O que fez Jair Bolsonaro mudar de opinião? E logo ele que sempre pregou: “Bandido bom é bandido morto”?
O país estava acostumado a ver seu presidente sair em defesa de policial que matasse bandido.
Agora, pela primeira vez, vê-se Bolsonaro preocupado com um bandido que pode ter sido executado pela polícia baiana.
O Natal mudou ou foi Bolsonaro? Estamos diante do que tantos esperavam – a normalização do antes tosco capitão?
Devagar com o andor. Bolsonaro não mudou um tantinho assim. E se mudou foi para pior.
Onde já se viu um presidente da República agredir uma jornalista com grosseiras insinuações sexuais?
Donal Trump, o ídolo de Bolsonaro, foi gravado dizendo baixarias sobre as mulheres e seu órgão genital.
Mas Trump não sabia que fora gravado. A gravação era antiga. Ele não seria louco de dizer o que disse diante de câmeras de TV.
O aprendiz superou o mestre. Achou que com o ataque à jornalista distrairia a atenção do público do caso do miliciano.
Milícia, miliciano, Marielle Franco, Queiroz e rachadinhas são fantasmas que assombram Bolsonaro e seus filhos.
O miliciano Adriano da Nóbrega, morto a tiros ou executado na Bahia, já foi defendido por Bolsonaro em discurso na Câmara.
Na época, era suspeito de assassinato. Isso não impediu Bolsonaro de tratá-lo como um herói.
Dois anos depois, Bolsonaro compareceu ao julgamento de Nóbrega e auxiliou com conselhos seus advogados de defesa.
Partiu de Bolsonaro a orientação para que seu filho Flávio, então deputado estadual, homenageasse Nóbrega duas vezes.
A primeira, por “relevantes serviços prestados” à Polícia Militar do Rio de Janeiro. Os serviços jamais foram nominados.
Em 2005, preso e acusado de homicídio, Nóbrega foi condecorado com a “Medalha Tiradentes”, a mais alta honraria da Assembleia.
Nóbrega já era um dos líderes do Escritório do Crime quando Flávio empregou no seu gabinete a mãe e a irmã dele.
Mais tarde, para engordar a rachadinha de Queiroz e Flávio, as duas devolveram 203 mil reais do dinheiro que haviam ganhado.
Milicianos e os Bolsonaro sempre se deram bem. Renanzinho, o Zero 4, namorou uma filha de Ronni Lessa. Que vem a ser…
Lessa foi o miliciano, vizinho de Bolsonaro no condomínio Vivendas da Barra, que matou a vereadora Marielle Franco.
Bolsonaro é réu no Supremo Tribunal Federal por apologia ao estupro. O processo foi suspenso porque ele se elegeu.
Nada lhe causa mais horror do que a possibilidade de ser apontado como cúmplice de matadores de aluguel.
Seus filhos padecem do mesmo horror. Acusá-los por tomarem parte dos salários de funcionários, não lhes mete tanto medo.
Pegaram carona no combate à corrupção por mero oportunismo político. O assunto já lhes rendeu o que tinha de render.
O maior inimigo da família é ela mesma. Hoje, os Bolsonaro só perderiam para os Bolsonaro. O pai parece se esforçar para isso.
Ricardo Noblat
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020
A presidência desonrada
O espetáculo de horror se repete toda manhã. Bolsonaro chega com seus seguranças e sua claque, ofende alguém ou alguma instituição, ataca e debocha dos jornalistas, faz gestos obscenos, manda os repórteres calarem a boca. Diariamente, ele exibe seu mandonismo primitivo. A qualquer momento do dia, em edição extraordinária, pode ser retomado o show de ofensas que é a comunicação presidencial. A lista dos alvos do presidente é imensa: os governadores, os portadores de HIV, os indígenas, os ambientalistas, a primeira-dama da França, os estudantes, Paulo Freire. Jornalistas são uma “raça em extinção”, governadores do Nordeste são os “governadores Paraíba”, o repórter na porta do Palácio tinha uma cara de “homossexual terrível”, ONGs incendiaram a Amazônia e ambientalistas devem ser confinados, os índios “estão evoluindo e cada vez mais são seres humanos como nós”, os portadores de HIV custam caro ao país, Paulo Freire não pode descansar em paz, é o “energúmeno”.
O que Bolsonaro fez ontem foi repugnante. Ele repetiu a mentira do depoente da CPI da Fake News na semana passada e que seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro, ecoou da tribuna. Bolsonaro deu sequência à calúnia, usou de deboche obsceno para as gargalhadas da sua claque. O que houve foi um ataque serial à jornalista da “Folha de S.Paulo”, e dele o presidente fez parte. A reportagem que provocou toda a ira do presidente ilumina um fato que precisa ser cada vez mais entendido, a compra de disparos em massa de fakenews através do WhatsApp. O país precisa proteger a democracia do risco de interferências e manipulação do processo de escolha do eleitor através de mentiras difundidas pelas redes sociais. Ou a democracia entende esse submundo ou correrá riscos.
Todo governante pode gostar ou não de uma reportagem, reclamar, dar o seu lado, desmentir, combater a informação que considera errada com mais informação. Mas um governante não pode levar a Presidência ao nível de baixeza que foi levada ontem por Bolsonaro, na difamação sexista contra a portadora da notícia da qual ele não gostou. Essas ofensas a Patrícia Campos Mello atingem a imprensa independente e responsável, que não vai se calar diante dos gritos e das injúrias, mas que o governante tenta intimidar.
Este é apenas um caso. Mas é extremo. Nele, o presidente ultrapassou todos os limites impostos pelo decoro que o cargo exige. Nos últimos dias, ele provocou uma crise federativa ao desafiar os governadores a adotar uma proposta que ele sabe ser impraticável, de zerar todos os impostos sobre combustíveis e, depois, fez um acusação direta ao governador da Bahia. Uma das obrigações do presidente é zelar pela federação, Bolsonaro atormenta a federação. Ele a fragiliza.
Um presidente não é inimputável. Ele pode não responder pelos atos que cometeu antes de assumir. E essa prerrogativa existe para proteger a Presidência em si e não a pessoa que ocupa o cargo. Mas Bolsonaro entendeu que entre os seus poderes está o de dizer o que lhe vier à cabeça, agredindo qualquer brasileiro, grupo social ou instituição. Contra isso existem os freios e contrapesos, para que um Poder alerte o outro dos excessos cometidos. O problema no Brasil neste momento é que o presidente radicalizou, exibe uma agressividade descontrolada, e os outros poderes se encolheram diante desse extremismo.
É assim que as democracias morrem. Elas vão sendo desmoralizadas aos poucos, as instituições vão se omitindo e se cansando das batalhas diárias, as pessoas vão se acostumando aos absurdos. O país passa a achar normal o que é na verdade inconcebível e acaba por aceitar o inaceitável, como um presidente que ofende o cargo que ocupa. E assim nascem as tiranias.
Foda-se quem, cara pálida?
Nós não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo. Foda-seAugusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional, em resposta à pressão do Congresso para derrubar os vetos do presidente, a quem orientou “convocar o povo às ruas”
Bolsonaro faz do ódio e do jogo sujo ferramentas do poder
É inútil tratar os ataques do bolsonarismo e de suas hordas digitais como desvios impulsivos ou acidentais. O homem que ocupa o posto mais importante do país prova diariamente que o ódio e o jogo sujo irradiam do topo. São o método definitivo do grupo que está no poder.
O ataque feito aos risos não representa apenas uma degradação da Presidência. A exigência de decoro não é mera frescura. Está inscrita em lei para evitar que os detentores de cargos públicos abusem de suas posições de poder para perseguir críticos e praticar arbítrios.
Bolsonaro já mostrou que não se importa com as consequências desses atos. Construiu sua carreira na base da ofensa e cercou-se de bajuladores que gargalham com cada grosseria. Pouco antes de chegar ao Planalto, ainda foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal depois de dar declarações abertamente racista sobre um grupo de quilombolas.
As preocupações com a moralidade do cargo já estão superadas há tempos —e Bolsonaro ainda insiste em quebrar seus recordes. Nos últimos dias, o presidente da República se dedicou a espalhar hipóteses desvairadas e conspirações para tentar desatar os laços de sua família com um suspeito de chefiar uma milícia.
Não importa se os generais estrelados dão prestígio ao Planalto, se Paulo Guedes faz girar os números do PIB ou se Sergio Moro leva camisetas amarelas às ruas para apoiar o combate à corrupção. Todos são movidos por essa mesma máquina.
Populistas de direita distribuem livros de colorir xenófobos na Alemanha
No evento, que ocorreu na segunda-feira em Krefeld, no oeste da Alemanha, foram distribuídos livros de colorir com desenhos xenófobos. Intitulado Renânia do Norte-Vestfália para Colorir, traz numa de suas páginas, por exemplo, uma imagem com diversos homens em carros com armas e bandeiras da Turquia na mão.
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| "Renânia do Norte-Vestfália para Colorir" tem várias imagens com estereótipos de estrangeiros |
Pelo Twitter, a polícia local afirmou que tem conhecimento sobre o livro de colorir e que já foi apresentada uma queixa contra a bancada estadual da AfD na Renânia do Norte-Vestfália por incitação ao ódio.
Segundo a emissora alemã WDR, a Assembleia Legislativa também está apurando se verbas públicas destinadas aos deputados foram usadas para a produção e impressão do controverso livro.
Diante das críticas, os parlamentares da AfD alegaram que a publicação era uma sátira e que estariam sofrendo um ataque à liberdade de expressão. A bancada populista disse que as imagens são "desenhos satíricos sobre a situação no país" e que a obra foi "inspirada em livros de colorir para adultos".
Os populistas acusaram ainda "extremistas de esquerda" por fotografarem o livro e "querem ver um suposto escândalo". O líder da bancada, Markus Wagner, disse que "ataques à liberdade artística" devem ser respondidos com "mais cópias".
O líder da bancada do Partido Social-Democrata (SPD) na Renânia do Norte-Vestfália, Thomas Kutschay, condenou a publicação. "A AfD publicou um livro de colorir racista. Agora quer incitar até crianças com sua ideologia desumana. Nota sobre reciclagem de resíduos: esse livro pertence à lixeira marrom", escreveu no Twitter. Na Alemanha, o marrom é a cor associada ao nazismo.Deutsche Welle
Coliseu virtual
O fenômeno teve origem nos Estados Unidos, em meados de 2017, quando celebridades acusadas de assédio foram atacadas e desprestigiadas no Twitter, como ocorreu com o cineasta Woody Allen. Nesses casos, o cancelamento tem um aspecto positivo ao promover o debate sobre temas relevantes como o abuso sexual e o preconceito.
Nem Nelson Mandela escapou. O ícone da resistência negra foi cancelado pelos membros do Movimento Brasil Livre (MBL). O grupo tachou o líder político como “terrorista” ao se referir à luta revolucionária dele na África.
A atriz Alessandra Negrini entrou no radar dos “canceladores” nos últimos dias por ter usado uma fantasia de índia no Carnaval. Lideranças indígenas deram uma lição ao dizerem que se deve diferenciar quem se apropria da cultura para diricularizá-la de quem empresta seu corpo a serviço das causas mais urgentes.
Essa estratégia expõe a fragilidade da linha que separa o público e o privado nos tempos atuais.
Além dos alvos famosos citados, pessoas comuns perdem emprego e a liberdade ao serem expostas na rede por se desviarem minimamente de cartilhas ideológicas.
Além disso, cancelar alguém por simples discordância ou deslize retórico é encerrar o debate. É bater o pé e fazer birra. Atitude que não é bem-vinda em uma sociedade democrática.
Os partidos políticos ainda servem para manter a democracia?
Neste momento, o Chile, por exemplo, está sendo um laboratório mundial que pôs em carne viva, com suas grandes manifestações de protesto contra as injustiças sociais, a fragilidade das instituições políticas e especificamente dos partidos. Conforme noticiou este mesmo jornal, os partidos políticos no Chile estão perdendo milhares de filiados, e hoje só um pequeno percentual da população acredita neles como instrumentos para manter viva a democracia. Será que os partidos tradicionais, em vez de serem meras correias de transmissão das necessidades e desejos das pessoas, se transformaram em donos e senhores dos mesmos?
O crescimento, por exemplo, dos movimentos autoritários e de ultradireita no mundo todo não terá a ver com a crise dos partidos tradicionais, incapazes de representarem os novos problemas que surgiram na sociedade? Terá envelhecido a própria estrutura dos partidos, cada vez mais afastados da realidade das pessoas, sobretudo as mais marginalizadas?

No Brasil, é sintomática a crise que sacudiu, por exemplo, o Partido dos Trabalhadores, que deixou de ser um dos mais modernos e vitais da América Latina, com grande base popular, para se ver envolvido numa crise existencial, porque seus dirigentes se apropriaram do partido e até se corromperam, transformando-se em meras empresas e incapazes de dar lugar a uma geração mais jovem. E não só o PT, mas também muitos outros aos quais de nada serviu mudar de nome na tentativa de renová-los. São disfarces inúteis, que pouco servem para deter o grave câncer que os corrói.
Daí os cientistas políticos se perguntarem hoje em dia se os partidos já não terão concluído sua missão e se não estaríamos necessitados de criar novos organismos de representação dos cidadãos, capazes de responder às mudanças planetárias às quais está fadada a humanidade.
Cabe perguntar se é possível que a vida política e suas novas exigências continuem sendo regidas por velhos partidos, hoje fossilizados e burocratizados. De fato, nada no mundo é para sempre e definitivo, e o Homo sapiens precisa abrir horizontes e procurar respostas e soluções aos problemas novos que se apresentam.
Se a democracia em todo o mundo começa a estar em crise, não é só por estarmos renunciando aos valores de liberdade que tínhamos conquistado. Talvez seja, na verdade, que os velhos conceitos de convivência que nos regiam se tornaram insuficientes por não encarnarem os problemas novos que a sociedade confronta.
Os partidos parecem incapazes de dar resposta aos novos e assustadores problemas da neurociência, da neurotecnologia, da revolução planetária das comunicações e da transformação do trabalho, que estão mudando os antigos paradigmas da existência.
E o que criticamos nos partidos serve também para as outras instituições que foram até aqui os pilares firmes das democracias no mundo, como os Parlamentos, os Governos, os Poderes Judiciários e os sindicatos. Parlamentos que já mal representam a nova sociedade que está surgindo. Parlamentos que foram comprados por partidos que deixaram de ser correias de transmissão dos problemas da sociedade e se tornaram máquinas de fazer votos e grupos privilegiados de poder à margem dos gritos de uma sociedade que exige mais.
Os Parlamentos e os Governos foram por sua vez transformados em fábricas de privilégios pessoais, ferindo os cidadãos que lutam para sobreviver. Junto a eles, um Judiciário burocratizado e gigantesco, com seus processos eternos e seletivos e com o Supremo Tribunal Federal que, de fiador indispensável da Constituição, corre o perigo de se transformar em uma instância a mais de deliberação judicial, onde seus magistrados perdem tempo e dinheiro para decidir, por exemplo, se um cidadão que tinha roubado 28 reais, e inclusive os havia devolvido, devia ser condenado ou absolvido, como acaba de acontecer aqui no Brasil.
São sistemas judiciais que deveriam ser ágeis e em sintonia com a consciência popular e que acabam virando máquinas gigantescas de burocracia, afastadas do sentido comum. Instituições judiciais que no parecer dos cidadãos servem mais para proteger os políticos, os ricos e os poderosos.
E os velhos sindicatos? Que sentido fazem num mundo em que o trabalho está sofrendo uma transformação total, em que o problema já não é mais a defesa dos que trabalham, considerados privilegiados, e sim dos desempregados e sem esperança de conseguir trabalho?
Não, não acredito que estejam hoje em crise no mundo as essências da política criativa, ligada estreitamente à evolução da sociedade e de suas ânsias de bem-estar e felicidade. Uma humanidade nova, como a que está surgindo em todo o planeta, necessitaria de respostas e soluções criativas capazes de sentir o coração destas novas exigências que estão nascendo.
Talvez não seja que a humanidade se cansou de viver em democracia e em liberdade, mas sim que, ao perceber que os velhos partidos e as velhas instituições não são capazes de absorver a nova modernidade, se refugiam, como autodefesa, nos velhos sistemas nazifascistas em que acreditam se sentir protegidos. A liberdade, agora e sempre, infunde mais medo do que a segurança e a conservação.
O problema de fundo é que tudo isso que chamamos de política é visto como o planeta de um grupo de pessoas que se apropriaram do governo do mundo, depois de terem perdido seu sangue genuíno, que, assim como os rios e as florestas, foi envenenado. Envenenado pela cobiça de quem se esqueceu de que a política só faz sentido se estiver a serviço das pessoas, com suas necessidades e sua rica diversidade, e não nas mãos de pessoas e grupos que parecem alienígenas que se esqueceram para que foram eleitos.
Tempo demais
Para o mau governante, quatro anos é muito tempoPaulo Marinho, empresário que abrigou em casa o comitê de campanha de Bolsonaro e hoje preside o PSDB fluminense
Por que a América Latina é a 'região mais desigual do planeta'
Em São Paulo, essa lógica também ocorre. Quem mora em Paraisópolis, uma das maiores favelas da cidade, vive em média 10 anos menos do que os moradores do Morumbi, bairro rico ao lado da comunidade, de acordo com o Mapa da Desigualdade, da ONG Rede Nossa São Paulo, que compila dados públicos.
A grande disparidade latino-americana também envolve a cor da pele ou a etnia: em comparação com os brancos, os negros e indígenas têm mais possibilidades de ser pobres e menos de concluírem a escola ou conseguirem um emprego formal.

A América Latina foi apontada como a região do mundo com a maior desigualdade de renda no relatório de desenvolvimento humano de 2019 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), lançado em dezembro.
Os 10% mais ricos da América Latina concentram uma parcela maior da renda do que qualquer outra região (37%), afirmou o relatório. E vice-versa: os 40% mais pobres recebem a menor fatia (13%).
Muitos têm apontado essa desigualdade como uma das explicações para a onda de protestos que varreu recentemente alguns países da América Latina, como Chile, Peru e Bolívia.
Apesar dos avanços econômicos e sociais nos primeiros anos deste século, a América Latina ainda é "a região mais desigual do planeta", alertou a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em várias ocasiões.
A questão, então, é por que esse cenário ainda continua.
A resposta, segundo historiadores, economistas e sociólogos, começa alguns séculos atrás.
"Pode-se dizer que o passado colonial criou as condições para a desigualdade", diz à Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.
Segundo Stiglitz, a exploração dos colonizadores semeou a desigualdade na América Latina, bem como a distribuição desigual de terras nas economias agrárias contribuiu para "a criação de algumas famílias muito ricas e muitas famílias muito pobres".
Em vários países da América Latina, assim como nos Estados Unidos, um grande elemento racial desempenhou um papel em pelo menos uma dimensão da desigualdade", diz o ex-economista-chefe do Banco Mundial e atual professor da Universidade de Columbia, em Nova York.
E isso parece longe de ser apenas uma questão do passado.
Na América Latina, a incidência de pobreza é ainda maior nas áreas rurais, e entre indígenas e negros, afirmou a Cepal em relatório de 2019 sobre o cenário social da região.
De acordo com o documento, embora tenha havido uma leve redução recente, a taxa de pobreza dos indígenas em 2018 foi de 49%, o dobro do registrado para a população não indígena nem negra. E a taxa de extrema pobreza alcançou o triplo (18%).
No México, os indígenas representam aproximadamente 15% da população, e quase três quartos deles vivem na pobreza. Um estudo da organização Oxfam indicou, em agosto, que 43% dos indivíduos que falam um idioma nativo não concluíram o ensino fundamental, e apenas 10% têm trabalho formal ou é empregador.
Existem outros fatores por trás do abismo social na América Latina, que carrega a reputação de região "mais desigual" desde os anos 1980.
Hoje, a região também é uma das mais urbanizadas do mundo. As rápidas migrações da população rural para as cidades, porém, ocorreram no último meio século de maneira desordenada.
Em muitas áreas de expansão das cidades, o Estado não foi eficiente em promover serviços públicos como educação ou saúde.
Um estudo publicado pela revista The Lancet em dezembro descobriu grandes diferenças na expectativa de vida nas cidades da América Latina. E essas lacunas dependem, por exemplo, do bairro onde as pessoas moram: se ele for mais pobre, a tendência é de que seus moradores vivam menos do que os habitantes de regiões mais ricas.Em Santiago, as mulheres mais pobres vivem quase 20 anos a menos que as mais ricas. Na Cidade do México, os homens de bairros mais pobres morrem 11 anos antes que os mais ricos.
Stiglitz, que escreveu vários livros sobre desigualdade, observa "um círculo vicioso" na região.
"Um alto nível de desigualdade econômica cria sistemas políticos que ajudam a perpetuar essa economia", explica. "Então esses sistemas não investem muito em educação, por exemplo."
Ele também afirma que economias baseadas em recursos naturais, como as da América Latina, tendem a ser caracterizadas pela desigualdade. "A riqueza do continente vem da renda associada aos recursos naturais", explica. "E, na sociedade, há uma briga por quem recebe a renda."
No entanto, outros países ricos em recursos naturais, como a Noruega ou a Austrália, escapam dos grandes problemas da desigualdade latino-americana.
A chave nesses casos, dizem os especialistas, é ter instituições que permitam um gerenciamento mais eficiente das receitas para impulsionar o desenvolvimento. E isso também é escasso na América Latina.As evidências mostram que as classes médias latino-americanas pagam mais impostos do que recebem em serviços sociais como educação ou saúde. Em resposta, elas recorrem a provedores privados, o que tende a aumentar a desigualdade, segundo o relatório do PNUD sobre desenvolvimento humano.
"Uma resposta natural seria recolher mais recursos dos mais ricos. Mas esses grupos, embora sejam minoritários, costumam ser um obstáculo à expansão dos serviços universais, usando seu poder econômico e político por meio de mecanismos estruturais e instrumentais", diz o documento.
As políticas tributárias são uma fonte fundamental desses problemas.
Comparados a outros países em desenvolvimento, os sistemas tributários latino-americanos tendem a ter uma parcela maior de impostos indiretos (sobre consumo), que favorecem menos a igualdade do que os impostos diretos (sobre renda ou propriedade).
Assim, impostos e transferências diretas reduzem muito mais o coeficiente de desigualdade nas economias avançadas do que nas economias emergentes e em desenvolvimento, "incluindo países da América Latina com algumas das maiores desigualdades de renda do mundo", alertou no mesmo relatório David Coady, do departamento de assuntos tributários do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Apesar de tudo isso, cerca de 100 milhões de latino-americanos saíram da pobreza entre as décadas de 1990 e 2000, com base em programas sociais e políticas salariais em meio ao boom das commodities.
A desigualdade estrutural nesse período, no entanto, variou muito pouco.
E a disparidade de renda em países como Brasil, México, Colômbia ou Chile ofuscou os recentes avanços no índice de desenvolvimento humano da ONU, que inclui variáveis como expectativa de vida ou qualidade da educação. No ano passado, a Venezuela, Nicarágua e Argentina tiveram recuos, mergulhando os países ainda mais em suas crises políticas e sociais.
Além disso, após o boom econômico, a taxa de pobreza na América Latina aumentou de 28%, em 2014, para 31% no ano passado, segundo dados da Cepal. Do total de pobres que a região "ganhou" nos últimos cinco anos, 26 milhões sofrem com a pobreza extrema, sendo o Brasil a principal fonte desse retrocesso.
Em meio a esse panorama, a inquietação social foi expressa recentemente através de votos contra os governo atuais em todo o subcontinente e, principalmente, com fortes protestos de rua em países como Chile, Colômbia ou Equador.
"Há um protesto generalizado contra aqueles que estão governando", diz Nora Lustig, professora de economia na Universidade de Tulane (EUA) e diretora do Instituto do Compromisso com a Igualdade. "Combina-se o fim da festa para todos com uma situação em que a distribuição de renda começa a piorar novamente."Gerardo Lissardy
O poder da língua solta
Só há uma explicação para a incontinência verbal que assola com frequência membros do governo: a atração pelo desconhecido. Não se dão bem com as palavras, quase sempre não conhecem seu significado, mas vivem às voltas com elas. A falta de intimidade com a linguagem começa pelo presidente, que ultimamente passou a recorrer também aos gestos obscenos, como a banana. Mas sem abrir mão da sórdida infâmia com que, por exemplo, insultou a jornalista Patrícia Campos Mello e os termos impróprios com que xingou o Greenpeace: “Quem é essa porcaria? Isso é um lixo”. No seu acesso de fúria, Bolsonaro não sabe ou finge não saber que “essa porcaria” é uma organização não governamental que atua em 55 países e cuja luta em defesa do meio ambiente é reconhecida e respeitada internacionalmente há quase meio século.
Desta vez, porém, o protagonismo ficou com o “Posto Ipiranga”, o ministro Paulo Guedes, que, ao debochar das empregadas domésticas e chamar os funcionários públicos de “parasitas”, virou boneco nos blocos carnavalescos, meme nas redes sociais e manchete de jornal como Caco Antibes, popular personagem humorístico de Miguel Falabella que se orgulhava de detestar pobre.
Pior: despertou a curiosidade da imprensa para a própria situação de servidor do ministro. Descobriu-se, por exemplo, que, além do salário de R$ 30,9 mil por mês, ele recebe R$ 8 mil em auxílio-moradia e alimentação, sem contar as passagens aéreas pagas pelo governo. Outra revelação é a de que um grupo de funcionários do Ministério da Economia ganhou em 2019 quase R$ 1milhão em gratificações.
A propósito. Ao comentar a redução do espaço da biblioteca da Presidência da República para abrigar a primeira-dama e sua equipe, Ancelmo Gois escreveu: “Bolsonaro e biblioteca é quase um oximoro”. Como o capitão pode achar que se trata de um palavrão e querer usá-lo contra a mãe de algum repórter, um esclarecimento: oximoro é uma figura de linguagem que ocorre quando duas palavras incompatíveis aparecem juntas. É o mesmo que contradição.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2020
Bolsonaro desrespeita a presidência ao repetir calúnia contra jornalista
É repugnante que o presidente desrespeite o cargo público que ocupa e a democracia. Jair Bolsonaro ofendeu uma jornalista ao dar razão a uma calúnia sexista. O objetivo é claro: intimidar a imprensa.
Patrícia é uma excelente jornalista com uma grande currículo. Neste caso, ela ao ser atacada publicar os diálogos com Hans, e o caminho da apuração feita na reportagem sobre a empresa que vendia disparo de fakenews. Essa prática é ilegal e manipula o desejo do eleitor. A matéria contribui para que nas próximas eleições esse tipo de prática possa ser reprimido. Na CPI, Hans caluniou a jornalista ao dizer que ela se insinuou sexualmente para conseguir a matéria. Hans cometeu um crime dentro da Câmara dos Deputados.
A sensação é de repúdio completo. Uma pessoa que comete o crime de calúnia, como fez Hans River do Nascimento, certamente vai responder na Justiça como um cidadão. Mas o filho do presidente, um deputado federal, repetiu a calúnia na Câmara. E agora foi o próprio Jair Bolsonaro quem repetiu a calúnia contra a jornalista Patrícia Campos Mello. Como está no cargo, ele não pode ser processado enquanto estiver no mandato. Essa prerrogativa é dada para proteger a Presidência da República, essa mesma que ele desrespeita ao caluniar a jornalista.
Patrícia é uma excelente jornalista com uma grande currículo. Neste caso, ela ao ser atacada publicar os diálogos com Hans, e o caminho da apuração feita na reportagem sobre a empresa que vendia disparo de fakenews. Essa prática é ilegal e manipula o desejo do eleitor. A matéria contribui para que nas próximas eleições esse tipo de prática possa ser reprimido. Na CPI, Hans caluniou a jornalista ao dizer que ela se insinuou sexualmente para conseguir a matéria. Hans cometeu um crime dentro da Câmara dos Deputados.
Bolsonaro passou de todos os limites. A democracia brasileira não pode aceitar esse tipo de comportamento do presidente da República. Em 48 anos de profissão, já vivi sem a liberdade de imprensa e sem o respeito de autoridades ao papel institucional do jornalismo. É preciso repudiar imediatamente e de forma rigorosa e veemente o que fez hoje o presidente Jair Bolsonaro. O cargo que ocupa lhe dá poderes, mas também traz obrigações, e ele as têm descumprido frequentemente. Aconteceu no conflito sobre a tributação dos estados, em que ele ameaça a Federação. Ocorreu de novo agora, com a quebra de decoro por calúnias sexistas. Todos precisam ter noção da gravidade do que está acontecendo. A perda de respeito pelas instituições é o começo do fim do projeto de uma democracia. Os outros poderes precisam reagir para que o presidente entenda os seus limites.
Nunca um presidente foi tão vulgar com uma mulher. Espere o efeito bumerangue
Os covardes machistas podem fingir que não são covardes machistas, mas em algum momento eles se revelam. E não há momento mais oportuno para os atores públicos do Brasil mostrarem que não o são, longe de serem coniventes com a baixaria empreendida pelo presidente Jair Bolsonaro contra a repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de S.Paulo, na manhã desta terça-feira. Num país em que 52% do eleitorado é feminino, deputados e senadores deveriam ficar alertas. Eles têm a grande oportunidade de mostrar que não vão deixar a vulgaridade assumir o Brasil, rasgando todo e qualquer senso de decência do Estado em relação a uma mulher, deixando que se propague uma mentira orquestrada dentro do Congresso. Deixem de lado o fato de Patrícia ser jornalista. Ela é mulher. Poderia ser uma economista, uma copeira, uma faxineira, uma jogadora de futebol. Ela foi exposta com insinuações sexuais por um presidente, como nunca o Brasil viu. Ele não está na mesa de bar com amigos, está na frente das televisões dizendo que Patrícia queria “dar um furo a qualquer preço”, sugerindo sexo em troca de informação, o que é o mesmo que chamar uma mulher de prostituta. Só uma cabeça pervertida pode se sentir tão à vontade para dizê-lo em alto e bom som.
Nunca na democracia um chefe de Estado havia caído tão baixo apelando à vulgaridade para falsear a realidade. Quiçá no mundo. Nem Donald Trump chegou a tanto. O Congresso tem as provas à mão para admitir que Hans River do Rio Nascimento mentiu na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI). Parte dessas mentiras a insinuação asquerosa de Bolsonaro, pai de uma filha de 9 anos, que Patrícia faltou com a ética para ter uma informação. De qual referência parte Bolsonaro? Todo mundo sabia do que ele era capaz, desde que ele xingou uma repórter em abril de 2014. Mas editou a si próprio para fazer sua campanha e venceu. Legitimamente.
Desde então, empreende uma guerra grosseira, agressiva e mentirosa contra a realidade para esquivar-se de suas próprias capivaras. A morte de Adriano da Nóbrega, que convenientemente morreu nas mãos da polícia da Bahia, governada pelo Partido dos Trabalhadores, foi um presente no colo de Bolsonaro que agora se tornou o maior defensor de presos assassinos, embora repetisse sempre que “direitos humanos era para humanos direitos”, e seja um dos que faz coro ao jargão “bandido bom é bandido morto”. De onde vem essa mudança?
Os homens públicos deste país, empresários e agentes da Justiça vão deixar que o que já se construiu em termos de sociedade vá para o ralo? Em nome de quê? Senhores deputados e senadores, vocês podem ter um papel tremendamente decisivo neste início de 2020. Pelas suas filhas, pelas suas mães, pelas suas eleitoras, pelas suas irmãs. Não desprezem a construção que mulheres têm feito até aqui por um país mais decente e menos violento. A violência das palavras de um chefe de Estado reverbera em todas as esquinas e rincões do Brasil. Já se matam uma mulher a cada duas horas aqui, um estupro acontece a cada 11 minutos. Tenham decência, coragem, de estancar esta sangria desatada que abriu as portas para uma perversidade gratuita. Vocês foram eleitos para que o Brasil fosse um país melhor, mais próspero, mais respeitado, mais ético. Não há melhora onde uma mentira é naturalizada na Casa em que vocês representam cada brasileira. Não há prosperidade num país onde se quer estabelecer o medo como forma de governo. Não há respeito por um país que fecha os olhos e silencia diante dos disparates que estamos assistindo. Isso também é corrupção. Corromper seu papel público em nome do poder.
Bolsonaro se cercou de ministros sem filtro, como Paulo Guedes ou Abraham Weintraub, e nos vemos agora tentando medir quais declarações foram mais ou menos canalhas que outras. O primeiro ano já havia sido execrável e neste 2020 ele dobrou a aposta. Brasil perverso. Estamos perto do dia 8 de março. Isso vai ter impacto. Foi assim que começaram grandes manifestações femininas pelo mundo. O presidente está dando farto material para as campanhas de seus adversários e dos inúmeros inimigos que está fazendo. Sabendo-se que é incorrigível e que está cego pelo poder, vai tropeçar em suas próprias palavras.
Nunca na democracia um chefe de Estado havia caído tão baixo apelando à vulgaridade para falsear a realidade. Quiçá no mundo. Nem Donald Trump chegou a tanto. O Congresso tem as provas à mão para admitir que Hans River do Rio Nascimento mentiu na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI). Parte dessas mentiras a insinuação asquerosa de Bolsonaro, pai de uma filha de 9 anos, que Patrícia faltou com a ética para ter uma informação. De qual referência parte Bolsonaro? Todo mundo sabia do que ele era capaz, desde que ele xingou uma repórter em abril de 2014. Mas editou a si próprio para fazer sua campanha e venceu. Legitimamente.
Desde então, empreende uma guerra grosseira, agressiva e mentirosa contra a realidade para esquivar-se de suas próprias capivaras. A morte de Adriano da Nóbrega, que convenientemente morreu nas mãos da polícia da Bahia, governada pelo Partido dos Trabalhadores, foi um presente no colo de Bolsonaro que agora se tornou o maior defensor de presos assassinos, embora repetisse sempre que “direitos humanos era para humanos direitos”, e seja um dos que faz coro ao jargão “bandido bom é bandido morto”. De onde vem essa mudança?
Os homens públicos deste país, empresários e agentes da Justiça vão deixar que o que já se construiu em termos de sociedade vá para o ralo? Em nome de quê? Senhores deputados e senadores, vocês podem ter um papel tremendamente decisivo neste início de 2020. Pelas suas filhas, pelas suas mães, pelas suas eleitoras, pelas suas irmãs. Não desprezem a construção que mulheres têm feito até aqui por um país mais decente e menos violento. A violência das palavras de um chefe de Estado reverbera em todas as esquinas e rincões do Brasil. Já se matam uma mulher a cada duas horas aqui, um estupro acontece a cada 11 minutos. Tenham decência, coragem, de estancar esta sangria desatada que abriu as portas para uma perversidade gratuita. Vocês foram eleitos para que o Brasil fosse um país melhor, mais próspero, mais respeitado, mais ético. Não há melhora onde uma mentira é naturalizada na Casa em que vocês representam cada brasileira. Não há prosperidade num país onde se quer estabelecer o medo como forma de governo. Não há respeito por um país que fecha os olhos e silencia diante dos disparates que estamos assistindo. Isso também é corrupção. Corromper seu papel público em nome do poder.
Bolsonaro se cercou de ministros sem filtro, como Paulo Guedes ou Abraham Weintraub, e nos vemos agora tentando medir quais declarações foram mais ou menos canalhas que outras. O primeiro ano já havia sido execrável e neste 2020 ele dobrou a aposta. Brasil perverso. Estamos perto do dia 8 de março. Isso vai ter impacto. Foi assim que começaram grandes manifestações femininas pelo mundo. O presidente está dando farto material para as campanhas de seus adversários e dos inúmeros inimigos que está fazendo. Sabendo-se que é incorrigível e que está cego pelo poder, vai tropeçar em suas próprias palavras.
Munição de guerra
A década de 1880 teve início agitado na capital do Império por conta da Revolta do Vintém. A agitação estendeu-se por uns três anos liderada, sobretudo, por pasquins que guerreavam contra a grande imprensa e entre si. O mais agressivo deles foi o “Corsário”, redigido por Apulco de Castro. Em 13 de novembro de 1882, o redator publicou em edição extraordinária os autos de um imaginado conselho de guerra contra Carlos Bernardino de Moura, redator do jornal “A Pátria”. O acusador, isto é, o próprio Apulco, realizou a proeza de lançar 328 acusações contra o réu, na realidade uma saraivada de insultos. Temos também vivido nos últimos anos, desde o impeachment, intensa guerra verbal travada no grande pasquim atual que são as redes sociais. Parece, no entanto, que a munição dos combatentes anda a escassear. A guerra se monotoniza. Ocorreu-me, então, tomar a iniciativa, que creio patriótica, de reabastecer os combatentes com novas armas recorrendo ao arsenal do Corsário. Seguem os novos insultos, tirados dos autos.
“O réu é acusado de ser gatuno, larápio, salteador, sem-vergonha, traste, biltre, safado, ladrão, estelionatário, cara de tacho, sevandija, canalha, bêbado, devasso, bandido, cigano, dantas, trigo loureiro, debochado, besta, lesma, imundo, matéria excrementícia, besta do sexo macho, escória, vergonha, reles, saltimbanco, ignóbil, torpe, bicho, cínico, fresco, gato magro, Cruzeiro, Montoro [monturo?], nojento, rato de latrina, libertino, cão sem dono, sicofanta, porco varado, venal, burro, corrupto, comua, cloaca, José do Patrocínio, cano de esgoto, capadócio, patife, cabral pinheiro, polícia secreta, lazarento, Otaviano Hudson, pústula, sarna, tinha, mula de médico, tocador de pífanos, zebra, cobra, sapo, serpente, sogra, excomungado, onanista, capacho, escarradeira, cabungo, filho de sete pais, veado, azêmola, hiena, Serpa Junior, cáften, batedor de carteira, city improvements, cadela, ilha de Sapucaia, cara de guardanapo, infame, égua, pântano viscoso, atoleiro, podre, deletério, miasmático, peste, esfaimado, sacripanta, mariola, hediondo, repugnante, incestuoso, rua de S. Jorge, biraia, meirinho, monturo, esterquilínio, guano do Peru, sifilítico, vômito, urubu, caixa d’água, caloteiro, pedaço d’asno, ignorante, abutre, fedorento, invejoso, caluniador, mentiroso, vil, Franklin Dória, lama, podridão, escorpião, lagartixa, raia, cação, mono, piolhento, Van-Halle, monarquista, jogador, sujo, porco, horroroso, Calino, Serzedelo, ingrato, mosca morta, Adelino Fontoura, vagabundo, especulador, tagarela, língua de trapos, Fávila Nunes, azeiteiro, Clímaco dos Reis, Município Neutro, Tribuna Portuguesa, ratoneiro, limpa praia, necrotério, ferradura, pirata, hidrófobo, maluco, gira, Traviata, peru de roda, escarro, fúnebre, gato pingado, quilombo, cara de réu, Tinta Roxa, parvo, cisco, cavalgadura, camelo, garoto, moleque, judas, vendido, unhas de fome, idiota, moeda sem cunho, paciente, testa de ferro, filho de mulher solteira, arlequim, casmurro, trampolineiro, bacalhau sem vinagre, traficante, galé, prostituído, charlatão, falsário, mico, megera, piolho, praia do peixe, D. Brás Tizana, Sousa Freitas, Pereira Monte, inepto, salamarreco, borra-botas, bigorrilha, esfola bodes, troca tintas, canhão, pandorga, peralta, lobisomem, ostra, mulher de padre, pau de virar tripas, bosta, mula sem cabeça, pão duro, parati de quiosque, feijoada de frege, ventas de sumaca, sulanca sem peito, vunga, mal assombrado, mendigo, esqueleto, rufião, Russinho, Mané gostoso, figura de gesso, alarve, José do Telhado, Lucas da Feira, assassino, corujão, alcoviteiro, parasita, chorão, Leão XIII, morcego, parteira, ratazana, desbocado, enjeitado, borracho, cemitério, cadáver, prostituta, gajo, caixa d’ossos, cocota, intrigante, bilioso, sátrapa, mundano, horripilante, desdentado, vasilhame, raposa, chinelo velho, espertalhão, vampiro, planista, japonês, bargante, coruja, cascavel, entanha, Iscariote, hipócrita, venenoso, sandeu, animalejo, jumento, escorbútico, odre, jerico, estúpido, tapado, fleimão, escalavrado, roto, esquálido, envenenado, lazarista, jesuíta, pus, santa casa, sexta-feira, magro, pulha, palhaço, fadista, epidemia, sete de setembro, jiboia, jararacuçu, tanajura, afonso vintém, pandilha, ladrão de estrada, malandro, botocudo, pio Enéas, febre amarela, lorpa, madraço, bugio, farsola, poldro, marau, centopeia, lacrau, água suja, suíno, hipopótamo, impingem, parlapatão, laparoto, perverso, petulante, dromedário, pedante, sensual, sem dignidade, burro esporeado, empacador, ridículo, gorgota, vândalo, beldroega, pateta das luminárias, chifre, arrebentado, badameco, muxibento, pelanca, papa-moscas , lambe pratos, onze-letras, lixo, calango, víbora, caninana, burrego, jacaré, paiorra etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc.”
Aos insultos, cidadãos!
José Murilo de Carvalho
“O réu é acusado de ser gatuno, larápio, salteador, sem-vergonha, traste, biltre, safado, ladrão, estelionatário, cara de tacho, sevandija, canalha, bêbado, devasso, bandido, cigano, dantas, trigo loureiro, debochado, besta, lesma, imundo, matéria excrementícia, besta do sexo macho, escória, vergonha, reles, saltimbanco, ignóbil, torpe, bicho, cínico, fresco, gato magro, Cruzeiro, Montoro [monturo?], nojento, rato de latrina, libertino, cão sem dono, sicofanta, porco varado, venal, burro, corrupto, comua, cloaca, José do Patrocínio, cano de esgoto, capadócio, patife, cabral pinheiro, polícia secreta, lazarento, Otaviano Hudson, pústula, sarna, tinha, mula de médico, tocador de pífanos, zebra, cobra, sapo, serpente, sogra, excomungado, onanista, capacho, escarradeira, cabungo, filho de sete pais, veado, azêmola, hiena, Serpa Junior, cáften, batedor de carteira, city improvements, cadela, ilha de Sapucaia, cara de guardanapo, infame, égua, pântano viscoso, atoleiro, podre, deletério, miasmático, peste, esfaimado, sacripanta, mariola, hediondo, repugnante, incestuoso, rua de S. Jorge, biraia, meirinho, monturo, esterquilínio, guano do Peru, sifilítico, vômito, urubu, caixa d’água, caloteiro, pedaço d’asno, ignorante, abutre, fedorento, invejoso, caluniador, mentiroso, vil, Franklin Dória, lama, podridão, escorpião, lagartixa, raia, cação, mono, piolhento, Van-Halle, monarquista, jogador, sujo, porco, horroroso, Calino, Serzedelo, ingrato, mosca morta, Adelino Fontoura, vagabundo, especulador, tagarela, língua de trapos, Fávila Nunes, azeiteiro, Clímaco dos Reis, Município Neutro, Tribuna Portuguesa, ratoneiro, limpa praia, necrotério, ferradura, pirata, hidrófobo, maluco, gira, Traviata, peru de roda, escarro, fúnebre, gato pingado, quilombo, cara de réu, Tinta Roxa, parvo, cisco, cavalgadura, camelo, garoto, moleque, judas, vendido, unhas de fome, idiota, moeda sem cunho, paciente, testa de ferro, filho de mulher solteira, arlequim, casmurro, trampolineiro, bacalhau sem vinagre, traficante, galé, prostituído, charlatão, falsário, mico, megera, piolho, praia do peixe, D. Brás Tizana, Sousa Freitas, Pereira Monte, inepto, salamarreco, borra-botas, bigorrilha, esfola bodes, troca tintas, canhão, pandorga, peralta, lobisomem, ostra, mulher de padre, pau de virar tripas, bosta, mula sem cabeça, pão duro, parati de quiosque, feijoada de frege, ventas de sumaca, sulanca sem peito, vunga, mal assombrado, mendigo, esqueleto, rufião, Russinho, Mané gostoso, figura de gesso, alarve, José do Telhado, Lucas da Feira, assassino, corujão, alcoviteiro, parasita, chorão, Leão XIII, morcego, parteira, ratazana, desbocado, enjeitado, borracho, cemitério, cadáver, prostituta, gajo, caixa d’ossos, cocota, intrigante, bilioso, sátrapa, mundano, horripilante, desdentado, vasilhame, raposa, chinelo velho, espertalhão, vampiro, planista, japonês, bargante, coruja, cascavel, entanha, Iscariote, hipócrita, venenoso, sandeu, animalejo, jumento, escorbútico, odre, jerico, estúpido, tapado, fleimão, escalavrado, roto, esquálido, envenenado, lazarista, jesuíta, pus, santa casa, sexta-feira, magro, pulha, palhaço, fadista, epidemia, sete de setembro, jiboia, jararacuçu, tanajura, afonso vintém, pandilha, ladrão de estrada, malandro, botocudo, pio Enéas, febre amarela, lorpa, madraço, bugio, farsola, poldro, marau, centopeia, lacrau, água suja, suíno, hipopótamo, impingem, parlapatão, laparoto, perverso, petulante, dromedário, pedante, sensual, sem dignidade, burro esporeado, empacador, ridículo, gorgota, vândalo, beldroega, pateta das luminárias, chifre, arrebentado, badameco, muxibento, pelanca, papa-moscas , lambe pratos, onze-letras, lixo, calango, víbora, caninana, burrego, jacaré, paiorra etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc. etc.”
Aos insultos, cidadãos!
José Murilo de Carvalho
Cara da 'nova História'
Poucos se importam com a perspectiva de que as mentiras que toleram sairão dos jornais e entrarão nos livros de históriaGeorge Orwell
Coringa, Parasita e Desemprego
Interessa saber a todo brasileiro, empresas, sindicatos, partidos, Banco Central. Sem o que não se pode avaliar se a política econômica do governo faz bem ou mal ao país. Espera-se que bem.O sucesso da política financeira não se mede apenas por inflação e juros baixos. Quanto mais baixos, melhor.
Vejam a dura crítica social, indignação, mesmo criminosa, do povo, nos filmes “Coringa” e “Parasita”, ao atual sistema financeiro que gera desemprego.
Países adotam juros negativos. Outros querem subir juros e não conseguem. Outros querem baixar – até onde? – e conseguem. O doente econômico ficou sem remédio unívoco e eficaz.
O normal seria comparar o índice de emprego deste mês com o índice de emprego do mês passado, dentro da mesma métrica. Simples assim.
Mas não somente cada instituição tem seu índice. OIT, IBGE, CAGED etc. Como cada índice tem sua métrica. Cada métrica tem conceitos diferentes de emprego e desemprego.

Em nome de buscar a transparência total da realidade do emprego - o que é bom – criaram-se tantos conceitos, preconceitos, distintas realidades econômicas, especificidades, que a confusão é geral. Pura Babel.
Vejam só. Começam conceituando “força de trabalho” como todos os trabalhadores acima de 14 anos. Podem ser do setor privado, do setor público, empregadas domésticas. Com ou sem carteira assinada.
Dividem-se depois em “ocupados” e “desocupados”. Mas nem todos os ocupados estão empregados. Ocupados podem fazer bicos, trabalhar por conta própria; podem ter ou não a carteira assinada; uns estão procurando emprego, outros já desistiram, desesperados.
Tem os desalentados. Existem os empregadores do “bloco do eu sozinho e os empregadores com mais de dois empregados”.
Existem os que estão no setor formal, e os que estão no setor informal, o subemprego, e por aí vamos.
Na ânsia de dar boas notícias, o governo aumenta a confusão. Canta como vitória da política econômica o maior número de ocupados naquele mês, quando decaiu, no mesmo mês, o número de empregados com direitos plenos.
É como um empregado valesse dois terços.
Cheguei mesmo a procurar autoridades do IBGE, doutores de think tanks econômicos, professores de economia de escolas acima de qualquer suspeita. Nada. Não consegui as respostas simples e precisas que procurei. Aumentou-me a confusão.
No máximo, sabem que a produtividade do PIB continua diminuindo. Precisamos de mais horas de suor do trabalhador para fazer o mesmo. Ou menos.
Exemplo? Antes, precisávamos de oito horas de trabalho de um trabalhador para fazer o produto X. Hoje, precisamos de 9 horas para fazer o mesmo produto.
Para entender é preciso um doutorado em economia. E não apenas um título de eleitor.
Não são poucos os que acham que a queda de juros, em vigor há três anos - desde Temer -, não trouxe mais e melhor emprego para nossos trabalhadores e empresas.
A moda econômica é dizer que este é problema global. Ou culpar o UBER e os diversos aplicativos de entrega. Ocupam, mas não empregam. Se chegarmos assim em 2022, vai ter problema. Ou mesmo antes.
Quando anunciam que a taxa Selic está em 4.5, são precisos e concordes. Quando dizem que o Banco X lucrou vinte bilhões no semestre, também. Mas com o número de empregados e desempregados com plenos direitos, não.
Às vezes fico pensando que os economistas, financistas e estatísticos, em vez de entrarem em acordo, viraram advogados e juízes.
Se continuarem assim, vão todos acabar no Supremo. Onde, às vezes, a vítima, o Brasil, vira o culpado, o Brasil.
O elefante cor-de-rosa

Pois é precisamente isso que está a acontecer com a extrema-direita em Portugal. Quanto mais nos esforçamos por não pensar nela, mais ela nos aparece em força e com a subtileza de um elefante numa loja de porcelanas. Dizem-nos que falar sobre o assunto é dar-lhe o protagonismo e o palco de que os seus representantes necessitam para crescer. Que ignorar é recusar o jogo da polémica que faz com que ganhem espaço nos média. Que bater de frente é dar azo à sua crescente vitimização. Que tomar medidas é dar argumentos para que forças antidemocráticas levantem a bandeira da liberdade de expressão. Nada mais ilusório.
Ignorar os discursos de ódio, não rebater a demagogia populista, não tomar posição firme em momentos simbólicos e fulcrais para a demarcação de fronteiras entre as forças democráticas e as que querem destruir a democracia, é ficar do lado errado da história, é ser conivente, é facilitar. Porque, nos últimos anos, com a crise e as respostas austeritárias, com as mudanças sociais e o acentuar das desigualdades, com a revelação de vários casos de corrupção e a lentidão da Justiça, com a atomização crescente e a delapidação do Estado social, muito espaço foi aberto para que, do desamparo, se criassem as condições ideais para os messias do populismo terem a cama feita. Deitarem-se nela ou não, é uma questão de tempo ou de luta (porque é preciso combatê-los).
Se dúvidas houvesse, com os acontecimentos recentes ficámos esclarecidos. Há muito racismo em Portugal. Das caixas de comentários a agentes das forças policiais. De um deputado da República à forma como muitos meios de comunicação têm amplificado ou legitimado os seus discursos. Sendo cada vez mais claro que há uma significativa parcela da população que considera, por exemplo, que uma pessoa negra, cidadã portuguesa, não pode criticar publicamente as instituições do País, ou falar do nosso passado colonial, ou mesmo sobre racismo, sem ser imediatamente instigada a voltar para a sua terra (dentro da lógica do quem está mal muda-se, agravada por acusações de “ingratidão” e outros julgamentos morais). Ou que prefere procurar justificações ou atenuantes para a violência policial, se a vítima for uma pessoa racializada, ignorando que a polícia é o Estado e que tem de ser a primeira defesa do Estado de direito.
Há quem afirme que o racismo não existe, do alto dos seus privilégios e de dentro dos seus condomínios. Há quem garanta que, na verdade, é provocado, agravado ou legitimado pelas pessoas que o combatem, ou que estas exercem racismo inverso e que, entre os negros, o racismo chega a ser pior ainda. Ignorando que o racismo é uma estrutura histórica, política e cultural, estabelecida há séculos, que hierarquiza o poder e reifica a desigualdade, dando hegemonia ao homem branco e subalternizando e estigmatizando a população negra. Não existindo, enquanto estrutura política e cultural no sentido inverso, e não sendo, infelizmente, uma mera questão interpessoal.
Ora, como quem evita a todo o custo ver o elefante na sala, as forças políticas democráticas andam a usar demasiados eufemismos, panos quentes e outros subterfúgios. Enquanto o elefante cresce e nos vamos tornando cada vez mais insensíveis e habituados à escalada de barbaridades e discursos de ódio. Enquanto o elefante que incomoda muita gente se vai transformando em muitos elefantes para incomodar muito mais. E enquanto nos dizem que se não falarmos sobre ele, o gigante desaparecerá.
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020
Banana de Bolsonaro a jornalistas é síntese e símbolo da concepção que a gorilagem faz
Proporciona uma síntese e um símbolo da concepção que a gorilagem faz não só dos jornalistas, mas de toda a sociedade que eles representam, na intermediação entre os homens e a vida do seu planeta.
No país em que ao ocupante da Presidência é admitido gesticular bananas, quando não insultos verbais, o que um moleque faz ao caluniar uma jornalista admirável por todos os bons motivos, como Patrícia Campos Mello, é identificar-se com o seu presidente.

Note-se, também como próprio deste tempo, outro fator que os identifica. Liga-os até em comprometimento pessoal e de fora da lei. O moleque trabalhou na produção de mensagens em massa, por internet, que fraudaram a disputa eleitoral para favorecer Bolsonaro.
Coisas assim permitem alargar muito o conceito de parasita restringido por Paulo Guedes aos funcionários públicos (sem esquecer, nesse conceito, que os militares também são funcionários públicos).
O próprio Paulo Guedes é, em pessoa, um exemplar notável de parasitismo, na margem do serviço público mas às custas dele. Sua riqueza veio de operar com e para fundos de pensão. De servidores.
Nada mais parasitário do que esse tipo de atividade, que faz fortunas com o que servidores trabalharam para ganhar e dispor no futuro (e nem sempre receber, ao menos na porção correta, como está implícito nos escândalos de desvios e alegadas más aplicações de vários fundos, por dirigentes e seus operadores. Também isso o hoje ministro conhece como especialista do setor).
Paulo Guedes é um exemplar típico do economista de mercado, esses que adulteram o conceito de liberal para sob ele se esconderem. São economistas transgênicos. Condição em que Paulo Guedes constrói com palavras as bananas dirigidas à população.
Com elas e com seus projetos de reforma, tem mostrado o que de fato querem os liberais transgênicos.
Em breve confissão da sua repugnância à ida de empregadas domésticas à Disney, seja por conta própria ou como empregadas mesmo, Guedes desnudou o inimigo da redução de desigualdades —sociais, econômicas, étnicas, educacionais— que há em cada economista de mercado e nos seus seguidores na política e no jornalismo.
'Os livros estão aí para serem lidos, perigoso é não ler, é censurar'
— Num país que tem mais de 100 milhões de analfabetos funcionais, o governo federal, em vez de tomar medidas importantes para atacar este problema, investe em um “macartismo de quinta categoria”, perseguindo autores e temas por motivos ideológicos.
Essa é a visão do imortal Marco Lucchesi, 56 anos, professor de Literatura Comparada da UFRJ e presidente da ABL, que se manifestou com veemência após os recentes episódios de tentativa de censura de livros em Rondônia e em presídios de São Paulo. Ele defende que o governo declare algo semelhante a um “estado de emergência da leitura” no Brasil, um reconhecimento simbólico da calamidade pública na área, para chamar atenção para o problema.
Em entrevista ao GLOBO, Lucchesi destaca ainda a baixa média de livros lidos no país e o pequeno número de bibliotecas públicas, defedendo que elas cheguem também a hospitais e penitenciárias.
Governo federal fez, em 2019, menor investimento em creches e pré-escolas em 10 anos
Qual o tamanho do problema da leitura no Brasil?
Existe uma crise impressionante. São mais de 100 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, com um grande prejuízo em sua capacidade de leitura propriamente dita. Mas você tem outros números que impressionam: segundo o último Censo do IBGE (2010), 44% da população não praticam a leitura. E temos uma média por pessoa de apenas dois livros lidos anualmente, já contando com os didáticos. Enquanto isso, na França, a média são dez livros. Temos pouco mais de seis mil bibliotecas no Brasil. Na Rússia são 40 mil. Nos EUA, 116 mil.
Também há uma zona escura de outras possibilidades que não são muito percebidas. Por exemplo, a maioria dos hospitais não tem bibliotecas. E não é só livro para quem está doente, é para o acompanhante, para o médico, para o enfermeiro. Isso é muito comum em outros países. Outra coisa pouco vista no Brasil é o número de bibliotecas em presídios. São raras as que existem.
Por que o senhor diz que o Brasil deveria declarar estado de emergência na leitura?
É uma maneira de considerar, de forma intensa, embora não totalmente prática, que realmente há uma tragédia nos níveis de leitura, no acesso e na quantidade de bibliotecas no Brasil. É uma maneira de a sociedade compreender com maior rapidez e intensidade que estamos abaixo de padrões de leitura minimamente razoáveis.
Quais os prejuízos desses baixos índices de leitura?
Os maiores possíveis. Com mais leitura, você vai tanto melhorar a capacidade técnica quanto terá uma sensibilidade mais avançada. Consegue aprofundar a sua compreensão do mundo com capacidade de articulação e pensamento cristalino.
O Brasil já teve campanha de incentivo à leitura eficiente?
Houve vários projetos importantes. E não está atrelada à ideologia — a não ser essas loucuras recentes, de querer censurar livros, que é uma coisa assombrosa, mas excepcional nas duas últimas décadas. O problema é a imaturidade da política de Estado no Brasil. Parece que você tem, obrigatoriamente, que mudar algo, desfazer e recriar. O acesso ao livro é um direito da plena cidadania. Dá espessura cidadã e republicana ao país.
Existe alguma campanha de fomento à leitura que o Brasil poderia mirar?
Houve programas interessantes, como um na França, em que o ministro da Cultura fez a campanha “O furor de ler”. Eram mensagens intensas que propagavam a ideia da leitura. Não adianta pegar um grande artista e fazer com que ele diga que está lendo, quando não está. Isso foi feito aqui. O artista nem estava com o livro na mão.
Como deve ser um programa ideal para o incentivo da leitura?
Um trabalho lento, mas que, ao mesmo tempo, demanda urgência. Tem que haver a construção de um processo intenso e precisa ter a escola como um meio praticamente central. Quando a gente fala de biblioteca pública ou na escola, não está contando livro didático. A preocupação com o Enem, que é sim legítima, precisa ser transformada.
O que senhor acha do Conta Para Mim, programa criado pelo governo federal no ano passado para incentivar os pais a lerem para os filhos?
É uma ideia importantíssima. O primeiro livro que nós aprendemos é sonoro, uma canção de ninar. Leitores de poesia, em geral, foram os que receberam essas canções. Mas, infelizmente, é rara essa realidade nas famílias, porque as pessoas trabalham por muitas horas, principalmente nas grandes cidades. E a escola acaba tendo papel de protagonismo imenso nesse processo. Ou nós partimos das escolas, ou vamos perder essa guerra.
Mais contagioso é o medo
A esta altura, praticamente todo o mundo já ouviu falar do coronavírus. Mesmo que o germe não tenha chegado ao seu país ou à sua imaginação, já se tornou uma espécie de tela em branco na qual qualquer coisa pode ser projetada, desde nossos mais profundos temores até preconceitos e estereótipos sobre o Oriente. Parece como se tudo que estava reprimido voltasse com um vírus que já está modelando a imaginação popular –e até apocalíptica– do ano 2020.
Mas precisamente quando somos bombardeados por imagens distópicas de cidades, aeroportos e navios de cruzeiro em quarentena, e o pânico e a paranoia se espalham rapidamente, é quando precisamos parar e refletir. O surto de um vírus costuma ser o melhor indicador universal do funcionamento de nossas sociedades. Se os sonhos são, nas palavras de Freud, o “caminho real para o inconsciente”, um fenômeno global como o surgimento de um patógeno é o caminho real para o inconsciente mundial.
Em vista da fantasia popular sobre o coronavírus, vale a pena fazer uma releitura crítica de Morte em Veneza, romance de Thomas Mann publicado originalmente em 1912, em que uma misteriosa doença contagiosa (que mais tarde se revela que é o cólera) se propaga pelo “paraíso” turístico. Aschenback, protagonista da história, descobre no final que esse “horror à diversidade” (a caracterização preconceituosa em relação ao Oriente é feita pelo próprio Thomas Mann) surgiu na Índia e se espalhou pela Ásia até chegar ao Mediterrâneo e a Veneza. O romance também insinua que nas Ilhas de Brioni (atualmente parte da Croácia) e em Veneza os infectados estavam sendo submetidos a quarentena.
De fato, Veneza foi uma das primeiras cidades a aperfeiçoar um sistema de isolamento marítimo e a Itália tem uma longa história de confinamentos sanitários, usados em princípio para isolar pessoas que poderiam ser portadoras de uma doença, mas que logo se tornaram um sistema para impedir que estrangeiros, grupos minoritários, judeus e árabes entrassem nas cidades. O que começou por medo da doença acabou não apenas estigmatizando, mas também segregando determinados grupos de pessoas. Por exemplo, em 1836 Nápoles pôs fim a livre circulação de prostitutas e mendigos, que eram automaticamente considerados portadores de infecções.
Atualmente salta à vista que é a vez dos chineses. Não surpreende que o vice-presidente do Senado italiano, Ignazio La Russa, membro do partido neofascista dos Irmãos da Itália, tenha recomendado recentemente o uso da saudação fascista como remédio “antiviral e antimicrobiano” para evitar o contágio pelo coronavírus. Afinal, o que é fascismo senão tratar os outros como se fossem vírus contagiosos? O medo se parece com um vírus: é invisível, mas quando colocado ao microscópio pode aumentar milhões de vezes de tamanho. Foi o que aconteceu em um trem na Itália, como explicou o professor do Imperial College de Londres, Tommaso Valletti. Quando um adolescente chinês entrou no trem, uma mulher comentou em voz alta: “Pronto. Seremos todos infectados”, ao que o rapaz respondeu em perfeito italiano com sotaque romano: “Senhora, em toda a minha vida só vi a China no Google Maps”.
Ao mesmo tempo, na França, um jornal local publicou a seguinte manchete: “Alerte jaune” (alerta amarelo), seguido de “Le péril jaune?” (O perigo amarelo?), e mostrava a imagem de uma mulher chinesa com uma máscara. O jornal pediu desculpas rapidamente, mas, como na época de Morte em Veneza, os “horrores da diversidade” já haviam começado a ocupar a imaginação europeia. Em resposta, cidadãos franceses de origem asiática correram para publicar nas redes sociais fotos deles mesmos segurando cartazes nos quais se pode ler “Je ne suis pas un vírus” (eu não sou um vírus).
Evidentemente, o continente mais sombrio não é a China, a Índia ou o Congo, como nas fantasias estereotipadas sobre o Oriente agora reativadas, mas o inconsciente humano. Até agora as reações ao coronavírus revelaram menos sobre o microrganismo do que sobre nós mesmos.
Um vírus nunca é apenas um agente biológico que se reproduz nas células vivas de um organismo, mas invariavelmente faz parte de uma ideologia que constrói o “outro” como doença. Pensemos, por exemplo, na recente série Cordon (2014), coproduzida pela Bélgica e pela Holanda. A história começa com a chegada de um emigrante afegão ilegal à cidade belga de Antuérpia dentro de um contêiner. Logo depois acontece um surto de um vírus mortal. Embora mais tarde se descubra que o Governo fora o responsável, os “horrores da diversidade” voltam a estar presentes. Lembremos também da versão norte-americana da série, intitulada Containment, de 2015. Nela um sírio é portador de um vírus altamente contagioso. É sempre o “outro”: primeiro afegão, depois sírio e agora chinês. A ficção científica está se tornando real: não demorou muito para o célebre estrategista populista Steve Bannon perceber que o coronavírus é uma ferramenta perfeita para se intrometer de novo nas eleições norte-americanas, chamando-o de “Chernobyl biológico”.
No entanto, seria um erro acreditar que a extrema direita europeia e norte-americana são as únicas que estão usando o coronavírus para “provar” que tinham razão ao insistir em fechar as fronteiras e implantar um estado de exceção permanente. Inclusive os veículos de comunicação convencionais do Ocidente são cúmplices em tratar a “China como uma doença”, como ilustram as recentes capas da Der Spiegel e da The Economist. A revista alemã apresentou uma pessoa vestida com um macacão de proteção vermelho e uma máscara de gás, com um iphone na mão e a manchete Made in China. Por sua vez, a manchete da The Economist perguntava: “Até que ponto vai piorar?”, ao lado de uma imagem da Terra com uma máscara com a bandeira chinesa. Se a doença, como Susan Sontag nos ensinou em seu transcendental ensaio A Doença como Metáfora (1978), deve ser entendida como uma metáfora a ser desconstruída, do que são metáforas essas capas?
Embora tenha se originado na China, o coronavírus, em qualquer caso, não é made in China, mas produto do capitalismo global. Do mesmo modo que, sob os regimes coloniais, as epidemias se espalhavam pelas redes de estradas, ferrovias e canais dos impérios mundiais, o vírus mortal não está se espalhando por culpa da China (não é “chinês”), mas porque nosso mundo nunca esteve tão conectado como hoje e porque tudo pode ser interrompido, inclusive a livre circulação de pessoas, com exceção da circulação do capital.
Como os fascistas já estão pedindo o fechamento de fronteiras e o capitalismo global pode parar tudo menos a livre circulação de mercadorias, temos de tomar consciência de que a pandemia do medo é mais perigosa do que o próprio vírus, porque já está sendo usada por aqueles que não estão dispostos a desperdiçar uma boa oportunidade, mesmo que seja um agente patogênico.
Srećko Horvat
Mas precisamente quando somos bombardeados por imagens distópicas de cidades, aeroportos e navios de cruzeiro em quarentena, e o pânico e a paranoia se espalham rapidamente, é quando precisamos parar e refletir. O surto de um vírus costuma ser o melhor indicador universal do funcionamento de nossas sociedades. Se os sonhos são, nas palavras de Freud, o “caminho real para o inconsciente”, um fenômeno global como o surgimento de um patógeno é o caminho real para o inconsciente mundial.
Em vista da fantasia popular sobre o coronavírus, vale a pena fazer uma releitura crítica de Morte em Veneza, romance de Thomas Mann publicado originalmente em 1912, em que uma misteriosa doença contagiosa (que mais tarde se revela que é o cólera) se propaga pelo “paraíso” turístico. Aschenback, protagonista da história, descobre no final que esse “horror à diversidade” (a caracterização preconceituosa em relação ao Oriente é feita pelo próprio Thomas Mann) surgiu na Índia e se espalhou pela Ásia até chegar ao Mediterrâneo e a Veneza. O romance também insinua que nas Ilhas de Brioni (atualmente parte da Croácia) e em Veneza os infectados estavam sendo submetidos a quarentena.
De fato, Veneza foi uma das primeiras cidades a aperfeiçoar um sistema de isolamento marítimo e a Itália tem uma longa história de confinamentos sanitários, usados em princípio para isolar pessoas que poderiam ser portadoras de uma doença, mas que logo se tornaram um sistema para impedir que estrangeiros, grupos minoritários, judeus e árabes entrassem nas cidades. O que começou por medo da doença acabou não apenas estigmatizando, mas também segregando determinados grupos de pessoas. Por exemplo, em 1836 Nápoles pôs fim a livre circulação de prostitutas e mendigos, que eram automaticamente considerados portadores de infecções.
Atualmente salta à vista que é a vez dos chineses. Não surpreende que o vice-presidente do Senado italiano, Ignazio La Russa, membro do partido neofascista dos Irmãos da Itália, tenha recomendado recentemente o uso da saudação fascista como remédio “antiviral e antimicrobiano” para evitar o contágio pelo coronavírus. Afinal, o que é fascismo senão tratar os outros como se fossem vírus contagiosos? O medo se parece com um vírus: é invisível, mas quando colocado ao microscópio pode aumentar milhões de vezes de tamanho. Foi o que aconteceu em um trem na Itália, como explicou o professor do Imperial College de Londres, Tommaso Valletti. Quando um adolescente chinês entrou no trem, uma mulher comentou em voz alta: “Pronto. Seremos todos infectados”, ao que o rapaz respondeu em perfeito italiano com sotaque romano: “Senhora, em toda a minha vida só vi a China no Google Maps”.
Ao mesmo tempo, na França, um jornal local publicou a seguinte manchete: “Alerte jaune” (alerta amarelo), seguido de “Le péril jaune?” (O perigo amarelo?), e mostrava a imagem de uma mulher chinesa com uma máscara. O jornal pediu desculpas rapidamente, mas, como na época de Morte em Veneza, os “horrores da diversidade” já haviam começado a ocupar a imaginação europeia. Em resposta, cidadãos franceses de origem asiática correram para publicar nas redes sociais fotos deles mesmos segurando cartazes nos quais se pode ler “Je ne suis pas un vírus” (eu não sou um vírus).
Evidentemente, o continente mais sombrio não é a China, a Índia ou o Congo, como nas fantasias estereotipadas sobre o Oriente agora reativadas, mas o inconsciente humano. Até agora as reações ao coronavírus revelaram menos sobre o microrganismo do que sobre nós mesmos.
Um vírus nunca é apenas um agente biológico que se reproduz nas células vivas de um organismo, mas invariavelmente faz parte de uma ideologia que constrói o “outro” como doença. Pensemos, por exemplo, na recente série Cordon (2014), coproduzida pela Bélgica e pela Holanda. A história começa com a chegada de um emigrante afegão ilegal à cidade belga de Antuérpia dentro de um contêiner. Logo depois acontece um surto de um vírus mortal. Embora mais tarde se descubra que o Governo fora o responsável, os “horrores da diversidade” voltam a estar presentes. Lembremos também da versão norte-americana da série, intitulada Containment, de 2015. Nela um sírio é portador de um vírus altamente contagioso. É sempre o “outro”: primeiro afegão, depois sírio e agora chinês. A ficção científica está se tornando real: não demorou muito para o célebre estrategista populista Steve Bannon perceber que o coronavírus é uma ferramenta perfeita para se intrometer de novo nas eleições norte-americanas, chamando-o de “Chernobyl biológico”.
No entanto, seria um erro acreditar que a extrema direita europeia e norte-americana são as únicas que estão usando o coronavírus para “provar” que tinham razão ao insistir em fechar as fronteiras e implantar um estado de exceção permanente. Inclusive os veículos de comunicação convencionais do Ocidente são cúmplices em tratar a “China como uma doença”, como ilustram as recentes capas da Der Spiegel e da The Economist. A revista alemã apresentou uma pessoa vestida com um macacão de proteção vermelho e uma máscara de gás, com um iphone na mão e a manchete Made in China. Por sua vez, a manchete da The Economist perguntava: “Até que ponto vai piorar?”, ao lado de uma imagem da Terra com uma máscara com a bandeira chinesa. Se a doença, como Susan Sontag nos ensinou em seu transcendental ensaio A Doença como Metáfora (1978), deve ser entendida como uma metáfora a ser desconstruída, do que são metáforas essas capas?
Embora tenha se originado na China, o coronavírus, em qualquer caso, não é made in China, mas produto do capitalismo global. Do mesmo modo que, sob os regimes coloniais, as epidemias se espalhavam pelas redes de estradas, ferrovias e canais dos impérios mundiais, o vírus mortal não está se espalhando por culpa da China (não é “chinês”), mas porque nosso mundo nunca esteve tão conectado como hoje e porque tudo pode ser interrompido, inclusive a livre circulação de pessoas, com exceção da circulação do capital.
Como os fascistas já estão pedindo o fechamento de fronteiras e o capitalismo global pode parar tudo menos a livre circulação de mercadorias, temos de tomar consciência de que a pandemia do medo é mais perigosa do que o próprio vírus, porque já está sendo usada por aqueles que não estão dispostos a desperdiçar uma boa oportunidade, mesmo que seja um agente patogênico.
Srećko Horvat
Bolsonaro, mais um gesto obsceno e o desejo de mandar na imprensa
Em sua escalada de agressões à imprensa, sentindo-se autorizado por seus seguidores nas redes sociais, o presidente Jair Bolsonaro, ontem, pela manhã, à saída do Palácio da Alvorado, deu mais uma “banana” para os jornalistas que tentavam entrevistá-lo. Foi a segunda em uma semana.
À noite, de volta ao palácio, avisado de que a TV Globo divulgaria a resposta do governador Rui Costa (PT), da Bahia, ao ataque que Bolsonaro lhe fizera à tarde, o presidente divulgou uma nota e advertiu em seguida: “Ou a TV Globo lê as duas notas ou não lê nenhuma, tá ok.”
De manhã, Bolsonaro irritou-se com perguntas sobre a redução do espaço da biblioteca do Palácio do Planalto para a construção, ali, de um gabinete destinado à sua mulher, Michelle. À tarde, no Rio, com perguntas sobre as ligações de sua família com o miliciano Adriano da Nóbrega.
Na ocasião, alegou que Nóbrega, morto na Bahia na semana passada, era “um herói” da Polícia Militar do Rio quando seu filho Flávio, então deputado estadual, o homenageou duas vezes. Disse que, à época, Nóbrega ainda não fora condenado com sentença transitado em julgado.
Foi quando aproveitou para tentar sair das cordas e desviar o foco das perguntas. Disparou então: “Quem é responsável pela morte do capitão Adriano? A PM da Bahia, do PT. Precisa falar mais alguma coisa?” Da Bahia, o governador replicou horas depois: "O Governo do Estado da Bahia não mantém laços de amizade nem presta homenagens a bandidos nem a procurados pela Justiça."
À noite, de volta ao palácio, avisado de que a TV Globo divulgaria a resposta do governador Rui Costa (PT), da Bahia, ao ataque que Bolsonaro lhe fizera à tarde, o presidente divulgou uma nota e advertiu em seguida: “Ou a TV Globo lê as duas notas ou não lê nenhuma, tá ok.”
De manhã, Bolsonaro irritou-se com perguntas sobre a redução do espaço da biblioteca do Palácio do Planalto para a construção, ali, de um gabinete destinado à sua mulher, Michelle. À tarde, no Rio, com perguntas sobre as ligações de sua família com o miliciano Adriano da Nóbrega.
Na ocasião, alegou que Nóbrega, morto na Bahia na semana passada, era “um herói” da Polícia Militar do Rio quando seu filho Flávio, então deputado estadual, o homenageou duas vezes. Disse que, à época, Nóbrega ainda não fora condenado com sentença transitado em julgado.
Foi quando aproveitou para tentar sair das cordas e desviar o foco das perguntas. Disparou então: “Quem é responsável pela morte do capitão Adriano? A PM da Bahia, do PT. Precisa falar mais alguma coisa?” Da Bahia, o governador replicou horas depois: "O Governo do Estado da Bahia não mantém laços de amizade nem presta homenagens a bandidos nem a procurados pela Justiça."
Mas se estes atiram contra pais e mães de família que representam a sociedade, os mesmos têm o direito de salvar suas próprias vidas, mesmo que os marginais mantenham laços de amizade com a Presidência.
Daí a longa nota expedida por Bolsonaro à noite em resposta ao governador. Parte da dele e do que escrevera Costa no Twitter foi lida no Jornal Nacional. Curiosa a posição de Bolsonaro quanto a Nóbrega se comparada à sua em relação ao ex-presidente Lula.
Nóbrega, segundo ele, quando homenageado por Flávio, não fora condenado com sentença transitado em julgado. Quer dizer: em definitivo, esgotados todos os recursos. Lula também não foi até hoje. Diz a Constituição brasileira no seu artigo 5º, LVII:“Ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória".
Mas Bolsonaro, em suas declarações sobre Nóbrega, evita criticá-lo diretamente. O oposto do tratamento que dispensa a Lula. O ex-presidente foi acusado de roubar e de deixar que roubassem. Nóbrega, de ser um matador de aluguel e líder de milícia.
Quanto à repetição do gesto obsceno dirigido a jornalistas, Bolsonaro afronta o decoro a que se obriga quem exerce um cargo público – no seu caso, o mais importante cargo público do país.
Mas Bolsonaro, em suas declarações sobre Nóbrega, evita criticá-lo diretamente. O oposto do tratamento que dispensa a Lula. O ex-presidente foi acusado de roubar e de deixar que roubassem. Nóbrega, de ser um matador de aluguel e líder de milícia.
Quanto à repetição do gesto obsceno dirigido a jornalistas, Bolsonaro afronta o decoro a que se obriga quem exerce um cargo público – no seu caso, o mais importante cargo público do país.
domingo, 16 de fevereiro de 2020
Tristeza não tem fim
Os versos acima são da pungente A Felicidade, de Tom Jobim, e me voltaram à mente de forma recorrente nesta semana depois da fala de Paulo Guedes a respeito dos malefícios do real sobrevalorizado.

O ministro da Economia atravessou o samba e acabou por contribuir com uma fantasia candidata a hit do carnaval de 2020: além de reis, piratas e jardineiras, vem aí uma legião de empregadas com malas etiquetadas para a Disney.
Porque a tal “festa” das domésticas no exterior só é imaginável em blocos e carros alegóricos, uma vez que, ainda que o real estivesse na base do “um para um” com o dólar, não sobra dinheiro para a grande maioria dos empregados domésticos viajar.
Então, por que raios o homem mais importante do governo, aquele em quem o “deus mercado” aposta todas as fichas, a ponto de tapar o nariz para os despautérios do presidente e a incompetência gerencial em quase todas as outras áreas, se põe a fazer perorações sem nexo dia sim, outro também?
Talvez Guedes esteja percebendo que a pauta que idealizou para 2020 vai deslizando como a felicidade do pobre, e que a euforia com o “boom” da economia brasileira neste ano 2 da gestão Bolsonaro já passou antes mesmo da Quarta-Feira de Cinzas que anuncia a tristeza sem fim da música de Jobim.
Diante das dificuldades, o ministro viaja na maionese ao tentar fazer o jogo do contente da Pollyana. Sim, existem várias razões de teoria econômica para defender o dólar apreciado sobre o real. E nenhuma delas passa nem perto da fictícia festa das domésticas na Disney. Guedes sabe disso, percebeu por onde estava indo quando já era tarde demais e, em vez de encerrar a fala ali, se pôs a tentar emendá-la.
Não pode ser atribuída só à falta de tato retórico a reiteração de declarações atravessadas do ministro: ele está claramente pressionado e desgostoso com o ritmo dos seus projetos, e não pode culpar quem deveria.
Guedes imaginou que a tal linha de produção de reformas estaria mais azeitada neste ano. Depois de segurar a reforma administrativa, Bolsonaro começou 2020 enaltecendo sua urgência. Para, logo em seguida, engavetá-la de novo. E que aqui ninguém tente culpar sua fala comparando servidores a “parasitas”, outro meme instantâneo pela referência ao grande ganhador do Oscar deste ano. A má vontade com a reforma já havia sido replantada na cabeça do inseguro presidente pelos seus assessores palacianos, com os quais o titular da Economia vem se estranhando não é de hoje.
Sem poder mandar ao Congresso a reforma tributária que gostaria, com a administrativa engavetada, tendo de apagar incêndio de Bolsonaro com os governadores depois do ridículo “desafio” de zerar o ICMS dos combustíveis, tendo sido bucha de canhão em Davos para ouvir as críticas que deveriam ser destinadas ao colega do Meio Ambiente, Ricardo Salles, há de se convir que o Posto Ipiranga está numa fase “tristeza não tem fim”.
O duro é que a conjuntura internacional, com um surto do novo coronavírus cujos alcance e duração não são possíveis de estimar, e o calendário local, com eleições logo ali, não prenunciam que as coisas vão melhorar depois da Quarta-Feira. Dependerá da articulação política, que, por ser naturalmente desconjuntada, precisa da atuação direta de Guedes. Se ele não sair dessa maré braba, e rápido, a euforia da virada de ano terá sido como a felicidade do pobre. Ou das domésticas, que não conseguem viajar nem para Cachoeiro do Itapemirim, quem dirá para a Disney.
Alerta aos 'cristãos'
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