Mais de 200 das maiores empresas do mundo deverão perder um total de 1 trilhão de dólares por causa das mudanças climáticas, grande parte disso apenas nos próximos cinco anos, aponta um relatório divulgado nesta terça-feira (04/06).
O estudo realizado pela ONG CDP sugere que muitas empresas ainda subestimam os perigos relacionados ao fenômeno, enquanto os cientistas alertam que o clima da Terra se encaminha para limites catastróficos caso não haja reduções nas emissões de carbono na atmosfera.
"A maioria das empresas ainda tem muito a caminhar em termos de avaliar adequadamente os riscos relacionados ao clima", afirmou Nicolette Bartlett, diretora para Mudanças Climáticas da CDP e autora do relatório.
Fundada no ano 2000, a CDP (antigamente chamada de Projeto de Transparência do Carbono – nome que originou a sigla em inglês) é um organismo respeitado dentro de uma crescente coalizão de grupos de lobby, administradores de fundos, bancos centrais e políticos que acreditam que as mudanças climáticas representem um risco sistêmico para o sistema financeiro.
Ao forçar as empresas a enfrentar os riscos às suas operações, os defensores de mais transparência esperam fazer avançar investimentos suficientes na indústria para reduzir as emissões, a tempo de cumprir as metas climáticas. O CDP analisou dados de 215 das maiores indústrias do mundo, como Apple, Microsoft, Nestlé, Unilever, China Mobile, Infosys, UBS, Sony e BHP.
Essas empresas já teriam tido prejuízos de 970 bilhões de dólares em custos adicionais devido a fatores como o aumento das temperaturas, clima caótico e o preço colocado sobre as emissões de gases causadores do efeito estufa. Cerca de metade desses custos são considerados prováveis ou praticamente certos.
Segundo o relatório, as companhias poderiam obter amplas vantagens com um mundo descarbonizado a tempo de evitar os cenários climáticos mais tenebrosos, que os cientistas acreditam representar um risco existencial para a civilização industrial.
As preocupações com os riscos representados pelo clima aumentaram de modo acentuado, paralelamente ao crescimento do ativismo ecológico em muitos países, enquanto ondas de calor, secas, incêndios florestais e supertempestades reforçadas pelo clima se tornam cada vez mais difíceis de serem ignoradas.
quarta-feira, 5 de junho de 2019
Roubo e inépcia levam país ao inferno da penúria
Quando Jair Bolsonaro ainda estava em campanha, seu Posto Ipiranga prometia zerar o déficit público no primeiro ano da nova administração. Era ilusão. Ainda estamos no primeiro semestre. E Jair Bolsonaro ergue suas preces ao Altíssimo para que o Congresso autorize o governo a emitir quase R$ 249 bilhões em dívida.
Se suas preces não forem atendidas, o capitão viverá um vexame dentro de duas semanas. Vai faltar dinheiro para despesas vitais. Bolsa família e aposentadorias, por exemplo. A encrenca tem um nome dourado: "regra de ouro". Assim é chamada a norma que proíbe o governo de se endividar para pagar as chamadas despesas correntes —desde salário de servidor até conta de luz.
Ou o Congresso atende aos apelos do Planalto ou Bolsonaro ficará numa encruzilhada. Se cancelar as despesas, o presidente produzirá o caos. Se gastar sem o aval do Legislativo, fornecerá matéria prima para a abertura de um processo de impeachment. A esse ponto chegamos.
Nesta quarta-feira, o deputado Hildo Rocha, relator do pedido de liberação de crédito suplementar, apresentará seu relatório para ser votado na Comissão de Orçamento. Convocou-se uma sessão do Congresso, com deputados e senadores, para tentar votar a matéria em plenário na sequência.
Misturando-se a penúria financeira à roubalheira e à incompetência que infelicitam o Estado brasileiro, conclui-se que o inferno existe. É aqui. E não funciona.
Faoro e a Justiça Militar
Passou o tempo, virou o século, e os militares ganharam o foro de sua Justiça.

O Ministério Público militar pediu o arquivamento do processo da Chacina do Salgueiro, ocorrida em 2017. Numa noite, oito pessoas foram mortas numa comunidade de São Gonçalo (RJ), e um sobrevivente diz que os tiros vieram de pessoas fardadas que estavam na mata. Esse cidadão prestou três depoimentos à polícia e ao MP estadual. A Procuradoria Militar não o chamou.
Noutro episódio, 11 cidadãos presos em agosto passado numa operação de combate ao tráfico de drogas na Penha disseram que foram torturados num quartel do Exército. Sete deles vão responder por tentativa de homicídio contra os militares. Três dizem que em dezembro foram ameaçados no presídio em que estão trancados.
Há duas semanas, o Superior Tribunal Militar revogou a prisão dos nove militares que haviam sido presos por dispararem 83 tiros num carro que conduzia uma família, matando duas pessoas. Eles responderão ao processo em liberdade. Está entendido que atiraram porque achavam que no carro iam bandidos. (Houve um voto pela manutenção da prisão, outro para que continuasse preso o tenente que comandava a patrulha e dois para que o grupo cumprisse medidas cautelares.)
Como disse o ministro-general Luis Carlos Gomes Mattos, “só a ação penal vai dizer o que aconteceu”: “Estamos julgando criminosos que saíram do quartel para dar tiros? Tenho certeza absoluta de que não foi assim.” Mesmo assim, deve-se ter certeza absoluta de que a patrulha tentou (e conseguiu) enganar seus comandantes por um dia, inventando uma cena de confronto.
Cada um desses três casos tem a sua especificidade, mas o conjunto sugere um padrão: a dificuldade da Justiça Militar de delimitar a linha que separa a compreensão da tolerância. A ação de um soldado que tenha disparado sua arma em Guadalupe difere daquela do tenente que comandava a patrulha e teria dado 77 tiros. Além disso, sempre sobrará a questão do uso de tropas em ações policiais, pois a corda acaba arrebentando nas mãos de um jovem oficial, tenente, capitão ou, no máximo, um major.
Houve um tempo em que, apesar da advertência de juízes militares como Olympio Mourão Filho e Peri Bevilaqua, por diversos motivos, não se traçava a linha demarcatória e tolerava-se o intolerável.
Cada caso tinha sua especificidade, e assim a coisa foi, até que em 1971 um capitão descobriu uma boca de fumo num quartel de Barra Mansa. Supliciaram 11 soldados, matando quatro. Fingiu-se que os jovens haviam desertado, e acobertou-se o caso, até que entraram na cena o bispo Dom Waldyr Calheiros e dois chefes militares, Antônio Carlos Muricy e Valter Pires de Carvalho. Como disse Muricy a Pires: “O Exército não deve ter medo de que uma coisa dessas aconteça. Deve ter medo é de acobertar.”
Um ano depois, o Exército admitiu os assassinatos e, em 1973, a Justiça Militar condenou o capitão a uma pena de 84 anos. Ele cumpriu onze e meio. O coronel que comandava o quartel ficou de fora. O tenente-coronel que o substituía nas férias e dirigiu o acobertamento teve uma pena de sete anos, reduzida para seis meses. Ele teria mandado cortar a cabeça de um dos mortos.
É preciso mudar
Somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somosEduardo Galeano
Brasil é o país mais difamado do mundo em matéria de preservação ambiental
Foi quando as grandes indústrias poluidoras tiveram de ser transferidas para a China, que ao mesmo tempo se tornou uma potência econômica e o país mais poluidor do mundo, a tal ponto que o famoso Rio Amarelo já não faz jus ao nome e mal consegue desaguar no Pacífico, porque na maios parte do ano suas águas secam a meio caminho. E hoje as chuvas ácidas ocorrem com maior intensidade exatamente na China.
Entre os países que ainda têm grandes extensões de florestas naturais destaca-se o Brasil. No entanto, ao invés de ser saudado como o maior preservador ambiental do planeta, há décadas passou a sofrer uma campanha permanente de difamação, inclusive com claras ameaças até de intervenção internacional na Amazônia.
Essa campanha não parou nem vai parar, porque o governo brasileiro jamais soube se defender a respeito, nem externa ou internamente. E hoje os próprios cidadãos brasileiros desconhecem que têm motivos para se orgulhar da política ambiental do país, alguns sequer acreditam que isso exista.

É impressionante que os sucessivos governos brasileiros jamais tenham alegado que o Brasil adota a mais rígida e moderna legislação do mundo, que obriga os produtores agrícolas a preservarem para reserva florestal na Amazônia 80% da área de cada empreendimento, 30% no Cerrado e 20% nas demais regiões.
Por incrível que pareça, essa legislação está sendo obedecida e Estados agrícolas que haviam sofrido brutal desmatamento estão recuperando as percentagens exigidas em lei, tornando o Brasil o país que mais regenera ambientes degradados.
Em São Paulo, a extensão de áreas reflorestadas em fazendas já é superior à soma de todas as unidades de conservação existentes no Estado. E essa regeneração está acontecendo em todo país, documentada pela Embrapa em observações por satélite.
Porém, os próprios brasileiros continuam a desconhecer essa auspiciosa realidade. O próprio governo não sabe, podem perguntar ao presidente Jair Bolsonaro ou ao ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ele vão ficar surpresos.
A revista “Science”, editada pela Associação Americana para o Avanço da Ciência, acaba de divulgar que há uma tendência mundial de retrocessos ambientais, acentuada nas últimas duas décadas e liderada por dois países de proporções continentais: Estados Unidos e Brasil. Esta é a conclusão do mais completo estudo já realizado, a cargo de um grupo de cientistas de diversas universidades, sob liderança da ONG Conservação Internacional.
É preciso que o governo brasileiro reaja e desminta esse relatório de fancaria, mas quem se interessa? Em setembro, o presidente Bolsonaro vai abrir a Assembleia-Geral da ONU, seria importante revelar essas verdades ao mundo, inclusive se referindo aos países que destruíram seu meio ambiente e deveriam se envergonhar disso, ao invés de criticar quem preserva.
O mais importante é que no Brasil existe também a recuperação ambiental voluntária, realizada por ecologistas anônimos, que deveriam ser homenageados com a Ordem do Rio Branco, mas nenhum governo se lembra de fazê-lo.
É preciso exaltar os exemplos desses brasileiros, como o biólogo paulista Cláudio Martins Ferreira, que preserva a reserva ambiental das Fazendas Meandro, em Ibiúna, a apenas 70 km de São Paulo. Quando adquiriu a primeira propriedade, na década de 70, boa parte da área de Mata Atlântica estava preservada.
Empolgado, o biólogo adquiriu mais duas áreas, que foram chamadas de Fazendas Meandros II e Meandros III. Hoje, ao todo, há uma área de 1.200 hectares de Mata Atlântica conservada, que protegem diversas nascentes e um cachoeira que deságua no Rio Laranjeiras, um dos formadores da represa Cachoeira do França.
Na reserva também há uma riquíssima diversidade de animais, com muitas aves, mamíferos, répteis e anfíbios, alguns inclusive, ameaçados de extinção como é o caso da araponga, do sabiá-pimenta e do pavó. A paca e o cachorro-vinagre, de categoria bastante rara, também estão sob proteção, assim como a onça parda e primatas como o sagui, macaco-prego e bugio.
Nos campos das fazendas, o biólogo implantou um moderno esquema agrícola, em 24 estufas, onde aproximadamente 60 funcionários trabalham na produção de tomates, pimentões, pimentas, vagem holandesa e francesa.
Em média, segundo o proprietário, 60 toneladas são comercializadas por mês para grandes redes de supermercados, gerando recursos que ajudam a manter a Unidade de Conservação Ambiental, incluindo a atuação de seis guardas florestais.
Exemplos como o do biólogo Cláudio Martins Ferreira estão prosperando no país. Hoje, Dia do Meio Ambiente, é preciso lembrar que esses heróis anônimos existem e criam reservas florestais que na verdade passam a não mais pertencer a eles, porque acabam por se tornar patrimônio da Humanidade.
Nova York perde a guerra contra os ratos
A operação de extermínio dura alguns segundos. “Verá como não voltarão aqui por uns anos”, diz convencido após acabar completamente com a família de roedores, “procurarão um lugar mais seguro”. O veneno e as armadilhas, diz, não funcionam. Comenta que o abastado bairro de Upper West Side de Nova Yorkestá infestado. “Os nova-iorquinos estão acostumados a conviver com eles”, diz, mas alerta que nos últimos anos o problema aumentou e sabe que sua batida na verdade não irá adiantar muito.

Enquanto os altos preços obrigam mais moradores a abandonar a cidade, a população de ratos cresce. É só prestar atenção nos últimos dados do serviço de assistência telefônica de Nova York. As queixas dos moradores ao número 311 cresceram quase 40% em um ano, até superar as 17.350 ligações. E isso apesar do prefeito Bill de Blasio declarar há dois anos a guerra aos ratos, destinando 32 milhões de dólares (125 milhões de reais) do orçamento municipal a um programa de combate e erradicação dos roedores.
A frequência de recolhimento das latas de lixo aumentou e foram instaladas novas lixeiras de aço nos parques que compactam os restos. A cidade de Nova York possui até mesmo uma equipe especial dedicada a exterminar os ratos. Sua nova arma de ataque é colocar gelo seco nas tocas quando os animais estão dentro e fechar os buracos para que não possam escapar.
Mas ao que parece, a cidade dos arranha-céus está perdendo a batalha. Não há um bairro que esteja livre dessa peste, apesar do esforço realizado. É um problema comum em outras grandes cidades, como Filadélfia, Washington, Chicago, Los Angeles e Seattle. Os biólogos, entretanto, deixam claro que os ratos nunca poderão ser completamente erradicados em Nova York.
Gentrificação
Para começar, o bairro de Manhattan está em uma ilha e a água também banha o Bronx, Queens e o Brooklyn. A extensa rede de metrô lhes dá proteção e uma via para se movimentar. E como principal fator que contribuiu para o aumento da população de roedores está o sistema de coleta de lixo, que fica empilhado de noite na frente de bares e restaurantes em um bufê infinito até que o caminhão passe horas depois.
Existem mais dois fatores, que de acordo com os especialistas alimentaram seu crescimento nos últimos anos. Por um lado, está o boom da construção. “É como pisar em um formigueiro”, diz Aguilar enquanto mostra a obra sendo feita na mesma calçada, “fazem com que saiam de seus esconderijos”. Há outra construção que acaba de começar virando a esquina. “Saíram centenas quando derrubaram o edifício”. As novas edificações mais altas enriquecem o bufê desses animais.
Outro fator, mais preocupante, que contribuiu à praga é o efeito da mudança climática. Os invernos mais suaves elevam a sobrevivência do mamífero e aceleram seu processo de reprodução. Os ratos, paralelamente, ficaram maiores e mais pesados. “Até os gatos têm medo deles”, diz o zelador. Não está errado. Um estudo do biólogo Michael Parsons da Universidade de Fordham revela que o felino já não serve para caçar roedores.
Batidas da população
De fato, eles são vistos nas ruas comendo na mesma pilha de lixo, ao mesmo tempo. A única forma de evitar que a população continue crescendo, diz a Arrow Exterminating, “é ficar constantemente em cima”. Há um grupo de voluntários conhecidos como Ryders Alley Trencher Society – a sigla em inglês forma a palavra ratos – que pelas noites fazem batidas pela cidade com cachorros da raça Terrier.
É uma boa desculpa para sair para passear quando o tempo está bom no verão e colocar o instinto animal para funcionar. Podem caçar até vinte ratos em grupo. Não há um número confiável sobre os roedores que povoam a cidade. O que se diz é que são o dobro dos humanos. A mudança climática, como informa o Departamento de Saneamento de Nova York, só exacerba as condições.
Admitem que não possuem arma adequada para lutar essa guerra e o máximo que podem fazer é reduzi-la a um nível tolerável. Robert Sullivan, que passou um ano examinando os habitantes mais incômodos da grande metrópole dos EUA, opina, entretanto, que os ratos são na realidade um espelho dos humanos. Estão tão integrados que são classificados geneticamente por ratos do “uptown” e do “downtown”.
terça-feira, 4 de junho de 2019
Maia prevê o caos social. Para alguns, já chegou
O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, declarou num par de entrevistas que "está faltando uma agenda para o Brasil." Atribuiu ao governo a responsabilidade por apresentar essa agenda. E afirmou que sem ela o país está caminhando muito rapidamente para um cenário de "colapso social". O mundo do Poder, do qual Rodrigo Maia faz parte, ainda não notou. Mas para o pedaço mais pobre do Brasil o colapso social já chegou.
Num instante em que todas as atenções estão voltadas para a reforma da Previdência, Rodrigo Maia reconhece em voz alta o que muitos apenas sussurram: a mexida no sistema previdenciário, essencial para atenuar o cenário de ruína fiscal, não produzirá sozinha o milagre da prosperidade. "A reforma previdenciária por si só não vai resolver nada", chegou a dizer Maia. Para evitar o colapso "o governo vai ter que ir muito além".
O presidente da Câmara menciona como pré-condição para o sucesso disso que ele chamou de "agenda para o Brasil" a celebração de uma aliança política. Sem mencionar o nome de Jair Bolsonaro, avesso a composições, Maia declarou: "Quem quer mudar o Brasil tem que ter a capacidade de compreender que só com um arco de aliança você consegue aprovar as emendas constitucionais que podem tirar o Brasil da linha do colapso social".
Parece incrível, mas o governo do capitão entrou no sexto mês e a política continua rodando como parafuso espanado. A conversa não muda. A única coisa que se altera é o tamanho do buraco. Os mais de 13 milhões de desempregados, os estudantes obrigados a conviver com um ministro que brinca de ator de musical, os doentes que definham em macas nos corredores dos hospitais públicos .... Esses brasileiros já foram apresentados ao colapso social.
Homenagem digna
Quando decidiu espontaneamente homenagear um artista recém-falecido em seu Twitter (lembrem-se que este é um meio preferencial de comunicação da Presidência), o escolhido foi Tales Volpi, mais conhecido como MC Reaça, que cometeu suicídio neste sábado. Segundo o presidente, MC Reaça era alguém com o “sonho de mudar o país”, dotado de “grande talento” e que “será lembrado pelo dom, pela humildade e por seu amor pelo Brasil”. Ao presidente, juntaram-se homenagens dos filhos Carlos e Eduardo, bem como do perfil de apoio ao governo “Isentões”, segundo o qual “Tales era um dos nossos! Um forte combatente na luta pela verdade”.
A letra é basicamente uma sequência de insultos e provocações a inimigos de Bolsonaro. Nada é construído ou proposto; há apenas ódio e ressentimento: a políticos de esquerda, intelectuais, ao feminismo, à suposta degeneração moral da juventude, etc. O ato de votar em Bolsonaro se transformava num ato de violência redentora, uma vingança imaginária, um insulto jubiloso contra todos esses perigos. “Dou pra CUT pão com mortadela/ E pras feministas, ração na tigela/ As mina de direita, são as top mais bela/ Enquanto as de esquerda tem mais pelo que cadela”. Eis o talento a que Bolsonaro se referia.
Em áreas importantes do governo, a mesma lógica desse funk parece operar. Não há, por exemplo, uma proposta clara para a educação. Mas sobra ressentimento contra um fantasma do comunismo que dominaria as universidades. É uma política puramente da destruição. O corte de verbas não é sentido como uma dura imposição orçamentária, mas celebrado como a desforra contra um sistema que promove “balbúrdia”. O Brasil paga a conta de tantos “talentos” que agora se vingam por jamais terem recebido o reconhecimento que julgavam merecer.
As circunstâncias da morte de MC Reaça tornam a homenagem ainda mais curiosa. Aparentemente (o caso ainda está sendo apurado), Volpi, que era casado, espancara sua amante —possivelmente ao descobrir que ela estava grávida—, deixando-a em sério risco de vida. Depois disso, desesperado, se matou.
Nem passa pela minha cabeça que o Presidente compactue com atos como a agressão a mulheres. A homenagem foi feita, ademais, antes que as circunstâncias fossem conhecidas. Mas fica mais esse paralelo com a realidade: sob a retórica agressiva de um suposto patriotismo e da regeneração moral da sociedade, fecha-se os olhos para práticas monstruosas.
A escolha do homenageado revela-se assim um símbolo do ethos do atual governo e de seus apoiadores mais aguerridos. Propaganda, ódio, ressentimento, ideologia e agressão: quem negará que a homenagem foi bem escolhida?
O verdadeiro ônus político
É certo que políticos vivem de votos, e que aborrecer eleitores com temas impopulares às vésperas de eleições é receita quase certa para a derrota. Considerando-se que muitos dos atuais parlamentares dependem também do bom desempenho de aliados nas disputas regionais para alimentar suas bases, nada mais natural que a corrida eleitoral de 2020 seja elemento importante nas estratégias de deputados e senadores.

Assim, não surpreende que haja reticências no Congresso Nacional a patrocinar um aperto previdenciário nos Estados e municípios, que afetaria a influente categoria dos funcionários públicos. É a esse ônus que alguns parlamentares estão se referindo – e que eles preferem que seja assumido pelos Executivos locais, que teriam de lutar pela aprovação da reforma da Previdência nas respectivas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais. Se isso vier a acontecer, a reforma pode sofrer considerável atraso nos entes subnacionais, cujas contas, em vários casos, estão em estado crítico.
Ora, a esta altura está claro que o verdadeiro ônus político recairá sobre aqueles que dificultarem uma reforma que é condição indispensável para evitar o iminente colapso das contas públicas em todos os níveis. Se no caso da União a questão previdenciária assumiu contornos dramáticos, no caso dos Estados e municípios a situação é ainda pior, com potencial inclusive para prejudicar seriamente a prestação de serviços – como já vem acontecendo em algumas unidades da Federação.
Se nada for feito a respeito, o déficit previdenciário nos Estados, que hoje se aproxima de R$ 100 bilhões, deverá quadruplicar até 2060, já descontada a inflação, conforme estudo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado. O mesmo estudo informa que o passivo previdenciário atual e futuro dos governos estaduais, o chamado déficit atuarial, chegava a R$ 5,2 trilhões em 2017. Como comparação, o relatório da IFI lembra que o saldo total da dívida dos Estados, incluindo o passivo junto à União, aos bancos e aos credores externos, era de R$ 776,3 bilhões naquele ano.
Além dos valores absolutos, o que chama a atenção é o ritmo do crescimento do déficit previdenciário estadual. O rombo passou de R$ 51,37 bilhões em 2006 para R$ 77,39 bilhões em 2015 – um aumento de 50,7%. Houve deterioração em quase todos os Estados.
Os dados mostram que o número de servidores inativos cresceu 37,9% de 2006 e 2015, enquanto o total de ativos recuou 3,4%. Além disso, o valor dos benefícios pagos aos servidores estaduais aposentados cresceu 32,7%, em termos reais. Enquanto isso, conforme a IFI, verifica-se uma constante queda no número de contribuintes em relação ao número de beneficiários, o que impõe desafios ainda maiores à manutenção do sistema previdenciário. O estudo indica que, nesse ritmo, seria necessário cobrar uma alíquota de mais de 50% de servidores ativos e inativos para equilibrar o sistema até 2050.
Os responsáveis pelo relatório da IFI lembram o óbvio: que o adiamento da reforma da Previdência nos Estados obrigará os governadores a pedirem novo socorro à União, pois a despesa previdenciária em pouco tempo consumirá a maior parte das receitas. Então, os governadores deveriam empenhar-se pela inclusão dos Estados na reforma, assim como o governo federal. Alguns governadores começaram a se movimentar, mas a equipe econômica do governo tem evitado assumir protagonismo nesse caso.
Todos parecem estar fazendo seus cálculos políticos. Na coluna de ganhos, estão alguns votos de servidores públicos agradecidos por ficarem de fora da reforma da Previdência; na coluna de perdas, estão os demais brasileiros, condenados a viver num País com as contas permanentemente em frangalhos.
Por que lembramos o 4 de junho
Lembramos o 4 de junho porque as almas perdidas que assombraram Liu Xiaobo até ele morrer também nos assombrarão até morrermos.
Lembramos o 4 de junho porque a luz do fogo nas baionetas é algo que ninguém pode esquecer. Mesmo que ele próprio não a tenha visto.
Lembramos o 4 de junho porque ele nos revelou a verdadeira natureza do Partido Comunista da China. Nenhum livro, nenhum filme, nenhum museu poderia tê-lo feito de forma mais vívida.

Lembramos o 4 de junho por causa dos simples trabalhadores que morreram. Não recordamos os nomes da maioria deles, porque nunca soubemos os nomes da maioria deles. Mas lembramos deles como pessoas. E lembramos que nunca soubemos os seus nomes.
Lembramos o 4 de junho porque ele contém os piores lados da China – mas também os melhores lados da China.
Lembramos o 4 de junho porque houve um massacre – não apenas uma "batida", um "incidente", um "evento", um "shijian”, um "fengbo”.
Não foi uma revolta contrarrevolucionária. Não é uma memória distorcida. Ou, como uma criança na China de hoje talvez possa pensar, que este acontecimento sequer aconteceu. Foi um massacre.
Lembramos o 4 de junho, porque foi, como o professor chinês Fang Lizhi apontou com sua própria sabedoria, o único caso conhecido por ele em que uma nação atacou a si mesma.
Lembramos o 4 de junho porque queremos saber o que os soldados assassinos se lembram. Eles foram submetidos a uma lavagem cerebral nos arredores da cidade antes de cumprirem as ordens mortais. Então eles também foram vítimas. Não sabemos o que pensavam então. Mas lembramos disso porque queremos saber.
Lembramos o 4 de junho porque Ding Zilin ainda está viva. Ela tem 82 anos. Quando sai de casa, policiais com roupas civis a acompanham por segurança. Segurança para ela? Não, segurança para o Estado. Sim, é verdade: um regime com um PIB de 100 trilhões de yuanes e dois milhões de soldados tem de se proteger de uma mulher de 82 anos, das suas ideias. Devíamos sempre nos lembrar disso.
Lembramos o 4 de junho para apoiar outros que se lembram. Lembramos sozinhos. Mas também nos lembramos juntos.
Lembramos o 4 de junho porque a lembrança faz de nós pessoas melhores. A lembrança é do nosso próprio interesse. Quando os políticos falam de "interesses", referem-se a interesses materiais. Mas os interesses morais são igualmente importantes – não, são mais importantes. Mais importante do que ter um iate.
Lembramos o 4 de junho porque foi um ponto de guinada histórico para um quinto do mundo. Uma guinada numa direção assustadora. Esperamos que não tenha sido uma guinada desastrosa para o mundo inteiro. Mas isso não sabemos. Veremos.
Lembramos o 4 de junho porque, se não nos lembrássemos, não teríamos ideia. Poderíamos ter inventado isso? Não.
Lembramos o 4 de junho porque há pessoas que querem que nos lembremos dele. Para elas é confortante saber que estamos pensando nisso.
Lembramos o 4 de junho porque também há pessoas que querem que não nos lembremos dele. Querem que esqueçamos. Porque o esquecimento tem o seu poder político. Que jogo horrível! Temos de nos opor a este poder, mesmo que recordar o massacre seja a única forma de fazê-lo.
Lembramos o dia 4 de junho para que não nos esqueçamos de como o governo chinês mente para si próprio e para os outros. Ele diz que o povo chinês há muito tempo fez o "julgamento certo sobre a revolta contrarrevolucionária na Praça da Paz Celestial em 1989".
Mas todos os anos, no dia 4 de junho, a polícia com roupas civis impede as pessoas de entrar na praça. Por quê? Por quê? Se, como afirma o governo, os chineses acreditam em tudo isso, por que não deixar que o povo da praça condene os contrarrevolucionários? A presença da polícia mostra que o regime não acredita nas suas próprias mentiras.
Lembramos o 4 de junho porque tais eventos mexem com o cérebro humano durante muito tempo. Mesmo que tentemos, não podemos esquecer!
Perry Link
Começam a soar alarmes sobre a sustentabilidade da Presidência de Bolsonaro
Poderia parecer incrível num país normal que em cinco meses de Governo já se fale já abertamente na possibilidade de impeachment do presidente, não só pelo que ele não fez, mas também pelo que fez até agora, que está revelando uma forte desconfiança sobre sua capacidade de governar um Brasil-continente com 207 milhões de pessoas que já começaram a sair às ruas. E sobre como deseja conduzir o tema da educação, um ponto crucial deste país com ainda milhões de analfabetos funcionais e da qual depende também seu futuro econômico.

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, acaba de dizer ao jornal O Globo que o Brasil “caminha para um colapso social” com o novo Governo, que ainda não soube apresentar um projeto para fazer frente às graves crises que o afligem e que poderia levá-lo a uma catástrofe econômica se em vez de apoiar as reformas urgentes acabar boicotando-as para favorecer propostas milagrosas e às vezes até patéticas.
Preocupa à sociedade democrática um presidente que parece alheio às reformas enquanto se perde em fantasia messiânicas, como quando afirma que ainda “não nasceu para ser presidente”, pois foi algo que Deus lhe impôs. E assim repete, às vezes chorando diante das câmeras de televisão, enquanto levanta a camisa e mostra as cicatrizes do atentado que sofreu durante a campanha eleitoral. Deus, segundo ele, está ao seu lado e o escolheu como um novo Messias.
Junto a esse messianismo profético, o presidente continua tão obcecado em armar os brasileiros que seu primeiro decreto foi para ampliar a posse de armas e seu porte para toda a sociedade, decreto contra o qual acabam de se manifestar 73% dos brasileiros, segundo a última pesquisa de Ibope. Multiplicar as armas nas mãos das pessoas deve parecer melhor para o país que multiplicar o pão nas mãos dos ainda milhões de pobres e as possibilidades para os jovens de um ensino que os prepare para se realizarem em liberdade e criatividade. E sem absurdas receitas de escolas sem partido, de alunos espiões e denunciantes de seus professores e o pavor de que nelas se possa falar de sexo, que é como proibir falar da vida.
Há uma história que revela o absurdo de uma presidência em seus temores relacionados com o sexo. Em abril passado, saindo do Ministério da Educação, coração do futuro nacional, o presidente confiou a um grupo de jornalistas uma de suas maiores preocupações no momento. Sobre o drama da educação no país? Não. “Temos por ano mil amputações de pênis por falta de água e sabão”, contou-lhes, e acrescentou: ”Quando se chega a este ponto, a gente vê que estamos no fundo do poço”. Essa preocupação com a higiene masculina e as proporções de suas genitálias perturba tanto o presidente que poderia ter criado uma crise diplomática com o Japão, ao dizer que naquele país “tudo é pequeno”, referindo-se ao órgão masculino.
A obsessão do presidente por tudo o que é fálico está preocupando até os psicólogos e psicanalistas, como Contardo Calligaris, que na Folha de S.Paulo, analisando estas obsessões fálicas do presidente, afirmou: “Não se pode entender uma posição repressora contra os outros, seja qual for, a não ser como um modo da pessoa reprimir e lutar com a sua própria dificuldade”.
Já João Luiz Mauad, do Instituto Liberal e colunista de vários jornais do país, escreveu que ainda não é hora de falar no impeachment do presidente, já que “improvisação, amadorismo, incompetência, idiotice e histrionismo não são, por si sós, suficientes para abrir um processo de impeachment contra um presidente”. Talvez seja verdade juridicamente, mas um presidente com todas essas “qualidades” não parece o mais bem preparado para conduzir o transatlântico Brasil, o quinto maior pais do mundo e com imensas riquezas naturais que, além disso, o presidente parece querer destruir.
No Brasil já se fala, sem meias palavras, que o presidente Bolsonaro e a maior parte de seu Governo parecem ineptos para confrontar os grandes desafios que têm pela frente. Até agora parece, entretanto, que Bolsonaro continua em campanha eleitoral, dialogando só com o grupo de radicais de extrema direita que permaneceram fiéis a ele, sem ainda demonstrar que é quer ser o presidente de todos os brasileiros, como exige a Constituição.
O presidente continua confundindo as redes sociais com a realidade viva do país e parece ter aterrissado de outra galáxia, sem entender que o Brasil é uma nação que importa no mundo e que já aceitou a modernidade faz muito tempo. E, pior ainda, está destruindo no exterior, com sua incapacidade de governar e suas obsessões de caráter messiânico e psiquiátrico, a imagem positiva e até invejável até ontem atrelada a este país, coração econômico do continente e cadinho de mil experiências culturais que estão sendo pisoteadas.
Paz, na bala
Se pudesse mandar, mandaria em primeiro lugar fuzilar uns 10 mil políticos e militares, para que pudéssemos ter um pouco de pazJohannes Mario Simmel, " Por quantos ainda vamos chorar?"
Muita fala e pouco rumo
Por óbvio, o Parlamento parla e o Executivo executa. O presidente Jair Bolsonaro subverte essa lógica, ao executar pouco e estar se candidatando a ser o presidente mais falante da história da República, mas a principal questão nem é essa, é se Bolsonaro realmente tem um plano de governo para executar no País.
Até agora, lá se vão cinco meses de governo, o presidente aproveitou a oportunidade de ter os microfones e a caneta de presidente – muito mais poderosa do que a de Rodrigo Maia, como bem lembrou – para transformar em políticas de Estado as velhas crenças e convicções com as quais cresceu, educou seus filhos, bate papo com os amigos e vê o mundo.
Pode ser que haja pesquisas no Planalto, pode ser que não, mas o fato é que Bolsonaro exercita o prazer de sair por aí pensando alto, falando o que bem entende e repetindo a sua tão bem sucedida campanha presidencial, em que era o centro das atrações e dos aplausos e nunca apresentou um plano de governo real. Um homem comum que veio por desígnios de Deus para mudar o País.
É assim que Bolsonaro estimula manifestações a favor de seu governo e contra o Legislativo e o Judiciário, propõe dois dias depois um pacto aos presidentes dos dois outros Poderes e termina a semana acusando o Supremo de “legislar” na questão da homofobia. Ainda aproveita o ensejo – uma convenção religiosa em Goiânia – para defender (ou anunciar?) um ministro evangélico para a Corte.
Se há praticantes católicos, espíritas, muçulmanos, judeus ou umbandistas no Supremo, não se sabe ou não é importante saber, até porque o Estado é laico e o critério religião não cabe na nomeação de ministros, que devem ter alto saber jurídico, independência e respeitabilidade. Se as pessoas acham que um ou outro não tem, é outra história.
O presidente do STF, Dias Toffoli, muito hábil, é desses que está bem com todo mundo e tem boa química com Bolsonaro, a ponto de ser convidado para um café do presidente com a bancada feminina aliada. Um peixe fora d’água. Mas Alexandre de Moraes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello reagiram à altura à fala sobre homofobia e “ministro evangélico”.
O PIB recua, o desemprego resiste e a estudantada volta às ruas, mas Bolsonaro atravessou a rua a pé até o plenário da Câmara, mantém os lives de internet sobre temas gerais e já traçou um rango em restaurante de estrada com caminhoneiros, uma das ameaças sobre o governo – e sobre a economia. E lá veio mais falação: “Estou comendo o pão que o diabo amassou”, lamentou-se o presidente, que estimulou os convivas não apenas a ter armas, como a usá-las.
Ao longo da semana, ele sinalizou que tende a vetar a proibição de cobrança para despachar malas em aviões, reconhecendo que, se vetar, os passageiros não vão gostar; se não vetar, as empresas é que vão reclamar. Ah, se os diabos perseguissem os presidentes por decisões tão simples…
Na mesma fala, um ato falho. Apesar de tentar corrigir, ele admitiu que pesa na sua decisão o fato de a volta da bagagem gratuita ter sido proposta pelo PT. E saiu-se com essa: “Os caras (do PT) são socialistas, comunistas, estatizantes e gostam de pobre. Quanto mais pobre tiver, melhor”.
Pena que a área de Humanas esteja em baixa, porque a declaração merece análise sociológica, filosófica, política, psicológica. Primeiro, porque a declaração é pró-PT. Segundo, porque “gostar de pobre” é um dever de governantes e políticos. Terceiro: pobre anda mesmo de avião?
Eliane Cantanhêde
Assim, as manchetes são ocupadas, de um lado, pela economia patinando e o desemprego assolando e, de outro, pelas falas de Bolsonaro sobre suas crenças, seus desabafos e seus “foras”. Aparentemente, o presidente gosta de todo o foco nele, não no governo e nas soluções para o País.
Até agora, lá se vão cinco meses de governo, o presidente aproveitou a oportunidade de ter os microfones e a caneta de presidente – muito mais poderosa do que a de Rodrigo Maia, como bem lembrou – para transformar em políticas de Estado as velhas crenças e convicções com as quais cresceu, educou seus filhos, bate papo com os amigos e vê o mundo.
Pode ser que haja pesquisas no Planalto, pode ser que não, mas o fato é que Bolsonaro exercita o prazer de sair por aí pensando alto, falando o que bem entende e repetindo a sua tão bem sucedida campanha presidencial, em que era o centro das atrações e dos aplausos e nunca apresentou um plano de governo real. Um homem comum que veio por desígnios de Deus para mudar o País.
É assim que Bolsonaro estimula manifestações a favor de seu governo e contra o Legislativo e o Judiciário, propõe dois dias depois um pacto aos presidentes dos dois outros Poderes e termina a semana acusando o Supremo de “legislar” na questão da homofobia. Ainda aproveita o ensejo – uma convenção religiosa em Goiânia – para defender (ou anunciar?) um ministro evangélico para a Corte.
Se há praticantes católicos, espíritas, muçulmanos, judeus ou umbandistas no Supremo, não se sabe ou não é importante saber, até porque o Estado é laico e o critério religião não cabe na nomeação de ministros, que devem ter alto saber jurídico, independência e respeitabilidade. Se as pessoas acham que um ou outro não tem, é outra história.
O presidente do STF, Dias Toffoli, muito hábil, é desses que está bem com todo mundo e tem boa química com Bolsonaro, a ponto de ser convidado para um café do presidente com a bancada feminina aliada. Um peixe fora d’água. Mas Alexandre de Moraes, Marco Aurélio Mello e Celso de Mello reagiram à altura à fala sobre homofobia e “ministro evangélico”.
O PIB recua, o desemprego resiste e a estudantada volta às ruas, mas Bolsonaro atravessou a rua a pé até o plenário da Câmara, mantém os lives de internet sobre temas gerais e já traçou um rango em restaurante de estrada com caminhoneiros, uma das ameaças sobre o governo – e sobre a economia. E lá veio mais falação: “Estou comendo o pão que o diabo amassou”, lamentou-se o presidente, que estimulou os convivas não apenas a ter armas, como a usá-las.
Ao longo da semana, ele sinalizou que tende a vetar a proibição de cobrança para despachar malas em aviões, reconhecendo que, se vetar, os passageiros não vão gostar; se não vetar, as empresas é que vão reclamar. Ah, se os diabos perseguissem os presidentes por decisões tão simples…
Na mesma fala, um ato falho. Apesar de tentar corrigir, ele admitiu que pesa na sua decisão o fato de a volta da bagagem gratuita ter sido proposta pelo PT. E saiu-se com essa: “Os caras (do PT) são socialistas, comunistas, estatizantes e gostam de pobre. Quanto mais pobre tiver, melhor”.
Pena que a área de Humanas esteja em baixa, porque a declaração merece análise sociológica, filosófica, política, psicológica. Primeiro, porque a declaração é pró-PT. Segundo, porque “gostar de pobre” é um dever de governantes e políticos. Terceiro: pobre anda mesmo de avião?
Eliane Cantanhêde
Assim, as manchetes são ocupadas, de um lado, pela economia patinando e o desemprego assolando e, de outro, pelas falas de Bolsonaro sobre suas crenças, seus desabafos e seus “foras”. Aparentemente, o presidente gosta de todo o foco nele, não no governo e nas soluções para o País.
Os proprietários da miséria nacional
Os 13 proprietários do Brasil eram, porem, apenas os prepostos do proprietário unico de Portugal e seu império ultramarino. Nas monarquias absolutistas “soberania” e “propriedade” (ou patrimônio) eram dois nomes da mesma coisa, ou melhor, da mesma pessoa. Tudo pertencia ao rei. O governante despótico não tinha de ir a uma assembléia de represetantes do povo para pedir dinheiro. A sociedade inteira é que tinha de ir a ele para suplicar que lhe deixasse as migalhas do pão que ela amassava.
A única exceção foi o rei inglês. Não é por questão de gosto que na Inglaterra os castelos são de pedra e madeira e os franceses, espanhóis, russos ou portuguêses são de ouro. Numa luta que vai fazer mil anos desde a Carta Magna de 1215, o rei inglês foi mantido sempre e cada vez mais “pobre” e mais dependente do Parlamento para manter seus luxos e sustentar suas guerras. Cada novo pedido de sua majestade por recursos foi negociado em troca de uma garantia a mais de proteção da propriedade de cada indivíduo da plebe sobre o resultado do seu trabalho contra o poder do rei e seus “nobres” de tomá-lo para si, até que, a partir de 1680, o Parlamento ganhasse a supremacia de que desfruta até hoje.

A propriedade e a liberdade individuais emergiram, portanto, de uma luta travada entre um corpo de representantes do povo, que só tinha de seu a sua capacidade de trabalho, e um déspota. Onde o rei ou seu equivalente foram compelidos a depender do parlamento ou seu equivalente como fonte de alimentação da sua renda, a propriedade individual foi ganhando proteção cada vez mas sólida e a liberdade floresceu. Onde aconteceu o contrário o resultado foi o inverso.
A propriedade dos meios de produção onde esse tipo de processo histórico ocorreu não é um privilégio, ao contrário, é uma responsabilidade que atrela o seu titular ao processo de produção. Os proprietários sem proteção de “reis” são compelidos pelo mercado a voltar a sua propriedade para a melhor satisfação dos consumidores, e os que forem lentos ou ineptos nesse processo, serão penalizados por prejuízos e, se não aprenderem a lição, pela perda dessa propriedade.
“Mas é precisamente dessa escravidão que é preciso libertar o homem”, dirá um francês ou um aluno dos franceses da USP dos tempos em que ela existia como universidade. A alternativa é a privilegiatura, esse nosso feudalismo remasterizado, lembrará este escriba. Não ha terceira via…
Hernando de Soto, no seu livro clássico “O mistério do Capital: porque o capitalismo triunfou no Ociente e falhou nos outros lugares”, deixou a teoria de lado e foi a campo fazer medições do valor da obra visivel dos contingentes mais pobres das populações do Cairo, Lima, Manila, Cidade do México e Port-au-Prince (Haiti). Os resultados foram surpreendentes. No Haiti o valor dos imóveis rurais e urbanos ocupados por essa população e as construções neles existentes montaram a 5,2 bilhões de dólares em valores de 1995, quatro vezes mais que os bens de todas as empresas operando legalmente no país, nove vezes o valor de todas as propriedades do governo e 158 vezes o valor de todos os investimentos estrangeiros diretos feitos no Haiti em toda a sua história. No Peru, os 74 bilhões de dolares medidos equivaliam a cinco vezes o valor de todas as empresas com ações na bolsa de Lima, 11 vezes o de todas as empresas privatizáveis do governo peruano, 14 vezes mais que todo o investimento estrangeiro feito no país ao longo de toda a sua história. Cairo, Cidade do Mexico e Manila deram resultados ainda mais astronômicos. O livro registra uma menção ao Brasil cuja industria imoboliária passava por uma forte crise naquele momento mas as vendas de cimento batiam recordes todos os meses. O “favelão nacional”, hoje de dimensão continental, estava em plena construção…
A conclusão é que não é a disponibilidade de recursos naturais, o espírito empreendedor ou a quantidade de trabalho investido que explica a diferença da riqueza das nações, mas sim o grau de proteção da propriedade privada de que cada uma desfruta. Onde ela é garantida, a obra de cada cidadão, rico ou pobre, menor ou maior, é “capital vivo” que serve, como no caso da residência de cada cidadão nos EUA, como garantia dos seus próximos investimentos que, por sua vez, garantirão os desenvolvimentos seguintes. Com o tempo, desenvolve-se uma padronização de linguagem e regulamentação e todos os bens ganham uma segunda dimensão “de representação” que pode ser transacionada sem as limitações de “portabilidade” do bem físico, enquanto nos países onde essas residências são favelas erguidas em terrenos que ninguém sabe de quem é ou será, a mesma quantidade de esforço investido transforma-se apenas em “capital morto” cuja propriedade não está garantida nem mesmo para quem a construiu pessoalmente e, portanto, não se desdobra em fruto nenhum.
A massa miserável precisa, portanto, da garantia da propriedade para apropriar-se do resultado do seu esforço e sair da miséria. A questão é identificar a ferramenta política capaz de transferir o poder das mãos de quem aparelha a força do estado para apropriar-se do resultado do trabalho alheio para as de quem precisa da proteção do estado contra esse tipo ancestral de rapinagem. E como o nosso Poder Judiciário demonstra todos os dias com “autos de fé” contra os hereges do “sistema” ou simplesmente pela força dos seus holerites, manda no estado quem tem o poder de contratar e, principalmente, de “demitir” políticos e funcionários públicos.
segunda-feira, 3 de junho de 2019
O drama da pobreza
Mas isso se inverte quando as decisões são de longo prazo. Os mais pobres geralmente ignoram os juros mais altos nos empréstimos e preferem parcelar uma compra, muitas vezes pagando mais pelo produto, a economizar o dinheiro e obter um desconto à vista. E, além disso, guardam menos dinheiro, ficando mais expostos a imprevistos. O dano às finanças acaba sendo muito maior.

Existem explicações comportamentais para isso, segundo três psicólogos e professores, Mitchell J. Callan (Essex, Inglaterra), Will Shead (Mount Saint Vincent, Canadá) e James Olson (Ontário, Canadá). Em um artigo publicado em 2011 no Journal of Personality and Social Psychology, eles demonstram que os mais pobres tendem a ser mais imediatistas.
Em um experimento, 71 estudantes informavam sobre suas finanças. Alguns foram convencidos de que seu crédito havia sido mal avaliado em comparação com os demais participantes. Todos, então, tinham de escolher entre aceitar 500 dólares canadenses (C$) naquele momento ou C$ 1 mil depois de um certo prazo, de uma semana a dois anos.
Os pesquisadores ainda apresentaram seis cenários a cada participante. Uma opção, por exemplo, era entre receber C$ 250 naquele dia ou C$ 500 em uma semana. Outra, C$ 500 no dia ou C$ 750 em um mês. O normal seria escolher o que pagasse mais. Mas, entre os que achavam ter uma nota de crédito pior, o percentual de quem preferia o pagamento imediato era 15% maior que no outro grupo, mesmo quando esperar uma semana significava receber o dobro.
Quando é preciso se preocupar com o que se vai comer ou como pagar o aluguel, as outras necessidades são menos urgentes. O foco na sobrevivência, explica o estudo, cria uma sobrecarga mental e dificulta planejar o futuro. Os mais pobres não conseguem dar atenção a outras decisões, que poderiam tirá-los da pobreza.
É como se eles decidissem depois de uma noite sem dormir, explica outro artigo, publicado pelos economistas Anuj K. Shah, Eldar Shafir e Sendhil Mullainathan na revista Science em 2013. Em um experimento, 101 frequentadores de um shopping center foram separados por faixa de renda e responderam a questões como “Seu carro está com um barulho estranho e o conserto custará US$ xxx. Você pode pagar ou tentar a sorte e não pagar nada. O que decide?”.
Os preços variavam da condição “fácil”, um custo de US$ 1,50 pelo conserto, a “difícil”, US$ 1,5 mil. Essa diferença se refletiu no desempenho nos testes de pessoas com renda mais alta ou mais baixa. Ricos e pobres deram respostas iguais quando decidiam sobre um gasto mais baixo, mas o valor mais alto derrubou a performance dos mais pobres. Quase todo o foco estava no dilema de fazer ou não o gasto.
Algumas pessoas atribuem a pobreza às más decisões financeiras dos pobres. Os estudos mostram que não é verdade. A pobreza muitas vezes é resultado da dificuldade maior de fazer um planejamento. Algo que os programas de assistência deviam considerar.
Grande trunfo da gestão Bolsonaro é Ele: 'Deus'
Com o desemprego a pino, a recessão na espreita, a Educação em frangalhos, o Congresso convulsionado, o país dividido, com tudo isso, Jair Bolsonaro conserva o otimismo. Numa entrevista para argentino ver, o capitão disse para o jornal "La Nación" algo que vem repetindo com uma insistência própria dos que têm fé: "Eu tenho uma missão de Deus, vejo dessa maneira. Foi um milagre estar vivo e outro milagre ter ganho as eleições. Deus também tem me ajudado muito na escolha dos meus ministros."
A qualidade do ministério indica que Deus, embora ainda seja onipresente e onipotente, já não é full time. Mas o que importa é que Ele está no meio de nós. E Bolsonaro se dispõe a ajudá-lo. No momento, está empenhado em pacificar o país: "Sim, estou fazendo esforços. Não estou atacando nem buscando a divisão." A coisa poderia estar melhor. "Mas há gente que não gosta de mim mesmo sem me conhecer."
Bolsonaro convive em casa com um exemplo de que nada é impossível. A primeira-dama Michelle permanece rendida às qualidades do marido. Não se imagine que foi fácil convertê-la, pois muita gente perguntava na fase de namoro por que ela estava saindo com "esse monstro". Numa evidência da influência divina, o capitão se enche de júbilo: "Ela ainda está apaixonada por mim até hoje." Deus seja louvado!
Às claras, apenas o PSL e o Partido Novo apoiam o governo. Mas Bolsonaro, guiado por forças celestiais, enxerga uma maioria que os olhos não vêem: "Fui 28 anos deputado e nunca pedi cargos em troca de nada. Eu acompanhei tudo o que se passou, sem me envolver. Mudamos a maneira que o Executivo se relacionava com o Legislativo. E a maioria dos parlamentares apoia isso." Aleluia!
Por mal dos pecados, os entrevistadores argentinos não suprimiram de sua pauta perguntas sobre Flávio Bolsonaro, o primogênito do ungido. "Se fez algo mau, tem que pagar", disse o comissionado de Deus, antes de renovar sua crença: "Tenho confiança que ele não fez nada de mau." E quanto ao Fabrício Queiroz? "Pelas coisas que tenho ouvido dele. Ele tem que se explicar. Tem que ser ouvido."
Em verdade, Queiroz já foi ouvido. Ou lido, pois só concordou em "falar" com o Ministério Público por escrito. Não disse coisas edificantes. Admitiu que se apropriou de nacos dos contracheques dos assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro. Mas teve pelo Zero Um uma consideração inaudita. Declarou que o filho do seu velho amigo não sabia de nada.
Embora já não confie em Queiroz, Bolsonaro acredita 100% no pedaço da versão dele que se refere à inapetência do filho para controlar o que se passava no seu próprio gabinete de deputado estadual. "Agora, por que interessa atacar meu filho?", pergunta o presidente. "Porque me desgasta", ele mesmo responde. "Não há dúvidas de que me desgasta."
Bem verdade que há outros deputados sob investigação. Mas o capitão atribui o interesse dos investigadores por Flávio à sua filiação. Com fé em Deus, não há de ser nada. "Meu filho responde por seus atos e está pronto para dar explicações. Até hoje não foi convocado a fazer."
Mesmo não sendo mais full time, o Todo-Poderoso sabe que o Ministério Público do Rio de Janeiro já convidou Flávio Bolsonaro para prestar esclarecimento. O senador preferiu entrar com três recursos judiciais para tentar bloquear as investigações. O risco que Bolsonaro corre é o de Deus pedir para ser convocado a prestar esclarecimentos.
O procurador selecionado para ouvir Deus adotaria um comportamento cerimonioso. "Há pecadores entre nós, Senhor. Mas não há ateus. Ninguém ousará duvidar da sua palavra." E Deus: "Mesmo que quisessem, não teriam como duvidar". O promotor, meio sem jeito: "Por que, Altíssimo?" O Pai Celeste, já um tanto impaciente: "Porque não tenho conta para ser rastreada pelo Coaf. E não trabalho com assessores. Ouvindo-me, conhecereis a verdade que vos libertará".
A ética na política
Há três formas de dominação no Estado moderno: a tradicional, que se fundamenta e se legitima no passado, pela tradição; o domínio exercido pelo carisma e se fundamenta em dons pessoais e intransferíveis do líder; e a exercida pela legalidade, com base em regras racionalmente criadas e fundamentado na competência. Nas democracias do Ocidente, essas formas de dominação aparecem simultaneamente, mas o carisma é o fator decisivo para a chegada ao poder. O líder carismático, porém, necessita de meios materiais e conhecimento administrativo para exercer seu domínio.
É nesse contexto que surge o “político profissional”, que Weber classifica entre os que “vivem para a política” e aqueles que “vivem da política”. Todo cidadão pode e deve participar da vida política, mas nem todos têm tempo disponível e recursos para isso. Por isso, “todo homem sério, que vive para uma causa, vive também dela”, mas isso não impede a diferenciação entre os que têm a política como “bem comum”e os que a veem como negócio.
Paralelamente à existência dos políticos, existe uma burocracia formada por funcionários e técnicos encarregados de operar a máquina do Estado. Por essa razão, além dos objetivos programáticos, se estabelece entre os políticos uma disputa pela ocupação de cargos e a distribuição de recursos do governo. Nessa dinâmica, surge ainda uma camada de dirigentes partidários formada a partir de critérios plutocráticos e que vão ocupar posições no governo ou na máquina partidária. Para Weber, essas são as bases potenciais de “uma tendência que leva à criação de uma casta de filisteus corruptos”.
No Brasil, onde não existe regulamentação do lobby, como nos Estados Unidos e alguns países da Europa, todos os políticos defendem o “bem comum”, ninguém assume a política como negócio, com exceção, talvez, da bancada ruralista, embora o patrimonialismo, o cartorialismo e o fisiologismo sejam marcas registradas da nossa cultura ibérica. Mesmo assim, no Estado brasileiro, foi possível constituir uma burocracia formada por “trabalhadores especializados, altamente qualificados e que se preparam, durante muito tempo, para o desempenho de sua tarefa profissional, sendo animados por um sentimento muito desenvolvido de honra corporativa, em que se realça o sentimento da integridade”.
A Operação lava-Jato é um tremendo choque entre os políticos profissionais e essa burocracia, que desnudou o lado escuro da nossa política como negócios. Disso resultou a crise ética dos grandes partidos e o tsunami eleitoral de 2018. Em parte, a eleição do presidente Jair Bolsonaro é resultado desse fenômeno. Entretanto, não existe democracia sem partidos nem políticos, o país não pode ser paralisado pela crise ética. Além disso, a política é a economia concentrada, ou seja, não existe sem o mundo dos negócios. Há que se reinventar a nossa política, sem jogar a criança fora com a água da bacia, mas está difícil porque predomina a antipolítica como sentimento popular.
É aí que entra a discussão sobre a ética das convicções e a ética da responsabilidade proposta por Weber, ao examinar a relação entre o protestantismo e o capitalismo. A ética utilizada para culpar o passado pelos próprios fracassos é vulgar e limitada, como a do homem que justifica o abandono da esposa porque ela não era digna do seu amor. A relação entre política e religião é apartada: “O cristão cumpre seu dever segundo os mandamentos bíblicos e, “quanto aos resultados, confia em Deus”. Diferentemente, na ética de responsabilidade, “sempre devemos responder pelas consequências previsíveis de nossos atos”. A “política se faz usando a cabeça”, não pode estar desconectada da correlação de forças e das probabilidades.
Weber escreveu, às vésperas da derrocada da República de Weimar, que levou a Alemanha à hiperinflação e Hitler, ao poder. Isso não impediu que o baixo astral com a derrota na I Guerra Mundial e o colapso econômico fomentasse o surgimento de autores “teoconservadores”, que influenciaram o nazifascismo e agora estão sendo relidos nos Estados Unidos e na Europa, por católicos conservadores, protestantes evangélicos e judeus ortodoxos. Com base em valores religiosos anti-iluministas, querem mudar o curso da história com os olhos virados para trás, em busca do “Éden” perdido pela democracia liberal, com a globalização e o multilateralismo.
O planeta versus Bolsonaro
Pela primeira vez, em todo o período democrático, temos um governo que é cético a respeito do aquecimento global e acha que o Brasil tem muito ainda a desmatar. Os fatos se sucedem em várias frentes. Na mais ampla delas, a do aquecimento, o governo o considera uma invenção do marxismo globalizante.
Essa associação entre o marxismo e o meio ambiente contribui para retardar a tomada de consciência de muita gente. Não consigo entender como se sustenta. Quem conheceu os países do Leste Europeu, onde o marxismo era a ideologia oficial, percebe que comunismo teve um papel devastador.
Não só aconteceu o desastre de Chernobyl: muitas usinas nucleares do período ainda são um dado preocupante para toda a Europa.
Associar o marxismo à luta ambiental é reduzir sua dimensão. Como correspondente na Europa, cobri uma manifestação dos skin heads em Dresden. Eram simpáticos ao nazismo, mas colocavam o meio ambiente como uma de suas bandeiras, ao lado de expulsar os estrangeiros e outras barbaridades.
O tema é tão forte que ultrapassa divisões ideológicas e partidárias. No entanto, o governo parece caminhar para essa tese singular de que meio ambiente é algo da esquerda; logo, é preciso desmontar a política ambiental que o Brasil construiu com seus parceiros como a Noruega e a Alemanha.

Para começar, demitiu a direção do Fundo Amazônia, financiado por aqueles dois países. Agora, quer usar dinheiro do Fundo para indenizar proprietários, alguns deles possivelmente grileiros. Se o Fundo não tivesse resultados positivos, os próprios noruegueses e alemães já teriam reclamado. No entanto, estavam satisfeitos.
Bolsonaro insiste também em acabar com a Estacão Ecológica de Tamoios para transformar a região numa Cancún brasileira. Acha que pode fazer isso por decreto. Vai se dar mal, se tentar. É ilegal e, além disso, pateticamente inadequado. Espero que seus eleitores compreendam isto. Angra não é Cancún, o mar é diferente; a geografia, as condições sociais, a presença de usinas nucleares, tudo desaconselha.
Não temo a destruição do planeta, como nos advertem nos hotéis para evitar troca excessiva de toalhas. O planeta continua, não podemos acabar com ele, mas apenas com as condições para a existência humana.
Ainda não se avaliou o impacto das posições de Bolsonaro em nossa imagem externa. O Brasil está se isolando. Em alguns lugares como Nova York, o prefeito faz campanha contra sua presença.
Em outros, como Dallas, o prefeito, mais ponderado, assim como o presidente do Chile, limita-se a reconhecer que Bolsonaro teve 57 milhões de votos, mas acentua que não concorda com suas ideias.
O próprio “Financial Times”, um veículo conservador, levantou a hipótese de Bolsonaro se tornar uma espécie de pária do liberalismo.
Não seria bom para ele nem para nós. As pessoas se acostumaram a contar com o Brasil no esforço de preservação, a senti-lo como uma parte integrante do planeta, decisiva para o futuro comum.
Nesta semana do meio ambiente, os governos de Goiás e Mato Grosso lançam um grande programa de recuperação do Rio Araguaia. Haverá um ato na divisa dos dois estados.
Bolsonaro parece que vai comparecer, incluindo, pelo menos, a recuperação de um dos mais importantes rios brasileiros na sua agenda. É uma oportunidade que tem de atenuar sua hostilidade contra o meio ambiente, sua admiração por um tipo de progresso empobrecedor.
Ao compreender a importância das águas, que não podem ser substituídas por Coca-Cola, deveria se dar conta também do absurdo de transformar uma estação ecológica em Cancún.
Ajudaria também a romper o isolamento se ele fosse mais discreto no seu humor. A história de dizer que tudo no Japão é pequeno constrange os mais antigos, que ainda se lembram desse tipo de piada.
Ela pode ter alguma graça entre os frequentadores de uma Cancún construída sobre as frágeis ilhotas de Angra, à sombra das usinas nucleares. Apenas confirma sua fixação no órgão genital masculino e aumenta o medo de que a ignorância realmente vai esmagar o conhecimento humano.
Fernando Gabeira
Normalidade da irracionalidade
Nós estamos vivendo a anormalidade como normalidade. (...)
Que presidente é esse que não tem noção nenhuma do que é o cargo, não tem composturaIgnácio de Loyola Brandão
Quem fala demais...
Pessoalmente, pode ter marcado gols, com chances até de barrar a queda contínua de sua aprovação no pós-posse. Teria sido ainda melhor para ele, para o seu governo e para o país, se a empolgação não o fizesse falar demais.

Com a língua solta, abriu flancos perigosos como o da exaltação ao presidente do Supremo, Dias Toffoli, que Bolsonaro passou, sem qualquer pudor, a tratar como um aliado: “é muito bom nós termos aqui a Justiça ao nosso lado”. Por ignorância ou oportunismo, o capitão desprezou o fundamental: à Justiça não é dada a opção de ter lado. Ainda que Toffoli, o garoto de ouro do ex Lula e seu novo melhor amigo, e o próprio presidente façam pouco caso disso.
Abandonando os regulares xingamentos à imprensa, Bolsonaro atendeu jornalistas e até falou com exclusividade à revista Veja. Fez pouco do seu partido, o PSL, que para ser formado rapidamente “pegou qualquer um”. Uma desfeita aos deputados “inexperientes”, que só chegaram lá pelo apoio do candidato-presidente. Vinculou o fim da reeleição a uma reforma política que possa diminuir o número de parlamentares de 500 para 400, garantiu que vai vender os Correios. Simpático e por vezes brincalhão, até puxou as orelhas de seu guru por ele ter indicado Ricardo Vélez para a Educação sem conhecer o afilhado. “Pô, Olavo, você namorou pela internet?”
Sobre o filho Flávio, investigado pelo Ministério Público do Rio por suspeita de enriquecimento ilícito, tergiversou. Escolheu se portar como um pai preocupado e perseguido. Não negou a amizade com Fabrício Queiroz, mas, ao dizer que desconhecia os rolos do ex-assessor, usou o mesmo expediente do ex Lula, prorrogando a suada república do “eu não sabia”. Algo pouco digno para alguém que rechaça antecessores e as práticas da “velha política”.
Na sexta-feira, voltou a soltar impropriamente o verbo.
No almoço com os caminhoneiros, vangloriou-se de ter beneficiado a categoria no decreto pró-armas, estimulando-os a mandar bala. “Se tiver arma de fogo é para usar”, disse. Depois, assegurou que daqui a pouco as armas, hoje caras, vão cair de preço. A reivindicação era por mais asfalto e mais policiamento. Mas, sem oferecer qualquer alternativa diante das reclamações pela falta de infraestrutura que destrói pneus, motores, boleias, e pelos roubos de carga, Bolsonaro vaticinou: “quanto mais arma, mais segurança”.
No mesmo dia, durante um evento da Assembleia de Deus em Goiânia, defendeu a assunção de um ministro evangélico ao Supremo. Ciente do espanto que a afirmativa provocaria, o presidente lançou o verme e saiu-se com a vacina: “não me venha a imprensa dizer que quero misturar a Justiça com religião”.
Pode até vir a não fazê-lo, embora pareça querer.
Reincidente no erro, insistiu em comprometer a indicação que fará no ano que vem para o STF. Já meteu os pés pelas mãos ao confessar que barganhara a vaga futura para convencer o ex-juiz Sérgio Moro, que não é evangélico, a integrar o governo. Agora, acenou para os seus amigos de fé. Irresponsabilidade dupla.
Animado com as manifestações em seu favor, Bolsonaro falou muito e mais do que devia sobre tudo. Mas ficou mudo diante das estultices do seu ministro da Educação. Além do desrespeito a professores e alunos, que ele considera frágeis e manipuláveis, a cena patética do vídeo “Singing in the rain”, no qual Weintraub aparece rodando um guarda-chuva com a bandeira nacional ao fundo, tem eloquência própria. Mostrou-se pior ou no mínimo igual a Vélez.
Sobre isso, Bolsonaro nada disse, ficou calado. Um silêncio embalado por outra crença, a ideológica. A mesma chaga que, vinda do outro polo, ele jurava combater.
Reforma na faca
A hora, portanto, é de todo mundo querer arrancar um pedaço do texto, de modo a aliviar o sacrifício para esta ou aquela parcela da população.
A começar pela família presidencial. Com orgulho incontido, Bolsonaro disse nesta sexta-feira que a primeira-dama, Michelle, pediu, e ele levou adiante, que os deficientes leves e moderados sejam tirados da nova regra de pensão por morte, mais restritiva, proposta na reforma.
O impacto fiscal da retirada não é relevante. Mas é simbólico que o presidente dê aval, antes de qualquer avaliação técnica, a um pedido doméstico e o enderece diretamente ao Ministério da Economia, quando a reforma já está nas mãos do Parlamento para ser emendada.
Foram apresentadas mais de 270 emendas ao texto original do governo, aquele cujo impacto foi previsto inicialmente em R$ 1 trilhão, e depois revisto para R$ 1,2 trilhão.
Não se sabe quantas e quais dessas alterações serão incorporadas pelo relator, Samuel Moreira (PSDB-SP), mas já é possível antecipar que itens como o Benefício de Prestação Continuada e a aposentadoria rural devem ser retirados da proposta, com impacto aí, sim, bastante expressivo sobre o cômputo geral do impacto da reforma.
Outro dilema, de ordem mais política que imediatamente fiscal, se coloca diante do relator: o de retirar ou não o artigo que estende automaticamente a Estados e municípios as novas regras para os regimes próprios de Previdência. Embora seja a solução que mais bem equaciona o rombo fiscal dos entes federativos, a ideia é rechaçada por deputados e senadores, que não querem ficar com o desgaste de aprovar medida impopular para os servidores de suas bases eleitorais, poupando governadores, prefeitos, deputados estaduais e vereadores de sua própria cota de sacrifício.
Por fim, há o PL, expoente-raiz do auto-dissolvido Centrão, que apresentou proposta alternativa lipoaspirando pela metade a reforma e também sua economia, para algo como R$ 600 bilhões. É o projeto daqueles que cultivam em privado o postulado tornado público por Paulinho da Força: aprovar uma reforma que não seja robusta o suficiente para garantir a reeleição de Bolsonaro.
Assim, entre pedidos domésticos e cálculos eleitorais, a reforma entra em sua fase decisiva. O secretário especial da Previdência, Rogério Marinho, mantém o discurso otimista. “A maioria da Casa introjetou a necessidade da reforma e de que ela tenha um impacto fiscal relevante. Claro que haverá uma adaptação, até porque este é o papel do Parlamento, mas eventuais concessões serão compensadas de outra forma”, disse ele à coluna.
Se no começo do ano a reforma era vista como o elixir para todos os males do País, a estagnação mostrada pelos números mais recentes da economia mostram que, mesmo com ela, a recuperação não será tão rápida nem tão simples.
Quanto mais ela for desidratada, no entanto, mais esse nó vai se tornando difícil de desatar. Seria bom que, do presidente aos deputados, todos se conscientizassem de que o momento não permite risos irônicos nem cálculos cínicos de resultado eleitoral e se empenhassem em aprovar uma reforma robusta e coerente.Vera Magalhães
domingo, 2 de junho de 2019
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