quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Há juízes pintados para a guerra

Numa entrevista ao repórter Fausto Macedo, o presidente da Associação de Juízes Federais, Roberto Veloso, defendeu o auxílio-moradia de R$ 4.300 mensais livres de impostos pago aos seus pares e aos procuradores. Uma parte de sua argumentação é sólida, pois, se o magistrado ou o procurador é transferido para outra cidade, faz sentido que receba algum auxílio. Quando Macedo levantou o tema do servidor que recebe o auxílio tendo casa própria na cidade em que vive há anos, Veloso respondeu que “não há uma ilegalidade no pagamento”.

“Eu me referia a uma preocupação de caráter moral”, esclareceu Macedo.

“Não estamos com essa preocupação. Não é uma pauta nossa”, respondeu o presidente da Ajufe.

 Alô, alô, Brasil, quando um juiz tem um pleito em nome de sua classe e diz que não se preocupa com a sua moralidade, a coisa está feia.



Segundo a Advocacia-Geral da União, o auxílio-moradia custa R$ 1 bilhão por ano. Dentro da lei, somando-se todos os penduricalhos dos servidores do Judiciário da União e dos Estados, chega-se a cifras assustadoras. Um relatório divulgado pelo Conselho Nacional de Justiça em janeiro passado estimou que em 2015 eles custaram R$ 7,2 bilhões. (As 30 toneladas de ouro tiradas de Serra Pelada valeriam R$ 4,6 bilhões em dinheiro de hoje.)

O problema dos penduricalhos volta para a pauta quando se sabe que 7 em 10 juízes ganham acima do teto constitucional de R$ 33 mil.

Na ponta do realismo fantástico, um juiz paulista que foi aposentado e cumpre pena de prisão em regime semiaberto por crime de extorsão recebeu em agosto passado um contracheque de R$ 52 mil. Tudo dentro da lei.

Os penduricalhos e os salários que produzem estão corroendo a imagem do Judiciário, logo a dele, onde uma centena de magistrados e procuradores fazem a grande faxina iniciada pela Lava Jato.

Essa questão pecuniária caiu no meio de um pagode, no qual ministros do Supremo se insultam, Gilmar Mendes descascou a Procuradoria-Geral de Rodrigo Janot e foi por ele acusado de “decrepitude moral”.

Desde maio está no gavetão da presidente do STF, ministra Cármen Lúcia, um pedido de Janot para que o ministro seja impedido de julgar casos envolvendo o empresário Eike Batista.

Nas razões que apresentou para desqualificar o pedido de Janot, Gilmar Mendes incluiu um provérbio português como epígrafe: “Ninguém se livra de pedrada de doido nem de coice de burro”. Não deu outra.

Caiu na rede um áudio atribuído ao juiz Glaucenir Oliveira, titular da Vara Eleitoral de Campos (RJ), que mandara prender o ex-governador Anthony Garotinho, solto por Gilmar. Em inédita baixaria, o juiz disse que “eu não quero aqui ser leviano, estou vendendo peixe conforme eu comprei, de comentários ouvidos aqui em Campos hoje. […] O que se cita aqui dentro do próprio grupo dele [Garotinho] é que a quantia foi alta. […] A mala foi grande.”

Esse é o preço cobrado ao espírito de corpo do Judiciário. Em 2011 o juiz Glaucenir dirigia sem cinto e viu que estava sendo multado por uma guarda municipal. Deu ré, carteirou-a e insultou-a.

Quando ela disse que o levaria à delegacia, o magistrado informou: “Quem vai te conduzir sou eu”. Se ele não pagou a multa, a conta ficou para Gilmar Mendes. Ninguém se preocupa quando uma guarda municipal leva uma pedrada.
Elio Gaspari

Paisagem brasileira

Não mintam sobre a minha geração

Há poucos dias fiz aniversário. Embora costume brincar sobre o tema da minha idade dizendo que tenho 73 anos, mas "de banho tomado fico como novo", o fato é que algumas coisas mudaram na percepção que tenho da minha realidade existencial. Assim: quando eu era jovem, contemplava o futuro como um horizonte móvel. Ele se ampliava e se distanciava a cada passo dado. Agora, eu o percebo fixo. A distância entre mim e ele encurta a cada velinha soprada.

Um dos fascínios da vida, aqui de onde eu a vejo, é a possibilidade de ouvir o que os jovens falam e o que alguns dizem aos jovens. Nessa tarefa instigante de ouvir, comparar e meditar volta e meia me deparo com a afirmação de que os anos 60 e 70 produziram uma geração de jovens alienados. Milhões de brasileiros teriam sido ideologicamente castrados em virtude das restrições impostas pelos governos militares que regeram o Brasil naquele período. Opa, senhores! Estão falando da minha geração. Esse período eu vivi e as coisas não se passaram deste modo.

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Bem ao contrário. Nós, os jovens daquelas duas décadas, éramos politizados dos sapatos às abundantes melenas. Ou se lutava pelo comunismo ou se era contra o comunismo. Os muitos centros de representação de alunos eram disputados palmo a palmo. Alienados, nós? A alienação sequer era tolerada na minha geração! Havia passeata por qualquer coisa, em protesto por tudo e por nada. Surgiu, inclusive, uma figura estapafúrdia - a greve de apoio, a greve a favor. É sim senhor. Os estudantes brasileiros dos anos 70 entravam em greve por motivos que iam da Guerra do Vietnã à solidariedade às reivindicações de trabalhadores. Havia movimentos políticos organizados e eles polarizavam as disputas pelo comando da representação estudantil. O Colégio Júlio de Castilhos foi uma usina onde se forjaram importantes lideranças do Rio Grande do Sul. As assembléias estudantis e os concursos de declamação e de retórica preparavam a moçada para as artes e manhas do debate político. Na universidade, posteriormente, ampliava-se o vigor das atuações. O que hoje seria impensável - uma corrida de jovens às bancas para comprar jornal -, era o que acontecia a cada edição semanal de O Pasquim, jornal de oposição ao regime, que passava de mão em mão até ficar imprestável.

Agora, leitor, compare o que descrevi acima com o que observa na atenção dos jovens de hoje às muitas pautas da política. Hum? E olhe que não estou falando de participação. Estou falando apenas de atenção, tentativa de compreensão. Nada! As disputas pelo comando dos diretórios e centros acadêmicos, numa demonstração de absoluto desinteresse, mobilizam parcela ínfima dos alunos. Claro que há exceções nesse cenário de robotização. Mas o contraste que proporcionam permite ver o quanto é extensa a alienação política da nossa juventude num período em que as franquias democráticas estão disponíveis à vitalidade da dimensão cívica dos indivíduos.

Em meio às intoleráveis dificuldades impostas à liberdade de expressão nos anos 60 e 70, a juventude daquela época viveu um engajamento que hoje não se observa em quaisquer faixas etárias. Nada representa melhor a apatia política da juventude brasileira na Era Lula do que os fones de ouvido.

Percival Puggina

O direito a um julgamento rápido

No ano de 2004, as bancadas do PT no Congresso aprovaram a inserção da seguinte emenda no art. 5º da Constituição Federal: “a todos, no âmbito judicial e administrativo, são assegurados a razoável duração do processo e os meios que garantam a celeridade de sua tramitação”. A bem da verdade, não se tratava de novidade alguma. Esse texto é uma ampliação da Emenda 6 à Constituição dos Estados Unidos, de 1791, pela qual é assegurado a qualquer réu, no processo penal, o direito a um julgamento rápido.

Curiosamente, agora, os petistas alegam que o cumprimento, pelo Poder Judiciário, do mandamento constitucional de julgamento célere – no caso da apelação de Lula ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região –, seria uma manifestação de perseguição política ao ex-presidente da República pela magistratura. Argumentam: ninguém tem sido julgado tão rapidamente assim no Brasil e, portanto, esse expediente seria discriminatório.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

Suponhamos que a afirmação seja verdadeira. A questão que se põe, então, é: por que querem, agora, fazer tábula rasa daquilo que seria uma garantia fundamental do cidadão, ou seja, a possibilidade de uma eventual inocência ser confirmada o mais breve possível, garantia que antes fora aprovada por todos os parlamentares petistas? E, se, de fato, o tratamento dado a Lula não é isonômico, frente a milhares de brasileiros que se veem às voltas com a Justiça criminal, o que se indaga é o seguinte: quais foram as contribuições dos governos de Lula e Dilma para minimizar a tragédia brasileira que consiste em termos, hoje, mais de 40% dos mais de 720 mil internos de nosso sistema prisional encarcerados provisoriamente, à espera de um julgamento sem data marcada? Não custa lembrar que esses números dobraram de 2005 para cá.

Pode até ser que Lula esteja a servir de “bode expiatório” e que sua condenação tenha um sentido hipocritamente pedagógico. Já rola jocosamente entre os círculos jurídicos que o sonho de todo advogado é que um processo corra “com a rapidez do caso Lula e com as garantias do caso Aécio”. O que não se concebe é que alguém, por sua origem miserável, por seu passado de lutas e pelas esperanças de renovação que suscitou, tenha se deixado levar pelas delícias do poder, tenha sido seduzido pelos “mimos” de capitalistas astuciosos e tenha acreditado na sinceridade de elogios dos áulicos de plantão: as oligarquias carcomidas, as corporações estatais egoísticas, a imprensa interesseira. Especialmente por tudo que algum dia representou, ninguém mais do que Lula deveria ter atentado para o que dizia a radialista Glória Lopes: “Se você não quer aparecer, não deixe o fato acontecer”.

São as voltas que a vida dá. Lula foi ingênuo demais ao acreditar que a elite econômica o aceitaria com suas promessas de poder harmonizar o capital e o trabalho no Brasil. A sanha do capitalismo financeiro não dá espaço para devaneios. Deu no que deu. Poderia ter feito como as raposas políticas mineiras que aprenderam com a leitura do Eclesiástico: “A esperteza, quando é muita, engole o esperto”.

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Charge O Tempo 30/12/2017

A cada ano sua história

Nesta época sempre tento ver as coisas com a simplicidade Drummond: o ultimo dia do ano/não é o ultimo dia do tempo/outros dias virão.

O ano de 2018 nasce numa segunda exatamente 50 anos depois de 2018. Esse aniversário não deveria ofuscar o ano que entra mas sim ajudar a entender esse meio século.

Em 68, nem tudo aconteceu da mesma forma. Na Praça de Tlatelolco, no México, mais de 200 estudantes foram assassinados. Luther King, assassinado, Robert Kennedy, assassinado.

Nem todas as lutas eram idênticas. Hoje, 68 é associado às românticas revoltas da juventude, aos sutiãs queimados e expectativas de mais liberdade sexual.


No Brasil, esses fatores só chegam mais tarde. Era basicamente uma luta estudantil contra um governo militar , embora tenham ocorrido duas greves de metalurgicos no período,em Osasco e Contagem.

Na verdade, eles eram um subenredo. Lembro-me que ao dissolver o congresso da UNE, em Ibiuna, a policia fez questão de exibir todas as pilulas anticoncepcionais encontradas no sitio.

A intenção era sugerir promiscuidade sexual. Hoje, talvez fosse um indicio apenas de precaução.

Quase nunca falo de 68 porque já me cansei do tema. No entanto, faz alguns anos que sempre me pergunto: até ponto a mudança de comportamento foi influenciada pelos jovens até que ponto o instrumento realmente decisivo partiu de um salto científico com a disseminação da pilula?

O ano de 2018 apesar de começar na segunda como 1968 enfrenta uma conjuntura bastante desafiadora. Apesar dos 50 anos de lutas por direitos civis nos EUA, a eleição de Trump representa um golpe na ilusão de um progresso linear.

As ondas migratórias, com o crescimento da extrema direita, colocam em xeque as teses do multiculturalismo que estimulou as lutas identitárias dos imigrantes.

No Brasil, a lembrança mais próxima é a um longo periodo de dominação da esquerda que alem de falhar nos campos da ética e da economia revestiu esses temas culturais de uma estreiteza partidária lamentável. Os direitos humanos foram as primeiras vitimas: são vistos hoje com desconfiança.
Em toda a parte, nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil tornam-se mais fortes as linhas conservadoras que questionam esse possivel legado de 68.

Talvez fosse um momento para refletir com a experiência da juventude. Quando se quer o mundo você pensa apenas no seu objetivo e esquece um pouco dos outros.

De repente, descobre que a maioria prefere outro caminho. É hora de dialogar. Em 68, o traço de união era lutar contra um regime ditadorial. Em 2018 é de reconstruir um pais, sob muitos aspectos, arrasado.

Mas 2018 acontece 50 anos depois. As lutas continuam se desenvolvendo. As feministas queimavam sutiãs em 2018. Hoje, com a entrada maçica das mulheres na força de trabalho, elas questionam o assedio sexual nas empresas. E não só nas de Hollywood mas também nas grandes montadoras.

De la para houve a revolução digital e um processo continuo de mudanças que nos envolvem. É nesse quadro amplo de transformações que precisamos achar um rumo.

O fator nacional de referência é a reconstruçao do tecido democrático, mudanças no sistema politico partidário, recuperação da economia.

Grandes debates sobre costumes, alguns fundados, outros artificiais, vão seguir acontecendo. O importante é saber em que lugar e em que ano estamos. Reconheço que mesmo nesses quesitos não há unanimidade: as pessoas vivem em tempos diferentes.

Dai a importância das eleições, como troca de ideias, uma oportunidade real de saber para que lado a maioria quer levar o Brasil.

Sempre desejo feliz 2018 lembrando que sera um ano dificil. Mas não os vejo como termos antagônicos. 1968 também foi um ano dificil. E muitos o viveram com alegria.

Cada época com seus fantasmas. O importante para quem viveu algumas é não confundi-los. Como Drummond,de copo na mão esperar o amanhecer,sabendo que...
Para ganhar um Ano Novo/Que mereça esse nome,/Você ,meu caro, tem de merecê-loTem de faze-lo de novo, eu sei que não é fácil/ mas tente, experimente consciente./ é dentro de você que o Ano Novo/chochila e espera desde sempre.
Um país também não escapa dessa lógica. Para ganhar um Ano Novo terá de merecê-lo. Ainda que 2018 desapareça na névoa do história e ninguém se lembre dele ao completar meio século. Mas é o ano que temos, o tempo presente . tão grave no Brasil que nos convida a andar devagar e, se possível, de mãos dadas.

À espera de 2018

Esqueça o calendário gregoriano. Na vida real, não é ele que marca o fim ou início de um ano ou mesmo de um século – são os fatos, os teimosos fatos marcantes ou extraordinários que se encarregam disso.

Foi a eclosão da 1ª. Guerra Mundial em 28 de julho de 1914 que deu início ao Século XX. Ele acabou quando a União Soviética deixou de existir em 26 de dezembro de 1991.


O século XXI só começou para valer em 11 de setembro de 2001 com os ataques terroristas aos Estados Unidos que custaram a vida de 2.996 pessoas. O ano de 2001 estendeu-se por mais uma dezena de meses.

Se nada de relevante acontecer até lá, 2018 para os brasileiros começará de fato apenas no próximo dia 24 quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região decidir a sorte do ex-presidente Lula da Silva.

Se absolvido, ele será candidato à sucessão de Temer na condição de favorito. Se o tribunal, por unanimidade, condená-lo, Lula ficará impedido. Se a condenação não for unânime, ainda restará alguma esperança a ele.

Temer seguirá fingindo que governa até 31 de dezembro. Mas 2018 por estas bandas chegará ao fim em 28 de outubro com a eleição em segundo turno do futuro presidente.

2019, portanto, está logo ali. 2018 sequer começou.

2018, ano claramente escuro

O presidente Michel Temer, usando sem parar a máquina do Governo, prometendo ampliar ainda mais as vantagens oferecidas a quem o apoia, mantendo-se ao lado de cavalheiros amplamente conhecidos como Romero Jucá, Eliseu Padilha, Moreira Franco, atraindo para seu grupo mais pessoas vocacionadas para integrá-lo, como o deputado Carlos Marun, tem o apoio de 6% do eleitorado – um número como o ostentado, veja só, por Dilma. Por que usar maneiras tão discutíveis de fazer política, para ter resultados tão frustrantes? Por que, com tão pouco apoio, ensaia tentar a reeleição?

Simples: porque a primeira obrigação de um político é sobreviver. Vale tudo, portanto, para manter-se no cargo, mesmo tendo de chamar de Vossa Excelência alguns cavalheiros que só agora aprenderam a usar talheres às refeições (e a devolvê-los no final do banquete). Sobreviver não quer dizer que continue dando as ordens – que essas, mesmo em seus melhores tempos, dava em voz tão baixa que o gravador de Joesley não pôde captá-las direito. Sobreviver significa ficar livre de juízes de primeira instância, como Sérgio Moro. Tentar a reeleição segue a mesma lógica: findo o mandato, Temer perde o foro privilegiado e cai nas mãos dos juízes de primeira instância, como Moro. Temer só não tentará a reeleição se houver um acordo que lhe garanta foro privilegiado ou indulto. Sem isso, não perguntem a Temer se prefere o demônio ou Moro. E se ele responde?

Indulto é decisão privativa do presidente da República. O Supremo não deveria se intrometer no assunto, mas se intrometeu (e, cá entre nós, foi bom). O presidente decide, mas decidir aumentando ainda mais as regalias dos delatores é meio muito. Pense num dedo-duro bem safado, que trocou amigos e cúmplices por uma pena que é quase um prêmio. Ganharia mais um prêmio, ficando livre de cumprir outro pedaço daquela pena de mentirinha com a qual foi premiado, e sem pagar multa nenhuma? Dá inveja dos bandidos que roubam o Tesouro e, sem dó, entregam até a mãe.

Temer, mestre de Constituição, sabe que foi além do razoável. Se sabe, por que fez? Para indicar a aliados que, se apanhados, terão apoio, pois alguém lá em cima gosta deles. Que sigam votando com Temer. A arma de Temer para a reeleição é a economia. Se tudo der certo e ele ficar, será bom para o bando todo. Bando, claro, no bom sentido; é sinônimo de “grupo”.

Por falar em Carlos Marun, uma pessoa nova no grupo sempre é alguém que ainda não se acostumou a narrar os fatos da maneira que agrade os companheiros. Pois não é que Marun, agora ministro da Secretaria de Governo, acaba de admitir que está pedindo apoio à reforma da Previdência especialmente para quem recebe recursos oficiais?

“Não vamos abrir mão de pleitear o apoio dos agentes públicos brasileiros e, especialmente, daqueles beneficiados por ações do Governo”, disse. Ou, em linguagem menos rebuscada, é recebendo que se dá. É bom aproveitar a verdade antes que o ministro Marun aprenda a dizê-la.

Gente fora do mapa

greenjaydeep:    SLEEP  in Calcutta  By Steve McCurry

Na largada, sucessão é um museu de novidades

2018 começou na segunda-feira, 1º de janeiro. Abre-se a temporada eleitoral. As opções presidenciais conspiram contra a ideia de Ano Novo. A oligarquia política oferece ao eleitorado algo que Cazuza chamaria de um museu de grandes novidades. Considerando-se as vísceras expostas pela Lava Jato, a piscina dos partidos políticos está cheia de ratos. Levando-se em conta o lero-lero dos candidatos, suas ideias não correspondem aos fatos. E o tempo não pára.
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O favorito nas pesquisas pode ir para a cadeia. O segundo colocado surfa uma onda conservadora de coloração verde-oliva que tem tudo para morrer na praia. Os outros pretendentes se acotovelam na franja inferior das sondagens eleitorais. Por ora, o protagonista da disputa é o ponto de interrogação. Não surgiu um nome capaz de empolgar quem foi às ruas ou bateu panelas na janela.

O ano supostamente novo começa sob os escombros do velho. Tudo parece seguir a lógica de um conhecido preceito bíblico. Está anotado no livro de Eclesiastes, capítulo 1, versículo 9: “O que foi tornará a ser; o que foi feito se fará novamente; não há nada novo debaixo do Sol.” A conjuntura é um convite ao surgimento de novidades. A boa notícia é que o eleitor tem o poder de virar a página. A má notícia é que, se não tomar cuidado, pode virar a página para trás.

O que faz crianças de áreas pobres do desenvolveram traumas similares aos de guerras

"Às vezes, tenho dificuldades para dormir porque posso escutar os disparos, como se estivessem grudados na minha orelha", conta Laquita Duvall, mãe de dois pré-adolescentes.

Ela vive em um subúrbio da cidade de Atlanta, capital do Estado da Geórgia, uma das 20 cidades mais violentas dos Estados Unidos, segundo dados do FBI de 2016.

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Periferia de Nova Iorque
A cidade foi foco de um dos maiores estudos científicos nacionais sobre o transtorno de estresse pós-traumático em centros urbanos, uma condição tradicionalmente associada a traumas de guerra.

Segundo os resultados da pesquisa, entre os moradores de bairros pobres de Atlanta a prevalência do transtorno de estresse pós-traumático era de 46%, muito maior que a identificada entre os veteranos das guerras do Iraque e do Afeganistão (entre 11% e 20%).

Para as crianças em particular, os bairros mais pobres de Atlanta podem parecer um verdadeiro campo de batalha, como constatou o repórter da BBC Aleem Maqbool, enviado à cidade.

Basta um passeio de carro pelas zonas mais desfavorecidas para se deparar com ambiente hostil - no qual crescem muitas crianças.

"Abuso de drogas, atividades de grupos criminosos, disparos, tiros de carros em movimento... há muitas coisas com as quais as crianças precisam lidar e que não são experiências típicas para essa idade", afirmou a tenente Shavonne Edwards, do escritório do xerife do Condado de Fulton.

"Para eles, 'a guerra' pode ser desde um tiroteio entre gangues rivais, até caminhar pela rua e pisar em uma seringa ou ver alguém usando drogas. Isso é 'a guerra'", acrescentou.

"Estas crianças veem essas coisas diariamente e podem pensar que é normal, mas nós sabemos que não é."

Algumas dessas experiências potencialmente traumáticas são comuns em muitos bairros da América Latina. Mas chama a atenção que isso também ocorra nos Estados Unidos, o país mais rico do mundo.

O índice de assassinatos com arma de fogo nos Estados Unidos é muito maior do que em qualquer outro país desenvolvido.

Por isso, nas periferias das cidades americanas, é comum o contato com a violência urbana.

Na realidade, faz pouco tempo que o transtorno de estresse pós-traumático foi reconhecido como uma condição mental também entre os civis.

Agora, vários pesquisadores estão estudando o impacto que este transtorno tem sobre o desenvolvimento de crianças.

"No bairro, as crianças podem escutar um foguete e isso pode soar como um disparo, gerando nelas uma resposta de pânico", explica Tanya Jovanovic, diretora do projeto Grady Trauma.

"Podem experimentar um aumento do suor e das palpitações... na linguagem médica, chamamos isso de hipervigilância: a incapacidade de sentirem-se seguros", afirmou.

"Tanto seus cérebros como seu corpo crescem em ritmo mais acelerado. Seus cérebros estão se adaptando a esses disparos e a esta violência na cidade, e podemos ver isso nos scanners", acrescentou.

Segundo a especialista em trauma, as experiências às quais as crianças estão expostas fazem com que seus cérebros cresçam mais rapidamente.

Como consequência, elas têm mais dificuldades de aprendizagem e para construir relacionamentos. Além disso, são mais propensas a desenvolver depressão e se envolver com drogas.

"Ao contrário dos soldados, que voltam para casa e deixam de estar em um ambiente perigoso, muitas das crianças do nosso estudo continuam vivendo nesse ambiente", disse Jovanovic.
'No chão'

Angel e sua mãe participaram por acaso no estudo do projeto Grady Trauma. Sua experiência de vida é típica do bairro onde vivem.

"Estávamos na cama e começaram a disparar. Então, minha mãe entrou e falou para nos deitarmos no chão e não nos levantarmos até que (o tiroteio) acabasse", lembra Angel, pré-adolescente, com um meio sorriso, que contrasta com a gravidade da história que está contando. "Depois pararam e morreu uma pessoa. Aí, veio a polícia."

"Às vezes, quando as crianças descem do ônibus escolar, escutamos disparos que vem do complexo de apartamentos ao lado", relata sua mãe, Laquita Duvall.

Segundo os pesquisadores, os níveis de transtorno de estresse pós-traumático nos bairros de periferia dos Estados Unidos são comparáveis aos encontrados em acampamentos de refugiados de muitos países do mundo.

Mas, por outro lado, passam despercebidos. E aqueles que sofrem com isso precisam lidar com a situação por conta própria.

Perdão

A turma da Lava-Jato tem razão em estar chateada com os indultos de Natal, com o Gilmar Mendes e com outras evidências de coração mole que desfaz o seu trabalho. São todos jovens idealistas que ainda não tinham se deparado com uma antiga tradição nacional, a do brasileiro bonzinho.

Estão descobrindo que o Brasil corrigiu Marx: aqui a história não se repete como farsa, se reinventa como farsa.E o tempo é um revisor camarada. Cada nova versão da nossa história é mais benevolente do que a anterior.

O tempo brasileiro é conciliador, não guarda rancor. Na verdade, não guarda nada.

Quanto mais distante fica no tempo, menos conta o fato. O fato é neutralizado pelo tempo, emasculado como um gato.

Quando, finalmente, desaparece por completo no grande sumidouro da memória nacional, pode ser recriado à vontade. O Collor decretou que sua deposição foi uma farsa.

Ninguém o contradisse. Faz tanto tempo. Quem se anima a mergulhar no sumidouro para resgatar uma verdade hoje irrelevante?

A prisão do Maluf surpreendeu justamente por ser tão anacrônica. Maluf tinha uma estranha forma de impunidade, a que vem com o tempo camarada. Transformara-se, com o tempo, num corrupto folclórico, até simpático. E por que tocar num folclore, depois de tanto tempo?

O cara já não pagou pelo que fez (segundo ele, nada) com os anos em que foi nosso corrupto-mor sacramentado? Mas o tempo brasileiro, cedo ou tarde, inocenta todo mundo. É só o Maluf esperar sua vez.

Essa garantia tácita de absolvição é um velho hábito do nosso patriciado.

Nunca na história do país, mesmo com as oligarquias se entredevorando pelo poder e querendo a ruína do inimigo, alguém caiu totalmente em desgraça no Brasil. Desgraça profunda, irrecuperável, de se trancar no quarto e receber comida em marmita por uma portinhola, pelo resto da vida.

O tempo brasileiro sempre assegurou a remissão. E aí estão vilões do passado represtigiados, corruptos repaginados, banidos reeleitos e ninguém envergonhado. Collor chegou à Presidência como símbolo de combate à corrupção, saiu da Presidência como símbolo da hipocrisia do poder e volta como símbolo da inconsequência de tudo isto. O que só prova o que ele disse, se não a intenção do que disse. Tudo é uma farsa.

É de se ver se daqui a 15 anos (eu não vou mais estar aqui, mas podem me contar depois) Lula e seus governos terão a mesma deferência que o tempo brasileiro dá ao nosso patriciado. Acredito que sim. Lula não quer outra coisa desde o seu primeiro mandato a não ser se legitimizar como um membro confiável do clube que manda, com direito a todos os seus privilégios. Inclusive os do estatuto que trata do perdão implícito da história, não importa o que ele faça.
Luis Fernando Veríssimo

Paisagem brasileira

-As obras aqui disponibilizadas,servem apenas para visualização da obra deste artista,sendo desautorizado a qualquer fim de lucro com impr...
Benedito Silva

Quem vive mais, é claro, também consome e paga impostos por mais tempo

Pessimamente assessorado por empresas de propaganda que nada entendem de política da informação, o presidente Michel Temer vem defendendo a reforma da Previdência, cujo orçamento seria intensamente afetado pela longevidade de homens e mulheres. Falso argumento. Temer esquece que os que vivem mais tempo também durante maior período consomem mais e contribuem com mais impostos tanto para a União quanto para os estados e municípios. O presidente da República esquece esses aspectos e se concentra no déficit de 149 bilhões de reais por ano para o INSS.

Esquece também que os aposentados que continuam trabalhando, na escala de 20% do total permanecem contribuindo para o INSS sem receber nada em troca. Mas esta é outra questão.

O fundamental é que o déficit apontado para o INSS não chega à metade dos encargos do Tesouro Nacional com o pagamento de juros para rolagem da dívida interna. Reportagem de Bárbara Nascimento, O Globo desta sexta-feira, destaca que o endividamento pode atingir em 2018 a elevada parcela de 80% do Produto Interno Bruto, caso o BNDES não devolva ao Banco Central recursos da ordem de 130 bilhões de reais que recebeu do Tesouro. Portanto, como o PIB oscila em torno de 4,5 trilhões de reais, se não houver ingresso na receita dos adiantamentos recebidos pelo BNDES o montante da dívida atingirá 4,8 trilhões de reais.

Sobre esse total incidem os juros da Selic na escala hoje de 7% a/a. Basta comparar o desembolso com juros de aproximadamente 300 bilhões ao ano com o alegado déficit da Previdência Social. O governo, porém, não parece considerar importante o que ele paga à mão de tigre do mercado financeiro.
Pelo contrário. As agências de propaganda do governo não veiculam uma palavra a respeito da despesa com juros e só focam na despesa com o pagamento dos aposentados e pensionistas. Um erro tremendo. As agências tão eficientes em anunciar produtos aos consumidores, tornam-se um desastre em matéria de comunicação política. A culpa, aliás, é mais do governo do que delas. Porque elas desempenham contratos financeiros que foram firmados e não podem escolher as mensagens.

Uma pena. Porque, se pudessem escolher as mensagens, chegariam à conclusão de que a comunicação exige um oferecimento positivo aos consumidores. No caso da Previdência, os consumidores são a própria população brasileira . Cem milhões de brasileiros e brasileiras que trabalham, no caso da reforma da Previdência, em vez de receberem notícias positivas, ao contrário, são abastecidas por matérias negativas. Um desastre.
Ainda por cima, o governo e o PMDB, reportagem de Vera Rosa, O Estado de São Paulo de 29, anunciam para 2018 uma agenda social que inclui a possibilidade de Michel Temer vir a ser candidato à reeleição. A hipótese é defendida pelo ministro Aloysio Nunes Ferreira. Ele considera que as urnas do próximo ano, se não incluirem Lula, a realidade passará a ser outra.

Mas, afirmo eu, com a reforma da Previdência a realidade política para Michel Temer terá batido no fundo do poço. Aloysio Nunes Ferreira está vivendo um sonho. O eleitorado está vivendo um pesadelo.

Política, democracia e ética pública

Os escândalos de corrupção inaugurados com o “mensalão” e elevados à enésima potência nos últimos cinco anos demonstraram que as deficiências da democracia brasileira são muito maiores do que pensávamos. Antes deles, nosso relativo otimismo se estribava em cinco pilares, cuja importância não pode ser subestimada, mas que agora se mostram claramente insuficientes.

Ao longo de várias décadas, até mesmo durante o regime militar, nosso processo eleitoral se tornou altamente inclusivo, com um eleitorado superior a 70% da população total, a mesma proporção das democracias mais desenvolvidas. Entre 1985 e 1988, restabelecemos pacificamente o regime civil e constitucional. Em 1989, a vitória de Collor sobre os partidos tradicionais e sobre a esquerda inaugurou a alternância pacífica no poder, consolidada com a vitória de Lula em 2002. Instituímos um sistema mais robusto de monitoramento e promoção da legalidade, notadamente pela autonomia institucional do Ministério Público, obra da Constituição de 1988. Por último, mas não menos importante, domamos, finalmente, uma inflação que se prolongara por três décadas e aprovamos no Congresso a Lei de Responsabilidade Fiscal, entre outras medidas relevantes no campo econômico.


Mas as deficiências se revelaram por um conjunto de problemas intimamente ligado à corrupção, que anula, na prática, grande parte dos avanços realizados. Proclamamos, como é usual no Primeiro Mundo, que o essencial da democracia é a exigência de que o acesso de cidadãos particulares a posições de autoridade se faça por meio de um processo competitivo, ou seja, mediante eleições limpas e livres. Mas não atinamos para o fato de que, mesmo num eleitorado de grandes proporções, os procedimentos criados para garantir eleições “limpas e livres” podem ser fraudadas por práticas em princípio lícitas, mas desleais ao espírito da democracia e, portanto, imorais. Entre estas, um exemplo egrégio é o clientelismo de larga escala, infinitamente mais pernicioso que o antigo “voto de cabresto”, que se pode embutir em políticas públicas e programas sociais.

Tampouco nos demos conta de que “eleições limpas e livres” podem transformar-se em mera aclamação simbólica, sem dentes e garras, onde não haja transparência – ou seja, onde inexista acesso efetivo do cidadão, das empresas e da sociedade civil a informações referentes às ações governamentais, notadamente no tocante ao emprego dos recursos financeiros. E mesmo onde tal acesso esteja devidamente previsto e estipulado nas leis, ele não passará de letra morta onde não exista accountability – ou seja, onde os titulares da autoridade, nos três ramos do Estado, se comportem de forma acomodatícia, ou se acovardem, não aplicando com o rigor preceituado as medidas profiláticas prescritas na Constituição e nas leis.

Eleições limpas e livres, transparência e accountability – no mundo atual, essas três condições definem o espaço válido de reflexão sobre as conexões entre a ética – a busca do bem comum – e a política. De fato, a ninguém ocorrerá avaliar o status ético de países governados por celerados e genocidas como Hitler, Stalin ou Pol Pot.

O agente do juízo ético é o indivíduo, ou seja, o cidadão que trabalha, paga impostos e mata ou morre na guerra, se convocado para tal. Ele é também o destinatário do bem comum. Decorridos dois milênios de Aristóteles, não faz sentido pensar no bem comum como um todo homogêneo, unitário e consensual. O que para um é um bem, para outro pode ser um mal. O que existe é, portanto, uma grande variedade de bens comuns ou, melhor dito, de bens coletivos, aqueles que o Estado não pode prover a um cidadão se não puder provê-los nas mesmas condições a todos os demais cidadãos compreendidos na mesma categoria. O que importa, por conseguinte, é investigar a emergência ex parte de um consenso, ou da aquiescência sempre precária, de todos, ou da maioria, a uma dada distribuição de bens coletivos. O orçamento nacional é essencialmente isto: a distribuição de bens coletivos que o Estado é capaz de prover em dado momento. Esse conjunto é a resultante do embate entre os interesses que soem existir em toda sociedade, mas que só na democracia são devidamente delimitados e regulados pelas instituições. Buscar o consenso pela via da política, o entendimento por meio de uma pugna constante, eis o notável paradoxo que as democracias consagram em suas regras de jogo.

Voltando ao início, podemos, pois, afirmar que a crise ética e econômica para a qual o Brasil foi arrastado se deve ao falseamento, ainda não superado, do processo eleitoral, da transparência e da accountability. É óbvio que a democracia tem muito que ver com as condições sociais gerais de um país, daí a existência de importantes diferenças de qualidade entre elas. Desigualdades sociais extremas são negativas para a democracia e a ética pública.

Nos limites deste artigo, cabe-me concluir apenas reiterando o que tenho insistentemente afirmado: justiça social, socialismo, social-democracia e similares devem ser entendidos tão somente como ideais abstratos de sociedade. Não são indicações concretas dos meios necessários para melhorar o padrão de vida dos indivíduos reais ou de como reduzir desigualdades de renda. Em pleno século 21, o que importa investigar é qual o melhor caminho para romper “relações de produção” peremptas a fim de liberar as “forças produtivas”. No Brasil, parece-me fora de dúvida que isso significa quebrar de vez a tradição patrimonialista, irmã siamesa da corrupção, e instaurar uma verdadeira economia de mercado.

Ao invés de 'Retrospectivas', o Brasil precisa de 'Perspectivas', mas estão em falta

Todo final de ano é a mesma coisa. Jornais, revistas e emissoras de TV perdem espaço e tempo fazendo enfadonhas retrospectivas do ano, que poucos se interessam em ler ou ver. Em minha opinião, seria interessante fazer o contrário e tentar as perspectivas do próximo ano, que será importantíssimo para o país, com a campanha eleitoral se travando justamente numa fase em que os partidos políticos, de modo geral, estão completamente desmoralizados.

Deveríamos estar vivendo um momento de intensos debates, mas a opinião pública parece ter mergulhado num entorpecimento profundo, as pessoas simplesmente cuidam da própria vida, em primeiro lugar, e depois se preocupam com os parentes e os amigos. Depois da ressaca das manifestações populares que agitaram o país entre 2013 e 2016, não há um interesse maior pelo bem comum.


É claro que não faltam motivos para esse desânimo nacional. Um governo incompetente foi derrubado, mas o sucessor não melhorou em nada a qualidade de vida do brasileiro. O badalado teto de gastos, implantado por Henrique Meirelles para resolver a crise econômica em duas décadas, fracassou logo no primeiro ano.

O respeitável público esperava que houvesse um choque de gestão, com redução da máquina do governo, corte de gastos públicos supérfluos, extinção das mordomias, dos penduricalhos salariais, dos carros chapa-branca e dos cartões corporativos, mas não aconteceu nada.

O presidente Temer comporta-se como se estivesse no melhor dos mundos. Enquanto a dívida pública bruta (governos federal, estaduais e municipais) aumenta assustadoramente, ele investe no sonho ensandecido de ser reeleito, inundando de anúncios oficiais a grande mídia, que agradece, penhoradamente, o presente de Natal.

A mídia se acomoda, apoia incondicionalmente a reforma da Previdência, sem discutir os prejuízos causados ao INSS pela crescente transformação de empregados em pessoas jurídicas (pejotização), que propicia também alta sonegação de Imposto de Renda e FGTS. Aqui na sucursal Brasil, todo empregado que ganha mais de R$15 mil é pejotizado, para sonegar impostos, nos moldes dos artigos da Globo. Na matriz EUA, isso não existe. O ator Wesley Sinpes foi sonegar, passou sete anos na cadeia e agora está em prisão domiciliar.

Para se fortalecer junto ao governo, a mídia também apoiou o avanço da terceirização, que é outra fonte de sonegação e corrupção, abrangendo agora até as atividades-fim. Imaginem a Petrobras contratando engenheiros terceirizados, por indicação de deputado ou senador.

Quais são as perspectivas para o próximo ano? Ninguém sabe, mas o governo já anuncia crescimento superior a 3% do PIB em 2018, sem reparar que o desemprego voltou a aumentar. É uma desfaçatez absurda.

Alardeia-se que a inflação caiu para menos de 3% ao ano e há até quem acredite, certamente porque não frequenta supermercados e feiras. O fato concreto é que vivemos uma realidade virtual na mídia, que nada tem a ver com a crueza do dia-a-dia dos brasileiros.

Embora a inflação oficial seja de 3%, as autoridades permitam que os bancos operem juros de cerca de 400% nos cartões de crédito, e isso acontece até mesmo no Banco do Brasil e na Caixa Econômica Federal, que foram criados para financiar o povo, jamais para explorá-lo.

O Brasil está de cabeça para baixo (ou ponta-cabeça, como dizem os paulistas. E o ex-governador Francelino Pereira morreu na semana do Natal, sem jamais ter conseguido resposta para a inquietante pergunta que fez há exatos 40 anos: “Que país é esse?”

Imagem do Dia

Oasis Oásis no deserto de Sonoran (EUA), Steve Sieren

Novo tubaronato

Dia desses meditava sobre como as coisas neste planeta poderiam ser mais simples. Bastaria que, dentro daquele conceito clássico de Ulpiano, cada um recebesse o que lhe fosse de direito. Simples assim.

Qualquer criança, por exemplo, compreende que pescar clandestinamente em águas pertencentes a outros países não está certo. Mas veja só: um monte de gente - adulta, claro - aparentemente ainda não entendeu algo tão óbvio.

Há poucos dias, por exemplo, a Oceana, maior organização mundial de defesa dos oceanos, denunciou ter monitorado navios oriundos da União Europeia pescando ilegalmente em águas africanas. Foram nada menos que 32.000 horas de pesca ilegal entre abril de 2012 e agosto de 2015.

O pior é que estes navios, segundo a denúncia, invadiram as águas de diversos países africanos devidamente autorizados pelos governos da Grécia, de Portugal, da Itália e da Espanha! A Oceana alertou para o fato de que este tipo de pesca é especialmente danoso por sua opacidade - não se sabe quanto ou que tipo de peixe foi pescado, e nem com qual instrumento, ensejando-se verdadeira atividade predatória.

Cálculos realizados recentemente indicaram que este tipo de pesca sangra a África em nada menos que US$ 2 bilhões a cada ano.

Enquanto isso, do outro lado do planeta, nos idos de 2014, a Coreia do Sul anunciou que a pesca ilegal praticada por embarcações chinesas superou 675 mil toneladas, causando perdas diretas estimadas em um bilhão de Euros.

Perto dali, entre 2014 e 2017, a Indonésia afundou nada menos que 317 navios estrangeiros, utilizados em pesca clandestina no seu mar territorial.

No que toca ao nosso país, um cálculo modesto, datado de 2001, indica que perdemos anualmente uns US$ 500 milhões sob esta rubrica. A propósito, bem resume a situação uma frase pronunciada por um funcionário graduado do Ministério da Pesca: "Há casos em que o peixe é pescado ilegalmente na nossa costa, levado para outros países e depois importado". Deve ser por isso que importamos 1/3 do pescado que consumimos - algo difícil de entender em um país que tem uns 8.500 km de litoral.

Cheguei a uma conclusão: já distantes os velhos tempos nos quais somente causavam medo aqueles tubarões que vivem no mar - vejo que uma nova espécie, infinitamente mais perigosa e voraz, nos ronda em terra.

Pedro Valls Feu Rosa

A frase do ano

A grande frase de 2017, “Tem que manter isso, viu?”, cometida pelo presidente Michel Temer ao ouvir de um amigo poderoso que este estava subornando um deputado preso para impedir que o dito deputado contasse os podres que sabia sobre eles, costuma ser classificada como “pouco republicana”. Nem todos entendem o significado dessa expressão. Sabem vagamente que tem a ver com “República”, que entendem como uma forma de governo oposta à monarquia. Pode ser, mas, no caso, aplica-se à “res publica”, a coisa pública, aquilo que diz respeito a todos nós.
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Ao afirmar “Tem que manter isso, viu?”, a autoridade está endossando um cala-boca para encobrir o esclarecimento de crimes contra o interesse público — crimes que, em primeira e última análise, desviam dinheiro destinado a ocupar os 20% de brasileiros entre 14 e 29 anos que não estudam nem trabalham, abastecer de gaze e esparadrapo os hospitais públicos e devolver as ruas do Brasil aos seus cidadãos.

Daí a vergonha de muitos, outro dia, ao constatar que dependemos dos EUA para cuidar dos nossos criminosos. Ao levar apenas dois anos para investigar, julgar, condenar e prender o ex-presidente da CBF José Maria Marin, os americanos nos deram uma aula do que entendem por “res publica”. Por ser uma decisão em primeira instância, cabe recurso — mas Marin foi preventivamente engaiolado, para não restar dúvida de que não fugirá para o Brasil, onde passaria o resto de seus dias assobiando no azul.

Como, aliás, acontece com a maioria dos nossos ex-presidentes e atuais governadores, deputados e senadores soterrados por montanhas de processos e que, graças às leis brasileiras, apostam que seus crimes cairão de maduros antes que se chegue a uma decisão.

Decisão esta que, caso os desfavoreça, sempre terá um juiz leniente a anulá-la.

Se a democracia fracassa, o fracasso é de todos nós

No ano que está para começar, nós brasileiros vamos para a oitava eleição presidencial direta consecutiva, desde o fim da ditadura. Não estaremos sozinhos: votarão também paraguaios, colombianos e mexicanos. Nem incluo a Venezuela na lista, embora também esteja prevista eleição presidencial, porque é uma fraude democrática completa —e ainda por cima fracassada.

Muito para festejar em 2018, portanto. Ainda mais para quem, como eu, deve ter o recorde mundial de cobertura de transições do autoritarismo para a democracia (Argentina, Brasil, Chile, Paraguai, Uruguai, Bolívia, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Portugal, Espanha, África do Sul).
Nem sempre fui só testemunha ocular, mas também participante da festa, porque acho que, contra ditaduras, não cabe neutralidade. Ou se está com a civilização ou com a barbárie.

Na noite do plebiscito de 1988 que acabaria assinalando o fim da ditadura de Augusto Pinochet, estava tentando avisar a Folha de que o resultado atrasaria quando, por trás, se aproximou minha amiga, a valorosa jornalista Patrícia Verdugo, prematuramente morta, e sussurrou no meu ouvido: “Ganamos”.


Alguns anos antes (1983), Raúl Alfonsín, candidato presidencial na Argentina que igualmente saía das trevas da ditadura, vendeu a democracia com “spots” televisivos que diziam que, com ela, tudo iria melhorar (saúde, educação, a vida enfim). Não foi bem assim, mas todos os países acima citados estão hoje melhor do que durante as respectivas ditaduras. Até o Brasil, pode acreditar.

O que talvez tenha murchado é a ilusão revolucionária, como demonstra o depoimento à sempre brilhante Sylvia Colombo do escritor nicaraguense Sergio Ramírez, admirável amigo: “Permaneceu (na Nicarágua) apenas a retórica revolucionária, com seu discurso anti-imperialista e anticapitalista. Mas nada disso é verdade, porque o governo de Ortega [Daniel Ortega, líder histórico do sandinismo] tem uma aliança profunda com os grandes empresários. (…) A Nicarágua não mudou estruturalmente em quase nada. Metade da população vive na pobreza aguda, e mais de 70% dos empregos são informais”.

Troque Nicarágua por, digamos, Brasil, Argentina dos Kirchner, a Venezuela chavista, e a avaliação não seria muito diferente (o IBGE acaba de mostrar que 64,9% dos brasileiros vivem em situação de “pobreza multidimensional”, quando se inclui na medição, além da renda, a educação e as condições de habitação).

Na Venezuela, é muitíssimo pior. Trata-se de um desastre social e econômico sem paralelos na história da América Latina.
No conjunto do subcontinente, dá, pois, para entender o desânimo dos eleitores. Mas lembro-me de um diálogo no elevador que me levava à antiga sede do Partido Socialista Operário Espanhol, nas vésperas da eleição de 1977, a primeira do pós-franquismo. O elevador era antigo, lento, rangia a cada movimento.

O ascensorista, mal-humorado, talvez franquista, comentou: “É lento como a democracia”. Alguém do fundão devolveu: “Lenta pero segura”.

Vamos, pois, erguer a cabeça e lembrar que “demo” vem de povo. Se a democracia fracassa, o fracasso é de todos nós.

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Feliz 2018


O Ano já nasce Novo basta fazer dele Bom 

Anos lavados a jato

Papai Noel não se esqueceu dos investigados e condenados pela corrupção no Brasil. Nos sapatos na porta do xadrez, ou nas tornozeleiras na beira da cama, caíram vários presentes.

Era previsível essa ofensiva de fim de ano. Sempre foi assim no Brasil. Joga-se com o espírito de Natal, que dissolve todo ânimo de protesto.

Dois presidentes latino-americanos, Michel Temer e Pedro Pablo Kuczynski, do Peru, vestiram a roupa de Papai Noel e desceram pela chaminé dos presídios. Kuczynski libertou o ex-presidente Alberto Fujimori. Temer estendeu o perdão aos condenados por corrupção.

Ambos foram presenteados durante o ano com a permanência no cargo, ameaçada pela relação com empresas brasileiras. Lá, o escândalo envolveu a Odebrecht e Kuczynski. Aqui, o escândalo da JBS acabou abafando o lado Odebrecht nas várias acusações contra Temer.

Kuczynski , pelo menos libertou um adversário. Já Temer indultou os próprios aliados.

No fundo, é uma reação contra a Lava Jato nos dois países. Um tipo de reação que classifico como tentativa de redução de danos.

Existe outra que visa a neutralizar a Lava Jato e se desenvolve no front do STF. Seu maior objetivo, no momento, é questionar a prisão do condenado em segunda instância. A votação a favor dessa prisão, após o julgamento nos tribunais regionais, foi de 6 a 5.

Gilmar fala em mudar seu voto e virar o jogo. Num front combinado no Palácio do Planalto, os jornais indicam uma aproximação de Temer com o ministro Toffoli, que será o presidente do STF em 2018.

Minha intuição é que têm algo a discutir com urgência: o foro privilegiado. Toffoli suspendeu a votação, pedindo vista do processo, quando a vitória de restrição de foro já estava numericamente garantida.

A ideia que pode uni-los é a possibilidade de o tema ser votado na Câmara, da forma que os deputados escolherem. Nesse caso, as tentações serão muitas, como a de estender o foro privilegiado a ex-presidentes.

São incalculáveis as peripécias que podem surgir neste ano de eleição, quando a posição contra ou a favor da Lava Jato estará em jogo. O PT tende a apresentá-la como manobra imperialista. Alguns candidatos já a defendem abertamente, como Bolsonaro, Álvaro Dias e Marina.

Da boca pra fora, o PSDB pode aprová-la, mas há tantas questões internas não resolvidas que o partido não passa confiança no seu discurso.

Não sou chegado a retrospectivas. Mas o tema Lava Jato foi central nas decisões não só do STF, como de Temer, neste fim de ano. Na verdade, nos últimos anos a Lava Jato tem sido o fato determinante, o foco das notícias mais comentadas. Foi assim nos começos, meios e fins de ano. E provavelmente ainda será em 2018, mas em outro contexto.

De onde vem a primeira grande decisão do começo do ano? De Porto Alegre, no dia 24, quando estará em jogo um dos confrontos mais populares da operação: Lula x Lava Jato.

Um dos fatores determinantes da campanha eleitoral de 2018 está sendo jogado ali. Em qualquer hipótese, todos os cálculos terão de ser refeitos após a decisão do TRF-4 sobre Lula.

Isso é apenas um lembrete para aqueles que querem neutralizar a Lava Jato. Não é imaginável que o seu abalo continental não tenha sido sentido no epicentro do terremoto, o Brasil do PT, da Odebrecht e do BNDES.

O Supremo pode fazer voltar a roda do tempo e garantir que os acusados passem longa parte de sua vida redigindo petições e apresentando recursos. Mas até agora o Supremo não condenou ninguém pela Lava Jato. No Rio e em Curitiba já houve dezenas de condenações. Mesmo acabar com a prisão em segunda instância, abrindo prazo para longos recursos, já não terá o impacto de antes.

Maluf foi preso aos 86 anos. Sua penitenciária tem uma área geriátrica. Num futuro em que os recursos se alongam no STF, ainda assim terá de ser construído um complexo só para idosos.

Não adianta tapar o sol com a peneira. O País foi sacudido pela revelação do maior escândalo da História, partidos e empresas envolveram-se nele, o próprio sistema político entrou em colapso.

Ainda não é possível prever o impacto que tudo isso terá nas eleições. Existem pesquisas indicando o desencanto com os políticos. Todavia hoje há métodos que usam dados em quantidades gigantescas, cruzando-os e extraindo algumas hipóteses. Talvez vejam mais que as pesquisas.

É a primeira eleição presidencial depois do impacto sistêmico da Lava Jato. Não há como escapar dessa variável.

Mas a Lava Jato é apenas uma operação policial e o sistema político-partidário em ruínas, uma evidência. Pede mais do que uma defesa – a favor ou contra, digamos.

Daí a importância de questionar os candidatos não só sobre apoio, mas que conjunto de medidas está ao seu alcance para completar no âmbito político e legal a renovação que a Lava Jato inspirou. Na verdade, creio que este sempre foi o desejo da Lava Jato, a julgar pelas entrevistas: que a sociedade e o mundo político completem a tarefa.

Cada país, em circunstâncias como as nossas, faz sua renovação de acordo com as possibilidades históricas. A semente de mudanças que a Lava Jato espalhou é um dos trunfos da renovação. Supor que tudo será como antes é um sonho nostálgico, de adultos que ainda acreditam em Papai Noel.

A chance da sociedade é tirar o melhor proveito das eleições. Por dever, prazer ou mesmo com a resignação de quem toma um remédio amargo.

Certamente, vou encerrar desejando a todos um feliz ano novo. Sei que será difícil. Mas não são termos antagônicos. Difíceis têm sido estes anos e sobrevivemos. Devagar a economia melhora.

Como dizem nove entres dez candidatos, o Brasil tem jeito. Nada de errado com a frase, apenas com quem a proclama.

Impossível separar o presidente do denunciado

''Indulto não é prêmio a criminoso'', escreveu Cármen Lúcia, presidente do STF, ao suspender os efeitos de descalabros incluídos num decreto editado às vésperas do Natal por Michel Temer, para favorecer corruptos. Temer poderia ter passado a virada do ano sem esse vexame. Mas sua dupla personalidade atrapalhou. Tornou-se impossível distinguir o presidente do denunciado.

Autoproclamado presidente das reformas, Temer deveria reformar também o seu guarda-roupa. Como presidente, passaria a usar gravatas lisas. Como denunciado, gravatas estampadas. Isso permitiria a Temer adotar medidas que favorecessem a impunidade e trocar rapidamente a gravata para retomar a pose de presidente.


No Brasil de Temer, as decisões não são mais certas ou erradas. As providências são absorvidas ou pegam mal. O decreto que concedeu indulto natalino a corruptos —sem limite de tempo de condenação, com perdão de 80% das penas e 100% das multas— pegou mal. Mas Temer deu de ombros, transferindo para a Procuradoria e para o Supremo a tarefa de se preocupar com a moralidade.

O único risco da tática das gravatas seria o de que Temer não conseguisse administrar adequadamente suas duas personalidades. O receio é o de que o personagem enfrente uma crise do tipo médico e monstro. Às gargalhadas, o denunciado usaria indiscriminadamente o poder do presidente para estancar a sangria da Lava Jato sem nem se preocupar em trocar a gravata lisa pela estampada.

Gente fora do mapa

Poor girl  Afghanistan
Afeganistão

Tristes trópicos!

Que fim de ano melancólico, o do presidente Michel Temer. Em menos de uma semana, colheu três frustrações: ficou sem ministro do Trabalho, teve que cancelar o repouso em uma das poucas áreas a salvo de balas perdidas no Rio de Janeiro, e foi obrigado a engolir parte do decreto de concessão do indulto de Natal a presos condenados.

O ministro Ronaldo Nogueira (PTB-RS) deixou o cargo com a desculpa de que precisa cuidar de sua reeleição à Câmara dos Deputados. Que nada! Saiu porque foram descobertas graves irregularidades na sua gestão – desde pagamentos superfaturados a funcionários à não execução de serviços em contratos. Celebre se for só isso.


Temer desistiu de passar o réveillon na Restinga da Marambaia, no Rio, à beira mar plantado e aos cuidados da Marinha porque ali não haveria estrutura médica suficiente para atendê-lo em caso de necessidade. Que nada! A verdade é outra. Simplesmente ele não anda bem de saúde. E seus médicos o aconselharam a permanecer em Brasília.

A decisão da ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo Tribunal Federal, de suspender trechos do indulto presidencial de Natal que beneficiava criminosos envolvidos com corrupção foi um desastre político para Temer. Quem comemorou um índice de popularidade de minguados 6% não precisava passar por mais uma vergonha dessas.

O primeiro presidente da República do Brasil denunciado por corrupção no exercício do cargo é também aquele que tentou sem sucesso indultar condenados por corrupção. Está bom ou Temer quer mais?

Como as festas nos devoram

Passado o período das “festas”, vivemos um típico retorno às rotinas de um necessário conformismo humano diante da “realidade” – trabalho, problemas, preocupações…

Há algo básico nesse processo: o fato de que até segunda ordem a maioria vive sem nenhum brilho ou representa um papel de destaque na vida social. A festa (como o esporte que é o seu lado mais oficioso) obriga a uma fabricação fora do “real” – não seria melhor gastar em segurança, saúde e escolas? Por isso, elas inventam objetos e lugares especiais, preferencialmente de cabeça pra baixo, sobretudo no caso dos sistemas muito bem marcados por uma séria consciência de lugar, como é o caso brasileiro.

Sem o famoso “bolo de aniversário” ao gosto do aniversariante e com seu nome nele gravado a chocolate, como era o meu caso, não pode haver o teatro que alguns chamam de “ritual”. Objetos e comidas especiais levam ao uso de roupas e adereços que distinguem papéis e pessoas. Mesmo sem conhecer, sabemos quem é o aniversariante por sua roupa e sua posição na mesa. É ele e é dele o dever privilégio de apagar as velas do seu bolo, que será devidamente comido por todos os convidados.

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Diz um velho axioma que todas as culturas replicam seus valores em suas manifestações, mesmo as mais humildes. São essas redundâncias que promovem as certezas, como dizia Edmund Leach; ou essas invariantes, no linguajar de Lévi-Strauss. Réplicas idênticas a si mesmas que vão do mais sério ao mais vulgar. Dou um exemplo: no Brasil, as festas têm que ter música; comemos misturando a comida. O detestável “bandejão” é uma invenção americana, na qual tudo é sempre individualizado. No uso das máscaras, desmascaramos a ilusão elitista de que somos alienados.

Seria preciso remarcar que o tema oculto das festas de aniversário, com as quais internalizamos a ideia de “idade” e de pertencimento a uma família (cuja obrigação é produzir a festa), tem tudo a ver com a comensalidade comunitária do canibalismo cristão? Nele, Cristo se une ao pão e ao vinho e os distribui dando a cada um, no ato de comer em conjunto, a mesma comida, a consciência precisa de seu pertencimento a ele e a toda a coletividade nele focada e por ele criada.

Comer a mesma comida é essencial para pertencer. No aniversário, somos obrigados a “comer” o bolo do Juquinha, o qual é um símbolo do próprio aniversariante, que, por sua vez, se delicia comendo com gosto o maior pedaço de si mesmo; depois de, como um velho Deus, soprar para apagar as velinhas que marcam as suas “primaveras”. Eis o tema do comer, do devorar, do englobar e do assentar o outro dentro de si mesmo como um ato de comunhão ou um gesto de superioridade. Eis de volta o canibalismo fundacional que significa, entre muitas coisas, o dar-se em sacrifício a uma pessoa ou grupo – o extremo do altruísmo. Ou, como remarcou Freud, tomar consciência dos limites que nos tornam humanos. Morrer apaixonadamente por amor e matar heroicamente por amor. Fiquemos nessa paisagem.

As festas exigem locais e, no caso dos rituais de passagem de ano – de um tempo em que toda a humanidade aniversaria – a praia (mediadora entre a terra firme e fechada por propriedades e o mar aberto, líquido e sem fronteiras visíveis) e os fogos de artifício acentuam o orgasmo formidável, embora, é claro, fugaz. Eles são explosões benéficas que fazem parte do que imaginamos como “graça” ou “milagre”. O morrer-nascendo ou o nascer-morrendo da consciência explosiva de alguma coisa como acontece quando escapamos de um perigo ou entramos num templo, juntam ou rejuntam esses polos que a rotina e o princípio da realidade distinguem de modo absoluto. No caso, o nascer como oposto do morrer, justo o que se pretende negar na passagem de um ano a outro porque o que se almeja é, obviamente, um belo futuro e não o fim do mundo. Marcamos 2013 sem deixar de querer que 2014 seja uma adição numa série infinita.

Os fogos de artifício enfatizam o fim sem negar o começo. As bombas se repetem para eliminar as distâncias entre o “ser”, o “ter sido” e o “vai ser”. Elas são ajudadas pelos fogos e, pela presença das celebridades que, cantando e dançando, brilham e trabalham para nós, dignificando vidas comuns.

Os famosos precisam de nós, tal como os deuses precisam de devotos. O que seria de um cantor sem um auditório? Os santos, as celebridades, os muito ricos e poderosos, abrem-se ao encontro e recebem de volta aquela vida trivial que também é deles, mas que a fama tem o papel de esconder. O grande feiticeiro sabe que não faz nada, exceto quando encontra o impotente sofredor que, com uma fé absurda, o procura em busca de cura.

Em toda festa, nos sujeitamos a uma contaminação ampliada pela eventual presença dos famosos. Nas comemorações, juntamos o velho com o novo, a vida com a morte, o superior com o inferior e com ajuda do nobre e mero álcool e dos “fogos de artifício” (fogos de mentira, porque os de verdade, matam); cortamos a água do grandioso rio do tempo que corre sem parar e não pode ser pisada duas vezes.

Herdeiros de Herodes

Anjos entoando cânticos celestiais, estrela-guia, paz na Terra, animais amigos aquecendo a manjedoura, humildes pastores reverenciando o Deus-menino, reis poderosos atravessando o deserto para trazer oferendas preciosas...

A temporada natalina traz símbolos positivos de todo tipo no campo espiritual. E, mais valioso que tudo, para os cristãos, a constatação de que Deus encarnou seu Filho, transformando-o em gente como nós, para trazer redenção a toda a humanidade e nos abrir novamente a possibilidade de cruzar as portas do paraíso.

Toda essa idílica e alegre celebração da paz e harmonia entre os homens, que celebramos nestes dias de Natal, é bruscamente interrompida a seguir, antes mesmo da grande festa de confraternização universal do Ano Novo e da celebração da chegada dos reis Magos, quando o calendário litúrgico relembra os chamados Santos Inocentes. Ou seja, os mártires de Herodes. Um episódio de terror.


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A história se encadeia com a do Natal. Vale lembrá-la para quem não guarda a crueldade de sua ameaça numa memória infantil em pânico, a acenar com os bastidores do presépio alimentando pesadelos, em cenas fora da vista mas vivas nas palavras.

Ao tentarem visitar o recém-nascido, os reis ou magos vindos do Oriente em sua longa jornada pelo deserto, montados em camelos, seguindo uma estrela muito mais brilhante que as outras, chegaram a Jerusalém, em cujas cercanias acabara de nascer Jesus num estábulo, em Belém de Judá.

Mas essa precisão de endereço eles ainda não tinham. Procuraram descobrir, pois queriam “adorar o Rei dos Judeus.” Informado de sua presença na cidade, o rei Herodes, governador da província romana da Judeia, os recebeu, indagou sobre prazos da sua busca, consultou sacerdotes e escribas para conhecer as profecias, deu aos magos as coordenadas gerais e tratou de usá-los, pedindo que transmitissem seus cumprimentos e, na volta, lhe dissessem exatamente onde poderia achar o menino e sua família.

Mas eles regressaram por outro caminho, avisados em sonhos sobre as intenções do tirano. Ao constatar sua demora, Herodes não teve dúvidas e partiu para a ação. Mandou matar todas as crianças de Belém com menos de dois anos. A Sagrada Família escapou porque um anjo aparecera a José para alertá-lo do perigo e eles fugiram para o Egito.

Dois mil anos depois, Herodes deve esfregar as mãos de contente quando olha para o Brasil, se lá do fogo do inferno memória desta vida se consente. Diariamente estão morrendo entre nós, de morte violenta, mais crianças do que todas as vítimas desse Massacre dos Inocentes — como ficou conhecido o episódio.

Calcula-se que, dada a população de Belém na época, as vítimas infantis da matança bíblica tenham sido em torno a 20. No Brasil é muito mais, vencemos de goleada. Sem contar os pequenos de todas as idades que são abatidos pela miséria, desnutrição, falta de saneamento, ignorância.

Os números são assustadores, maiores do que os de países em guerra. Balas perdidas, tiroteios cruzados, assaltos, acidentes de trânsito, assassinatos, chacinas, as modalidades são incontáveis. Incluem até incêndio proposital em creche, com gasolina jogada nos bebês. Abarcam até disparos em bebês ainda não nascidos, pretensamente resguardados no ventre da mãe.

Inimaginável. Mas real.

Como se não bastasse, uma proporção não calculada dos sobreviventes que poderiam ter sido vítimas, mal conseguem crescer um pouquinho, inteiramente desprotegidos, analisam suas chances de sobrevivência e apostam em passar para o outro lado da arma, assim que têm uma chance.

Como policiais, milicianos ou bandidos, pressionam o gatilho, empunham a faca ou baixam o sarrafo. Antes que chegue sua vez de ser morto, todos jogam um jogo de cálculos com a sorte, sobre quanto tempo ainda pode dar para viver intensamente, na impunidade. Sem se preocupar com o dado de quantas vidas irão levar com a sua, quando em breve chegar a hora da contagem final.

Homens e mulheres de boa ou má vontade, estamos todos reféns da situação de herdeiros de Herodes. Ao mesmo tempo, vítimas e cúmplices de matanças, chacinas e massacres. Na certeza de que o país não tem a menor eficiência para evitar isso e não consegue agir, a não ser recorrendo a mais violência de todo tipo e perpetuando mecanismos de impunidade. E sentindo dor. Muita dor. Sem saber o que fazer com ela. Neste Natal e em todos os dias do ano.

Paisagem brasileira

Salto do Itiquira (GO)

Balança, balanço, balança

Daqui a pouco começaremos a ver as plaquinhas nas portas arriadas – “Fechado para Balanço”. É o controle que muitos comerciantes fazem logo no início do ano. Nós, individualmente (creio que todo mundo, de alguma forma), fazemos nessa época, nos nossos cantinhos, com os nossos botões, o nosso balanço interno. Pomos tudo na balança. O ano que se vai, pensa só, foi deles, do balanço e da balança, e olha que nosso chão chacoalhou um bocado.

O século vai chegar à sua maioridade. A gente fica remoendo ali nos pensamentos se fez tudo o que tinha para fazer. Lembra tudo o que aconteceu – nessa hora a memória funciona que é uma beleza, principalmente para lembrar maus bocados. Aí imediatamente procuramos quais foram os momentos bons para contrapor, enquanto tentamos recordar tudo o que prometemos, lá no final do outro ano, que faríamos neste ano. Fizemos? Ainda bem que muita coisa só a gente sabe que se prometeu, melhor assim, menos mal. Fica mais fácil falhar.


Passou rápido demais. Se me permitem, sinto que está mesmo passando tudo mais rápido. Deve ser esse afã impressionante que o mundo digital abriu diante de nós. Fica tudo tão em constante mutação que ficamos correndo atrás, numa infrutífera tentativa de alcançar a ponta da linha. E ela corre de nós.

Viver nesses tempos é distante da calmaria da imagem do balanço, aquele dos parques, das redes, das cordas nas árvores, dos playgrounds, e que alguém vem por detrás e empurra para dar impulso, e que a gente dá aquela risada nervosa quando vai lá na frente, tentando não se estabacar no chão.

Estamos mais para o navio que balança no mar bravio. Enquanto o samba toca, a gente balança, requebra, dá um remelexo. Assim superamos os solavancos, os abalos, que nos deixam tão balançados. Ô, marinheiro marinheiro/Marinheiro só/Ô, quem te ensinou a nadar/Marinheiro só/Ou foi o tombo do navio/Marinheiro só/Ou foi o balanço do mar…

Amor, amor deixa balançado. Desamor também. Tomar decisão deixa balançado. Medo de tomar algum revertério.

Ficar doente deixa tudo muito balançado. O corpo da gente também vive entre a balança e o balanço, às vezes bom, dançando. Balançamos a cabeça, os ombros, os braços, as pernas quando a cadeira em que sentamos é maior do que nós.

A balança que não serve só para nos fazer prometer regime, corta isso, corta aquilo, é também equilíbrio, harmonia, proporção. Os dois pratinhos paralelos. Quando a gente pesa os prós e os contras a sua imagem é recorrente. Uma balança ajuda em muita coisa. Tanto foi ano dela que em boa parte do tempo estivemos ligados em decisões de tribunais, que andam regendo os movimentos e desígnios do nosso país. Ritmos loucos.

O balanço geral, hoje chamado muito pomposamente de demonstração contábil, é parecido ao que fazemos pessoalmente – especialmente nesta última semana do ano, quando a coisa “bate” que o tempo passa. Medindo ativos, quantas vezes o fomos; passivos, quantas vezes nos submetemos. Mais: o capital que conquistamos, os lucros, os prejuízos, o aspecto geral de nossos negócios.

Anote bem os resultados. Esse ano, quando o século chega à maioridade, devemos estar mais maduros, responsáveis, prontos para encarar o futuro. Esse futuro aí, o da realidade, não aquele que ganha voz de conselheira nos comerciais de final de ano dos bancos na tevê – logo eles que na realidade tanto empatam o nosso.

Vamos pular essas ondas. Que venha 2018. Tomara que nele o maior balanço seja mesmo o do nosso andar faceiro, da nossa ginga por todas as boas estradas que o destino nos levar.

Marli Gonçalves

As emoções de 2018

O Brasil entra em 2018 com uma grande indefinição política e outra boa perspectiva econômica. Todos sabem: ano de eleição, de Copa do Mundo, de beligerância entre nações no plano externo. Não faltarão emoções. Um ano repleto de reviravoltas em várias direções e que traz, como cereja do bolo, a retomada interna — a depender, claro, de inúmeros fatores. Principalmente do andamento das reformas. Nesse tocante, o papel dos senhores parlamentares é fundamental. Logo eles, que não foram exemplos de responsabilidade e engajamento nas pautas mais decisivas para o País. O Congresso continua a se mover por conveniências de cada um dos seus membros. E, em inúmeras ocasiões, disposto a praticar exclusivamente o deplorável jogo do toma lá dá cá. A contaminação dos perrengues políticos na engrenagem de funcionamento de diversas áreas, na atividade produtiva e na mente de cada um dos brasileiros tem gerado incertezas. Levado a um quadro de quase paralisia. Como se todos sofressem uma espécie de catatonia coletiva, esperando pelo desfecho redentor, enquanto a balbúrdia dos escândalos públicos tomava conta. Esse fenômeno foi claramente verificado no ano que passou. Existiam razões de sobra para um resgate de ânimo da população. Os indicadores começavam a sinalizar a estabilidade. Medidas de ajustes saíam do papel. O compromisso fiscal era assumido, e cumprido, pelo Governo. Tudo seguia bem até que uma verdadeira bomba atômica de denúncias — que depois se mostraram vazias — quase coloca tudo a perder. As armações de alguns empresários, com a colaboração decisiva de membros da Justiça, reintroduziu o ambiente de tensão. Levaram-se meses de discussões e investigações sobre propinas, gravações, delações, enquanto o País aguardava ansioso. A safadeza explícita dos políticos galvanizou as atenções. A crise de expectativas tem sido uma praga a emperrar o desenvolvimento nacional. Enquanto ela perdura os brasileiros perdem um tempo precioso. A boa nova é que isso ficou para trás. Um movimento firme e consistente da maioria dos setores da sociedade resolveu dar as costas a Brasília e seguir adiante, independentemente da fuzarca e sem-vergonhice praticada na Capital Federal. A mudança de postura tem dado certo. Cada um no seu quadrado tratou de voltar à rotina. Os planos e investimentos saíram da gaveta. Os consumidores passaram a comprar. Varejo e indústria se movimentaram. O desemprego caiu. A inflação e os juros também. O ânimo é outro. A crença em dias melhores tomou conta. Reflexo desse rearranjo na engrenagem, o PIB passou a crescer em ritmo alvissareiro. Deve fechar 2017 perto de 1%, feito extraordinário para um País que vinha de seguidas quedas no patamar de 3% negativos anualmente. E para o ano que se avizinha as estimativas são ainda maiores. Os analistas falam em até 4% de crescimento. É outro estado de espírito, mas que está a depender, naturalmente, da confirmação de algumas condicionantes. No plano político, o atual clima de radicalização entre extremos não é nada bom. O Brasil está literalmente conflagrado entre esquerda e direita por obra e atuação direta de dois personagens: os presidenciáveis Lula e Bolsonaro. O primeiro, encalacrado até o último fio de cabelo, com incontáveis processos na Justiça que devem inviabilizar sua candidatura. O outro, movido por um perigoso saudosismo das Forças Armadas, tenta a todo custo restabelecer o regime autoritário no poder. Por enquanto, os demais adversários nesse tabuleiro polarizado são figurinhas batizadas e sem talento para encantar as massas. À espera do novo, a esmagadora maioria dos eleitores torce pelo fim do ressentimento, da depressão e do medo que essas duas alternativas, Lula e Bolsonaro, impõem nas urnas. Um carnaval de notícias falsas, as chamadas fake news, deverá agravar ainda mais a campanha. Por isso mesmo, a rápida definição de uma opção de centro consistente e promissora pode vir a desanuviar o cenário político e, por tabela, garantir a retomada econômica. De uma maneira ou de outra, serão muitas emoções em 2018.

2018: A hora e a vez da política

A suposta supremacia da economia sobre a política povoou o senso comum durante muito tempo. A frase de James Carville, assessor de Bill Clinton, ainda ressoa: “é a economia, estúpido” fez escola na percepção da prevalência dos tais fatores de bem-estar econômico sobre o rondó sem fim, que é a discussão política – seus interesses dispersos, idiossincrasias e princípios mais ou menos abstratos.

No Brasil, esse sentimento foi reforçado por interpretações um tanto mecânicas dos planos Cruzado e Real. O primeiro, em 1986, ajudou o PMDB a eleger 22 governadores dentre 23 possíveis; o segundo fez Fernando Henrique Cardoso presidente da República, eleito ainda no primeiro turno de 1994.

Igualmente, o boom de commodities – que reelegeu Lula, em 2006, e operou o prodígio de eleger Dilma Rousseff duas vezes (2010 e 2014) presidente do Brasil – alimenta esse raciocínio. Além da presente crise econômica que contribuiu, decisivamente, para o afastamento da ex-presidente e a derrocada do PT nas eleições municipais de 2016.


Ora, é evidente que o momento econômico influencia o contexto social e político em qualquer país; é claro que pode definir eleições. Mas, como tudo na vida, nada é tão simples assim. Fenômenos econômicos como os descritos acima foram, antes, dependentes da política; são frutos de boas ou más escolhas políticas, e não o contrário. Logo, não há autonomia da economia sobre a política; há, na verdade, correlação e dependência mútuas.

No desconhecimento disso reside o principal erro analítico de quem vislumbrou e ainda vislumbra um ano eleitoral de 2018 de sucesso para o governo de Michel Temer, em virtude dos resultados econômicos que, eventualmente, o País possa alcançar nos próximos meses.

Primeiro porque, ao contrário de outros momentos – 1986, 1994 e 2010 –, o sistema político atual passa por uma crise sem registro na história, com índices rastejantes de popularidade. É dispensável recordar, aqui, os transtornos revelados pela Operação Lava Jato e seus efeitos para a credibilidade dos políticos.

Em segundo lugar, para que a economia possa ser determinante na disputa das urnas do próximo ano, sua euforia deveria ser comparável ao clima despertado pelo Cruzado, Real e o boom de commodities. Todavia, por mais que o quadro venha a ser positivo, o clima será, ainda, de recuperação. Para o cidadão comum, as perdas com a prolongada recessão não estarão plenamente compensadas. Será importante, mas insuficiente.

Analistas de mercado têm se animado com resultados já alcançados pela equipe econômica do governo e, provavelmente, ainda alcançáveis no próximo ano. Com efeito, a inflação retroagiu – está mesmo abaixo da meta do Copom, os juros caíram ao menor patamar histórico, os preços dos ativos estão baixos e é grande o potencial das concessões e privatizações.

Porém, a continuidade do processo depende da sustentabilidade política. Reformas estruturais, nas mãos do Congresso Nacional, capazes de elevar a confiança dos agentes econômicos e o ânimo para investimentos que potencializem a economia, reduzindo gargalos e higienizando o ambiente de negócios.

O quadro é, porém, conhecido: sistema político anacrônico e disfuncional, elevadíssimas taxas morais e fiscais que debilitam a confiança de eleitores e investidores. Um corpo político fraco, com enorme dificuldade para dar luz ao novo, no campo econômico. E nem se trata de crítica moral ao natural fisiologismo de qualquer sistema, mas de alerta para o estágio de hiperfisiologismo, com crescente ineficácia nos processos de discussão, negociação e aprovação de projetos.

Impõe-se um dilema: como ajudar a economia a ajudar a política se a política não apenas não se ajuda como também compromete a economia? É evidente que abrir mão da política e da democracia não são alternativas.

Dizem a literatura e a experiência internacionais que o principal dado econômico, com capacidade de influenciar eleições, são os índices de emprego. Quanto menores, maior o receio do futuro e pior o humor do eleitor, maior sua tendência ao protesto e à mudança – ou à nostalgia do passado, idealizado como “bons tempos”. Neste quesito, o desempenho nacional é ainda insatisfatório: haverá tempo para reverter o processo com a celeridade necessária para interferir no clima eleitoral?

Políticas públicas como segurança, saúde e educação são fundamentais, sobretudo num quadro de desemprego elevado. Como estarão as finanças de Estados e municípios, responsáveis e provedores de políticas desse tipo? Embora relevante, neste 2018 que se aproxima, a economia dependerá mais da política do que o contrário. Na realidade dura e crua, a economia poderá fazer pouco pela política.

O fato é que o País perdeu o timing do choque de expectativas, após o impeachment. Mais recentemente, perdeu também o ritmo das reformas. No autoengano houve desídia do mercado, embaraço moral e oportunismo do sistema político, ilusão e desconhecimento daqueles que, mais uma vez, negligenciaram importantes detalhes políticos. Isto tudo retirou da economia todo ou parte do potencial eleitoral que teria.

Óbvio que candidatos do autodenominado “centro democrático” tocarão o bumbo da recuperação econômica. Naturalmente, o presidente e sua base já tremulam bandeiras de um suposto legado econômico – qual seria o “legado” político? –, mas isso pode ser menos relevante do que gostariam.

Candidatos de oposição enfatizarão problemas econômicos, lacunas e insatisfações, apontando também o agravamento de questões sociais. E, claro, aqueles que puderem cuspir para o alto destacarão as mazelas e a deterioração da credibilidade do sistema.

A pregação econômica, metódica e racional, do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ou do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, fala à razão de iniciados em relatórios e projeções econômicas, alegra convertidos. Mas, enquanto isso tudo não for percebido concretamente no cotidiano das pessoas comuns, o efeito eleitoral será pequeno. No Brasil, tudo é duvidoso, mas o mais provável é que 2018 seja o ano da política.

Carlos Melo