sexta-feira, 16 de junho de 2017

Você tem um estadista no bolso do colete?

O que um bando de malfeitores petistas fez com a jornalista Miriam Leitão a bordo de um avião da Avianca no dia 3 de junho, num voo Brasília/Rio, pode vir a ser um favor ao Brasil.

Grosseiros, violentos, ignorantes, sob o beneplácito de uma tripulação amorfa, os delegados petistas, embarcados em Brasília ao término de um Congresso do PT, ao encontrar Miriam Leitão entre os passageiros do voo que os levaria ao Rio, acharam que esse era o momento ideal para mostrar como pensam e agem os petistas diante da Imprensa.

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Comportaram-se com ódio, foram brutos em gestos, palavras e ações e demonstraram toda sua ignorância ao estender sua fúria à empresa onde Miriam trabalha há muito tempo. Crente que estavam punindo a Rede Globo, gritaram que “quando eles mataram Getúlio o povo foi lá e quebrou a Globo”. Tão politizados são os malfeitores fardados do PT que nem sabem que Getúlio Vargas matou-se em 1954. O ano do sacrifício de Getúlio Vargas não merecia ser esquecido tão depressa, logo pelo partido que se autodenomina do povo.

A Avianca já sabemos o que fez. Nada. Ficou muda e calada durante o voo e, que eu saiba, está muda até hoje. Já o PT, ah! o PT. O que fez o PT com seus encantadores delegados?

Publicou uma nota na qual lamenta o ‘constrangimento’ sofrido pela jornalista. E reclama que várias vezes “muitos integrantes do Partido dos Trabalhadores, inclusive esta senadora, já foram vítimas de semelhante agressão dentro de aviões, aeroportos e em outros locais públicos”. A nota é assinada pela senadora Gleisi Hoffmann, atual presidente do PT.

A senadora petista omite mencionar que foi denunciada por receber um milhão de reais do esquema de propinas da Petrobrás para a campanha de 2010, o que não justificaria ser agredida pela população brasileira em lugar algum, mas pelo menos fundamentaria o desagrado do povo com sua pessoa, ré que é em processo da Lava-Jato.

E por que eu acho que esse triste espetáculo dos malfeitores petistas poderia ser bom para o Brasil? Pelo simples, e talvez ingênuo motivo de que talvez assim os brasileiros não tenham medo da saída de Temer ainda este ano e que não se apavorem com a ideia de eleições antes de 2018.

Acredito que todos os partidos se reúnam para pensar em nomes para lançar como candidatos. Unidos ou desunidos, sabem que o governo Temer está por um fio. Alguns, como os tucanos, acham que antecipar eleições é torcer pela vitória do Lula, o que os deixa muito assustados.

Pois eu tenho para mim que o comportamento dos petistas nos mais variados espaços públicos – em palanques, ruas, praças e até em aviões – só faz diminuir a chance da candidatura do Lula.

Precisamos cuidar do Brasil, escolher o que seria melhor para evitar que o país definhe. Vamos defender o Brasil, lutar para que as novas gerações possam ter um futuro tranquilo, sobrevivendo em paz e segurança sob a batuta de um estadista.

Quem seria esse estadista? Aí é que está o busílis.

Gente fora do mapa

Bamiyan (Afeganistão)

Governo, oposição e a bala de prata

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Há muitos anos, em um dos shows que periodicamente apresentava na linha do "Eu sou o espetáculo", o comediante José Vasconcellos parodiava o ator Gary Cooper subitamente cercado de índios inamistosos. Eram dez mil índios à frente, dez mil à retaguarda, outros dez mil de cada lado. "O que farei?" perguntava, em inglês, simulando o astro hollywoodiano em diálogo consigo mesmo. "O melhor é tornar-me índio também!", concluía.

Lembrei-me do saudoso comediante e do impasse de Gary Cooper ao ponderar nossa situação como cidadãos no quadro político em que nos emolduraram. Nunca vivi cena assim. Ela está bem expressa na imagem que me chegou pelas redes sociais solicitando marcar com "x" a instituição em que mais se poderia confiar. Apresentava, para isso, quatro alternativas: governo, parlamento, judiciário e ... jogo do bicho. Impossível negar que estamos literalmente cercados!

Se buscarmos saídas pelo padrão universal, ou seja, dentro do binômio governo/oposição, salta aos olhos a ausência de alternativas. O que acontece no Brasil é inusitado! Sabe-se, agora, fora de qualquer dúvida, que havia uma organização criminosa dentro do governo e outra na oposição. Com o impeachment, uma parte da que estava no governo juntou-se aos quadrilheiros à espreita nas cavernas da oposição e formou o novo governo. Havia gente boa no anterior? Sim, claro; pouca, mas havia. Há gente boa no novo governo? Sim, claro, pouca, mais há. O problema é que os interesses se polarizam em torno da disputa pelo poder, fazendo com que deixe de existir uma alternativa política respeitável, na qual a nação possa confiar.

Com a cisão da organização criminosa que governava o país foi como se uma cápsula de guerra bacteriológica se rompesse. A peste se alastrou. E o fez com intensidade, atingindo os tribunais superiores, que confundem dignidade com indignação ante qualquer dedo virado para seu lado. Não, cavalheiros, arrogância nunca foi sinônimo de virtude e não é o pedestal que faz o santo.

No curto prazo, nosso rumo está traçado pelo GPS da Constituição. Seremos governados por uma quadrilha, pelo menos até 31 de dezembro de 2018. A situação também não se altera mudando-se a Constituição, como quer o PT com suas joint ventures para eleger Lula. Oportuna e felizmente, logo ali, em outubro do ano que vem, ou seja, dentro de 16 meses, o poder volta às mãos do povo viabilizando a higiênica faxina eleitoral que poderá encurtar, para muitos, a distância entre a Praça dos Três Poderes e a porta da cadeia. E saneando o quadriênio vindouro. No presidencialismo, dia de eleição é a bala de prata quadrienal. Errou, se ferrou.

Enquanto não forem melhorados, assim são os passos da democracia e do Estado de Direito dos quais este colunista não arreda pé. Quem quiser alternativa diferente vá beber noutra caneca.

Somos como Gary Cooper parodiado por José Vasconcellos. Estamos entre dois bandos que se enfrentam. Graças a Deus não precisamos aderir a um deles. Aliás, se me recuso a apontar qualquer um como merecedor de adesão, não hesito em identificar o pior. Muito resumidamente, porque a lista seria imensa, refiro-me ao bando formado por aqueles que:
• apreciam, reverenciam e apoiam financeiramente os regimes cubano e venezuelano;
• sonham com um "marco regulatório" da imprensa, com um "marco civil" da Internet e com um Conselho Federal de Jornalismo para cercear quem os incomode;
• promovem a luta de classes, conflitos raciais, conflitos de gênero, invasões de terra, violência sindical;
• são contra privatizações e responsabilidade fiscal;
• se puderem, criarão os sonhados "Conselhos populares" (sovietes) para esterilizar a representação parlamentar;
• dão refúgio a terroristas, fundaram e comandam o Foro de São Paulo;
• apoiam quaisquer políticos ou filósofos adversários da cultura e da civilização ocidental;
• chamam bandidos de "heróis do povo brasileiro", dão nomes de ruas e constroem memoriais a líderes comunistas;
• têm fobia a órgãos de segurança pública;
• dedicam preferencial atenção aos direitos humanos dos bandidos;
• promovem a ideologização da educação e defendem o direito de fazê-lo;
• são contra a redução da maioridade penal e a favor do desarmamento;
• apoiam a agenda de gênero nas escolas, criaram o kit gay, defendem a liberação do aborto, financiam a marcha da maconha;
• criaram, compreendem e utilizam movimentos sociais como milícias a serviço de suas causas políticas.
Cadeia para todos os corruptos, independentemente das letrinhas partidárias em que estejam acantonados! Toda a atenção para o esclarecimento dos eleitores com vistas ao pleito do ano que vem! Todo empenho por uma reforma institucional com parlamentarismo, voto distrital e cláusula de barreira! O poder não pode voltar às piores mãos! Estamos cercados, mas lutando o bom combate!
Percival Puggina

O longo voo 6237

‘Foram duas horas de gritos, xingamentos, palavras de ordem contra mim e contra a TV Globo. Não eram jovens militantes, eram homens e mulheres representantes partidários. Alguns já em seus cinquenta anos. Fui ameaçada, tive meu nome achincalhado e fui acusada de ter defendido posições que não defendo.” No voo Avianca 6237, durante duas horas, Míriam Leitão tornou-se alvo da hostilidade organizada de grupo — no caso, de delegados do Congresso Nacional do PT. A aeronave converteu-se, assim, em mais um registro numa história secular. O “ato de repúdio” — esse é o nome da coisa — não deve ser confundido com eventos randômicos de agressão politicamente motivada. É um mecanismo de ação política consagrado por regimes e partidos que exercitam, ou almejam, um poder absoluto.

Na Rússia Soviética dos anos 20 do século passado, o “ato de repúdio” acompanhou, como uma sombra, os passos de Trotsky, Zinoviev e outros bolcheviques da velha geração que articulavam movimentos de oposição a Stalin. Desde 1992, a Rússia restaurou a antiga bandeira czarista e a aliança entre o Kremlin e a Igreja Ortodoxa que sustentava os imperadores e hoje sustenta Vladimir Putin — mas não esqueceu o “ato de repúdio”. Alexei Navalny, líder de manifestações contra a corrupção governista, é ritualmente recebido nas estações de trem do interior por chusmas de militantes ultranacionalistas que, sob orientações de cima, lançam-lhe ovos e tomates.

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O “ato de repúdio” sempre obedece a um gesto de comando do alto, mas nunca tem chancela oficial explícita, disfarçando-se de manifestação espontânea. Contudo, a simulação é deliberadamente farsesca. Putin confraterniza com os chefes das gangues “patrióticas” que atacam Navalny, como fazia Stalin com os militantes comunistas encarregados de repudiar seus desafiantes. Ambos, porém, negam ligação direta com os episódios de baderna. A ambiguidade proposital alcança um duplo objetivo: de um lado, preserva a imagem das autoridades ou dirigentes políticos que os instigam; de outro, veicula a eficaz mensagem de que a agressão parte de um temível aparato de poder.

O nazismo e os fascismos europeus conduziram, por meio de milícias semioficiais, incontáveis “atos de repúdio”, que se completavam com espancamentos ou a destruição de jornais, lojas ou residências. Na China da Revolução Cultural, o ritual adquiriu feições de tortura de “inimigos do povo” em praça pública. A ideia básica do “ato de repúdio” não é intimidar a vítima circunstancial, embora isso também eventualmente aconteça, mas propagar uma onda de medo: “você pode ser o próximo”. A finalidade é silenciar, genericamente, o adversário (real ou imaginário). Seu emprego, na democracia, destina-se a suspender a crença de que a divergência faz parte do jogo político normal. No voo 6237, a milícia de delegados petistas erguia uma paliçada em torno de seu partido, delimitando uma fronteira para a crítica.

A blogueira dissidente cubana Yoani Sánchez foi alvo de “atos de repúdio” em Feira de Santana, em 2013. Os bandos de militantes do PT e do PCdoB, narrou Yoani, “seguravam o mesmo documento, contendo um feixe de mentiras a meu respeito” e “repetiam um roteiro vulgar” de slogans gritados em coro “que mesmo em Cuba não mais são ditos”. Não se deve equiparar a agressão verbal de indivíduos malcriados, como os que hostilizaram Guido Mantega, no saguão de um hospital, ou Chico Buarque, numa calçada, com o “ato de repúdio”. Os primeiros agem sós, no calor da hora, sob o impulso de seus desvios de caráter. O segundo é uma operação planejada, codificada e de natureza coletiva. Os agressores de Míriam Leitão encontraram-na fortuitamente no voo 6237, mas agiram guiados por uma tradição política contra um alvo nomeado pelo próprio Lula em diversas ocasiões.

Cuba isto é, o castrismo — está na raiz da prática petista do “ato de repúdio”. Yoani tinha 5 anos, em 1980, durante a crise dos emigrados de Mariel, quando viu, casualmente, pela primeira vez, um “ato de repúdio” no qual “as pessoas berravam e cerravam os punhos à frente da porta de um vizinho”. Depois, ao longo do tempo, como transeunte, vítima ou jornalista, observou dezenas de outros. Nas suas manifestações silenciosas, as Damas de Branco, parentes de presos políticos na Ilha, são invariavelmente circundadas por hordas de funcionários comunistas convocados para “atos de repúdio”. A baderna de Feira de Santana foi articulada a partir de uma reunião na embaixada cubana, em Brasília, da qual participaram assessores parlamentares.

O “ato de repúdio” é uma encenação teatral. Os milicianos — funcionários ou militantes — representam o papel do “povo”. À vítima, cabe o papel involuntário de “inimigo do povo”. A antropologia possui os instrumentos para decifrar os significados simbólicos embutidos na performance, enquanto a psicologia talvez seja capaz de esclarecer as recompensas emocionais obtidas pela horda de “repudiadores”. Mas, no plano político, o espetáculo do “ato de repúdio” ancora-se no lodo do totalitarismo. Que ninguém se engane: o voo Avianca 6237 decolou cem anos atrás.

Demétrio Magnoli

500 barragens ameaçam sufocar o Amazonas

Ao longo do Amazonas existem 140 barragens hidrelétricas em funcionamento ou em construção e outras 428 estão planejadas. Mesmo que no final apenas uma parte delas saia efetivamente do papel, os cientistas acreditam que seu impacto sobre os rios amazônicos será “desastroso”. Um estudo global sobre as consequências de tantas barragens aponta que elas alterarão o curso do rio, retendo a maior parte dos sedimentos e nutrientes fluviais que não produzirão seus efeitos benéficos na planície amazônica, sufocando a vida que depende do rio e do oceano onde acaba.

Tudo no rio Amazonas é desmedido. Seu principal trecho tem cerca de 2.000 quilômetros até a foz no Atlântico, em um estuário com mais de 300 quilômetros de largura. Mas ainda há outros 5.000 quilômetros até o extremo oposto, a nascente nos Andes peruanos, onde correm seus principais afluentes. Alguns, como o Madeira, o Negro ou o Japurá estão entre os 10 maiores rios do planeta. A Bacia Amazônica cobre uma área de 6,1 milhões de km2, 12 vezes maior que a Espanha. E a água que flui pelos rios amazônicos equivale a 20% da água doce líquida da Terra.


Belo Monte, no rio Xingu, será é a terceira do mundo
em geração de energia quando entrar em operação
Apesar de tanta enormidade, nenhum rio sobrevive a 568 barragens. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo do qual participaram de ecologistas a engenheiros, passando por economistas e geólogos de uma dezena de universidades norte-americanas, alemãs, britânicas e brasileiras. Apesar de cada barragem trazer consigo um estudo de impacto ambiental, nunca havia sido estudado o impacto regional de todas as barragens existentes e a construir na Bacia Amazônica. A pesquisa, publicada pela revista Nature, analisa o impacto que elas terão sobre a vida do rio, das inundações sazonais que dão vida à Amazônia, aos sedimentos que deixará de arrastar até a desembocadura.

Os rios não são apenas água. Também carregam grandes quantidades de sedimentos que arrancam de um lado e depositam no outro. Esses sedimentos são o substrato mineral da vida numa enorme região de mais de um milhão de km2, entre zonas úmidas e planícies de aluvião. Em seu último trecho, o Amazonas transporta anualmente entre 800 milhões e 1,2 bilhão de toneladas de lama, areia e argila e pelo menos a metade disso acaba no oceano. Em cada barragem que surgir entre o rio e o mar, uma porcentagem desses sedimentos ficará presa no concreto.

“Lembrem-se do antigo Egito, que dependia dos sedimentos do rio que fertilizavam as terras da planície de aluvião”, diz o pesquisador da Universidade do Texas, em Austin (EUA), e principal autor do estudo, Edgardo Latrubesse. “O Nilo é hoje um rio totalmente regulado de maneira artificial por megarrepresas. É um caso típico que exemplifica os enormes impactos provocados por infraestruturas construídas há várias décadas, que produziram grandes impactos sociais, ambientais e econômicos”, acrescenta o especialista em geomorfologia dos rios. Não é a primeira vez que a situação do Egito moderno é relacionada com a alteração do curso do seu grande rio.

No caso que Latrubesse conhece melhor, o amazônico, o impacto combinado das barragens poderia provocar que mais de 60% dos sedimentos que o rio arrasta fique preso. “No Yangtzé [onde foi levantada a barragem das Três Gargantas], a retenção atualmente já é de mais de 75% e em outros rios, como o alto Paraná, no Brasil, a retenção é superior a 100%. Valores maiores que 70-90% são típicos no mundo. Esperamos algo semelhante no Amazonas se tudo for construído”, afirma.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

No Brasil, é assim: 'Aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei'

O artigo 7º da Declaração Universal dos Direitos Humanos, repetido em termos gerais na Constituição de 1988, reza que "todos são iguais perante à lei, sem distinção de qualquer natureza". No Brasil, entretanto, vale a máxima atribuída a diferentes personalidades, mas normalmente relacionada ao presidente Getúlio Vargas: aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei. Acreditar que os juízes agem com independência e neutralidade é acreditar que nossos políticos legislam visando o bem comum.

No dia 31 de agosto do ano passado, a presidente Dilma Rousseff teve seu mandato cassado, sob a alegação de que ela cometeu crime de responsabilidade ao editar três decretos de créditos suplementares sem autorização do Congresso e ao atrasar o repasse de recursos do Tesouro a bancos públicos para pagamento de programas sociais, no que ficou conhecido como "pedaladas fiscais". Campanhas histéricas acusavam seu governo de corrupção, e, no entanto, Dilma perdeu o mandato por questiúnculas técnicas que ninguém até hoje conseguiu me explicar direito.


Tão confusa mostrou-se aquela votação que, embora os senadores entendessem que a presidente Dilma Rousseff cometeu um crime – o que ocasionou a punição com sua destituição do cargo -, eles recusaram a aplicar-lhe a pena, que a tornaria inelegível para cargos públicos por oito anos. Numa espetacular amostra de como funciona o jeitinho brasileiro, cassaram seu mandato ao mesmo tempo em que preservavam os direitos políticos.

Assim como é impossível aceitar que o Congresso tomou sua resolução contra Dilma Rousseff baseado em rigorosa documentação contábil – e não em inconfessáveis interesses escusos -, é impossível entender que a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tenha se escorado em critérios objetivos e não em razões políticas. Dizendo-se preocupado com nossa democracia, o ministro do Supremo Tribunal Federal, e presidente do TSE, Gilmar Mendes, alertou para o fato de que, aos olhos estrangeiros, temos produzido mais cassações agora que durante o período da ditadura...

Aceitando as considerações dos advogados de defesa, tanto de Dilma Rousseff quanto de seu vice, de não arrolar na acusação documentos e depoimentos que mostravam à exaustão a existência de um sistema de pagamento de propinas para a abastecer a chapa vencedora das eleições de 2014, os ministros do Tribunal Superior Eleitoral, capitaneados por Gilmar Mendes, livraram Michel Temer da cassação e, ironicamente, mantiveram a presidente cassada elegível nas próximas eleições.

Antes, no dia 25 de maio, o juiz Sergio Moro havia inocentado a mulher do deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), Claudia Cruz, da acusação de crime de lavagem de dinheiro e evasão de divisas na Operação Lava Jato. De acordo com o Ministério Público Federal, Claudia Cruz teria recebido em uma conta secreta na Suíça mais de US$ 1 milhão proveniente de propina recebida por seu marido. Esse dinheiro teria sido usado na compra de artigos de luxo e despesas em viagens internacionais.

Em seu despacho, Moro considerou a atitude de Claudia Cruz "altamente reprovável", seus gastos "extravagantes" e "inconsistentes" com a renda de um agente público, no caso, Eduardo Cunha, mas não viu dolo em sua atitude. O juiz acatou o argumento de Claudia Cruz de que, embora jornalista, em casa conservava-se apenas como "esposa e mãe": "é bastante plausível a sua alegação de que a gestão financeira da família era de responsabilidade do marido", escreveu.

A ministra do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Maria Thereza de Assis Moura, já havia, em março, autorizado a advogada Adriana Ancelmo, mulher do ex-governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral, a cumprir prisão domiciliar, sob o argumento de que ela tem que se manter ao lado dos filhos menores (de 11 e 14 anos). Adriana Ancelmo tem 45 acusações por lavagem de dinheiro desviado dos cofres públicos – Cabral é réu em 10 processos por corrupção.

No Brasil é assim: a Justiça é para quem pode...

Equipe econômica já olha enviesado para Temer

O jantar oferecido por Michel Temer a 16 governadortes e quatro vice-governadores marcou o início de um espetáculo novo em Brasília. Nele, a austeridade fiscal do governo subiu no telhado. O presidente tem uma prioridade mais urgente do que zelar pelo equilíbrio das contas. Seu objetivo estratégico é não cair. E Temer deixa claro que, para barrar na Câmara a denúncia por corrupção que a Procuradoria fará contra ele, lançará mão de todos os estratagemas —inclusive abrir os cofres do bom e velho BNDES para os governos estaduais, renegociando R$ 50 bilhões em dívidas.

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A movimentação de Temer deixa de cabelo em pé parte da equipe econômica. A turma da Fazenda e do Banco Central já olha de rabo de olho para o Planalto. Há, claramente, o receio de que saiam da caixa de mágicas de Temer providências com potencial para comprometer a gestão da economia num instante em que investidores nacionais e estrangeiros desconfiam das intenções de Brasília. Para um país que tenta sair da recessão, desconfiança é sinônimo de veneno.

Não se sabe o que Temer disse ao ministro Henrique Meirelles para convencê-lo de que ainda não jogou a austeridade pela janela. Sabe-se, porém, o que o ministro da Fazenda prometeu à plateia: fechar o ano de 2017 com um déficit de R$ 139 bilhões nas contas públicas. E a inclusão do BNDES na fogueira da política não orna com esse compromisso. Hoje, a calmaria precária do mercado financeiro é atribuído à equipe econômica. Desacreditado, o presidente não tem um ministro da Fazenda. É Meirelles quem tem o presidente. Temer ainda não se deu conta. Mas pode estar comprando um problema novo.

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Phuktal, Índia
Tibet

Maior participação feminina traria R$ 382 bi à economia até 2025

O Brasil pode expandir sua economia em até R$ 382 bilhões ao longo de oito anos se aumentar a inserção das mulheres no mercado de trabalho em um quarto até 2025, estima a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Diminuir em 25% a desigualdade de gênero no mercado de trabalho até 2025 é um compromisso dos países-membros do G20, do qual o país faz parte. Segundo a OIT, isso traria um incremento acumulado de 3,3% ao Produto Interno Bruto brasileiro ao longo do período.

As estimativas apontam que se a participação feminina crescesse 5,5 pontos percentuais, o mercado de trabalho brasileiro ganharia uma mão de obra de 5,1 milhões de mulheres.

Os dados foram divulgados junto ao relatório global sobre a participação feminina no mercado de trabalho, publicado nesta quarta-feira.

A inserção das mulheres na economia levaria ao aumento no poder de consumo de bens e serviços das famílias, bem como ao aumento de recolhimentos de tributos sobre renda. A OIT estima que a injeção de capital resultante da inserção feminina na economia possa acrescentar R$ 131 bilhões em receita tributária à União brasileira ao longo dos oito anos em questão.

Em entrevista à BBC Brasil, a técnica da OIT em princípios e direitos fundamentais do trabalho,Thaís Dumêt Faria, afirmou que o estudo atesta que é possível gerar riqueza por meio de inclusão social. "Um país consegue se desenvolver numa situação de igualdade e justiça social e ganha também em relação a produtividade e PIB", afirmou.

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Faria diz que é possível incluir as mulheres no mercado de trabalho por meio de iniciativas públicas e privadas. "É importante focar na escolaridade, porque sabemos que muitas meninas abandonam a escola por questão de gravidez ou problemas familiares. Isso ainda é uma realidade. É importante também ter projetos, como fóruns de empresas. São iniciativas empresariais que buscam fazer um diagnóstico no seu quadro de funcionários e identificar onde estão as maiores disparidades."
Mais do que números

Para ela, "não é só uma questão numérica, (mas sim) de inclusão realmente na sua forma integral. É possível que haja 50% de homens e 50% de mulheres em uma empresa, mas que as mulheres ocupem cargos menores, sem acesso aos cargos de direção. Isso não é uma situação de igualdade", exemplifica.

O documento da OIT avaliou que apenas 56% das mulheres em idade economicamente ativa estão empregadas no Brasil. Em contraste, por exemplo, 78,2% dos homens estão trabalhando. No resto do mundo a participação feminina é de 49,4% e a masculina de 79,1%. A diferença entre gêneros em pontos percentuais arredondados é menor no Brasil (22) do que no mundo (26).

Para conseguir o incremento de renda, Faria e a OIT recomendam adotar políticas que garantam maior segurança social e acesso à educação para mulheres e seus dependentes. "Elas não têm nenhum tipo de proteção social. Se adoecem, elas não têm nenhum benefício, porque não contribuem, então - como são chefes de família - a família inteira fica desamparada e você acaba fortalecendo um ciclo de pobreza".

"São exatamente essas mulheres que deveriam estar inseridas no mercado de trabalho formal, com todas as garantias trabalhistas: em caso doença, de acidente, de morte. Enfim, elas têm os filhos para cuidar, se considerarmos que 41,5% delas são chefes de família", conclui.

No Brasil, o grupo de mulheres que enfrenta maior vulnerabilidade é o das trabalhadoras domésticas. "Temos dados de 2014 que mostram que 92% dos trabalhadores domésticos são mulheres, dessas 60% são negras e 41,5% são chefes de família e 40% são diaristas, ou seja, o nível de informalidade dessas mulheres dos grupos mais pobres é muito maior".

"Existe um recorte racial muito grande, que reforça a pobreza de um grupo social", prossegue ela, explicando que, nesse ciclo de pobreza, filhos de trabalhadores em situação precária precisam trabalhar para ajudar no sustento da família e, sem estudo, veem-se sem opções de ascensão social.

Na região das Américas o estudo afirma que, entre 1997 e 2017, a inclusão se deu pelo viés do desemprego. Não foram gerados muitos novos empregos para mulheres - elas simplesmente foram menos demitidas do que os homens. Especialmente na última década, 2007-2017, as taxas de desemprego masculino subiram mais rapidamente do que o feminino, afirma a OIT.

Freud, Rousseau ou Darwin?

O que desanima no Brasil é que a unica discussão que interessa nunca chega a começar. Dos promotores de Curitiba ao ultimo dos indignados das ruas todo mundo age como se pensasse que o estado é uma instituição naturalmente benfazeja, o que o torna mau é apenas o fato dele não estar nas “minhas” mãos.

Podem roubar a Petrobras e todas as brases até o ultimo tostão, entra partido, sai partido, e ninguém pronuncia, jamais, a palavra privatização. Querem que você acredite que o fim ultimo de toda essa roubalheira por meio de interpostas pessoas (Odecrechts e ésleys) criadas pelo pai de todos os ladrões que levou a coisa às proporções de hoje, ou mesmo só a dos modestos “indicados” de cada polítiquinho de bairro de sempre a partir das quais ele projetou os seus delírios de grandeza, é só a acumulação de dinheiro; a “ganância dos capitalistas”.

O estado, portanto, não precisa de reforma, precisa apenas de “limpeza”. É assim que a Lava Jato, de meio vira fim, e nós continuamos fora da discussão que, ha 241 anos, abriu as portas da modernidade.


Teve um discurso de Julio Mesquita Flho quando voltou do exílio e recebeu o jornal O Estado de S. Paulo, que tinha sido ocupado militarmente por Getulio Vargas de volta, em que, na ressaca da 1a e da 2a Guerra Mundiais e para reafirmar o “repudio a toda afirmação categórica … ao apriorismo político e às concepções tendentes a deformar as sociedades segundo modelos pré-concebidos”, ele partia da negação de Rousseau, para quem o homem é naturalmente bom e a sociedade (ou a propriedade) é que o corrompe para chegar a Freud, para quem a verdade é o contrário, o homem é fera e a civilização é que o domestica.

Pois eu vou logo para Darwin.

O que faz o poder político valer tão ilimitadamente tanto no Brasil? A resposta está implícita na pergunta: o fato de, para quem, como nós, continua se pondo fora da modernidade, ele ser absolutamente ilimitado. Existe o poderzinho de receber um privilégio, zinho ou zão, que apenas corrompe. E existe o poder ilimitado de outorgar esses privilégios, zinhos ou zões, que corrompe absolutamente.

É experimentar e morrer.

Enquanto existir dentro do território nacional uma área onde pondo um pé uma vez o sujeito não precisa nunca mais entregar resultados, nem temer perder o emprego, nem mesmo ter medo da lei, o Brasil não terá salvação. Será apenas e tão somente o país dos concurseiros, de um lado, e de quem faz o concursismo continuar tendo sentido, do outro.

E o resto seguirá sendo pasto para ser pastado.

O impacto psicológico de anos de notícias negativas em nossa vida

A instigante pergunta que está implícita no título acima foi feita pelo jornalista Fernando Gabeira, logo no início de sua coluna, no último domingo, no jornal “O Globo”. Ao lê-la, imaginei logo esta outra, personalizada, que diz respeito a cada um dos brasileiros: qual seria o impacto psicológico de anos de notícias negativas na vida de quem, como eu, por exemplo, já dobrou faz algum tempo o cabo da Boa Esperança?

Uma pergunta, sem dúvida, para psiquiatra, mas a resposta não é nem um pouco difícil. Por ora, quero dizer que dobrar o cabo da Boa Esperança não é para qualquer um nem é fruto de decisão pessoal. A medicina põe a nossa disposição alguns truques, que podem tornar essa viagem desafiante – que é a vida – mais fácil. A receita para quem não deseja vencê-la é simples, mas sofrível: basta morrer jovem...

Imagino, também, o elevadíssimo nível de ansiedade no qual devem estar os que, sobretudo por dever de ofício, tratam desse inenarrável “psicodrama político-policial”. É um sofrimento terrível e diário. Padecem desse mesmo sofrimento os leitores que o acompanham em cada cena, em cada lance, em cada busca do equilíbrio. São eles, além de incentivadores, grandes patriotas. Nunca perdem a fé no país.

Outro dia, um amigo, que já dobrou o cabo da Boa Esperança antes de mim, dono de saúde física, mental e intelectual invejável, me revelou que, ultimamente, anda fazendo algumas difíceis avaliações sobre nosso país. Elas soam, disse ele, pessimistas na maior parte das pessoas, sobretudo da família. E continuou, me perguntando, depois de muitas outras considerações, em espontâneo desabafo: “Será que vale a pena viver muito, mesmo sendo consumido aos poucos pela preocupação com o que poderá acontecer de péssimo a nossos descendentes? Talvez o melhor seja ficar por aqui, encerrar de vez a caminhada e jamais insistir para esticá-la mais um pouco”, afirmou ele.

“Ouvi do meu pai, quando menino”, finalizou meu amigo, “a afirmação de que o Brasil, um dia, seria grandioso. Confesso que já fiz a mesma afirmação aos meus filhos. E hoje constato, tristemente, que meus filhos têm dito aos meus netos o que eu disse a eles, embora talvez menos convencidos de que isso um dia de fato ocorrerá. De lá até aqui já se passaram mais de cem anos! E esse dia não chega!”

Claro que não é bem assim, e ele sabe muito bem disso. O otimista considera que um processo civilizatório não dura menos do que cem anos, podendo, a partir dos 50 anos, vislumbrar-se a linha tênue do futuro. O pessimista acha que leva séculos. Para mim e meu amigo, que vivemos outros tempos, tão ou mais brabos do que o atual, o Brasil ainda comemorará esse dia. E a educação será sua mola mestra.

E não adianta jogar a culpa na política, pois sem ela não haverá salvação nem futuro. As estúpidas agressões sofridas pela jornalista Míriam Leitão, que cumpre sua missão com admirável competência e dedicação, em voo entre Brasília e Rio de Janeiro, perpetradas por um grupo de delegados e militantes do PT, são provas insofismáveis de que o mal está incrustado na sociedade brasileira como um todo. Os políticos são apenas reflexos dessa sociedade. Não será por meio da divisão dos brasileiros que melhoraremos o país. Nossa salvação está no respeito que cada um de nós deve a seu semelhante.

Só o consenso nos levará a bom termo. Chegou a hora de pensarmos, com despojamento, no futuro de nosso país. Nesse jogo, que é a política, ninguém é totalmente inocente nem totalmente culpado.

quarta-feira, 14 de junho de 2017


Por que não compraram o país?

Outro dia um jornalista me perguntou por que nós, brasileiros, jogamos lixo na rua. Respondi pela infinitésima vez que — entre nós — preceitos feitos na intimidade da casa e entre amigos interferiam e geralmente tornavam-se mais importantes do que o civismo das ruas. Completei observando que tais hábitos são semiconscientes e, até hoje, não são percebidos como tendo poder de coerção pela maioria e até mesmo por muitos estudiosos da vida nacional. Para muitos, temos apenas “vida”, e não uma “vida social” com suas singularidades, constrições e linguagens.

Mas onde devo jogar o lixo? Se o devolvo à rua, estou apenas seguindo a lógica que comanda tirá-lo da casa, cuja “limpeza” deve ser impecável. A casa — e isso é básico — prevalece sobre a rua quando se trata de certos tipos de lixo. O lixo, tal como o luxo, tanto quanto leis, pessoas e instituições, é hierarquizado. Temos lixos “nojentos” — o mais sujo da sujeira — produzidos na cozinha e no banheiro cujo destino não deve ser nem a rua. O lixo jogado na calçada do vizinho é o que sai das limpezas periódicas da casa: papel, caixas, poeira ou resíduos de um “sujo” que não produz nojo.

Num condomínio no qual tenho feito pesquisas, é comum jogar lixo seco na calçada do vizinho. Afinal, fora da casa, o problema não é nosso, mas do governo. Felizmente, nem todos fazem isso. Mas, algumas vezes, cogitaram chamar a polícia. Mas e se a polícia também toma partido? Se todos têm os mesmos direitos, mas os deveres jamais são discutidos, a questão é saber se todos temos apenas direitos e nenhum dever. O que promoveria a reencarnação do nosso escravismo e das imunidades aristocráticas e monárquicas que — e essa é a questão — a República liquidou.

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O que isso tema a ver com o meu título?

Estamos nos aproximando do meio do século XXI e ainda não apreendemos que no capitalismo voraz e individualista a única solução é honrar as regras do jogo e confiar nos juízes.

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Toda democracia é imperfeita, mas ela pode corrigir-se. Penso que o nosso erro histórico-sociológico tem sido imaginar que se pode modificar a sociedade por meio do Estado. Como se leis impessoais, como revelou a axiomática jurídica luso-brasileira exibida nestes dias, pudessem corrigir e erradicar elos pessoais fundados no empenho, na propina e numa secular reciprocidade. A Constituição é, sem dúvida, cidadã. Mas onde estão os cidadãos neste país no qual a malandragem e o tirar vantagem de tudo é um valor?

Neste Brasil onde o conflito não é entre o capital e o trabalho, mas também e sobretudo entre o dinheiro e a política, com o agravo que a política pode ser comprada a grama, quilo e tonelada?

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Tudo isso para perguntar: por que os bilionários brasileiros que — com ajuda de bancos oficiais, fundos de pensão e partidos do governo em pleno e revolucionário poder — compraram presidentes, guerrilheiros, decretos, senadores, deputados, governadores, juízes, promotores, policiais e demais autoridades, não compraram logo o país?

Se a autoridade pública se avalia dona do Brasil e tem motivos para tanto, pois reside em palácios e só tem consciência dos seus direitos, por que não vender logo o país para tal ou qual grupo? Não seria mais honesto vender a nação para a direita ou para a esquerda quando se revela que há um jogo de compra e venda nos bastidores?

O problema não é simplesmente domesticar o capitalismo globalizado capaz de criar insuportáveis desigualdades, além de ser capaz de ferir mortalmente o planeta. Não! A questão é como domesticar a tal “política” que, na politicagem pornográfica (porque barata ela sempre foi e será), neutraliza qualquer justiça e, com a sua aura aristocrática, leva à pior das incertezas: aquela que faz duvidar da igualdade como um valor.

Pois como se sabe aqui em Niterói, não há justiça sem igualdade.

Apesar de todos esses conflitos escandalosos que mostram como nós gostamos de bater em cavalo morto, temos fatos novos. O primeiro é a consciência de que, sem o governo da lei, não há democracia igualitária. Já o segundo é algo inusitado: a prisão dos poderosos. A fria cadeia que horroriza a todos nós, tisnados que somos pelo modelito segundo o qual os ricos e os governantes jamais vão em cana — porque eles não eram presos, julgados ou acusados de coisa alguma.

Esse poder de singularizar negativamente pela privação da liberdade e pelo desmascaramento dos crimes — alguns com tonalidades patológicas — contra o bem comum é a nossa revolução. Com ela, reafirmamos que o governo tem limites e que até mesmo o poder tem que se submeter a alguma forma de moralidade. Aquilo que no universo das democracias é conhecido como opinião pública.

Roberto DaMatta

Diálogo noturno com um homem vil

No Palácio Alto, olhos abertos refletiam nos espelhos. No Palácio Baixo, melhorar a economia arrefecia a crise da democracia.

O país poderia voltar a lutar pela normalidade, se pedantes da ordem não preparassem uma desordem. O partidarismo tudo domina, as instituições sumiram atrás das pessoas, na metafísica política um Poder ataca o outro sem partilhar o segredo que o motiva.

Foi assim, como num paraíso perdido, que poderosos se uniram aos que os odeiam para envenenar o governante.

– Como pode, você na minha presença?

– Ora, autoridade. Use com outro sua astúcia. Quem se sente só em Palácio de Espelho? O poder reflete também o objeto caído. Somos eco um do outro.

– Por que a audácia de argumento tão vertiginoso?

– A profundeza sem fundo das altas autoridades do período. Somos o arquétipo do bem-sucedido pelas facilidades do poder. Preciso agregar meu interesse particular a seu juízo individual. Sabe você que a exploração pessoal das ligações funcionais é toda nossa cultura. Você é um axioma. Eu tenho dono. Meu cifrão é mar sombrio, usufruto vulgar dessa sina que preciso proteger.

– Sou da Justiça, por que me impõe a tirania da tal conversação?

– Afeição pela dissidência. Jogamos com ambiguidade, sentimento de aversão, o esporte preferido da política, a mesma índole do acusador. Hospitaleiramente, entrei pela garagem. Assim o farei mais tarde para aplicar nele o veneno. Mas como minha liberdade está nas mãos dos que acuso, entregarei, com indecente pressa, a prova que combinamos construir.

– Tonto, cala a boca. São desvios humanos o que parece índole. Aparência não é similitude. Fizeram-me duro, mas sem a companhia do poder sou descosido. Quanto a você, sua força é essa moral molenga do interesseiro. Falas como se estivesses ciente da sentença...

– Estão dessacralizados todos os Poderes. A sordidez nos une. O processo mental de vocês mira o talento dos desregrados. Acaba fazendo bem e mal cúmplices na intenção de julgar. Mas se tal virtude visa a infelicidade da política, faça a conta de quem somos e fique tranquilo de tomar nosso partido.

– Compreendo. Precisamos do Palácio dos Olhos Vendados para definir a exceção. Eles gostam de ser vistos separados para impor sua própria versão das coisas. Vou lisonjear esse egoísmo. Quando ficar claro que “não é na prisão que se deplora a perfídia dos homens: é na roda dos príncipes”, sentirão vergonha do jogo de dados que praticam com a nação.

Apesar da luva de pelica foi possível ouvir o argumento.

– Somos os autos. Individuais somos rápidos. Não nos devemos amoldar às mistificações. Mas entendi que era praxe condenar o criminoso, não o recalcar em nosso meio. Sinto um certo fascínio na ideia de colocar o mais alto cargo no solo do delito. E a moral, em tudo isso? Será que estamos na idade de aplicar um golpe tão baixo no país?

– Não seja anjo, é uma conjuração para apagar a esquisita benevolência de financiar desonestos. Não há risco, vamos atacar políticos, a parte maldita desse tempo. Basta os acusar, nasce o transgressor. Vamos fazer o crime travar o combate para a Justiça. Vigiamos a fronteira do futuro, desmoralizamos o boçal que crê na lei. Somos o privilégio, o passado que não passa. A confusão também ajuda a deter o rigor do jovem juiz e sua alcateia moralista que ameaça bisbilhotar o grande banco.

– Oh, Deus, topo, farei da erosão de regras a sentença. Do susto sumário, um rito, grau zero do discernimento.

– Obrigado. Me dê carga de cavalaria que te dou a cabeça que me pede. Troco o expurgo pela minha alma.

– Verás a feiura da desordem de que a cobiça é capaz. Vamos empanturrar a plebe com flagrantes. Comer o crime de forma ostentatória, perpetuar o círculo intimidatório. E levaremos ao exílio seu iate. (Risos.)

– Show. Sou de vocês a última hora. Como a maldade do poder exala bem suas exigências emocionais. Tudo aceito, até subornei seus auxiliares. Mas por que tenho de assumir tal empreitada de envenenar quem nós três queremos morto?

– Não subestime o que é estarmos tão perto do fedor do vil encargo. Entenda, seu celerado, renunciamos ao privilégio de fazer sozinhos. Há maior glória do que o crime compartir com a Justiça a injustiça?

– Necessito outro desatino. Protejam quem me fez bilionário e tornem secundários os problemas do charlatão que ao povo agrada...

– Construiremos um Gulag para ele! O chefe da Fazenda guardará moeda suja. Mas como confiar no seu silêncio?

– Ora, ele nos fez escandalosamente ganhadores. Aproveite, que a honra está em grande dispersão.

– Como é estranha a coincidência de propósitos. Foi ele que me deu a cortiça, eu fiz a rolha. Recebi numa moeda, converti na outra. Tirou do banco do povo, depositei no banco de outro povo. É mais do que na Paz Romana. Juízo, todos sabem que ele não lê currículos, escolhe por temperamento, espera ser bem tratado...

– Como assim, seu tenebroso...?

– Mantenha a forma escorregadia como o tratam, aceitando que escarneça da Justiça. Há gente demais para devolver o excesso que o fez cativante. Ofereça logo a taça enfeitiçada, o fluxo desejante da cadeira que cobiçam.

– Saia daqui, faça sua parte.

Pouco tempo depois ele chegou excitado com a fruta mordida.

– Está feito! Eis o gravador, nossa maçã, igual fortuna nos une, não há grau onde o destino nos desuna.

Quando vozes de um jogral ensaiado vieram à tona, os elos da dissimulação formaram a corrente que insultou a razão. Os opostos se uniram e um só comentário aprisionou a pátria na versão.

Sem o menor embate, e são, ele deu adeus à autoridade. E os tranquilizou:

– O mundo da explicação não é o mundo da verdade. Realizamos grande missão, para homens pequenos que somos.

E o que parecia ser um fato jurídico era um fato da má civilização que nos domina.

Gente fora do mapa

...:

Ansiedade nacional bruta

O que será de nós? É uma pergunta que ouço com frequência nas ruas, feiras e bares. Respondo com um discreto otimismo. Ninguém exige precisão na resposta, pois todos sabem quão nebuloso é o momento… Mas o que vejo na face e nos olhos das pessoas é ansiedade. Não tenho condições de estudar o assunto mais amplamente. Creio que outros o farão: qual o impacto psicológico de anos de notícias negativas na vida de um país?

A decomposição do sistema político eleitoral é uma novela longa e arrastada. Um roteirista de cinema já teria acabado com ela para não aborrecer os espectadores. Ainda que fosse uma série, do tipo “House of cards”, ele certamente estaria pensando em férias para escrever a nova temporada.

O ritmo dos acontecimentos no Brasil depende dos trâmites da Justiça. Além disso, as evidentes mentiras se arrastam. Quem acompanha fica irritado, sabe que não é bem aquilo, mas o processo legal não pode ser concluído como uma novela.

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Minha experiência pessoal é a de que o trabalho em campo me diverte e que os momentos de lazer, diante do noticiário, trazem mais ansiedade. Se é assim com todos, imagino como estão os que não perdem, por interesse ou dever de ofício, um simples lance do psicodrama político-policial.

A experiência histórica talvez possa nos confortar. Isaac Deutscher, na célebre biografia de Trótski, oferece uma boa pista. Ele afirma que certas forças políticas tomam decisões estúpidas, não porque sejam necessariamente pouco inteligentes, mas sim porque sua margem de manobra torna-se muito estreita na crise.

Isso aconteceu com Dilma e acontece agora com Temer. Basta analisar a sucessão de erros que seus movimentos defensivos provocam para dizer que, nessas circunstâncias, o maior adversário de Temer é sua própria cabeça.

Temer substituiu o ministro da Justiça e esqueceu de comunicar ao que saía, tal a pressa em conter o avanço da PF. Demitido sem honras, o ministro voltou à sua cadeira no Parlamento e desalojou Rodrigo Rocha Loures, o homem da mala de Temer. Resultado: Temer não conseguirá controlar a PF, e um dos seus cúmplices está preso, sob o risco de delação premiada.

E como se não bastassem tantas saídas estúpidas, Temer desmentiu a notícia de que viajou num avião de Joesley Batista para, logo em seguida, admitir que o fez sem, contudo, saber quem era o dono do avião ou quem pagava pela viagem. Sabemos que é mentira, inclusive Temer. Nesse momento, já não se preocupa mais com credibilidade, apenas a se agarrar ao cargo.

O julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE foi mais um momento em que fatos exasperam e provocam enjoo de estômago nos espectadores. O ministro Herman Benjamin fez um excelente trabalho, mas desde o início o resultado final do julgamento já estava definido.

A Odebrecht constava da petição inicial, Herman Benjamin realizou audiências na presença de todos, mas os juízes pró-Temer consideram que os dados da Odebrecht deveriam ser retirados do processo. Ambos argumentos, de defesa e acusação, podem ser desenvolvidos ad nauseam, inclusive com citações de juristas, professores acadêmicos e o diabo a quatro.

Herman Benjamin apenas cumpriu seu trabalho, foi atrás da verdade, respeitando a petição inicial que se referia à Odebrecht várias vezes. O que aconteceu depois, com as delações, foram novas evidências perfeitamente articuladas com as denúncias.

Ao excluir as evidências da Odebrecht, os ministros não negam sua realidade, apenas acham que chegaram tarde demais. Fora dos prazos.

O julgamento nos ajuda a compreender que não estamos diante de um fenômeno linear no Brasil, do tipo todos contra a corrupção. Na verdade, existe muita gente do lado de lá. Em, primeiro lugar os próprios corruptos, que sonham com a impunidade.

Todas as maiores forças políticas são contra a Lava-Jato. Lula tentou bombardeá-la, e ouvimos suas lamúrias, nos grampos da PF, sobre a passividade do STF. O PMDB tentou, e as gravações colhidas na delação premiada de Sérgio Machado indicam que a cúpula do partido queria deter a Lava-Jato. Aécio Neves, na época presidente do PSDB, também foi descoberto, em grampos, articulando anistia ao caixa dois e leis que inibem juízes e promotores.

Em torno do PT existe um grande número de militantes que acreditam que a Lava-Jato é apenas um processo de perseguição a Lula e seus líderes. Admitir a verdade obrigaria a um exame muito profundo da própria situação, assim como foram as denúncias dos crimes de Stálin. Para não ameaçar o edifício ideológico é melhor ignorar suas mazelas.

A Era do Centro

Se a Era dos Extremos, com suas catástrofes, crises econômicas, guerras, revoluções e polarização ideológica, teve como marco temporal a Sarajevo de 1914 e de 1991, é bem possível que a larga maioria conquistada por Emmanuel Macron nas eleições para a Assembleia Nacional Francesa venha a ser entendida, no futuro, como o limiar da Era do Centro.

Nela, os extremos expressam contratendências regressivas, que tendem a perder densidade por não responderem aos desafios de um planeta em reorganização.

A base material do mundo está em mutação, as classes sociais se fragmentaram, o “chão de fábrica” é inteiramente diferente da época do fordismo, a ideia de rupturas perdeu sentido, mas as forças tradicionais, à esquerda e à direita, não percebem que “uma nova mudança em breve vai acontecer e que o passado é uma roupa que não nos serve mais”, como já cantava o visionário Belchior, em 1976.
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Com um programa abertamente reformista, pró Europa e globalizante, Macron é o primeiro político a responder às profundas mudanças no modo de produzir, de pensar e de agir desse início do século vinte e um, e a criar uma alternativa à grave crise dos partidos paquidérmicos. O futuro é a França de Macron, não é a América de Donald Trump. Não é a América voltar a ser grande, mas sim “o nosso planeta tornar-se grande”.

Os números da eleição parlamentar da França falam por si só. Há um mês, quando Macron se elegeu no segundo turno, a estimativa era de que provavelmente teria de fazer um governo de coabitação, pois não conseguiria maioria na eleição para a Assembleia Nacional.

As urnas revelaram exatamente o inverso.

Enquanto a Liderança República Em Frente conquistará de 415 a 455 cadeiras, o secular Partido Socialista, de centro-esquerda, obterá entre 20 a 30 cadeiras, cerca de um décimo das 284 cadeiras atuais. Os Republicanos de De Gaule e Sarkozy também levaram um tombo, vão cair de 199 assentos para 70 a 110 cadeiras.

A extrema-esquerda de Jean-Luc Mélenchon, em aliança com o Partido Comunista Francês, terá de 8 a 18 deputados, portanto, condenada ao gueto. E a Frente Nacional de Marine Le Pen, o fantasma que rondava a França, poderá ter 1 ou 5 assentos. O pífio desempenho da extrema-direita francesa não é um fato isolado. Na eleição inglesa da semana passada a UKIP – o líder do Brexit – teve desempenho vexaminoso.

“Macron reduziu a pó a eterna polarização esquerda-direita e sua vitória pode ser entendida como uma nova revolução francesa”, como a definiu Marcos Cavalcanti, da UFRJ e membro fundador do The New Club of Paris. Segundo ele, os franceses “não estão ‘cansados da política’”. Eles estão cansados desta política “velha e ultrapassada” e “o resultado das eleições francesas é mais um sinal evidente de uma revolução em curso o advento da sociedade do conhecimento, em rede e o fim da hegemonia do pensamento cartesiano e dual”.

No caso do Brasil, a crise do pensamento bipolar e de representação tem os mesmos componentes estruturais da crise dos partidos tradicionais da França, adicionada de nossas particularidades – temos uma constelação de legendas disformes e desprovidas de conteúdo – e agravadas pela profunda crise política, ética e econômica.

Há no país um amplo leque cansado de polarizações esquerda-direita, PT-PSDB, nós contra eles –, mas o centro democrático se encontra disperso, sem constituir um polo aglutinador. Não nos falta apenas um Macron, falta também um projeto capaz de empolgar às amplas parcelas que foram às ruas nas jornadas de 2013 ou as do impeachment de Dilma Rousseff, e de ser o elemento oxigenador da vida política nacional.

Em decorrência da ausência desse polo renovador, a equação da atual crise passa pela institucionalidade que está dada e por seus partidos. Mas há aqui um grande risco.

Como abordamos por diversas vezes aqui neste espaço, os partidos tradicionais não entenderam o fenômeno que se espraiou pelo mundo e chegou ao Brasil em 2013, com suas manifestações multitudinárias. As ruas daquele ano foram o ápice desse fenômeno, cujas características são a horizontalidade de suas manifestações e de seus coletivos, a diversidade de suas tribos, bandeiras tangíveis e alta interatividade; virtual e presencial.

A dissintonia entre o sentimento da sociedade e o mundo formal da política pode levar a que a descrença se manifeste de forma negativa em 2018, com 50% ou 60% da população optando pelo voto nulo, abstenção ou em branco. Aí a crise se prolongará, o país continuará sendo retardatário, vivendo ainda na Era do Extremo. Temos apenas um ano para construir um ingresso virtuoso do Brasil na Era do Centro.

Não há ingênuos nesse prostíbulo

A entrada dos irmãos Batista de Anápolis, Goiás, no noticiário político-policial com a visita de Joesley ao presidente Michel Temer no porão do Jaburu inicia uma devastação de reputações. A primeira é a do anfitrião, Temer, que já havia sido citado em delações e se comporta de forma permissiva com seus sete ministros delatados. No caso dele, parecia ponto pacífico que não seria atingido por investigação policial, acusação do Ministério Público nem condenação judicial, pois só pode ser incriminado por delitos cometidos no exercício da Presidência.

Com a delicada situação política e a necessidade de confiabilidade para conduzir a economia à recuperação, parecia difícil ele se arriscar a um flagrante. A visita de Joesley surpreendeu a todos, pois nada a justifica, a não ser a certeza absoluta da impunidade e o total desprezo pela inteligência alheia. No entanto, deu-se o que menos se esperava: uma delação premiada (!) dos acionistas e executivos da holding J&F e uma ação programada da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal (MPF) flagraram Temer ouvindo um delinquente, acusado em cinco operações policiais, a confessar delitos que levantam suspeitas claríssimas de crimes cometidos de corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da investigação. Mas, em vez de negar com fatos as acusações, Temer mostrou-se obsessivo em ficar no governo, alegando que precisa completar sua cruzada contra a recessão e tendo a seu favor a indefinição quanto à sua substituição.

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Após O Globo ter noticiado o prêmio excessivo aos irmãos Batista, a Veja informou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) foi encarregada de encontrar algum deslize na biografia do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Edson Fachin, que homologou a delação premiada. Isso para evitar que ele relate a investigação pedida pelo procurador-geral da República, Rodrigo, Janot, que acusa Temer de tais delitos. E Eliane Cantanhêde relatou a descoberta de grampo em telefone da Procuradoria-Geral da República (PGR).

Em nota oficial, o Palácio do Planalto assegurou que o presidente jamais mandou a Abin investigar Fachin e também que “o governo não usa a máquina pública contra os cidadãos brasileiros, muito menos fará qualquer tipo de ação que não respeite os estritos ditames da lei”. A revista identificou a fonte como um auxiliar do presidente “que pediu para se manter no anonimato porque não está autorizado a falar publicamente sobre o assunto”. Mas a presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Cármen Lúcia, retrucou, também em nota, que é “inadmissível a prática de gravíssimo crime contra o Supremo Tribunal Federal, se confirmada a informação divulgada pela revista”. Para ela, essa prática é “própria de ditaduras”.

O procurador-geral da República, Rodrigo Janot, por sua vez, divulgou nota afirmando que, “a se confirmar tal atentado aos Poderes da República e ao Estado de Direito, ter-se-ia mais um infeliz episódio da grave crise de representatividade pela qual passa o País”. Segundo ele, na hipótese de confirmação da notícia, “em lugar de fortalecer a democracia com iniciativas condizentes com os anseios dos brasileiros, adotam-se práticas de exceção”.

Todos têm alguma razão, mas ninguém a tem por inteiro. Absolvido por 4 x 3 pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente saiu ileso na Justiça Eleitoral em episódio conhecido como “o enterro das provas vivas”. E tergiversa ao responder às acusações que lhe são feitas. Em vez de explicar seu mutismo perante o visitante “falastrão”, usa argumentos paralelos que em nada o inocentam. E não respondeu às 82 perguntas da Polícia Federal no inquérito sobre a visita de Joesley, preferindo representar o papel de Lula perante a Lava Jato e Moro: o de humilhado e ofendido, que não lhe cai bem. Mas a unanimidade popular que o reprova também não aceita a anistia dada pelo MPF e pelo STF aos criminosos confessos da J&F.

Fachin ainda não desmentiu categoricamente os cochichos de corredor que narram suas visitas a senadores para ser aprovado para o STF acompanhado por um dos delatores premiados da J&F, Ricardo Saud. Se todos os ministros do Supremo fizeram idêntico périplo na vez deles, também devem explicações ao distinto público. E decerto não cabe a Cármen Lúcia tentar tapar com a peneira da ditadura as evidências solares de que o acordo feito com os delatores foi benéfico demais para eles. Há mistérios demais nesse caso, que não comporta falta de transparência. Diz-se que os irmãos Batista foram ameaçados de morte e por isso lhes foi concedida fuga protegida para o exterior. Mas até agora ninguém apresentou uma evidência sequer de tais ameaças e isso protege ao mesmo tempo as eventuais vítimas e seus possíveis algozes. Joesley teve a ousadia de gravar a maior autoridade do País, mas não fez o mesmo para comprovar as ameaças que teria recebido.

Para fazer justiça, urge pôr essas conversas todas a limpo, sem continuar escondendo suas verdadeiras motivações. Antes de flagrado, Temer disse que quem, como ele, foi secretário de Segurança de São Paulo e presidente da Câmara dos Deputados não pode ser acusado de ser ingênuo. Agora, a única justificativa que encontrou para explicar as causas e circunstâncias de sua conversa suspeita em palácio foi ingenuidade. Está na hora de esclarecer tudo, partindo de um pressuposto comum: não há ingênuo algum nessa presepada. Nenhuma das personagens citadas é tolinha nem pode fingir-se de quadro de São Jorge em prostíbulo, metáfora usada por Gilmar Mendes. Nesse prostíbulo metafórico onde atuam todos não há quadros de santos nas paredes. Apenas cartazes de “procura-se”.

E que ninguém me venha com essa patacoada de que não há substitutos para os mandatários dos três Poderes atingidos no tiroteio. Há, no mínimo, 200 milhões de brasileiros honestos o suficiente para substituí-los nas tarefas que poucos deles não desonraram.

Paisagem brasileira

Cercanias de Belém, PA:

Quem defender Temer sonhando com a recuperação econômica pode acordar com Keynes

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As reações que se seguiram ao bizarro julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, em sua maioria, revelaram indignação ante à omissão dos magistrados em seu dever de zelar pela correção do processo eleitoral, a tal ponto de se questionar a própria validade da existência do referido tribunal.

Uma determinada parcela de brasileiros, todavia, enveredou suas opiniões em sentido diverso, dando conta de que, mesmo diante das fartas evidências de que recursos captados junto ao BNDES alimentaram (via empreiteiras envolvidas no Petrolão) a campanha da coligação PT/PMDB em 2014, seria salutar indeferir as AIME e AIJE propostas, em nome, sobretudo, da preservação da ainda incipiente recuperação econômica do país.

Pois é. A melhora dos índices econômicos, ainda que tímida, já se fazia notar e sentir, de fato, após menos de um ano de troca de comando no Planalto. Mesmo que o prometido ajuste fiscal ainda não tivesse sido implementado (com o resultado das contas federais apenas suavizando o rombo herdado do governo anterior), a mera expectativa de políticas mais austeras já animava o setor produtivo, uma vez que o cenário alimentava a esperança de que aumentos de tributos seriam desnecessários no futuro.

Neste sentido, a limitação dos gastos da União aprovada no Congresso Nacional nos estertores de 2016 e a (outrora) iminente reforma da Previdência (ainda que por meio de uma proposta que mantém o insustentável esquema Ponzi) geravam algum alento para empreendedores que teimam em investir no Brasil.

Natural, nesta conjuntura, que indivíduos preocupados com a degradação das expectativas ante (mais uma) troca de chefia de Executivo posicionem-se contra a destituição de Michel Temer neste momento – muito embora seja questionável tal “vista grossa” em nome de uma suposta estabilidade governamental, e que assemelha-se, em boa parte, ao clássico “rouba mas faz” atribuído costumeiramente a Paulo Maluf.

Só que a coisa não é tão simples quanto parece. Se antes dos irmãos Batista fazerem da política nacional um verdadeiro matadouro havia motivos para crer que o vice de Dilma poderia conduzir o processo de restabelecimento financeiro do país, agora restam poucas dúvidas de que sua capacidade de governar tenha sido abalada a tal ponto que a ressurreição do setor produtivo será a última de suas preocupações.

O maior trunfo de Temer tão logo foi empossado no cargo era o amplo apoio no Parlamento angariado na esteira do longo procedimento de afastamento de sua ex-parceira de coligação eleitoral. Visando obter os 342 votos na Câmara e 54 no Senado necessários para emplacar sua ascensão à Presidência da República, ele acabou por lograr uma base de apoio de proporções animadoras, suficiente para legitimar qualquer projeto de lei por ele encaminhado.

Some-se isso ao fato de que ele, por não apresentar aspirações pela reeleição, podia dar-se ao luxo de encampar reformas estruturantes “impopulares” (por serem incompreendidas pelo grosso da população, tal qual as alterações na CLT), aliado, ainda, à ideologia peemedebista tipicamente camaleônica (a qual se adapta ao momento visando manter seu status), e temos que, diante da recessão que assola o país desde 2014, tudo levava a crer que o governo Temer estaria apto a dar a arrancada rumo à saída do atoleiro em que o lulopetismo nos meteu.

E tudo começou relativamente bem. Inflação e taxa básica de juros em franco declive, modestos sinais de retomada das contratações, previsões de PIB para 2017 mais acalentadoras, revisão vital nos benefícios estatais (como auxílio-doença, aposentadoria por invalidez e bolsa-família), dólar em queda, designação de diretores para BNDES e Petrobrás visando a condução mais responsável destas instituições (já que suas extinção e privatização, respectivamente, ainda não estão na pauta do dia), enfim: mesmo em meio às inúmeras concessões feitas à extrema-esquerda, ainda estava valendo bastante a pena aturar o vice de Dilma como mandatário máximo da administração pública.

Isso até 17/05/2017. Desta data em diante, a coisa mudou de figura, e a preocupação com a recuperação econômica deu lugar ao mais puro e simples instinto de sobrevivência dos palacianos. Pior: no afã de manterem-se agarrados aos postos (e ao foro privilegiado), uma guinada “desenvolvimentista” se avizinha.

Sim, exato: após a jornada exitosa no TSE, o próximo desafio do governo Temer é escapar da denúncia que nos próximos dias será apresentada pela PGR ao STF. Para que o Presidente possa responder pelos crimes apontados pelo Ministério Público (sendo afastado de suas funções, para tanto, por até seis meses), é necessário que a Casa Baixa referende com 2/3 de seus membros tal possibilidade. Será fundamental, portanto, que ao menos 172 Deputados votem contra, abstenham-se ou ausentem-se da sessão que tomará tal decisão.

E adivinhem como o governo atual, nesta situação, tentará salvar sua pele? Ora, da mesma forma que tentou Dilma Rousseff: “comprando” apoio junto aos parlamentares e à sociedade como um todo. E isto significa um sonoro adeus à austeridade fiscal.

Já foi noticiado que Michel Temer pretende dar a “áreas específicas” da economia estímulos econômicos diversos, objetivando, em tese, dar um “empurrãozinho” na produção e no comércio – tal qual John Maynard Keynes o aconselharia, por certo. Em outras palavras: destinar dinheiro dos pagadores de impostos a empresários amigos do Rei, escolhendo quem vai ficar rico e causando desordem no processo de trocas voluntárias. Ou seja, mais do mesmo do veneno que nos trouxe ao caos presente, indo na contramão da linha defendida (a maior parte do tempo) por Henrique Meirelles e sua equipe até aqui.

A pretexto de recuperar (momentaneamente) a renda média do brasileiro, o respaldo político é, quase literalmente, comprado – ao preço de comprometer seriamente nosso futuro. Após tanto desgaste junto à opinião pública, conseguir adesão para aprovar qualquer reforma estruturante, a partir de agora, exigirá novas rodadas de “toma lá, dá cá” junto a congressistas e seus patrocinadores (os mesmos capitalistas de compadrio de sempre), além de consentir com alterações nas redações originais (a fim de agradar as bancadas que eventualmente tenham lhe poupado o couro) que desfigurarão por completo estas propostas – e os benefícios delas advindos vão para o ralo (que o diga o esperado veto à derrubada do imposto sindical).

Até mesmo o “acordo do clima” de Paris, solenemente (e corretamente) ignorado por Donald Trump, foi referendado pelo governo brasileiro, em mais um exemplo de como este “pedágio ideológico” precisará ser pago regularmente como forma de acalmar a mídia e os movimentos barulhentos – comprometendo gravemente, neste caso concreto, a competitividade da indústria brasileira frente ao mercado internacional, gerando uma alta fatura a ser paga pelas próximas gerações de brasileiros.

Trocando em miúdos: quem defende a manutenção do atual governo no poder precisa encontrar outra justificativa que não seja a restauração dos índices econômicos, porque esta, infelizmente, ainda vai ter que esperar outro bonde passar – o próximo está previsto para 2018.

De qualquer forma, ressalte-se que Michel Temer só pode ser desalojado do cargo seguindo estritamente o que dispõe a lei. Se à presidenta deposta foram concedidas todas as oportunidades de contraditório em relação aos crimes de responsabilidade de que foi acusada, a seu substituto também não pode ser negado o devido processo legal. Ou isso, ou resignemo-nos com sua permanência até o final de seu mandato tampão. Paciência.

Resistir às tentações revolucionárias, pois, neste momento insólito de nossa história, é dever cívico dos mais relevantes. Nunca deram o poder absoluto a quem não prometia trocar o presente por completo, nem nunca houve totalitarismo sem um povo revoltado com “tudo que está aí” (créditos a Flávio Morgenstern). Se Keynes gostava de repetir que “há longo prazo, todos estaremos mortos”, façamos votos de que nossa claudicante democracia siga respirando em meio a tanto desarranjo institucional e social, ainda que por aparelhos.

Chama a atenção, aliás, que algo bastante curioso pode vir a desenrolar-se na casa legislativa dos representantes do povo muito em breve: caso Rodrigo Janot apresente, de fato, denúncia contra Michel Temer por crimes comuns cometidos no exercício do cargo, os partidos de extrema-esquerda poderão demonstrar se querem mesmo a queda do Presidente ou apenas almejam sustentar este discurso oposicionista até o próximo pleito, e dele colher dividendos eleitorais. A conferir…

O voto de me enerva

A TV Globo vai entrar em concordata. Depois de perder os anúncios da Friboi e da Mortadela Seara, a "Grobo" vem perdendo audiência até para a TV Justiça!!!! Na semana passada, o reality BBB, Big Bacharel Brasil, foi acompanhado por milhões de brasileiros, que, hoje em dia, entendem mais de direito eleitoral que de futebol.

Aliás, de crise em crise, nosso povo ignorante e inculto vai se educando. Nos tempos de hiperinflação, qualquer um entendia mais de macroeconomia do que PHD de Harvard. Depois dos escândalos do mensalão e do petrolão, todo brasileiro, mesmo analfabeto, virou autoridade em direito penal, sonegação fiscal e técnicas avançadas de lavagem de dinheiro. Melhoramos muito também no cálculo matemático. Qualquer criança de primeiro grau sabe quantos milhões de reais cabem numa mochila.


Até a juventude está mudando os seus planos para o futuro. A galera não quer saber mais de ser DJ, fazer curso de teatro na CAL, nem formar dupla de sertanejo universitário, grupo de pagode ou banda de rock. Todo mundo quer estudar Direito para fazer sucesso na televisão e aparecer na Caras.

Também pudera! Não tem para o Antônio Fagundes, nem pro Lázaro Ramos, nem pro Cauã Raymond. O melhor ator do Brasil é o ministro Gilmar Mentes e está acabado! Gilmar é uma espécie de Fernanda Montenegro do Judiciário. Gilmar representa muito bem.

Divo consagrado, Gilmar aceita fazer qualquer papel. Só faz papelão. Versátil, Gilmar é capaz de transformar uma comédia em tragédia e vice-versa. É só combinar o preço do cachê. Vaidoso ao extremo, Gilmar Mentes capricha na maquilagem e só usa óleo de peroba. Sempre inovador, em matéria de jurisprudência, Gilmar Mentes criou o Habeas Rabus, uma espécie de Habeas Corpus que serve para manter em liberdade todo criminoso que tem o rabo preso com a Justiça..

*Depois do sucesso do julgamento da chapa Dilma-Temer no TSE, os ministros Gilmar Mentes, Napoleão Mala, Tarcísio Sujeira e Admar Gozada vão estrelar a continuação de Piratas do Caribe

Agamenon Mendes Pedreira é cabeça, tronco e membro do Judiciário 

Uma renúncia de Temer acalmaria o país?

Talvez o presidente Michel Temer se arraste legalmente até 2018, mas seu mandato e seu governo estão mortos. Estão sendo sepultados pelas investigações da Lava Jato e pelo esforço de todos para fazê-la naufragar. O que fazer? A renúncia de Temer acalmaria os ânimos de uma sociedade cada dia mais perplexa e que começa a desconfiar até da justiça, que parecia o último baluarte de esperança para regenerar o sistema? Dizem que alguns partidos e políticos importantes prefeririam que Temer chegasse sangrando a 2018. Isso interessa ao país? Existe, sem dúvida, o problema pessoal do presidente, que só ele pode resolver segundo sua consciência, e existe o que seria melhor para o país, para sua economia e para sua estabilidade democrática.

O dilema não é fácil e, apesar de faltar pouco mais de um ano para as novas eleições presidenciais, pode se tratar de um tempo infinito que acabe minando ainda mais instituições já cambaleantes. Hoje, até seguidores de Dilma duvidam se não teria sido melhor, para ela e para o país, ter renunciado antes de se submeter ao duro, polêmico e lento ritual de impeachment. Teria sido um gesto que a teria enaltecido. E diante do que hoje vive o país, uma decisão que tivesse economizado na época, com eleições diretas, o embaraço por que passa não só a presidência de Temer mas quase toda a classe política.

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Se Temer renunciasse, assegurando uma sucessão tranquila por parte do Congresso, que respeitasse a atual equipe econômica e preparasse sem sobressaltos as eleições presidenciais de 2018, talvez o país pudesse deixar de sangrar. Já é grave a possibilidade de que a crise econômica se aprofunde, arrastada pela incerteza da guerra aberta entre Poderes do Estado, e uma nova saída forçada do presidente da República, desta vez por motivos de corrupção, poderia criar uma crise sem precedentes desde os tempos obscuros da ditadura. A quem serviria um desenlace traumático com os três Poderes do Estado em guerra e com uma sociedade inclinada a substituições de cunho autoritário ou populista?

O mundo tem os olhos postos no Brasil e com não com pouca apreensão. Não é uma alegria para ninguém, dentro ou fora do país, ver um gigante econômico, no qual tantas esperanças foram depositadas, cambalear agitado por uma crise interna plena de incertezas lúgubres. Temos ao lado a Venezuela, o rico país vizinho que se desgarra e se desfia todo dia atormentado pela teimosia de políticos que preferem o caos, e até a miséria das pessoas, a apear de um poder que se sustenta à força, contra a vontade da maioria. Os analistas mais serenos concordam que o Brasil ainda está em tempo de dar marcha ré da loucura que o agita e oferecer à sociedade a possibilidade de decidir em paz sobre seu destino em eleições livres em 2018.

Se o grau de responsabilidade depende da força do poder de quem preside as instituições, neste momento cabe a Temer, que está no fim de seu longo caminho político, até ontem sem máculas, oferecer ao país uma saída o menos dolorosa e perigosa possível, por mais difícil que lhe seja pessoalmente. Li que, depois de se conhecer as fatídicas conversas que hoje o incriminam, Temer chorou pensando no que dizer amanhã a seu filho. A seu filho e a todo um país, cansado de uma classe política que parece ter se esquecido da dor das pessoas, preocupada e absorta como está em como acabar com a Lava Jato para salvar a própria pele. Os brasileiros comuns, os que continuam sustentando o país com seu trabalho duro e honrado para que não se afunde ainda mais, sabem o que querem e estão à espera. E todos sabemos, pela História antiga e recente, onde pode desembocar a ira dos que se sentem traídos.

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