quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

O fim do feudalismo sem 'gallantry'


Não foi por acaso que a democracia nasceu nas Américas. No que ela tem de essencial, trata-se de um arranjo espontâneo entre iguais para a sobrevivência em territórios isolados e em condições adversas.

“Como vamos nos organizar para termos o que comer e podermos nos defender neste fim de mundo”?

Era a essa questão muito prática que tratava de responder o Pacto do Mayflower (1620). Era a essa questão muito prática que tratavam de responder, 90 anos antes, os portugueses que instalaram em São Vicente a 1a Câmara Municipal da Terra de Santa Cruz (1530).

Durante 400 anos funcionou como um relógio a “democracia dos analfabetos” daquele Brasil das vilas esparsas, sem comunicação umas com as outras, pequenos mundos isolados onde a presença do governo de fora era rala ou inexistente e onde toda a economia e toda a autoridade política tinham de ser providas pelos próprios moradores. Do povo, pelo povo, para o povo…

Foi 1808 que veio truncar essa bela história. São os filhos do privilégio que vão escrever a história da contrarrevolução no Brasil.

O século 18 aporta na democracia instintiva do Norte a sua metade futuro. Renega formalmente o passado; sacraliza a livre circulação das ideias; elege o merecimento como única fonte de legitimação do poder e do dinheiro; proíbe proibir senão a exceção e o privilégio; trata de armar esse sonho das instituições capazes de materializá-lo e blindá-lo contra e acima das tentações do “lobo do homem”.

O século 19 provaria que não era ainda o suficiente. O poder político e o poder econômico compram-se favores. A corrupção reconstitui a força do privilégio. Tudo ameaça vir abaixo. É só na virada para o 20 que se consolida a revolução. O remédio, síntese de milênios de servidão, é de uma objetividade cristalina: para que seja estável o mundo dos cidadãos, tudo que é necessário é que seja essencialmente instável o mundo dos servidores do “Leviatã“. A legislação antitruste, o “recall“, as leis de iniciativa popular e o poder de veto às leis do legislador armam a mão dos oprimidos; dão ao povo a última palavra; é ele no poder.

A diferença que isso faria é a que grita ao mundo hoje…

Aqui a história foi outra. O século 18 aporta na democracia instintiva do Sul a sua metade passado. Asila no Brasil o absolutismo moribundo; demoniza a livre circulação das ideias; impõe o rei como única fonte de legitimação do poder e do dinheiro; proíbe tudo menos a exceção; trata de imortalizar o sistema atribuindo-lhe a elasticidade mole da complacência e dotando-o de um labirinto judiciário sem porta de saída que tudo mói em processos sem fim.

O século 19 provaria que não foi o bastante para matar o sonho. O Brasil americano insiste. Infiltrada pelos contrarrevolucionários “positivistas” que sentindo-a inevitável embarcam na mudança para sabotá-la, nasce afinal a Republica, vencida a escravidão. Mas é só um eco; faltam as instituições. Num hiato entre ditaduras Prudente de Morais e Rui Barbosa logram plantar o marco institucional da liberdade de empreender que faz nascer o Brasil moderno. Eterno refém da insegurança jurídica, porém, ele será mantido desde então – as veias sempre expostas – no limite da sobrevivência para sustentar o outro.

O sistema político da República permanece exatamente o mesmo do Império, com o Estado herdando as prerrogativas do imperador sobre os súditos. O povo — tanto o analfabeto quanto o que oficialmente “vota” — não participa do jogo. É convocado, de quatro em quatro anos, apenas para sacramentar a sucessão presidencial previamente acertada no circuito fechado dos chefes de partidos agora fazendo as vezes da Corte, e dispensado a seguir.

Na Primeira Republica segue o sistema do Imperador que quando, a seu talante, alternava os partidos na chefia do governo, “derrubava” os titulares de todos os cargos públicos para que fossem redistribuídos pelo novo contemplado. (“Governabilidade“). A única diferença é que a troca passa a se dar mediante uma “eleição” presidencial de que se conhecia o ganhador meses antes de votações abertamente fraudadas.
Câmara de Dourados, MS, 1936

Depois dos 26 anos da ditadura Vargas, o que muda com a redemocratização, essencialmente, é que não sai mais da folha de pagamento do Estado quem quer que tenha conseguido por um pé lá dentro uma vez. Isso mergulha de vez num processo de entropia um sistema politico que sempre foi divorciado do povo. Cada vez mais explicitamente os novos interesses objetivos criados vão configurando as duas únicas classes sociais com interesses intrinsecamente conflitantes no panorama sociológico brasileiro: a dos que são sustentados pelo Estado, auferem e distribuem direitos especiais vitalícios e frequentemente hereditários que a Constituição de 88 virá a tornar “pétreos“, e a dos que sustentam o Estado e todos esses privilégios. Daí por diante, das prisões à renda per capita e ao resto do IDH, tudo será cada vez mais desigual para os habitantes desses dois brasis.

A chegada ao poder do PT, que se assume desde sempre como o campeão desse Brasil dos direitos especiais, leva o processo da entropia à fusão. Não ha saída com ele desse feudalismo sem “gallantry” dos partidos/quadrilhas hereditárias empenhados na conquista de “nobreza” (dinheiro e direitos especiais) pelo acumpliciamento a que chegamos. A “democracia” sem povo à brasileira, só de ida, esgota-se, com dois séculos de atraso, no seu próprio paroxismo.

É o fim de uma era. A meticulosidade do desastre lulopetista reitera que só existe um jeito de se construir uma nação: o difícil. Exaspera a ideia de voltar para trás mas isso já não é uma escolha. Não ha atalho possível. A História exige que todos os passos do caminho sejam trilhados. O Brasil terá de voltar à sua raíz americana; fazer as revoluções do século 18 e do século 19, ainda que acelerando o filme.

Democracia?

Faça você mesmo. “Recall“, iniciativa popular, referendo, e mãos à obra, pedra por pedra, a partir de onde se vive a vida real, que é o município. Não existe outro jeito.

O que faltava: o mosquito

O Brasil afunda em meio a uma crise econômica que este ano vai fazer o PIB, de acordo com as previsões mais recente e nada exageradas do Fundo Monetário Internacional, retroceder cerca de 3,5%. A inflação, verdadeiro calcanhar de Aquiles desta economia, controlada até 2014, se soltou no ano passado para mais de 10% e ainda flutua à vontade fazendo com que os brasileiros temam a volta aos tempos terríveis em que era preciso, no primeiro dia do mês, esvaziar todo o salário para esvaziar os supermercados e encher as geladeiras das casas. Como se isso não bastasse, um Parlamento ingovernável, atomizado em partidos sem ideologia clara e com tendência a chantagear por cargos, derrubando o tempo todo as medidas orçamentárias encaminhadas para, segundo a opinião do Governo, endireitar a marcha financeira do país.

Alguém dá mais? Sim, claro.

A presidenta Dilma Rousseff, que não teve pausa em seu tormentoso segundo mandato desde que começou em 1º de janeiro de 2015, sofre um envenenado processo de impeachment que, apesar de sua razão de ser juridicamente questionável, vai se transformar em um imprevisível julgamento político de sua figura (e de seu partido). Tudo vai explodir assim que terminarem as férias de verão e o Carnaval. Fiquem atentos.

Isso é tudo? Não, claro que não.

Uma macro-operação policial, a Operação Lava Jato, que se desenvolve há um ano e meio, com foco na crescente onda de corrupção da empresa pública Petrobras, afeta os maiores empresários do país, dezenas de políticos relevantes. O maquiavélico sistema judicial brasileiro permite reduzir a pena em troca de delatar outros, de modo que as revelações não acabam nunca. Ninguém sabe onde ou quem vai terminar na relação de corruptos, acusados, presos e condenados.

Assim, no dia em que os mercados não se assustam com a lista de corruptos, são os números (atrozes) da economia ou o (negro) futuro político Rousseff ou tudo junto ao mesmo tempo. E as agências de classificação diminuem a nota de crédito do Brasil colocando-a no status de lixo, tornando os números da economia ainda mais atrozes etc, etc...

E como se fosse pouco, chega o mosquito. O maldito Aedes aegypti, um inseto antipático, que voa baixo (não sobe além do sexto andar) e tem o hábito de picar no horário comercial, entre nove da manhã e uma da tarde. Transmissor da dengue, do chikunguya e do zika. Este último é a causa, de acordo com todos os especialistas, dessa doença terrível que as mães transmitem pelo sangue a seus filhos ainda não nascidos: a microcefalia, fonte de doenças imprevisíveis dependendo da área do cérebro afetada.

Não existe cura ainda. O falido sistema de saúde brasileiro solicita medidas preventivas: matar o mosquito atacando onde ele se esconde, seja em vasos com água, copos cheios esquecidos ou em qualquer recipiente que acumule água no exterior.

Para piorar a situação, o país está no meio da estação chuvosa, período em que o mosquito aproveita para se multiplicar.

Poderia ser pior?

Falou!

O Governo é instituído para o bem comum; para a proteção, segurança, prosperidade e felicidade das pessoas; e não para o lucro, honra ou interesse privado de um homem, família ou classe de homens; Portanto, se o povo tem o direito incontestável, inalienável e irrevogável de instituir um governo, tem também o direito de reformar, alterar ou mudar totalmente o mesmo, quando sua proteção, segurança, prosperidade e felicidade exigirem 
John Adams

Governo de algemas

Lula acha que não há uma alma mais honesta que ele nessa terra brasilis, e a terra acha que não há uma alma brasileira feliz, neste momento, com sua vida financeira, profissional, social, ética, política.

Nem o Carnaval é capaz de melhorar esse estado de espírito. O desconforto é diversificado, pode-se fazer a pesquisa em diferentes universos que ora irão cravar o desemprego como o maior problema do país, outro momento será o da corrupção, ora é a saúde que, em qualquer nível, esfera administrativa ou partido na gestão é o que arrefece o entusiasmo com a vida de todo cidadão responsável. Há enquetes que mostram grupos numerosos preocupados com transporte, outras revelam terror com a ausência das obras de infraestrutura que poderiam conter os desastres naturais mas as providência para evitá-los não aparecem antes. E como a presença do governo na vida do cidadão é por aqui sufocante, a responsabilidade por todos os males, omissão e ação, é mesmo do governo. No caso do governo Dilma, omissão, pois a paralisia é total.


O governo está no segundo ano do segundo mandato e não começa. A presidente é movida por um festival de negações, de sustos, de respostas vazias quando resolve fornecê-las, de lugares comuns, sentenças carentes de sentido. Passa a maior parte do tempo enfurnada. De vez em quando, tocada por uma ameaça forte de ser defenestrada, reúne grupos, mobiliza, discursa, viaja. Mas na maior parte do tempo se preserva. Se explode, é internamente, nem isso se vê. O problema é sempre o outro, ou não há problema.

O professor Delfim Netto fez uma boa síntese em entrevista à jornalista Claudia Safatle, publicada no Valor de segunda-feira: não existe presidencialismo sem presidente. Já havia ele próprio, em manifestações anteriores, destacado a falta de protagonismo de Dilma Rousseff. Eufemismos. Aconselhou-a a assumir sua responsabilidade, mas o fez por vias tortas. Sugeriu que ela coloque o Congresso contra a parede exigindo que aprove reformas de fundo ou assuma a culpa pelo caos.
Jogar a responsabilidade de governo sobre o Congresso é só o que este governo tem feito, desde sempre. Embora esteja com o principal partido da aliança que o sustenta, o PT, o confronto das ideias de reforma sugeridas por Delfim. Pode ser a técnica da psicologia de dizer a ela para agir mesmo que seja para por peso nas costas do próximo.

A presidente passou pelo espasmo das providências com relação ao desastre ambiental que atingiu várias cidades de Minas, passou pelo espasmo das providências de combate ao Aedes aegypti, a maior vergonha nacional e o maior risco à população no momento, e agora se prepara para enfrentar outro espasmo de ação, o da ressurreição do Conselhão, de cuja eficácia o Brasil está livre desde sua gênese. Como um conselho de 80 pessoas nada resolve, já se pode prever, por exemplo, o resultado de sua primeira reunião, na quinta-feira. Dilma encontrou-se com oito ministros de Estado, ontem, para preparar medidas a serem anunciadas aos ilustres integrantes do grupo, entre elas a retomada do crédito como motor do crescimento. De novo. Além de outras que também acha o governo que vale a pena reiterar, reiterar, reiterar.

Em contrapartida espera ouvir dos conselheiros o apoio ao governo na sua campanha para aprovar a CPMF no Congresso e levar adiante a reforma da Previdência. Dilma não tem demonstrado força nem criatividade para sair do redemoinho.

Sabe que o impeachment acabou, mas no lugar da guerra que travava para se manter no cargo a presidente não tem o que colocar.

Não há também mais a disputa Nelson Barbosa versus ministro da Fazenda, vez que ele assumiu o posto de seu próprio freguês de contendas. Então, em lugar de apresentar novas armas, será mais um para voltar seus mísseis ao Congresso.

No meio desse nevoeiro, a presidente está sempre perplexa: com o FMI, com a corrupção, com seus assessores diretos envolvidos em suspeita de irregularidades nos processos correntes, com o desleixo do governo, com a falta de iniciativas que tirem o país do ciclo de calamidades.

Agora deve estar estarrecida, um estágio mais avançado do que perplexa, com seu ministro da Saúde, de uma franqueza desconcertante, que diz, como a OMS, que estamos perdendo a guerra para o mosquito Aedes aegypti, e numa nova versão do dito malufista "estupra mas não mata", disse que torce para que as mulheres peguem a doença que provoca microcefalia antes de engravidar.

Esse ministro da Saúde, porém, é o de menos. Ele entrou em outubro para a história do Brasil, ao ingressar no governo quando a dengue, a zika e a chikungunya já eram epidemia. Nos governos Lula e Dilma o PT colocou na Saúde seus ministros politicamente mais fortes. Alexandre Padilha de lá saiu para disputar o governo de São Paulo; Humberto Costa foi enfrentar Eduardo Campos em Pernambuco, e hoje é senador que volta e meia assume a liderança dos interesses do governo; e o último, Arthur Chioro, o mais enraizado no partido, que ampliou os tentáculos petistas pelo ministério inteiro, fazendo uma administração por conferências e assembleias, foi provavelmente o mais inerte.

Se for possível deixar o pensamento dar um voo daqui para trás, não é possível deter a atenção em uma única providência inovadora, séria, competente para resolver o dramático problema da saúde. Para um único Mais Médicos, há centenas de redes falidas de atendimento à saúde como a do Rio e a de Brasília.

O futuro que se vem desenhando também não é atraente. Procura-se uma ideia de Ciro Gomes, por exemplo, o último candidato a presidente lançado esta semana, um único plano ou medida para o governo do Brasil, e não se acha; procura-se um caminho apontado por Dilma para a Petrobras, em que é especialista, sair do buraco onde a jogaram, e não se vê; procura-se uma fonte de recursos para o governo meter a mão que não seja o FGTS, uma espécie de fundo de pensão dos novos tempos a sofrer sangria, não há. Passado, presente e futuro sem perspectiva.

Encurralado pelas denúncias e suspeitas, processos e delações, Lula resolveu cuidar da vida, da sobrevivência política, das campanhas eleitorais, e deve parar de ficar tutelando Dilma a cada nova rodada de crise. Só Dilma pode libertar seu governo das algemas.

Profético

Eu quero dizer para vocês que, se depender de mim, tem muita coisa para ser restaurada neste país. Se depender de mim, vocês vão ser parceiros em outra restauração. 
Lula sobre a restauração do Palácio do Planalto em 2006

A vingança de Delfim Netto

Dilma Rousseff não gostou nem um pouco do recado que recebeu de Delfim Netto, através do Lula: “Ela deveria assumir a presidência da República”. O ex-ministro da Fazenda e do Planejamento, venenoso como sempre, definiu-se como parceiro intransigente das elites financeiras, pressionando o governo dito do PT para adotar reformas ao avesso, como a da Previdência Social, reduzindo pensões e aposentadorias, da flexibilização do mercado de trabalho, restringindo benefícios sociais estabelecidos há décadas em favor dos assalariados, da desindexação entre os salários e o aumento da inflação e, por último, da desvinculação das emendas ao orçamento das obrigações prometidas pelo Executivo.

A ironia está em que, nem diante dos generais-presidentes, de Costa e Silva a Médici e a Figueiredo, Delfim ousou tanto. Pensava como pensa hoje, ou seja, em favor dos interesses do empresariado mais retrógrado, mas não tinha coragem de enfrentar os pruridos nacionalizantes dos militares. Era obstado por eles, os verdadeiros donos do poder, sem condições para implementar todas as mudanças exigidas pelo mundo neoliberal, ainda que tentasse cumprir essas determinações. Agora, para Delfim, liberou geral, ainda que atrasado, do alto de seus 85 anos. Integrou-se sem temores na defesa do modelo que domina o planeta, aproveitando-se da débâcle dos governos do PT. Admite-se até que esteja se vingando dos companheiros que um dia bateram firme em suas diretrizes, antes de o Lula haver aderido ao neoliberalismo e de Madame mostrar-se sem rumo diante da pressão das elites.

As quatro imposições passadas a Dilma através do Lula, mais do que a demolição das poucas estruturas sociais conquistadas ao longo dos anos, de Getulio Vargas em diante, significam o fim de uma era de expectativas sobre a ilusão de que a Humanidade caminha para a frente. Faz tempo que anda de marcha-a-ré, mas por força da supremacia dos ricos e poderosos, desfaz-se o sonho de um mundo mais justo e equânime.

Por coincidência, no Brasil, isso acontece por obra e graça do governo do PT, da traição do Lula e da perplexidade da Dilma. Parece óbvio que ela vai ceder, que carece de forças para resistir ao ímpeto do egoísmo dos controladores da economia e das finanças. Por mais estranho que pareça, o golpe de graça no pescoço das massas acaba de ser vibrado pela lâmina do Delfim.

Vale repetir, há quem imagine a presidente Dilma resistindo, não se curvando à derradeira exigência das falsas reformas que só estenderão privilégios, benefícios e vantagens aos mesmos de sempre. Como falta, como sempre faltou a ela, discernimento para saber de que lado se posicionar, o provável é que não reassuma mesmo a presidência da República. Esta permanece ocupada pelo Delfim…

Paraguai 18 x Brasil 0

Desde que Dilma Rousseff assumiu o governo, o crescimento da renda per capita no Brasil foi ZERO. No Paraguai, de 18%. No rico Chile, 14,5%. Na tumultuada Argentina, 9%. Na região, o México é a economia de tamanho mais remotamente comparável à do Brasil, além de dividir conosco a penúltima colocação do campeonato do crescimento latino-americano desde 1990. Pois bem. A partir de 2011, o crescimento mexicano foi de 7%.

Quem é o lanterna da América Latina no último quarto de século, entre as economias relevantes? Sim, é ela, Miss Venezuela, onde o PIB per capita não difere muito do que era em 1990 (o chavismo não é o único motivo do desastre, pois).

É possível dourar a pílula do Brasil. Desconte-se o ano da desgraça de 2015, que o dilmismo considera arrebentado pela Lava Jato, pela China e pelo Sobrenatural de Almeida. De 2011 a 2014, o PIB por pessoa do Brasil cresceu 4,7%. No Paraguai, na Bolívia, na Colômbia, no Peru e no Uruguai, uns 17%. No Chile, 13,5%.

Os números foram calculados com base em estatísticas da Cepal (os dados de 2015 são estimativas, mas devem mudar muito pouco).

Qual o motivo de outra vez vir com a numeralha comparada? Na semana que passou, a presidente aproveitou a reaparição do fantasma de seu álibi, a crise mundial, para outra vez tentar limpar a barra da política econômica que nos arrastou à lama. Não cola.

Comparações imediatas de taxas de crescimento são problemáticas, é verdade. Em cada período, o ritmo pode variar devido a características de cada país, como nível de renda, de industrialização, tipo de comércio exterior etc.

Isto posto, a disparidade recente entre o crescimento do Brasil e o dos países mais relevantes da América Latina é tamanha que é impossível não desconfiar, digamos assim, de que aqui se fez besteira grossa desde 2011.

A baixa do preço das commodities nos prejudicou, decerto. Mas, no Chile, 52% do valor das exportações são de cobre e derivados. No Peru, 36% vêm de minérios. Na Colômbia, petróleo e carvão representam mais de 60% das vendas ao exterior etc..

De resto, todas as economias latino-americanas são mais abertas ao comércio exterior que a do Brasil, exceto a venezuelana (não há dados sobre Cuba e Suriname).

O Brasil seria então um caso à parte na região, pois a estrutura produtiva é mais avançada? Poderia ser. Em geral, países pobres podem crescer mais fácil e rapidamente até atingir um nível de renda média (como a do Brasil), dadas certas condições (industrialização, urbanização, certa ordem política e social etc.).

Mas tanto países mais ricos como os mais pobres cresceram muito mais que nós. O PIB per capita do Chile é 38% maior que o do Brasil; o do Uruguai, 18% maior. O do Paraguai, a metade. O da Bolívia, 38% do nosso.

O Brasil teria outra síndrome muito particular de crescimento, “estrutural”? Quem sabe. Mas, de 2003 a 2010, anos Lula, nosso PIB per capita cresceu 24,5%, não muito diferente de Bolívia, Chile, Colômbia ou Paraguai. Os alunos excepcionais foram Uruguai (60%) e Peru (47%).

Quais as estimativas para 2016? Nas previsões dos economistas do Itaú, o México cresce 2,8%. Chile, 2,3%. Colômbia, 2,5%. Peru, 3,8%. Brasil: decresce 2,8%.

Qual o nome da síndrome brasileira?

Sobre a luz e a escuridão

Na semana passada estive em Haia, na Holanda, participando num festival literário cujo tema, “Hello Darkness!” (Oi, Escuridão!), já prenunciava um programa original. Assim aconteceu. Ao longo de vários debates e leituras os escritores presentes foram desafiados a discutir a maldade e a escuridão nas suas vidas e nas suas obras. Muitos, como o poeta sírio Adonis, o romancista egípcio Alaa al Aswany, ou a romancista chinesa Jung Chang, provinham de países sujeitos a regimes ditatoriais. Outros haviam atravessado longas guerras civis. Vários afirmaram escrever para tentar compreender a maldade. A bondade é como a água pura: não tem grande mistério.

A mim fascinam-me os personagens perversos. Tento encontrar neles algo que os resgate. Uma centelha de humanidade. Também me interessa perceber como alguém escolhe um lado ou outro: pessoas cujo destino as empurrou, desde muito cedo, para a escuridão, mas que conseguem (rindo) alçar-se para o lado luminoso da vida; pessoas que, pelo contrário, nasceram com o caminho desimpedido e escolheram a corrupção e a maldade.

Numa guerra, combatentes e não combatentes estão autorizados a ser maus. A maldade é encorajada. Cidadãos comuns transformam-se em monstros. Acontece algo semelhante a populações sujeitas a regimes totalitários. Em países democráticos, mas com graves distorções sociais, como o Brasil, a situação pode não ser muito melhor. Sociedades doentes empurram as pessoas para o lado escuro.
Rosa de porcelana (Etlingera elatior)
Quando estou em Lisboa gosto de correr junto ao rio. No Inverno isso é um pouco mais difícil porque o tempo nem sempre ajuda. Então inscrevi-me numa academia com vista para as águas do Tejo. Corro numa esteira, mas os meus olhos continuam a acompanhar o rio, até a ponte, quer chova ou faça sol. Há poucos dias um amigo apresentou-me a um dos professores. “O gajo tem uma história extraordinária”, disse-me. E realmente tem. Sérgio nasceu numa fazenda, no interior de Alagoas. Abandonado pela mãe à nascença, foi recolhido por um casal, e criado numa cidade próxima. Aos 12 anos zangou-se com o pai adotivo e decidiu partir sozinho, à carona, para São Paulo. Passou a viver nas ruas, com outros garotos, roubando comida para sobreviver. Um dia, aos 14 anos, tropeçou num mendigo. Ocorreu-lhe, tomado por um brusco sentimento de horror, que ele próprio poderia vir a ser, dali a poucos anos, aquele homem sujo e cheirando mal. Nesse mesmo dia começou a trabalhar como entregador para um feirante. Mais tarde arranjou emprego numa academia de jiu-jitsu. Limpava as instalações e treinava. Dormia lá. Veio a ser campeão mundial de MMA, modalidade de artes marciais mistas. Após uma passagem de dois anos pela Legião Estrangeira, em França, fixou-se em Portugal. Lembra-se de ter vivido 45 dias ao relento, nas ruas de Lisboa. Tinha prática, portanto não lhe custou muito. Hoje é um dos personal trainers mais requisitados da cidade. As pessoas gostam dele porque está sempre rindo, brincando, e aquilo que poderia ser uma hora de tortura física acaba se tornando num divertimento.

Há pessoas boas por pura preguiça. Outras são más pela mesma razão. Quer a verdadeira bondade quer a verdadeira maldade exigem esforço. Sérgio é um bom exemplo de alguém contra quem a vida se acirrou, desde muito cedo, à dentada e à patada, e que parecia condenado a permanecer para sempre no seu lado mais sombrio. Contudo, escolheu lutar contra a escuridão e triunfou. “Você leu ‘Capitães da Areia’?”, perguntou-me. E os olhos dele encheram-se de lágrimas. Sim, eu li Jorge Amado de uma ponta a outra. Aprendi com Jorge Amado, o qual, por sua vez, deve ter aprendido, nos terreiros, com a filosofia dos orixás, que somos todos feitos de um pouco de luz e de outro tanto de sombras.

Conheci um antigo guerrilheiro, que viveu quase 20 anos nas matas de Angola, combatendo numa guerra insana e particularmente cruel, e que hoje cultiva e vende rosas de porcelana. A rosa de porcelana (Etlingera elatior) é uma planta, originária da Ásia, que foi introduzida com imenso sucesso em Angola, ainda no tempo colonial. Dá uma flor enorme, belíssima e delicada, que parece realmente ter sido moldada em porcelana. Visitei o antigo guerrilheiro em Benguela, uma velha cidade junto à costa, onde agora vive. Perguntei-lhe, como pergunto sempre a quem fez guerras, como consegue adormecer, à noite, tendo às costas tantos mortos e tanta dor. “Matar era fácil”, disse-me. “Era o que se esperava de nós. É muito mais difícil agora pensar nessas mortes. O que me salva hoje é a beleza das rosas.”

Não estou certo de que a beleza nos salve. Mas ajuda.
José Eduardo Agualusa

Hoje tem Conselhão? Tem. sim senhor


Nada mais adequado do que colocar na rua o Bloco do Conselhão, outra carnavalesca retomada por Dilma para ficar bem foto.

Entre confetes e serpentinas, sob os holofotes de marketing, Dilma sai de destaque no blocão de dezenas de dignos caras de pau, que concordaram em bancar papagaio de pirata para enfeitar a carnavalesca agenda positiva.

Conselho é para discussão, mas já se antecipa que os conselheiros formarão apenas plateia para ouvir as apresentações de cinco ministros da tropa de choque presidencial e principalmente se calar diante do discurso inexorável de Dilma, que tem a última palavra. Serão homens e mulheres que concordam em participar de mais um espetáculo midiático promovido pelo marketing do Planalto.

Inacreditável que os componentes dessa "banda", onde já estiveram José Carlos Bumlai, José Dirceu, Marcelo Oderbrecht e João Vaccari - hoje trancafiados - acreditem que terão alguma influência ou serão ouvidos pela mouca presidente, que quer "dividir a responsabilidade".

O Conselhão será mais um circo para o público petista e comparsa, mas positivamente seus integrantes não devem aceitar essa "divisão" do crime calamitoso de se destruir um país como Dilma pretende.

Levar o Brasil para o fundo do poço é de responsabilidade única de Dilma. Afinal está no cargo legitimamente eleita e empossada. Dividir a responsabilidade como quer é mais um crime em seu já extenso prontuário de irresponsabilidade administrativa.

Depende de nós

O mal e o remédio estão em nós. A mesma espécie humana que agora nos indigna, indignou-se antes e indignar-se-á amanhã. Agora vivemos um tempo em que o egoísmo pessoal tapa todos os horizontes. Perdeu-se o sentido da solidariedade, o sentido cívico, que não deve confundir-se nunca com a caridade. É um tempo escuro, mas chegará, certamente, outra geração mais autêntica. Talvez o homem não tenha remédio, não tenhamos progredido muito em bondade em milhares e milhares de anos sobre a Terra. Talvez estejamos a percorrer um longo e interminável caminho que nos leva ao ser humano. Talvez, não sei onde nem quando, cheguemos a ser aquilo que temos de ser. Quando metade do mundo morre de fome e a outra metade não faz nada... alguma coisa não funciona. Talvez um dia! José Saramago

As nove áreas em que o Brasil é criticado em Direitos Humanos

O Brasil foi citado no Relatório Mundial 2016 da organização Human Rights Watch – que compila abusos de Direitos Humanos em 90 países – pela violência policial e pela superlotação do sistema prisional.

A 26º edição do relatório foi lançada nesta quarta-feira em Istambul. O documento afirma essencialmente que vários governos do planeta reduziram a proteção aos direitos humanos em nome da segurança – e por medo da disseminação de ações terroristas fora do Oriente Médio.

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Segundo a organização, os governos europeus têm fechado suas fronteiras para o fluxo massivo de refugiados fugindo principalmente do conflito sírio – deixando a responsabilidade de lidar com a questão para países vizinhos à Síria.

Algumas das consequências são a islamofobia e a estigmatização de comunidades de imigrantes.

Segundo Maria Laura Canineu, diretora do escritório brasileiro da HRW, o Brasil adotou uma ação positiva na questão dos refugiados.

"O Brasil merece aplausos pela aceitação e pela abertura aos refugiados, principalmente sírios. Foram concedidos mais de 8 mil vistos humanitários. A questão agora é criar oportunidades de trabalho para eles", disse.

O Brasil porém recebeu destaque negativo devido ao alto número de pessoas assassinadas pela polícia – 3 mil em 2014 – e pela superlotação das cadeias, que supera sua capacidade de vagas em 61%. Segundo ela, no campo de abusos de violência na área de segurança pública, o Brasil enfrenta um dos piores cenários na comparação com os outros países.

"A situação (de violência policial) não melhora, só piora. Acreditamos que isso acontece devido a um fracasso generalizado das instituições em combater a impunidade", disse Canineu.

Segundo ela, a situação no ano passado foi agravada por esforços de grupos políticos em aprovar legislações que tentam "regredir" as conquistas na área de direitos humanos.

O documento da HRW critica o histórico do ano no país em 9 áreas sensíveis do ponto de vista dos direitos humanos.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Charge Super 25/01

O presépio da doutora Dilma

O Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social foi criado em 2003 e é composto por 90 membros. Para a reunião de amanhã, dois titulares tiveram que ser substituídos, pois Marcelo Odebrecht e José Carlos Bumlai estão na cadeia. Também estão trancados o ex-conselheiro João Vaccari Neto e José Dirceu, que assinou o ato de criação do organismo. É difícil imaginar outro grupo de 90 pessoas com semelhante desempenho. Para se ter uma ideia do que significa uma porcentagem de 2% de presos, vale lembrar que a taxa de brasileiros encarcerados para cada cem habitantes é de 0,3%.

O Conselhão pretendia ser um foro de debates. Tornou-se um pastel de vento a serviço da propaganda de um governo cuja titular diz que “o Brasil não parou, nem vai parar”. Os pibinhos e a recessão aconteceram no Burundi. É marquetagem tão inútil que desde julho de 2014 a doutora Dilma não o convocava. Uma reunião de 88 pessoas serve apenas para fotografias de um consenso inexistente. A menos que se considere consenso o fato de estarem todas sentadas.

Dilma

Quando o Conselho foi criado, nele estava a atriz Lucélia Santos. Foi substituída por Wagner Moura. Pelo lado dos empresários, lá estará Jorge Paulo Lemann. Certamente, ele tem algo a dizer, mas, da última vez que foi ao Planalto, a doutora deu-lhe um chá de cadeira de mais de uma hora. Até aí pode-se pensar que tenha surgido algum imprevisto. O problema muda de figura quando se sabe que mandaram uma funcionária fazer-lhe sala, e ela dirigiu-se a Lemann em inglês. Coube a ele explicar que foi criado nas ondas de Ipanema. O surfista do século passado tornou-se o homem mais rico do Brasil porque a InBev produz e exporta gestão, exatamente o que falta ao governo da doutora.

Ele acaba de anunciar que adiou o cumprimento da meta anunciada em novembro de visitar todos os domicílios do país até o fim deste mês para combater o mosquito da zika. Lorota. O que houve foi o colapso de uma promessa impossível de ser atingida. Na melhor das hipóteses, foram a 15% das casas. Houve burocrata sugerindo que, para evitar o risco da microcefalia, as mulheres não engravidem. Como o mosquito está no Brasil há mais de um século, a providência extinguiria a população de Pindorama. Depois, veio o ministro da Saúde, torcendo para que as jovens sejam infectadas pelo vírus antes da idade fértil, pois assim adquiririam imunidade.

Como Brasília comanda espetáculos, em dezembro a doutora assinou o Decreto 8.612, criando uma Sala Nacional de Coordenação e Controle, para cuidar do mosquito. Ela funcionaria no Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres da Secretaria Nacional de Defesa Civil do Ministério da Integração Nacional. A sala mágica seria habitada por representantes de seis ministérios, dentro do Plano Nacional de Enfrentamento à Microcefalia, que, por sua vez tem três “eixos”: “Mobilização e combate ao mosquito, atendimento a pessoas e desenvolvimento tecnológico”.

Aí está a essência da gestão da doutora: havendo um problema (o mosquito), lança-se um plano de enfrentamento, cria-se uma sala de controle anexa a um centro de gerenciamento e, daí em diante, o assunto é dos outros. Se nada der certo, convoca-se uma reunião do Conselhão para mudar de assunto em busca do que o Planalto chama de “agenda positiva”.

2016 não é 2013

A liderança do Movimento Passe Livre ainda não entendeu. A história - como dizia um filósofo alemão - não se repete a não ser como farsa e, definitivamente não estamos em 2013. Naquele ano o MPL foi a faísca que incendiou a pradaria porque havia uma agenda muito mais ampla, aglutinadora de bandeiras tangíveis e transversais.

A horizontalidade das jornadas também contribuiu para seu sucesso. As manifestações multitudinárias não foram produto da ação de um pequeno grupo, de uma vanguarda iluminada, mas da identificação de milhões e milhões de brasileiros com uma pauta de reinvindicações factíveis, que diziam de perto às suas angústias, como o clamor por serviços públicos de qualidade.

Movimento Passe Livre (Foto: Arquivo Google)
Houve, claro, a ação ensandecida dos black blocs, mas descoladas das massas. Só na cabeça de alguns malucos as manifestações se voltavam contra a “ordem burguesa”, contra a “exploração capitalista”. Registre-se: esses lunáticos foram minoria, não deram o tom de um ano tão marcante como 2013. E quanto mais pacífica as manifestações, mais adesão e simpatia granjearam.

Aí vem a farsa. Sem ter a menor capilaridade na sociedade e com objetivo tão demagógico como pueril – a tarifa zero nos transportes urbanos - o MPL promove agora um simulacro de 2013, numa reedição tosca das concepções de Auguste Blanqui, do século XIX. Blanqui acreditava, piamente, que a história se movia pela ação vanguardista de um punhado de abnegados.

Se fosse apenas um blanquismo tardio, seria menos nefasto.

O problema é que a forma primitiva de luta adotada pelo MPL volta-se na verdade contra os trabalhadores, os principais usuários do sistema de transportes públicos. Qual o sentido, por exemplo, de se realizar uma manifestação na Estação da Luz, em São Paulo, no horário de pico? Quem pega o trem para chegar até a sua casa na periferia? É a tão odiada burguesia?

Os ventos mudaram e o MPL não percebeu. Em 2013 havia uma pré-disposição dos brasileiros para apoiar as manifestações, se solidarizar com quem foi alvo de uma repressão desproporcional. A crise ética, econômica e política do governo Dilma Rousseff mudou o humor das pessoas, deixando-as muito mais irritadas. E com razão. Já tem problemas suficientes, por que vai ser tolerante com quem atormenta mais ainda suas vidas?

Em vez de ganhar a opinião pública e construir uma imagem favorável à sua bandeira, as lideranças do movimento vão na direção contrária. Utilizam-se da violência de forma generalizada contra representantes públicos, contra o patrimônio público e privado. Convivem muito bem com black blocs, como se fossem almas gêmeas.

Estranhamente, contam com a complacência de setores de nossa intelligentsia e da dita esquerda. Talvez tais segmentos ainda se deixem encantar pela tese de que a “violência é a parteira da história”. Só isto explica tanta omissão e conivência.

Não percebem, contudo, de onde vem o tiro e nem o calibre do perigo, para usar um verso genial dos Paralamas do Sucesso.

As manifestações selvagens alimentam ainda mais o caldo de cultura do autoritarismo que vai se espraiando pela sociedade. A cada depredação, a cada vandalismo, também cresce o número de pessoas que clama pelo fim da baderna.

É bom o MPL tomar juízo. 2016 não é 2013.

Campeão de honestidade

Neste verão chuvoso, de tempo ameno durante o dia e frio à noite, o ambiente fica propício a voos de tanajuras e aparecimento de bichos estranhos, como gongolos e besouros de chifres, principalmente quando chega o estio do veranico.

É fácil notar também a influência desse tempo na vida das pessoas. E depois do Carnaval, que este ano acontece mais cedo, vem a Quaresma, tempo de lobisomem e de mula sem cabeça. Mas já se pode notar o aparecimento de homens descabeçados e de mentirosos de ocasião, além de políticos desmiolados e mistificadores, que se julgam, descaradamente, enviados de forças do além ou mais virtuosos e honestos que qualquer um dos seus semelhantes.

migueljc
Libório, aquele alfaiate lá do distrito da Cachoeira que tem mania de ser candidato a vice qualquer coisa, apareceu empoeirado das terras vermelhas da sua região, que beiradeia a serra do Anastácio, e, alegre e despachado como sempre, e como qualquer baianeiro, foi logo dizendo: “Ei, Dota, vim aqui ajudar meu cumpadre, que tá com um probrema difice de resorvê. A filha mais nova dele, teimosa que só égua de chapada, ficô embuchada e diz que é virge e que nunca andou se metendo com home nenhum. Mentira dela, já que seu namorado aparece sempre nas época de festa, como Carnaval e São João. Mas ela jura de pé junto qui nunca ‘comé qui chamô’ com ninguém. E nós veio acompanhando ela e seus pai, que, além de amigos, nós é cumpadre de fé e de pulá fogueira. Deixei eles cuns médico e o subdelegado de lá do povoado e vim aqui tomá a bênça e tomem sabê do amigo o que é um tal de ‘hime cumpracente’ q’ueles fala qui é mais ô menos embuchada. É que um médico baiano lá da Conquista disse que ela é virge mesmo, mais tá embuchada, e isso num é nem pode sê milagre... Será que isso pode se assucedê?” Ô Liba, esse problema é incomum, mas existe. O que não é possível é ela engravidar sem “comé qui chamá”. Se ela tem hímen complacente está explicada a gravidez sendo ela virgem. “Ô lá-lá! Entonce nem é mais ô menos?” Claro que não, uai... Com um abraço, lá se foi o Libório contar ao compadre nossa conversa. “Deve que” deu certo...

Na semana passada, num arroubo de consciência e ignorância ao mesmo tempo, o ex-Luiz, do alto de sua prosopopeia, declarou: “Não tem uma viva alma mais honesta do que eu”. Pensei nas palavras do Cristo crucificado, pedindo a Deus que relevasse a ignorância daqueles que O crucificaram: “Pai, perdoai-os, eles não sabem o que fazem”...

Ex-Luiz, preste atenção: honestidade é virtude que se constata exclusivamente pela formação moral do homem e que, assim como gravidez, não existe “mais ou menos”. Se você me entende, não existe honestidade complacente como o hímen da filha do compadre do Libório. E como as virtudes não podem ser medidas, o homem é ou não é honesto. No seu caso, que é duvidoso, você vai ter que provar, e aí é que está o bedelis...

Se tudo vai mal, logo ...

A lógica nacional sempre foi sensata. Ela rezava assim: se tudo vai mal e, se o Brasil também vai mal, então tudo vai bem. Este princípio — hoje em suspeição — permeia o nosso pensamento. Está tão dentro de nós quanto o melado que nos lambuza. Prestigiado, ele foi encampado pela esquerda como um valor. O roubo dos outros, vociferam, legitima o nosso. Ademais, roubar aquilo que seria de todos para ajudar os pobres não é safadagem porque, até o advento desta desagradável era de transparência e de liberalismo golpista, o que era de todos não era de ninguém.

Pertencia aos que “subiam” e controlavam a “República”. Aliás, devo lembrar o nosso desgosto por tudo o que é “re-pública” (coisa pública), pois, sendo mais filhos de família do que cidadãos, temos horror à impessoalidade e ao anonimato, esses irmãos da igualdade. No país das celebridades e dos queridinhos, todo mundo quer, além da conta bancária na Suíça, uma coleção de carros de luxo ou um quarto secreto cheio de quadros tão falsos quanto o dono. Roubar para ostentar é um ato falho do nosso inconsciente aristocrático.

O de “todos” é negativo. Ou alguém vai casar com uma “mulher pública”? Não estaria aí o temor que, ao lado do nosso machismo, afasta as mulheres da política?

O fato é que a indiferença a “tudo que é de todos” define o que nós, brasileiros, entendemos por “política”. Para nós, a política é o túmulo do que não gostamos. Como nada temos a ver com ela, tudo o que diz respeito ao gerenciamento público é entregue aos políticos, que fazem o que bem entendem, desde que atendam aos nossos pleitos. Ou não nos perturbem com muitos deveres e impostos.

Enquanto isso, nós jogamos o nosso lixo na rua certos de que cabe ao “governo” resolver o assunto, mas a maldita “política” não deixa. Tudo vai bem até o dia em que descobrimos que o descaso em massa, ao lado de incompetência administrativa e da má-fé ideológica, levam o país à ruína.


E se países não são empresas, eles só prestam quando gastam menos do que arrecadam. Mas se a nossa utopia é todo mundo virar funcionário público, bolsista ou aposentado e, como prêmio, todo “político” ter o direito de roubar sem ser punido, então o Brasil vai pro brejo!

E, se ele não é de ninguém, hoje nós temos certeza que ele não pode mais ser de Lula, do PT, da dona Dilma e do lambuzado Jaques Wagner.

Há uma cadeia. A indiferença que é o maior fosso entre o Estado e a sociedade começa a acabar quando o colapso da saúde, da segurança e da educação vira calamidades. Ao lado das catástrofes climáticas e dos abismos sociais ainda puerilmente tratados como dependentes de “vontade política”, e não de uma moralidade engendrada pela escravidão negra, comandada por uma aristocracia branca, entramos no vermelho.

Mas, se somarmos a tudo isso a incompetência e a roubalheira, temos o nó de porco perfeito.

O que me intriga, porém, não é somente o roubo; é achar que há roubo de direita e roubo de esquerda. O primeiro é errado, o segundo é certo. Curiosa essa inversão carnavalesca já anunciada quando o líder do partido e um dos que mais lucraram com a ladroagem — Lula, o probo — desafia-nos publicamente afirmando que não há “viva alma” mais honesta que ele. Só mesmo pensando no carnaval pode-se ouvir essa bazófia de um sujeito capaz de desconstruir-se com tanta competência.

Eis o operário pobre que virou o presidente mais amigo dos ricos da história deste país. E, não satisfeito com essa mascarada, deu aos seus novos amigos mais que dinheiro, pois num feito digno de sua patológica onipotência, entregou-lhes o Brasil. Para tanto, tornou-se um misto de presidente-garoto-propaganda e criou uma rede de favores nacionais e internacionais com todo tipo de gente, preferencialmente com “pluto-cleptocratas”. Seu governo criou uma imensa e incompetente máquina estatal voltada para a reação anti-igualitária, com o devido abandono dos idiotas que, por amor, esperança, honestidade, ideologia e utopia, o elegeram. Voltado para o poder do dinheiro, o lulopetismo fabricou uma nova elite e um novo discurso, não mais baseado no velho marxismo libertador da Guerra Fria, mas num populismo de massa unipartidário, capaz de comprar legislação e legisladores, no que se transformou na mais grave roubalheira da história do capitalismo: o assalto que arruinou a Petrobras.

A parceria de um partido dito revolucionário com setores tradicionais do empresariado resultou em ganhos eleitorais, num fardo impossível de administrar e num incrível embaralhamento institucional. Hoje, ser de esquerda é impedir o funcionamento da Justiça. Hoje, buscar o rumo é ser golpista.

Criamos mais um brasileirismo: o “capitalismo de esquerda”. Aquele que rouba e não faz. Ao fim e ao cabo, quem paga somos nós. Mas, como tais arranjos ocorrem em toda parte e, além disso, como disse a presidenta, todo mundo erra, se tudo vai mal, logo...

Mudar o governo

Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse um bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Isso em si mesmo não é mau. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos novos-ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais. 

Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar apenas por aí é fácil. Alguém dizia que «governar é tão fácil que todos o sabem fazer até ao dia em que são governo». A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos activos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar.

Mia Couto

A grande reforma

Já estamos no caos. Quem precisa de reforma é o governo como um todo que perdeu a credibilidade, não tem a confiança da sociedade. A primeira reforma é a troca do governo
Cássio Cunha Lima

Corrupção

Quem paga propina a servidores é bandido, não lobista


Ora, ora, ora… Os criminosos agora resolveram optar pela ousadia retórica. Assim como Delúbio Soares, o caixa do mensalão, inventou a tese de que o dinheiro público roubado pela quadrilha era só “caixa dois de campanha” — crime, sim, mas, digamos, menor no cotejo com a safadeza que de fato se praticava —, presos da Operação Zelotes se dizem agora “lobistas” perseguidos. É uma saída marota, claro! Só é crime o que a lei define como tal, e nós, os cidadãos, podemos fazer o que não é proibido. Sem regulamentação, crime o lobby não é. Assim, todos os presos da Operação Zelotes seriam inocentes.

Seria uma boa rota de fuga se alguns dos presos não tivessem sido flagrados corrompendo servidores públicos. Uma coisa é um escritório especializado num determinado tema se organizar para pressionar parlamentares em favor de uma determinada tese. Qual é o caminho? Produzem-se estudos, seminários, encontros de debates. Representantes de determinado setor marcam audiências com parlamentares, expõem seu ponto de vista, alertam para dificuldades caso suas teses não triunfem. Assessorias de imprensa contratadas tentam emplacar artigos nos veículos de comunicação em defesa de uma tese, convidam jornalistas para jantar com seus clientes, levam-nos para visitar a redação de jornais e revistas etc.

Isso é lobby. Parlamentares e jornalistas honestos conversam com todo mundo, mas exercem o seu trabalho com independência. As evidências que existem contra presos da Operação Zelotes são outras. Funcionários públicos do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) eram literalmente comprados por escritórios de advocacia para deixar de cumprir a sua função e aliviar o peso da multa de pessoas em dívida com a Receita. O nome disso? Crime!

Querem um exemplo eloquente, noticiado no Painel da Folha desta terça? Erenice Guerra, ex-braço-direito de Dilma Rousseff e depois ela própria ministra da Casa Civil, admitiu em depoimento à Polícia Federal ter firmado uma parceria com José Ricardo da Silva, que está preso, para resolver uma grande dívida tributária com empresa chinesa Huawei. Mas quem era o tal José Ricardo? Ora, conselheiro do Carf. Assim, dona Erenice não via mal nenhum em que aquele senhor atuasse como advogado contra o próprio órgão público no qual trabalhava. Não parece que isso seja lobby. O nome disso é crime.

Um dos presos da Operação Zelotes é o notório — procurem a ficha dele na Internet — Alexandre Paes dos Santos, conhecidos como APS. A defesa chamou como testemunha a própria mulher, Maura Lúcia Montella de Carvalho. Cheia de si e de convicção, acusou o Ministério Público de praticar um desserviço à nação — imaginem vocês! — e ainda tentou teorizar: disse que o lobby “faz parte da economia, é uma das condições, uma das estruturas do mercado”. Sim, ela está certa. Mas lobistas não compram funcionários públicos e não praticam corrupção ativa com quem se dispõe a praticar a passiva.

Os advogados têm o direito de defender seus clientes como lhes parecer melhor. E a gente tem o direito de não cair na conversa. Acho que já passou da hora de o lobby ser devidamente regulamentado no Brasil, como é nas mais sólidas democracias do mundo. Mas não venham chamar criminosos de lobistas. Criminosos são bandidos.

A Petrobras já vale menos que o Whatsapp e deve meio Facebook


E agora a Petrobras já vale menos que o WhatsApp. Com a ação a R$ 4,45, o valor de mercado da empresa está em US$ 18 bilhões. O Facebook pagou US$ 19 bilhões pelo Whats em 2014.

O WhatsApp ainda não tem um modelo de negócio para produzir receita de verdade. A Petrobras tem, desde o governo Vargas. O problema é que a nossa petroleira tem outra coisa que o Whats não tem: uma dívida de US$ 128 bilhões. Isso dá 50% de todo o valor de mercado do Facebook (ou 100% da Volkswagen global, se você preferir um exemplo da velha economia). Pior: só os juros dessa dívida, a maior do mundo, comem tudo o que a empresa tira de lucro.

Se você fosse a Petrobras, estaria trabalhando só para pagar os juros do cartão de crédito, e precisaria ir tirando cartões novos para pagar as contas de casa. Por mais que você trabalhasse, sua conta continuaria vazia, igual o caixa da Petrobras.

Sim, toda empresa grande tem dívida. Mas Petrobras joga em outro campeonato, sozinha. A Shell, por exemplo, deve US$ 45 bilhões, mas produz o dobro da Petrobras, e também tem seus projetos caríssimos, e também sofre com a baixa recorde do petróleo. O buraco da Petrobras é único.

E fica mais embaixo. Dos quaquilhões que a nossa petroleira deve, US$ 24 bilhões são para agora – a empresa precisa quitar em dois anos, se não vira calote. US$ 24 bilhões é o valor de mercado do Carrefour (ou da Netflix, se você preferir algo da nova economia). Ou seja: a Petrobras precisa achar um Carrefour de dinheiro em dois anos para continuar viva.

Pense nisso quando alguém te aconselhar a comprar ações da Petro porque elas estão “baratas” demais. Diante da situação da empresa, nenhum valor é barato demais. O governo, principal acionista da coisa, provavelmente vai ter que arranjar os caminhões de dinheiro que a empresa precisa para quitar pelo menos uma parte desses US$ 24 bi que vencem até o final de 2017. Mas quem se complica aí são os outros acionistas. Se o governo fizer isso, será em troca de uma fatia ainda maior das ações da empresa – num processo cujo nome técnico é “capitalização”. Hoje o governo é dono de 8 bilhões de ações da Petrobras. Como existem 13 bilhões de ações da Petrobras, o Estado é dono de 60% da companhia. Isso dá 60% da empresa. Um sujeito que tenha um lote de 100 ações é dono de 7,7 bilionésimos.

Agora vem a sacanagem. Se o governo colocar, tipo, US$ 10 bilhões na Petrobras a título de “capitalização” a empresa vai “pagar o governo” emitindo ações novas e dando para ele. Isso cria uma “inflação acionária”. O total de ações cresce, mas sem que a empresa tenha aumentado de valor. Vamos dizer que cresça de 13 bilhões para 20 bilhões de papeis. O dono de todas as ações novas, como a gente viu, é o governo. Nisso, o Estado passaria a ter 15 bilhões de ações (8 bi das velhas + 7 das novas). Ou seja: passaria a ser dono de 75% da companhia.

Dinamarca: Oito lições de combate à corrupção

A Dinamarca colhe hoje os frutos de mais de 350 anos de empenho contra a corrupção no setor público e privado e, mais uma vez, figura no topo do ranking de 168 países da ONG Transparência Internacional, o principal indicador global de corrupção.

Desde que o índice foi criado, em 1995, o país está nas primeiras posições - em que estão as nações vistas como menos corruptas. Nos últimos cinco anos, só não esteve no primeiro lugar em 2011, que ficou com a Nova Zelândia. Esse é o segundo ano consecutivo em que está sozinha no topo.

O Brasil foi um dos países que registrou a maior queda no ranking neste ano: caiu sete posições, para o 76º lugar. A ONG liga a queda ao escândalo da Petrobras.

(Foto: Flávia Milhorance/BBC Brasil)
Peder Udengaard, reeleito do conselho municipal (o equivalente a vereador) de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca, com cerca de 300 mil habitantes, não tem sequer carro próprio e volta a pé para casa
O Índice de Percepção de Corrupção é baseado em entrevistas com especialistas - em geral, membros de instituições internacionais como bancos e fóruns globais - que avaliam a corrupção no setor público de cada país.

Na raiz do bom desempenho dinamarquês estão iniciativas de meados do século 17, quando a Dinamarca perdia parte de seu reinado para a Suécia e via que era preciso ter uma administração mais eficiente para coletar impostos e financiar batalhas em curso.

Numa época em que a nobreza gozava de vários privilégios, o rei Frederik III proibiu que se recebessem ou oferecessem propinas e presentes, sob pena até de morte. E instituiu regras para contratar servidores públicos com base em mérito, não no título. A partir de então, novas medidas foram sendo instituídas período a período.

Peter Varga, coordenador regional da Transparência Internacional para Europa e Ásia Central, alerta, entretanto, que "países que estão no topo do ranking naturalmente não estão livres de corrupção", pondera

Casos envolvendo empresas e políticos vez ou outra ganham destaque na Dinamarca. Há dois anos, a empresa dinamarquesa Maersk foi apontada na Operação Lava Jato como possível autora de pagamento de propinas a ex-executivos da Petrobras. E a falta de controle nos financiamentos de campanha é bastante criticada.

"Entretanto, neles isto é uma exceção, não a regra", complementa o representante da Transparência Internacional.

Embora não esteja imune ao problema, a Dinamarca traz alguns bons exemplos que podem servir de inspiração para se combater a corrupção em países como o Brasil. 

Realiza-se o projeto de se equiparar Brasil à Venezuela

Com sólidos motivos, o Brasil se firma, na América Latina, como um dos casos mais graves na onda de desaceleração econômica que atinge a região. Dado o tamanho do país, a média da evolução do PIB do continente é negativa: de acordo com o Fundo Monetário Internacional, há uma retração prevista para este ano de 0,3%, idêntica à verificada em 2015. Os 3,5% negativos do Brasil em 2015 e a repetição de dose semelhante neste ano são muito responsáveis pelo mau desempenho.

Além do Brasil, contribui para o resultado negativo latino-americano a Venezuela, pela exuberância de sua recessão: de 10% no ano passado, e 8% em 2016. Se os dois países forem retirados dos cálculos, o continente não aparece em recessão. Cai a média do crescimento, mas ele não fica negativo.

Realiza-se, então, por ironia, o sonho de bolivarianos que trabalham em Brasília: Venezuela e Brasil, enfim, juntos. Como exemplos a não serem seguidos. Juntos num desastre econômico, político e com impiedosos reflexos sociais. É certo que há diferenças marcantes entre os dois países, e a favor do Brasil. A principal delas a solidez das instituições republicanas. Estas foram destroçadas pelo chavismo bolivariano. Haja vista a enorme crise político-institucional em que se encontra a Venezuela de Nicólas Maduro, ungido pelo próprio Hugo Chávez seu sucessor: o governo se recusa a aceitar a vitória da aliança oposicionista nas eleições parlamentares, e para isso usa os aparelhos chavistas que foram instalados no Judiciário e em todo o Estado.
O aparelhamento do setor público, incluindo estatais, é lição da cartilha chavista de tomada do poder sob um simulacro de democracia. O lulopetismo tentou aplicar a mesma tática no Brasil, mas foi em parte frustrado pelas instituições.

A Petrobras é o mais dramático exemplo deste aparelhamento. Executado, inclusive, com funcionários de carreira cooptados. Saqueada para sustentar o projeto de poder lulopetista e de aliados, e usada para projetos megalomaníacos no estilo do “Brasil Grande” da ditadura militar, a estatal passa pela maior crise de sua história.

A Operação Lava-Jato, de combate ao esquema de corrupção montado na estatal, mas não só nela, em que atuam o Ministério Público, a Polícia Federal e a Justiça, não aconteceria na Venezuela.

Outra diferença é que Chávez, vitorioso nas eleições de 1999, aproveitou a popularidade e conseguiu convocar uma Constituinte, pela qual moldou um Estado autoritário, com um regime de democracia direta populista, a base da tragédia política venezuelana. Já no Brasil as instituições barram toda vez que lulopetistas tentam avançar com o Cavalo de Troia das “Constituintes exclusivas". O mesmo ocorre quando tentam controlar a imprensa profissional. Sorte do Brasil.

Mas os dois países, sob o chavismo e o lulopetismo, comungam ações intervencionistas na economia. E por isso dividem a responsabilidade em jogar a América Latina na recessão
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Editorial - O Globo

E ainda não está completa

Brasil tem 21 das 50 cidades mais violentas do mundo

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Um estudo anual realizado pela ONG mexicana Conselho Cidadão para a Segurança Pública e a Justiça Penal relaciona 21 cidades brasileiras entre as 50 mais violentas em todo o mundo em 2015.

No primeiro lugar do ranking, que analisa cidades com mais de 300 mil habitantes e foi divulgado nesta semana, está a capital venezuelana Caracas, com índice de 119,87 homicídios dolosos por cada 100 mil pessoas.

San Pedro Sula, em Honduras, que ocupava o primeiro lugar por quatro anos seguidos, conseguiu reduzir o número de homicídios e passou para o segundo lugar, com índice de 111,03. San Salvador, capital de El Salvador, ficou em terceiro (108,54), seguido de Acapulco, no México (104,73).

Além das 21 cidades brasileiras relacionadas no ranking, estão oito venezuelanas, cinco mexicanas, quatro sul-africanas, quatro americanas, três colombianas e duas hondurenhas. El Salvador, Guatemala e Jamaica aparecem com uma cidade cada.

Em comparação ao ranking do ano anterior, oito cidades deixaram de figurar entre as mais violentas, entre elas Belo Horizonte, a colombiana Medelín e a mexicana Juárez. O México, que chegou a ter 12 cidades relacionadas no estudo de 2011, aparece na relação de 2015 com cinco.

Entre as cidades que entraram na listagem do ano passado estão as brasileiras Campos dos Goytacazes, Feira de Santana e Vitória da Conquista, além da sul-africana Johanesburgo e outras quatro venezuelanas. A América Latina domina o ranking, com 41 cidades.

Entre as brasileiras, a primeira no ranking é Fortaleza, em 12º lugar, seguida de Natal, em 13º, Salvador e região metropolitana, em 14º, e João Pessoa (conurbação), em 16º.

Em seguida, aparecem Maceió (18º lugar), São Luís (21º), Cuiabá (22º), Manaus (23º), Belém (26º), Goiânia e Aparecida de Goiânia (29º), Teresina (30º), Vitória (31º), Recife (37º), Aracaju (38º), Campina Grande (40º), Porto Alegre (43º), Curitiba (44º) e Macapá (48º).

Somadas todas as 50 cidades, a média dos índices de assassinatos dolosos por cada 100 mil habitantes é de 53,08 (41.338 homicídios dolosos entre 77.878.896 habitantes). Apenas as primeiras 20 cidades relacionadas superam essa média.

Apesar de o Brasil superar a Venezuela em quantidade de cidades no ranking, o nível de violência no país vizinho é maior. O índice de homicídios no Brasil é de 46,31 por cada 100 mil habitantes, enquanto nas cidades venezuelanas é de 74,65.