sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Sem mapas para enfrentar o curto prazo e o futuro

As nações precisam de dois mapas de voo: para enfrentar as dificuldades de curto prazo e para orientar os rumos históricos em direção ao futuro. Nós estamos sem qualquer desses dois mapas e com os pilotos sem credibilidade pelos equívocos na condução da economia e pelas falsas promessas na campanha, além de incompetência na formulação dos ajustes necessários para corrigir os próprios erros.

No período de poucas horas, a presidente Dilma determinou e voltou atrás no adiamento de parte do 13º salário dos aposentados, lançou e recuou na recriação da CPMF, anunciou a redução de dez ministérios, e não disse quais; e, sobretudo, enviou ao Congresso, pela primeira vez na história, uma proposta orçamentária com déficit primário de R$ 31,5 bilhões, R$ 367 bilhões se contarmos os compromissos com juros para 2016. A impressão é de improvisações e indecisões constantes. Faltam um comando político e um coordenador técnico.

As notícias desses últimos meses mostram o governo quebrado e desorientado. O ministro da Fazenda passa a ideia de que não sabe o que deve ser feito, e a presidente da República, de que não sabe o que quer que seja feito. E a população e os parlamentares não parecem dispostos a pagar o preço pelo enfrentamento dos problemas imediatos e muito menos pela construção de um país eficiente, justo, sustentável, saudável.

A sensação é a de que, sob os olhares passivos da população e suas lideranças, o governo conduziu o Brasil para a recessão e a quebra das finanças públicas, sem definir os rumos para o futuro desejado. Parecemos ter optado pelo caminhar sem direção, sem mapa, sem escolher os caminhos, apenas levando os problemas com pequenos arranjos e ajustes improvisados.

Há décadas agimos sem projeto de longo prazo, pensando apenas nos benefícios para cada um ou cada grupo, no imediato. Preferimos consumir logo, mesmo sacrificando a poupança para o futuro; optamos por aposentadorias ainda jovens, mesmo ao risco de não haver dinheiro para pagá-las quando chegarmos à velhice; aceitamos ser o celeiro de alimentos do mundo, sem cuidar de sermos uma economia produtora de bens de alta tecnologia.

Por isso, apesar de todos os nossos imensos recursos, chegamos ao 193º aniversário de nossa Independência como um país de baixa renda per capita, campeões de concentração de renda e desigualdades social e regional, um país pobre especialmente na educação, na ciência e na tecnologia; despreparados politicamente para construirmos o Brasil que queremos, ou mesmo para definirmos o rumo do que queremos no longo prazo da história futura de nossa nação.

Se fosse uma empresa, o Brasil teria de pedir concordata: substituir diretores, vender patrimônio, renegociar dívidas, reduzir salários, demitir trabalhadores, parar todos os investimentos. Como ele não é empresa, a Constituição impede de tomar quase todas essas medidas, deixando o país quebrado e sem mapa.

O gravíssimo pecado dos omissos


1. O PAÍS PERDE TRINTA ANOS EM 13

Os responsáveis pela crise brasileira podem ser classificados em três grupos principais. O primeiro inclui políticos, governantes e formadores de opinião que, numa rara e fecunda combinação de ignorância, incompetência e desonestidade, jogaram o país no abismo. O segundo é formado pelos que se beneficiando do governo concederam sucessivos mandatos a quem, diligentemente, conduzia o país de volta aos anos 80. Uniram-se no palco para a grande mágica petista: o país perde trinta anos em 13! O terceiro é o dos tão descontentes quanto omissos. Refiro-me à turma que não sai do sofá. Quando a água bate nas canelas, pegam as velhas listas telefônicas e sentam em cima. Estes últimos incorrem no gravíssimo pecado de omissão. Eu ficaria feliz se os ônus do que vem por aí incidisse, direta e pessoalmente, sobre cada um desses três grupos em vez de se repartir de modo tão injusto sobre o conjunto da população

2. OMISSOS!

É gravíssimo o pecado dos omissos no atual momento histórico brasileiro! O sujeito lê uma pesquisa e fica sabendo que quase 70% da população quer o impeachment da presidente e que ela conta com a confiança de menos de 8% da sociedade. Diante desses dados, em seu comodismo, ele se considera contado e se dá por representado. Naquela cabeça de cidadão omisso, o dado da pesquisa fala por ele. Representa-o.

3. TERCEIRIZAM O PRÓPRIO DEVER

Pouco importa se seu congressista, ou o Congresso inteiro, não o fazem. Pouco lhe interessa se o único assunto das lideranças com poder de fogo no parlamento é a formação de um "acordão" que mantenha tudo como está. Não o perturba a inconfiabilidade dos tribunais superiores. Ele terceirizou todas as suas responsabilidades cívicas. Ou o fez para as Forças Armadas, que não podem e não devem intervir fora das previsões constitucionais. Ou o fez para o juiz Sérgio Moro, como se o bravo magistrado e a sala onde trabalha não estivesse situada no andar térreo do enorme e pouco confiável edifício judiciário. A pachorra dos processos criminais contra personalidades do mundo político é simétrica à pachorra dos cidadãos omissos. E esta serve àquela.

4. MOBILIZAÇÃO OU CAOS

No entanto, o fio pelo qual pende esse trágico governo, só poderá ser rompido quando a mobilização do povo, fonte legítima de todo poder, alcançar proporções multitudinárias, se dezenas de milhões (e não centenas de milhares) forem às ruas, pacífica e ordeiramente, rugir de modo reiterado e insistente sua inconformidade para desestabilizar a quietude das instituições.

Uma das páginas mais aviltantes da nossa história está sendo escrita no tempo presente com as tintas da ignorância, da incompetência, da desonestidade e da omissão.

Percival Puggina

Fala sério, eles não são engraçados?

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“O que dá pra rir, dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar, mas tudo são coisas da vida... O que dá pra rir, dá pra chorar...”
O presidente do Senado Federal foi enfático em sua declaração contra aumento de impostos. Seu tom era o mesmo que nós, simples mortais, usamos ao reclamar do governo: “onde já se viu aumentar impostos? De modo algum, o governo que não venha com mais essa barbaridade para cima de nós!”.

Renan saía de um jantar com governadores e outras doutas figuras de seu partido quando afirmou que para o PMDB, em primeiro lugar, vem o "dever de casa que é cortar despesas e dar eficiência ao gasto público".

Meninos, fiquei boquiaberta! Mas, como boa brasileira, aceitei o milagre e vibrei com a entrada do bom senso na cabeça do senador. Confesso que ainda pensei: “mais uma que devemos ao extraordinário médico do Recife que fez nascer cabelos na careca do senador. Vai ver aproveitou e deu uma sacudidela nos neurônios do alagoano que, livres da poeira de anos, passaram a pensar melhor”.

Passou rápido minha fé no tratamento pois logo em seguida li duas coisas estarrecedoras: a troca da frota de veículos usados pelos senadores, assim como a colocação de um novo carpete azul pavão no Plenário e no Salão Azul onde os membros do Senado Federal nos favorecem com seus discursos inflamados e... inflamados.

Não é pouca coisa a troca dos carpetes. São quase quatro mil metros quadrados de tapetes, com muita mão de obra. A um precinho simpático: R$550 mil. Mas era imprescindível pois – copio do portal do Senado – havia “necessidade de uma apresentação compatível com a importância da Instituição Senado Federal”.

Já os carros oficiais serão trocados porque os atuais Renault Fluence têm dois anos de uso! Sou péssima em contas portanto peço a um leitor de alma generosa que faça as contas para mim: quantos dias por ano um senador usa seu carro oficial em Brasília (não se esqueça, leitor amigo, das férias)?

Quantos carros são ao todo? Sei que temos 81 senadores, mas Renan tem direito a dois carros por motivos “nunca dantes navegados”, como diria Camões. Fora os carros da segurança dos senhores senadores, sempre tão ameaçados.

Será que os carros novos, Nissan Sentra, durarão mais do que os Renault Fluence? Eu ia dizer os velhos Renault, mas o grilo falante que habita minha cabeça me impediu de chamar de velhos um carro com dois anos de uso.

Mas não é só o Legislativo que é engraçado. No Executivo temos Joaquim Levy, que chegou ao governo Dilma precedido por um mantra ecoado de Norte a Sul, “Agora Vai!”. Só que não deu uma dentro. E nunca foi tão curioso como nos últimos dias em Paris.

É verdade que Paris mexe com nossa cabeça. Uma caminhada ao longo do Sena é um perigo! Um sorvete no Bertillon pode mudar nosso destino. Isso é sabido. Mas a ponto do ministro da Fazenda deste Brasil tão estropiado dizer, diante da nota vermelha do S&P, que seu ministério não falhou: “A gente tem dado diagnóstico transparente, verdadeiro e agora as pessoas têm de tomar a sua responsabilidade. O governo deve cortar mais do que já cortou, mas (a população) tem de ter a disposição de fazer um sacrifício maior para todo mundo poder voltar a ver a economia crescendo”, isso foi um pouco demais.

Lá ele declarou que nós pagamos menos IR que muitos países e que isso não pode continuar. Onde já se viu uma coisa dessas? A sociedade brasileira quer continuar com essa vida farta: boas estradas, boas escolas, serviços de saúde de primeiríssimo mundo, moradias populares e esgoto sanitário em todos os municípios, transportes que cruzam o país? Que façam um sacrifício, ora vejam!

Quando dona Dilma o nomeou ministro, achei que não ia dar certo: eram de mundos opostos. Que nada! Foram feitos um para o outro!

Só mesmo cantando com Billy Blanco: 

Reforma política fake e o velho truque de 'mudar para nada mudar'

Em meio ao barata voa da conjuntura nacional, o Congresso aprovou esta semana a tão propalada (durante a campanha eleitoral) reforma política. Mas em versão para inglês ver. Tirando o fim da reeleição, ainda a ser votada no Senado, e que nos faz retroagir a como era antes de 1997, a dita reforma nada reforma de essencial. Reforça, antes, o velho bordão brasileiro de ‘mudar para nada mudar’. O sistema eleitoral resta intacto e o financiamento empresarial de campanha foi aprovado ou “constitucionalizado”, medida que segue agora para sanção de Dilma.



Depois de tantos escândalos, e de a corrupção se tornar a segunda preocupação nacional, conforme pesquisas de opinião, o Congresso não conseguiu levar a discussão sobre financiamento de campanhas em termos a pelo menos sinalizar para o público mais geral que existe algum tipo de incômodo real em relação ao sistema político atual. Problema do qual a relação empresas/dinheiro/partidos certamente faz parte.

Mas pelo visto não há incômodo algum para a maioria dos Congressistas. Apenas aquele medido por seguidos levantamentos de opinião e que aponta um profundo grau de descrédito da política em geral no Brasil. Quase oito em cada dez brasileiros rejeitam os partidos atuais e menos de 1% da população confia neles. Em termos de confiança nas instituições, os partidos estão na lanterna, atrás de Igreja (43% confiam), Forças Armadas (19,2%), Imprensa (13,2%), Justiça (10,5%), Polícia (8,9%) e Governo (2%), de acordo com pesquisa CNT/MDA de julho. O que pensar disso?

Depois das manifestações de junho de 2013, de uma campanha presidencial na qual os principais candidatos enfatizaram a necessidade de uma reforma profunda e das seguidas pesquisas de opinião que mostram um pico de rejeição aos partidos em geral, o Congresso não conseguiu parir, sequer, um rato. Os parlamentares não se mostraram interessados em encarar de frente a grave crise de representatividade que assola o sistema político; a nau parlamentar, fragmentada em 28 legendas, decidiu não embicar para lugar algum. Ou melhor: o país segue sua travessia, em círculos.

Nota baixa

Algaravia é uma tremenda duma palavra feia. Mas existe. E se existe podemos, então, usá-la.

Segundo os dicionários, algaravia é uma confusão de vozes, linguagem confusa, embrulhada. Algo assim como um discurso de Cantinflas, aquele cômico mexicano que recitava longas algaravias, recheadas de muitas palavras e nenhum sentido.

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O rebaixamento do grau de investimento do Brasil pela agência de risco Standard & Poors provocou uma tremenda algaravia nas hostes de governistas e assemelhados próximos ou distantes.

A primeira voz, claro, é do condestável da República, o Grande Timoneiro Lula, que é ao mesmo tempo inventor e sustentáculo do governo Dilma e mentor da “oposição por dentro” aos apertos orçamentários que ela precisa mas não consegue fazer.

Lula disse que o rebaixamento da nota do Brasil pela S&P “não significa nada”. Quando a S&P deu o grau de investimento ao Brasil em 2008, ele mesmo disse que estavam dando ao Brasil um “atestado de país sério’. Quando foi que ele falou bobagem: ontem ou em 2008? Não éramos sérios antes ou não somos agora?

Mas o diz-e-depois-desdiz de Lula não significa nada, diante do histórico de contradições que compõem sua trajetória de metamorfose ambulante.

Significativo é que a declaração de Lula tenha sido feita num momento em que ele estava em Buenos Aires ao lado de Cristina Kirchner, a presidente da Argentina, simbolizando que o caminho para a “argentinização” da nossa economia talvez esteja mais perto do que possa imaginar a nossa vã filosofia.

Nelson Barbosa, o ministro do Planejamento, disse que a decisão da agência de risco foi “uma surpresa”. Parece que todos sabiam, menos o ministro que planeja.

A algaravia ganhou a participação especial do heroico ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chamado a dar explicações sobre o rebaixamento da nota do Brasil ao Jornal da Globo, ancorado por William Waack, que o bombardeou com perguntas incomodamente pertinentes.

Levy, com aquele olhar levemente vagotônico de quem não entende bem como é que foi parar no meio de um governo sem eira nem beira, onde é visto como uma borboleta num formigueiro, se pôs a recitar algumas banalidades, tipo:

“A baixa popularidade é uma possibilidade de aumentar ela”. Ou: “O rebaixamento (da nota) do Brasil é apenas uma avaliação". Ou ainda: (A Operação Lava Jato) é uma coisa bacana do Brasil”.

Mas essas não foram as frases mais chocantes de Levy. Para o dia seguinte ao do programa da Globo, ele guardou a iguaria mais fina:

“Os brasileiros devem encarar o aumento de impostos como um investimento”.

Essa frase foi demasiada até para um extraterrestre como Joaquim Levy, tanto que ele nem tentou dar-lhe um sentido. Limitou-se a dizer que “o país agora precisa trocar a fiação" e que o governo vai tomar algumas medidas até o fim do mês. Quais medidas? Um mistério.

O governo está estudando aumentos de impostos que não tenham que passar pelo Congresso, simplesmente porque pelo Congresso não passariam. Nem Renan Calheiros nem Eduardo Cunha, presidentes das duas casas do Legislativo, querem ter algo a ver com as desgraças econômicas do País, embora parte da responsabilidade pela aprovação de projetos arrasa-quarteirão dos cofres públicos tenha que ser dividida com eles.

Também do Congresso, que ultimamente tem produzido mais escuridão do que luz, veio o protesto do deputado petista José Guimarães, líder do governo na Câmara, que não levou a sério o rebaixamento da nota do Brasil “por aquela agenciazinha lá do fim do mundo”. (Nota: Jose Guimarães nasceu em Quixeramobim).

Mas do meio da tremenda algaravia produzida pela nota da Standard & Poors (que no dia seguinte, por sinal, rebaixou também a classificação da Petrobras), o silêncio que se tornou mais eloquente foi o da presidente Dilma. Um silêncio ensurdecedor.

Paralisia e antoengano

Imaginem um navio parado naufragando lentamente. De longe se ouve a balbúrdia. Alguns marinheiros tratam de acionar as bombas, enquanto outros abrem buracos para entrar mais água. As ações são contraditórias.  O navio fica mais ou menos na mesma. Contudo, o perigo de naufrágio continua iminente.


A atual conjuntura política no Brasil apresenta um quadro semelhante. O governo não naufraga, mas tampouco se recupera. Não naufraga pela falta de condições políticas para “finalizar” o mandato da presidente Dilma Rousseff. Nem se recupera pela sequência quase inacreditável de trapalhadas que produz.

Prosseguindo nas analogias marítimas, existem alguns no governo que parecem querer jogar a embarcação sobre as pedras. Resistem aos cortes, não dão importância à eventual perda do investment grade nem se mobilizam para atuar na linha do que todos desejam: recuperar o mais rapidamente possível a credibilidade econômica e fiscal.

Ao lado das trapalhadas políticas, o governo Dilma se sacrificou politicamente ao tomar medidas duras no campo dos preços administrados e na política cambial. No entanto, ao enfrentar o rombo fiscal, titubeou e está fugindo da raia. Mandou uma proposta orçamentária covarde. Poderá voltar atrás adiante.

Quando, dias atrás, o vice-presidente, Michel Temer, disse o óbvio – que governo nenhum resiste muito tempo com baixa popularidade —, houve uma grita exagerada. Não foi uma mensagem conspiratória. Foi, simplesmente, a constatação de uma realidade não reconhecida por muitos da alta cúpula.

O risco do autoengano é ainda pior porque as soluções que se apresentam tendem a mascarar o fato. Não há um pleno reconhecimento dos erros. Aqui e ali, de forma tímida e envolvida em muitos véus, surge um mea-culpa. Não convence. As soluções são parciais e mal embaladas. Agora o Planalto pretende aumentar os impostos sem mostrar o corte de gastos que todos esperam. E sem atacar algumas das questões estruturais, como os gastos com a Previdência Social.

Pouco mais de seis meses após a posse de Dilma, o governo envelheceu de forma irreversível. Para sobreviver terá que se reinventar. Elaborar um plano amplo de reestruturação ministerial. Adequar o ministério à base política e não ao contrário. Blindar áreas críticas com nomes acima de qualquer partidarismo. Dar força a uma política fiscal austera. Melhorar radicalmente o ambiente de negócios. Ampliar espaços para o investimento estrangeiro no país. E reafirmar o compromisso com a honestidade e a moralidade públicas.

A receita é simples. Duro é fazer. Governos e governantes devem saber dizer não aos interesses corporativistas. . Devem assumir seus erros e apontar novos caminhos. Não é o que ocorre. Ao contrário. As imagens projetadas e seus atos nos levam ao sentimento de que é preciso o país piorar muito para começar a melhorar. 
Murillo de Aragão

O Brasil vai muito mal, mas a turma de Lula vai muito bem

Ao ex-presidente e milionário Luiz Inácio Lula da Silva (por suas palestras recebeu R$ 27 milhões em quatro anos, dos quais R$ 10 milhões de empresas sob investigação no Lava Jato) não faltarão contratos enquanto houver no mundo líderes autoritários, oportunistas e populistas que queiram eternizar seus paus-mandados no poder a qualquer custo.

O LulaShow está acontecendo agora na Argentina, onde a presidente Cristina Kirchner, com olhos postos nas próximas eleições presidenciais, segue dilapidando as já enfraquecidas contas públicas de seu país, para tentar emplacar no poder seu candidato, um político subserviente, o ex-governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli.

Não foi divulgada a informação sobre as condições do contrato de Lula para essa participação na campanha de Scioli. Mas como se noticia que vai passar alguns dias em Buenos Aires ajudando o candidato, pode-se imaginar que a remuneração promete ser das boas.

A não ser que tenha o ex-presidente passado mais recentemente a se inspirar na Madre Teresa de Calcutá e resolvido trabalhar de graça, em troca de um prato de lentilhas e um bife de chorizo.

Quando Lula anda por perto, a presidente Cristina Kirchner enche-se de entusiasmo. Ontem, por exemplo, criticou a insensibilidade de muitos países diante do drama dos refugiados sírios. Até que algum assessor tenha dado uma piscada, sugerindo a mudança de tema, pois milhares de colombianos estão sendo também expulsos da Venezuela, pelo aliado de Kirchner e Lula, o presidente Nicolás Maduro.

Lula, por sua vez, falou das conquistas econômicas e sociais do Brasil, sob a gestão do Partido dos Trabalhadores. Nenhuma palavra, porém, sobre o desastre dos últimos seis anos, que culminou ontem com a degradação dos títulos do Brasil no mundo financeiro internacional. Não falou também sobre o estouro de nossas contas públicas, nem dos altos níveis de desemprego, nem do aniquilamento do setor industrial.

O Brasil vai mal, muito mal, mas Lula e sua patota regional vão bem, muito bem!

Diário do Polder

Pequenas mordomias

Cortar dois dos três carrões de Renan não fará muita economia. Mas são milhares de carrões na administração

O presidente do Senado pode se hospedar no luxuoso Hotel Emiliano, em São Paulo, com diária base de R$ 2.236,50, paga pelos cofres públicos, e ali receber um empreiteiro ao qual pediu dinheiro para a campanha eleitoral de seu filho?


Para Renan Calheiros, não tem nada demais. Está dentro de suas prerrogativas institucionais. O senador confirmou que esteve com o empreiteiro Ricardo Pessoa no Emiliano; que pediu doação para a campanha de Renan Filho a governador de Alagoas; que recebeu o dinheiro (R$ 1 milhão) via diretório estadual do PMDB.

Negou a outra parte constante da delação premiada de Ricardo Pessoa. Segundo o empreiteiro, o dinheiro doado tinha sido desviado de um contrato para construção de Angra III e era uma espécie de pedágio pago ao PMDB.

Renan disse que não sabia nada disso e que a doação foi pedida e recebida legalmente.

Digamos que ele esteja falando a verdade. Resta no mínimo uma irregularidade e, com certeza, um desvio ético grave: com o dinheiro do Senado, do contribuinte, pois, o presidente se instala no caríssimo hotel para tratar com empreiteiros da campanha de seu filho. O fato de Renan não ter se preocupado com esse detalhe, quando negou a corrupção, mostra bem como esse pessoal se julga dono da coisa pública.

Ricardo Pessoa entregou vários políticos do PMDB, como o senador Romero Jucá e o ex-ministro de Minas e Energia Edson Lobão, também senador. Todos negaram que se tratava de propina, mas também não se preocuparam com o entorno dos fatos. Confirmaram que as doações foram combinadas em jantares nos restaurantes dos hotéis Emiliano e Fasano, este um pouco mais barato, com diária promocional, ontem, de R$ 1.370,25, sem café da manhã (mais R$ 89,27).

Quem terá pago a conta dos jantares, que não saem por menos de R$ 200 por pessoa, sem bebidas? O contribuinte brasileiro ou o empreiteiro que vivia de contratos com o governo? Resultado: o povo brasileiro, em qualquer hipótese.

Pode parecer exagero, mas vamos prestar atenção às circunstâncias. Suponhamos que Ricardo Pessoa esteja dizendo a verdade, uma hipótese possível, já que a sua delação premiada só vale, e ele recebe o benefício de cumprir a pena em casa, se oferecer provas ou indícios suficientes. Nesse caso ficamos assim: um senador usa dinheiro público para se hospedar ou jantar em casas de luxo, onde recolhe dinheiro proveniente de corrupção em obras públicas.

Não era dinheiro de corrupção — é tudo que negam.

Não é de estranhar.

Querem outro exemplo desse tipo de visão do dinheiro público? Cada um dos 81 senadores tem direito a carro de luxo para uso “institucional”. Aliás, o Senado está renovando sua frota por estes dias.

Renan Calheiros, lógico, tem direito a seu carro. Mas como é o presidente da Casa, pode usar um veículo mais luxuoso e tem direito a mais um. O que nos leva a uma situação assim: Renan está deixando o Senado e o segurança pergunta ao assessor: “Sua Excelência está como simples senador ou como presidente?”

“Presidente”, responde o assessor.

E o segurança: “Então é aquele carro ali da direita.”

O terceiro carro, luxuoso igualmente, é da segurança — e neste caso é sempre o mesmo.
Resultado de imagem para mordomias de governo charge

Os brasileiros passam por um momento difícil. Pesquisa da CNI mostra que mais da metade da população procurou um segundo ou um terceiro trabalho no último ano. Revela ainda que quase 60% das famílias alteraram hábitos, como mudar para casa menor ou tirar filhos da escola particular.

A ordem é economizar e buscar novas receitas.

As empresas privadas enfrentam um duplo desafio: custos em alta e vendas em queda.

Também estão se virando. Donos de restaurantes, por exemplo, fazem pool para comprar mantimentos, tiram a toalha de tecido das mesas, criam métodos para perder menos comida, e assim vão.

Em resumo, está todo mundo trabalhando mais e buscando saídas, por pequenas que sejam, para manter a saúde econômica e financeira.

O setor público está quebrado. O governo federal foi quebrado pelo gasto descontrolado dos últimos anos.

E vêm os governantes dizer que não têm onde cortar gasto? As mordomias? Ora, dizem, custam pouco, são pequenas mordomias.

Certo, dois dos três carrões do senador Renan não farão muita economia. Mas são milhares de carrões espalhados pela administração.

O presidente do Senado não precisa dormir na rua quando vai a São Paulo. Mas no Emiliano?

A presidente Dilma não precisa viajar desacompanhada quando vai para o exterior. Mas com aquelas comitivas de 50 pessoas? E aquela fileira de carros e limusines que envergonham qualquer pessoa de bom senso?

O governo federal tem mais de 140 estatais. Só o Ministério de Minas e Energia, que Lobão chefiava, tem 74 empresas. Não tem nem “uminha” só para fechar, ainda que seja só para dar exemplo?

Carlos Alberto Sardenberg 

Independência ou PT

1. Ultimamente, antes de escrever qualquer coisa, pergunto a mim mesmo: – Isso contribui para tirar o PT do poder? Se a resposta é não, geralmente não escrevo. Mas algo me consola: de certa forma, tudo que é bom, belo e verdadeiro contribui para o fim do PT.
lula o grito
2. Duas obras de arte definem o atual momento brasileiro. Uma delas é o quadro “O Grito”, de Edvard Munch. A outra, o romance “O Grito Silencioso”, de Kenzaburo Oe. Dois exemplos de beleza que simbolizam uma das fases moralmente mais feias de nossa história.

3. Nos últimos 30 anos, o PT esvaziou o simbolismo do Grito do Ipiranga, substituindo-o pelo tal Grito dos Excluídos, que reúne as diversas linhas auxiliares do PT. Trocaram o verde-amarelo patriótico pelo vermelho socialista. Chegou a hora de destrocar – porque ninguém suporta mais essa inversão de valores.

4. O Grito dos Excluídos reúne, na verdade, aqueles grupos muito barulhentos que há quase 13 anos vêm sendo sustentados pela máquina estatal brasileira – ou seja, pelo dinheiro dos impostos que você paga.

5. Os que se apresentam como excluídos são, ao contrário, os grandes incluídos no esquema de aparelhamento e apadrinhamento ideológico do País. Eles só não contavam com a existência de um homem chamado Sérgio Moro e sua equipe, que incluíram os chefes do esquema na cadeia.

6. Eles estão presos porque excluíram bilhões da Petrobrás e de outras empresas públicas. Porque excluíram (ou seja, mataram) a LRF e o Plano Real, os dois maiores programas sociais da história do Brasil. Porque excluíram a verdade, a esperança, o futuro. Porque faliram o País e agora querem mandar a conta para você, criando o imposto de renda-se.

7. Mas o Brasil não vai se render. Com o PT não tem conversa, nem grito, nem sussurro. Para Lula e Dilma só há uma saída: renunciar ao poder agora. O povo brasileiro vai dar o Grito de Independência contra o PT!

Riobaldo do adeus

Dilma deveria renunciar. Seria um gesto delicado com o Brasil. Todos receberíamos a decisão como um pedido de desculpas, ainda que silencioso. Não é possível que ela não perceba que já não tem como fazer parte da solução. Tornou-se só um catalisador de problemas.

A presidente precisa reler aquele seu Riobaldo de uma nota só: "O que ela [a vida] quer da gente é coragem", tomada a frase como sinônimo de teimosia e resistência. Até porque o sentido original do texto –vá lá ver, leitor, em "Grande Sertão Veredas"– é outro. Minas lhe oferece uma saída honrosa, com Drummond: "Há uma hora em que os bares se fecham/ e todas as virtudes se negam". Acabou.

Não é conspiração, não é golpe, não é tramoia, não é sina, não é nem mesmo fraqueza. Memórias de um ex-jagunço sentimental e sentencioso, em momentos assim, viram só mais uma pedra no meio do caminho. É a realidade, a carnadura concreta da poética do poder, para apelar um pouquinho a João Cabral, que impõe à petista o ato elegante. Dou de barato que ela fez o possível, atendendo aos ditames de sua formação intelectual e do partido em cujo altar teve de se ajoelhar.

Temos aí "a soma e o resto", para citar Henri Lefebvre, que rompeu com o Partido Comunista quando a petista desta história tinha só... 11 anos!

Não é que tenha dado tudo errado com o seu governo. Em certa medida, deu tudo certíssimo, segundo, ao menos, a matemática entranhada nas coisas. As despesas cresciam sistematicamente acima da receita. Quando o binômio supervalorização das commodities/modelo ancorado no consumo evidenciou que não era sustentável, a partir de meados de 2012, ela resolveu alimentá-lo com medidas adicionais que... aumentaram as despesas e diminuíram a receita! As tarifas públicas foram represadas para conter a inflação, estimulada pelos anabolizantes injetados na economia. E o país quebrou. CQD. Como queríamos demonstrar.

Quantas vezes a mandatária foi advertida para o que havia do lado de lá do sinal de igualdade da equação petista? Não obstante, os críticos eram demonizados, ridicularizados, tratados como inimigos do povo. Ainda hoje se procura fazer deles uma caricatura, desqualificando-os como interlocutores do jogo democrático –e a interlocução na democracia se faz é entre adversários, não entre aliados. No fim das contas, vamos convir, nem a senhora, presidente, nem seu partido entendem direito essa conversa de tensão virtuosa entre contrários. O petismo atua é para eliminar os que não se rendem.

Agora não há mais tempo. Algum entendimento terá de ser feito para convencer a sociedade de sacrifícios adicionais, além daqueles que já estão em curso. Ou é isso, ou vem por aí uma espiral negativa de longuíssima duração. E a arena desse pensamento não é o Ministério da Fazenda. A Joaquim Levy, ou a outro, entregar-se-á uma máquina de calcular números. A realidade exige alguém que seja bom no cálculo político.

Ocorre que isso não se faz sem uma relação de confiança, que não existe mais. É preciso saber identificar o momento em que todos os bares se fecham e as virtudes se negam. Tá bom, presidente! Eu a deixo com o seu Riobaldo. Mas com um outro –aquele que cobra da senhora é coragem
.

Cometemos erros, sim!

Ainda não entendo o porquê perdi tempo vendo alguns segundos do discurso pré-gravado da ainda presidente do Brasil dizendo que “cometemos erros”. É mais ou menos como assassinar uma pessoa a sangue frio e dizer ao juiz: “apertei o gatilho com força exagerada”.

É fato que se fosse solicitado que nossa presidente amarre o sapato sozinha, ela não conseguiria. Tenho uma teoria de ficção científico-conspiratório de que a Dilma é um autômato (uma espécie de robô que funciona por combinação de engrenagens). E quem faz a programação dos seus movimentos é alguém que nunca sabe de nada e que pretende voltar em 2018.

Neste sete de setembro de 2015 tivemos uma quebra de paradigma no que os socialistas tanto pregam que é “o poder ao povo”. Peraí! Uma barreira de isolamento de metal para separar governo do povo, igualzinho ao Apharteid.

Já estou vendo, em breve quem é brasileiro de fato vai usar uma faixa com o desenho de uma coxinha no braço, assim como eram discriminados os judeus no nazismo. Os de vermelho não são brasileiros, continuarão recebendo ração de “mortantela”.

Mas há erros citados pela pseudo-chefe de Estado que vão além desse terrorismo nazicomunopetralha. Digamos que são causas que deram armas aos argumentos dessa ideologia hipócrita que se diz justa.

Em primeiro lugar está a estabilidade de funcionário público. A única diferença entre funcionário público e privado deveria ser quem paga o salário. Como todos sabem, temos um funcionalismo público podre, cheio de benefícios e que os serviços não têm um comprometimento com o povo, apenas com o cartão de ponto... Às vezes.

O sujeito estuda dez mil horas, se torna um dos seres humanos mais competentes do universo, passa no concurso e põe a barriga para descansar na mesa, pois agora não importa mais, na cabeça dele já se esforçou o suficiente. Agora basta apodrecer numa repartição pública. E quem mais se esforçou para fazer campanha para o PT foram pessoas que recebem salário que sai dos nossos impostos.

Outra questão é o FGTS. Quando você trabalha, uma grande parte do dinheiro que o seu chefe tem que desembolsar, e que vai além do salário que tanto reclama, vai para depósito nos cofres da Caixa Econômica Federal. Virtualmente ele está lá, mas na realidade ele se torna capital de giro para o uso indiscriminado da ingerência dos nossos governantes. Ou seja, se esse dinheiro fosse direto para sua conta, você teria a opção de poupar ou não, e as conseqüências tanto positivas quanto negativas seriam suas, ou seja, o poder do seu dinheiro seria seu!


A terceira está no discurso escroto socialista que prega poder ao povo. A interpretação é tão básica que assim que essas pragas assumem o poder, eles apenas esquecem. Na realidade o sentido é de diminuir o poder do governo e aumentar a responsabilidade do povo.

Políticos recebem um salário de diretor de multinacional, e ainda verba para assessoria e outros benefícios. Se, e somente se, eles recebessem apenas o salário e com isso eles administrassem os seus assessores e empregados, aí seria até justo pagar 36 mil reais em folha.

Então, temos um pensamento comunista geral em que todo o poder deve ser deixado com o governo e toda a responsabilidade também. Isso gera uma bola de neve que dá cada vez mais poder a quem hoje está no comando máximo.

O conceito de que Democracia é igualdade de direitos é uma forma bem cômoda de valorizar o vagabundo e desvalorizar o esforçado.

Democracia é igualdade de oportunidades. O governo compra votos dando bolsa disso e daquilo para continuar mantendo o poder, mas a fonte secou. O tal “erro” vai além da corrupção e da má gestão pública. O Brasil errou ao confundir direitos e oportunidades. Por isso não somos primeiro mundo, já que temos potencial e recursos para tal. Mas as pessoas se apóiam em que a responsabilidade é sempre do outro. No fim, responsabilidade vira poder e a decisão de escravizar o Brasil é endossada na urna.

Se essa corja chegou ao poder, muita é nossa culpa. Se assim como eu você também jamais votou neles, provavelmente não utilizou os argumentos certos para conscientizar seus pares a respeito do que é a política. Durante anos só se falou de tudo o que era ruim na época da ditadura, mas por outro lado ninguém tinha referência de outro tipo de administração governamental que sirva como comparativo.

Se 93% é contra o governo, como o mesmo foi eleito. Independentemente das artimanhas imorais de compra de voto e urnas viciadas, uma grande parcela que hoje sai às ruas com a camiseta da CBF para protestar, votou de fato naquela senhora que discursa como um bêbado falando em Esperanto.

A questão é que o brasileiro precisa parar de se vender para o que é dado e comprar a ideia de que as coisas podem ser conquistadas por mérito. Só com um povo responsável poderemos ter gestores que não se escondem.

Aliás, um líder que tem medo dos seus liderados, perdeu o comando.

Traduzindo: Impeachment extra-oficial.

À esquerda está a saída

Como economistas, nossos desenvolvimentistas são sociólogos fracassados. Abraçaram um esquema primitivo da luta de classes e o difundem por aí.

Joaquim Levy, na Fazenda, seria o capitão dos rentistas, essa franja riquíssima do país liderada pelos banqueiros e aliada de espoliadores estrangeiros. Tombini, no BC, teria sido sequestrado pela turma do juro alto.

Nelson Barbosa, no Planejamento, representaria a vanguarda da maioria mal remediada e dos empresários compromissados com o Brasil. A crise teria como pano de fundo o assédio dos rentistas para anular os ganhos sociais da última década.


Nesse candomblé da luta política, em que cada orixá tem o seu valor, caberia aos heróis do povo resistir ao avanço rentista e, depois, desfechar o contragolpe. A saída do impasse estaria à esquerda: baixar os juros na marra e iniciar nova expansão de gastos públicos. Ainda que a aritmética e os limites materiais sejam violados, o que impera é a vontade.
A sociologia rudimentar dos desenvolvimentistas tem sido útil para um fragmento influente da elite. Justificou historicamente a captura do Estado por grupos interessados em barrar concorrentes e financiar ineficiências à custa do contribuinte.

O ex-presidente Lula começa a enxergar uma solução na saída pela esquerda. Ele sabe que enveredar por esse caminho causará a explosão imediata da gestão Dilma, o que ofereceria ao PT três anos para tentar reconstruir-se no local mais confortável de figurar num período de recessão e tumulto político: a oposição.

Tal desfecho ainda daria a Lula o discurso da “vítima de golpismo”, de quem tombou ao defender os pobres contra os ricos. O sacrifício de Dilma, desde que dentro desse roteiro, passa a ser cada vez mais vantajoso num cálculo frio e desapaixonado, como o ex-presidente sempre praticou.

Os desenvolvimentistas, em suma, voltaram a ter a sua utilidade, embora continuem errados.
 Vinicius Mota

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

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Brasil: sem livro novo na escola

Na última edição da Flip, em julho, as entidades do livro criaram e assinaram o manifesto Brasil, Nação Leitora, em defesa da manutenção dos programas governamentais de compras de livros. Na época, programas como o das compras para escolas e bibliotecas do governo de São Paulo já estavam suspensas e o Programa Nacional Biblioteca na Escola (PNBE) estava no balança-mas-não-cai. 

Em agosto, o secretário-executivo do Ministério da Educação, Luiz Cláudio Costa, anunciou em uma reunião na qual estiveram presentes os presidentes das entidades do livro, que o programa estava suspenso em 2015 e que o PNBE Temático 2013, estimado em R$ 26 milhões, e o Pacto Nacional pela Alfabetização na Idade Certa (Pnaic) de 2014 (R$ 100 milhões), ambos já contratados, mas ainda não executados, não deverão deslanchar na sua totalidade. 

Esse cenário levou as entidades a criarem uma petição pública para manutenção dos programas governamentais de incentivo à leitura e alfabetização. 

Visitantes da Bienal, que segue em cartaz até o próximo dia 13, poderão assinar digitalmente o documento na Praça Nação Leitura, instalada no Pavilhão Verde (ruas N26/O22). 

O mundo de Dilma

Se errar é uma imperfeição humana, Dilma Rousseff duvida que possua esse defeito. Generosa, até se sujeita à admissão de remota possibilidade, mas apenas por uma necessidade emergencial de marketing: “Se cometemos erros” — disse ontem —, “e isso é possível, vamos superá-los e seguir em frente.”

Dilma se apresenta satisfeita com a vida em mundo fictício, no qual a convicção da realidade nunca se altera. Nele, “crise” é palavra proibida. Há “dificuldades” e “desafios”.

O que aconteceu, então? Por que o Estado quebrou? Tal percepção da vida real não é correta, sugeriu a presidente em discurso, remetendo ao seu nobre esforço: “O governo entendeu que deveria gastar o que fosse preciso para garantir o emprego e a renda do trabalhador, a continuidade dos investimentos e dos programas sociais.”

O convencimento da presidente sobre seus acertos confronta a percepção coletiva sobre a inflação, a recessão, o rombo nas contas federais e a quebra dos estados e prefeituras, cujo endividamento foi anabolizado por ordem direta da Presidência da República.

Ela tenta manter uma aparência de racionalidade, embora tenha sido quem mandou o Tesouro garantir a triplicação das dívidas estaduais. Entre 2011 e 2014, saltaram de 0,2% para 0,6% do Produto Interno Bruto.

Dilma sabia: pelo menos 50 desses financiamentos destinavam-se a estados já classificados pelo Ministério da Fazenda como impedidos de receber novos créditos. Um deles era o Rio Grande do Sul, estrela da bandeira petista, que hoje parcela o pagamento do funcionalismo a partir da faixa de R$ 600 mensais. É prelúdio de algo previsto para acontecer em outros estados.

Não há vestígio de um terço desse novo endividamento, contratado no último triênio. Foram torrados R$ 30 bilhões, o equivalente ao déficit previsto no Orçamento da União para 2016.

O dinheiro desapareceu na folha de pagamentos, contou o ministro Joaquim Levy a deputados, na semana passada. A despesa de pessoal dos governos estaduais cresceu 54% nos últimos três anos. Passou de R$ 185 bilhões, em 2011, para R$ 284 bilhões, no ano passado.

Dilma, é óbvio, não tem culpa se os governadores aumentaram dívidas numa velocidade dez vezes maior que o crescimento da receita líquida em termos reais — ou seja, descontada a inflação.

É certo, no entanto, que a presidente estimulou-os. Abriu a porteira da Fazenda e concedeu-lhes garantias do Tesouro Nacional.

Para tapar buracos da má gestão, ela enunciou ontem nova tributação: “Alguns remédios são amargos, mas indispensáveis.” Significa que a conta será paga, principalmente, pelos mais pobres cujos bolsos foram devastados, na última década e meia, pelo aumento de 14 pontos percentuais na carga tributária.

Pobres já destinam, obrigatoriamente, 32% de sua renda mensal ao pagamento de tributos ao Estado, informa o Ipea, do Ministério do Planejamento. Devem perder ainda mais.

A anarquia fiscal parecia superada desde o final dos anos 90. Ironia da história: acabou restaurada sob gerência de uma presidente com diploma de economista e dona de certeza granítica sobre a perfeição e a nobreza de seu governo.

José Casado

Descaso com os brasileirinhos

Não existirá justiça enquanto um homem com uma faca ou uma arma puder destruir aqueles que são mais fracos do que ele
Isaac Bashevis Singer (1902 – 1991)
Rezemos, cada um a seu modo, por Aylan Kurdi morto na praia, que rezar é muito mais fazer parte do mundo. Mas na prece não esqueçamos que outros meninos em todo mundo, em cada minuto, também morrem e sofrem sob os governos sedentos de desenvolvimento a qualquer custo e cegos à desgraça. Governos, mesmo legitimamente eleitos, que infelicitam o futuro dessa criançada no nascedouro.

Chore por Aylan e seu irmão Galip, mas não se esqueça dos meninos e meninas do Brasil. Os pequenos sírios fugiam de casa para encontrar um futuro; os brasileirinhos, mortos principalmente por balas, não fugiram de casas destruídas, muitas vezes estavam brincando na porta de casa. Só tiveram o azar de nascerem num país de paz cínica que não dá segurança aos cidadãos, onde a guerra entra porta adentro, ou janela, dos seus lares.

É cretinice demais derramar tantas lágrimas para se dizer parte do mundo pela morte de Aylan, quando as nossas crianças são assassinadas, estupradas, violentadas, sem que por um momento se tornem como Aylan símbolo de mudanças.

A Europa se comoveu pelo cadáver de uma criança na praia, que fugiu da guera. Seus cidadãos estão obrigando aos governos, legitimamente eleitos, a reverem a questão dos refugiados.

As crianças brasileiras, e são milhares, como Cristian Andrade morto esta semana em Manguinhos por uma bala perdida (?), se tornam mártires de uma causa perdida. Em nenhum momento merecem a dignidade de símbolos, nem tantas palavras, para mudar a violência. Serão apenas um número a mais na estatística para exibição de governos, que não atacam a violência com a mesma garra com que assaltam os cofres públicos. 

O martírio infantil no Brasil apenas é capa de revistas parece não ter o mesmo poder de sensibilizar a sociedade a ponto de fazer a mudança de dar um basta ao infaticídio de milhares a cada ano.

Coquetel de formicida

Este país, a cada dia que passa, vai se tornando um competidor favorito na disputa do Campeonato Mundial das Discussões sem Pé nem Cabeça. A contribuição mais recente das nossas altas autoridades para esse novo título nacional é o palavrório enfezado, tolo e pretensioso que se armou em torno da seguinte questão: a campanha pela reeleição da presidente Dilma Rousseff foi feita dentro ou fora da lei? A resposta, pelo jeito que tomaram as coisas até agora, é que não pode haver resposta, pois não vale fazer a pergunta. Segundo o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, o homem que deveria procurar saber se aconteceu ou não aconteceu algo de errado na história, "não interessa à sociedade" discutir essas "controvérsias"; é inconveniente, a seu ver, que a Justiça se meta nisso, pois a eleição já foi, os vencedores devem "usufruir as prerrogativas de seus cargos" e os derrotados devem se preparar para a próxima. Não será possível, assim, saber se houve ou não houve algum crime — pela vontade da Procuradoria, não deve haver investigação, sem investigação não há prova e, sem prova, ninguém pode dizer que houve crime. O passado passou. Ficam arquivadas as dúvidas. É melhor não fazer perguntas, pois há o risco de se encontrar respostas.


A campanha para a reeleição de Dilma Rousseff e do seu entorno é uma viagem completa no trem fantasma da política brasileira. Apareceram a empregada doméstica que, pela contabilidade oficial, recebeu 1,6 milhão, mas não sabe que recebeu, o motorista que é sócio de empresa prestadora de serviços à candidatura, o pobre-diabo que é promovido a empresário para passar notas fiscais com temperatura de 10 graus abaixo de zero. Há uma indústria gráfica que recebe mais de 20 milhões de reais da campanha, mas não tem máquinas gráficas, nem funcionários, nem sede social. Há de tudo — e ao mesmo tempo não há nada, pois, sem uma decisão judicial, os fatos que ocorreram não produzem efeito algum. Por via de consequência, como diria o doutor Aureliano Chaves, não se pode dizer que a presidente é culpada e não se pode dizer que é inocente; ficamos apenas com uma discussão de hospício. Já seria bem ruim se a questão ficasse só nesse porre mental, mas é pior. Antes e além da rixa entre a PGR e a Justiça Eleitoral, o que existe aqui é um caso para a vara de falências do mundo moral.

É bem simples. Todos falam, falam e falam, e ninguém toca no ponto de onde realmente vem o curto-circuito: como pode haver limpeza numa campanha presidencial que recebe contribuições oficiais, contabilizadas e pagas em moeda corrente, de empreiteiras de obras públicas, fornecedores do governo e toda a tropa de empresas que dependem de licenças, autorizações ou favores governamentais para sobreviver? Dá para levar a sério, sinceramente, o argumento mais sagrado de todos os candidatos a algum cargo eleitoral quando lhes perguntam quem financiou sua campanha? "Ah, bom, a doação que recebemos foi perfeitamente legal", dizem eles. "Está tudo declarado, direitinho. A lei permite. Qual é o problema?" O problema é que a contribuição legal é feita basicamente com dinheiro ilegal. Em português claro: dinheiro que vem da corrupção. Esqueçam-se a empregada, o motorista, a gráfica etc. A flor do mal está na origem contaminada das doações — se elas são fruto do crime, a coisa toda vai para o diabo. Eis aí o verdadeiro coquetel de formicida que envenena as eleições brasileiras.

No caso da eleição presidencial de 2014, a campanha de Dilma Rousseff recebeu dinheiro de empresas dirigidas por criminosos processados e condenados por corrupção ativa na 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba. Não há mais nada. a provar quanto a. isso: o processo tem 28 réus confessos, a maioria deles ligada a empreiteiras de obras públicas que declararam ter feito doações à candidata oficial. Só uma delas, a Camargo Corrêa, vai devolver 700 milhões de reais ao Erário, após reconhecer que ganhou ilicitamente essa importância, pelo menos, em seus contratos com o governo. Será que Dilma não sabia nada sobre a origem dos 350 milhões de reais que gastou para se reeleger? Levou um susto quando soube? Nunca ouviu falar em empresas que roubam do governo e fazem contribuições de campanha? Naturalmente, não é só o PT que age assim — todos os seus adversários se servem dessa mesma rapadura. Mas os adversários não foram eleitos para a Presidência da República em 2014 — o problema concreto é de quem está sentado, hoje, num cargo ganho com a ajuda de dinheiro que veio do crime.

O que faz você se indignar?

Uma imagem, dizem por aí, vale mil palavras.

Sem dúvida esse é o caso da foto do menino Aylan, de apenas três anos, vítima de afogamento quando tentava imigrar com sua mãe e seu irmão para a Grécia. A inocência da criança é inquestionável; a injustiça também.

As reações à morte de Aylan não se fizeram esperar. Os líderes políticos europeus mudaram o dicurso, mas a mudança é tanto hipócrita como tardia. Apenas no dia 14 de setembro apresentarão uma nova proposta para lidar com os refugiados. E certamente não incluirá a todos os governantes europeus. Enquanto isso, novas iniciativas cidadãs vão surgindo, às margens dos governos. Em vários países, grupos de europeus dão mostras de solidariedade e de ajuda. A página de ativismo Avaaz coletou mais de um milhão de assinaturas virtuais em um abaixo-assinado publicado em várias línguas com o mesmo texto, conclamando a União Europeia a mudar sua política frente aos refugiados.

Aqui no Brasil não faltaram mostras de indignação, simpatia e vergonha alheia. Mas também logo surgiram as reclamações dos internautas: nós também não temos os nossos Aylans? Por quê essa indignação importada e seletiva?

Primeiro, porque Aylan é símbolo de sofrimento que poderia ter sido evitado. Não é fruto do destino, do infortúnio, da má sorte. Poderia ter sido evitado se houvessem mais esforços para acabar com o conflito na Síria. Poderia ter sido evitado se os governantes europeus não tivessem fechado os olhos para o drama dos refugiados. Em segundo lugar, Aylan é símbolo da injustiça e das disparidades econômicas e sociais que separam os países ricos dos pobres, das quais as vítimas mais inocentes são justamente as crianças.

Mas aqueles que reclamam da falta de indignação com os outros “Aylans” têm razão. A indignação é sempre seletiva, e a mobilização contra a injustiça também.

Vanessa dos Santos Silva, 7 anos, Corumbiara, 1995

No mês passado, cumpriram-se vinte anos do massacre de Corumbiara, em Rondônia. Mais de dois mil trabalhadores sem terra haviam invadido uma fazenda, onde estavam acampados. No conflito durante o cumprimento da ordem judicial de reintegração de posse, doze pessoas morreram. Entre elas, a menina Vanessa dos Santos Silva, de 7 anos, morta com um tiro nas costas.

De acordo com a Comissão Pastoral da Terra, apenas no primeiro semestre deste ano ocorreram 23 assassinatos relacionados com conflitos no campo, sendo a maioria deles no Pará e em Rondônia, justamente os lugares dos piores massacres da década de 1990.

Eduardo de Jesus Ferreira, 10 anos, Rio de Janeiro, 2015

Em abril deste ano, durante operação da Polícia Militar no Conjunto de Favelas do Alemão, o menino Eduardo de Jesus Ferreira morreu atingido por uma bala na porta da sua casa. A investigação comprovou que o tiro saiu de um fuzil da PM.

De acordo com a ONG Rio da Paz, além de Eduardo pelo menos outras 13 crianças foram mortas durante tiroteios entre policiais e traficantes desde 2007. Chamadas de vítimas de “balas perdidas”, como se tivessem apenas tido azar por estar no lugar errado na hora errada, na verdade são vítimas da incompetência, da injustiça e da indiferença da sociedade.

O relatório da ONG Anistia Internacional, “Você matou meu filho!: homicídios cometidos pela Política Militar na cidade do Rio de Janeiro”, publicado recentemente, apresenta dados impressionantes sobre as execuções extrajudiciais realizadas por policiais. Dá atenção especial para aquelas ocorridas entre agosto de 2014 e julho deste ano na Favela do Acari. Dos dez casos documentados, em quatro as vítimas já estavam feridas ou rendidas quando foram executadas.

A Favela do Acari é a mesma que ficou famosa em 1990, quando de lá desapareceram 11 jovens. Apesar das buscas intensas, dos protestos e das suspeitas do envolvimento de policiais no sequestro e assassinato dos jovens, os corpos nunca apareceram. Em 1993, Edimea da Silva Euzebio, uma das líderes do grupo Mães de Acari, foi assassinada no meio da rua quando buscava informações sobre o filho desaparecido.


O que faz você se mobilizar?

Quem participa de movimentos sociais sabe que não há fórmula mágica para chegar à indignação, e nem para conseguir que a sociedade dê o passo crucial da indignação à ação. Também sabemos, no entanto, que quando uma imagem simboliza de forma nítida a injustiça e o sofrimento de inocentes, como a foto de Aylan, há uma onda de indignação que pode ser aproveitada para alcançar mudanças que antes não seriam possíveis. Na era da Internet, essa imagem percorre o mundo com uma velocidade inimaginável à época dos massacres de Acari ou de Corumbiara.

No entanto, mesmo essa indignação global, potencializada pelas novas tecnologias da comunicação, tem prazo de validade. O trabalho contínuo e árduo daqueles que ficam ao lado das vítimas antes e depois das tragédias é o verdadeiro motor de mudanças duradouras.

O grande desafio dos que hoje choram pelos Aylans, daqui e de lá, é dar continuidade à mudança.

Dilma teme o povo

Um muro metálico instalado para isolar os cidadãos durante o desfile pelo Dia da Independência, na última segunda-feira, representa com precisão a que ponto chegou o isolamento de Dilma Rousseff e de um governo rejeitado pela esmagadora maioria dos brasileiros. O fiel e decadente retrato do Sete de Setembro presidencial mostrou ao país uma chefe de governo que já não governa, uma líder sem autoridade, uma comandante que já não comanda coisa alguma e tem medo do povo.
A estrutura formada por placas de aço, apelidada de “Muro da Vergonha” pelas pessoas que tentavam e foram impedidas de acompanhar a parada cívico-militar em Brasília, foi construída sob medida com o intuito de preservar Dilma de vaias, panelaços e qualquer tipo de manifestações que se tornaram corriqueiras nos últimos tempos. Trata-se, afinal, uma presidente que não pode sair às ruas ou se pronunciar sem ouvir em alto e bom som a indignação dos brasileiros contra o estelionato eleitoral do qual foram vítimas.

Como se não bastasse ter isolado a população e restringido os lugares nas arquibancadas para convidados, Dilma não teve coragem de convocar a tradicional cadeia de rádio e televisão, por meio da qual os presidentes da República historicamente se dirigem à nação em datas comemorativas. O Planalto optou apenas por veicular nas redes sociais um vídeo curto com um depoimento de Dilma, sem alarde, para que os panelaços não se repetissem, o que dá a dimensão do acuamento do atual governo.

Nunca antes neste país, como costuma dizer Lula, um “muro da vergonha” separou os cidadãos do presidente do país na parada de Sete de Setembro. Reeleita graças às mentiras, aos ataques desqualificados contra os adversários e ao dinheiro sujo desviado da Petrobras, Dilma enganou a população e agora não tem grandeza moral para olhar nos olhos dos brasileiros. Não se trata de esboçar um pífio “mea culpa” sem nenhuma convicção ou de jogar sobre os ombros do Congresso Nacional a responsabilidade por encontrar uma solução para o descalabro nas contas públicas – mas de reconhecer que se perderam as condições políticas e a credibilidade necessárias para governar.
Sob o comando de Dilma e do PT, a população continuará não se sentindo representada. Por mais que se construam muros de proteção, a presidente da República jamais estará a salvo dos protestos cada vez maiores e que pedem a intervenção constitucional do impeachment. Como se viu no Sete de Setembro, mesmo impedidas de assistir ao desfile, muitas pessoas mandaram seu recado por meio do já tradicional Lula inflável batizado de “Pixuleco”, desta vez acompanhado por um outro boneco que retratava Dilma com um nariz de Pinóquio – uma alusão provocativa às mentiras contumazes contadas pela presidente. 

A experiência histórica ensina que muros são bons quando derrubados, jamais quando construídos. Não é erguendo barreiras, afastando a população ou se encastelando no Palácio do Planalto que Dilma Rousseff conseguirá recuperar a credibilidade e a autoridade moral que se esvaíram em meio ao descalabro e à corrupção sem fim do lulopetismo. O Brasil acordou e está de pé para exigir outros caminhos. Somente um novo governo será capaz de derrubar os muros da vergonha e fazer ruir o castelo de cartas construído pelo PT nos últimos 13 anos.

O cafetão dos pobres


É incrível! Não bastou a Lula ser o mentor intelectual — santo Deus! como essas palavras não combinam associadas a esse ogro da ética! — de um modelo que quebrou a economia brasileira. Não bastou a Lula ter transformado em consumo e em cocô, em seu próprio país, uma janela de oportunidades que poderia ter sido, de fato, o passaporte de milhões para a uma vida melhor; não bastou a Lula ter feito de suas jumentices, em terras nativas, uma categoria de pensamento, com o anuência de setores do empresariado movidos ou por cupidez específica ou por burrice genérica. Ele quer levar adiante o seu legado. Agora ele sai dando conselhos energúmenos América Latina afora.

No Brasil, ninguém mais quer ouvir um dos principais beneficiários de sistema tão iluminado. Sim, o modo que Lula descobriu de governar criou o desenvolvimento sustentado e a riqueza de longuíssimo prazo para os Lula da Silva, por exemplo. Ele próprio, só em palestras, faturou R$ 27 milhões em quatro anos. Isso é que é crescimento de patrimônio sem precedentes! E notem que não me apego a informações não confirmadas sobre sinais exteriores de riqueza dele próprio e da família. Fico com o que está declarado. Por aqui, Lula é carta fora do baralho, é página virada, é morto que anda, é zumbi.


Mas, ora vejam!, o homem está participando ativamente da campanha eleitoral na Argentina. Empresta seu apoio a Daniel Scioli, o candidato de Cristina Kirchner à sua sucessão. Não por acaso, também a Beiçola de Buenos Aires empurra a economia de seu país para a inviabilidade, mobiliza milícias truculentas contra a imprensa, está atolada em escândalos, enriqueceu notavelmente no poder…

Fosse pouco, seu governo tem nas costas uma suspeita bastante verossímil de assassinato. Refiro-me, claro!, ao promotor Alberto Nisman, que investigava a participação do governo no esforço de esconder as evidências de que o Irã estava por trás do atentado contra a sede da Associação Mutual Israelita Argentina (Amia), em 1994, quando uma explosão deixou 85 mortos e provocou danos estruturais em outros 9 edifícios no bairro Once. Adiante.

Lula foi falar porcaria também no Paraguai. Durante um evento, nesta terça, naquele país, comemorando os 10 anos do programa Tekoporã, que distribui subsídios a 600 mil pessoas por meio de um cartão, afirmou que o combate à pobreza deve ter prioridade sobre os investimentos em infraestrutura. Jogou ao vento, entre outras teorias relinchantes, o que segue:

“É verdade que eu poderia fazer uma ponte, uma estrada, mas entre cuidar de 54 milhões de pessoas que estão passando fome e fazer uma estrada, a estrada pode esperar que essas pessoas comam, fiquem fortes e ajudem a construí-la. Se fizesse a estrada, essas pessoas morreriam de fome antes de vê-la terminada. É muito difícil encontrar alguém no setor de Fazenda ou Tesouro que esteja disposto a dar essa contribuição aos que estão abaixo. Não é uma política de esmola, de compensação, é um direito”.


Disse mais: “Antes de eu chegar à Presidência, os pobres eram tratados como se fossem problemas. E hoje eu digo que cuidar bem dos pobres é a solução para acabar com a miséria na nossa América do Sul”.

É uma soma formidável de mentira com estupidez. Em primeiro lugar, não havia 54 milhões de famintos no Brasil quando ele chegou à Presidência. A fome já era um problema residual — como é ainda hoje, nos grotões. Em segundo lugar, programas sociais do governo Fernando Henrique Cardozo, que Lula tomou para si, atendiam cinco milhões de famílias. Em terceiro lugar, o seu pensamento é a expressão do lixo intelectual que inviabiliza países mundo afora, conduzidos por esquerdistas ou populistas.

Não há contradição nenhuma entre investir em infraestrutura e combater a fome. Por que o Bolsa Família seria incompatível com um programa decente de concessões e privatizações na infraestrutura? Inferir que o aporte de recursos para esse setor serve apenas para enriquecer empresários e não tem efeitos sociais é de um cretinismo avassalador.

Em 2014, o Bolsa Família custou R$ 26,6 bilhões aos cofres públicos. Um ponto percentual de elevação de juros custa R$ 15 bilhões. Vejam a que altura o genial modelo de gastos públicos sem limite — sem pensar muito na infraestrutura, né, Lula? — levou a Selic no país. E não! Não foi para satisfazer a sanha dos banqueiros — não que eles fiquem infelizes, claro… Esse é o resultado das escolhas feitas pelo petismo.

Não há contradição entre investimento em infraestrutura e combate à pobreza. Até porque, vamos convir, não é mesmo?, o petrolão não foi criado em razão dos programas sociais levados adiante pelo petismo. O mesmo lulismo que expandiu o Bolsa Família foi ainda mais generoso com o Bolsa Empreiteiro, o Bolsa BNDES e, em algumas circunstâncias, o Bolsa Banqueiro.

Aí está, aliás, um dos enganos que se podem cometer sobre o PT, já escrevi centenas de vezes. Do socialismo, herdou as taras autoritárias e a tentação de se estabelecer como partido único. E só. No mais, usou o razoável controle que tinha, e tem, de movimentos sociais e a capacidade de seu demiurgo de se comunicar com as massas para regalar alguns potentados da economia nativa. Enquanto Lula distribuía Bolsa Família, ajudava alguns eleitos a arrecadar alguns bilhões em Banânia. O petismo é o escarro do populismo de extrema direita.

O PT só cobrava o valor da corretagem. O sistema de que Lula fala, no fim das contas, é aquele que faz de seu partido o cafetão dos pobres. Não por acaso, o país se transformou num bordel de bandoleiros que cobram e pagam propina.

Eis o modelo que Lula quer vender à América do Sul.
Reinaldo Azevedo

Assalto a mão armada


Tanto faz se estão usando gazua, pistola ou punhal. A verdade é que ao propor a elevação do imposto de renda das pessoas físicas, o ministro da Fazenda e sua quadrilha assumiram a condição de assaltantes. Porque o assalariado não tem como escapar do assalto. É descontado em folha ou perde-se no emaranhado de declarações que só os contadores entendem, esbulhado por um poder público que não retribui as contribuições com serviços e demais obrigações.

As empresas sempre encontrarão mecanismos para aliviar a agressão, descontando despesas particulares de seus diretores e utilizando artifícios que não raro fazem o patrão pagar menos do que o empregado. Automóveis, mansões, refeições, viagens e tudo o mais eles conseguem abater, mas quem vive de salário que se dane.

Junte-se a redução de direitos trabalhistas, a elevação do custo de vida, as demissões em massa e as incertezas de todo amanhecer para que se evidencie ter o governo acabado. Não dá mais para continuar. Poderá o cidadão comum, envolto por mil dificuldades, taxas e impostos, continuar emprestando apoio à incompetência dos governantes?

Como faltam três anos e quatro meses para o encerramento dessa farsa, outra saída não existe: o impeachment da presidente da República, símbolo maior das agruras que nos assolam. Fosse feita nova pesquisa, que aliás não demora, menos de sete por cento dos consultados optariam pela permanência de Madame e seu governo. Apesar da conturbação a ser causada pelo trauma, melhor assim do que assistir as instituições postas em frangalhos.

Quanto à recuperação, fica a dúvida: quem, organização, movimento ou partido, se disporia a enfrentar o desafio? “Todo o poder ao Judiciário!” virou coisa do passado. “Militares, nunca mais!” tornou-se imperativo categórico. “Tudo pelo social” não deu certo. Muito menos copiar o “New Deal” dos americanos ou aguardar um inviável “Plano Marshall”. Do fundo do poço, o anseio é por luz e calor.

Deveria a presidente Dilma ter presente a lição que Diógenes um dia passou em Alexandre. Oferecendo o que ele quisesse em matéria de riqueza, joias e poder, postado na frente do barril onde o filósofo morava, ouviu o futuro dominador do mundo: “Majestade, não me tires o que não me poder dar”. É que Alexandre se postara entre Diógenes e o sol…

Afinal, o vice Michel Temer apoia ou não o aumento de impostos? Para os líderes do PMDB, jura que não. Diante da presidente Dilma e de seus ministros, aceita proposta…

A crise

Uma casa dividida contra si mesma não subsiste
Abraham Lincoln, 16 de junho de 1858


Concordo que a atual crise é a mais grave que já tivemos. E vou além ao afirmar que o Brasil, por sua cultura e estrutura política, não está preparado para administrar uma crise dessas proporções. Isso porque para enfrentá-la e resolvê-la seria necessário construir uma resposta sistêmica que unificasse os principais atores políticos num projeto de ação dotado de lucidez, vontade política e audácia.

Houve uma grande oportunidade de preparar o Brasil para enfrentar o enorme desafio que se anunciava: a eleição presidencial de 2014. Mas o PT não podia perdê-la, pois precisava de mais um mandato para completar seu domínio e controle sobre o sistema político. Em seus três mandatos o PT teve condições legais e recursos para iniciar e dar curso à implantação do seu projeto de poder, mas não teve tempo para concluí-lo.

Enquanto era um partido pequeno, que se auto-exilava politicamente pelo radicalismo, as crises eram resolvidas por negociações entre os partidos tradicionais. Diante da crise, a resposta era o “pacote” e o apelo à união nacional, um guarda-chuva conceitual aceito por todos e que a todos retribuía. Assim foi com o Plano Cruzado, com o governo Itamar e, em 1994, com o Plano Real. Totalmente diferente é a situação atual.

Enquanto esteve fora do poder o problema político típico desta crise não se apresentava nem para ele nem para o País. Com o PT no poder essa união nacional se tornou muito difícil. Ela é importante para os empresários e partidos tradicionais. Não tem a mesma importância para o PT.

Com a crise o PT perdeu o rumo: não pode mais praticar a única forma de governar que conhece e aceita e é forçado a engolir um remédio amargo, na menor porção que lhe for possível, sem deixar de lembrar ao povo que assim que a situação melhorar voltará a fazer mais do mesmo.

Conquistou o poder, na eleição de 2002, quando e porque Lula promoveu o encontro da esquerda com o marketing político e tranquilizou o eleitorado com a Carta aos Brasileiros. Só agora, passados 13 anos, está sendo cobrada do PT a promissória que Lula entregou em 2002. A Carta era uma forma de abrir a porta do sistema político para o PT, não uma “tocante” conversão ao mercado, à globalização pós-socialista e à democracia representativa, como muitos entenderam.


Logo após a eleição de 2014 as nuvens de tempestade começaram a se juntar. À crise moral – de dimensão até então insuspeitada – somaram-se a crise resultante do descontrole econômico, a crise política, a crise nas relações sociais e a decorrente do grau de desconfiança na solidez das instituições e na racionalidade das decisões. Ao agregar tantas dimensões, a crise aumentou incrivelmente o número e a diversidade dos seus protagonistas (players) e a gravidade dos problemas e desafios a resolver.

O PT está imobilizado diante da crise porque a solução que se propõe para ela colide com seu projeto político, é radicalmente diferente dos projetos de PMDB e PSDB, por implicar mudanças substanciais e radicais no sistema político – na Constituição, nas relações sociais, econômicas e políticas do País.

Esse projeto se propõe a emascular a democracia representativa, fragilizando-a com organizações com funções representativas, aparelhadas e politicamente alinhadas ao governo e ao partido (projeto de decreto presidencial 8.243/14); a controlar os veículos de comunicação social (projeto de regulamentação das comunicações); a fazer alterações constitucionais como reeleições sucessivas; a regulamentar espaços privados dos cidadãos com imposição de valores, interferência nas funções da família e controle político da educação; criar o financiamento público exclusivo das eleições.

Que o plano político do PT segue essas linhas atestam os projetos com que mais se identifica. Nenhum deles, entretanto, poderá ser desenvolvido sem o controle do Estado. Não será recuperando a economia nos marcos do capitalismo e pelas regras do mercado que esses objetivos serão atingidos.


O próprio comportamento não comprometido da presidente com as medidas ortodoxas necessárias; sua evidente má vontade com o ministro da Fazenda; sua pressa em reafirmar que a crise não passa de dificuldade passageira; sua absoluta negativa em cortar despesas públicas; sua insistência em acenar não para o aperto, e sim para a retomada do crescimento (sic) e dos projetos sociais indica claramente que o projeto de poder não foi engavetado.

Apesar dos índices recordes de rejeição, o governo ainda tem fichas para permanecer na mesa de jogo. Se até agora não pôde recuperar as condições que teve e perdeu, consegue ao menos usar seu “poder de veto” e a caneta das nomeações para conquistar apoios, bloquear jogadas adversárias, interferir no timing do processo, ao mesmo tempo que resiste furiosamente a reduzir despesas.

A crise econômica não leva o PT a repensar criticamente seu modelo e a crise venezuelana, como horizonte possível, ao que tudo indica, não o assusta. O que está em jogo é um conflito político que o PT evita revelar: a disputa entre uma política nos marcos da Constituição e dos avanços econômicos obtidos na gestão do presidente FHC e uma política de natureza socializante, pós-URSS, nos moldes do que ocorre em vários países da América Latina.
Não há, pois, entre o PT e a classe política dos partidos tradicionais um valor compartilhado e de maior hierarquia que pudesse estabelecer a base para um acordo de alto nível ante a crise. Quando se expurgam as ingenuidades e ilusões, o que há são duas visões de País e da crise que se excluem mutuamente.

Por essas razões acredito que a crise é maior do que a capacidade de nosso sistema político instável resolvê-la satisfatória e tempestivamente. Entre a pressão das ruas e o salve-se quem puder da classe política, não encontraremos o caminho para sair bem dessa crise.


Francisco Ferraz

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

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Corrupção: crime de alta traição

Há uma crença generalizada na América segundo a qual a gripe, a varíola e a corrupção chegaram junto com as grandes descobertas.

Gerações e gerações de americanos têm convivido com a corrupção como quem vive diariamente com o cumprimento das funções orgânicas do corpo humano. Pois ser poderoso e corrupto tem sido quase tão inevitável quanto comer e respirar.

A corrupção faz parte do decálogo das promessas de dois séculos.


Enquanto corria atrás da democracia, a América não conseguia encontrar tempo a não ser para lamentar, abstratamente, o quanto a corrupção fazia parte de sua existência.

Otto Pérez Molina, ex-presidente da Guatemala, experimentou aquilo que muitos devem ter sentido durante as grandes turbulências da época do Terror, quando se dormia em um palácio e se acordava em uma cela.

E, se foi assim, é porque a corrupção deixou de ser um mal inevitável. Assim como deixou de ser uma parte das necessidades orgânicas dos políticos, para se transformar em um crime de alta traição que afeta igualmente a todos os cidadãos. No México, as crianças cresceram aprendendo que “quem não engana, não avança”.

E na Espanha, todos os casos de corrupção envolvendo os catalães do Governo de Convergência Democrática, além dos do PSOE e do PP no restante do país, lançando contra as cordas aquilo que foi, em seu tempo, um processo bem-sucedido de transformação política, constituem, agora, sinais inequívocos de uma doença social, a mesma que neste momento sofre, na América, uma curiosa transformação.

Antes, a corrupção era um problema isolado, quando alguém se aproveitava de seu poder cometendo abusos, roubando, apropriando-se e enfiando no próprio bolso o que não era seu, prejudicando, dessa forma, toda a população.

Hoje, porém, é causa direta, não apenas da perda do vigor moral de um país, mas também da má qualidade da construção de estradas, das mortes por causa de medicamentos vencidos, do ensino ruim nas escolas e da incapacidade de romper com o círculo vicioso da pobreza estrutural.

No Brasil, a corrupção já não é mais um crime individual. Constitui, efetivamente, um golpe de Estado contra a moral e os princípios da população brasileira.

O mais surpreendente, hoje, porém, é o efeito contagioso da punição indiscriminada que se exige que seja aplicada contra os corruptos.

Pois, agora, a corrupção se tornou a questão maior para milhões de pessoas que nunca saíram da pobreza extrema. Agora, ela é vista nos pilares que sepultaram milhares de cidadãos no terremoto de 1985 no México. E está presente, também, no sentimento de saturação de um povo que vive sob uma democracia formal na qual vigora muita injustiça e onde é muito limitada a vontade real de superar as disparidades sociais.

Esse salto qualitativo, que estabelece uma diferença entre a corrupção para os corruptos e a corrupção como um crime de alta traição, é um fenômeno relativamente novo.

O problema mais grave é que a luta contra a corrupção na América Latina não chega a ser exatamente uma primavera árabe. E que, agora, a América, tão frágil institucionalmente, depende do poder judiciário, o qual, em que pese o conjunto de citações universitárias a Montesquieu, esteve sempre a serviço do primeiro poder. Ou seja: os magistrados recebem as esmolas que lhes são dadas pelos parlamentares a serviço do poder Executivo.

Por essa razão, o grande perigo, agora, reside em que, uma vez iniciado o resgate moral, se ignore que não se trata apenas de um problema de punição, mas também de estrutura legal, e não se assegure que aquilo que hoje derruba presidentes, acalenta esperanças e anuncia primaveras não se torne futuramente a melhor maneira de voltar a povoar as Américas com novos pinochets.