quarta-feira, 5 de outubro de 2016

A derrota é órfã

Com a reunião extraordinária de sua Executiva, nesta quarta-feira, o Partido dos Trabalhadores está dando a largada para o dolorido processo de acerto interno de contas. Não se sabe quando e como terminará, tal a proliferação de teses no seu interior e no entorno.

Não há consenso sobre quase nada. As tendências centrífugas vão desde a autoflagelação pura e simples até a transferência de responsabilidades, como se a realidade e os eleitores fossem os culpados pela hecatombe petista. Mais uma vez fica provado o velho provérbio: a derrota é órfã.

A orfandade do PT consiste em sair da eleição sem um polo aglutinador, sem um vitorioso de porte. Nem mesmo Lula é o semideus de outrora. Parlamentares petistas queixam-se de sua opção preferencial, em eleições passadas, por candidatos-postes. Vide Dilma Rousseff, Alexandre Padilha e Fernando Haddad.

Lula, aliás, confessou sua compulsão em 2012, num comício em Fortaleza: “Quando lancei o Haddad, disseram que estava lançando um poste. Quando lancei a Dilma, disseram que estava lançando um poste. Digo que de poste em poste vamos iluminar o Brasil”.

Mal sabia ele do apagão do lulopetismo, em 2016.

Sem pai nem mãe, é impensável um “aggiornamento” do PT. No máximo, sua direção fará uma “autocrítica” meia boca, um movimento no estilo do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa: um “algo deve mudar para que tudo continue como esta”, talvez conduzido pelo próprio caudilho. Lula já prega alguém novo para presidir o partido.

Quem é o novo? O senador Lindberg Farias?

A cúpula petista assumirá, claro, alguns “erros” de “financiamento eleitoral”, de não “fazer a reforma política”. E até de falta de empenho das campanhas.

Mas não vai espremer a ferida até extirpar o carnegão. O mais provável é o apelo à via administrativa, com o expurgo dos “dissidentes”, conforme nota de Ilimar Franco no jornal O Globo.

Até pelo instinto de sobrevivência, parlamentares do PT podem largar a família e ser adotados pelo PDT, PSOL e outras legendas.

Enquanto isto, os petistas não estão entendendo quase nada do que disse o eleitorado. Para uns, aconteceu no Brasil o mesmo que aconteceu na Itália da operação Mãos Limpas.

Só faltam dizer que quem é o Berlusconi brasileiro. Culpam o juiz Sérgio Moro e o “massacre da mídia golpista” pelo próprio fracasso, ignorando que a eleição foi um plebiscito anti-PT, assim como em 1974 foi um plebiscito contra a ditadura; ressalvadas as diferenças entre os dois momentos históricos.

Com a postura arrogante de sempre, subestimam a inteligência dos brasileiros, ignoram um fato concreto. O resultado eleitoral, inclusive o de São Paulo, tem tudo a ver com o desmanche da economia promovido pelo governo Dilma, responsável pelo desemprego de 12 milhões de brasileiros. Também tem uma relação direta com as manifestações multitudinárias em favor do impeachment.

Outros se enveredam pelo ato de contrição, como fez Frei Betto, antes mesmo da abertura das urnas, no dia 1º de outubro: “No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros. Em 13 anos, não promovemos a alfabetização política da população. Não tratamos de organizar as bases populares. Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia. Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno. Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas. Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como a agrária, a tributária e a previdenciária. Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política”.

Qualquer um desses caminhos não leva o PT a lugar algum.

A derrota pode ser órfã, mas se não forem assimiladas as suas causas, não será a mãe da vitória no futuro. Será a mãe de novas derrotas. E 2018 está logo ali.

Lula, um leão rouco, sem dentes nem garras

O profeta Lula estava particularmente inspirado quando foi votar para prefeito em São Bernardo do Campo, onde mora. “O PT vai surpreender nesta eleição”, previu com precisão instantânea. Pois seu partido surpreendeu mesmo, ao cair de terceiro em número de prefeituras em 2012 para décimo lugar neste pleito. “Quanto mais ódio se estimula, mais amor se cria a favor”, disse, em forma de oração. “Só há um jeito de eles tentarem me parar: evitar que eu ande pelo Brasil”, ameaçou o santo guerreiro contra o dragão da maldade da burguesia infame. O loroteiro está de volta, olê, olê, olá!

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Não tardou para as urnas o estarrecerem. Nem precisou sair de casa: Orlando Morando (PSDB) e Alex Manente (PPS) disputam o segundo turno em São Bernardo. O companheiro Tarcísio Secoli, favorito do prefeito Luiz Marinho, seu sucessor no Sindicato dos Metalúrgicos, do qual Lula ascendeu para a glória política, ficou em terceiro, com menos de um quarto dos votos válidos: 22,6%. Em termos proporcionais, superou o poste que ele elegeu em São Paulo em 2012: Fernando Haddad protagonizou o maior vexame da história do partido ao ser massacrado pelo tucano João Doria, que o derrotou no primeiro turno por 53,3% a 16,7%. Em gíria de turfe, Haddad nem pagou placê.

E no dia em que constatou que as eleições “consolidam a democracia no Brasil”, Lula deu uma desculpa esfarrapada para o fiasco histórico: “A imprensa está em guerra com o PT há sete anos”. Para ele, “as pessoas se enganam quando (pensam que) uma TV, um jornal, pode tudo. Não pode. O povo é que pode tudo”. No caso, não lhe falta razão: numa democracia, como reza a Constituição da República, todo o poder emana do povo e para ele é exercido. As urnas não falam, mas o povo fala nelas. E a lorota de Lula tornou-se senha para a violência: mais tarde, constatada a derrota de Haddad, militantes petistas impediram que a repórter Andréia Sadi, da GloboNews, concluísse um boletim ao vivo na sede do PT, no centro de São Paulo.

Um tsunami de votos soterrou o partido que se diz da classe operária, mas passou 13 anos, 4 meses e 12 dias usando o poder federal para atuar como despachante de empreiteiros e amigos empresários emergentes que, em troca de contratos superfaturados, engordaram os cofres dos petistas e do PT em proporções nunca ousadas antes. Até recentemente, ingênuos, como o autor destas linhas, imaginavam que havia apenas uma corrente de escândalos de corrupção – Santo André, mensalão, petrolão, etc. –, conectados e consequentes um do outro. Agora é possível perceber que não é só isso. Trata-se, sim, de um assalto planejado, organizado e realizado para esvaziar todos os cofres públicos ao alcance de suas mãos.

A 53.ª (Arquivo X) e a 54.ª (Ormetà) fases da Operação Lava Jato trouxeram à tona revelações impressionantes sobre a gestão dos desgovernos Lula e Dilma. Nunca antes na História deste país um chefe da Casa Civil respondera por violações do Código Penal. José Dirceu, “capitão” do time de Lula em seu primeiro governo, está preso em Curitiba, acusado de haver delinquido quando cumpria pena na Papuda, em Brasília, condenado por corrupção e outros crimes pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no caso mensalão. Antônio Palocci Filho, primeira eminência parda de Dilma, após ter sobrevivido a 19 processos criminais no mesmo STF e ter violado o sigilo bancário de um pobre trabalhador, o caseiro Francenildo dos Santos Costa, foi recolhido ao xadrez, acusado de ter pago dívidas de campanha da chefe com dinheiro sujo.

Gleisi Hoffmann, ex-chefa da Casa Civil e senadora (PT-PR), é acusada de ter recebido R$ 1 milhão de propina da Petrobrás para comprar votos. Acusação igual é feita ao marido dela, Paulo Bernardo, suspeito de haver furtado R$ 7 milhões em prestações mensais de funcionários do Ministério do Planejamento que requeriam empréstimos consignados.

Guido Mantega, preso e solto pelo juiz Sergio Moro, foi outro ex-ministro do Planejamento a protagonizar processo criminal, em que foi delatado por Eike Batista, “bom burguês” escalado por Lula entre “campeões mundiais” do socialismo de compadrio, de havê-lo achacado no gabinete do Ministério da Fazenda. Palocci também foi ministro da Fazenda de Lula, que se diz o mais “honesto dos seres humanos”. Enquanto Dilma se põe acima de suspeitas por não ter contas bancárias no exterior.

No palanque, a esquerda insistiu que Dilma foi usurpada por Michel Temer, o vice duas vezes eleito com ela, no impeachment, cujo rito legal foi cumprido à exaustão. Em São Paulo, Luiza Erundina, do PSOL, e, no Rio, Jandira Feghali, do PCdoB, pediram votos repetindo essa patranha de consolar devoto. A ex-prefeita teve 3,2% dos votos e a carioca, 3,3%.

Fernando Haddad, contrariando o comportamento belicoso de seus apoiadores, cumprimentou João Doria pela vitória. No entanto, a agressão à repórter de televisão não foi, como devia ter sido, evitada por seu candidato a vice, Gabriel Chalita, nem por seu antigo colega de Ministério de Lula, Alexandre Padilha, que, conforme depoimento do colunista do Globo Jorge Bastos Moreno, se mantiveram impassíveis diante do lamentável fato. Assim, deram o sinal de que a oposição do PT e aliados de esquerda não se limitará à irresponsável tentativa de impedir que sejam feitos os ajustes sem os quais o Brasil não conseguirá recuperar-se da crise provocada pela longa duração do próprio reinado na República.

O governo de Temer, também cúmplice no desmantelamento do Estado brasileiro nas gestões petistas, sofrerá boicote impiedoso. Mas a maior vítima será, como sempre, o cidadão, que amarga desemprego, inflação e quebradeira. E se verá às voltas com vândalos nas ruas queimando carros e quebrando vidraças. O PT não é cachorro morto e seu chefão, Lula, ainda será o leão rouco que ruge mesmo tendo perdido dentes e garras.

Imagem do Dia

Parque Nacional do Vale da Morte (EUA)

O atraso está sob nova direção

O partido que comandou a política brasileira neste início do século XXI contempla seu naufrágio. Os ventos sopram, as águas batem e rebatem sobre o convés enquanto a esperança some com o vento, em busca de outro norte. Atacado pela direita e pelo centro, por conservadores e liberais, com seus principais líderes presos ou a caminho do cárcere, o partido afundou em todo o país. Salvou-se no Acre. Os avanços das investigações tornaram inevitável a catástrofe petista. E nada mais fidedigno do que uma eleição municipal para diagnosticar essa catástrofe. Eleições municipais são minuciosas. Com a intensidade das tensões locais, elas envolvem centenas de milhares de campanhas e transcorrem em 5,5 mil municípios. É a maior de todas as pesquisas políticas que se pode fazer. E o Brasil, simbolicamente, mandou o PT para o Acre.

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O orgulho é um veneno de efeito lento, mas devastador. O orgulho impediu o partido de Lula de reconhecer suas faltas, expurgar seus malfeitores, bater no próprio peito. Eleitores ocasionais e mesmo os de carteirinha não entendem algo que não pode ser compreendido fora de um divã de analista. Como pôde o partido nada dizer ou fazer sobre tudo que se tornava conhecido? Como pôde considerar suficiente desqualificar a polícia, o juiz, o promotor e o Cunha enquanto bilhões sob sua guarda sumiam na voragem da corrupção? E como pode tratar de si mesmo com tanta condescendência?

A eleição de domingo foi, também, um instantâneo das tropas em trânsito do PT para o PSOL. Ela identifica um movimento, um fluxo que não encontra motivos para cessar. Vai ampliar-se. O PSOL é o PT com certidão negativa. É o PT de segunda geração. É o filho de Átila, o flagelo de Deus, que volta para atacar os descendentes de Grécia e Roma. Aprendeu com seu genitor que não se faz política sem inimigos. Ora, o mostruário de inimigos disponíveis para compor um discurso político não é tão grande assim. Como resultado, o PSOL alugou os inimigos do PT. Não foi dito, mas deu para notar algo assim tipo mexeu com o PT mexeu comigo. Entrando, inteligentemente, no coro contra Cunha e contra Temer, abriu as porteiras para acolher o eleitor petista de narinas mais sensíveis.

Com o assento sobre a janela e sem um discurso que possa chamar de seu, o PT não conseguirá, tão cedo ao menos, fazer com que o sangue e o oxigênio se encontrem nas proporções devidas. Recolhe-se à tenda de oxigênio. E ao Acre.

O atraso está sob nova direção. O populismo troca a razão social. As últimas greves, especialmente as greves estudantis secundaristas, a resistência ao projeto da Escola sem Partido, a identificação com a esquerda ibero-americana, o apoio aos delirantes comunistas bolivarianos, saem desta eleição guarnecidos pela agenda do PSOL. O perigo ronda as salas de aula do país.

Agora só falta a moçada do PSOL dizer que "lutamos contra a ditadura".

Percival Puggina

Ministro espera que não vingue eleição de bandido

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A esperança do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Gilmar Mendes, como a de qualquer cidadão, é que se torne definitiva a prisão ainda preventiva do bandido Ubiraci Rocha, vulgo “Bira”. É a única maneira de enquadrar na Lei Ficha Limpa o bandido que responde por homicídios e tráfico de drogas. Ele saiu da cadeia, algemado, para votar e ser eleito vereador em Catolé do Rocha (PB).

Envergonha os brasileiros e constrange a Justiça Eleitoral a eleição de “Bira”, que além de traficante, integra um grupo de extermínio.

A eleição do bandido “Bira” chama atenção para a legislação demagógica que assegura o direito de voto no sistema prisional.

Com o direito de voto dos presos, a campanha eleitoral leva candidatos a assumir “compromissos” com bandidos.

Se o país fosse ´serio, o Supremo seria fechado 'a bem do serviço público'

Antigamente, era costume citar a expressão “a bem do serviço público” para justificar rigorosas punições a autoridades e servidores com estabilidade funcional. Embora tenha caído em desuso, a expressão merecer ser novamente utilizada para que se defenda o fechamento temporário do Supremo Tribunal Federal, com a finalidade de submetê-lo a uma reforma operacional que possa aumentar minimamente a produtividade, evitando que continuem impunes os mais importantes criminosos do país, que usam os cargos públicos para dilapidar o erário, em detrimento dos interesses nacionais.
A justificativa para fechar o Supremo é simples e transparente, qualquer pessoa entende. Basta alegar que somente nesta terça-feira, dia 4, o ministro Edson Fachin liberou para julgamento uma denúncia contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), nove anos depois de aberta a investigação, que demorou seis anos e culminou numa denúncia formalizada pelo Ministério Público Federal em 2013.

Como se vê, caminha para prescrição no STF mais um caso simples de ação penal por peculato, falsidade ideológica e uso de documento falso.
Somente depois de o plenário aceitar a denúncia é que Renan se tornará réu e responderá a processo, com amplo direito de defesa, prazos, convocação de testemunhas, depoimentos, recursos diversos, um verdadeiro festival.

O fato concreto é que o senador é tão culpado dessas acusações que há nove anos teve de renunciar à presidência do Senado para evitar a cassação. Ficou na muda, e em 2013 conseguiu ser novamente eleito para presidir o Senado, vejam a que ponto chega a desfaçatez dos políticos brasileiros.

Renan já está acostumado. Responde atualmente a 12 inquéritos na Suprema Corte, nove deles relacionados às investigações sobre o esquema de corrupção da Petrobras, um relativo à Operação Zelotes, além dos dois que apuravam irregularidades no pagamento da pensão de uma filha, cuja denúncia somente agora foi formalizada, sob acusação de que o senador recebeu propina da construtora Mendes Júnior para sustentar a criança.

Renan não é o único, claro. Apenas segue os passos de um grande amigo, que se tornou conhecido como um dos maiores corruptos da política brasileira, o senador Jader Barbalho (PMDB-PA). Desde o ano passado, quando o parlamentar completou 70 anos, o Supremo comemorou a data encerrando seis processos penais contra ele, por decurso de prazo (prescrição), sem que houvesse julgamentos.

Essa clamorosa impunidade demonstra que a sistemática atual torna o Supremo inviável e inoperante, sem condições de julgar os mais de 80 mil processos que chegam a cada ano e também sem condições de conduzir os mais de 500 inquéritos envolvendo autoridades e parlamentares.

Detalhe: o prazo médio do recebimento de uma denúncia pelo Supremo é de 617 dias, enquanto no juízo de primeiro grau ocorre em apenas uma semana, como já denunciou o ministro novato Luis Roberto Barroso, assustado com a inoperância da mais alta corte.

Os primeiros inquéritos da Lava Jato no STF foram abertos em março de 2015. Até agora, só três denúncias foram aceitas e nenhum político sofreu condenação, enquanto na Justiça Federal no Paraná tudo caminha com celeridade.

Diante dessa realidade irrefutável, alguém tem dúvida de que deve ser promovido o fechamento temporário do Supremo, “a bem do serviço público”?

Clássico não tem clone



John Sturges dirigiu um dos ícones do faroeste - "Sete homens e um destino" 
("The Magnificent Seven") - baseado na história japonesa de Akira Kurosawa, "Sete samurais". A música tema de Elmer Bernstein ajudou a imortalizar a interpretação de Yul Brynner, Eli Wallach, Steve McQueen, Charles Bronson, Robert Vaughn, Horst Buchholz, Brad Dexter e James Coburn. 

* Num momento de caça a bandidos, no Brasil, o clássico cinematográfico ainda tem toda a inspiração daqueles anos 1960, quando foi lançado.  

O que o futuro reserva ao PT

O “nós contra eles”, que tanto marcou o discurso do PT nos últimos 14 anos e dividiu a opinião pública brasileira, está com seus dias contados a levar-se em conta o resultado da primeira fase das eleições municipais deste ano. Ao PT deixará de interessar. E também aos que sempre se opuseram ao PT por divergir ideologicamente dele e temê-lo.

Funcionou para o PT enquanto ele foi majoritário no campo da centro-esquerda e controlou o governo federal, fonte em grande parte de sua vitalidade. De certa forma funcionou também para os adversários do PT, empenhados em arrebanhar forças capazes de desalojá-lo do poder. Uma vez que os dois objetivos se esgotaram, perdeu o sentido.

Charge (Foto: Miguel)
O resultado do primeiro turno da eleição do último domingo mostrou que o PT desceu a ladeira para um dos níveis mais baixos que já ocupou. O partido quase foi dizimado. Não conseguiu eleger prefeitos sequer na metade dos municípios que dominava. Elegeu um único de capital (Rio Branco). Disputará em uma única capital o segundo turno (Recife).

Nove partidos elegeram mais prefeitos do que o PT – entre eles, até o DEM, que parecia ameaçado de extinção. O PSB, partido de médio porte e antigo parceiro do PT, elegeu mais prefeitos do que ele. Partidos que sempre estiveram na órbita do PT afastaram-se dela e preferiram ir cuidar de sua própria sobrevivência.

Enfraquecido em baixo, não tem o PT como fortalecer-se em cima. Isso restará provado em 2018 quando ele disputar as próximas eleições gerais, de presidente da República, governadores, assembleias e Congresso. Desde já, o PT admite apoiar o candidato a presidente de outro partido. Dificilmente contará com Lula. E, sem ele, não terá outro nome viável.

Ou o PT se isola, correndo o sério risco de virar uma legenda de gueto, ou modestamente, e abdicando do protagonismo, tenta se juntar com os partidos que ainda aceitam sua companhia. O “nós contra eles” em nada o ajudará. Só lhe restará o esforço desesperado para ampliar o “nós” sem desprezar necessariamente o “eles”.

Não será uma tarefa fácil. Para executá-la com êxito, o PT será obrigado a reconhecer seus erros, a refletir sobre eles, a mudar de comportamento, a reconciliar-se com valores que desprezou, a renovar-se enfim, e a ter paciência. Muita paciência. Recuperar-se de queda é mais difícil do que ascender. Em menos de 40 anos, o PT subiu e afundou.

Quando Getúlio Vargas, em 1950, voltou ao poder como presidente eleito e não mais como ditador, os partidos que o apoiaram, PTB e PSD os maiores deles, pareciam destinados a ter vida longa. O PTB ainda existe agora sob a direção de Roberto Jefferson. Gilberto Kassab preside um PSD que nada tem a ver com o PSD original.

A UDN que se opunha a Getúlio desapareceu. Assim como desapareceu o Partido Comunista italiano, o mais poderoso do mundo ocidental nos anos 70 do século passado. O Partido Comunista português ainda existe, mas não passa de uma pálida sombra do que foi um dia.

O abismo

IdeaFixa » Hora de massagear seu cérebro: anatomia surreal em gif

Um estadista acha que ele pertence à nação, mas um político acha que a nação lhe pertence
Berbast V. Prochnov

Ações da má-fé de representantes do povo

Quando fui deputada estadual, aqui, em Minas, fui avisada, diversas vezes, anonimamente, sobre alguma maracutaia embutida em projeto a ser votado.

Não havia telefone celular nem internet. Eu costumava descer para o plenário mais cedo para dar uma espiada nos projetos empilhados na mesa da presidência. Algumas vezes, ao fazer isso, ouvia tocar o telefone que ficava na bancada de assessores atrás da cadeira do presidente. Eu atendia.

Lembro-me muito claramente de dois momentos desses: no primeiro, alguém me pediu que prestasse bastante atenção em determinado projeto que estava para ser votado. Corri a vê-lo. No meio de providências sem grande importância havia uma doação de terreno público valioso do Estado para determinado município...

Doutra feita, a coisa foi mais grave: votava-se em Brasília, na Assembleia Constituinte, a vedação de se efetivar sem concurso servidor comissionado (isto é, de livre indicação de político). Da mesma maneira que já descrevi, fui avisada de que havia a efetivação de mais de 200 servidores nomeados por ex-deputados embutida em outro projeto qualquer.

Pus a boca no trombone com a ajuda de outros deputados.
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Na Câmara dos Deputados, dia desses, houve o misterioso caso do projeto de criminalização do caixa 2, cuja autoria ninguém sabe, ninguém viu, e que também foi incluído na pauta de votação sem que vivalma tenha sido o responsável por esse feito. Felizmente, a gritaria de parlamentares de alguns partidos impediu a falcatrua.

E sabem o que teria sido o estrago? Atualmente, não existe lei que considere crime o uso do caixa 2. Quem recebe os recursos e é pego é considerado pelos juízes alguém que incidiu em “falsidade ideológica” de documento particular, ou seja, afirmou algo que não corresponde à verdade. A pena é ridícula: reclusão de um a três anos. Basta o leitor estar acompanhando o desenrolar da Lava Jato ou lembrar-se do mensalão e da “contabilidade não registrada” de Delúbio Soares para imaginar os rios de dinheiro que correm por aí mediante o tal caixa 2. Quanto a quem faz a doação, nada! Quem achava ser bobagem proibir o financiamento empresarial para campanhas pode medir agora, em sentido contrário, como andam quase todas as candidaturas a prefeitos ou vereadores: um grande número de candidatos no vermelho. Coisa impossível ou muito difícil de acontecer quando era livre a contribuição empresarial...

Pois bem, os espertalhões que queriam aprovar o projeto de criar o crime de caixa 2 apenas pretendiam, na verdade, inocentar todos os que, antes da aprovação de tal projeto, tivessem sido acusados de ter praticado tal conduta. É que, na Constituição Federal, há um dispositivo de proteção do indivíduo que afirma que “nada pode ser considerado crime sem lei anterior que o defina”. Como a lei seria nova, estariam livres tantos quantos andam ou andaram atribuindo ao caixa 2 o recebimento de propina da Petrobras, da Eletrobras ou do esquema dito mensalão.

Olhem só o estrago que seria feito!

Sandra Starling

Brasil, o 4º mais corrupto do mundo

O Brasil é a quarta nação mais corrupta do mundo, segundo o índice de corrupção do Fórum Econômico Mundial. O país está atrás apenas do Chade, da Bolívia e da Venezuela, que lidera o ranking. A corrupção é um dos elementos que a organização suíça inclui em seu índice anual de competitividade, baseado em uma pesquisa com 15.000 líderes empresariais de 141 economias do mundo.

As três perguntas feitas a esses executivos foram: “O quanto é comum o desvio de fundos públicos para empresas ou grupos?”; “Como qualifica a ética dos políticos?”; e “O quanto é comum o suborno por parte das empresas?”. Em uma escala de um a sete, em que, quanto maior a nota, maior é a transparência, o Brasil recebeu 2,1, segundo análise publicada pela Business Insider. Em um estudo divulgado pela Transparência Internacional, no início do ano, o país ficou em 76º colocado em uma lista sobre a percepção de corrupção do mundo entre 168 países.
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Entre as 10 nações mais corruptas do ranking do Fórum Econômico Mundial, cinco são latino-americanas: Venezuela, à frente, com nota 1,7; Bolívia, com 2; Brasil e Paraguai, ambos com 2,1; e República Dominicana, com 2,2--, mas que não são membros da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), o think tank a cujo pertencimento define a fronteira entre os países industrializados ou não.

Um relatório do Fórum publicado em junho assinalava a corrupção como o maior problema que a América Latina precisa enfrentar, segundo seus líderes políticos e empresariais. Escândalos como o da Petrobras, no Brasil, as acusações contra a ex-presidenta da Argentina Cristina Kirchner e o suborno de que é acusado o ex-governante guatemalteco Otto Pérez-Molina mantiveram a região estagnada, nesse aspecto, em relação aos índices de 2014 e 2015.

O México aparece entre os primeiros lugares do mundo desenvolvido com o mais complexo e abrangente de seus problemas: a corrupção. O Fórum Econômico Mundial coloca o país como a décima-terceira nação mais corrupta do mundo. Mas, excluindo-se da lista os países menos industrializados, o México fica com a liderança. Segundo o Fórum, o fator que o eleva ao primeiro lugar é o crime organizado.

O caso do México, no entanto, parece ser o mais alarmante, por se tratar de uma economia mais avançada do que a dos demais países da região. No índice global de competitividade, ele ocupa o 51º lugar de um total de 138, tendo subido seis pontos graças a uma eficiência maior de seus mercados, e mantém uma longa série de fatores que assustam os investidores: a corrupção, o mais grave, é seguida pelo crime organizado e outros fatores administrativos como a ineficiência da burocracia e a política fiscal.

“A educação básica continua a ser uma fragilidade significativa para a sua competitividade se comparada a outros líderes regionais e mundiais, além do fato de que a qualidade institucional recuou. A economia mexicana foi atingida pela queda dos preços do petróleo, um comércio internacional fraco e a consequente queda na produção industrial”, assinala o Foro em seu texto sobre o México.

Náufragos na cidade

Gosto de tropeçar, lendo os jornais, num ou noutro minúsculo evento, que, embora possa parecer totalmente irrelevante para a mecânica geral do universo, me faz refletir. Foi o caso de uma breve nota sobre um sujeito, nos Estados Unidos, que ganha a vida passeando pessoas. Chuck McCarthy, na casa dos 30, é ator, ou gostaria de ser ator, mas raramente o chamam para trabalhar. Vendo pessoas a passear cães lembrou-se então de passear pessoas. “Uma maluquice”, pensou. Depois pensou melhor e foi à luta.

Deu certo. As grandes cidades são uma infinita coleção de solidões. Há mais variedades de solidões do que estilos de cerveja. Chuck conta que o procuram pessoas muito diversas. Algumas alugam-no por que se sentem mais seguras acompanhadas, sobretudo quando pretendem passear à noite. Outras gostam de ter um amigo, ainda que seja de aluguel, para mostrar aos vizinhos que não estão tão sozinhas quanto eles pensam. A solidão é uma doença inconfessável.

Recordei-me, lendo a história de Chuck, de um dos melhores contos de Gabriel García Márquez, intitulado “Me alugo para sonhar”. O escritor conta que, quando era jovem, conheceu em Viena, na Áustria, uma sonhadora profissional. A mulher, de origem colombiana, previa ocorrências em seus sonhos. Durante anos viveu (sonhando) para uma família austríaca. Márquez reencontrou-a décadas mais tarde, em Barcelona, e apresentou-a a Pablo Neruda. O poeta não a tomou a sério. No dia seguinte, porém, confessou ao amigo: “Sonhei com a mulher que sonha. Sonhei que ela sonhava comigo”. Márquez riu-se: “Isso é um conto de Borges”.

A autoironia justifica-se. “Me alugo para sonhar” deve ser o mais borgesiano de todos os contos de García Márquez. O conto discute a necessidade que quase todos sentimos de procurar na magia (qualquer forma de magia serve) algum conforto e segurança, mas também trata da solidão. Não se chega a perceber se a sonhadora recorria ao ardil dos sonhos premonitórios para conseguir cama, mesa e roupa lavada — se para conseguir o conforto de uma família.

Vivendo em grandes cidades, estamos cercados de náufragos, cada qual na sua ilha deserta. Dessas ilhas eles avistam o mundo; o mundo é que não os vê. Não conheço pior solidão.

Depois que, em 2012, publiquei “Teoria geral do esquecimento”, um romance sobre uma mulher, Ludovica, que se empareda no seu apartamento, cortando todos os laços com o mundo exterior, passei a receber cartas de pessoas que se reconhecem na personagem, ou que conheceram alguém em situação semelhante. Lembro-me da confissão de uma cubana que foi estudar em Bucareste, nos últimos anos do regime comunista. Aos 18 anos casou-se com um agente da polícia secreta. Meses depois, Nicolau Ceausescu era encostado a uma parede e fuzilado no pátio de um quartel. O agente da polícia secreta desapareceu em meio ao ruidoso tumulto daqueles dias e a jovem, aterrorizada, fechou-se em casa durante meses. “Eu fui a Ludovica!” — disse-me.

A verdade é que para escrever o meu romance me inspirei, em parte, num outro caso. A história do nacionalista e escritor angolano Adolfo Maria, que tendo sido um nome importante na luta contra o regime colonial português, fundou mais tarde uma corrente dissidente, a Revolta Ativa, cujos elementos foram presos ou obrigados a exilar-se logo após a independência. Adolfo Maria permaneceu na clandestinidade, escondido numa casa fechada, durante três anos. Num estado de solidão extrema, afirmou numa entrevista, a loucura está sempre a um braço de distância: “Vemos as paredes avançando sobre nós”. Adolfo combatia o isolamento praticando ioga e meditação. A solidão apurou-lhe a lucidez.

O que Chuck McCarthy faz podia chamar-se assistência a náufragos. Chuck acaba de inaugurar — suspeito — um ofício com imenso futuro. Talvez mesmo um amplo e revolucionário movimento social. Imagino que daqui a alguns anos as ruas das grandes cidades estejam cheias de passeadores, com os seus passeantes. Imagino os passeantes trocando impressões sobre os respectivos passeadores, enquanto recuperam o fôlego, por breves momentos, num banco de jardim:

— Como é o seu passeador?

— John?! Loquaz e divertido. Passe rápido. E o seu?

— Elegante, discreto e paciente. Na minha idade, você sabe, já não posso ter um passeador muito apressado.

Eventualmente, os passeantes começarão a prolongar esses momentos de pausa. Começarão a conversar mais uns com os outros do que com os passeadores. Começarão a passear uns com os outros. Descobrirão que é possível passear com outras pessoas sem pagar nada por isso — e então sim, teremos uma verdadeira revolução, e os passeadores perderão o emprego.

Ou talvez eu esteja sendo demasiado otimista. Por mais que me esforce resvalo sempre para o otimismo.

José Eduardo Agualusa

terça-feira, 4 de outubro de 2016

A volta da caretice

Fala-se muito em esquerda e direita, mas nos esquecemos da “caretice”. Para além das posições políticas, se instala agora no mundo uma espécie de paralisia mental, um medo do novo em meio a uma infinita tempestade de informações que a revolução digital despeja sobre nós. Essa convivência ambígua angustia as pessoas, e a tendência no ar é de um conformismo defensivo, uma recusa a uma escolha ideológica: é a caretice, o amor ao fixo, ao já conhecido.

Eu estava em Londres, em 1967, quando saiu o “Sgt. Pepper”, dos Beatles. Havia em King’s Road uma espécie de comício nos olhares, uma palavra de ordem flutuando no vento, “blowing in the wind”, como cantava Bob Dylan. O mundo careta tremia, ameaçado pelo perigo do comunismo e pela descrença alegre que os hippies traziam.

A revolta da caretice começou nos anos 80. Seu prenúncio foi a morte de John Lennon, assassinado por um psicopata. Foi o sintoma inicial.

Depois, nos anos 90, com o fim da Guerra Fria, pareceu-nos que os Estados Unidos iam derramar pelo mundo seu melhor lado: a democracia liberal – pois achávamos que a liberdade era inevitável, quase uma necessidade de mercado. Com o fim espantosamente súbito da União Soviética e com a chegada de Bill Clinton ao poder, tivemos realmente uma década de modernização e de entusiasmo com o futuro. Mas essa alegria se esvaiu aos poucos – os efeitos colaterais do fim da Guerra Fria estavam só começando, como, por exemplo, o advento terrorista.

Com a chegada dos republicanos ao poder com Bush, a caretice internacional se revigorou. Essa máfia de psicopatas queria se vingar do desprezo que sofreram nos anos 60, se vingar do vexame de Nixon e Watergate, se vingar dos Beatles, dos Rolling Stones, dos negros, da liberdade sexual que sempre odiaram. Imaginem Bush, Karl Rove ou Rumsfeld diante de um Picasso, ouvindo “free jazz”. Eles nos deixaram a “herança maldita”: o mercado global insensato, a destruição do Iraque, o Afeganistão, o Ocidente como cão infiel do Oriente.

Hoje, a política mundial virou um balé impotente, com a razão humilhada e ofendida, para desespero dos que acreditavam num futuro iluminado. Em um primeiro momento, isso nos dá o pavor do descontrole racional sobre o mundo: “Ah... que horror... O humano está se extinguindo, a grande narrativa, o sentido geral das coisas...”

Painting by Vladimir Kush Surrealist Artist
Vladimir Kush
Está se formando uma nova vida social, sem finalidade; no entanto, isso poderá ser muito interessante em sua estranheza. A velha ideia de harmonização da vida, uma visão abrangente do mundo, ficou impossível. O mundo se fragmentou em arquipélagos. Tudo se passará aqui e agora, sempre. Há um enorme presente. O passado será chamado de “depreciação”. É tudo muito novo, tudo muito gelatinoso ainda, com a morte das certezas totalitárias ou individualistas. Configurou-se o vazio do “sujeito”, enquanto descobrimos nossa dolorosa finitude que sempre tentamos esquecer. Mas o que será considerado importante? Será que houve a morte da “importância”? Ou ela seria justamente esta explosão de conteúdos e autores? O “importante” seria agora o quantitativo? Não sei; mas, se tudo é “importante”, nada o é. No entanto, a grande perda de sentido pode ser “revolucionária”.

Nunca tivemos tantos criadores, tanta produção cultural enchendo nossos olhos e ouvidos com uma euforia medíocre, mas autêntica. Há uma grande vitalidade neste cafajestismo poético, enchendo a web de grafites delirantes. Talvez esse excesso de “irrelevâncias” esteja produzindo um acervo de conceitos “relevantes”, ainda despercebidos. Talvez esteja se formando uma nova força vital, uma nova produção de subjetividade, um agente formador de crescimento no mundo que ainda não está claro. Não sei em que isso vai dar, mas o tal futuro chegou; grosso, mas chegou.

A rapidez dessas mutações nos dá frio no estômago, mas a vida mesma dará um jeito de prevalecer, e talvez esse atual fantasma que assombra os metafísicos esteja nos libertando de antigos “sentidos” tirânicos, trazendo uma nova forma de aventura existencial e social, justamente por causa da desorganização da “ideia única”. Sistemas éticos ou racionais surgirão dos microchips, da tecnologia molecular, e não o contrário. Esta é a caricatura: as orelhas vão tender para celulares; os olhos, para telas de cristal líquido; e os cérebros, para chips com bilhões de gigabytes, todos feitos no Silicon Valley.

A descrença na política aumentou, as religiões estão florescendo, e o irracionalismo (mesmo disfarçado de sensatez) resistirá bravamente; mas talvez os avanços científicos possam um dia dissolver os fanatismos e as massas submissas a deuses. Sempre haverá o desumano; o pós-humano existirá? Creio que o humano vai prevalecer sempre, para além de uma ficção científica metafísica.

Os jovens de hoje querem alcançar uma forma de identidade alternativa e não almejam mais o “Poder” que está em mil pedaços. Há uma aceitação do mundo como algo irremediável, mas sem conformismo. Antes, lutávamos contra uma realidade complexa, sonhando com utopias totalizantes. Era o “uno” contra o “múltiplo”. Hoje, é o contrário; a luta é para dissolver, não para unir; luta-se para defender o vazio, o ócio possível, luta-se para proteger o “inútil” da arte, o que não seja “mercável”.

Desunificando-se em forma de uma grande esponja, em vazios, em avessos, em buracos brancos que vão se alargando à medida que a ideia do tecido da sociedade “como um todo” se esgarça. Não há mais “células de resistência”; apenas “buracos de desistência”. Agora, os novos combatentes não sonham com o absoluto; sonham com o relativo. E isso pode ser o novo rosto da humanidade se formando. Desculpem o “papo cabeça”, mas creio que um tempo diferente de tudo que conhecemos já começou. Intelectuais deliram com o tempo pós-humano. Mas a própria ideia de “pós” já é antiga. De qualquer forma, talvez o tal “pós-humano” seja interessantíssimo, até divertido. Será que vamos viver dentro de um vídeogame planetário? Não sei... Mas é mais estimulante do que o melancólico lamento pela razão que não chega nunca...

É preciso reorganizar o Estado, mas ninguém se interessa pelo assunto

Trata-se de um assunto tabu, no qual não se fala no Congresso e a mídia finge desconhecer – mas é absolutamente necessário reconstruir o Estado e, por consequência, o serviço público. Quando os parlamentares federais aumentam seus salários, provocam reajustes nas Assembleias e Câmaras de Vereadores. A mesma situação acontece no Judiciário e no Executivo, porque no serviço público, por decisão dos próprios funcionários/sindicatos, tudo foi feito para “unificar reajustes”, e os três poderes disputam entre si essas vantagens, nos salários e nos penduricalhos.

Bancos em greve (públicos e privados), INSS, Correios, Receita e outras categorias, todos os anos com campanhas salariais, movimentos e paralisações. Buscam defender seus direitos e, para obtê-los, usam a sociedade que lhes paga .

Acho graça quando um ministro do Supremo, ao invés de dar sua opinião, se “encosta” na tese de uma colega que, por tempo determinado, será presidente da mais alta corte. Todos se defendem, é impressionante, ao invés de defender os interesses da nação.


É preciso que a sociedade se organize para reconstruir o Estado e cobrar, de todos aqueles cujos salários são pagos por ela, os serviços que devem oferecer como contratados. Então veremos o que irá acontecendo daqui alguns dias. E não precisarão ser muito dias.

Perdoem ser tão insistente e pragmático. Depois de algumas décadas, nas quais os negócios mais escusos tomaram conta de todos os partidos – e são todos mesmo, se salvam só os “vencidos no tempo” e os desligados, é preciso mudar de rumo.

Campanhas eleitorais, regadas com recursos espúrios, aceitemos ou não, irrigaram os mandatos da imensa maioria dos eleitos nos executivos e nos legislativos. Como um câncer incurável, generalizou por todo o sistema.

Infelizmente, os órgãos ainda sadios não estão conseguindo manter o Brasil em condições saudáveis e sustentáveis, a não ser monitorado por aparelhos. Portanto, é preciso mudar tudo, para reverter a insanidade e irresponsabilidade que hoje contaminam os brasileiros.

Apenas como exemplo, tentem analisar a última campanha eleitoral. Os candidatos ou mentem ou são idiotas mesmo. E os eleitores, com certeza, na imensa maioria, são idiotas de fato.

Se um dia já tivemos um Estado brasileiro minimamente organizado, está na hora de reorganizá-lo. Mas, se nunca foi organizado, está na hora de refazê-lo. Se continuarmos afundando como nos dias atuais, só conseguiremos chegar ao fundo do fundo do poço!

Nosso maior problema é encontrar quem se disponha a colocar isso em ordem.

Piano brasileiro

O que o futuro reserva ao PT

O “nós contra eles”, que tanto marcou o discurso do PT nos últimos 14 anos e dividiu a opinião pública brasileira, está com seus dias contados a levar-se em conta o resultado da primeira fase das eleições municipais deste ano. Ao PT deixará de interessar. E também aos que sempre se opuseram ao PT por divergir ideologicamente dele e temê-lo.

Funcionou para o PT enquanto ele foi majoritário no campo da centro-esquerda e controlou o governo federal, fonte em grande parte de sua vitalidade. De certa forma funcionou também para os adversários do PT, empenhados em arrebanhar forças capazes de desalojá-lo do poder. Uma vez que os dois objetivos se esgotaram, perdeu o sentido.

O resultado do primeiro turno da eleição do último domingo mostrou que o PT desceu a ladeira para um dos níveis mais baixos que já ocupou. O partido quase foi dizimado. Não conseguiu eleger prefeitos sequer na metade dos municípios que dominava. Elegeu um único de capital (Rio Branco). Disputará em uma única capital o segundo turno (Recife).


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Nove partidos elegeram mais prefeitos do que o PT – entre eles, até o DEM, que parecia ameaçado de extinção. O PSB, partido de médio porte e antigo parceiro do PT, elegeu mais prefeitos do que ele. Partidos que sempre estiveram na órbita do PT afastaram-se dela e preferiram ir cuidar de sua própria sobrevivência.

Enfraquecido em baixo, não tem o PT como fortalecer-se em cima. Isso restará provado em 2018 quando ele disputar as próximas eleições gerais, de presidente da República, governadores, assembleias e Congresso. Desde já, o PT admite apoiar o candidato a presidente de outro partido. Dificilmente contará com Lula. E, sem ele, não terá outro nome viável.

Ou o PT se isola, correndo o sério risco de virar uma legenda de gueto, ou modestamente, e abdicando do protagonismo, tenta se juntar com os partidos que ainda aceitam sua companhia. O “nós contra eles” em nada o ajudará. Só lhe restará o esforço desesperado para ampliar o “nós” sem desprezar necessariamente o “eles”.

Não será uma tarefa fácil. Para executá-la com êxito, o PT será obrigado a reconhecer seus erros, a refletir sobre eles, a mudar de comportamento, a reconciliar-se com valores que desprezou, a renovar-se enfim, e a ter paciência. Muita paciência. Recuperar-se de queda é mais difícil do que ascender. Em menos de 40 anos, o PT subiu e afundou.

Quando Getúlio Vargas, em 1950, voltou ao poder como presidente eleito e não mais como ditador, os partidos que o apoiaram, PTB e PSD os maiores deles, pareciam destinados a ter vida longa. O PTB ainda existe agora sob a direção de Roberto Jefferson. Gilberto Kassab preside um PSD que nada tem a ver com o PSD original.

A UDN que se opunha a Getúlio desapareceu. Assim como desapareceu o Partido Comunista italiano, o mais poderoso do mundo ocidental nos anos 70 do século passado. O Partido Comunista português ainda existe, mas não passa de uma pálida sombra do que foi um dia.

Esquerda, direita e vice-versa

Está aberto um novo ciclo político em Portugal. Como já houve noutros tempos, de má memória, antes e depois do 25 de Abril. São tempos de fanatismo. De exclusão. De afrontamento sem tréguas. São tempos de esquerda contra a direita, que geram tempos de direita contra a esquerda. Há quem goste. Há quem considere que essa é a grande política, o regresso da política e outras banalidades. Mas sabemos que não é verdade. Com o país assim dividido, perdem-se meios de ação e oportunidades de compromisso e de cooperação.

Há com certeza esquerda e direita. Em muitas coisas, são diversos e querem coisas diferentes. Mas há muito mais. O país e a política não se resumem a isso. Há a cultura, a nação, a religião, a etnia, a região, a idade, a arte, a ciência, o trabalho, o desporto, o amor, boa parte da economia, a educação, a saúde, o património e muito mais onde esquerda e direita não têm qualquer espécie de importância, podem até ser nefastos.

O que nestes tempos de fanatismo marca a diferença entre esquerda e direita é o autor. O que a direita faz é de direita. O que a esquerda faz, de esquerda é. A autoria marca o conteúdo, não o contrário. É o estilo dos déspotas.

A mesma coisa, feita por alguém de esquerda ou de direita, é de esquerda ou de direita. Austeridade, poupança, frugalidade ou rigor: se os responsáveis forem de esquerda, é de esquerda. Se forem de direita, é de direita. Medidas da responsabilidade de partidos da direita são fogo para a esquerda, devem ser condenadas e consideradas roubo. Se postas em prática por gente de esquerda, são detestáveis para a direita e consideradas assalto.

Diminuição das garantias, redução das liberdades individuais, restrição de direitos, violação do segredo bancário e do sigilo de correspondência: estes gestos têm duas interpretações. Feitos pela esquerda, de esquerda são, festejados pelas esquerdas e repudiados pelas direitas. Feitos pelas direitas, de direita são, aplaudidos pelas direitas e vilipendiados pelas esquerdas. Gastos com a defesa, despesa com a segurança e equipamentos para as polícias: conforme o governo, assim estes orçamentos serão de esquerda ou de direita, apoiados pela tribo apoiante, condenados pela tribo oposta.

Negócios com capitalistas, entendimentos com multinacionais, favores a empreiteiros, incentivos a investidores, projetos de equipamento e parcerias: são empreendimentos de esquerda ou de direita, conforme os governos que as fazem, não conforme os méritos da obra.

Corrupção, crime e delinquência: é muito fácil, perante uma qualquer destas realidades, verificar que esquerdas e direitas se comportam de modo simétrico. Simpatizam, toleram ou condenam consoante o autor. As políticas e as medidas contra o terrorismo e a violência têm o mesmo destino: se vierem da esquerda, são de esquerda, aplaudidas pela esquerda e condenadas pela direita. Se vierem da direita, são de direita, festejadas pela direita e opostas pela esquerda.


Quase já não há matérias em que a esquerda e a direita democráticas sejam capazes de, sem trauma, estar de acordo. Quase já não há valores comuns. Com esta divisão exclusiva, toda a esquerda deixa de ser democrática para a direita e vice-versa. Nos debates parlamentares, já se fala de esquerda e de direita como se fossem pestes ou pragas sem salvação.

É natural que haja “paz social”, isto é, ausência de greves, enquanto os sindicatos de esquerda tenham acesso ao poder e os partidos de esquerda possam frequentar os corredores do governo. Também é natural que haja “clima optimista” para os negócios, enquanto os patrões tenham fácil contato com os governantes e os partidos da direita sejam bem-vindos nas antecâmaras dos ministérios. Tudo isso é natural e faz parte do jogo político. Infelizmente.

Um recado das urnas

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Arrisca-se ao papel de tolo quem quiser ver nos resultados de domingo a morte da política. Abatidos nas urnas foram o voto obrigatório e a fragmentação partidária. Generosos, como sempre, os eleitores deram ao Congresso uma nova chance para mudanças

O naufrágio do PT e a necessidade da reforma política

A história da humanidade tem naufrágios que ultrapassaram os tempos, como o do cônsul Pompeu voltando da África para Roma. No Brasil a Bahia nasceu do naufrágio do valente aventureiro Caramuru. Perdemos o bispo Sardinha nas costas do nordeste. E na história universal o Titanic, o supernavio afundado. Nesta semana mais um naufrágio veio para carimbar a história da política brasileira. Depois de 30 anos de belas vitórias, muitas loucuras, falcatruas e numerosas prisões, o PT naufragou de norte a sul do país. Não sobrou nenhuma liderança.

Lula está lá em São Bernardo escondendo-se da Polícia Federal. Dilma não quer ficar em Porto Alegre, mas fora de lá não tem onde se esconder. José Dirceu, Palocci, Vaccari, não podem atender o telefone. Preso não atende telefone. Não sobrou ninguém. Nem o talentoso ex-ministro Tarso Genro, porque ninguém quer papo com ele.

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Perder São Paulo já seria uma derrota dolorosa, mas compreensível. O que é inexplicável é o PT, depois de tantos mandatos, ser escorraçado da capital, sem conseguir sequer chegar a um segundo turno. Nem isso. Foi derrotado, humilhado e ofendido.

Com exceção do distante, minúsculo e boliviano Acre, em todos os estados onde tentou disputar alguma coisa foi varrido pelos eleitores. Não se salvaram nem o Rio Grande do Sul onde já teve berço e cama. Nem o ABC paulista com seus numerosos sindicatos e alguns outrora poderosos diretórios políticos e sequer no Nordeste que já foi um dia proclamado como território sagrado do partido. De tanto esconder-se, dele os eleitores e as urnas se esconderam. Como a Itabira do poeta, o PT ficou reduzido a um retrato na parede. Mas como dói.

Algum tempo vai ser preciso, mas logo logo o país sentirá o alívio que foi o sumiço do PT. Chegará ao fim a ladainha escondida atrás de discursos demagógicos, explorando a ingenuidade popular. Nunca mais ninguém dirá que nunca antes na história deste país houve alguém como ele ou que é mais honesto do que Jesus Cristo.

Parece pressa, mas chegou a hora. O Congresso tem o dever de começar uma reforma política para ficar pronta antes de 2018. Houve avanços, mas ainda são poucos. Acabar com o financiamento empresarial das eleições foi um salto. Mas não basta. É preciso regulamentar o financiamento individual para que espertos não finjam estar dando dinheiro que é dele quando não é.

Muita coisa há para reformular. Por exemplo: por que não começar a discutir um sistema parlamentarista que seja integral ou ao menos um que seja misto? O país está maduro para esta reforma. Mais urgente ainda é acabar com o vergonhoso carnaval dos partidos. Cinquenta partidos (funcionando ou a funcionar) tornam a democracia um fantoche. Eles passam a ser fundados ou a existirem apenas em função da teta gorda do Fundo Partidário e dos negociáveis tempos de TV e de rádio.

Mais de 10 partidos já seriam um exagero, e 50? Tornam-se um sórdido balcão de negócios. É claro que essas coisas não se implantam do dia para a noite. Mas na hora em que algumas dezenas de parlamentares sérios, que existem no Congresso, se dispuserem a preparar um projeto de cláusula de barreira, como existe em todas as democracias, a pressão da opinião pública virá irresistível. É preciso querer e fazer.

O excelente deputado Miro Teixeira tem tempo, independência e autoridade para começar esta batalha.

A escravidão também jamais iria acabar. Mas um dia acabou.

O fecho do feixe

There’s a lover in the story, but the story’s still the same / There’s a lullaby for suffering and a paradox to blame / But it’s written in the scriptures and it’s not some idle claim / You want it darker / We kill the flame 
Leonard Cohen (“You want it darker”)

Ontem fiquei doente. No cinzento domingão da eleição, fiquei me contorcendo na cama, somente com um breve intervalo para votar. O motivo, no entanto, estava longe de ser ideológico. Na noite anterior, após uma bebedeira com um amigo a que não via há tempos, comi algo que não desceu bem. A conclusão desta mistura de elementos, álcool e alimentação ruim, foi uma longa e dolorosa ressaca. Voltando à política, relembro minha agonia física e surge-me à mente o seguinte questionamento: em matéria de representatividade, o que o brasileiro vem consumindo? O que temos digerido seria fruto de um processo às pressas e atraente na superfície, ou um cozido mais perverso, como aqueles que escolhem o veneno para temperar sua fatal refeição?

Li há pouco um interessantíssimo comentário do tradutor e poeta Guilherme Gontijo Flores, autor dos belíssimos e mordazes livros “Brasa enganosa” e “L’azurblasé”. Ele elenca exemplos de situações típicas de novela, como José Mayer e Vera Fischer divididos em suas agonias de membros da elite, alienados sem culpa do mundo em míseras preocupações sexuais. Prosseguem mais duas cenas de teledramaturgia, em que personagens negros e LGBT são tolerados na condição de figuras arquetípicas, em um pastiche sórdido que justificaria uma incapacidade de ascensão social. Finaliza com uma descrição bem real de eleitores abastados vibrando com a vitória de colegas do country ganhando prefeituras em capitais estaduais. “Nossa narrativa é toda aristotélica: sofremos a tragédia dos ricos e rimos dos pobres que nós mesmos somos. Na hora de votar, como povo, escolhemos a figura com que nos identificamos”, afirma o escritor.

Alienação da TV:

Torna-se uma reflexão mais intrigante perante os eventos que cercearam o país nos últimos anos. Concorde-se ou não com suas motivações, as alterações no cenário político criaram uma impressão de tábula rasa. O próximo passo está para ser escrito e é imprevisível. Será? O sistema seria um mecanismo que trava, mas, eventualmente, retoma seu funcionamento e engole aquilo que o engasgou como uma planta carnívora? Ou, como integrados, sua operação pode alterada por dentro? Nesta dicotomia, as duas maiores capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, simbolizam que não há resposta fácil. A culpa é da hubris dos deuses ou da ousadia dos mortais? Em todo caso, estaremos condenados a um destino predeterminado ou poderemos sair da caverna para além das sombras?

As eleições paulistana e carioca demonstram a rejeição aos governos anteriores. Mas este é o efeito, o fim de uma tragicomédia talvez anunciada. Enquanto um município fez uma opção clara pelo conservadorismo, outro encontra-se dividido pela indefinição de qual modelo seguirá, desde que não fosse o anterior. É infeliz constatar isso, mas, em um país em um a cada três de seus habitantes culpa a mulher em caso de estupro, não foi a conduta agressiva que tirou o candidato oficial da jogada. Vale mencionar que o vereador mais votado na cidade maravilhosa é membro de uma família ligada à extrema-direita. Seu pai, que todos sabem quem é, alcançou o mesmo resultado há dois anos quando se elegeu deputado federal. Logo, Rio de Janeiro progressista? Menos, queridos. Bem menos…

Como Leonard Cohen profetiza em sua voz cavernosa, há uma canção de ninar para o sofrimento e um paradoxo a ser responsabilizado. A história é a mesma. Os personagens farão aquilo que esperamos deles, enquanto dermos a audiência. Não é somente a mídia que produz monstros. Apenas exteriorizam e trabalham estes sentimentos presentes dentro de nós num pacote atraente, previsível e brega. Champanhe com gosto de guaraná aguado, enfim. Parece bom à vista, mas causa um piriri… À medida que analisarmos aquilo pelo que desejamos ser, e não por que é, veremos tudo escuro e nossos estômagos se contorceram. Abrir os olhos dói, como aceitar sua própria tragédia. Se o prato enjoou, não basta esperar uma nova receita. Você é o que come. É preciso arregaçar as mangas e fazer você mesmo, supervisionar o preparo, garantir a qualidade do que pediu. É menos utópico que muita dieta. Palavra de quem perdeu 15 kg nos últimos meses.

Daniel Russell Ribas

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Parque Nacional de Plitvice, na Croácia

Abstenção não revela crise de representatividade porcaria nenhuma!

“Devo registrar uma preocupação: acabei de verificar um número imenso de abstenções, votos em branco e nulos , o que revela o que ouso dizer ‘a indispensável necessidade’ de uma reforma política do país, algo que penso que o Congresso Nacional deva cuidar com muita propriedade.”
A fala acima é do presidente Michel Temer ao chegar ao Paraguai nesta segunda para sua primeira visita bilateral. Está acompanhado dos ministros José Serra (Relações Exteriores), Raul Jungmann (Defesa), Alexandre de Moraes (Justiça) e Marcos Pereira (Desenvolvimento, Indústria e Comércio). Parlamentares também acompanharam a comitiva da viagem, que começou pela Argentina. O presidente já está de volta.

Vamos lá. Eu sempre tenho receio quando se fala em reforma política sem que se diga o que se quer. Temo ou pelo amor ao perfunctório ou pelas atitudes desastradas. A barbaridade da proibição da doação de empresas a campanhas decorre, de fato, uma decisão do Supremo, mas é bom lembrar que a ideia prosperou, sim, no Congresso à esteira do moralismo burro que alguns tentaram colar à lava-jato. Esse moralismo boçal é sempre o túmulo da moral. Faz muito barulho e não serve pra nada. Obtém sempre resultados contrários àquilo que diz pretender.

Muito bem! As abstenções, votos nulos e votos brancos, quando somados, apontam para um número elevado, sim. Eu quero fazer reforma política, já disse. Acho que é preciso implementar o parlamentarismo com voto distrital. Mas eu quero mais: também reivindico o voto facultativo. Se votar é um direito que tenho, não posso ser punido se não exercê-lo. Isso é uma estupidez. O voto obrigatório numa sociedade democrática é uma excrescência.

Por que digo isso? A abstenção nunca foi tão alta? Pois é…Não obstante, o país nunca foi tão democrático. Como é que ficamos, então? Eu quero fazer uma reforma política, sim, mas não é para levar nem mais nem menos pessoas paras as urnas. Eu a defendo porque considero que o parlamentarismo com voto distrital cria melhores condições de o cidadão vigiar o poder e porque o modelo pode nos proteger contra crises. Ou melhor: um governo inepto ou ladravaz pode cair sem ameaça de crise institucional.

No tempo da ditadura, os eleitores compareciam quase religiosamente para votar — menos para prefeitos de capitais, governadores e presidente —, e, no entanto, por óbvio, a democracia não vivia crise nenhuma porque democracia não havia. Acho que Temer falou aquilo que sabia que queriam ouvir. Imaginem se ele diz: “Ah, esse negócio de abstenção não tem a menor importância”.

Então ficamos assim: a reforma política é, sim, importantíssima, mas não porque o poder enfrenta uma crise inédita de legitimidade como se diz por aí. Precisamos mudar porque o que temos é ineficiente. E eu insisto que uma reforma decente tem de contemplar o voto facultativo. E a abstenção será certamente maior do que hoje.

O digníssimo cidadão tem o direito de não querer participar da escolha desde que não reivindique o direito de desrespeitar a lei.

Simples.

O resto é papo de direitista autoritário, de esquerdista autoritário e de otário autoritário, uma categoria crescente e barulhenta.

Presidente Temer, tome a iniciativa de reunir os líderes políticos para tratar do parlamentarismo. Não seja apenas mais um cronista nesse debate. Já os temos em excesso.

Depois da surra, tudo é velório para o petismo

Desde que trocou o tino político pelos confortos de sua ex-presidência, Lula passou a ser movido por uma desastrosa autoconfiança. Na véspera da eleição, ele fez a defesa inconsciente do voto útil. Parecia decidido a convencer o eleitor a tomar qualquer decisão, desde que desse uma surra no PT. Lula foi a um comício do candidato petista à prefeitura de São Bernardo do Campo. E declarou o seguinte:

Carpideiras:
“Você que ouviu tantas vezes nos últimos anos a Rede Globo de Televisão agredir o PT, a imprensa criminalizar o PT, eu queria fazer um apelo pra vocês, homens de bem, mulheres de bem, trabalhadores e trabalhadoras: amanhã, na hora de votar, é importante vocês saberem que urna não é lugar pra depositar ódio ou preconceito. Urna é lugar pra depositar esperanças e sonhos…”

O contrário do antipetismo que Lula supõe existir no noticiário é o pró-petismo reivindicado por ele —um sentimento inocente, que aceita todas as presunções do PT a seu próprio respeito. Isso inclui concordar com a tese segundo a qual os petistas têm uma missão especial no mundo, de inspiração divina e, portanto, inquestionável.

Como qualquer religião, o petismo pode cultivar seus dogmas. Mas o desembaraço autocrático de Lula tem limites. Discurso que agride a realidade, trata a plateia como imbecil. E se a surra de domingo ensinou alguma coisa é que o brasileiro já não está disposto a avalizar a pretensão petista de ser uma potência ética, que só deve contas à sua própria noção de superioridade e ao seu destino evangelizador.

À beira da urna, Lula escancarou a impostura. Alguém que acaba de se transformar em réu por corrupção e lavagem de dinheiro, depois de 13 anos em que o Estado foi saqueado pelo seu partido e pelos esquemas que o acompanharam no poder, e ainda consegue ostentar a pose de vítima da imprensa ou é um cínico ou é um distraído. Em nenhum dos casos é um líder político que mereça respeito.

A declaração de Lula —“Urna não é lugar pra depositar ódio ou preconceito. Urna é lugar pra depositar esperanças e sonhos”— talvez seja citada no futuro como um resumo da ópera petista, como uma apoteose da incapacidade do PT de compreender o vexame em que se converteu. A reação das urnas foi compatível com a dimensão da ofensa.

Em certos momentos, o desalento pode ser justificável. O que ninguém aguenta mais é a esperança sem causa. O eleitorado ensinou a Lula que urna é lugar para depositar consciência. No Brasil, a eleição é loteria sem prêmio, é a ilusão de que é possível começar tudo de novo, do zero, para ver se finalmente dá certo. O voto vem se revelando um equívoco renovado a cada quatro anos. O eleitor pelo menos decidiu cometer erros novos.

Depois da surra de domingo, tudo é velório para o petismo. Aquele partido imaculado de outrora cometeu suicídio. O cadáver do ex-PT pode inspirar o surgimento de outro PT. Mas isso depende da disposição de Lula e de seus discípulos de protagonizar um gesto de contrição.

Uma expiação mais rápida teria feito bem ao PT. Mas o partido ainda não se deu conta de que o arrependimento é a última serventia do crime. A julgar pelo silêncio pós-eleitoral de Lula e do resto da seita, o PT talvez só descubra os prazeres do remorso depois que a autocrítica não adiantar mais nada.

Em tempo de indigência...

Nenhuma relação existe entre a minha profissão e os versos que faço. E não é esse o mal. O mal está no carácter desapaixonado, frio, mecânico do trabalho; na ausência de uma participação da inteligência e da sensibilidade na maioria das atividades profissionais; na servidão implacável do homem instalada no próprio cerne de uma civilização que se propõe, justamente, abolir a servidão. O mal é a ausência do homem. "O deserto cresce", dizia Nietzche. O deserto não cessa de crescer. 

One Size | Edgy art. Men if you happen to order one, please get the one which has a six pack.: Numa sociedade alienada até à medula, como a nossa, só a vagabundagem tem a força e o prestígio de um destino; mas vagabundo parece que não chega a ser profissão, salvo quando se tem conta farta no banco. Como não é o meu caso, e a poesia não dá para pagar o almoço, o jantar, e outra vez, e outra vez, até ao fim do mundo, parece não haver saída. 

Enquanto se não descobrir como há-de viver o poeta sem comer, não haverá solução para estas cigarras que persistem em sonhar alegria até ao seio da morte. A não ser que se ponha em prática o que Platão já aconselhava na República: desterrá-los, simplesmente. "Para que poetas em tempos de indigência?"
Eugénio de Andrade, "Rosto Precário"

País sem líderes


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É estranho que uma Nação com 206 milhões de habitantes, 31 anos de uma democracia que suportou bem dois processos de impeachment do presidente da República, 35 partidos políticos registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), liberdade absoluta de opinião política e eleições a cada dois anos encontre dificuldades para construir novos líderes políticos. Mas essa é a realidade brasileira. Não há como fugir dela
João Domingos

Sic transit gloria PT

A expressão “sic transit gloria mundi”, atribuída ao monge agostiniano Tomás de Kempis (1418), cai como uma luva para a atual situação do PT. A se confirmarem as pesquisas de intenção de voto, o Partido dos Trabalhadores será varrido do mapa de todas as capitais brasileiras, exceção de Rio Branco, no Acre.

Segundo o Google, a frase era utilizada no ritual das cerimônias de coroação papal até 1963, quando o mestre de cerimônias, de joelhos diante do papa, dizia três vezes e em voz alta: “Pater Sancte, sic transit gloria mundi”. Estas palavras dirigidas ao papa, serviam como lembrete da natureza transitória das honras terrenas

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O PT, que imaginava que ouviria do povo brasileiro na sua “inexorável” vitória em 2018 “Pater Sancte Lula, sic transit gloria mundi”, não acreditou nesta sábia expressão. Pensou que, uma vez tendo atingido o poder, jamais seria dele apeado. E que seu líder seria entronizado e mandaria para sempre.

Não é o que está acontecendo.

Presidanta impedida, muitos dos seus amigos e correligionários presos ou acusados de corrupção, a principal figura do partido, Luis Inácio Lula da Silva, o mesmo do tríplex no Guarujá e do sítio de Atibaia e que já é réu de dois processos, viu desmoronar o seu castelo de cartas. Haja vista o que aconteceu em Campinas, quando menos de 1.000 pessoas comparecerem ao seu ato de apoio ao candidato Marcio Poshmann, que muito provavelmente perderá para Jonas Donizete.

Marcio Poshmann é uma exceção, já que os candidatos do PT noutras capitais fogem de seus símbolos máximos como o diabo foge da cruz, tentando tapar o sol com a peneira e cuspindo no prato que comeram.

A ex-presidente Dilma foi ao Rio apoiar sua amiga Jandira Feghali e o que aconteceu? A candidata do PCdoB viu seus índices de preferência afundarem ainda mais. Jandira, que faz parte da tropa de choque da Dilma no Senado junto com Gleisi Hoffmann, que também é ré, e Lindbergh Farias, ainda por cima é mal educada. Em pleno debate proporcionado de graça pela TV Globo, acusou a emissora de ter “apoiado o golpe contra a democracia e contra uma mulher eleita”. Uma grosseria sem tamanho, própria de uma pessoa radical que tendo perdido a sua causa perde também a compostura. Vai afundar ainda mais.

Em São Paulo não se viu o Lula participando de comícios em favor do seu poste Fernando Haddad, que está em vias de perder o importante reduto petista para o PSDB e correndo o risco de não ir nem mesmo para o segundo turno. Corre risco idêntico o candidato Celso Russomano, já que um vídeo no qual ele aparece dando apoio incondicional a Dilma em 2014 está bombando na internet.

Em Belo Horizonte, forte reduto petista, o candidato do PT tinha até quinta feira míseros 4% de intenção de voto.

Na minha terra, Porto Alegre, Raul Pont amarga um distante segundo lugar para Sebastião Melo (PMDB), e mesmo assim embolado com o brilhante deputado Nelson Marchezan Júnior (PSDB).

E assim vai pelo Brasil afora.

Talvez o melhor subproduto das eleições municipais de hoje seja o fim do PT. Os ideólogos do partido que diziam que o futuro da agremiação estaria intrinsecamente ligado ao sucesso do segundo mandato de Dilma tinham razão. O fracasso subiu-lhes à cabeça.

O próprio Lula disse recentemente que “não tem 2018 se a gente não tiver 2016”. Tomara que ele esteja certo,

Tarso Genro, um dos mais prestigiado quadros petista, que perdeu a reeleição para o governo do Rio Grande do Sul em 2014, vaticinou que o PT só sobreviveria se se reinventasse. Esta reinvenção poderia até mesmo contemplar a mudança de nome do partido, deletando a sigla de duas letras do cenário político nacional.

O povo não vai esquecer dos desmandos da administração petista que jogaram o país na maior crise da sua história. Uma crise não só econômica, mas uma crise moral e ética sem precedentes, talvez com efeitos mais devastadores sobre a sociedade do que qualquer outra.

Estamos assistindo o ocaso de uma era que gostaríamos de esquecer.

Há um consenso entre analistas políticos que as revelações da justiça sobre o papel de liderança de Lula no esquema criminoso operado pelo Partido dos Trabalhadores serviram para demolir não só a base do partido como também a figura do ex-presidente, cujo peso eleitoral está virando pó.

Talvez ele agora, dentro da sua conhecida soberba, possa ter a humildade de reconhecer como é fugaz a glória do mundo.

Ele e seu partido, que está caindo aos pedaços, vítima de seus próprios erros e condenado pelas urnas.

Que o PT descanse em paz.

Faveco Corrêa

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

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O Estado e seus cidadãos

Nos trópicos, historia sempre se repete. Nunca como farsa. Sempre como tragédia. Esperada, previsível, ciclicamente. Mas sempre trágica.

Ao que falte esperança ou vontade. Ao sim, ano não, os votos caem no fundo da urna a já grávidos do desejo de dias melhores. Às vezes a esperança até supera o medo. Mas logo depois, degenera em desastre.

Falta saúde, segurança, transporte, educação, justiça (e acesso a ela), saneamento básico. E muito mais. Pensando bem, falta quase tudo. Precisa-se do Estado. Urgentemente. Mas ele não comparece. Não funciona. Não vem.

Mas os governos não parecem funcionar. Quase sempre. Prometem com pontualidade e faltam com precisão. Emperram o Estado. Corroem e corrompem os serviços. E cobram impostos. Muitos.

A presença do Estado é imperativa, urgente, desesperadamente necessária. Ruas seguras, casas sem grades, bons hospitais, escolas descentes, justiça acessível. Precisa-se do Estado presente, ativo, competente, eficiente. Cidadania, enfim. Tudo é urgente. Mas não há.

BY PAWEL  KUCZYNSKI...........SOURCE BESTCARTOONS.NET..............:
Nos trópicos, a única coisa pior do que a ausência do Estado talvez seja o encontro com ele. É no encontro com o Estado que a realidade esmaga a esperança. Os serviços não funcionam. O Estado não está a serviço do cidadão. Criou vida própria. Concentra energias em manter estatais e monopólios desnecessários. E nega atenção onde é vital. Virou máquina de comer imposto e produzir indiferença. É traumático.

Nada pior que precisa do Estado tropical. Temerário colocar o destino em suas mãos. Vai faltar frequentemente. É injusto. E não dá ao cidadão, acesso a recursos para corrigir injustiças. Cidadania não é prioridade. Não está sequer no radar.

Mas os trópicos gostam de jeitinho. E, ao invés de consertar o Estado, adota paliativos. Loteiam territórios. Constroem muros. Compram grades. Assistem a degradação da escola publica. Convivem com ausência de transporte publico de qualidade. Adaptaram-se ao cheiro da falta de saneamento.

Nada disso é solução. Sem Estado presente, não qualidade de vida. Nem vida civilizada, enfim. Cidadania não vem de graça. É conquistada. E depende da vigilância dos cidadãos.

Sem a presença do Estado, não há esperança. E sem cidadãos, não há cidadania. Nem Estado de direito.

Filósofos para quê?

Num sebo dos arredores da Notre Dame encontrei, meio maltratada pelo tempo e o manuseio dos passantes, a primeira edição de Pourquoi des Philosophes? (1957), de Jean-François Revel. Comprei-a e voltei a lê-la, meio século depois da primeira leitura. Este panfleto voltairiano com que Revel iniciou sua carreira literária conserva intacta sua explosiva ferocidade, e talvez ela tenha aumentado porque algumas das figuras com as quais se enfurece, como Heidegger, Jacques Lacan e Claude Lévi-Strauss, se transformaram desde então em referências intelectuais intocáveis.

Como ele mesmo diria depois, este livro foi sua despedida tempestuosa da filosofia. E, aliás, da universidade francesa e de seus professores de ciências humanas, outro de seus alvos, aos quais acusava de estarem muito atrás das universidades norte-americanas e alemãs, meio entorpecidos por favorecimentos mafiosos e por uma retórica cada vez mais incompreensível e insossa. Este livro teve consequências muito proveitosas para os leitores de Revel: tirou-o de um mundo acadêmico onde talvez tivesse vegetado muito longe da atual0idade e o transformou no formidável jornalista e pensador político que seria. Seus artigos e ensaios, com os de Raymond Aron, foram um modelo de lucidez nessa segunda metade do século XX, marcada na França pelo predomínio quase absoluto do marxismo e suas variantes, que ambos enfrentaram com valentia e talento em nome da cultura democrática. Ninguém os substituiu, e sem eles os jornais e revistas franceses parecem ter-se apequenado e entristecido.

THINKER PRINT by mister-bones on DeviantArt:
A palavra panfleto tem agora certo tom ignominioso, de texto vulgar, inábil e insultuoso, mas no século XVIII era um gênero criativo e respeitável, de alto nível, do qual se valiam os intelectuais mais ilustres para ventilar suas diferenças. Nessa tradição se inserem muitos dos livros de Revel, como Pourquoi des Philosophes? [“filósofos para quê?”, inédito no Brasil], um ajuste de contas com os pensadores de seu tempo e com a própria filosofia — que, segundo este ensaio, por causa dos descobrimentos científicos, de um lado, e, de outro, da falta de importância e originalidade e do obscurantismo dos filósofos modernos — vai minguando como uma pele de onagro e — o pior — ficando cada vez menos legível. Revel sabia do que falava, tinha um conhecimento profundo dos clássicos gregos e todo o seu livro está repleto de contrastes entre o que significava “filosofar” na Grécia de Platão e Aristóteles ou na Europa de Leibniz, Descartes, Pascal, Kant e Hegel, e o modesto e superespecializado mister (confinado com frequência à linguística) que usurpa seu nome em nossos dias.

Mas não há no livro apenas críticas severas aos filósofos contemporâneos; há também alguns elogios. A Sartre, por exemplo, por O Ser e o Nada, que parece a Revel uma reflexão profunda, de grande audácia especulativa, e a Freud, de quem faz uma exaltação beligerante, sobretudo contra certos psicanalistas, como Jacques Lacan, que, a seu ver, não só banaliza e emaranha grotescamente as ideias de Freud como o utiliza para erguer um vaidoso monumento a si mesmo. Para nós que perdemos muitas horas tentando entender Lacan (sem conseguir), a dura crítica que Revel lhe dedica é alentadora.

Não é o caso, porém, das severas reprimendas a Claude Lévi-Strauss, cujo livroAs Estruturas Elementares do Parentesco Revel questiona desde o princípio, acusando seu autor de ser um bom psicólogo, mas de não oferecer nada do ponto de vista sociológico ao conhecimento sobre o homem primitivo. Ele estende essa asserção ao conjunto dos estudos de Lévi-Strauss sobre as sociedades marginais, com o argumento de que ao reduzir toda a análise a descrever a mentalidade primitiva, concentrando-se em sua intimidade psicológica, ele se desvinculou das obrigações de pesquisar o mais importante do ponto de vista social: por que as instituições da sociedade tradicional tiveram determinado caráter, por que se diferenciavam tanto umas das outras, que necessidades os rituais, crenças e instituições de cada comunidade satisfaziam. A obra de Lévi-Strauss estava ainda em processo de elaboração quanto Revel escreveu este ensaio, e talvez sua avaliação do grande antropólogo fosse outra se ele tivesse tido uma perspectiva mais ampla de sua obra.

No ano de 1971, em razão de uma reedição de Pourquoi des Pourquoi des Philosophes?, Revel escreveu um extenso prólogo passando em revista o que havia ocorrido no âmbito intelectual na França nos onze anos anteriores. Não retificava nada do que havia escrito em 1957 e, pelo contrário, encontrava no “estruturalismo” então em voga as mesmas insuficiências e embustes que havia denunciado nos anos do “existencialismo”. Dirige as críticas mais acerbas a Althusser e a Foucault, sobretudo este último, muito atual desde a publicação deAs Palavras e as Coisas, que tinha declarado que “Sartre era um homem do século XIX” e cujas espalhafatosas afirmações, segundo as quais “as ciências humanas não existem” e “do homem, uma invenção recente, se pode prever o fim próximo”, faziam as delícias dos bistrôs de Saint-Germain. (Também apedrejava policiais e negava a existência da AIDS)

Revel observa que as modas vão arrastando a filosofia a níveis de artificialidade e esoterismo que parecem uma forma de suicídio, começando pela saraivada que os novos filósofos disparam contra o humanismo. Mas o que estimula mais o seu humor sarcástico é a estranha aliança que se dava entre o esnobismo político — leia-se marxismo ou, ainda mais grave, maoísmo — e as especulações mais intrincadas das “teorias” produzidas desenfreadamente pelos literatos e críticos de uma corrente estruturalista que abarcava tantas disciplinas e gêneros que ninguém mais sabia sobre o que escrevia. Nisto leva todos os prêmios a revistaTel Quel, cujo gênio tutelar, o sutil Roland Barthes, acabava de explicar, inaugurando suas palestras no Collège de France, que “a língua é fascista”. A análise de um número especial de Tel Quel feita por Revel, ridiculizando a pretensão dos discípulos de Barthes e Derrida de que suas teorias literárias e experimentos linguísticos serviriam ao proletariado para derrotar a burguesia na batalha de morte em que estão envolvidos, é muito proveitosa. Basta citar uma frase: “A função ideológica da Tel Quel é muito clara: consiste em fabricar uma cultura burguesa apresentando-a como antiburguesa. Pois ela é antiburguesa e proletária na exata medida em que a propriedade de Maria Antonieta, no Petit Trianon, era antimonárquica e camponesa”.

Por cima e por baixo da virulência intelectual que anima este ensaio de Revel, algo permanece atualmente tão válido como então: a nostalgia por uma vida intelectual criativa e responsável, que ajude a ver claramente aquilo que parece confuso, e em que as ideias se confrontem e desempenhem um papel central na busca de soluções para os arrepiantes problemas que o mundo de hoje enfrenta.

Imagem do Dia

Berna, Suíça

Aos vencedores

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Visto que tudo passa e as épicas memórias
Dos fortes, dos heróis, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triunfais
Não turbeis a razão nos vinhos das vãs glorias!

Não ergais alto a taça, à hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gozos, nos regalos;
E não façais jamais pastar vossos cavalos
Na erva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jamais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lúgubres cortejos!
- E se amardes, olhai que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fuzilados!

Sim! - se venceste emfim, folgai todas as horas,
Mas deixai lastimar-se os órfãos, as amantes,
Nem façais, junto a nós, altivos, triunfantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã!—
—E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regamos já demais a terra - ó gloriosos
Vencedores! talvez, - vencidos de amanhã!

Gomes Leal (1848-1921)