbárie até onde não pudemos mais e aí as pós-senhoras das tochas começaram a ser conduzidas pelo vácuo, esse que foi ocupado pelos Bolsonaros e pelas Saras, em meio a este nosso inverno, esse cansaço disfarçado de gritarias pontuais, esse assassinato das utopias em nome de individualismos múltiplos.

Falemos de censura

Como se sabe, houve episódios em que os mensageiros que levavam ao rei ou ao senhor as más novas corriam o sério risco de serem executados. Monarcas e chefes não só se consideravam uma espécie de deuses, no mínimo escolhidos por Deus, como detestavam ser contrariados. Como já haviam nascido em palácios e sido criados entre jardins, nunca aprenderam a lidar com a frustração e a adversidade; por isso, quem estivesse mais à mão é que pagava a sua fúria.

Já no tempo de Marcelo Caetano, no antigo regime, a actividade censória passou a ser chamada “exame prévio”, para evitar o termo “censura” (tal como a PIDE passou a ser “Direcção-Geral de Segurança”) pois havia que passar a imagem de abertura política, cá dentro e no estrangeiro, muito embora nada tenha mudado na substância.


Mas a antiga censura baseava-se na interrupção do fluxo de informação através do famoso lápis azul dos coronéis censores. Assim, os consumidores de informação não podiam ler nos jornais, ver na televisão ou ouvir na telefonia o que de facto acontecera e cuja divulgação pública o regime entendia não lhe convir. Os portugueses desenvolveram então a técnica de ler os jornais nas entrelinhas e nos espaços vazios dos layouts que não faziam sentido. Ficávamos então a saber que a censura cortara um texto de dimensão significativa.

Hoje, porém, tal procedimento está ultrapassado por ser incompatível com um estado de direito democrático e contrário à Constituição da República. Assim, havia que encontrar novas formas de censura para aplicar em países formalmente democráticos e onde o antigo sistema se tornara impossível. Na ditadura chinesa, por exemplo, vimos como mandaram prender recentemente o dono dum importante jornal de Hong Kong, desalinhado de Pequim, além de todas as manobras intimidatórias que a imprensa livre tem vindo a sofrer crescentemente no território.

De momento existem duas novas formas de censura que têm sido profusamente utilizadas, mesmo nos países de regime democrático. A primeira delas é o excesso de informação irrelevante. Segundo Yuval Noah Harari: “No passado, a censura funcionava através da interrupção do fluxo de informação. No século XXI essa censura funciona através do excesso de informações irrelevantes fornecidas às pessoas” (Homo Deus, Elsinore, 2017). A técnica é simples: os inúmeros canais de televisão, generalistas e por cabo, as rádios, os jornais e sobretudo as redes sociais, despejam constantemente toneladas de informação inútil sobre o público. Como se sabe, as overdoses nunca foram boas para a saúde.

Veja-se o caso dos principais blocos noticiosos em horário nobre nos canais generalistas, que são capazes de durar uma hora e meia… Veja-se o alinhamento das notícias, que muitas vezes privilegia o supérfluo, os fait divers, deixando lá mais para o meio as notícias do país e do mundo que realmente importam. Vejam-se os sacramentais directos de que se usa e abusa para muitas vezes não acrescentar qualquer informação nova. Veja-se também a estanha mistura entre informação e entretenimento: funciona como estratégia para desconcentrar o público das situações realmente importantes.

A segunda nova forma de censura é o lançamento de notícias falsas (fake news) nas quais se especializaram os governantes sem estatura e seus colaboradores e apoiantes desprovidos de qualquer ética, responsabilidade e espírito de missão. Estas notícias falsas destinam-se a gerar reacções negativas contra os adversários políticos e a fazer passar as opções da governança, mesmo quando são injustas, criminosas, imorais ou destrutivas.

Está provado que as notícias falsas não são brincadeira. Influenciaram importantes actos eleitorais como as eleições presidenciais americanas de 2016 ou o referendo do Brexit no Reino Unido, com as consequências que se conhecem, podendo até levar multidões à morte. A BBC cita um estudo publicado no jornal médico American Journal of Tropical Medicine and Hygiene, onde se afirma que “cerca de 5800 pessoas foram parar a hospitais devido a informação falsa sobre a covid-19 que viram nas redes sociais. Muitas delas morreram após terem bebido metanol ou produtos de limpeza à base de álcool, acreditando ser uma cura para o vírus.”

O slogan do PREC era “o povo unido jamais será vencido!” Pois bem, precisamos de lançar um novo: “O povo bem informado jamais será enganado!”

Entre o vírus e o fogo

Quem temia que a vaca fosse para o brejo já tratou de se atualizar. Agora receia que não sobre uma única vaca, com este passar da boiada em direção ao atoleiro. No pântano nem há mais risco de que se atolem. O Pantanal era lugar de água, com cheias de rios que refletiam o céu. Agora é de chamas que não se apagam, por mais que se lute. Só se vierem chuvas fortes, que tardam. Seu regime foi alterado pelo desmatamento, enquanto os órgãos de fiscalização ambiental são desmantelados, para permitir a derrubada da mata, o garimpo ilegal, a invasão de terras indígenas, a grilagem. Num país que quer taxar livros e isenta igrejas. E onde presidente acha que pode ameaçar jornalistas.


Vemos há semanas que o Pantanal está pegando fogo — além do Pará, de áreas no Amazonas e por toda parte. Nem a Mata Atlântica escapa. Tivemos queimadas dias a fio na Mantiqueira e na Serra dos Órgãos. Além dos contumazes desmatadores, um sujeito tacou fogo no próprio carro em Araras para dar um golpe no seguro e incendiou a reserva florestal. Aprendera bem a lição nacional da impunidade para a esperteza de não produzir e se apropriar do alheio.

Já as araras com minúscula, aquelas azuis que inspiraram campanhas de preservação, se escaparem das labaredas em Mato Grosso ficam condenadas a morrer de fome. Queimou-se a mata onde viviam mais de 700 delas , acabaram frutas e sementes. Sorte igualmente terrível tiveram seus vizinhos que não voam: jacarés, antas, veados, quatis, onças, toda a fauna da região vai ardendo. E já começa outra frente de chamas na Serra da Canastra, onde nasce o São Francisco, o rio considerado da integração nacional. Acompanha a nação que se desintegra.

O mundo se preocupa com os efeitos sobre o clima. Ambientalistas avisam. Empresários alertam sobre as consequências na economia. Adianta?

Ficam muitos fazendo “lives”, enquanto o vírus e o fogo fazem “deaths”. E eu choro por minha terra e minha gente, meu país com nome de árvore, a se consumir neste inferno.

Brasil das segundas intenções

 


Plenitude democrática deve ser a principal preocupação

São inúmeras as preocupações – que vão da política à economia – com o que ocorre de ruim em nosso país. Dentro dessa dupla cabe tudo que diz respeito ao ser humano, mas nem todo político e/ou gestor público sabe com precisão o que significa isso. E a preocupação com a plenitude democrática é, sem dúvida, a mais importante de todas.

Essa preocupação domina hoje, com certeza, a maioria do povo norte-americano. Os Estados Unidos, ao longo de muitos anos, com suas virtudes e defeitos, têm sido um dos melhores exemplos para os países que elegeram, como o nosso, a liberdade. A eleição de Donald Trump e, agora, a chance em potencial da sua reeleição só aumentaram a preocupação com o futuro próximo dessa grande nação.


Na convenção do Partido Democrata, as palavras de muitos dos seus mais expressivos filiados, mas, especialmente, do ex-presidente Barack Obama, da ex-primeira-dama Michele Obama, do senador Bernie Sanders e do próprio candidato Joe Biden foram claras quanto à preocupação com os riscos que corre lá o regime democrático. “É isso que está em jogo neste momento: a nossa democracia”, disse Obama. “O caráter nacional – afirmou Biden – está em disputa nas urnas” e, com ele, explicitou, “a decência, a ciência, a democracia”.

Aqui no Brasil, leitor, a situação é pior. As instituições democráticas têm sido ameaçadas à luz do sol pelo próprio presidente da República desde o início da sua gestão. Um pouco mais calmo durante alguns dias, por medo e movido por interesse eleitoreiros, o presidente voltou agora à sua costumeira grosseria, demonstrando que não merece o cargo que ocupa. Primeiro, no Nordeste, afirmou: “Problemas, todos nós temos, mas eu costumo dizer, com todo respeito, na política eu sou imbroxável”, e, orgulhoso, concluiu: “Não é só na política não porque eu tenho uma filha de 9 anos de idade que foi feita sem aditivo”.

Antes de tomar ciência do que disse o presidente no Nordeste, havia lido a entrevista do ator Tony Ramos que, perguntado sobre o que espera do Brasil como cidadão, respondeu: “Só vai me dar alegria o dia em que esse país for nação por meio da educação”.

Logo após, vi a notícia na televisão sobre as ameaças feitas pelo presidente, em frente à Catedral Metropolitana de Brasília, a um repórter de “O Globo” que havia perguntado a ele sobre repasses de R$ 89 mil feitos por Fabrício Queiroz à primeira dama Michele Bolsonaro: “Vontade de encher tua boca de porrada”, ameaçou o repórter. Dia seguinte, de volta ao seu normal, e depois de dizer que é um atleta, praguejou: “Aquela história de atleta né, que o pessoal da imprensa vai para o deboche, mas quando pega um bundão de vocês, a chance de sobreviver é bem menor”.

É esse, leitor, o perfil de presidente que você deseja?

Meio homem

Se um homem não chora pela dor do mundo, ele é apenas meio homem; e haverá sempre dor no mundo. Um bom homem procurará aliviar a dor do mundo. Um tolo sequer a notará, a não ser em si mesmo. E o pobre infeliz homem mau levará a dor mais profundamente para dentro de tudo e a espalhará por onde quer que vá
William Saroyan, "A comédia humana"

 


A rampa que leva ao fascismo

Voluntário da causa republicana na Guerra Civil Espanhola, George Orwell desembarcou em Barcelona no final de 1936 com o propósito inequívoco de matar um fascista — no caso, um combatente das falanges do generalíssimo Francisco Franco. Menos de uma década depois, o escritor inglês constataria que a palavra “fascista”, empregada para qualificar (ou desqualificar) dos cachorros (!) à astrologia, ficara “quase desprovida de significado”. A vulgarização do termo, que Orwell registrou já em 1944, seguiu em curso desenfreado século XXI adentro. A eleição de um franco apologista da ditadura militar cuja retórica beligerante parece não conhecer freios — como se viu na recente ameaça física ao jornalista que o questionou sobre as ligações de sua família com o indefectível Fabrício Queiroz — revitalizou o termo antes usado para xingar os mais timoratos políticos de centro-direita e às vezes até de centro-esquerda. Mais ou menos como o espectro do comunismo da famosa abertura do "Manifesto comunista" de Marx e Engels, um fantasma nazifascista assombra o debate público nacional.

Em mensagem privada que vazou para a imprensa, Celso de Mello, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), comparou a situação brasileira atual ao fim da República de Weimar com a ascensão do nazismo, e seu colega Gilmar Mendes vem falando em genocídio para caracterizar o descalabro do governo na condução da pandemia de Covid-19. No campo acadêmico, um conjunto substancial de pesquisadores da história e das ciências sociais — nem todos alinhados com a esquerda, ao contrário do que poderiam supor os tietes de Jair Bolsonaro — vem discutindo o problema com rigor e seriedade. Nenhum deles chega a afirmar que vivemos sob um regime fascista. Mas os traços autoritários do governo e o ressentimento fanático de seus apoiadores permitem aproximações com os movimentos que assombraram o mundo na primeira metade do século XX.



O fascismo histórico emergiu nos anos 20 e 30 do século passado, em uma Europa que mal se recuperara dos traumas da Primeira Guerra Mundial e já afundava na depressão econômica. A palavra vem dos Fasci di Combattimento, as organizações paramilitares italianas lideradas por Benito Mussolini. Com a vitoriosa marcha das esquadras fascistas sobre Roma, em 1922, o ex-socialista Mussolini sagrou-se como o pioneiro dos ditadores de extrema-direita na Europa. Mais frouxo em sua doutrina que seu irmão alemão — o nazismo de Adolf Hitler só tomaria o poder em 1933 —, o fascismo desligou-se de seu contexto original para se converter em um conceito ainda válido na ciência política.

O ensaísta e romancista italiano Umberto Eco, em um artigo famoso de 1995, divulgou a ideia de um “ur-fascismo”, ou “fascismo eterno”. Historiadores como o britânico Roger Griffin, de Oxford, aceitam um “fascismo genérico”, que, tal como o socialismo ou o liberalismo, pode se apresentar em diferentes tempos e lugares. Robert O. Paxton, autor de "A anatomia do fascismo", propôs a noção muito aceita de que o fascismo pode ser definido por uma série de “paixões mobilizadoras”, entre elas o sentimento de que se vive em uma crise que não pode ser resolvida por meios políticos tradicionais — presente nos ataques que Bolsonaro, hoje amigado com o centrão, fazia à “velha política” — e a confiança de que os instintos do líder superam a razão — patente entre bolsonaristas que se opõem ao distanciamento social e até ao uso de máscara como medidas contra a disseminação do coronavírus. “Não podemos classificar e analisar determinados fenômenos com o olhar dos anos 30”, disse o historiador Leandro Pereira Gonçalves, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Para que sirva à compreensão da atualidade, o conceito de fascismo “precisa ser maleável, adaptável”.

Pelo menos dois núcleos de estudo abrigados em universidades dedicam-se hoje ao autoritarismo de direita. O Observatório da Extrema Direita congrega 13 pesquisadores de áreas diversas, cujos objetos de análise “vão do local ao global”, conforme define um dos coordenadores do projeto, o historiador Odilon Caldeira Neto, também da UFJF e coautor, com o colega Leandro Gonçalves, do recém-lançado "O fascismo em camisas verdes" (Editora FGV), uma história do maior e mais longevo movimento fascista brasileiro, o integralismo fundado por Plínio Salgado, dos anos 1930 até suas versões mais recentes. O Observatório não se centra apenas na realidade brasileira, abrangendo o quadro amplo dos chamados populismos de direita que emergiram nos Estados Unidos de Donald Trump e na Hungria de Viktor Orbán. Caldeira Neto é reticente no emprego da categoria do fascismo para explicar o bolsonarismo, pois isso poderia ser um modo de “projetar o presente no passado”. “Há elementos comuns com o fascismo, como a criação do comunismo como o inimigo ideal”, disse. De outro lado, ele aponta o individualismo como uma diferença fundamental: o fascista do século passado — incluindo-se aí sua versão brasileira, o integralista — neutralizava sua individualidade no seio do partido, enquanto o bolsonarismo valorizaria o self-made man.

O segundo grupo de pesquisa, vinculado ao Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da PUC de São Paulo (Labô) e com 40 participantes, é mais provocador no título: Bolsonarismo, o Novo Fascismo Brasileiro. Eduardo Wolf, doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenador do projeto, explica que o ponto de partida é o debate, corrente há mais de uma década, sobre a crise das democracias liberais — crise que, no instável cenário político brasileiro, teria conduzido a Bolsonaro. Wolf faz uma distinção importante entre o governo e o movimento social que lhe dá amparo. Se o residente do Palácio da Alvorada ainda se deixa limitar pelas regras do jogo político, o mesmo não vale para a turba que — sob incitação ou inspiração de seu líder — divulga memes e fake news pelas redes sociais, faz carreatas em frente a hospitais ou lança fogos de artifício contra o prédio do STF. “Não é mais mera acusação retórica falar em fascismo ou neofascismo quando se trata da configuração do movimento social bolsonarista”, disse Wolf.

“Os fascistas são mentirosos de uma categoria muito particular: acreditam nas mentiras que contam — mentiras que servem à construção de um passado nacional glorioso”

Bolsonaro já vai se convertendo em um caso de estudo internacional. Professor da New School for Social Research, em Nova York, o argentino Federico Finchelstein contou que utiliza, em sala de aula, o presidente brasileiro como exemplo da “deformação radical da realidade” promovida pelo discurso fascista. “Ele é muito explícito nisso. É até chamado de ‘mito’ por seus seguidores”, disse. Em um livro publicado neste ano, "Uma breve história das mentiras fascistas" — a ser lançado no Brasil em setembro, pelo selo Vertigem —, Finchelstein propõe que os fascistas são mentirosos de uma categoria muito particular: acreditam nas mentiras que contam — mentiras que servem à construção de um passado nacional glorioso, um mito retrógrado que dá base à prática política do líder autoritário. Amparada em uma profusão de textos e discursos de ideólogos fascistas do século passado, a tese abrange duas figuras contemporâneas que despontariam como herdeiros dessa linhagem: Bolsonaro e o presidente americano Donald Trump. “Não é possível chamá-los de fascistas neste momento. Mas ambos tentam degradar e diminuir a democracia, até onde isso é possível”, disse Finchelstein.

A construção de um inimigo perverso — uma das paixões mobilizadoras de Paxton — também é parte do modus operandi fascista, e o bolsonarismo é pródigo em inimigos, reais ou imaginários: a imprensa, o globalismo, a esquerda. Essa batalha contra inimigos múltiplos trava-se sobretudo nas redes sociais — e essa é uma diferença marcante em relação ao contexto histórico dos anos 1920 e 1930. O cientista político Giuseppe Cocco, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), disse que em uma era de “guerras moleculares” — como as que devastam a Síria e como as que afligem as periferias conflagradas do Rio de Janeiro —, nas quais todos lutam contra todos e impera a confusão, a identificação do inimigo se torna um “mecanismo de legitimação”.

Na guerra cultural brasileira, é comum que antigos aliados do governo ocupem esse lugar — como ocorreu com o ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Esse processo não foi criado pelo bolsonarismo, mas se agravou com ele. “Tudo isso já vinha sendo produzido pela polarização que o lulismo acirrou quando entrou na linha de fogo da Lava Jato”, avaliou Cocco. O combustível da guerra cultural bolsonarista é o ressentimento, e nisso o historiador Michel Gherman detecta um “sotaque nazista”. “Mais do que qualquer fascismo, o nazismo aciona ressentimentos atávicos”, disse ele. “E Bolsonaro é a encarnação do ressentimento”. Gherman também identifica, em Bolsonaro, afinidades estéticas com o nazismo, sobretudo na exaltação da violência como meio de fazer política. Uma imagem emblemática dessa estética, registrada em maio, seria o presidente improvisando um desfile marcial sobre um cavalo tomado de empréstimo da Polícia Militar de Brasília.

A retórica divisiva de Bolsonaro ampara-se em uma noção monolítica e excludente de povo. “Só existe um povo neste país”, disse o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub ao expressar seu repúdio a expressões como “povos indígenas” na reunião ministerial de abril. “O bolsonarismo sequestrou o povo brasileiro, que passou a ser apenas os 30% de apoiadores mais constantes”, disse Lilia Moritz Schwarcz, historiadora e antropóloga da USP. “É uma concepção tacanha de democracia.” Nessa linha, Adriana Novaes, pós-doutoranda em filosofia na USP — e, como Cocco e Gherman, participante do grupo de pesquisa do Labô — alerta sobre uma ameaça à pluralidade que deveria ser um fundamento das democracias liberais. “O fascismo falsamente atribui uma unidade ao país, que na verdade é constituído de vários grupos. E cada grupo também é plural”, disse.

Em sua aversão à diversidade e à divergência, Bolsonaro já provocou tensões desnecessárias com outros Poderes e instituições, tensões que vinham se suavizando desde o acordo com o centrão — uma acomodação política que, aliás, não seria estranha ao fascismo histórico, como observou Eduardo Wolf: “Mussolini nunca teve pejo em fazer composições as mais variadas”. Nessa provisória e ilusória calmaria, o governo pôde celebrar seu mais alto índice de aprovação desde a posse, de 37%, segundo o DataFolha. O ímpeto agressivo do presidente, no entanto, voltou a emergir na semana que passou. No domingo 23, perguntado por um jornalista de O GLOBO sobre os depósitos somando R$ 89 mil que no passado Queiroz fez na conta da hoje primeira-dama, Michelle, Bolsonaro ameaçou em vez de responder: “A vontade é encher tua boca de porrada”.

No dia seguinte, no Planalto, em novo ataque à imprensa, o presidente reafirmou uma de suas muitas crenças infundadas sobre a Covid-19, a já folclórica noção de que um “histórico de atleta” diminui a probabilidade de óbito pela doença — é por isso, disse Bolsonaro, que ele mesmo sobrevive ao vírus, ao passo que o jornalista “bundão” que contrair a doença pode ter menos sorte. A declaração foi dada em um evento chamado “Brasil vencendo a Covid” — o que é em si mesmo uma impostura: no mesmo dia, a conta dos mortos da Covid chegou a mais de 115 mil. Bolsonaro vem espalhando desinformação desde o início da pandemia, minimizando sua gravidade e insistindo no potencial de cura da hidroxicloroquina, cuja eficácia foi desmentida por estudos científicos. O presidente também faz afirmações bombásticas e infundadas sobre o sistema político — disse em março que as eleições de 2018 foram fraudadas para que ele não vencesse já no primeiro turno — e nega o caráter ditatorial do regime militar implantado pelo golpe de 1964. Não são meros destemperos verbais: em linha com as “mentiras fascistas” dissecadas no livro de Finchelstein, essas são distorções e falsidades que colocam em perigo a vida dos brasileiros, que desacreditam a democracia representativa, que conspurcam a história. George Orwell recomendava circunspecção no emprego da qualificação “fascista”. Seria recomendável que Bolsonaro mostrasse a mesma circunspecção para não merecê-la.

Na república dos falsos profetas

Eu nasci há dez mil anos atrás e foi mais ou menos no início dessa jornada milenar que vi na Praça Quinze o profeta vestido de branco, uma barba comprida igualmente branca, tudo para dar a impressão de que acabara de saltar do papiro bíblico. Chamava-se Gentileza, escrevia “Deus” nas paredes, e com ele aprendi uma lição. O homem que diz sou, não é. Era só aparecer uma moça de minissaia e o profeta corria atrás da pecadora, gritando para que ardesse no fogo dos infernos. As aparências enganam. Gentileza era puro ódio.

O Brasil é a república dos falsos profetas, dos santos de pau oco, a terra roxa onde, se plantando o medo de Deus no coração dos trouxas, tudo dá e será permitido. Tem bandido que não está nem aí para as aparências e vai sacando do revólver, “mãos ao alto”, exigindo que o otário lhe passe a grana. Há o de outro tipo que saca do coldre a ameaça divina, “Deus acima de todos”, para realizar sem derramamento de sangue os mesmos despropósitos. É o tipo que está no poder.


Não vai aqui qualquer blasfêmia contra Deus, em quem todos pomos fé irrestrita. O problema em 2020 é acreditar nos seus divulgadores. O governador, homem de bem flagrado na semana passada com a mão no bem alheio, faz o sinal da cruz sempre que passa diante de uma igreja. A pastora-deputada-evangélica com nome de flor, 55 filhos amorosos como plataforma política, escalou meia dúzia deles para formar uma quadrilha e - todos juntos, família acima de tudo - matar o pai da prole.

O Brasil já teve beatos melhores, vozes sofridas da palavra do Messias, e os coitados acabaram perseguidos como bandidos que não eram. Antônio Conselheiro saiu pelo sertão misturando a Bíblia com a dor de ter flagrado a mulher em adultério, e foi morto no acampamento revolucionário de Canudos. O beato Salu, da novela “Roque Santeiro”, gritava para a multidão de Asa Branca que “mais forte são os poderes de Deus”. Como é próprio da espécie, anunciava o fim do mundo.

Os fanáticos de 2020 trocaram a bata branca pelo terno preto, mas continuam ameaçando para breve o fim do mundo, provocado agora pela combinação diabólica da nuvem de gafanhoto do comunismo e a pouca vergonha da maconha. Recriaram o medo e monetizaram a ignorância, na certeza de que o Brasil é campeão mundial do desemprego, mas tem sempre vago um cargo terrivelmente bem assalariado de “Salvador da Pátria”. Exige-se apenas discurso moralista em defesa da família, como fazia a deputada-flor nas sessões plenárias pela manhã, poucas horas depois de passar a noite no pegapracapá do clube de swing.

Eu nem precisava ter nascido há tanto tempo para saber que no Brasil, com a exceção da Irmã Dulce, santo de casa não faz milagre. Rouba, difama, mata, racha. Basta ler os relatórios do Coaf e os autos dos processos contra esses falsos tementes do fogo do inferno. O pastor, que usou as águas do Rio Jordão para lavar a imagem do fã da tortura, também tinha a sua quadrilha – e o jornal de amanhã deve trazer na primeira página algum novo crime do evangelismo municipal, do protestantismo estadual ou do cristianismo federal. Deus foi arrolado como cúmplice, mas é inocente. Dez mil anos atrás, ele me disse - tem horror a essa gente mentirosa e ruim.

O Sistema de Defesa

Recente artigo de Raul Jungmann, neste mesmo espaço, ajuda o leitor a perceber a importância do papel das Forças Armadas, em um país com a dimensão do Brasil. Também a ver este papel independente das conjunturas políticas às quais seus generais às vezes se entregam. O Brasil não deve se imaginar sem Forças Armadas.

Mas, nos tempos atuais, a Defesa Nacional exige muito mais do que: Exército, Marinha e Aeronáutica. No mundo de hoje, a Defesa Nacional deve incluir universidades, centros de pesquisas, cada escola. O conhecimento é uma arma fundamental porque é a base de invenção das armas, além de ser a base da formação dos soldados. Além das armas tradicionais, a Defesa Nacional precisa de conhecimento.


Os centros de formação e de pesquisas são tão necessários quanto navios, tanques e aviões: matemática e seus algoritmos são mais poderosos que pólvora, até porque a ciência que fabrica as armas, e a educação ensina a usá-las. As estratégias militares precisam levar em conta o papel fundamental da educação como parte da Defesa Nacional.

Por mais armadas que sejam as Forças Armadas, elas serão frágeis se o povo não for educado para conhecer sua história, ter sonhos para o futuro e querer defender seu país, serão frágeis se deste povo educado não surgir uma elite com formação superior e dela um aparato científico e tecnológico capaz de dar sustentação a uma indústria inovativa e eficiente que sirva de base ao sistema de defesa.

Por isto, em um país em que os milhões de possíveis soldados são sabem ler, nem mesmo o lema escrito na bandeira, um país em que nossa educação de base está entre as piores do mundo e não prepara a juventude; onde com nossas universidades e centros de pesquisa fragilizados, é um equívoco tirar dinheiro da educação, ciência e tecnologia, para aumentar investimento em armas. Sem uma tropa educada, as armas modernas ficarão sem uso correto; sem ciência e tecnologia, estaremos submissos aos países que nos fornecem as armas. Nossa Defesa será aleijada, se os recursos que as Forças Armadas recebem forem tirados da educação.

Mais ainda do que especificamente as Forças Armadas, o Brasil precisa de um Sistema de Defesa Nacional, onde o Setor Educacional, em todos os níveis, seja considerado parte da nossa Defesa e um pilar fundamental. Aumentar recursos nas Forças Armadas tirando do setor educacional, é uma sabotagem da Defesa Nacional. Será um risco ainda maior se isto mostra que nossos oficiais superiores não têm a consciência da importância do conhecimento como base fundamental para nossa defesa, composta por Marinha, Exército, Aeronáutica, Universidades, Escolas, Centros de Pesquisas.

sábado, 29 de agosto de 2020

Na pandemia, Jair age como um tecelão de oxímoros

No dia em que o Brasil contabilizava 115 mil mortes por Covid-19 —o que representa uma taxa de óbitos por 100 mil habitantes 47 vezes maior que a do vizinho Uruguai—, Jair Bolsonaro promoveu um evento em que arrebanhou ministros e alguns médicos para juntos enaltecerem a cloroquina. O nome escolhido para a cerimônia foi "Brasil vencendo a Covid-19".

É genial. Com essa, Bolsonaro conquistou um lugar no panteão dos oximoristas, as pessoas que criam nomes ou expressões que aglutinam conceitos contraditórios ou absurdos. Meu exemplo favorito é o Sacro Império Romano Germânico (a designação dada ao mosaico de Estados alemães que conviveram entre 963 e 1806), que, como observou Voltaire, não era sacro, nem era um império e também não era romano. Ao menos era germânico. Uma lista mais tradicional de oxímoros inclui: silêncio eloquente, instante eterno, crescimento negativo e inteligência militar.


Contradições à parte, não surpreende que Bolsonaro aja como Bolsonaro. O que me preocupa mais é que existam médicos que aceitam participar de uma pantomima eleitoreira que nega o método científico pelo qual a medicina deveria se pautar.

De fevereiro até abril, fazia sentido depositar esperanças na cloroquina. Havia uma hipótese teórica a justificar sua ação contra a Covid-19 e alguns trabalhos indicando efetividade. Mas a ciência fez o que tinha de fazer e procedeu a testes mais rigorosos. Nunca uma droga foi alvo de tanta pesquisa.

E a conclusão a que se chegou é a de que nem a cloroquina nem a hidroxicloroquina são fármacos muito úteis contra a doença (ainda não dá para descartar que produzam efeitos muito modestos) e ainda trazem o risco de danos colaterais, que se tornam uma certeza se distribuídos a grandes populações.

O médico que não aceita os resultados de ensaios clínicos controlados não entendeu como a medicina se relaciona com o método científico.

Imagem do Dia

 

 A pequena Julia*, 7 anos, se desdobra para vender os últimos cinco panos de prato que carrega em seus braços numa rua movimentada da capital paulista:— Compra os últimos panos de prato, tia, por favor, para eu poder voltar para casa. A menina vive com a família em um prédio abandonado na esquina das ruas Oscar Freire e Peixoto Gomide, na badalada região dos Jardins, bairro nobre de São Paulo

Os pobres de Bolsonaro

O súbito interesse do presidente Jair Bolsonaro pelos pobres do País, jamais demonstrado em seu passado como parlamentar e ausente na campanha que o elegeu em 2018, deveria ser motivo de aplausos. Afinal, quando um presidente da República usa a força de seu cargo para colocar a pobreza entre suas principais preocupações, tende a transformar a superação da desigualdade em prioridade na agenda política.

No entanto, é notável o contraste entre o empenho de Bolsonaro em criar um generoso programa de transferência de renda e seu desinteresse patente em promover reformas que criem condições para o desenvolvimento e a geração de empregos. Ao agir assim, o presidente não demonstra real interesse na superação da pobreza, que só será possível com mudanças estruturais que deem ao Estado capacidade efetiva de prover, de maneira sustentável, o mínimo necessário para que milhões de brasileiros deixem efetivamente de ser pobres.


Se estivesse realmente interessado em transformar a vida dos pobres, o presidente Bolsonaro estaria, desde seu primeiro dia no governo, engajado na promoção dessas reformas estruturais. Contudo, malgrado as retumbantes promessas eleitorais de uma revolução no Estado, Bolsonaro nada fez ou faz, de fato, para liderar os debates sobre essas reformas. Ao contrário, sempre que instado a se posicionar, ou cria dificuldades como na reforma da Previdência, em que agiu como sindicalista em favor de algumas categorias de servidores ou simplesmente engaveta projetos, caso da urgente reforma administrativa.

A superação da pobreza não se dará apenas pela suposta vontade do presidente. Num passado não muito distante, os governos petistas alardearam ter acabado com a pobreza a partir de programas de transferência de renda, em especial o Bolsa Família. De fato, durante algum tempo, o complemento de renda para famílias muito pobres foi essencial para lhes dar um pouco de dignidade em meio à miséria, mas o Estado "inchado, ineficiente e perdulário" não conseguiu lhes proporcionar nada além disso. Como resultado, esses vulneráveis voltaram à miséria assim que começou o recente processo de degradação econômica do País, fruto das lambanças lulopetistas.

Ao que consta, Bolsonaro não foi eleito para repetir os erros daquela desastrosa gestão, e no entanto a cada dia que passa se parece mais com os demagogos que as urnas puniram na eleição passada. O roteiro é muito parecido: recusa-se a tocar nos privilégios dos servidores públicos; não se engaja em privatizações nem em redução da máquina do Estado; quer gastar um dinheiro que não existe, flertando com a irresponsabilidade fiscal; e agora inventa um programa de transferência de renda com o óbvio objetivo de sustentar sua popularidade em patamares suficientes para manter suas chances de reeleição.

O caminho para vencer a pobreza crônica no Brasil não tem atalhos. É longo e demanda do presidente da República uma imensa capacidade de articulação política. Junto com os programas de transferência de renda, devem vir medidas concretas para que seus beneficiários deixem de depender do auxílio no prazo mais curto possível. Para isso, é preciso que haja uma educação pública de qualidade, capaz de dar horizontes reais de crescimento para os filhos dessas famílias pobres. É preciso também lhes proporcionar uma boa saúde pública e, de uma vez por todas, cobertura universal de saneamento básico. Para sustentar tudo isso, é preciso que o Estado deixe de dragar recursos públicos escassos para satisfazer os privilegiados de sempre, a título de “direitos”, e facilite a vida de quem empreende e gera empregos.

Com um presidente que transformou o Ministério da Educação em piada de mau gosto, que trocou ministros da Saúde em plena pandemia por capricho pessoal, que não quer nem ouvir falar em reforma administrativa, que sabota os esforços do Ministério da Economia para respeitar o teto de gastos e cuja única preocupação é com sua reeleição, tudo indica infelizmente que os pobres continuarão pobres, e com eles o Brasil.

Resistência do absurdo

Ando furioso por tudo ser provisório na vida exceto a tirania...
José Gomes Ferreira, "Dias Comuns - A idade do malogro"

 


Palavrões e desrazão

A contragosto, voltemos a isso. Voltemos porque o falastrão voltou a atacar. Nesta semana, como que regressando à ativa, o presidente da República restabeleceu sua velha forma prosódica e deu de insultar gente honesta com termos chulos. No domingo, a um repórter do jornal O Globo que lhe perguntou sobre os R$ 89 mil depositados na conta da primeira-dama, respondeu com um bodoque vocabular: “Vontade de encher sua boca de porrada”.

Tente imaginar, por alguns segundos, que tipo de ser humano se expressa nesse léxico. É chocante. Em mau português, essas palavras materializam o soco na cara do interlocutor. O simples enunciado já fere, já tira sangue da honra do outro. O ato violento é a própria fala, que nem precisa se traduzir em gesto físico para machucar. Sete palavras que ofendem e, acima disso, enxovalham um cargo público de alto a baixo. Mais uma vez. Voltemos a isso, então.



Na segunda-feira, mais barbaridades. Ao defender publicamente o emprego de substâncias exóticas para tratar a covid-19, a mesma autoridade voltou a se gabar do alegado “histórico de atleta” e se vangloriou de não ter desenvolvido sintomas graves da doença.

Aproveitou e disse que, quando o paciente é um jornalista, o quadro é pior. Mas ele não disse isso assim, com essa reles e preconceituosa falta de educação. Ele foi além. Abusou da vulgaridade. Ao se referir a um jornalista genérico – um jornalista qualquer que venha a ser acometido pelo vírus –, o autoproclamado atleta imune preferiu dizê-lo de modo mais torpe: “Quando pega num bundão de vocês a chance de sobreviver é bem menor”.

Diante de tal postulado podemos dizer que, segundo o presidencial juízo, aqui escreve um “bundão”. Todos os que exercem o ofício de jornalista acabam de ser tachados com esse qualificativo por ninguém menos que o governante do nosso país. Como reagir? Devolver o xingamento resolve? Falar na mesma frequência ajuda? Anula o dano? Difícil saber.

O que sabemos com segurança é que o palavrão foi alçado à condição de norma linguística da alta administração pública federal. A nova norma inculta alcançou o apogeu na reunião ministerial de 22 de abril – aquela que teve sua gravação em vídeo divulgada por força de decisão judicial –, quando presidente interpelou os seus subordinados aos berros, desfiando, um a um, todos os vocábulos de baixo calão disponíveis no dicionário.

O Brasil inteiro viu o ritual de baixezas exclamatórias na televisão e na internet. Uns ficaram aturdidos porque o chefe de governo declarou que queria armar a população (como vem armando, mas só a população que gosta de se armar). Outros se espantaram com o despudor de um ministro da Educação (parece que era isso) afirmando que os ministros do Supremo Tribunal Federal deveriam ser encarcerados. Mas o mais aterrador de tudo, o mais aviltante, não eram as atrocidades que aqueles seres pronunciavam, mas as palavras que eles usavam para pronunciá-las. O mais apocalíptico de tudo era a linguagem.

Que espírito de justiça, que sentimento de solidariedade, que elevação moral, que virtude humanitária, que cultura e que inteligência podem existir numa cúpula de Estado que se comunica nessa base? O que esperar de um suposto estadista que fala na língua das quadrilhas de traficantes com a desenvoltura dos capangas encapuzados em esquadrões da morte? O que ver de positivo num Ministério que se sujeita a ser tratado com o que pode haver de mais vil e de mais ultrajante no vernáculo?

O resultado é que estamos aí com essa persona investida de poder dedicada a nos xingar, e xingar de novo, todos os dias, com suas palavras e com seus silêncios. Fomos condenados a nos acostumarmos com isso aí, pois muita gente apoia isso aí. Entre outros setores, boa (má) parte da elite financeira do Brasil apoia. É inacreditável. Uns até fingem que é normal.

Tempos atrás, o endinheirado conformismo pátrio se resignava na base do “rouba, mas faz”. Agora, as mesmas forças (fracas) se rendem a coisa pior: “Xinga, mas diz que vai fazer as ‘reformas”. Essa turma deu de apoiar qualquer coisa em troca de umas promessas de “reformas” – promessas capengas, entremeadas de infâmias, não importa. Os dependentes químicos do substantivo “reformas” apoiam xingamentos, intimidações, apoiam latidos. Não cessam de incensar aquele que diz que vai fazer “as reformas” e não faz, aquele que cultiva e profere absurdos inomináveis.

Sim, absurdos inomináveis – absurdos às toneladas. Pense bem o improvável leitor: que tipo de batatada vai na cabeça de quem se jacta aos brados de não ter tido sintomas graves de uma doença que já matou 120 mil brasileiros? Na desordem mental da pessoa que diz tais coisas, a doença só derruba os mais fracos, os que não têm “histórico de atleta”, os pesos mortos. Logo, ela esnoba a enfermidade, que chama de “gripezinha” ou de “chuva”. A tal pessoa não se compadece da dor alheia, não conhece a empatia e, o que mais constrange, não alcança a razão. O palavrão estulto nos governa.

O bundão (‘Asinus magnum’)

Hoje vamos estudar o espécime Asinus magnum, conhecido popularmente como “bundão”, que vem tendo crescimento expressivo nos últimos anos no Brasil. 

Os bundões andam em bandos e se alimentam de mentiras, fake news e dinheiro público. São mamíferos roedores, e seu habitat natural é o Brasil, de norte a sul. Não são de natureza pacífica e, ao contrário de outras espécies, não precisam ser ameaçados para atacar e arriscam a vida para proteger seus filhotes. Seu alimento favorito é grana.

Quando em posição de poder, o bundão se mostra prepotente e irritadiço, se sentindo superior aos outros, que ele chama de bundões. Mas, quando acovardado por alguma ameaça real ou paranoica, o bundão amolece e se mistura com a variedade do bunda-mole (Asinus mollis), no caso, um bundão-mole. Outra variedade é a dos bundões-bundinhas, que se caracterizam pela roupa de grife, mocassins e o indispensável cashmere sobre os ombros. Muito encontrado em São Paulo. 


O bundão raiz se vangloria de sua macheza, como se a violência, a estupidez e a boçalidade fossem atributos masculinos, ofende e despreza as mulheres, achando que as usa e abusa, mas, sendo usado por elas, que saem com a bolsa recheada de seus acasalamentos com bundões, às vezes até com empregos públicos.

Contra todas as evidências, o bundão se acha engraçado. Todos conhecem alguém assim. Não há bundão que não se considere engraçado, mas todos os comediantes e humoristas realmente engraçados vivem de debochar dos bundões.

Sim, todo mundo mente, mas o bundão mente mais — e mente mal. Seu estilo é esfarrapado, não convence ninguém, mas ele não liga. Sempre sabe tudo, ouviu falar, tem certeza, mas nunca prova nada, só espera que esqueçam.

O Asinus magnum confunde autoridade com autoritarismo, o público com o privado, o familiar com o estadual, municipal e federal. E acha que somos todos, além de bundões, burros.

O bundão é do seu jeitão, espontâneo, autêntico, indomável, não se adapta à educação e à civilização, mas sobrevive bem em cativeiro.

Covardia

Quando o ex-capitão diz a um jornalista que está com vontade de lhe dar umas porradas na boca, ele está sendo, sem sombra de dúvida, um grande covarde pois ele sabe que o profissional da Imprensa não vai poder reagir contra o presidente da República.

Da mesma forma quando ele chama o profissional de otário.

Otário não é o repórter que está ali a serviço. Otários são os eleitores que puseram no Planalto um indivíduo inteiramente despreparado para o cargo. Otários são os abobados que se reúnem em torno do cercadinho no Alvorado para ver e ouvir Bolsonaro dizer as mil e uma tolices que diz.


Otários somos nós que acreditamos que Bolsonaro deixara de ser grosseiro e passara a ser um presidente civilizado. Pois sim! Isso durou menos de uma semana e logo ele voltou a agir como agia desde que era soldado, a ponto de ter sido expulso do Exército.

Esse homem conseguiu o impensável. Envergonhou o país diante da comunidade das nações. Somos tidos como um país sem categoria, sem classe, grosso e ignorante. Nossa fama de país amável, alegre, bem humorado, simpático, foi para o espaço!

Bolsonaro insiste em dizer e fazer asneiras. Por exemplo, deu-se ao luxo de dizer que o coronavírus com ele não teria chance pois seu currículo de atleta assustaria o vírus. Para ser desmentido quase que em seguida por um verdadeiro atleta, Usain Bolt, que não escapou da Covid 19.

Andou dizendo, em privado, aos seguidores, que usar máscara era coisa de viado. Isso não teve influência nos brasileiros que respeitam o uso da máscara por temer essa doença maligna. Mas influenciou seus Zeros, pobres filhos cuja educação deixou muito a desejar. Flávio, o homem que dos chocolates fez uma mina de dinheiro, viajou de avião sem máscara, apesar do pedido das aeromoças. Melhor pegar o coronavírus do que ser tido como viado, não é não? Assim pensam os Zeros que como todo zero à esquerda, são apenas um zero à esquerda!
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa

Construindo o 'Novo Brasil'


 

Guedes e Bolsonaro são reacionários desiguais e combinados

Paulo Guedes salta na frigideira porque seu modo de ser reacionário não combina com o de seu chefe, Jair Bolsonaro. O tal "Big Bang" do ministro da Economia —o dito "plano econômico-social"— promove uma redistribuição da pobreza entre os pobres. Seu chefe achou a coisa explícita demais, com potencial eleitoral danoso.

No universo recriado por Guedes, o Brasil continuará a ser o país em que, segundo o Relatório da Desigualdade Global, da Escola de Economia de Paris, os 10% mais ricos ficam com 55% da renda. O problema não está aí. Ocorre que o 1% dos ricos de verdade —coisa de 1,4 milhão de adultos— ficam com mais da metade: 28,3%.

Não fiz a conta. Talvez seja o caso de saber quanto detêm do tal bolo aqueles que formam o 0,1%, a "crème de la crème" da concentração de renda. Os liberais de fancaria que andam por aí a vomitar obscenidades logo vociferam: "Ninguém é pobre porque o outro é rico. É preciso esforço!".

Fruto da indolência, quem sabe?, os 50% mais pobres têm de se contentar com 13,9% do conjunto de todos os rendimentos. A seu modo, Guedes até quer fazer alguma correção. Pretende acabar com a dedução no Imposto de Renda dos gastos com saúde e educação. Topa mexer naqueles 10% que concentram 55% da renda, mas nunca no 1% que abocanha 28,3%. Quanto ao 0,1%, bem...


O ministro é um reacionário antipopulista. E é aí que seu modo de fazer o Brasil andar para trás se choca com o do chefe. O "Mito" descobriu o potencial eleitoral do assistencialismo agressivo e precisa do voto de milhões. Ao comandante da Economia, basta o apoio da Faria Lima, com a concordância, é certo!, do presidente.

A questão, por enquanto sem resposta, é como "tirar dos pobres para dar aos paupérrimos" sem que os primeiros reajam nas urnas. Será Bolsonaro, no confronto com Guedes, um pouco mais, digamos, "progressista"? Respondo com um fato. Na terça (25), ao falar na abertura do congresso nacional da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), o presidente lembrou que começou a trabalhar aos dez anos, num boteco, por decisão de seu pai, e fez a defesa aberta do trabalho infantil.

Com gramática sempre peculiar, mandou brasa: "Meu primeiro emprego, sem carteira assinada obviamente, eu tinha dez anos de idade. Foi no bar do seu Ricardo, em Sete Barras, no Vale do Ribeira. (...) E bons tempos, né?, onde (sic) menor podia trabalhar. Hoje ele pode fazer tudo, menos trabalhar, inclusive cheirar um paralelepípedo de crack, sem problema nenhum". Aplausos.

Antes ainda da posse, em dezembro de 2018, Guedes afirmou que os 30 anos de ineficiência da social-democracia seriam interrompidos por ao menos quatro anos de liberalismo associado ao conservadorismo. É mesmo?

Numa democracia, conservadores aceitam o progresso social e buscam conservar o molde institucional. Já os reacionários pretendem fazer o país marchar para trás, conservando não instituições, mas iniquidades —e, se possível, ressuscitando fantasmas. A depender do caso, podem ser disruptivos, golpistas.

No idílio passadista bolsonariano, filho de pobre trabalha e o do rico estuda, reproduzindo, assim, um e outro, o ciclo de desigualdade. Nessa perspectiva, dispensa-se um Estado que possa já nem se diga corrigir as injustiças, mas, ao menos, capacitar um pouco mais a criança pobre para uma disputa de... desiguais.

Ainda que aos trancos e barrancos e, às vezes, recuos, o mundo caminha tendo como norte a justiça social. Logo, toda ação reacionária será sempre contra os desvalidos, os que podem menos, os injustiçados. Existe, sim, o bom conservador. Mas inexiste o reacionário virtuoso.

Bolsonaro cobra de Guedes que coloque uns tostões a mais no bolso dos pobres para que as urnas sustentem seu propósito de resgatar aquele passado idílico, em que filho de pobre trabalha feliz para honrar a sujeição histórica de seu pai. Vivemos o momento glorioso de uma tensão entre reacionarismos distintos e combinados.

Grande queima

Não podemos adicionar penas ao livro. O livro precisa ser libertário. É preciso que o livro chegue ao povo
Nélida Piñon 

Universo em desencanto

Um amigo da família, publicitário da Kibon, era responsável por batizar os novos produtos da marca. Estava com especial dificuldade para o nome de um sorvete de frutas. Inquieto, taciturno, trancado em seu escritório, não queria ouvir um pio das crianças brincando. E nós, amedrontadas, obedecíamos. Até que um dia ele sai eufórico pela casa gritando: “Jajá de coco”, enquanto socava o ar como Pelé.

Essa lembrança me veio à cabeça logo que soube do nome do novo plano do governo, a ser lançado em um Big Bang Day. Imagino um grupo de técnicos reunidos em uma mesa na Esplanada a socar o ar, eufóricos com o grande achado.



O suposto plano é apenas um apanhado de iniciativas dispersas. Mistura assuntos emergenciais com questões estruturais. Não traz respostas de curto prazo para a saída da pandemia, nem projeto de longo prazo de crescimento. Nada de abertura comercial, redução drástica nos gastos tributários, revisão de regime especial do IR, abertura comercial, privatização ampla e reforma administrativa. E um choque educacional, nem pensar. Ainda tem a CPMF, é claro.

Mantém a aparência de um discurso de responsabilidade fiscal, ao mesmo tempo que acena com obras públicas e ampliação de programas como 0 Minha Casa, Minha Vida. Tudo com foco no Nordeste, mesmo sendo o déficit habitacional maior no Sudeste. Populismo é tudo igual. A exploração da tragédia social segue como a principal política econômica do País.

O teto se mantém como ficção. O pacote não estabelece claramente os mecanismos e gatilhos que o preservariam. Mesmo porque o presidente não está preocupado com o assunto. O teto vai morrendo por falência múltipla dos órgãos, em decorrência da doença crônica do clientelismo brasileiro.

Os saudosos do nacional desenvolvimentismo têm a romântica ideia de que gasto não importa, desde que se faça direito. Gastar bem no Brasil, isso sim, seria um novo Big Bang. O vice Mourão acaba de anunciar a compra de um satélite desnecessário. A desculpa é sempre a tal da soberania nacional, que também justifica a permanência de tantas estatais nas mãos do governo. A Valec deve atender a algum critério de soberania que me escapa.

Na reciclagem de ideias, até a capitalização da Eletrobrás, que perambula desde 2017, entrou na lista. Deverá ser modificada no Senado. E aposto que sai piorada. O Tesouro vai acabar pagando por ela em vez de receber. Nem sua privatização, nem a venda antecipada dos contratos da PPSA, vão transformar o modus operandi do Estado brasileiro.

Muda o governo e só muda o cliente. Empresas que interessam aos militares se mantêm intocadas e ainda recebem reforços financeiros. O expediente de capitalização de estatais é outra peneira oficial no teto. No apagar de 2019, foram R$ 10 bilhões em uma tacada. Agora, governo pede mais R$ 500 milhões ao Congresso. Mais uma vez, entre as contempladas, está a Emgepron. Corvetas e fragatas é a pauta prioritária.

O esforço de marketing não resolve. O plano está mais para a teoria do estado estacionário. De todo jeito, o dia do Big Bang foi adiado para a semana que vem ou por 13,7 bilhões de anos. Tendo o ministro da Economia como átomo primordial, talvez melhor não arriscar mesmo. Vai quê.

Bolsonaro parece que não gostou das propostas. Claro, só pensa na reeleição. O que importa é a continuidade do auxílio, o resto é perfumaria. Quer um programa assistencialista de fácil entendimento para oferecer. A diferença de R$ 30 no valor do auxílio, combinado com o fim do abono salarial, inviabilizou o anúncio do plano. Não foi o ambiente pesado no Senado, por conta de mais uma declaração desastrosa de Guedes, nem mesmo o crime de ameaça física do presidente da República a um repórter que fez a pergunta que não vai calar: “Por que sua esposa recebeu R$ 89 mil de Queiroz?”.

Quanto mais confusão na economia, melhor. Muda o foco. STF, trapalhadas dos filhos e a ameaça Queiroz o calaram, mas ele não mudou. Segue firme na agenda: militares, assistencialismo e obscurantismo. Contando com a fidelidade de todos seus ministros, inclusive Guedes, que não está sendo fritado. Apoia o projeto ideológico clientelista e só sai quando não for mais útil para o chefe. Vai taxando livros, coisa de elite, enquanto isenta a linha branca e mantém a Zona Franca.

Bolsonaro reclama da imprensa. Mas não foi cobrado pela passividade da Damares diante dos ataques de fanáticos religiosos a uma criança; pelo envio do quadro de Djanira, “Orixás”, para os porões do Palácio do Planalto nem mesmo pelo uso do avião da FAB por garimpeiros ilegais. A invasão da Cinemateca passou batida. Lá, além dos filmes nacionais, estão as imagens que carregam a memória do nosso País. Correm o risco de se perderem.

A vontade de apagar a História, o desprezo pela cultura, pela liberdade de expressão e pelos direitos humanos andam juntos em governos autoritários como este. Um cidadão que pensa, imagina, cria e desenvolve senso crítico, incomoda muito. Deve dar mesmo vontade de encher a boca de cada um de porrada.

Constantino

Lá pelos séculos IV e V aconteceram mudanças na história cultural e intelectual do Ocidente que podem ser descritas, simplificando um pouco, como substituições no futebol: saem paganismo e racionalismo gregos, entram empiricismo romano e cristianismo. O apóstolo Paulo já fizera pouco nas suas pregações da “sapiência dos sábios” gregos e da “lógica vazia dos seus filósofos”, em contraste com a sabedoria do Cristo, iniciando a conquista do pensamento ocidental pelo cristianismo, que avançaria no começo do século IV com o imperador Constantino abrindo caminho para a cristã ser a única religião do império.



Para garantir o apoio dos teólogos e praticantes da nova e triunfante religião, Constantino iniciou outra tradição da Igreja, além do anti-intelectualismo de Paulo e dos conflitos reincidentes entre doutrina cristã e ciência: estabeleceu que nem o clero nem as autoridades mais altas da Igreja precisavam pagar impostos. Assim, além do prestígio e do poder na Terra e da certeza de um lugar no Céu pela eternidade, os bispos tinham acesso a prazeres mundanos e riquezas não tributáveis. Bispos disputavam entre si os favores de patronos ricos e do próprio imperador do momento.

Pelo que se sabe dele, Constantino foi um bom imperador, bom na guerra, bom e generoso na vitória e competente como administrador do seu império, que manteve unido por mais tempo do que qualquer outro “césar” depois de Augusto. Não se sabe se foi um cristão convicto ou se usou a Igreja para fins políticos e práticos, mas o fato é que a grande migração da história, do racionalismo grego para o irracionalismo romano, para o que um estudioso da época chamou de “mistério, mágica e autoridade” da Igreja de Roma, não teria acontecido sem ele. E olha aí, Paulo Guedes: taxar igrejas em vez de livros. Não é uma boa ideia?

Meu amigo Waldemar

Estou em Inhambane. Sento-me num estreito banco de pedra para assistir ao espetáculo das baleias brincando no mar. Faz agosto, um vento frio arrepia a luminosa pele do Índico. Waldemar Bastos morreu há poucos dias e ainda não consegui assimilar a má notícia. Coloco os fones e, enquanto o ouço cantar Sofrimento, vejo a vida fluir, como um rio sonâmbulo: os dias felizes e os dias ferozes, a luz e as sombras de um país chamado Angola, desde a independência até ao estranho presente em que continuamos confinados.

Lembro-me com precisa clareza da primeira vez que escutei a música de Waldemar Bastos, no álbum Estamos Juntos. Foi em 1983. Eu estudava Agronomia em Lisboa. Aquele disco foi uma revelação e um bálsamo, ao abrir imprevistas janelas de luz sobre uma Angola sufocada por uma guerra interminável. Waldemar traduzia em sons uma fina rede de afetos, que começava em Liceu Vieira Dias e os seus maravilhosos Ngola Ritmos, fundadores da música popular urbana de Angola, e terminava, do outro lado do oceano, em Chico Buarque.

Susa Monteiro

A partir dos anos 1990, passei a encontrar Waldemar, com certa frequência, em eventos culturais, reuniões e manifestações de angolanos, ou no restaurante que manteve por alguns anos no Bairro Alto, o Água do Bengo, onde Laureana, a sua companheira de sempre, servia o melhor funge de Lisboa.

Waldemar não escondia a revolta e o desgosto de ver o país dividido, saqueado e desgovernado. Durante décadas, enfrentou pressões do regime de José Eduardo dos Santos, que incluíam desde a interdição das suas canções nas emissoras públicas a violentas campanhas de insultos e calúnias, a par com inúmeras tentativas de aliciamento. Nunca se calou. Nunca se deixou comprar, nem pelo regime, nem pela principal força da oposição. Ao mesmo tempo, foi apoiando sempre todas as iniciativas visando a pacificação e a democratização do país. Marchei ao lado dele, em manifestações que não reuniam mais de quinze almas inconformadas, e noutras, muito mais raras, entre centenas de pessoas, como em Lisboa, em 2015, nos protestos contra a prisão de Luaty Beirão e dos seus companheiros.

(...) mostra o desconforto com que uma parte da sociedade angolana continua a encarar um artista cujas opiniões diretas e fortes, não só em relação à política mas também à cultura, chocavam com o discurso oficial ou dominante

Em 2018, Waldemar Bastos recebeu o Prémio Nacional de Cultura, que é, em Angola, o mais importante reconhecimento público da obra de um artista. Há muitos anos que a qualidade do seu trabalho vinha sendo admirada no exterior. O seu melhor álbum, Pretaluz (1997), foi produzido por Arto Lindsay e publicado pela Luaka Bop, a editora de David Byrne especializada em música do mundo. Classics of my soul (2017), que junta alguns temas clássicos do cancioneiro angolano, como Muxima, Mbiri! Mbiri! e Humbi-Humbi, com outros da autoria do próprio Waldemar, como Velha Chica ou Teresa Ana, foi gravado com a colaboração da Orquestra Sinfónica de Londres. Richard Bona, o famoso baixista camaronês, considerava-o o melhor cantor e compositor angolano.

O Jornal de Angola deu grande destaque à morte do cantor, com um título que soa quase como um pedido de desculpa: “Morreu o músico que fazia arte para melhorar a política”. Um dia mais tarde, contudo, a bancada do MPLA na Assembleia Nacional inviabilizou um voto de pesar pela morte de Waldemar, apresentado pelo maior partido da oposição, a UNITA. O gesto, em bizarra contradição com a política de pacificação e reconciliação de João Lourenço, expõe as divisões no partido governamental e mostra o desconforto com que uma parte da sociedade angolana continua a encarar um artista cujas opiniões diretas e fortes, não só em relação à política mas também à cultura, chocavam com o discurso oficial ou dominante.

Dói-me a morte de Waldemar, porque sei que partiu cedo demais, quando ainda tinha para nos dar tantas canções. Vou sentir a falta dele, da sua paixão, das suas opiniões tantas vezes excessivas e contraditórias, da sua ironia, da sua alegria, do seu carinho pelo povo mais humilde de Angola.

Esta tarde, as baleias não vieram. Tiro os fones, levanto-me e afasto-me a assobiar a melodia de Sofrimento. Um homem cruza o meu caminho. É alto, com um chapéu preto tombado sobre o rosto. A última luz do dia atira a sua sombra para longe, de encontro aos coqueiros, que se inclinam numa vénia, voltados para o mar. Suspendo o assobio e logo o homem recomeça onde eu parei. Senha e contrassenha.

Corpos decaem e morrem — a música não. Música é ar em movimento, luz em movimento. Waldemar deixou-nos toda essa luz, que caminha agora à nossa frente.

Obrigado, Waldemar. Meu amigo Waldemar.