quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Leitura dos brasileiros vai de ladeira abaixo

O nível da leitura de um povo é indicador relevante do estágio cultural de um país e do seu grau de desenvolvimento. Nós vamos muito mal neste requisito, como revelou a sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil(*). Na comparação com o levantamento realizado em 2020, perdemos quase sete milhões de leitores. Pela primeira vez, a maioria das pessoas (53%) sequer leu uma parte de um livro nos últimos três meses. A recente pesquisa confirma uma tendência que vem desde 2015, quando o hábito da leitura dos brasileiros entrou em marcha descendente.

Por ser a mais abrangente, a pesquisa é a fotografia mais precisa da leitura no Brasil. Sua sexta edição revelou que, na comparação com o levantamento anterior, o brasileiro está lendo menos. Em 2020 lia, em média, quase cinco livros por ano, agora lê quase quatro. Outra revelação assustadora: apenas 27% leram um livro inteiro e não apenas parte de um livro.

Em nove anos, a perda de leitores foi de onze milhões de leitores, uma severa sangria, com impacto importante em todas as esferas da sociedade, particularmente na cultura e na educação. O diagnóstico da pesquisa é mais preocupante quando se leva em consideração a queda significativa de nove pontos, na faixa de cinco a onze anos de idade.

Essa é a faixa dos anos iniciais do Ensino Fundamental. Nela, as escolas deveriam desenvolver nas crianças o gosto pela leitura. Estamos falhando em uma das missões mais importantes da educação, a de moldar e desenvolver habilidades sócioemocionais de nossos meninos e meninas e de abrir seu horizonte por meio da leitura. Quanto mais cedo os estudantes estabelecem o hábito de ler livros, melhor será o seu desempenho escolar e sua sociabilidade.

É para se preocupar.

Como revelou a pesquisa, a sala de aula vem perdendo espaço como o ambiente da leitura. Esse fenômeno foi confirmado pela coordenadora do Retratos da Leitura, Zoara Failla: “É preocupante notar como as salas de aula estão deixando de ser um lugar de leitura, conforme a série histórica demonstra”. De fato, a série mostra que em 2007, 35% dos entrevistados citaram o espaço escolar como o lugar onde costuma ler livros. Em 2011, foram 33%. Na edição seguinte, de 2015, as menções correspondiam a 25% da população. Em 2019, foram 23%. E agora 19%, “o menor índice já registrado”.

Diversos fenômenos contribuíram para a sala de aula perder densidade como espaço importante para se adquirir o hábito da leitura, mas certamente tem grande peso a falta de políticas públicas voltadas para o incentivo da leitura, bem como a falta de infraestrutura adequada e de recursos humanos para a escola cumprir esse seu papel. Afinal, muitas delas não contam com bibliotecas nem um bom acervo de livros.

Não só a escola, como instituição, vem falhando na sua missão de desenvolver, desde cedo, o hábito da leitura em nossas crianças e jovens. Em decorrência das intensas transformações e avanços tecnológicos, houve uma importante inflexão na forma como os brasileiros se ocupam seu tempo livre.

A Retratos da Leitura mostra que 78% dos entrevistados gastam parte desse tempo na internet acessando o WhatsApp (71%) ou navegando pelas redes sociais (49%). São significativos também os que assistem televisão (71%), escutam música ou rádio (60%) ou assistem a vídeos ou filmes em casa (53%). Segundo a coordenadora da pesquisa, isso afeta especialmente os mais jovens:

“Está crescendo o percentual nessa faixa etária daqueles que dizem que estão nos games, que estão assistindo a vídeos. Então, em vez de os pais estarem apresentando livro para entretenimento, fica mais fácil oferecer o celular com jogos e vídeos”. Assim, a instituição família também não está contribuindo para desenvolver em seus filhos o hábito e o gosto pela leitura.

Desde sua primeira edição de 2007, o Retratos da Leitura no Brasil tem constatado que o livro mais lido pelos brasileiros é a Bíblia. Os livros religiosos sempre estiveram entre os mais lidos, fenômeno reafirmado no levantamento de 2024. Quando se trata da leitura de obras da literatura o quadro é pior. Em média, os brasileiros leem meio livro por ano. Há uma inversão das curvas, até 2019 havia um número maior de brasileiros com hábito de leitura, agora a maioria é de não leitores. Também pela primeira vez é maior o número de pessoas que dizem não gostar de ler (29%) é superior ao que gostam, 26%.

Um povo de baixa leitura é um povo de baixa instrução. Não é de estranhar, portanto, o fato de 30% dos brasileiros serem considerados analfabetos funcionais. Isso se reflete no desempenho dos nossos alunos no sistema de avaliação do ensino. Também incide sobre a qualidade e produtividade da mão de obra brasileira, bem como na sua inserção no moderno mercado de trabalho, cada vez mais exigente de profissionais dotados de espírito crítico, capacidade de liderança, dotado de resiliência e espírito colaborativo.

A falta de leitura contribui negativamente para a inserção de nossa juventude na sociedade e para o exercício pleno da cidadania.
 Hubert Alquéres

(*) A Pesquisa Retratos da Leitura no Brasil é uma realização do Instituto Pró-Livro com o apoio da Câmara Brasileira do livro (CBL), ABRELIVROS e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Ela teve a parceria da Fundação Itaú e o patrocínio do Itaú UNIBANCO. A aplicação da pesquisa foi feita pelo IPEC

Tempo de abundante colheita


Vivemos tempos sombrios, onde as piores pessoas perderam o medo e as melhores perderam a esperança
Hannah Arendt

Mídia Ocidental: Branqueando o genocídio israelita e fabricando consentimento

Um Comitê Especial da ONU caracterizou a guerra de Israel em Gaza como genocídio, enquanto a mídia "livre" ocidental abandonou sua responsabilidade ética de cobrir e/ou relatar objetivamente a conduta das guerras de Israel em Gaza e no Líbano.

Os veículos de mídia corporativos ocidentais, sem exceção, concordaram com as diretrizes israelenses que proibiam repórteres de entrar em Gaza. Jornalistas incorporados ao exército israelense relatam apenas o que Israel permite que observem, criando uma narrativa unilateral fortemente filtrada.

A ausência programada privou o público ocidental de informações críticas para mostrar o que a UNICEF descreve como o lugar mais perigoso do mundo para crianças. Desconsiderando essas realidades, os veículos de mídia corporativos ocidentais frequentemente desumanizam os palestinos, descartando suas queixas enquanto demonstram abertamente empatia pelos israelenses.

Um exemplo disso é que eles cobrem amplamente a realocação de centenas de famílias israelenses, enquanto oferecem pouca ou nenhuma cobertura sobre o escolasticídio de 625.000 crianças palestinas que não conseguem frequentar a escola pelo segundo ano porque Israel danificou ou destruiu 85% das escolas de Gaza.


Da mesma forma, eles desconsideram o uso documentado pela ONU de Israel de “fome como arma de guerra... destruindo sistemas vitais de água, saneamento e alimentação”, e negligenciam a situação de 90% da população deslocada internamente de Gaza, muitos dos quais foram forçados a se mudar nove ou dez vezes . Além disso, a omissão intencional da mídia sobre a destruição de todo o sistema de ensino superior, com 100% das 12 universidades de Gaza demolidas, deixando 88.000 estudantes incapazes de continuar seus estudos.

Assim como com a destruição sistemática do sistema educacional de Gaza, a mídia “livre” falhou em relatar criticamente a estratégia deliberada de Israel para desmantelar o sistema de saúde de Gaza. De acordo com a ex- Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Navi Pillay, essa estratégia envolveu “ataques implacáveis ​​e intencionais a pessoal e instalações médicas”, incluindo a morte, detenção e tortura de pessoal médico como parte de uma “política concertada para destruir o sistema de saúde de Gaza”.

Até o final de julho de 2024, a Organização Mundial da Saúde relatou que Israel havia conduzido 498 ataques a instalações de saúde. Dos 36 hospitais de Gaza, menos de 16 estão parcialmente operacionais, levando ao colapso quase total do sistema de saúde.

A mídia "livre" gerenciada envia inúmeros repórteres a Tel Aviv para cobrir a eficácia do sistema de mísseis Iron Dome de Israel, mas ninguém no local investiga a fome no norte de Gaza ou sequer mostra o rosto de uma das aproximadamente 16.800 crianças assassinadas ou a angústia de mais de 17.000 crianças que perderam um ou ambos os pais.

Ao mesmo tempo, a mídia programada inunda as telas com imagens de uma janela de vidro quebrada em uma colônia “somente para judeus”, mas nenhuma câmera tem permissão para capturar as 163.778 unidades residenciais devastadas em Gaza.

A chamada mídia ocidental “livre” não questiona ou checa os fatos da desinformação israelense, hasbara, quando jatos americanos alvejam escolas ou demolem torres residenciais sob o pretexto de “centros de comando” dentro dessas instalações. Pior ainda, a mídia propaga uma narrativa falsa, retratando as políticas malévolas de Israel como atos de benevolência porque eles emitem um aviso antes de bombardear casas em pedacinhos, e então assassinam civis enquanto eles evacuam sob as mesmas ordens.

Jornalistas ignoram vozes palestinas apontando que a destruição em larga escala de casas, “abrigos seguros” e infraestrutura crítica é parte de uma estratégia israelense calculada para tornar Gaza inabitável e deslocar à força seus moradores. Suas reportagens de longe normalizam a violência israelense e a limpeza étnica enquanto repetem a Novilíngua israelense sem escrutínio.

Um exemplo gritante da mídia abdicando de sua objetividade é o caso do Hospital Al-Shifa, onde oficiais militares israelenses exibiram um elaborado modelo 3D supostamente representando um centro de comando abaixo do hospital. A desinformação israelense foi ecoada pelo presidente dos EUA Joe Biden e pela Casa Branca, amplificando ainda mais as falsas narrativas israelenses para um público desavisado.

Em novembro de 2023, o Hospital Al-Shifa foi ocupado pelo exército israelense. Médicos foram presos, vários torturados até a morte sob custódia israelense, e o hospital foi forçado a sair de serviço. Jornalistas ocidentais, incorporados ao exército israelense, juntaram-se ao exército israelense para mostrar ao mundo o que foi alegado ser um centro de comando militar abaixo do hospital. No entanto, para descobrir que os únicos edifícios subterrâneos no vasto complexo do hospital foram originalmente projetados pelos arquitetos israelenses Gershon Zippor e Benjamin Idelson, e encomendados pelo Departamento de Obras Públicas israelense ocupante em 1983.

A ferramenta de propaganda israelense incorporada, também conhecida como mídia ocidental, acompanhou o principal oficial de desinformação de Israel em um tour pelo Hospital Al-Shifa, mas saiu de mãos vazias, incapaz de encontrar o ostentado "centro de controle de comando" ou quaisquer instalações militares sob o hospital. A Human Rights Watch concluiu mais tarde que o ataque militar ao hospital constituiu um crime de guerra após não fornecer evidências "para justificar a revogação do status do hospital como protegido pelas leis de guerra".

Em vez de responsabilizar Israel pela destruição de uma grande unidade de saúde, a mídia incorporada continuou a comercializar mentiras israelenses para desculpar violações do direito internacional. A falta de reportagem crítica e checagem de fatos é uma traição às responsabilidades jornalísticas, servindo efetivamente como aprovação implícita ou, no mínimo, normalização dos crimes de guerra israelenses.

Outro caso de como a mídia facilita a violência e a agressão é a adoção de jargões com nuances israelenses que dessensibilizam os leitores e redirecionam o foco. Por exemplo, ao enquadrar as guerras de Israel contra os palestinos em Gaza e o povo do Líbano como uma guerra contra o “Hamas” ou o “Hezbollah”, a mídia emprega eufemismos que desviam a responsabilidade israelense pelo impacto mais amplo da guerra sobre civis inocentes.

Esse enquadramento encobre a culpabilidade israelense pela destruição de 80% das casas, 60% dos hospitais, 85% das escolas, 100% das universidades, o deslocamento de 90% da população, a destruição de aldeias e a fome de crianças, retratando essas atrocidades como meros "danos colaterais" ou vítimas não intencionais em um fogo cruzado.

Além disso, a negligência da mídia ocidental em contextualizar as violações israelenses do direito internacional humanitário, as conclusões do Tribunal Internacional de Justiça e do Tribunal Penal Internacional, deixa os leitores desavisados ​​das ramificações legais e obscurece a responsabilização. Ao fazer isso, a mídia ocidental se torna, consciente ou inconscientemente, uma plataforma cúmplice da hasbara israelense .

A mídia ocidental até abandonou colegas jornalistas locais que permaneceram em Gaza e foram propositalmente alvos do exército israelense. O ataque de Israel à verdade, incluindo ataques a jornalistas e suas famílias, não tem precedentes em zonas de guerra. De acordo com o Committee to Protect Journalists (CPJ), Israel assassinou 137 jornalistas e profissionais da mídia, tornando-se o mais mortal desde que o CPJ começou a coletar dados em 1992.

A hasbara sionista, apoiada por uma poderosa plutocracia da mídia e grupos de interesses especiais influentes no Ocidente, normalizou as mentiras e o preconceito israelense contra os palestinos por mais de 76 anos. Essa narrativa construída pela mídia distorce a compreensão pública, manipula o discurso público e molda os debates políticos.

Inevitavelmente, a disseminação sistemática de desinformação molda uma visão unidimensional do conflito, suprime a dissidência e posiciona a mídia ocidental como um instrumento fundamental na fabricação de consentimento para as guerras de genocídio de Israel.
Jamal Kanj, autor de “Children of Catastrophe”

A liberdade em quarentena

No Ocidente, que é onde minha vista alcança, a questão da liberdade nesses tempos remete sobretudo ao medo. Como o professor Sul-coreano-alemão, Chul Han, descreve, “a liberdade não é possível onde reina o medo. Medo e liberdade se excluem mutuamente”. O medo aprisiona a sociedade. Contraposto ao espírito da esperança, sobretudo à esperança ativa, comprometida com movimentos de busca do progresso, ele a deixa em permanente quarentena (Byung-Chul Han, 2023).

Por certo, isso não signica esquecer o fato de que há diversos países no hemisfério que enfrentam essa questão na dimensão mais concreta, dura, primitiva - de histórica privação de liberdades públicas. Países onde nunca houve instituições propriamente democráticas, a exemplo entre outros de Zimbábue, Ruanda, Gabão ou Burundi. Outros há em que elas existiram mas foram interrompidas por revoluções autodenominadas democratizantes, mas que se corromperam em regimes autoritários como Cuba, Venezuela e Nicarágua.

Em todos esses países, na ausência quase absoluta da liberdade, o medo do sistema, o temor aos tiranos, está incorporado permanentemente ao kit de sobrevivência mental dos indivíduos na esfera pública.

Mas não é desse medo que cogito aqui. Tampouco se trata do “medo líquido” de que fala Bauman, cujas raizes são as incertezas relacionadas aos múltiplos riscos da “globalização negativa”. Sejam os desastres climáticos e ambientais, as crises econômicas, as pandemias, ou o terror ( Bauman, 2008).

Dirijo a lente para o sentimento que tem prosperado nesse primeiro quartil do século XXI, difundido regular e sistematicamente - com organização, disciplina e método- , pela extrema direita, em suas diferentes versões nacionais. Um medo “arquitetado”.


Assim, às velhas formas de supressão das liberdades vem se somar agora a estratégia do iliberalismo, promovida pela ultra direita internacional. Nela, a democracia é corroída por dentro, conforme o modelo exitoso da Hungria, de Viktor Orbán (Cas Mudde, 2023). O sucesso dessa estratégia se baseia na promoção desenfreada do medo.

O medo que assume caráter coletivo é polarizador. Magnica as divisões dentro da sociedade. Politiza e aprofunda diferenças que antes se viam pouco valorizadas, eram toleráveis e conciliáveis. Ele produz e dissemina uma sensação de instabilidade que termina por se materializar efetivamente, estimulando descontentamento e protestos, conitos e até derrubadas de governos. Esse medo redesenha o debate público, e leva os eleitores a abandonarem seus partidos e lideranças tradicionais, galvanizando o apoio a outsiders, em geral líderes autoritários que lhes acenam com segurança e proteção. O medo justica, por m, as políticas repressivas, desde a aceitação da restrição de direitos até mesmo o aplauso à hipótese de governos totalitários, como resposta ao que Hanna Arendt já conceituara como “inimigos objetivos”, geradores de suspeita generalizada e indiscriminada, sobre os quais se determinava o “uso da mentira”, administrado primeiro pelo partido e depois pela máquina do Estado (Arendt, 1951).

Nos tempos atuais, para promovê-lo e fazer adoecer a democracia representativa os venenos são atualizados, bem como a posologia adotada. Envolve doses elevadas de desinformação deliberada e disseminação maciça de fake news na internet.

O pior é que não há antídotos cem porcento ecientes. Não há como evitá-los de todo. A emergência das redes sociais tornou isso impossível. Mas é necessário coibí-los. Limitá-los em alguma medida. Sobretudo pela regulação das plataformas, como fez a União Europeia. As deepfakes criadas por inteligência articial e os milhões de usuários e bots, que distribuem informação apócrifa em redes criptografadas de ponta a ponta, agravaram o problema. Elevando o desao a um patamar bem superior ao que foi no passado o de controlar a propaganda política em jornais, rádios e TVs (Lavareda, 2024).

Ocorre que, em países como Brasil e Estados Unidos, há uma enorme resistência à regulação de plataformas e redes. A extrema direita paralisa essa agenda nos respectivos congressos. Anal, é difundindo o medo, e a partir dele agredindo ora as minorias, ora o establishment, mesmo quando estão claramente associados aos interesses das elites econômicas, é com essa fórmula que os novos populistas se valem dos algoritmos das redes para conquistar apoio eleitoral. A combinação dos interesses econômicos das plataformas e da força da ultra direita nesses países torna muito difícil caminhar nessa direção.

A expectativa do mundo se volta nesses dias para tentar prever o que acontecerá na principal potência, os Estados Unidos da América, a partir de 20 de janeiro do ano próximo. Mas a rigor não é necessário qualquer exercício adivinhatório. Basta reler os discursos e rever a propaganda da campanha. Até o momento, temos um show de coerência. Os nomes anunciados para o novo gabinete, por mais bizarros que pareçam a muitos, são pers totalmente congruentes com a retórica do então candidato.

Portanto, é mais que justicado o temor de um retrocesso signicativo na agenda de combate ao aquecimento global, numa quadra em que se multiplicam os desastres climáticos; do anunciado distanciamento dos líderes europeus, agravado pelo maior alinhamento com a Rússia; e o temor de uma redução substancial do apoio à OTAN, e especialmente à Ucrânia, que será levada à paz de joelhos. Na agenda interna, haverá deportações em massa de indocumentados; perseguição a funcionários que no passado não foram complacentes com iniciativas ilegais; demissões em massa de servidores públicos, a pretexto de reduzir a burocracia; posturas negacionistas na condução da saúde pública; e até mesmo a extinção do Departamento Federal de Educação. Tudo isso sob a direção e batuta ideológica da Direita-Tech representada por Elon Musk e J.D. Vance.

Por que Trump volta à Casa Branca? Porque que o medo já estava sucientemente instalado na alma dos americanos ao tempo da votação.

A poucos dias da eleição, uma pesquisa do jornal New York Times, em conjunto com o Siena College, mostrava a vitória de Trump no voto nacional por um ponto percentual (Trump, 47%, Harris, 46%) . Como sabemos, o resultado não foi muito diferente: Trump teve no voto total 50%, e Harris 48.4%.Uma diferença de + 1.6.

Aquela pesquisa mostrou que 76% dos americanos acreditavam que a democracia no país estava sob ameaça. Uma opinião disseminada em todos os níveis de renda e escolaridade. Com presença simétrica nos dois contingentes eleitorais (com 77% entre os eleitores de Harris, e 76% entre os de Trump). Por seu lado, em outro levantamento, o Instituto Gallup revelou que o medo dos imigrantes havia assumido grandes proporções . Para um inédito percentual de 82% dos eleitores republicanos, a imigração aparecia como questão super importante para ser levada em conta na eleição.

Os norte-americanos foram às urnas sob dois signos combinados: o do medo generalizado de que sua democracia estivesse em perigo; e um segundo, potencializado pelo primeiro, o da ansiedade especíca movida sobretudo pelo descontentamento com o governo do dia, com 62% acreditando equivocadamente que a economia estava piorando e 46% insatisfeitos com sua situação econômica contra apenas 25% de satisfeitos.

Perdeu o partido no poder. O que tem ocorrido com frequência no pós pandemia em diversos outros países que enfrentaram diculdades, especialmente no capítulo de inação e juros elevados. Como prescreve a “teoria da inteligência afetiva”, a ansiedade gerada na base eleitoral dos partidos incumbentes cria uma abertura que é usada para encorajar a defecção de eleitores na quantidade suciente para mudar a correlação de forças em favor dos desaantes. ( Mackuen, Marcus, Neuman, and Keele, 2007)

Porém, cabe enfatizar que, se a economia jogou mais uma vez um papel central no voto, o descontentamento com ela ocorreu dessa vez agravado por um clima de medo, propelido por fake news poderosas, pervasivas, mesmo quando desmentidas de forma contundente pelos fatos.

“Haitianos comendo gatos” e “votando em massa”; vídeos produzidos na Rússia denunciando “operações irregulares do FBI”; “democratas apoiando o aborto até depois do nascimento”; Estados Unidos ocupado por “hordas de estrangeiros criminosos importados pelo governo das masmorras do terceiro mundo”. Todas, notícias falsas. Somente as postagens de Elon Musk com alegações falsas e vídeos adulterados acumularam bilhões de visualizações segundo o Grok, concorrente do ChatGPT. Grok que é do mesmo Elon Musk, que doou 200 milhões de dólares e fará parte do governo Trump.

Concluindo, o certo é que a inação aliou-se ao medo, e os americanos deram lugar - com o novo governo Trump majoritário na Câmara e no Senado, e respaldado pela maioria conservadora nos Suprema Corte - a uma era de incerteza como poucas vimos antes. Nesse momento, não é exagero armar, voltando à metáfora de Chul Han, que a liberdade do mundo entrou em quarentena.

Dano duradouro às instituições

Muito já se sabia dos fatos finalmente reunidos nas 884 páginas do relatório final da Polícia Federal sobre o inquérito aberto para investigar uma tentativa de golpe ainda na vigência do governo Jair Bolsonaro. Mas a consolidação das informações a respeito da abrangência da conspiração não deixa dúvida: o grau de corrosão institucional que permite que tantos níveis hierárquicos sejam mobilizados para consolidar um plano para abolir o Estado Democrático de Direito não se corrige em dois anos, e seus danos são prolongados.

Será necessário, além de julgar com presteza e sentido de urgência e de punir com o rigor da lei aqueles que atuaram na trama golpista, atuar para descontaminar permanentemente esses órgãos de Estado, sobretudo as Forças Armadas e, dentro delas, o Exército Brasileiro dos muitos desvios comprovados pelo inquérito.

Alguns desses vícios não são novos, mas foram ressuscitados por Bolsonaro de forma sistemática e bem anterior a sua própria eleição. Tudo começou com a atuação do ex-capitão — patente, aliás, que só obteve como espécie de prêmio de consolação incompreensível depois de seu afastamento do Exército justamente por tentar promover uma sublevação — como uma espécie de líder sindical das famílias militares no tempo em que foi deputado do baixo clero.


Isso fez com que o desprezo que havia em relação a Bolsonaro nas hostes militares desse lugar a alguma condescendência. Aquele parlamentar radical e, para alguns, folclórico se tornou útil para defender os interesses corporativos dos fardados. Foi a partir dessa pequena fresta que ele foi retomando acesso aos militares mais graduados para, pegando carona em episódios como o mensalão e a Lava-Jato, convencer generais (primeiro os da reserva) e também as tropas de que seria alternativa à corrupção, hábil e sistematicamente associada ao PT e a Lula.

Os ecos dessa pregação, que teve forte impacto nas redes sociais, sobretudo, na origem, nos grupos do Facebook, aparecem nas conversas, nas trocas de mensagem e na forma de articulação dos golpistas de 2022, sobretudo na ala mais radicalizada deles, formada pelos integrantes das forças especiais, conhecidos como “kids pretos”.

Esse tipo de lavagem cerebral, que ninguém se engane, não foi estancado com a troca da guarda no poder nem com as investigações do 8 de Janeiro e do golpismo pré-posse de Lula. Continua acontecendo, de forma talvez mais sub-reptícia, nos aplicativos de trocas de mensagens, em redes sociais como o X e nas conversas de caserna.

A própria conclusão do inquérito, apontando e prendendo integrantes do Exército de diferentes patentes, é munição para o discurso de que o Supremo Tribunal Federal e o governo Lula promovem uma caça às bruxas aos militares, com execração e humilhação públicas. A prisão de um general tem forte impacto no etos militar.

O estilo conciliador do ministro da Defesa, José Mucio, não é unanimidade no entorno de Lula e no coração do PT. Estes gostariam que ao 8 de Janeiro já tivesse se seguido uma ação mais contundente para investigar, punir e afastar os envolvidos nos atos daquele dia e nas maquinações que o antecederam.

No entanto não há dúvida de que foi graças à capacidade de agir como um algodão entre coturnos de Mucio que não se seguiu uma crise maior com quartéis, à época ainda tomados pelo discurso de que as eleições vencidas por Lula haviam sido fraudadas. Passados dois anos, os sinais desse inconformismo são menos nítidos, mas dizer que o golpismo foi extirpado do ecossistema militar seria não só precipitado, mas um erro grave, que pode levar episódios similares a ocorrer num intervalo de tempo curto.

As eleições dos Estados Unidos mostraram a baixa preocupação do eleitorado com a tentativa de abolição da democracia. Donald Trump não só foi eleito para um novo mandato, como foi chancelada sua plataforma de usar o Estado para reverter investigações contra si.

É esse o caráter duradouro da depredação da democracia à século XXI. Combater esse quadro leva bem mais que dois anos e requer um trabalho mais sistemático de recomposição do tecido republicano do que apenas punir os envolvidos em episódios específicos, como o atual.

A guerra também é isto

Quando falamos em tráfico de seres humanos, vêm-nos à memória imagens terrificas de situações degradantes, de tortura ou até mesmo de morte.

Essa é, infelizmente, uma realidade cada vez mais frequente e disseminada, fazendo jus ao facto de se tratar do mais rentável dos crimes organizados.

Associamo-lo, na sua esmagadora maioria, com o fenómeno migratório que aumenta a cada dia que passa e a cada conflito que se espoleta.


No entanto, esta é uma visão ocidental, altamente direcionada de acordo com os seus interesses e temores. Estamos demasiado preocupados (e com razão!) com os conflitos no Médio Oriente e entre a Rússia e a Ucrânia, para nos preocuparmos com o que se passa no continente africano cujos países se guerreiam, fratricidamente, há décadas.

Em rigor o Ocidente está pouco interessado no que se passa no Sudão, na Serra Leoa ou na República Democrática do Congo, para falarmos apenas nos mais evidentes. São guerras que não nos afetarão e como tal fazemos de conta que não existem.

Mas elas são o combustível de muita da indústria do armamento e, paralelamente, de muito do comércio de vidas humanas.

Empurrados para fora das suas áreas originais, populações inteiras deambulam sem rumo e sem futuro. Alguns, os mais (?) afortunados conseguem o suficiente para fazerem a longa viagem até Marrocos ou Argélia, ficando às portas duma Europa que (por muito má que nos pareça) é, para quem não tem nem esperança, um oásis de paz e prosperidade.

Vêm de qualquer forma, em qualquer condição. O único direito humano que conhecem não chega sequer a ser um direito, é o instinto e resume-se à sobrevivência mesmo que degradante.

África, continua pois, a ser um dos continentes mais explorado, numa nova escravatura que reveste inúmeras facetas mas que tem sempre a mesma génese: a exploração do ser humano pelo seu semelhante.

Durante algum tempo, falou-se muito sobre a situação vivida na agricultura em Portugal assente na exploração mais hedionda, sobretudo sobre a população hindustânica.

Falou-se e depois calou-se. O que mudou? Que aconteceu a quem traficava e explorava estes trabalhadores? E a eles, que sucedeu?

Lembro bem que, questionado sobre as condições em que viviam, um destes homens perguntou, cândida mas preocupadamente, quem lhe pagaria o pouco a que estava habituado, dali em diante. Onde ficaria a dormir, que seria dele? Presumo que tenha ficado sem resposta. Provavelmente terá encontrado ouro explorador ou, na melhor das hipóteses, terá regressado ao seu país natal.

A agulheta da nossa atenção foi mudada para outros acontecimentos, outras realidades e, para trás, ficou este drama, que é apenas a ponta do iceberg.

Se a agricultura é o terreno da exploração de cidadãos vindos sobretudo da Índia, Nepal e Bangladesh, África oferece a mesma mão de obra escrava a grandes e pequenas empresas de construção civil.

Quando questionados, muitos destes cidadãos não sabem sequer o nome da cidade onde se encontram!

Mas, mais camuflado e por isso mesmo menos visível, é o drama dos menores que são aliciados com a promessa dum futuro brilhante ao estilo Ronaldo, no mundo do futebol.

Neste caso, os “olheiros” agem de diversas formas de acordo com a origem e condição destes jovens.

Situações há em que os próprios jovens ou alguém por eles pagam um montante definido, por forma a assegurarem a viagem e a estadia até encontrarem um clube que os aceite. São sobretudo menores vindos de países com algumas dificuldades, mas originários de famílias com um certo poder de compra.

No caso de África, o modus operandi é diferente. Os jovens são aliciados com a promessa do sucesso na ponta do pé e depois, a fim de pagarem a enorme dívida com que ficam para com quem os trouxe ao El Dorado, acabam por trabalhar de dia em empresas arranjadas pelos próprios “olheiros” e, ainda sonhando, treinar longas horas à noite.

Estas situações, que envolvem jovens, são duplamente censuráveis e penalizáveis, pelo menos de forma moral.

Com efeito, para além da exploração laboral a que são expostos, é-lhes retirado o direito, que assumimos como inalienável, a uma educação e a uma infância/juventude.

Estes menores, rapazes na sua maioria, ficam presos a uma miragem cada dia mais longínqua, remetendo-se ao silêncio , calando explorações de todo o tipo a que são sujeitos.

Com idades entre os 14 e os 18 anos, vivem sozinhos em casas sem condições, aos dez e mais, perdidos num país que apenas conhecem dos grandes nomes do futebol, sujeitando-se a tudo enquanto esperam.

E assim, desta forma “limpa”, vamos convivendo com situações de conflito, de extrema desigualdade, prolongando-as no tempo.

Não é verdade que não existam soluções para este flagelo. O que não existe é coragem nem vontade para acabar com ele.

terça-feira, 26 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Delírio político

Acabar com a pobreza em todas as suas formas e circunstâncias é apenas um delírio político, que erradica a miséria das ilusões nos números vermelhos de uma economia que é mais vulnerável do que os próprios pobres neste mundo.

O leão e a gazela

Daqui a pouco, chega dezembro, o mês que carrega um largo espaço para reflexão. Um tempo que nos convida a pensar sobre as nossas vidas, a partir da insensatez desses tempos turbulentos. Tempo de recauchutar o espírito. Aproveito para sugerir uma pauta temática, pinçando fatos, historinhas e um apólogo, escolhidos para iniciar uma breve leitura do cotidiano.

Há dias, um empresário foi assassinado no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, ao voltar com a namorada de uma a viagem a Alagoas. Fuzilado com balas de fuzil, a mando, dizem, do PCC. Pretendia fazer de sua delação premiada passaporte para continuar a viver a vida na festança. Dispensou, incrível, a cobertura do programa de “proteção à testemunha”. Arriscou-se, assim, ao fuzilamento, achando que policiais contratados para proteger seus passos lhe garantiriam plena segurança. A investigação levanta suspeitas sobre seus seguranças.

O segundo episódio é o de um motoqueiro que fazia muito barulho com sua moto. Em um semáforo, em São Paulo, policiais o pararam. E o castigaram de modo inusitado. Colocaram o motoqueiro com os ouvidos na boca do escapamento da moto e baixaram o pé no acelerador. Um ronco infernal. O rapaz não conseguia tapar os ouvidos, eis que suas mãos estavam contidas pelos policiais. Punição que lembra tempos imemoriais.


Insensatez, loucura, banalização da criminalidade, frieza ou simplesmente um fragmento da brutalidade infernal desses tempos ditos de globalização? O assassinato do empresário mostra o poder informal, as forças da violência, suplantando o poder formal do Estado.

Os dois fatos têm mais significados que a simples fotografia do cenário de terror que estamos vendo. Expressam o estado ilógico, antinômico e alienado de um mundo em que os princípios da eficiência (e aí, Elon Musk?), a meta da competitividade a qualquer custo, da concorrência e aética, estão tornando as pessoas infelizes, solitárias e menos solidárias.

Domenico de Masi, sociólogo italiano, autor de O Futuro do Trabalho, pinça o apólogo do Leão e da Gazela para mostrar a que ponto chega a esquizofrenia bárbara das ruas e dos ambientes de trabalho, que se transformam em campos de guerras da modernidade.

A historinha é emblemática: “Toda manhã, na África, uma gazela desperta. Sabe que deverá correr mais depressa do que o leão para não ser devorada. Toda manhã, na África, um leão desperta. Sabe que deverá correr mais que a gazela para não morrer de fome. Quando o sol surge, não importa se você é um leão ou uma gazela: é melhor que comece a correr”.

Esse lembrete é exibido em ambientes de trabalho como profissão de fé de executivos e dirigentes empresariais. À primeira vista, parece um bom conselho para quem quer vencer na vida. Trata-se, porém, de uma exaltação à barbárie. Basta intuir que, pelo conselho, “leões humanos” (aspas nossas) são autorizados a agarrar “gazelas humanas” (aspas nossas), que, apavoradas, devem se desdobrar para realizar suas tarefas ou a se esconder para fugir das intempéries das ruas e do trabalho (ou dos ataques dos leões). É evidente o estímulo ao instinto da violência, ao cultivo dos perfis agressivos, às lutas por espaço e poder, às táticas aéticas e aos golpes traiçoeiros, tudo justificado pela necessidade da competitividade.

Nessa arena de “leões e gazelas”, a alternativa que se apresenta é única: correr ou matar. Escapar ou morrer. E é isso que se vê nos corredores da morte, nos ambientes de trabalho competitivos, no chão das fábricas, nos palácios e nas ruas. Afinal de contas, ladrões que surripiam calmamente celulares (roubam e se afastam da vítima andando calmamente pela calçada), ele mesmo um “leão faminto” (dinheiro, drogas, satisfação psicológica), é produto de um meio cada vez mais degradado. A estética de medo, subordinação e culto à tecnologia dos teatros de competição, montados nos ambientes de trabalho, soma-se à estética de banalização da violência nas ruas, cuja multiplicidade é assombrosa: as cidades têm seus serviços deteriorados, um tormento que torna a vida massacrante; a violência da miséria absoluta, que exclui milhões de pessoas, principalmente contingentes marginalizados das periferias urbanas; a violência contra o menor e pelo adolescente infrator; a violência contra mulheres (o feminicídio), muito discriminadas; a violência étnica; a violência da falta de oportunidades e assim por diante.

Eis o paradoxo da modernidade. Esse caldeirão, que deveria ser quente, pela alta temperatura das situações, está transfigurando a sociedade em um ente frio, compartimentalizado em grupos e feudos, recortado por imensos apartheids econômicos e sociais. De outro lado, a organodemocracia, a “democracia” dos departamentos criados nos ambientes hierarquizados do trabalho privado, está amortecendo o conceito da sociedade convivial, sociedade voltada para os cidadãos e não para a produção. Os burocratas não sentem o cheiro das ruas e os dirigentes empresariais só têm olhos para a produtividade, não raro procurando fórmulas para atenuar os golpes furiosos do tacape de impostos e tributos governamentais. Sob esse desenho, não há tempo, interesse ou motivação para se tratar de outras questões e das coisas do espírito.

Onde estão os valores da solidariedade, do companheirismo, da doçura nas relações do trabalho, da amizade, da comunhão, do jogo em equipe? Estão se despedindo da Humanidade. Em seu lugar, surge uma modelagem tétrica, um aparato desordeiro, um jogo maléfico, altamente competitivo, que convive com golpes, morte, assassinatos, traições, desprezo à vida. Fechando a galeria da insensatez, aparecem bandidos nas ruas usando camisetas com Cristo, Gandhi ou santos de sua veneração.

Eis o mundo alienado. Que Deus nos proteja do apocalipse. Antes que mísseis intercontinentais (esses que a Rússia começa a usar na guerra contra a Ucrânia) caiam sobre nossas cabeças.

Um golpe para o cinema

Presenciei dois golpes militares no século XX. Primeiro foi no Brasil; nove anos depois, no Chile. Traços comuns: ocupação de pontos estratégicos, deslocamento de tropas, prisões em massa. Não houve planos de assassinato do governante deposto, embora Allende tenha morrido resistindo no Palácio de La Moneda.

No século XXI, os golpes de Estado tomaram outra forma. Há uma batelada de livros descrevendo-os. Agora, a democracia é devorada por dentro. O Poder Executivo aos poucos neutraliza Congresso e Judiciário e passa a mandar sozinho. É possível ver mais ou menos isso na Hungria ou na Venezuela.

O plano de golpe revelado na semana passada pela Polícia Federal representa um brutal retrocesso. Ele começaria com a morte do ministro Alexandre de Moraes, de Lula e Geraldo Alckmin. Teria características do século XIX, assim mesmo em países muito atrasados. Isso revela que o mundo avançou, e os golpistas, criando uma situação grotesca, recuaram no tempo, não chegam aos pés de seus antecessores do século passado.


Apesar da condenação inequívoca, seria interessante conhecer mais detalhes para contar a história. Há pontos ainda obscuros. O projeto era matar e envenenar. Matar a tiros — usando fuzis, pistolas e até um lança-granadas — é uma coisa. Envenenar é outra, em termos de planejamento. Você não lança uma granada envenenada; de um modo geral, usa outros métodos. A mais avançada prática no mundo talvez seja a da Rússia. Um simples chá pode destruir o oposicionista. Tanto o polônio-210 quanto o tálio são muito usados pela polícia política de Putin. Eis a pergunta sobre o envenenamento: qual era o plano, qual sua viabilidade no tempo escolhido, o mês antes da posse?

Não tivemos acesso ao esquema completo, escrito pelo general Mário Fernandes. Foram divulgadas apenas algumas de suas mensagens. Nelas, ele repete a palavra “porra” 53 vezes. Se continuasse produzindo textos, acabaria aumentando o índice de natalidade nacional.

Também não ficou claro como seria o assassinato de Moraes. Houve um olheiro colocado perto do restaurante Gibão, especializado em carne de sol. Ele reclama de falta de táxi; parece que esqueceram que não se pegam táxis na rua em Brasília. É preciso telefonar. O agente era Gana, os outros eram Áustria, Japão, Brasil, nomes de países. Creio que se inspiraram na série “Casa de Papel”, onde se usavam nomes de cidades: Paris, Tóquio.

As armas mencionadas ainda não apareceram. Eram fuzis pistolas, lança-granadas e uma bazuca. É um arsenal considerável. Como se encaixa no planejamento? Se usassem tudo, matariam ministro, motorista, segurança e eventualmente algum adepto de carne de sol próximo ao restaurante Gibão.

À medida que as investigações avançam, creio que algumas dúvidas serão esclarecidas para que se possa montar uma história mais detalhada. Há coisas que só alguém pensando no futuro roteiro pode perguntar. Por exemplo: você envenenaria o presidente e o vice ao mesmo tempo? Caso houvesse espaço entre um e outro, não seria possível que o sobrevivente desconfiasse e tomasse precauções?

Só o general no seu labirinto poderia responder a essas perguntas. Certamente diria:

— Não me venha com detalhes, porra.

Mas o trabalho da PF continua, desvendando toda a trama, encontrando o escalão superior do golpe e criando as condições para que se conte a história de forma precisa.

A série televisiva espera Gana, Áustria, Japão, Brasil, com a mesma atenção que deu a Paris, Tóquio, Londres, na “Casa de Papel”.

O retorno dos tecnolibertários

A vitória de Donald Trump representa muitas coisas transformadoras do mundo. Uma é o casamento entre o determinismo tecnológico e o libertarianismo. No mundo deste novo governo, a linha que separa Milton Friedman dos bilionários da tecnologia como Elon Musk, Peter Thiel, Marc Andreessen e Mark Zuckerberg fica difusa e se confunde em uma filosofia cujo objetivo é acabar com todas as restrições aos mercados.

A turma de “voluntários” tecnolibertários de Trump - como Musk disse de maneira um tanto insincera, dado que Tesla e SpaceX recebem mais financiamento federal do que a NPR - acredita que deveria ser deixada livre para desmontar o aparato estatal em nome da eficiência e do lucro. O lucro já foi alcançado, pelo menos para o pessoal do Vale do Silício: inteligência artificial, criptomoedas e qualquer empresa vinculada a Musk viram o valor decolar desde a eleição.


Os EUA, contudo, não são o único lugar onde os “senhores digitais” exercem influência excessiva. Na semana passada, Musk anunciou que parlamentares britânicos “serão convocados aos Estados Unidos para explicar a censura por parte deles e as ameaças a cidadãos americanos”. Isso ocorreu após Chi Onwurah, deputada trabalhista e presidente da Comissão de Ciência e Tecnologia do Parlamento britânico, sugerir que Musk deveria depor sobre a disseminação de desinformação antes dos tumultos no Reino Unido em agosto.

Por sorte, alguém teve coragem de enfrentar as gigantes tecnológicas. Por sua vez, Peter Kyle, secretário britânico de Ciência e Tecnologia, cometeu um deslize ao dizer que países como o Reino Unido deveriam interagir com as empresas internacionais de tecnologia mais poderosas como se fossem Estados-nação. Os governos deveriam mostrar um “senso de humildade” e valer-se de “diplomacia” ao lidar com empresas como Google, Microsoft e Meta, segundo Kyle.

Se aprendemos algo desde meados da década de 1990, é que ser cauteloso e humilde não é a maneira de lidar com as big techs, que jogam conforme suas próprias regras e em benefício próprio. Enquanto Trump monta seu novo governo, os ganhos já são espetaculares. Observe enquanto a Palantir assume o complexo militar-industrial, os bitcoins alcançam novos recordes, a X favorece republicanos em detrimento de democratas e a riqueza da classe tecnolibertária dispara. Como Andreessen disse recentemente em um podcast: a vitória de Trump parece “tirar uma bota que pisava a garganta”. “A cada manhã, acordo mais feliz do que no dia anterior”.

O sonho de um mundo impulsionado pela tecnologia, livre de todas as restrições governamentais, existe pelo menos desde o surgimento da internet. A desregulamentação da era Reagan ajudou, mas também a abordagem laissez-faire para o desenvolvimento da internet de consumo nos anos 1990, no governo Bill Clinton. Ele promulgou a agora infame “seção 230”, que isenta empresas de tecnologia de responsabilidade pelo conteúdo em suas plataformas.

Jonathan Taplin escreveu o livro premonitório de 2023 “The End of Reality: How Four Billionaires Are Selling a Fantasy Future of the Metaverse, Mars, and Crypto” (O fim da realidade: como quatro bilionários estão vendendo um futuro fantasioso de metaverso, Marte e criptomoedas, em inglês), sobre Musk, Thiel, Andreessen e Zuckerberg. Ele traça uma linha direta entre a era Clinton/Gore, Musk e os comentários de Kyle.

“Acredito que os oligarcas da tecnologia já estão no comando”, diz. “Afinal, são essas entidades que constroem a infraestrutura de computação em nuvem e a IA para Estados-nação, os cabos submarinos que sustentam o comércio e a comunicação digitais, os drones militares e a tecnologia de satélites cruciais para a defesa, e agora, os novos sistemas de moeda internacional que podem muito bem ser o cerne da próxima crise financeira”.

No entanto, a captura cognitiva das autoridades e governos pelas gigantes tecnológicas é apenas parte do problema. Nos últimos anos, o tecnolibertarianismo se somou à proliferação de domínios extraterritoriais - portos livres, zonas econômicas especiais, paraísos fiscais, cidades de administração privada - nos quais os colossos digitais e seus seguidores escapam dos limites da democracia. Livros recentes, como “Crack-Up Capitalism” (algo como “capitalismo acidentado”), de Quinn Slobodian, e “The Hidden Globe” (o globo oculto), de Atossa Araxia Abrahamian, descrevem como esses locais canalizam riqueza de países ricos para os pobres, sem o incômodo de impostos ou normas e regulamentações locais.

Grande parte do dinheiro e das pessoas nesses lugares vem do Vale do Silício. Veja o caso de Próspera, uma cidade privada em Honduras financiada em parte por fundos que contam com apoio de Andreessen, Thiel e Sam Altman. Lá, as empresas podem criar as próprias regulamentações, empreendedores podem conduzir ensaios clínicos malucos sem precisar seguir os padrões da Agência de Remédios e Alimentos (FDA, na sigla em inglês), e cidadãos são protegidos por uma firma privada de seguranças armados. Seu objetivo é claro: “construir o futuro da governança humana: de administração privada e com fins lucrativos”.

Esse pode muito bem também ser o mantra do governo Trump. No entanto, os investidores devem lembrar que o tecnolibertarianismo em geral chega a picos para depois cair. Em 2006, Richard Haass, ex-oficial do Departamento de Estado de George W. Bush, escreveu sobre a elevação das empresas ao status de quase Estados-nação. Empresas como Microsoft e Goldman Sachs, argumentava ele, tinham um papel a desempenhar em “deliberações regionais e globais”, uma vez que o “quase poder monopolista” dos Estados estava enfraquecido.

A crise financeira mundial de 2008 tornou essa ideia tanto ultrapassada quanto politicamente tóxica, ao menos por algum tempo. Agora, estamos prestes a testemunhar como o poder monopolista privado disfarçado de governo se manifesta. Eu me pergunto por quanto tempo o sonho - ou pesadelo - durará antes que o mundo volte a acordar?

 Rana Foroohar, editora especial do Financial Times

segunda-feira, 25 de novembro de 2024

Semeando ódio


As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda
Mia Couto

Golpe e castigo no Brasil em transe

O inquérito sobre os atos antidemocráticos, a trama de golpe de Estado e o uso da desinformação como estratégia de desestabilização da democracia chegou aos estágios finais, após dois anos de investigação. A Polícia Federal indiciou formalmente Jair Bolsonaro, toda a cúpula militar da Presidência, o delegado Alexandre Ramagem, da Polícia Federal, ex-chefe da Abin, e o presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, por tentativa de golpe de estado, tentativa de abolição violenta do estado democrático de direito e por organização criminosa. Foram 36 indiciados, entre eles 24 militares, além de Bolsonaro. A única exceção entre os oficiais palacianos foi o ex-secretário-geral da Presidência, general Luiz Eduardo Ramos.

Os golpistas foram reunidos em seis núcleos diferentes: desinformação, jurídico, operacional, inteligência, oficiais de alta patente e responsável por incitar militares a apoiar o golpe. A Procuradoria-Geral da República deve oferecer denúncia contra todos. Muitos dos oficiais de alta patente eram do grupo de elite do Exército, as Forças Especiais, os "kid pretos".

O grande ausente é o general Ramos, também da cúpula militar palaciana. Não é crível que um general saído do comando do 2º Exército em São Paulo para ocupar a Secretaria de Governo e depois a Secretaria-Geral, tendo como seu "vice" o general "kid preto" Mário Fernandes, principal idealizador do plano "Punhal Verde-Amarelo", não saber, nem ter participado da conspiração pelo golpe. O general Fernandes, em mensagem a ele, que era seu superior imediato, trata do golpe e o chama de "kid preto".

Esse foi um golpe estimulado, idealizado, tramado e planejado por toda a cúpula militar da Presidência da República, no governo Bolsonaro. Ele foi o chefe político e comandante supremo desses oficiais superiores em cargos estratégicos. Após o julgamento na Suprema Corte civil, os militares devem ser julgados, também, no Superior Tribunal Militar. Será a primeira vez que oficiais responderão a IPMs por crime político. Espera-se que os golpistas sejam punidos de forma exemplar e, com agravantes por serem de alta patente, estarem em funções de grande responsabilidade, vários deles em posições cujo mandato incluía a obrigação de defender a integridade do Estado Democrático de Direito.

Foi um golpe inacabado e é precisamente porque não se consumou que pôde ser investigado e será julgado. Golpes consumados cancelam o Estado Democrático de Direito e se asseguram a imunidade. Como fizeram os militares de 1964, que forçaram um Congresso sitiado a incluí-los na anistia a suas vítimas, em troca de uma abertura política negociada. O tipo penal é tentativa de golpe de Estado, isto é, tentar depor o governo legalmente constituído, com emprego de violência ou grave ameaça. O outro tipo penal é tentar abolir o Estado Democrático de Direito, com emprego de violência ou grave ameaça, impedindo ou restringindo o exercício dos poderes constitucionais. As penas são leves diante da gravidade dos crimes, no máximo 12 anos de prisão, para cada crime.

Mesmo a pena agravada em um terço por ocupar os mais altos postos de comando não guarda proporção com a seriedade dos crimes e a oportunidade que um golpe desse tipo abre para crimes hediondos, como tortura e execução de adversários. O organograma do Gabinete de Crise previsto para logo após a deposição e morte de Lula, Alckmin e Moraes, que seria comandado pelos generais agora indiciados, Heleno Augusto e Braga Netto, previa uma "Assessoria de Inteligência" encarregada de ações de "inteligência e contrainteligência, nos níveis federal, estadual e municipal". Quem viveu os anos de chumbo, sabe no que se tornaram esses aparatos de "inteligência e contrainteligência" das Forças e do SNI.

Pelo menos se todos os envolvidos no plano de golpe e abolição do estado democrático de direito, mentores, financiadores e operadores, forem condenados pela pena máxima, acrescida de seus agravantes, passarão uma boa temporada encarcerados. Seria o fim da impunidade crônica que caracterizou o tratamento judicial de crimes políticos no Brasil e da leniência com as tramas golpistas, inclusive, aquela que terminou nos 21 anos de ditadura militar e abusos aos direitos humanos em seus porões. O inquérito do golpe não estará completo até que toda a cúpula de responsáveis por seu planejamento, custeio e operação sejam punidos, inclusive, aqueles que escaparam ao indiciamento no primeiro relatório. Esperemos por outros.

Sérgio Abranches

Macondo é aqui

As revoluções, ou suas respectivas tentativas, têm um aspecto ridículo que nunca deve ser desprezado. O realismo mágico existe, não é invenção de escritores do quilate de Gabriel Garcia Marques. Eles perceberam o fenômeno na política latino-americana. Nestas histórias, há sempre um general, cheio de medalhas no peito, a se proclamar o benefactor da Pátria, em nome da defesa das instituições, da moral e dos bons costumes, que baixa o cacete nos opositores. Às vezes em nome de Deus.

Não será surpresa se, dentro de alguns anos, tudo isso que a Polícia Federal descobriu seja esquecido ou considerado ilegal. Foi assim com a operação lava-jato, que encontrou uma roubalheira abissal nos negócios da Petrobrás. Apesar das confissões, feitas em juízo, de repente, todos foram inocentados. Aqui não há memória.

A Polícia Federal colocou o guiso no pescoço do gato. O capitão Bolsonaro utilizou todo o período de seu governo para tramar contra as instituições nacionais. Ele esqueceu ou não teve competência para governar. Não inaugurou uma única escola, não avançou um passo no sentido de colocar o país em posição melhor no contexto internacional. Frequentou colóquios internacionais como personagem exótico, que abandonava o local dos encontros de autoridades estrangeiras para fazer refeições em restaurantes de comida rápida. Vendeu as joias recebidas como presente em visitas de estado que fez, representando o Brasil. Frequentou os quarteis durante os quatro anos de seu mandato. E concedeu generosos aumentos de salário aos militares.



Roteiro muito semelhante ao trilhado por Nicolas Maduro, o homem forte da Venezuela, que nos últimos tempos passou a fazer críticas abertas ao presidente Lula, de quem era amigo íntimo. Ele quebrou a PDVSA, a petroleira venezuelana, entregou os melhores cargos para seus correligionários, fechou os olhos para o tráfico de drogas e colocou os garimpos de ouro à disposição dos militares.Encheu o peito de medalhas, o que lhe concedeu o direito de prender, torturar e matar opositores. De vez em quando conversa com o falecido Chaves por intermédio de passarinho que pousa na sua janela. Tudo em nome do pobre do Bolívar, que apenas comandou a independência das colônias espanholas na América do Sul. O libertador morreu tuberculoso. Sua mulher, Manuela Sáenz, chamada de la libertadora, viveu seus últimos anos vendendo pasteis em Guayaquil, Equador.

Esta é a nossa América do Sul. Não esquecer a paixão dosargentinos pelo cadáver de Evita Peron que perambulouinsepulto durante anos e viajou entre Espanha e Argentina. No caso brasileiro, o presidente ao invés de governar passou a tramar contra as instituições de seu país. Ele teve todos os instrumentos ao alcance da mão. Tinha a caneta, a polícia, a maioria dos parlamentares e apoio popular. Decidiu caminhar pelo lado escuro da política. Perdeu a eleição por incompetência e incumbiu militares de forças especiais do Exército de matar o presidente da República,o vice e o então presidente o Tribunal Superior Eleitoral. Coisa de amador. Como acontece na melhor literatura latino-americana sempre dá tudo errado, seja porquealguém falou demais, ficou bêbado ou chegou atrasado na hora fatal. Ou, ainda, sujou as calças.

Não havia o menor risco de dar certo. Eles fizeram o ensaio geral no dia da diplomação de Lula e Alckmin. Promoveram a maior baderna no centro de Brasília. Chegaram a tentar invadir a sede da Polícia Federal. A PMDF limitou-se a olhar. Mas o golpe, ou o que restou, dele, já estava em curso. Depois veio o oito de janeiro, que foi claramente conduzido por gente do ramo. A invasão do Congresso pelo teto, com apoio de uma escada de cordas, a utilização de água para reduzir o efeito do gáslacrimogêneo, denuncia a presença de especialistas. Os militares colocaram dois tanques de guerra para defender oenorme acampamento de manifestantes, onde eram servidas três refeições por dia. O pessoal tinha dinheiro.

Naquele dia, Lula estava em Araraquara, interior de São Paulo. Foi o secretário executivo do Ministério da Justiça, Ricardo Capelli, que teve a coragem de entrar no quartel general do Exército e determinar a retirada dos manifestantes da frente das instalações miliares. Todos foram presos. Agora a Polícia Federal chegou aos mandantes. Eles são herdeiros do falecido ministro da guerra, Sylvio Frota, de quem o general Augusto Heleno foi ajudante de ordens. Ele foi exonerado pelo presidente Ernesto Geisel, por ser contra a redemocratização do país

Se tivessem conseguido dar o golpe, além de prender, torturar, matar e censurar a imprensa, eles iriam brigar entre si. Jamais generais admitiriam bater continência paracapitão. Bolsonaro correria o risco de ser preso por seus amigos, em nome da defesa da ordem. Macondo não existe somente na literatura de Garcia Marques. Macondo é aqui.

domingo, 24 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


O cruzado que Trump escolheu para a Defesa

Aos 44 anos, o veterano Pete Hegseth mantém o corpanzil sarado dos tempos em que foi soldado de elite do Exército americano. Prestou serviços no Iraque, no Afeganistão e na abominável prisão militar de Guantánamo antes de se tornar personalidade cultuada da Fox News. Ali ancorava um dos programas de maior audiência e estridência do canal, até ser pinçado por Donald Trump para ocupar o cargo de futuro secretário da Defesa.

Em condições mínimas de razoabilidade, a indicação de Hegseth teria poucas chances até de chegar ao Senado, ainda menos de ser aprovada na sabatina — os legisladores democratas, somados a alguns republicanos pensantes, pareciam decididos a impedir tamanha insânia. Antes, porém, era preciso abortar outra indicação de Trump: a do agora ex-deputado federal Matt Gaetz como procurador-geral. A pressão contra Gaetz funcionou. Detestado por seus pares e retratado como predador sexual contumaz em relatório da Comissão de Ética da Câmara, ele desistiu do cargo antes de precisar ser sabatinado.


À primeira vista, uma derrota indigesta para o triunfal vencedor da eleição de 5 de novembro. Mas só à primeira vista. É possível que Trump tenha usado Gaetz como isca calculada. Os republicanos dificilmente correrão o risco de implodir também, de forma tão frontal e acelerada, mais um candidato do firmamento Make America Great Again (Maga). Trump não perdoaria a infiel reincidência, e da ira vingativa do futuro presidente muitos no Senado já provaram.

Para explicar quem é e o que significaria Hegseth chegar ao comando do Departamento de Defesa, vale começar pelas tatuagens que traz no corpo. Cobrindo boa parte do tórax direito, está a Cruz de Jerusalém (também conhecida como Cruz das Cruzadas). Apesar de datar da Idade Média, ela voltou a ser cultuada por extremistas de direita e protofascistas. Na cerimônia de posse do democrata Joe Biden em 2021, Hegseth chegou a ser excluído da equipe que fazia proteção presidencial por causa dessa tatuagem. Explica-se: duas semanas antes, no fatídico 6 de Janeiro, supremacistas e trumpistas inconformados haviam tentado impedir pela força a diplomação de Biden no Capitólio.

— Este momento de nossa história clama por uma Cruzada Americana — escreve Hegseth num de seus livros mais perturbadores.

Tem mais. Na parte interna do braço esquerdo, a tatuagem de uma sinuosa serpente evoca a libertação americana da Inglaterra; no antebraço, uma frase em latim: Deus Vult (Deus o quer), apropriada das Cruzadas por neonazistas como grito de guerra contra a disseminação do islamismo. Uma bandeira dos Estados Unidos, uma imensa cruz com espada e dizeres em hebraico, um “We the People”, do preambulo da Constituição americana, em letras gigantes, também fazem parte do ideário gravado no corpo de Hegseth. Seus disparates verbais também assustam:

— Germes não existem. Não consigo vê-los, portanto não são reais — sustentou do sofá curvilíneo que ocupou por uma década no programa Fox & Friends.

Certa vez Hegseth rasgou seu diploma de Harvard ao vivo e leu um trecho do livro “American Crusade” em que desanca as universidades de elite que “envenenam a mente de nossos filhos”. Na vida real, porém, adora mencionar, en passant, que tem graduação em Princeton e pela John F. Kennedy School of Government (Harvard).

É sua obra mais recente, “War on Warriors” (guerra contra guerreiros), que aponta melhor para a temeridade de deixar Hegseth comandar um orçamento militar anual de quase US$ 900 bilhões, um arsenal nuclear e convencional sem paralelo na História, um pessoal ativo de 1,36 milhão de fardados, 811 mil reservistas, um poderio global com 800 bases militares espalhadas pelo planeta, e muito mais.

— Enquanto patriotas da geração do 11 de Setembro lutaram contra inimigos lá fora, permitimos que os inimigos em casa dominassem nosso território cultural, espiritual e político. Nossa retaguarda ficou exposta, e o inimigo avançou — avisa ele.

Lutar contra “extremistas domésticos” como o ex-presidente Barack Obama, os democratas e liberais seria a segunda etapa de uma guerra pela liberdade. O livro é de 2020, mas há poucas chances de os fantasmas de Hegseth terem sumido. Com visão apocalíptica da sociedade, vê no outro uma ameaça existencial. Por isso exorta outros cruzados a “desprezar, humilhar, intimidar e esmagar” o inimigo interno.

— O tempo está acabando para o país — anuncia. — Será uma guerra sagrada de 360 graus pela causa da liberdade (...) até a aniquilação total da esquerda. Nos veremos na zona de combate! Juntos, com a ajuda de Deus, salvaremos a América. Deus vult!

Socorro.

Juan Arias, o homem feliz da praia de Saquarema


“E se você tiver dúvidas, pergunte a Juan Arias , que mora lá.” Esse foi o principal conselho que meus chefes me deram quando me enviaram para São Paulo em 2014 como correspondente e chefe de delegação da edição brasileira do EL PAÍS. Liguei para Juan logo que cheguei: não entendi nada daquele país fascinante e difícil onde há quem vá de helicóptero para fugir dos engarrafamentos de São Paulo e quem viaje de canoa para vender frutas na Amazônia. Juan me atendeu ao telefone com sua voz doce de uma pequena cidade do Estado do Rio de Janeiro e sempre me livrou de problemas com aquela mistura de lucidez, sabedoria e paciência que logo reconheci como parte de sua personalidade requintada. Aos poucos fui ligando para ele cada vez mais, e para mais e mais coisas. E algumas semanas depois fui visitá-lo em sua casa naquela cidadezinha do Estado do Rio de Janeiro.

A cidade se chama Saquarema e a casa tinha paredes coloridas, pouca mobília, muita luz e dava para um mar azul e uma praia linda e infinita. Naqueles dias falamos muito do Brasil e deste jornal, mas também do Papa – muitos papas –, da Itália, dos livros, do jornal Pueblo, da religião ou do presunto serrano. Fazíamos isso em casa, acompanhados de sua esposa, a maravilhosa Roseana Murray, escritora e poetisa, mas também em longas caminhadas pela orla. Digo que conversamos, mas tentei deixá-lo falar, porque ele tinha muito mais coisas para dizer e o fez com aquele misto de sabedoria, paciência e lucidez que eu já começava a admirar. Naquele fim de semana, ele e Roseana me contaram sua história de amor: como Juan deixou tudo para trás quando tinha mais de 60 anos e se mudou para o Brasil e como Roseana deixou todo o Brasil para trás e se mudou para Saquarema. Quando voltei para São Paulo naquele domingo e vi os dois se despedindo de mim na porta de sua casa, com toda a luz do mar no rosto, pensei que, como naquele famoso filme argentino de Adolfo Aristarain, Juan Arias foi um daqueles poucos homens de sorte que encontrou seu lugar no mundo.

Fora filho da guerra, seminarista, sacerdote, teólogo, ex-padre, jornalista de Pueblo , correspondente em Roma do EL PAÍS, membro da revista Babelia, Defensor do Leitor, escritor e, por fim, correspondente no Brasil. Talvez ele tenha te dado uma palestra sobre Giulio Andreotti que decifrou Lula da Silva ou te orientado onde plantar uma orquídea. Foi um verdadeiro professor para todos, especialmente para os jovens jornalistas que compunham o EL PAÍS Brasil, brasileiros e espanhóis, a quem ajudou generosamente desde o primeiro dia, sem conhecê-los, e a quem posteriormente acompanhou ao longo de toda a carreira. Mas sempre me lembrarei dele caminhando sorridente pela praia de Saquarema com as mãos nos bolsos da calça jeans. Além disso, nestes últimos dias, quando eu já sabia que ele estava morrendo, ele me disse no WhatsApp, com a lucidez, sabedoria e paciência de sempre, que não tinha o direito de reclamar, porque havia tido uma vida muito longa e feliz.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar de que lado está

A direita que se diz civilizada ganhou mais uma chance de mostrar que é de fato civilizada. Em 2018, ela apoiou a eleição de Bolsonaro por querer acreditar que ele governaria dentro das quatro linhas da Constituição. Embora lhe faltasse preparo, Bolsonaro saberia cercar-se de pessoas competentes. O mercado estava repleto delas.

Não foi o que aconteceu. Com apenas um ano e quatro meses no cargo, em ato público defronte ao QG do Exército em Brasília, Bolsonaro falou a manifestantes que pediam abertamente a volta da ditadura. Censurou-os? Pelo contrário. Exaltou-os do alto de uma camionete ao dizer entre outras coisas:

– Não queremos negociar nada. Nós queremos é ação pelo Brasil. O que tinha de velho ficou para trás. Nós temos um novo Brasil pela frente. Todos, sem exceção, têm que ser patriotas e acreditar e fazer a sua parte para que possamos colocar o Brasil em lugar de destaque. Acabou a época da patifaria. É agora o povo no poder.

– Todos no Brasil têm que entender que estão submissos à vontade do povo brasileiro. Tenho certeza, todos nós juramos um dia dar a vida pela pátria. E vamos fazer o que for possível para mudar o destino do Brasil. Chega da velha política.

A turba rugiu satisfeita e em êxtase.

Salvo poucos nomes, Bolsonaro cercou-se de auxiliares tão medíocres quanto ele, de preferência militares. Nem os governos da ditadura empregaram tanta gente fardada em lugares quase reservados a civis. A política arrombou de vez as portas do quarteis e começou a sangrar a disciplina. Deu no que vimos.

A direita dita civilizada também viu. Mas isso não impediu que parte dela, jamais mensurada, apoiasse a reeleição de Bolsonaro. Foi por um suspiro que ele não se reelegeu, derrotando Lula, o candidato da tal frente ampla pela democracia. E não foram apenas os extremistas da direita que votaram nele.

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor. Foi o Estado Democrático de Direito que esteve em perigo e por um triz o golpe não se consumou. Quem o reverteria se Lula, Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes tivessem sido mortos? Os generais que acolheram gentilmente os golpistas acampados?

Uma junta militar convocaria novas eleições. O plano era esse. Bolsonaro teve em mãos várias versões do plano e estabeleceu um prazo para que o golpe fosse aplicado – até o final de dezembro de 2022. Como não deu certo, escafedeu-se para os Estados Unidos e de lá assistiu o levante popular nada espontâneo do 8/1.

Indiciado pela Polícia Federal nos crimes que quis ocultar, próximo de ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República, de que lado ficará a direita dita civilizada quando Bolsonaro e os demais golpistas sentarem no banco dos réus? Não se diga que ele é um problema da justiça e de mais ninguém.

Não há meio termo. Não cabe isenção. Escolha seu lado. Bolsonaro é um problema dos que votaram nele e de todos que arcaram com as consequências de sua gestão desastrosa e reacionária.

Esbórnia orçamentária é ataque ao crescimento

De repente, acorre à memória uma historinha infantil versejada: "Ratusca Boduça de Rafo Rafuça morava na roça / por voracidade, quis ir à cidade com toda essa troça / os cinco fedelhos de Rafo Rafelhos que filhos lhe são / pois lá na cidade tem uma comadre que habita o porão / da gorda ricaça Fifica Fogaça, que tem na despensa / mui ricas pitanças pra suas papanças e nem sequer pensa...". E adiante narra a ouvidos ainda inocentes um assalto sistemático de ratos à desprevenida Fifica Fogaça. Outro nome para o tesouro da "Viúva", mote de um arguto historiógrafo das mazelas nacionais.

A memória foi acionada pela burlesca assonância de uma notícia: no Maranhão, o ministro dos Esportes, André Fufuca, visitou o estádio Fufucão, batizado em homenagem ao avô. Além do Fufucão, uma areninha em Pindaró, cidade governada por Fufuca Dantas, pai de André Fufuca. Cerca de R$ 90 milhões foram reservados para a construção de novos campinhos-soçaite, com grama sintética e dependências confortáveis.

Essa nota ressalta aos olhos quando o governo se debate para anunciar um pacote de corte de gastos, tido como indispensável ao equilíbrio econômico do país. Educação e saúde são os alvos de sempre, mas se suplica o quinhão de outros Poderes, como a magistratura e o parlamento.

As mordomias são ofensivas, senão obscenas. Juízes têm direito a 120 dias de folgas, fora os 60 de férias tradicionais. Parlamentares dispõem de R$ 44,67 bilhões para esbanjar em emendas aleatórias. O custo das isenções tributárias para empresas é de R$ 97,7 bilhões. E, para defender o país de ameaças supostamente internas (como se depreende do sinistro conspiracionismo "punhal verde e amarelo"), pois inexistem as externas, as Forças Armadas ficam com R$ 86, 8 bilhões.

No campo social, as despesas são modestas, mas é premente o caso das universidades federais, que consomem R$ 5,5 bilhões em meio a enormes dificuldades. Neste mês de novembro, a UFRJ, aliás com um reitor competentíssimo à frente, deu nó em pingo d´água para não ficar sem luz. É caso representativo porque se trata da maior universidade federal do país, uma das melhores da América Latina, com professores de alta qualidade, laboratórios e pesquisas relevantes para a sociedade nos campos da tecnologia, da saúde, da matemática e das ciências sociais.

Para o economista João Sicsú, "quem corta a luz da universidade é o governo federal, não a concessionária de energia. Ela forneceu o serviço, quem não pagou a conta foi o governo" (Sintufrj, 14/11/2024). Este argumento sugere uma revisão de prioridades na elaboração do orçamento, que entenda "valor" não como o monetarista da meta de redução a zero do déficit público, e sim como uma atribuição desejável, dotada de conteúdo acessível a todos os agentes sociais e de uma significação apta como objeto de atividade útil.

É patético confrontar dificuldades mesquinhas de um centro de excelência do conhecimento, indispensável ao crescimento econômico, com facilidades triviais da esbórnia orçamentária. Na historinha, o gato conteve dona Ratusca Boduça. Na história vivida, déficit zero não pode continuar a ser álibi da rataria que rói há séculos, sem dó, o baú patrimonial da nação.