sexta-feira, 16 de agosto de 2019

A MP do Estado anarcocapitalista

Jair Bolsonaro prometeu a pequenos comerciantes e empreendedores tirar a trava do Estado do caminho de sua prosperidade. Com a MP da Liberdade Econômica, o presidente vai além do cumprimento de uma promessa de campanha. Em apenas quatro meses fez passar na Câmara uma iniciativa que ameaça a capacidade regulatória do Estado e mina os freios contra o abuso do poder econômico.

A Câmara que, na reforma da Previdência, funcionou como um contrapeso às medidas mais radicais do governo, desta vez, se limitou a podar as selvagerias mais gritantes contra o que restou da legislação trabalhista. Sob o escudo de uma proposta que, aparentemente, não afeta a vida da população, tornou-se sócia do anarcocapitalismo que inspira a equipe sub-30 que o Paulo Guedes colocou na secretaria de desburocratização do Ministério da Economia.


O texto aprovado tem a ambição de mudar os princípios constitucionais que regem a atividade econômica. Prevê que o Estado terá uma intervenção "subsidiária e excepcional" sobre o exercício de atividades econômicas. A Constituição já prevê que o Estado apenas explore uma atividade econômica sob o imperativo da segurança nacional ou de relevante interesse coletivo. Mas estabelece que o Estado é agente regulador, devendo fiscalizar, incentivar e planejar a atividade econômica (artigo 174).

Os meninos maluquinhos que gestaram o texto da MP nunca devem ter se perguntado se um Estado subsidiário comporta, por exemplo, a Embrapa, empresa pública que fomentou a salvação da lavoura na balança comercial. Ficam igualmente deslocadas, na definição de Estado prevista pela MP, as políticas de compras governamentais. A de merenda escolar, usada pelo Estado há muitos anos para incentivar a agricultura familiar, é apenas a mais inocente na bilionária lista de compras do Estado, de aviões a tecnologias sensíveis.

Não bastou entregar a Embraer. Trata-se agora de podar o Estado como parceiro do capitalismo nacional. A despeito de ser tratada como a carta libertária do empreendedorismo tupiniquim, fica difícil encaixar esta MP sob as asas do artigo 219 da Constituição: "O mercado interno integra o patrimônio nacional e será incentivado de modo a viabilizar o desenvolvimento cultural e sócio-econômico, o bem-estar da população e a autonomia tecnológica do país, nos termos da lei federal."

Foram princípios como este que embasaram a criação do Fundo Soberano, em 2008. Proposto ao Congresso em projeto de lei, à luz de experiências como a da Noruega, para reduzir a vulnerabilidade financeira do país e fomentar projetos estratégicos, acaba de ser extinto pela MP 881 sem que nenhuma urgência o justificasse.

Alessandro Octaviani, professor de direito econômico da USP, duvida da eficácia da MP sobre a atividade da economia e da capacidade de a sociedade comportar um impacto tão unilateral nas relações contratuais. Por isso, espera o veto dos tribunais: "A MP não alberga as grandes questões contemporâneas de uma sociedade solidária, está em desacordo com a ordem econômica constitucional e tende a gerar litígios em série."

Para barrar a MP, o Supremo teria que fazer uma inflexão na toada liberal que vem marcando a atuação da Corte nos últimos tempos. É uma guinada mais difícil do que aquela que marca o freio no lavajatismo, exemplificado pelo 9x1 contrários à transferência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelo artigo "Tempos de Weimar", do ministro Luiz Fachin, no Valor (12/6). Ainda está por ser gestada uma reação aos instintos primitivos do capitalismo bolsonarista para fazer mover o Supremo nessa direção, apesar de não faltarem indícios de que a Carta foi atropelada pela tenebrosas transações desta medida,

O time sub-30 de Guedes, ignora, por exemplo, o fato de que os contratos mediam não apenas relações econômicas, mas de poder. O texto estabelece que os contratos civis e empresariais são paritários e simétricos, ressalvada prova contrária. À luz desta MP dá para imaginar o que pode vir a se transformar, por exemplo, a terceirização dos benefícios do INSS. O governo pretende acabar com o monopólio estatal na gestão de benefícios como auxílio-doença, acidente de trabalho e salário maternidade. Apenas aposentadorias e pensões ficariam sob gestão pública.

Este é um mercado de R$ 130 bilhões, cobiçado por todas as seguradoras do planeta. Em muitos países, a gestão desses benefícios é privada mas o diabo mora nos detalhes dos contratos que os regulam. Estado pode contratar o seguro para repassá-lo ao cidadão ou o contrato pode ser feito diretamente com as seguradoras. Ambas as alternativas, se não forem bem reguladas, abrem uma avenida para apólices que podem minar a sobrevivência de milhões de brasileiros.

O país chegou no limiar de um mercado dominado pelas grandes resseguradoras estrangeiras em que as empresas nacionais viraram quase que meras vendedoras de seguro, sem um quadro jurídico que discipline esses contratos. É nesse deserto de garantias que chega esta medida provisória com a ideia de um mundo encantado de contratos entre iguais, contrariando, mais uma vez, a norma constitucional que protege o abuso do poder econômico com vistas à "dominação dos mercados, à eliminação da concorrência e ao aumento arbitrário dos lucros".

No filme, "Eu, Daniel Blake", do cineasta britânico Ken Loach, um marceneiro de meia idade sofre um ataque cardíaco depois de perder a esposa. É proibido pelos médicos de voltar a trabalhar e, para se sustentar, vai atrás de seu seguro por invalidez. A privatização do sistema em nada desburocratizou a concessão do benefício, dificultado ao máximo. A saga do personagem para obtê-lo fez do filme quase que um prenúncio do humor que marcaria o Brexit, em 2018, e, no ano seguinte, colocaria Boris Johnson no poder.

No Brasil, a ordem foi inversa. A ascensão do populismo de Jair Bolsonaro precedeu o desmonte do Estado provedor. Este foi o contrato de casamento entre o presidente e seu ministro da Economia.

Agora as mentes colonizadas e maluquinhas que ascenderam ao poder com Bolsonaro ou aquelas bem mais estabelecidas que fazem dele a carona de ocasião, podem, sim, se orgulhar de ter colocado o Brasil na vanguarda. Do atraso.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Brasil de bandeira dois


Como morre uma cidade?

Não há mais voos diretos do Rio a Nova York. Como todo mundo, eu também já sabia disso desde o ano passado, mas a minha ficha só caiu há dez dias, quando tive que ir a São Paulo pegar um avião que, até ontem, saía daqui. Foram cinco horas a mais, entre voos e "layovers", numa viagem que não faz nenhum sentido geográfico.

Nada que passageiros de outras capitais e de outros estados já não conheçam bem mas, pior do que a esticada e a espera, é a sensação de desprestígio e de falência da nossa cidade, que tinha tudo para ser um dos maiores destinos turísticos do mundo, e que, em vez disso, afunda na mais completa irrelevância.

O Galeão passou por obras gigantescas, consumiu bilhões em reformas e propinas, e agora está lá, metade morto, “legado olímpico” de um país que não sabe escolher prioridades. Enquanto isso, mantendo a tradição, presidente e governador sonham com um autódromo, porque é mais conveniente criar novos problemas do que resolver os antigos.

Sempre que visito as ruínas de grandes capitais que morreram fico me perguntando como aquilo aconteceu. Como cidades importantes como Babilônia ou Persépolis desapareceram, como a Humanidade perdeu o caminho para Teotihuacán, Tikal ou Angkor?

The Guardian
Os livros de História falam em secas, como a que atingiu Fatehpur Sikri, ou erupções de vulcões, como a que sepultou Herculano e Pompeia. A guerra destruiu Troia e Cartago. Um terremoto acabou com Petra.

Tudo isso se entende.
Mas “declínio”? Como é que uma cidade enorme, habitada por milhares de pessoas, entra em declínio? Como é que os seus habitantes aceitam o destino passivamente, como não tomam providências antes que seja tarde demais?

Todas as casas construídas, as estradas, templos, praças, comércios — como se deixa que desapareçam? Tanto esforço, trabalho e amor perdidos.

Estive em Detroit no final dos anos 1990, e me senti no futuro do passado diante dos edifícios abandonados, das lojas fechadas e, sobretudo, diante da Michigan Central Station, uma estação ferroviária imponente e deserta, suas centenas de janelas estilhaçadas uma a uma, num exercício metódico de barbárie.

Ali comecei a compreender como uma cidade morre.

As pessoas que podiam ir embora antes que tudo degringolasse de vez tinham ido embora, justamente como, agora, tanta gente está indo embora do Rio de Janeiro. Ficaram para trás os despossuídos, incapazes de ganhar sequer o dinheiro de uma passagem, que dirá de manter uma cidade funcionando.

Na última terça-feira, o jornal publicou uma entrevista de Alessandro Giannini com Jorge Peregrino, presidente da Academia de Cinema Brasileiro, sobre a mudança do Grande Prêmio Brasileiro de Cinema — que, ontem, foi entregue pela primeira vez em São Paulo.

“O Rio não estava se mexendo”, disse ele. “Conversei com o estado e com o município e a coisa não andava. Peguei um avião para São Paulo, para tentar vender o prêmio, e a acolhida, tanto do estado quanto do município, foi sensacional. Este ano, a cerimônia vai ser no Teatro Municipal. E já fechamos no ano que vem com a Sala São Paulo, que é estadual”.
Cora Rónai

Polícia de Witzel é máquina de matar e mentir

Da sexta 9 até esta quarta 14, quatro jovens foram vítimas de “balas perdidas” durante operações policiais na região metropolitana do Rio de Janeiro. Eles têm nomes e idades: Gabriel Pereira Alves, de 18 anos; Dyogo Costa Xavier de Brito, de 16; Henrico de Jesus Viegas de Menezes Júnior, de 19; Margareth Teixeira da Costa, de 17. Alguém aí está se sentindo mais seguro por causa disso?

Gabriel e Dyogo estudavam e queriam ser jogadores de futebol. Henrico trabalhava como estoquista de supermercado. Margareth estava com seu filho de um ano, que foi baleado de raspão. Aos parentes de Dyogo e Henrico, policiais militares afirmaram que ambos estavam armados e tinham envolvimento com o tráfico de drogas. É mentira, como sabem todos os que os conheciam e que têm chorado suas mortes.

Wilson Witzel, essa mistura de sargento Pincel com sargento Tainha que ora desgoverna o Rio, soltou sua voz de durão: “Se os criminosos acham que, matando inocentes, vão fazer com o que o estado pare, eles estão absolutamente enganados”. Criminosos, no caso, são os seus policiais, governador. São eles que têm assassinado jovens aos magotes. Jovens pobres, é claro. Para Witzel, os ricos são “cidadãos de bem”.

De janeiro a junho deste ano, as forças de segurança (sic) mataram 881 pessoas. No mesmo período de 2018, foram 769 vítimas. Em 2018, 580.

Como sempre enfatizam os adoradores da matança, se o número de homicídios está menor, é compreensível que, na conta final, a porcentagem das mortes provocadas pela polícia seja maior. Certo, mas essa conta nunca vai fechar se todas as taxas não caírem.

Embora, como se diz no jargão jornalístico, os números falem qualquer coisa se torturados, não há como provar que o aumento de um índice está relacionado à queda do outro. No chamado “mundo do crime”, a reserva de mão de obra é infinita. Não há emprego, não há educação, não há assistência social, a atração pelo dinheiro rápido é enorme... Quanto mais morre gente, mais gente entra.

Além disso, recomenda-se algum recato: como festejar que 3.048 pessoas morreram no estado, sendo 881 pelas mãos da polícia? E alguém acredita mesmo que foram 881 criminosos? Gabriel, Dyogo, Henrico e Margareth não eram. E muitas mortes não são tratadas como responsabilidade de policiais, mas como “balas perdidas”.

As operações nos quais se dão confrontos são inúteis. Não acabam com o tráfico nem reduzem a quantidade de armas, porque sempre chegam mais, inclusive graças à polícia. Os moradores do Rio sabem que é comum traficantes pagarem propina a policiais. É o “arrego”. E também é comum que armas e drogas apreendidas sejam desviadas – para as milícias, por exemplo – ou revendidas (sim, para o tráfico).

Mesmo ciente de que se trata de mentiras, a imprensa repete clichês distribuídos pelas assessorias. “Policiais estavam fazendo patrulhamento de rotina quando foram surpreendidos por traficantes armados” – não funciona assim, porque uma parte sabe onde fica a outra, ninguém é surpreendido como se estivesse num desenho animado. Ou “morreram ao dar entrada no hospital” – os corpos são despejados nos hospitais para que não sejam feitas perícias nos lugares em que as mortes ocorreram. E o pior é tratar todos como “suspeitos” – de qual crime previsto no Código Penal?

No primeiro semestre morreram 31 policiais, bem menos do que os 67 de 2018. Ainda é muito. E parte deles morre fora de serviço, fazendo bicos. Matam e morrem demais por nada que dê resultados concretos. Enxugam gelo com sangue.

Na segunda 12, relatos e desenhos de crianças moradoras do Complexo da Maré foram entregues ao Tribunal de Justiça do Rio.

“Boa tarde. Eu queria que parassem as operações porque muitas famílias serão mortas. Agora, eu estou sem quarto porque vocês destruíram na operação. Todo mundo na minha escola chora, meu irmão morreu por causa dos policiais e eles bateram no meu primo.”

“Eu não gosto do helicóptero porque ele atira para baixo e as pessoas morrem.”

Quem está escrevendo não é “bandido”. É possível ler isso e continuar pedindo mais sangue, mais mortes?

Só na Maré, houve 21 operações policiais neste primeiro semestre, com 15 mortos. Em 14 delas foram utilizados helicópteros.

Witzel quer ser candidato à Presidência e parece achar que o melhor caminho é superar Jair Bolsonaro em truculência. Está se candidatando a réu na Corte Penal Internacional, em Haia.
Luiz Fernando Vianna

A merda auriverde

Antonio Lucena
Não acredito que a gente está vivendo o primeiro capítulo da renovação. Para mim, estamos vivendo o último capítulo do que não deu certo
Luciano Huck

Longe da liberdade econômica

A aprovação ontem da Medida Provisória 881 pela Câmara demonstra que o governo continua a dispor de força considerável para tocar sua agenda econômica no Congresso. Depois de alterações que reduziram seu escopo de 53 a 33 medidas, o texto-base passou com 345 votos a favor e 76 contra.

Na falta de ideia melhor, ela ficou conhecida por um nome pomposo: MP da Liberdade Econômica. É carga demais nas costas de uma medida que trata de temas comezinhos do dia a dia empresarial, como o trabalho aos domingos, a exigência de alvarás, o registro de ponto e a relação do governo com empresários e funcionários no meio digital.


Certamente a medida representa uma melhora no ambiente de negócios, mas dificilmente trará um ganho significativo rumo à meta imposta pelo ministro Paulo Guedes: elevar o Brasil para perto da 40ª posição no ranking Doing Business, do Banco Mundial. Na facilidade para fazer negócios, estamos em 109º lugar entre 190 países. A China está em 46º; o México, em 54º; e o Chile, em 56º.

Os itens que mais prejudicam a posição brasileira nem são tratados na MP. O principal é a burocracia para pagar de impostos. Estamos em 184º lugar, com 1958 horas anuais dedicadas à barafunda tributária, em especial contribuições à previdência, imposto de renda e ICMS. Só uma reforma tributária profunda pode melhorar esse quadro.

Os outros dois itens que mais emperram a vida do empreendedor brasileiro, segundo o relatório, são a burocracia de alvarás para construção (175º lugar) e registro de imóveis (137º lugar). No primeiro caso, são ao todo até 20 procedimentos burocráticos, entre inspeções trabalhistas, sanitárias, do corpo de bombeiros, da Prefeitura, “habite-se” e quejandos. O tempo total para se desvencilhar desse cipoal passa facilmente de um ano, e o custo chega perto de 0,5% do valor do imóvel. No segundo caso, há no mínimo outros 14 procedimentos, que levam pelo menos 25 dias e custam 3,6% da propriedade.

A MP aprovada mal encosta na questão dos alvarás. Não há notícia de que o governo planeje enfrentar a estrutura complexa de cartórios e organismos municipais e estaduais, cuja burocracia e cujo arbítrio são combustíveis a alimentar incessantemente o fogo eterno do inferno em que vive o empreendedor brasileiro. Por isso, proclamar que a nova lei trará “liberdade econômica” não passa, na leitura otimista, de jogada de marketing. Ou, na pessimista, de devaneio.

É lamentável, pois o governo precisaria tratar com o devido senso de urgência todas as medidas que tragam alívio à vida do empresário e possam atrair investimentos. Só assim o Brasil pode tirar a economia do buraco. Mais de 25 milhões de brasileiros (cerca de 25% da força de trabalho) estão desocupados, desistiram de procurar emprego ou se penduram em bicos e trabalhos precários.

Os últimos indicadores sugerem que a economia registrará encolhimento pelo segundo trimestre consecutivo, configurando o que os economistas qualificam como uma “recessão técnica”. Sem facilitar a vida do empresário para que possa investir tranquilo, sem garantir a liberdade real ao capital, sem assegurar que esteja livre de arbítrios burocráticos, confiscos de ocasião e possa operar num ambiente de regras estáveis e impostos previsíveis, não haverá melhora.

Até agora, o governo proclamou intenções louváveis, mas na prática fez pouco. A reforma da Previdência aprovada na Câmara ficou aquém do ideal e enfrentará dificuldades no Senado. A reforma tributária patina, tomada por uma discussão bizantina a respeito da volta da CPMF. A nova lei que advirá da MP 881 traz avanços, mas a realidade não corresponde à promessa embutida em seu apelido.

Se o presidente Jair Bolsonaro ainda tem dúvida da importância que o sucesso na economia tem para seu futuro, basta olhar para a Argentina, onde seu confrade Maurício Macri definha em meio à inflação, desontrole fiscal e disparada do dólar. Não adianta falar. É preciso fazer. Fazer mais. Fazer bem. E fazer rápido.

Gente fora do mapa


Enquanto Congresso cuida das reformas econômicas, Bolsonaro trata do 'cocô'

Se a sensibilidade auditiva fosse transportada das orelhas para o nariz, quem ouve as entrevistas e os discursos de Jair Bolsonaro sentiria um mau cheiro insuportável. Num instante em que o Congresso exercita um inédito ímpeto reformista, o presidente da República faz uma opção preferencial pelo excremento.

Após concluir a aprovação da reforma da Previdência, a Câmara arremata a votação da medida provisória da "liberdade econômica" e desengaveta a proposta sobre a aposentadoria dos militares. No Senado, tenta-se empurrar os servidores de estados e municípios para dentro da emenda previdenciária.

Simultaneamente, Bolsonaro gruda sua oratória no intestino grosso. No final de semana, ensinou a um repórter que, para preservar o meio ambiente, basta "fazer cocô dia sim, dia não". Dias depois, instado a explicar-se, disse que não se deve esperar que ele seja "politicamente correto".

O capitão reiterou: "É só você cagar menos que, com toda certeza, a questão ambiental vai ser resolvida". Na sequência, queixou-se de entraves ambientais impostos pela Funai. Declarou que basta o "cocozinho petrificado" de um índio para barrar a realização de uma obra.

Nesta quarta-feira, em visita à cidade piauiense de Parnaíba, Bolsonaro prometeu "acabar com o cocô do Brasil". Tratou de definir cocô: "É essa raça de corruptos e comunistas. Vamos varrer essa turma vermelha do Brasil". O ímpeto presidencial anticorrupção fraqueja nas manobras contra o Coaf. E a ameaça comunista só existe nos pesadelos do Alvorada.

A dedicação à oratória fecal impede o presidente de surfar a onda pró-reformas econômicas que bate na praia do Legislativo. Quando tomou posse, Bolsonaro instilava boas expectativas. O mercado projetava taxas de crescimento acima de 2% para 2019. Hoje, às voltas com a perspectiva de "recessão técnica", o governo de Bolsonaro desperta receios que retardam investimentos.

Os brasileiros de boa vontade ficam imaginando que cenário magnifico haveria no Brasil se, de repente, por milagre, baixasse no cérebro do presidente da República uma epidemia de ridículo.

De que te ris?

Se me sinto mal no Brasil, sinto-me mesmo mal, apesar de gostar muito da temperatura, da beleza... As babás, aquela coisa das fardas, dos carros de vidros fumados, das favelas, é tão agressivo que a não ser que tenhas umas palas gigantescas...
 
Agora, há uma coisa: temos muita dificuldade em abrir mão do que nos sabe bem, do que nos dá conforto. E as pessoas têm a ingenuidade de pensar que não lhes vai chegar. E às vezes não chega, porque as vidas são curtas. Mas chegará aos filhos, aos netos. Porque a injustiça, a fome, as torturas que infligimos aos que têm menos poder... há uma altura em que a coisa muda. E é terrível
Dulce Maria Cardoso, escritora portuguesa

O empresariado brasileiro apostou mal em Bolsonaro?

O acordo entre o empresariado e o governo de Jair Bolsonaro é o seguinte: enquanto a equipe econômica governamental aplicar as reformas necessárias, investidores e empresários ignoram ou toleram seu curso populista de direita.

Tomando como base minhas experiências na economia e indústria relativas ao apoio ao presidente, eu diria que vale a seguinte fórmula: um terço dos interlocutores do setor ignora o que vem de Brasília e se concentra nos assuntos do dia; um terço defende até as declarações e comportamentos mais extremos do presidente; e um terço se envergonha de Bolsonaro.

Contudo, mesmo os que se envergonham de sua política, ressalvam: "No fim das contas, o governo Bolsonaro decreta as reformas pelas quais esperamos há quase duas décadas, sem as quais o Brasil não será competitivo." Eles se referem à reforma da Previdência, que enfim contém o crescimento do déficit público; às privatizações – por exemplo, no setor energético e nos aeroportos – longamente esperadas e possibilitando novos investimentos, pois o Estado está falido.


A referência é igualmente ao fechamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia, após 20 anos de negociações, e que abrirá a economia fechada do Brasil; à reforma trabalhista, que o governo segue impulsionando; e, por fim, ele negocia atualmente sobre uma reforma tributária, também urgente para baixar os altos custos do Brasil.

De fato, em oito meses o governo Bolsonaro pôs em andamento diversas reformas há muito esperadas. No entanto a estratégia do empresariado de neutralidade diante dele é arriscada. Cresceu o risco de o presidente, com seu curso errático, colocar em questão o sucesso das próprias reformas.

Por um lado, isso se deve a ele personalizar cada vez mais decisões que são fundamentais para a economia, decidindo exclusivamente em interesse próprio e de seu clã familiar. Ele coloca um colega de escola de seus filhos na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); proíbe que a Petrobras aumente os preços do combustível; critica as agências reguladoras de serviços públicos e ameaça esvaziá-las.

Bolsonaro antagoniza parceiros comerciais importantes do Brasil, desde a China, passando pelo Oriente Médio, até possivelmente o futuro governo da Argentina – o único mercado em que os produtos industriais brasileiros ainda são até certo ponto competitivos. Sua política para a Amazônia é um flanco aberto para os lobbies econômicos europeus que trabalham contra uma abertura de mercado na América do Sul.

Seria possível continuar essa lista. O comportamento dirigista de Bolsonaro não é nada de novo em questões econômicas, porém ele se tornou mais agressivo, ofensivo e irracional, aumentando o potencial perturbador para a economia.

A probabilidade agora é – e esse é o grande risco que vejo – que as intervenções do presidente aumentem também no empresariado. Pois a economia brasileira míngua em sua presidência. Depois de dois anos de recessão e dois de estagnação, a economia não pega impulso; o PIB caiu 0,2% no primeiro trimestre de 2019, e a previsão é de nova contração no segundo.

Os motivos para tal são conhecidos: os investidores hesitam em investir enquanto suas capacidades não estão esgotadas; os consumidores seguem altamente endividados e temem perder seus postos de trabalho (se têm um emprego); a guerra comercial no mercado mundial puxa para baixo os preços de produtos agropecuários e matérias-primas. São baixas as perspectivas de que esse cenário negativo vá se alterar, no curto prazo.

Tudo isso aumenta o perigo de que Bolsonaro vá também se ocupar da economia, um setor de que ele, segundo tem afirmado até agora, nada entende. Contudo, se sua tão elogiada equipe não conseguir produzir nem um pouquinho de crescimento, é apenas uma questão de tempo até o "Capitão" tomar o assunto nas próprias mãos.

Se Bolsonaro seguir o lema "Tenho que resolver tudo sozinho, nada anda sem mim", seus torcedores na família e nas redes sociais vão festejá-lo. E aí empresários e investidores perceberiam que fizeram um acordo perigoso, e que talvez tenham apostado no cavalo errado. Vamos torcer para que esse cenário não se concretize.
Alexander Busch

Sim, precisamos de heróis

Nesta semana, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, disse que a Lava Jato não é uma instituição e que o Brasil não precisa de heróis, mas de projetos.

Data vênia, cabe discordar. Primeiro, o Brasil precisa, sim, de heróis, por uma razão simples: há muitos vilões entre nós, e vilões em posição de mando. E também porque certas mudanças só ocorrem quando são promovidas por lideranças reconhecidas pela sociedade.

Esse reconhecimento não precisa ser pelo voto. Joaquim Barbosa nunca disputou uma eleição, jamais fez campanha ou coisa parecida. Mas tornou-se um presidenciável pela sua atuação – tão forte quanto inesperada – no processo do mensalão. Foi uma mudança e tanto, não é mesmo?

O STF, mais conhecido por atrasar ad infinitum os casos envolvendo os agentes públicos com foro privilegiado, dedicou-se inteiramente, por meses, a julgar corruptos de primeiro escalão. Sob a clara liderança de Joaquim Barbosa. Se um herói é alguém sem o qual certas mudanças não ocorreriam, então o ex-ministro tornou-se um deles.

O que nos leva ao caso Lava Jato. Se o STF quebrou o gelo e colocou a corrupção na mira do Judiciário, a Lava Jato culminou o processo. Formalmente, trata-se de uma operação, uma simples força-tarefa – “reles” tarefa, gostariam alguns – mas alguém duvida que, na sociedade, tornou-se uma instituição superior?

Sérgio Moro também não disputou eleição, não fez campanhas, mas se tornou uma forte liderança moral e política. Um herói, no modo como Joaquim Barbosa.

A resistência à Lava Jato revela, em setores jurídicos, uma combinação de inveja e ciúme. Como pode um simples juiz de primeira instância – de novo, um “reles” juiz? – tornar-se uma figura nacional?

Não entenderam que Moro encarna uma profunda mudança – e mudança para o bem. Ou entenderam e não estão gostando.

Cabe nessa história o procurador Deltan Dallagnol. A operação envolve uma legião de promotores, agentes da Polícia Federal, auditores da Receita, e funcionários do Coaf, Conselho de Controle de Atividades Financeiras – todos eles heróis pelos papéis exercidos e que levaram para a cadeia os vilões do primeiro escalão. Todos eles eram, por assim dizer, “menores” que os alvos. Todos ouviram, em algum momento, “sabem com quem estão falando?” E mesmo assim foram para cima.

O primeiro procurador da Lava Jato foi Carlos Fernando dos Santos Lima, uma liderança mais discreta. Mas Dallagnol, seu substituto, encarna a ousadia dos mais jovens enfrentando um poder superior. Daí seus exageros. Mas como queriam que se quebrasse uma quadrilha de políticos, empresários e agentes públicos, instalada no comando de instituições? Pedindo licença, faz favor?

Tirante os lulistas extremados, ninguém entre os críticos da Lava Jato diz que não houve roubalheira. Ou que a operação não pegou ladrões.

Dizem criticar apenas os métodos – ou o “direito penal de Curitiba”, como diz o ministro Gilmar Mendes.

Acontece que existe mesmo um direito penal de Curitiba. Trata-se de algo como um novo contrato social ou a reinterpretação de normas e mais, especialmente, um novo modo de fazer. Não apenas a Lava Jato encontrou lavagem de dinheiro onde o velho direito via simples caixa dois, como a operação foi fulminante na apuração e julgamento.

No fundo, a legião dos adversários da Lava Jato está incomodada porque que a operação se tornou uma instituição nacional, tanto que não se consegue encerrá-la, e com alguns heróis de peso. Mas por isso mesmo, há um esforço para limitar o sistema de investigação.

Dias Toffoli, que certamente não é um herói, mas o presidente de uma instituição, praticamente suspendeu as atividades do Coaf. O ministro Alexandre de Moraes suspendeu fiscalizações da Receita federal envolvendo 133 agentes públicos, inclusive os ministros Gilmar Mendes e o próprio Dias Toffoli, e ainda mandou suspender auditores fiscais.

E agora surgem essas conversas para alterar a estrutura desses órgãos.

Ora, sem Coaf e sem Receita, não tem Lava Jato. Só falta proibirem as operações da Polícia Federal.

Seria esse o triunfo das instituições?

Na verdade, seria o triunfo dos anti-heróis.

Imagem do Dia

Por do sol na Costa Rica

São inocentes os rompantes linguísticos de Bolsonaro?

Existe o perigo de considerar as explosões verbais do presidente Jair Bolsonaro, sejam as escatológicas e de mau gosto sexual ou as mais ideológicas, como um tanto caricaturais e inofensivas. Não basta alegar que o presidente é "politicamente incorreto" à la Trump ou que isso é apenas algo natural e espontâneo nele. Pode acabar sendo mais grave e perigoso. Desde o surgimento da psicanálise, e depois de Freud e Lacan, conhecemos muito bem o perigo contido na linguagem, que nunca é inocente, porque também revela o abismo do nosso interior.

O Brasil está começando a sofrer o perigo da linguagem com a chegada ao poder do capitão reformado ultradireitista Bolsonaro. Nada seria pior do que tomar suas bravatas e loucuras linguísticas como algo sem importância a que deveríamos nos acostumar. Pode ser trágico.


Aonde a linguagem pode levar, às vezes abertamente suja e outras vezes escondida na ambiguidade, é algo que a Humanidade já experimentou ao longo da história com os maiores ditadores, e que sempre acabou em tragédia. Quando, dias atrás, um jornalista lhe perguntou sobre como ajudar a melhorar o meio ambiente — uma questão que o presidente despreza, chegando a negar a evidências de sua gravidade —, Bolsonaro respondeu que “é só você deixar de comer menos [sic] um pouquinho. Quando se fala em poluição ambiental, é só você fazer cocô dia sim, dia não, que melhora bastante a nossa vida também, tá certo?”

Houve quem achasse graça. Esquecemos que algo assim aconteceu, por exemplo, com Mussolini, na Itália. Quando iniciou sua revolução fascista, ele se divertia revelando alguns de seus gostos sexuais, como o de que preferia fazer amor "com camponesas sujas e peludas". Sabemos hoje como acabaram aqueles gostos escatológicos do Duce.

O perigo da linguagem de Bolsonaro reside não apenas no que alguns chamam de vazio intelectual, de pequenez de visão ou de falta de leitura. Pode se tornar algo mais sério, já que pode ser a idiossincrasia da personagem. Não é que tente parecer engraçado e espontâneo. Sua personalidade começa a ser vista como pequena de horizontes e com convicções autoritárias que, hoje vemos, eram típicas dos grandes ditadores, e que em muitas ocasiões foram o resultado de um complexo de inferioridade que os levou a superar com os excessos ditatoriais que conhecemos. Assim, por exemplo, com Mussolini, com Hitler ou com o Caudilho Franco, que sofria como soldado de pequena estatura e voz esganiçada e feminina.

Em Bolsonaro, talvez mais do que suas gracinhas escatológicas e fálicas, o que pode acabar sendo ainda grave são suas ideias autoritárias que parece querer impor a um país como o Brasil, que vive em democracia, com uma Constituição laica e moderna e com liberdade de credo e expressão. Um exemplo do perigo da linguagem bolsonarista, mesmo quando pode parecer inocente, mas que acaba colocando muros à verdadeira liberdade, foram suas palavras, na semana passada, durante a Marcha para Jesus, em Brasília.

O presidente disse que os brasileiros estão cansados de ouvir da "esquerdalha nojenta" defender que o "Estado é laico". E acrescentou: “Mas eu, Jonnie Bravo, sou cristão… respeitamos todas as religiões e quem não é cristão. Mas a maioria dos brasileiros é cristão e ponto final. O Brasil é um só povo, uma só raça e um só coração. É uma bandeira e meia: Brasil e Israel”.

À primeira vista, podem parecer palavras sem especial periculosidade, até mesmo de elogio ao Brasil. Não eram. Havia nessas palavras um ódio profundo à liberdade política. Não há motivo para a esquerda ser "repugnante" só porque ele não gosta dela. É uma opção tão legítima quanto a liberal ou a de direita. Quando ele e os seus "respeitam todas as religiões, e quem não é cristão", e acrescenta, incomodado: "e ponto final", está revelando uma espécie de concessão aos não-cristãos. Equivale a dizer que serão simplesmente suportados. E quando acrescenta que o Brasil é um só povo, uma só raça e um único coração, pode até parecer uma frase bonita. Não é. Tem entranhado o seu desejo, como o de todos os políticos autoritários, de querer plasmar o país ao seu gosto e semelhança. E para quem isso não cair bem, que aguente ou vá embora.

A verdade é que, sob o prisma dos valores democráticos, o Brasil é um e muitos ao mesmo tempo. Reduzi-lo a um e sob o prisma do presidente é apequená-lo. Porque a riqueza deste país é a de ser plural. Não existe só o Brasil sonhado por Bolsonaro. Existe também o anônimo, pelo qual não parece interessar-se, que detesta a liturgia da violência e das armas, o que quer viver em paz suas crenças políticas e religiosas ou seu ateísmo.

Nem é verdade que existe apenas uma raça no Brasil, sem mencionar que a palavra "raça" há muito tempo foi abolida como pejorativa para definir os humanos. Existem diferentes etnias, pessoas com diferentes cores de pele, com visões distintas e enriquecedoras do mundo. E não é verdade que o Brasil seja um só coração que bate em uníssono no querer e pensar com quem o governa, que foi o sonho de todos os ditadores. Existem tantos corações quanto brasileiros. Com diferentes pulsações diante da vida, com valores que os distinguem e enriquecem. E menos ainda existe um país com "uma bandeira e meia", a do Brasil e a de Israel. Por que a de Israel, por mais importante que seja, deve ser também a bandeira do Brasil? E por que não a da China, ou a da Índia ou a do Quênia? A bandeira deste país é um arco-íris de cores e símbolos de riqueza, paz e diálogo e não há por que ser confundida ou fundida com a de outro país, mas respeitar a todos.

Esse querer padronizar um país sob o molde de seus governantes sempre foi o sonho de todos os impérios autoritários e populistas. E a receita de Bolsonaro, de um Brasil com um só coração e uma só raça, me faz recordar o slogan criado na Espanha durante a ditadura do general Franco, o de Una, Grande e Livre. Na verdade, não era nenhuma das três coisas. Não era una porque havia então duas Espanhas em confronto ideológico que produziu mais de um milhão de mortos. Tampouco era grande. Ficou 40 anos isolada do mundo, empobrecida material e intelectualmente. E menos ainda livre, como prova a censura imposta à liberdade de imprensa e até mesmo às artes e à literatura, com a lista de livros proibidos e os espanhóis que tinham de ir à França para poder ver um filme sem censura.

Para que a Espanha voltasse a ser una e plural ao mesmo tempo, livre de censuras, torturas e execuções daqueles que sonhavam com uma Espanha plural e democrática, foi preciso esperar 40 anos e a morte do ditador. Só então o país pôde abrir suas janelas para o mundo e recuperar a pluralidade de suas riquezas espirituais. Só então perdeu o medo de pensar em liberdade, para ser não uma Espanha monolítica, asfixiada pelos estreitos slogans autoritários, mas plural e sem medo de respirar e amar com seu coração e seus pulmões, e não com os do ditador.

Os slogans de quem despreza os valores da liberdade e da pluralidade de ideias costumam estar impregnados da exaltação da violência e da ignorância. Como o do general espanhol José Millán-Astray, criador do mito de Franco, a quem se atribuiu a terrível frase: "Viva a morte, abaixo a inteligência!" Tenho certeza de que o Brasil continua preferindo gritar: viva a vida e viva a inteligência! já que só assim será capaz de seguir respirando sem ser sufocado por lemas de morte e desprezo pela razão.

Tamanho da mediocridade



A estatura dos contemporâneos não passa de uma tranquila mediocridade
José Saramago, "Deste mundo e do outro"

A projeção de poder

A política externa está associada à projeção de poder de um Estado ou governo com base nos seus interesses nacionais. Essa é a regra básica, que pauta as relações entre mais de 190 países. É uma política pública, definida por decisões e programas governamentais que devem ter correlação com sua política interna. O Itamaraty conquistou o respeito mundial, desde o Barão do Rio Branco, pela excelência de seus quadros e habilidade ao conduzir os interesses brasileiros em meio aos conflitos e negociações nos foros internacionais. Tudo isso, porém, de nada vale para o presidente Jair Bolsonaro.

Regras básicas da política externa são ignoradas por Bolsonaro, que não mede as consequências de suas atitudes e declarações. Por exemplo, seus comentários sobre as eleições argentinas serviram para alimentar a campanha do adversário de seu aliado Mauricio Macri, que disputará a reeleição à Presidência em 27 de outubro. O candidato peronista Augusto Fernández, que venceu as prévias de domingo passado com grande vantagem, classificou Bolsonaro, ontem, de “racista, misógino e violento”, por dizer que o Brasil poderia ver uma onda de imigrantes fugirem da Argentina se políticos de esquerda vencerem as eleições presidenciais de outubro.

O peronista tirou por menos: “Com o Brasil, teremos uma relação esplêndida. O Brasil sempre será nosso principal sócio. Bolsonaro é uma conjuntura na vida do Brasil, como Macri é uma conjuntura na vida da Argentina”, disse Fernández, em entrevista ao programa Corea del Centro, da emissora Net TV. Será? Bolsonaro passa a impressão de que não está realmente empenhado no acordo do Mercosul com a União Europeia, cuja assinatura caiu no seu colo, porque foi resultado de um grande esforço pessoal de Macri, apesar do empenho continuado dos diplomatas brasileiros, que negociaram os termos do acordo por décadas.

É óbvio que se a oposição ganhar as eleições na Argentina, toda estratégia de Bolsonaro para a América do Sul estará comprometida, pois o regime de Nicolás Maduro na Venezuela sairá do isolamento em que se encontra no continente, reforçando sua sobrevida, hoje decorrente dos apoios da Rússia, essencialmente militar, e da China, sobretudo econômico. Se considerarmos a crise política no Paraguai, que quase provocou o impeachment do presidente Mario Abdo Benitez, por causa de uma negociação secreta no âmbito do acordo firmado entre Brasil e o país vizinho, para definir novos termos pelo pagamento da energia produzida por Itaipu, a situação pode se complicar muito no Mercosul.

Bolsonaro esticou a corda com a União Europeia. Quando deixou de receber o chanceler francês, Jean Yves Lê Drian, para cortar o cabelo, ou desdenhou da ajuda financeira da Alemanha e da Noruega para o Fundo da Amazônia, Bolsonaro agiu de caso pensado: demonstrou a intenção de se distanciar de parceiros europeus que não comungam com seus valores e posições ideológicas. É a contrapartida, por exemplo, da simpatia que tem pelos líderes de extrema direita Marine Le Pen, na França; Matteo Salviani, na Itália; e Nigel Farage, na Inglaterra. Todos têm um projeto de poder similar ao de Viktor Orban, na Hungria, parceiro de Bolsonaro na política internacional.

É aí que a indicação do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) para a embaixada do Brasil em Washington, num acordo pessoal com o presidente norte-americano, Donald Trump, começa a fazer todo sentido. Bolsonaro quer estreitar os laços pessoais com o presidente Trump e vê nisso uma espécie de blindagem contra qualquer conspiração que possa envolver o Departamento de Estado norte-americano. Como sua cabeça funciona com os paradigmas da antiga “Guerra Fria”, faz sentido.

O problema é que a política externa não se faz apenas de forma bilateral. Desde a II Guerra Mundial, o multilateralismo vem sendo a principal garantia da paz e de regras duradouras para a convivência entre os povos. No momento, o Brasil tem grandes interesses estratégicos na China e na União Europeia que não recomendam um alinhamento automático com os Estados Unidos, bem como bater de frente com a Argentina, nosso terceiro parceiro comercial. Mas essa visão parte de uma compreensão da política externa como política de Estado, que parecia consolidada no Itamaraty desde Saraiva Guerreiro, no governo Geisel. É uma visão guiada por interesses nacionais de médio e longo prazos, que independem do partido que está poder.

Ocorre que, nos governos Lula e Dilma, a política externa brasileira passou a ser uma política de governo, guiada por interesses que variam de acordo com o projeto político hegemônico no poder. Nesse aspecto, a guinada à direita no atual governo seria uma mudança simétrica, mas não é o que está acontecendo. Bolsonaro não tem uma estratégia de projeção de poder do Brasil na cena mundial, tem um projeto pessoal de liderança ideológica no qual a geopolítica conta muito pouco.

Dois anos é muito

De onde vejo as coisas, não consigo imaginar que a estratégia tenha sucesso. A política de choque permanente com a opinião pública de Jair Bolsonaro é uma das mais conhecidas receitas para o fracasso. Mas, claro, o articulista pode estar enganado, dirão os que defendem o presidente. Pode mesmo. Acontecem coisas na política por vezes impensáveis, ou inacreditáveis. A própria eleição de 2018 prova esta tese. De todo modo, a história mostra que esse embate permanente só tem êxito se for acompanhado de resultados que mexam para melhor na vida das pessoas. E é isso o que está faltando. Não se veem resultados. Nem agora, nem no futuro imediato.

O PIB do primeiro semestre pode ser negativo. E os indicadores para o segundo não são melhores. O ministro Paulo Guedes falou que é preciso paciência e voltou a culpar o passado pela estagnação do país. E pediu, nas suas palavras, “um ano ou dois” para que as reformas sejam implementadas e o país deslanche. É muito, ministro. Um ano ou dois pode ser um prazo razoável na economia, mas é uma eternidade na política. Em um ano haverá novas eleições, e em dois, o governo Bolsonaro estará entrando na sua fase final. Na fase do café frio.


A Argentina é exemplo de como as coisas podem desandar na política. O presidente Mauricio Macri vai sendo varrido pelo que Bolsonaro chama de “esquerdalha” simplesmente porque não cumpriu o que os argentinos esperavam dele e o que ele havia prometido para os argentinos. Ele não consertou a economia no prazo estabelecido pelo calendário eleitoral. No nosso caso, além de ver a economia patinando, o brasileiro já está cheio da retórica beligerante e falsa do seu presidente.

A mesma Cristina Kirchner que entregou um país em frangalhos a Macri deve voltar agora compondo uma chapa onde é a vice. No Brasil, se o efeito Orloff (“Eu sou você amanhã”) voltar a funcionar, perdurando este quadro de turbulência verbal, desconfiança geral e ineficiência administrativa, o PT, que também dilacerou a economia no maior escândalo de corrupção da história do país, pode muito bem surpreender. Num quadro desses, Fernando Haddad ganharia fácil. Até Dilma Rousseff, veja só você, poderia virar assombração.

E a economia não anda, como explicou Míriam Leitão ontem, porque oportunidades para capitalizar boas medidas são afogadas pelas crises criadas pelo presidente na porta do Alvorada. Com isso, ele corrói confianças, e as expectativas positivas dão lugar à estupefação, que gera o imobilismo. Há um outro problema que Bolsonaro não enxerga. Falta-lhe o pragmatismo que sobra em seu herói Donald Trump. Trump, que também produz crises com seu blá-blá-blá incontrolável, adiou o aumento de tarifas sobre produtos eletrônicos chineses para evitar aumento de preços aos consumidores (eleitores) no Natal. Ano que vem tem eleição nos Estados Unidos. Aí, sim, vai ser a hora de bater na China.

O compromisso de mudar a “velha política” também virou fumaça quando o governo Bolsonaro bateu recorde de liberação de emendas parlamentares na véspera da votação da reforma da Previdência e quando o presidente indicou seu filho para a embaixada nos Estados Unidos. Na segurança, outro ponto forte da retórica presidencial, não se vê novidade. Ontem, no Rio, no enterro de um dos seis jovens mortos a tiros em diversos pontos da cidade, amigos e familiares levantaram faixa cobrando solução: “Presidente Bolsonaro, até quando vidas inocentes serão tiradas?”. Os familiares do menino Dyogo Xavier culpavam a polícia por sua morte, mas quem levou a bronca foi Bolsonaro.

De qualquer forma, claro que o articulista pode estar errado. Mas não custa lembrar lembrar que o efeito catalisador criado pelo mecanismo de conhecimento do eleitor concebido pela Cambridge Analytica hoje é de domínio público, significa que a oposição também pode usar, e os controles sobre os perfis dos usuários de redes sociais são bem mais rígidos. As pesquisas mostram crescimento constante da desaprovação do governo Bolsonaro, mas pesquisas muitas vezes erram. Saberemos mesmo como navega a nau bolsonarista no ano que vem, nas eleições municipais. E o tempo voa.

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Independência do Brasil


Blow-up

Blow-up é a ampliação do negativo. Ao revelar a cena e desconfiar da aparência do presidente, que fala em mudança e age como se não a quisesse, o Parlamento entendeu o recado. Partiu para agenda própria e precisa de ímpeto pontual e permanente diante do quotidiano disperso e ambíguo do Executivo.

Tem ainda a temporada no inferno por que passam o Judiciário e o Ministério Público. Seria bom os dois interromperem por um momento a troca de ofensas para explicarem, em nota conjunta, o que é mesmo a justiça para todos.

Convenhamos, não dá mais para alguém dizer essas coisas desse jeito. Sem modos nunca houve sociedade livre. Tem sido comum presidentes desfrutarem uma perigosa liberdade de expressão visando a dirigir os sentimentos da Nação para si próprios. Opiniões e atitudes nesse cargo deveriam ser fatos políticos extraordinários, e não o retrato dos princípios pessoais que estão por trás deles.


Ninguém é herdeiro das lutas do povo por ganhar uma eleição. Especialmente numa época em que milhões de mensagens angulam a percepção do eleitor numa determinada direção, violando sua privacidade. O escondido embaralha os critérios da pessoa, o flagrante esconde o principal. O truque da eleição continua.

Perder o equilíbrio da aparência para ser notícia contém uma carga de orgulho que, contrariada, pode desabar em violência. O insulto é uma forma de defesa. Nomear os outros para segregá-los, simplificando o sentido de tudo, revela um Brasil gigante anêmico.

Nada do que só fecha a porta ao entendimento é liberalismo. Tudo esconde seu oposto, especialmente venenosas atitudes cênicas. E ao deixar a economia se conduzir liberal, enquanto deixa claro que o que vale são acertos de contas, o presidente revela um mal inconsciente em sua compreensão das coisas. Explica a seus eleitores o que quer condenar supondo a rendição do País, que não gosta. Mais rígido, mais se enrola no paradoxo.

Se o Executivo não encara a imensidão de possibilidades que são a liberdade e a diversidade humana, sendo ela a única que pode realmente produzir o resultado econômico e cultural que faz qualquer governo dar certo, melhor o Congresso dar as cartas.

Querer prosperar economicamente sob um governo liberal e ao mesmo tempo ampliar o sectarismo sobre a sociedade é uma equação inexistente. A estagnação econômica permanecerá se não for enfrentada com a árdua missão de governar com autoridade, discernimento e sacrifício. Aqui é assim: a dificuldade no poder ampara o emocionalismo retrógrado do populismo brasileiro.

O coração do povo é mais vasto do que se supõe. Mira o futuro. Polêmicas políticas são piadas velhas. Provocam emoção num tipo de mercado paralelo onde opera uma cabeça de negócios superada.

Polêmicas morais, de querer costurar a letra escarlate em pessoas e instituições, nenhum governo transitório pode se pretender senhor assim. O erro nessa área será devastador se a razão que vê em tudo uma desordem inexistente preparar a justificativa para uma ordem indesejada. É risco na veia governar por antagonismos.

Muitos equívocos entre nós são fruto do esquecimento, que vem depressa. Sempre ficamos sabendo tarde demais que a oportunidade criada pela idiossincrasia das autoridades costuma ser cozida e comida para ser entregue em endereço certo. Assim, tudo pode começar a deturpar o comércio de bens democráticos e ampliar a fragilidade da vida política.

O Parlamento é a principal instituição do País. Existe uma afinidade vocacional e originária no bom parlamentar que é ser responsável sem precisar ser governista em tudo. Sua urgência é romper o despreocupado estado de espírito com os grandes desafios da hora e exercer o papel de organizar o debate nacional compondo interesses conflitantes e legítimos.

Em relação à ordem econômica, é mantra dizer que as economias bem-sucedidas se diferenciam pela duração dos períodos de crescimento. Já é consenso que a boa economia nem deve ser tratada como uma peça de moralidade, nem deve ser imoral.

O País está paralisado por uma espécie de “fada da confiança” vestida pela incerteza que é a natureza do estilo do presidente. E continua dividido entre os economistas sociais, certos de que é a desigualdade que está refreando a demanda, esmagando nossa recuperação e mantendo a crise permanente; e os economistas liberais, convencidos de que a ideia do crescimento é uma onda, traduzida na velha imagem de que é a maré alta que levanta todos os barcos.

Há expectativa e temor no Congresso de que a recuperação do País não seja compatível com o calor que emana do controle político desse presidencialismo de atritos. Só esfriando os ânimos se diminui o potencial da combustão que está no ar.

Outro desafio para a ação parlamentar é deter a tendência de mais um presidente querer inventar uma política externa. Fato que mais nos afasta da hipótese de termos algum papel na balança de poder mundial. Situação possível se o Senado não impedir que o Itamaraty continue a acumular desequilíbrios. É um erro político centrar o debate da ocupação do posto de Washington como problema familiar.

Não se trata de ofender o presidente, mas salvá-lo do risco de sonhar com grandezas que não nos dizem respeito, que é embarcar na encruzilhada em que Trump meteu os EUA com essa ideia de reconstruir o “Sistema de Yalta”, redividir o mundo em áreas de influência e apostar em conflitos regionais.

Se isso acontecer, o Brasil assumirá contornos que podem esfacelar nossa ordem continental, enfraquecer nossa força de poder brando em temas transnacionais, pôr em dúvida nossa legitimidade em operações de paz e quebrar nossa agricultura na OCDE ao ampliar a repercussão desse proselitismo ambiental equivocado. Um Brasil big stick e antieuropeu é um contrassenso cultural e um irrealismo político-militar inédito em 130 anos de História da República.

Onde erramos: de Itamar a Temer

Em janeiro de 2018, fui convidado a uma palestra em Oxford para falar sobre por que Bolsonaro venceu. Disse que aceitaria falar sobre porque os democratas progressistas perderam. A palestra se transformou em pequeno livro que será publicado em breve, em que lembro que, no próximo ano, completaremos 35 anos de democracia, dos quais 26 com democratas-progressistas no poder; e o eleitor decidiu nos derrotar.

Depois de 26 anos no poder, 1/4 de século e de República, cinco presidentes — Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer —, o quadro que deixamos não satisfez ao eleitor que nos derrotou, mas ainda nos negamos a fazer autocrítica, entender onde nós, os democratas progressistas, erramos.
Erramos ao desperdiçar a chance de um pacto nacional para darmos coesão política ao presente e rumo ao futuro. Consideramos que nosso papel era apenas recuperar a democracia na política e acelerar o crescimento na economia com mínimas ajudas aos pobres, esquecendo que tínhamos um país a construir: eficiente, justo, pacífico, sem pobreza, sustentável. Ignoramos as imensas transformações em marcha na civilização, sob a forma da globalização, da inteligência artificial, dos limites ecológicos ao crescimento, da realidade contemporânea em que o conhecimento é o principal vetor do progresso econômico.

Desprezamos a experiência de que não se constrói justiça social sobre economia ineficiente. Erramos ao ficarmos presos a ideias obsoletas na esquerda e cairmos em vícios da direita. Prisioneiros do imediatismo eleitoral, submetemo-nos ao corporativismo de empresários e de trabalhadores; preferimos atender aos sindicatos do que ao povo, ao presente do que ao futuro. Em vez de usar o poder para transformar, preferimos nos acomodar para sobreviver no poder, optamos pelo populismo.

Não percebemos o esgotamento financeiro, administrativo e moral do Estado. Continuamos recusando as reformas necessárias para fazê-lo eficiente, comprometido com o público e protegido contra a corrupção. Ao contrário, aparelhamos o Estado, patrocinando seu inchaço; fomos tolerantes, coniventes, complacentes e locupletados na corrupção. Optamos pela irresponsabilidade fiscal, jogando o país na recessão, no desemprego e na inflação. Desprezamos a austeridade nos gastos públicos, defendendo mordomias e privilégios, quando deveríamos ter sido a vanguarda das reformas necessárias ao progresso. Preferimos falar para os eleitores no presente, mesmo enganando-os com populismo, a dizer a verdade e apontar para o futuro.

No lugar de fazermos autocríticas, tratamos como inimigos os aliados que nos alertavam e nos aliamos a corruptos que nos aplaudiam. Ainda pior, cooptamos os intelectuais, especialmente universitários, para o silêncio reverencial. Caímos no culto aos líderes das siglas, ignorando seus erros e perdoando suas corrupções.

Abdicamos de defender os símbolos nacionais, politizamos a economia e os valores morais, além de relegar a importância da cultura na formação de uma mente brasileira comprometida com o progresso: a educação, a sustentabilidade, a eficiência, a paz, o sentimento de patriotismo, a defesa da ética no exercício do poder e dos serviços públicos. No lugar do povo e da nação, preferimos o apego às siglas partidárias.

Não percebemos que nossa bandeira viável e revolucionária consistiria em uma “concertação nacional” por uma estratégia de longo prazo para colocar o Brasil entre os melhores do mundo em educação e garantir escola com a mesma qualidade para todos, filhos dos pobres em escolas tão boas quanto filhos dos ricos, como tantos outros países já fizeram. Se tivéssemos seguido essa estratégia nos 26 anos que estivemos no poder, hoje teríamos economia eficiente e sociedade justa.

Fabricamos o “outrismo”, e agora é difícil sair dele. Para isso, será preciso entender onde erramos e formular nossas propostas de rumo para o futuro: atrair o eleitor para uma alternativa que construa novamente o Brasil, sermos estadistas, não apenas políticos. Mas isso não parece fácil pela fragilidade de nossos filósofos e pelos vícios de nossos políticos.

A saída para o Brasil não virá pelos sectários, mas os não sectários não parecem ter chance nos próximos anos. Porque é muito forte a aliança entre os extremos. Os sectários são iguais, com palavras diferentes que se autoalimentam, conseguindo eliminar todos que não se identificam com os reacionários obscurantistas ou com os reacionários obsoletistas, que fazem uma aliança de inimigos, repetindo 2018 em 2022.
Cristovam Buarque

Bolsonaro e o Caliban

"A aversão do século XIX pelo Realismo é a ira de Caliban por ver seu rosto no espelho; a aversão do século XIX pelo Romantismo é a ira de Caliban por não ver seu rosto no espelho”, escreveu Oscar Wilde no prefácio a seu romance “O retrato de Dorian Gray”.

O Realismo tentava retratar a realidade tal como ela é; o Romantismo idealizava a realidade; Caliban é uma personagem bestial de “A tempestade”, de Shakespeare. Wilde quer dizer que existe uma parcela tosca da sociedade que sempre odiará a arte, a cultura, a civilização, ou porque estas revelam seus defeitos e insuficiências, ou porque, ao contrário, descortinam um mundo belo e elevado ao qual ela jamais poderia pertencer.

As armas do Caliban contra a civilização são a inveja, o rancor, o ressentimento, o ódio, o preconceito, o anti-intelectualismo, a intolerância, a mentira, a intimidação, a violência. Assim como Próspero, protagonista de “A tempestade”, mantém Caliban cativo para garantir a segurança de sua filha Miranda, a sociedade precisa manter o Caliban sob controle para garantir a segurança da civilização: quando ele se liberta, as consequências são graves.


Exemplos extremos do Caliban são a fase final da Revolução Francesa; os camisas negras na Itália; a SA e a SS na Alemanha; a Guarda Vermelha na China da Revolução Cultural; o Khmer Vermelho no Camboja; os porões das ditaduras militares sul-americanas. A mais perfeita tradução do Caliban está no brado lúgubre, e contraditório, da Falange Espanhola na guerra civil: “Abaixo a inteligência! Viva a morte!”.

Para se libertar, o Caliban precisa de um ambiente propício, como este que temos hoje no Brasil: devastação econômica; polarização política; frustração, ressentimento e ódio (constantemente alimentados pelos dois lados); a percepção de que o Legislativo é composto de corruptos e o STF é um obstáculo à luta contra a corrupção; deterioração institucional. E um representante do Caliban capaz de galvanizar tudo isso — com o beneplácito de muitos que deveriam temê-lo.

Estamos vendo agressões diárias à imprensa, à academia, à ciência, à arte, à cultura, ao meio ambiente, a países amigos, às minorias, à lei, à lógica, ao bom senso, às boas maneiras — enfim, à democracia e à civilização. Quem ousa discordar é descartado e, se isso não é possível, linchado nas redes. Seria de se esperar que a sociedade— ou, ao menos, sua parcela mais preparada, que compreende a importância da democracia e dos valores ocidentais — reagisse com vigor. Em que pesem os muitos protestos, é assustadora a quantidade de pessoas preparadas que releva, relativiza, minimiza, justifica ou abertamente defende as infâmias de Bolsonaro. Essa complacência se explica pela revolta contra o PT e pelo raciocínio “vamos consertar a economia, o resto a gente vê depois”.

A complacência não se justifica. A revolta contra o PT perdeu o objeto: derrotado na eleição, fora do poder há três anos, com seu chefe e dono preso, o partido está fora da equação. A discussão não é mais sobre se Bolsonaro é melhor do que Haddad, mas sobre se sua conduta é aceitável em uma sociedade democrática.

O “raciocínio” também está errado: para consertar a economia, não é preciso destruir o resto e, dependendo do que for destruído, “consertar depois” pode não ser possível. E, por melhor que seja a equipe econômica, ela não basta. Crescimento sustentável exige investimento em educação, ciência e cultura; respeito ao meio ambiente; segurança jurídica; boas relações exteriores. Exige também investimento privado, coisa difícil em clima permanente de confronto e incerteza. O Caliban não é inimigo apenas da civilização: é inimigo do crescimento econômico, também.

Por fim, vale lembrar àqueles que supõem ser possível controlar o Caliban que a história mostra que ele sempre devora quem o alimenta.

Ricardo Rangel

Paisagem brasileira


Bolsonaristas vão à rua na contramão do capitão

A infantaria bolsonarista organiza nova manifestação para o dia 25 de agosto, um domingo. Dessa vez, o asfalto roncará em duas faixas. Numa, apoiará a dupla Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Noutra, pedirá o impeachment de uma trinca suprema: Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes.

Jair Bolsonaro terá dificuldade para surfar as cenas, pois passou a marchar na contramão de sua tropa. Trocou a defesa da Lava Jato pela proteção dos esqueletos que sua família tem no armário. Hoje, faz dobradinha com Toffoli e Cia. para desligar da tomada o Coaf e enfraquecer a Receita Federal —duas usinas de dados para processos anticorrupção.

Em 27 de agosto, dois dias depois da manifestação, Moro e Deltan serão arrastados para o patíbulo. O pescoço do ex-juiz vai à guilhotina na Segunda Turma do Supremo, no julgamento de um pedido de suspeição formulado pela defesa de Lula. Com azar, esse julgamento pode envenenar a biografia de Moro como ex-magistrado. Com muito azar, a Segunda Turma pode devolver Lula ao meio-fio.

A lâmina assediará a garganta de Deltan, chefe da força-tarefa de Curitiba, no julgamento de um pedido de punição no Conselho Nacional do Ministério Público. Coisa relacionada ao conteúdo da primeira leva de mensagens roubadas do seu celular. O conta-gotas começou a pingar há dois meses e cinco dias, em 9 de junho. Numa das conversas, ironicamente, Deltan fala para colegas da Lava Jato sobre a conveniência de atiçar as ruas.

Tomando-se como autêntico o que foi vazado, o coordenador da Lava Jato escreveu o seguinte na antevéspera da apresentação da primeira denúncia contra Lula: "A opinião pública é decisiva e é um caso construído com base em prova indireta e palavra de colaboradores contra um ícone que passou incólume pelo mensalão". Com azar, as mensagens podem render uma suspensão de Deltan. Com muito azar, abre-se um procedimento para sua exoneração.


Na campanha presidencial, Bolsonaro enrolou-se na bandeira da ética. Eleito, enfeitou a Esplanada dos Ministérios com a biografia do homem que mandou prender Lula. Agora, seus apologistas mais abrasivos pedem que prestigie Moro e aproveite a sucessão de Raquel Dodge para acomodar Deltan na poltrona de procurador-geral da República.

Em relação a Moro, o capitão deu voz de prisão ao pacote anticrime do ministro, trancando-o no freezer. "Entendo a angústia dele em querer que o projeto dele vá para a frente, entendo, mas nós temos que combater, diminuir o desemprego, fazer o Brasil andar, abrir o nosso comércio". Quanto a Deltan, Bolsonaro apressou-se em afastá-lo da poltrona de procurador-geral. Retuitou mensagem na qual o procurador era retratado como "um esquerdista estilo PSOL".

Em nova fase, o capitão reserva seus melhores elogios para as togas que seus seguidores querem puxar para fora do Supremo. Em privado, Bolsonaro derrama-se em elogios a Dias Toffoli e Alexandre de Moraes. A pedido do primogênito Flavio Bolsonaro, Toffoli, suspendeu investigações fornidas com dados do Coaf e da Receita. Moraes travou investigação do Fisco sobre 133 contribuintes, entre eles Gilmar Mendes. E mandou afastar dois servidores da Receita.

Noutros tempos, Jair Bolsonaro espancaria o Supremo e seus ministros nas redes sociais. Seu filho Zero Três, Eduardo Bolsonaro, talvez repetisse que bastam "um cabo e um jipe" para fechar a Suprema Corte. Mas os tempos são outros. Escolhido como novo embaixador brasileiro em Washington, Eduardo virou matéria-prima para o Supremo numa ação por nepotismo que aguarda na fila para acontecer. E seu pai-presidente agora faz dobradinha com a Corte que costumava desancar.

Nas pegadas das decisões de Toffoli e Moraes, Bolsonaro se equipa para fatiar os poderes da Receita e lopoaspirar as competências do Coaf, escondendo-o no organograma do Banco Central. De resto, ajeita a demissão de Roberto Leonel, o auditor que Moro transferira da Lava Jato para o comando do Coaf na época em que ainda dispunha de "carta branca".

A cabeça de Leonel vai à bandeja porque ele ousou criticar, por esdrúxula, a decisão de Toffoli no recurso de Flávio Bolsonaro. Recorde-se que a movimentação bancária atípica do filho mais velho não é o único esqueleto dos Bolsonaro. As investigações bloqueadas por Toffoli incluem transferência de R$ 24 mil do "amigo" Fabrício Queiroz para a conta bancária da primeira-dama Michelle Bolsonaro.

O presidente alegou tratar-se de parte do pagamento de um empréstimo de R$ 40 mil que fez a Queiroz, ele próprio dono de movimentação bancária milionária. Não há vestígio de contrato ou promissória. Bolsonaro desobrigou-se de prestar contas à Receita Federal. Ainda não explicou como repassou os R$ 40 mil ao "amigo". Tampouco esclareceu se já regularizou sua situação no fisco. Sabe-se apenas que a primeira-dama encontra-se na alça de mira de auditores fiscais.

O discurso que fazia de Bolsonaro um paladino autoproclamado dos bons costumes enferrujou. A manifestação do dia 25 de agosto ajudará a expor o processo de oxidação. É cedo para dizer se as ruas conseguirão deter as lâminas que um pedaço do Supremo e do Conselho Nacional do Ministério Público gostariam de descer sobre os pescoços de Moro e Deltan. Mas Bolsonaro já não consegue disfarçar a ferrugem que recobre sua imagem.

Os procuradores de Curitiba queixam-se de que a oligarquia e a bandidagem repetem com a Lava Jato o movimento de desqualificação que engolfou a Operação Mãos Limpas, na Itália. Lá, deu em Silvio Berlusconi. Se Bolsonaro não se cuidar, o asfalto pode concluir que ele virou uma espécie de Berlusconi à brasileira.

No pensamento privado

A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele próprio e seus aliados
Bertrand Russell

Zero Dois, o colecionador de cabeças

Em versão atualizada e enxuta, está de volta o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) – e congêneres, desta vez sob a chefia do vereador Carlos Bolsonaro, vulgo Zero Dois, o temido colecionador de cabeças que assombra a República desde que seu pai vestiu a faixa presidencial, lá se vão quase oito turbulentos meses.

Em sua versão original, datada do início dos anos 60 do século passado, o CCC foi uma organização paramilitar anticomunista de extrema direita composta por estudantes e policiais favoráveis à implantação no país de um regime autoritário. Com o golpe militar de 64, passou a caçar os adversários da ditadura.

Como o capitão, o Zero Dois acha que o Brasil poderá ser uma presa fácil para o comunismo que ainda estaria vivo por toda parte e ameaçador. Dedica-se à tarefa de defender o pai de todos aqueles que enxerga como inimigos – à esquerda ou à direita, não importa. E para isso só haveria uma solução: decapitá-los.


Foi o que já fez com os ministros Gustavo Bebbiano (Secretaria-geral da Presidência) e Santos Cruz (Secretaria do Governo). E agora com o jornalista Paulo Fona que só ficou sete dias como assessor de imprensa da presidência da República. Em menos de oito meses, Bolsonaro já teve três assessores de imprensa.

Em junho último, Fona foi chamado para uma conversa com Fabio Wajngarten, chefe da Secretaria de Comunicação Social da presidência. Wajngarten quis ouvi-lo sobre sua experiência como assessor de imprensa de dois governos no Distrito Federal (PMDB e PSB) e de um no Rio Grande do Sul (PSDB).

No final do mês, em novo encontro, Wajngarten convidou Fona para ser o assessor de imprensa de Bolsonaro. O jornalista sugeriu que ele pesquisasse sua vida profissional para se certificar melhor da escolha que fazia. Forneceu-lhe todos os seus dados pessoais – CPF, Carteira de Identidade e nomes de antigos empregadores.

Quinze dias depois, o martelo foi batido durante o terceiro encontro dos dois, e Fona apresentado como assessor de imprensa aos generais Luiz Eduardo Ramos Pereira (ministro da Secretaria de Governo) e Otávio Rêgo Barros (porta-voz da presidência da República). Em seguida, a notícia vazou para a imprensa.

A nomeação só foi formalizada no dia 6 de agosto porque Fona demorou a providenciar cópias do certificado de reservista e do diploma de bacharel em jornalismo. Ontem à tarde, um auxiliar de Wajngarten chamou Fona ao seu gabinete e disse que Bolsonaro mandara demiti-lo. Não se deu ao trabalho de explicar por quê.

Funcionário da liderança do PSB no Senado até 31 de julho, o jornalista é o mais novo desempregado da praça. Quem aconselhou Bolsonaro a demiti-lo foi o Zero Dois por considerá-lo de esquerda. Carlos não descansará enquanto não despachar com o pai em Brasília como o responsável pela área de comunicação do governo.

Cuide-se Wajngarten, mas não só ele. Rêgo Barros, pouco a pouco, vem sendo desidratado como porta-voz. Começa a circular nos corredores do Palácio do Planalto uma pergunta que põe o futuro do general em xeque: para quê Bolsonaro precisa de um porta-voz se ele mesmo não para de falar sobre tudo e qualquer coisa?
Ricardo Noblat

Ataques de Bolsonaro contra universidades seguem a mesma lógica de Hugo Chávez

Nas eleições presidenciais de 1998, 56% dos eleitores venezuelanos decidiram dar uma chance ao ex-militar Hugo Chávez, um antipolítico que prometia acabar com a "velha política" e a corrupção. O discurso inflamado e as convicções autoritárias de Chávez foram a estratégia acertada em uma eleição marcada pela ampla insatisfação com o sistema político tradicional e o desejo de ruptura. No ano seguinte, em uma entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o então deputado e ex-militar Jair Bolsonaro chamou o líder venezuelano de uma "esperança para a América Latina." Foi além: "Gostaria muito que esta filosofia chegasse ao Brasil. Acho ele ímpar. Pretendo ir à Venezuela e tentar conhecê-lo”. De fato, apesar de declarar o chavismo como grande inimigo ao longo dos últimos anos, Bolsonaro compartilha várias características com o ex-presidente venezuelano.


Uma dos traços que o brasileiro tem em comum com o fundador do chavismo — e que não costuma ser lembrado — é uma conturbada relação com o mundo acadêmico e o pensamento crítico. Por exemplo, Bolsonaro já criticou a autonomia das universidades federais — garantida pela Constituição — e seu Governo fez ameaças de que instituições fazendo “balbúrdia” teriam suas verbas reduzidas, tendo como alvo principal as ciências humanas, área que supostamente teria forte influência de doutrinação marxista. Como um político da oposição venezuelana me disse durante minha recente visita a Caracas, "Bolsonaro é um aliado importante na luta contra a ditadura aqui, mas é claro que sua retórica me lembra a de Hugo Chávez."

Como costuma ocorrer em regimes com tendências autoritárias, o incômodo do regime chavista com o pensamento crítico e independente nas universidades venezuelanas tradicionais se revelou logo depois da primeira eleição de Chávez. Como o cientista político turco Ilhan Uzgel argumenta, "a primeira coisa que esse tipo de movimento ideológico ataca são pessoas e instituições que produzem conhecimento. Eles precisam eliminar essas áreas para estabelecer seu próprio poder. Porque elas [as universidades] representam a única força dissidente na sociedade."

Em regimes de direita com ambições autoritárias, o pensamento crítico costuma ser tachado de comunista, subversivo ou moralmente reprovável, enquanto regimes de esquerda com as mesmas pretensões geralmente o rotulam de imperialista, fascista ou ligado à velha ordem, opção abraçada pelo presidente Chávez e seus seguidores. O tipo de acusação diverge, mas o desejo de enfraquecer ou controlar centros de pensamento independente é o mesmo.

O presidente Chávez logo percebeu, porém, que confrontar diretamente as universidades tradicionais — as chamadas "universidades autónomas" — seria uma batalha difícil de vencer e causaria resistência junto às elites intelectuais, além de reprovação internacional. Optou, portanto, por uma estratégia mais sofisticada. Em nome de aumentar o acesso ao ensino superior, criou um sistema paralelo de novas universidades diretamente subordinadas ao Executivo, onde há pouco ou nenhum espaço para o pensamento que não estivesse alinhado ao do governo. A conta do Twitter de umas delas, a Universidad Bolivariana de Venezuela (UBV), por exemplo, poderia ser facilmente confundida com uma conta do Governo Maduro, constantemente compartilhando fotos de eventos e palestras do presidente. Universidades alinhadas com o pensamento oficial receberam cada vez mais financiamento público e cresceram rapidamente, enquanto instituições públicas tradicionais tiveram cada vez menos apoio financeiro do Governo.

A partir de 2010, o órgão responsável por aprovar a criação de novos cursos parou de emitir pareceres favoráveis para universidades autônomas, não alinhadas ao chavismo. Travou também o processo de nomear reitores críticos ao regime. Dois anos mais tarde, o Governo começou a interferir diretamente nas eleições de movimentos estudantis. Nessa época, forças de segurança do Estado começaram a intimidar ou prender estudantes, censurar publicações universitárias e invadir instituições de ensino superior, como ocorreu durante as manifestações de 2014 contra o Governo venezuelano. O relatório El pensamiento bajo amenaza: Situación de la libertad académica y la autonomía universitaria en Venezuela (O pensamento sob ameaça: situação da liberdade acadêmica e a autonomia universitária na Venezuela), publicado pela Coalizão de Cátedras e Centros de Direitos Humanos, liderada por acadêmicos venezuelanos, detalha a estratégia sistemática do regime chavista de suprimir a liberdade acadêmica e a autonomia universitária.

Apesar de toda a pressão e das dificuldades que o Governo tem criado para o ensino superior autônomo, porém, o regime não tem conseguido controlar os professores e principais movimentos estudantis, e as universidades se mantêm como principal espaço de pensamento independente do país. Estudantes das grandes universidades autônomas foram cruciais para explicar a derrota de Chávez no referendo sobre a mudança constitucional em 2007 e na organização dos protestos nos anos seguintes. Em retrospectiva, Chávez acertou ao enxergar no mundo universitário a maior resistência a seu projeto autoritário. Enquanto a oposição oficial está dizimada, parcialmente presa, exilada ou desorganizada, numerosos professores e grupos estudantis continuam lutando, diariamente, para preservar um espaço surpreendentemente vivo para o debate político.

Embora Bolsonaro ainda não tenha ido tão longe quanto Chávez, sua retórica e alguns dos primeiros passos do atual governo no que tange a relação com as instituições públicas de ensino superior demonstram claramente a mesma lógica chavista: inibir o pensamento crítico e não alinhado ao discurso oficial. Opositores ao chavismo com quem tive contato direto em Caracas foram explícitos ao apontar as semelhanças entre Chávez e Bolsonaro no tocante à maneira de lidar com o pensamento crítico e independente. Apesar de atacar ferozmente o chavismo, o mandatário brasileiro tem mais em comum com seu “inimigo preferido” do que seria capaz de admitir.

Pensamento do Dia