terça-feira, 11 de julho de 2017

Adeus, Temer. E depois?

Não há na nossa história republicana nenhum caso de um presidente que tenha tido uma agonia política tão longa como a de Michel Temer. No início da República, Deodoro da Fonseca, após ter fechado o Congresso Nacional, permaneceu mais uma quinzena no poder antes de ser obrigado a renunciar, após a rebelião da Marinha, entregando o governo a Floriano Peixoto. Mais de meio século depois, Getúlio Vargas resistiu 19 dias até a tragédia do 24 de agosto de 1954. A crise de novembro de 1955 foi resolvida no próprio mês, mesmo tendo três presidentes em um curto espaço de tempo. Já em 1961, após a renúncia de Jânio Quadros, em duas semanas, fundamentalmente, foi possível encontrar uma solução para o impasse sucessório. Três anos depois — e, neste caso, com a decisiva presença militar — em alguns dias foi construída uma nova situação política. Agora, mesmo tendo instituições um pouco mais sólidas do que nos momentos históricos citados, nada indica que seja possível encontrar, a curto prazo, um caminho que retire o país da mais profunda crise da nossa história.

Com a redemocratização, foi construído um estado democrático de direito que não conseguiu lançar os fundamentos de uma República democrática. Pelo contrário, a institucionalidade acabou — graças à sua complexidade e ausência de controle público — dando guarida segura àqueles que conspiraram sistematicamente contra os valores republicanos. O que deveria servir como um instrumento de defesa da cidadania acabou, ao longo de três décadas, sendo utilizado para garantir legalmente — por mais paradoxal que pareça — uma República apodrecida pela corrupção.

Os republicanos passaram por diversos momentos de desilusão política. A cada aparente ruptura, vinha — em seguida — a desilusão. E isso desde o 15 de novembro de 1889, passando por 1930, 1945, 1964, 1985 e, especialmente para a conjuntura que vivemos, 1988 e a sua “Constituição cidadã.” De Saldanha Marinho, lá no início do governo Deodoro, até a atual sociedade civil — participante, ativa, que transformou as redes sociais em instrumentos de combate político — todos dizem que não vivemos na República dos nossos sonhos.


A cada dia fica mais profundo o fosso que separa o cidadão comum da elite dirigente — elite dirigente, entenda-se, dos Três Poderes da República. O poder continua petrificado, de costas para a sociedade. Não quer saber de mudança. Quer manter, na essência, tudo como está. Basta recordar que estamos a cerca de um ano das eleições presidenciais e nada indica que haverá uma profunda alteração do que vivemos no processo eleitoral de 2014. Ou seja, teremos o habitual jogo sujo, com os mesmos partidos políticos, com os marqueteiros de sempre, os eternos candidatos e os ridículos debates. E no segundo turno, se houver, teremos dois candidatos representando frações eventualmente distintas do grande capital. E a cidadania? Ah, esta pouco importa — ou melhor, importa só como eleitor, naqueles segundos em frente à urna eletrônica.

Desta forma, a crise do governo Temer é muito mais profunda. Que o presidente não está à altura do momento histórico, disso não há dúvida. Poderia liderar o país até o processo eleitoral de 2018, mas se apequenou, seduzido pelas benesses financeiras do poder. Resta agora, desesperadamente, se manter à frente do governo, manobrando da forma mais vil. Contudo, nada indica que deva permanecer até 31 de dezembro de 2018.

Mas se o problema fosse somente Michel Temer, tudo poderia facilmente ser resolvido. A questão é mais complexa, é estrutural. Não estamos passando por uma crise política, o que não é pouco, como tantas outras na História do Brasil. Agora há uma crise sistêmica que atinge os Três Poderes. Temer, Lava-Jato, JBS, Dilma, Odebrecht, Lula, Aécio et caterva são faces conhecidas de um sistema que entrou em colapso.

O processo do impeachment deu a falsa ilusão de que tudo estaria resolvido com a mera substituição do titular do Palácio do Planalto. Ledo engano. Tanto que, no “novo governo”, grande parte da base parlamentar é a mesma da antiga situação e, inclusive, teve — e ainda tem — no Ministério Leonardo Picciani, que votou contra a autorização para a abertura do processo contra Dilma Rousseff.

Entre as principais forças políticas com representação no Congresso, há um relativo consenso de que tudo o que ocorreu nos últimos anos não passou de mero acidente de percurso. Algo inevitável, típico de uma jovem democracia. Insistem na falácia de que as instituições estão funcionando, mesmo em meio aos escândalos que transformaram o Brasil no país mais corrupto do mundo ocidental. É a velha conciliação, sempre presente na nossa história, principalmente nos momentos de tensão política.

Desta vez, dada a profundidade e magnitude temporal da crise, é provável que a conciliação fracasse. Isso só poderá ocorrer se a sociedade civil tiver uma ação ativa e propositiva. E aí mora um dos problemas. Fazer o quê? Como? Quais são as propostas? De que forma encaminhá-las? Como combinar a institucionalidade vigente com ideias de reorganização do aparelho de Estado? E de que forma construir o novo em meio a uma estrutura arcaica, que impede as mudanças?

Michel Temer deve logo abandonar o Palácio do Planalto. Mas a crise sistêmica vai permanecer. Ela é muito mais profunda do que a mera substituição do presidente. E se for seguido o velho figurino brasileiro — o que é mais provável — permaneceremos em meio à turbulência nos próximos anos, com reflexos diretos na economia e na sociedade.
Marco Antonio Villa

Paisagem brasileira

Casinha de pau-a-pique, no sertão brasileiro.  http://www.portalanaroca.com.br/confie-na-vida-e-siga-em-frente-o-mal-so-existe-quando-damos-poder-a-ele-e-nos-somos-do-tamanho-que-queremos-ser-_______________-marla-de-queiroz/

A cabra da vizinha dá mais leite

"Morte de Abel" - Gustave Doré
 Gustave Doré
O primeiro homicídio da Humanidade deu-se por inveja. Caim ficou desesperado com o sucesso de Abel e matou o irmão com uma pedrada.

Portanto, a inveja, um dos sete pecados capitais, vitimou 20% da Humanidade ainda nos albores do Éden. Só não foram 25% porque Abel teve uma irmã gêmea. De todo modo, foi o primeiro genocídio.

Jorge Luís Borges, que não ganhou o Prêmio Nobel de Literatura e involuntariamente tornou ainda menores muitos daqueles que o receberam por razões extraliterárias, voltou a este tema diversas vezes em sua obra.

Numa delas, Abel e Caim estão andando no deserto e param à noite para comer e descansar. À luz da fogueira, Caim vê a cicatriz na cabeça de Abel, deixa cair o pão que está levando à boca e pede perdão pelo crime. Abel responde: “Foi você quem me matou ou fui eu quem te matou?”.

Diz Caim: “Agora sei que em verdade você me perdoou, pois perdoar é esquecer. Também vou tratar de esquecer”. Abel conclui: “É isso mesmo. Enquanto há remorso, ainda há culpa”.

Noutra passagem, Borges lembra trecho de uma kenningar, gênero desconcertante da poesia medieval nórdica, em que Eva está debulhada em lágrimas enquanto lava as roupas ensanguentadas de Abel.

A inveja é um dos sete pecados capitais e tem resultado em desgraças tremendas. Os outros seis são a gula, a luxúria, a avareza, a ira, a soberba e a preguiça. Eles surgiram na Idade Média e demoraram alguns séculos para serem oficialmente reconhecidos pela Igreja.

Todavia a inveja é anterior à lista. Os antigos romanos designavam um conjunto de sentimentos desarrumados sob a rubrica da inveja, que incluía a antipatia, o ódio, a má vontade, o ciúme e a rivalidade.

Inveja veio do Latim invidia, do verbo videre, ver, e carrega o significado de negar o que se vê, pelo prefixo in, que indica negação. Não é que o invejoso não vê, é que ele se recusa a ver e, quando vê, quer negar o que vê.

Como na tradição portuguesa, pouco se lê, o povo guardou a sabedoria dos provérbios e dos ditados com versos e rimas, com o fim de garantir a memorização.

E, por fim, o primeiro homicídio da Humanidade representou nos tempos míticos uma rivalidade terrível entre a agricultura e a pecuária. Caim era agricultor e Abel era pastor, diz a Bíblia. E o agricultor tomou-se de uma inveja danada quando Deus (o Estado, segundo a leitura leiga do texto sagrado), revelando sua preferência pela carne assada que Abel lhe oferecia nos sacrifícios, não deu muita bola para os frutos da terra oferecidos por Caim.

Não vem ao caso, mas como a batata dos delatores da Friboi está assando no lamaçal de denúncias em que se transformou nosso país, o contexto acabou por me inspirar esta pauta.

A roda do tempo

Tudo começou na quinta-feira 11 de julho de 2013. No início do expediente, o delegado federal Márcio Adriano Anselmo encontrou sobre a mesa de trabalho um despacho do juiz Sergio Moro autorizando a interceptação dos telefones de Carlos Habib Chater e das “empresas controladas por ele, usualmente em nome de pessoas interpostas”. No ofício, estavam ressaltadas com um “especialmente” as linhas usadas em três empresas de Brasília (Angel Serviços, Torre Comércio e Posto da Torre). Era o nono “evento” dentro de um processo (nº 5026387-13.2013.404.7000) sobre a rotina de lavagem de dinheiro num empreendimento em Volta Redonda (RJ).

Logo, fez-se um derivativo processual, a investigação de um associado de Chater, flagrado ao telefone. Era Alberto Youssef, um dos 62 doleiros que Moro mandara prender nove anos antes por lavagem de dinheiro. Em 2014, Youssef foi novamente preso, e o país soube da existência da Operação Lava-Jato.


Passaram-se quatro anos. Ontem, assistiu-se na Câmara à mais recente consequência política dessa investigação, a abertura do ritual para derrubada de um presidente. Se confirmado, será o segundo governo a cair, por motivos diferentes, nos últimos 12 meses. Não é pouco para uma sociedade que retomou a vida em regime democrático há apenas três décadas.

Dos quatro presidentes escolhidos nas urnas, desde então, somente dois (Fernando Henrique e Lula) conseguiram passar a faixa presidencial ao sucessor eleito. Outros dois foram depostos, por impeachment. Collor acabou punido pelo Congresso com a cassação dos direitos políticos, mesmo depois da renúncia ao mandato, mas foi absolvido no Supremo por falta de provas sobre os crimes imputados. Dilma, impedida por fraude nas contas de um governo marcado pela crise aberta pela Lava-Jato, acabou preservada da punição por uma vírgula inexistente no texto constitucional, criada pelos então presidentes do Supremo, Ricardo Lewandovski, e do Senado, Renan Calheiros.

Agora, julga-se Michel Temer, duas vezes colhido por Dilma como vice, com apoio de Lula, e cuja ascensão ao Palácio do Planalto, no ano passado, foi respaldada pelo PSDB de Fernando Henrique. A base é a própria voz de Temer em gravação com um empresário corruptor, numa espécie de confissão extrajudicial.

O cenário que está aí foi descrito há exatos 13 anos, num artigo publicado sobre o que ocorrera na Operação Mãos Limpas, realizada na Itália no início dos anos 90: “A independência judiciária, interna e externa, a progressiva deslegitimação de um sistema político corrupto e a maior legitimação da magistratura em relação aos políticos profissionais foram, portanto, as condições que tornaram possível o círculo virtuoso gerado [pelas investigações].” Quem escreveu foi o juiz federal Sergio Fernando Moro. Acabara de mandar prender seis dezenas de doleiros em uma dúzia de cidades, entre eles Youssef. As prisões desses lavadores de dinheiro afetaram o fluxo de financiamentos para candidatos a prefeito e vereador nas eleições municipais de 2004. Alguns dos favoritos perderam nas urnas, por inanição monetária. Dos que sobreviveram, muitos agora estão enredados na Lava-Jato, junto a Temer, Dilma e Lula. Na roda do tempo, a crise de legitimidade política que está aí é obra dos próprios políticos.

José Casado

É triste, mas o Brasil não tem candidato limpo a presidente

É triste, mas verdadeiro, o eleitor brasileiro não tem um candidato a presidente da república ficha limpa em 2018. Os nomes postos aí, os mais notáveis, estão sujos da lama da Lava Jato. E a escolha por um deles, se é que algum chega até lá antes de ser preso, é um caminho difícil. A última eleição, a de 2014, foi um divisor de água na política do país. Reelegemos a Dilma para Lula governar novamente, e o desastre bateu às portas da nação com o destroço da economia, a corrupção deslavada e a prisão dos políticos que, por décadas, deram às cartas no país. Dois anos depois, o que seria uma operação simples envolvendo doleiros de Brasília, escancarou-se às comportas do maior escândalo de corrupção do mundo, patrocinado pela turma do PT e seus associados.

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Não sobrou ninguém. O Marcelo Odebrecht entregou a metade dos políticos do Congresso Nacional, apontando um a um quem estava na caixinha da empresa. E o Joesley acabou de atear fogo ao circo. Na delação premiada entregou a outra metade. Os que ficaram de fora, os cabeças de bagres, certamente não tiveram acesso aos empresários inescrupulosos que dominaram, nos bastidores, a política e a economia. Assim, a pouco mais de um ano das eleições estamos acéfalos de candidatos com credibilidade e honradez para tocar o país e combater a corrupção desenfreada que contaminou a nação.

Olha só, para nossa infelicidade, quem ainda pensa em se candidatar para tocar o país: Lula, Aécio, Alckmin, Bolsonaro, Marina, Doria. As lideranças que surgiram nos últimos vinte anos, também foram parar na lama da corrupção, a exemplo de Lindbergh, o senador petista, que se esgoela diariamente no plenário para provar que é honesto. Outros líderes não surgiram nesse tempo, porque as entidades estudantis estiveram aparelhadas e atreladas a partidos políticos e envolvidas com a política demagógica e populista do PT.

Corre-se o sério risco de elegermos mais um cacareco, depois do último desastre.

Assim, é com profunda melancolia, que avisamos: precisa-se de um candidato a presidente ficha limpa. Não é fácil escolher um desses bufões para administrar o país, depois que a Dilma botou a última pá de cal nas esperanças dos brasileiros. Durante seis anos, ela foi sem ser presidente. Apaga-se a cada minuto da história política do Brasil. E um dia será encontrada vagando pelas ruas repetindo o refrão como uma tonta: “É golpe! Fora Temer”. O outro, Lula, ideólogo da petezada corrupta, continua vociferando bobagens nas reuniões dos seus companheiros enquanto o Sérgio Moro não pronuncia a sentença para seus crimes.

Quer voltar ao poder para consertar o país, segundo ele, em estado de putrefação. Olha se isso não é mesmo coisa de esquizofrênico. Em menos de um ano, ele e a Dilma esqueceram que deixaram uma herança de 14 milhões de desempregados, uma economia capenga e desacreditada no exterior, uma organização criminosa que avançou pelas empresas públicas como ave de rapina, o aparelhamento do estado com milhões de cargos comissionados para a rapaziada dos sindicatos e o esfacelamento da máquina pública que emperrou o desenvolvimento. Mesmo assim, nos seus delirantes comícios, ele proclama os seus apaniguados a voltarem ao poder. Coisa de quem bebe, diria seus críticos mais cruéis.

A mesma postura do esquecimento da trágica gestão também contaminou os parlamentares petistas no Congresso Nacional. É hilário ouvir alguns deles falar em ética, recuperação da economia e moralidade administrativa quando se sabe que deixaram milhões de trabalhadores sem comida no prato pelo desemprego avassalador. Mas eles usam o púlpito para criticar a gestão atual do Temer como se não fossem responsáveis por mais essa herança maldita, vice em dois mandatos da Dilma. Lula, por exemplo, diz que ninguém precisa se envergonhar de ser político. Claro que não, todos concordamos. Devemos nos envergonhar dele e dessa corja petista que saquearam os cofres públicos e traíram os votos dos brasileiros de boa fé.

E você, que ainda está em dúvida quanto em quem votar, fique sabendo que o voto em branco também é uma forma de protesto.

Gente fora do mapa


 Conjunto habitacional em Campo Grande, Peter Bauza

Tem um lado bom no Parlamento?

Dia desses, sem querer, peguei um caminho pouco usual em Brasília. Para chegar a um bairro chamado Sudoeste, atravessei de ponta a ponta a Vila Militar, onde se concentram tropas das forças armadas. Quando passei em frente ao Quartel General do Exército, a memória não me traiu. Um implacável frio na espinha, uma sensação desagradável de medo.

Nos anos de chumbo, quando trabalhávamos - e vivíamos - sob o medo da repressão, da linha dura dos militares, aquelas vias eram interditadas aos civis. Havia guaritas e cercas. Jornalistas por ali... presos, apenas.

Hoje, são grandes avenidas, abertas aos cidadãos, As vias floridas remetem nossos anseios e medos à ainda frágil democracia brasileira. Inevitável lembrar que apologistas do atraso conquistam preferência de parte considerável do eleitorado.


Mas não passarão. Ainda que tenhamos muita luta pela frente. Ontem, ao ouvir o relatório do deputado Sergio Sveiter, autorizando a continuidade de denúncia contra Michel Temer, vimos alguma seriedade na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.

Não se repetiu o comportamento debochado do então presidente da casa, o ex-deputado preso Eduardo Cunha, que, no impeachment de Dilma, fez, da mesma comissão, gato e sapato.

Vamos aguardar. Novo seriado está apenas começando. A impressionante história recente do Brasil revela enredo nunca imaginado. Minúcias, detalhes, degradações, traições, alianças espúrias. De tudo, um pouco.

História rica em pormenores. Na pior das hipóteses, contamos com deputados e senadores - até com aqueles que tanto nos envergonham. No falatório da comissão de Constituição e Justiça, todos enalteceram a democracia. Pode ser o lado bom do parlamento. Que sejam fieis a sua pregação. Já terão feito muito. Greta Garbo, dessa vez, não vai parar no Irajá...

A lógica torpe do petismo

A resolução aprovada no 6.º Congresso Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) revela de modo incontestável a torpe lógica que move o partido. Se os discursos de Lula da Silva, o líder máximo da organização, e do restante da cúpula dirigente durante o evento já indicavam que o PT opera em uma realidade alternativa, como se fosse um mero observador da crise econômica, política e moral que legou ao País, e não seu responsável direto, agora, com a publicação do teor do documento, ao cinismo, à soberba e à desfaçatez daquelas falas se soma o atestado de que, realmente, os polos do partido são invertidos.

No texto, o PT ataca o que classificou ─ entre aspas, vale ressaltar ─ como “republicanismo” de Lula da Silva e Dilma Rousseff no processo de escolha dos nomes para a Procuradoria-Geral da República (PGR), para o Supremo Tribunal Federal (STF) e para a Polícia Federal (PF) durante seus mandatos na Presidência. No caso da Procuradoria-Geral, os ex-presidentes escolheram os primeiros colocados na lista tríplice enviada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). Já a indicação de ministros para o STF teria recaído sobre juristas que não estavam comprometidos, a priori, com a agenda do partido. E a não interferência dos chefes do Poder Executivo nas indicações para a diretoria da PF constituiu o tal “republicanismo”.

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De acordo com o documento, a postura “republicana” de Lula e Dilma durante as referidas nomeações foi diretamente responsável pelas agruras vividas pelo partido a partir da eclosão do escândalo do mensalão, em 2005. “Sem aquele tipo de ‘republicanismo’, a Operação Lava Jato e antes dela a Ação Penal 470 (mensalão) não teriam conseguido instalar a ‘justiça de exceção’ organizada com o objetivo de destruir o PT e Lula”, diz o projeto de resolução aprovado pela direção petista. Tudo soa tão descabido e surreal que o texto está mais próximo de um roteiro de comédia pastelão do que de um documento oficial de um partido que governou o País por 13 anos.

O caso das indicações para a PGR é um dos mais nítidos exemplos da lógica torpe do PT. O partido, agora na oposição, é uma das entidades que acusavam o presidente Michel Temer de “ameaçar a Lava Jato” caso não indicasse o primeiro colocado na lista tríplice da ANPR como sucessor de Rodrigo Janot. Ora, nem Lula, nem Dilma, nem Temer ou qualquer presidente da República têm a obrigação legal de atender a esse critério.

Em que pesem as eventuais críticas que possam ser feitas aos membros da cúpula da PGR e da PF e aos ministros do STF, a ressalva que o PT faz é, na prática, um elogio à atuação daqueles que, aparentemente, critica. Para o partido, indicações corretas seriam aquelas em que os indicados estivessem comprometidos, acima de quaisquer outros desígnios, com os interesses da própria legenda. Aliás, não foi imbuído de outro espírito que, uma vez no poder, o PT aparelhou cada repartição pública que encontrou pela frente.

Seria absolutamente natural um partido que chegou ao poder indicar para cargos-chave da administração pública quadros identificados com seu projeto de governo. O que se viu, no entanto, foi a ocupação do Estado com o único objetivo de saquear os cofres públicos para viabilizar um projeto de poder, e não de país.

Diante dos maiores descalabros cometidos durante os mandatos de Lula da Silva e Dilma Rousseff, o Partido dos Trabalhadores foi condescendente, como também foi com os membros da cúpula petista enredados pelas teias da Justiça. Quando supostamente “acertaram” ─ segundo os critérios da lógica invertida do partido ─, foram criticados.

Com uma resolução desse teor, o PT mostra que não aprendeu nada com os erros cometidos durante o período em que esteve no poder e faz questão de perder cada oportunidade que aparece para exercer uma saudável autocrítica, a tal “refundação” defendida por alguns de seus próceres. Mas é compreensível. Devem ser de difícil contrição erros que são vistos como virtudes.

Mundo vive sexta extinção em massa - e é pior do que parece

O mundo está passando por uma "aniquilação biológica" de suas espécies animais, num fenômeno que já pode ser considerado uma sexta extinção em massa e que é mais grave do que parece, aponta um estudo divulgado nesta segunda-feira.

Segundo o estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences(PNAS), há uma tendência de investidas cada vez maiores contra a biodiversidade do planeta, resultando numa perspectiva "sombria sobre o futuro da vida, inclusive humana". O motivo, diz o estudo: "problemas ambientais globais causados pelo homem".

"Nas últimas décadas, a perda de habitat, a superexploração de recursos, os organismos invasivos, a poluição, o uso de toxinas e, mais recentemente, as mudanças climáticas, bem como as interações entre esses fatores, levaram ao declínio catastrófico nos números e nos tamanhos das populações de espécies de vertebrados tanto comuns como raros", afirmam, os pesquisadores.

Para a pesquisa, uma das mais completas já feitas sobre o tema, cientistas da Universidade de Stanford e da Universidade Nacional Autônoma do México utilizaram uma mostra de 27,6 mil vertebrados terrestres e uma análise detalhada de 177 espécies de mamíferos que sofreram declínio populacional entre 1900 e 2015.


Os pesquisadores observaram que as populações de vertebrados sofreram grandes perdas, inclusive entre as espécies que despertam pouca preocupação. Cerca de um terço (8.851) das espécies analisadas – o que representa quase metade das espécies de vertebrados conhecidas – apresentou declínio populacional e diminuição em termos de distribuição geográfica, mesmo aquelas que atualmente não são consideradas como sob risco de extinção.

Já entre os 177 mamíferos estudados, todos perderam 30% ou mais em distribuição geográfica, com mais de 40% registrando um declínio populacional severo, com encolhimento superior a 80%.

"Diversas espécies de mamíferos que estavam relativamente seguras há uma ou duas décadas estão agora em perigo", dizem os pesquisadores. Como exemplos de quedas representativas na população, eles citaram guepardos, orangotangos, leões, pangolins e girafas.

Nos 500 milhões de anos de existência da Terra, houve cinco "extinções em massa" que levaram ao desaparecimento de 75% das espécies. O último episódio aconteceu cerca de 66 milhões de anos atrás, quando 76% de todas as espécies foram perdidas, incluindo os dinossauros, devido à atividade vulcânica, alterações climáticas e impacto de asteroides.

Os cientistas ressaltaram ainda que o foco na extinção de espécies leva a "uma falsa impressão de que o habitat da Terra não está ameaçado, e sim apenas lentamente entrando em um episódio de grande perda de biodiversidade".

"Essa visão negligencia as tendências atuais de declínios e extinções da população", afirma o estudo. "A aniquilação biológica resultante obviamente terá graves consequências ecológicas, econômicas e sociais".

"A humanidade acabará por pagar um preço muito alto pela diminuição do único conjunto de vida que conhecemos no universo", alertam os cientistas.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Mudança de mentalidade

Contam que quando indagaram a Felipe González qual tinha sido a sua principal frustração, após ter ficado vários anos no poder na Espanha, ele teria dito que era o fato de que, mesmo após um longo período de modernização do país, ele constatava com tristeza que a maioria dos jovens continuava se formando na esperança de ter abrigo em alguma das dotações orçamentárias do Estado espanhol — e não com o ânimo de ir à luta, com espírito empreendedor, em um mercado competitivo. O que o ilustre ex-primeiro-ministro espanhol pensaria do caso brasileiro?

Este mundo grotesco foi imaginado por um soviético contrário ao capitalismo
A verdade é que, quase 30 anos depois da famosa declaração de Mário Covas, na campanha de 1989, acerca da necessidade de termos um “choque de capitalismo”, continuamos com uma mentalidade nacional digna dos anos 50, em pleno furor desenvolvimentista forjado na base de incessantes fluxos de recursos públicos, através das mais variadas formas (Orçamento, estímulos creditícios, mecanismos inflacionários diversos etc.). A frase atribuída a um ex-presidente mexicano (“Quien vive fuera del Presupuesto vive en el error”), dando ideia de que fora do Estado não há salvação, encontra eco no Brasil em todo tipo de exemplos da vida cotidiana.

Tome-se um caso emblemático. O que um jovem formado em Engenharia, Física, Matemática ou Economia em alguma universidade dos EUA consideraria como o ápice das suas ambições profissionais? Provavelmente, ser contratado por algumas das empresas do Vale do Silício, para trabalhar com tecnologia de ponta. Já no Brasil, em muitos casos, o que um engenheiro ou economista formado pela UFRJ, pela USP ou pela PUC de alguma das grandes cidades provavelmente irá fazer? Com grandes chances, se preparar para um concurso público. Faço aqui a ressalva de que não há nenhum demérito nisso — para que não haja dúvidas sobre o assunto, é o caminho que eu escolhi quando era jovem, aos 22 anos, há mais de três décadas. O problema é a escassez de gente com espírito empreendedor. Uma economia precisa dos dois perfis de pessoas: o país pode se beneficiar tanto de um grupo de funcionários públicos dedicados e com especialização na sua área de atuação, trabalhando em órgãos competentes, como o Ministério de Relações Exteriores, o Banco Central, a Receita Federal etc., como de jovens dispostos a competir e apostar em carreiras no setor privado, em novos negócios etc. Quando há um desbalanceamento em favor do primeiro caminho, o país tem um problema de mentalidade. E, sem enfrentá-lo, teremos dificuldades para termos um futuro promissor no longo prazo.

O curioso dessa atitude é que o jovem entende perfeitamente as regras da competição e da meritocracia quando se prepara para o concurso: ele sabe que as vagas são muito disputadas, que é preciso estudar muito e que a maioria das pessoas não passará. A defesa da competição, porém, em muitos casos se encerra no dia seguinte à aprovação. O nosso problema é que o mundo lá fora não funciona assim: há milhões e milhões de asiáticos estudando inglês, trabalhando nove, dez ou mais horas por dia, brigando por satisfazer o cliente das suas exportações e em constante processo de aprimoramento.

Tomemos o caso de muitas das emendas apresentadas à proposta de reforma previdenciária submetida ao Congresso pelo governo no final do ano passado. Na sua maioria, são tentativas de beneficiar um ou outro grupo específico, para que ele tenha uma aposentadoria antecipada, uma menor contribuição ou alguma forma de tratamento diferenciado. Novamente, é a velha ideia “mexicana” da frase citada, sinalizando que “fora do Orçamento não há salvação”.

O Brasil precisa deixar para trás décadas de mentalidade paternalista, se quiser ter um espaço relevante no mundo de hoje. Precisamos avançar na direção de termos um país produtivo, aberto à competição e inovador. Em pouco mais de 25 anos, o governo federal passou de um gasto primário — sem juros — de 14% do PIB a um nível atual de 24% do PIB, com uma elevação concomitante da carga tributária. A regra do teto do gasto tenta enfrentar esse problema, mas, para que ela seja respeitada, é preciso que o Estado deixe de ter a incidência de todo tipo de demanda como as que historicamente foram canalizadas para ele. E isso implica mudar corações e mentes. Não será fácil.

Fabio Giambiagi 

Capitalismo meia-boca

Que o capitalismo tropical está longe funcionar, a gente já sabia. Mas bem que precisava ficar anunciando o velho e o obvio como se fosse novidade ou especial. Mas mesmo assim, vem dia, vai dia, a gente continua ouvindo (e lendo) essas coisas.

Não deixa de ser tragicômico ouvir sobre as preocupações recentemente adquiridas no mundo corporativo com “compliance”. Tito assim, em inglês, realmente parece novidade. Mas é apenas o óbvio escondido em um jargão. Pela primeira vez, parece que os conselhos de administração perceberam que seguir a lei é uma obrigação que deve ser cumprida.

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Angel Boligan
Mais importante que anunciar repetidamente novas diretorias de “compliance”, seria talvez identificar o que levou essas empresas a situação atual. Existem certamente razoes estruturais em seus sistemas de governança corporativa que permitiram o cometimento de ilegalidades de forma repetida, continuada e claramente incorporada a sua estratégia e procedimento.

Em tese, se tivessem funcionado, os conselhos de administração não permitiriam a estas empresas o envolvimento em corrupção ou ilegalidades. Servem (entre outras coisas) para isso. Esta é a teoria. E, em grande medida, a lei. Mas claramente, a teoria, na pratica, foi (e possivelmente ainda é) outra.

Uma das razões parece ser que em um país de capitalismo meia-boca, não dá mesmo para esperar que órgãos de controle corporativo baseados em democracia de acionistas funcionem exemplarmente.

O capitalismo tropical é carcomido pelo populismo. A cultura empresarial é privilegia as relações com o Estado, e a eliminação da concorrência, em detrimento de produtividade, eficiência e boa gestão. Era mesmo improvável que brotassem, por geração espontânea, boas práticas de governança corporativa. Seria talvez ingenuidade esperar, mas seria certamente milagroso se tivesse acontecido.

No Brasil, os conselhos de administração refletem apenas interesses dos controladores. Conselheiros, mas frequentemente que não, representam apenas acionistas ou interesses individuais, e não os interesses da empresa. Os resultados são previsíveis, esperados, quase inevitáveis.

Não é por acaso que, em empresas estatais ou privadas, as ilegalidades se deram sob a supervisão dos acionistas controladores. Nas estatais, atenderam os interesses do governo de plantão. E nas privadas, seguiram as ordens do controlador. Tudo sem qualquer oposição.

E, durante todo o tempo, todos acharam (e provavelmente ainda acham) tudo isso normal. Todos mesmo. Ninguém se preocupou em resolver e prevenir as causas centrais que levaram a execução de planos e decisões danosas aos seus acionistas.

Não parece que criação de diretorias de “compliance” resolvam o problema. Não resolve o fato de que, um conselho de administração eficiente requer independência, baseada em princípios democráticos que garantam que o acionista em sua integralidade tem seus direitos protegidos mesmo nos casos em que eles estejam em contradição com os interesses do controlador. Isto requer melhorias na formação e funcionamento dos conselhos de administração.

Mesmo depois do desastre, existe muito pouca preocupação no mundo corporativo com a forma de escolha, a eleição, e a performance dos conselhos de administração. Continua tudo mais ou menos igual. Sem grandes novidades.

E, surpreendentemente, espera-se resultado diferente. Coisa de doido.

Temer está caindo de podre

O Brasil pode atingir um feito nada abonador. A prevalecer o que já está acertado entre os caciques dos principais partidos do Congresso — a troca de Michel Temer por Rodrigo Maia —, em pouco mais de um ano, o país terá empossado seu terceiro presidente. Essa alta rotatividade no cargo mais alto do governo explicita o quanto o nosso sistema político está falido. Por mais que vozes se levantem dizendo que todo o processo de troca de presidentes está seguindo os trâmites previstos na Constituição, tudo leva a crer que caminhamos rápido para a beira do precipício.

Não por acaso, a população está descrente do modelo tradicional de se fazer política. Tudo o que as pessoas veem pela frente é corrupção e roubalheira. A visão popular é de que os políticos estão mais preocupados em garantir seus nacos no poder mesmo que, para isso, seja preciso apear do governo aqueles de quem, até bem pouco tempo, eram aliados de primeira hora. É o que se vê com Temer. Enquanto ele se mostrou útil para os interesses das bancadas que lhe davam suporte no Congresso, manteve uma força incontestável. Mas, ao ser atingindo em cheio por denúncias de corrupção, foi abandonado.


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A fragilidade de Temer é tamanha que, mesmo no seu entorno, já começou a contagem regressiva para que ele seja deposto. O primeiro passo para a chegada de Rodrigo Maia à Presidência da República deve ser dado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), com a possível aprovação da denúncia contra o presidente feita pela Procuradoria-Geral da República. O peemedebista é acusado de corrupção passiva. Poucos no Palácio do Planalto acreditam que ele conseguirá evitar uma derrota. Temer está cada vez mais parecido com Dilma Rousseff às vésperas de ela cair.

A constatação do derretimento de Temer pode ser medida pela quantidade de dinheiro liberada pelo Planalto para garantir apoio no Congresso. Em junho, pelo menos R$ 1,8 bilhão foi empenhado em emendas parlamentares, quase 20 vezes o comprometido no acumulado dos cinco meses anteriores. Ou seja, em vez de manter aliados na base do governo, a montanha de verbas foi acompanhada de uma debandada de políticos, inclusive de integrantes do partido do presidente, o PMDB. Não há liberação de emenda que garanta apoio a alguém que está caindo de podre. Dilma provou desse veneno.

No mercado financeiro, o pragmatismo também fala mais alto. Nos últimos dias, assessores de Temer mantiveram intensos contatos com investidores para medir até que ponto vai o apoio ao governo. A constatação foi clara. O peemedebista praticamente virou carta fora do baralho. Os donos do dinheiro só querem saber quando Maia tomará posse e qual será o time que comandará o país. Bancos e corretoras querem tirar do presidente da Câmara dos Deputados o compromisso de que manterá Henrique Meirelles à frente do Ministério da Fazenda e de que tocará as reformas, especialmente a da Previdência.

Maia, inclusive, já foi procurado por vários pesos-pesados do mercado. Os donos do dinheiro querem garantir uma transição tranquila até o fim de 2018 e evitar que o vácuo político de hoje seja ocupado pelo PT ou por alguém de extrema direita, como o deputado Jair Bolsonaro. “A saída de Temer já não nos preocupa mais. O que realmente importa é saber se o seu sucessor terá força suficiente para manter o país na linha e fazer as reformas necessárias. Até agora, todos os sinais que Maia nos deu é de que, caso empossado, vai trabalhar pela unidade do país e para corrigir distorções no sistema de aposentadoria”, diz um banqueiro. “É o que temos para o momento. Ninguém aguenta mais a sangria de Temer”, acrescenta.

Entre os investidores, ninguém aposta em uma onda de pânico nos mercados nos próximos dias. “A saída de Temer já está precificada. Daqui por diante, a bolsa de valores e o dólar serão movidos pelas declarações de Rodrigo Maia. Ele se tornou o centro das atenções do mercado”, assinala um executivo de um banco estrangeiro. Para ele, demorou um pouco para os investidores absorverem a possibilidade de mais uma mudança de governo. “Os fatos, contudo, se impuseram. Podem acreditar: com Temer cambaleante, o tiroteio sobre ele vai aumentar muito. Ele não resistirá”, acrescenta.

Resta saber como o presidente se comportará até que chegue o ato final. Por enquanto, ele tem mantido a sobriedade na economia. Todas as iniciativas populistas do governo foram abortadas. A inflação está sob controle, a atividade, mesmo fraca, dá sinais de que está respirando sem aparelhos, o desemprego parou de piorar e os juros continuarão em queda. Se essa rota for mantida, como diz um dos mais respeitados gestores de recursos do país, Temer já irá tarde.

Psicoteste

A requisitada firma de advogados Dodson & Fogg, na verdade uma dupla de escroques que fornece alguns dos melhores momentos do primeiro livro de Charles Dickens, The Pickwick Papers, tinha um princípio profissional acima de qualquer outro, em sua atuação no baixo mundo judiciário de Londres. “As alegações feitas por nosso cliente podem ser verdadeiras ou falsas”, costumava dizer Mr. Dodson ─ que a exemplo de Mr. Fogg parecia ter quase tanta chance de acabar um dia na forca quanto os seus clientes mais infames. “Não faço a menor ideia se são uma coisa ou outra, e isso, aliás, não tem nenhuma importância. A única questão que nos interessa é a seguinte: vão acreditar em nós?” O tempo passa, o mundo gira, e eis aí o Brasil de hoje, essa potência moral que causa cada vez mais espanto na Terra e no resto do sistema solar, vivendo situações que poderiam perfeitamente estar presentes nas tenebrosas cortes de Justiça da Londres de 200 anos atrás. Ninguém está dizendo aqui, pelo amor de Deus, que os advogados do ex-presidente Lula, no momento de receber a sentença no primeiro dos seus múltiplos processos penais, tenham alguma coisa a ver com messrs. Dodson e Fogg ─ ou que o seu cliente tenha cometido algum crime. Mas o caso do ex-presidente, após toda a via-sacra do seu processo, dá ao público pagante a sensação de que o resumo da obra é o mesmo. “Provei a minha inocência”, diz Lula, sem explicar por quê. Ou seja: não vamos agora ficar discutindo se é verdade, se não é, etc. e tal. Acreditem em mim.

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Os dois mandatos de Lula na Presidência da República foram um monumento sem precedentes ao vício. Sua performance mais espetacular, como ficou demonstrado com dezenas de confissões públicas e provas materiais, foi a capacidade sem limites para roubar dinheiro público. Na Petrobras, privatizada diretamente para os amigos, a estimativa mais aceita é que o roubo tenha passado dos 40 bilhões de reais; conforme a maneira de calcular, fala-se em cifras de até 90 bilhões. Privatizaram, também para o usufruto pessoal da companheirada, a Eletrobras, a Nuclebrás, a Caixa Econômica Federal, o BNDES, ferrovias, rodovias e, de modo geral, qualquer estatal que pudesse ter alguma coisa passível de ser furtada. Roubaram com ânsia desesperada os fundos de pensão das empresas do governo. Roubaram merenda escolar, ambulâncias, quentinhas de presidiários. Roubaram pontes, linhas de transmissão de eletricidade, estádios de futebol inteiros. Roubaram até sangue humano. A respeito de todos esses fatos, Lula diz apenas que provou ser 100% inocente. Não participou de nada, não soube de nada e não desconfiou de nada em oito anos seguidos de governo ─ não admite nem mesmo que tenha tido a mínima responsabilidade por nada do que fizeram a um palmo da sua porta, ou menos ainda.

A maneira mais prática de explicar isso talvez seja a crença de Lula em que contra a fé não há fatos nem argumentos. Muita gente (e ele espera que essa gente seja a maioria dos brasileiros) não está interessada em entender, pensar ou se informar ─ só está interessada em acreditar. É a mesma esperança que quase todo político brasileiro tem para sobreviver às consequências de seus atos. Fazem barbaridades, perante o Código Penal e as regras mais elementares de conduta, absolutamente notáveis pela sua estupidez ─ e ficam esperando que ninguém ache nada de errado. Como o presidente da República, por exemplo, pode se meter com esse Joesley Batista, o maior corruptor da história do Brasil? Nem um guarda-noturno receberia o homem; Michel Temer até agora acha que está tudo bem. O senador Aécio Neves, que poderia estar em seu lugar, deixa-se gravar ao telefone implorando 2 milhões de reais em dinheiro vivo da mesma figura. O complexo Renan-Jucá-Padilha-Moreira-Geddel-etc. continua em plena atividade. Os ministros Roberto Barroso, Gilmar Mendes, Luiz Fux e outros colossos da nossa suprema magistratura governam o país como se isso fosse legal. O que há com essa gente? Obviamente, algo deu imensamente errado com todos eles. O melhor talvez seja seguir a excelente sugestão do escritor português João Pereira Coutinho em artigo recente na Folha de S.Paulo: obrigar ocupantes de cargos políticos a fazer exames psicológicos e neurológicos antes de assumir ─ mais ou menos como o psicoteste para motoristas de ônibus, por exemplo. A ciência, ao que parece, está a ponto de provar que o poder provoca algum tipo de lesão no cérebro. Quem, dos nomes acima e centenas de outros iguais, passaria no exame?

Gente fora do mapa

Coletor de flores no Parque nacional de Udawalawe (Sri Lanka),  Lakruwan Wanniaarachchi

Mesmo derrotado, Temer será estorvo longevo

Michel Temer assumiu o lugar de Dilma Rousseff prometendo um governo de salvação e de união nacional. Denunciado por corrupção, tenta salvar a si próprio. E não sabe se conseguirá unir um pequeno grupo de aliados dispostos a livrá-lo da guilhotina. Precisa de 34 votos na Comissão de Constituição e Justiça e de 172 no plenário da Câmara.

Formou-se em Brasília um sólido consenso: Temer transformou sua Presidência num estorvo —que será longo, não importa o resultado das votações. Na melhor das hipóteses para Temer, o Planalto conseguirá enterrar a denúncia, prolongando o derretimento do presidente por prazo indeterminado. Ou até a próxima flechada da Procuradoria-Geral da República.


Na pior das hipóteses, os deputados aceitarão a denúncia. Neste caso, o Supremo Tribunal Federal estará autorizado a analisar a consistência jurídica da acusação do procurador-geral Rodrigo ‘Lá Vai Flecha’ Janot. Se a maioria dos 11 ministros da Suprema Corte julgar que a denúncia é consistente, Temer será afastado do cargo por até seis meses.

A Constituição manda que, enquanto durar o julgamento, assume o Planalto o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Um ministro do Supremo disse ao blog neste domingo que o tribunal não imprimiria um ritmo de toque de caixa a uma eventual ação penal aberta contra o presidente. Acha plausível que o processo se prolongue até o início de 2018.

Absolvido, Temer retornaria à Presidência. Condenado, hipótese mais provável, voltaria para São Paulo. E o Congresso teria 30 dias para eleger um novo presidente. A inércia conspira a favor da permanência de Rodrigo Maia.

Quer dizer: menos de um ano depois do impeachment de Dilma Rousseff, o Brasil deve ser submetido novamente ao constrangimento de conviver por vários meses com dois presidentes precários —um afastado e outro interino.

Pior: livrando-se de um estorvo acusado de corrupção, o país passará a ser comandado por outro absurdo investigado na Lava Jato. Maia frequenta as planilhas da Odebrecht como “Botafogo”. E já ocupa um capítulo da delação de Eduardo Cunha, que aguarda na fila pela oportunidade de explodir.

O Temer do Temer

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O derretimento de Michel Temer começa a confirmar a máxima de que não existe espaço vazio na política. À medida que o presidente encolhe, abatido por novas prisões e delações, crescem a apostas no deputado Rodrigo Maia para ocupar o seu lugar. A articulação saiu da sombra nesta quinta-feira, quando o senador Tasso Jereissati declarou que Maia pode garantir “estabilidade para o país”. Outro tucano, o senador Cássio Cunha Lima, disse a investidores que o governo “já caiu” e que o Brasil terá um novo presidente “em 15 dias”.

Os holofotes se voltaram para o presidente da Câmara, que é o primeiro na linha sucessória da República. Ele pode retardar ou acelerar a derrocada de Temer, do qual será beneficiário direto e imediato.

O deputado tem a confortável opção de jogar parado. Se a Câmara aceitar a denúncia, a Presidência cairá em seu colo por 180 dias, sem eleição direta ou indireta. Isso o libera de fazer campanha aberta pelo cargo. No entanto, só haverá 342 votos para afastar o presidente se Maia usar sua influência sobre o plenário. Ele terá que se tornar o Temer de Temer, reeditando a conspiração liderada pelo peemedebista para tomar a cadeira de Dilma Rousseff.

O deputado se movimenta com discrição. Ele tem recebido agentes de bancos e corretoras para repetir que seguirá a cartilha do mercado. Na sexta-feira, tuitou uma espécie de programa resumido de governo, no qual se comprometeu com a agenda das reformas. Foi uma versão em 140 caracteres da “Ponte para o Futuro”, a plataforma liberal usada pelo ex-vice para atrair apoio do empresariado.

Enquanto Temer cometia novas gafes na Alemanha, Maia passou os últimos dias na Argentina, onde só se falou na sucessão no Brasil. Sua comitiva incluiu o líder do centrão e metade do “G8”, um grupo de deputados veteranos que conhecem todos os atalhos da Câmara. Em 2016, o grupo atuou em conjunto para assegurar a aprovação do impeachment.

O Bananão de Lima Barreto

Um país de terceira ordem. Habitado e governado por gente medíocre e incapaz, além de vocacionalmente corrupta. E que assim é não por deficiências autóctones ou herança genética, mas, acima de tudo, por sua secular convivência com o tormento de cavar dinheiro, por meio de empregos e favores governamentais. Um país onde não faltam riquezas naturais, mas que vive na miséria, com latifúndios abandonados e indivisivos e a população rural oprimida por chefões políticos, inúteis e incapazes, pois sua economia é toda artificial e falsa nas suas bases, beneficiando apenas uma oligarquia de vivaldinos, todos com pelo menos 30 parentes ocupando cargos de Estado.

Tem mais: o ensino é uma desgraça. As pessoas saem dos cursos mais ignorantes e presunçosas do que quando lá entraram.

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Se você pensou no Brasil errou por pouco. Ou muito pouco. Ou só de nome, corrigiria o autor das observações acima, feitas a propósito de outra república: a tropical República das Bruzundangas, país imaginário, como a Cocanha, Lilliput, Shangri-lá, Freedonia e Oceania, mas abertamente inspirado em Pindorama.

Mais deprime que espanta constatar como o Brasil não ficou menos parecido com a terra das Bruzundangas nos cem anos que nos separam de sua invenção por Lima Barreto, o merecido homenageado da próxima Flip.

Variação do espanhol “burundanga”, bruzundanga tanto significa algaravia, palavreado confuso, como mistura de coisas imprestáveis, ninharia. Muitos preferem o Bananão inventado por Ivan Lessa, mas em qualquer das acepções de bruzundanga a terra do mulato inzoneiro encaixa-se à perfeição.

Em três romances (Recordações do Escrivão Isaías Caminha, Vida e Morte de M.J. Gonzaga de Sá e Triste Fim de Policarpo Quaresma) Barreto retratou nossa Primeira República com ar grave e rancor; mas até porque preconizava “a troça e simplesmente troça, para que tudo caia no ridículo”, faltava em sua obra a sátira ou a paródia da história oficial, das louvações ufanistas de nossas grandezas e das ilusões de modernidade trazidas pela proclamação da República e a abolição da escravatura. Os Bruzundangas é uma variante irreverente de Policarpo Quaresma, as Cartas Persas de Lima Barreto, o Montesquieu de Todos os Santos.

Ressentido com a elite intelectual do seu tempo, que por duas vezes bloqueou sua entrada na Academia Brasileira de Letras (antes da terceira tentativa, o postulante desistiu), mas não só por isso, evidentemente, sintetizou-lhe a apatia mental, a falta de originalidade, a sede de glória, o complexo europeizante, o culto às aparências e a vocação para o compadrio na figura dos “samoiedas”, caricaturas dos beletristas e poetastros parnasianos que, no início do século passado, faziam ponto na Livraria Garnier e pensavam que o mundo terminava na rua do Ouvidor.

Eram os sucedâneos letrados dos falsos fidalgos da aristocracia rural da Província do Kaphet, cheios de grana e prosápia. Acreditavam-se “descendentes poéticos” de um príncipe samoiedo, nascido e criado nos confins da Sibéria, e em sua homenagem vestiam peles de urso, renas, martas e raposas árticas no calorão tropical de Pindorama. Todos eles, diga-se, “incapazes de comparação, de crítica e impróprios para a menor reflexão mais detida”, e, com sua mentalidade de “parvenus aperuados”, sempre dispostos a bajular os titulares ou “os apatacados burgueses”, pois se persuadiram que “são feitos de outra substância diferente daquela que forma as cozinheiras e os pequeno-burgueses”.

Não é difícil reconhecer quem é quem nessa alegoria: de Coelho Neto a Rui Barbosa, passando por Venceslau Brás, Lauro Muller e Barão do Rio Branco, e outros tantos fascinados por condecorações, comendas, sobrenomes pomposos e títulos de nobreza comprados a peso de ouro. Quem se aventura a atualizar esse elenco?

Há exato um século, Barreto negociava ou acabara de negociar a venda dos originais de Os Bruzundangas com o editor Jacinto Ribeiro dos Santos. Passara os primeiros cinco meses de 1917 desovando-a em capítulos no semanário ABC, só interrompendo seu curso para desancar, no mesmo espaço, o “cínico, ignorante, autoritário e babosão” usineiro pernambucano José Bezerra, alçado a ministro da Agricultura pelo presidente Venceslau Brás.

A implacável troça só ganhou a forma de livro, com 191 páginas, pouco depois da morte de Barreto, no final de 1922. Reeditada 34 anos mais tarde, pela Brasiliense, ganhou em outra, com o selo da Artium, já na virada para este século, um episódio até então inédito, envolvendo um “falso D. Henrique V”. Existe ainda uma edição de bolso da L&PM. Agora é a Carambaia que a relança.

Compará-lo a Jonathan Swift seria, como diria um samoieda, “de trop”. Faltaram a Barreto fôlego, tempo de vida e saúde para conferir a seu relato a mesma amplitude e densidade das Viagens de Gulliver, às quais, por sinal, o visitante e descritor dos costumes e mazelas de Bruzundanga se refere no oitavo capítulo.

Faltou-lhe ainda disposição ou disponibilidade para reescrever alguns trechos, com humor mais aguçado, jogar fora outros, por redundantes e mal resolvidos, e queimar mais as pestanas à cata de nomes de melhor impacto cômico do que Felixhimino Bem Karpatoso (um deputado), Idlé Bhrás de Grafofone e Cinema (o presidente bruzundanga) e Tuque-Tuque Fit-Fu (o tal príncipe siberiano).

De todo modo, é bem swiftiana a “modesta proposição” que o alter go de Barreto faz para melhorar a qualidade do ensino na imaginária republiqueta: abolir a exigência de diploma (e não apenas para jornalistas), extinguir as faculdades e colégios existentes e limitar o currículo às matérias atinentes à profissão escolhida por cada um, evitando-se as disciplinas que julgasse inúteis.

Que clarividente ministro da Educação bruzundanguenses e brasileiros perderam.

Paisagem brasileira

Serra do Cipó | Minas Gerais, Brazil
Serra do Cipó (MG)

O PT desafia Moro

Na campanha eleitoral de 2014 o então presidente nacional do PT, Rui Falcão, proclamou com ênfase na propaganda televisiva: “O PT é uma instituição com milhões de filiados e simpatizantes em todo o Brasil. Gente como você, que sempre sonhou e lutou por um país mais justo e solidário. Gente que não convive nem é conivente com ilegalidades e quer, igual a você, o fim da impunidade. Por isso, qualquer petista que cometer malfeitos e ilegalidades não continuará nos quadros do partido”. Em seguida, o apresentador do programa enfatizava: “Você ouviu. Qualquer petista que ao final do processo for julgado culpado será expulso”.



Quase três anos depois, premido pela necessidade de sobrevivência que é hoje sua preocupação prioritária e pela iminência da divulgação da primeira sentença do juiz Sergio Moro relativa a uma das cinco ações penais a que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva responde na Justiça por corrupção e outros delitos, o PT mudou de discurso e se prepara para “dar a resposta adequada para qualquer sentença que não seja absolvição completa e irrestrita” do ex-presidente. É o que afirma a nova presidente nacional da sigla, senadora Gleisi Hoffmann (PR), em nota oficial. Esse foi um dos temas dominantes na reunião da executiva estadual do PT realizada em São Paulo, com a presença de Lula, na qual se discutiu a mobilização da militância para, se for o caso, levar às ruas de todo o País o protesto contra a “perseguição” movida contra o líder petista pelo juiz Sergio Moro.

Coerência é, como se sabe, algo que não pode ser cobrado do PT. A prova indesmentível disso é que Lula conquistou sua primeira vitória na disputa pela Presidência da República, em 2002, por ter mandado a arenga esquerdista às favas e ter-se declarado, na famosa Carta aos Brasileiros, fiel convicto da política “neoliberal” com a qual o governo anterior, do tucano Fernando Henrique Cardoso, havia saneado as finanças públicas, dominado a inflação e colocado o País na rota do crescimento econômico. Tendo sucedido a Lula na Presidência da República, Dilma Rousseff se encarregaria de pôr tudo a perder, mas essa é outra história.

Agora, as preocupações de Lula são mais prosaicas e têm a ver com evitar a todo custo o mesmo destino de seus antigos braços direitos José Dirceu, Antonio Palocci e Guido Mantega, seriamente encrencados na Justiça. É hora, portanto, de radicalizar o discurso. Se tiver a ousadia de condenar Lula no processo que trata do famoso triplex do Guarujá, Moro estará tomando uma decisão “seletiva”, “baseada apenas em delações premiadas”, completamente “sem provas”.

Três anos atrás, em campanha para reconduzir Dilma Rousseff à Presidência da República, o PT precisava posar de paladino da moralidade, apesar de já estar evidente que se investigava a corrupção em seus governos. Com a reeleição de Dilma e seus primeiros correligionários colocados atrás das grades, o PT sentiu-se, mais do que à vontade, na obrigação de partir para cima da Lava Jato.

Entrou então em pauta o discurso de que a Operação Lava Jato era um instrumento por meio do qual a “elite” pretendia calar o PT para entregar o Brasil, a começar pela Petrobrás, aos “interesses do capital internacional”. Com o tempo as investigações passaram a atingir também velhos aliados dos petistas, como o PMDB, e até seu pior inimigo, o PSDB. Mas o discurso anti-Lava Jato não mudou. Sem abandonar o argumento de que eram “vítimas” de perseguição política, os petistas embarcaram na onda nacional de protestos contra os excessos que passaram a ser praticados por alguns agentes da operação. A grande diferença, porém, é que, enquanto os verdadeiros democratas continuam apoiando firmemente a Lava Jato e lutando para mantê-la rigorosamente dentro da lei, o PT quer acabar com as investigações de corrupção e ditar as decisões da Justiça: para os companheiros, impunidade; para os inimigos, cadeia.

Semanas de rock, bebê!

Todo dia era Dia de Índio. Agora todo dia é dia de rock, de ser chacoalhado, de assistir aos embates escalafobéticos entre aqueles que acham isso e os outros que acham aquilo; e todos os que agora estão ainda mais confusos do que estavam, uma vez que tudo se misturou igual a uma pasta disforme. A grande massa ignara ignora e só dança. Aumenta o som, que aí vem doideira pesada. Só os sons dos metais, pratos e panelas, continuam guardados por enquanto.

Pensa: por quem badalar os sinos? Para qual causa ensaiar a coreografia das bandeiras, o som das palavras de ordem, das palmas, do sapatear nas avenidas?

Outro dia um mágico amigo munido apenas de um baralho entreteve e encantou um grupo, incluindo crianças, durante um longo tempo. Fez mágicas, claro, incríveis, que é profissional dos bons, internacional. Mas a maestria com a qual manuseava e manipulava as cartas ao embaralhá-las foi show à parte, chamava a atenção. Perguntei a ele e fiquei sabendo, então, como numa aula, de histórias antigas sobre os trapaceiros, ilusionistas, como foram importantes em reinados e momentos históricos. Ele me contou (e mostrou) ainda sobre as diversas formas de embaralhar, a simples, a francesa, a cascata, a portuguesa, a hindu. São muitas. Como se criavam sequências que deram poder aos trapaceiros. As representações dos naipes, o povo, o poder, as finanças, as guerras.

Tenho pensado sobre isso cada vez mais com o preocupante desenvolvimento do desmonte político a que temos assistido diariamente boquiabertos e aturdidos. Tal como as cartas do baralho que se fundem e se misturam ao ser embaralhadas, estão sendo descartados reis, rainhas, valetes. Os ases somem. De todos os naipes. Procuramos um coringa.

É carteado cheio de trucos. Dissimulados que sem querer querendo dão declarações bombásticas em entrevistas, como quem faz bolhas de sabão. Jornalistas e suas fontes das sombras que carregam mensagens de um lado a outro, sobre um lado e do outro, entre afirmações hipotéticas e hipóteses estapafúrdias que se desmentem em seguida. Deitam falação, como se possível fosse entender as entranhas desse jogo que há anos nos empurra para o buraco. Eles roubam montes, formam duplas, descartam o lixo, pedem mais cartas, formam canastras, somem com cartas entre as mangas e colarinhos brancos. Jogam sozinhos.

Entre os meus leitores há vários tipos que se manifestam comigo: os que gostam de política, falar disso; e os que gostam quando me refiro ao comportamento humano em outras dimensões (sim, elas existem! – mas cada dia é mais difícil nos concentrarmos nelas, nas nossas questões pessoais de viver bem, de emoções, de avanços civis). Tudo muito civilizado, agradeço muito.

Agradeço porque vejo audiências gigantescas indo, aplaudindo, para os que escrevem chutando, xingando, agredindo, belicosos, até desejando o mal para os outros, que sejam presos, morram, tenham seus direitos suprimidos. Suas áreas de comentários são como esgotos. Independentes, se proclamam. Que vivem de ar, tanto quanto eu acredito em duendes puxando o dedão no pé da cama.
 
Se papel já aceitava tudo, na internet, no descompromisso, no anonimato, isso virou fato. Nas redes sociais, formas de polemizar, bater abaixo da linha da cintura, escarnecer bílis. Nas tevês são tantos analistas que devem se bater pelos corredores, fazer fila nos banheiros: reparem o quanto fazem como os locutores esportivos que podem estar esculhambando um time na narração, mas se esse time faz um gol… imediatamente a opinião vira outra.

Brincadeiras à parte, a melhor previsão que podemos fazer do futuro já abarca o passado: vamos trocar de presidente como se troca de roupa. Precisamos provar todas para ver como elas ficam em nosso corpo.

E eu que, vejam só, queria só falar sobre o Dia do Rock, agora, 13 de julho! Mas quem é mesmo que pode mudar de assunto? Tem de embaralhar.

O mutirão para limpar Hamburgo

Milhares de moradores de Hamburgo se reuniram neste domingo em Schanzenviertel, no popular bairro de St. Pauli, para limpar a cidade depois dos protestos violentos do fim de semana em decorrência da cúpula do G20. Munidos de luvas, baldes e vassouras, participantes recolheram ao longo da tarde lixo, pedras e cacos de vidro das ruas.

Convocado pelo Facebook, o evento "Hamburg räumt auf!" ("Hamburgo arruma") contabilizou mais de 8 mil participantes através da rede social, mas a polícia chegou a calcular cerca de 10 mil presentes no local.


"Nós mostramos a todos como Hamburgo realmente é", escreveu na página Rebecca Lunderup, uma das organizadoras do ato. "Foi um enorme e incrível senso de coesão e de energia positiva que foram sentidos em todos os lugares onde vocês estiveram hoje", completou

A participação veio de diversos setores da sociedade: uma cadeia de utensílios de construção doou material de limpeza, uma padaria distribuiu pães, um restaurante contribuiu com hambúrgueres, e uma rede de supermercados doou água.

"Nós mostramos solidariedade com nossos vizinhos", disse Thorben Harms, morador do bairro de Barmbek. Mohamed e Walaa, refugiados da Síria, também participaram da ação: "Queremos fazer algo pela cidade de Hamburgo [como gratidão pelo acolhimento na cidade]".

Durante o encontro internacional, Hamburgo registrou confrontos, saques a lojas e danos ao patrimônio, em um episódio que chegou a ser descrito por moradores como cenas de "guerra civil". De acordo com os cálculos das equipes de segurança, 476 policiais foram feridos. Também houve 186 detenções e 37 mandados de prisão. Não foi informado o número de manifestantes feridos.

domingo, 9 de julho de 2017

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O interessante estado de direito

Há coisas que não entendo no Brasil. Ou melhor, coisas que me esforço para entender. O STF, por exemplo, negou a liberdade a uma prisioneira que roubou xampu e chicletes. Mas decidiu soltar Rodrigo Rocha Loures, que recebeu a mala preta com R$ 500 mil numa pizzaria. Sou leigo e fiquei sabendo que a mulher foi mantida na prisão porque era reincidente. Provavelmente roubou um tubo de creme dental no passado e, como essas pessoas são insaciáveis, deve ter levado também a escova de dentes.

Leio no belo livro “Triste visionário”, de Lilia Moritz Schwarcz, sobre o escritor Lima Barreto, que o médico Nina Rodrigues, expoente da Escola Tropicalista Baiana, defendia no fim do século XIX que negros e brancos eram diferentes biologicamente e o Brasil precisava ter dois códigos penais. Felizmente, as ideias racistas de Nina, que conheci pelo seu trabalho pioneiro sobre a maconha, foram sepultadas. Existe apenas um código penal.

Suspeito, no entanto, que existam diferentes estados de direito. A mais generosa versão desse conceito surgiu no país quando começou a ser desmontado o gigantesco esquema de corrupção.

A Lava-Jato é responsável apenas por um terço das conduções coercitivas no país. Nunca houve problemas até que, depois da centésima experiência, a operação trouxe Lula para depor. Resultado: um grande debate nacional sobre condução coercitiva. Em 2013, o Congresso aprovou o instrumento da delação premiada. Era destinado a desarticular o crime organizado. Ninguém protestou. Ao ressurgir na Lava-Jato, a delação premiada precisou se revalidar no contexto do novo e delicado estado de direito.

Marcelo Odebrecht disse que ensinava aos seus filhos que era feio delatar. No Congresso, a delação premiada foi definida como a tortura do século XXI. E Dilma Rousseff comparou os delatores a Joaquim Silvério dos Reis, nivelando a Inconfidência Mineira ao assalto à Petrobras.

Mostrei num curto documentário como as famílias dos presos sofrem para visitar os parentes no Complexo de Bangu, às vezes, passando a noite ao relento, à espera de uma senha.

A televisão revela agora como Sérgio Cabral recebe visitas à vontade, inclusive como chegam encomendas da rua no setor onde está preso agora. Sua mulher, Adriana Ancelmo, está solta para cuidar dos filhos, e a polícia encontrou nas casas da irmã e da governanta joias escondidas por ela. Leio nos jornais que numa excursão da Escola Britânica ao exterior, o filho de Cabral foi o único a viajar na classe executiva.

Se a mulher de Cabral ajudá-lo, de novo, a roubar R$ 1 bilhão do povo do Rio, inclusive com prêmios por conceder aumento da passagem de ônibus, creio que, pela leitura da lógica do STF, irá para a cadeia. Dura lex sed lex, no cabelo só Gumex, dizia o velho anúncio. A mulher que roubou o xampu deve ser jovem, desconhece slogans publicitários do passado.

Há algum tempo, desisti de esperar uma reação previsível do Supremo. Carmem Lúcia, de vez em quando, me consola prometendo que o clamor das ruas será ouvido.

De vez em quando, sim, o clamor das ruas será ouvido. Mas o sistema politico partidário brasileiro envolve com seus tentáculos os próprios ministros do Supremo. O ubíquo Gilmar Mendes articula leis no Congresso, encontra-se com investigados, discute o preço do boi com Joesley Batista e foi padrinho da casamento de Dona Baratinha, herdeira do clã que enriqueceu cobrando caro para que o povo do Rio viaje nos seus ônibus vagabundos.

A Lava-Jato lançou a ideia de que a lei vale igualmente para todos. É uma ideia tão antiga que pronunciá-la parece apenas repetir um lugar comum. Vencemos a etapa em que o racismo teorizava um código penal para brancos e outro para negros.

Mas a realidade mostra como existe ainda um grande caminho a trilhar. A lei não é igual para todos. Ela afirma que os portadores de diploma universitário têm direito à prisão especial.

E cria uma dessas situações que talvez só possa se resolver numa peça de ficção. Nas cadeias do Rio, em condições tão distintas, os cariocas que Sérgio Cabral arruinou e o novo rico que a corrupção alimentou.

Na realidade concreta do cotidiano, é um conflito insolúvel. A lei vale para todos, contudo, entretanto,você sabe como é, estamos no Brasil, um país que, definitivamente, não tolera roubo de chicletes. Como dizem os defensores do estado de direito, vivemos o perigo de um estado policial. Hoje o chiclete, amanhã um quilo de açúcar, daqui a pouco os homens podem nos levar pelo simples desvio de um milhão de dólares.

No tempo da corrupção, éramos felizes e não sabíamos. Ninguém tinha feito delação premiada. Era possível comprar eleições em nove países do continente e, sobretudo, comprar uma Olimpíada. O complexo de vira-lata foi jogado no lixo; do pingue-pongue ao polo aquático, gritávamos: Brasil, com muito orgulho e muito amor.

Aí, chegou a polícia.

Fernando Gabeira

A pinguela da pinguela

Acordo. Mais uma manhã de crise. No estado. Na cidade. No país. Para onde eu olho, vejo crise. Todos foram roubados e estão com os bolsos vazios matutando por aí. Violência urbana é pouco. Violência institucional é o bicho. Roubaram os impostos de toda a gente. Roubaram nas obras. Roubaram as sobras. Roubaram as passagens de ônibus. Roubaram da cultura, das escolas, dos hospitais. E ergueram um inferno à luz do dia.

Os piores, como diz outro ditado, não são os que ladram. São os que, calados, mordem e enfiam as patas nas goelas para roubar até a comida que já se engoliu. E, junto, roubam a coragem, o espírito, a arte e o ímpeto, agora débil, de construção da cidadania. Quem imaginaria que, já vão três décadas da redemocratização, depois de tudo pelo que se lutou, cairíamos, como uns patos depenados, neste fosso?

Fosse ele só econômico, seria justo olhar para a frente e imaginar que reformas, ideias, vontade política, visão, pactos entre poderes e sociedade (ainda existe isso?), lá adiante, seriam capazes de, sob novo leme, nos levar a um porto mais seguro. Mas é só parar para pensar um segundo: o leme, em que mãos? Chegamos a um ponto em que o retrocesso que nos carregou a tantas léguas da terra firme levou, junto, um continente de conquistas que pareciam asseguradas e, de repente, escoam na arrebentação.


Tudo que se balizou nas fundações de nossa nova democracia cada vez mais velha e menos plena está atolado no limbo da catástrofe ética/moral, e seus fios já não se conectam com uma massa crítica suficientemente forte para produzir, como deveria ser, um debate que integre a sociedade como um todo. E alimente, com sua riqueza e sua energia, uma real transformação.

Sob nova direção, as tripulações das naus executiva e legislativa permanecerão as mesmas e, dos passageiros, acorrentados em porões conjunturais, poucos terão alguma voz. A galé está à mercê dos algozes de sempre.

Ou alguém acredita que, se o presidente cair, seu substituto imediato (cansei de escrever nomes) irá se revelar um grande líder unificador e, quem sabe, alçar ao convés um ministério de notáveis para, num lance de bravo capitão, desfazer a lambança e levantar velas de grandeza altaneira?

Quem crê que uma nova aliança político-partidária, imbuída de renovados sentimentos cívicos (talvez com a ajuda de uma anistia geral e irrestrita), sustentará a travessia, abraçando as melhores plataformas e unindo-se a alguns iluminados (aos quais terá restado certa decência) que, como zumbis, erram pelos ralos das rampas e das esplanadas?

Mesmo assim, por falta de opção e por uma questão de sobrevivência, a maioria tenta se segurar à noção de que, se e quando o presidente cair, e o quanto antes isso ocorrer, estaremos em prontas condições de rearrumar a casa. É uma espera perplexa, exausta, envenenada pela sensação de que é inútil, neste momento, se manifestar como se deve: nas ruas.

Para que, se a inflação está baixa? Deixe estar, que “os outros” resolvem. Aí está a força-tarefa a zelar por nós. O procurador-geral está com a faca na boca e o queijo fatiadinho. É só ir servindo que a turma faz o resto. Ninguém perde por esperar: hoje, amanhã, semana que vem, ou até o Natal, todos os presos ainda renitentes delatarão, políticos, empresários, alguns magistrados, talvez até o próprio presidente, e o ex-presidente, e todos os presidentes, os senadores, os coronéis, os encarcerados, delatarão, e todos os mortos ressuscitarão numa espécie de apocalipse travestido em paraíso.

Com o que ficaremos quando acordarmos desse sonho abissal? O que se fará, até 2018, e depois de 2018, para curar a doença que corroeu o corpo da democracia antes de ela atingir a maturidade? Como dissipar esta nuvem, esta massa de ar empedrado que cismou de estacionar na encruzilhada com um jeito de coisa ruim que nunca mais vai sair? Qualquer olhar mais atento, um ligeiro desvio para o que está dentro da casa pode esfacelar, em segundos, os mais sinceros e otimistas vislumbres de esperança.

O que se pode esperar da geração que está no poder, e das novas que estão chegando? Como manter os olhos abertos e vigilantes e tentar separar joio de trigo quando tudo parece entrelaçado numa mesma teia povoada por criaturas soturnas? Como esperar que a pinguela da pinguela se mantenha de pé se, em quase todo espectro, vicejam ainda o sangue e a lama da grande espoliação?

Há quem tente povoar o deserto com um novo sonho: o de que virá algum grande gestor (ou gestora), líder que, através da negação da política (mas, certamente, não da ideologia), empunhando a varinha mágica da eficiência e a vassoura da objetividade, dará um fim a esta velharia.

Um mundo novo, em que cultura é desperdício, carnaval é o mal, indígenas são vagabundos, Amazônia dá um baita estacionamento, armas para todo mundo etc. Afinal, o parlamento vem avançando nessas matérias, e o Brasil... Ah, é uma tendência! Trump. Macri. Macron? Crise de representatividade. Reciclagem. Sei lá, mil coisas. É melhor deixar vir, e não descuidar do estoque de alho.

Arnaldo Bloch

Gente fora do mapa

O outro lado da Africa

A crise sobe ao pico da montanha

Há perguntas no ar que precisam de respostas: se o presidente da República é tão impopular, tendo apenas 7% de aprovação da sociedade, por que as massas não estão nas ruas exigindo sua deposição?

A economia está separada da política?

Se não, como se explica a retomada gradual da economia, a partir do crescimento de 0,8% da produção industrial em maio e sinais de reativação de outros setores produtivos?

Se o governo vai mal, terá ondições de obter o apoio de parlamentares na CCJ e no plenário da Câmara? Ou lhe faltarão forças para resistir?

As respostas implicam considerações sobre o caráter da política e a índole das classes sociais, tendo como pano de fundo a grandeza do país continental que temos.

Começando com as características da política, é oportuno lembrar que nosso sistema democrático é frouxo, incipiente; as instituições não se fundam sobre eixos sólidos, deixando ver um imenso campo de tensões entre os Poderes; há imensos buracos criados pela CF de 88, não preenchidos por legislação infraconstitucional; a representação política não se investe de convicções doutrinárias; o sistema de governo, o presidencialismo, se funda no poder da caneta (que cimenta as coalizões); o sistema partidário é uma colcha de retalhos, com cerca de 35 siglas que não representam correntes de pensamento; e o processo eleitoral abriga um conjunto de disposições em constante mutação.

Com essa argamassa, o edifício político sofre abalos, flutuando ao sabor das circunstâncias. A crise crônica, que se arrasta desde a fundação da República e cuja origem aponta para a árvore do patrimonialismo (fonte dos “ismos” que corroem os vãos do Estado – o mandonismo, o familismo, o nepotismo, o caciquismo, enfim, o fisiologismo), flui e reflui ao sabor dos ventos.

Chegou ao clímax após a passagem do lulopetismo no comando da Nação, quando se descobriu que as portas do Estado foram abertas para negociatas com círculos empresariais.

No governo Lula, o presidencialismo de coalizão instalou a cooptação parlamentar pela via da ilicitude (“mensalão”).

Ao lado de forte programa de distribuição de renda, que puxou para o meio da pirâmide milhões de pessoas (mérito a ser reconhecido), o lulopetismo também dividiu o país ao meio, agrupando de um lado seus aderentes, designados por “nós”, e jogando no outro lado grupamentos contrários, “eles”, “elites” e parcelas das classes médias.

As estruturas do Estado foram invadidas por hordas do petismo, que fincaram profundas estacas no território público, sob slogans e refrãos pregando ódio. O apartheid social fez ferver os dois caldeirões que passaram a separar a sociedade. A seara política foi tomada por discursos incandescentes. A disputa pelo poder se tornou aguda.

Sob o pano de fundo, viam-se instituições do Estado aprimorando formas de atuação. Fenômeno deflagrado pela CF de 88. O Ministério Público adensou sua missão de defesa da sociedade.

Seus quadros jovens pareciam talhados para a tarefa de “passar o Brasil a limpo”, coisa que fizeram com muita disposição, apesar das críticas sobre o açodamento que hoje caracteriza sua atuação.

Os jovens procuradores adentraram no terreno da política, com a deliberada intenção de lancetar os tumores ali existentes. Identificaram-se os “cancros do poder”, a paisagem devastada por corrupção.

O Judiciário foi acionado de forma mais intensa. E assim, o Poder mais elevado no altar da Pátria, aproximando-se das demandas sociais e saindo da redoma, passou a decidir sobre pautas do cotidiano dos cidadãos.

O alvo mais próximo foi o Legislativo, o poder mais aberto e exposto à cultura da velha política. Ficou sob a lupa de procuradores e as ordens para investigação dadas pelos juízes. Os fios do rolo da política foram se aproximando do Executivo.

O poder da caneta passou a ser monitorado. Denúncias pipocaram por todos os lados. Chegou-se, assim, às “pedaladas fiscais”, uma das razões para o afastamento da presidente Rousseff.

O cenário foi descortinado, deixando ver o descalabro nas contas públicas, uma gigantesca cratera com um rombo de R$ 170 bilhões nas contas do Estado. O vice-presidente assume com o compromisso de liderar um programa de reformas. As expectativas eram animadoras.

Nesse ponto, convém pontuar sobre características da sociedade. A pirâmide social abriga no meio uma forte classe média, de espírito muito aguçado e, nos últimos tempos, disposta a acompanhar de forma mais intensa do processo político. Já nas margens, os contingentes carentes se voltam para a micropolítica, que abriga demandas de caráter imediato – o transporte rápido, o alimento barato, o hospital acessível, a segurança pública.
Identificam-se com o populismo, seus ídolos e protetores, Lula, por exemplo. A crise fomenta a organicidade social. Entidades são criadas para defender políticas públicas, ensaiando o fortalecimento de nossa democracia participativa. Mobilizações explodem. Em 2013, chega-se ao ápice, com grandes movimentos tomando conta das ruas e clamando pela saída da presidente Dilma.

Nos últimos tempos, sob a crise que solapa a crença na política, as massas refluíram sua corrida às ruas. Parecem saturadas e com expectativas frustradas.

A crise política avança na esteira da descoberta de novos escândalos. As reformas começam a sair do papel e a firmar sua imprescindibilidade na cachola social. Vamos, então, a algumas questões inseridas no início do texto. A crise política subiu ao pico da montanha.

O MP e o Judiciário passaram a ganhar o jogo no tabuleiro de xadrez. O presidente da República passou a ser o alvo maior do bombardeio em função de delação premiada e exposição da gravação de uma conversa com um empresário.

Cairá? Resistirá? Nesse momento, o termômetro não deixa ver o grau. Enquanto isso, a economia, descolando-se da política, mostra sinais de recuperação. A população perde o ânimo de ir às ruas, até porque repudia a bandalheira de black-blocks. Fracassam greves comandadas por centrais sindicais.

Que perderam credibilidade. Mesmo com a impopularidade do presidente, as reformas avançam. Persiste a crença de que, sem elas, o futuro será sombrio.

Foguete na rabada

Resultado de imagem para político em foguete charge
                 I
Pobre no frio se acabando,
Já faltou água no pote,
O mato dá na canela,
Se queimou o cabeçote
E um governador melado
Pulando igual um caçote.

              II
Baba-ovo de magote
Com a boca no angu:
- E viva o governador,
Que eu tou mió do que tu!
E a turma do Palácio
Se acabando na Pitu.

           III
Nada se faz de concreto
E haja reunião:
Depois de mais de três horas
De muita aporrinhação,
Vem uma moça do partido
Querendo uma “colocação”.

             IV
O buraco na calçada,
O desemprego na porta,
A água chegou na lama
Que secou a nossa horta
E um aspone indefinido
Dizendo assim: “Eu tô morta!”.

            V
O governante pensando
Que está muito bacana,
O povo torcendo a cara:
- Lá vai o troco, sacana!
E o grande indefecável
Se vendendo por banana!

           VI
A eleição vem aí:
Quem comeu a bananada
Vai dizer que é do povo
E não sabia de nada.
Quem quiser voar sem asa
Pegue um foguete da Nasa
E amarre na rabada!

Vanessa, Samara, Arthur e Eduarda

Cada história dessas é um soco em nossa consciência, é um tiro de fuzil na cidadania brasileira. E tiro de fuzil não é tiro de pistola. Ele destrói o organismo, todo o tecido social em volta. Se nada acontecer – ou apenas retórica vazia –, teremos atingido o fundo do poço civilizatório.

Vanessa, 10 anos, foi morta em casa com um tiro de fuzil na cabeça, em companhia de PMs que disseram ter buscado ali um abrigo. Samara, 14 anos, teve um pulmão perfurado por um tiro de fuzil no pátio da escola e diz que sobreviveu “por milagre”. Arthur foi baleado dentro do útero materno, luta para viver e o mais provável é que fique paraplégico. Maria Eduarda, a Duda, 13 anos, foi morta na quadra esportiva da escola, ao se levantar para beber água no intervalo da educação física. Tudo isso desde o fim de março.

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O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, sente “náusea” ao ouvir a conversa de porão no Palácio presidencial? Ele fica “enjoado” com a gravação entre um presidente e um bandido, entre um bandido e um empresário, ou entre dois bandidos? Eu também fico, Janot. Mas, hoje, minha náusea é com a “bala perdida” que fez 632 vítimas no estado do Rio em seis meses. Sessenta e sete pessoas morreram com um tiro vindo de não sei onde. Em casa, na escola, no trabalho, na rua, no restaurante. Atingidos até antes de nascer.

É guerra, os hospitais sabem disso, mas o governador Pezão só grava declarações, deve meses à PM e aos aposentados. E o prefeito itinerante Crivella vai para Paris, em sua sexta viagem internacional. O secretário estadual de Segurança, Roberto Sá, dá desculpas esfarrapadas e diz que a UPP foi um equívoco e uma utopia.

Mesmo? Logo o Sá, ex-braço direito de José Mariano Beltrame. As balas perdidas, as mortes e os confrontos haviam diminuído muito com as UPPs. O Estado tinha uma estratégia séria e premiada. Mas Sérgio Cabral preferiu investir em joias em vez de fazer sua parte na pacificação. E prossegue a omissão criminosa de Pezão, Crivella e do bunker de bandidos federais engravatados em Brasília, preocupados apenas em salvar mandatos e mordomias.

Vanessa Vitória dos Santos tinha chegado da escola na terça-feira, onde ensaiou para a festa junina. Deixou a mochila rosa com desenho de princesa junto à porta. A madrinha ouviu tiros e viu quando policiais da UPP correram para dentro da casa em que a menina morava com a mãe, o padrasto e dois irmãos, em 10 metros quadrados. “Calma, moço, deixa eu pegar minha afilhada.” Mas Vanessa só teve tempo de dizer que estava com medo. O tiro entrou pela testa e saiu pela nuca. O impacto foi tão forte que ela parou do lado de fora da casa. A mãe, Adriana, se mudou, foi embora com marido e dois filhos. Está com medo.

Samara Gonçalves estava no pátio da escola na quarta-feira quando sentiu um impacto nas costas. “Mãe, se eu me levanto poderia ter sido na minha cabeça, no meu ouvido, Deus me protegeu”, disse a menina. Uma professora a abraçou chorando, avisou a direção, que chamou o Corpo de Bombeiros. Samara vive.

Maria Eduarda Alves da Conceição queria ser atleta de basquete e colecionava medalhas em competições. No pátio da escola, foi morta com dois tiros na cabeça e um nas costas. “Estou sem chão, mataram minha caçula”, disse a mãe, Rosilene, que acabara de dar um celular para a filha de presente. Duda gostava de selfies como toda adolescente e era apaixonada pelo cantor Justin Bieber.

Resposta de Crivella ao Rio? Prometeu erguer muros mais altos na escola de Duda e outras, com argamassa especial contra balas, fabricada nos Estados Unidos. Um espanto. Dos 100 dias de aulas neste ano, em apenas sete dias todas as escolas do município do Rio funcionaram sem interrupção. Tudo por causa da violência. Isso atinge 130 mil estudantes. Quando não mata nem fere, traumatiza.

Arthur nasceria dali a alguns dias. O tiro atravessou o quadril da mãe, Claudineia dos Santos Melo, perfurou um pulmão do bebê e provocou uma lesão na coluna, que pode deixar Arthur sem movimento das pernas. Claudineia saía de uma mercearia na Favela do Lixão, na Baixada Fluminense, quando bandidos atiraram em policiais que faziam patrulha. Ela se salvou. Seu maior sonho, ao receber alta, era “tocar” Arthur.

Desculpe falar disso no fim de semana. Desculpe, porque você não é parente dessas crianças, eu não sou parente dessas crianças, você pode nem morar no Rio ou, se morar, não vive numa casa de 10 metros quadrados na favela como vivia Vanessa, a última vítima de “balas perdidas” enquanto escrevo. Escrevo porque me senti como Janot. Senti náusea com a sucessão de tragédias absurdas e a falta total de solidariedade e de estratégia do poder público, diante das famílias enlutadas pelo horror, no fundo do poço.

Imagem do Dia

Netherlands. Utrecht.
Utrecht (Holanda)