sexta-feira, 5 de abril de 2019

Bolsonaro ainda não entende o que é democracia

O passado tem um poder fascinante sobre os seres humanos, tanto no plano individual como no mundo público. Mas há duas maneiras de se usar a história como referência de nossas ações. Uma é se prender nos acontecimentos passados e travar uma batalha sem fim com eles, nunca se libertando por completo do que já ocorreu. A outra é utilizando a experiência pregressa como um farol para iluminar as decisões no presente e no futuro. A diferença entre tais visões está em quanto aprendemos com os que vieram antes de nós.


O presidente Jair Bolsonaro construiu uma frase de efeito em sua viagem a Israel: "Aquele que esquece o seu passado está condenado a não ter futuro". A sabedoria contida nessa afirmação não revela, de imediato, qual é a concepção de história que orienta nosso atual governante. Isto é, se ele prefere se digladiar com os fatos passados, ou se opta por uma visão na qual se deve aprender com o passado para melhorar as escolhas do futuro.

Tomando como base as opiniões e decisões vindas do presidente nestes três meses de governo, constata-se que Bolsonaro pouco tem aprendido com a história. Ele insiste mais num ajuste de contas com o passado, seja para reverenciar o que foi feito em tempos pretéritos, como aparece em sua visão sobre o regime militar, seja para se colocar como um ponto de ruptura completa, de modo que é preciso criar algo novo que seja o inverso da "velha política" da Nova República.

O governante que aprende com o passado evita os erros das gestões anteriores e se inspira naquilo que é possível de ser replicado ou ser tomado como um ponto de partida. Dois exemplos mostram que Bolsonaro está seguindo outra linha, mais preocupado em defender posições derivadas de sua peculiar interpretação do que foi a história e menos em utilizar os ensinamentos do tempo como instrumento para produzir uma trilha diferente. Trata-se dos posicionamentos referentes ao presidencialismo de coalizão e às ditaduras do passado, no Brasil e fora dele.

A visão bolsonarista sobre o presidencialismo de coalizão se alimenta de uma interpretação da história. Olhando para o passado mais recente, Bolsonaro tem uma opinião segundo a qual tal modelo de governabilidade se baseava em negociatas entre o Executivo e o Legislativo, gerando processos imensos de corrupção. No fundo, ao se ancorar nesta ideia, o presidente está se colocando de forma contrária aos governantes anteriores e seus partidos, PSDB e PT. É a lógica da competição eleitoral que ainda alimenta a visão de mundo de alguém que agora precisa governar o país.

Obviamente que houve corrupção nos últimos governos e que ela, em parte, se originou da relação do Poder Executivo com membros do Legislativo, inclusive para aprovar certas matérias no Congresso Nacional. O problema está em interpretar que o modelo presidencialista brasileiro, vinculado à combinação de multipartidarismo, federalismo e presidente sem maioria congressual derivada da eleição, sempre levará a negociatas e roubalheiras.

Por meio do presidencialismo de coalizão, foi possível, nos últimos 30 anos, manter o jogo democrático, algo raro e pouco duradouro na trajetória política do Brasil. Utilizando esse modelo, o país fez várias reformas - quase cem emendas constitucionais - e teve avanços significativos nos campos econômico, político e social. Presidentes que tentaram evitar ou passar por cima dos congressistas e, especialmente, dos partidos políticos, não foram bem-sucedidos em suas políticas públicas e, ao fim e ao cabo, foram depostos. Essa é a maior lição da história que Bolsonaro deveria aprender.

Isso quer dizer que o presidente deve simplesmente dar todos os cargos e verbas que os congressistas pedirem? Essa também não é a resposta que pode ser retirada do aprendizado histórico. Na verdade, esse varejo só pode ser bem utilizado, com os cuidados necessários, para se garantir simultaneamente a governabilidade e padrões éticos, se for feito um pacto partidário prévio. Erram os governos que não começam pelo atacado, isto é, pela criação de alianças partidárias que alicercem a participação dos congressistas no Poder Executivo.

O mensalão nasceu no primeiro governo Lula porque o PT se recusou a fazer um pacto partidário com o maior partido congressual à sua disposição, que era o PMDB, e preferiu fazer negociações miúdas com os pequenos partidos da centro-direita. O petismo acreditava que bastava dar alguns pequenos nacos de poder a essas legendas invertebradas e, assim, manteria o controle sobre todo o processo legislativo sem perder sua hegemonia na condução da governabilidade. Com base num discurso purista e de superioridade sobre o restante do sistema político, esse hegemonismo petista foi a porta para a crise política e, ao contrário do que imaginavam, para a corrupção.

O discurso bolsonarista nas redes sociais lembra os tempos iniciais do petismo no plano federal. De um lado, como no passado petista, a parte mais radical do bolsonarismo acredita que vai substituir o antigo regime por meio da pressão popular - hoje baseada nas redes sociais. Para aprovar emendas constitucionais e outras legislações, bem como para evitar a pressão congressual sobre o presidente, esse caminho é um desastre. Mas, por outro lado, há outra parcela de bolsonaristas, mais localizados nos postos-chave do governo, cuja concepção de governabilidade passa pela conversa individualizada com os parlamentares e com a entrega de pequenas benesses, sem dividir efetivamente o poder e as responsabilidades que dele derivam.

A combinação da deslegitimação do sistema político com um jogo pouco coordenado de distribuição de prebendas aos parlamentares, inclusive aos do PSL, não garantirá a formação de uma maioria governista sólida. Será sempre um modelo baseado na desconfiança mútua entre Executivo e Legislativo. Esse era também o clima, em medidas variadas, nos governos de Jânio, Collor e Dilma, ensina a história, e os resultados finais são conhecidos. Ou então haverá algum revisionismo histórico que diga que nesses casos a culpa do fracasso não foi do presidente?

Se o presidente Bolsonaro quer instalar o novo na política brasileira, o que quer que seja isso, deve seguir uma máxima produzida pelo aprendizado histórico: somente é possível fazer mudanças de larga escala e de longo prazo, dentro de um regime democrático, por meio de alianças partidárias estáveis, nas quais haja compartilhamento de poder e responsabilidades. Para fazer isso, é preciso abandonar o comportamento messiânico e antipolítico, segundo o qual o presidente e seus seguidores são os únicos donos da verdade. Os congressistas são tão legítimos perante o voto do eleitor quanto Bolsonaro, e ele não tem maioria congressual para dar as cartas do jogo sem precisar de parceiros.

A história revela, ademais, que a eleição municipal de meio de mandato começa a afetar os parlamentares no fim do segundo semestre do primeiro ano de governo. Esse é o prazo para se aprovar reformas estruturais. Depois disso, tudo ficará mais difícil. O fato é que, se aprendesse com o passado, Bolsonaro estaria agora fazendo uma reforma ministerial com vistas não só a aprovar a reforma da Previdência, mas para criar uma aliança partidária mais estável, pelo menos de médio prazo, e voltada para o pleito local de 2020. Mas, no momento, o bolsonarismo está mais preocupado em olhar para a história para resgatar valores tradicionais e encontrar quem são seus inimigos eternos.

E aqui entra o segundo exemplo da dificuldade de Bolsonaro em lidar com o passado: suas ações e frases em relação a regimes autoritários no Brasil e no exterior. Sua insistência em dizer que não houve uma ditadura em nosso país a partir de 1964 luta contra os fatos: os presidentes não eram eleitos pelo povo, muitos políticos e cidadãos perderam seus direitos políticos, a sociedade foi calada pela censura, pessoas foram torturadas, morreram e desapareceram. Se o bolsonarismo não achar que isso é um modelo ditatorial, vai ter que dizer que há democracia em Cuba e na Coreia do Norte.

O que está por trás do raciocínio bolsonarista fica mais claro quando é dito que o nazismo foi um fenômeno político de esquerda. Tal versão contraria os fatos - os comunistas foram os primeiros presos por Hitler, que os odiava - e a visão dos dois principais interessados em elucidar o Holocausto, que são Alemanha e Israel, países onde majoritariamente e de forma oficial se diz que os nazistas eram de extrema direita. Essa interpretação tresloucada tem como propósito comprovar que a esquerda está vinculada à maior tragédia do século XX, e desse modo continuar a guerra política para aniquilar o inimigo.

No fundo, Bolsonaro ainda não aprendeu o que é democracia, ou pior, tem uma visão peculiar dela, na qual só são admitidos os que pensam como ele. Trata-se de uma doutrina que não aceita a pluralidade necessária para a vida democrática. O bolsonarismo está dizendo que não se pode aceitar a velha política e só ele representa o novo. Não há espaço para o diálogo e o convencimento. Ao seguir essa trilha, Bolsonaro reinventa o passado para interditar o futuro pensado como um feixe de possibilidades.
Fernando Abrucio

Brasil emporcalhado


STF ganha novo nome: Suprema Impotência

Realizou-se no plenário do Supremo Tribunal Federal uma inusitada solenidade. Nela, a Corte recebeu um manifesto de apoio com cara de desagravo. Subscrito por duas centenas de entidades, o documento classifica como inadmissíveis discursos que pregam o ódio e a violência contra a Suprema Corte. A cerimônia foi reveladora, inadequada e inútil.

A pajelança foi reveladora porque os ministros do Supremo, normalmente vistos como semideuses, reconheceram que também estão sujeitos à condição humana. Aceitaram a muleta de um desagravo depois que Dias Toffoli, presidente da Corte, num gesto de rara prepotência, abriu por conta própria um inquérito sigiloso para identificar autores de ameaças virtuais aos magistrados e seus familiares.


A coisa foi inadequada porque o rol de apoiadores do Supremo inclui certas entidades cujos dirigentes e associados merecem interrogatório, não reconhecimento público. O ato foi inútil porque, considerando-se o histórico de suas decisões mais recentes, o Supremo tomou gosto pelo comportamento de alto risco. Nesse contexto, pomadas como manifestos de apoio e inquéritos secretos podem aliviar momentaneamente as dores, mas não resolvem o problema.

Bons juízes, como se sabe, não devem aderir cegamente aos clamores da comunidade. Mas também não precisam virar as costas para a sociedade. Generalizou-se no Brasil a percepção de que não há local mais seguro para os corruptos do que o Supremo Tribunal Federal. Juízes de primeira instância aprenderam a prender. Certos ministros da Corte Suprema especializaram-se em soltar.

O Supremo envernizou sua reputação com decisões favoráveis a minorias e grupos sociais vulneráveis. Foi assim com a validação da Lei Maria da Penha, a interrupção da gravidez em casos de fetos anencefálicos, o direito ao aborto no primeiro trimestre da gravidez, o reconhecimento da união homoafetiva e das cotas para negros e deficientes em universidades. Mas nada disso atenua a má repercussão da política de celas abertas patrocinada por ministros como Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski.

Alheio a todos os sinais de alerta, o Supremo adotou comportamento que levou à auto-desmoralização. Os ministros insultam-se diante das câmeras. Um deles julga casos de amigos. Outro decide sobre ex-chefes. E os demais fingem não ver. Há duas turmas na Corte. Uma notabilizou-se por prender. Outra solta a mais não poder. A primeira e a segunda instância condenam larápios. O Supremo os protege. Acaba de transformar a Justiça Eleitoral numa espécie de novo foro privilegiado para políticos em apuros.

De temeridade em temeridade, desceu à lata do lixo todo o prestígio social que o Supremo amealhara no julgamento do mensalão. A corrupção endêmica e reincidente fez do brasileiro um pretenso especialista em Supremo. Mesmo quem não entende de leis percebeu que certos magistrados não são necessariamente magistrados certos.

Foi contra esse pano de fundo que se avolumaram nas redes sociais, no noticiário, nos meios acadêmicos e no Ministério Público as críticas ao Supremo. Solidificou-se a percepção de que a Corte encostou sua reputação na desmoralização que atinge o sistema político e os outros Poderes. A diferença é que os outros agentes públicos foram arrastados para o caldeirão pela Lava Jato. As togas saltaram para dentro do melado por conta própria.

As críticas descambaram para as ameaças nas redes sociais? A integridade dos magistrados está ameaçada? Se a resposta for positiva para esse tipo de pergunta, o remédio é a abertura de inquéritos isentos de segredo, requisitados a quem de direito, seguidos da consequente responsabilização dos transgressores. Fora disso, remendos como manifestos oportunistas, longe de revitalizar, acabam por rebatizar a instância máxima do Poder Judiciário de Suprema Impotência.

Perda do brilho


A guerra é a obra de arte dos militares, a coroação da sua formação, a insígnia dourada da sua profissão. Não foram criados para brilhar na paz
Isabel Allende

Sem dias em cem

O problema não é o presidente Jair Bolsonaro não descer do palanque, como se diz por aí. Afinal, o celebrado Lula tampouco desceu do púlpito eleitoral em seus oito anos de poder. A questão que a muitos preocupa e a vários infelicita é o fato de, transcorridas doze semanas de governo, ele ainda não ter subido a rampa e, no gabinete do Palácio do Planalto, dado efeito ao que importa: o funcionamento da coisa pública. Como na piada do sujeito que fez dieta por quinze dias e no fim percebe que perdeu duas semanas na vida, o país completa 100 dias de Bolsonaro na Presidência sem nenhum ganho relevante no desatamento dos nós da administração que impedem o Brasil de sair do atraso na economia, saúde, educação e segurança. Na política, pretendendo avanços semeou paralisia pela falta de consistência do que seria o “novo” jeito de se relacionar com o Poder Legislativo.

Nenhuma de suas propostas andou. Nem as medidas provisórias, entre as quais estão a remodelação do Ministério da Economia e a liberação de auxílio de emergência às vítimas de Brumadinho. Isso num Parlamento que já aprovou confisco de cadernetas de poupança e quebra de paradigmas estatizantes com o impulso das urnas.

A situação soa ainda mais inusitada por se tratar de um presidente oriundo do Congresso e que, em tese, deveria ter noção sobre o papel da Casa no jogo democrático. Uma coisa é a campanha presidencial, durante a qual conta a relação do candidato com os anseios, reais ou ilusórios, do eleitorado. Outra, bem diferente, é a tratativa institucional que norteia o funcionamento da interdependência entre os poderes da República.

A independência consignada na Constituição requer harmonia. De forma alguma pressupõe que cada um faça o que lhe der na telha. Se o chefe do Executivo acha que pode atuar em desconexão com o Legislativo, é natural que a recíproca seja verdadeira. Donde os dois “trocos” que os deputados deram a Bolsonaro ao lhe infligir derrotas significativas com a aprovação do Orçamento impositivo e a rejeição do decreto que ampliava o escopo do sigilo a documentos oficiais.

O cacoete de parlamentar meramente reativo, livre para provocar em seu nicho de atuação no baixo ¬clero, parece ser o que impede Jair Bolsonaro de perceber que o início do período presidencial corresponde à entrada em cena do Congresso, à mudança da natureza do palco e, sobretudo, às demandas da plateia.

Na campanha candidatos falam à arquibancada, mas na Presidência governantes precisam lidar com o pessoal das cadeiras e camarotes se não querem ver a partida ser encerrada antes do tempo regulamentar.

O Supremo e o sacrifício de animais

O Supremo Tribunal decidiu que o sacrifício de animais em cultos religiosos afro-brasileiros é constitucional. Foi por unanimidade. E isso me decepcionou um pouco. Esperava uma corrente mais crítica ao antropocentrismo e sensível à dor dos animais.

Esses ventos ainda não sopram na Justiça brasileira. Mas já chegaram aqui da Argentina. Foi o caso de um habeas corpus concedido à chimpanzé Cecília, que visitei no Santuário dos Grandes Primatas, em Sorocaba. Cecília vivia triste e maltratada num zoo, mas ao chegar ao Brasil recuperou a alegria e até acasalou. Fiz um documentário sobre sua sorte.

Na mesma época entrevistei o escritor Peter Singer, autor do livro Libertação Animal, lançado em 1975, um texto inspirador do movimento moderno de defesa dos bichos. Singer estava exultante com a libertação de Cecília. Ele via ali os primeiros lampejos da aceitação de sua tese sobre os direitos dos animais.

Na vida cotidiana sabemos que essa é uma bandeira de minorias. E como tal precisa ser tratada com habilidade para atravessar a bandeira de ironia que se ergue diante dela.

Foi assim, por exemplo, que vi em Santa Catarina o movimento que criticava a Farra do Boi. É uma festa popular, tradicional na costa catarinense, onde para, os pescadores, o boi aparece como um invasor. A ideia na época não era acabar com a Farra do Boi, mas, na medida do possível, ajudar a transitá-la do boi real para um boi figurado, como, por exemplo, no Bumba meu Boi.

Creio que haveria uma possibilidade de argumentar com adeptos dos rituais de origem africana. Será que o sacrifício de animais é essencial para sua existência? Assim, como um leigo, posso afirmar que um dos mais belos rituais religiosos, envolvendo milhões de pessoas, são as oferendas a Iemanjá. Flores, quase todas flores. Na Baixada Fluminense documentei inúmeros trabalhos religiosos, nem todos usavam animais e, quando usavam, eram apenas uma parte das oferendas.

Creio que na própria religião afro-brasileira estão contidos os elementos que poderiam facilitar uma transição do corpo animal para o símbolo. Uma transição que a cultura popular brasileira, com suas representações do boi, já realizou.

Falei com um jovem político sobre o tema. Ele me respondeu: “Se me preocupar com isso, vou denunciar o peru de Natal”. Mas o peru de Natal é diferente. Ele é comido. Sempre afirmei que a proteína animal ainda é a maneira de alimentar tantas bocas no mundo. Mais ainda, para desalento dos vegetarianos, considero que o crescimento da humanidade, que nos levará aos 9 bilhões de pessoas em 2050, dificilmente dispensará a proteína animal. Mas o fato de comermos peru no Natal e sabermos que milhares morrem diariamente não justifica arrancar o pescoço de uma ave numa celebração mística.

A votação do Supremo lembrou-me de uma coisa: adianta apenas proibir? A experiência com a Farra do Boi, levei muitas pancadas por causa disso, é diálogo e compreensão. Mais que uma decisão da Corte, o ideal é uma transição em que o debate cultural realize o trabalho de suprimir maus-tratos aos animais.

Essa discussão no Supremo foi apenas um momento. Animais morrem inutilmente em grande escala no Brasil. E a causa, de certa forma, é o progresso material. Tenho documentando a mortandade dos jegues no Nordeste. Estão sendo substituídos pelas motocicletas. Morrem atropelados, abandonados pelos donos na margem das estradas.

Em alguns lugares, como em Apodi (RN), os jumentos foram recolhidos. Um promotor propôs que as pessoas passassem a comer carne de jegue. Ofereceu um churrasco. Sua proposta não vingou. Alguns empresários ainda esperam vender carne de jegue para a China.

Na verdade, uma extinção gradual vai tirando os jegues do cenário nordestino. Isso valeria uma política pública. Assim como o sacrifício de animais em cultos religiosos merecia um debate mais amplo.

Felizmente, nada vai deter o trabalho que se faz no Brasil. O próprio Santuário de Primatas em Sorocaba é um exemplo internacional. Em Três Rios há uma pousada que recebe bichos resgatados. A dona adotou uma jaguatirica que cruzou com uma gata e deu um belo gato mestiço. Na Serra da Mantiqueira, os chiqueiros estão cheios de filhos de javalis que cruzam com as porcas de madrugada. O que fazer com os javalis devastadores?

É todo um mundo girando. Levá-lo em conta ainda é muito difícil numa cultura em que o ser humana é o centro de tudo. Mas, apesar de decisões como a do Supremo, é possível dizer que está melhorando. Além disso, as crianças vêm aí e não são as mesmas do passado.

São Paulo já tem um hospital gratuito para animais. Em dezenas de lojas e restaurantes é possível ver tigelas de água para os animais de rua. Quando implodiram o presídio da Ilha Grande muitos cachorros fugiram para o mato. Hoje a ilha é cheia deles. Alguns estrangeiros às vezes retardam sua passagem pelo País apenas para adotar um cachorro da ilha.

O antropocentrismo aos poucos vai enfraquecendo, apesar do mundo institucional. Lembro-me das difíceis discussões no Congresso sobre experiências científicas com animais. Algumas envolvem a salvação de vidas humanas. No entanto, foi possível um nível de acordo. Acredito que hoje já exista uma tendência à simulação, fórmulas de cada vez eficazes para poupar os animais.

É uma escolha que transcende a polaridade esquerda-direita: um tipo de civilização está em jogo. Isso escapa ao próprio governo, preocupado, corretamente com a morte de 60 mil brasileiros por ano, mas totalmente perdido nas suas dúvidas sobre aquecimento global, nas suas estúpidas certezas como dizer que o nazismo foi um movimento de esquerda. Invadiu a União Soviética por engano? Milhões de mortes foram resultado de fogo amigo?

Animais racionais têm cada ideia.

Gente fora do mapa


Verdades alternativas no governo

O general Mourão precisa dizer, com jeitinho, ao presidente Bolsonaro e seu chanceler que a única coisa que une o nazismo à esquerda marxista é a tirania. Não são ruins por ser de direita ou de esquerda, são abomináveis porque não respeitam a liberdade e os direitos dos indivíduos, que devem se colocara serviço do Estado e de sua burocracia, com os resultados que se conhecem. Parece um absurdo ainda discutir isso a essas alturas da história.


O nazismo — com seu racismo, supremacismo ariano e eugenismo, seu militarismo e coletivismo — rivaliza em mortes com os democratas assassinados na União Soviética stalinista, militarizada e coletivista, em que o indivíduo não tinha liberdade política, econômica, cultural e de comportamento. Tudo em nome do Estado e pelo “povo”. A mesma coisa com sinal trocado, iguais na tirania e no autoritarismo.

Parece um absurdo ainda discutir isso a essas alturas da história. Imaginem alguém dizendo a Hitler, Himmler e Goebbels que eles são de esquerda. Câmara de gás ou gargalhadas? Ou chamando Stalin de nazista; fuzilado na Sibéria. O que eles têm em co mu mé o desprezo pelo indivíduo e pela liberdade.

Depois do nazismo de esquerda, o que mais podemos esperar? O comunismo democrático? O fascismo liberal-social? O judaísmo evangélico ? A ditadura democrática de força? O criacionismo? Uma nova mentalidade ou a volta de uma velha? Viveremos numa Bibliocracia?

É possível acreditar que o golpe militar de 64 foi “para salvar o país do comunismo”, como apoio de boa parte da população, mas é impossível negar os “probleminhas” de milhares de prisões arbitrárias, mortes e tortura institucionalizada. E quais seriam os “problemões”? Pareceu m absurdo ainda discutir isso a essas alturas da história.

Em vez de discutir o futuro, e o presente urgente, perdem tempo tentando reescrever o passado para adequá-lo a suas crenças e preconceitos. É um mi
toque de 55% do eleitorado votaram em Bolsonaro, boa parte só votou contra o PT. É verdade esse bilhete.

A força democrática



Foi um regime democrático de força
Ricardo Vélez Rodriguez, ministro da Educação

Os sete tiros de fuzil do presidente

O presidente Jair Messias Bolsonaro quis fazer uma exibição de tiro de fuzil durante sua recente e polêmica visita a Israel. Segundo o ministro da Segurança daquele país, o hóspede de honra brasileiro “acertou no alvo sete tiros de longo alcance”. Não sei por que quis destacar que os disparos de Bolsonaro, que deram no alvo, foram sete. É um número, de fato, mágico desde tempos antigos, mas nunca foi um número de destruição e morte. Para Pitágoras, era o número perfeito. Roma foi edificada sobre sete colinas. Sete são as fases da lua, e sete os dias da semana.

Das sete maravilhas do mundo aos sete pecados capitais, dir-se-ia que esse número entranha um poder oculto. Também na Bíblia, o número sete domina os acontecimentos mais importantes da história de Israel. Deus descansa no sétimo dia depois de ter criado o mundo. O candelabro do templo tinha sete braços, e Salomão construiu o templo em sete anos. E sete são os selos do Apocalipse.


Os sete tiros de fuzil de Bolsonaro em Israel, que atingiram o alvo a longa distância com precisão, podem ser vistos como símbolo da polêmica presidência do mandatário brasileiro. Se o presidente tivesse querido fazer honra ao bíblico número sete, poderia ter escolhido outros campos para prestigiá-lo, em vez do gesto bélico de disparar um fuzil sete vezes.

Sete poderiam ser outros tantos projetos do presidente para transformar o Brasil, para devolver-lhe vitalidade econômica e a ilusão de uma convivência pacífica que supere ódios e discórdias. Poderiam ter sido sete anúncios de outras tantas decisões capazes de entusiasmar um país encolhido e dilacerado após tantas frustrações com seus governantes. Poderia ter pedido em Israel, terra bíblica, um projeto para reunificar judeus e palestinos em um novo horizonte de diálogo e de paz, algo que desejam sobretudo as novas gerações de ambos os lados. Poderia naquele pedacinho de terra carregado de historia milenar ter soltado sete pombas da paz, em vez de disparar uma arma que evoca guerra e destruição.

O mundo dos símbolos é antigo como o Homo Sapiens. A Humanidade se comunica de muitas formas, das palavras e da escrita aos gestos da linguagem não-verbal. Bolsonaro, desde a época da campanha eleitoral, nos revelou a evidência de sua predileção pela linguagem explícita das armas. Já fazem parte da mitologia seus gestos com as mãos imitando os tiros de um revólver. Gesto que quis ensinar a uma menina de cinco anos, profanando sua mão ainda inocente.

Em sua emblemática visita a Israel, talvez não tenha sido apenas coincidência que o presidente brasileiro, nostálgico de ditaduras e torturas, quisesse, em vez de gestos de paz e de distensão mundial, em um pedaço do mundo que é um barril de pólvora sempre pronto a explodir, fazer uma exibição simbólica de sua grande pontaria militar. Esses disparos servirão para abrir um grande diálogo com todos os brasileiros que preferem a paz à batalha, ou o impedirão de ser presidente de todos para se limitar àqueles que, como ele, têm sonhos cheios de violência e vingança?

A significativa e polêmica viagem de Bolsonaro a Israel continuará tendo consequências em seu destino como presidente da República no Brasil. Enquanto os brasileiros condenavam aqui a ditadura em seu 55º aniversário, o presidente se divertia em Israel em uma exibição de tiros de fuzil, sem que ninguém visse uma fugidia pomba de paz voar sobre sua cabeça.

A guerra, a das armas e das ideologias, é a grama que melhor parece crescer nesse jardim sombrio do capitão reformado caçador de conflitos. Em Jerusalém, antes de deixar Israel, o mandatário brasileiro quis deixar plantada uma nova espécie maligna. Afirmou, sem tremer a voz, que “o nazismo era de esquerda”. O Holocausto também?

Bolsonaro e suas milícias do Governo, sempre em pé de guerra contra a evidência da História, passarão, e a realidade brasileira ressuscitará. Se o presidente alardeia ter adotado como lema as palavras do Evangelho de João: “A verdade vos libertará” (Jo 8,31ss), o que estamos vendo, ao contrário, é que a sua verdade, vendada e negada pela ideologia, o está deixando cego.
Juan Arias

Anarquia no palácio do capitão

O general porta-voz de Jair Bolsonaro disse considerar “caso encerrado” a polêmica provocada por um vídeo divulgado no último domingo por meio de um dos canais privados da Secretaria de Comunicação da presidência da República que exalta o golpe militar de 31 de março de 1964. Caso encerrado coisa nenhuma!



Na segunda-feira, dia 1º de abril, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, declarou ao jornal O Globo que o vídeo fora divulgado por decisão do presidente Jair Bolsonaro, àquela altura em visita a Israel: “Decisão do presidente. Foi divulgado pelo Planalto, é decisão do presidente”.

Mas ontem, ainda no exercício da presidência da República, Mourão corrigiu-se: “Em tese, ele deveria saber. Agora sei que ele não sabia”. Se antes era grave o fato de um vídeo que exalta um golpe militar ter sido divulgado por decisão do presidente, muito mais grave ficou com a revelação feita por Mourão de que Bolsonaro não sabia.

Quem mandou produzir o vídeo e quem mandou divulgar? – eis a questão. O empresário bolsonarista Osmar Stábile, de São Paulo, ex-vice-presidente do Corinthians, se apresentou há poucas horas como o produtor do vídeo. “Não conheço Bolsonaro, mas apoiei sua eleição”, justificou-se. Ele disse também ter apoiado o golpe de 64.

Vá lá que não se trate de um arranjo de última hora para esconder o verdadeiro autor do vídeo, ou para afastar a suspeita de que o vídeo foi produzido e pago pelo governo. Mas quem autorizou que o vídeo supostamente produzido por um empresário fosse divulgado pela Secretaria de Comunicação da presidência da República?
Enquanto não se souber quem autorizou, cabe o temor compartilhado por políticos de vários partidos de que o Palácio do Planalto tenha virado terra de ninguém. Onde deveria haver ordem, hierarquia, comando, existe descontrole, confusão, anarquia. Nem os generais que cercam Bolsonaro estão mais dando conta do recado.

Como alguém com acesso a canais privativos de comunicação da presidência da República pode endereçar a quem bem deseje um vídeo de celebração a um golpe militar? E apenas poucos dias depois de o presidente da República, em decisão controversa, ter orientado as Forças Armadas a comemorarem o golpe? Como foi possível?

Não dá para que tudo fique por isso mesmo, salvo se for para desmoralização do presidente e dos que o ajudam a governar.

Pensamento do Dia


Guedes mentiu na Câmara ao dizer que proposta não beneficiará banqueiros

Paulo Guedes é um personagem ardiloso e controverso, para dizer o mínimo. Jamais poderia ter sido convocado pelo presidente da República para gerir a economia, com todos os poderes, recebendo carta-branca com apenas uma restrição – ao reformar a Previdência, poupar ao máximo os militares. O resto – todo o resto – ficou por conta dele, como se fosse um homem perfeito, um São Francisco de Assis em versão econômico-financeira. Mas não é nada disso, Guedes é um pecador inveterado, que não pode ver dinheiro.


Tem um passado nebuloso, que inclui os inquéritos a que está respondendo pelas aplicações que fez para fundos de pensão que beneficiaram suas próprias empresas, a ponto de a direção do Funcex, da Caixa Econômica Federal, ter denunciado a gestão temerária dele à Superintendência Nacional de Previdência Complementar (Previc), que constatou os prejuízos e encaminhou a denúncia ao Ministério Público.

O prejuízo que deu aos fundos está mais do que está comprovado. Se suas aplicações tivessem dado lucro, por óbvio nem haveria a investigação. Justamente por isso, o pecador Guedes tenta escapar dessa denúncia como o diabo foge da cruz. Primeiro, recusou-se a depor ao Ministério Público e agora se esconde sob o manto sagrado do foro privilegiado no Supremo.

É inacreditável que Bolsonaro tenha colocado um economista desse tipo para cuidar dos cofres públicos. Em sua santa ingenuidade, o presidente da República não percebe que Guedes é um ferrenho defensor dos banqueiros, está pouco se preocupando com o interesse público.

Nesta quarta-feira, o ministro mentiu abertamente na Comissão de Constituição e Justiça, ao afirmar que não vai entregar a capitalização para os bancos. Vai entregar a quem, então? Ora, ele admite que pretende seguir o modelo do Chile, com o sistema sendo operado pelas AFPs [Administradoras de Fundos de Pensão], controladas por bancos ou seguradoras, que são irmãos xifópagos.

Para os trabalhadores, o sistema não deu certo no Chile, mas tem sido altamente lucrativo para os bancos e seguradoras. Os fundos de pensão que fazem a capitalização no Chile são geridos por seis AFPs, das quais cinco são estrangeiras, e uma delas é do banco BTG Pactual, do qual Guedes foi um dos fundadores. Mas é claro que isso é apenas coincidência.

Os donos da história

O Presidente Bolsonaro deu mais um tiro no pé e prestou um serviço à história, ao propor a comemoração dos 55 anos do golpe militar nos quartéis. Um assunto histórico que estava nas estantes das bibliotecas foi despertado e serviu para provocar debates e criar em novas gerações a consciência de fatos passados que não devemos esquecer. Há dias que as mídias, noticiários, editoriais, twittwea e facebooks debatem, esclarecem e denunciam os crimes da ditadura militar que, por 21 anos, cassou mandatos, de políticos e empregos de servidores, aubmeteu Congresso e Justiça, censurou imprensa, universidades e livros, matou, exilou, “desapareceu” pessoas, sequestrou adultos e crianças e deformou a consciência política dos brasileiros. Nos deixou a memória do horror que querem roubar se apropriando da história.

Propor comemorar 64 para desfazer a marca do golpe foi um serviço que Bolsonaro prestou sem querer. Está claro que foi um golpe porque os militares rasgaram a Constituição vigente desde 1946 e implantaram uma ditadura. O Brasil sabe que a narrativa de Bolsonaro é falsa: sim, foi golpe.


Este debate está ajudando a debater a outra narrativa de que os impeachments de Collor e de Dilma foram golpes. Que o Congresso fez em 2016 o que os militares fizeram em 1964. Escondendo que nos dois impeachments o Congresso agiu dentro da Constituição de 1988 e manteve todo o rigor democrático: debate do processo por seis meses com absoluto direito á defesa, garantia do direito dos presidentes durante, os julgamenros, posse dos vices escolhidos por Collor e por Dilma, manutenção de todo o sistema institucional democrático e dos direitos de ex-presidentes por toda vida financiados pelo poder público; no caso da presisente Dilma, diferente se Collor, manutenção inclusive de seus direitos civis, o que lhe permitiu ser candidata ao Senado nas primeiras eleićões depois de seu impeachment. Usar a palavra golpe para 2016 è uma “fake story” tão sem sentido quanto dizer que em 1964 não houve golpe.

O tiro no pé dado pelo Bolsonaro vai ajudar a desmentir a falsa narrativa direitista do não-golpe em 1964 e a falaa narrativa petista de que houve golpes em 1992 e em 2016.

Graças ao sectarismo bolsonarista, a história pode sair ganhando e o Brasil entendendo melhor a sua história. Os militares podem até dizer que foi golpe e interpretar que teria sido bom para o Brasil, os petistas podem até dizer que os impeachments não foram bons para o Brasil. O que eles não devem é tentar ludibriar a história: golpe foi golpe, impeachments foram impeachments. Podem interpretar a história, mas não são donos dela.

Piorar, sempre pode

Caros Brasileiros,

Será que o presidente Jair Bolsonaro ainda não percebeu que a campanha eleitoral já acabou? Que ele deveria estar governando para os mais de 200 milhões de brasileiros, e não continuar satisfazendo a seus eleitores ou ideólogos como Olavo de Carvalho? Na visita a Israel, mais uma vez, ele deu provas de que parece não estar ciente disso.

É trágico, é triste, é devastador. Mesmo depois da visita ao memorial Yad Vashem, em Jerusalém, um museu público em memória às vítimas do Holocausto, Bolsonaro parece não ter conseguido refletir sobre as consequências catastróficas do nazismo. Pelo contrário: usou o genocídio contra judeus como mais uma oportunidade de combater "os esquerdistas" e o "socialismo".

Confesso que eu, como alemã, estou atônita. Sinto vergonha alheia ao ouvir da boca de um presidente de um grande país como o Brasil que ele não teria dúvidas "de que o nazismo foi um movimento de esquerda". A falsificação da história depois da visita a um museu em memória às vítimas do Holocausto cruzou todos os limites.

O combate permanente ao "socialismo, comunismo e aos esquerdistas" parece ser uma obsessão política do presidente Bolsonaro e do chanceler Ernesto Araújo, que o acompanhou na visita oficial a Israel. Como na campanha eleitoral, Bolsonaro continua espalhando fake news.

Agora, o presidente Bolsonaro escolheu a Terra Santa para disseminar fake news. O incidente revela muito sobre a personagem e o estilo político dele. A tentativa de ressignificar o nazismo como um movimento de esquerda mostra que ele se inspira nos métodos de agitação de regimes totalitários: vender mentiras como verdade e criar um bode expiatório para todos os problemas de um país. O que eram os judeus para os nazistas alemães, são os "esquerdistas", socialistas e comunistas para o presidente brasileiro.

No mundo ideologicamente envenenado de Bolsonaro, a história parece ser uma massa de manobra, como também mostra a forma de tratar o golpe militar de 1964. A deposição do presidente democraticamente eleito João Goulart no dia 31 de março de 1964, para Bolsonaro, não foi um golpe militar. Na leitura dele, as Forças Armadas salvaram o Brasil de uma possível ditadura comunista.

A ordem de celebração do golpe militar pelo presidente Bolsonaro evidenciou a alienação com a realidade e a ausência completa de empatia e tato político. O mal-estar aumentou mais ainda com o fato de que o presidente se ausentou na "comemoração" do 55º aniversário da ditadura.

Essa toada de destruição e perturbação permanente parece ser uma marca registrada do presidente brasileiro. A consequência é que, interna e externamente, os problemas do Brasil vão se agravando. No governo, aumentem os atritos entre militares e seguidores do autoproclamado filósofo Olavo de Carvalho. A área de educação está parada, igualmente às negociações sobre a reforma da Previdência no Congresso.

Na política externa, o cenário se repete. O saldo da viagem oficial para Israel é devastador. Além de reanimar a polêmica sobre o nazismo com uma mentira histórica, o presidente Bolsonaro está contribuindo para crescentes tensões diplomáticas com os países árabes. O cortejo ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, desagradou não somente aos países árabes, mas também à indústria agropecuária brasileira.

Pois o Brasil é um dos maiores exportadores de carne halal do mundo. O comércio com o Oriente Médio é de grande relevância, ao contrário dos negócios bilaterais com Israel. O Brasil registrou um superávit de 7,1 bilhões de dólares em transações com os 22 países do bloco árabe, enquanto computou, por exemplo, um déficit de 419 milhões de dólares em negociações com Israel.

O presidente Bolsonaro está revertendo a política tradicional de neutralidade do Brasil. Um país que até agora era símbolo de convivência pacífica na comunidade internacional, e que não tinha inimigos, de repente resolveu partir para a ofensa e polarização.

Como no Brasil, em Israel também, o presidente Bolsonaro foi procurar aplausos nos cantos políticos mais avessos ao diálogo. Faltam poucos dias para se completarem os 100 primeiros dias do governo Bolsonaro. Uma lição já está bem clara: piorar, sempre pode.

quinta-feira, 4 de abril de 2019

Brasil surrealista


Governo em desencanto

A uma semana de completar cem dias de governo, o presidente Jair Bolsonaro deu-se ao trabalho de desautorizar o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) criado em 1934 e respeitado desde então aqui e no exterior pela correção de suas análises.


O IBGE havia divulgado que o desemprego aumentou no país em fevereiro último, quando a taxa subiu para 12,4% e o total de desempregados voltou a superar 13 milhões. Bolsonaro disse que o número está errado e que os “índices parecem feitos para enganar”.

Economia não é o forte de Bolsonaro, e ele mesmo já confessou isso dezenas de vezes. Quando se arriscar a dar palpites a respeito, quase sempre dispara grossas bobagens. Ao tentar desacreditar o IBGE, ele apenas copia o exemplo dado por ministros de governos passados.

Até aqui, Bolsonaro só tem feito brigar com fantasmas e com o português. Golpe de 64, ditadura e agora o nazismo foram seus fantasmas preferidos. Reforma da Previdência é problema do Congresso. O pacote anticrime do ministro Sérgio Moro, também.

Quando não se ocupa em disseminar notícias falsas nas redes sociais, viaja ao exterior – e por lá envergonha o país. Só faltou ajoelhar-se aos pés de Trump. No Chile, elogiou Pinochet, ditador sanguinário. No Paraguai, Stroessner, ditador pedófilo.

Governar de fato, ele não faz. Sequer preencheu ainda cargos importantes no segundo e terceiro escalões da administração federal. Já foi capaz de faltar ao trabalho para ir ao cinema com a mulher. E de faltar de novo para ir rezar junto com amigos homens.

Sua inapetência pelo exercício do poder não tem par desde que a democracia foi restaurada no país. É visível seu enfado com as múltiplas tarefas que cabem a um presidente da República. Só se sente bem e à vontade entre seus ex-companheiros de farda.

Vivendo em risco

Três meses depois de assumir, Jair Bolsonaro demonstra que gosta de viver na beiradinha do risco. O principal deles no momento é arriscar um capital político – aquele que conquistou nas eleições – numa perigosa aposta contra o tempo. A comparação com o que acontece em economia é elucidativa: até agora ele investiu esse capital em quê?

Alguns sinais de erosão desse capital são bem evidentes e só não enxerga quem não quer. Não são as pesquisas de opinião (na qual bolsonaristas, a risco próprio, não acreditam mesmo). Essa deterioração é perceptível em repetidas manifestações de impaciência com o ritmo (ou falta dele) que o governo imprimiu às reformas. Traduzidas em frases desse tipo, que se ouvem por toda parte: “Acredito e AINDA acho que vai”.

É interessante observar o que está acontecendo em setores nos quais se formou, muito antes da eleição, a onda que empurrou Bolsonaro até o Planalto. São pequenos empreendedores, profissionais liberais, nutridas camadas médias de cidades do interior. Que viram em Bolsonaro uma resposta a problemas imediatos como insegurança (real ou percebida, não importa), burocracia, impostos, regulação, insegurança jurídica (em especial questões fundiárias para o agronegócio) – além do clamor anticorrupção.

Nesses grupos a onda ainda não “virou” num sentido contrário, mas, à medida que o tempo avança e a economia não deslancha, a política parece continuar a mesma e as brigas entre os Poderes permanecem inescrutáveis, aquilo que antes era uma mistura de esperança e engajamento está se transformando hoje apenas em esperança. Para alguém, como Bolsonaro, que atribui seu êxito eleitoral em boa parte a essa influência “de baixo para cima” na formação de opiniões, o perigo adiante é evidente.

O presidente despreza os chamados “formadores clássicos” de opinião, especialmente os que se manifestam pela imprensa. Mas esse é um risco grande também, considerando que as vozes críticas “na mídia” começam a se aproximar de outros grupos influenciadores. Trata-se de outros “formadores de opinião” clássicos que não são profissionais de comunicação: figuras respeitadas no mundo de vários segmentos da economia, por exemplo. Era possível “sentir” que a vitória de Bolsonaro estava garantida quando esses últimos pularam para o barco também.

Hoje eles não falam em pular do barco, mas em dar um jeito de dirigi-lo. Nesses círculos, que abrangem o mundo financeiro, industrial, de serviços e empresarial, Bolsonaro está se arriscando a provocar uma irreversível estupefação negativa. São setores que já em boa medida cessaram de ver nele o homem “que resolve”, para enxergar nele o “errático”, insuportavelmente viciado em redes sociais e polêmicas inúteis, que precisa “ser levado” a resolver. Essas elites nem sempre conseguem andar adiante dos acontecimentos, mas é inegável seu grau de influência.

A credibilidade e a confiança tão essenciais para qualquer governo estão hoje se deslocando sensivelmente da figura do “mito” em direção aos núcleos militar, econômico e da Justiça, com poucas figuras realmente de peso no mundo da política que o governo possa chamar de suas. E episódios como a bagunça no MEC e as tiradas do chanceler, reiteradas pelo próprio presidente, produzem situações de ridículo, talvez o mais poderoso ácido corrosivo da imagem de quem precisa ser levado a sério para governar.

Agora que ficamos sabendo, por exemplo, que Joseph Goebbels foi um esquerdista, vale a pena então lembrar uma frase celebremente atribuída a ele, a de que uma mentira repetida mil vezes vira uma verdade. No caso de cretinices, como a de dizer que o nazismo foi um movimento esquerdista, é diferente. Uma cretinice repetida mil vezes só vira uma cretinice ainda maior.

Golpes

Discute-se o real significado da palavra “golpe”. Quando é que um golpe deixa de ser um golpe e passa a ser outra coisa, com outro sentido — ou outro sentido com o nome errado? Não se trata apenas de uma especulação semântica. A História do Brasil, nos próximos anos, vai depender de qual definição de “golpe” prevalecerá. Os militares já escolheram a deles, a mais simples e prática. O que houve no país, em 1964, segundo eles, foi nada. O que veio depois de 64 não foi uma ditadura de 20 anos, foi nada.


Mas talvez os militares tenham razão em querer fingir que nada aconteceu, e vamos tocar pra frente. Neste caso, o mais caridoso seria lembra-los da diferença entre o real e o desejado, e saber distinguir o simples e o prático do truculento. Poderíamos começar descrevendo o golpe clássico: insurreição armada contra o governo constitucional. O golpe clássico tem variações. Lembro a vez em que uma tropa entrou no Parlamento em Madri ameaçando todos com sua arma e chegando a atirar para o teto. Em meio à confusão, com deputadas e deputados estirados no chão, o tenente limpou a garganta e disse com uma voz fina: —Buenas tardes.

O levante do “buenas tardes” não deu certo.

A não ser quando há sangue e tragédia, claro, ou quando o drama shakespeariano acaba com as três primeiras filas da plateia agonizantes, todos os golpes têm um certo tom de farsa. Inclusive os que vitimam civis e não envolvem petardos e bandeiras. Fiquemos, então, com o combinado. Não se glorifique o que é mais prático esquecer, mas não venham com essa de que 64 foi golpe e depois foi ditadura.

Pensamento do Dia


Jair Bolsonaro precisa começar logo a governar antes que seja tarde demais


Aquele estranho vídeo que está circulando para enaltecer a ditadura militar tem tudo a ver com os tempos que vivemos agora. De repente, parece que o país retornou a uma era de trevas, de incertezas e de inseguranças. Jamais me passou pela cabeça que isso pudesse estar acontecendo, 55 anos depois. É como um sonho ruim, um pesadelo ao vivo e a cores, do qual a gente sabe que não consegue se desvencilhar. Não é à toa que a aprovação do governo Bolsonaro tenha caído 15%. Podem xingar o Ibope à vontade, mas os números são verdadeiros e a decepção se aprofunda.

Muitos eleitores votaram em Bolsonaro por não aceitarem mais o desgoverno do PT e a tentativa de impor uma república sindicalista. O arrependimento desses eleitores de Bolsonaro só não é maior, porque a opção petista se tornara algo completamente abominável. Mas agora, depois dos primeiros 100 dias de governo, a situação se mostra sinistra.


Da mesma maneira que ocorria durante os governos petistas, continuamos a viver um tempo de radicalismo. A diferença é que antigamente tínhamos de aguentar os fanáticos petistas, que adoravam – e ainda adoram – a figura abjeta de Lula da Silva. E agora somos obrigados a conviver com os fanáticos bolsonaristas, que nada ficam a dever aos seus antecessores.

De repente, o país se envolve numa discussão ideológica totalmente ultrapassada, com o chanceler e o presidente defendendo a tese exótica e surreal de que Hitler era de esquerda, sem perceberem que estão desmoralizando o país no exterior, sem a menor noção do ridículo.

É um governo se move em termos de teoria conspiratória e enxerga inimigos em toda parte, como se vivêssemos no Teatro do Absurdo, em docudramas de caráter altamente surrealista.

O presidente da República demonstra desvios de personalidade, deveria ser submetido a uma junta médica, pois se julga perseguido pelos principais órgãos de imprensa. Continua dando “entrevistas coletivas” em que proíbe a participação de jornalistas do grupo Globo, Folha, Estadão, Valor, UOL, CBN etc., algo jamais visto em qualquer democracia minimamente organizada.

E o pior é que esse comportamento paranóico tem apoio de milhares de fanáticos que saem em defesa de Bolsonaro nas redes sociais e na mídia em geral, inclusive em blog e sites. Dividem o mundo entre bolsonaristas e petistas, esquecidos de que a imensa maioria dos brasileiros pode não se encaixar nessas duas denominações, fazendo parte da maioria silenciosa que prefere trilhar o caminho do meio.

Em lembrança ao slogan anarquista espanhol “Hay gobierno? Yo soy contra”, pode-se dizer que no Brasil a situação está pior ainda, porque aqui “no hay gobierno”. O presidente se abstém de governar, reina a inércia no país, enquanto o suposto chefe do governo faz seguidas viagens ao exterior, acompanhado do filho 03, que é uma espécie de “chanceler informal”, vejam a que ponto chegamos.

Pensava-se que um governo militar eleito democraticamente significasse uma luz no fim do túnel, mas era só aparência. Os militares do Planalto não conseguem conter Bolsonaro e os três filhos, que se comportam como príncipes-regentes. A omissão e o caos rondam o governo que recentemente tomou posse, mas não governa nem a si mesmo.

Novo à beira do desemprego

Qual é a nova política? É a política da rede social? Os mais carentes vão receber as transformações pelas redes sociais? O velho é tudo que não presta? O que é que tem de novo até agora? Em três meses, muitos problemas. É isso o novo?
Arthur Lira (PP-AL)

A fuga simbólica de Bolsonaro para Israel no 55° aniversário da ditadura brasileira

O presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, está se acostumando a atirar a pedra e esconder a mão. Desta vez, tendo deixado o país em uma data tão significativa como o 55º aniversário da ditadura, o capitão reformado escapou por inteiro. Ele fugiu para Israel em uma visita oficial.


Essa fuga chocou. Foi ele quem provocou polvorosa ao pedir que o aniversário de uma das datas mais sombrias da história do país, manchada de mortes, perseguições e torturas, como foi o golpe militar de 1964, fosse "comemorado” nos quartéis. Depois, em seu melhor estilo de dizer e se desdizer, de afirmar e desmentir a si mesmo, ele se conformou com que tal data fosse “rememorada”. Tudo menos condenar aqueles 21 anos de terror que lhe pareceram pouco, já que ele se queixara antes de que, em vez de torturar, não tivessem matado muito mais. O Governo ainda deixou que um vídeo em defesa do golpe fosse partilhado por whatsapp por um dos números do Planalto. Nele, um homem olha para a câmera e diz que o Exército salvou o Brasil da ameaça comunista. A assessoria do Planalto disse a jornalistas que o vídeo não foi produzido pela Secretaria de Comunicação, mas não se pode disassociar do Governo a autorização para que ele fosse partilhado na data.

É possível que na fantasia de Bolsonaro e suas hostes guerreiras o Brasil tivesse aproveitado este 55º aniversário da ditadura, com um Governo como o seu coalhado de militares, para expressar sua nostalgia pelos anos de chumbo em que a democracia foi assassinada. No entanto, sua psicologia impulsiva, sua caça aos gigantes do comunismo, que confunde com simples moinhos de vento, e sua nostalgia de um passado que a grande maioria do Brasil condena, o levaram a fazer mal os cálculos.

Se acreditava que com seu pedido para que nos quartéis se comemorasse tal aniversário iria bajular os militares de hoje, que não tiveram parte na ditadura e que se têm revelado, desde o retorno à democracia, fiéis à Constituição, incluindo com Governos esquerdistas como os de Lula e Dilma, ele se enganou mais uma vez. Os quartéis não se mexeram. O jornal Folha de São Pauloentrou em contato com 50 militares hoje presentes no Governo e nenhum deles quis comentar esse aniversário.

Eles também preferem colocar sua visão no presente e no futuro e deixar o passado para a História.

Se os quartéis escolheram a discrição, as hostes bolsonaristas mais aguerridas promoveram eventos pontuais. O Brasil viveu um domingo até que pacífico. Os brasileiros fiéis à democracia, que rejeitam novas aventuras violentas, deixaram clara sua rejeição à ditadura em jornais, redes sociais e manifestações de rua. Milhares de pessoas seguiram numa marcha silenciosa pelas vítimas da ditadura no Ibirapuera. Outros atos simbólicos aconteceram nas principais capitais do país. Esses brasileiros desnudaram o regime militar para que não haja dúvida de que aquele período sinistro não admite eufemismos nem metalinguagens. Foi isso, uma ditadura, o assassinato do sistema democrático e o campo livre para que os piores instintos do ser humano pudessem se soltar impunes.

O Brasil deixou claro que não admite tergiversações linguísticas. Que foi uma ditadura, nem golpe, nem movimento, nem insurreição. Que nela se matou, corpos foram torturados e as liberdades foram sepultadas. Os que são sobreviventes de uma ditadura como a da Espanha, que me coube viver por 40 anos, sabem muito bem distinguir o que é uma insurreição social pela defesa dos direitos humanos do que é a degradação das liberdades.

Como eu, tantos jornalistas e escritores que viveram uma ditadura sabem muito bem que os capangas censores do Governo, muitas vezes incapazes de interpretar um texto, mortificavam também a inteligência, o pensamento e as ideias. Faziam isso toda vez que com suas canetas de tinta preta ou vermelha torturavam nossos escritos ou simplesmente os matavam de uma vez.

Um dia talvez saibamos por que o presidente Bolsonaro, depois de tentar reavivar aqui, em seu país, o fogo dos tristes anos da ditadura, preferiu fugir do dia que buscou transformar em uma festa. Ele foi procurar os aplausos naquela parte de Israel mais avessa ao diálogo, a mais intransigente, a das bandeiras da guerra e do desprezo pelo pacifismo com os povos e culturas que o rodeiam.

Talvez sua fuga apareça um dia como a prova de ter descoberto que o Brasil de hoje é cada vez menos o dos seus sonhos de guerra. É o que sonha com um futuro de liberdades e criatividade, de pão e trabalho para todos. Um Brasil unido, sem bravatas nem nostalgia de fantasmas autoritários do passado.

Neste 55º aniversário da ditadura brasileira, uma interrogação surge inquietante: será capaz o capitão Bolsonaro, que ainda não disse uma única vez que quer ser o presidente de todos os brasileiros, de representar o futuro de um país unido em torno de um projeto de esperança para todos? De um país que não caiu na armadilha criada pelo presidente que tentou em vão ressuscitar os fantasmas de um passado que só existe na fantasia febril dos derrotados?

Quem sabe um dia, sem necessidade de recorrer à psicanálise da linguagem de Lacan, seja possível compreender o que de simbólico e até mesmo de profético engloba essa fuga para o estrangeiro do presidente Bolsonaro, no dia em que sonhou fazer os brasileiros de hoje suspirarem por tempos que pertencem apenas aos cemitérios.

O Brasil degringolou, derrotado pelo desalento, pela apatia e pelo destino vira-lata

Fernando Gabeira escreveu na sua última coluna que não tem mais ânimo nem para dar conselhos, nem para atirar pedras. Não só ele. O desânimo é a sensação predominante no país. O Brasil degringolou, derrotado pelo desalento, pela apatia e pelo destino vira-lata que insiste em morder os calcanhares de quem, em algum momento, achou que as coisas estavam bem encaminhadas.

Mas quando? Antes da Copa? Nos meses áureos pré-Olimpíadas? Nos discursos triunfantes de Lula e de Sérgio Cabral?

Ali, naquele Brasil sorridente que decolava na capa da “The Economist”, gestava-se o tempo de hoje. Ali enchiam-se as barragens de rejeitos, ali se fazia de conta que a pobreza tinha acabado, e que ir à escola era o mesmo que aprender. Ali se formaram alguns milhões de jovens que têm diplomas mas não têm nem emprego nem empregabilidade, que votam em mitos e que sentem saudades do que não viveram.

O melhor retrato daquele Brasil confiante é a sua seleção infantilizada, entrando de mãos dadas no estádio de futebol, lágrimas escorrendo pela cara, toda trabalhada na fé, supostamente invencível, apenas para ser massacrada pela realidade da eficiência.

Não gosto nem de pensar que tempos estamos gerando agora.

Houve época em que os ministros da Educação faziam de conta que sabiam o que estavam fazendo; hoje nem isso.

Os franceses, que têm palavras para tudo, têm a definição perfeita para o que sentimos: "malaise". Uma primeira busca no Google revela que "malaise"
é “uma sensação geral de desconforto, doença ou mal-estar cuja causa exata é difícil de identificar”. Mas "malaise" se aplica também ao corpo político, e o Cambridge Dictionary explica melhor o seu significado: “um sentimento geral de se estar doente ou sem energia, ou o sentimento desconfortável de que algo está errado, especialmente com a sociedade, e que nós não podemos mudar a situação”.

Somos um país doente: quem não está cego pela ideologia está abatido com o que vê. Temos muitos motivos para isso, mas um dos principais está na inadequação de Jair Bolsonaro ao cargo que ocupa. Ele não entende que representa, ou deveria representar, todos os brasileiros; não percebe que o país está desmanchando pelas costuras, e que pôr lenha na fogueira não é uma boa política de governo.

Era de se imaginar que, tendo vencido as eleições por ficar ausente dos debates, ele fosse capaz de aprender o valor do silêncio; mas, ao contrário, ele acha que, com a presidência, ganhou carta branca para insultar quem não lhe deu o seu voto nem concorda com a sua visão do mundo.

Ao mesmo tempo, era de se esperar que a vitória nas urnas o apaziguasse e trouxesse à tona o seu lado melhor; mas a questão é que Bolsonaro não tem um lado melhor.

Ele é um homem mau que se orgulha disso.

É exaustivo viver no estado de insegurança que o seu estilo agressivo cria no país, porque o que esse estilo revela é que, em última análise, o presidente não é movido pelo desejo de fazer um Brasil melhor, mas apenas pelo prazer perverso de se vingar, seja das incontáveis categorias e setores que percebe como “inimigos”, seja do simples fiscal do Ibama que o multou por pescar em local proibido.

Um homem com 89 milhões de inimigos é o pior comandante que se pode ter.
Cora Rónai

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Só pensa naquilo!

Diz a Bíblia que a arrogância precede a ruína. Acho perigosa essa história do ‘ninguém fala a verdade’, ‘as pesquisas são mentirosas’, ‘só eu sei de tudo’.

Essa coisa de a rede social é meu Deus e ninguém mais fora dela. Precisa de um freio de arrumação. Essa queda de popularidade, essas brigas… Não seriam um sinal de que é preciso parar e pensar no Brasil por um minuto?
Silas Câmara )PRB-AM), presidente da bancada evangélica

Bolsonaro falsifica a realidade para enganar a população

Ao contestar números oficiais sobre o desemprego, Jair Bolsonaro conseguiu a façanha de ser desmentido por seu próprio governo. De Israel, o presidente distorceu dados do IBGE para tentar convencer o país de que o mercado de trabalho, na verdade, está bombando. “É uma coisa que não mede a realidade. Parecem índices que são feitos para enganar a população”, disparou.


O instituto havia calculado que o número de brasileiros desocupados subiu para 13,1 milhões em fevereiro. A conta segue padrões internacionais e leva em consideração pessoas que procuram emprego, mas não encontram. Bolsonaro não gostou.

O IBGE precisou divulgar uma nota de cinco parágrafos para explicar sua metodologia. Afirmou que adota regras semelhantes às de outros países e ainda negou a declaração do presidente de que beneficiários do Bolsa Família não são classificados como desempregados.

Bolsonaro produz falsificações que atropelam instituições consolidadas, critérios científicos, a história e o mínimo bom senso. O objetivo é adulterar a realidade a fim de reduzir desgastes e atacar opositores.

Para fustigar seus arquirrivais na política brasileira, o governo agora patrocina o delírio de que o nazismo era um regime de esquerda. O próprio Adolf Hitler deu uma entrevista em 1923 em que dissociava suas ideias do marxismo, mas Bolsonaro disse que “não há dúvida” de que o chanceler era vermelho, já que seu partido era o Nacional Socialista.

Dessa vez, quem desmentiu o presidente foi o vice Hamilton Mourão.“De esquerda é o comunismo. Não resta a mínima dúvida”, declarou.

A lógica estapafúrdia é a mesma que leva Bolsonaro a buscar um revisionismo rasteiro da ditadura militar. Ao argumentar que os fatos são deturpados por seus adversários e até por institutos oficiais, ele tenta moldar a verdade a seu gosto. Assim, nunca estará errado.

O presidente pode até contar suas histórias, mas quem olhar o passado ou as ruas do país verá quem está tentando “enganar a população”.

Paisagem brasileira

Floresta Encantada, Alter do Chão (PA )

Os Bolsonaro tuitam dez vezes antes de pensar

É preciso ver o lado bom das coisas. Mesmo que seja necessário procurar um pouco. No caso da presença da dinastia Bolsonaro nas redes sociais, o bom é a transparência. Cada vez que Jair Bolsonaro e seus filhos ficam fora de si, basta uma visita ao Twitter para ver melhor o que eles têm por dentro. A visão é aterradora. Mas ninguém pode alegar desconhecimento.

Abre parêntese: Palestinos e israelenses, como se sabe, vivem em paz no Brasil. Entretanto, alheio à tradição da diplomacia brasileira, Jair Bolsonaro achou que seria uma boa ideia descer no lado do muro ocupado por Israel. "Eu amo Israel", disse ele, na companhia do também capitão Benjamin Netanyahu.

Por mal dos pecados, a Israel que encanta Bolsonaro é a de Netanyahu, um premiê indiciado por corrupção, às voltas com uma eleição dura de roer. Tomado por suas ideias paleozoicas, o presidente brasileiro não tem o mesmo apreço pela Israel de lideranças como Golda Meir, Yitzhak Rabin e Shimon Peres. Fecha parêntese.

Pois bem, a esse ponto chegamos: no instante em que Jair Bolsonaro empurrava o Brasil para dentro de uma guerra que não é nossa, o senador Flávio Bolsonaro, que acompanhou o pai na incursão à beira do abismo, pisou no sabonete. Ao ler no site da revista Exame uma nota de repúdio do grupo terrorista Hamas à abertura de um escritório de negócios do Brasil em Jerusalém, o "Zero Um" correu para o Twitter.

Tido como o elo mais sensato do regime filhocrata, Flávio revelou-se um típico político do clã Bolsonaro. Grosso modo falando. Embora digitasse o teclado do laptop com os dedos das mãos, cutucou os jihadistas do Hamas com a ponta do pé para ver se eles mordem: "Quero que vocês explodam".

Horas depois, o primogênito apagou o post. Por sorte, as redes sociais são um inferno sem borracha. Consolidou-se uma sensação que já parecia petrificada: os Bolsonaro tuítam dez vezes antes de pensar. Inútil pedir a um Bolsonaro fora de controle que domestique os filhos. Quem sai aos seus não endireita.

Mas é preciso ver o lado bom das coisas. Mesmo que seja necessário procurar um pouco. O fato de Flávio Bolsonaro ter cultivado por um instante a ilusão de que seria possível apagar os rastros de sua insanidade virtual pode ser o embrião de uma autocrítica.

Com sorte, o senador acabará se dando conta de que o maior déficit de certos homens públicos localiza-se entre as orelhas. Com muita sorte, ele perceberá que, quando um Bolsonaro estiver nas redes sociais, deve recitar um velho brocardo com o sinal trocado: Nunca deixe para amanhã o que você pode deixar hoje.

Só comunistas torturavam?


"Comunistas prendiam e matavam seus compatriotas"
Texto do vídeo, divulgado pelo Planalto, que exalta golpe militar de 1964

Povo brasileiro não pode continuar pagando pelos crimes que não cometeu

Não, não é justo e sim extremamente injusto e cruel que o povo brasileiro pague pelo rombo, pelo desfalque, pela roubalheira que os governos das três esferas (federal, estadual e municipal), ao longo dos anos e da história, causaram e cometeram na criminosa administração do Tesouro Público (erário). Sem que antes se faça um auditoria, com auditores isentos e independentes, para identificar, processar, punir e ressarcir o dano que os administradores causaram, não se pode exigir um centavo do povo brasileiro para pagar a conta.

Nenhum imposto é para sofrer aumento, em lugar nenhum e a pretexto algum. Nenhuma mudança, mínima que seja, previdenciária, fiscal ou de qualquer outra natureza pode ser gestada e ingressar na ordem jurídica nacional com vista a “consertar” as contas e o país “progredir”.

Não será onerando os vitimados que os danos que sofreram serão minimizados, reduzidos ou reparados. Observe o leitor que nenhum governante, nenhum administrador público, de ontem e de hoje, reconhece serem eles os grandes malfeitores e culpados pelo desastre econômico que destruiu o Brasil. Pelo contrário, eles se apresentam na maior cara-de-pau como vestais, honrados e probos. E para eles a solução, de imediato, é mudar a Previdência Social, como se fosse a causa do desastre.

Essa situação tem tudo a ver com a maldade criminosa que estão fazendo com a população de cidades de Minas Gerais cercadas por barragens que acumulam resíduos da exploração de minério, que tudo arrebenta, derruba, inunda e mata, quando a barragem se rompe.

A ordem e os ensaios são para que a população se vire, se cuide, se proteja. Mas ninguém expede ordem para eliminar o perigo.

“Tenho 80 anos, nasci, cresci e sempre morei aqui. Aqui é meu lugar. Agora sou eu que tenho que sair, que tenho que correr para não perder a casa que construí e não perder a vida?”. O doloroso desabafo, raivoso e desesperador, que a TV mostrou, é de dona Maria do Rosário, moradora de Barão de Cocais, ameaçada de sumir do mapa quando a barragem de minério, que fica naquela região, estourar.

É o mesmo que estão fazendo com o povo brasileiro para superar a tal “crise”. Paguem vocês os monstruosos danos que nós causamos. Assim pensam eles, dizem eles, querem eles. Eles, os administradores públicos. Onde enfiaram e o que fizeram com a dinheirama que entrou no tesouro nacional com as privatizações da Vale do Rio Doce (3,3 bilhões), com a Telebras (22 bilhões), com a CSN (1,2 bilhão), com a Embraer (265 milhões), com os aeroportos, hidrelétricas, rodovias e muitas outras empresas federais?

 No dia 7 de fevereiro de 2019 o impostometro da Associação Comercial de São Paulo indicava que desde o 1º dia de 2019 os brasileiros pagaram 300 bilhões a título de tributos aos governos federal, estaduais e municipais. E que igual quantia (300 bilhões) foi alcançada de 1º de janeiro a 10 de fevereiro de 2018! Cadê o dinheiro? Onde foi empregado?. Quem dele se apoderou, ilicitamente?

Não, não se pode aceitar que o povo brasileiro pague a conta. Que repare o dano. Que sofra na carne, na alma, no psiquismo e no Espirito com tanta covardia. Identifiquem os ladrões, primeiro. Em seguida, puna-os e deles apanhem o dinheiro roubado a fim de devolvê-lo a seus legítimos proprietários, o povo brasileiro. Crimes de lesa-pátria são imprescritíveis.

Quando os fatos contrariam Bolsonaro, pior para os fatos

Jair Bolsonaro cultiva uma relação peculiar com a realidade. Ele não admite contestação, mesmo quando é desmentido com argumentos irrefutáveis. Se os fatos o contrariam, pior para os fatos.

Na segunda-feira, o presidente atacou o IBGE. Motivo: o instituto revelou que o desemprego voltou a subir. Em vez de encarar o problema, Bolsonaro reclamou da estatística. “Parecem índices que são feitos para enganar a população”, esbravejou.



A pesquisa seguiu parâmetros internacionais, mas foi descartada por não confirmar a propaganda. “Fui muito criticado e volto a repetir: não interessam as críticas. Eu tenho que falar a verdade”, prosseguiu o presidente. Ele deu as declarações numa data sugestiva: 1º de abril.

Ontem Bolsonaro resolveu esticar o Dia da Mentira. Em Israel, embarcou no delírio do chanceler Ernesto Araújo e disse que o nazismo foi uma ideologia de esquerda. “Não há dúvida, né? Partido Socialista… Como é que é? Partido Nacional-Socialista da Alemanha”.

O presidente despejou o besteirol em visita ao Yad Vashem, museu que lembra as vítimas do Holocausto. A instituição informa aos visitantes que o nazismo foi uma das expressões do “crescimento de grupos radicais de direita na Alemanha”. Se não leu os livros escolares, Bolsonaro poderia ter consultado as plaquinhas.
É consenso entre historiadores que o nazismo foi um movimento de extrema direita. O primeiro campo de concentração, em Dachau, foi inaugurado com o envio de comunistas e socialistas. Só depois recebeu judeus, ciganos e homossexuais.

A insistência em negar os fatos tem espantado a comunidade internacional. “Nunca ouvi uma voz séria na Alemanha argumentando que o nazismo foi um movimento de esquerda”, disse em setembro o embaixador alemão no Brasil, Georg Witschel.

Na semana passada, a emissora pública Deutsche Welle resumiu a falsa polêmica com sete palavras: “O absurdo virou discurso oficial em Brasília”. A Alemanha zela pela verdade histórica para que seu passado sombrio não se repita. Quando o Planalto exalta golpes e ditaduras, o Brasil toma o caminho oposto.