quarta-feira, 31 de maio de 2017

Cotidiano de exceção

Cartaz da edição brasileira do livro 'Sobre a tirania' 
O sobressalto encarnou-se nos dias. Não é mais inerente ao cotidiano, mas o próprio cotidiano. Temos vivido no Brasil (e acredito que em boa parte do mundo), aos espasmos. Um espasmo, outro espasmo, mais um espasmo. A cada noite, dormimos (ou tentamos dormir) sem saber o que acontecerá no país. Ou mesmo com qual presidente o dia terminará. Não há mais como imaginar o dia de amanhã. Às vezes, não dá para imaginar a hora seguinte. O sobressalto tece a experiência – tanto a coletiva, a maneira como estamos com os outros, como a individual, nosso modo de estar consigo mesmos. Acusamos o impacto nas nossas vísceras, o sentimos na ansiedade misturada aos goles de café, mas não somos capazes de dimensionar. É assim que a exceção vai se infiltrando nas horas – e também nas almas. E é assim também que ela mina a nossa resistência. Como persistir, então?

O controle é, desde sempre, uma ilusão. Mas em momentos como este, estamos além da possibilidade de ilusão. Se isso não é novo na história da humanidade, e obviamente não é, há algo que acentua e amplia essa percepção da realidade, que é a vida conectada pela internet, em que segundo a segundo algo salta na tela para contar de um sobressalto, sobressaltando. E, sobressaltados, replicamos o que nos sobressalta, sobressaltando outros. E, assim, criamos um mundo de gente que suspende a respiração – e às vezes também o pensamento.

Em épocas como esta, as armadilhas são várias. E talvez a maior delas esteja na reação. Há uma diferença entre reagir por reflexão – e reagir por reflexo. A reação por reflexo obedece à mesma lógica de alguém que se coça ao sentir a picada de um pernilongo. Assemelha-se a uma resposta sem pensamento, rápida como um “curtir” das redes sociais. É difícil alcançar qual é o efeito de uma reação generalizada por reflexo. Mas é importante perceber que, neste momento, há parcelas da sociedade que disputam o poder – ou lutam para mantê-lo – que reagem com pensamento e reagem com planejamento. E parte do seu pensamento e do seu planejamento é contar com o fato de que a maioria seguirá reagindo por reflexo.
Resistir ao autoritarismo é deixar de reagir por reflexo – e passar a reagir por reflexão
No tempo da aceleração, o que se infiltra nas horas é esta sensação de anormalidade que não passa. Convertida num presente contínuo, é como se o dia seguinte nunca chegasse. O risco é que, para recuperar a “normalidade”, qualquer normalidade, se aceite o inaceitável. Quanto maior for o anseio por “normalidade”, mesmo que ilusória, mais as pessoas e grupos tornam-se dispostos a conceder e a perder direitos. E é aí que mora o perigo.

Resistir neste momento é também deixar de reagir por reflexo – e passar a reagir a partir da reflexão. Quando tudo parece caótico, quando tudo fica meio misturado e parecido, é preciso olhar para os fatos. Olhar para os fatos com toda a atenção. São eles que nos apontam onde estão as verdades e nos ajudam a enxergar onde está a manipulação, assim como a falsificação. O pensamento é ainda a melhor forma de resistência.

Há um livro que pode nos ajudar a pensar sobre este momento. Sobre a tirania – Vinte lições do século XX para o presente será lançado pela Companhia das Letras no início de junho. Perturbado pela chocante eleição de Donald Trump, Timothy Snyder, professor de história da universidade de Yale, postou um texto no Facebook que se tornou viral. Ele começava assim: “Os americanos não são mais sábios que os europeus, que viram a democracia dar lugar ao fascismo, ao nazismo ou ao comunismo. Nossa única vantagem é ser capaz de aprender com a experiência deles”. O texto foi ampliado e se tornou um livro best-seller nos Estados Unidos, já convertido para várias línguas. Agora chega ao Brasil, traduzido por Donaldson M. Garschagen.

Escrito para os americanos, o livro diz muito também para os brasileiros, já que as novas máscaras do velho autoritarismo são tão globalizadas como o mundo que as gesta. A seguir, faço uma conversa minha com este livro, a partir da experiência de viver no Brasil o que chamo de “cotidiano de exceção”.
Leia mais o artigo de Eliane Brum

Classe de desclassificados

 
Você tem uma classe que ganhou autonomia em relação à sociedade. Ela é intocável, é uma classe que está aí desde a ditadura militar. Vivemos num país que não conseguiu aprofundar a participação popular dentro do processo de política institucional. Conseguimos criar uma situação em que a estrutura política é completamente autista em relação à pressão popular
Vladimir Safatle

Governabilidade de escárnio

Quando a cadeira presidencial balança, o ocupante não vacila em subir nas tamancas. Alguns vão mais além: tiram do armário a fantasia, limpam a poeira e a naftalina, para mais se exibir com o garbo de quem sonhou com uma coroa de pedrarias de poder.

Com Michel Temer, bastou cair a máscara de beato político, senhor de leis, que as cumpre assim e assado, para se autocoroar. Nada de se estranhar no país do ministro Gilmar Mendes que "está se tornando uma grande organização Tabajara".

Infelizmente não é programa humorístico, mas uma grande patuscada da casta político-governamental, que se deixa corromper em nome de uma governabilidade de escárnio. 


Desde que pego pela língua tentando justificar-se e passando por cima dos crimes na calada da noite, jogou no lixo a toga de tribuno. Está nu e fede como qualquer parlamentar brasileiro investigado.

Quem iria levar o país à estabilidade e entrar na História não passa de outro, mais um da infindável série, mascarado. Faz no privado o que condena no público.

Para recuperar o já irrecuperável, troca seis por meia dúzia em plena crise política. Acuado pelo flagra da não explicação, confessa-se mais uma vez como reles político. A troca ministerial na Justiça, renda ou não frutos para seu carreirismo, desesteabiliza ainda mais a instável sociedade. Dar cartadas em prol da garantia no cargo, quando deveria governar, e não imperar, é mostra de que quer salvar uma biogrfia já enlameada.

Mais uma vezo país assiste às lideranças jogarem um Estado no fogo para livrar a pele entre a fumaça. É o espírito público da canalha.
Luiz Gadelha

O golpismo das celebridade em Copacabana

Quando se trata de juntar gente para dizer que o povo comparece a seus eventos, a esquerda reúne companheiros de viagem, pilotos de vôo pelos ares da utopia, figurinhas carimbadas, cantores, atores, músicos e promovem grande espetáculo. Alguma conta no exterior paga os cachês ou o crédito fica gerado e certificado para futuros resgates.

Então, pequenas multidões são atraídas pela oportunidade de um show que seria totalmente grátis não fora o dever de escutar discursos políticos proferidos por pessoas cujo pouco conhecimento enche a paciência antes de encher uma xícara de cafezinho. Sem artistas e celebridades, vai-se o público. Cria-se, então, um insolúvel mistério: quem é que estava ali, mesmo? A permanência dessa dúvida nos eventos da esquerda é uma clamorosa denúncia do esvaziamento de suas pautas e de sua credibilidade.


A concentração ocorrida em Copacabana neste último domingo reuniu numa dessas aglomerações algo entre 10 mil e 30 mil pessoas. A turma do palanque queria diretas já. Ali estavam, pelo que li, Caetano Veloso, Criolo, Mano Brown, Maria Gadu, Milton Nascimento, Gregório Duvivier, Sophie Charlotte, Daniel Oliveira, Maria Casadeval, Antônio Pitanga, Bete Mendes e Zezé Motta. Não sei se alguém se deixa conduzir pelas posições políticas desse pessoal, mas o evento em si, misturando música, dança de rua e diretas já, como afirmei antes, tem o peso político de uma rolha.

Por outro lado, os oradores, ao apelarem para a ruptura com a ordem constitucional, alegam uma suposta ilegitimidade do Congresso para cumprir o preceito que determina eleição indireta se a vacância ocorrer depois da primeira metade do mandato presidencial. Ora, a legitimidade do Congresso só foi contestada pelo PT após o impeachment da presidente Dilma; e se ele é ilegítimo para cumprir o preceito constitucional e promover a eleição indireta, onde irá buscar legitimidade para alterar a Constituição e romper a periodicidade das eleições presidenciais?

Sublinhe-se: foi para evitar casuísmos golpistas, voltados a atender interesses de oportunistas como os que recheavam o palanque de Copacabana, que os constituintes de 1988 definiram a periodicidade das eleições como cláusula pétrea da Carta maior da República.

Mas não podemos querer que a turma daquele palanque entenda e se conforme com isso, não é mesmo?

Percival Puggina 

terça-feira, 30 de maio de 2017

O tempo

Ótica do tudo ou nada não serve para enxergar a crise brasileira

Poucas aberturas de romance são tão trovejantes como a de "Um Conto de Duas Cidades", de Charles Dickens. "Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos; (...) era a estação das Luzes, era a estação das Trevas; era a primavera da esperança, era o inverno do desespero."

A Paris revolucionária do final do século 18, onde os personagens londrinos Darnay e Carton vivem a sua agonia, torna verossímil a imagética apocalíptica contida naquelas sentenças iniciais. O Brasil em transe desde 2013 não é para tanto.

A violência ao final do último protesto em Brasília não destoou da habitual. Células neoanarquistas abrigadas nas marchas da esquerda botaram para quebrar.

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Não há multidões a guerrear contra o statu quo. Tampouco há tropas do czar patrocinando banhos de sangue em reação. As PMs são mal preparadas para a repressão, mas não deixaram rastro de cadáveres ao atuarem nos protestos, alguns bem violentos, dos últimos quatro anos.

O "Exército nas ruas" era uma piada das redes esquerdistas que às vezes gostam de alegorias como as de Dickens. Um punhado de soldados a resguardar prédios da União após as depredações em nada remete a autoritarismo ou ditadura.

O chamado mercado também tem seus momentos barrocos. O "tudo ou nada" associado à realização breve da reforma da Previdência é um exagero. Vamos logo observar indicadores e expectativas se acomodarem, com prejuízo modesto, à perspectiva de que esse importante acerto de contas aconteça apenas em 2019.

E o que dizer das propostas que brotam no noticiário de punição coletiva aos políticos com atropelo de regras constitucionais? Antecipar eleições gerais? Com que poder revolucionário o faríamos? Quem lideraria a cruzada? Os templários do Ministério Público e do Poder Judiciário?

Um pouco de ceticismo nos faria bem. O Brasil não vai acabar nem se salvar amanhã.
Vinicius Mota

A história dolorosa de um fracasso

Se a divulgação das escutas telefônicas feitas pela Polícia Federal serviu para alguma coisa, no mínimo elas fizeram o país ter a dimensão do caráter de seus representantes no Executivo e no Parlamento. Que fino tratamento se dispensam, especialmente quando se veem afetados pela infidelidade de delatores, antes seus cúmplices prediletos. Raramente as mães, talvez por ser o mês de maio, foram tão lembradas. Porque espantado ninguém fica mais.

A profusão de escândalos e bandalheiras de que se tem conhecimento é estarrecedora e já anestesiou completamente a sensibilidade do brasileiro. Nunca neste país se furtou tanto, desviou-se tanto, apropriou-se tanto do Orçamento público como nestes tempos. Em denúncias anteriores, as empreiteiras de obras públicas comandaram a festa. Agora foi a vez dos frigoríficos da família Batista e companhia, reconhecidos sem favor algum como os homens mais ricos do Brasil e, com destaque, os maiores caras de pau de que já se teve notícia nas cercanias do poder político e econômico.


Risonhamente, falando como se estivessem num encontro de amigos, eles inundaram o noticiário nacional com revelações as mais contundentes, instalando o pânico no Executivo, no Legislativo, no Judiciário, na Minas Arena, no civil e no religioso. Sobrou pra todo mundo, com farta comprovação de fotos, vídeos, gravações, recibos de depósito, malas com chip, o que nos deixa a certeza de nossas precariedades, de nossa absoluta insegurança, política e jurídica.

Um grupo empresarial tornado poderoso graças, especialmente, a sua capacidade de aliciar políticos e técnicos de governos passeou de forma olímpica pelos bancos estatais, BNDES, Caixa e Banco do Brasil, fabricou sob medida e aprovou no Congresso leis que tornaram mais lucrativos e prósperos seus negócios, subornou, comprou opiniões e consciências (?), concedeu empréstimos para pagar advogados de políticos que não lograram “fazer dinheiro em sua vida pública”, manejando cifras absurdas e nunca vistas.

No curso de suas manobras, negociaram com o Ministério Público Federal uma robusta delação, surpreendentemente aprovada em tempo recorde pelo ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), para assim não serem mais incomodados em seu descanso. Fecharam a questão e foram para Nova York, de onde já saíram, sem deixar endereço, curtindo alegremente o achincalhe, o deboche imposto nossas instituições.

Deixaram assanhados nas ruas de domingo os movimentos “Fora, Temer” como se tivéssemos uma nesga de solução, uma perspectiva séria e exequível, um nome mais ou menos aceitável para assumir o comando de um país que todos os dias surpreende-se com o joguete que viramos nas mãos de aproveitadores, de bandalhos, de políticos sem compromisso e sem a dimensão de seus atos. Não temos opções, em quem confiar. Que fracasso! Valei-nos, Mário Lago.

Extrema unção

É da medicina que a atividade cerebral se acelera antes da morte e aquela aparência de frágil debilidade subitamente se transforma em movimentos que, pela vivacidade, impressionam aos que vão levar a extrema unção. Mas é hora da morte: não há como resistir. É escolher a melhor gravata porque, mesmo entre os mortos, há os que se mexem depois da guilhotina.

A situação chegou a um ponto de paroxismo da falta de vergonha que se quer dar agora a impressão de anormal normalidade, pondo-se em votação a agenda das reformas, pretendendo tocar o governo as usual e ganhando tempo em busca de uma saída menos desonrosa.

Parece que, desta vez, o susto foi tão grande que até malas de dinheiro extraviadas nos ingênuos porões da pouca vergonha foram reencontradas, faltando nelas pequena parte reservada para o vinho, afinal também confessadamente devolvida.

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A hora é grave e, sem hipérbole, terrível, admitia o velho Negrão de Lima, Ministro da Justiça testemunha da aguda crise do governo Vargas no Palácio do Catete. Agora, os ameaçados ministros se penduram nos foros privilegiados, demitindo, nomeando, ameaçando no interesse do Brasil, enquanto os assessores salvam-se como podem, pulando como ratos no mar de lama.

Outra grave hora chega e, quando o Brasil se vê caindo no abismo da desesperança, deve bater um pouco de juízo na cabeça de quem tem algum papel de liderança. Como dizia o sábio da política: está de vaca não reconhecer bezerro no curral. E, nessas horas, é melhor ter juízo do que fingir de doido de rua, atacando para defender.

Nos bastidores fervilham as apostas: quem será o timoneiro da pinguela até 2018? Muitos ambicionam, ninguém se apresenta “candidato ao doce sacrifício”. Como será? Eleições diretas como a voz das ruas ou indiretas como reza a Constituição? Que saída se dará? A votação do TSE, antes terrível ameaça de cassação da chapa, agora aparece como bóia de honrosa salvação: uma saída pela frente provocada por erros de outros.

Indulto para o presidente? Asilo no Uruguai? Embaixada no Paraguai? Licença para curtir a dor no Equador? Subindo o Maia como controlar o festeiro Ramalho? Reformas às pressas podem acabar como frankensteins mal acabados. Pode-se decretar o recesso do Congresso por falta de compostura e a vacância do governo por falta de assessores. Há uma desconfiança geral de armação, de perdões aos pecados da carne e é melhor botar as barbas de molho.

O maior pecado em política é revelar a verdade antes da hora. O presidente cometeu o pecado do general Castelo Branco ao dizer, cedo demais, que não seria candidato à sucessão. Jogou fora as cartas de negociação e saiu da mesa do poder.

Les jeux sont faits, diria o crupiê vendo a ruína do cassino.

Paisagem brasileira


Igreja de São Francisco e o Museu de Arte Sacra, em São Cristóvão (SE) 

A marchinha da moda: 'Mamãe eu quero' votar em corrupto

Muitos brasileiros que votaram num dos traidores do povo para presidente, o que foi derrotado, estão enojados, perplexos, revoltados. Na maioria das vezes, nem sabem quem apoiar nesse momento. Na falta de tudo, até de esperança, rejeitam todos.

Entre aqueles que votaram nos traidores que venceram, muitos estão tristes, desiludidos, arrasados pela perfídia criminosa dos que consideravam defensores do povo. Não sabem como reagir ou o que fazer.


No meio destes, uma minoria detém todas as certezas. Atendem a manifestações convocadas por artistas e chacoalham ao som de Mamãe Eu Quero, a mais auto-referente e deliciosamente edipiana de todas as marchinhas de carnaval.

Os conhecedores dessa arte popular dizem que boa parte da marcha foi inventada na hora da gravação, em 1936, por seus autores, Jararaca e Vicente Paiva.

Os que a repetem, hoje, exigindo Diretas Já, convocação roubada do original, autêntico, pensam mesmo é na volta da Jararaca.

São, na maioria, militantes ou simpatizantes dos pequenos partidos de esquerda. Aqueles mesmo que gritam, incitam à destruição e têm “a mão dilacerada”, na voz passiva, como se não estivessem segurando o rojão para jogar na cara dos que evitaram, mais uma vez, a incineração de patrimônio pertencente à nação.

Depois de gritar, cuspir, agredir, quebrar e incendiar, com a honrosa e elogiável exceção dos que só cantaram Mamãe Eu Quero, acabam todos fazendo a mesma coisa: votando na Jararaca ou se aliando ao partido da Jararaca.

Esta, evidentemente, é fiel ao imperativo dos répteis venenosos. Manda a massa de manobra pedir Diretas Já, mas prepara o bote para escapar ao serpentário de Curitiba.

Não é segredo para ninguém, tudo tem sido feito praticamente à luz do dia. O que explica que, fora a pelegada e os profissionais, pessoas inteligentes, educadas nas melhores escolas, com alto nível de espírito crítico e acesso a todo tipo de informação, incorram nesse tipo de auto-engano?

Não são ingênuas. E quem acredita nessa palavra depois que foi invocada pelo participante-chave no encontro que intoxicou o Brasil?

Não são iludidas. E, se fossem, teriam que arcar com a responsabilidade de fechar olhos, ouvidos e nariz à podridão, ao estrondo e ao fedor do que está acontecendo à nossa volta.

Seriam mal resolvidas? Reconhecer que defendem sabotadores de seus próprios ideais talvez seja difícil demais. Talvez afete egos despreparados para distinguir entre a auto-imagem e os sonhos que confiaram aos traidores do povo.

Artistas, em especial, são movidos por egos especialmente sensíveis. Querem encantar, seduzir, hipnotizar. Querem ser incondicionalmente amados, como todo mundo. Mas com a intensidade avassaladora dos que vivem na maior de todas as bolhas, o mundo único da celebridade.

Um mundo onde só recebem aplausos, elogios, louvores, apologias, loas, encômios. Adoração total e incondicional.

Por isso, sofrem quando descobrem que podem ser amados por sua arte, por sua inteligência criativa, por suas músicas maravilhosas, por suas espetaculares interpretações; mas criticados, repudiados e até ridicularizados por suas posições políticas.

Vão para a rua e cantam Mamãe Eu Quero.

Como tudo o que fazem tem enorme destaque, ganham intensa cobertura. Acham que estão defendendo uma causa nobre, comandando as massas, liderando a revolução etc etc. Não entendem quando riem da cara deles.

Estão encantados, seduzidos, hipnotizados pela ideia de votar na Jararaca. Se entendessem que sua visibilidade excepcional também implica em responsabilidade maior pelo que dizem em público, estariam menos comprometidos.

Se tivessem menos certezas absolutas e mais dúvidas, estariam em companhia melhor.

13 pontos para embasar qualquer análise de conjuntura

1 – O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.

2 – Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.

3 – O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.

4 – Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.

5 – Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.

6 – O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.

7 – Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.

8 – O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.

9 – Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.

10 – Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.

11 – Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.

12 – A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.

13 – Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.

Maurício Abdalla

Cracolândia de Bogotá: dúvidas depois de um ano de intervenção policial

Por fora, o que resta do Bronx, espécie de cracolândia da capital colombiana, é um amontoado de tijolos e ferros. A prefeitura de Bogotá demoliu 23 das 62 edificações que formavam um dos maiores mercados de droga da Colômbia. Dentro, nas poucas casas que continuam de pé, roupas, brinquedos, móveis, papéis, doses de drogas, cachimbos para fumo... guardam o forte odor que lembra que no centro da cidade havia uma entrada para o inferno.

Passou um ano desde que mais de 2.000 policiais desocuparam o Bronx. A chuva e o frio de Bogotá não podem ir contra os fantasmas dessas quatro ruas para onde, todos os dias, cerca de 3.000 pessoas iam em busca de todo tipo de drogas. Em uma jornada, as famílias que dominavam o negócio podiam chegar a embolsar 40.000 dólares (130.000 reais). A Força Pública levou quase duas décadas para pisar nesse território protegido pelos sayayines, a segurança privada dos narcos, e pelos policiais que sucumbiram à extorsão.


Bronx de Bogotá
Toda essa população, consumidores e narcotraficantes, abandonou a área em 28 de maio de 2016 para se distribuir por setores vizinhos. O prefeito Enrique Peñalosa acabou com a chamada “república independente do crime”. Não há uma nova onda (o nome que recebem esses mercados na Colômbia) tão grande na cidade. O que se encontra em um passeio pelo centro de Bogotá são pequenos herdeiros. Ao contrário do que aconteceu aos milhares de indigentes do Bronx, os chefões que controlavam este mercado não foram detidos durante a operação policial.

A Secretária de Segurança de Bogotá emitiu um relatório no qual garantia que a criminalidade na área tinha caído 12% desde a intervenção. As lesões e os homicídios diminuíram 48%, mas os furtos se mantêm quase no mesmo nível. O EL PAÍS entrou em contato com Daniel Mejía, responsável pela pasta na cidade, e que tem o comando das polícias, mas não obteve resposta para poder entender como foram feitas essas estatísticas, já que em 22 de maio passado a polícia desarticulou o bando Los Reyes, procedente do Bronx. Esse grupo tinha cometido entre 10 e 25 assassinatos em um setor próximo, em nove meses, segundo as autoridades.

A prefeitura diz ter atendido “integralmente”, sem especificar o tipo de assistência, mais de 2.000 indigentes que disseram vir da onda em alguma das sete unidades distribuídas pela cidade. Esses lugares têm capacidade para cerca de 2.000 pessoas, segundo informação da Secretária de Integração Social de Bogotá. “Há três estatísticas de quantos moradores de rua há na cidade e todas são velhas”, afirma Alirio Uribe, representante na Câmara do Polo Democrático, um partido de esquerda, e crítico do modo como foi feita a intervenção no Bronx. “Há uma da prefeitura que contabilizou 10.000; outra do Ministério da Saúde, de 2015, que afirma serem 22.000; e uma terceira, de 20.000”. Números que superam a capacidade de ajuda integral dos albergues que, por ora, estão funcionando. “Em 2017 serão abertas 10 novas unidades, com 730 novas vagas e ênfase na formação para o trabalho”, promete o prefeito.

Uribe propõe a criação de “zonas humanitárias”, lugares onde os indigentes e dependentes de drogas possam dormir, comer, fazer sua higiene, estar sob vigilância e ser atendidos em condições de salubridade. “A droga poderia ser dispensada a eles”, diz. Os atuais centros de assistência não podem ministrar nenhum tipo de entorpecente nem metadona durante o tempo que atendem aos consumidores. “Concordamos em que algo tem de ser feito, mas não se vê a solução.” Onde seriam construídas essas zonas humanitárias? “Ninguém os quer, nem suas famílias nem seus amigos nem os vizinhos nem os comerciantes”, explica. “Eles são as vítimas, em algum lugar é preciso mantê-los.”

Três famílias resistem nos edifícios que ainda não foram derrubados no Bronx. A polícia que vigia há um ano a área, cercada 24 horas por dia, explica que alguns vigiam as propriedades para seus donos e outros negociam a venda com a prefeitura. “Neste setor serão desenvolvidas novas indústrias da Economia Laranja: criação, design, publicidade, brinquedos, artesanato, artes cênicas, artes visuais, música, meios audiovisuais e moda”, diz o prefeito Peñalosa. “Além disso, haverá o serviço do TransMilenio [o sistema de ônibus de Bogotá] e uma estação da primeira linha do metrô.”

Os primeiros guindastes que aparecerem no Bronx se encarregarão da construção de uma sede administrativa da Prefeitura que deverá estar concluída em 2019, segundo informam na Empresa de Renovação e Desenvolvimento Urbano (ERU), encarregada do projeto. “Já foram investidos 13 bilhões de pesos [cerca de 13 bilhões de reais] nestas ruas”, explicam. Em paralelo, serão abertos concursos públicos para atrair instituições educacionais para que construam no centro da cidade suas escolas de artes. Ao mesmo tempo, a ERU afirma que será fortalecida a economia existente: as dezenas de ferrarias e outras oficinas que povoam esta área. Um plano que pretende também fazer com que novos tipos de comércio e serviços cheguem a estes bairros.

Na prefeitura de Bogotá há a consciência de que essa renovação não será visível em curto ou médio prazo. Os críticos, como Alirio Uribe, veem nesse plano a entrada perfeita para “os grandes investidores”. O preço do metro quadrado no bairro de San Victorino, uma zona comercial perto do Bronx, é similar ao da região mais cara de Bogotá, no norte da cidade, onde residem as camadas mais ricas. “Estamos usando uma base cadastral para a avaliação dos hectares”, dizem na empresa de urbanismo da prefeitura. “Quanto aos demais preços tratados, seria falar de especulação.”

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Futuro certo

Não é verdade que nosso passado seja incerto. Desconhecido, talvez. Falso, provavelmente. Fraudulento, certamente. Um país que acha que foi descoberto por acidente, não se pode mesmo levar a sério.

Desde a chegada das caravelas, a gente vem se auto enganando. A começar pelos elogios de Caminha. O Brasil foi se vendo, inventando e contando sua história como se tudo o que aconteceu e que acontecer seja sempre uma consequência das circunstancias.


Nossa história não é soma de mentiras combinadas. É simplesmente uma sucessão de fraudes. As vezes paralelas. As vezes interligadas. Não importa. Sempre fraudes. E a gente se acostumou com elas. Tanto que não mais as reconhecemos. Nem mesmo em face de suas consequências.

Já usamos crimes passionais como desculpa para golpe. Já chamamos revolução de golpe. E as vezes chamamos a aplicação da constituição de golpe. Vai entender. A gente sempre está a tentar distorcer os eventos de maneira a se encaixarem em narrativas incoerentes, ilógicas, e, acima de tudo, inúteis.

E a vida segue. Mesmo com cenário desolador. Grandes sucessos empresariais frequentemente são resultado de fraudes. Nada mais. Campeões nacionais são construídos azeitando relações privilegiada com o Estado, e tendo como combustível a mistura toxica da flexibilidade moral com o acesso fácil a bolsa da viúva. Apenas para entrar em colapso na areia movediça da fraude.

Alardeamos nossa capacidade analítica. Passamos a vida elogiando corpos técnicos autoproclamados competentes. Mas incapazes de identificar a existência do nada por trás das ações, dos investimentos, e das estratégias, públicas e privadas. No frigir dos ovo, apenas um punhado de corporações incapazes de ou desinteressadas em proteger os interesses de acionistas, pagadores de impostos e cidadãos.

O passado, portanto, não é incerto. Apenas fraudulento. O presente, dramático. E o futuro, lamentavelmente trágico. Resultado natural de um amontoado de fraudes.

O autor da crise

A escassez de lideranças políticas no Brasil é tão grave que permite que alguém como o chefão petista Lula da Silva ainda apareça como um candidato viável à Presidência da República, mesmo sendo ele o responsável direto, em todos os aspectos, pela devastadora crise que o País atravessa.

A esta altura, já deveria estar claro para todos que a passagem de Lula pelo poder, seja pessoalmente, seja por meio de sua criatura desengonçada, Dilma Rousseff, ao longo de penosos 13 anos, deixou um rastro de destruição econômica, política e moral sem paralelo em nossa história. Mesmo assim, para pasmo dos que não estão hipnotizados pelo escancarado populismo lulopetista, o demiurgo de Garanhuns não só se apresenta novamente como postulante ao Palácio do Planalto, como saiu a dizer que “o PT mostrou como se faz para tirar o País da crise” e que, “se a elite não tem condição de consertar esse País, nós temos”. Para coroar o cinismo, Lula também disse que “hoje o PT pode inclusive ensinar a combater a corrupção”. Só se for fazendo engenharia reversa.

Não é possível que a sociedade civil continue inerte diante de tamanho descaramento. Lula não pode continuar, sem ser contestado, a se oferecer como remédio para o mal que ele mesmo causou.

Tudo o que de ruim se passa no Brasil converge para Lula, o cérebro por trás do descomunal esquema de corrupção que assaltou a Petrobrás, que loteou o BNDES para empresários camaradas, que desfalcou os fundos de pensão das estatais, que despejou bilhões em obras superfaturadas que muitas vezes nem saíram do papel e que abastardou a política parlamentar com pagamentos em dinheiro feitos em quartos de hotel em Brasília.

Lula também é o cérebro por trás da adulteração da democracia ocorrida na eleição de 2014, vencida por Dilma Rousseff à base de dinheiro desviado de estatais e de golpes abaixo da linha da cintura na campanha, dividindo o País em “nós” e “eles”. Lula tem de ser igualmente responsabilizado pela catastrófica administração de Dilma, uma amadora que nos legou dois anos de recessão, a destruição do mercado de trabalho, a redução da renda, a ruína da imagem do Brasil no exterior e a perda de confiança dos brasileiros em geral no futuro do País.

Não bastasse essa extensa folha corrida, Lula é também o responsável pelo tumulto que o atual governo enfrenta, ao soltar seus mastins tanto para obstruir os trabalhos do Congresso na base até mesmo da violência física, impedindo-o de votar medidas importantes para o País, como para estimular confrontos com as forças de segurança em manifestações, com o objetivo de provocar a reação policial e, assim, transformar baderneiros em “vítimas da repressão”. Enquanto isso, os lulopetistas saem a vociferar por aí que o presidente Michel Temer foi “autoritário” ao convocar as Forças Armadas para garantir a segurança de Ministérios incendiados por essa turba. Houve até mesmo quem acusasse Temer de pretender restabelecer a ditadura.

Para Lula, tudo é mero cálculo político, ainda que, na sua matemática destrutiva, o País seja o grande prejudicado. Sua estratégia nefasta envenena o debate político, conduzindo-o para a demagogia barata, a irresponsabilidade e o açodamento. No momento em que o País tinha de estar inteiramente dedicado à discussão adulta de saídas para a crise, Lula empesteia o ambiente com suas lorotas caça-votos. “O PT ensinou como faz: é só criar milhões de empregos e aumentar salários”, discursou ele há alguns dias, em recente evento de sua campanha eleitoral fora de hora. Em outra oportunidade, jactou-se: “Se tem uma coisa que eu sei fazer na vida é cuidar das pessoas mais humildes, é incluir o pobre no Orçamento”. Para ele, o governo de Michel Temer “está destruindo a vida do brasileiro”, pois “a renda está caindo, não tem emprego e, o que é pior, o povo não tem esperança”.

É esse homem que, ademais de ter seis inquéritos policiais nas costas, pretende voltar a governar o Brasil. Que Deus – ou a Justiça – nos livre de tamanha desgraça.

O monstro terno

A realidade política brasileira tem sido comparada a um filme de terror. E com razão, porque, não importa para que lado se olhe, o cenário é de porões de castelos assombrados, caninos ensanguentados, homens peludos, mortos que caminham e mulheres de maus bofes. Para completar, vários dos nossos políticos têm o "physique du rôle" para interpretar Drácula, o Lobisomem, Norman Bates, Freddy Krueger e até Minnie Castevet, a vizinha de apartamento de "O Bebê de Rosemary".

Em muitas dessas comparações, as pessoas citam Boris Karloff —como se, por ter feito os papéis-título em "Frankenstein" (1931) e "A Múmia" (1932), ele fosse um símbolo do horror. Mas, olhe, é uma injustiça. Boris Karloff apenas viveu aqueles papéis, e os dois filmes ficaram entre os maiores do gênero. Na vida real, Karloff (1887-1969) foi um dos homens mais queridos de Hollywood.

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Ele era, na verdade, inglês, com formação teatral, fã de Joseph Conrad e amigo de escritores e dramaturgos. Devia ser um grande ator, já que, conhecido por sua suavidade e ternura para com os amigos, os filmes só o queriam para viver loucos, drogados, carrascos, sádicos e até violadores de túmulos.

Karloff trabalhava em Hollywood, mas mantinha um apartamento em Nova York, no —logo onde— edifício Dakota, onde se passa "O Bebê de Rosemary" e onde John Lennon seria morto em 1981. No Halloween, Karloff deixava doces e balas à porta dos apartamentos do Dakota onde moravam crianças –adorava-as e não queria que tivessem medo dele. Para elas, gravou disquinhos infantis e trabalhou em "Alice no País das Maravilhas" e "Peter Pan" na Broadway.

Karloff dizia que, ao morrer, queria ser enterrado maquiado de Frankenstein. Não foi possível. Nossos políticos não terão esse problema — bastará que sejam enterrados como si mesmos.

Gente fora do mapa

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Desemprego e pensamento mágico

O pensamento heterodoxo brasileiro acredita que o crescimento tudo resolve.

A partir de leitura muito extremada de Keynes, a heterodoxia supõe um mundo em que, na prática, não há restrição de recursos. A suposição de desemprego permanente de recursos produtivos permite, se as políticas de estímulo à demanda forem adotadas, que a economia cresça sem limites.

Para essa tradição de pensamento, o sucesso do leste asiático não é fruto das elevadíssimas taxas de poupança, sempre acima de 35% do PIB, das prolongadíssimas jornadas de trabalho e dos melhores sistemas educacionais do mundo.


Para a heterodoxia brasileira, o sucesso do leste asiático deve-se ao BNDES deles e à capacidade que esse tipo de intervenção teria de alocar a poupança financeira aos setores "portadores de futuro", seja lá o que isso signifique. O escândalo do JBS, longe de ser caso isolado, sugere que mesmo nossos heterodoxos não sabem bem o que isso significa.

Reza a lógica heterodoxa: pau na máquina que o crescimento tudo resolve. Evidentemente, a heterodoxia brasileira não entende os motivos de os juros reais serem elevados, apesar de a inflação ser muito alta.

O pensamento mágico da heterodoxia brasileira tem sido particularmente alimentado pelo recente período de queda do desemprego, anterior à recessão. Segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, de 2003 até 2014 o desemprego recuou de 12,5% para 5%, expressiva queda de 7,5 pontos percentuais.

A política de pau na máquina teria sido responsável pela queda do desemprego.

A PME, pesquisa que foi descontinuada há pouco mais de um ano, cobre as seis principais regiões metropolitanas —Porto Alegre, São Paulo, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Salvador e Recife—, ou 25% do mercado de trabalho nacional.

Desde 2012, temos a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), de abrangência nacional, que é trimestral e substitui a PME.

Adicionalmente temos, desde 1981, a Pnad anual, que apresenta fotografia do mercado de trabalho nacional para meses de setembro.

Meus colegas do Ibre Bruno Ottoni Vaz e Tiago Barreira, cruzando os dados da PME, da Pnad anual e da PNADC, construíram uma série da taxa de desemprego a partir de setembro de 1992 para todo o território nacional, harmonizada com a metodologia da PNADC.

O resultado é muito menos animador. Em vez da redução de 7,5 pontos percentuais, houve, entre 2003 e 2014, queda bem menos expressiva, de 3,2 pontos percentuais (de 10,0% para 6,8%).

Além disso, metade da queda, ou 1,6 ponto percentual, ocorreu no primeiro mandato da presidente Dilma (de 8,4% em 2010 para 6,8% em 2014). O problema é que o regime de política econômica de Dilma foi claramente não sustentável: juros artificialmente baixos, tarifas represadas, deficit público e externo elevados, inflação crescente etc.

Nos oito anos do presidente Lula, com toda a ajuda da economia mundial, a taxa de desemprego reduziu-se em 1,6 ponto percentual (de 10,0% em 2003 para 8,4% em 2010) e, na média, foi ligeiramente pior do que o período FHC (9,2% em Lula ante 8,9% com FHC).

Desde a estabilização econômica, em 1995, a taxa de desemprego cresceu muito e só caiu para níveis relativamente baixos, como o de 6,8% em 2014, quando comprometemos o futuro com políticas populistas.

Urge aprovar a reforma trabalhista para conseguirmos, de forma sustentável, reduzir o desemprego.

Riqueza não é só dinheiro

Are you eating toxins?  By Tomer Hanuka in Spring 2007.:
Tomer Hanuka 
Pobreza é falta de acesso aos alimentos; portanto, riqueza significa não ter de se preocupar em saber de onde virá a próxima refeição
Tom Standage

Se um rato morto me disser

Ao contrário do que afirmei na minha última coluna, já não deverei assistir com a minha filha, Vera Regina, ao show de Ariana Grande, previsto para o próximo dia 11 de junho, em Lisboa. A jovem cantora norte-americana suspendeu a digressão europeia, na sequência do terrível atentado, em Manchester, que matou 22 pessoas, entre as quais várias crianças. Como a maior parte dos fãs de Ariana, Vera é muito jovem. Tem apenas 12 anos. Tentei ler um artigo intitulado “Como explicar o atentado de Manchester a crianças”, mas não consegui terminar. Não há como explicar aquele horror a crianças — nem sequer a adultos.

Ansiamos por explicações. Pior do que o horror é não sermos capazes de o compreender. Acreditamos que se conseguirmos explicar a escuridão esta se dissipará para sempre. Contudo, não só faz mais escuro no interior de certas pessoas do que nos confins do universo, como a natureza dessa escuridão é infinitamente mais misteriosa. Por outro lado, mesmo que seja possível compreender as razões profundas dos terroristas, sejam eles fundamentalistas islâmicos ou cristãos, de direita ou de esquerda, teremos de continuar a lidar com a pavorosa insensatez dos seus atos.

Há uma frase de Eça de Queirós, n'"A correspondência de Fradique Mendes" da qual me recordo com frequência: “Se um rato morto me disser, cheiro mal por isto e por aquilo e sobretudo porque apodreci, eu nem por isso deixo de o varrer do meu quarto”.

Compreender não significa aceitar. É preciso tentar compreender, sem dúvida, mas não podemos deixar de varrer o quarto.

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O terrorismo não foi inventado ontem. Tampouco os terroristas suicidas. No século X, a Ordem dos Assassinos de Hassan i Sabbah, o Velho-da-Montanha, transformou o assassinato político e religioso numa complexa e imaginativa forma de arte. A palavra assassino, segundo uma lenda muito divulgada, embora jamais comprovada, faria referência ao fato de esses loucos se intoxicarem com haxixe antes de lançarem os seus ataques suicidas. No século XIX, os anarquistas russos inventaram o homem-bomba. No século XX surgiram os pilotos kamikazes japoneses. Muito antes, milhares de anos antes, já se assassinavam crianças a pretexto de motivações diversas.

A única consolação que podemos ter, olhando para os horrores do passado, é a certeza de que vivemos numa época um pouquinho menos cruel e violenta. Evidentemente, sempre que ocorre um atentado terrorista, assalta-nos a dúvida de que isso seja verdade, ou seja, de que a Humanidade se aperfeiçoou, ética e moralmente, ao longo dos séculos. Acreditem: melhoramos. O número de guerras tem vindo a diminuir, de forma consistente, nas últimas décadas. A tortura também, bem como a exploração infantil e outras inúmeras perversões sociais.

Ainda assim, é claro, aconteceu Manchester, e, muito provavelmente, continuarão a ocorrer ataques semelhantes no Ocidente ao longo dos próximos anos.

O pior terrorista não é o que se faz explodir, assassinando ao mesmo tempo pessoas inocentes. São aqueles que se escondem por detrás do gesto suicida. Esses são os verdadeiros canalhas esféricos, para utilizar uma expressão que, não obstante a utilidade e atualidade, me parece ter caído em desuso. Tal como uma esfera é sempre uma esfera sob qualquer ângulo que se examine, um canalha esférico é sempre um canalha, qualquer que seja a perspectiva.

Fico pensando no que pensam os homens secretos, os tais canalhas esféricos, que preparam os atentados terroristas. Tento imaginar-me na pele deles: vejo-os conversando, enquanto tomam chá. Debatendo uns com os outros, amenamente, a qualidade dos diferentes tipos de explosivos, e dos diversos tipos de chá. “Quantas crianças pode matar um quilo desse explosivo?” — Pergunta um. O colega esclarece-o. Discutem qual será a melhor hora para o assassino se fazer explodir, maximizando o número de vítimas. A seguir o primeiro dirigente terrorista queixa-se de dores nas articulações, não se tem sentido muito bem, talvez ande comendo demasiada carne vermelha, e o segundo aconselha-o a visitar um massagista famoso por operar milagres. Retomam os assuntos de trabalho. Bebericam o chá: quem escolherão para se fazer explodir? Um sugere W., um rapaz inteligente, porém tristonho, cuja noiva morreu na Síria, durante um ataque americano. O outro prefere K., filho de um sujeito a quem deve favores. Discutem durante breves minutos qual a melhor opção. W. é gordo e forte, conseguirá transportar mais quilos de explosivos, despertando menos suspeitas. K. é mais determinado. Nunca os deixará ficar mal. Optam por W., e, tendo decidido isso, passam a discutir futebol.

Tento examinar o espírito desses homens por todos os ângulos. Faço um esforço enorme, mas não encontro neles nenhuma luz de humanidade. E isso dói.

José Eduardo Agualusa

Paisagem brasileira

Rua do Giz, São Luís-MA
Rua do Giz em São Luís (MA)

Juruna mostrou como se faz

Em outubro de 1984, o dublê de cacique e deputado Mario Juruna convocou a imprensa para fazer uma denúncia contra si mesmo. Ele havia recebido propina do empresário Calim Eid para votar em Paulo Maluf no Colégio Eleitoral. O xavante se disse arrependido e foi ao banco devolver 30 milhões de cruzeiros. A imagem do índio engravatado atrás de uma pilha de dinheiro resumiu o vale-tudo que embalou a sucessão do general Figueiredo.

Como Tancredo Neves venceu a disputa, ninguém quis investigar as suspeitas de suborno e caixa dois. Eid seguiu carreira como operador do malufismo. Juruna ficou desacreditado e não conseguiu se reeleger.


Mais de três décadas depois, o Brasil discute a possível escolha de outro presidente sem o voto popular. O senador Tasso Jereissati e o deputado Rodrigo Maia despontam como favoritos numa eleição indireta.

Políticos da situação e empresários não aceitam falar em diretas. A aliança que apoiava Michel Temer quer ungir um candidato comprometido com as reformas liberais. A ordem é mudar o presidente sem mudar a alma do governo em decomposição.

Em meio às conversas, articula-se um grande acordo para salvar investigados da Lava Jato. Entre as ideias mais cotadas, estão a anistia ao caixa dois e a concessão de algum tipo de imunidade a Temer, que poderia se estender a outros ex-presidentes.

Pelo roteiro das indiretas, o próximo inquilino do Planalto será escolhido por 513 deputados e 81 senadores. Boa parte deles é investigada sob suspeita de vender projetos de lei, MPs e outras mercadorias menos valiosas que a cadeira presidencial.

Nas últimas vezes que a turma elegeu os chefes da Câmara e do Senado, venceram Eduardo Cunha, Renan Calheiros, Rodrigo Maia e Eunício Oliveira. Todos delatados na Lava Jato.

Além de mostrar o que acontece numa eleição indireta, Juruna ensinou a usar o gravador em conversas com políticos. O cacique era atrapalhado, mas sabia das coisas.

Repensar financiamento e eliminar desigualdades de saneamento básico

Atualmente somos confrontados com muitas notícias sobre água, seja devido à escassez, às tensões sobre o seu uso ou devido às inundações e secas provocadas por fenômenos meteorológicos extremos. Até mesmo o saneamento entrou no vocabulário da área de políticas de desenvolvimento nos últimos dez anos, devido aos esforços concentrados para educar as pessoas sobre o impacto causado pela falta desses serviços na saúde e no bem-estar.

Governo e o Saneamento Basico

Sabemos que as políticas proativas em matéria de água são fundamentais para garantir a paz e a segurança e que o saneamento é essencial para a promoção da dignidade humana. A água e o saneamento são essenciais para atingir muitos dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) destinados a erradicar a pobreza, a fome e a promover a educação, a saúde e a igualdade de gênero. Por exemplo, metade dos atrasos no crescimento das crianças, que impactam a longo prazo o desenvolvimento mental e físico desses indivíduos, são relacionados a um saneamento deficitário.

No entanto, não obstante a todos esses fatores, é raro a água, e muito menos o saneamento, serem uma prioridade no limitado financiamento disponível para as políticas de desenvolvimento.

As metas do ODS 6, dedicado à água e ao saneamento, exigem acesso a serviços de qualidade para todas as pessoas de todos os países, priorizando as necessidades das mulheres, das crianças e das pessoas vulneráveis. Alcançar a universalidade no acesso à água e ao saneamento exigirá um esforço global ao qual nenhum país poderá se eximir.

Há pessoas desfavorecidas em todas as sociedades, em todos os países - sejam eles ricos ou pobres. Nos países desenvolvidos ainda há pessoas - aquelas que vivem na rua, em comunidades nômades, os requerentes de asilo, entre outras- que nem sempre têm acesso à água potável e a banheiros limpos. Em muitos países em desenvolvimento, as pessoas que vivem na pobreza, as pessoas com deficiência, as pessoas que vivem em áreas rurais remotas ou em bairros informais não têm água e banheiros seguros e acessíveis.

Assegurar que todos tenham acesso a serviços básicos exigirá mais do que um simples aumento no financiamento. Devemos olhar para além dos argumentos econômicos como a "rentabilidade" ou as "economias de escala" para reconhecer os verdadeiros custos para o desenvolvimento humano sempre que deixamos pessoas para trás. Devemos repensar a forma como os orçamentos são concebidos: como devemos dar prioridade a certos grupos específicos da população e como direcionar os serviços, a fim de eliminar as desigualdades no acesso à água e ao saneamento.

Precisamos talvez deixar de lado os projetos de infraestrutura em grande escala, que constituem atualmente um elemento básico de desenvolvimento, para encontrar soluções mais locais. Os recursos financeiros podem ser mais bem gastos na formação ao nível local, na formação de profissionais de saúde e de trabalhadores comunitários junto das populações locais. Deve ser investido mais dinheiro nas ações de operação e manutenção, para garantir que os sistemas existentes continuem a fornecer os serviços essenciais.

Devemos deixar de lado a noção dos retornos econômicos rápidos sobre os investimentos. O custo de não ser capaz de educar as crianças, de não ter uma população saudável ou de uma força de trabalho improdutiva, supera amplamente o custo de garantir o acesso aos serviços. Devemos fazer tudo possível para investir na saúde a longo prazo e no desenvolvimento do nosso planeta.

Com o objetivo de discutir e de repensar o financiamento do setor de água e saneamento, a parceria global Saneamento e Água para Todos organizará duas Reuniões de Alto Nível em Washington DC, EUA, nos dia 19 e 20 de Abril – uma de Ministros das Finanças e outra de Ministros responsáveis por água e saneamento. Essas reuniões irão explorar como tornar as estratégias de financiamento existentes mais eficazes, mais eficientes e mais propensas a diminuir, em vez de ampliar, o fosso das desigualdades.

Catarina de Albuquerque

Temer está cada vez mais parecido com Dilma

Michel Temer está confuso com esse negócio de ter que passar a impressão de que ainda preside o Brasil e, ao mesmo tempo, assumir sua nova condição de suspeito da prática dos crimes de corrupção, obstrução da Justiça e formação de organização criminosa. É possível que a própria Marcela Temer tenha dificuldades para saber quando está falando com o suposto presidente ou com o investigado. Neste domingo, ganhou as manchetes a notícia de que o presidente decidiu trocar o ministro da Justiça. Engano. A decisão foi tomada pelo investigado, não pelo presidente.

Foi para atender às suas prioridades processuais que Temer transferiu do Ministério da Transparência para a pasta da Justiça o jurista Torquato Jardim, um PhD em TSE com ótimo trânsito no STF. Foi para aplacar suas aflições de alvo de investigação criminal que Temer convenceu Osmar Serraglio a aceitar ser rebaixado da Justiça para a Transparência, em vez de retomar sua cadeira na Câmara —o assento está momentaneamente ocupado por Rodrigo Rocha Loures, um ex-assessor de Temer que cogita migrar da condição de homem da mala para a de delator.

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Mal comparando, Temer repetiu o movimento de Dilma Rousseff que, ao sentir que migrava da condição de presidente para a de suspeita, retirou o petista light José Eduardo Cardozo do ministério que carrega a Polícia Federal no organograma. Susbstituiu-o pelo procurador Eugênio Aragão, que chegou avisando que o diretor-geral da PF, Leandro Daiello, estava com os dias contados: ''Quero evidentemente na PF pessoas que tenham alguma liderança interna”, disse à época. Caiu antes de entregar o escalpo de Daiello, agora às voltas com Torquato, que analisará com Temer a conveniência de trocá-lo.

Na definição de Aécio Neves, que também tenta adaptar sua rotina de senador à de investigado, Osmar Serraglio revelou-se na Justiça “um bosta do caralho”. Sem saber que estava sendo gravado pelo delator Joesley Batista, do grupo JBS, Aécio contou que conversara com Temer sobre o erro “de nomear essa porra” para um ministério tão estratégico. O sonho de Aécio era a troca de comando na Justiça. “Porque aí mexia na PF”, recitou para o gravador do dedo-duro.

— O que que vai acontecer agora? Vai vim inquérito de uma porrada de gente, caralho, eles são tão bunda mole que eles não… O cara que vai distribuir os inquéritos para o delegado. Você tem lá cem, sei lá, dois mil delegados da Polícia Federal. Você tem que escolher dez caras, né? Do Moreira [Franco], que interessa a ele, vai pro João, disse Aécio a certa altura.

— Pro o João, respondeu Joesley.

— É. O Aécio vai pro Zé, prosseguiu o senador tucano, agora afastado de suas funções parlamentares.

Torquato Jardim é mais sofisticado do que gostaria Aécio. Mas ajusta-se com perfeição às prioridades de Temer. Na sua rápida passagem pela Justiça, Serraglio dedicou-se a brigar com índios. Tomado pelo conteúdo de uma entrevista que concedeu ao Correio Braziliense, Torquato terá atuação mais ajustada às necessidades de Temer.

O novo ministro justifica o encontro de Temer com o delator Joesley Batista na calada da noite. “O presidente é um parlamentar há 24 anos e tem uma conduta de informalidade que é própria de quem é do Congresso”, diz Toquato. “Ele tem uma descontração ao encontrar as pessoas, doadores de campanha, empresários… Nesse âmbito é que eu compreendo ele ter recebido o empresário.”

Torquato joga água fria na fervura dos que imaginam que a cassação de Temer pelo TSE virá no dia 6 de junho: “A coisa mais natural que existe, em um processo de 6 mil páginas, com 1.250 páginas de relatório e um voto que terá 400 ou 600 páginas, é que um juiz peça vista. Acontece isso em qualquer julgamento.”

De resto, o novo titular da Justiça ecoa os advogados de Temer. Faz isso ao questionar a “validade tecno-processual” do áudio do delator Joesley. Ou ao realçar que “um procurador da República que atuava na Lava-Jato aposentou-se e, no dia seguinte, tornou-se advogado” do delator da JBS. Ou ainda ao pôr em dúvida “a validade da extensão do benefício” judicial concedido aos delatores de Temer.

Imagem do Dia

The Giralda , Seville - Spain:
Catedral e Giralda de Sevilha (Domingo Leiva)

As ruidosas galerias e o ruinosos sussurros dos peregrinos

De todos os lados entram nos meus grupos de whatsapp e na caixa de e-mails cópias de um vídeo contendo discurso do deputado federal Pedro Cunha Lima, filho do senador Cássio Cunha Lima e campeão de votos em seu Estado. Praticamente desconhecido fora da Paraíba, com uma fala de poucos minutos virou celebridade nacional.

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Com voz calma, sem excessos retóricos, listou obviedades. Fez afirmações que frequentam cada mesa de família, boteco, programa de rádio ou carta de leitor aos jornais. Há tal sintonia entre suas afirmações e o sentimento dos cidadãos de todas as classes sociais, inclinações políticas, níveis intelectuais e faixas etárias, que todos, ao ouvi-lo, se percebem representados. E se põem a repassar o discurso aos seus círculos de relação.

Um representante que representa virou fenômeno! Um deputado de presença discreta na Câmara ganha justa notoriedade em cinco minutos, apenas com afirmações sensatas e verdades incontestáveis, mas raramente condensadas e proferidas por nossos políticos.

O jovem Cunha Lima simplesmente disse:
1. que é preciso reformar a máquina pública;
2. que não se pode fazer ao trabalhador rural exigências das quais se isenta a elite política do país;
3. que não é o povo que tem que obedecer aos políticos, mas os políticos que devem obediência ao povo;
4. que está enganado quem pensa que o povo continuará tolerando isso e que todos se acalmarão com o simples escoar dos dias;
5. que auxílio moradia deve ser para quem não tem casa e auxílio alimentação para quem não tem alimento, jamais para quem recebe bons vencimentos e subsídios;
6. que haver um servidor com a tarefa de ajeitar a cadeira onde cada ministro do STF senta é símbolo de um tempo que passou;
7. que é populista, dissimulada e enganadora a atitude dos deputados contrários à reforma trabalhista que silenciam diante da necessária reforma da máquina pública;
8. que o Congresso deveria parar por 15 dias, se necessário, e tratar dessa reforma, em regime de urgência e votação de urgência;
9. que só então terá o Congresso apoio popular e legitimidade para fazer as demais reformas tão importantes para a vida nacional.
Aí está, esquematicamente, 100% do conteúdo abordado pelo deputado (os poucos minutos do discurso podem ser assistidos aqui). Há algo muito errado num país em que semelhantes obviedades ganham brilho, arrancam aplausos nacionais e “viralizam” nas redes sociais.

É preciso afirmar e voltar a afirmar às lideranças políticas que a nação clama por exemplos que venham de cima. Num país com pretensões de justiça e democracia, nem mesmo em período de abundância (coisa que nunca houve fora do Brasil ficcional e dos discursos demagógicos) se justificam demasias como as que são reservadas a setores muito bem identificados nas instituições do Estado. Menos ainda é possível admiti-las em momentos como este, de grave crise fiscal. No entanto, quando se trata de privilégios, o Congresso Nacional só ouve as ruidosas galerias e os peregrinos engravatados que sussurram nos gabinetes, dizendo-se portadores dos mais legítimos anseios e direitos. Estranha democracia, essa, em que as minorias comandam o show e se sobrepõem à nação, destinatária compulsória de todas as contas.

Os que se omitem ante a reforma da máquina pública (e das instituições) estão a serviço dos inimigos da democracia e de todas as reformas porque o Estado que lhes convém é exatamente esse que está aí, destrambelhado e injusto. Tão óbvio quanto o importante discurso do deputado paraibano: a reforma da máquina pública equivale a um contrato social com a justiça e com o direito. Vale, também, por uma faxina. Casa bem higienizada não abriga formigas, ratos e baratas.

Percival Puggina

Cracolândia: Dória, um prefeito que não entende de gente

A região da Luz, na Cracolândia, passa por um dos seus momentos mais tensos, com ações truculentas, cruéis, desumanas e degradantes contra as pessoas que vivem no local, especialmente aquelas em situação de rua.

Com a intenção de dar respostas populistas à sociedade, os Governos municipal e estadual não mediram sadismo e autorizaram forças de segurança a, literalmente, atropelar pessoas que constituíssem obstáculo.

É sob a perspectiva de que algumas pessoas são dejetos a serem recolhidos, que os Governos de João Dória Jr. e Geraldo Alckmin têm tratado uma população que é fruto de uma histórica desassistência. Mas há, nos camarotes, quem aplauda a ação. Em geral, uma elite paulistana pertencente à mesma estirpe e classe dos referidos governantes.
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É de conhecimento público e notório que a região da Luz, em São Paulo, é alvo, há muito tempo, da força da especulação imobiliária. O bairro, que nas décadas de 60 e 70 foi um dos principais da burguesia paulistana – com prédios históricos e grandiosos monumentos culturais –, não conta com tantos terrenos disponíveis aos investidores do mercado imobiliário, fazendo com que, ao longo do tempo, os imóveis da região se tornassem supervalorizados. Além disso, são rígidas as legislações municipais acerca de construções de grandes incorporadoras no local – um empecilho a mais para a ansiada apropriação pelo mercado.

Assim, ao mesmo tempo em que é tratada por alguns como um problema, a Cracolândia é vista por outros como solução. É que o planejado abandono social no local aprofundou a desvalorização da região da Luz, fortalecendo, em contrapartida, a capacidade de negociação dos especuladores – interessados em adquirir a baixos preços terrenos em um dos endereços mais centrais da capital paulista.

Também nessa perspectiva, o “problema” Cracolândia, e a grave situação das pessoas que lá se encontram, supostamente justificaria a adoção de quaisquer medidas pelo poder público – desde ações violentas por parte de forças policiais, a prisões arbitrárias, internações forçadas e, numa medida mais ampla, até mesmo a flexibilização das leis municipais que tratam do tema, permitindo que grandes incorporadoras desenvolvam seus negócios.

Não por acaso, a expectativa do mercado imobiliário sempre foi a chegada de um prefeito com trajetória desvinculada de políticas sociais, um empresário com visão de gerente. Eis que o atual prefeito reúne essas características – acentuando uma política higienista e que conta com o aparelho repressivo do Estado, tendo como guarda costas o governador Alckmin.

E aos desavisados, que acreditam serem as pessoas que vivem nas ruas os únicos alvos dessa desastrosa política, fica o alerta: não tardará e a mão do mercado também alcançará trabalhadores e donos de pequenos comércios do local – que estarão cada vez mais suscetíveis após a primeira leva da higienização.

Não se sustenta, portanto, qualquer justificativa para a violenta ação adotada pelos Governos municipal e do Estado de São Paulo que não seja a verdade: entregar à iniciativa privada a comercialmente valorizada região da Luz.

É por isso que tentar relacionar a ação a uma suposta preocupação com a saúde ou o cuidado das pessoas que fazem uso de drogas na Cracolândia é mera retórica. A maior prova é o desmonte, pela Prefeitura de São Paulo, do Programa De Braços Abertos – iniciativa reconhecida até mesmo pelas Nações Unidas, mas que a gestão local preferiu exterminar.

Na Cracolândia, demoliram prédios e gente ao mesmo tempo, como se ambos estivessem na mesma categoria – a de coisa. O episódio revela Dória: como prefeito, um empresário que entende do mercado; como empresário, um prefeito que não entende de gente.

Lucio Costa

Grande passo para o aquecimento global

Enquanto o governo do presidente americano, Donald Trump, contesta as mudanças climáticas, Berlim deu o primeiro grande passo para diminuir as emissões de dióxido de carbono na Alemanha e, assim, tentar conter o aquecimento global.

Na semana passada, o governo da cidade-estado anunciou o fim do uso de linhito – uma espécie de carvão fóssil altamente poluente – em usinas de geração de energia e de calefação urbana. Assim, Berlim tornou-se o primeiro estado do país a abrir mão do uso de um dos maiores emissores de CO2 do mundo.

A última usina termelétrica que ainda operava com linhito, a de Klingenberg, passou a usar gás natural para gerar a energia e o calor que abastecem mais de 300 mil residências em Berlim. A mudança foi considerada histórica, tendo sido alcançada três anos antes do prazo estipulado em 2009.


Com o banimento do linhito na geração de energia, estima-se que 600 mil toneladas de dióxido de carbono deixem de ser lançadas na atmosfera anualmente. Apesar do avanço, o atual governo quer ir mais longe e já anunciou que, até 2030, pretende eliminar o uso dos outros tipos de carvão betuminoso nas últimas cinco usinas termelétricas da cidade-estado abastecidas com esse tipo combustível.

"O futuro pertence ao sol e ao vento, as fontes de energia limpa do século 21", escreveram as senadoras estaduais do Meio Ambiente, Regine Günther, e da Economia, Ramona Pop, num artigo publicado no jornal Tagesspiegel sobre o fim do uso de linhito.

O banimento do linhito é o primeiro grande passo para que a cidade-estado alcance a neutralização de carbono, evitando e compensado emissões de CO2. Em 2014, um estudo revelou que Berlim tem potencial para alcançar essa meta ambiental até 2050. Mas para isso, precisa deixar de usar combustíveis fósseis na geração de energia e reduzir a poluição causada pelo trânsito.

O governo berlinense está comprometida em alcançar esse equilíbrio e pretende, nos próximos anos, investir na expansão do sistema de transporte público e na ampliação da rede de ciclovias para oferecer à população alternativas de locomoção.

Berlim está fazendo sua parte para alcançar a meta estabelecida no Acordo de Paris, que quer limitar o aquecimento global ao máximo de 2ºC acima dos níveis pré-industriais e tentar, desta maneira, reduzir os impactos das mudanças climáticas que já são percebidos em diversas partes do planeta.

Na Alemanha, o inverno mais ameno e as enchentes mais frequentes causadas por fortes chuvas são apenas alguns dos sinais do aquecimento global.

Clarissa Neher

domingo, 28 de maio de 2017

Charge O Tempo, 24.05.2017

Caos nosso de cada dia

Numa carta endereçada a Robert Louis Stevenson, o escritor Henry James diz que gostaria que ela fosse um mingau de boas notícias. Infelizmente, não é possível preparar esse prato no Brasil, com notícias tão tristes que nem podemos homenagear e conhecer melhor as vítimas do atentado em Manchester, algo que aconteceu nos principais países do mundo.

Apesar das más notícias, é possível demonstrar que o Brasil está preparado para uma situação melhor se olhar para algumas decisões recentes. Por exemplo: as desordens que aconteceram em Brasília não aconteceram em Curitiba, quando Lula foi depor. E, se acontecessem, seriam rapidamente debeladas, tal o aparato policial e sua articulação com outros setores do governo.


É preciso evitar e combater a barbárie, aceita ainda por uma esquerda que flerta com a violência e não superou o viés autoritário das teorias do século passado. Uma esquerda que não sustenta dois minutos de discussão se for chamada a defender com ideias a destruição de prédios públicos e propriedades particulares, sobretudo os primeiros, que pertencem ao povo que ela supõe representar.

Curitiba foi diferente, dirão alguns. Além do mais, o que estava marcado em Brasília era apenas mais uma das inúmeras manifestações. Ficamos acostumados com manifestações dominicais pacíficas, feitas por gente que trabalha a semana inteira e derrubou o governo Dilma sem quebrar uma janela.

E nos acostumamos também com manifestações marcadas com antecedência de quase um mês, algo que já comentei aqui, reforçando a importância de analisar a conjuntura, sobretudo num país de mudanças tão rápidas.

Uma nova conjuntura foi aberta com a delação dos donos da Friboi. Ela atingiu Temer em cheio e criou uma situação insustentável para ele. O PT finge que não foi delatado também, que o partido não recebeu US$ 150 milhões para as contas das campanhas de Lula e Dilma. Daí sua fuga para a frente, firme na tentativa de fazer com que Lula escape da cadeia, vencendo as eleições presidenciais, se possível ainda neste ano.

Li que a inteligência do governo tinha captado os sinais de possível violência no movimento Ocupa Brasília, convocado no auge das contraditórias respostas de Temer às acusações que pesam contra ele. No entanto, esta antevisão não resultou num esquema mais complexo de prevenção, que poderia ser realizado pela relativamente bem paga polícia de Brasília?

Sempre se pode argumentar que o governo de Brasília é de oposição a Temer e iria ou confraternizar ou fazer vista grossa diante dos excessos dos manifestantes. Mas isso também poderia ser previsto por uma inteligência modesta e deveria ter sido levado em conta na organização do esquema preventivo, que poderia contar com a Força Nacional e a logística do Exército.

Além dos ministérios que simbolizam o governo, o prédio mais importante do Exército, o chamado Forte Apache, está em Brasília. As condições não eram idênticas às de Curitiba. Mas isso faz parte de uma inteligência modesta: adaptar experiências bem-sucedidas a realidades diferentes. A incapacidade de preparar um esquema preventivo praticamente deixa como alternativa o aumento da repressão. É precisamente isso que interessa à esquerda, atrair uma forte repressão, de preferência excessiva.

Isso faz com que a imprensa priorize os excessos da repressão e jogue para um segundo plano os atos de vandalismo que a motivaram. A esquerda não é inteligente, se você der a esse termo uma dimensão estratégica, mas é esperta. Se o governo responde com uma pobre informação e uma tática burra, os antidemocratas nadam de braçada.

Concordo que Temer deve deixar a Presidência. Mas discordo dos métodos e dos objetivos das pessoas que estão na rua para derrubá-lo. Elas querem apenas um escudo para seu líder escapar da polícia. Primeiro você arruína o país com uma irresponsável política populista. Em seguida, você começa a destruir prédios públicos com a esperança de voltar ao poder e prosseguir na rapina.

Isso não acontecerá pelo caminho do voto, em eleições limpas. Mas a fragilidade do governo e sua incapacidade de analisar o momento favorecem as tendências autoritárias e destrutivas da esquerda.

Não há razão para dizer que o Brasil não tem jeito e que a barbárie é um destino inescapável. Nem é preciso olhar para fora em busca de exemplos nos países avançados. Aqui dentro mesmo é possível encontrar as bases para uma política que defenda a civilização da barbárie. Milhões de pessoas nas manifestações dominicais provaram que é possível combater um governo corrupto e incapaz sem verter uma gota de sangue. Curitiba viveu serenamente um momento de tensão, a vida e os bens da cidade foram protegidos com competência.

São essas qualidades que farão a balança pesar a favor da democracia, isolando cada vez mais os setores que não se adaptam a ela. Mas, é claro, serão necessários alguma coisa que você possa chamar de governo e algum presidente que, pelo menos, esteja preocupado com o país e não com as investigações que rondam seu palácio.
Fernando Gabeira

O que você pode fazer

Nós somos a maioria, mas temos zero de foco.

O Brasil sabe o que não quer e por isso se tem negado às “ruas” falsificadas antes e depois do escandalo dos ésleys.

Mas não sabe o que querer, e não o sabe porque estamos todos presos a uma visão imediatista, ao pensamento mágico, à expectativa de uma unica e definitiva “solução” pra tudo.

Não acreditamos na recusa das soluções definitivas que é o verdadeiro sentido de “democracia” que não é um lugar de destino, é só um manual de normas de navegação.

IGUALDADE!

REFERENDO!

RECALL!

Igualdade perante a lei para limpar a constituição e balizar os limites da trajetória futura.

Referendo porque não ha saida fora do sistema representativo mas quem tem de ter a ultima palavra sobre as decisões que afetam sua vida é o representado.

Recall porque os limites para os representantes têm de ser simplesmente executaveis e pelos próprios interessados. Não dá pra delegar.

Essa trinca põe todo mundo jogando o mesmo jogo. O resto vai acontecendo por ensaio e erro, por correções sucessivas de rumo.

Pegue essas tres palavras e espalhe.

Se encher a Paulista e metade dela estiver carregando o mesmo cartaz, acontece!

Um exemplo para o mundo

Nessa crise política, estamos assistindo ao fim dos heróis. Corretas ou não, a velocidade e a quantidade de informações que recebemos diariamente através dos jornais, da televisão e, sobretudo da internet, nos faz senhores do conhecimento e, portanto, senhores de nós mesmos, desnecessitados de representação.

Nos livramos dos heróis, não precisamos mais deles. Mas tampouco percebemos como nos tornamos comandados, orientados pelo que nos dizem aquelas mídias, a transformar em pensamento próprio aquilo que elas nos revelam, como se nós mesmos tivéssemos criado todas aquelas noticias, ideias e conclusões, tudo aquilo. Nos tornamos um oráculo de nós mesmos a repetir, sem perceber, o que as redes sociais nos enfiam na cabeça.

Não sei se um dia conseguiremos pensar por conta própria, sem um ou mais desses poderes a nos conduzir por aí. Mas pelo menos já não precisamos mais de heróis, os seres onipotentes que não nos deixam pensar.

Se os heróis estão no fim, os bandidos ainda proliferam. Não temos mais apenas o líder do partido adversário a temer. O inimigo nem sempre é aquele que conhecemos e sabemos não estar de acordo conosco, mas o ser maligno de cuja maldade nem desconfiávamos. O bandido pode ser aquele cara simplório, capaz de devolver a propina ao juiz faltando R$ 35 mil que, pressionado, acaba por entregar na maior cara de pau.

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Mesmo apanhados em flagrante e condenados, os bandidos amam, por exemplo, discutir como é injusto o valor de suas multas. Joesley Batista embarcou seu iate bilionário para Nova York, onde a família se instalou na Quinta Avenida. Mas acha que ele e seu irmão estão sendo explorados, com a multa de R$ 225 milhões para cada um, paga ao longo do tempo. Os irmãos Batista faturaram R$ 170 bilhões em 2016, mas acham um exagero e se negam a pagar os R$ 11 bilhões cobrados pelo acordo de leniência. A esperta dupla sertaneja da JBS havia comprado, por confissão deles mesmos, 1.829 homens públicos, entre membros de instituições, políticos e demais autoridades. Mas acham que, em contrapartida, já prestaram serviço demais à Justiça com aquela gravação no Jaburu.

Eles querem pagar multas menores. Mas que tamanho de multa pode compensar o fim (duvidoso) de nosso prazer em sermos brasileiros? A destruição (temporária) de nossos sonhos de construir um país menos escroto, menos desigual, com tanta gente dormindo nas ruas e assassinada nos campos? Um país livre do estigma secular da escravidão, que ainda persegue nossos pretos, pardos e pobres?

Outro dia, li Rodrigo Janot dizendo: “O país se cansou do engodo, da hipocrisia, dos voos de galinha da economia (...), de seguir para logo retroceder”.

Gostei dessa frase porque ela afirma que não estamos desistindo. Pelo contrário, estamos enfrentando aquilo que não gostamos de ser e não queremos ser. Reafirma aquilo pelo que estamos lutando, mesmo que meio tontos, na esperança das tais manhãs que cantam. No mundo inteiro, depois do choque inicial, já começa a se espalhar a desconfiança de que o Brasil está fazendo o que tantos países, como os próprios Estados Unidos, gostariam de fazer. Uma batalha radical contra a corrupção pública e pela criação de uma alternativa, um novo regime de reformas e representação que seja capaz de impedi-la. Até o popular programa americano “60 minutes”, da CBS, fez referência a isso recentemente.

No meio dessa podridão toda, estamos prestando um serviço pioneiro à humanidade, além de a nós mesmos. Estamos dando um exemplo de que como é possível desejar reconstruir um país a fundo, preservando a democracia.

Cacá Diegues