No texto bíblico está dito: “Depois da tempestade vem a bonança”. Mas não é sequência automática. Depende de como cada um vivencia os momentos de sofrimento, do aprendizado que cada um faz e da mudança de atitude posterior aos tempos de angústia.
O mundo inteiro está mergulhado em um momento desafiador. A presente crise promove a combinação perversa entre a violenta pandemia e o fantasma de uma crise econômica inédita e devastadora.
O vírus, além de seu efeito voraz sobre vidas humanas, produz uma lição de humildade aos governantes. O quão ilusório é o poder? Seu alcance pretensamente ilimitado esbarra, às vezes, quase na impotência. Até os mais autoritários líderes mundiais dobraram o joelho. Recomendo o filme “Flu”, na Netflix: uma reflexão, no ambiente de uma epidemia, sobre como, em situações limites e radicais, decisões políticas dramáticas podem salvar ou sacrificar vidas.
Quem sabe as crises, e não a violência, sejam as parteiras da história? Em linguagem corrente: “como fazer do limão a limonada?”. A meu juízo, tudo vai depender do aprendizado pessoal, familiar e social que construirmos.
Será que perceberemos que, mais do que nunca, estamos integrados em uma “aldeia global”? Que as fronteiras são realidades históricas, políticas, institucionais, mas que não resistem a um vírus agressivo e indisciplinado que nasce na China, invade a Europa, assusta os EUA e se dissemina pelo Hemisfério Sul? Será idealismo ou aprendizado necessário reencontrar com a nossa natureza universal de seres humanos e imaginar um mundo mais fraterno e pacífico?
Será que perceberemos que, diante de uma pandemia quase indomável, as barreiras entre ricos e pobres desmoronam? É evidente que os pobres têm uma situação muito mais vulnerável. Mas o vírus não seleciona por faixa de renda ou patrimônio. Afinal, o epicentro da epidemia na Itália não foi a Lombardia, sua região mais rica? Quem sabe fica o aprendizado e o compromisso coletivo com o combate aos privilégios e às desigualdades?
Será que a crise da Covid-19 deixará um legado de humildade, diálogo, entendimento e convivência respeitosa entre as lideranças políticas brasileiras? Será que descobriremos a quase inutilidade dessa guerra ideológica polarizada e de má qualidade, quando a política na democracia é exatamente a construção de consensos progressivos em ambiente plural de divergências, tendo o diálogo, aberto e franco, como ferramenta? Até aqueles que, se achando plenipotenciários, enfrentaram as evidências e a ciência, se dobraram à realidade. Será que aprenderemos que ninguém é dono da verdade? Até agora, ninguém têm a verdade absoluta sobre o vírus, apesar de todo o empenho da comunidade científica. Não temos vacina, remédios com eficácia comprovada, explicações exatas sobre a dinâmica da propagação.
Será que depois da crise valorizaremos e daremos mais atenção ao sistema de saúde e aos seus profissionais, sobretudo ao SUS? Cansei de enfrentar situações no Congresso onde a repercussão da voz da bancada da saúde era diminuta, sempre abafada por outras bancadas temáticas ou setoriais. Será que enfrentaremos de vez o crônico subfinanciamento do SUS e seus gargalos?
Transformar a tempestade em bonança depende de nós, essencialmente do nosso aprendizado.
domingo, 5 de abril de 2020
Modelo de civilização no fim
Esta crise sanitária é sinal de uma crise civilizatória. Vivemos o fim de um paradigma, e isso ficou ainda mais evidente agora, com a presença da morte a nos rondar.
Há cerca de 15 anos, analiso a saturação desse modelo progressista, que é o grande modelo da civilização moderna. Para mim, ele está acabando agora. A epidemia atual tem uma expressão simbólica nesse sentidoMichel Maffesoli, sociólogo autor de livros como “Apocalipse” e “A palavra do silêncio”, e membro do Instituto Universitário Francês
Aproveite esse recesso forçado e avalie o que você está fazendo para melhorar o mundo
Aliás, antes de saber da existência dessa corrente de pensamento, já tinha me passado pela cabeça a possibilidade de a Terra ser parte de um organismo vivo que está sendo estragado pela insanidade humana.
Com toda certeza, diante da imensidão do Universo, somos tão insignificantes quanto um reles protozoário, que se alimenta de seres vivos.

Há relatos que desde o século XVIII cientistas alemães e britânicos estudavam essa hipótese, que também atraiu pesquisadores russos no século XIX. Mas a popularidade da teoria é recente, surgiu a partir de 1972, com a publicação dos estudos do cientista britânico James Lovelock, após participar de uma equipe da NASA que pesquisou a possibilidade de vida em Marte.
A pesquisa de Lovelock foi fortalecida pela colaboração expressiva da microbióloga norte-americana Lynn Margulis. Os dois estudaram a surpreendente composição da atmosfera terrestre, muito diferente da esperada para um planeta entre Vênus e Marte (a zona habitável do Sistema Solar).
Por conter grandes quantidades de gases como oxigênio, óxido nitroso (protóxido de nitrogênio, também conhecido como gás hilariante) e metano, a composição da atmosfera terrestre derivaria da interferência dos organismos vivos sobre o ambiente inorgânico.
Lovelock e Margulis então partiram do princípio de que, sendo a Terra um planeta deserto como os outros, o fenômeno da vida, após surgir, foi se adaptando até controlar o ambiente inorgânico.
E assim o ambiente foi se modificando, para que a vida pudesse se perpetuar, formando-se um sistema complexo e autorregulante que até confirmaria a Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin, embora os darwinistas não aceitem a hipótese de Gaia, como passou a ser chamada a teoria de Lovelock e Margulis, em homenagem à deusa que representa a Terra na mitologia mitologia grega, responsável pela criação do mar (Ponto), do céu (Urano) e das montanhas (Ourea)..
Diante de uma ameaça como a covid-19, que é superável, devemos entender que passa a ser mais concreta a hipótese de que, caso a Terra continue a ser agredida pela destruição do ambiente e pela poluição, possa surgir uma pandemia ainda mais resistente, que chegue a colocar em risco o futuro da humanidade, que já está mais do que ameaçado por um conflito nuclear.
Nesse recesso a que estamos sendo forçados, não custa pensar um pouco sobre o milagre da vida e também sobre a destruição predatória do meio ambiente pelos seres humanos, que conseguiram criar uma sociedade totalmente injusta aqui no Brasil, onde os detentores da riqueza total ainda acreditam ser possível conviver harmonicamente com a miséria absoluta.
Mas isso “non ecziste”, como diria Padre Quevedo, que certamente estaria decepcionado pelos insatisfatórios resultados da chamada evolução humana.
Não há boas notícias falsas
Sou cético por natureza e treinamento. Contudo, fui um dos muitos trouxas que acreditou na falsa notícia, largamente difundida pelas redes sociais, segundo a qual os canais de Veneza estariam hoje tão limpos que os golfinhos haviam regressado, juntamente com bandos de cisnes e brilhantes cardumes de peixes.
Também acreditei na alegre pitonisa espanhola, que, em dezembro do ano passado, teria previsto a pandemia em curso. Uma rápida investigação logo confirmou que também esta é uma notícia falsa. O fato é que nenhum astrólogo foi capaz de adivinhar a tragédia em que o mundo está mergulhado. Os melhores profetas foram, afinal, os cientistas, que há vários anos vinham advertindo para a possibilidade de um evento desta natureza.
Confinados à inquietação do presente, queremos notícias que nos confortem — ainda que falsas. Os autores dessas notícias são como aquelas mães que iludem os filhos durante os bombardeamentos: “É só fogo de artifício, filhinho. Você pode dormir descansado.”
Também acreditei na alegre pitonisa espanhola, que, em dezembro do ano passado, teria previsto a pandemia em curso. Uma rápida investigação logo confirmou que também esta é uma notícia falsa. O fato é que nenhum astrólogo foi capaz de adivinhar a tragédia em que o mundo está mergulhado. Os melhores profetas foram, afinal, os cientistas, que há vários anos vinham advertindo para a possibilidade de um evento desta natureza.
Anseio por boas notícias, como um menino, fechado em casa, anseia pelo sol lá fora. Tento ver o lado bom de tudo o que é mau. Gosto de pensar, inclusive, que há em todas as pessoas ruins uma parte que se esforça por ser boa. Infelizmente, isso nem sempre acontece. Existem acontecimentos absolutamente maus, da mesma forma que existem pessoas integralmente perversas, os famosos canalhas esféricos: por qualquer ângulo que os olhemos são de uma maldade honesta e consistente. Jair Bolsonaro é uma dessas pessoas — um homem fiel a cada um dos seus defeitos.
Lúcifer, como o próprio nome denuncia, tem contra si um passado de luz: desgraçadamente já foi um anjo, já foi bom. Aquele santo passado arruína-lhe a má reputação, duramente construída ao longo dos vastos milênios, nas profundezas do Inferno. Jair Bolsonaro, pelo contrário, foi sempre mau, nunca ninguém lhe ouviu uma palavra inteligente, o brilho de uma frase decentemente construída, um elogio sincero a um homem bom, um arrependimento genuíno por uma falha qualquer. Nenhuma qualidade — uma única! — mancha o íntegro negrume daquela sólida alma de atleta do mal. Lúcifer morre de inveja dele.
Confinados à inquietação do presente, queremos notícias que nos confortem — ainda que falsas. Os autores dessas notícias são como aquelas mães que iludem os filhos durante os bombardeamentos: “É só fogo de artifício, filhinho. Você pode dormir descansado.”
Ou talvez não.
O que move estes falsários de um apocalipse feliz? Será que, como os vulgares escritores, os cineastas, os dramaturgos, desejam apenas contar uma história tão boa que, embora inacreditável, as pessoas acreditem nela?
Não me parece. O mais provável é que quem cria estas notícias supostamente positivas, sejam exatamente os mesmos grupos responsáveis por todas as restantes notícias falsas que inundam as redes sociais. Não há boas notícias falsas. O que há é desinformação, ou, dito de uma outra forma, terrorismo informativo. O que estes grupos pretendem é implodir a realidade, para depois surgirem, em meio ao caos, como cavaleiros da ordem e do progresso.
A imprensa tradicional ocupa a linha da frente no combate contra esta nova forma de terrorismo. Ler jornais, comprar jornais, transformou-se numa urgente forma de resistência contra a estupidez e o totalitarismo. Não, não gosto que me mintam.
José Eduardo Agualusa
José Eduardo Agualusa
A peste e o monstro
Vejo notícias de antílopes, javalis, cervos, vacas, bodes e cabras da montanha ocupando cidades e praias hoje vazias de gente. Enquanto nos sentimos roubados, eles talvez se sintam restituídos. O fato de as crianças em geral serem poupadas da varredura letal dessa pandemia talvez seja a terra agindo, em cumplicidade com os bichos, por um mundo novo, agora sem sutilezas.
Então revejo o papa na praça São Pedro falando sobre o tempo do nosso juízo, sobre o que conta e o que passa, sobre a gente comum e anônima que sempre teceu a continuidade das nossas vidas. O papa sendo ouvido por milhões desde uma praça inóspita, o santo no centro do silêncio da escuta, as almas em roda ali para ouvi-lo onde só vemos o azulado vazio que brilha num fim de tarde sob uma chuva fina.
Quando minha filha adormece, invariavelmente longe da cama, eu a tomo nos braços com uma força que já nem é minha, e por um minuto assume a nossa forma a imagem de um socorro milenar, que, para se desenhar, não nos consulta se cremos ou não cremos. Tudo o que me importaria salvar tem rosto e respira. Dorme, meu amor, que essa peste há de passar um dia. Dorme sem medo, que, a essa hora, até o monstro já está sonhando com seu fim.
Mariana Ianelli
sábado, 4 de abril de 2020
Coronavírus: na crise, todos crescem
A pesquisa XP Ipespe realizada em março e abril demonstra uma relação de causa e efeito entre a posição do presidente Jair Bolsonaro pelo fim da quarentena e seu declínio pessoal na avaliação da sociedade.
O presidente, acima de tudo, fez uma aposta de antemão perdida por opor ciência à política e desconhecer que o medo da morte é mais forte que especulações leigas.
A mudança coincide com uma melhora na imagem do Congresso e de governadores. O Legislativo passou a ser visto como ótimo ou bom por 18% da população, contra 13% na pesquisa anterior. A avaliação negativa caiu de 44% para 32%. Em relação aos governadores, o ótimo/bom passou de 26% para 44%.
Como outro índice da pesquisa mostra que 60% acham que a quarentena deve durar apenas mais um mês, essas avaliações tendem a ser definitivas, ou seja, a perspectiva do fim da crise não apagará os desempenhos considerados negativos.
O roteiro do resgate da economia traçado pelo ministro Paulo Guedes não vale mais para o atual mandato. A economia de guerra se estenderá por mais tempo após o fim da quarentena até que a normalidade inclua a retomada do espaço para uma gestão liberal.
Bolsonaro diz, alto e bom som, que Mandetta é indemissível hoje, mas não amanhã, por ser essencial no enfrentamento da crise. Passada esta, lhe aplicará uma demissão corretiva para aprender a humildade.
Ao confundir subordinação com submissão, o presidente exibe sua dificuldade em reconhecer outra autoridade – ainda que científica -, senão a sua própria.
João Bosco Rabello, ex-assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública
O presidente, acima de tudo, fez uma aposta de antemão perdida por opor ciência à política e desconhecer que o medo da morte é mais forte que especulações leigas.
A derrota da tese do “vamos para a rua” é pessoal, dado que a pesquisa indica apoio ao ministro da Saúde, Luís Henrique Mandetta, aos governos estaduais e ao Legislativo, alvos preferenciais de Bolsonaro por sustentarem o isolamento social radical – a chamada quarentena horizontal. Todos cresceram na crise, inclusive parte do governo. Só o presidente diminuiu.
Os números autorizam a previsão de que o chamado “orçamento de guerra”, em fase conclusiva no Congresso, é a antessala de um ciclo de gestão pactuada do país, com perda de poder pelo Executivo. A letargia que parece ter dominado a equipe econômica, há dois meses patinando na crise, abriu o vácuo para a ação do Legislativo.
Hoje, são 28% os que dizem considerar que o presidente tem atuação boa ou ótima, contra 42% que atribuem avaliação ruim ou péssima – os números são o menor e o maior da série histórica, respectivamente. Luiz Mandetta e o Ministério da Saúde têm 68% de avaliação positiva. Paulo Guedes e o Ministério da Economia, têm 37% positiva e 18% negativa.
A mudança coincide com uma melhora na imagem do Congresso e de governadores. O Legislativo passou a ser visto como ótimo ou bom por 18% da população, contra 13% na pesquisa anterior. A avaliação negativa caiu de 44% para 32%. Em relação aos governadores, o ótimo/bom passou de 26% para 44%.
Como outro índice da pesquisa mostra que 60% acham que a quarentena deve durar apenas mais um mês, essas avaliações tendem a ser definitivas, ou seja, a perspectiva do fim da crise não apagará os desempenhos considerados negativos.
O roteiro do resgate da economia traçado pelo ministro Paulo Guedes não vale mais para o atual mandato. A economia de guerra se estenderá por mais tempo após o fim da quarentena até que a normalidade inclua a retomada do espaço para uma gestão liberal.
É nesse contexto que o presidente reage com o anúncio da demissão futura do ministro da Saúde, algo inédito no país. Um aviso prévio baseado na administração correta da crise, pelo menos na visão mundial.
Bolsonaro diz, alto e bom som, que Mandetta é indemissível hoje, mas não amanhã, por ser essencial no enfrentamento da crise. Passada esta, lhe aplicará uma demissão corretiva para aprender a humildade.
Ao confundir subordinação com submissão, o presidente exibe sua dificuldade em reconhecer outra autoridade – ainda que científica -, senão a sua própria.
João Bosco Rabello, ex-assessor especial de comunicação nos ministérios da Defesa e da Segurança Pública
A medida da precarização
No conjunto de medidas que denominou Programa Emergencial de Manutenção do Emprego, a equipe econômica vai produzir mais recessão e precarização do mercado de trabalho que bem-estar. Inédito. Sob o pretexto de preservar vínculo empregatício, a Medida Provisória 936, publicada no 1º de abril, fragiliza o grupo mais numeroso e indefeso da mão de obra, reduz salários e, em consequência, desidrata a massa salarial com efeitos nefastos no consumo das famílias. Parece mentira. É o avesso do estímulo.
Desde 2016, o IBGE divulga uma série de estatísticas que, juntamente com a taxa de desemprego (11,6% no trimestre dezembro-fevereiro, equivalentes a 12,3 milhões de pessoas), ajuda a compreender as deficiências do mercado de trabalho contemporâneo. Uma delas é a subocupação por insuficiência de horas, formada por profissionais que trabalham menos de 40 horas semanais, têm tempo e gostariam de uma jornada maior — certamente, para ganhar mais. Essa forma de ocupação alcança muitos autônomos (notadamente os prestadores de serviços), empregados sem carteira assinada e aqueles submetidos ao contrato intermitente, novidade da reforma do governo Michel Temer/Henrique Meirelles.
Bentes foi à Rais 2018 — última edição disponível da base de dados mais completa do emprego formal no país — e descobriu que 69% dos celetistas ganham até três mínimos. São 32 milhões num universo de 46 milhões de com carteira. Ou seja, sete em cada dez brasileiros formalmente contratados poderão ter jornada e salário reduzidos em até 70%, compensados com igual proporção do teto do seguro-desemprego (R$ 1.833), por decisão do empregador, sem intermediação do sindicato.
A economista Monica de Bolle, da Universidade John Hopkins, defensora de políticas agressivas de transferência de renda em tempos de calamidade global, chama atenção para o efeito colateral negativo até na saúde pública. “Durante uma pandemia, cujo combate depende do isolamento social, o governo se arrisca a ver trabalhadores formais saindo às ruas para recompor, via mercado informal, o salário que vão perder. Essas medidas introduzem uma incerteza econômica brutal”, dispara.
Desde 2016, o IBGE divulga uma série de estatísticas que, juntamente com a taxa de desemprego (11,6% no trimestre dezembro-fevereiro, equivalentes a 12,3 milhões de pessoas), ajuda a compreender as deficiências do mercado de trabalho contemporâneo. Uma delas é a subocupação por insuficiência de horas, formada por profissionais que trabalham menos de 40 horas semanais, têm tempo e gostariam de uma jornada maior — certamente, para ganhar mais. Essa forma de ocupação alcança muitos autônomos (notadamente os prestadores de serviços), empregados sem carteira assinada e aqueles submetidos ao contrato intermitente, novidade da reforma do governo Michel Temer/Henrique Meirelles.
Com as regras recém-anunciadas, Paulo Guedes e equipe permitem via acordo individual — ou seja, sem participação de sindicatos — a redução de 25% em jornada e salário de trabalhadores formais de todos os níveis de rendimento. E autoriza o corte de 50% e 70% de carga horária e remuneração de qualquer celetista que ganhe até três salários mínimos. Empurra, portanto, o com carteira para a subocupação. “Se evita demissão no curtíssimo prazo (90 dias), por outro lado reduz a renda, impacta o consumo das famílias e afeta até a capacidade de os informais ganharem dinheiro, porque boa parte deles atende os empregados formais”, analisa o economista Fabio Bentes, da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
Bentes foi à Rais 2018 — última edição disponível da base de dados mais completa do emprego formal no país — e descobriu que 69% dos celetistas ganham até três mínimos. São 32 milhões num universo de 46 milhões de com carteira. Ou seja, sete em cada dez brasileiros formalmente contratados poderão ter jornada e salário reduzidos em até 70%, compensados com igual proporção do teto do seguro-desemprego (R$ 1.833), por decisão do empregador, sem intermediação do sindicato.
“É medida injustificável, porque reduz o papel das entidades de representação junto à categoria mais numerosa e com menor poder de barganha. A intenção parece ser preservar empresas menores, que costumam contratar trabalhadores de menor qualificação. Mas, no fundo, vai prejudicar também os empresários, porque reduzirá substancialmente a massa salarial e o consumo, num momento em que é necessário preservar o poder de compra para conter a recessão e ajudar na recuperação da atividade daqui a uns meses”, afirma Debora Freire Cardoso, professora-adjunta no Cedeplar/UFMG.
O mesmo governo que aderiu à proposta parlamentar de concessão de renda básica emergencial de R$ 600 por três meses para estender uma rede de proteção social aos informais aumenta a fragilidade de quem tem carteira assinada. A mesma medida provisória permite a suspensão do contrato de trabalho por dois meses com pagamento apenas do equivalente ao seguro desemprego.
A economista Monica de Bolle, da Universidade John Hopkins, defensora de políticas agressivas de transferência de renda em tempos de calamidade global, chama atenção para o efeito colateral negativo até na saúde pública. “Durante uma pandemia, cujo combate depende do isolamento social, o governo se arrisca a ver trabalhadores formais saindo às ruas para recompor, via mercado informal, o salário que vão perder. Essas medidas introduzem uma incerteza econômica brutal”, dispara.
A recomendação ao governo brasileiro são as medidas que vêm sendo anunciadas em outros países para blindar as economias durante a quarentena da Covid-19. Estados têm assumido a folha de pagamento, desonerado empresas e ofertado crédito barato e farto para que patrões e empregados hibernem e, passada a tempestade, recomecem de onde pararam. O custo a mais, garantem os especialistas, seria compensado pela queda menor do consumo das famílias e, adiante, com a recuperação mais rápida da atividade. O governo Jair Bolsonaro periga gastar muito sem colher os melhores resultados, porque desconhece, subestima ou despreza o papel do trabalho na engrenagem econômica.
Flávia Oliveira
Flávia Oliveira
Valorize as relações China-Brasil, deputado Eduardo
Você é realmente tão ingênuo e ignorante? Como deputado federal da República Federativa do Brasil que possui alguma experiência em tratar dos assuntos internacionais, você deveria saber que os vírus que causam pandemia são inimigos comuns do ser humano, e a comunidade internacional nunca chama os vírus pelo nome de um país ou região para evitar a estigmatização e a discriminação contra qualquer grupo étnico específico. A Organização Mundial da Saúde seguiu esta regra do direito internacional para chamar o novo coronavírus de Covid-19 (SARS-CoV-2). Além disso, ainda está por se confirmar a origem deste vírus. O surto de Covid-19 em Wuhan não significa necessariamente que Wuhan foi a fonte inquestionável do novo coronavírus.
Deputado Eduardo, há pelo menos uma semelhança entre a cultura confucionista chinesa e a cultura cristã brasileira, que é a crença em que sempre existe a causalidade em tudo, razão pela qual a gente tem que pensar nas consequências antes de fazer qualquer coisa. Como não é uma pessoa comum, você deveria entender melhor essa razão. O que é o mais importante para o Brasil agora? Sem dúvida, é salvaguardar a vida e a saúde de centenas de milhões de pessoas, e reduzir ao mínimo o impacto da pandemia na economia do Brasil, da China e do mundo, através da cooperação China-Brasil no combate à Covid-19. A China nunca quis e nem quer criar inimizades com nenhum país. No entanto, se algum país insistir em ser inimigo da China, nós seremos o seu inimigo mais qualificado! Felizmente, mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil. Porém, como é um deputado federal, as suas palavras inevitavelmente causarão impactos negativos nas relações bilaterais. Isso seria uma grande pena! Contaminaria e poluiria totalmente o ambiente saudável que China e Brasil conquistaram até aqui.
O diretor do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos já reconheceu que, durante a chamada "epidemia de gripe" nos Estados Unidos, no ano passado, algumas pessoas teriam morrido por Covid-19. Isso justifica que, muito provavelmente, os Estados Unidos foram a fonte da Covid-19. Mas podemos batizar o Covid-19 (SARS-CoV-2) como "vírus norte-americano"? Não! Do mesmo modo, ninguém no mundo pode chamar o zika como "vírus brasileiro", apesar do fato de a epidemia de zika ter acontecido e ainda acontecerem casos frequentemente no Brasil.
É por causa do seu ódio à China que ataca frequentemente a China? Mas de onde vem esse ódio? A aproximação entre a China e o Brasil é resultado de um desenvolvimento histórico com alicerce natural. Tanto a China como o Brasil são grandes países emergentes com território e população gigantes, com culturas ricas e coloridas e povos simpáticos e amigos. Ambos os países possuem planos grandiosos para promover a prosperidade e riqueza nacionais, bem como ambição para salvaguardar a paz e justiça internacionais. É ainda mais importante o fato de que não há divergências históricas nem conflitos atuais entre os dois países, que já se tornaram parceiros estratégicos globais. O povo chinês sempre abraça o povo brasileiro com sincera amizade, tratando o Brasil como nosso país irmão e parceiro. O respeito recíproco e a cooperação de ganhos mútuos de longo prazo entre os dois países trazem benefícios pragmáticos para os dois povos. Por dois anos consecutivos, dois terços do superávit do comércio exterior do Brasil vieram da China, o seu maior parceiro comercial! É por isso que tanto a geração do seu pai como a da sua idade estão todos se dedicando a promover a cooperação amigável sino-brasileira. Em resumo, os seus comportamentos remam contra a maré e não só colocam você no lugar adverso do povo chinês de 1,4 bilhão, mas também deixam a maioria absoluta dos brasileiros com vergonha, bem como criam transtornos ao seu pai, que é o presidente da República. É realmente uma prova de ignorância a respeito do tempo atual!
'Mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil '
Será que você recebeu uma lavagem cerebral dos Estados Unidos e quer ir firmemente na esteira deles contra a China? Os Estados Unidos eram realmente um país grande e glorioso. No entanto, neste ponto crítico do avanço da civilização humana, os EUA perderam sua posição histórica e o sentido de desenvolvimento, tornando-se quase totalmente causadores de problemas nos assuntos internacionais, e uma fonte de ameaça à paz e segurança mundiais. Os líderes atuais norte-americanos já se esqueceram dos ideais dos fundadores do país de assegurar a justiça. Ademais, tornaram-se monstros políticos cheios de preconceitos ideológicos contra os outros países e sem capacidade de governar, o que pode ser justificado pelo desempenho horrível no combate à pandemia de Covid-19 nos EUA. Por outro lado, sendo uma potência cheia de vitalidade e em ascensão, o Brasil deve e é capaz de fazer contribuições importantes para o progresso da civilização humana, desde que tenha sua própria visão estratégica, possua sua perspectiva correta sobre os assuntos internacionais e desempenhe seu próprio papel construtivo. O Brasil não deve tornar-se um vassalo ou uma peça de xadrez de um outro país, senão o resultado seria uma derrota total num jogo com boas cartas, como diz um provérbio chinês.
Deputado Eduardo, há pelo menos uma semelhança entre a cultura confucionista chinesa e a cultura cristã brasileira, que é a crença em que sempre existe a causalidade em tudo, razão pela qual a gente tem que pensar nas consequências antes de fazer qualquer coisa. Como não é uma pessoa comum, você deveria entender melhor essa razão. O que é o mais importante para o Brasil agora? Sem dúvida, é salvaguardar a vida e a saúde de centenas de milhões de pessoas, e reduzir ao mínimo o impacto da pandemia na economia do Brasil, da China e do mundo, através da cooperação China-Brasil no combate à Covid-19. A China nunca quis e nem quer criar inimizades com nenhum país. No entanto, se algum país insistir em ser inimigo da China, nós seremos o seu inimigo mais qualificado! Felizmente, mesmo com todos os seus insultos à China, você não conseguirá tornar a China inimiga do Brasil, porque você realmente não pode representar o grande país que é o Brasil. Porém, como é um deputado federal, as suas palavras inevitavelmente causarão impactos negativos nas relações bilaterais. Isso seria uma grande pena! Contaminaria e poluiria totalmente o ambiente saudável que China e Brasil conquistaram até aqui.
Portanto, é melhor ser mais sábio e racional. Você pode não pensar na China, mas não pode deixar de pensar no Brasil. O demônio da Covid-19 chegou finalmente à maravilhosa terra brasileira. Neste momento crucial da cooperação bilateral no combate à pandemia de Covid-19, seria mais prudente não criar mais confusões. Ainda mais importante, seja um verdadeiro brasileiro responsável, ao invés de ser usado como arma pelos outros!
Li Yang, cônsul-geral da República Popular da China no Rio de Janeiro
Li Yang, cônsul-geral da República Popular da China no Rio de Janeiro
Para a cúpula das Forças Armadas, é inaceitável Bolsonaro não se comportar como militar
O fato concreto é que Bolsonaro, diante do primeiro problema realmente grave de sua gestão, além de demonstrar não saber administrar a crise, está atrapalhando as autoridades encarregadas de fazê-lo.
Com essa postura negativa e inaceitável, o presidente está perdendo apoio em todos os setores, especialmente na classe média e entre os militares, embora ele julgue (?) que as Forças Armadas estariam dispostas a tudo para mantê-lo no poder.

É claro que a ficha está caindo e o próprio Bolsonaro começou a sentir esse isolamento. Na manhã de segunda-feira, dia 30, ele descumpriu a agenda e resolveu visitar o general Eduardo Villas Bôas, ex-comandante do Exército, para lhe pedir apoio, e foi atendido, com uma nota postada no Twitter pela assessoria do oficial.
Neste sábado, entrevistado pela jornalista Tânia Monteiro, do Estadão, Villas Boas confirmou a visita e o pedido de apoio, que revela a insegurança do presidente da República. A repórter então perguntou se Bolsonaro tinha perdido apoio dos militares, e o general (ou sua assessoria, pois ele está muito doente) disse que não.
Em tradução simultânea, este “não” do general Villas Bôas nada significa, porque jamais falaria contra o amigo que ajudou a eleger, mas a verdade é que Bolsonaro não tem mais apoio incondicional das Forças Armadas, que não pretendem avalizar nenhuma insensatez do presidente.
Os oficiais-generais vão cumprir a Constituição, ajudar o governo (qualquer governo) no possível, mas sem se intrometer. Não querem que a imagem das Forças Armadas seja prejudicada por atos de um presidente complicadíssimo, que pensa (?) estar representando os militares, mas não está. Eis a questão.
Para os chefes militares, a situação gravíssima e inaceitável é que Bolsonaro não se comporta como militar.
Como se sabe, uma das dogmas das Forças Armadas é o respeito à hierarquia, um princípio que não se resume a respeitar ordens superiores.
Na crise do coronavírus, os generais da ativa estão assistindo a uma gravíssima quebra de hierarquia cometida por Bolsonaro, cuja obrigação funcional é respeitar a orientação científica das autoridades de saúde do país (Ministério e Vigilância Sanitária) e da Organização Mundial de Saúde, da qual o Brasil é país-membro fundador.
É preciso entender que o raciocínio dos generais é sempre cartesiano. Eles avaliam que um presidente que não respeita a hierarquia científica nacional e mundial, em assunto de interesse vital da saúde de todos os brasileiros, por consequência isso significa que esse presidente não aceita hierarquia alguma.
Coronavírus escancarou a conta do nosso egoísmo
No último dia 22, no meio da pandemia de coronavírus, uma senhora de 90 anos faleceu na Bélgica após ter recusado o ventilador mecânico para ceder o equipamento em favor de alguém mais jovem. “Guarde para alguém mais jovem. Eu vivi uma boa vida” foi o que ela disse dias antes de falecer.
Não é hidroxicloroquina ou cloroquina que irão nos salvar dessa vez.
O inimigo dessa vez é invisível e implacável: fez os líderes das grandes nações parecem crianças assustadas, fez o Papa sozinho e cabisbaixo perdoar os nossos pecados, fez judeus e muçulmanos rezarem juntos.
As nossas tradicionais armaduras falharam. De nada adiantou o poderio militar nuclear dos mísseis ou os inalcançáveis imóveis de luxo do Central Park: o gramado agora está cheio de tendas de hospital de campanha. Nossos planos de saúde caros não foram suficientes para tirar o receio da falta de equipamentos de nossas cabeças e tampouco nossos celulares e televisões sofisticados foram capazes de entreter no meio dessa solidão sentida e vivenciada por todos.
Sentimo-nos amedrontados, perdidos, sozinhos. E aí, diante de algo que não sabemos como nem quando vai acabar, fomos obrigados a ajoelhar. E para ajoelhar, todos nós fomos obrigados a aprender que é necessário sair dos nossos tronos, das nossas bolhas, das nossas coberturas, das nossas realidades e aproximar a cabeça do chão, frágeis e despidos.
Quando a gente se abaixou, acabamos esbarrando as cabeças uns nos outros e o milagre começou a acontecer. Começamos a perceber que a doença que mata a minha mãe também mata a mãe de quem mora do outro lado do mundo. Vimos que o mesmo problema que quebra o meu negócio desemprega o meu funcionário mais simples. Passamos a enxergar a importância de profissões que muitas vezes considerávamos pouco importantes ou dispensáveis. Constatamos que o medicamento que me falta também faltará para quem mora na favela. Sentimos que a mesma solidão que se abate sobre mim angustia o outro que tem nome, cor, origem e religião diferentes dos meus.
Despedaçados perante nossos medos mais ocultos, enfim fomos obrigados a admitir aquilo que já sabíamos mas não queríamos aceitar: somos todos iguais. No final das contas, após todo o dinheiro, todo o status, todos os privilégios, encolhemo-nos de medo das mesmas coisas e sentimos uma compaixão comum diante dos números que crescem, seja na Itália, nos Estados Unidos ou na nossa cidade.
Se antes bastava se cercar no próprio feudo e a guerra não chegaria ali, agora, para funcionar para mim, precisa funcionar para todo mundo. Para que eu seja protegido, preciso proteger os outros. A conta do nosso egoísmo chegou, cara e sem nenhum desconto.
Mas com o milagre, percebemos que essa conta pode ser paga de outra forma. Dito e repetido, não são hidroxicloroquina ou cloroquina que encerrarão esses tempos obscuros. Já descobrimos a cura e ela se chama amor. Pode parecer piegas, não é mesmo? Mas a verdade é que chegamos no ponto decisivo, na curva da inflexão na qual ou nós mudamos a maneira de convivermos enquanto sociedade ou estaremos sempre à mercê de nosso próprio egoísmo disfarçado de vírus, guerras, crises econômicas ou governantes inescrupulosos.
Para muito além do desespero e caos que estafam a nossa mente, o Brasil que se apresenta agora é o Brasil dos profissionais de saúde exaustos que se revezam incansavelmente para salvar pessoas que nem conhecem. É o Brasil de empresários assumindo prejuízos para não demitir seus funcionários. É o Brasil de pessoas parando suas atividades para garantir o bem-estar de outros. É o Brasil dos entregadores, garis, caminhoneiros e caixas de supermercados. É o Brasil de pessoas que doam o pouco que tem para que quem tem menos ainda possa ter algo. É o país do amor ao próximo e de gente que se preocupa com gente, de forma real e para além de qualquer discurso vazio e hipócrita.
Esse país de gente solidária, trabalhadora e resiliente pode afinal ser o gigante que acordou, ainda que tantos discursos e personagens irresponsáveis tentem macular nosso foco. A reflexão sobre qual lado da história iremos (e optaremos por) estar nunca foi tão necessária.
Tempos difíceis servem para algumas coisas, entre elas grandes aprendizados e reflexões incômodas. Quando aquela senhora heroína na Bélgica cedeu seu equipamento, a afirmação dela pode e deve ser repetida aqui: “guarde para alguém mais jovem”. E dessa vez, não é sobre o equipamento. É sobre o legado e a história que estamos construindo nesse momento decisivo. É a hora de abaixarmos as nossas bandeiras ideológicas e substituí-las por empatia, bom-senso e álcool em gel. Fiquemos em casa e ajudemos uns aos outros, irrestritamente. Construamos, unidos, nesse momento difícil, uma nação melhor e mais solidária, para que possamos deixar, após a crise, um país melhor “guardado para os mais jovens”. É essa a real cura para o temido vírus.
Pedro Aihara, tenente do Corpo de Bombeiros, mestre em Direitos Humanos, especialista em Gestão e Prevenção de desastres, atuou em Brumadinho e Mariana e Janaúba
Bolsonaro virou o bobo da corte
Os sinais de que o presidente da República deixou de ser levado a sério são numerosos e inequívocos. Prefeitos e governadores, alguns dos quais eleitos na mesma onda conservadora que impulsionou Bolsonaro, fazem exatamente o contrário do que ele recomenda — e não hesitam em explicitar isso.
Até ministros de Estado, que foram por ele escolhidos e são demissíveis "ad nutum", se articulam para fazer o by-pass do chefe. Além de Mandetta, Moro e Guedes já disseram, ainda que tentando esboçar alguma diplomacia, que apoiam as medidas de isolamento social que Bolsonaro renega. Há notícias de que o núcleo militar tenta enquadrá-lo, mas a persuasão, quando surte efeito, é transitória. Só dura até a próxima declaração ou postagem, quase sempre uma combinação de mentiras com delírios.
No Congresso o clima não é muito diferente. Parlamentares já desistiram de esperar que Bolsonaro exerça a liderança que caberia ao presidente num momento como este e estão cuidando de elaborar por conta própria medidas para atenuar a crise. Se o Legislativo estivesse operando em condições de normalidade, estaríamos possivelmente iniciando procedimentos de impeachment.
O isolamento de Bolsonaro é internacional. Se, até uma ou duas semanas atrás, ainda havia líderes populistas apostando no negacionismo, como o mexicano Andrés Manuel López Obrador e o próprio Donald Trump, eles vislumbraram o tamanho da encrenca e adotaram uma posição mais responsável. Bolsonaro ficou praticamente sozinho.
Só não dá para rir da piada que Bolsonaro se tornou porque ela poderá custar vidas.
Palmas para a Imprensa!
Somos afortunados: nossa imprensa não desiste. O assunto é horroroso, a repetição ad nausean dos conselhos e dos casos, as estatísticas angustiantes são massacrantes, mas sem ela onde estaríamos?
Assim como a população de tantas cidades brasileiras bateu e bate palmas para os médicos e demais profissionais da Saúde, deveríamos nos unir e bater palmas, muitas palmas, para nossa Imprensa.
Se não fosse a Imprensa, já estaríamos quebrando todos os recordes de morte pelo Covid 19, pois é aos jornalistas que se sacrificam e vão às ruas buscar notícias verídicas e depois repetir diariamente as palavras da Ciência que devemos o sucesso do isolamento que vem impedindo que o vírus se espalhe exponencialmente.
Temos um mistério em Brasília. E esse é um mistério maior que a origem e cura do Covid 19, um presidente da República que sabe que não nasceu para o cargo, que sabe que nada sabe e que odeia os idosos, grupo do qual faz parte. Se não os odiasse, não aconselharia as famílias a deixá-los num canto, ao contrário, pediria que cumprissem o isolamanento recomendado pela OMS para salvar pais e avós.
O que o indigitado BolsoNero esquece é que há sempre um dia atrás do outro e que o castigo divino vem com a rapidez de um foguete espacial e que com ele, assim nos ajude Deus, não será diferente.
Há quem acredite que BolsoNero sentiu que errou e se assustou, por isso mudou o tom de suas falas. Ledo engano. BolsoNero, estimulado pelos inacreditáveis filhos que gerou, é o mesmo de anteontem e seguirá sendo o mesmo amanhã, até que o canto escuro para onde seus ex-eleitores o levarão, mostre que seu caminho era triste, desolado e cruel para com todos os brasileiros, crianças, jovens, adultos e idosos.
A Imprensa cumpre o papel que deveria ser o dele e lembra a todos que ficar em casa é o melhor caminho para evitar que corramos todos o risco de sermos contaminados por esse vírus maligno.
BolsoNero não sabe educar filhos, não sabe governar, não sabe escolher amigos. Dedicou seu coração a Trump e lhe deu vários e excelentes presentes brasileiros. O que recebeu em troca? Um pontapé estrondoso: Trump usou o dinheiro que tem de sobra para enviar 23 aviões à China e assim impedir que o Brasil recebesse máscaras e equipamentos que ajudariam a salvar vidas por aqui.
Aos dois amiguinhos desejo ardentemente que as próximas eleições lhes sejam aziagas.
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Assim como a população de tantas cidades brasileiras bateu e bate palmas para os médicos e demais profissionais da Saúde, deveríamos nos unir e bater palmas, muitas palmas, para nossa Imprensa.
Se não fosse a Imprensa, já estaríamos quebrando todos os recordes de morte pelo Covid 19, pois é aos jornalistas que se sacrificam e vão às ruas buscar notícias verídicas e depois repetir diariamente as palavras da Ciência que devemos o sucesso do isolamento que vem impedindo que o vírus se espalhe exponencialmente.

Temos um mistério em Brasília. E esse é um mistério maior que a origem e cura do Covid 19, um presidente da República que sabe que não nasceu para o cargo, que sabe que nada sabe e que odeia os idosos, grupo do qual faz parte. Se não os odiasse, não aconselharia as famílias a deixá-los num canto, ao contrário, pediria que cumprissem o isolamanento recomendado pela OMS para salvar pais e avós.
O que o indigitado BolsoNero esquece é que há sempre um dia atrás do outro e que o castigo divino vem com a rapidez de um foguete espacial e que com ele, assim nos ajude Deus, não será diferente.
Há quem acredite que BolsoNero sentiu que errou e se assustou, por isso mudou o tom de suas falas. Ledo engano. BolsoNero, estimulado pelos inacreditáveis filhos que gerou, é o mesmo de anteontem e seguirá sendo o mesmo amanhã, até que o canto escuro para onde seus ex-eleitores o levarão, mostre que seu caminho era triste, desolado e cruel para com todos os brasileiros, crianças, jovens, adultos e idosos.
A Imprensa cumpre o papel que deveria ser o dele e lembra a todos que ficar em casa é o melhor caminho para evitar que corramos todos o risco de sermos contaminados por esse vírus maligno.
BolsoNero não sabe educar filhos, não sabe governar, não sabe escolher amigos. Dedicou seu coração a Trump e lhe deu vários e excelentes presentes brasileiros. O que recebeu em troca? Um pontapé estrondoso: Trump usou o dinheiro que tem de sobra para enviar 23 aviões à China e assim impedir que o Brasil recebesse máscaras e equipamentos que ajudariam a salvar vidas por aqui.
Aos dois amiguinhos desejo ardentemente que as próximas eleições lhes sejam aziagas.
Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
sexta-feira, 3 de abril de 2020
A renda básica emergencial

Apesar de a RBE ter sido uma conquista da sociedade junto ao Congresso, movendo o Estado a despeito da inércia do Executivo federal, não tardou para que o governo quisesse dela se apoderar. Ou melhor, quisesse se apoderar da medida para propaganda, porque o pagamento do benefício para quem já está passando fome o governo tratou mesmo foi de embromar. Nos lábios do ministro da Economia, Paulo Guedes, a RBE ganhou logo um nome inapropriado, insensível, de mau gosto, que beira o obsceno: “coronavoucher”. Parte da imprensa pôs-se a repeti-lo sem se dar conta de que um imenso equívoco havia sido cometido pelo ministro. Voucher, ou um “vale”, não é renda. O “vale” é um papel que dá ao detentor o direito de obter um desconto numa compra ou de trocá-lo por um bem ou serviço: vale-transporte, vale-alimentação. Renda é um fluxo de dinheiro para o recipiente, seja na forma de salários, de dividendos ou de transferências do governo. A RBE é uma transferência incondicional de renda do governo para uma parcela da população. A RBE é como o Bolsa Família, com a diferença de que o Bolsa Família exige contrapartidas dos beneficiários. Portanto, o ministro embrulhou conceitos econômicos, na melhor das hipóteses, para se fingir de pai da filha que não havia gerado.
Mas não ficou só nisso. Depois de ter tentado dar nome à filha que não era dele, o ministro disse ser muito difícil começar a pagar a RBE imediatamente. Inventou a necessidade de uma Emenda Constitucional para fazê-lo, o que, além de ser desnecessário, atrasaria o pagamento do benefício, colocando vidas em risco. Sim, vidas. Afinal, os beneficiários são pessoas que só comem aquilo que conseguem arrecadar de renda a cada dia. Pensem nos ambulantes, que, com a quarentena, não têm para quem vender. Pensem em todas as pessoas que têm de escolher entre comer ou arriscar ser contaminadas pela doença e, de quebra, transmiti-la a seus entes queridos. São essas pessoas que Guedes não quer abraçar.
Como fazer para pagar a RBE? O ministro deveria saber, pois não é difícil. Há duas maneiras. A primeira, mais fácil, seria o governo editar uma Medida Provisória (MP) para o pagamento do benefício, indicando como fonte de recursos o superávit financeiro da União — o superávit financeiro, proveniente de operações de câmbio e outras mais, é de dezenas de bilhões de reais, ou seja, muito mais do que o necessário para cobrir a RBE. Outra forma seria o governo emitir dívida.
Para isso, teria de abrir uma exceção ao cumprimento da regra de ouro, dispositivo constitucional que proíbe a emissão de dívida pública em determinadas circunstâncias. Abrir exceção para o cumprimento da regra de ouro não requer Emenda Constitucional alguma. Basta que o governo prepare uma MP indicando ao Congresso por que é necessário descumpri-la para determinada finalidade e que o Congresso aprove o projeto de lei autorizando o governo a fazê-lo. Dada a disposição do Congresso de ver a implementação da RBE, nada disso seria difícil e provavelmente poderia ser feito em menos de 24 horas. Contudo, ao invés de buscar soluções, Guedes busca empecilhos.
No calor desse momento de tamanha aflição, hashtags subiram imediatamente nas redes sociais pedindo o pagamento ou a saída do ministro. Até ministros do Supremo Tribunal Federal se pronunciaram sobre o descalabro.
A RBE será paga, de um jeito ou de outro. A RBE será aprimorada e ampliada, de um jeito ou de outro. A RBE haverá de tornar-se permanente, de um jeito ou de outro. Ela é a esperança para que, na saída dessa crise, tenhamos ao menos uma sociedade menos injusta. Da pandemia ainda nascerá um dos pilares da cidadania.Monica de Bolle
O maluco tristeza
Todo dia ele faz tudo sempre igual e o Brasil espera, trancado em casa, cercado de medo por todos os lados, qual o perdigoto de ignorância destrutiva que o sujeito vai falar.
A expressão acima, “não será surpresa para esta coluna”, foi inventada pelo colunista Zózimo Barrozo do Amaral (1941-1996). Era uma das marcas de seu fabuloso estilo, um repertório de charme que incluía a informação privilegiada, o texto fino, o humor farto e o uso de bordões. O “não será surpresa” era um truque também. Seu enunciado ocupava uma linha da coluna e, em dias de vacas magras, ela ficava mais próxima do fim.
A jornalista Miriam Leitão, que trabalhou na coluna nos anos 1980, lembra que numa noite de feriado o fechamento estava difícil, zero de notícias, e ainda faltavam três linhas. Zózimo botou o papel na máquina, tascou o bordão do “Não será surpresa para esta coluna” – e nada. Pensou muito – e veio-lhe a luz: “... nada mais será surpresa para esta coluna”.
O maluco tristeza espargindo perdigotos na porta do palácio virou a mais lamentável piada internacional em tempos de peste. E olhe que ele concorre com o bielorusso que mandou o povo tomar vodka. Com o sujeito do Turcomenistão, que proibiu a palavra corona até nas conversas. O das Filipinas, que autorizou a polícia a dar um tiro em quem saísse de casa. E o da Colômbia, que no manual de práticas sexuais recomendou à população se abster do sexo anal – e preferir masturbação.
Diga o que disser Bolsonaro hoje (duas espadas de São Jorge em forma de cruz na porta de cada casa, galho de arruda atrás da orelha, atirar sal grosso por cima da cabeça, três dentes de alho num saquinho vermelho), Zózimo estava certo. Muita maluquez, pouca lucidez, os males do Brasil são. Nada mais será surpresa para esta coluna.
Não será surpresa para esta coluna se mais uma vez ele voltar atrás e - como se fosse um maluco tristeza parodiando o maluco beleza Raul Seixas - dizer hoje o oposto do que disse ontem. Suspender a ideia de combater o coronavírus com um dia nacional de jejum e orações. Pensou melhor. E conclamará a nação a colocar uma vassoura atrás da porta. O vírus, essa visita dolorosamente insistente, irá embora num instante. Se ela insistir em ficar mais um pouco, que se lhe ofereça um copo de leite com manga. Será mortal.
A expressão acima, “não será surpresa para esta coluna”, foi inventada pelo colunista Zózimo Barrozo do Amaral (1941-1996). Era uma das marcas de seu fabuloso estilo, um repertório de charme que incluía a informação privilegiada, o texto fino, o humor farto e o uso de bordões. O “não será surpresa” era um truque também. Seu enunciado ocupava uma linha da coluna e, em dias de vacas magras, ela ficava mais próxima do fim.
A jornalista Miriam Leitão, que trabalhou na coluna nos anos 1980, lembra que numa noite de feriado o fechamento estava difícil, zero de notícias, e ainda faltavam três linhas. Zózimo botou o papel na máquina, tascou o bordão do “Não será surpresa para esta coluna” – e nada. Pensou muito – e veio-lhe a luz: “... nada mais será surpresa para esta coluna”.
O maluco tristeza espargindo perdigotos na porta do palácio virou a mais lamentável piada internacional em tempos de peste. E olhe que ele concorre com o bielorusso que mandou o povo tomar vodka. Com o sujeito do Turcomenistão, que proibiu a palavra corona até nas conversas. O das Filipinas, que autorizou a polícia a dar um tiro em quem saísse de casa. E o da Colômbia, que no manual de práticas sexuais recomendou à população se abster do sexo anal – e preferir masturbação.
Diga o que disser Bolsonaro hoje (duas espadas de São Jorge em forma de cruz na porta de cada casa, galho de arruda atrás da orelha, atirar sal grosso por cima da cabeça, três dentes de alho num saquinho vermelho), Zózimo estava certo. Muita maluquez, pouca lucidez, os males do Brasil são. Nada mais será surpresa para esta coluna.
Merecendo o capitão
Uma amiga minha, filha de um major do Exército, morou em Brasília em 1970, apogeu da ditadura. O apartamento de seus pais ficava numa superquadra reservada a militares, de frente para o Eixo Monumental. E, como a vida militar se regula pela hierarquia, seus prédios na cidade seguiam essa hierarquia. Mesmo que com diferença de um andar, um general sempre morava mais alto que um coronel e este idem que os majores e capitães. Aos tenentes, só devia restar o térreo e de fundos.
Como os militares se mudavam para Brasília com a família, a hierarquia se transferia automaticamente para esta —donde um filho ou neto de general tinha preferência, digamos, no elevador, sobre o neto ou filho do de outra patente. Segundo minha amiga, alguns desses meninos, já adestrados no espírito da categoria, exigiam que seus coleguinhas de prédio, filhos de oficiais subordinados, lhes batessem continência, como os pais destes faziam quando cruzavam nos corredores com o generalão.
Foi esse rigor hierárquico que impediu que certos pesos-pesados da ditadura atingissem os postos a que se julgavam destinados --suas patentes os levavam a bater a cabeça no teto e dali não passar. Um deles o general-de-divisão Albuquerque Lima, candidato à sucessão de Costa e Silva, mas que nunca chegaria lá por não ser general-de-Exército —como Médici. Se um general com uma estrela a menos não podia ser presidente, imagine um coronel como Mario Andreazza, que, naquela mesma sucessão, também delirou com a Presidência.
Mas os tempos mudam. Hoje, generais batem continência para um ex-capitão expulso do Exército por indisciplina e que depois se entregou a uma longa e bem paga sinecura de político profissional. Se isso diz algo sobre a nossa pobreza política, diz ainda mais sobre a militar.
Queiram ou não, os generais estão merecendo esse capitão.Ruy Castro
Como os militares se mudavam para Brasília com a família, a hierarquia se transferia automaticamente para esta —donde um filho ou neto de general tinha preferência, digamos, no elevador, sobre o neto ou filho do de outra patente. Segundo minha amiga, alguns desses meninos, já adestrados no espírito da categoria, exigiam que seus coleguinhas de prédio, filhos de oficiais subordinados, lhes batessem continência, como os pais destes faziam quando cruzavam nos corredores com o generalão.
Foi esse rigor hierárquico que impediu que certos pesos-pesados da ditadura atingissem os postos a que se julgavam destinados --suas patentes os levavam a bater a cabeça no teto e dali não passar. Um deles o general-de-divisão Albuquerque Lima, candidato à sucessão de Costa e Silva, mas que nunca chegaria lá por não ser general-de-Exército —como Médici. Se um general com uma estrela a menos não podia ser presidente, imagine um coronel como Mario Andreazza, que, naquela mesma sucessão, também delirou com a Presidência.
Mas os tempos mudam. Hoje, generais batem continência para um ex-capitão expulso do Exército por indisciplina e que depois se entregou a uma longa e bem paga sinecura de político profissional. Se isso diz algo sobre a nossa pobreza política, diz ainda mais sobre a militar.
Queiram ou não, os generais estão merecendo esse capitão.Ruy Castro
Coro 'evangélico'
A relação de Malafaia com Bolsonaro é semelhante à de muitos empresários. Eles não querem abrir mão dos seus lucros e dos seus crescimentos. Silas Malafaia é um empresário da religião, que, junto com esses outros empresários, defende os seus interessesFrancisco Borba Ribeiro Neto, coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP
Vírus traz à tona nosso ‘deep state’; Bolsonaro governa o 'Bolsolavistão"
O presidente comete mais um crime de responsabilidade. Até a minha coluna passada, contavam-se 10. Agora, 12. Responderá por eles no tempo possível. À maneira cabocla, o coronavírus revelou a existência de um ‘deep state’ no Brasil. Pela Saúde, fala o ministro Luiz Henrique Mandetta. Pelo ordenamento geral, o general Braga Netto, da Casa Civil.

Governam o país. À margem, vitupera Bolsonaro, estimulando os perdigotos da desordem e da tragédia, prenhes de vírus. Governa o Bolsolavistão. Ademais, a Constituição reconhece a existência de um vice-presidente também eleito: general Hamilton Mourão. A Carta e a lei 1.079 trazem o regramento necessário para que a República sobreviva a vontades que a aniquilariam.
Entendo. Não é mesmo fácil a um presidente ter de vir a público para anunciar que, em alguns meses, de 100 mil a 240 mil cidadãos podem morrer vítimas da Covid-19, obrigando-se ainda a alertar que, sem medidas de distanciamento social, a cifra aponta para catastróficos 2,2 milhões.
Foi o que fez Donald Trump na terça. Pela primeira vez, o histrião pareceu um estadista. Economizou nos esgares. Terá de acertar contas com o povo americano. Até havia pouco, nos seus discursos, a doença era só uma gripe provocada pelo ‘vírus chinês’, e os riscos que corriam os EUA não passavam de um fantasma brandido por democratas para prejudicar sua campanha à reeleição.
Sua plateia se divertia a valer, com risos brancos, robustos e corados. Muitos estão agora contaminados, internados ou mortos. Não é justiça divina. Deus tem outros afazeres. É a educação pelo vírus. Até Trump é capaz de aprender.
O presidente dos EUA e a maioria dos líderes mundiais deixaram-se convencer pelo estudo liderado pelo Imperial College de Londres, que estimou o impacto da doença em 202 países, incluindo o Brasil. Por aqui, anteviu-se a morte de 1,15 milhão caso se adotasse o padrão milanês de combate ao vírus, como prega Bolsonaro.
As advertências do Imperial College foram referendadas por modelos matemáticos de especialistas dos EUA, da Europa e da Índia, entre outros países. Bolsonaro, em quem a revista inglesa The Economist —liberal, de direita!— tascou a pecha globalmente inapagável de ‘BolsoNero’, dispõe de suas próprias certezas.
À ciência, opõe as convicções de um fatalista tragicômico. Duas delas: “Todo mundo morre um dia” e “brasileiro tem de ser estudado porque pula no esgoto e não acontece nada”. A qualidade de um debatedor ou de um formulador de políticas públicas também se mede pelos argumentos irrespondíveis que é capaz de esgrimir.
Nota em defesa de Nero: nem tocou fogo em Roma nem foi dedilhar sua lira enquanto a cidade ardia, como no horrível filme ‘Quo Vadis’, baseado em romance ainda pior.
Já o nosso imperador lembra, às vezes, de fato, o Nero tresloucado que Suetônio, precursor dos blogueiros da difamação, inventou em ‘Os Doze Césares’, um clássico.
Bolsonaro não está só. O ditador Alexander Lukashenko, que governa Belarus desde 1994, defende que se combata o vírus com sauna e vodca. Gurbanguly Berdimuhamedow —não tente decorar—, que tiraniza o Turcomenistão desde 2007, proibiu a imprensa e os indivíduos de escrever ou pronunciar “coronavírus”. Jornalistas devem ainda evitar o vocábulo “problema”. Uma imprensa sem viés ideológico.
“Eu quero que cada americano esteja preparado para dias difíceis. Nós vamos passar por duas semanas muito brutais”, afirmou Trump ao reiterar a necessidade das medidas de isolamento social. Bolsonaro prefere passar adiante um vídeo que convida os quartéis a dar um golpe no Bolsolavistão.
Não vai ter golpe, vai ter lei. Melhor não morrer nem de vodca nem de vírus.
Bestialidade à Bolsonaro
Já ninguém tem dúvidas que a pandemia da Covid-19 é o maior desafio que o mundo já enfrentou desde a Segunda Guerra Mundial. António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas repetiu-o hoje, reafirmando que a situação pode levar a uma recessão sem paralelo e, por isso, exige resposta forte e eficaz.

Ninguém… ou quase ninguém. Enquanto a maioria dos países se fecham em casa, declaram estados de emergência e se concentram na luta contra o Covid-19, há políticos que, ainda assim, fazem exatamente o contrário, recusando a ameaça que se agiganta a cada dia que passa. Trump começou por seguir esse caminho, mas depois emendou a mão, adotando uma estratégia de avanços e recuos na mensagem que faz jus à sua habitual incongruência. É só o Trump a ser o Trump. Mais preocupado com o seu umbigo, a sua imagem e como sai disto tudo do que com a saúde dos americanos (“só quero ser reconhecido”, repetiu várias vezes na conferência de imprensa que assisti há dias numa emissão em direto e que dá vontade de ir às lágrimas).
Mas o campeão da cegueira em tempos de Covid-19 é mesmo Bolsonaro – uma verdadeira besta do obscurantismo. O que tem feito – e não feito – configura um crime de atentado contra a saúde pública, ou mesmo um crime contra a humanidade. O Presidente brasileiro tem sistematicamente ridicularizado o perigo e recusado implementar medidas de controle mais apertadas. O que todos veem como um perigo mortal, Bolsonaro chama de “gripezinha”. Coisa pouca, que não o deitará a ele abaixo – e é este o exemplo que dá aos brasileiros. Só falta chamar-se mariquinhas. Este fim de semana passeou-se por Brasília aconselhando as pessoas a voltarem à sua vida normal, indo contra os conselhos do seu próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta.
A coisa é de tal forma negligente que são as próprias redes sociais Twiter, Facebook e Instagram a filtrarem e apagarem os seus posts, por os considerarem capazes de criar desinformação que pode causar danos reais às pessoas perante um cenário generalizado de pandemia. Redes sociais mais zelosas pelo bem-estar das populações do que o Presidente de uma nação com 209 milhões de habitantes – acredita-se nisto?
Idiotas idênticos só mesmo outros dois senhores no poder, ambos aparentemente com o mesmo nível de bestialidade. Aleksander Lukashenko, líder da Bielorrússia, que desvaloriza a gravidade da Covid-19, e sugere muita sauna porque, segundo ele, o calor mata o bicho, e vodka com fartura, que é a “cura para tudo”. Ou Nicolás Maduro, que também recomendou uma bebida caseira para ajudar a acabar o coronavírus, e que também viu o seu post apagado no Twitter.
O que seria de nós, portugueses, se tivéssemos António Costa a recomendar-nos praia e vinho tinto?
Perdido por mil
Dúvida, já não há: o Brasil tem na Presidência da República um homem psicológica e emocionalmente perturbado. Não diria louco, pois seria, assim, tido como inimputável, e Jair Bolsonaro de alguma maneira, cedo ou tarde, terá de pagar pelo mal que vem causando ao país com seus atos e palavras de incentivo à quebra das regras de precaução no combate mundial à expansão da Covid-19.
Não faz isso apenas por ignorância ou pura teimosia. Faz também com algum objetivo que só está claro para ele e para os celerados que compartilham de suas posições.
Para detectar alguma lógica nessa desordem mental, algumas hipóteses são desenhadas. A mais radical aventa a possibilidade de o presidente tentar provocar um processo de impeachment para se pôr no papel de vítima e se eximir das responsabilidades às quais não consegue fazer frente por falta de vocação e preparo.
Outra, em linha semelhante, desperta a desconfiança de que esteja querendo forçar uma situação à moda húngara, que enseje a tomada de soluções autoritárias como o recurso ao estado de sítio. Tratando-se de Bolsonaro, não convém duvidar de nada, por mais absurdas e inexequíveis que sejam as ideias.
Ele quer fazer o diferente a fim de tentar se valer tanto de possíveis bons resultados das medidas de precaução, como se fossem a prova de que tinha razão, quanto do inevitável agravamento da situação econômica para, então, dizer: “Eu avisei”.
Em ambos os casos as opiniões de Bolsonaro têm tido peso zero nos ministros que o ignoram, na Justiça que derruba suas decisões, nos governadores e prefeitos que o contrariam, nas empresas servidoras de redes sociais que apagam suas mensagens, nos panelaços diários, na maioria da sociedade que não lhe dá ouvidos e, podendo, fica em casa.
No panorama de hoje, Bolsonaro pode dar adeus à reeleição para se concentrar na permanência no cargo até 2022
O perigo mora na minoria que embarca na canoa temerária do presidente e sai por aí pondo em risco a vida dos outros. Como mostrou várias vezes não levar o valor humanitário em conta (até que lhe doam os calos eleitorais ou seja pessoal e gravemente atingido pela doença), por vontade própria Jair Bolsonaro não vai parar. Ensaia recuo para ganhar tempo, como fez no pronunciamento de 31 de março, mas não desiste do confronto. É da natureza dele. Mesmo à beira do abismo, dá um jeito de prosseguir.
A boa notícia é que os desejos de Bolsonaro não se sobrepõem à força da sociedade que se encarrega de lhe impor um paradeiro. Não acontece de uma hora para outra, mas já começa a acontecer quando um ministro do Supremo pede à Procuradoria-Geral da República que examine notícia-crime contra o presidente e outro o proíbe de fazer campanha contra o isolamento, quando jornalistas fartos de ofensas abandonam uma entrevista, quando se estabelece um ambiente de desobediência cívica.
Criou-se, e vai se ampliando, o consenso de que estar do lado certo é estar do lado oposto ao do presidente da República. É um cenário inédito que já nos permite ensaiar projeções para as eleições de 2022, isso considerando que a menos danosa dessas projeções para Bolsonaro é não conseguir ser reeleito. Sim, porque ele precisa se segurar no cargo até lá antes de pensar numa reeleição que, na conta de hoje, só não estará perdida se houver uma improvável mudança radical do quadro.
Mantido o calendário eleitoral deste ano e realizadas as municipais em outubro, mesmo já tendo passado a fase crítica os efeitos da crise ainda estarão sendo sentidos pela população, o que evidentemente fará com que o tema domine a campanha. Ora, Bolsonaro, tendo se colocado na contramão das boas práticas de prevenção à disseminação do vírus e assumido, assim, a posição de protagonista-vilão, será o alvo preferencial dos candidatos e o centro das polêmicas no eleitorado.
Uma eleição que em condições normais teria como foco primordial questões locais, caso ocorra mesmo ainda em 2020, e será tomada pelo debate do enfrentamento das sequelas da pandemia, passando necessariamente pela conduta das lideranças políticas durante a crise.
Quesito esse em que Bolsonaro não terá bom desempenho. Mais que isso: apontado, antes do evento nefasto, como favorito em 2022 por falta de contendores competitivos, o presidente jogou fermento na concorrência.
Agora não faltam no horizonte adversários bem-vistos pela população. Os governadores João Doria (SP), no primeiro esquadrão dos já colocados, e Flávio Dino (MA), no time intermediário, e Luiz Henrique Mandetta e Ronaldo Caiado entre os que até então não estavam no cenário da eleição presidencial.
Não faz isso apenas por ignorância ou pura teimosia. Faz também com algum objetivo que só está claro para ele e para os celerados que compartilham de suas posições.
Para detectar alguma lógica nessa desordem mental, algumas hipóteses são desenhadas. A mais radical aventa a possibilidade de o presidente tentar provocar um processo de impeachment para se pôr no papel de vítima e se eximir das responsabilidades às quais não consegue fazer frente por falta de vocação e preparo.
Outra, em linha semelhante, desperta a desconfiança de que esteja querendo forçar uma situação à moda húngara, que enseje a tomada de soluções autoritárias como o recurso ao estado de sítio. Tratando-se de Bolsonaro, não convém duvidar de nada, por mais absurdas e inexequíveis que sejam as ideias.
Ele quer fazer o diferente a fim de tentar se valer tanto de possíveis bons resultados das medidas de precaução, como se fossem a prova de que tinha razão, quanto do inevitável agravamento da situação econômica para, então, dizer: “Eu avisei”.
Em ambos os casos as opiniões de Bolsonaro têm tido peso zero nos ministros que o ignoram, na Justiça que derruba suas decisões, nos governadores e prefeitos que o contrariam, nas empresas servidoras de redes sociais que apagam suas mensagens, nos panelaços diários, na maioria da sociedade que não lhe dá ouvidos e, podendo, fica em casa.
No panorama de hoje, Bolsonaro pode dar adeus à reeleição para se concentrar na permanência no cargo até 2022
O perigo mora na minoria que embarca na canoa temerária do presidente e sai por aí pondo em risco a vida dos outros. Como mostrou várias vezes não levar o valor humanitário em conta (até que lhe doam os calos eleitorais ou seja pessoal e gravemente atingido pela doença), por vontade própria Jair Bolsonaro não vai parar. Ensaia recuo para ganhar tempo, como fez no pronunciamento de 31 de março, mas não desiste do confronto. É da natureza dele. Mesmo à beira do abismo, dá um jeito de prosseguir.
A boa notícia é que os desejos de Bolsonaro não se sobrepõem à força da sociedade que se encarrega de lhe impor um paradeiro. Não acontece de uma hora para outra, mas já começa a acontecer quando um ministro do Supremo pede à Procuradoria-Geral da República que examine notícia-crime contra o presidente e outro o proíbe de fazer campanha contra o isolamento, quando jornalistas fartos de ofensas abandonam uma entrevista, quando se estabelece um ambiente de desobediência cívica.
Criou-se, e vai se ampliando, o consenso de que estar do lado certo é estar do lado oposto ao do presidente da República. É um cenário inédito que já nos permite ensaiar projeções para as eleições de 2022, isso considerando que a menos danosa dessas projeções para Bolsonaro é não conseguir ser reeleito. Sim, porque ele precisa se segurar no cargo até lá antes de pensar numa reeleição que, na conta de hoje, só não estará perdida se houver uma improvável mudança radical do quadro.
Mantido o calendário eleitoral deste ano e realizadas as municipais em outubro, mesmo já tendo passado a fase crítica os efeitos da crise ainda estarão sendo sentidos pela população, o que evidentemente fará com que o tema domine a campanha. Ora, Bolsonaro, tendo se colocado na contramão das boas práticas de prevenção à disseminação do vírus e assumido, assim, a posição de protagonista-vilão, será o alvo preferencial dos candidatos e o centro das polêmicas no eleitorado.
Uma eleição que em condições normais teria como foco primordial questões locais, caso ocorra mesmo ainda em 2020, e será tomada pelo debate do enfrentamento das sequelas da pandemia, passando necessariamente pela conduta das lideranças políticas durante a crise.
Quesito esse em que Bolsonaro não terá bom desempenho. Mais que isso: apontado, antes do evento nefasto, como favorito em 2022 por falta de contendores competitivos, o presidente jogou fermento na concorrência.
Agora não faltam no horizonte adversários bem-vistos pela população. Os governadores João Doria (SP), no primeiro esquadrão dos já colocados, e Flávio Dino (MA), no time intermediário, e Luiz Henrique Mandetta e Ronaldo Caiado entre os que até então não estavam no cenário da eleição presidencial.
Sangue do meu sangue
Quando Bolsonaro se lançou em campanha, muita gente se identificou com suas propostas de combate à corrupção e aos privilégios e sobretudo para impedir a volta do PT ao poder. O que eles não sabiam era que os três filhos do capitão mandariam mais que qualquer ministro. Bolsonaro os adora e os considera inteligentíssimos e competentíssimos, especialmente o 02, Carluxo, a quem atribui os méritos de sua vitória eleitoral por ser “uma fera nisso aí de redes sociais”. Eduardo, escrivão de polícia, não conseguiu comer o filé da embaixada em Washington. Flávio está dependendo da Justiça e do silêncio do Queiroz.
Tanto a ala militar quanto a olavista do governo temem o poder dos filhos sobre o capitão. São os únicos em quem ele confia totalmente, porque Bolsonaro é paranoico, não confia em ninguém e vê conspiradores em cada canto. Seu lema é “a família acima de tudo” e não hesitaria em criar uma crise institucional e colocar seu governo em risco para salvar um filho da cadeia. Como pai de três, até entendo, mas não justifica.
No seu ótimo “Tormenta – O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos”, Thaís Oyama conta que quando Jair teve uma briga com Carluxo, que tem temperamento instável e passional e toma remédios tarja preta, e o filho sumiu por duas semanas, ficou desesperado com suas ameaças de nunca mais voltar a vê-lo. Sempre paranoico, Bolsonaro diz que tem medo de que ele “faça uma besteira”, velho eufemismo para suicídio. Carluxo, que ambiciona ser o filho predileto, o que não é difícil porque os irmãos são dois bobalhões que só criam problemas, tem o pai pelo cabresto afetivo. Criou e comanda o “gabinete do ódio” no Planalto, é o filho mais influente.
Por essa ninguém esperava. O país ser governado pelo presidente com um triunvirato de sangue, que não foi eleito nem tem qualquer qualificação para isso, mas é influência decisiva em qualquer posicionamento importante do pai, principalmente os errados, as fake news, desinformações e provocações estimuladas pelos garotos.
O silêncio da ignorância
Em outras palavras, hoje não há atores sociais nem políticos, nem mundiais nem nacionais nem de classe. Então o que acontece é o oposto de uma guerra, com uma máquina biológica de um lado e, do outro, pessoas e grupos sem ideias, sem direção, sem programa, sem estratégia, sem linguagem. É o silêncioAlain Touraine
Os populismos e o vírus
Os populistas sobrevivem e infetam o mundo alojando-se na culpa alheia, evitando compromissos próprios e responsabilizando os outros por todos os males que anunciam.
A pandemia não facilitou a vida aos populistas. A covid-19 é um “outro” com uma tipologia muito especial, invisível, escorregadio e, por isso, não fácil de instrumentalizar através de notícias falsas ou da manipulação das perceções dos contaminados e, ao mesmo tempo, difícil de colar aos adversários políticos sem salpicar quem o arremessa.

Não obstante todas estas dificuldades, os populistas tentaram aplicar a cartilha. Donald Trump não se cansou de designar a covid-19 como “o vírus chinês” e cavalgou até ao limite a ideia peregrina de que as recomendações de contenção para o conter eram uma cabala dos governadores e dos cientistas para impedir a sua reeleição. Bolsonaro seguiu, com uma argumentação ainda mais rasteira e abjeta, as pisadas do Presidente americano.
A ferocidade da contaminação e dos seus impactos nos Estados Unidos da América, no Brasil e no mundo foi atirando para o esgoto da História os argumentos de Trump, Bolsonaro e muitos dos seus sósias nos vários continentes, embora seja prematuro qualquer cálculo sobre o impacto político direto nos seus autores e na ideologia que promovem quando chegar o momento do julgamento popular nas urnas, nos países em que a democracia sobreviver.
A história passada e recente do populismo mostra que os seus arautos não desistem facilmente e, mesmo quando obrigados a recuos táticos, voltam em horda ao campo de batalha na primeira oportunidade ou brecha que encontram. Tenho um receio forte de que, inicialmente através de experimentações locais e, depois, em forma de mancha insidiosa, não podendo culpar o vírus, os populistas comecem a culpar aqueles que a ele são mais vulneráveis, ou seja, as gerações mais idosas.
Depois da estigmatização dos chineses ou de todos os que com eles fisicamente se aparentam e, mais recentemente, dos europeus nalgumas zonas do globo, a estigmatização dos idosos é o mais temível monstro político que os populistas podem conceber e contra o qual o mundo terá de se vacinar rapidamente.
Aliado ao espetro da morte, da pobreza, da fome, do desemprego e da desilusão de muitos sonhos destruídos, a estigmatização das gerações pode tornar-se um brutal pesadelo. É preciso evitá-lo com todas as forças que conseguirmos mobilizar para este combate. Um combate de geração, pela geração dos nossos pais e dos nossos avós.
No momento sombrio que estamos a viver, muitos vislumbram a oportunidade de um renascimento, de um reencontro dos indivíduos e da humanidade consigo própria, de uma nova e mais saudável forma de vivermos em sociedade, com mais justiça, menos desigualdades e mais respeito pelo planeta e pela sua diversidade. Estou alistado para não deixar escapar essa oportunidade e a sua antevisão ajuda-me a colorir os dias.
Mas não sejamos ingénuos. Antes de podermos usufruir de um sol mais brilhante e de uma sociedade mais justa, temos de vencer a pandemia e afastar as ameaças populistas que espreitam a oportunidade de capturar a dor para continuarem a reinar.
Brasileiro se dá conta da falta que faz um presidente
Na aparência, uma união de esforços contra o inimigo comum. Na realidade, uma evidência do estilhaçamento da tropa federal. Em meio a uma pandemia de contornos inéditos, o Brasil começa a perceber a falta que faz um presidente da República.

Num governo convencional, em que o presidente preside, o ministro segue as determinações do chefe. Se suas ações não ornam com os objetivos do presidente, ele é mandado embora. Se, ao contrário, o ministro recebe ordens para fazer algo de que discorda, é ele quem pede pra sair. No governo atual, marcado pela anormalidade, Mandetta defende uma coisa —o isolamento social— e Bolsonaro advoga o oposto —a reabertura do comércio e a volta dos mais jovens ao trabalho. O ministro valoriza a ciência. O presidente guia-se pelo achismo.
Sem uma coordenação central, governadores e prefeitos implementam o isolamento social meio na galega, cada um à sua maneira. O ministro pede à população que siga as recomendações dos governadores. O hipotético presidente ameaça baixar um decreto autorizando a volta às atividades de trabalhadores formais e informais.
Simultaneamente, o Ministério da Economia prepara a execução de medidas de socorro a pessoas e empresas vulneráveis, para dar fôlego ao confinamento que Bolsonaro quer interromper. Isso não se parece com um governo. Tem outro nome. Chama-se balbúrdia.
Produziram-se dois fenômenos políticos surpreendentes: 1) Bolsonaro conseguiu dar um conteúdo oposicionista à sua Presidência; 2) A oposição que o suposto presidente faz à sua própria administração gerou no Executivo uma instabilidade que inflou a relevância do Legislativo e do Judiciário. Há em Brasília uma articulação subterrânea de parlamentares e magistrados para deter eventuais anomalias surgidas nesse período em que o país se ressente da falta de um presidente da República.
quinta-feira, 2 de abril de 2020
O destino dos 'ministérios éticos' nas crises
Em meados de 1992, com Fernando Collor já acossado pelas denúncias de corrupção deflagradas pelo irmão Pedro e com a CPI do PC trabalhando a todo o vapor rumo ao impeachment, setores do establishment político e da mídia começaram a apostar suas fichas no que chamavam de “ministério ético” para tocar o governo e salvar as coisas. Integrada por grandes nomes acima de qualquer suspeita, como Marcílio Marques Moreira na Economia, Célio Borja na Justiça e Adib Jatene na Saúde, entre outros, a equipe de Collor era um dream team para ninguém botar defeito. Em tese, poderia cumprir o papel de isolar o presidente acusado e manter a administração funcionando.
Esse sopro de sensatez é um alento. Há quem veja, até, a existência de dois governos paralelos, o dos ministros profissionais e o do presidente que, com seus filhos e a ala olavista radical, desobedece, sabota o trabalho e dissemina a insegurança na população. Rezemos para que Deus conserve o “ministério sensato” de Bolsonaro até porque, do jeito que as coisas estão, só Deus.
Mas o problema é que o presidente da República continua a se chamar Jair Messias Bolsonaro, eleito diretamente em outubro de 2018, empossado em janeiro de 2019 e detentor de todas as prerrogativas que lhe garante a Constituição. Nomear e demitir, vetar ou não vetar, autorizar gasto ou não autorizar, pedir decretação de Estado de Sítio ao Congresso, ser o comandante chefe das Forças Armadas, etc. Ilusão imaginar que um punhado de ministros, por mais bem intencionado e articulado politicamente que seja, vá liderar e levar sozinho o país nessa difícil travessia.
Jair Bolsonaro, que assim como o doido que não rasga dinheiro, não comete suicídio político, vai e vem, estica e solta a corda, acelera e freia. Tem método na loucura e assim continuará, reagindo a qualquer arranjo político patrocinado por forças que tentem tutelá-lo. No plano institucional, tais situações não se resolvem com jeitinho. Como ensina a história – e Collor está aí para mostrar – há momentos em que a agonia só acaba, recuperando-se um mínimo de segurança para o país, quando os homens (e mulheres), tementes ou não a Deus, resolvem cortar o mal pela raiz, com os instrumentos legítimos da democracia e do Estado de Direito.
Helena Chagas
Cobrindo Congresso para O Globo em meio a essa crise, fui um dia, toda animada, perguntar ao então líder do Governo no Senado, Odacyr Soares, sobre a atuação do tal ministério ético: “Minha filha, isso é uma piada. Não tem ministério ético, nem aético, nem aidético! O que existe é presidencialismo, e o presidente é quem manda”. Estava certo ele ao jogar sua ducha de água fria na minha pauta. Nos meses seguintes, os “éticos” do governo Collor, em vez de assumir o comando, foram pedindo demissão ou sendo demitidos, um a um. Quando o impeachment chegou, forçando a renúncia do presidente em 30 de dezembro, já tinham vazado ou sido vazados.
Lembro disso ao ver a forma otimista com que estão sendo recebidos os movimentos de ministros como Paulo Guedes (Economia), Sérgio Moro (Justiça) e Braga Netto (Casa Civil) em apoio o trabalho sensato e correto do colega da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que, contra a vontade de Jair Bolsonaro, continua sustentando a orientação pelo isolamento horizontal nessa fase da pandemia do coronavírus. Em meio ao comportamento desatinado do presidente, que critica abertamente as medidas decretadas por seu governo e pelos governadores, grava pronunciamentos na TV em que sobe e depois baixa o tom e usa o palco do Alvorada e as redes sociais para radicalizar de novo –, a posição do ministro da Saúde e dos colegas, incluindo os militares, é um bálsamo.
Esse sopro de sensatez é um alento. Há quem veja, até, a existência de dois governos paralelos, o dos ministros profissionais e o do presidente que, com seus filhos e a ala olavista radical, desobedece, sabota o trabalho e dissemina a insegurança na população. Rezemos para que Deus conserve o “ministério sensato” de Bolsonaro até porque, do jeito que as coisas estão, só Deus.
Mas o problema é que o presidente da República continua a se chamar Jair Messias Bolsonaro, eleito diretamente em outubro de 2018, empossado em janeiro de 2019 e detentor de todas as prerrogativas que lhe garante a Constituição. Nomear e demitir, vetar ou não vetar, autorizar gasto ou não autorizar, pedir decretação de Estado de Sítio ao Congresso, ser o comandante chefe das Forças Armadas, etc. Ilusão imaginar que um punhado de ministros, por mais bem intencionado e articulado politicamente que seja, vá liderar e levar sozinho o país nessa difícil travessia.
Jair Bolsonaro, que assim como o doido que não rasga dinheiro, não comete suicídio político, vai e vem, estica e solta a corda, acelera e freia. Tem método na loucura e assim continuará, reagindo a qualquer arranjo político patrocinado por forças que tentem tutelá-lo. No plano institucional, tais situações não se resolvem com jeitinho. Como ensina a história – e Collor está aí para mostrar – há momentos em que a agonia só acaba, recuperando-se um mínimo de segurança para o país, quando os homens (e mulheres), tementes ou não a Deus, resolvem cortar o mal pela raiz, com os instrumentos legítimos da democracia e do Estado de Direito.
Helena Chagas
Afastai-vos do mal
Tudo o que sustento é que nesta terra existem pestilências e existem vítimas, e que cabe a nós, dentro do possível, não juntar forças com as pestilênciasAlbert Camus, "A peste"
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