quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

'Quando morre um de nós é o mesmo que morrer um cachorro'

Francisco Firmino Silva, mais conhecido como Chico Catitu, caminha em meio às águas na margem do rio Iriri (Terra do Meio, no Pará) com o mesmo cuidado e respeito com que o faz no rio que é seu berço, o Tapajós. Aos 69 anos, o experiente mateiro da comunidade Montanha e Mangabal avança com passos lentos, mas firmes, enérgicos. Há 18 anos, tornou-se um dos principais nomes entre as lideranças ribeirinhas —ou entre os beiradeiros, como se diz naquela parte da Região Norte—, quando ele passou a fazer o trabalho negligenciado pelo Estado: a demarcação do seu território e a proteção da floresta Amazônica. Sua luta é um dos fatores responsáveis pela criação, em 2013, do Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE) Montanha e Mangabal, e por frear, ao menos por enquanto, o projeto de construção da hidrelétrica São Luiz do Tapajós, a maior do Complexo Hidrelétrico da Bacia do Tapajós —que prevê a construção de sete usinas na região—. A hidrelétrica teve o processo de licenciamento arquivado no Ibama, depois que a Funai aprovou estudo de área que dá base a um processo de demarcação de reserva indígena, mas a Eletrobras ainda pretende inaugurá-la até 2022.

É no território de Catitu, onde, além dos beiradeiros vivem cerca de 15.000 indígenas munduruku, que está sendo gestada a mais acirrada luta socioambiental depois da construção da usina de Belo Monte. “Todo o tempo a gente tem que provar para a Justiça o que é da gente e o que não é”, diz Catitu, com ar cansado, coçando a cabeça grisalha. Ele caminha quase sempre em silêncio, como fazem os munduruku. Foi com esse povo, inimigo histórico das comunidades não-brancas fundadas por serigueiros na região, que Catitu forjou uma aliança para protegerem juntos a floresta em pé e suas terras. Em 2014, guerreiros indígenas e os ribeirinhos, sob o comando de Catitu, conclamaram a autodemarcação da terra indígena Sawré Muybu, depois de sete anos aguardando ação da Fundação Nacional do Índio (Funai).


“Se fosse para lutar cada um de um lado, a gente não teria conseguido barrar a construção dessa barragem [São Luiz do Tapajós]. Os indígenas são muito unidos. Se nós das comunidades tivéssemos nervos e coragem de lutar com eles, a gente ganhava a guerra contra todos os empreendimentos feitos na Amazônia”, afirma Catitu.

Ele era o primeiro a se embrenhar no mato e deixava marcas para que os munduruku soubessem onde abrir a picada. Graças à sua experiência de mateiro e ao GPS manuseado por voluntários —e sem a segurança envolvida em uma operação oficial—, o grupo seguiu as coordenadas exatas do mapa de demarcação feito pela Funai e parado em Brasília. O beiradeiro conhece tanto a floresta, que os munduruku dizem que Catitu é mais indígena que eles. Ante a afirmação, ele sorri satisfeito, deixando à mostra um canino de ouro.
Ameaças

Por iniciativas como essa, garimpeiros, grileiros e madeireiros colocaram a cabeça de Catitu a prêmio. A criação da PAE Montanha e Mangabal impactou diretamente os esquemas de garimpagem e de retirada de madeira e palmito do território. Ele já perdeu as contas de quantas casinhas —emboscadas na floresta— fizeram para ele e seus amigos. A última, que ele saiba, foi há dois anos. Durante o processo de autodemarcação do território Munduruku, grileiros armados prepararam uma armadilha para o beiradeiro. “Mas os indígenas estavam perto de mim e me protegeram”, conta, agradecido.

“Já perdi muitos amigos em emboscada. Toda pessoa que luta pela terra tem sido morta covardemente, não existe punição. Quando morre um de nós, é o mesmo que morrer um cachorro”, lamenta Catitu, que há dois anos vive sob proteção policial. Ao menos em teoria. “Acredito que, para nós que estamos ameaçados, só Deus e Nossa Senhora mesmo. Para sair de casa, logo no começo, a gente pedia proteção policial para mim. Mas quando perguntavam onde eu morava e viam que era longe, diziam que não tinham gasolina. Então eu saía sozinho. Não posso entrar em um buraco para me esconder. Estou há 18 anos nessa luta”.

Beirando os 70 anos, não lhe falta energia. Entre operações na mata e reuniões nas comunidades da região, Catitu é capaz de passar mais de um mês sem dormir em casa. Ele conta que, além das ameaças de morte, os que exploram ilegalmente a floresta os alvejam de outras maneiras. “Eles pelejam de todo jeito contra nós, lideranças. Já recebi duas ofertas para pegar dinheiro e largar minha luta. Até um milhão e meio de reais. Mas de que adianta eu pegar esse dinheiro e acabar com a vida até de criança? Dinheiro acaba, mas a vida das pessoas continua. Criei meus dois filhos no Tapajós tudinho de barriga cheia. Nossa vida, o que a gente tem para deixar para nossas crianças, é o rio, a floresta, para eles se manterem pelo resto da vida deles e para outras gerações”, diz, firme.

Um dos orgulhos do líder ribeirinho é o Protocolo de Consulta que criaram depois da autodemarcação e que determina que o Governo deve consultar todos os habitantes da floresta antes de aprovar qualquer projeto no território. “Hoje ainda tem muitos empreendimentos ameaçando a gente, como a hidrovia que eles querem construir para puxar soja do Mato Grosso para o Tapajós”, conta, referindo-se à Hidrovia do Tapajós-Teles Pires, um projeto do Governo que está sob coordenação da empresa R. Peotta-Progen. Em junho de 2018, durante a apresentação do estudo de viabilidade da hidrovia, um técnico da empresa argumentou que a poluição provocada pelo transporte hidroviário é bem menor do que aquela dos transportes rodoviário e ferroviário, mas reconheceu que o projeto “vai mudar muito a região”.

Há anos a comunidade de Montanha e Mangabal sofre com a expropriação de suas terras por grileiros porque a Justiça brasileira, em diversas ocasiões, reiterou que “não há ocupação humana na região”, uma das maiores batalhas de Catitu. Mas em 2006, uma decisão judicial inédita a favor dos beiradeiros abriu um precedente para todas as comunidades tradicionais da Amazônia. O Ministério Público Federal (MPF) conseguiu comprovar a ocupação da região há 140 anos pelas famílias de ribeirinhos por meio de registros de batizados, casamentos, e outros documentos pessoais, o que impediu que uma madeireira se apropriasse da área e expulsasse a população.

Entre os documentos que embasaram a ação da Procuradoria à ocasião estava O Livro da Vida de Ademael Siqueira dos Anjos, escrito por um seringueiro no início do século XX, que registrava o cotidiano de sua família, como o nascimento e batizado do filho. O doutor em Geografia Humana Mauricio Torres, autor da extensa pesquisa genealógica sobre a comunidade de beiradeiros que embasou a ação do MPF (e amigo de Catitu), narra um trecho do documento, que ele considera um dos relatos mais bonitos sobre a população ribeirinha: "Em uma das passagens, ele escreve o seguinte: ‘Meu filho, Antônio Siqueira, foi atirado por índio (sic), no dia tal, cortando seringa…’”. O indígena em questão era um mundukuru, antepassado do mesmo povo que hoje se aliou com um dos mais corajosos descendentes dos seringueiros do Tapajós, Chico Catitu.

Enchentes, temporais, perdas e sofrimento

Sabemos que o sofrimento é esperado e normal – desde que seja evitado!

O planeta que, até onde sei, não tem ideologia de direita ou de esquerda, mas é tão vivo quanto nós – um dos seus inúmeros filhos – certamente reage ao nosso estilo de vida globalizado, fundado na sua implacável exploração.

A Mãe Terra exibe em terremotos, tempestades, geadas e vendavais, antigamente tidos como “naturais”, as consequências de um impiedoso monopólio. Vale lembrar Lévi-Strauss: “O direito do meio ambiente, de que tanto se fala, é um direito do meio ambiente sobre o homem, não um direito do homem sobre o meio ambiente”.

Não preciso invocar queimadas nem gigantescas enchentes que causam mortes, perdas materiais e muito sofrimento para sentir no coração esses gemidos.

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Uma radical divisão entre o pessoal e o impessoal, entre o humano e o natural, impede de perguntar por que ocorrem mais enchentes aqui do que lá. Os meteorologistas se distinguem dos jornalistas porque não se podem atribuir razões mortais ou ideológicas ao clima, que somente comporta atenções factuais preventivas. Se há (como, infelizmente, é o caso) um tsunami no Japão, uma epidemia na China ou um temporal em Belo Horizonte, ninguém vai buscar sua causa final na vida de um político. Eventos imprevistos, promovedores de imenso sofrimento, são fundamentalmente “matutais” e estão imunes de atribuições morais.

Sistemas políticos e econômicos não seriam culpados por eventos naturais ou coincidências negativas e acidentais, exceto em sociedades dominadas por “misticismo”. Mas essa divisão radical entre os desastres causados por forças naturais e interesses humanos mudou. O aquecimento global, como o problema crítico de um mundo globalizado e pela primeira vez visto de fora para dentro com um todo, produz uma consciência aguda de nossas ações (e relações) com a Terra. Não estaríamos destruindo o planeta por meio de um sistema fundado no egoísmo, que interrompe a velha reciprocidade do dar-e-receber que tem governado mares, ares, florestas e desertos desde o começo do mundo?

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Em algumas sociedades, o natural e o social estão de tal modo relacionados que um bruxo pode causar trovoadas ou malefícios em tal ou qual pessoa. Não se trata de Disney ou de Harry Potter, mas daquilo que pode reequilibrar moralmente rotinas interrompidas por infortúnios ou trágicas coincidências.

Bruxarias não são fantasias descartáveis pelo nosso ímpeto intelectualista, tecnologicamente orientado. Bruxarias são buscas dos motivos que promovem mais sofrimentos e pobreza em João; ao passo que Antonio e Pedro vivem ricos e felizes.

A questão básica da atribuição moral de um evento que causa perda e sofrimento – seja essa atribuição legal racional ou mágica – é sempre a mesma: por que aconteceu comigo e não com outra pessoa?

As causas próximas são fáceis de determinar: a bala penetrou a cabeça ou estilhaçou o coração, não havia como escapar; o velho não ia ao médico e, quando o visitou, constatou o câncer avançado; o enfarte fulminante devido a uma monumental tristeza levou o amigo e por aí seguem essas óbvias e intermináveis constatações das causas próximas do sofrimento. Mas o que realmente perturba é a causa final: por que a enchente levou a minha casa e não a do meu vizinho; por que foi o meu filho não um outro jovem qualquer?

O filósofo Henri Bergson e E.E. Evans-Pritchard, o primeiro antropólogo a analisar um sistema de bruxaria em operação numa sociedade africana, já haviam observado que podemos aceitar tudo, menos o caos de uma interrupção da plausibilidade das rotinas que fornecem o significado da vida. Interrupções radicais de rotinas são como “balas perdidas” e achadas, Deus nos livre, no corpo de uma pessoa amada por obra do acaso. Elas nos levam diretamente à questão do acaso, que só uma enorme dose de compaixão, fé e resignação pode equilibrar.

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Quando a adversidade é mais frequente do que a felicidade, o anômalo vira um valor. Sabemos que o sofrimento é esperado e normal – desde que seja evitado! Se, entretanto, o procuramos, ele vira um valor e, como uma epidemia ou a desonestidade, revela o quanto devemos à nossa humanidade.

Conta outra

Nos Estados Unidos, sempre a primeira referência em vivência democrática, a prestação de contas do governo federal ao Congresso e as intenções para o ano que começa estão em discurso denominado Estado da Nação.

Hollywood (saudades da série The West Wing) já mostrou ao mundo o frenesi que antecede a elaboração da mensagem do chefe do governo ao Legislativo, as discussões sobre os temas polêmicos e o debate de ideias sobre o que deve prevalecer para o registro da história. A mensagem procura o rigor sobre o passado para tornar crível a promessa de futuro.


No Brasil, a mensagem que o presidente da República envia solenemente ao Congresso a cada ano, na abertura dos trabalhos legislativos, já foi chamada de “engana brazilianista”. É um relatório sem compromisso com a realidade. Não serve para pesquisa, seja dos temas, seja dos métodos, seja das intenções da administração. É, apenas, uma extensa formalidade.

A começar pelo portador. Onde já se viu um ministro esvaziado em suas funções enquanto estava de férias, tendo de explicar na volta às pressas se está demitido, levar solenemente ao Congresso a carta de intenções do governo federal? O ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, fez este papel e viu aumentar sua necessidade, que já era grande, de justificar presença no governo. Mas continuará, por enquanto, onde sempre esteve: no Planalto há um vácuo que serve às longas frituras.

Deram-lhe o papel de mensageiro, mas poderia ter passado por constrangimento pior. A carta foi lida pela primeira-secretária, deputada Soraya Santos (PL-RJ), que, por duas vezes, fez longa pausa para esperar que o plenário, escolado em não ouvir anualmente a mensagem, prestasse uma mínima atenção.

Por volta do mês de novembro, inicia-se aqui a corrida de assessores dos ministérios para fazer o relatório daquilo que o governo quer fazer constar de sua mensagem como tendo feito e as promessas para o ano em curso. Uma versão administrativa das resoluções de ano-novo que povoam o imaginário do réveillon.

Tal como a função do ministro mensageiro, o documento é inconsistente. O deste ano tem 150 páginas e não chega a ser tão falso quanto os programas de governo de candidatos, a capa, agora em verde mais claro, tem conteúdo.

Mas poderia ser reduzido às linhas em que o presidente Jair Bolsonaro relaciona as prioridades que dependem de votação do Congresso. Todas conhecidas e, para sorte dele, são também as prioridades da Câmara e do Senado. Há, porém, uma mudança importante a destacar nos planos do governo revelados na mensagem. A reforma administrativa, que a equipe econômica gostaria de ver aprovada antes mesmo da tributária, saiu da lista.

O governo explica que ela está embutida naquela prioridade genérica de buscar o equilíbrio fiscal, mas não era com esse disfarce que vinha sendo gestada. Foi suspensa ano passado, por resistência interna, até que o Ministério da Economia a submetesse à discussão dos ministros atingidos. O que não aconteceu até hoje.

Fora isso, às vezes procura-se uma inconsistência em estimativas, às vezes discute-se um projeto que já ruiu, mas não é assunto que passe para o dia seguinte. O compromisso com a realidade, por parte do Congresso na sua relação com a gestão do Executivo, continua a ser LDO (diretrizes orçamentárias), PPA (plano plurianual) e Orçamento da União. O Orçamento é a peça mais importante do Parlamento para a administração ao longo do ano, embora tenha também seus aspectos ficcionais, sobretudo na estimativa de receita. A agenda das reformas o Congresso considera sua, e os presidentes das duas Casas tocam seus planos sem pedir licença.

Para isso começaram a mobilizar suas próprias bases, vez que o presidente não as tem. O resto é propaganda, para durar não mais que 24 horas.

Brasil de 'Deus'


O desprezo pela coisa pública

A história conhece muitos períodos de tempos sombrios, em que o âmbito público se obscureceu e o mundo se tornou tão dúbio que as pessoas deixaram de pedir qualquer coisa pública além de que mostre a devida consideração pelos seus interesses vitais e liberdade pessoal. Os que viveram em tempos tais, e neles se formaram, provavelmente sempre se inclinaram a desprezar o mundo e o âmbito público, a ignorá-los o máximo possível ou mesmo a ultrapassá-los e, por assim dizer, procurar por trás deles — como se o mundo fosse apenas uma fachada por trás da qual as pessoas pudessem se esconder —-,chegar a entendimentos mútuos com seus companheiros humanos, sem consideração pelo mundo que se encontra entre eles.
Hannah Arendt, “Homens em tempos sombrios”(1955)

Barragens mineiras com tragédias anunciadas; viadutos paulistanos ruindo a cada dia; o belo complexo do Teatro Nacional de Brasilia interditado há anos, jogados às baratas como se a Cultura representasse uma ameaça à civilização dos “coronéis da política”; crianças morrem de fome, o Estado do Ceará em chamas que mostram os castigos humanos do poder das Facções e do desprezo pelos governos ao tratar de maneira bárbara os presídios e os presidiários, pessoas à margem da civilização sem ter nenhum direito senão a indiferença afetiva e social das gestões públicas; os hospitais, inclusive da charmosa(?) capital da República matando mais do que curando; as escolas agora, com um futuro sombrio de uma educação sem liberdade de expressão; os corruptos e corruptores continuam sua saga de uma voracidade desvairada, determinando a morte de parte da população quando desviam as verbas públicas para a Saúde, Educação e Moradia; o sadismo mortífero de uma ideologia capitalista famigerada por riquezas e lucros, deixando as pessoas se submeterem ao que Hannah Arendt chamam “as banalidades do mal”.

Nietzsche em seu livro “A Gaia Ciência”, chega a afirmar o que serve para os nossos dias atuais: “Vejo a má consciência como uma profunda doença que o homem teve de contrair sob a pressão mais radical das mudanças que viveu — a mudança que sobreveio quando ele se viu definitivamente encerrado no âmbito da sociedade e da paz[…]:havia um terrível peso sobre eles. Creio que jamais houve na terra um tal sentimento de desgraça, um mal-estar tão plúmbeo”.

É tempo de mudanças radicais, a população já não suporta esse estado de “servidão humana”, onde os mais fortes e poderosos enredam as pessoas em suas tramas de uma politicagem falsa, eleitoreira e, além disso, revestida de uma pseudo-democracia. É bem verdade que a mentalidade política da população tem mostrado ínfimos avanços, mas é necessário mais, é pouco ainda. Cito como exemplo o descaso pelas obras públicas no Distrito Federal: viadutos que começam a ruir sem nenhum conserto; polícia de trânsito é fantasmagórica, só enxergamos em nossas avenidas, guardas trancafiados em suas viaturas, conversando. Será possível que ainda não se deram conta que guardas de trânsito ficam nas ruas, nos cruzamentos, usam apitos, ajudam o fluxo de trânsito nas ocasiões de engarrafamentos e acidentes? Os queridos e muito bem preparados Bombeiros são a nossa salvação, ainda bem! Quem dirige o trânsito na Brasilia de Lúcio Costa, são os próprios motoristas, sempre inquietos, agressivos e tendo verdadeiras crises “epiléticas” de caráter agressivo. Senhor Governador, que saudade dos tempos dos Administradores, dos tempos em que não havia a avidez de Deputados e Senadores! Brasília era bucólica, romântica, humana, feita alías para poucos habitantes. Hoje, nossa cidade se transformou num espaço gigante de um grande “curral eleitoral”. Estamos vivendo realmente, profundos tempos sombrios e de “homens partidos”, como poetou Carlos Drummond de Andrade.

PIB não é a realidade

O PIB é bom, mas não reflete o que os cidadãos comuns vivenciam, não reflete a insegurança, que é uma parte tão importante do bem-estar. Além disso, hoje estamos preocupados com a sustentabilidade: o PIB não mede se o crescimento é sustentável
Joseph Stiglitz, Nobel de Economia:

Na América Latina, dengue preocupa mais que coronavírus

O surto de coronavírus originado na China está atraindo a atenção mundial, e a pergunta que todos fazem é se (e quando) ele chegará à América Latina. Embora o vírus 2019-nCoV tenha surgido na cidade chinesa de Wuhan, a milhares de quilômetros do continente, já houve alertas no México, na Colômbia e na Argentina, todos descartados, e ainda há vários casos em observação no Brasil.

Até esta terça-feira, a taxa de letalidade do coronavírus, com 20.438 casos de infecção e 425 mortes na China continental, era de 2,08%. Houve até o momento apenas duas mortes fora da China continental: um nas Filipinas e outro em Hong Kong.

A título de comparação, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), até janeiro de 2020 o vírus ebola tinha uma taxa de mortalidade entre 50% e 88%. Em 2009 e 2010, o vírus da gripe H1N1 teve 0,02% de casos fatais. Em 2012, o coronavírus da síndrome respiratória do Oriente Médio (Mers) registrou 2.494 casos e 34,4% de mortalidade. Em 2013, a gripe aviária (H7N9) registrou 1.568 casos e 39,3% de mortes.


Entretanto, o avanço do coronavírus na Ásia é tão rápido que muitos especulam que ele poderá chegar em breve à América Latina. Diante disso, enquanto o coronavírus é apenas um grande medo, várias outras doenças infecciosas matam todos os dias na região, e há décadas. Na América Latina, a tuberculose registrou 280 mil casos por ano no século 21. A malária está regressando a algumas áreas tropicais, com a Venezuela liderando em 2017, segundo a OMS.

A doença que mais preocupa atualmente na América Latina é a dengue, que atingiu sua máxima histórica e avançou exponencialmente nas últimas décadas. Hoje, é a doença viral transmitida por mosquitos que se espalha mais rapidamente pelo planeta. A ONU e estudos científicos já alertaram para os efeitos do aquecimento global sobre ela, já que o fenômeno leva a uma maior sobrevivência e a uma proliferação mais rápida do mosquito Aedes aegypti, que transmite a dengue.

Entre 2019 e 2020, os casos confirmados de dengue na América Latina e no Caribe chegaram a 3.095.821. Houve 1.530 mortes, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). A taxa letal dessa doença foi de 0,049% em 2019. Esses números são os mais altos desde 1980, quando 65.523 casos foram relatados em todo o continente. O segundo ano com o maior número de casos de dengue foi 2015, com 2.415.693.

De acordo com o diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis da Opas, Marcos Espinal, "a região está passando por um novo período da epidemia de dengue com um aumento notável de casos". Em janeiro de 2020, mais de 125 mil pessoas tiveram dengue, e pelo menos 27 morreram em toda a região.

Em 2019, o México registrou 191 mortes por dengue, com 41.505 casos confirmados. Na América Central, houve 295 casos fatais, com o maior foco da epidemia em Honduras, onde 180 pessoas morreram.

No final de janeiro, o ministro da Saúde hondurenho, Roberto Cosenza, disse em entrevista à agência de notícias Efe que seu país poderia enfrentar uma epidemia de dengue "maior" que a de 2019. A progressão da dengue no país é alarmante, com uma média de mil casos suspeitos por semana, 80 dos quais são do tipo hemorrágica.

A incidência da dengue em crianças menores de 15 anos na América Central também é motivo de preocupação. Na Guatemala, por exemplo, 52% dos casos graves de dengue são registrados nessa faixa etária, um número superado por Honduras (66%).

No Cone Sul, a dengue atinge especialmente o Brasil, com 1.544.987 casos em 2019, em comparação com os 265.934 casos em 2018: um aumento de 488%. Foi também ali que ocorreu o maior número de mortes: 782, de acordo com dados de 2019 do Ministério da Saúde brasileiro.

Na Colômbia, 127.553 casos de dengue e 87 mortes foram registrados no ano passado.

Até agora, em 2020, Paraguai e Honduras estão liderando os surtos de dengue. Honduras já registrou mais de 3.200 casos.

No início deste ano, mais de 20 mil pessoas foram afetadas pela doença no Paraguai. O caso do presidente paraguaio, Maro Abdo Benítez, que foi diagnosticado com o vírus, ganhou as manchetes dos jornais.

Em 29 de janeiro, a capital do país, Assunção, declarou emergência ambiental e sanitária de 90 dias como medida contra a epidemia de dengue. Segundo o Gabinete de Vigilância Sanitária, houve apenas quatro mortes confirmadas por dengue, mas há outras 23 que ainda estão sendo analisadas.

A Bolívia contou 16.193 casos em 2019 e pelo menos 23 mortes. O país começou 2020, segundo o Ministério da Saúde, com 2.143 infecções, além de 700 mil casos aguardando confirmação laboratorial. Argentina, Bolívia e Paraguai impuseram controles fronteiriços mais rígidos, juntamente com o Brasil.

A dengue representa um grande desafio para a América Latina. O vírus é transmitido por mosquitos, por isso as medidas sanitárias mais urgentes são as campanhas de conscientização entre a população dos diferentes países, para que todos os lugares onde esses insetos se reproduzem sejam eliminados, especialmente aqueles dentro e próximos das casas.

A Opas enfatiza que a dengue é "um problema de saneamento doméstico e comunitário" e que a maneira mais eficaz de combatê-la é se livrar de todo tipo de objeto e recipiente "que possa acumular água, como tambores, pneus usados, latas, garrafas e vasos".

A dengue afeta bebês, crianças pequenas e adultos. Os sintomas mais frequentes são febre alta (40 ºC), dor de cabeça muito intensa, dor atrás dos olhos, nas articulações e nos músculos. Se esses sintomas ocorrerem – bem como dores abdominais fortes, vômito persistente, respiração rápida, hemorragia das mucosas, vômito e fadiga –, é necessário consultar um médico com urgência.

A dengue grave (também chamada de hemorrágica) é fatal, pois pode levar à acumulação de líquidos, hemorragias graves e falência de órgãos. Embora não exista um tratamento específico para essa doença, o diagnóstico precoce, cuidados médicos e aconselhamento adequado ao paciente podem salvar vidas.
Deutsche Welle

Quem governa Bolsonaro

Ninguém governa governador, disse um dia Agamenon Magalhães, à época, governador de Pernambuco e ex-ministro de Getúlio Vargas. Os tempos eram outros. Agora, há quem governe presidente da República – no caso, Jair Bolsonaro, que age e reage de acordo com o humor das redes sociais. Para ser preciso, de acordo com o humor dos seus devotos.

Antes de ser eleito, ele governou seus simpatizantes e futuros apóstolos. Quem o governava então era o autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho, e seus filhos que liam o mundo por ele, uma vez que Bolsonaro jamais gostou de ler. Olavo e os filhos ainda leem o mundo por ele. Por ele, alguns garotos empregados no governo leem as redes sociais.

Mais notadamente de alguns meses para cá, Bolsonaro, que jamais desprezou as redes porque é produto delas, passou a responder com maior atenção ao que elas dizem e cobram. Passou também a acusar todos os golpes que recebe quando criticado. E quando não se justifica, ou quando não pede compreensão, recua ou avança em decisões que tomou.

Ora, dirão, ouvir estrelas não faz mal. Ou, se preferirem: ouvir o povo deveria ser uma obrigação dos governantes. Nada seria mais democrático. Mas nem sempre a voz do povo é a voz de Deus. E um governo incapaz de entender isso jamais governará bem. No início do século passado, os cariocas sabotaram a aplicação da vacina contra a varíola.

Houvesse redes sociais e governantes orientados por elas, a vacinação talvez fosse suspensa. De resto, é falso que a voz das redes expresse, sequer, a voz da maioria que por meio dela fala. Bolsonaro não está interessado em ouvir a voz da maioria nas redes ou de fora delas. Interessa-se pela voz de uma parcela dos que votaram nele, e que ele quer preservar.

Na semana passada, por exemplo, enquanto essa parcela reagiu com firmeza contra o despacho de aviões para resgatar brasileiros retidos na China com medo do coronavírus ou afetados por ele, Bolsonaro bateu o pé e afirmou que não os resgataria para evitar o risco de que, trazidos de volta, pudessem contaminar os que por aqui estão.

Alegou que seria uma operação perigosa e que custaria caro aos cofres da União. Jogou nas costas do Congresso a responsabilidade por ela à falta de recursos do governo. Como começou a ficar mal na foto e mesmo entre muitos dos seus devotos, recuou e, agora, admite que poderá dar início ao socorro já prestado por outros governos mais humanos do que o dele.</p>

Antes dera outra vacilada: demitiu o 02 da Casa Civil pelo ato “completamente imoral” de voar em jatinho da FAB para a Suíça, de lá para a Índia, e na volta à Sicília, ilha italiana de rara beleza, de patrimônio histórico e artístico precioso e de restaurantes de primeira. Mas a pedido dos filhos, reempregou-o no governo. Para demiti-lo mal o fizera.

Quando acerta, Bolsonaro erra no momento seguinte. Ou persevera no erro ou tenta consertá-lo. Biruta de aeroporto se move sob a direção dos ventos. Mas ela é um dos muitos indicadores a serem levados em conta pelos pilotos, não é o único. Isso, Bolsonaro parece desconhecer apesar de ter sido paraquedista antes de o Exército afastá-lo por má conduta.

Se tivesse dependido apenas do seu empenho, a reforma da Previdência Social jamais seria aprovada enquanto ele governasse. Em compensação, alguns dos seus projetos desvairados teriam sido. Como ele se recusa a compartilhar o poder com os partidos, o que não significa licença para a roubalheira, o Congresso tomou-lhe parte do poder.

A Constituição de 1988, em vigor, foi concebida para um regime parlamentarista que jamais existiu. Por artes do destino ou sabedoria dos que comandam o Congresso, o país, hoje, experimenta uma espécie de parlamentarismo disfarçado. Assim – quem sabe? – será possível atravessarmos os próximos tormentosos três anos.

Pergunte sobre o futuro do Brasil a Rodrigo Maia e Armínio Fraga

Dizem, há muito tempo, que o futuro a Deus pertence, o que serviria de slogan para os economistas do arrocho por um lado e ganho fácil por outro. Adeptos de frases feitas, vendem sua “teoria” com adaptações da grande fake news da história nacional: “O Brasil é o país do futuro”. O futuro mesmo, designação do país com que nossos filhos e netos vão lidar, caiu em desuso como cogitação e como palavra.

O futuro não convém à sanha imediatista da pequena minoria chamada de “mercado” e assusta mais os que, para maior paz dos outros, não devem pensar nem sobre presente.

Apesar disso, duas notoriedades, Rodrigo Maia e Arminio Fraga, não apenas remeteram atenções ao futuro, como lhe deram peso insuperável. Nem por isso houve sinais de que fossem ouvidos, claro.

Em seu penúltimo artigo na Folha, original na forma e espantoso no conteúdo, Fraga expôs as urgências sociais no que pareceu sua primeira abertura para o tema. Uma transformação extrema. Ex-colaborador de George Soros, o bilionário visto como maior faro mundial para o lucro de especulação, com ele Fraga afinou o olfato e veio a ser, aqui, um expoente na aplicação de capitais. Uma estrela do tal mercado, pois.

Fraga rumou para o futuro em palestra como ex-presidente do Banco Central. Ainda sobre a desigualdade e, agora sem surpreender, o gasto governamental com Previdência e funcionalismo, revelou seu apocalipse particular: “O Brasil precisa mexer nessas contas, ou em cinco ou dez anos teremos uma revolução”.

 No meio em que Fraga vive, golpe de Estado, com prisões, cassações, torturas e assassinatos, é chamado de revolução. Golpe elitista e produtor intencional de desigualdade, não seria o tipo de revolução antevisto pelo Fraga contrário à desigualdade. Qual seria?

Rodrigo Maia é o mais bem-sucedido entre os políticos projetados desde a crise do governo Dilma. Visto como fonte de ponderações necessárias, com frequência usa de franquezas inesperadas e, em geral, oportunas. Como complemento à crítica a Abraham Weintraub, ministro da Educação, pelo “prejuízo a muitas gerações”, Maia não se escondeu: “Nosso país não tem futuro, né? Não tem futuro”.

 Entre a revolução antevista, mesmo descontado o prazo exíguo, e o futuro que não se vê, emerge a contribuição de Jair Bolsonaro e dos seus sustentáculos — sobre todos, os seus militares — para que os dois extremos não sejam negáveis. Em 13 meses de governo, não houve uma só medida favorável aos oprimidos pelas desigualdades, sejam as sociais, as econômicas, as étnicas. Isso se faz sobre uma insatisfação e sob dificuldades nacionais que, por vários indícios, já eram inquietantes.

Ao fechar 2019, 66% das famílias brasileiras, dois terços delas, estavam endividadas. Um quarto delas, com as dívidas em atraso. Duplo recorde. Apesar do 13º e dos saques no FGTS.

No começo deste ano, ao menos 11,6 milhões procuravam emprego: no último ano do primeiro mandato de Dilma, 2014, eram 6,6 milhões.

A média dos que procuravam emprego no primeiro ano de Bolsonaro chegou a 12,5 milhões, 87,7% a mais do que em 2014. E A média mensal de concessão do Bolsa Família, quando maior é a necessidade, caiu 5.600, com meio milhão em uma fila de espera que passou a andar apenas 1% ao mês.

A inflação de 2019, dizem, foi de 4,31% com Guedes e Bolsonaro, mas a alimentação básica viu a carne encarecer 32%, 13% a mais nos cereais e nos legumes, 14% nas aves e ovos, 10% no açúcar, e assim por diante, ou para cima. E o governo quer retirar o subsídio que reduz o preço da cesta básica.

A reforma da Previdência, ninguém de boa-fé duvida mais, prejudicou quem trabalha e não trouxe contribuição substancial ao problema.

 O pacote de emendas constitucionais proposto pelo governo é antissocial, contra os estados e municípios (a federação) e tem numerosas incompatibilidades com a Constituição. Nele, nada é favorável às classes desassistidas e muito as agrava.

Cada ideia de Paulo Guedes para a economia é contrária ao assalariado, ao aposentado, ao carente. Cada ideia de alguém no governo é sempre contrária aos indígenas, à demarcação de suas áreas e de reservas nacionais, é contrária ao ambiente natural e favorável ao garimpo e aos desmatadores.

Em 13 meses de governo, nenhuma medida ou ideia contra as desigualdades, nada pela retomada real da atividade industrial, do emprego, da habitação, da segurança. E o futuro? Pergunte a Arminio Fraga e a Rodrigo Maia.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

A guerra santa em marcha

Assim como ocorreu com o desafortunado Marx, o pobre Cristo também padeceu na mão de seus seguidores. Ambos passaram por lipoaspiração, retoques e tiveram conceitos e idiossincrasias enfiadas em suas bocas.

São dois das maiores vítimas de fake news na história da humanidade.

Ainda sequer baixara à sepultura, o corpo nem esfriara, e os rascunhos de Marx já estavam nas mãos de Engels, parceiro de farra, para serem ordenados, aparados e ajustados à causa imediata. Depois, o Partido Socialista alemão faria expurgo em Marx e Engels para ajustá-los aos interesses (e preconceitos) de seus dirigentes políticos.


Do mesmo jeito que aquele idiota jogou uma bomba na produtora do Porta dos Fundos, evocando a defesa de Cristo, em nome também de Cristo os primeiros séculos de nossa história surgem recheados de histéricos, mal-intencionados e outros punguistas que, infelizmente, modelarão o que hoje é apresentado como ideal cristão. E, usando seu santo nome em vão, tal esse flanelinha fascista, preconceitos foram construídos, superstições ganharam corpo, e o medo (ou pavor) se transformou em instrumento de convencimento e poder — demônio, inferno…

Até Constantino, o Império Romano conviveu por séculos (assim como anteriormente a civilização helênica) com um panteão de deuses. Mesmo sob conflitos, viviam em paz com suas diversas crenças e divindades. Não havia jamais a intenção de forçar seu vizinho a comungar de sua devoção. Tampouco se desejava legislar sobre o desejo alheio (leia-se: sexo). A intimidade pertencia a cada cidadão.

O sexo não era um problema na Atenas de Sócrates ou na Roma de Sêneca. Vale dizer: sexo hétero ou homossexual. Para fugir ao arrepio do prazer, o ideólogo cristão Orígenes (século III) castra-se.

Ao se converter ao cristianismo, por volta de 313, o imperador Constantino enquadra seus concidadãos à rigidez de sua nova crença. No caso, vai dar ouvidos a maus intérpretes do catolicismo, e dedica-se a extirpar pensadores estoicos quando manda apagar ou queimar seus livros por enxergar ali ideias contrárias àquele mundo, até então, mais identificado com a liberdade dionisíaca do que com o freio à luxúria defendida pelo histérico Paulo de Tarso (esse aí um homofóbico de quatro costados).

Estudos recentes mostram como os séculos III, IV e V aprofundam a perseguição aos pagãos e a demonização do que batizam como sendo hereges — justamente aqueles que não seguiam as ideias da nova religião no poder. Algo lhe soa familiar?

É um período de trevas (o primeiro?) trazido pela religião. Em sua batalha por conquista de corações e mentes, futuros santos como Agostinho incentivam a destruição de estátuas greco-romanas, de templos (Serapis…) e o apagamento de obras que trazem ideias opostas a esse messianismo colocado nas costas do cristianismo.

Centenas de estátuas greco-romanas tiveram seus olhos furados, sexo arrancados, cabeças cortadas — ao contrário do que se diz, aquilo não foi ação do tempo.

Também pouco sobrou da filosofia ou da literatura latina ou ainda de pensadores epicuristas —foram apagados por agentes da nova igreja.

Difícil haver crime perfeito, e então novos estudos agora recorrem às obras cristãs carregadas de proselitismo fundamentalista (tal Agostinho) para reconstituir esse mundo apagado. Ou contam com a sorte: deparar-se com manuscritos escondidos em bibliotecas de monastérios, que escaparam à perseguição ordenada pelos primeiros bispos. O de Lucrécio, por exemplo, antecipava a Física moderna.

Tanto lá como agora o messianismo anseia a terra plana.

O mundo pré-Agostinho e Constantino nas seguintes obras: “The Darkening Age: The Christian Destruction of the Classical World”, de Catherine Nixey; “Christianity, Book-Burning and Censorship in Late Antiquity”, de Dirk Rohmann; ou “Pagans — The End of Traditional Religion and the Rise of Christianity”, de James O’Donnell. “A virada”, de Stephen Greenblatt.
Miguel De Almeida

O alto custo da má reputação

A má reputação do Brasil quando se trata de meio ambiente pode custar bilhões de dólares em perdas de investimentos e de exportações. O perigo já foi percebido no governo, mas falta conferir se o presidente Jair Bolsonaro, responsável principal pela piora da imagem brasileira, está disposto a mudar seu comportamento. O alerta foi repetido em entrevista ao Estado pelo cientista político Christopher Garman, diretor-geral para as Américas da Eurasia, uma consultoria de reputação global com sede nos Estados Unidos. Fundos estão sendo pressionados, lembrou Garman, para incluir a consideração de riscos climáticos em suas estratégias de investimento. O mesmo tipo de pressão, como já se notou em Brasília, pode afetar o comércio, prejudicando o setor mais competitivo da economia brasileira, o agronegócio.


A entrevista do diretor da Eurasia é um testemunho especialmente importante. Novas medidas, como a recente criação do Conselho da Amazônia, dificilmente produzirão bons efeitos para a imagem brasileira, advertiu o consultor, se o presidente Bolsonaro continuar atacando a mídia internacional, personalidades como Greta Thunberg e a “indústria da multa” do meio ambiente.

Nesse caso, manchetes negativas continuarão alimentando a má reputação do País e empresários terão receio de aplicar dinheiro no Brasil. A crise de credibilidade, acrescentou, poderá afastar principalmente novos investimentos. Mesmo sem a retirada de recursos já aplicados na economia brasileira, haverá perdas importantes.

Para a opinião internacional, o aumento das queimadas na Amazônia, no ano passado, materializou a nova política do governo central, contrária às preocupações ambientalistas valorizadas na maior parte dos países desenvolvidos e emergentes. Não se cumpriu até hoje a ameaça de abandonar o Acordo de Paris sobre o clima. As palavras e atitudes do presidente e de vários de seus auxiliares foram, no entanto, uma convincente demonstração de desprezo às preocupações com a preservação ambiental.

A última dessas manifestações foi a declaração infeliz do ministro da Economia, Paulo Guedes, na recente reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos. Suas palavras, apontando a pobreza como pior inimiga do meio ambiente, tiveram repercussão e foram repetidas, na abertura de um debate sobre a Amazônia, como síntese da posição do governo brasileiro. O ministro alegou ter sido mal interpretado, mas a interpretação errada – se tiver sido esse o caso – foi cometida por grande número de pessoas intelectualmente qualificadas.

Na mesma reunião, a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi interrogada por um jornalista sobre a possibilidade de aprovação final do acordo entre o bloco europeu e o Mercosul. Essa aprovação depende da aceitação formal por todos os países dos dois blocos. O assunto continua aberto, respondeu a dirigente, referindo-se, claramente, às dúvidas ainda existentes sobre a disposição brasileira de respeitar as condições ambientais valorizadas nos países da União Europeia.

A percepção dos perigos comerciais e financeiros já se manifestou em Brasília. Um alerta foi dado pelo presidente do Banco Central (BC), Roberto Campos Neto, em reunião do Conselho de Governo, em 21 de janeiro. Investimentos, advertiu, poderão ser prejudicados pelo debate ambiental. Comentário semelhante foi feito numa entrevista à imprensa, no dia seguinte, pelo secretário do Tesouro, Mansueto Almeida, segundo o Estado.

A sensatez do presidente do BC e do secretário do Tesouro fará pouca diferença, no entanto, se o presidente da República e os ministros do Meio Ambiente e de Relações Exteriores continuarem difundindo a imagem de um Brasil devastador de florestas e envenenador do meio ambiente. A imagem é falsa, até porque o agronegócio brasileiro é poupador de terras e, portanto, de florestas. Mas a má reputação brasileira interessa aos defensores do protecionismo agrícola, especialmente na Europa. É preciso explicar esses pontos a algumas autoridades em Brasília.

Pensamento do Dia


A melhor coisa que existe

A ministra Damares prega a abstinência sexual para combater a gravidez precoce. Ela viaja no tempo, sempre para trás, uma viagem que vai de cima da goiabeira ao mundo que ela habita, assombrado pelo pecado, culpa e repressão sexual.

De abstinência forçada sabem os jovens, privados de boas escolas, de conhecimento, de informação, tudo que uma educação decente deveria lhes oferecer e que, ao contrário se lhes rouba, além do esforço e dos projetos, na incompetência da correção de uma prova do Enem. Preencher esses vazios ajudaria, e muito, a combater a gravidez precoce, um problema de alta complexidade sobre o qual uma coisa já se sabe: proibir e culpar tem eficácia zero sobre os hormônios.


O ministro Guedes ameaçou com o imposto do pecado em que os vilões são o açúcar, o sal, o fumo e a cerveja. Da abstinência de alegrias sabem os que pecam tomando cerveja. O ministro quer, além de fazer caixa, defender a saúde. Melhor faria pela prevenção se tornasse possível uma dieta de angústias, aquelas do desemprego e da inadimplência que causam infarto e depressão. O imposto do pecado é metafórico do espírito sombrio e punitivo que paira sobre o país fazendo a vida das pessoas amarga ou, no mínimo, sem gosto.

O ex-secretário da Cultura, no espetáculo mais grotesco e vergonhoso a que um ministro já se prestou, ao som de Lohengrin, fez sua apologia nazi. Um morto vivo ameaçando com um projeto cultural saído dos escombros de Berlim 1945. Execrado, sua cabeça rolou, já o projeto, para o qual foi nomeado, ficou. Artistas estão submetidos à abstinência de cultura. Boa sorte a Regina em sua missão impossível.

Tudo isso em um país solar, a quem mestre Vinicius ensinou que é melhor ser alegre que ser triste, a alegria é a melhor coisa que existe. É graças a ela que os brasileiros sobrevivem ao inferno nosso de cada dia.

Vem aí o carnaval. Abstinência de sexo e cerveja? O carnaval arrasta séculos de celebração da alegria.

Falando-se em cultura, com a palavra, sem censura, a Estação Primeira.

Reino da ruína



E seu reinado durou apenas o tempo da esperança (...) duração melada da falência
Miguel Torga, "Diário"

Imposto do desemprego

Na mensagem enviada ao Congresso Nacional, ontem, o presidente Jair Bolsonaro anunciou suas prioridades para 2020, focadas na agenda econômica: reforma tributária, MP do Contribuinte Legal, independência do Banco Central, privatização da Eletrobras, promoção do equilíbrio fiscal e novo marco regulatório do saneamento. As propostas foram bem recebidas no Congresso, que começou o ano politicamente esvaziado. O ministro da Casa Civil, Ônyx Lorenzoni, cuja pasta foi esvaziada, fez uma entrega protocolar da mensagem. Bolsonaro estava em São Paulo, com o ministro da Educação, Abraham Weintraub, outro que anda em baixa no governo, para inaugurar um colégio militar.

A única proposta de caráter social entre as prioridades do governo é o Programa Verde Amarelo, cujo objetivo é combater o desemprego. O grande jabuti é o desconto de 7,5% de contribuição no seguro-desemprego. Lançada em novembro passado, a proposta já está sendo ironizada no Congresso, onde é chamada de imposto do desemprego, e deve ser rechaçada pela Câmara, ainda mais num ano eleitoral, como aconteceu com outras propostas do ministro da Economia, Paulo Guedes, como a recriação da contribuição sobre operações financeiras e o chamado “imposto do pecado”, a supertaxação do cigarro e da bebida, rechaçada pelo próprio presidente Bolsonaro.

O governo deixará de arrecadar cerca de R$ 10 bilhões em cinco anos, mas a compensação viria na mudança das regras do seguro-desemprego, que possibilitaria uma arrecadação de R$ 12 bilhões em cinco anos. Em compensação, o período de recebimento do seguro-desemprego passaria a contar para a aposentadoria. O Programa Verde Amarelo mira o desemprego, com regras que flexibilizam a legislação em relação ao trabalho aos domingos e feriados, às férias e ao 13% salário. É destinado a trabalhadores que recebam até 1,5 salário-mínimo, em contratos de 2 anos. Estima-se que 500 mil pessoas poderão ser contratadas com a mudança.

Outra proposta do programa é a concessão de R$ 40 bilhões para até 10 milhões em microcrédito, destinados a pequenos empreendedores. De acordo com o governo, os recursos serão direcionados à população de baixa renda, aos “desbancarizados” e aos pequenos empreendedores formais e informais. Outra meta é reinserir no mercado de trabalho 1 milhão de pessoas afastadas por incapacidade, pela via da reabilitação física e habilitação profissional. Também está prevista a contratação de 380 mil pessoas com necessidades especiais.

Coronavírus

O governo está levando a sério a ameça de epidemia de coronavírus chegar ao Brasil, que já tem 14 pessoas infectadas. Ontem, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, anunciou que o Brasil, mesmo sem casos confirmados de infectados com coronavírus, vai reconhecer estado de emergência em saúde pública. A medida pode viabilizar a retirada dos brasileiros que estão na província de Wuhan, na China, o epicentro da epidemia, que está isolada. De acordo com o Ministério da Saúde, a escolha do local onde será a quarentena dos brasileiros trazidos da China ficará a critério do Ministério da Defesa. Provavelmente, uma base militar, em Florianópolis, em Santa Catarina, ou em Anápolis, em Goiás.

O ministro cita três razões para a quarentena: primeiro, a cidade de Wuhan escolheu fazer um isolamento. Quando se entra em um local de quarentena, se mantém em estado de quarentena. Segundo, lá estão concentrados 67% de todos os casos. Terceiro, quando se traz pessoas de várias regiões do país, elas seriam espalhadas para vários estados do Brasil, daí a necessidade de manter todos eles juntos. O ministro não falou, mas existe uma quarta razão: o sistema hospitalar no Brasil não está em condições de enfrentar uma situação na qual o vírus seja transferido de pessoa a pessoa, seria uma tragédia sem igual, desde a gripe espanhola. A saída é aumentar a vigilância epidemiológica nos aeroportos e portos e isolar os casos suspeitos imediatamente.

O futuro pelas costas

Ia eu outro dia pela rua carregando livros, jornais e revistas quando tudo me escapou das mãos e se espalhou na calçada. Coisa rara: surgiu não sei de onde um rapaz que me ajudou a apanhar a papelada. Parecia um anjo. Nesta época do ano, os anjos estão ocupados, mas de vez em quando um ou outro faz um biscate para quem não tem nenhum merecimento. Vi que não era anjo quando agradeci e ele me perguntou qual era o meu signo.

Imagina só, um anjo preocupado com signo. Noutros tempos, eu teria estranhado a pergunta. Hoje, nem tanto. Disse que sou de Touro. Corre por aí a crença de que nos mínimos atos somos governados pelos astros. Ou astres, que é a forma arcaica de astros. E quer dizer também fado, destino. O rapaz entendia que o papelório espalhado na calçada denunciava às escâncaras o meu horóscopo. Achou que somos do mesmo signo, igualmente trapalhões.

Não somos. Ele é Virgem, me disse. Já eu não sou trapalhão, nem chegado à astrologia. Mas não disse nada, para não o decepcionar. Afinal, não é todo dia que você encontra um rapaz gentil no Rio. Quando se afastou, por via das dúvidas conferi o dinheiro no bolso. Estava O.K. Fiquei com vergonha de tamanha desconfiança. Mas hoje é assim. Confiar, só nos astros. Para quem acredita. O que você faz de bom ou de mau, tudo é decidido lá em cima, no zodíaco. Hora, minuto e segundo, nada lhe escapa, porque os astros são minuciosos.


Astrologia ou astrosofia. Também astromancia. Os iniciados entram pelos arcanos das influências planetárias. Alegrias e desastres, está tudo escrito. Desastre, aliás, quer dizer fora da rota dos astros. Má estrela, infortúnio. A moda astrológica dura há anos e se espalha como chuchu. Fantástica reserva de fé tem o ser humano. Quer acreditar e acredita. Ser agnóstico não é para qualquer um. Só com muita soberba intelectual.

Não sei se você sabe que o Brasil também tem o seu mapa astrológico. Pois tem. Está no livro do advogado Danton de Souza – "Predições astrológicas". São cinquenta anos de pesquisa e estudo na linha de André Barbauit, Volguine e Jean Hieroz. Danton desvenda o futuro do Brasil até o ano de 2182. Que tal? O livro foi publicado em 1983. Estava prevista uma data fatídica: 3 de julho de 1991. Iria acontecer aqui um troço tão terrível que o astrólogo preferiu calar. Agora que passou, que é que foi mesmo?

Milícias na eleição

O Rio é um lugar onde armas de guerra dividem a paisagem com o mar, as palmeiras e os trens suburbanos. É, também, a terra onde mais florescem as milícias armadas.

Nos palácios celebram-se liturgias de leniência com a expansão da influência desses grupos em instituições públicas. Eles garantem votos. Em troca, recebem apoio aos negócios.<

Acabou-se a discrição na trapaça. Pela primeira vez, o Rio poderá ter um candidato a prefeito com origem miliciana atestada em juízo.

Jerônimo Guimarães Filho, 71 anos, pioneiro de bandos na Zona Oeste, está em campanha pelo Partido da Mulher Brasileira (PMB). Foi vereador pelo MDB por oito anos, até ser condenado por crimes como uma chacina de nove pessoas.

Jerominho, como é conhecido, nega tudo. Depois de uma década na cadeia, parece querer legitimar as alianças das milícias. Seu reduto é a Zona Oeste. Estava preso, em 2008, quando elegeu a filha vereadora. Na época, ela habitava uma cela no presídio de Catanduvas (PR), a 1,4 mil quilômetros da Câmara do Rio.

Se confirmada, sua candidatura pode iluminar parte dos porões da política carioca. Ajudaria a dimensionar o tamanho e a influência das quadrilhas, além de indicar tendências da população refém da falência do Estado — no Hospital Federal de Bonsucesso, doentes de câncer esperam seis meses por atendimento.

O controle de voto oxigena as milícias. Isso já prevalece em 468 seções da capital, com mais de 610 mil eleitores (12% do total), sugerem dados da Justiça Eleitoral sobre a votação concentrada em candidatos apoiados por milícias na Zona Oeste.

O antigo chefão da Zona Oeste entraria na disputa com Bolsonaro, Witzel, Crivella & Cia. por pedaços da máquina eleitoral na cidade perdida pelo MDB desde a prisão do ex-governador Sérgio Cabral.

A eficácia dessa engrenagem foi reafirmada na última eleição presidencial. Garantiu a Bolsonaro mais de 60% dos votos em 40 das 49 zonas eleitorais do Rio. Ele só perdeu (com 48,8%) em Laranjeiras. Em 22 zonas, recebeu mais de dois terços dos votos.
José Casado 

Imagem do Dia

Nova forma de aurora boreal, na Finlândia,
apresenta 'um padrão de dunas de areia'

Viagem ao futuro próximo

Sempre me considerei um viajante leve. Saindo do Rio a trabalho, chego ao aeroporto com uma mala mínima, que despacho no balcão, e embarco munido apenas de um livro de bolso e uma Bic preta. E, então, sentado em minha poltrona, observo fascinado o espetáculo das pessoas entrando no avião com uma colossal mochila às costas, uma descomunal mala-baú e um objeto comprido embalado, que pode ser uma vara de pesca, uma pá de remo ou um berimbau, e tentam enfiar tudo nos contêineres superiores.

Estou sendo informado agora de que, em breve —o que pode significar o fim da década ou o fim deste ano—, tudo isso vai acabar. Bilhetes, passaportes, documentos de identidade, nada será necessário. Você chegará ao aeroporto e, pelo simples reconhecimento facial, fará o check-in, atravessará alfândegas, cruzará fronteiras. É só não se esquecer de levar o rosto.


Passará também a viajar sem malas. Bastará mandar de véspera uma mensagem ao hotel, informando suas medidas —altura, pescoço, ombros, abdômen, número do sapato. Impressoras 3D lhe fabricarão as peças de roupa, que você usará pela duração da viagem e, quando sair, deixará para trás, que serão recicladas ou dadas aos pobres. Sim, continuará havendo pobres.

As roupas e os acessórios, como óculos, brincos e pulseiras —os chamados “vestíveis”—, obedecerão aos nossos comandos de voz. Não sei que ordens se darão a um sutiã ou a uma cueca, mas é assim que será. Esses comandos substituirão os próprios smartphones, que, com seus arcaicos teclados e telas, também ficarão obsoletos, porque todos os objetos obedecerão às nossas ordens: “Cheesebúrgueres, fritem-se”. Se você for gago, um nanomicrofone embutido num de seus caninos ou molares converterá a sua gagueira numa fala fluente e nítida.

Bem, este é o futuro próximo. Ficará bem no país quase medieval em que estamos vivendo.
Ruy Castro

Se você acredita que Guedes cortará os privilégios da 'nomenklatura', vai se decepcionar

Depois de um ano do governo Bolsonaro, começam a surgir frustrações, porque boa parte da opinião pública já percebeu que sonhar não é proibido nem paga imposto, mas o problema é a dificuldade existente para concretizar os sonhos. Na verdade, o Brasil chegou a tal ponto de descalabro e desorganização administrativa que está muito difícil desatar os nós.

Já houve iniciativas concretas para reduzir o tamanho do Estado, conter os gastos públicos e alcançar o superávit primário, que é indispensável para o país se livrar da asfixia causada pela dívida pública.


Uma das tentativas mais interessantes foi a proposta de emenda constitucional apresentada em 2015 pelo senador Jorge Viana (PT-AC), a a PEC 106/2015, que visava diminuir em 25% o número de representantes na Câmara dos Deputados e em um terço os do Senado. Com isso, o número de deputados federais passaria de 513 para 386 e o de senadores, de 81 para 54.

A proposta recebeu apoio entusiástico do relator Randolfe Rodrigues (Rede-AP). Foi submetido a consulta pública, tendo recebido 1.859.115 mensagens de apoio, que significaram aprovação de 99,3% dos manifestantes, com apenas 10.699 manifestações contrárias, ou seja, rejeitado por apenas 0,7%.

Com o final da legislatura, a proposta foi arquivada, junto com boa parte dos quase 400 projetos de alterações em órgãos públicos, licitações e contratos, organização político-administrativa do Estado e servidores públicos.

O Congresso voltou a funcionar nesta segunda-feira e aguarda a reforma administrativa que está sendo preparada pela equipe econômica, simultaneamente à reforma tributária.

Espera-se que, ao invés de focar apenas na venda de estatais, a proposta de Paulo Guedes realmente reduza o tamanho do Estado nos setores em que há excessos de gastos públicos, inclusive eliminando os privilégios da nomenclatura, nos Três Poderes.

Afinal, sonhar não é proibido, repita-se, indefinidamente. Se Guedes não fizer isso agora, obrigará Bolsonaro a fazer um governo fake, apenas cosmético, sem resolver os grandes desafios nacionais.

Divulgação falha e parcial de dados entra em choque com discurso de transparência

No mês em que completou um ano de mandato, o presidente Jair Bolsonaro recebeu reprimenda da Transparência Internacional por, segundo estudos da ONG, intervir nos mecanismos de fiscalização do país. O relatório divulgado em 23 de janeiro revelou que a percepção sobre corrupção no Brasil aumentou ao redor do mundo. Entre um dos fatores apontados pelo levantamento está a ingerência governamental nos órgãos de controle, como substituições em chefias da Polícia Federal e da Receita e a nomeação de um Procurador-Geral da República (Augusto Aras) fora da lista tríplice. Além das instituições anticorrupção, o diagnóstico indica que o Governo Bolsonaro segue a esteira de enfraquecimento dos instrumentos federais em prol da transparência, com acúmulo de episódios recentes de falhas ou divulgação parcial de dados.

Na sexta-feira, o EL PAÍS publicou uma reportagem em que mostra que o Governo não explica o tamanho real da fila de espera do programa Bolsa Família. O Ministério da Cidadania fala apenas em “uma média nacional” de 494.229 famílias à espera do programa em 2019, mas não disponibiliza os números absolutos mês a mês de entrada e saída de famílias e nem o número de habilitados a receber o benefício, mas que ainda estão sem a bolsa. Cálculos realizados pelo EL PAÍS, com base em dados públicos, estimam que 1,7 milhão de famílias, ou cerca de 5 milhões de pessoas, estariam atualmente aptas a ingressar no programa, ou seja, preenchem todos os critérios para receber o auxílio antimiséria —um valor três vezes maior do que o número divulgado pela pasta.

Desgastado pela repercussão negativa dos problemas no Enem, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação do exame, se recusou a recalcular o peso de questões após corrigir o gabarito de 6.000 provas que tiveram erro na gráfica, informou o jornal Folha de S.Paulo. O órgão argumentou que, por se tratar de uma amostra pequena de candidatos afetados, o cálculo não seria alterado por uma nova revisão, mas para fontes ouvidas pelo jornal, isso poderia afetar a entrada de candidatos na universidade. O contratempo motivou o senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) a apresentar requerimentos para convocar o ministro da Educação, Abraham Weintraub, a prestar esclarecimentos a respeito dos critérios de atribuição das notas.

Segundo o pesquisador Manoel Pires, economista do IBRE/FGV e organizador do Observatório de Política Fiscal, a qualidade e a frequência de informações estatísticas prestadas pelo Governo Federal tem apresentado queda nos últimos três anos. Ele salienta que o ponto de inflexão surge a partir da gestão de Michel Temer, reflexo da crise financeira que passou a afetar a prestação de serviços nos órgãos federais. Porém, a falta de transparência teria se acentuado no Governo Bolsonaro pela combinação de outros dois fatores ao cenário econômico. O primeiro tem a ver com as mudanças de pessoal promovidas pela administração, sobretudo pelo recrutamento de gestores oriundos do setor privado, pouco afeitos às práticas de governança pública. E o segundo, pelo apelo ideológico do Governo, com postura resistente à prestação de contas e a demandas da imprensa.

“Ainda é cedo para avaliar se a redução da transparência pelo Governo Federal será ou não uma tendência, mas, nos últimos anos, uma série de ocorrências nesse sentido tem se tornado cada vez mais comum, em vários órgãos”, afirma Pires. Como exemplo, ele cita os dados sobre gastos públicos, que não são atualizados desde março de 2018 pela Secretaria do Orçamento Federal, e os de carga tributária, que eram anualmente divulgados pela Receita Federal, mas pararam de ser publicados em 2017, tal qual o anuário estatístico da Previdência Social. Para o pesquisador, as informações são fundamentais em discussões em torno de reformas como a tributária e a administrativa, que estão na pauta do Congresso para este ano. “No aspecto doméstico, a falta de transparência dificulta a avaliação das propostas e políticas no debate público. Já do ponto de vista internacional, pode prejudicar alguns pleitos do país, como a intenção de ingressar na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico).”

Dados sobre o funcionalismo público ainda não foram destrinchados pelo Governo Federal. Neste mês, o presidente Bolsonaro destacou em seu perfil no Twitter a divulgação em dados abertos dos pagamentos aos servidores aposentados e pensionistas, como parte de um suposto compromisso para “fortalecer a transparência em defesa do interesse público e combate à corrupção”. No entanto, a publicação das informações só aconteceu por determinação do Tribunal de Contas da União (TCU), que julgou procedente uma ação de 2017 protocolada pela agência de dados Fiquem Sabendo. De acordo com a entidade independente, “o atual Governo agiu contra a transparência ao tentar barrar a divulgação dos dados, apresentando recursos que atrasaram a decisão final do TCU”.

Na mesma semana, Bolsonaro reafirmou a pretensão de tornar seu Governo mais transparente, garantindo ter recomendado providências a todos os ministros e que deu mostras nesse sentido ao lançar painéis eletrônicos com informações relacionadas ao pagamento de benefícios do Bolsa Família e do INSS. “Nosso Governo tem o compromisso de apurar e sanar quaisquer irregularidades detectadas ou denunciadas e, acima de tudo, dar transparência às despesas públicas com o intuito de engajar nossa sociedade na fiscalização contínua dos recursos públicos”, disse o presidente.

Comparado a 2018, houve crescimento de 4,5% nas solicitações de dados federais, que podem ser feitas por qualquer cidadão, no primeiro ano de gestão bolsonarista, mas abaixo da média progressiva anual (5,1%) registrada desde a efetivação da Lei de Acesso à Informação (LAI), em 2012. Entretanto, segundo levantamento da Controladoria-Geral da União (CGU), o sistema ainda não é garantia de acesso irrestrito à prestação de contas dos órgãos públicos. Cerca de 8% dos pedidos são negados pelas instituições —a maioria por alegação de dados sigilosos—, enquanto 79% retornam aos solicitantes com atraso e 36% com informações incompletas.

Volta do complexo vira-lata

Jair Bolsonaro é um governante com pouco apreço pelos governados. O presidente já fez diversos comentários ofensivos a índios e negros. Ontem ele divulgou um vídeo que menospreza os brasileiros em geral.

A gravação é estrelada por um jornalista que deixou a televisão e virou porta-voz informal do governo. Numa palestra, ele sugere que o Brasil deveria “trocar de população” com o Japão.

“Com este subsolo, este clima, alguém teria dúvida de que os japoneses transformariam isso aqui em primeira potência do mundo em dez anos?”, pergunta. Em tom de piada, ele sugere que os brasileiros não fariam o mesmo no Japão. “Lá, eu não quero pensar”, ironiza.


O discurso reforça a ideia preconceituosa de que os brasileiros seriam preguiçosos e avessos ao trabalho. Mesmo assim, ganhou o aval do presidente. “Essa é para assistir algumas vezes e compartilhar”, ele tuitou.

O sonho de trocar de povo é mais antigo que o bolsonarismo. Em 1920, Oliveira Viana escreveu que negros, índios e mestiços exerciam uma “força repulsiva e perturbadora” sobre o caráter nacional. Com base nessa mentalidade, o governo passou a filtrar a entrada de imigrantes para “branquear” a população.

“Essas ideias racistas chegaram aqui na virada para o século XX. A tese era bem simplista: para se tornar uma nação civilizada, o Brasil deveria trazer mais imigrantes europeus”, resume o historiador Fábio Koifman, autor de “Imigrante Ideal: O Ministério da Justiça e a Entrada de Estrangeiros no Brasil (1941-1945)”.

Na época, os japoneses faziam parte do grupo de imigrantes “indesejados”. “Eles não eram considerados brancos”, explica o professor da UFRRJ.

Atribuir os problemas à população é uma saída cômoda para quem está no poder. Se o pior do Brasil é o brasileiro, o governo não pode ser cobrado por seus fracassos. A culpa é sempre do povo, não dos dirigentes.

Sem conhecer Bolsonaro, Nelson Rodrigues atribuía os males nacionais a um sentimento de inferioridade em relação a outros países. Com a vitória na Copa de 1958, o cronista pensou que o “complexo de vira-latas” havia ficado para trás. Estava enganado.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

Bolsonaro, ano 1

Ele veio como um terremoto, mobilizando as profundezas da sociedade. Assustou, verdadeiramente. E continua a assustar, pois o tremor que se sentiu continua, dia após dia, sob fogo cerrado de um discurso intolerante e de uma linguagem marcada pela confrontação permanente, sem remissão nem acordos. Em meio ao turbilhão que se instalou com a vitória e ascensão ao poder de Jair Bolsonaro, já é tempo de entender que ele não veio “do nada”. O antipetismo que se formou desde as manifestações de 2013 até o impeachment de Dilma Rousseff foi o que essencialmente o elegeu. Mas há mais do que isso.

É necessário, de saída, reconhecer que Bolsonaro foi eleito dentro dos parâmetros democráticos que nos guiam e, portanto, sua vitória está coberta de legitimidade. Interessa a Bolsonaro ultrapassar a imagem de que seu êxito representou apenas um instante fugaz. Quer conclamar homens e mulheres a segui-lo e refazer o caminho de sua vitória eleitoral, rumo a outra, a de 2022. Mesmo com os olhos mergulhados no passado, busca alterar o tempo histórico. Mais importante do que conquistar posições que lhe garantam trânsito sustentável em direção ao futuro, importa instituir um movimento, em tempo curto, que o leve a mais um mandato.

No já longínquo 2018, o candidato derrotado do PT, Fernando Haddad, balbuciou palavras referentes à “resistência” de uma “outra nação”, mas permaneceu imóvel, como seu partido, esperando a “soltura” de seu guia, que continuaria a vociferar como antes, reiterando que nada mudara em sua visão. Diferentemente de Bolsonaro, Lula movimenta-se no sentido de voltar a ter posições mais favoráveis nas relações de força que compõem o difícil e complexo terreno da política brasileira nos dias que correm. Na linguagem preferida do velho líder: “corre muito, quer o jogo concentrado nele, mas marca poucos gols”!

A consigna de “resistência” a Bolsonaro foi aceita quase que generalizadamente, mas deveria ser traduzida por uma estratégia de construção de uma “oposição democrática” no corpo das instituições, na opinião pública e na sociedade, cuja principal missão deveria ser a de evitar que “as inclinações autoritárias do presidente eleito e do seu entorno” se transformem em “regime político”, como expusemos em Política Democrática Online 2, em novembro de 2018 (pp.18-19). Transcorrido um ano do governo Bolsonaro, não parece que tal objetivo tenha perdido sua validade, muito ao contrário. Atesta-se, por outro lado, a incapacidade do PT em dar corpo e solidez a essa estratégia.

O ano passou com Bolsonaro fazendo questão de se afirmar como o comandante de um governo de “destruição” de tudo que se havia construído nos 30 anos de vigência da Constituição de 1988. Fez questão de não evitar e mesmo assegurar suas posições homofóbicas, racistas, antiecológicas, antiparlamentares, anti-institucionais, antidemocratas ou similares. Foi mais corporativo, em defesa dos diversos grupos militares e religiosos que o apoiam, do que reformista. Mesmo quanto à Reforma da Previdência, aprovada em 2019, Bolsonaro não pode proclamar como uma vitória sua, uma vez que pouco ou nada fez para que ela passasse na Câmara e no Senado.

Diante das dificuldades de governança e do declínio em sua popularidade, atestado nas pesquisas, o presidente não se furtou a estimular especulações a respeito da sua sucessão. Sem um projeto claro a perseguir como marca de governo, Bolsonaro passou o ano fazendo com que a questão eleitoral de 2022 fosse o terreno oculto a lhe possibilitar uma contraposição retórica com seus possíveis adversários. O presidente da República não teve dúvidas em instrumentalizar antecipadamente sua sucessão para sondar como andam seus apoios, sem necessitar, mais uma vez, ceder à articulação com o mundo político.

Parece convencido de que investir suas fichas nas correias de transmissão que lhe deram a vitória eleitoral, com prevalência para as redes sociais, poderá lhe garantir a vitória novamente. Permanecer com o percentual de apoio que lhe assegure um lugar no segundo turno em 2022 é o objetivo almejado. Bolsonaro subiu a rampa do Planalto, mas imediatamente retornou ao palanque: é um presidente-candidato, como o foi Lula, o tempo todo, embora os estilos sejam notavelmente diferentes.

Ideologicamente, Bolsonaro é, sem dúvida, um político reacionário e regressivo que, para chegar a ser conservador, necessitaria de um programa de governo consonante com o desenvolvimento brasileiro e com os avanços civilizacionais do Ocidente, mas que supusesse um “freada de arrumação”, visando a garantir ou conservar parte do padrão histórico alcançado em ambas dimensões. Entretanto, Bolsonaro (e seu entorno, filhos inclusos) não chega a ser um conservador. Quer retroagir a marcha da história. Menos ainda um liberal, em termos políticos. Inúmeras vezes vociferou indiretamente contra a Constituição, a “Carta das liberdades e dos direitos”, como a ela se referia o liberal Ulisses Guimarães. Bolsonaro rejeita os vetores emancipatórios contidos nas transformações valorativas da modernidade. As metamorfoses atuais do mundo lhes são inadmissíveis. Identifica-se essencialmente com o mundo do pentecostalismo e seu cortejo de falaciosas restrições.

No plano internacional, Bolsonaro aposta na sua capacidade de anular a dinâmica e os efeitos da globalização entre nós e, por isso, se posiciona claramente contra o globalismo, sustentando um nacionalismo manchado de anacronismo. Diante do irredutível “conflito econômico mundial”, que se expressa de forma global, Bolsonaro não contempla uma perspectiva de cooperação entre os países, isto é, uma política de interdependência que favoreça a convivência entre diferentes e a busca de um destino comum para a humanidade. Sua postura extremista nos tem levado a uma posição subalterna ao atual governo norte-americano, além de vincular o país ao que há de mais reacionário na política europeia.

O “ano 1” projetou um líder que se recusou a formar uma base política no Parlamento, rifou o partido pelo qual se elegeu e busca construir um “novo partido” (Aliança pelo Brasil), de perfil personalista, seguindo as orientações de Olavo de Carvalho, um ideólogo saturado de nostalgia e extremismo. A construção desse partido seria então a resposta do presidente ao isolar-se do mainstream político e procurar consolidar, na sociedade, um movimento que possa lhe dar sustentação e lhe ser estritamente fiel.

Na dimensão reconhecidamente mais exitosa deste “ano 1”, os parcos resultados alcançados na economia são avaliados em meio a fortes suspeitas sobre sua sustentabilidade. A reforma da Previdência acionou, como afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, “a força de uma recuperação cíclica tradicional, que já existia desde o governo Temer (e que) começou a ganhar tração ao longo dos últimos meses. Mas a lentidão desta recuperação, principalmente na questão do desemprego, criou um ambiente de ceticismo entre os analistas e mesmo junto à sociedade” (Valor, 16.12.2019). Em síntese, a economia deu sinais de que está saindo da recessão provocada pelos disparates efetuados no governo de Dilma Rousseff (PT), mas não tem como avançar senão lentamente, mesmo com o rebaixamento dos juros a um nível jamais visto na história recente.

Em um ambiente político mais apropriado à “guerra de posições”, Bolsonaro preferiu a “guerra de movimento”, como o comandante de um “exército” embrionário identificado no “bolsonarismo”. Entretanto, à diferença dos seus pares internacionais, o iliberalismo de Bolsonaro não demonstrou, neste “ano 1”, força real para impor derrotas à democracia, como sistema político. Embora haja uma sensação de ameaça permanente, não há posições conquistadas no sentido de destruir a democracia da Carta de 1988 em seus fundamentos. As oposições resistem institucionalmente, mas não demonstram capacidade de enfrentar a “guerra de movimento” do bolsonarismo.

O “ano 1” de Bolsonaro está focado no segundo mandato. Ele precisa desesperadamente de sua reeleição. Para isso, quer nos manter estacionados politicamente em 2018.
Alberto Aggio