domingo, 13 de novembro de 2016

O tempo histórico

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É hora da boa ortodoxia e do mau conservadorismo, mas isso não será para sempre. O PT, no Brasil, e a esquerda, no mundo, terão tempo para lamber as feridas, admitir que dinheiro não nasce em árvore, o populismo é danoso para o povo e o poder é para servir, não para se servir. O desgaste natural de quem quer que esteja no poder fará o resto
Eliane Catanhêde

Viagem nas bolhas de realidade

Recentemente, a tortura de negros foi assunto na minha sala de estar. O visitante era um funcionário público, um brasileiro abastado que vive em uma mansão nas montanhas do Rio de Janeiro. Eu não sei exatamente de onde vem seu dinheiro, mas imagino que parte seja herança, parte ele ganhe com seu impecável serviço ao cidadão. Ladrão deve ser tratado como ladrão, argumenta o meu visitante. Os bandidos da favela não entendem outra língua além da violência.

O que são alguns casos de tortura e execução pela polícia, sobre os quais a Anistia Internacional e a mídia vivem falando? Não são os policiais da cidade, continuou ele, as verdadeiras vítimas? Quem se incomoda com o número crescente de policiais assassinados? Por que tantas lágrimas de crocodilo na mídia sobre o parente de uma minoria de pele escura – todos traficantes! – levar uma bala?

Look through the glass and you will see a world of possibilities.:
A pele do meu visitante era tão branca quanto a temporada contínua de verão permite. Eu teria muito a contrariar em sua explosão, mas preferi ouvir em silêncio. O assunto sobre o qual eu queria falar com ele era completamente diferente, e não conseguiria mudar sua opinião. Além do mais, ouvir em silêncio é característica profissional de um jornalista. Quando se faz jornalismo da forma correta, é possível se tornar um viajante através das bolhas de percepção das outras pessoas. Pede-se informações que as pessoas têm e as deixa explicarem sua opinião. Quando não se concorda com elas, é importante pelo menos entendê-las. De outra forma, em algum momento se deixa de fazer jornalismo para apenas emitir opiniões sobre tudo.

Naturalmente voltei a pensar nas bolhas de percepção na noite desta quarta-feira, quando Donald Trump foi eleito nos Estados Unidos. Antes de vir para o Brasil eu fui correspondente por alguns anos nos EUA, e já naquela época eu notei como as pessoas viviam em realidades isoladas umas das outras. A minha própria bolha eram os escritores, artistas, músicos e frequentadores de cafés do meu bairro em Nova York. Eles cultivavam visões muito progressistas sobre o desenvolvimento da sociedade e muito desprezo pela província americana.

Para lá eu também viajei, para o interior dos EUA. Eu vi como o mundo parecia diferente para as pessoas de lá. Experimentei o temor a Deus, teorias da conspiração, percepções absolutamente desconectadas dos fatos em relação a questões de política e ciência. Muitos medos infundados de imigrantes, minorias, transformações tecnológicas. A visão cosmopolita dos meus hipsters nova-iorquinos eram incompreensível para essas pessoas, que consideravam a percepção da realidade deles estúpida ou mesmo maliciosamente distorcida.

Muitas dessas pessoas com certeza votaram em Trump. Para os observadores da eleição nos Estados Unidos, o fato de grandes grupos da população viverem em diferentes versões da realidade, com sua própria mídia, comunidades do Facebook e círculos sociais é a explicação mais importante para a ascenção de um Donald Trump.

É curioso experimentar essas bolhas como correspondente de um jornal, sem se envolver. No Brasil, país onde trabalho atualmente, não é diferente dos Estados Unidos. Sim, queridos brasileiros: ao viajar por seu vasto país sou apresentado a noções surpreendentemente diferentes de verdadeiro e falso, bem e mal. Mas para mim são realidades de pessoas estranhas em um país estranho, elas não me afetam verdadeiramente. Em casa, na Alemanha, eu me irrito com muitos assuntos, por exemplo o debate sobre os refugiados. Aqui no Brasil o vai e vem da discussão sobre "quem é mais corrupto, o PT ou o PMDB?" geralmente não me afeta. No Brasil eu converso sem problemas primeiro com um pastor evangélico, depois com um militante do MST. Eu já estive com o movimento "Vem pra rua" e com a presidente Dilma. Entrevistei fazendeiros que mantêm escravos na zona rural e depois ouvi debates de estudantes de sociologia sobre as vítimas. E registro essa incrível variedade de universos com interesse.

O torturador em espírito que outro dia esteve na minha sala me causou desagrado. Mas, acima de tudo, eu tinha interesse em descobrir de onde vêm as opiniões dele. É preciso entender os preconceiros dentro de suas próprias bolhas. E como muitos cariocas da classe média, meu visitante teve experiências ruins nos selvagens anos 90. Eu já tinha ouvido que naquela época o Rio era muito mais perigoso do que hoje: tiroteios, assaltos, arrombamentos, uma classe média armada e entrincheirada. Por causa disso, o homem nunca tinha colocado os pés numa favela. Também nunca esteve em um quilombo ou em um subúrbio do nordeste. De alguma forma, ficou impregnado na história, no status social, no comportamento brasileiro e no medo desse homem que ele só conheça pessoas de pele escura como empregados domésticos e nada mais. Quando conta bravatas sobre como se deve dar tiros nos "bandidos das favelas", ele não tem a menor ideia do que está falando.

Então não seria ruim se no Brasil (e na Alemanha também) mais pessoas se tornassem viajantes nas diferentes bolhas de realidade, assim como nós, correspondentes estrangeiros. Eu tenho certeza absoluta: se algum dia o Brasil vier a eleger um Donald Trump como chefe de governo, o meu visitante e entusiasta da tortura, que sabe tão pouco sobre as outras pessoas, seguramente terá votado nele.

Thomas Fischermann

Imagem do Dia

Shang-Li, Sichuan, China:
Sichuan, China

Problemas internos são muito piores que Trump

A primeira disputa entre o governo brasileiro e a administração do recém-eleito Donald Trump já está armada. Brasília começou na semana passada uma ação contra a nova barreira erguida nos Estados Unidos contra o aço fabricado no Brasil. A iniciativa foi do presidente Barack Obama, em mais uma tentativa de socorrer a enfraquecida siderurgia americana. O assunto ficará para o republicano, um autoproclamado protecionista. Se ele for fiel às promessas de campanha, poderá ir muito além de seu antecessor na criação de entraves ao comércio. Como candidato, anunciou até a disposição de rever acordos e de confrontar o sistema internacional de regras comerciais. Todos têm motivos para preocupação, mas no caso brasileiro é necessária uma ressalva. Barreiras no exterior são sempre ruins, ninguém pode negar, mas os principais obstáculos ao sucesso comercial das empresas brasileiras estão mesmo dentro do País.

Embora inquietante, o populismo protecionista do presidente eleito dos Estados Unidos é menos perigoso que as causas internas da baixa competitividade brasileira. Enfrentá-las deve ser prioridade do atual governo, com apenas mais dois anos de mandato, e de seu sucessor. Mesmo os setores e empresas mais competitivos do Brasil são prejudicados por um número enorme de problemas sistêmicos. A lista é fácil. Inclui pelo menos a infraestrutura deficiente, a tributação irracional, a burocracia excessiva, a insegurança jurídica, o peso de governo caro e improdutivo e, é claro, um dos piores sistemas educacionais do mundo emergente.

Não adianta confrontar as taxas nacionais de alfabetização de hoje com as de dez ou vinte anos atrás. As taxas podem ter melhorado, mas o analfabetismo funcional continua muito elevado. Pelos dados oficiais, deve estar pouco abaixo de 20% da população com idade a partir de 15 anos, mas os fatos observados no dia a dia parecem mostrar um quadro bem pior.


A formação oferecida até o curso médio é desastrosa, como comprovam, em primeiro lugar, as provas de redação zeradas no Enem. A mera perspectiva de provas com nota zero na redação é assustadora, mas esse é um dado rotineiro.

A catástrofe da educação fundamental é confirmada periodicamente nos testes internacionais. No mais famoso, o Pisa, mantido pela OCDE, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, os estudantes brasileiros têm ficado regularmente entre os dez últimos, num conjunto de 65. Quem ainda tiver dúvidas sobre o assunto poderá eliminálas consultando as associações industriais, como a CNI e a Fiesp, acerca da qualidade média da mão de obra encontrada no mercado.

No item educação primária, o Brasil ficou em 120.º lugar, pela qualidade, numa lista de 138 países, no último relatório de competitividade do Fórum Econômico Mundial, publicado em setembro. No quesito formação superior, o País ficou na 84.ª posição, no mesmo conjunto. Sempre no terço inferior, portanto, embora ainda seja uma das dez maiores economias, pelo tamanho do produto interno bruto (PIB).

Na classificação geral, o País caiu seis posições em um ano, passando ao 81.º lugar. A melhor colocação foi alcançada em 2012, quando o Brasil ocu- pou o 48.º posto. O recuo ocorreu muito rapidamente no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff e ainda se acelerou na fase de recessão. As condições conjunturais pesaram na avaliação, mas os quesitos de longo prazo continuaram muito ruins. A educação é um exemplo importante, quando se trata de medir as desvantagens competitivas.

Mas a qualidade da administração, a inflação, o desarranjo fiscal, a segurança pública deficiente e as dificuldades para fazer negócios têm permanecido, ano após ano, como fatores de grande relevância. A lista de entraves aos negócios inclui tanto fatores institucionais, como a complicada regulação tributária, quanto – digamos – in- formais, como a corrupção. O combate à corrupção é elogiado, mas o problema permaneceu com destaque na lista dos entraves mencionados nas entrevistas da pesquisa.

A administração pública deficiente e o estado precário das finanças oficiais aparecem de forma recorrente nas pesquisas de competitividade, assim como os impostos pesados e de baixa qualidade e a complicada regulamentação tributária. O ajuste contábil das contas públicas é, portanto, apenas uma das tarefas necessárias, na área fiscal, para tornar a economia brasileira um pouco mais eficiente.

É preciso levar em conta, nesse tópico, uma agenda muito mais ambiciosa e politicamente complicada. Uma reforma tributária razoável deverá envolver o ICMS, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços, cobrado pelos governos estaduais. Não bastará eliminar a guerra fiscal entre Estados. Será preciso, também, livrar totalmente as exportações e os investimentos produtivos do peso dos tributos. Será preciso negociar o assunto com 27 governadores.

No dia a dia, fala-se muito do câmbio quando se trata de competitividade, mas pouco se discutem os fatores estruturais, como sistema tributário, educação, pesquisa e tecnologia, eficiência do governo, inflação controlada e estabilidade fiscal. São fatores como esses as principais vantagens das economias mais competitivas e com maior potencial de geração de empregos.

Políticas industriais voluntaristas, baseadas no protecionismo e na distribuição de benefícios a grupos e setores, tendem a fracassar e – pior – produzir desastres. A Organização Mundial do Comércio (OMC) acaba de condenar políticas desse tipo, exploradas amplamente pelo governo anterior. A condenação nem é o pior detalhe dessa história. Pior foi o fracasso, acompanhado de custos fiscais e financeiros enormes e de uma recessão com 12 milhões de desempregados. Trump pode ser um perigo, mas nem de longe comparável com os problemas made in Brazil.

Mesmo sem barreiras no exterior o Brasil já tem um poder de competição muito baixo

Cerco de políticos à Lava Jato é suprapartidário

Acompanhar a atividade política no Brasil tornou-se um desafio. Sabe-se que há políticos piores e melhores. Entretanto, é mais difícil discernir uns dos outros. Os gatunos ficaram ainda mais pardos depois que a política virou apenas mais um departamento da Construtora Odebrecht —o ‘Departamento de Negócios Estruturados’, enfemismo para setor de propinas. A conspiração legislativa contra a Lava Jato, que era envergonhada, desinibiu-se. Cresce na proporção direta do avanço dos depoimentos resultantes do acordo de delação premiada dos executivos da maior construtora do país.

O cerco à investigação é suprapartidário. Envolve também o governo. Michel Temer faz juras de amor à força-tarefa de Curitiba. Mas o Planalto comporta-se como uma espécie de São Jorge que sai para salvar a donzela e acaba casando com o dragão. O esforço para “estancar a sangria” faz lembrar a sucessão de investidas de políticos italianos contra a Operação Mãos Limpas, que foi deflagrada em 1992 e desnudou as relações orgânicas e promíscuas do sistema político da Itália com empresas e o crime organizado.


No Congresso brasileiro, trama-se aprovar uma anistia para todos os políticos que receberam dinheiro ilegalmente via caixa dois. Participam da articulação os principais partidos. Entre eles, por exemplo, PMDB, PT, PSDB, DEM, PP e PR. A ideia é enganchar a emenda da anistia na proposta de criminalização do caixa dois que integra o pacote de medidas anticorrupção embrulhado pelos procuradores da Lava Jato. Alega-se que o uso de caixa clandestino é disseminado na política. Sustenta-se, de resto, que não se pode criminalizar a todos indistintamente.

Num célebre discurso feito em 3 de março de 1992 no Parlamento italiano, o ex-primeiro-ministro da Itália Bettino Craxi, um dos principais investigados da Operação Mãos Limpas, disse o seguinte: “…Infelizmente, é usualmente difícil identificar, prevenir e remover áreas de infecção na vida dos partidos… Mais: abaixo da cobertura do financiamento irregular dos partidos, casos de corrupção e extorsão floresceram e tornaram-se interligados.”

Abusando do cinismo, Bettino Craxi prosseguiu: “O que é necessário dizer e que, de todo modo, todo mundo sabe, é que a maior parte do financiamento da política é irregular ou ilegal. Os partidos e aqueles que dependem da máquina partidária ]…] têm recorrido a recursos adicionais irregulares. Se a maior parte disso deve ser considerada pura e simplesmente criminosa, então a maior parte do sistema político é um sistema criminoso. Eu não acredito que exista alguém nessa Casa e que seja responsável por uma grande organização que possa ficar em pé e negar o que eu digo. Cedo ou tarde os fatos farão dele um mentiroso.”

Em março de 1993, por iniciativa do governo do então primeiro-ministro Giuliano Amato, foi ao Parlamento da Itália uma proposta de descriminalização das doações ilegais de dinheiro para os partidos políticos. A desfaçatez provocou uma reação liderada por estudantes. Orgazinizaram-se passeatas. Escolas paralisaram suas atividades. E a proposta não passou. A anistia tramada no Brasil para as doações subterrâneas não é senão uma provocação às ruas, que reaprenderam a roncar na jornada de junho de 2013.

Líder do governo Temer na Câmara, o deputado André Moura (PSC-SE) empinou na semana passada proposta de modificação das regras dos acordos de leniência, como são chamadas as delações de empresas. A proposta alivia a punição de empresas, livra seus executivos de condenações penais e retira da mesa de negociações o Ministério Público Federal e o Tribunal de Contas da União. Um acinte.

Acompanhado do ex-deputado Sandro Mabel, hoje assessor do Planalto, André Moura exibiu o texto ao ministro Torquato Jardim (Transparência), que levou o pé atrás. Havia na Câmara um pedido para que a encrenca tramitasse em regime de urgência. Súbito, esse requerimento foi retirado de pauta pelo presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ). E Moura tentou sair de fininho, negando ser o autor do projeto. O fantasma continua, porém, pairando sobre o plenário da Câmara.

Simultaneamente, Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, voltou a retirar da gaveta o projeto que altera a Lei de Abuso de Autoridade. Relator da proposta, o senador Romero Jucá (PMDB-RR), novo líder de Temer no Senado, bateu em retirada. Mas Renan prometeu indicar um novo relator até quarta-feira. A banda muda do Senado adere silenciosamente à iniciativa.

O juiz Sergio Moro e os procuradores da força-tarefa da Lava Jato enxergaram na iniciativa de Renan uma tentativa de intimidação. Multiinvestigado, Renan não se deu por achado. Disse que convidará Moro e o procurador Deltan Dellagnol, coordenador da Lava Jato, para debater o projeto no Senado.

Na Itália, os botes tramados contra os investigadores foram ainda menos sutis. Em julho de 1994, por exemplo, projeto de iniciativa do governo do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi sugeria simplesmente que fosse abolida a possibilidade de prisão antes do julgamento para determinados crimes. Entre eles os crimes de corrupção ativa e passiva. O time de procuradores da Mãos Limpas ameaçou com a renúncia coletiva. As ruas reagiram. Houve mobilizações populares defronte dos tribunais. E a proposta foi rejeitada.

Onze anos antes de autorizar a deflagração da Lava Jato, hoje a maior operação de combate à corrupção da história brasileira, o juiz Sergio Moro escreveu, em 2004, um artigo sobre a Operação Mãos Limpas. Foi desse artigo, disponível aqui, que o repórter retirou as informações reproduzidas acima sobre a operação italiana. No seu texto, Moro soou premonitório. Foi como se adivinhasse o que estava por vir.

“É ingenuidade pensar que processos criminais eficazes contra figuras poderosas, como autoridades governamentais ou empresários, possam ser conduzidos normalmente, sem reações. Um Judiciário independente, tanto de pressões externas como internas, é condição necessária para suportar ações judiciais da espécie. Entretanto, a opinião pública, como ilustra o exemplo italiano, é também essencial para o êxito da ação judicial.”

A Mãos Limpas fisgou 6.069 pessoas. Entre elas 872 empresários, 1.978 agentes públicos e 438 parlamentares. Expediram-se 2.993 mandados de prisão. ''As investigações judiciais dos crimes contra a administração pública espalharam-se como fogo selvagem, desnudando inclusive a compra e venda de votos e as relações orgânicas entre certos políticos e o crime organizado'', escreveu Moro no artigo de 2004. Ao final, algo como 40% dos investigados não foram punidos. Leis foram alteradas. E os crimes prescreveram.

No Brasil, nos casos que dependem do Supremo Tribunal Federal, não houve nenhuma condenação. Há na Suprema Corte 42 investigações relacionadas à Lava Jato. Incluem a impressionante soma de 110 investigados. Há na lista 29 deputados federais e 13 senadores. Nenhum foi condenado. A maioria não foi nem denunciada pela Procuradoria-Geral da República. A delação da Odebrecht engordará os escaninhos do Supremo. Os políticos estão cada vez mais distantes do ideal de representantes da sociedade. As pessoas já não enxergam coisas nossas na política. É tudo uma imensa Cosa Nostra.

Alegria da dança

Dança da garrafa, em cerimônia de casamento judaico, no filme
 "Um violinista no telhado", de Norman Jewison

O que fazer depois da vitória de Trump?

Enquanto milhares de norte-americanos lamentam e protestam contra o triunfo de Donald Trump, O cineasta Michael Moore recomenda uma série de ações diante da nova realidade do país. Em sua página no Facebook, o documentarista escreveu duas listas de coisas que os cidadãos podem fazer depois da eleição presidencial. A primeira, publicada na quarta-feira passada, registra mais de 196.000 compartilhamentos no Facebook em dois dias. A segunda soma mais de 6.000 em menos de 24 horas. “Parem de dizer que estão muito surpresos com o resultado”, escreve o diretor em uma das publicações. “O que estão querendo dizer na verdade é que viveram em uma bolha todo esse tempo.”


Moore, que realizou um documentário sobre Trump e seus simpatizantes, já havia predito que o candidato venceria a eleição presidencial em uma carta publicada em seu site oficial em julho deste ano. “Nunca em minha vida desejei tanto que alguém demonstrasse que estou enganado”, escreveu na publicação. Esse artigo também foi compartilhado por centenas de usuários nas redes sociais. Aqui apresentamos um resumo das 12 recomendações feitas pelo cineasta em suas duas listas.

1. Recuperem o Partido Democrata e devolvam-no ao povo. Seus membros atuais nos decepcionaram.

2. Não levem mais em conta a opinião dos analistas, comentaristas e pesquisadores que se negaram a ouvir e aceitar o que realmente estava acontecendo.

3. Peçam a renúncia de qualquer membro do Partido Democrata que não esteja pronto para brigar, agir e resistir como fizeram os republicanos durante as administrações de Obama.

4. Parem de dizer que estão surpresos com a vitória de Trump. Melhor sair de sua bolha para ver todos os norte-americanos na miséria que estão furiosos com um sistema que os ignorou por anos.

5. Digam esta frase a todos que encontrarem hoje: “Hillary Clinton ganhou por voto popular!” Trump ganhou por um sistema eleitoral arcaico do século XVIII. Até que não haja uma renovação continuaremos tendo esses resultados.

6. Criem um partido de oposição com membros jovens como os do Ocuppy Wall Street e Black Lives Matter (movimento de denúncia de assassinatos a afroamericanos por parte da polícia). Os racistas e misóginos não terão espaço nesta organização.

7. Preparem-se para destituir Trump. Assim como os republicanos prometeram tirar Hillary Clinton em seu primeiro dia como presidente, vocês devem se preparar para denunciar Trump quando violar a lei.

8. Levantem a voz para evitar que qualquer candidato de Donald Trump para o Supremo Tribunal chegue a essa posição se não atender nossos padrões.

9. Exijam que a Convenção Democrata se desculpe com Bernie Sanders por não lhe dar uma verdadeira oportunidade de concorrer como candidato à presidência.

10. Peçam uma investigação para encontrar as pessoas por trás do relatório do FBI sobre os e-mails de Clinton a 11 dias da eleição.

11. Comecem uma iniciativa de reforma do sistema eleitoral.

12. Convençam Obama a enviar os engenheiros da Marinha dos Estados Unidos a Flint (Michigan) para substituir seu sistema de abastecimento de água. Já se divulgou que a água está contaminada por químicos desde 2014.

Por um punhado de reais

O tempo passa e mostra que a “Lei de Gérson”, a compulsão por levar vantagem em tudo, é um dos vícios mais arraigados e nefastos da cultura política brasileira. É a raiz da derrocada de Lula. Se tivesse apenas comprado o triplex do Guarujá como qualquer mortal, pagando pela reforma, elevador e cozinha, não teria nenhum problema.

Com certeza, tinha rendimentos que davam de sobra. Mas não, por gostar de levar vantagem em tudo, preferia receber o triplex como um agrado dos seus amigos da Odebrecht, por ter sido tão amigo deles. Mas tão logo O GLOBO revelou o triplex, Lula consultou os advogados e resolveu “desistir” do apartamento. Mesmo depois das visitas de Marisa Letícia e Lulinha, que aprovaram as reformas e os equipamentos. E ainda escrachou o triplex como “muquifo”, e “minha casa minha vida”, como se vivesse em um palácio na fulgurante São Bernardo.


O mistério é: se não fosse para ele, para quem a Odebrecht teria feito tudo aquilo? Se, por sorte, Lula já tivesse fechado o negócio antes da revelação pública do triplex, o pior que poderia lhe acontecer seria, mesmo contrariado, ter que pagar pelas reformas, elevador e cozinha, para evitar problemas. E não teria problema algum.

Mas não, mesmo tendo ganho uma pequena fortuna, digamos, legitimamente, com suas palestras de R$ 300 mil, o cara não queria gastar R$ 1,2 milhão para pagar as obras feitas pela Odebrecht. Achou mais esperto desistir para não criar problemas, e aí que criou. Se não gostasse da vizinhança, se não tivesse privacidade na praia em frente, poderia vendê-lo algum tempo depois, valorizadíssimo como “o triplex do Lula”, e embolsaria uma boa grana para comprar uma bela casa em Maresias, que é mais privê. Zero problema.

Hoje, os Lula da Silva poderiam estar desfrutando seus fins de semana com todo o conforto e uma bela vista para o mar do Guarujá. Mas não, ele preferiu criar a fantasia do apartamento que era mas não era dele, e se enrolar em problemas judiciais que podem até levá-lo à cadeia. Por um punhado de reais. Esperteza, quando é muita, come o esperto. Não foi a ambição, mas o orgulho que ferrou Lula.

Nelson Motta

Paisagem brasileira

Praia do Leme (Rio), Breno Treidler (1888)

Cadê o futuro?

Nós somos o país do futuro! Eu era criança e ouvia isso. Lembro que na época o presente era complicado, e o passado havia sido difícil. No entanto, nada disso importava, afinal, habitávamos o país do futuro. O Brasil não tinha furacão, terremoto nem bomba nuclear. “Plantando-se, tudo dá”, ouvia-se à época.

Eu crescia esperando o gigante adormecido acordar. Saibam os que são jovens agora que é muito bom ser criança e adolescer, tendo fantasias, sonhando, crendo no futuro, acreditando que tudo será melhor, maior. Aliás, é muito bom olhar no horizonte e alguém colocar as mãos nos seus ombros e dizer: “meu jovem, um mundo maravilhoso te aguarda...”

Confesso que, na minha época, a TV Itacolomy, sempre na liderança, nem sonhava com a Rede Globo e funcionava das 18h às 22h. Então, jogar uma pelada no Colégio Arnaldo, ir à turma do Salivão na rua Carandaí esquina com a Piauí, escutar Beatles, falar de paz e amor, longe de ser ridículo, servia de pano de fundo para discutir a ditadura, a guerra do Vietnã, discutir se o mundo deveria se vergar ao capitalismo ou ao comunismo. Valia a pena. Só havia um mundo: o real. E o olho no olho.

crânio com óculos psicodélicos realmente fica muito bom o contraste entre cores:
Sinto falta de ter futuro. Para uma criança, um adolescente, um adulto jovem ou um idoso, o incerto, o insano e o trágico não deveriam ser o esperado. Sem esperança, o caminhar é silente, cabisbaixo, deprimente. Associar o que está por vir ao fim dos tempos é reconhecer a nossa incompetência em construir nosso passado e usufruir do nosso presente. Queria dizer aos filhos que “nós, pais…”.

Mas cadê nossos filhos, que não nos rodeiam? Nem nos ouvem, hipnotizados, sequestrados e adotados que foram pelos eletrônicos, habitando o ciberespaço, nas redes e nos games no quarto ao lado, tão perto, mas tão longe? Terão emprego ou continuarão parasitando os pagadores de carnês, maltratando os que habitam o mundo real do dia a dia, os chatos dos adultos mortificados pelas preocupações da sobrevivência imediata? Pois para os que habitam a tela, só existe o presente! Ele é virtual, obedece a ágeis e nervosos toques em telas e gira em incontáveis aplicativos e recursos. Os jovens estão em mil lugares, menos aqui mesmo. Não se interessam pelo futuro.

Os idosos já estão no futuro... Do pretérito, tentando resgatar lembranças de tempos em que ser feliz era uma coleção de pequenas coisas simples e mágicas. Aos adultos, a pressão de competir ou extinguir, a sucessão de más notícias, a constatação de que fomos enganados. Não éramos o país do futuro, mal éramos um país. Viramos um mundo global. Um mundo disforme, injusto, paridor de excrescências como um Trump aqui, um Putin ali, um Assad acolá. Pensando bem, se a eternidade compensar, o tempo é um mero detalhe.

Valemos mais do que as estrelas

Sebastiao Salgado                                                       …:
Sebastião Salgado
Qualquer indivíduo é mais importante que toda a Via Láctea
Nelson Rodrigues

R$ 600 milhões em diárias só em 2016

O governo já pagou R$ 598,6 milhões em diárias este ano. A bolada foi dividida por mais de 192 mil pessoas, a grande maioria de funcionários públicos, que, ao contrário dos mais de 12 milhões de desempregados, não sentem a crise econômica que assola a economia. Cerca de R$ 136 milhões (22% do total) não possui detalhamento do gasto. Tudo é mantido como sigiloso para garantir a “segurança da sociedade”. A informação é do colunista Cláudio Humberto, do Diário do Poder.

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A Saúde, via Agência de Vigilância Sanitária, lidera a lista dos diaristas. Os 10 maiores gastões levaram, em média, R$ 118,5 mil só em 2016.

Bernardo Vertamatti, do Ministério de Ciência e Tecnologia, é campeão de diárias nos governos do PT. Recebeu R$ 975,6 mil de 2004 a 2015.

Em 2010, último ano de Lula na Presidência, o governo petista gastou mais de R$ 1,5 bilhão em diárias (valores atualizados pela inflação).

Rio de Janeiro, da euforia à depressão

O jovem Edvaldo Bispo criava pintinhos em uma granja do interior da Bahia quando três anos atrás mudou-se, com 200 reais no bolso e a bênção do seu pastor, à Cidade Maravilhosa. José das Graças e Claudio Gomes concluíram uma barragem em Sapucaia, no interior do Rio, e em seguida foram chamados para trabalhar no novo porto da capital. Edvaldo Pereira, outro baiano, era carpinteiro em um município litorâneo que vive de plantações de cacau e veio para o Sudeste atraído pela altíssima demanda de força de trabalho. As mãos de todos eles erigiram as obras que tornaram o Rio a capital olímpica, mas hoje, com os trabalhos concluídos ou parados, aguardam em uma sala de cadeiras amarelas e uma tevê sem volume a homologação das suas demissões, ou a dos colegas que não estão mais aqui. É hora de voltar para casa.

O Rio já não é mais a cidade dos Jogos nem um produtivo Estado petroleiro. Acabou a festa, o preço do petróleo despencou, a crise nacional e as investigações anticorrupção paralisaram investimentos e, sem novas receitas, a euforia terminou. A taxa de desocupação, segundo a Pnad, passou de 3,5% em 2014 a 6,7% (frente ao 11,8% nacional), e parte deste aumento se deve à entrada de novas pessoas no mercado de trabalho à procura de um emprego.
paixao

O Rio também não é mais exemplo de sucesso, representado com aquele Cristo Redentor decolando como um foguete na capa da revista The Economist para ilustrar a bonança do Brasil em 2013. Pelo contrário. Hoje o próprio governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) diz que o Rio está "ficando ingovernável" e o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, coloca o Estado como o exemplo do que não deve ser feito, e justifica assim, de passagem, um severo ajuste fiscal nacional para recuperar as finanças do país. “O que está acontecendo no Rio de Janeiro é didático. Mostra que alguém tem de pagar [a conta do descontrole de gastos e da previdência social]”, disse recentemente. A situação no Rio é tão crítica que o salário de outubro dos servidores vai ser parcelado em até sete vezes e ninguém garante que o décimo terceiro salário chegue às contas dos servidores no final do ano. Duvida-se até do pagamento da folha dos próximos meses.

O Governo do Rio, comandado pelo PMDB desde 2006, começou a agir e, além de se mobilizar em Brasília na procura de ajuda federal, elaborou um pacote de medidas de ajuste que por quatro dias seguidos tem levado os servidores públicos às ruas. Eles não são mais sinônimo de estabilidade, hoje há quem os veta na hora de alugar um apartamento. Serão eles, seguindo o plano anticrise, os primeiros a pagar a conta com um aumento do desconto de 11% para 14% para a contribuição previdenciária. Essa medida era ainda mais severa (com a criação de uma alíquota extraordinária de 16%), mas levou os servidores às ruas, à Justiça a paralisá-la e à própria Assembleia Legislativa a devolvê-la ao Governo “por comprometer demais a renda dos servidores”. O Governo pretendia arrecadar com ela boa parte do dinheiro que se busca com todo o pacote de ajustes (4,7 bilhões de 13,3). A Previdência pública no Estado, mesmo com os ajustes, só deixará de ser deficitária daqui a, no mínimo, 20 anos. Sem essa medida, dizem seus idealizadores, ficam comprometidas o resto de iniciativas.

O “pacote da maldade”, como foi batizado pelos manifestantes, contempla o corte de secretarias e de 30% dos salários do governador e seus secretários, mas também um aumento dos impostos para a energia, cerveja, cigarros, gasolina e telefone, a extinção de programas sociais, como os comedores populares ou o aluguel social, ou o aumento do preço do bilhete único. “As medidas são draconianas, mas necessárias. Mas o Estado precisa procurar receitas. A crise não é devido a um aumento do gasto, é devido a uma queda absurda das receitas de impostos, de royalties do petróleo e de transferências federais em um Estado com um planejamento falho, dependente do petróleo e com uma estrutura produtiva ainda oca”, lamenta o economista e professor da UFRJ, Mauro Osório.

Para Osório o Rio nunca viveu uma euforia real. “A partir de 2008, o Rio se aproxima à média nacional de crescimento, ganhou a Olimpíada, a indústria automobilística cresceu no Estado, beneficiou-se do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), teve investimentos federais e uma boa sintonia entre seus governantes, mas não houve um planejamento mais consolidado, e apostou-se principalmente na política de isenção fiscal para atrair investimentos”, explica. As isenções fiscais, cujos valores não são divulgados com total transparência, beneficiam de grandes empresas que instalaram-se no Estado graças a elas a joalherias.

O cenário que vem pela frente não é nada esperançoso. “É assustador”, opina Osorio. “Imagina que em janeiro o Estado não tem como pagar o décimo terceiro e a Justiça congela as contas do Estado até os salários dos servidores serem pagos. Não vai ter dinheiro para pagar a comida dos presos, nem para comprar remédio nos hospitais. É muito grave”.

Na sala onde os trabalhadores aguardam para formalizar suas demissões, Nilson Duarte, o presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Sitraicp), o setor que mais empregos perdeu pela crise, recusa também qualquer otimismo. “As principais obras estão quase todas paradas, e obra de infraestrutura é fundamental para fazer girar a economia. No ano passado, 9.000 pessoas passaram por aqui para homologar suas demissões, esse ano já são 14.000. O sindicato tem 14 anos e nunca passamos por esta situação. Não temos perspectiva”, lamenta Duarte. “No Brasil, todo volta a funcionar depois do Carnaval, mas eu não sei se vai ser dessa vez.”

sábado, 12 de novembro de 2016

Corrupção e pecado original

Roberto Romano acha que falta Lord Acton no PL 4.850/16 (projeto de lei para prevenir e combater a corrupção): “Eu não me preocupo como evitar a corrupção, mas em saber como ela surge”, disse Acton. Mas foi ele que ensinou que corrupção surge da concentração do poder político. E vale lembrar a fórmula de R. Klitgaard: (corrupção = concentração de poder + poder discricionário - transparência).

Tudo começa com o pecado original. Quando Lord Acton escrevia, os governos eram menos de 10% do PIB. Com impostos, estatais, bancos públicos, o Estado brasileiro já compra ou nos obriga a comprar em bens e serviços uns dois trilhões de dólares (60% do PIB em poder de compra). Como não ceder à tentação quando o Estado, investido do poder discricionário, gasta tanto dinheiro? Não surpreende que surja corrupção.

Aprimoramentos legais do PL são essenciais, mas de fraca ação preventiva diante da motivação, criatividade e audácia dos corruptos. A Lava-Jato registrou tantos “mecanismos criativos” que os reuniu numa enciclopédia.

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O combate à corrupção é enfraquecido pela convivência da política com a mentira. “The Economist” reporta que piorou, a verdade é agora ignorada. O importante é se dirigir aos preconceitos ideológicos e xenofóbicos de guetos eleitorais. A revista chama tal fenômeno de política da pós-verdade. Só nos resta diminuir a tentação para prevenir a ação corrupta.

Diminui-se a tentação vendendo as ineficientes estatais, sempre capturáveis pela corrupção e abuso político, como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa, Correios, Eletrobras. Todas em recuperação judicial branca. E extinguir o BNDES, essa excrecência que barra a existência de mercado financeiro de longo prazo e política monetária eficiente. E subsidia fabricantes de armas vendidas a tiranos e bandidos. Em serviços e infraestrutura, o setor privado dá conta de quase tudo, desde que o governo não crie regras impossíveis. O governo seria coinvestidor de última instância.

Diminui-se a tentação tornando o ambiente empresarial menos hostil. Somos o sétimo PIB mundial, mas o160º pior ambiente entre 189 países (Banco Mundial). Melhor estão os ex-comunistas China e Rússia. Os três primeiros PIBs (EUA, Japão e Alemanha) estão entre os nove ambientes mais amigáveis. Todos ricos.

Diminui-se a tentação devolvendo poder de escolha aos cidadãos. Possível em previdência (capitalização, e não repartição), educação (cheques complementáveis), saúde (seguros portáteis) e renda mínima. Existe em outros países, mas à meia boca no Brasil. O governo seria o segurador de última instância.

Desestatizar é devolver dignidade ao cidadão. A carga fiscal cairia para uns 20% do PIB com melhoria dos benefícios sociais e aumento da poupança. O restante 20% de tentação se controlaria separando o poder discricionário do poder de pagar, aumentando transparência e liberdade de imprensa. E a PEC do teto de gastos se tornaria amena.

Chamem Lord Acton e a polícia quando empresários pedirem subsídios, desonerações, proteções. Ou quando políticos e burocratas quiserem criar estatais. É daí que surge corrupção. É assim que se concentra renda. Estima-se a “bolsa empresário” sendo 14 a 16 vezes maior do que o Bolsa Família.

O que o cidadão não possa fazer, faça o município. Se o município não consegue, faça o estado. Se não dá para o estado, faça a União. Este princípio federativo cria teto para o poder político.

Odemiro Fonseca

Imagem do Dia

Rice Fields, Tegalalang, Bali:
Plantação de arroz de Tegalalang, em Bali (Indonésia)

O amanhecer da democracia

Existe em todo o mundo um grande mal-estar com a democracia. Seu fracasso é proclamado todos os dias. Eventos como o Brexit, no Reino Unido, e a ascensão de Donald Trump à presidência dos EUA, além da onda de xenofobia na Europa e na América, são proclamados como indícios de que o sistema está em crise.

Sem dúvida, existe um mal-estar. Existe uma crise. Mas a crise, como o mal-estar, é inerente à democracia. Uma vez que a democracia deve arbitrar decisões que agradam e desagradam, o mal-estar sempre estará posto. Ao arbitrar em desfavor das minorias, a democracia gera desconforto. Gera tensões e crises.

as migalhas da democracia brasileira

No processo de desagradar apresenta-se uma grave dicotomia. Muitas vezes os descontentes não se acalmam. Buscam por meios democráticos, ou nem tanto, expor seu descontentamento. A situação se complica quando segmentos que, embora não majoritários, têm acesso privilegiado à mídia e ganham maior exposição para seus argumentos do que a maioria.

Muitas vezes há uma superrepresentação de determinadas posições. A exacerbação de críticas visando a apontar a falência do modelo é um dos caminhos. Já quando existe convergência com o governo, tudo corre bem. O ex-presidente Lula viveu um momento especial de conjunção de expectativas positivas, com as esquerdas contentes, o sistema financeiro confiante, trabalhadores felizes, mídia próspera (incluída aquela sem leitores e telespectadores) e os pobres ganhando renda.

Mas quando o governo se depara com uma oposição que, mesmo sendo politicamente minoritária, é “midiaticamente” predominante, criam-se graves impasses, que devem ser resolvidos pelo líder. Pois se estabelece outro paradoxo. Apesar de o ideal da democracia buscar a força das instituições, suas contradições extrapolam a dependência de lideranças pessoais fortes. Os EUA precisaram de Roosevelt. Churchill salvou o mundo do nazismo.

No Brasil a situação é mais séria. O mal-estar é agravado pelo grave problema de representação. A elite não considera adequada, e com razão, a representação política no País. A tensão natural é agravada pelo fato de os mecanismos tradicionais de representação não serem considerados válidos. Em especial, caso o desempenho da política desagrade às elites. A maioria, no entanto, é a vontade soberana da democracia. E, contrariando ou não o senso comum e o bom-mocismo, a vontade da maioria deve prevalecer. É o contrato. Vale o que está escrito.

Minha peroração, até aqui, não explica a crise da democracia. Pelo simples fato de que considero a crise inerente ao processo democrático. Não é uma questão episódica. A democracia existe para arbitrar conflitos e lidar com crises. Decerto, sem crises não teremos um regime plenamente democrático. Pois a democracia pressupõe a existência de diferenças e da prevalência da vontade da maioria. A gênese da crise está no fato de que dificilmente o regime obterá unanimidade. Em sendo assim, o desconforto dos descontentes estará sempre presente. Faz parte do jogo.

Logo, não devemos reconhecer a crise da democracia como uma excepcionalidade ou sinal de fracasso, mas aceitar que é inerente ao processo. E que precisamos buscar o aperfeiçoamento desse processo. Sem crise temos simulacros de democracia ou um regime autoritário. A crise deve nos impulsionar.

Questões como a xenofobia são parte das crises inerentes à democracia. Mas, sobretudo, decorrem da decepção dos governantes em lidar com os desafios que se apresentam. Até em lidar com suas fraquezas e incompetências. Sabe-se que no fracasso dos liberais há uma tendência a buscar no fundamentalismo a solução. Já quando as coisas andam bem, o fundamentalismo é relegado a plano inferior.

Nos picos de crise as lideranças são testadas. Caso a ex-presidente Dilma Rousseff tivesse ouvido vozes sensatas, ter-se-ia salvado do impeachment. Se o ex-primeiro-ministro David Cameron tivesse ouvido vozes sensatas, não teria provocado o referendo sobre a saída do Reino Unido da União Europeia. Ambos foram líderes fracos e incompetentes. Assim como a Europa, por exemplo, se apresenta de forma pouco competente para lidar com o desafio dos refugiados do Oriente Médio.

Não devemos condenar a democracia. Nem acreditar que ela nunca funcionará de modo adequado por causa de suas deficiências ou pela fragilidade do líder de plantão. Por outro lado, é uma expectativa falsa crer que a democracia vá funcionar perfeitamente. Mas, sem dúvida, o processo em que ela se realiza pode ser bastante aperfeiçoado. E, nesse sentido, estamos na infância da democracia.

Por conseguinte, o processo de crescimento da democracia apresenta imensos problemas, tais como a representação desequilibrada, o processo eleitoral desregulado, um Legislativo pouco funcional, a hipertrofia do Poder Executivo, a bagunça partidária, o ativismo judiciário, além da influência nefasta da criminalidade organizada, do terrorismo, da corrupção e do corporativismo exacerbado do funcionalismo, entre outros.

No entanto, a evolução e as inovações estão nos provocando todos os dias. Temos as redes sociais e a maior e mais ampla circulação de informação da História da humanidade. A mídia já não está controlada por poucos. A telefonia celular expande, impressionantemente, a capacidade de interação dos indivíduos. A maior participação da mulher caminha para ser predominante e modificar as agendas.

A judicialização da política, em especial no Brasil, também será decisiva em nossos aperfeiçoamentos. E ainda teremos fatores externos, como a globalização e a transnacionalização do combate à corrupção, impulsionando a qualidade da política.

Tudo o que mencionei já está sendo decisivo para o aperfeiçoamento da democracia nos próximos anos. Se olharmos para trás, veremos que estamos no amanhecer da democracia. Ainda é cedo para desistir. O jogo está apenas começando.

Clima: acordos não faltam,. só soluções

Durante a reunião em Marrocos da Convenção do Clima – ainda em andamento –, o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas divulgou relatório que mostra os impactos que o País sofrerá com essas mudanças. Serão muitos. Mas ainda são escassos os esforços para mitigá-los. Principalmente porque entre os problemas estão a redução da potabilidade da água, mais consumo de energia, maior risco de catástrofes naturais nas cidades, aumento de doenças e problemas para os sistemas de saúde.

Até 2020 o Brasil terá 90% de sua população nas cidades. E precisará de mais energia – cujo consumo está em 70% nas cidades, onde se produzem 40% das emissões de gases do efeito estufa. Por isso será necessário um esforço ainda maior nas áreas urbanas, que precisarão adaptar-se ao clima. Mas, como lembra a cientista Suzana Kahn, presidente do Comitê Científico do Programa Brasileiro de Mudanças Climáticas, são muito poucos ainda os inventários de gases-estufa. Da mesma forma os estudos em outras áreas, como os relacionados com a potabilidade da água e o consumo de energia – projetado para aumentar 8% além do que foi previsto para 2030, ainda mais considerando que poderá ser menor a geração por hidrelétricas. Da mesma forma também, os estudos sobre danos nas cidades com inundações, desabamentos, etc. – 37,1% dos municípios brasileiros sofreram alagamentos entre 2008 e 2012, 895 foram atingidos por desabamentos. As alterações climáticas têm provocado sobrecarga nos sistemas de saúde e no trabalho do pessoal da área. Mas o que está à vista é pouco.

The world on Climate Change.:

Como relatou este jornal (27/10), o aumento da taxa de desmatamento na Amazônia, com crescimento de 3,5% nas emissões de gases-estufa, comparados com as de 2014, segundo o Observatório do Clima, é problema muito preocupante. E no 1,927 bilhão de toneladas equivalentes emitidas pelo Brasil está um dos problemas mais graves na área de mudanças do clima (em 2014 foram 1,861 bilhão de toneladas). A maior taxa de emissão fica com o setor de mudanças no uso do solo, com a agropecuária respondendo por 69% das emissões de gases-estufa no País, diz o Observatório do Clima. Nesses números estão incluídos poluentes emitidos no processo digestivo dos rebanhos, o uso de fertilizantes e o desmatamento. Gases gerados pelo uso da energia contribuem mais que o desmatamento.

No mês de outubro ganhou muito destaque na comunicação o texto da Medida Provisória 735 (para o setor elétrico), que prevê até um programa para modernização e criação de novas usinas termoelétricas movidas a carvão, altamente poluentes – já debaixo de fogo de vários setores da sociedade.

O mês de novembro marcou também a entrada em vigor do chamado Acordo de Paris, com 197 países signatários que querem limitar a 2 graus o aumento da temperatura do planeta até 2100; se possível, baixar ainda mais, para 1,5 grau – para isso o corte adicional terá de ser feito até 2030. Os esforços aí terão de concentrar-se na agropecuária, que responde por 69% das emissões de gases do efeito estufa e tem agentes dispersos na área e resistentes; 11% cabem ao setor de transportes e 9% à indústria (metalurgia, principalmente). A agricultura e o gado já emitiram 1,36 bilhão de toneladas de poluidores em 2016.

O ano de 2015 foi o mais quente na história da Terra, com os níveis de concentração de poluentes ultrapassando pela primeira vez o nível de 400 partes por milhão (ppm). E 2016 baterá o recorde. Por essa e outras razões, os investimentos em eficiência energética atingiram US$ 221 bilhões e subiram 6% no ano passado. Para atingir as metas desejadas serão necessários investimentos de US$ 100 bilhões por ano só nos países “emergentes”. No entanto, ainda que se cumpram todas as metas, muitos cientistas dizem que chegaremos ao final deste século com aumentos de temperaturas entre de 3,9 e 5,4 graus.

Mesmo admitindo, entretanto, que as metas de redução de emissões sejam cumpridas, são muitos os cientistas que dizem não serem elas suficientes – e mesmo que decisões para o longo prazo estejam sendo tomadas por governos, indústrias e setor financeiro (O Globo, novembro): “Mais de 400 empresas globais já aderiram à agenda do desmatamento zero até 2020 na sua cadeia de valor”. São grandes também os avanços na área de transportes, que caminha rapidamente para a eletrificação e automação de veículos. E o BNDES anunciou que não mais financiará usinas térmicas a carvão. Ainda mais quando o desmatamento atingiu o maior nível nos últimos quatro anos.

Teme-se o que possa vir a refletir por aqui no tocante ao comportamento dos Estados Unidos, uma vez que o presidente eleito, Donald Trump, deixou claro em sua campanha eleitoral que não pretende diminuir a dependência de seu país dos combustíveis fósseis. E até cancelaria a assinatura norte-americana nos acordos do clima. Para completar, regras internacionais acordadas preveem vários passos preliminares que ainda terão de ser acertados. E será preciso dispor de US$ 100 bilhões por ano para que países com menos recursos possam cumprir as regras. Diplomatas lembram que o Protocolo de Kyoto, nessa mesma área, levou oito anos para ter efeitos práticos.

De qualquer forma, muitas instituições católicas já estão retirando investimentos da área de combustíveis fósseis; 400 já aderiram à campanha (nãofrackingBrasil, 2/10); 200 países fecharam acordo para reduzir emissões de gases, inclusive em geladeiras e aparelhos de ar-condicionado.

Mas nem tudo é pacífico. Críticos da “economia verde” asseguram que os métodos utilizados para evitar as emissões não têm contido a devastação de florestas nem a poluição: “Os caminhos estão sendo traçados pelo mercado, e não pelos cidadãos”.

Por onde iremos?

República corporativa

O Brasil já teve nomes antes de República Federativa do Brasil, mas nenhum se ajustaria melhor à realidade política atual do que o nome de “República Corporativa dos Brasis”. Somos um país dividido em uma parcela moderna e outra excluída da educação, da saúde, da renda, da participação política; e a parcela moderna é dívida em corporações, sem um interesse nacional comum e sem uma perspectiva de longo prazo que beneficie as futuras gerações.

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Não há um sentimento de nação federativa, cada grupo deseja se apropriar da maior parcela possível dos recursos públicos e da maneira mais imediata. Aliam-se entre eles para forçarem os governos a atenderem a todas as reivindicações e gastarem mais do que os limites possíveis e provocam endividamento, juros altos e inflação. Mas as corporações ganham com isto: a dos bancos, com os juros; dos sindicatos, porque passam a se justificar como o promotores dos periódicos reajustes de salários; os empresários, porque remarcam os preços.

Os empresários não querem abrir mão dos fartos subsídios que recebem; com o argumento de manter os empregos; os sindicatos dos trabalhadores se aliam aos patrões para exigirem mais recursos dos governos, tirando dinheiro inclusive da Educação e da Saúde para investimentos de interesse de empresas. As classes médias reclamam dos impostos elevados, mas não reclamam da má qualidade dos serviços públicos, porque desejam melhorar apenas os serviços privados financiados com subsídios públicos. Magistrados já conseguem recursos públicos para pagar a escola privada de seus filhos; parlamentares dispõem de serviço médico especial. Na República Corporativa, procura-se aumentar os ganhos de cada grupo, não como beneficiar a todos e ao país.

Querendo atender à corporação a qual pertence e da qual depende na sua reeleição, cada parlamentar faz acordos concedendo tudo o que as corporações pedem, pressionando nos corredores do Congresso. Por isso, no Brasil, a inflação não é apenas um fenômeno econômico e monetário, é um fenômeno cultural e moral, devido à formação política de uma República Corporativa, sem controle, nem prioridades.

Os Brasis não aceitam a ideia de um limite para os gastos públicos porque isso exigiria que alguma corporação perdesse para outras — ou para os que não têm corporação. Elas fogem da disputa, se oferecem mutuamente benefícios, preferindo a ilusão do aumento ilimitado de recursos com o falsificado dinheiro da inflação.

A proposta de emenda à Constituição que define um limite nos gastos traria o realismo na política, forçaria uma disputa entre grupos com o sentimento mínimo de nação. Entretanto, por mais necessária que seja para frear a voracidade corporativa dentro da democracia, a PEC poderá fracassar por falta de uma liderança que consiga convencer os brasileiros corporativizados a fundarem uma República Federativa de um só Brasil. Condição básica para o realismo fiscal.

Cristovam Buarque
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Faltam à reestruturação do PT quadros e ideias

A surra eleitoral ajudou a expor o tamanho da crise pela qual passa o PT. É proporcional a dois fenômenos que grudaram na estrela vermelha: a ruína econômica e a degradação ética. Os petistas dividem-se entre a evasão e a falta de rumo. Quem optou pela fuga busca a melhor oportunidade. Os outros adaptam-se às circunstâncias. Os céticos avaliam que o partido, como está, não tem futuro. E os cínicos fingem que não há um passado.

Em fase de reorganização interna, o PT marcou o seu 6º Congresso Nacional para os dias 7, 8 e 9 de abril de 2017. Será o encontro da virada, anunciam os líderes do grupo de Lula, ainda majoritário. Será? Faltam três coisas para a reestruturação da legenda: desconfiômetro, quadros e ideias.

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A ausência de desconfiômetro impede o PT de reconhecer os seus erros. A escassez de quadros mantém a legenda acorrentada a Lula e sua rotina penal. A inexistência de ideias dá ao partido uma aparência de cachorro que acaba de cair do caminhão de mudança. Não é que os petistas tenham dificuldades para encontrar soluções. Em verdade, eles ainda não enxergaram nem o problema.

No documento de convocação do Congresso partidário, o PT anuncia que fará “oposição implacável” ao “governo usurpador” de Michel Temer. Critica a emenda constitucional do teto dos gastos federais, a reforma da Previdência e a reformulação do ensino médio. As críticas são natimortas. Falta-lhes nexo.

Henrique Meirelles, o ministro da Fazenda de Temer, serviu à gestão Lula como presidente do Banco Central. Só não virou ministro de Dilma porque a criatura rejeitou o conselho do criador. Nelson Barbosa, último titular da Fazenda no governo Dilma, também flertou com um modelo de teto de gastos. Madame caiu antes que ele pudesse inplementá-lo. A reforma da Previdência também compunha o cardápio anticrise de Dilma.

Quanto à reforma do ensino médio, o PT poderia acusar Temer de plágio. Dilma fez da modernização do ensino médio bandeira da campanha presidencial de 2014. Há vídeos disponíveis na internet. Neles, a então candidata prega o mesmo modelo sugerido sob Temer: definição de um currículo comum e enxugamento do número de disciplinas. Madame chegou mesmo a insinuar que matérias como filosofia e sociologia seriam dispensáveis. É como se agora, apeado do poder, o PT assumisse o papel de Narciso às avessas. Acha feio o que é espelho.

O Congresso do PT é vendido como um “instrumento de reorganização, renovação, revitalização e retificação de nossas práticas internas, mas também de nossas relações com a sociedade.'' Ai, ai, ai.

Não há reorganização sem um mínimo de unidade. Num partido cujos filiados só conseguem citar o nome de três grandes líderes —Lula, Lula e Lula— a renovação é utopia irrealizável. Impossível revitalizar um agrupamento que trata os hóspedes do PF’s Inn de Curitiba como ''herois do povo brasileiro.'' Sem uma expiação dos pecados, a retificação de práticas é o outro nome de conversa fiada.

O Brasil é pródigo na oferta de opções partidárias. Submetido a três dezenas de partidos, basta ao eleitor decidir se quer ser de esquerda, meia esquerda, um quarto de esquerda, direita dissimulada, direita Bolsonaro… Com tantas alternativas, o PT optou por liderar a bloco dinheirista do espectro político. Adotou a ideologia do ''quanto eu levo nisso?''

No seu esforço para voltar a seduzir o eleitorado, o PT terá de superar um paradoxo: a legenda acha que é uma coisa. Mas a soma dos palavrões que inspira nas esquinas e nos botecos indica que sua reputação é outra coisa. Ou a renovação começa do zero ou o novo será apenas o cadáver do velho. Será facilmente reconhecido pelos vermes.

Reação da Lava Jato não estava no radar dos políticos

Talvez uma das coisas mais positivas da convulsão política pela qual o Brasil passa desde 2013, com a eclosão das jornadas de protestos de junho, seja o fim da passividade de cidadãos e de instituições como Ministério Público e Poder Judiciário.

O sucesso da Lava Jato e o impeachment de Dilma Rousseff são os resultados mais palpáveis dessa nova institucionalidade. O que parece alentador é que, mesmo passado o momento agudo da crise, ela parece se manter sólida para reagir a movimentos regressivos como o colocado em curso pelo Congresso desde a troca da guarda no Palácio do Planalto.

O roteiro do impeachment previa, como bem disse o delator Sérgio Machado, uma certa acomodação posterior à posse de Michel Temer: viriam medidas no Congresso e um certo suporte no STF para tentar circunscrever a Lava Jato ao que já se sabia e seguir o jogo.

Foram abertas inúmeras frentes de ação nesse sentido. As mais visíveis são as reiteradas tentativas de anistiar o caixa 2 eleitoral, sob a “ingênua” justificativa de que ele passará a ser considerado crime e, portanto, o que foi praticado anteriormente não pode ser punido, a proposta do Senado de apertar a Lei de Abuso de Autoridade para intimidar juízes e procuradores e, agora, a ideia de tornar mais lenientes os acordos de leniência de empresas pegas em corrupção.

O que não estava no radar dos políticos, que repetem o movimento que cerceou a Operação Mãos Limpas, na Itália, é que viria uma reação imediata, clara e em bom som dos procuradores da Lava Jato.

Ao denunciar e chamar pelo nome que têm as manobras para coibir as investigações, o juiz Sérgio Moro e os procuradores jogam um holofote gigante onde deputados e senadores gostariam de operar no escuro. Resta saber se os movimentos de combate à corrupção, que foram às ruas e bateram panelas pelo impeachment, estão suficientemente atentos e mobilizados para se juntar aos agentes da Lava Jato na outra “perna” fundamental para impedir que a operação abafa prospere: a gritaria nas ruas.

Lições de Trumplândia

1 - O candidato que aparece mais – não importa como – está sempre em vantagem. Ao contrário do Brasil, onde ao contribuinte sobra a fatura, na Trumplândia, a propaganda eleitoral na TV é paga pelas campanhas e custa caro. Espaço de graça na mídia é mais do que objetivo, é necessidade. Nunca um candidato conseguiu tanta exposição grátis quanto Trump. Não importa que ele mentisse descaradamente e cultivasse o ultraje como programa de governo.

Quanto mais absurdas as declarações, mais Trump aparecia. Os meios tentaram tratar coisas diferentes como iguais e acabaram potencializando a celebridade do republicano. Só deu Trump. Mas se engana quem acha que ele foi apenas um clown.

2 - A globalização da economia não marginalizou apenas países. Parte das populações de potências como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha ficou pelo caminho, perdeu seus empregos e seus status. Enquanto o noticiário enfatizava suas patetices, Trump vendia uma mensagem clara aos desempregados do meio-oeste dos Estados Unidos: “Vou trazer seus empregos de volta e vou assegurar os que sobraram com medidas protecionistas”.

O localismo do seu discurso criou empatia com um eleitor ignorado pelas elites metropolitanas, desempregado pela China e desprezado por Washington. Em comparação a 2012, o republicano virou Michigan, Pensilvânia, Ohio e Wisconsin. Como previu o cineasta Michael Moore quatro meses antes da eleição, Trump foi o coquetel molotov jogado contra os defensores da globalização. Esse eleitor votou pragmaticamente em seus interesses.
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3 - O eleitor engajado vale por dois. Não só ele se abstém menos de votar, como se dispõe em arrastar outros consigo. Trump cultivou uma militância dedicada, combativa e às vezes violenta. Um candidato que não empolga, como Hillary Clinton, motiva muito menos gente a enfrentar filas e dificuldades para votar, além de dar poucos argumentos para seus cabos eleitorais. O “melhor” para poucos pode valer mais do que o “menos pior” para muitos.

4 - A mídia tradicional não elege presidentes. Mesmo com o apoio declarado por quase todos os jornais importantes, Hillary fracassou. Talvez porque a penetração dos jornais seja cada vez menor. Publicações do interior – onde Trump ganhou de lavada – estão desaparecendo ainda mais rapidamente do que o resto. Menos repórteres na rua, menos antenas com a sociedade.

5 - As mídias sociais desintermediaram a relação do candidato com o eleitor. Sua ligação é direta desde 2008. Jornais e telejornais insistem em repetir o que o candidato diz e caem na armadilha do trumpismo: quanto mais absurda a frase, mais espaço ela ganha. A mídia se esquece que, em se tratando de políticos, aquilo que dizem sempre importa menos do que aquilo que fazem.

6 - As pesquisas erraram? Menos do que se pensa, mas erraram em cascata. As nacionais previram que Hillary teria mais votos do que Trump, e ela teve (embora menos do que o previsto). O erro na margem nas nacionais não teria causado espanto se não tivesse se repetido nas pesquisas nos Estados decisivos – com o agravante de estas terem apontado vantagem apertada para a perdedora.

As pesquisas não coletaram a intenção de voto da parte do eleitorado de Trump que entrou na espiral do silêncio (quem se envergonha de declarar o voto ou se recusa a responder). A esse erro se sobrepuseram os modelos estatísticos de previsão. Apesar de parecer o contrário, eles somam incerteza em vez de subtrair.

E o Brasil, qual lição pode dar à Trumplândia?

Em um país rachado, se o eleito renega seu discurso de campanha, ele se arrisca a perder quem tinha, não ganhar quem não tinha e ficar perigosamente isolado. Trump é escravo de sua boca.

Esse o tempo não apagou

Apocalipse now

Quem não se lembra do filme "Apocalypse Now", um clássico dirigido por Francis Ford Coppola retratando a Guerra do Vietnã? Nela, o exército norte-americano lutou ferozmente durante dez longos anos, perdendo 58.198 soldados. Enquanto isso, só no ano de 2003, o pacífico Brasil perdeu 51.043 filhos assassinados pelas suas ruas.

Banksy Children on guns art, revolution street art , vintage dictionary page book art:
Banksy
Há também a Segunda Guerra Mundial, reputada o maior conflito da história. Nesta guerra, que durou uns cinco anos, os Estados Unidos perderam 291.557 soldados em combate. Enquanto isso, entre 2002 e 2006, 243.232 brasileiros morreram assassinados em nossas cidades.

E que dizermos da Primeira Guerra Mundial? Em uns quatro anos de conflito, 53.402 soldados norte-americanos foram mortos em combate. Enquanto isso, só no ano de 2005, a população brasileira assistiu a 47.578 homicídios!

Verifiquei quantos soldados norte-americanos morreram em combate na Guerra do México, Guerra Hispano-Americana, I Guerra Mundial, II Guerra Mundial, Guerra da Coréia, Guerra do Vietnã, Guerra do Golfo, Guerra do Iraque e Guerra do Afeganistão. Cheguei a 666.056 baixas ao término de uns 34 anos de batalhas terríveis. Enquanto isso, em apenas 16 anos (1990 a 2006), 697.668 civis brasileiros morreram assassinados no Brasil.

Constatei algo assustador: o Exército dos EUA, em guerra, perde uma média de 53,67 soldados por dia. Já o Brasil, em paz, perde 119,46 habitantes assassinados por dia - mais do que o dobro!

Descobri que nos cerca de cinco anos da Segunda Guerra Mundial, a pior de todos os tempos, o número de soldados mortos em combate dos exércitos da Bélgica, Bulgária, Canadá, Tchecoslováquia, Dinamarca, Grécia, Holanda, Noruega, Austrália, Índia, Nova Zelândia e África do Sul somados foi de 166.914. Nós não precisamos de cinco anos de guerra para tanto - só entre 2000 e 2003 assassinamos 193.925 compatriotas!

Durante aqueles cinco anos de guerra a França, invadida pelos nazistas, perdeu 201.568 soldados. A Itália, sob Mussolini, 149.496. E o Brasil, durante cinco anos de paz e sossego (2001 a 2005), viu serem brutalmente assassinados 244.471 civis.

Escrevi as linhas acima em 2009. Mês passado li nos jornais que o Brasil registrou mais mortes violentas entre 2011 e 2015 que a Síria, um país em guerra. Que vergonha, instituições brasileiras! Que vergonha!

Pedro Valls Feu Rosa

Aos sem-voto, resta a mazorca

Bem que Guilherme Boulos, o notório líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto (MTST), avisou que iriam “virar rotina” os bloqueios de avenidas e estradas como forma de protesto por parte dos “movimentos sociais” que perderam seus privilégios depois do impeachment da petista Dilma Rousseff.

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É espantoso que sobre esses grupelhos, que agem evidentemente como marginais, ainda não tenha recaído o peso da lei. Em países onde vigora o Estado de Direito, o direito à manifestação é respeitado, mas a baderna e a desordem, não. A falta de pulso para lidar com delinquentes que decidem infernizar a vida dos cidadãos comuns quando lhes dá na veneta, sem que por isso sejam devida e legalmente reprimidos, alimenta a sensação de que tudo podem.

Portanto, o que aconteceu ontem em São Paulo e em diversas cidades do País, onde manifestantes impediram milhares de pessoas de chegar aonde pretendiam e atender a seus compromissos diários, vai mesmo “virar rotina” – pelo menos até que o poder público resolva cumprir seu papel de guardião da segurança e dos direitos de todos, sem concessões.

O mote do tumulto de ontem foi a chamada PEC do Teto, a Proposta de Emenda Constitucional que visa a colocar um fim na gastança desenfreada que quebrou o País durante o mandarinato lulopetista. O motivo, claro, é o de menos. Para a tigrada, o que importa é criar problemas para o governo de Michel Temer, na presunção de que, se as medidas tomadas pelo presidente fracassarem e se for criado um clima de confronto social, o eleitor voltará para os braços do PT e seus associados.

Feitas as contas, é apenas isso o que restou aos petistas e companhia: promover a mazorca. De uma hora para outra, o outrora robusto capital eleitoral do PT derreteu, em meio às evidências de envolvimento de seus principais dirigentes em cabeludos escândalos de corrupção e depois que o País afundou numa brutal crise econômica causada pelas irresponsabilidades de Dilma Rousseff, criatura inventada pela soberba do chefão Lula da Silva. O eleitor, enfim, cansou-se do engodo petista, negando-lhe os votos de que o partido se julgava dono e que pareciam lhe garantir o poder eterno.

É claro que, por não terem nenhuma vocação democrática, os petistas, em lugar de admitir seus erros, preferiram criar toda sorte de teorias para justificar sua queda. A principal delas é a de que existe um complô – ou um “pacto diabólico”, conforme definiu Lula – das “elites” para erradicar o PT e acabar com os direitos dos trabalhadores. Para denunciar essa tal conspiração, os petistas resolveram colocar a tropa na rua, prejudicando principalmente os trabalhadores que eles dizem defender.

O movimento de ontem, chamado de Dia Nacional de Greves e Paralisações, foi liderado pela Central Única dos Trabalhadores (CUT), pela Frente Povo Sem Medo, pela Frente Brasil Popular e outros tantos grupelhos inconformados com a democracia. Sem representarem nada além de seus chefetes e privados do acesso às tetas estatais em que mamaram durante os anos de bonança lulopetista, eles investem na confusão. Apresentam-se como defensores dos trabalhadores e atribuem ao governo Temer a pretensão de fazer o ajuste fiscal à custa dos mais pobres, o que tornaria legítimo o movimento paredista.

No entanto, como os eleitores deixaram claro nas urnas, essa patranha não cola mais. Mesmo os antigos simpatizantes do PT perceberam que a atual aflição dos trabalhadores resultou da funesta experiência desse partido no poder federal, replicada em maior ou menor grau em quase todos os Estados. Foi o gasto público irresponsável que condenou o País à recessão, ao desemprego e, pior, à falta de perspectiva. O mínimo a fazer, como esperam todos aqueles que têm de trabalhar para viver, é interromper essa sangria e recuperar as contas públicas, de cujo equilíbrio dependem a manutenção dos serviços essenciais para os mais pobres e a retomada da geração de empregos. E, não menos importante, é também obrigação dos governos, em todos os níveis, não permitir que os derrotados nas urnas se tornem senhores das ruas.

Mesmo se não escapar ninguém

Apesar de nenhum funcionário público do Judiciário, Legislativo e Executivo ou das estatais poder receber mais do que 33 mil reais por mês, quantia devida aos ministros do Supremo Tribunal Federal, a verdade é que na administração direta e indireta existem montes de marajás beirando os cem mil reais.

Irritado com esse descumprimento da Constituição, o presidente do Senado, Renan Calheiros, instalou uma comissão para, em vinte dias, relacionar todas as distorções e seus beneficiários.

Trata-se de um absurdo, disse o parlamentar alagoano. Poderia ter dito, também, de um crime. Em especial por atingir integrantes do Judiciário. A Associação dos Juízes Federais denuncia que os maiores salários estão entre os servidores da Câmara e do Senado.

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Seria bom repetir o mote que de quando em quando refere-se à atividade pública no país: “esteje todo mundo preso!” Pelo menos, que se aplique prisão domiciliar a quem ultrapassar o teto máximo devido aos funcionários do estado. E com o adendo de que todos deveriam repor aos cofres públicos as quantias recebidas indevidamente. Não sobraria ninguém. Ou muito poucos.

Se um ascensorista da Câmara recebe mais do que um piloto de avião a jato, também é verdade que um servidor de cafézinho no palácio do Planalto ganha mais do que um professor universitário. Em oportunidades sem conta, acima dos ministros do Supremo.

Conseguirá Renan Calheiros chegar a esse “listão” de horrores, e, mais ainda, obter que algum intérprete da Constituição sentencie todos os privilegiados?

Tem gente supondo que a iniciativa do presidente do Senado deve-se à reação contra a iminência dele ser processado no Judiciário. Tanto faz, mesmo se não escapar de sua participação na Operação Lava Jato e sucedâneos.

Carlos Chagas

Paisagem brasileira

Denise Storer, O coreto 

Fred, o último petista

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O ano é 2019.
Fred é o último petista.
Mora num apartamento em São Caetano do Sul, que ganhou numa rifa para pagar a fiança do José Dirceu.
Fred é filiado ao partido desde sua fundação.
Militante daqueles que dedicaram a vida aos ideais petistas.
Sua vida e suas referências se alternam entre ideologia e amor.
Sonha em se mudar para São Bernardo.
– Ah…preciso explicar por quê? – encabulado sorri da vontade secreta de viver no berço do partido.
Quer trabalhar numa fábrica de peças de automóvel, torneiro formado no SENAI depois de velho.
As paredes do apartamento são repletas de fotos da militância, misturadas com fotos de seus ídolos, Lula p, o patriarca, Rui Falcão e Dilma, a pura.
A foto de Dilma está cheia de rabiscos, chifrinho e um bigodinho feito a caneta.
– Esses rabiscos eu fiz num momento de loucura. – confessa
A raiva é justificada.
O PT acabou logo depois de Dilma mudar para o PMDB dizendo que queria se cercar de gente honesta.
Todos os dias quando acorda, Fred veste sua camisa vermelha, puída, reminiscência da época em que o PT estava no poder.
– Bons tempos aqueles – olha para o canto da sala, melancólico.
Fred ainda é contratado do partido.
Apesar de não existir mais partido, ele se recusa a aceitar publicamente que o partido acabou. Ou simplesmente acredita que não acabou.
Difícil dizer.
Recebe seu salário religiosamente ao final de cada mês porque foi programado para depósito automático pelo último tesoureiro.
O dinheiro vem diretamente do BNDES, ele supõe, ou da Petrobras.
Fred desvia do assunto.
Seu trabalho hoje consiste em administrar um blog de notícias sobre o PT.
O “Diário da Esquerda do Mundo”.
O site anda meio abandonado.
Faz tempo que não acontece nada de novo.
Mesmo assim, Fred passa o dia respondendo a uns poucos comentários ofensivos ao PT, que ainda aparecem nas redes sociais.
É verdade que seu trabalho diminuiu muito nos últimos anos.
Sinal de que o PT está lentamente se tornando uma distante memória.
Mas a interpretação de Fred é outra.
Não tem mais tanta gente criticando o PT, como acontecia há alguns anos, acho que finalmente entenderam que tudo que queremos é um Brasil melhor, mais justo – comenta orgulhoso, certo de que sua colaboração foi importante.
Fred se levanta e desembaraça a bandeira vermelha com a estrela branca na janela.
No passado, atiravam ovos, as manchas ainda estão no tecido.
Hoje nem isso. Fred virou um personagem pitoresco, conhecido no bairro.
O computador emite um alerta sonoro.
– Olhai…alguém comentou…
Fred tem um aplicativo que monitora referências ao PT nas redes sociais.
Alarme falso.
Alguém procurou por “pterodartilo” no google.
Fred não consegue esconder a decepção.
Às vezes passa dias sem que ninguém fale do PT.
Confessa que nesses dias ele mesmo posta alguma ofensa ao PT só para poder responder.
Geralmente numa página de muita visibilidade como a da apresentadora do Mais Você. Gabriela Pugliese.
Fred faz uma pausa melancólica.
O alarme toca de novo.
Seus olhos se enchem de esperança.
Nada.
É só o Suplicy cantando Bob Dylan.
De novo.

Trump leva populismo de direita à Casa Branca

O populismo é a ideologia da ignorância. Confunde esquerda e direita, mistura promessas na mesma sopa. O populismo se sustenta em líderes carismáticos e se alimenta da manipulação da massa. A História tem exemplos com resultados dramáticos. Qual a diferença entre ser populista e popular? A quem serve o populismo, cuja retórica costuma ser o “nós contra eles”?

Donald Trump, o presidente eleito dos Estados Unidos, contra todos os prognósticos, é o mais exorbitante populista no momento no mundo. Quanto mais esbravejou, mais conquistou a audiência e eleitores nesta campanha agressiva nos Estados Unidos. Conquistou a Casa Branca, apesar dos palavrões. Ou os palavrões ajudaram? Porque a retórica agora é "tornar a América (os EUA) grande de novo". And f..... the rest.

Trump é antes de tudo uma celebridade, com seus livros, hotéis e cassinos. Ele fica “confortável diante das câmeras, fala como demagogo contra imigrantes ilegais, especialmente mexicanos”, e faz parecer simples combater o Estado Islâmico e os terroristas. A definição é de Michael Kazin, professor de história da Universidade de Georgetown. Como muitos populistas, diz Kazin, “Trump gosta de reduzir a política a um conjunto simples de polarizações” porque o “populismo é um dispositivo para mobilizar o povo contra as elites”.

Na França, a populista mais popular é Marine Le Pen, com discurso social e nacionalista de direita, contra a imigração – ela foi uma das primeiras políticas a felicitar Trump "e o povo americano" oficialmente. Na América Latina de populistas de esquerda como Juan Perón e Getúlio Vargas, o movimento tem caído em desgraça – na Venezuela, no Equador, na Argentina, na Bolívia e no Brasil.

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“O populismo, quando surge, permite acentuar o que a democracia tem de positivo e de negativo. Se o populismo se consolida, é um sintoma de que havia gente que não se sentia representada. Pode criar, assim, fenômenos de inclusão social importantes”, disse ao jornalista Silio Boccanera, da GloboNews, o uruguaio Francisco Panizza, professor de política da London School of Economics e autor do livro Populismo e o espelho da democracia. “Mas também há populismos extremamente destrutivos que levam a uma completa polarização social e a um conflito social muito difícil de resolver.”

Na manhã desta quarta-feira (9), despertamos na crista da onda do populismo de direita. Vamos ver como o mundo surfará esse desejo de separatismo, protecionismo e rejeição da política tradicional. Porque até as minorias, de uma certa maneira, apoiaram Trump, o que mais deve ter desapontado Barack Obama e Hillary Clinton foi ver que muitos pobres, negros e latinos se bandearam para os republicanos. Há, no eleitorado, mundialmente, um receio arraigado em relação à esquerda e à social-democracia, e há também uma certeza: o que rege sua ideologia é a promessa de emprego e economia forte.

A desilusão mundial com os políticos, pela corrupção e pelas mentiras, leva o eleitor a mandar um recado claro, com voto oculto não detectado pelas pesquisas eleitorais. Ele prefere apostar no desconhecido, por mais arriscado que possa ser. O desconhecido ainda não o decepcionou. O desconhecido com uma história pessoal de sucesso é um chamariz de voto. Não é por acaso que 23 milionários tenham sido eleitos no primeiro turno prefeitos no Brasil - e que, em São Paulo e no Rio de Janeiro, os vitoriosos tenham sido um empresário e um pastor, ambos para lá de ricos.

Para o eleitor comum, a maior bandeira é seu trabalho, sua chance de mobilidade social. Sua família é a maior preocupação. Saúde, segurança e o futuro de seus filhos são o que lhe tira o sono. O futuro do planeta, a ecologia, a paz, nada disso guia a maioria silenciosa na urna. É sua felicidade e a dos muito próximos o que comanda seu voto. Não vivemos tempos de compaixão ou de solidariedade com imigrantes e refugiados, ou com vizinhos de prédio ou de fronteira, ou com menores carentes ou delinquentes.

Um dos votos mais surpreendentes, recentemente, foi o do referendo na Colômbia. Era dado como certo que o povo colombiano aprovaria o acordo de paz com os guerrilheiros das Farc, depois de mais de 50 anos de guerra civil e 260 mil mortos. Mas o povo disse “não” no referendo. Rejeitou a anistia aos guerrilheiros.

Na Hungria, 95% rejeitaram em referendo abrigar cotas de refugiados de guerra e imigrantes. Na Grã-Bretanha, o povo decidiu pela Brexit a saída da Europa. Na Espanha, nenhum partido consegue formar maioria em eleições, e o povo está há quase 300 dias sem um governo nacional – e feliz com isso. “Sem governo, sem ladrões”, dizem os espanhóis.

Nos Estados Unidos, Donald Trump, ídolo dos nacionalistas, ganhou mesmo sendo classificado como um fenômeno de ódio, racismo, xenofobia, machismo. Inexplicável?

Ao chegar a Nova York há um mês, eu peguei no aeroporto um táxi dirigido por um jovem de Bangladesh, que foi com a família há 20 anos para os Estados Unidos. Perguntei em quem votaria para presidente. “Ainda não sei”, disse com sotaque forte. “Não gosto de nenhum dos dois. Será um voto difícil (tough). Mas, no último dia, vou escolher Trump ou Hillary.” Fiquei boquiaberta. Tive a sensação de que o rapaz de Bangladesh já se decidira por Trump. Um voto oculto e envergonhado, como tantos que acabaram por decidir esta eleição.