quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Resenha do terror

“O pior ainda está por vir.” A frase é do presidente JMessias. Abriu esta primeira semana de novembro e foi referência ao óleo que, há três meses, polui mar e praias do Nordeste, ameaça o Norte e parte do Sudeste. Diante de tantos sobressaltos impostos pelo governo e seus próximos, “o pior ainda está por vir” vale mesmo como uma espada sobre nossas cabeças.

Nunca todos viram, ouviram e sofreram tantos absurdos – abusos, deboches, expressão de preconceitos, agressões, deselegâncias, provocações, mentiras – perpetradas pelo núcleo central do poder político no Brasil.


O presidente, filhos e ministros estão à vontade. Como se tivessem certeza certa: nada acontecerá qualquer que seja a barbaridade feita ou proferida por eles. Com a vitória nas eleições ganharam um reinado absolutista, independente e superior ao poder de outros órgãos do Estado.

Não é samba do reinado louco. É funk da má intenção. Pesadão. Não são tontos, nem burros ou insanos. São mal-intencionados. E, parece, suas exibições de perversidade ativa levam ao corner os outros poderes que, ora mordem, ora assopram, mas não exercem sua obrigatória autoridade. Comportam-se como se manietados estivessem. Isso assusta tanto quanto o desvario dos desinibidos autocráticos em exercício.

Produzem uma bomba atrás da outra ... às vezes, duas/três ao dia. Mas, em proposital e cínico jogo do contrário, alardeiam perseguição. Como fez o comandante-em-chefe na semana passada: “O tempo todo infernizando a minha vida, porra!” (É textual, parte do live, feito na Arábia Saudita, pelo descontrolado PR, pai da trupe). Aos costumes, finesse zero.

Foram 15 minutos de impropérios e ameaças – à imprensa, ao governador do Rio. Seria a resenha da semana, que foi punk, um tom acima do habitual descaso pelo cargo pela população que governa. Teve mais.

O príncipe Eduardo, ameaçou com reedição do AI5 – o ato institucional que, em 1968, escancarou a ditadura militar no país. Para amenizar, papai-em-chefe garantiu: Não passa de “um sonho” do garoto.

Sonho deles, pesadelo nosso – cada vez mais medonho, por tudo e tanto que temos assistido. Aí incluindo a condescendência do SuperMoro que, depois das desculpas do garoto Eduardo pela ameaça à democracia, assim, em passant, decretou: Caso encerado.

Para o Ministro da Justiça em exercício ameaça à democracia é coisa que se resolve com um pedido de desculpas. É isso mesmo? É.

Mas a semana ainda teve mais dos mesmos, atuando no modo diarreia verbal. Em nova live presidencial, a propósito de eventual contaminação óleo derramado em terra e mar, o Secretário da Pesca, Seif Júnior, tranquilizou: “O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente que você pode consumir seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano.

Essa engasgou até capitão-presidente, que tossiu e, tossindo, tentou consertar: “Obviamente, de vez em quando, fica ali uma tartaruga na mancha de óleo...
um golfinho pode ficar... pra não dizer que ninguém fica, né? Mas tudo bem...

Para o peixe inteligente?

Para o líder indígena Paulo Paulino Guajajara, do grupo Guardiões da Floresta, que foi emboscado e assassinado na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão?

Para os seis generais que pegaram o quepe e deixaram o Planalto, pedindo demissão?

Para o porteiro do Condomínio Vivendas da Barra?

Para os que temem o pior que ainda está por vir?
Tânia Fusco

Miséria cresce, mas continua à margem do debate

O IBGE informa: aumentou o número de brasileiros na extrema pobreza. Em 2018, o país passou a ter 13,5 milhões de pessoas sobrevivendo com menos de R$ 145 por mês. É um contingente maior do que a população inteira de países como Portugal, Grécia e Bolívia.

Desde 2014, houve um salto de 50% no número de miseráveis. Isso significa que 4,5 milhões de brasileiros foram empurrados para a base da pirâmide social. É a face mais perversa da crise, que reduziu os empregos e a renda de quem ainda tem trabalho.

A omissão do poder público também contribuiu para o aumento da extrema pobreza. A parcela de lares atendidos pelo Bolsa Família, que era de 15,9% em 2012, caiu para 13,7% no ano passado. O valor real dos benefícios diminuiu, com congelamentos e reajustes abaixo da inflação.

O economista Marcelo Neri, da FGV Social, diz que o arrocho agravou as dificuldades de quem luta pela sobrevivência. “O país resolveu economizar às custas dos mais pobres. Só que isso não gerou uma economia expressiva e ainda aumentou a miséria”, explica.

Em tempos de crise, é esperado que o Estado reforce a rede de proteção social. No Brasil dos últimos anos, deu-se o contrário. “O país recolheu a rede quando mais precisa dela”, resume o professor.

A Síntese de Indicadores Sociais revela outras faces do nosso abismo. Em 2018, o percentual de empregados com carteira assinada caiu para 47,4%, menor índice já registrado pelo IBGE. Isso ocorreu um ano após a aprovação da reforma trabalhista, vendida como panaceia por governo e entidades patronais.

O estudo divulgado ontem lembra que a precarização eleva a desigualdade. Sem vínculo formal, os trabalhadores perdem direitos básicos como salário mínimo, aposentadoria e licenças remuneradas.

O sabor da Excelência

As redes de fast-food na Itália não pegaram muito entre os nativos. Entre numa lanchonete dessas em Roma, Florença ou Milão e verá que, sim, estão cheias – mas de turistas que foram comer barato e fazer xixi. Os italianos em geral torcem o nariz para aquelas matérias insípidas colocadas num pão, rodeadas de alface murcha e lambuzadas em molhos de composição duvidosa.

Cozinheiros da Toscana estão atentos ao aperfeiçoamento do paladar da meninada. E antes que as crianças sejam abduzidas pelos sanduíches produzidos em série, tomaram uma iniciativa genial. Voluntários estão montando mesas nas praças das pequenas cidades e convidando as famílias e suas crianças para animadas degustações gastronômicas.

Dessa forma, os chefs vão mantendo a cultura de seus tataravós e – mais importante – cuidam da saúde dessa geração, mostrando a diferença colossal entre alimentos de qualidade, saudáveis e nutritivos, e porcarias feitas em série. É um padrão da excelência.

“A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho anterior”. Popular na internet, a frase é atribuída a Einstein, mas há controvérsias. Na mesma época, o poeta e catedrático Sir Oliver Wendell Holmes disse algo idêntico: “A mente humana, uma vez ampliada por uma nova consciência, jamais retorna à sua dimensão original”.

Não importa quem foi o autor da frase; ambos já tinham percebido a essência da Excelência, com letra maiúscula.


O ser humano só se transforma por essa via do “ótimo” superando o “bom”; do “novo” superando o “velho”. E padrões melhores não se restringem à cozinha. Estão aí, a toda hora, apontando caminhos para a evolução, a saúde, o convívio, a realização profissional, a gestão pública, o prazer de fazer bem feito – a sabedoria, enfim.

Valorizá-los é uma tarefa urgente da educação num país como o nosso, em casa e nas escolas. As asneiras correm fácil. Bastam alguns minutos de TV ou internet para perceber que os exemplos do mal e do pior atacam incansáveis pelos flancos – nos comportamentos, nas artes, na glamourização do grotesco.

Engraçado: lembrei-me do exemplo dos cozinheiros italianos ao ouvir as novas propostas econômicas para o país. Show de bola, é a materialização do mote “mais Brasil e menos Brasília” do ministro Guedes.

A descentralização do poder não é novidade, faz parte da estrutura de nações que deram certo. Além dos efeitos positivos na gestão, com ela despencam também cabides dos coronéis, dos lobistas; alguns esquemas asquerosos que vinham atrasando o país como bolas de ferro nos pés de presidiários.

Que venha o novo, o melhor, o diferente – que têm, como inimigos, os partidários do atraso, os vampiros da miséria que perdem seus discursos apocalípticos e seus votos.

Hoje à tarde, o STF dará um passo com repercussões profundas. A imagem desses senhores não anda lá essas coisas, porém valerá a lei; tal decisão terá efeitos práticos no comportamento geral dos cidadãos.

Usando a costumeira verborragia e as firulas incompreensíveis aos mortais, o Supremo terá que definir se: a) a lei é igual para humildes e poderosos ou b) a balança continuará pendendo para o lado mais rico.

Só isso, fim de papo. Ou vamos em frente, ou a velha senhora Justiça permanecerá refém dos donos da grana e de seus advogados de luxo.

O que será posto hoje na mesa também envolve a diferença entre o bom e o ruim. Ainda que aquelas Excelências tentem revestir o malfeito com sabores artificiais e rebuscados, não conseguirão enganar nosso paladar. O brasileiro já está sentindo um pouco do novo sabor da excelência.

Brasil a perigo


Convite às autoridades: passem o mês com R$ 145

Há no Brasil 13,5 milhões de estômagos que sobrevivem com menos de R$ 145 por mês. Isso equivale a R$ 36,25 por semana. Ou R$ 4,83 por dia. Um Big Mac sai por R$ 16,90. Ou seja, um sanduíche consome a renda de três dias desses estômagos, alojados no organismo dos brasileiros que o IBGE chama de extremamente pobres. Os dados são de 2018. Atrasando o relógio, verifica-se que o contingente vem aumentando desde 2014, quando Dilma Rousseff arruinou a economia do país.

Para esses brasileiros que trazem um espaço baldio entre o esôfago e o duodeno, o debate sobre direita e esquerda, políticas liberais versus políticas sociais é uma inutilidade indigesta. Se Deus tiver que aparecer no pesadelo dessa gente, não será na forma de Bolsonaro ou Dilma. O Todo-Poderoso não se atreveria a surgir em outra forma que não fosse a de um prato de comida.



Em entrevista publicada há quatro dias, na "Folha", o ministro Paulo Guedes lamentou que não tenha prosperado sua proposta sobre o regime previdenciário de capitalização. Declarou que esse modelo "educaria financeiramente as famílias mais pobres". Como assim? "Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo". O IBGE esclarece que os mais pobres consomem nada.

A economia começa a reagir. Mas a reação é demasiado lenta. E o estômago que vive além das fronteiras da pobreza não dispõe de tempo para esperar pelo dia em que conseguirá educar-se financeiramente a ponto de poupar, como deseja Paulo Guedes. O mundo desses estômagos cabe no intervalo entre uma refeição e outra. Seu relógio biológico só tem tempo para certas horas: a hora do café, a hora do almoço, a hora do jantar...  Nessa rotina, a hora da poupança não se encaixa.

Certas autoridades deveriam passar um mês com R$ 145. Chegariam ao final da experiência com uma fome de ministro —ou de presidente da República. Dessas que o sujeito resolve abrindo uma geladeira bem abastecida. Talvez percebessem que as reformas liberais não precisam ser adotadas em detrimento das políticas sociais. Afinal, para que serve o equilíbrio fiscal senão para resolver o drama social de forma consistente?

Um governo instalado há apenas dez meses tem o legítimo direito de colocar em prática as ideias que prevaleceram nas urnas recém-abertas. Seria uma tolice questionar esse direito. Admita-se, para efeito de raciocínio, que as providências encaminhadas pela atual administração serão um sucesso. Ainda assim, a prosperidade não virá instantaneamente.

Convém abrir os olhos para os extremamente pobres. Tratá-los como seres invisíveis é vergonhoso e desumano. Criticar os governos anteriores não resolve o problema dos estômagos em cujas paredes ardem os jatos de suco gástrico. Melhor buscar maneiras de atenuar o drama da transição entre a fome e a bonança que produzirá hipotéticos excedentes para a poupança.

Harari contra o ultranacionalismo

Dado que o gênero humano constitui agora uma única civilização, todos os povos compartilhando desafios e oportunidades comuns, por que britânicos, americanos, russos e diversos outros grupos voltam‐se para o isolamento nacionalista? Será que o retorno ao nacionalismo oferece soluções reais para os problemas inéditos de nosso mundo global, ou é uma indulgência escapista que pode condenar o gênero humano e a biosfera à catástrofe?

Para responder a essa pergunta devemos primeiro dissipar um mito muito difundido. Ao contrário do que diz o senso comum, o nacionalismo não é inato à psique humana e não tem raízes biológicas. É verdade que os humanos são animais integralmente sociais, e a lealdade ao grupo está impressa em seus genes. No entanto, por centenas de milhares de anos o Homo sapiens e seus ancestrais hominídeos viveram em comunidades pequenas e íntimas, com não mais que algumas dezenas de pessoas. Humanos desenvolvem facilmente lealdade a grupos pequenos e íntimos como a tribo, um batalhão de infantaria ou um negócio familiar, mas a lealdade a milhões de pessoas totalmente estranhas não é natural para humanos. Essas lealdades em massa só apareceram nos últimos poucos milhares de anos — em termos evolutivos, ontem de manhã — e exigem imensos esforços de construção social.


As pessoas se deram ao trabalho de construir coletividades nacionais porque se confrontavam com desafios que não podiam ser resolvidos por uma única tribo. Tomem‐se, por exemplo, as antigas tribos que viviam ao longo do rio Nilo milhares de anos atrás. O rio era sua força vital. Ele irrigava os campos e transportava o comércio. Mas era um aliado imprevisível. Se havia pouca chuva, as pessoas morriam de fome; se havia chuva demais, o rio transbordava e destruía aldeias inteiras. Nenhuma tribo poderia resolver sozinha seus problemas, porque cada tribo só dominava uma pequena seção do rio e não poderia mobilizar mais do que poucas centenas de trabalhadores. Somente um esforço comum para construir enormes barragens e cavar centenas de quilômetros de canais poderia conter e controlar o poderoso rio. Esse foi um dos motivos pelos quais as tribos aos poucos coalesceram numa única nação que teve o poder de construir barragens e canais, regular o fluxo do rio, construir reservatórios de grãos para os anos magros e estabelecer um sistema de transporte e comunicação abrangendo todo o país.

Apesar dessas vantagens, transformar tribos e clãs em uma única nação nunca foi fácil, em tempos passados ou hoje em dia. Para se dar conta de como é difícil identificar‐se com essa nação, você só precisa se perguntar: “Eu conheço essas pessoas?”. Sei o nome de minhas duas irmãs e de meus onze primos, e sou capaz de falar um dia inteiro sobre suas personalidades, seus caprichos e seus relacionamentos. Não sei o nome das 8 milhões de pessoas que compartilham comigo a cidadania israelense, nunca me encontrei com a maioria delas, e é muito pouco provável que as encontre no futuro. Minha capacidade de, apesar disso, sentir que sou leal a essa massa nebulosa não é um legado de meus ancestrais caçadores‐coletores, e sim um milagre da história recente. Um biólogo marciano que conhecesse apenas a anatomia e a evolução do Homo sapiens seria incapaz de adivinhar que esses macacos são capazes de desenvolver laços comunitários com milhões de estranhos. Para convencer‐me a ser leal a “Israel” e seus 8 milhões de habitantes, o movimento sionista e o Estado israelense tiveram de criar um gigantesco aparelho de educação, propaganda e patriotismo, assim como sistemas nacionais de segurança, saúde e bem‐estar social.

Isso não quer dizer que haja algo de errado com vínculos nacionais. Sistemas imensos não são capazes de funcionar sem lealdades de massa, e expandir o círculo de empatia humana tem seus méritos. As formas mais amenas de patriotismo têm estado entre as mais benevolentes criações humanas. Acreditar que minha nação é única, que ela merece minha lealdade e que eu tenho obrigações especiais com seus membros inspira‐me a me importar com os outros e a fazer sacrifícios por eles. É perigoso acreditar que sem nacionalismos estaríamos todos vivendo em paraísos liberais. Mais provavelmente, estaríamos vivendo num caos tribal. Países pacíficos, prósperos e liberais, como a Suécia, a Alemanha e a Suíça, cultivam todos um forte senso de nacionalismo. A lista de países aos quais faltam ligações nacionais robustas inclui o Afeganistão, a Somália, o Congo e muitos outros Estados falidos.

O problema começa quando o patriotismo benigno se transforma em ultranacionalismo chauvinista. Em vez de acreditar que minha nação é única — o que é verdadeiro para todas as nações —, eu poderia começar a sentir que minha nação é suprema, que devo a ela toda a minha lealdade e que não tenho obrigações relevantes com mais ninguém. Esse é um terreno fértil para conflitos violentos. Durante gerações a crítica mais básica ao nacionalismo era que ele levava à guerra. Mas a constatação de que havia relação entre nacionalismo e violência dificilmente era capaz de conter os excessos nacionalistas, particularmente quando toda nação justificava sua própria expansão militar alegando a necessidade de se proteger contra as armações de seus vizinhos. Enquanto a nação provia a maior parte de seus cidadãos com níveis inéditos de segurança e prosperidade, eles estavam dispostos a pagar o preço com sangue. No século XIX e início do século XX esse compromisso nacionalista ainda parecia muito atraente. Embora o nacionalismo estivesse levando a terríveis conflitos numa escala sem precedente, os Estados‐nação modernos também construíam sistemas robustos de saúde, educação e bem‐estar social. Os serviços nacionais de saúde faziam com que as batalhas de Ipres e de Verdun parecessem ter valido a pena.

Tudo mudou em 1945. A invenção de armas nucleares abalou fortemente o equilíbrio do arranjo nacionalista. Depois de Hiroshima, as pessoas não temiam que o nacionalismo pudesse levar meramente à guerra — começaram a temer que levaria a uma guerra nuclear. A aniquilação total serviu para aguçar a mente das pessoas, e graças, não em pequena medida, à bomba atômica, o impossível aconteceu e o gênio do nacionalismo foi espremido, ao menos em parte, de volta para sua garrafa. Assim como os antigos aldeões da bacia do Nilo redirecionaram parte de sua lealdade dos clãs locais para um reino muito maior capaz de conter o perigoso rio, na era nuclear uma comunidade global aos poucos se desenvolveu além e acima das várias nações, porque somente uma comunidade desse tipo seria capaz de conter o demônio nuclear.

Na campanha presidencial de 1964, Lyndon B. Johnson pôs no ar o famoso “anúncio da margarida”, uma das mais bem‐sucedidas peças de propaganda nos anais da televisão. O anúncio começa com uma garotinha colhendo e contando as pétalas de uma margarida, mas quando chega a dez uma voz metálica assume a contagem regressiva, de dez a zero, como num lançamento de míssil. Ao chegar a zero o clarão de uma explosão nuclear enche a tela, e o candidato Johnson dirige‐se ao público americano e diz: “É isto que está em jogo. Criar um mundo no qual todos os filhos de Deus podem viver ou entrar na escuridão. Devemos ou amar uns aos outros ou morrer”. Tendemos a associar o mote “faça amor, não faça guerra” à contracultura do final da década de 1960, mas na verdade já em 1964 era consenso até mesmo entre políticos durões como Johnson.

Consequentemente, durante a Guerra Fria o nacionalismo cedeu lugar a uma abordagem mais global da política internacional, e quando a Guerra Fria acabou a globalização parecia ser a irresistível onda do futuro. Esperava‐se que o gênero humano abandonasse a política nacionalista, como se fosse uma relíquia de tempos mais primitivos que atrairia no máximo os mal informados habitantes de alguns países subdesenvolvidos. Acontecimentos em anos recentes provaram, no entanto, que o nacionalismo ainda é capaz de seduzir até mesmo cidadãos da Europa e dos Estados Unidos, mais ainda da Rússia, da Índia e da China. Alienadas pelas forças impessoais do capitalismo global, e temendo pelo destino de seus sistemas nacionais de saúde, educação e bem‐estar social, pessoas em todo o mundo vão buscar conforto e sentido no seio da nação.

Porém a questão levantada por Johnson no anúncio da margarida é ainda mais pertinente hoje em dia do que em 1964. Vamos criar um mundo no qual todos os humanos possam viver juntos ou vamos entrar na escuridão? Donald Trump, Theresa May, Vladimir Putin, Narendra Modi e seus colegas serão capazes de salvar o mundo apelando para nossos sentimentos nacionais, ou será a atual torrente nacionalista uma forma de evadir o intratável problema global que enfrentamos?
Yuval Noah Harari, "21 lições para o século 21"

Cuidado com o efeito Orlofff

As manifestações recentes no Chile sublinham o tamanho do problema. No Brasil, com pobreza extrema, é ainda pior. Não se atenua a pobreza e a desigualdade sem um estado atuante. É preciso ter redes de proteção social fortes. O mercado não resolve sozinho, como já foi mostrado de todo jeito. O Paulo Guedes está preso nos anos 70 do Chile e dos “Chicago boys”. Além disso, ele nunca foi um formulador de políticas públicas, nem precisou de um entendimento mais profundo de políticas públicas sobre a dinâmica da pobreza na vida das pessoas. O Chile passa por uma convulsão pela ausência de bem estar social a despeito de todas as reformas 
Monica De Bolle

Saúde dentro do armário

Após tornarem-se tendencialmente residuais ou decrescentes, flagelos como a sífilis, a peste medieval, e a Aids, a epidemia do século XX, retornaram ao topo das estatísticas dos problemas de saúde. Os modos de transmissão e riscos populacionais dessas e outras doenças sexualmente transmissíveis são conhecidos, e existe tratamento. A incidência é muito maior entre homens que fazem sexo com homens, usam drogas injetáveis, profissionais do sexo e transexuais. Diagnóstico, cura e controle estão relativamente disponíveis; reconhecer e buscar reduzir preconceitos contra gays, usuários de drogas e prostitutas, nem sempre.


Para reduzir a transmissão dessas antigas e modernas doenças, é preciso sair do armário. O Ministério da Saúde acerta ao divulgar informações sobre aumento de casos, mas erra na propaganda. A campanha “Não vacile, use camisinha” é baseada no terror, tenta assustar os jovens, com imagens de efeitos visíveis de algumas doenças no corpo. O medo pode influenciar comportamentos. Mas está comprovado que a intenção de engajar as pessoas em experiências com menor risco à saúde requer apelos às emoções positivas relativas ao sexo.

Cenas de pavor podem contribuir para suscitar intenções de mudar atitudes, mas não as decisões que são tomadas em situações concretas. Além disso, usar camisinha não é, em muitas circunstâncias, uma iniciativa individual. Diálogo difícil ou expectativas negativas sobre a reação de parceiros influenciam escolhas. O clima, a excitação do momento, é uma barreira mencionada para não usar preservativos. Programas que enfatizam os perigos do sexo desprotegido são menos efetivos do que os que estimulam o aumento do prazer sexual com camisinha ou baseados na concepção de que sexo seguro é bom. Querer usar preservativos é diferente de sentir que deveria usar e não conseguir.

Políticas de saúde têm que sair do armário. Preconceitos contribuem para a disseminação de doenças graves em adultos e em bebês, gravidez indesejada e infertilidade. Convicções pessoais sobre a atribuição de culpa pelo risco e doença a indivíduos que não souberam se controlar são fundamentos equivocados. As evidências comprovam que a invocação de estereótipos tende a ser respondida defensivamente ou com desdém por parte dos segmentos populacionais que necessitam de apoio para afirmar identidades e desejos bem como prevenir adoecimento.

Durante a campanha presidencial não faltaram promessas de censura da “mamadeira” alusiva ao pênis e à camisinha. Está aí o resultado. Uma propaganda que não menciona Aids e gravidez. Direciona-se aos jovens em geral, e não às populações-chave; enfatiza o pânico e o nojo a sintomas (que nem sempre ocorrerão, especialmente em mulheres), e oculta as relações amorosas e sexuais, dificultando a adesão às práticas seguras. A substituição de diretrizes técnicas por ameaças instaura a prepotência.

Quando interrogado sobre como resolver o problema, o ministro da Saúde subiu o tom. Respondeu que pretende punir, sem dizer como, os que recusarem tratamento. O alinhamento radical aos preceitos de costumes pretensamente castos pode desequilibrar os frágeis suportes políticos de uma área às voltas com cortes de gastos, adiamento sine die do pagamento da dívida do presidente Bolsonaro, de instituir uma carreira para médicos e medidas polêmicas na atenção básica do SUS.

Conservadorismo nos costumes não combina com o anúncio de autodeclaradas inovações, como o financiamento diferenciado por status social e não de saúde e mobilização de enfermeiros para realizar atos considerados de competência exclusiva de médicos. Mexer e remexer na saúde sem objetivo de evitar e atenuar doenças é indício de um outro tipo de praga, a irresponsabilidade administrativa. A infecção inicia com a obstrução do debate e evolui para os delírios de perseguição e grandeza. Medidas simples — como estudar as experiências internacionais e avaliar com acurácia os efeitos da atual campanha para doenças sexualmente transmissíveis — restabelecem conexões com a realidade.
Ligia Bahia

quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Nova economia do Brasil


De J.Portela@edu para Heleno@mil

Caro general,
Outro dia o senhor falou das dificuldades para se baixar um Ato Institucional nº 5 no Brasil de hoje. Nas vossas palavras: “Essas coisas, hoje, num regime democrático... é complicado. Tem de passar em um monte de lugares. Não é assim. (...) Tem de estudar como vai fazer, como vai conduzir”.

Para se fazer o AI-5 era preciso destruir a ordem constitucional da Carta de 1967, e posso dizer que vi a arquitetura desse desmanche. Eu, Jaime Portela de Melo, general, paraibano, chefe do Gabinete Militar do presidente Costa e Silva, estive em todas as encrencas militares do meu tempo.

Acho que o senhor, ou qualquer outra pessoa disposta a estudar como se pode conduzir o Brasil para um AI-5, deve entender que faltam diversas condições. Hoje não há uma esquerda assaltando bancos, sequestrando aviões, matando militares e planejando guerrilhas rurais. 2019 não é 1968, a Venezuela não é Cuba e a China não é o Vietnã. Tínhamos também um ministro do Exército vaidoso, vazio e vacilante.


De qualquer forma, quero mostrar os ingredientes que foram adicionados à crise.

Primeiro, precisa-se de alguém que fique falando na necessidade de um ato institucional. Já em janeiro de 1968, o senador Dinarte Mariz, meu amigo, defendia essa ideia.

Havia uma tensão vinda da esquerda e ela foi exacerbada. Antes do primeiro assalto a banco de Carlos Marighella, houve um roubo de armas num quartel da Força Pública de São Paulo. Isso era coisa de um maluco que estudava discos voadores, um místico dado a profecias anunciando a chegada do Anticristo. Usava muitos nomes, inclusive o de Aladino Félix.

Ele disse que recebia ordens minhas, mas, sendo maluco, quem há de crer? Esse doido explodiu 14 bombas em São Paulo e assaltou pelo menos um banco. Não matou ninguém. Já o terrorismo da esquerda, só em 1968, matou seis militares (dois estrangeiros).

A estratégia da tensão foi ajudada por esquadrões que tumultuavam espetáculos e espancavam artistas. No Rio um grupo de terroristas punha bombas em teatros vazios e livrarias fechadas. Nele militavam oficiais da reserva e da ativa, lotados no Centro de Informações do Exército. Eles explodiram 18 bombas. Fez-se nada. Dois cidadãos foram sequestrados e levados para um quartel, onde os torturaram. Não sei como, mas os americanos desvendaram esse caso.

O Alceu Amoroso Lima, católico, porém comunista, me chamava de “sanguinário”. Em julho mostrei ao Conselho de Segurança Nacional que havia um plano internacional de tomada do poder pela esquerda. Denunciei a cumplicidade da imprensa. Exagerava? Em setembro, o Jornal do Brasil publicou um extenso artigo intitulado “Algumas Questões sobre as Guerrilhas”. Seu autor era Carlos Marighella.

Dias depois da minha fala, Aladino explodiu três bombas em São Paulo, alguém pôs uma bomba numa reunião de estudantes em Porto Alegre e os esquerdistas assaltaram mais um banco em Belo Horizonte.

Quando nós pedimos à Câmara a cassação do Márcio Moreira Alves muita gente achou que o AI-5 seria um plano B. Na reunião do dia 13 de dezembro, quando o presidente baixou o ato, eu disse apenas 14 palavras.

Tensão, general, sem ela não se consegue AI-5.

Atenciosamente,
General Jaime Portela de Melo
Elio Gaspari 

Bolsonaro abre palácio para festival de autoelogios

Jair Bolsonaro completou 300 dias no poder, mas ainda não desceu do palanque. Ontem ele abriu o palácio para mais uma solenidade marcada por autoelogios. Em discurso, voltou a exaltar a própria gestão e a atacar o jornalismo profissional.

O presidente disse que a imprensa “não colabora com o Brasil”. A frase mostra que ele não sabe conviver com críticas — e continua a confundir os interesses do país com os interesses de sua família.

Bolsonaro acusou o jornalismo de tentar “colocar em seu colo” o assassinato de Marielle Franco. Mais uma distorção. Na verdade, o Jornal Nacional informou que ele foi citado no depoimento de uma testemunha, o que obrigou o Ministério Público a submeter o caso ao Supremo Tribunal Federal.



Em outro momento, o presidente saiu em defesa do filho Eduardo, alvo de pedidos de cassação. Disse que ele não merece perder o mandato por causa de suas declarações a favor de um “novo AI-5”. “Em todos os momentos a Câmara respeitou o sagrado direito de opinião, seja ela qual for”, afirmou.

Quando o governo fez 200 dias, as expectativas em relação ao Zero Três eram mais elevadas. Bolsonaro ainda apostava na promoção do herdeiro a embaixador em Washington, plano abortado para evitar uma derrota no Senado. “Eu quero um filho melhor do que eu”, ele justificou, na ocasião.

Ontem o presidente encontrou um jeito de encaixar outra reverência aos Estados Unidos. “Tem um senhor ali com um boné escrito ‘Trump 2020’. É um herói da guerra do Vietnã”, disse, apontando para um idoso que assistia à cerimônia entre as autoridades.

No início da solenidade, o ministro Onyx Lorenzoni usou a tribuna para bajular o chefe. Repetiu sua citação bíblica preferida, exaltou seu discurso desastrado na ONU e criticou a “extrema imprensa”, termo usado pela militância bolsonarista na internet.

Em folheto comemorativo, a Secom anunciou que “os escândalos de corrupção sumiram do Palácio do Planalto e dos noticiários”. Propaganda é propaganda, mas o pessoal não precisa exagerar.

A mentalidade bolsonarista

Para que reste logo assentada a constituição deste escriba, aquilo que dá regência a este texto: não acredito em liberalismo econômico sem liberalismo político. Não numa democracia. Para que fique ainda mais claro, com aplicação prática: não acredito na vitalidade – na viabilidade – de um projeto de reformas liberais do Estado que não tenha os princípios da democracia liberal como um valor inegociável.

Tampouco creio ser possível, no mundo real, atrair investimentos – investimentos, não especulações – para um solo obviamente instável, inseguro; chão cujo desequilíbrio é forjado artificialmente por uma fábrica de crises institucionais que tem centro no próprio presidente da República.

Quem botará dinheiro – para valer, para ficar – nisso aqui?

A rigor, objetivamente, desconfio do interesse de o bolsonarismo, fenômeno autocrático, investir num programa liberal na economia – algo estrutural, com corpo de longo prazo – para além da geração das condições básicas mínimas para um voo de galinha capaz de assegurar a reeleição de Jair Bolsonaro em 2022. Não será preciso muito... Dado o fosso em que nos afundamos, uma breve reação na curva da geração de empregos faria boa parte do serviço.


Argumento nenhum desmonta a minha suspeita – com alicerce histórico – de que a intenção bolsonarista, nem um pouco original, seja usar o liberal econômico para conquistar alguma descompressão fiscal, algum fôlego para gastar, para fazer obras; e depois: tchau. Não seria novidade. É o que os mais espertos entre os populistas fazem.

Muito mais grave do que a recessão econômica é a depressão política que nos ata, pelo menos, desde 2013. É difícil supor que a primeira possa ser superada – com consistência, com fundamentos – sem que resolvamos a segunda. Eu diria: é impossível. Pergunte-se, portanto: será este governo – que opera em guerra constante, que planta conflitos como alimento, que está em campanha permanente, que radicaliza, que avança no racha do “nós contra eles”, que é a própria antipolítica – apetrechado para vencer uma doença política sem precedentes em tempo democrático (e da qual talvez seja a mais alta febre)? Ou seria vocacionado para ardê-la ainda mais?

Como não citar, a propósito, a fábula bolsonarista recente do leão e as hienas? O leão! O presidente leão. O rei da selva. Rei da selva – e (ao mesmo tempo, num arranjo improvável) vítima. Ele, o dono do pedaço, impedido de imperar plenamente por uma concertação golpista de hienas – as próprias instituições da República, os instrumentos de mediação e fiscalização; incluída a imprensa. O maldito establishment que não deixa o homem reinar acima dos marcos republicanos e da democracia representativa.

Para que não haja dúvida: o cenário – divulgado por Jair Bolsonaro em vídeo – expressa real inconformismo ante a teia impessoal que regula o ímpeto do governante por se espalhar. Para que não haja dúvida: as hienas são a institucionalidade – os freios e contrapesos que limitam o abuso de poder.

Não tem como dar certo.

Na já célebre entrevista à jornalista Leda Nagle, aquela em que falou em recurso a algo como um "novo AI-5", Eduardo Bolsonaro declarou também que o que faz um país forte não é um Estado forte; mas indivíduos fortes. Belo, né? Concordo. Há, porém, uma armadilha totalitária na formulação. Vejamos. Quem fala em novo AI-5 fala numa medida de exceção que, obrigatoriamente, suprime – cassa – garantias individuais. Certo? Quem fala em novo AI-5 fala, pois, em Estado forte; obrigatoriamente. Fala, por óbvio, em Estado forte na mão – obrigatoriamente – de indivíduos fortes; porque alguém precisará operar a máquina forte. Certo?

Daí por que se pergunte: quais são os indivíduos fortes de Eduardo Bolsonaro, os que controlariam o Estado? Os leões da família. Governantes fortes.

Isso tem passado; e não é bonito.

Podem me chamar de pessimista. Prefiro o lugar do prudente; do cético. Não importa. Tenham-me na conta do pessimista. Há, contudo, inegável lastro histórico na análise que proponho. Não existe liberalismo econômico sem liberalismo político. Não na democracia. É a história que ensina. O primeiro, sem o segundo, é o paraíso para o autocrata. Não acredito em liberalismo econômico em terra de leão. Mas acredito em liberalismo econômico na boca do leão; sendo sabido – e me desculpo por imagem tão franca – por onde sai o que pela boca entra.

Alguém duvida de que liberal – por ora instrumento necessário – também seja hiena, um inimigo, sob a mentalidade bolsonarista? A história – sempre ela – ensina. A história ensina também que não terão sido poucos os liberais que, caindo no conto do autoritário liberal, legitimaram e financiaram projetos autocráticos de poder. Projetos autocráticos de poder que não tardariam, chupada meia laranja liberal, a descartar o saco liberal todo como bagaço.

Pensamento do Dia

Nova Delhi (Índia)

Governo Bolsonaro vira um martírio para generais

Era de vidro a estima que Jair Bolsonaro parecia nutrir pelos militares que convocou para ajudá-lo a governar. Em dez meses, trincou seis vezes. O capitão expurgou do seu governo meia dúzia de generais. O penúltimo foi o quatro estrelas Maynard Marques de Santa Rosa, que deixou a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência.

Depois que Bolsonaro mandou para o olho da rua um amigo de três décadas, o general Carlos Alberto dos Santos Cruz, desalojado do comando da Secretaria de Governo da Presidência, ficara entendido que a lâmina seria implacável. Mas não se imaginou que, sob o capitão, farda viraria um outro nome para instabilidade no emprego.

Já ficaram pelo caminho os generais Franklimberg de Freitas (Funai), Juarez Cunha (Correios), João Carlos Jesus Corrêa (Incra) e Marco Aurélio Vieira (Secretaria Especial de Esporte). Agora, Maynard Santa Rosa (Secretaria de Assuntos Estratégicos). Santos Cruz, o precursor, foi substituído por outro general: Luiz Eduardo Ramos. Que já recebeu da deputada Joyce Hasselmann um alerta: "Você será o próximo".

A conversão de generais da reserva em funcionários civis despertara muita expectativa. Os pessimistas apostavam na militarização camuflada de um governo supostamente civil. Os otimistas contavam com o talento dos ex-companheiros de caserna para civilizar um presidente que se considera militar a despeito de ter sido excluído da tropa por indisciplina.


Frustraram-se todas as apostas. Nem o governo se militarizou nem o presidente foi civilizado. Abriu-se uma terceira via, que conduz os generais gradativamente à porta de saída sob dois pretextos, ambos humilhantes: hipotética incompetência ou manifesta incompatibilidade com o alto-comando ideológico do governo, chefiado por Olavo de Carvalho desde o estado americano da Virgínia.

Virou fumaça a suposição de que algum general ilustrado faria ao Brasil o favor de tutelar um capitão indomável. Sucede o contrário. Um general como Augusto Heleno, por exemplo, segura-se na chefia do Gabinete de Segurança Institucional contemporizando com ideias amalucadas como a de Eduardo Bolsonaro.

O filho Zero Três do presidente sugeriu um "novo AI-5" como resposta a uma eventual radicalização de esquerda. E Heleno: "Se ele falou, tem de estudar como vai fazer, como vai conduzir. Acho que, se houver uma coisa no padrão do Chile, é lógico que tem de fazer alguma coisa para conter. Mas até chegar a esse ponto tem um caminho longo".

Quer dizer: o governo Bolsonaro tornou-se um martírio para os generais. Ou saem com a fama de incompetentes ou com a pecha de melancia (verde por fora, vermelho por dentro). Para ficar, precisam se infiltrar no meio dos insensatos. O problema é que as pessoas que observam à distância já não conseguem distinguir quem é quem.

Num governo assim, convertido em palco de guerra, bater em retirada passou a ser uma grande vitória para os generais.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Gastam pagando salário de ministro



Os ricos capitalizam os seus recursos. Os pobres gastam tudo
Paulo Guedes, ministro da Economia, neoliberal de raiz, que costumava referir-se ao Chile como uma Suíça tropical

Ganância

Agora que novembro está correndo, já é possível fazer uma análise prévia de 2019. Esotéricos e espiritualistas em geral tinham razão em suas profecias catastróficas. No Brasil o que não faltou foi desastre na natureza. Pior do que vivemos neste ano só mesmo o fim do mundo do Apocalipse de São João.

Em algumas situações, como no caso do rompimento de uma barragem da mineradora Vale, em Brumadinho, Região Metropolitana de Belo Horizonte (MG), eu cheguei a pensar que o anjo do sexto livro havia tocado a trombeta.O mar de lama avançando como um tsunami, que a televisão mostrou, parecia praga bíblica.

Era uma corrente muito rápida e violenta de barro viscoso que se espalhava invadindo campos e cidades, engolindo gente, bicho, cobrindo árvores, fazendo casas desaparecer do mapa, culturas, sentimentos, dignidade. Por onde aquilo passava, tudo era destruído.

Assim como ficamos marcados por aquelas cenas, outra imagem trágica ficou retida em nossa lembrança: a das labaredas de fogo consumindo a maior floresta tropical do mundo. Era o mês de agosto.


As chamas torravam os ecossistemas e parte da floresta amazônica foi devastada pelas queimadas. O Governo Federal, que despreza a pauta ambiental, só veio se interessar pelo problema por causa das pressões internacionais.

É pouco? Em meio a tudo isso, o governo foi permitindo o uso de agrotóxicos nos alimentos. Em onze meses de mandato, já liberou 382 substâncias venenosas. O Brasil, hoje, ostenta o título de maior consumidor de pesticidas do mundo em números absolutos.

Em bom português, há uma liberação de substâncias venenosas que vão parar nas nossas mesas. Os compostos químicos, que são capazes de mexer em nosso organismo e causar danos irreversíveis, acompanham os produtos agrícolas adquiridos em feiras e supermercados. Pior do que morrer de uma vez é intoxicar-se aos poucos?

Quem ainda tinha esperança de dias melhores, não esperava que manchas de óleo chegariam pelo mar, contaminando o litoral nordestino. A população arregaçou as mangas e recolheu toneladas do resíduo, colocando literalmente as mãos no piche. Centenas de pescadores ficaram sem o ganha-pão.

Talvez as previsões não tenham ocorrido ao pé da letra, mas isso é uma questão de interpretação. Os esotéricos alertavam que os planetas estão em alinhamento, criando um ambiente de transformações na Terra, e que era necessário se precaver.

Os presságios foram reforçados com a divulgação de que havia também previsões de Chico Xavier. O grande médium brasileiro, que não fazia profecias, se notabilizou pela facilidade de comunicação com o mundo espiritual. Mas ele teria afirmado que a humanidade está cumprindo em 2019 o final de um período de provação que durou 50 anos.

Estaríamos, portanto, vivendo uma data limite. E isso poderia resultar em eventos de destruição. Se as previsões procedem ou não, é uma questão de crença, e fé não se discute. Uma coisa é certa: o pecado da ganância regeu as tragédias de 2019. Em cada ocorrência, está claro que tem dinheiro envolvido.

O importante agora é a consciência de que precisamos cuidar deste mundo porque ele ainda não acabou. Tem a ver com o respeito à natureza e ao meio ambiente, assim como às pessoas e a todas as formas de vida que nele habitam.

As lições que as tragédias (qualquer tragédia) deixam em seu rastro é que para vivermos em harmonia e empatia precisamos de gente boa e do bem, de energias positivas e de sentimentos milagrosos como tolerância, misericórdia e amor. E isso não depende de fé ou de credo religioso.

Cícero Belmar

'Mudança climática pode provocar sofrimento sem precedentes'

Mais de 11 mil cientistas de 153 países advertiram em um manifesto que a humanidade corre o risco de passar por um "sofrimento sem precedentes" se não forem colocadas em prática mudanças radicais para reduzir os fatores que contribuem para as alterações climáticas.

"Declaramos claramente e inequivocamente que a Terra está enfrentando uma emergência climática", diz o texto, publicado nesta terça-feira na revista BioScience. "Para garantir um futuro sustentável, precisamos mudar a forma como vivemos. Isso implica grandes transformações na maneira como nossa sociedade global funciona e interage com os ecossistemas naturais."


Os cientistas ainda afirmam que não há tempo a perder. "A crise climática chegou e está se acelerando mais rapidamente do que muitos cientistas esperavam. É mais grave do que o previsto, ameaçando os ecossistemas naturais e o destino da humanidade."

De acordo com o documento, os cientistas analisaram informações recolhidas e publicadas ao longo de mais de 40 anos sobre o uso de energia, registros de temperaturas na superfície da Terra, crescimento populacional, desmatamento, perda de calotas polares, índices de fertilidade, emissões de dióxido de carbono e produto interno bruto das nações.

A publicação coincide com o aniversário de 40 anos da primeira Conferência sobre Alterações Climáticas, realizada em Genebra, na Suíça, em 1979. Desde então, cientistas que participam de conferências semelhantes vêm alertando sobre a ameaça da mudança climática e advertindo governos e empresas sobre a necessidade de tomar medidas para moderá-la.

"Os cientistas têm a obrigação moral de alertar a humanidade sobre qualquer grande ameaça. Com base nas informações que temos, fica claro que enfrentamos uma emergência climática", disse Thomas Newsome, da Universidade de Sydney, na Austrália, um dos autores do manifesto.

O artigo ainda inclui indicadores que os pesquisadores descrevem como "sinais vitais" relacionados a essa mudança, bem como as áreas que requerem ação global imediata.

Alguns desses indicadores de atividade humana são positivos, como a crescente incorporação de fontes de energia renováveis, mas a maioria dos indicadores pinta um cenário sombrio, incluindo a crescente população de animais para consumo humano, perda de florestas e emissões de dióxido de carbono.

Os autores expressaram sua esperança de que esses "sinais vitais" sirvam como guia para governos, setor privado e público em geral para que seja entendida "a magnitude da crise" e para que sejam monitorados "os progressos alcançados" e reorganizadas "as prioridades para mitigar as alterações climáticas".

Os cientistas signatários enfatizaram seis objetivos: reforma do setor de energia, redução de poluentes no curto prazo, restauração de ecossistemas, otimização do sistema alimentar, estabelecimento de uma economia livre de dióxido de carbono e uma população humana estável.

Apesar da amplitude de suas preocupações e da magnitude dos esforços que reivindicam, os cientistas expressaram certo otimismo ao mencionarem "um aumento recente na atenção para este problema".

"Agências de vários governos fazem declarações de emergência climática, há greves de crianças em idade escolar, tribunais movem ações judiciais por danos ambientais, movimentos de cidadãos exigem mudanças, e muitos países, estados, províncias, cidades e empresas estão respondendo", concluem.
Deutsche Welle

O Brasil vai acordar?

A oposição assistiu, até agora, passivamente o desenrolar dos acontecimentos. Inúmeras vezes, o presidente atacou os princípios da Constituição de 1988 e somente recebeu tímidas respostas. Na ação administrativa tem solapado a estrutura de Estado construída nos últimos trinta anos, e o seu objetivo é destruir todas as conquistas democráticas. As reações não foram à altura das consequências dos atos. O País ainda está anestesiado ou cansado de enfrentar medidas presidenciais lesivas aos interesses nacionais e públicos.


Pode ser – estamos neste processo desde 2014 – que o enfado tenha tomado conta do sentimento popular. Como se fosse infrutífera qualquer forma de reação, de mobilização, é como se todas as alternativas políticas não contemplassem o anseio de mudança efetiva, real. E a sucessão dos três últimos presidentes reforça esta convicção. O impeachment de Dilma Rousseff trouxe ao poder Michel Temer e depois abriu caminho para Jair Bolsonaro, em um processo de degeneração da política nunca visto na história do Brasil republicano. Sendo assim, o povo deve pensar: adianta protestar? O que pode vir, ainda pior do que o pífio deputado que passou 28 anos no Parlamento sem sequer relatar um projeto?

O desânimo tomou conta daqueles mais interessados em acompanhar a política nacional. O noticiário das sucessivas crises, a falta de alternativas concretas à barbárie bolsonarista, a estagnação econômica, a ausência de um debate nacional sobre os rumos do país, a pobreza da elite política — uma das piores, se não for a pior, do último meio século – produzem um sentimento de apatia. Não adianta participar, ter esperança, pois tudo acaba inalterado, como se a roda da história não se movimentasse. Parece que ela só se mexe para agravar os enormes problemas nacionais.

PGR: Férias de 30 dias nos 3 poderes 'seria o caos'

Ai de quem vive sem horror, pois só o espanto salva a sanidade em tempos de insensatez. Se você acha que já viu tudo, recomenda-se que leia uma nota emitida nesta segunda-feira pelo procurador-geral da República, Augusto Aras. O documento está disponível aqui.

No texto, o doutor rebela-se contra a ideia de acabar com as férias de 60 dias de promotores e procuradores, mimo usufruído também por juízes. Em defesa de sua corporação, Aras converteu-se numa espécie de cavaleiro do Apocalipse.

"Caso o Parlamento pretenda levar adiante a redução das férias, é provável que tenhamos que discutir, também, a necessidade de se estabelecer jornada de trabalho e férias de 30 dias para os membros dos Poderes Legislativo e Executivo – o que seria o caos na vida nacional."


A lipoaspiração nas férias dos membros do Ministério Público é discutida no âmbito da reforma administrativa do governo. Consta de proposta de emenda à Constituição relatada pelo líder de Jair Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra.

Aras poderia defender a extinção ampla, geral e irrestrita das férias em dobro. Mas preferiu utilizar seu poder de persuasão na construção de uma tese mosqueteira: "Um por todos, todos por hummmmmmm...."

Dias atrás, ao comentar o flagelo do desemprego, Jair Bolsonaro afirmou: "O pessoal sempre fala em direito, direito, direito… E esquece deveres. O que eu tô sentindo por parte do trabalhador é que eles já falam: 'Se for possível, menos direito e [mais] emprego'. E Aras: Não ousem tocar nos nossos privilégios.

Admitindo-se que a Procuradoria siga o calendário do Judiciário, o repouso anual não é de 60 dias, mas de 88 dias. Nessa conta, observada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, entram, além das férias, um recesso de final de ano e feriadões prolongados.

Aras alega que promotores e procuradores suam demasiado a camisa. "A carga de trabalho de cada membro torna-se até certo ponto desumana..." E a redução das férias em dobro levaria procuradores a "descumprir prazos, dobrando ou triplicando os 110 milhões de processos que hoje existem".

A tese do procurador-geral é desconexa e insultuosa. Não faz nexo porque excesso de processos se resolve com mais trabalho, não com mais férias. Insulta a inteligência alheia porque subverte o significado de crueldade. Desumano é não ter um contracheque para encher a geladeira. Ou arrostar a sobra do mês no fim do salário.

Tudo muda no Brasil, exceto a disposição das autoridades de suportar na própria pele todas as vantagens que o déficit público puder financiar. Em situação normal, as férias de 60 dias seriam um absurdo. Num país "empregocida", com 12 milhões de pessoas no olho da rua, tornam-se um escárnio.

É verdade que o brasileiro se espanta cada vez menos. Virou um cidadão de poucos espantos. Suprimiu dos seus hábitos o ponto de exclamação. Mas não convém cutucar a sociedade com o pé. Ela pode morder.

A galinha do vizinho

Dia desses, participando de uma reunião, fui brindado com a seguinte frase: “Amanhã vamos criar um workgroup para estartar a análise do case e providenciar um feedback asap”.

Confesso que fiquei a pensar, naquele momento, no que aconteceria se em alguma reunião lá nos Estados Unidos um dos participantes dissesse: “Tomorrow we will create a grupo de trabalho to começar the analysis of the caso and arrange a retorno no menor lapso de tempo possível” – seria, no mínimo, caso de demissão, e talvez até mesmo de internação.

Saindo dali, ao voltar para casa, passei em frente a um dos “Business Center Plaza Bureau Convention Building & Office Tower” da vida. É curioso. Nunca tive a oportunidade de encontrar, seja na Europa ou nos EUA, uma série de edifícios com nomes brasileiros.


Há também os “Medical Health Center Diagnostic Image & Scan” – aliás, sobre estes, há algum tempo um médico amigo me dizia da dificuldade em ensinar o endereço de seu consultório para pacientes que não falam inglês. Também aqui, nunca ouvi falar de algum país de língua inglesa que nos preste tal homenagem em seus prédios.

Quer tirar férias? Vá a algum “Resort Inn Relax Flat Suites Hotels & Room Living Residence Service” – mas cuidado ao passar o endereço para o motorista de táxi, pois pode ser que ele não fale inglês e acabe perdido. Uma vez mais, desconheço onde quadro similar seja visto no exterior.

É este o ponto que gostaria de abordar: o da reciprocidade. O do amor-próprio. O do respeito pela cultura de todo um povo. O do provincianismo que amesquinha. O do sentimento de brasilidade, enfim.

Desde logo advirto: não prego o isolamento, e muito pelo contrário. Temos que nos integrar ao mundo. Devemos, sim, estudar outros idiomas, conhecer outras culturas e procurar assimilar o que elas tiverem de bom. Tudo isto é saudável, e fique bem claro tal aspecto.

Só não compreendo por qual motivo temos nos “desnacionalizado” sob praticamente todos os aspectos. O primeiro deles, já o mencionei – temos abandonado nosso próprio idioma para prestigiar o de outros povos.

Vai um segundo: abrimos mão do tratamento respeitoso que herdamos dos portugueses para os modos, muitas vezes rudes, que nos chegam pelas mãos da cultura anglo-saxônica. Enquanto isso, confesso não ter encontrado ainda um país que esteja abrindo mão de suas tradições para ficar com as brasileiras.

Segue um terceiro: empresas estrangeiras aqui desembarcam recebidas de braços abertos, adquirindo instrumentos de geração de riqueza de forma quase que maciça: nos últimos anos, 60% das empresas brasileiras negociadas foram parar das mãos de estrangeiros. Nós, que falamos tanto em agronegócio como a salvação do futuro do Brasil, já exportamos 70% de nossa soja pelas mãos de empresas estrangeiras aqui instaladas – e 30% do café que produzimos.

Desconheço, porém, em qual país empresas brasileiras tenham tal envergadura, indo da energia aos transportes, e das telecomunicações à atividade industrial estruturante. A dura verdade é que ao longo das últimas décadas temos sacrificado os empresários brasileiros em prol dos estrangeiros, sem que exista o menor sinal de reciprocidade por parte deles – e muito pelo contrário, que o digam nossos compatriotas rotineiramente discriminados no exterior.

Mas nada disso importa! Afinal, ‘nóis é the country do futuro, celeiro da mankind, um Brazil emergente, um people very smart e consciente, e com nóis nobody pode’.

Pedro Valls Feu Rosa

Paisagem brasileira

Gaúcha do Norte (MT)

Brasil unido jamais seria vencido

Na crise, de volta ao básico. E a do Brasil é completa.

Para abrir as portas do 21 seria preciso decorar o resumo do século 20: “Carisma é bom pra cinema que é a ilusão no estado da arte. Na política é um desastre, qualquer que seja a cor da camisa”.

Mas é o caso de refazer a estrada toda. De volta ao 16 e 17 onde tudo começa, então: “Pensamentos, palavras ou obras”? A história das conversas do Moro com o Deltan é isso. O “jornalismo de acesso”, que vive de grampo, estimula esse desvio: “pensou, disse ou fez”? Parece pouco mas esse é nada menos que o divisor de águas entre catolicismo e protestantismo. Aceitar que pensamentos e palavras já constituem pecado passível de condenar ao inferno ou levar ao paraíso deságua obrigatoriamente, ou na legitimação da tortura (pensou ou não pensou?), ou na legitimação da venda de indulgências (bastam umas tantas “rezas” prescritas pelos donos da igreja para “desfazer” o que foi feito, inclusive o que nunca terá remédio).

As duas coisas excluem a mera possibilidade da democracia.


A partir do 18 colhem-se os frutos: Se somente a obra, ou seja, o que o sujeito de fato fez e pode ser palpado e medido (como a roubalheira do Lula e do PT, por exemplo) pode condenar uma alma ao inferno ou abrir-lhe as portas do paraíso, o pensamento e as palavras deixam de ser assuntos em que o Estado está autorizado a se meter, a felicidade passa a ser a que cada um resolver buscar para si e a inovação e o progresso da ciência vêm como bônus dessa forma essencial de liberdade.

No 19 e no 20 começa a entortar: Gente é o mais plasmável dos bichos. Acima de todas as forças ele é regido pela da sobrevivência. Não é o bem ou o o mal, que “podem ser os de cada um”, é a definição do que rende punição ou recompensa que determina para qual direção ele se vai voltar.

É por essa altura que entramos na tapeação do “direita” versus “esquerda”, o embaralhador de línguas que até hoje nos mantém atolados nessa babel política. Faz tudo parecer o que não é. A desorganização da “não esquerda” (porque “direitista” mesmo dá pra contar nos dedos de uma mão) é um clássico universal. A principal diferença entre ela e a “pseudo- esquerda” (porque “esquerdista” de utopia mesmo, não de teta, dá pra contar nos dedos de uma mão) é a extensão da ausência de limites. A “não esquerda” tem patrão. Tem de bater ponto e pagar as próprias contas. Quem trabalha full time pra político é quem é sustentado pelo Estado. É quem tem estabilidade no emprego outorgada por político.

Os Bolsonaro nunca foram gente aqui do mundo real perseguindo um salariozinho suado, tendo de mostrar resultado todo santo dia pra não ir parar na fila dos desestabilizados pela estabilidade deles. Nem o Brasil correu atrás do Bolsonaro pai. Ele é que se jogou para dentro da carência crônica do brasileiro que passou os últimos 34 anos na condição de criança abandonada eleitoral ao longo dos quais todos os bundões da “não esquerda” fingiam-se de esquerdistas porque era esse o “Abre-te Césamo” da caverna abarrotada de ouro do poder.

Nem mesmo os “bolsominions” são ideológicos. Esses que ficam o dia inteiro no Twitter destilando fel, assassinando personagens, são cópias escarradas dos seus similares do PT. Querem a mesma coisa que eles queriam. Nem perder o comando da caverna do Ali Babá, nem sair do “barato” corrosivo da adrenalina do poder. E a maioria daqueles velhinhos do “Repassem sem dó” que eles arrastam é só gente boa com medo da Venezuela tratando de evitar mais meio século de deglutição de sapos barbudos.

Mas no mundo real foi o “cometa” envolvendo Flavio quem jogou Jair e o Coaf no colo de José Antonio que, na cauda dele, liberou geral. É Jair que joga pedaços da previdenciária, da administrativa e da anti-crime no colo dos contra. Nem um único dos tiros de que todo o seu entorno está varejado veio de fora. Fazia meses que Paulo Guedes, o solitário agente do País Real neste governo, não dava manchete antes do último ato da previdenciária que rolou enquanto a Primeira Família entretinha-se na briga de foice no escuro pelo comando do dinheiro do PSL.

Pelas bordas ficam os que não têm peito de sujar diretamente as mãos mas aceitam sem denunciar essa regra do jogo e invocam as “instituições acima de tudo” para impedir que ela mude. Fingir que as instituições brasileiras não foram desenhadas para criar, servir e manter impune uma casta corrupta e que não é isso que reduziu o Brasil à miséria é só o modo “culto” de lutar pela permanência dessa mixórdia, seja no STF, seja nas redações. Nada a ver com “estado de direito”. Até queima a língua dizer isso. Não dá pra alegar inocência.

Todos eles somados não enchem a Praça dos Três Poderes mas segundo a constituição deles, por eles e para eles que o povo brasileiro nunca foi chamado a ratificar, só quem eles deixarem pode disputar o poder e impor suas decisões a nós, que devemos permanecer desarmados e proibidos por lei de reagir.

Esse é que é o divisor de águas real. A parada no Brasil não é “esquerda” x “direita” é nobreza x plebeu, privilegiatura x meritocracia, quem tem de ganhar a vida x quem está com a vida ganha e, na franja e não mais que na franja, ladrões x roubados. Desacelerar o estupro não muda a natureza do crime. Nem existe meia escravidão. Só o realinhamento das forças sociais segundo a realidade brasileira e não segundo as lendas e narrativas da falecida Europa do século 20 possibilitará a verdadeira abolição. O “golpe de neutrons” que mata qualquer avanço da democracia sem lhe destruir a falsa casca, foi plantado lá atras no STF. Enquanto os escravos permanecerem divididos e engalfinhados tudo continuará podendo girar tranquilamente em torno do ralo da constituição deles, por eles e para eles exigida nos tribunais deles, por eles e para eles que todos trabalham para manter intactos por cima dos “lados” pretensamente abraçados, o que explica aquela bizarra rasgação de seda que não cessa nem quando uns estão demonstrando cientificamente os canalhas que os outros são.

Boa economia não basta

Não basta a boa economia, é preciso o bom governo e a boa sociedade. Sem isso as nuvens do mundo, já carregadas, despejarão mais água na chama de um futuro melhor para o país e as pessoas
Fernando Henrique Cardoso

Apagando a si mesmo

Somos um país que destrói documentos, arquivos, registros, gravações e chuta a história pela janela. E só vamos saber disso depois, quando não se pode fazer mais nada. Talvez muitos não se importem. Eu me importo. Um passaporte, uma carteira de identidade, uma certidão de nascimento pode conter informações maravilhosas para um biógrafo. Já salvei alguns desses documentos de serem despejados no lixo por família ilustres, onde seriam recolhidos pelos catadores de papel e vendidos para as feiras das praças —quando passariam, subitamente, a valer dinheiro.

Ruy Barbosa, ministro da Fazenda entre 1889 e 1891, mandou queimar os arquivos da escravidão. A medida impediu que os escravocratas exigissem indenização pelos "prejuízos" que teriam sofrido com a Abolição —Ruy respondeu que o justo seria indenizar os escravos—, mas também privou o Brasil de conhecer mais a fundo uma parte fundamental de sua história.

Em 1º de abril de 1964, a Rádio Mayrink Veiga, do Rio, então controlada pelo governo que estava sendo deposto, teve tudo —arquivo, discoteca, até os equipamentos— jogado na rua pelos vitoriosos do momento. Nos anos 60 e 70, burocratas dos governos Costa e Silva e Médici, instalados num andar do prédio de A Noite onde ficava a memória da Rádio Nacional, deixaram material inestimável se perder.

Adalgisa Nery queimou as cartas de Murilo Mendes, apaixonado por ela. Na morte de Carmen Miranda, Mario Cunha, seu ex-namorado, queimou as cartas que ela mandara para ele. Na morte de Mario Cunha, Aurora, irmã de Carmen, queimou as cartas que ele mandara para ela. Gravar material novo, de áudio ou de vídeo, em fitas contendo material já gravado, apagando-o, era praxe das gravadoras e TVs brasileiras até os anos 80.

É o Brasil, notável pela desmemória, sempre apagando a si mesmo. Talvez por isso nunca aprenda.
Ruy Castro

Amazônia é o pior lugar do Brasil para ser criança

"Muita gente se importa com a Amazônia. O gringo se importa, o governo diz que se importa, mas será que eles sabem que a gente existe? Que aqui não é só mato e água doce?", questiona a assistente social Glinda Sousa Farias, de 25 anos. Ela nasceu e cresceu em Breves (PA), cidade de 92 mil habitantes considerada a "capital" da Ilha do Marajó. Essa região, cercada por praias e belezas naturais, tem um dos Índices de Desenvolvimento Humano (IDHs) mais baixos do país.

Dias antes, a assistente social havia sido 1 dos 11 profissionais que resgataram uma criança na zona rural de Breves após denúncia de abuso. Uma menina teria sido violentada pelo próprio avô e mais um familiar, na casa dele. Depois de viajar horas pelo rio em uma embarcação a motor, encontraram a menina Sandra*, 13 anos, chorando sem parar em frente à casa de palafita. O irmão da adolescente, também menor de idade, teria presenciado a cena.


As crianças estavam na casa do avô enquanto o padrasto trabalhava e a mãe acompanhava a outra filha em Belém, a 220 quilômetros dali, em um tratamento de saúde. A equipe volante, formada por por representantes do Conselho Tutelar, Polícia Civil, secretaria de Saúde, Educação e Centro de Referência de Assistência Social (CRAS), no qual Glinda trabalha como técnica, levou a adolescente e o irmão para a cidade para serem atendidos.

Em outro dia de trabalho, a assistente social conta que a equipe socorreu uma criança de quatro anos, também da zona rural, que foi abusada pelo pai. A suspeita veio de familiares e professores, que comunicaram o Conselho Tutelar. A criança recebeu atendimento especializado e passou por exames sexológicos. O crime foi confirmado.

"Casos como estes são recorrentes no município", lamenta a assistente social, cuja infância também foi marcada pela pobreza. Em Breves, de acordo com dados do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), 37,7% das crianças de até cinco anos de idade sofriam de desnutrição crônica em 2018 — percentual bem maior que a média brasileira, de 13,1%.

No Pará, 85% dos domicílios não possuem acesso adequado à rede de esgoto, e 2.157 crianças morreram antes de completar um ano em 2016. "Depois da escola brincava na rua mesmo, no meio das poças d'água", lembra Glinda. "Não senti falta de políticas voltadas à cultura, esporte e lazer. Não dá pra sentir falta daquilo que não vivenciei."

Filha de pai madeireiro e mãe sacoleira em uma família de baixa renda com quatro filhos, ela viu o pai ficar desempregado depois que a madeireira em que ele trabalhava fechou as portas, em 2009. A família, que morava no centro da cidade, mudou-se para um bairro mais distante e passou a viver em um pequeno cômodo de madeira. Nesse período, sobreviveram basicamente da renda do Bolsa Família, que transfere R$ 89 por pessoa a famílias que vivem abaixo da linha de pobreza, mais R$ 41 por criança ou adolescente, limitado a R$ 205 (cinco benefícios).

"As madeireiras fecharam por completo ou parcialmente, mas não tínhamos um plano B. Não estou defendendo o desmatamento, só que ninguém disse para o meu pai o que ele deveria fazer quando fechassem. Isso aconteceu com muitas famílias. Papai depois conseguiu outro emprego, mas outros não tiveram a mesma sorte."

Conseguiram, com muito esforço, manter os filhos na escola pública, e Glinda e os irmãos, quando adultos, estudaram também na Universidade Federal do Pará (UFPA). "Hoje, os filhos estão concluindo o ensino superior, outros formados, concursados, empregados. Todos da família têm renda própria", afirma, reconhecendo que, nas estatísticas da região, histórias de sucesso como a dela são exceção.

Ao todo, 9 milhões de crianças vivem na Amazônia Legal, região formada por Acre, Amapá, Pará, Amazonas, Rondônia, Roraima e parte dos Estados de Maranhã, Tocantins e Mato Grosso. Os indicadores apontam que, de todas as regiões do país, é ali o pior lugar do Brasil para ser criança, destaca relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). São de lá os mais altos níveis nacionais de mortalidade infantil.

Nos nove Estados da Amazônia Legal, cerca de 43% das crianças e dos adolescentes vivem em domicílios com renda per capita insuficiente para adquirir uma cesta básica de bens, contra 34,3% da média nacional. Além disso, muitas meninas e muitos meninos amazônicos não têm atendidos seus direitos a educação, água, saneamento, moradia, informação e proteção contra o trabalho infantil.

Em 2016, 1.225 crianças morreram antes de completar 1 ano no Estado do Amazonas. Além disso, desde 2010, os casos de sífilis congênita diagnosticados em crianças menores de um ano de idade cresceram 710%, segundo dados do ministério da Saúde reunidos pela Unicef. Foram 802 casos só em 2017. A proporção de mães com acesso ao pré-natal foi de 46% — ainda menos da metade —, registrando um aumento de 183% entre 2000 a 2016.

"A Amazônia é o pior lugar do Brasil para ser criança. Todos os indicadores sociais estão apresentando valores piores que a média brasileira e muitíssimo piores que os do sudeste do país. De criança fora da escola, vacinação, mortalidade infantil, acesso à água, saneamento", resume a coordenadora do Unicef na Amazônia Legal, Anyoli Sanabria, que explica que as crianças vivem em um estado de "privação múltipla", em que, além de viver na pobreza em termos financeiros, elas têm vários outros direitos violados que prejudicam não só sua qualidade de vida, mas comprometem seu futuro e limitam seu desenvolvimento.

As áreas rurais e dispersas ficam, em grande medida, sem acesso ou com acesso limitado aos serviços básicos como saúde, educação e proteção social. Vulneráveis e desassistidas, essas populações — principalmente, crianças e adolescentes — enfrentam uma série de riscos, alerta a entidade.

A visão de educadores, agentes de saúde, ONGs e instituições dedicadas à infância ouvidas pela BBC News Brasil é de que as crianças que vivem na Amazônia, nas cidades ou na zona rural, enfrentam uma quase que total escassez de serviços públicos — à exceção das que vivem nas capitais. Eles alertam: não vai dar para salvar o meio ambiente sem preservar a população local, cada vez mais vulnerável e dependendo de benefícios sociais.

"Sem social, não há ambiental", resume Caetano Scannavino, coordenador da ONG Projeto Saúde & Alegria, que atua na Amazônia. "No mundo inteiro as questões da pobreza e do meio ambiente estão ligadas", afirma Scannavino, que diz que famílias pobres e sem assistência e serviços de saúde são mais vulneráveis ao ilegalismo ambiental.

"Se eu tenho uma criança doente e eu preciso de dinheiro, de remédio, e tem um madeireiro pedindo uma autorização para tirar uma árvore do meu lote, muito provavelmente eu vou estabelecer um acordo com ele, porque a vida do meu filho está em jogo. Situações como essa se repetem e impactam o meio ambiente e favorecem a cultura do ilegalismo."

Para serem efetivas, as políticas públicas para a infância na região precisam considerar as peculiaridades e desafios extras do chamado "fator amazônico": as meninas e os meninos vivem com suas famílias em uma região muito extensa territorialmente, mas pouco povoada em comparação às demais regiões. Em média, cada quilômetro quadrado da Amazônia é habitado por apenas cinco pessoas, enquanto que em outras regiões do País essa taxa é de 48 habitantes por quilômetro quadrado.

Às vezes em comunidades de difícil acesso vivem crianças indígenas, quilombolas, ribeirinhos, mas também mais e mais em grandes cidades — juntamente com populações tradicionalmente urbanas, afirma a Unicef no relatório "Agenda pela Infância e Adolescência na Amazônia".

A principal privação a que meninas e meninos amazônicos estão sujeitos é a falta de acesso a saneamento. Enquanto a média nacional de crianças e adolescentes sem esse direito está em 24,8%, na maioria dos Estados da Amazônia ela está próxima aos 50%, chegando a 89% no Amapá, em dado de 2017. A única exceção na região é Roraima, com 11,5% de crianças e adolescentes sem saneamento, segundo a Unicef.

"Os indicadores sociais mostram que as crianças na Amazônia têm maior risco de morrer antes de um ano de idade e de não completar o ensino fundamental. Além disso, a taxa de gravidez na adolescência é alta, e as meninas e os meninos na região estão vulneráveis às mais variadas formas de violência, incluindo o abuso, a exploração sexual, o trabalho infantil e o homicídio", afirma relatório da Unicef divulgado em setembro e que analisa os principais desafios para a infância na região.

Também é na Amazônia Legal que o assassinato de jovens e adolescentes aumenta em ritmo mais acelerado no país. Entre 2007 e 2017, o número de homicídios de jovens cresceu acima da média nacional em quase todos os Estados que compõem a Amazônia Legal. Enquanto o homicídio de jovens de 15 a 19 anos aumentou 35,1% no Brasil na década, avançou muito mais no Acre (312,5%); Amapá (107%); Amazonas (117,8%); Maranhão (78,5%); Pará (94,1%); Roraima (112,8%); e Tocantins (222,3%). As exceções foram Mato Grosso (25,8%) e Rondônia (8,6%), segundo dados do Atlas da Violência, elaborado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

"As altas taxas de homicídio de adolescentes mostram que a vida de meninas e meninos das periferias é marcada por uma enorme falta de oportunidades que os torna cada vez mais vulneráveis à violência letal. Além de manter os investimentos na primeira infância, é necessário que o país invista igualmente na segunda década de vida", defende a Unicef no relatório "Agenda pela infância e adolescência na Amazônia".