quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Linhas de desmontagem

Nada do que Renan Calheiros levou a Dilma, como proposta contra a crise, tem a ver com a crise ou pode nela influir para dissolvê-la, em seu aspecto econômico ou no político. Não é mais do que um amontoado de manjadas propostas sem nexo entre si, e quase tudo sujeito a fácil identificação com intenções subalternas, em benefício de diferentes áreas de poder econômico –logo, também financeiro. Se fossem propostas isentas de interesses escusos, não seria Renan Calheiros a levá-las à Presidência.

As fanfarras e a louvação com que a própria Dilma recebeu Renan, e as tais propostas, explicam-se por utilidades que independem do teor do presente. Aos dois lados convinha a reaproximação.

Renan não é político que viva de costas para o poder. Dilma precisava da contribuição de Renan para encarar no Senado as bombas de Eduardo Cunha aprovadas na Câmara. De quebra, ter Renan em seu círculo é distanciá-lo de Eduardo Cunha e atrapalhar a recente fraternidade a ele dedicada por José Serra, Aécio Neves e outros do opositor PSDB. Afora isso, em um dizer antigo, é questão de estômago.

Mas talvez seja o caso de lamentar que as sugestões de Renan Calheiros não ofereceçam alguma utilidade contra a crise. O otimismo expresso por Dilma, com a ideia de que "vivemos uma transição e em breve vamos retomar o crescimento", não encontra nem o mínimo apoio em parte alguma da realidade. Muito ao contrário, são dados objetivos, e não meras especulações do quanto pior mais impeachment, que sugerem estarmos no último estágio econômico e social em que ainda é possível deter a degringolada geral. E reverter os danos mais perigosos ou absurdos.

O país está parando. Os eventos e providências que Dilma anuncia, nas andanças para a pretendida e improvável reanimação do país, não tocam nos problemas da crise. Olham para um futuro impreciso e não condizem com o presente do governo. Mas são já os avanços do número de empregados, da remuneração do trabalho, de várias faces da ascensão econômica que regridem, que se perdem sob as vistas indiferentes dos mestres de ajustes que desajustam. A jornalista Flávia Oliveira, de múltiplas competências, formulou uma síntese precisa: "Crise é tempo de promover ajustes, não o desmonte".

Se o governo persiste no rumo do tal "ajuste fiscal", como se alheio ao que se passa com e no país, pode-se desde logo desacreditar que Dilma e Joaquim Levy consigam o tal ajuste fiscal que pensam buscar –quanto mais a retomada do crescimento, difícil e longa até em caso de êxito da atual suposição de política econômica e de governo.

Um plano para os planos

O pacote lançado pelo senador Renan Calheiros não deve tirar a economia do atoleiro, mas tem tudo para aumentar os lucros de alguns empresários. Um dos setores mais animados é o dos planos de saúde, cujo lobby se espalha como vírus nos gabinetes de Brasília.

A proposta prevê a “proibição de liminares judiciais que determinam o tratamento com procedimentos experimentais onerosos ou não homologados pelo SUS”. A ideia ganhou um apelido sugestivo no Congresso: “Emenda Qualicorp” (veja nota abaixo). Se virar lei, o paciente que paga a mensalidade na saúde e é abandonado na doença ficará impedido de recorrer à Justiça para garantir os seus direitos.

Os planos viram alvo de ações quando se recusam a cobrir cirurgias e tratamentos de alta complexidade. Por desrespeitar contratos, encabeçam os rankings de reclamação do consumidor. Se os pacientes dependessem só dos políticos, seria melhor rasgar a carteirinha e engrossar as filas dos hospitais públicos.

Um levantamento dos professores Mário Scheffer, da USP, e Lígia Bahia, da UFRJ, ajuda a explicar essa cumplicidade. Em 2014, os planos doaram R$ 54,9 milhões a 131 candidatos. Ajudaram a eleger a presidente da República, três governadores, três senadores e 29 deputados federais.

A Amil, recordista em doações, investiu R$ 26,3 milhões. A Qualicorp, que agora batiza um item da “Agenda Brasil” de Renan, deu R$ 4 milhões à campanha de Dilma Rousseff e R$ 2 milhões à de Aécio Neves.

Como ensinou um ex-diretor da Petrobras, não existe doação grátis. Em fevereiro, o deputado Ivan Valente propôs uma CPI para investigar abusos dos planos. O pedido foi engavetado por Eduardo Cunha, que recebeu R$ 250 mil da Bradesco Saúde.

O presidente da Câmara é um dos homens de ouro do setor. Em 2014, incluiu um “jabuti” na medida provisória 627, sobre tributação de empresas no exterior, para perdoar R$ 2 bilhões em multas aos planos. A anistia foi vetada pelo Planalto.

Bernardo Mello Franco

O dono da Qualicorp, José Seripieri Junior, é um dos melhores amigos de Lula. A intimidade é tamanha que Lula que levou toda a família para passar os dois últimos réveillons na mansão do empresário em Angra dos Reis, onde se divertiu com dona Marisa pescando no iate do dono da Qualicorp, 

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Não há mais governo


Novas delações premiadas complicarão o cenário. Prováveis acusados buscam mecanismos para garantir o foro privilegiado

O projeto criminoso de poder está com os dias contados. Deixa como legado escândalos e mais escândalos de corrupção, uma estrutura de Estado minada pela presença de milhares de funcionários-militantes, obras super-faturadas (e inacabadas) e um país paralisado. Sem esquecer que produziram a mais grave crise econômica do último quarto de século.

Ao longo de 12 anos, conseguiram organizar um aparato de proteção nunca visto na nossa história. Quiseram transformar as mais altas Cortes de justiça em braços do partido. Os meios de comunicação de massa foram sufocados pela propaganda oficial. Os bancos e as empresas estatais foram convertidos em correias de transmissão dos marginas do poder, como bem definiu, em um dos votos da Ação Penal 470, o ministro Celso de Mello. Não houve nenhum setor da sociedade sem que a presença do projeto criminoso de poder estivesse presente. Pelo medo, poder e omissão de muitos (empresários, jornalistas, políticos, intelectuais, entre outros), conseguiram impor a ferro e fogo sua política.

Deve ser recordado que, ao terminar seu segundo mandato, Lula era avaliado positivamente pela ampla maioria dos brasileiros. Diziam que seria candidato a secretário-geral da ONU ou a presidência do Banco Mundial. Tudo graças a sua sensibilidade social, aos êxitos econômicos e à preocupação com os mais pobres. Hoje, sabemos que no mesmo período o petrolão alcançou seu ápice e bilhões de reais foram roubados do Tesouro, no maior desvio de recursos públicos da história da humanidade. Os que denunciavam a pilhagem do Estado eram considerados enragés. Não foi nada fácil remar contra a corrente e enfrentar a violência governamental e de seus asseclas. Como em outros momentos da nossa história, já está chegando o dia de o passado ser reescrito. Muitos dos que se locupletaram vão se travestir em adversários ferrenhos do lulismo. Haja hipocrisia.

Vivemos a crise mais profunda dos últimos 60 anos. Em 1954, tudo acabou sendo resolvido em menos de três semanas, entre o atentado da Rua Tonelero (5 de agosto) e o suicídio de Getúlio Vargas (24 de agosto). No ano seguinte, em novembro, o país teve três presidentes, mas a crise foi logo solucionada. Em 1961, a renúncia de Jânio Quadros — que quase arrastou o Brasil a uma guerra civil — foi solucionada em duas semanas, com a posse de João Goulart, a 7 de setembro. Três anos depois, o mesmo se repetiu, e a 11 de abril, com a eleição de Castelo Branco pelo Congresso Nacional, foi resolvido o impasse político. Em 1992, o momento de crise mais profunda ficou restrito a três meses, entre julho a setembro, quando a Câmara autorizou a abertura do processo de impeachment do presidente Fernando Collor.

A crise atual é mais complexa — e mais longa. No tempo poderia ter uma data: a vitória de Eduardo Cunha, a 1º de fevereiro. A candidatura Arlindo Chinaglia empurrou Cunha para os braços da oposição — até então muito fragilizada, mesmo após o excelente resultado obtido no segundo turno por Aécio Neves. As revelações diárias sobre a extensão do petrolão ampliaram a crise, pois estabeleceu conexão entre o escândalo, as lideranças históricas do partido e o financiamento eleitoral, inclusive da campanha presidencial de 2014, em que propina virou doação legal.
As novas delações premiadas vão complicar ainda mais o cenário. Prováveis acusados estão, preventivamente, buscando mecanismos para garantir o foro privilegiado, temendo serem presos. E a instalação das CPIs do BNDES e dos fundos de pensão vão ter de devassar as relações do projeto criminoso de poder com a burguesia petista, aquela do capital alheio, do nosso capital, entenda-se.

O aprofundamento da crise econômica — com dados que tinham sido escondidos pelo governo, especialmente durante a última campanha eleitoral —, a divisão da base política congressual — inclusive de partidos que tem presença no governo, como a PDT e PTB —, as sucessivas derrotas em votações no Congresso relacionadas ao ajuste fiscal, a impopularidade recorde de Dilma, o desespero do PT, e o esfarelamento da liderança de Lula sinalizam claramente que não há mais governo. O que é bom e ruim. Ruim, pois este projeto de poder fará de tudo para permanecer saqueando o Estado; bom, porque os brasileiros romperam o feitiço de mais de uma década e, finalmente, entenderam o mal representado pelo lulismo.

Na última quinta-feira, era esperado que o PT reconhecesse os erros e apontasse para alguma proposta de negociação, de diálogo com a oposição. E mais, que buscasse apoio dos 71% de brasileiros que consideram o governo ruim ou péssimo. Não o fez. Satanizou a oposição. Associou 1964 a 2015. Tachou a oposição de golpista. Ironizou os protestos. Conservou a política do conflito, do nós contra eles. Isso quando estão isolados e sem nenhuma perspectiva, mesmo a curto prazo, de que poderão reconstruir sua base política.

A gravidade do momento e o autismo governamental obrigaram as oposições a se mexer. A necessidade de encontrar uma rápida saída constitucional para a crise é evidente. A sociedade civil pressiona. As manifestações do próximo dia 16 vão elevar a temperatura política. Quanto mais tempo permanecer o impasse, pior para o Brasil. Se 2015 já está perdido, corremos o sério risco de perdermos 2016 e 2017.

É inegável que Lula e o PT já estão de mudança para o museu da história brasileira. Mais precisamente para a ala dos horrores — que é vasta. Será necessário reservar um espaço considerável. Afinal, nunca na nossa história um projeto político foi tão nefasto como o do lulismo.

Marco Antonio Villa

A locomotiva de Ricardo

 Dei aulas no Middlebury College, em Vermont, Estados Unidos, e aproveitei a oportunidade para visitar Dick Moneygrand, que, como o escritor Saul Bellow, ali reside numa propriedade cercada de plátanos.

Fomos recebidos pelo velho amigo e sua mais recente esposa, a bela Claire Maranda, uma canadense francesa aparentada do meu ex-colega harvardiano Pierre Maranda. Foi de Claire que recebi a triste notícia da morte do amigo, ocorrida no dia 5 de julho. Notícia a ser sublimada por uma grave dose de uísque com a bênção de tio Silvio. Para ele, beber moderadamente era essencial na travessia deste vale de lágrimas.

— E o Brasil? — foi logo dizendo Moneygrand. — O que vocês fizeram dele?

— Triste... — respondi duplamente alvejado, pela morte e pela visão distanciada do meu país incapacitado pelo populismo e pelos conchavos movidos a incontroláveis ambições.
A crise do Brasil real tem como centro um grandioso papel (o de presidente da República) massacrado por uma péssima atriz

— Desequilíbrio em todos os setores supostamente racionais e pouco afeitos ao exercício da análise cultural. Fácil falar em remédios financeiros e fórmulas legais, pois, conforme sabemos — continuou Moneygrand. — a última barreira, o derradeiro inimigo, é sempre a cultura: o conjunto das opiniões e de modos de agir que comandam os nossos corações. Ganhamos a guerra contra a escravidão — disse. — Mas o credo igualitário até hoje tenta controlar a competição pelos mais diversos racismos. Suprima-se uma barreira, e outra logo surge, conforme dizia Lévi-Strauss.

— É impressionante como não temos a mais ínfima noção de conflito de interesse. E como ainda tentamos regular o conflito advindo da junção de igualdade e liberdade (acelerado pelas redes sociais que garantem um extraordinário anonimato e uma irresponsável agressão a quem quer que seja) por meio do “Você sabe com quem está falando?”: pelos elos pessoais, abandonando leis e instituições. É chocante como usamos óbvias manifestações de interesses ideológicos na tentativa de justificar atos lamentáveis. No Brasil, a “política” legitima o ilegítimo, dai a indignação relativa aos seus engravatados e gorduchos atores. O redesenho da esfera política passa pela consciência de direitos e deveres de todos para com todos. Liberdade + igualdade são incompatíveis com o favor, com aparelhamento do Estado, com a ignorância, com a má-fé e com as liturgias dos cargos que exprimem um viés hierárquico. Sem reflexão e cabedal, caímos nessa lamentável tentativa de infantilização do povo brasileiro.


— O velho ranço aristocrático do Brasil passou para as esquerdas no poder — disse Moneygrand. — E, hoje, o terrorismo intelectual tenta equacionar a indignação diante das épicas roubalheiras com “ódio” e “retrocesso”. Retrocesso seria não ficar indignado ao ver o Brasil ser mortalmente abatido pelo governo de um partido cuja bandeira era levá-lo, com ética, à justiça social.

— Me dá mais um uísque, Dick! — pedi para ser confortado no fosso da minha depressão.

Falamos dessas coisas desagradáveis e inevitáveis e, do fundo da minha memória, surgiu — como ocorre com os velhos — uma cristalina lembrança.

A memória do dia em que Ricardo, meu quarto irmão, ganhou uma locomotiva de presente de aniversário. O dom que o distinguiu até hoje atravessa a minha vida pela inveja intensa que despertou em nossa irmandade feita de Fernando, Romero e Renato. A nossa irmã caçula, Ana Maria, por razões de severa e preconceituosa demarcação entre o masculino e o feminino, foi poupada.

Quando Ricardo começou a brincar e vimos a locomotiva em todo o seu esplendor de símbolo, jorrava dos nossos corações uma inveja, uma inveja absolutamente pura. Como a que só surge quando um sentimento possui uma pessoa, englobando-a. Pois, como sabemos, tornar-se um adulto é um duro aprendizado de conter e disfarçar tais emoções.

Diante daquela locomotiva, nossos olhos fraternais cruzaram-se e, numa inveja bíblica, quebramos com o martelo de papai o brinquedo. Levamos uma surra, mas ela não liquidou a inveja. Tal como a democracia não acaba com o nosso gosto de opinar, estigmatizar, caluniar e roubar o bem comum.

Na peça de publicidade do PT, vi um excelente ator, José de Abreu, fazendo um pobre papel. A crise do Brasil real tem como centro um grandioso papel (o de presidente da República) massacrado por uma péssima atriz. Há teatro na política, mas política não é teatro. O que não vale é acabar também com a peça, com o teatro e com os espectadores que pagaram caro o ingresso.

Roberto DaMatta

Lágrimas de crocodilo

É verdade, sem sombra de dúvida, que as contas de luz aumentaram e, por isso, nós lastimamos
Dilma
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A UNE não é mais aquela...

Aqueles com mais de 50 ainda guardam a União Nacional dos Estudantes daquela época. Outros, pouquinho mais velhos, lembram do prédio no Flamengo, no Rio, da Casa do Estudante, do refeitório do Calabouço. 

UNE era sinônimo de cultura e de luta por novos conceitos sociais, defesa da liberdade. Não à toa se tornou "perigosa" para a ditadura e o radicalismo de direita - quando o mundo ainda era dividido.

O prédio incendiado era uma mordaça nos anseios da juventude daquela época. Doía sua imagem destruída como reprimenda por pensar melhor. Essa UNE ficou no tempo.

Depois veio a estudantada dos caras pintadas. Não havia mais aquela identidade da velha UNE, Foi às ruas contra Collor em seu melhor momento. E só.

Desse tempo, a estudantada acabou por gerar muitos da petralhada petista. Inclusive seu cacique Lindinho e outros basbaques ainda mais ordinários, lutadores de causas próprias e boquinhas políticas.

Agora existe uma UNE subsidiada pelo petismo, formando os petralhas do futuro, os estudantes profissionais que formarão a tropa de choque do aparelhamento estatal.

É essa UNE com ideias tão ultrapassadas para o mundo atual que promete sair às ruas para a defesa da democracia e pela legalidade (sic). Talvez devessem tais manifestantes estudaram mais, conhecerem a história da própria entidade e a do país intensamente.

Vão às ruas como marionetes, bem pagos e subsidiados, para defender apenas uma suposta democracia do PT. E como paradoxo, ainda defenderão a legalidade que estaria ameaçada por colocar seus petralhas na cadeia. Isso não é mais UNE é apenas mais um braço podre do PT, que desconhece democracia e ainda mais legalidade, quando recebe dinheiro público como cachê de participação.

Sobre patos e gansos

A expressão americana "lame duck" (pato manco) é usada para caracterizar o governante que, ainda no cargo, não vai concorrer à reeleição; perdeu a reeleição; ou, por alguma razão, tornou-se inelegível e não pode disputar a reeleição.
Esta expressão é geralmente usada nos últimos meses de um mandato. O governante já não exerce plenamente suas funções e sofre revezes no Congresso. Os políticos concentram suas atenções nos possíveis sucessores e a mídia se ocupa em esmiuçar as razões do fracasso.

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O que surpreende na situação atual do Brasil é termos uma presidente "lame duck", nos primeiros meses do seu segundo mandato. E por que isto? Em grande parte, como consequência de uma serie de desacertos (e alguns desatinos) cometidos no seu primeiro mandato. Desafiaria a toda lógica, a presidente conseguir escapar ilesa à concepção da sua chamada "Nova Matriz Econômica".

Ela tentou reintroduzir o nacional-desenvolvimentismo, com a reinvenção do intervencionismo estatal, das proteções à indústria nacional, dos favorecimentos fiscais e da inserção artificial da produção nacional. Isto, numa economia que - querendo ou não - é mais aberta e inserida no mundo globalizado.

Ou seja, foram reintroduzidos mecanismos de "estímulo" ao desenvolvimento como se estivéssemos vivendo no contexto da economia fechada, protecionista e intervencionista.

A "Nova Matriz", ao ser leniente com a inflação, estimular o endividamento público e promover graves constrangimentos fiscais, seria uma reedição do nacional-desenvolvimentismo exacerbado do ciclo 1968-1985.

Seria uma espécie de "Síndrome de Estocolmo" - no plano da economia - justamente por parte daqueles que, na época, radicalizaram suas posições contra os governos militares. Assistimos, assim, a uma mixórdia de iniciativas e conceitos contraditórios, que acabou levando o país ao pior dos mundos. Um macabro cortejo de recessão da economia, inflação alta e fora de controle, desemprego e desajuste perigoso das contas públicas.

Claro que está no DNA de certa "esquerda" culpar sempre o mundo, especialmente a "crise internacional" pelos desatinos cometidos pelos seus próprios dirigentes. A América Latina sempre foi pródiga nesse tipo de argumentação e aí estão Venezuela e Argentina caminhando resolutamente para o abismo e que não nos deixam mentir.

Mas acontece que o mundo já se recuperou da crise de 2009, a economia norte-americana vai bem, a China desacelera - mas ninguém poderia esperar que mantivesse para sempre um ritmo alucinante - emergentes crescem e a União Europeia, apesar da crise grega, vai aos poucos se recuperando.

Atrelar o país a um comércio de tipo colonial com a China, de se manter refém de um Mercosul sem nenhuma perspectiva e de menosprezar seu parceiro comercial mais equânime, que são os Estados Unidos, é culpa exclusiva dos nossos governos. E claro que também com a colaboração de um seleto grupo de grandes empresas associadas ao governo nos negócios com os "parceiros preferenciais" da África e América Latina, beneficiadas com recursos do BNDES.

Resumindo a esta ópera de Rossini (ou seria uma peça de Shakespeare?), o país está sofrendo uma pesada crise econômica, que se enreda com uma grave crise política e gera uma crise de confiança que, por seu turno, tende a realimentar o péssimo desempenho econômico. Esse inferno astral em início de mandato acirra obviamente as expectativas quanto ao futuro da nossa "lame duck".

A verdade é que só um político experiente, com visão de estadista e cercado de pessoas de bom senso, poderia reverter o jogo. Teria envergadura para convocar as forças produtivas, politicas e intelectuais para formar um governo de união (ou salvação) nacional. Mas é exigir demais de tantos amadores, que sabemos ser muito mais afeitos à rudeza das políticas sindicais e estudantis.

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Recorrendo mais uma vez à tradição anglo-americana (reunida pelo francês Charles Perrault e fins do Século XVII), a alternativa que tivemos até agora foi a da figura da "Mother Goose", ou seja, a Mamãe Ganso, autora imaginária de uma coleção de contos de fadas e canções de ninar, as famosas "Mother Goose Nursery Rhymes".

Temos alguém que, diante da crise, está tranquilizando o povo com canções de ninar e pantomimas, tão ao gosto das crianças. De qualquer forma, em apenas seis meses de um novo mandato, estamos perplexos e falando sobre patos e gansos...

Josef Barat

Por que Renan impediu que o circo pegasse fogo

A pergunta que ninguém respondia, ontem, mas presentes múltiplas respostas em todas as especulações, era por que o presidente do Senado, Renan Calheiros, trocou de camisa e passou a jogar no time da presidente Dilma. Afinal, depois de acionar baterias contra o governo, prometendo até dar seguimento a um eventual processo de impeachment contra Madame, se a Câmara assim decidisse, o senador alagoano saltou de banda. Declarou que dar prioridade ao impeachment seria botar fogo no país. E mais: apresentou um elenco de 28 propostas de recuperação nacional que fizeram a alegria do ministro Joaquim Levy. Propôs uma trégua e acrescentou que o Congresso sequer deve priorizar a análise das contas de Dilma no ano de 2014.

Patriotismo? Preocupação com os rumos da crise capaz de colocar o Brasil em frangalhos? Concordância em que o PMDB faz parte do governo e deve respaldá-lo? Interesse em participar das benesses do poder?

Ou… Ou ter recebido a promessa de que não será incluído na lista de denuncias do Procurador Geral da República contra parlamentares envolvidos no escândalo da Petrobras?


Fica difícil supor Rodrigo Janot participando desse tipo de barganha, mas é bom não esquecer que a reviravolta de Renan aconteceu logo após o palácio do Planalto haver enviado ao Senado a indicação para o procurador ser reconduzido por mais dois anos de mandato.

Acresce estarem as instituições tão próximas do colapso que todo esforço em favor da pacificação parece necessário. De uma forma ou de outra, a intervenção do presidente do Senado, nas últimas horas, trouxe um refrigério ao governo. Dilma está mais tranquila, ainda que a tempestade continue sobrevoando a Praça dos Três Poderes. Senão neutralizada, encontra-se menos aguda a guerrilha desencadeada pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que não tem duvidas de vir a ser denunciado nos próximos dias ou horas. Aparentemente, separaram-se os interesses dos dois comandantes do Legislativo. Cunha pretende botar fogo no circo, Renan veste a farda de bombeiro.

Será preciso confirmar essas ilações, mas se o Senado servir de anteparo ao caos institucional, de alguma vantagem os senadores se beneficiarão. O prestígio de seu presidente junto aos patamares do poder não livrará alguns de seus integrantes de responderem junto ao Supremo Tribunal Federal, como Fernando Collor. Prevê-se, no entanto, a aprovação de Janot na Comissão de Constituição e Justiça e, depois, no plenário. Haverá ebulição nos debates entre os senadores, mas a atuação de Renan surge decisiva, para a aprovação.

Politica é assim mesmo, cheia de ressalvas e meandros, como também de surpresas. Hoje, porém, o quadro é esse. Amanhã, só Deus sabe.

Alvorada

Amanhece...
E amanhece o desespero...
Dura condenação
Da vida humana!
Angústias a oprimir o coração,
Seguidas como os dias da semana.

Mais vinte e quatro horas
De negrura,
Que o sol nem-há de ver, na sua pressa,
Em vez dum claro apelo,
O pesadelo
Dum sonho mau, que apenas recomeça.
Miguel Torga,

Moinhos de vento e lavadoras a jato


O pior e mais frequente erro em momentos de transformação social é o de ler o futuro com os olhos do passado. As investigações de combate à corrupção mostram que está em curso no Brasil um momento de inflexão histórica.

O olhar obsoleto que boa parte dos agentes políticos insiste em lançar sobre as investigações faz com que o noticiário pareça seguir um roteiro de Miguel de Cervantes, no qual o lendário protagonista Dom Quixote perde em qualidade, bem menos simpático que o original, e ganha em quantidade, pululando por todos os lados dom-quixotes.

O Dom Quixote original viveu na Espanha em um momento de muitas conturbações históricas: Guerra Anglo-Espanhola, peste e decadência econômica. Incapaz de lidar com tais problemas, o cavaleiro decide ver o mundo com olhos do passado e tornar-se herói de uma das novelas de cavalaria que tanto lia.

Apega-se, então, a títulos nobiliárquicos inexistentes, enxerga gigantes em moinhos de vento e ganha o mundo para salvar sua donzela Dulcinea (mesmo sendo ela Aldonza, sua vizinha camponesa, capaz de bem se defender sozinha).

Parte dos investigados da Operação Lava Jato tem usado estratégias ultrapassadas: atacam injustificadamente o procurador-geral da República, classificam investigações como perseguição, cobram do ministro da Justiça a contenção das investigações, fazem sua defesa por meio de órgãos públicos, usam CPIs para pressionar colaboradores e advogados, fazem refém a economia e não pensam no interesse público.

Os investigados do Poder Legislativo são os que têm maior dificuldade de se livrar da miopia do olhar obsoleto, talvez pelo abismo que os distancia da sociedade em transformação que deveriam representar.

Neste cenário, é natural a preocupação com a nomeação do novo procurador-geral. A Constituição prevê que este seja indicado pelo presidente e aprovado pelo Senado. Desde 2003, a fim de evitar influências políticas perniciosas, criou-se o salutar costume constitucional de que seja indicado e aprovado o candidato mais votado na lista tríplice da Associação Nacional dos Procuradores da República.

Na quarta passada (5), a associação elegeu para compor a lista tríplice três nomes de inquestionável excelência: Rodrigo Janot, Mário Bonsaglia e Raquel Dodge. Primeiro colocado, com a aprovação de 81% dos membros, Janot foi indicado pela presidente da República.

Cabe agora ao Senado aprovar a sua recondução. Apesar de mais de 1/7 de seus membros –inclusive seu presidente– ser investigado na Lava Jato, espera-se que um dos gritos de indignação de junho de 2013 (contra a PEC 37) ainda ecoe pelas paredes daquela Casa.

Caso contrário, resta uma última lição de Cervantes. Ao retornar a sua vila, Dom Quixote chega a uma triste constatação: não era herói. Pior ainda, não havia mais heróis de cavalaria! Aqueles que insistirem em impor seu olhar obsoleto a uma sociedade em transformação podem chegar à mesma constatação do melancólico cavaleiro. Não há heróis. Há apenas o exercício honesto e competente de funções públicas.

O Brasil vai explodir


O grave momento político atual causa profunda desilusão e revolta na maioria silenciosa do povo brasileiro. A cada dia surgem notícias de novos escândalos, novos envolvimentos de autoridades, mentiras, violência. Os protestos nas redes sociais, na mídia e nas ruas não são considerados pelos governantes, pelos partidos e pelos políticos. O Brasil assiste, impotente e irado, o espetáculo imoral de grupelhos usando, ilegitimamente, suas posições institucionais para preservar o poder e a riqueza acumulada de forma corrupta, sem se preocuparem com o bem estar e o progresso da nação.

A solução para a crise que enfrentamos passa, necessariamente, pela solidariedade do povo ofendido para com o ideal da promoção do bem comum. No entanto Brasil está cada vez mais despossuído de sonhos, esgarçado nas suas ligações afetivas, perdidos pela desconfiança generalizada que cada cidadão nutre pelos outros. O povo só reage às freqüentes noticias de desgoverno e de corrupção ou com o deboche que a nada conduz, ou com o ódio crescente que a tudo pode vir a destruir.

Com o fracasso e o desaparecimento dos partidos políticos, restaria a esperança de lideranças esclarecedoras da situação e aglutinadoras da nação em torno de um projeto de país livre e justo, tais como fizeram os grandes nomes da nacionalidade, em um passado recente: Franco Montoro, Tancredo Neves, Juscelino Kubitheck, Getulio Vargas. Onde estão se escondendo os seus sucessores?

Na ausência de partidos, de lideranças, de idéias norteadoras de ações, estamos nos encaminhando, celeremente, para o caos.

É moralmente legitimo que um eleitorado, humilhado e enganado por um governo e um partido político, exija a imediata substituição dos que os enganaram e roubaram. Isto não é “golpe” como querem alguns – é o resultado da reflexão por parte do povo e do que resta de suas autenticas lideranças locais, dispersos no anonimato das pessoas envergonhadas e sofridas, que pretendem usar os instrumentos legítimos e legais, oferecidos pela Constituição, que prevê punição e substituição de maus governantes.


O Brasil real está parando com cada vez mais desempregados, inflação em alta, produção em baixa, investimentos insuficientes, a confiança se esvaindo pelos desvãos da nefanda prática política. Levaremos anos para recuperar a destruição praticada.

Estamos a um passo de uma explosão de revolta radical e justo protesto de uma população que, mais dia menos dia, vai reagir. Os atuais governantes e políticos que atuam na área federal, deveriam começar a correr – todos. O povo quer uma substituição radical – saiam, pois todos são, de alguma maneira, culpados pelo estado de anarquia a que chegamos.

É preciso pensar em opções para a crise, como é o caso prioritário de necessárias novas eleições gerais, comandadas pelo Supremo Tribunal Federal. 

Acossados pelo clamor popular, reunindo o que resta da dignidade que talvez ainda possuam, ou pelo medo físico de uma população furiosa, este Congresso que aí está trataria de votar, antes de se auto-extinguir, com a máxima urgência, uma decente reforma política prévia, sem financiamento privado das campanhas, com clausulas que indiquem as condições honestas para a criação de novos partidos com expressão nacional, já que os atuais deverão ser extintos.

Já se fez muitas análises, já se falou e se escreveu demais, temos as informações necessárias, possuímos mulheres e homens capacitados, patriotas, honestos, prontos para contribuírem para o soerguimento nacional – basta que lhes seja oferecida uma oportunidade. Sabemos da roubalheira, sabemos das intenções de instauração de formas de poder incompatíveis com as tradições democráticas do Brasil, sabemos dos conchavos, das meias verdades, mas poderemos conhecer, também, quem são as pessoas confiáveis, dignas e competentes, em quem se pode votar neste momento de recuperação da dignidade nacional – caras novas.

Chega de incompetência e de corrupção. Basta de canalhas dirigindo os destinos do Brasil. Não queremos e não podemos mais admitir este estado de anarquia nacional.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Dilma e sua crise

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Com todo o respeito, presidente, acho que a senhora devia renunciar. Os sinais já estão no ar, os primeiros tremores de um terremoto já vibram sob nossos pés. Acho que a senhora não vai aguentar mais três anos em meio a esse caos em que o Lula, o PT e o Mantega nos lançaram, fazendo o país entrar numa depressão.

Aliás, a senhora deve estar também numa cava depressão, com um país inteiro gritando “Fora”. Se fosse eu, presidente, teria enlouquecido por rejeição. Vejo seu rosto triste e tenso e me lembro da postura corajosa na sua foto, jovem, de óculos, diante de militares tapando o rosto.

E vejo que um retrato rima com outro, pois sua pertinácia ou teimosia diante do impossível continua a mesma. Era impossível a vitória da guerrilha urbana, e hoje está quase impossível governar o Brasil. O fato de uma pessoa ser heroica não impede que esteja errada. Talvez a senhora tenha sido heroína, mas sei que está errada. Sei que sua agenda de esquerda de longa data a ajuda a destroçar o país em nome de uma loucura ideológica morta.

Sei que é impossível governar um país capitalista com uma cabeça comunista. Isso provoca uma esquizofrenia no poder que se alastra pelas instituições, abrindo as portas para a maior história de corrupção do mundo. E me dói, presidente, vê-la como bode expiatório dos crimes que eles cometeram.

Eles abriram mão de suas convicções antigas, mas a senhora segue fiel a sua utopia brizolista, enquanto eles te abandonam. O Lula – é sempre bom lembrar – é a pessoa mais nefasta deste país e está tramando contra a senhora, pensando até em arrumar um posto de ministério para ser julgado com foro privilegiado quando seus malfeitos se revelarem, pois tem medo de ser preso.

Além disso, petistas e aliados perceberam que a senhora está enfraquecida e resolveram ganhar prestígio te condenando. Todos querem tirar um pedacinho da senhora, pois são ratos abandonando o navio. Eram 400 aliados; hoje, só há 120.

E não adianta dar verbas e cargos para eles, nada os satisfará – vão embolsar a grana e continuar te sabotando. Inclusive o vergonhoso PSDB traindo a si mesmo, enturmado com a bicanca voraz do Eduardo Cunha e com o cabelinho implantado do Renan, que aprovam projetos-bomba para detoná-la, mesmo que o país morra junto. Os dois, investigados pela Lava Jato, aprovam medidas absurdas para aumentar os gastos públicos e se fortalecerem à custa de seu fracasso.

Sob o som dos panelaços vi sua fala gaguejante no programa do PT, diante da evidência do desgoverno. Suas tentativas de sorrir com simpática despreocupação são constrangedoras, e o povo nota. O país inteiro está contra Vossa Excelência, quando deveria estar contra aqueles que criaram a armadilha em que a senhora caiu. Sua resistência está muito solitária, e não basta mais declarar que resiste, como boa guerrilheira que já foi.

Sua renúncia não seria uma humilhação e só abrilhantaria sua imagem futura. A senhora teria reconhecido o perigo que corremos todos, com a devastação da indústria, do comércio e da esperança pública. E a culpa não é toda sua.

Já está disseminado na população um refrão de desapreço à senhora. Já estão lançadas as bases de um impeachment... Sua saída espontânea provaria que a senhora aceita as regras do jogo que perdeu. Quando se contamina a opinião popular, para além da política, a barra pesa.

Até mesmo um recôndito machismo ressurge contra uma mulher no governo. “Mulher no volante, perigo constante”, me disse ontem um taxista. Creio que até o Lula nomeou a senhora porque era uma mulher considerada trabalhadeira e obediente a seus interesses, até ele voltar em 2018. Será que ele nomearia um homem que pudesse contestá-lo? Talvez haja por aí um machismo sutil...


Quando o Collor berrou às multidões “não me deixem só”, todas as caras foram pintadas, talvez até mesmo a da senhora. E, no entanto, presidente, a era Collor foi um troco em relação aos bilhões roubados nos últimos 12 anos, por causa da porteira aberta pelo Lula para a invasão da porcada magra no batatal.

Seu grande erro, presidente, típico de tarefeira militante, foi fazer vista grossa para o despautério a sua volta. Sei como funciona: “Ah, eles são aloprados em nome de uma ‘linha justa’, lutar contra isso seria moralismo pequeno-burguês”.

Por isso a senhora deixou passar negligentemente a compra da refinaria de Pasadena no Conselho de Administração da ex-Petrobras, um dos símbolos intocáveis de sua juventude. Além disso, a senhora está sendo metralhada pelos dois presidentes do Congresso.

Hoje, como está, o país não tem fins nem meios. Ninguém sabe mais quais seriam os meios, e não sabem com que fim.

As várias reformas que FHC deixou preparadas foram ignoradas e desfeitas, e hoje só nos resta o magro ajuste fiscal com que o pobre Levy, como um padre triste, tenta convencer canalhas e cobras criadas que nunca souberam o que é interesse nacional.

Agora, Temer e Mercadante estão querendo conciliar, mas é tarde demais.

Vem aí a grande manifestação nacional no dia 16, pedindo sua cabeça. E isso é quase um impeachment branco, o que deve provocar-lhe uma angústia insuportável. A senhora já esteve doente e tem de proteger sua saúde. Mas, em vez de fazer autocrítica, sua cabeça de guerrilheira teima em resistir até o fim. 


Se a senhora renunciar, vai ficar mais feliz. A senhora não é Getúlio Vargas. Além disso, sua “resistência” não é apenas uma questão pessoal. Trata-se do país que a senhora governa. A Dilma não é a Dilma – ela é presidente do Brasil sendo desmanchado. Desista, Dilma, antes que o carro do país tenha “perda total”.

A senhora está sendo leviana

“Leviano” é uma palavra boa. Seria leviano fazer qualquer profecia sobre o trono de Brasília e o jogo que o circunda. Impeachment? Renúncia? Coisa pior?

A pressão para que Dilma deixe o assento é onipresente e multidirecional. Afirmar que todas essas forças são movidas por interesses particulares e não pelo simples bem da nossa nação seria leviano. Assim como soaria leviandade cogitar que tanta gente de bem, cujos corações gritam “Fora, Dilma” em uníssono a plenos pulmões, não tenha uma noção mais precisa de tudo que está em jogo. Ora, o país está parado, e isso é motivo mais do que suficiente para haver mudança.


Esta semana será marcada pela mobilização por mais uma grande passeata contra a presidente. Da adesão tímida e informal nas edições passadas, agora, o PSDB comprou a causa e conclama a população a ir para as ruas. Claro, é leviano insinuar que o principal partido de oposição esteja nessa onda só querendo surfar, exclusivamente de olho no trono que tangenciou, em vez de assumir uma postura “em favor do Brasil”.

Contudo, a iniciativa das manifestações canarinho não é dos tucanos, mas de grupos independentes, livres, apartidários. Qualquer boato de que esses liberais, vários deles bem jovens, que vêm tocando a marcha pelas redes sociais e pelos carros de som, sejam representantes de forças maiores é pura leviandade. Igualmente leviano é considerar a hipótese de que líderes desses grupos receberam formação política de instituições internacionais mantidas por grandes corporações do setor petrolífero.

Portanto, conspiração pura seria supor que, em meio às tristes circunstâncias do “petrolão”, esses meninos estejam aproveitando para derrubar os acionistas majoritários da maior corporação brasileira e facilitar a entrada de seus supostos patrocinadores transnacionais nos negócios do pré-sal.

A Lava Jato evidenciou o covil de ratos que comandava a Petrobras. Já está mais claro como água, e não turvo como óleo, que, para cuidar da companhia, a influência partidária é sinônimo de corrupção e ineficiência. Naufragou pela mão grande até o projeto do submarino a propulsão nuclear, que serviria para monitorar as reservas de petróleo no fundo do mar. Está delirando quem disser que o objetivo de farejar a cúpula da Eletronuclear seja minar essa frente de defesa do patrimônio natural.

Julgar, então, que magistrados, promotores e desembargadores envolvidos na operação trabalhem para outro fim que não a moralização da coisa pública no Brasil é de uma leviandade absurda. Preferências político-partidárias e influências ideológicas que possam contaminar a lisura das ações não entram em questão. O fato de a mulher do juiz cabeça da operação ter trabalhado como defensora de uma administração tucana e o fato de ele ter atuado, no passado, em outra frente que acabou por livrar um banqueiro notoriamente associado a altas personalidades do PSDB não querem dizer nada.

Ah, essa internet, que enche de minhocas a cabeça desses levianos... A realidade é muito mais simples do que esses roteiros de fantasia à la “Moscou contra 007”.

O assassinato da esperança

Luzes piscam, buzinas tocam, panelas batem. Perto e ao longe, o simbolismo da indignação, ora tímido, às vezes exaltado, me remetem a tempos vividos em meio às contrações e expansões que regem desde nossos corações até o pulsar do universo e os ciclos históricos de bonança (raros) e sofrimentos da espécie humana na sua acidentada história de busca de paz, prosperidade e harmonia.

Quem estudou a revolução francesa, no mínimo, deveria se lembrar do lema “igualdade, fraternidade, liberdade”. Séculos depois, africanos afundam no Mediterrâneo sob a indiferença humana, a guerra secular de cruzada retorna cruel e ao vivo, entre islâmicos radicais e ímpios. Pescoços são cortados, pessoas queimadas, crueldades atraem jovens do mundo inteiro a jogar seus games mortais ao vivo e a cores no território alienígena da internet, numa guerra das estrelas vitalizada e curtida de forma virtual, radical, irracional. É... somos isso. Ciborgues humanos, metade extasiados e hipnotizados pela tecnologia de terceiro milênio que nos colocou nas palmas das mãos, via smartphone, o poder de tudo poder e nada fazer para melhorar a humanidade.

Na outra ponta, uma regressão afetiva, trogloditas cegos de ódio, de intolerância aos que não têm nossa cor, nossa religião, classe social, nacionalidade, time de futebol e sei lá mais o quê. Ódios destilados em redes, maldades povoam as ruas, mídias vomitam a barbárie de comuns que se estranham. O que será desse divórcio entre a parte racional, lógica, intelectual que habita nosso cérebro cortical e sofisticado, e o nosso cérebro límbico, mamífero, que controla emoções, estresse e sentimentos? Afinal, estamos mais para seres animalescos ou seres divinos, capazes de compartilhar, preocupar-se com seu semelhante, ser altruísta, perdoar, respeitar diferenças e acolher?

O que sei é que participei a plenos pulmões de passeatas contra ditadura, marchei pelo Diretas Já pintei meu rosto de verde e amarelo para depor o ex-presidente Collor, votei muito mal diversas vezes, chorei com Tancredo, elegi e me decepcionei com FHC, persisti diversas vezes até eleger Lula e o PT. Pois nada me tocava mais do que as campanhas sempre emocionantes do PT. E de uma jamais esquecerei, a que flechou meu coração, me emocionou, me acolheu, ao me lembrar da revolução francesa, a Tomada da Bastilha. Sim, desfraldei a bandeira que dizia em letras garrafais: “A esperança vencerá o medo, sem medo de ser feliz!”.


Nunca, nunca mais façam isso! Pois num mundo em que a “felicidade”se tornar algo tão maltrapilho, e a “esperança” for assassinada em praça pública, banalizadas pela patologia do poder, do dinheiro da venda de alma para o diabo, estaremos assistindo ao início do fim da fé, confiança, dignidade dos falsos líderes e falsos profetas.

Às armas, companheiros, avante! Pois nossa munição será o amor à pátria, aos filhos e netos que crescerão pelas sementes que legarmos, semeados neste solo sagrado: honestidade, respeito, confiança, humildade, senso comunitário, compaixão e altruísmo!
Eduardo Aquino

Dilma e a legitimidade pela mentira

Então, no novo perfil da mídia brasileira, a coisa fica assim. Alguns, diante desse erro descomunal que foram os governos petistas, vão além das aparências e abandonam o barco porque percebem as causas. Entre muitas, saliento estas, bem evidentes: o poder como objetivo ao qual tudo se sacrifica; a justificação dos fins pelos meios; o cultivo da insegurança pública como instrumento da luta de classes; o fracasso humano e social do assistencialismo vitalício como política de Estado; a impossibilidade técnica de se produzir desenvolvimento econômico e social sem economia de mercado; a apropriação indébita dos poderes de Estado, da administração pública e da política externa por um partido político, seja qual for.

Outros, no entanto, continuam convencidos de que fora dos fracassos estrondosos da esquerda não há salvação para a humanidade. Apoiaram e votaram sempre no PT e se empenharam em preservar-lhe a imagem muito mais do que os líderes do partido. Aliás, enquanto estes trocavam os pés pelas mãos e enfiavam os quatro nos mais pantanosos negócios, eles cuidavam de espalhar o ônus moral de tais condutas sobre uma linha de tempo que, se a gente deixar, acabará remontando à criação do Reino de Portugal no século 12.

Se há algo que abala os formadores de opinião é constatar que quanto mais escrevem e falam, menos opinião formam. Então, com a credibilidade da presidente caindo para um dígito, ainda por cima quebrado, já não se encontram mais, na mídia, prosélitos com disposição de exaltar as virtudes do petismo reinante. Para os obstinados, porém, o passado ainda pode ser requentado. Tal é a aposta, por exemplo, do sempre oculto Foro de São Paulo (que antes diziam não existir e, agora, afirmam estar morrendo...).

Não havendo condições propícias ao proselitismo puro e simples, resta à mídia esquerdista e seus agentes dois meios de ação. No primeiro, obedecem à regra segundo a qual o contra-ataque é uma forma de defesa na qual dificilmente se passa vexame, porque sempre haverá o que atacar. Então, atacam quem ataca para defender quem não mais se atrevem a defender. No segundo, aí sim, agarram-se no Estado de Direito para proclamar a intangibilidade do mandato da presidente. A esse coro ela mesma aderiu em suas últimas manifestações: "Ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu", afirmou a presidente, falando em Roraima no dia 7 deste mês.

Dilma está, neste caso, defendendo a legitimidade da mentira como instrumento de ação política e eleitoral. Com efeito, ela foi eleita em 2014 mentindo à nação sobre a realidade nacional e atribuindo a seu adversário os flagelos que ela trazia a tiracolo para enfrentar a macabra situação que seu governo produzira. Nada que não tenhamos visto e não estejamos vendo. Assim, a presidente e os formadores de opinião que a acompanham, ao falarem em "legitimidade" no cenário atual, consagram a soberania do Pinóquio e promovem o linchamento do Grilo Falante.

Percival Puggina

Planalto alardeia que o domingo será o 'Dia do Golpe'


Descrente do sucesso das manifestações que estão sendo organizadas pelos movimentos sociais que continuam leais ao governo (alguns já está prestes a desembarcar), a estratégia do Planalto é considerar o protesto nacional do próximo domingo como o “Dia do Golpe”e movimentar esta tese na internet. O clima é de pânico, ninguém se entende no Planalto, cada um diz uma coisa e as frequentes tentativas de intervenção por parte de Lula são consideradas como verdadeiras intromissões, a demonstrar que ele continua pensando que manda no governo.

Na sexta-feira, por exemplo, Lula convocou uma reunião em São Paulo com os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil) e Edinho Silva (Comunicação Social). Obedientes, eles estiveram no Instituto Lula e ouviram o ex-presidente defender que Dilma Rousseff viaje pelo país e promova uma reforma ministerial para combater a crise política.

Segundo a Folha, Mercadante e Edinho ponderaram que Dilma até tem viajado, mas isso não é suficiente para que recupere a popularidade. Mas Lula insistiu, porque ele ainda se considera uma espécie de dono da verdade. Na opinião dele, Dilma precisa ter mais contato com a população e com os governadores, além dos deputados e senadores de sua base aliada, mas isso ela até já vem tentando fazer, como se pudesse resolver alguma coisa, mas o resultado é nulo.

Sem ter alternativa melhor, o jeito encontrado pelo núcleo duro do Planalto foi classificar o domingo como “Dia do Golpe”, na tentativa de desmerecer e descaracterizar a manifestação nacional contra a presidente Dilma. Mas é claro que esta estratégia não vai funcionar, chega a ser infantil exatamente num momento em que o país está dando uma extraordinária demonstração de amadurecimento político.

Até dois anos atrás, o PT tinha pesquisas que demonstravam que quase 30% dos brasileiros apoiavam o partido e simpatizavam com ele. De repente, tudo mudou, o fracasso de Dilma conseguiu alterar essa realidade A reprovação ao governo segue aumentando, já é quase consensual, é um fenômeno impressionante.

O Planalto teme que o dia 16 confirme as pesquisas atuais, com a maioria dos brasileiros saindo às ruas para pedir a cassação da presidente, pois não faltam motivos e nem importa mais saber se Dilma Rousseff está ou não envolvida em corrupção, porque ela já foi atropelada pelos fatos. Já se sabe que o PT recebeu e usou dinheiro de propinas na campanha eleitoral, há vários depoimentos sobre isso, configurando crime eleitoral, punível com cassação. Além disso, o governo fraudou a Lei de Responsabilidade Fiscal, dando pedaladas e maquiando as contas, tornando-se autor de crime de responsabilidade, que também implica em cassação do mandato.

Portanto, seja por um motivo ou outro, o governo Dilma já caiu. Tudo é só questão de tempo. O mais importante é que a queda está acontecendo sob clima de absoluta normalidade democrática, com respeito à Constituição. O golpismo só existe na cabeça dos marqueteiros do Planalto, que estão querendo demolir a democracia, com insistentes ameaças de colocar nas ruas o exército do MST e dos movimentos sociais. Se o fizerem, aí é que o governo cai mesmo. Podem acreditar.

Carlos Newton

Só agora !?




O governo do PT propiciou, ao conjunto da população brasileira, acesso aos bens pessoais, quando deveria ter iniciado pelo acesso aos bens sociais. (...) Criou-se uma nação de consumistas, não de cidadãos
Frei Betto

'Como é que você vai botar o pobre ali"

Carlos Carvalho, dono das áreas onde ficam o Centro
Metropolitano e a Vila dos Atletas da Rio 2016
Dono de mais de 10 milhões de metros quadrados de terras na Barra da Tijuca – bairro que sediará grande parte das instalações da Olimpíada do Rio 2016 – , o engenheiro Carlos Carvalho, conhecido como "dono da Barra", classifica os Jogos como uma "benesse de Deus" para o Rio de Janeiro.

Aos 91 anos e, desde 1951, único acionista à frente da empreiteira Carvalho Hosken (avaliada em R$ 15 bilhões), ele participa de obras no Parque Olímpico, ao lado da Odebrecht e da Andrade Gutierrez, onde, por meio de uma Parceria Público Privada (PPP), o consórcio construirá empreendimentos imobiliários a partir de 2018, em troca de quase R$ 1 bilhão de investimentos para custear a Olimpíada.

Além disso, a Vila dos Atletas, com 31 edifícios, está sendo erguida em suas terras, e caberá a ele comercializar 3.604 apartamentos no já batizado condomínio Ilha Pura, tão logo o Comitê Olímpico Internacional libere as acomodações dos mais de 17 mil competidores e equipes técnicas após os Jogos.
Se houvesse a invasão de todas as áreas, que era o que iam fazer em 1982, isso aqui ia ser um bairro para o populismo, para eleger gente de esquerda, prometendo aos pobres o que não iam dar
Ao contrário de Londres, onde a hospedagem dos atletas deu lugar a moradias acessíveis numa área revitalizada da capital britânica, no Rio os prédios seguirão a lógica do alto padrão, com direito aos "Jardins do Rei", com mais de 70 mil metros quadrados, e apartamentos que podem valer mais de R$ 1 milhão.

Quarenta anos depois de ter apostado na direção contrária ao desenvolvimento tradicional do Rio, quando começou a comprar terras na Barra (ainda um grande areal cercado de lagoas e manguezais e distante da Zona Sul), Carvalho vem colhendo os frutos da "aventura", após construir condomínios, shoppings e hotéis de sucesso – e há espaço para expansão, já que 2,5 milhões de metros quadrados de suas terras ainda estão vazios.

Sem papas na língua, em entrevista à BBC Brasil na sede de sua empresa, ele falou sobre sua história, os impactos da Olimpíada para o Rio, e respondeu a críticas sobre remoções e declarações dadas recentemente ao jornal britânico The Guardian, quando disse que a Barra representa o "novo Rio de Janeiro" como uma "cidade da elite, do bom gosto" e que, por esta razão, a Ilha Pura "precisava ser moradia nobre, e não moradia para os pobres".

Questionado pela BBC Brasil, disse que gosta dos ricos porque precisa deles, mas "prefere os pobres". Ele afirma que foi do povo e "continua sendo povo", embora admita que prefira "encher de rico" seu novo empreendimento na Vila dos Atletas.

"Você não pode pensar em tirar um favelado de onde ele vive, do habitat dele, para que ele venha a pagar aluguel e condomínio. Se ele não for preparado e se não houver um apoio correto para ensiná-lo sobre o seu novo habitat, o plano realmente não vai poder dar certo."

Foto: ReutersVocê não pode ficar morando num apartamento e convivendo com índio do lado, por exemplo. Nós não temos nada contra o índio, mas tem certas coisas que não dá. Você está fedendo. O que eu vou fazer? Vou ficar perto de você? Eu não, vou procurar outro lugar para ficar

É bom lembrar

Assuma o vale-tudo, Dilma

O Brasil precisa, muito mais do que nunca, que as pessoas pensem primeiro nele, Brasil, pensem no que serve à nação, à população brasileira, e só depois pensem em seus partidos e nos seus projetos pessoais
Senhora presidente, sua afirmativa chegou com anos de atraso e ainda eivada de seu próprio interesse. Um governante de respeito, que se faz respeitar, não pede à população que deve pensar no seu país quando os governantes nunca pensam nele, como a senhora.

Não são as pessoas que pensaram em partidos e projetos pessoais, mas a canalhada à toa com agrados governamentais seus e do ex Lula, gestos repetidos em outras esferas por seus cúmplices.

O vale-tudo foi protagonizado pelo PT em 13 anos; foi a senhora quem disse fazer o diabo para vencer em 2014. Portanto o vale tudo tem o selo Dilma-PT, que implantaram o sistema do Planalto aos municípios. .

A senhora também pensou todos estes anos na própria biografia de ser a primeira presidente mulher e ainda mais fazendo o diabo, inclusive levando um país à bancarrota. Era manter o projeto de aparelhamento governamental a qualquer custo mesmo tirando o couro dos mais pobres. Com que autoridade hoje pede união para livrá-la da queda e pagar a conta sua e do PT ?

Senhora presidente, seu discurso não é de uma governante, mas de uma governanta defendendo os seus patrões partidários e garantindo o seu emprego. Se fosse sincera, em algum momento, pediria as contas porque mentiu e continua mentindo, enganando no cargo. Seus eleitores votaram numa presidente mas que se revelou o que sempre foi e não deixará de ser: um poste como qualquer um outro pelas ruas, entregue às intempéries e aos cachorros. Merecidamente, há que se dizer.

Não há em suas declarações nem um pingo de desculpas pelo desastre e o sofrimento provocados por sua destrambelhada e interesseira administração. Quem deveria ter pensado, e muito, nos milhares de sofredores seria a senhora, mas sentimento por quem sofre não faz parte do seu DNA. Choro por sofrimento só em discurso, pois o importante é manter a canalhada, o governo aparelhado, e o povo pagando a conta de uma bancarrota provocada por outros.

Dilma, seus discursinhos de agenda positiva inaugurando casas, envergonhariam quem tenha vergonha na cara. Mas continua a insistir que é a presidente quando hoje é apenas um retrato na parede.

Por que odiar o PT

A primeira vez que me deparei com uma urna eletrônica foi para votar no Lula. E Lula se elegeu, depois de três tentativas malfadadas. Lágrimas grossas escorriam pelo meu rosto: com a prepotência característica dos 16 anos, tive a certeza de que era o meu voto que tinha feito toda a diferença.

A rua estava cheia de pessoas da minha idade que tinham essa mesma certeza. O Brasil tinha acabado de ganhar uma Copa do Mundo, mas a euforia agora era ainda maior: foi a gente que fez o gol da virada. Parecia que o Brasil tinha jeito, e o jeito era a gente –essa gente que nasceu de 1982 a 1986 e votava agora pela primeira vez.


Acabaram-se os problemas do Brasil –a gente chegou. Lembro das ruas cheias, das bandeiras do PT, lembro de abraçar desconhecidos na Cinelândia –Lula lá, brilha uma estrela.

Logo vi que não era o meu voto que tinha feito o Lula se eleger, nem o dos meus amigos, nem o da minha geração. Quem elegeu o Lula – isso logo ficou claro – foi o José Alencar, os Sarney, o Garotinho, foi aquela Carta aos Brasileiros e a promessa de que o Lulinha era Paz, Amor e Continuidade. Sobretudo continuidade.

Lula só alugou esse apartamento por quatro anos porque assinou um contrato de locação onde prometia entregar o imóvel i-gual-zi-nho. E Lula, por quatro anos, foi um inquilino dos sonhos – tanto é que renovou o contrato e ainda foi fiador da locatária seguinte. Fizeram algumas mudanças – as empregadas passaram a ganhar mais –, mas não fizeram o mais importante: uma desratização. Muito pelo contrário: os ratos de sempre fizeram a festa.

Caros amigos que odeiam o PT: podem ter certeza de que odeio o PT tanto quanto vocês – mas por razões diferentes. Odeio porque ele cumpriu a promessa de continuidade. Odeio porque ele não rompeu com os esquemas que o antecederam. Odeio por causa de Belo Monte e do total descompromisso com qualquer questão ambiental e indígena. Odeio porque nunca os bancos lucraram tanto. Odeio pela liberdade e pelos ministérios que ele deu ao PMDB. Odeio pelos incentivos à indústria automobilística e à indústria bélica. Odeio porque o Brasil hoje exporta armas para Iêmen, Paquistão, Israel e porque as revoltas do Oriente Médio foram sufocadas com armas brasileiras. Odeio porque acabaram de cortar 3/4 das bolsas da Capes.

O PT é indefensável – cavou esse abismo com seus pés. Mas assim como não fomos nós que elegemos Lula, engana-se quem vai às ruas e acha que está tirando Dilma do poder. Quem está movendo essa ação de despejo são os ratos que o PT não teve coragem de expulsar.

Boa sorte, presidente

"O choque de Poderes independentes deflagra um processo de aperfeiçoamento em busca das melhores práticas republicanas"
A presidente Dilma Rousseff exibe enorme disposição em defesa de seu mandato. Energizada por uma bem-sucedida dieta, que, como sabemos, é inequívoca demonstração de força de vontade, declarou em discurso sua legitimidade pelas urnas, amparada pelo voto popular. O ex-presidente FHC reafirmou, a propósito, que considera Dilma uma pessoa honrada, atribuindo malfeitos naturalmente a seus "tratores" partidários, que atuariam nos "limites da irresponsabilidade". Haveria, segundo ele, lobos e cordeiros na selva política. E o importante é se precaver contra os lobos em pele de cordeiro. Como FHC reclama de Lula por ter dividido a sociedade entre "nós", os do bem, e "eles", os do mal, devemos supor que admita ter conhecido lobos também no PSDB. A emenda da reeleição e o projeto "20 anos de poder" podem ter sido obras desses lobos, que perderam uma suja batalha política ante espécimes mais vorazes do PT.

Por tudo isso, pouco me interessa a fulanização da política brasileira. É evidente que há lobos e cordeiros em todos os partidos, embora o aparelhamento do Estado pela permanência no poder indique que uma alcateia possa ter assumido o comando do PT. O que falta em todos os partidos são os estadistas. Razão pela qual a dinâmica dos eventos atuais é dirigida pelo Ministério Público, pela Polícia Federal e por um novo Judiciário que se afirma como Poder independente. O que fariam os estadistas no Congresso? Estariam elaborando simultaneamente uma profunda reforma das degeneradas práticas político-eleitorais e outra profunda mudança do regime fiscal em torno de um pacto federativo. É perturbador o ranger das engrenagens da governabilidade quando não estão lubrificadas pelo dinheiro sujo dos propinodutos bloqueados pela Justiça.

Estamos construindo as instituições de uma Grande Sociedade Aberta. O choque de Poderes independentes deflagra um processo de purificação em busca das melhores práticas, desde que os atores atuem dentro de seus limites constitucionais. O ex-presidente Collor tinha também a legitimidade pelas urnas. Mas renunciou sitiado pelo Congresso em um processo de impeachment, pois a legalidade das práticas políticas é também uma exigência do regime democrático. Boa sorte, presidente... mas, acima de tudo, viva a República. 

Paulo Guedes