domingo, 22 de janeiro de 2017

O inventor do mentirômetro

Mentir faz parte da existência humana desde o começo dos tempos. Há os que dizem que nunca mentem... Mas não têm como comprovar, o que é uma grande injustiça. Álvaro era uma dessas pessoas. Severo, rígido, extremamente religioso. De uma organização impecável, perfeccionista. Sua mania de limpeza chegava a extremos de levar em uma mochila seu próprio copo, talher e desinfetantes para banheiros públicos - quando usava, o que era raro, pois desenvolveu técnica para ficar até 18 horas sem urinar.

Tímido, excêntrico ou “esquisitão”, diziam os colegas. Nota “A” de cabo a rabo. Odiava falar em público e irritava-se com o português arcaico dos colegas (do tipo “nós vai”, “a gente chegavam” ou até o popular “veio”). Falava quatro idiomas e inglês com sotaque britânico.

Cresceu, fez PhD em psicologia experimental, em Montreal, no Canadá. Estudou as áreas cerebrais ligadas ao ato de mentir. Foi a fundo no tal de “detector de mentiras” que os norte-americanos adoram. Provou, com trabalhos publicados nas melhores revistas cientificas, a imprecisão e as falhas do detector.

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Os seus colegas brincavam dizendo que ele, como bom brasileiro, tinha desenvolvido suas teses sobre detector de mentira ao assistir presidentes da República fazendo pronunciamentos na TV: “Brasileiros e brasileiras...” ou “Nunca roubei, nunca traí minha mulher, nem recebi nada que a “Veja” publicou...” ou, pior, “Nunca antes na história desse país...” e “Sempre fizemos o que todos fazem: o inocente caixa dois”.

Era tanto olho revirando para cima, “cara de pau” e músculos faciais inflexíveis, bigodes e barbas sem mexer um fio, que o dr. Álvaro dizia: “Não há detector de mentira que dê conta de político brasileiro!”

Sua tese era simples: o que é verdade é algo que a cognição, a memória, traz naturalmente, não exige esforço, é espontâneo. E as áreas do cérebro agem de forma integrada simples assim: um fato foi fixado, depois armazenado e, quando alguém pergunta sobre ele, é evocado, lembrado ou é algo reflexo: estímulo-resposta. Exemplo: “Meu vestido é bonito?”. “Não”.

No entanto, a humanidade vai sendo treinada para agradar, falar o que o outro quer ouvir, puxar o saco, querer ser mais do que é, impressionar. Aí a coisa pega. Falamos o que não pensamos, expressamos o que não sentimos, fazemos o que não queremos só para obter vantagens e não ficar mal com o outro. Dr. Álvaro pegou esse fato, “os conflitos intrapsíquicos”, e viu que, quando “sim” vira “não” e vice-versa, há grande alteração das áreas cerebrais envolvidos nisso. Os que dizem a verdade ativam partes absolutamente distintas dos que mentem. E mais: mentir é muito mais complexo, pois o mentiroso “cria histórias imaginárias, fantasias” e quase escreve um romance todo o tempo para camuflar a verdade anos e anos.

Todos queriam ver o aparelho que o dr. Álvaro criaria a partir daí: o “mentirômetro”. Capaz de detectar desde infidelidade conjugal, desvio de dinheiro nas empresas, fofocas banais de artistas nas revistas, até traidores da CIA, FBI, hackers, filhos que usam drogas, enfim, o fim do fingimento.
A hora da verdade! Foi chamado para entrevista no programa da “Oprah”. Recorde de audiência, até que... A Universidade de Montreal convoca a imprensa. O professor dr. Álvaro era um impostor. Seu aparelho era uma farsa, e ele foi expulso da instituição.

Uma guerra nas redes sociais e programas de todo mundo: especulações, mentiras, fofocas. Ora estava preso em Guantánamo ou confinado pela CIA e FBI, ora era realmente um charlatão. Suas patentes canceladas tinham ido parar no serviço secreto inglês ou israelense. Era membro da Al-Qaeda.

No fim, ninguém sabia mais o que era verdade ou mentira, apenas que, graças a Deus, o tal do “mentirômetro” não seria usado. Ufa! Traidores, corruptos, políticos, puxa-sacos, enfim, todo mundo, principalmente os advogados, de mensaleiros estavam a salvo! Afinal, a realidade não é mesmo uma grande ilusão e mentira?!

Os novos tempos chegaram

Sexta-feira, desnudou-se a sociedade americana. Em Washington e montes de outras cidades, o povão foi para a rua, em boa parte protestando contra a posse de Donald Trump. Muita gente apelou para a violência, quebrando vitrinas, depredando carros, jogando pedras, virando e botando fogo em latas de lixo. A polícia fez a sua parte, avançando com gás de pimenta, gás lacrimogêneo, cassetetes e ocupação das principais avenidas, além de prisões.

Demonstraram ser um povo igual aos demais, participando do inconformismo e de excessos verificados em todo o planeta. Faltava apenas a comprovação que os aparelhos de televisão forneceram nos mínimos detalhes.

Era mera ilusão, provocada pela propaganda e a truculência, supor que formavam um mundo à parte. Até porque a História tem provado serem os Estados Unidos uma das nações mais violentas do mundo, que de uns tempos para cá até guerras vem perdendo.

O novo presidente promete acelerar o processo de ebulição da sociedade que passou a conduzir, ampliando o fosso entre ricos e pobres e deixando de lado sonhos e ideais de igualdade e aprimoramento social.

O egoísmo sempre foi a principal característica dos americanos, mas agora chegou a níveis nunca antes alcançados. Há quem julgue estar próximo o rompimento social, com parte das gerações mais jovens dispostas a enfrentar a minoria voltada apenas para os próprios interesses. Deveríamos acostumar-nos a esses novos tempos.

A diva do feminicídio

Como se sabe, índio quer apito e socialista quer dinheiro. Com o desalojamento do PT do poder central, a fonte secou. Claro que a nobreza petista continua milionária – afinal, foi mais de década de belos rendimentos –, mas os companheiros são prevenidos e pensam no futuro. O jeito de tentar retomar a linha direta com o bolso do contribuinte é recauchutar o conto de fadas. Prepare-se, porque doravante no Brasil cada enxaqueca será de direita – e os heróis da resistência democrática se oferecerão, limpinhos, para salvar você desse pesadelo.

A frase inicial deste texto não é uma piada. Ou melhor: é uma piada. Mas foi pronunciada, escrita e vociferada por uma série de indivíduos que pretendiam ser levados a sério. Vamos citar apenas um desses indivíduos – que por sua elevada carga simbólica resume o bando inteiro: Dilma Rousseff.

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Você pode não estar ligando o nome à pessoa, mas estamos aqui para ajudá-lo. A Sra. Rousseff, segundo registros confiáveis e impressionantes, presidiu a República Federativa do Brasil por cinco anos e uns quebrados – e foram justamente os quebrados que puseram fim ao seu incomparável reinado. Os quebrados, os falidos, os vilipendiados e os esfolados se uniram para convidar a diva da Lava Jato a cantar em outra freguesia. Ela foi. E de lá vem entoando coisas do tipo: “É intolerável que o machismo encontre eco no pensamento conservador e justifique o feminicídio”.

Sabem o que a diva do petrolão está fazendo, com a sutileza de uma baleia? Transformando a dor e o sangue de pessoas que ela nem conhece em investimento político-ideológico. Convertendo tragédia em proselitismo – com fins lucrativos. Os urubus estão sobrevoando a cena chocados, sem coragem de se aproximar.

Quem fez um sobrevoo tranquilo foi o melhor amigo da diva, Fernando Pimentel – indo buscar seu pimpolho numa festa de Réveillon com o helicóptero do estado. A Sra. Rousseff, nova cronista da vida alheia, bem que poderia fazer um paralelo com essa família feliz, progressista e solidária, na qual papai ajuda os filhinhos e não ataca ninguém – só os cofres públicos, que ninguém é de ferro. Escreva aí, companheira: enquanto o sangue corria em Campinas, seu amigo chupava sangue em Minas.

Sejamos justos: não é correto afirmar que Fernando Pimentel chupou o sangue dos mineiros. Na verdade, ele chupou o sangue dos brasileiros – ao lado da cronista do feminismo. É o que indicam os investigadores da Polícia Federal. Suas consultorias imaginárias e suas aventuras no BNDES foram uma modesta contribuição com as obras completas da amiga de fé e protetora incondicional, a senhora do petrolão – que presidiu a devastação da economia nacional em tempo recorde. O “pensamento conservador”, seja lá o que isso signifique, precisará de um exército inteiro para alcançar a eficácia da diva do feminicídio.

Depois os brasileiros reclamam que são roubados à luz do dia. Enquanto gente que deveria estar presa puder ficar por aí fazendo demagogia politicamente correta com a dor alheia, sem sequer passar vergonha por causa disso, tudo será permitido. Ratazanas que sugaram bilhões da Petrobras se apresentam como paladinos da moral e procuradores das causas humanitárias, numa boa. E fazem escola, liderando uma patrulha surrealista contra o inimigo imaginário – o homem branco, os conservadores, o monstro neoliberal do Lago Ness, tanto faz. Como disse o companheiro Delúbio quando o mensalão foi descoberto: “É uma conspiração da direita contra o governo popular”. Com essa fantasia, o bloco dos sujos continuará batendo a sua carteira sem perder a ternura – e o rebolado.

A não ser que você pare de dançar conforme a música deles. Que exponha os contrabandistas intelectuais ao ridículo que lhes é intrínseco. Que acabe com esse papo de guinada conservadora para justificar um projeto parasitário. Conservador é quem usa retórica e ideologia para conservar bocas e tetas. Desafie os gigolôs da bondade a ver quem sobreviverá melhor quanto maior for a liberdade. Cumpra o seu dever cívico: desmascare um progressista gourmet. Antes que seja tarde.

sábado, 21 de janeiro de 2017

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Reforma, reflexão, mistura

É velho o dilema entre revolução e reformas. Neste ano de 2017, o calendário assinala em outubro os 100 anos da Revolução Russa, e certamente propiciará análises, discussão do socialismo e do comunismo, dos rumos que tomaram, da inevitabilidade ou não de se apoiarem em ditadura e repressão. Mas teremos também o transcurso de meio milênio da Reforma — a original, religiosa, de Martinho Lutero, marco de um movimento moralizador e libertário que propunha que os fieis pudessem ler os textos bíblicos e tratar de interpretá-los. Sem autoritarismo e escapando a práticas de ética duvidosa, como a de comprar indulgências, privilégios pseudoespirituais adquiridos por favores materiais. Essa coincidência de datas propicia a oportunidade de refletir sobre muitas questões.

Na semana que vem, em uma grande festa literária, o Hay Festival de Cartagena, escritores de diversos países estão convidados a repetir o gesto original de Lutero ao afixar numa igreja suas 95 teses propondo reformas às autoridades eclesiásticas. De minha parte, a proposta que faço se dirige à autoridade que me parece suprema: a consciência individual de cada um de nós.

Rede Esgoto de televisão. 15062012 / "Muitos falam, mas d q adianta, se até na bíblia está escrito: "Estenderei a minha mão sobre os habitantes da terra. Pq desde o menor até o maior, todos eles são gananciosos." Jeremias 6,12-13 "A ganância insaciável é um dos tristes fenomenos q apressam a autodestruição do homem." Isaac Carmona "A ganância do ter não só engoliu o ser e a convivência pacífica, mas até privou a maior parte dos homens do ter indispensável, p/ acumular nas mãos d uns poucos..:
Trata-se de uma reforma interior. Consiste em que cada um se disponha a ouvir com respeito os argumentos e razões alheias, de modo a se deixar eventualmente fecundar por alguma contribuição de outros pensamentos além dos que já traz consigo. Ou seja, proponho que celebremos o convívio e o diálogo, bem como a leitura atenta e acolhedora de ficção e ensaios, entendidos como parte de um processo fundamental para o humanismo.

Olhando a evolução do homo sapiens, constatamos que nos desenvolvemos a partir de duas atitudes que serviram como garantia para nossas condições de sobrevivência.

A primeira foi a do sujeito ativo. Frente aos tremendos perigos que ameaçavam a espécie num ambiente hostil, era indispensável uma ação rápida, não sujeita a dúvidas, hesitação ou paralisia. Se uma fera atacasse, o homem primitivo devia correr o mais depressa que pudesse. Subir em uma árvore alta, jogar-se ligeiro na água ou golpear o animal com o objeto duro e pesado mais ao alcance e com maior probabilidade de causar dano ao inimigo que ameaçava. Tudo em decisões rápidas, pouco mais que atos reflexos. A rapidez e a reação automática podiam ser decisivas para salvar a vida.

Passado o auge do perigo, os indivíduos que conseguiam escapar podiam então se dar ao luxo de passar à segunda atitude: a do sujeito reflexivo. Pensar sobre o que ocorrera. Comparar sua sorte com a de outros, menos afortunados, que haviam sido mortos ou atingidos pelo perigo. Recordar os movimentos observados em companheiros que também haviam escapado, graças a ideias diferentes das suas, mas igualmente eficientes. Mais que isso: foi possível aprender que havia uma potencialidade positiva no intercâmbio de experiências, na soma de reflexões, em estratégias conjuntas para enfrentar a ameaça comum. Se o sujeito ativo era importante para garantir a sobrevivência individual, logo se tornou inevitável reconhecer que o sujeito reflexivo se revelava fundamental para assegurar a sobrevivência do grupo.

Hoje em dia, com o desenvolvimento tecnológico, os meios digitais e uma rede de comunicação universal, esse intercâmbio de relatos, experiências e opiniões se oferece com uma amplitude e rapidez antes inimagináveis. Para aproveitá-lo em sua plenitude, precisamos ir além da reação imediata e automática de dar um simples clique ou curtida, escolher mãos aplaudindo ou uma carinha vomitando. É preciso sair dos limites do pequeno grupo que reage como se fosse um único indivíduo, ativo e militante, mas voltado apenas para si mesmo — como o primeiro momento daquele homem primitivo que tratava de sua sobrevivência pessoal, sem qualquer reflexão a partir de narrativas e experiências alheias, que permitiriam progressos para toda a coletividade.

Aprendemos com Hannah Arendt que, para dominar de maneira absoluta, o terror precisa se exercer sobre pessoas que estejam isoladas umas das outras. Por isso, uma das primeiras, mais fortes e constantes preocupações de todo governo tirânico é construir esse isolamento entre os cidadãos. Mais ainda: ela observou também que o súdito ideal para um domínio totalitário é sempre aquele para quem não existe mais a distinção entre fato e ficção. Ou seja, para quem desaparece a realidade da experiência. Ou então, aquele que perdeu a distinção entre verdade e falsidade. Quer dizer, para quem desapareceram os paradigmas de pensamento.

Para evitar que isso se produza, uma boa reforma interior sugere que cada um acolha e ouça atentamente o que os outros têm a dizer, em uma atitude reflexiva, procurando ver o que possa existir de verdadeiro e útil nessa contribuição, sem reforço de palavras de ordem, sem hostilidade prévia, sem belicosidade, sem desqualificação automática do pensamento alheio. E de novo se possa
constatar, com o poeta Drummond, “como a vida é isto misturado àquilo”.
Ana Maria Machado

Teori e o buraco na estrada

É claro que é muito cedo para descartar qualquer possibilidade acerca da queda do avião em que estava o ministro Teori Zavascki. Eu, no entanto, tomei uma medida drástica desde que o senhor Lula da Silva assumiu o poder, mais de uma década atrás: viajante contumaz que eu era pelas estradas brasileiras, nunca mais pus o pé fora da porta.

O motivo é óbvio: aqui se morre de Brasil. De incompetência, de irrelevância, de bala perdida, de buraco na estrada. Não há o menor valor à vida, nem mesmo dos próprios proprietários das mesmas, que se arriscam diariamente nesta pocilga para continuar respirando este ar fétido. Há motivos sim – muitos – para que não tenha sido um acidente. Mas há muito mais motivos para que tenha sido.


A começar pelo fato de que o ministro foi “corajoso” ao assumir uma cadeira num avião daqueles, no momento da vida em que estava. É óbvio que deveria zelar pela própria existência, dada a importância do que estava fazendo. Me parece que um misto de ingenuidade, confiança nas aeronaves de pequeno porte e alcance, confiança no mau tempo, confiança na capacidade do brasileiro de dar um jeitinho em tudo foram as causas principais deste acidente.

Em respeito ao homem público, me abstenho tanto de acreditar nas teorias da conspiração quanto na possibilidade de ter sido uma licenciosidade dele mesmo. Já afirmei por aqui que procuro não parar debaixo das pontes. Sou engenheiro. Sei como elas andam sendo construídas, só com a metade do dinheiro. A outra metade é transferida em tenebrosas transações.

O que fica é o perigo, rondando nossas cabeças incautas, de que tudo desabe num trágico “acidente pavoroso”. Conta agora a do papagaio. Nunca é tarde para lembrar a inutilidade de um atentado dessa monta, uma vez que a equipe toda do ministro continua viva, não é mesmo? Ou será que eles não sabem do que se trata a Lava Jato?

Essa parte de Trump que nos habita

Trump já é mais do que um presidente dos Estados Unidos. É um fenômeno que dá calafrios. Seu nome faz retumbar ecos de tambores de guerra.

Todos os adjetivos que engendram medo ou repulsa já foram usados para descrever sua pessoa e suas ideias. Mas quantos pedaços de Trump existem em nós? Elegeram-no os deuses, ou fomos todos nós, não só os norte-americanos?

Ninguém é totalmente inocente. Onde começa a fronteira entre a vítima e o verdugo?

Trump é uma interrogação. Para uns, uma surpresa sombria; para outros, o líder que ri dos políticos e os julga e despreza. Personagem ainda indecifrável, apesar de sua linguagem óbvia, insubstancial e às vezes até pobre.

É mais do que um problema político. Não é de esquerda nem de direita. Talvez de nada, só de si mesmo. Um palhaço ou algo menos divertido, mais inquietante?


Por ser mais que um político chamado a governar o maior império do planeta, precisaríamos de outras ciências para enquadrá-lo. Talvez a psiquiatria?

E se fosse um cidadão que espelha o sentir de milhões de pessoas, cansadas da desfaçatez e do aburguesamento de seus governantes tradicionais, engordados sob o manto da impunidade e da corrupção que foram marginalizando a metade do Planeta que precisa se conformar com as migalhas caídas da mesa dos seus festins?

Ou será a falsa esperança desses milhões de cidadãos que já não esperam nada dos politicamente corretos e correm em busca da miragem de um “chefe”, o mais macho e incorreto possível?

Trump ainda nem estreou e já é o personagem do mundo. O que há nele de morbidez política ou existencial para que, oco de ideias e saciado de presunção, tenha se tornado o maior fenomenal viral das redes sociais do mundo?

Sobre Trump já se escreveu de tudo, mas talvez pouco sobre nós mesmos frente ao nosso espelho. Há uma pergunta que inquieta não só a psicologia e a psicanálise, mas também a nossa própria consciência: que parte do Trump se esconde em cada um de nós?

Somos todos um reflexo de Trump cada vez que nos inflamamos diante dos diferentes. Não somos uma selfie dele quando sofremos se a nossa filha branca se casa com um negro? Ou quando nosso filho pardo se orgulha de ter se casado com uma branca?

Cada vez que um pai diz: “Prefiro um filho morto a um filho gay”, e quando em algum canto sombrio da nossa alma nos alegramos cada vez que um delinquente é linchado na rua, não estaremos poluídos pelo vírus trumpiano?

Ou quando continuamos acreditando que a cor da pele é um defeito da luz em vez de uma tonalidade do arco-íris?

Ou quando os homens, talvez sem verbalizar, consideram que muitos estupros são causados e justificados pelas mulheres com seus vestidos provocantes, ou quando acreditam que todas elas são facilmente prostituíveis diante do poder ou do dinheiro?

Somos habitantes do planeta Trump quando degradamos os direitos humanos, defendemos a tortura ou a pena de morte e nos opomos a que a mulher possa decidir conscientemente sobre a sua maternidade.

Somos pequenos Trumps quando acreditamos que é a pobreza que causa a violência. E a polícia é trumpiana quando, na dúvida entre um branco e um negro, se inclina pela inocência do branco.

A Justiça, até a mais democrática, espelha Trump cada vez que enche as prisões com os sem-nome e deixa em liberdade os que se gabam de dizer: “Você sabe com quem está falando?”.

Até as democracias mais sólidas, como a europeia, exalam hoje aromas de trumpismo. Basta pensar na incômoda política para os imigrantes e refugiados. No fundo nos irritam porque estariam invadindo nosso território sagrado. São a ameaça à nossa tranquilidade.

Somos um pedaço de Trump quando acreditamos que é necessário pensar antes no nosso pequeno curral do que na grande praça do mundo.

Somos Trump quando já não nos espanta o silêncio de morte daquela parte do mundo à qual condenamos a não ter voz.

Trump não é um alienígena nem um extraterrestre. É a expressão do nosso mundo que está se fechando em si como um ouriço, com seus espinhos em alerta, contra aqueles que não pensam nem amam como ele.

STF põe em risco no petrolão prestígio amealhado no mensalão

Superado o receio de que o novo relator da Lava Jato saia da caneta de Michel Temer, um potencial investigado, o país passa a conviver com o pavor de que o Supremo Tribunal Federal escolha um relator inconfiável. A hipótese de que o substituto de Teori Zavascki seja escolhido por sorteio é horrorizante. A impressão de que nem todos os ministros da Suprema Corte são dignos da função é horripilante.

Nenhum cidadão no mundo recebe mais informações jurídicas do que o brasileiro. Um visitante estrangeiro estranha que o noticiário fale mais sobre inquéritos, denúncias e ações penais do que sobre futebol. A maioria entende de leis apenas o suficiente para saber precisaria entender muito mais.

Entretanto, as transmissões da TV Justiça desenvolveram na plateia habilidades que permitem diferenciar certos magistrados dos magistrados certos. O que tornava Teori especial aos olhos leigos era o estilo de zagueiro de time de várzea, não o notório saber jurídico.

O relator morto da Lava Jato sabia como demarcar o seu território na grande área de um processo. Cara amarrada, mirava a canela já na primeira entrada. Com dois trancos, arrancou Eduardo Cunha da presidência da Câmara e do exercício do mandato. Abriu o caminho para a cassação e a prisão. Com outro tranco, empurrou gente como Lula para dentro do “quadrilhão”, como os investigadores chamam o inquérito-mãe da Lava Jato.

Não são negligenciáveis as chances de que o novo relator saia da Sugunda Turma do Supremo, onde tramita a Lava Jato. Com a morte de Teori, restaram nesse colegiado: Celso de Mello, Gilmar Mendes, Dias Tofoli e Ricardo Lewandowski. Responda rápido: você levaria a mão ao fogo por todos eles?

Em geral, essa gente leiga que conhece o seu valor costuma achar inacreditável que jogadores remunerados pelo teto do serviço public, tratados com todo o pão de ló que o dinheiro público pode pagar, não consiga prevalecer sobre o time dos corruptos de goleada.

O pedaço mais esclarecido da arquibancada raciocina assim: eu, com o mesmo salário e igual tratamento, ficaria envergonhado se não pintasse duas ou três capelas sistinas por mês.

Quer dizer: ou o Supremo Tribunal Federal acomoda na relatoria da Lava Jato um ministro com a disposição de um zagueiro e o talent de um Michelangelo ou vai jogar no ralo todo o prestígio que amealhou no julgamento do mensalão.

Um pouco de alegria

Shirley Temple e George Murphy, que seria depois 
senador americano, em "Little Mis Broadway" (1938)

Pagante nacional

Os governos fingem que combatem as facções. Elas brigam entre si e tentam não se atritar com os governos.
 
Quem paga a conta? Nós, ora 
Ricardo Noblat

Tempos de escolha

Por três anos, a população de Brasília assistiu ao governo do Distrito Federal e ao governo federal construírem, ao custo de R$ 2 bilhões, um estádio para 70 mil espectadores — em uma cidade em que seus times carecem de torcedores — enquanto a poucos quilômetros seu Teatro Nacional estava fechado e se degradando.

Diante deste desperdício de recursos e deste crime contra a cultura brasileira, os artistas de Brasília silenciaram por duas razões: a afinidade em relação aos governos federal e local, e a tradição brasileira de considerar que os recursos fiscais são ilimitados, sem disputa entre as diferentes prioridades.

O caso de Brasília não foi único: nos últimos anos, dezenas de museus, cinemas, teatros foram sendo depredados, degradados e abandonados, ao lado de novos estádios e outros gastos públicos.

Mesmo entre os poucos artistas que se manifestaram em defesa da recuperação do teatro, nenhum protestou contra o desperdício do estádio por não perceberem que cada tijolo usado em uma obra não pode ser utilizado em outra; eles não tinham a percepção de que os gastos públicos exigem escolha: estádios ou teatros, viadutos ou escolas, palácios ou saneamento.

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Felizmente, nesta semana, o ministro Roberto Freire e o presidente Temer assumiram o compromisso de recuperar e reabrir o Teatro Nacional Claudio Santoro (foto).

Mas, diante das novas regras que definem um teto para os gastos da União, a vida política e fiscal brasileira vai entrar em um tempo de realismo na escolha de suas prioridades.

A disponibilidade de recursos orçamentários para uma ou outra finalidade vai depender de luta política na elaboração do Orçamento federal. Por isso, os artistas que até aqui assistiram calados a um teatro definhar na sombra de um estádio que surgia precisam estar atentos.

Será preciso convencer os eleitores para que eles convençam os governos e parlamentares a preferirem um teatro necessário a um estádio sem função. Caso contrário, democraticamente, o teatro continuará fechado e o estádio, vazio.

Os gregos separaram aritmética e dramaturgia, a fantasia nos palcos e a realidade na política.

Foi a aliança dos políticos de todos os partidos com os líderes de classes, patronais ou trabalhistas, que nos passaram a ilusão de que os recursos financeiros públicos seriam ilimitados, permitindo fantasias na política.

A partir de agora não bastará lutar por mais recursos para o teatro, será necessário lutar também para tirar recursos para outras finalidades.

A política subirá para o mundo da realidade, por disputas conforme interesses, preferências, lutas entre classes. A ilusão ficará no palco, nos roteiros das peças, nas partituras, no destino dos personagens, não na política e nas finanças.

Pena que muitos ainda preferem a ilusão fiscal do orçamento à ilusão artística do teatro; e o sectarismo faz com que alguns artistas fiquem contra a recuperação do teatro porque estará sendo feita por um governo ao qual se opõem.

Valeu a pena

Não dá para aceitar a suposição de ter havido um atentado, sabotagem ou coisa igual. Mesmo assim, lá no fundo do cérebro, permanecerá a dúvida. Mesmo sabendo que de nada adiantaria, pois a Operação Lava Jato dobrou a curva da esquina. Quem se tornar relator do processo estará obrigado a seguir adiante na condenação dos corruptos envolvidos no escândalo.

A vida tem dessas surpresas. De Tancredo, Ulysses e Teori, entre tantos outros, já estava escrito. Importa seguir adiante. A delação da Odebrecht não demora a ser conhecida. E outras. Tanto faz quem será o novo relator. Ou quantos corruptos serão denunciados, dispondo ou não de foro especial. A verdade é que montes de políticos, parlamentares ou não, deixarão de ser políticos e certamente, os que tiverem sido parlamentares.


O fundamental, a partir do início da Operação Lava Jato, e tanto faz quem irá encerrá-la, é que conluio entre empreiteiras e políticos está terminado. Claro que crimes continuarão a ser praticados, ainda que em número bem menor. As estrelas de primeira grandeza se apagarão, por ação do ministro Teori Zavaski, abruptamente interrompida mas já completada em sua fase mais importante.

Agora é aguardar as investigações já iniciadas pelas autoridades competentes para apurar o acidente nas águas de Parati. Que o exemplo do morto ilustre permaneça para sempre na crônica do Poder Judiciário. Onde quer que ele se encontre, deixará marcada sua passagem com a lição de que, se a alma não é pequena, valeu a pena…

Imagem do Dia

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Kenia (Lisa Kristine.)

País árvore. Cidade floresta

Parece tão longínqua na memória, face ao acúmulo de fatos violentos desde então, tal qual um Febeapá demoníaco assombrando-nos, a cerimônia de abertura das Olimpíadas no Rio.

A era da informação nos revela a onipresença vacilante do personagem de John Travolta em “Pulp Fiction” ou a frequente aparição do descomunal membro sexual de um homem negro de chapéu como relevantes. Mas podemos também, com poucos cliques, rever a bela abertura dos Jogos de 2016. Sugiro, portanto, ao leitor que deixe um pouco de lado tais informações “pop”, ou poop, e mire novamente seu olhar para aquela ocasião no distante 2016.

Naquela abertura colocamos em bilhões de telas do mundo uma coincidência que raramente acessamos como fenômeno disruptivo e transformador: nosso país, Brasil, é o único do mundo batizado com o nome de uma árvore, o pau-brasil.

Pode parecer anedótico, e quanto mais nos deixamos deprimir pelo conhecimento de como defendem os interesses pátrios, políticos e empresários, mais vulgarizamos a palavra Brasil.

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Açúde Solidão (Floresta da Tijuca)
O tronco da árvore de pau-brasil (Paubrasilia echinata) fornecia um corante vermelho “brasa”, a brasileína, importante tanto para as tintas para escrita quanto, e principalmente, para o tingimento de sedas e veludos tão apreciados pelas cortes europeias.

Assim, o corante sanguíneo da árvore tropical cobria os corpos das monarquias europeias. Essa é uma leitura. A beleza de uma cor ímpar seduzia, abrindo o campo do desejo e do intelecto, ampliando os mundos exteriores e íntimos de uma sociedade envelhecida. Também é uma leitura possível. A brasileína, como meio, também era mensagem, nos ensinou Marshall McLuhan.

O entendimento das mudanças climáticas como anedotas da internet, como quer fazer parecer a nova elite mundial, tem naquela cerimônia dos Jogos Olímpicos do Rio uma contramanifestação global. Há um vazio de saber que precisa ser preenchido com uma nova inteligência planetária, mais amorosa com a Terra. Consigamos nós, brasileiros, mirar nosso olhar para novas cores, mesmo diante das cabeças sem corpos que ocupam posições de autoridade, e poderemos sentar à mesa do mundo e falar de árvores.

Outro Vale do Silício necessário é o Vale Silvícola, a surgir no Brasil, onde a Embrapa pode ser uma nova Apple. Quanto falta para termos políticos da estatura de uma sumaúma?

Pensar o arco temporal de um século é muito difícil numa economia de juros altos. O que torna difícil demonstrar a agenda urbana como urgente para o país, pois cidades são organizações lentas. Priorizar as economias que podemos gerar e compartilhar no território urbano é dar valor estratégico a uma escala que não é menor, mas estrutural para o estabelecimento de um ciclo econômico sustentável e mais pleno de cidadania, onde possamos conjugar o binômio natureza-cidade como conhecimento de que o planeta precisa e que dominamos intimamente.

O reconhecimento como Patrimônio da Humanidade para a Paisagem Cultural do Rio de Janeiro não é um título erudito de burocratas globais, é uma grande vitória geopolítica onde, após dez anos de candidatura, em esforço público e privado, propusemos uma outra perspectiva urbana. A cacofonia do ambiente urbano carioca revelaria uma ordem mais complexa, fruto do esforço de erguer uma grande cidade tropical em dança com a natureza. Amplia-se a história do urbanismo, pois uma nova relação descortina-se, onde não há natureza subjugada, tal qual numa cidade-jardim, mas um baile. A floresta usada inicialmente para fins econômicos e científicos, com o tempo, converte-se em campo poético. No Rio, a preservação, através das continuadas políticas de patrimônio cultural, promoveu uma singularidade urbanística, uma cidade-floresta.

Não só o Rio contém o Parque Nacional da Tijuca como é contido por ele. São inúmeros saberes muito úteis para um planeta quente. Priorizar a arborização urbana como infraestrutura essencial assim como água e esgoto. Inovar no tratamento das favelas como bairros ecológicos. Acessar a natureza como parte da experiência da vida na cidade.

O’Brazil, ou Hy’Brazil, é um mito gaélico. As Ilhas Afortunadas, ou Ilha do Brasil, narradas por São Brandão, navegador-santo irlandês do século V, ficariam no Atlântico Norte e seriam um Éden terreno. O isolamento da Irlanda durante o obscurantismo da Idade Média permitiu-lhe proteger e passar conhecimentos adiante. Tal lenda, como conhecimento empírico, ajudaria a impulsionar a Europa às navegações. Iria também ajudar a batizar o pau-brasil. Poderiam um país-árvore e uma cidade-floresta impulsionar seus saberes?

Washington Fajardo

Regra no presídio

Há algo mais de muito errado no sistema prisional. Talvez uma espécie de acordo tácito entre autoridades carcerárias e os chefões do tráfico para manter a paz nos presídios e fora deles, desde quando o PCC tocou o terror em São Paulo, o que só serve para permitir que as quadrilhas se fortaleçam ainda mais.
 
Essa parece ser uma espécie de regra do jogo, na qual os traficantes, e não as autoridades, estabelecem o próprio código de conduta. É aí que está o maior dos problemas 
Luiz Carlos Azedo 

Lava Jato não está em risco! Isso é terrorismo mixuruca

Desde que a Operação Lava jato existe, vamos ser claros, dizem estar ela em risco, não é mesmo? Vocês já perceberam ser essa a principal peça de marketing dos seus integrantes? Se alguém propõe um lei contra abuso de autoridade, grita-se: “Lava Jato em risco!”. E a imprensa ecoa: “risco, isco, isco, isco…”. Se alguém critica propostas fascistoides do Ministério Público Federal, grita-se: “Lava Jato em risco!”. E a imprensa ecoa: “risco, isco, isco…”. Parte do jornalismo virou mero repetidor de uma espécie de lobby que entende ser “do bem”.

Eis que leio os jornais e os principais portais e, ora vejam, dada a morte trágica de Teori Zavascki, o que temos? Grita-se: “A Lava Jato está em risco”. E a imprensa, bem…, “isco, isco, isco”. Leio no Estadão que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, afirmou na Suíça que a operação “está em jogo”.

Como é que é?

Então morre um ministro do Supremo, o que, sem dúvida, é lamentável, e se parte do princípio de que isso pode ameaçar a operação? Ameaçar por quê? Então não há procedimentos institucionais no Brasil? Então as decisões não são tomadas segundo a prescrição e a disciplina legais? Então somos mesmo uma republiqueta de bananas, onde o estado de direito depende do voluntarismo deste ou daquele?

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Teori era, sem dúvida, um nome adequado para a relatoria do petrolão em razão do perfil. Mostrava-se um homem desapaixonado de abstrações. Nunca se viu nele a centelha da ideologia. Ao contrário: brinquei certa feita que havia nele um quê de burocrata búlgaro. Coibiu excessos, deixou passar outros tantos, errou, acertou… Como todo mundo.

Lamento profundamente a sua morte porque, em primeiro lugar, há a dimensão humana da tragédia, que não pode ser ignorada. Mas lastimo também que se perca, vá lá, uma parcela importante de comedimento e racionalidade fria. Acho que isso sempre há de fazer falta quando estamos a falar dessa operação. Vimos nesta quinta, por exemplo, um delegado da força-tarefa a falar bobagem pelos cotovelos…

Mas é preciso que certos setores parem com essa Síndrome do Coelho do Bambi! A qualquer evento que lhes desagrada ou os assusta, lá vem a gritaria: “ A Lava Jato está em risco! A Lava Jato está em jogo!”.

Fogo, fogo na floresta!

Sergio Moro, o juiz, numa manifestação pública que é menos de apreço por Teori do que de desapreço pelo Supremo, diz que a operação não teria existido sem o ministro. Ora, tenham a santa paciência! Algumas almas sirigaitas que andam por aí aproveitam para erigir o cadáver em mártir de uma grande conspiração, embora, até anteontem, acusassem o ministro de ser o principal responsável por Lula ainda estar solto. A suposição era que ele havia manobrado para isso. Antes, ele era o conspirador. Agora que está morto, é vítima da conspiração. Que gente mixuruca! Que gente patética! Que gente sem-vergonha!

O espetáculo é grotesco. O ministro, de resto, não apanhou menos quando passou a fazer parte do julgamento do mensalão. Sim, eu também o critiquei algumas vezes — críticas que mantenho, porque diziam respeito aos votos que proferia, não à pessoa do magistrado.

É evidente que lamento profundamente a morte de Teori também em razão dos desdobramentos políticos, que já começam a mostrar a fuça…

Risco da Lava Jato? Qual risco?

Não gosto de conversa oblíqua. Nunca gostei. Vamos ser claros? Janot, Moro, o delegado Adriano Anselmo estão é ocupando posições no tabuleiro político. Para quê? Para deixar claro que é bom que o futuro relator da Lava Jato seja um fiel servidor de suas respectivas vontades. Ou eles começam a gritar: “A Lava Jato está em risco…”. E a imprensa vai fazer o de sempre: “isco, isco, isco…”.

O Coelho do Bambi é hoje a personagem mais influente do Brasil. Só que, naquele caso, o incêndio existia…

Paisagem brasileira

Catas Altas (MG)

A rota da lesma

Dizem os historiadores que por volta do ano 200 a.C. surgiu uma certa "Rota da Seda", conectando a China à Europa. Dir-se-ia tratar-se de uma mera via comercial. Nada mais falso. Naqueles distantes dias por ela sacolejavam, sobre o lombo dos camelos, muito mais que mercadorias - ia, antes e acima de tudo, o embrião do que hoje denominamos "aldeia global".

Uns bons dois mil anos se passaram - mas a visão daqueles intrépidos mercadores cruzando desertos e montanhas geladas permanece viva, inspirando um mundo cujo potencial ainda fascina a realidade.

Fiquei a pensar nisso há poucos dias, quando do lançamento de um serviço ferroviário ligando Yiwu, na China, a Londres, no Reino Unido - ao fim do cabo, a atualização de uma ideia milenar.

Economizando metade do tempo, quando comparado com o transporte marítimo, e custando a metade do preço do frete aéreo, os trens percorrem 12.000 km, atravessando sete países em 18 dias - Casaquistão, Rússia, Belarus, Polônia, Alemanha, Bélgica e França. Calculou-se que o volume de mercadorias transportados por esta rota alcance a fabulosa cifra de US$ 2,5 trilhões ao longo da próxima década.

Registre-se, ainda, que este serviço complementa dois outros, já em plena operação, que ligam a China à Alemanha e à Espanha.

Anunciou-se, paralelamente, a expansão da parte chinesa deste fabuloso sistema ferroviário. Serão US$ 503 bilhões investidos até 2020, de forma a que 80% das maiores cidades da China sejam interligadas por uns 30 mil km de ferrovias de alta velocidade.

Enquanto isso, em um vergonhoso contraste, 70% de nossas cargas são transportadas em sangrentos matadouros, digo, rodovias caríssimas, no lombo de milhares de caminhões adquiridos a peso de ouro de empresas transnacionais aqui instaladas. Dos 29.798 km de ferrovias que o Brasil tem, uns 10 mil foram construídos por Dom Pedro II. Para completar, 7 mil km de nossas ferrovias estão desativados, e uns 40% do restante em péssimo estado. Por conta de tal estado de coisas, a velocidade média dos nossos trens gira em torno de 20 km/h. Quem ganha com isso? Aliás, por qual motivo este gravíssimo problema nacional é tão pouco discutido?

Pois é. Do outro lado do mundo, uma pujante e moderna Rota da Seda. E aqui, em um país infinitamente mais rico, a humilhante "Rota da Lesma"...

Pedro Valls Feu Rosa

Abandono da escola e a imersão no crime

A educação nunca foi prioridade no Brasil. O colonizador português restringia a abertura de escolas porque considerava povo instruído um risco a seu domínio. Essa postura foi mantida, após a Independência, sem manifestações explícitas porque era importante camuflar as estratégias de preservação das formas mais iníquas de subordinação de alguns em benefício da classe dominante. Assim, desde a Constituição de 1824, prescreve-se a obrigatoriedade do ensino básico para todas as crianças, mas os investimentos estiveram sempre aquém das necessidades, e nunca há (...) um discurso consistente quanto à relevância da escolarização universal para integração plena de cada cidadão ao mundo moderno. Muitas famílias exigem que os filhos façam curso superior, mas financiam fraudes para que eles se deem bem nas avaliações, sem se preocuparem com os índices de aprendizagem, desde que a diplomação esteja garantida. Surgem, então, mensagens subliminares, depreciando a educação como caminho consistente para a qualificação profissional.

Nas classes subalternas, isso se torna mais dramático, contribuindo para a marginalização dos jovens desses segmentos, porque há mais obstáculos para frequentar a escola e eles não têm experiências compatíveis para a imersão no universo das letras, da ciência e das artes. Seu cotidiano é sempre repleto de dificuldades, que incluem trabalho desde a infância, carência material, desnutrição e deslocamento para o colégio, no campo ou na cidade grande.

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O baixo prestígio da educação tem condicionado a péssima rede de ensino, que inclui a precariedade da infraestrutura e o corpo docente desmotivado. As atividades são, então, pouco atraentes, desestimulando os pais a exigir dos filhos dedicação aos estudos, enquanto os imaturos não reconhecem a relevância da instrução para sua vida. Tudo soa como um mundo indecifrável e sem aplicabilidade em seu cotidiano miserável. Logo, as crianças perdem o interesse nas aulas em instituições públicas, interrompendo a formação que lhes garantiria a participação efetiva na sociedade urbano-industrial. Procuram, então, trabalho para ganhar seu sustento, mas encontram apenas atribuições inferiores; portanto, malremuneradas. Ficam, ao mesmo tempo, acessíveis ao recrutamento por gangues que instalaram o terror no país. Elas assumem, primeiro, funções auxiliares, mas vão, em seguida, para as mais complexas, sempre expostas à violência como agentes ou alvos.

As rebeliões nos presídios vêm escancarando a superlotação e a demanda crescente por vagas. Isso mostra que a raiz do problema é a marginalização das novas gerações porque não frequentaram a escola ou não se adaptaram às atividades e aos objetivos de qualificação profissional, que as levariam à inserção no mercado de trabalho. A irresponsabilidade dos governantes em manter uma rede escolar insuficiente, ineficiente e descomprometida com o futuro dos brasileirinhos está, portanto, escancarada. Resta saber até quando.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017


Os indemissíveis não estão nem aí


Chamaram o Exército...

Declara-se, como justificativa, que as Forças Armadas nacionais entram na parada “pela credibilidade” que os funcionários do sistema presidiário não têm. O presidente da República admite publicamente, portanto, que a “falta de credibilidade”, vulgo corrupção, desses “servidores” está na base da tomada das prisões pelo crime organizado que culminou nos massacres dos últimos 20 dias, mas que é impotente para fazer qualquer coisa a respeito senão pedir vênia aos corruptos para colocá-los de lado, vez por outra, para tomar dos criminosos os telefones, as armas e as drogas que estes regularmente lhes servem nas celas.

A expectativa de eficácia dessa providência é, naturalmente, a mesma das outras “meias-solas” que vêm sendo anunciadas para “consertar a economia nacional” sem deter a hemorragia que a vai matando: essa que mantém o País em profunda depressão moral e material.

“Nada de contrapartidas! Nem de arresto de bens por calote! Demissões, então, nem pensar! Nem um passo atrás!”

No Estado paralelo do crime organizado, com enclaves inexpugnáveis espalhados por todo o grande favelão nacional, todo mundo trabalha pelo fortalecimento da organização e o chefe elimina sumariamente quem pisa a regra estabelecida. No Estado nacional todos trabalham para se locupletar e os chefes, em geral aqueles que tiveram maior sucesso nisso ao longo da carreira, cooptam todos os que são flagrados jogando contra a Nação. A grande novidade deste último meio milênio é haver quem, do lado de dentro da lei, esteja exigindo o cumprimento dela. Mas todos os demais lhes resistem, como sempre...

A declaração de independência dos presídios controlados pelo crime organizado decorre diretamente dessa independência dos agentes do Estado brasileiro da lei e da vontade do Brasil. Os nossos “representantes”, os nossos “servidores”, podem sempre se dar o luxo de ter vontades e comportamentos próprios, diferentes dos nossos, impunemente. Escrevem leis que só valem para eles e que nos impõem sem consulta; escolhem de quem vão cobrar ou deixar de cobrar as que valem para o resto da Nação. A mais “sagrada” de todas as leis escritas por eles só para eles é a que estabelece que cada indivíduo posto para dentro do Estado não sai nunca mais. Ele e a sua descendência. Basta entrar. Não estão obrigados a ser bons no que fazem, nem a mostrar resultados sob pena de perderem tudo, como você e eu aqui, no mundo real. Podem escolher se e quando jogarão a favor da “empresa” sem que isso lhes custe nada. São indemissíveis. São intocáveis.


Charge O Tempo 20/01/2017

O resto, desse marco inicial até a falência nacional e a submissão do País inteiro ao crime organizado, o tempo faz. O raciocínio é simples. Se você for contratar um empregado amanhã e começar a conversa garantindo que a partir do ato da contratação ele será indemissível para todo o sempre e passará a decidir o valor do seu próprio salário, em 15 dias ele estará na sua cama e você na casinha do cachorro. Nem o mais idiota dos idiotas, individualmente, entraria numa roubada como essa. Mas como coletivo, como sociedade, a brasileira tem sido muito mais que idiota. E há tanto tempo que nem casinha de cachorro tem mais. Está na rua, ao relento mesmo.

A dimensão psicológica do problema brasileiro tornou-se maior que a sua causa original. Apesar da obviedade de tudo isso, apesar de cada brasileiro conhecer pessoalmente tipos como os que o parasitam e a obscenidade do resultado que colhem comparado ao que ele próprio consegue suando, você pode ficar o dia inteiro na frente da TV, ler todos os jornais, ouvir todos os “especialistas” e, à altura já da centésima quinquagésima morte por esquartejamento em 18 dias, do sexagésimo milésimo assassinato dos últimos 12 meses, do décimo segundo milionésimo emprego perdido e do terceiro aniversário da morte da economia nacional, não ver a óbvia, a ululante causa original de tudo isso ser apontada uma única vez como tal. Os três Poderes, para cujos titulares até as prisões são “especiais”, podem continuar folgadamente falando apenas de si mesmos. E o quarto, que renunciou à condição de “player” ao deixar de propor e expor soluções, vai a reboque num “lero” infindável sobre o nada; sobre modos “progressistas” ou “conservadores” de fazer as coisas que são luxos de gente que já se libertou e ficou rica.

Outros povos que viveram esse mesmo calvário tomaram a si, com a arma do “referendo” por iniciativa popular, a aprovação ou rejeição das leis escritas pelos seus representantes; instituíram o “recall” para demitir eles próprios os desviados protegidos pelos colegas; aprenderam que a única alternativa para o privilégio é a igualdade perante a lei e que qualquer exceção aberta, por menor e bem “justificada” que seja, acaba inevitavelmente no estouro da boiada. Mas para a alma latina e católica dos nosso intelectuais, dos nossos jornalistas, dos nossos “revolucionários”, essa solução parece muito pouco emocionante. Eles sempre começam cada batalha da sua proclamada guerra contra a miséria brasileira renovando a sua rendição incondicional; comprometendo-se a discutir todas as formas de “resolver o problema” exceto pela remoção da sua causa fundamental. A indulgência plenária, o perdão do comportamento pecaminoso mesmo que continuado, a graça conquistada mais com as orações que com os atos; o privilégio alcançado, seja através da fervorosa persistência do “concurseiro”, seja outorgado ao pobre mortal arrancado deste vale de lágrimas pelo toque miraculoso do poderoso da hora, está sempre pairando no horizonte. São fascinados pelo charme do privilégio. Botam sempre fé que “seremos todos incluídos” nele um dia.

Enquanto for assim, vamos como vamos: compra um carro blindado quem pode mais, uma arma quem pode menos, e segue-se em frente roubando ou sendo roubado, despedaçando ou sendo despedaçado.

Refugiado

o climatólogo James Hansen reforçou na última edição do TED o fato de que o aquecimento global tem afetado mais e mais o planeta. E que se providências sérias não forem tomadas, reverter o problema pode se tornar muito mais difícil e caro.:
Um presidente americano com as ideias e a índole de Donald Trump pode acabar com o mundo de muitas maneiras. Uma delas, em especial, faz-me suar. Literalmente. Ele não acredita em aquecimento global. Ou, como tuitou em 2012, vê o aquecimento global como uma lorota chinesa para tornar menos competitivos os produtos made in USA. Pretende roer a corda do Acordo de Paris e cortar pesquisas em clima e ecologia.

Trump enxerga a vida de modo paroquial. Talvez não ache que o mundo está ficando mais quente só porque seu domicílio eleitoral fica na área do planeta que, de acordo com as medições científicas, teve o clima menos alterado: Nova York, na costa nordeste dos EUA. Mesmo assim, os termômetros da cidade registraram espantosos 22,2° C positivos na véspera do Natal de 2015. Isso dá quase um inverno carioca.

Bem, eu também não acredito em aquecimento global. Eu o sinto na pele. Pode-se no máximo debater se o calorão é resultado de um ciclo que a Terra experimenta periodicamente, e para o qual os cientistas ainda não têm explicação, ou se é produto da industrialização destrambelhada, do consumo desenfreado e da superpopulação humana. Seja como for, acho que temos um papel a desempenhar na atenuação de seus efeitos.

Na quarta-feira, a agência governamental americana que cuida do meio ambiente e do clima divulgou: 2016 foi o ano mais quente registrado na História, desbancando 2015, que desbancara 2014. Nunca antes o recorde havia sido quebrado em três anos consecutivos. Se a temperatura continuar subindo, e nada indica que a tendência vá ser revertida no futuro imediato, fico feliz de estar morto em duas ou três décadas. “Fear no more the heat o’ the sun”, cantam dois personagens de Shakespeare. Num enterro.

Na minha infância e adolescência em Copacabana, o clima no verão tinha uma regularidade agradável. Não era necessário ter a menor noção do que fosse “sensação térmica”. De manhã, dava praia. Quente, mas não tórrida. Depois do almoço, fazia-se a sesta. No final da tarde, batia uma chuva que realmente refrescava. Lembro-me do cheiro das ruas molhadas quando saía para ir a uma livraria ou voltava à praia para jogar uma pelada. Em toda a casa, havia um único ventilador. Ninguém precisava de outro.

Durante parte da adolescência, em busca de um pouco de privacidade, dormi no quarto destinado a uma empregada que não tínhamos. Cabíamos eu, minha cama de solteiro, uma estante para o toca-discos e os LPs, outra estante para os livros e, no alto, um prateleirão para as revistas. A janela basculante dava para uma área fechada que, por sua vez, tinha um único basculante para o mundo externo. Apesar disso, eu possuía só um pequeno ventilador de plástico. Eu conseguia viver — e dormir — dessa maneira.

Após uma breve passagem pelo Flamengo, já adulto e casado, mudei-me para Laranjeiras, que graças à razoável arborização está longe de ser o bairro mais quente do Rio (eu e Marcelo Madureira já apresentamos um documentário no GNT sobre o verão de Bangu, sei do que falo). Estou nesse mesmo apartamento há 21 anos. Vejo o aquecimento global também nas mudanças pelas quais ele passou. Primeiro, vieram os ventiladores de teto. O último a ser instalado substituiu o belo lustre que havia na sala.

Depois, pouco a pouco, vieram, ou melhor, tiveram de vir os aparelhos de ar-condicionado. Um no quarto das meninas. Outro aqui no quarto que uso como escritório e biblioteca. O do nosso quarto de dormir é a aquisição mais recente, tem um ano e pouco de muito uso. Contudo, em dias como a última segunda-feira (sensação térmica de 48,6° C em Guaratiba, delícia), ele não está dando conta do inferno. Para onde ir?

Especula-se que o agravamento das condições climáticas virá a ocasionar guerras por recursos hídricos e movimentos migratórios de massas sedentas e famintas em dimensões inéditas. O Brasil tem problemas de desertificação na Região Nordeste e em áreas do Rio Grande do Sul, além do desmatamento endêmico na Amazônia, mas nesse quadro pré-apocalíptico ainda parece ter salvação. Porém, há momentos em que o meu cérebro frita dentro da caixa craniana, e me imagino como um refugiado do clima.

Três cenários. Pacote Imperial: deixo o Rio de Janeiro e me instalo na cidade de Petrópolis, próxima, simpática e amena. Pacote Maju: deixo o Rio de Janeiro e me instalo em Urupema, Santa Catarina, que superou São Joaquim, no mesmo estado, como a capital nacional das temperaturas mínimas. Pacote Ferrou-a-Parada-Toda: deixo o Rio de Janeiro e me instalo na América do Norte. Fica frio, Donald, no Canadá, no Canadá.

Costumo brincar que sou geneticamente programado para me sentir à vontade no frio e sofrer horrores no calor. Porque, embora eu seja carioca da gema, três galhos da minha árvore ginecológica — quem comeu quem, onde e quando, não é disso que se trata? — cresceram em regiões montanhosas, nas quais costuma ou costumava nevar no inverno. Ou seja, Donald, você tem razão: eu devo ser um fresco.

Arthur Dapieve

Paisagem brasileira

Mauro Ferreira

Alegria e dor nos calendários

A maioria dos calendários apresenta os dias em vermelho para os feriados, e preto ou azul para os dias úteis.

Calendários explicitam algumas coisas, mas ocultam outras tantas. A etimologia pode indicar o verdadeiro significado. Calendário veio do latim calendarium, caderno para anotar as calendae, dias de pagar as contas, quando as autoridades dedicavam-se a calere, convocar, a população para o pagamento de impostos e outras contas.

O nosso calendário é gregoriano, assim chamado em homenagem ao Papa Gregório XIII, que em 1582 ajustou uma diferença do calendário juliano, do qual foram suprimidos dez dias, para fixar corretamente a data da Páscoa, das estações e de outros eventos. Assim, o dia seguinte a 4 de outubro foi 15 de outubro.

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Há calendários mais antigos, como o hebraico e o chinês. Mas hoje todos aceitam o padrão gregoriano de contar o tempo. A folhinha, como é popularmente conhecida, guarda a memória das folhas das árvores em que as sibilas, mulheres adivinhas, escreviam as profecias do ano que começava. Estas profecias há muito tempo são outras: fases da Lua, eclipses, previsão de chuvas, dias em que vão cair os feriados móveis, dias de jejum e de abstinência, efemérides etc.

Os dias úteis, marcados na cor escura para diferenciá-los dos feriados civis e dias santificados, ainda fixam como castigo o significado do trabalho, segundo a primeira condenação bíblica que expulsou nossos primeiros pais da esfera das coisas sagradas, condenando o homem a ganhar o pão com o suor de seu rosto e a mulher a sofrer nos partos.

Nesta metáfora, Adão e Eva, expulsos do paraíso e condenados ao trabalho, foram os primeiros imigrantes e refugiados do mundo. Trabalho veio do latim tripalium, um instrumento de tortura de três paus, como indica o étimo, no qual a vítima era supliciada, como ainda o é em muitos empregos.

A incontida alegria que a todos afeta nas sextas-feiras remete a um jazigo do inconsciente de onde podemos ressuscitar por dois dias, ainda que tenhamos que voltar na segunda-feira para cumprir mais uma daquelas perpétuas parcelas semanais da mítica e antiga condenação.

As palavras que designam as cores do calendário também têm uma etimologia curiosa. Vermelho veio do latim vermiculus, minúsculo verme que fornecia o pigmento para tingir a roupa da gente fina e nobre: chefes religiosos, chefes políticos, chefes militares, às vezes englobados numa pessoa só. Seu outro nome era púrpura, molusco de difícil captura. Na antiguidade, a caça e a pesca do porphiros, seu nome grego, e da purpura, seu nome latino, eram proibidas para que somente os poderosos tivessem acesso a essa cor.

Os cardeais da Santa Sé, príncipes herdeiros da monarquia mais antiga do mundo, vestem vermelho ou púrpura, esta última a cor preferida das altas insígnias da realeza e da magistratura. De resto, tapetes vermelhos são estendidos, literal ou metaforicamente, para personalidades a honrar.

O calendário das nações lusófonas como o Brasil tem uma singularidade única: os dias da semana não homenageiam deuses pagãos desde o século VI, quando o bispo de Braga aboliu as referências ao Sol, à Lua, a Vênus e a outras divindades, que continuam homenageadas em outras línguas, de que são exemplos o Sol e a Lua no inglês Sunday e Monday.

Com exceção de sábado, do hebraico xabbat, dia do descanso, pelo latim sabbatum, nossas semanas começam sempre com o domingo, dia de feria, que pode ser festa ou feira, e segue de segunda a sexta, lembrando que todos são dias de festejar, comprar e vender.

Quem será grande em 2017? Quem foi grande em 2016? Fazemos diversas retrospectivas, mas ainda é cedo para sabermos quem teve importância no ano passado ou terá importância no ano que começou. Como disse o romancista francês Gustave Flaubert,“quem cria os grandes homens é a posteridade”.

A posteridade cria os pequenos também. Ou apequena os grandes e engrandece os pequenos.

Deonísio da Silva

Há diferença?

Enquanto não negociarem, este prédio continuará ocupado
Guilherme Boulos, do MTST. dando ordens durante a invasão da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano, em São Paulo
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A gente só sai quando derramar a última gota de sangue
Detento da penitenciária de Alcaçuz (RN)  

Em jogo, o futuro da Lava-Jato

Com a morte do ministro Teori Zavaski, caberá, a princípio, a um dos integrantes da 2ª Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) a relatoria provisória de ações urgentes da Lava-Jato até que o presidente Michel Temer, como manda a Constituição, nomeie um novo ministro e submeta o seu nome à aprovação do Senado.

Fazem parte da 2ª. Turma: Celso de Mello, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowiski e Dias Toffoli. A escolha de um relator provisório poderá ser feita mediante sorteio ou de comum acordo entre os demais 10 ministros do STF, que em breve trocarão ideias a respeito com Cármen Lúcia, presidente do Tribunal.

Temer não tem prazo para indicar o substituto de Teori. Nem o Senado para aprovar a indicação. Dada às circunstâncias, o processo não deverá ser tão demorado quanto foi o que resultou na substituição de Joaquim Barbosa por Edson Fachin, a última que aconteceu ali. Passaram-se longos 11 meses.

A morte inesperada de Teori deixa a Lava-Jato em xeque. O ex-ministro era respeitado por envolvidos, desafetos e aliados da operação comandada pelo juiz Sérgio Moro. Não será fácil encontrar um sucessor para ele com um perfil igual ou parecido. O novo ministro levará um bom tempo para dominar o assunto.

Teori estava pronto para homologar no início do próximo mês a delação dos executivos da Odebrecht. Não tinha data marcada para fazê-lo, e nenhum prazo que o obrigasse a isso. Mas era o quer faria. O relator provisório da Lava-Jato assumirá esse compromisso? Difícil que assuma. É razoável que peça mais tempo para concluir a tarefa.

Quanto mais se arrastar a Lava-Jato no STF, melhor para os que ali são denunciados ou réus. Pior para o país que cobra mais agilidade da Justiça. Enquanto, em Curitiba, Moro coleciona condenações já confirmadas pela 2ª instância da Justiça, o STF ainda não julgou ninguém da Lava-Jato. Tudo no STF se arrasta com a velocidade de uma tartaruga.

É possível que desta vez, preocupado com sua imagem, o STF ofereca uma saída rápida pelo menos para a escolha de quem tocará ali a Lava-Jato depois da morte de Teori. Em tese, caberia ao ministro a ser nomeado por Temer herdar os processos que estavam a cargo de Teori. Mas, se quiser, o STF poderá dar outra solução.

A morte de Teori abriu uma vaga na 2ª Turma do STF que cuida da Lava-Jato. Um ministro da 1ª Turma poderá vir a ocupar tal vaga. E a dele, na 1ª. Turma seria preenchida mais tarde com o nome a ser indicado por Temer. Portanto, quem herdaria em definitivo os processos que eram de Teori seria um dos integrantes da 2ª. Turma recomposta.

Só não será Celso de Mello, o decano do STF e membro da 2ª. Turma, se ele não quiser. Ou se Cármen Lúcia quiser acumular a presidência do tribunal com a relatoria da Lava-Jato. Improvável. O que se configuraria um absurdo seria deixar a Lava-Jato no STF aos cuidados de um ministro indicado por Temer e aprovado pelo Senado.

Temer e vários dos seus parceiros foram citados em delações da Lava-Jato. Um terço dos senadores, entre eles Renan e seu possível sucessor, Eunício Oliveira, também foi. Quem convenceria o distinto público de que um ministro agora avalizado por essa gente se comportaria com isenção à frente da Lava-Jato?

É bom não cutucar a “fera”. A “fera” atende também pelo nome de opinião pública.

Imagem do Dia

Vespa na lente de insetos de Muhammad Roem

Sob luto, Supremo precisa proteger a Lava Jato

A morte do ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, reclama providências urgentes. Convém investigar com rigor máximo todas as circunstâncias que envolvem a queda do avião que transportava o magistrado. Simultaneamante, o Supremo precisa tomar providências urgentes para proteger a Operação Lava Jato.

Relator da Lava Jato, Teori se equipava nas férias para homologar ao longo de fevereiro os acordos de colaboração de 77 delatores da Odebrecht. Em condições normais, os processos do ministro seriam herdados por seu substituto, a ser indicado pelo presidente Michel Temer. Mas o Supremo cometerá um erro histórico se tratar a Lava Jato como um processo normal. Não é.


O bom senso recomenda que o Supremo escolha imediatamente, por sorteio, um novo relator para a Lava Jato. Se tiver juízo —e parece ter—, a presidente do tribunal, Cármen Lúcia, se entenderá com seus nove colegas para que o novo titular do processo seja anunciado nos primeiros dias de fevereiro, na volta das férias.

Ponto alto da Lava Jato, a delação coletiva da Odebrecht lança na fogueira do maior caso de corrupção da história da República a nata da política nacional. Foram mencionados de Michel Temer a Lula, passando por Dilma Rousseff, Renan Calheiros, Rodrigo Maia, José Serra, Aécio Neves e um interminável etcétera.

Pois bem. Tratando-se a Lava Jato como algo trivial, a encrenca seria herdada pelo escolhiodo de Temer, um potencial investigado. O nome teria de ser sabatinado pela Comissão de Constituição e Justiça do Senado, cuja presidência é reivindicada pelo réu Renan Calheiros. Na sequência, o indicado precisaria ser aprovado pelo plenário do Senado, apinhado de suspeitos. A moralidade pública não e a paciência dos brasileiros não merecem passar por semelhante tortura.

Felicidade de corrupto

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E quando disserem que o crime não compensa, você tem de lembrar que isso é porque, quando compensa, não é crime
Millor Fernandes

Sobreviver a grandes naufrágios é uma via estreita e de final incerto

Entro na livraria e pasmo: duas mesas, longas, cheias, com títulos que se repetem. A lista é exaustiva mas exaustão é preciso: "Como Viver sem Ansiedade"; "Livre de Ansiedade"; "As 10 Melhores Técnicas para Vencer a Ansiedade" etc., etc.

Depois, os dramas sobem de tom: "Cure os Seus Medos"; "As Regras Essenciais para Viver sem Medo"; "Como Parar o Envelhecimento"; "A Dieta Anti-idade" etc., etc.

Finalmente, e após todas as tormentas, o santo graal: "Pequenos Passos para a Imortalidade"; "Curar para a Imortalidade"; "A Promessa de Imortalidade" etc., etc.

A moda não começou hoje. Mas só hoje reparei na moda. Duas conclusões. A primeira é que a nossa sociedade já não admite certos traços da condição humana que os nossos antepassados compreendiam e com os quais conviviam do berço até a cova. Ansiedade. Medo. Velhice. Mortalidade.

A história da literatura, desde Homero, é um catálogo desse rio permanente. Hoje, é uma mancha que estraga a "euforia perpétua", como a chamou Pascal Bruckner, e que humilha os seus sofredores.

Amigos meus, ansiosos, não sofrem apenas de ansiedade. Eles sofrem com a ansiedade de terem ansiedade. Eles têm medo de terem medo. Eles olham para a velhice e para a morte como os homens primitivos olhavam para trovões e tempestades.

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Mas os títulos mostram outra coisa: a pós-modernidade não passa de uma ilusão. Vivemos ainda tempos racionalistas: se existe um problema, qualquer problema, então existe uma solução para ele. Nem a morte escapa a estes "engenheiros de almas humanas". A ideia de que alguns problemas não têm solução –uma solução clara e distinta, como diriam os cartesianos– é intolerável para a sociedade "prêt-à-porter". Que fazer?

Sugestão: assistir ao filme "Manchester à Beira-Mar", que estreia nesta semana, uma espécie de "missa solemnis" filmada por Kenneth Lonergan. Então encontramos Lee (Casey Affleck, em papel que só aparece uma vez na vida), um "handyman" que vive em Boston.

Ele cumpre o trabalho com o entusiasmo dos condenados. Bebe forte e bate forte, normalmente no mesmo bar. Não admite os floreados sociais que decoram as nossas existências –conversas, alegrias, intimidades. Para quem gosta de mortos-vivos, Lee é a prova de que é possível encontrar um fora da fantasia.

Mas eis que chega um telefonema com uma notícia funesta. É o primeiro momento em que Lee permite a sombra de uma emoção. De volta à cidade de Manchester, de onde saiu anos antes, Lee volta também ao passado –um passado brutal, infernal, inominável.

"Manchester à Beira-Mar", apesar de alguns excessos formais que se dispensam (quem ainda usa a música de Albinoni para momentos dramáticos?), cumpre duas ideias antiquadas.

A primeira, explorada em tempos por um certo escritor russo, é a certeza de que não existe nada de tão insuportável como um crime sem castigo –e, por essa via, sem expiação.

Nesse passado, que se vai revelando em sutis "flashbacks", Lee confessou à polícia a sua tragédia. A polícia escutou-o, compreendeu-o e liberou-o.

A reação de Lee é uma mistura de incredulidade e revolta –a revolta de quem não terá punição externa; apenas interna. Em dez minutos, Kenneth Lonergan joga no lixo a ideia simpática de que a "culpa" não passa de uma relíquia judaico-cristã.

Mas existe uma segunda ideia que nos permite medir a vida de Lee e a vida daqueles que "seguiram em frente", para usar a expressão das novelas. Acontece quando ele conversa com a ex-mulher, ou melhor, quando contemplamos a incapacidade de haver qualquer conversa porque até as palavras têm limites.

Só então perguntamos qual dos destinos será pior: o mundo petrificado de Lee ou a busca desesperada de fugir desse mundo rumo a um simulacro de normalidade.

"Manchester à Beira-Mar" não é o filme ideal para quem lê "Como Viver sem Ansiedade" ou "Cure os Seus Medos". Mas é o filme ideal para uma classe de adultos que sabe, ou pelo menos suspeita, que sobreviver a grandes naufrágios é uma via estreita, longa e de final incerto.

No primeiro diálogo do filme, quando a vida ainda era uma vida, Lee conversa com o sobrinho pequeno para lhe perguntar quem ele levaria para uma lha deserta: o pai ou o tio?

Ironicamente, para essa ilha deserta só viajou Lee. E quando nos perguntamos se algum dia haverá um barco para o visitar ou até resgatar, o pano desce com pudor. O futuro é um porto distante para quem navega um dia de cada vez.

Velhos tempos

"Velho realejo", de Sadi Cabral e Custódio Mesquita.

Os dois 'pobrema'

A “mídia” tenta vender a ideia de que a roubalheira é suprapartidária – e é – disseminada e parte da alma do cidadão brasileiro, o que obviamente é uma vigarice retórica das mais calhordas. Esconde-se com isso o segundo “pobrema”, que é o fato de que, dentro da roubalheira institucionalizada, infiltrou-se uma quadrilha de esquerdistas em botão – muito bem organizada, por sinal – que rouba, mas rouba por uma causa, com método, interesses e ações bem definidas.

Esta quadrilha é reflexo e ressonância de uma outra, muito maior, disseminada numa boa conjunção de países que professam em suas administrações a presença do organismo público – e sua consequente inflexão ao roubo do dinheiro alheio – como parte de um tipo de administração onde o “azeite” da máquina pública é a confraria ou o dinheiro, distribuído em inconfessáveis interesses. Na margem de tudo isso, a sociedade pagante.

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Assim como não há um “censo presidiário”, para sabermos quantos bandidos estamos bancando no falido sistema prisional brasileiro, não há também um censo – ou senso – para a ocupação do serviço público e sua devida eficiência. Não sabemos portanto, quantos bandidos estamos patrocinando do lado de fora dos presídios, eleitos em tenebrosas eleições para manter a massa bovina sob controle, debaixo da maior carga tributária de que se tem notícia.

Vamos ter um pingo de bom senso, meus caros e pacatos cidadãos. Eu topo pagar mais imposto, desde que me provem que o judiciário funciona, que as instituições funcionam, que o peleguismo sindical será combatido junto com as organizações criminosas, que as organizações não-governamentais narco-dependentes do Governo serão varridas da coisa pública e que os nossos agentes públicos pimpões terão rígidas funções de mérito e metas a cumprir.

Que tal isso? Isso ninguém quer defender, não é mesmo? Preferem defender mesmo o simplismo tacanho da volta da CPMF ao lombo dos contribuintes. Eu sabia que desse mato não sairia coelho. Eu lamento pelo jornalismo que se professa por aí. Está perdendo o senso do ridículo e a pouca vergonha ostentada na cara parva. É um espanto.

Tiros de chumbinho

Escalar militares para inspecionar presídios equivale a enfrentar o crime organizado empunhando uma espingarda de chumbinho. É o que diz Walter Maierovitch, desembargador aposentado e ex-secretário nacional Antidrogas. O professor assistiu com ceticismo ao anúncio feito pelo porta-voz do presidente Michel Temer. “Mais uma vez, estão fazendo uso político das Forças Armadas diante de uma situação de descontrole. Já vimos isso acontecer antes, nos governos Lula e FHC”, critica.

Para o especialista Maierovitch, a medida não conterá a barbárie nas cadeias. Ele diverge da ideia de usar as tropas como força auxiliar das polícias estaduais, “que não conseguiram fazer nada para conter a crise”. “Isso é populismo. O que o governo pretende, botar soldados de fuzil ao lado dos carcereiros?”, questiona.

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Especialista no estudo de máfias, o professor recebeu com igual descrença o Plano Nacional de Segurança Pública, anunciado pelo ministro da Justiça, Alexandre de Moraes. Ele diz ter visto pouca substância e muita pirotecnia no pacote.

“O que o plano pode fazer diante de presídios superlotados de pequenos traficantes? Estão botando esparadrapo em fratura exposta. Parece que o ministro só está lá para fazer autopromoção”, ironiza.

Na opinião de Maierovitch, o governo deveria encampar ideias mais ousadas, como descriminalizar o uso de drogas e reservar as cadeias para criminosos de alta periculosidade. Ele diz que os últimos presidentes não tiveram coragem de enfrentar o debate quando estavam no poder. “E parece que o Temer amarela a cada dia”, acrescenta.

O professor também não se animou com as declarações da presidente do Supremo, Cármen Lúcia. “Tenho respeito pela ministra, que quer fazer um recenseamento dos presídios. Ótimo, mas o que isso vai adiantar? Quanto tempo vai demorar? As cadeias estão lotadas porque a Justiça não funciona”, afirma.

A fila hospitalar é virtual

A todo momento entramos numa fila, portanto, chegue primeiro!

É justo?

Quem vai a um grande parque temático no estrangeiro enfrenta filas, separadas em labirintos gradeados, onde ficam pais e filhos durante longas horas e sem reclamar “muito” da espera. Na fila todos são iguais, alegres, coloridos, e a música ajuda a comer o tempo. Pessoas com necessidades especiais são bem recebidas e têm prioridade.

Pode-se divertir quantas vezes quiser na mesma atração e não se paga mais por isso. Quem consegue driblar o “tô cansado, quero dormir um pouco mais” consegue ir a muitas atrações no mesmo dia. Criaram-se passes rápidos, otimizando o tempo, e, com isso, outros parques podem ser visitados. É mais divertimento, consumo e lucro.

Imaginemos essa estratégia no sistema de saúde.

Como seria a fila de consulta para a clínica geral, ginecologia, pediatria e ortopedia? E a da mamografia, endoscopia, tomografia ou ressonância magnética? E a fila das pessoas aguardando cirurgia, radioterapia ou quimioterapia?

Tudo visível, sem tons de cinza. Faltaria música, mas OK!

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O passe rápido facilitaria vencer várias filas, sem a necessidade de trocar de hospital. Alguns não seriam atendidos no que esperavam, mas perceberiam a organização, transparência e compromisso para fazer o melhor do possível. Ninguém furaria a fila. Pessoas com necessidades especiais receberiam a justa prioridade, levando-se em conta que todo ser humano, quando doente, tem necessidades especiais.

Mas o sistema de saúde brasileiro, com sua casa dos espelhos, sempre distorce nossa imagem. Há anos inventou o Sistema Nacional de Regulação - SISREG, para “gerenciamento através de módulos que permitem a solicitação de consultas, [...] exames e procedimentos de média e alta complexidade, bem como a regulação dos leitos hospitalares, maior otimização na utilização dos recursos e humanização no atendimento”.

Há também uma outra invenção: a Central Estadual de Regulação, para “organizar a lista de espera por procedimentos no SUS”; com “gestão estadual”, permite a “regulação de procedimentos ambulatoriais de alta complexidade, iniciando sua atuação nos serviços de radioterapia, hematologia, cirurgia bariátrica, gestação de alto risco e terapia renal substitutiva”, sendo “responsável pela regulação de toda a rede de Hospitais Federais e Institutos do Rio de Janeiro, além das redes estadual e municipal”. Haja regulação!

Mas a cereja do bolo é que “as listas de espera [...] têm a finalidade de controlar [...] dar mais transparência ao acesso da população aos serviços especializados de saúde.

Não somos patetas.

Se há uma coisa que gestores não gostam é a filmagem de pacientes em filas que invadem calçadas. Agora as longas filas saíram das ruas e estão escondidas em computadores protegidos por senhas.

As pessoas passaram a morrer em “bancos” (de dados) e não em calçadas frias, longe de atentos fotógrafos e cinegrafistas.

Hoje a fila hospitalar é virtual.