domingo, 11 de outubro de 2026
Mais uma vez à beira do abismo
Mal saímos do primeiro turno e já temos um rol de preocupações sobre o futuro para administrar. Bem-posicionado nas pesquisas e muito confiante de sua vitória, Flávio Bolsonaro não tem tido pudor ao anunciar suas pretensões para quando se assenhorar da cadeira da presidência da república. Não há, aqui, espaço para o engano, as propostas são claras e merecem toda a nossa atenção.
A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.
Quando indagado sobre o que seria objeto de mudança, Bolsonaro afirmou que é seu desejo alterar as regras sobre acesso ao STF, sobre o tempo de permanência dos ministros, sobre as competências do tribunal e sobre o espaço para decisões monocráticas. Não é pouca coisa e, considerando o dado de que o próximo presidente irá indicar, pelo menos, 4 ministros à corte, a chance de neutralização da STF não é pequena, está no campo das altas probabilidades.
Sem um STF independente e forte, o que fica em risco é a defesa da supremacia da constituição. Quaisquer iniciativas que violem seus dispositivos não poderão ser revertidas ou interrompidas pela falta de um controle externo. Dito isso, a segunda promessa de mudança preocupa ainda mais: o desejo de alterar muitas das normas relacionadas à ordem social.
Organização da educação nacional, proteção do meio ambiente e da família, sistemas de assistência e previdência social, tudo fica exposto às iniciativas de emenda constitucional quando o candidato afirma ter a pretensão de reduzir o equivalente a 250 bilhões em "gasto". Serviços públicos custam dinheiro e absorvem um mínimo obrigatório de orçamento previsto na constituição. A única forma de economizar com o custeio do SUS ou das universidades é mutilando a carta constitucional para deixá-la menos próxima de um estado do bem-estar social e mais parecida com a carta de um estado mínimo.
O cenário que Flávio Bolsonaro nos anuncia, caso seja eleito, é o de uma terra arrasada para o projeto do constituinte de 1988, um Brasil comprometido com a redução das desigualdades sociais e com a democracia. É um abismo que, mais uma vez, se coloca diante de nós, agora em circunstâncias mais severas, pois o guardião dos nossos direitos, o STF, nunca esteve tão fraco e envergonhado.
A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.
Quando indagado sobre o que seria objeto de mudança, Bolsonaro afirmou que é seu desejo alterar as regras sobre acesso ao STF, sobre o tempo de permanência dos ministros, sobre as competências do tribunal e sobre o espaço para decisões monocráticas. Não é pouca coisa e, considerando o dado de que o próximo presidente irá indicar, pelo menos, 4 ministros à corte, a chance de neutralização da STF não é pequena, está no campo das altas probabilidades.
Sem um STF independente e forte, o que fica em risco é a defesa da supremacia da constituição. Quaisquer iniciativas que violem seus dispositivos não poderão ser revertidas ou interrompidas pela falta de um controle externo. Dito isso, a segunda promessa de mudança preocupa ainda mais: o desejo de alterar muitas das normas relacionadas à ordem social.
Organização da educação nacional, proteção do meio ambiente e da família, sistemas de assistência e previdência social, tudo fica exposto às iniciativas de emenda constitucional quando o candidato afirma ter a pretensão de reduzir o equivalente a 250 bilhões em "gasto". Serviços públicos custam dinheiro e absorvem um mínimo obrigatório de orçamento previsto na constituição. A única forma de economizar com o custeio do SUS ou das universidades é mutilando a carta constitucional para deixá-la menos próxima de um estado do bem-estar social e mais parecida com a carta de um estado mínimo.
O cenário que Flávio Bolsonaro nos anuncia, caso seja eleito, é o de uma terra arrasada para o projeto do constituinte de 1988, um Brasil comprometido com a redução das desigualdades sociais e com a democracia. É um abismo que, mais uma vez, se coloca diante de nós, agora em circunstâncias mais severas, pois o guardião dos nossos direitos, o STF, nunca esteve tão fraco e envergonhado.
Esquema bolsonarista define eleição no Rio
No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país – domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.
A partir de 2018 o clã Bolsonaro – em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.
Depois de Wilson Witzel e de Cláudio Castro, ambos marcados por denúncias de corrupção, a bola da vez para assumir o governo é Douglas Ruas, filho do PM reformado Capitão Nelson, que desde 2021 é prefeito de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. Nelson é suspeito de ter comandado um "carro da linguiça", expressão usada no Rio para se referir a veículos clandestinos a serviço de grupos de extermínio que agem em áreas periféricas.
Quatro vezes prefeito da capital, Eduardo Paes, em seu sonho de se tornar governador, tentou neutralizar o esquema bolsonarista nos municípios da Baixada Fluminense – um retrato sem filtro do Rio de Janeiro, com imóveis de alto padrão, onde vivem empresários e caciques eleitorais, a poucos metros de barracos ocupados por famílias sem a sorte e a esperteza de ter entrado para a política ou arranjado os contatos certos.
Paes fez um acordo com o dono de Duque de Caxias. Para vice na chapa, indicou Jane Reis, irmã de Washington Reis, ex-secretário de Castro e o homem que conseguiu o certificado de vacina falso para Bolsonaro. Reis elegeu os dois irmãos, Rosenverg e Gutemberg — o primeiro para a Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e o segundo para a Câmara dos Deputados —, mas deu um perdido no aliado. Douglas Ruas teve 50% dos votos válidos em Caxias. Na vizinha Nova Iguaçu, domínio da família Canella, quase 60%.
Para vencer, Ruas não precisava da canetada do Tribunal Superior Eleitoral nem da confusão armada de propósito pelo velho Garotinho.
A partir de 2018 o clã Bolsonaro – em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.
Depois de Wilson Witzel e de Cláudio Castro, ambos marcados por denúncias de corrupção, a bola da vez para assumir o governo é Douglas Ruas, filho do PM reformado Capitão Nelson, que desde 2021 é prefeito de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. Nelson é suspeito de ter comandado um "carro da linguiça", expressão usada no Rio para se referir a veículos clandestinos a serviço de grupos de extermínio que agem em áreas periféricas.
Quatro vezes prefeito da capital, Eduardo Paes, em seu sonho de se tornar governador, tentou neutralizar o esquema bolsonarista nos municípios da Baixada Fluminense – um retrato sem filtro do Rio de Janeiro, com imóveis de alto padrão, onde vivem empresários e caciques eleitorais, a poucos metros de barracos ocupados por famílias sem a sorte e a esperteza de ter entrado para a política ou arranjado os contatos certos.
Paes fez um acordo com o dono de Duque de Caxias. Para vice na chapa, indicou Jane Reis, irmã de Washington Reis, ex-secretário de Castro e o homem que conseguiu o certificado de vacina falso para Bolsonaro. Reis elegeu os dois irmãos, Rosenverg e Gutemberg — o primeiro para a Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e o segundo para a Câmara dos Deputados —, mas deu um perdido no aliado. Douglas Ruas teve 50% dos votos válidos em Caxias. Na vizinha Nova Iguaçu, domínio da família Canella, quase 60%.
Para vencer, Ruas não precisava da canetada do Tribunal Superior Eleitoral nem da confusão armada de propósito pelo velho Garotinho.
Poder e saber
O eleitorado brasileiro decidiu aposentar a geração de 1988. Este time foi para casa. Seus últimos representantes são José Sarney e Luís Inácio Lulas da Silva. Um, curado de uma pneumonia aos 96 anos, faz ginástica todos os dias, está distante da política. O outro, aos 81 anos, tentou sem sucesso a recondução à Presidência da República no primeiro turno. Junto com eles, mais de trinta nomes expressivos na política foram mandados para casa. Foi um massacre.
Vou citar alguns: Gleisi Hoffmann, José Dirceu, Aécio Neves, Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva, Roseana Sarney, Ciro Nogueira, Benedita da Silva, Requião Filho, Randolfe Rodrigues, Jorge Viana, Manuela d’Ávila, Érika Kokay, Tulio Gadelha, Paulo Pimenta, Vicentinho, Tiririca, Marcelo Crivella, Soraya Thronicke, Renan Filho e Renan Calheiros. A lista é abrangente. Não respeita idade, partido político ou orientação ideológica. Junto com esta turma, alguns comentaristas na televisão e nos jornais ficaram falando sozinhos. Não perceberam o que estava acontecendo debaixo de seus respectivos narizes
Eleição é sempre uma surpresa. No caso brasileiro, a surpresa veio pelo péssimo serviço prestado pelos institutos de pesquisa que fizeram previsões completamente equivocadas: no Rio de Janeiro, Douglas Ruas chegou muito perto de vencer no primeiro turno, quando os institutos indicavam vitória tranquila de Eduardo Paes. No plano nacional, Flavio Bolsonaro quase foi eleito no primeiro turno, contra, também, todas as previsões das instituições que supostamente mediam as intenções do eleitorado. Tudo errado. Além disto, 183 deputados foram eleitos em primeiro mandato para a Câmara dos Deputados. Outra surpresa.
O Partido Liberal passou a ter 28 representantes no Senado. Junto com seus aliados, a atual oposição deve contar com 49 votos capazes de modificar o texto da Constituição e, se quiser, promover o impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal. Sob este aspecto a eleição já terminou. Não há segundo turno para escolha de integrantes do Congresso. A oposição fez a maioria. O que faz supor que, junto com a aposentadoria de uma geração, acabou, também o sonho da social-democracia brasileira. A direita que vem prevalecendo no mundo ocidental mostrou suas armas no Brasil.
O eleitorado fez sua opção. Quer um país com menos governo e mais desenvolvimento. Menos burocracia e mais ação de empresários. Menor taxa de juros e desenvolvimento rápido. O presidente Lula e seu partido demonstravam estarem perigosamente plantados nas ideias econômicas dos anos sessenta, do crescimento baseado na intervenção do estado. Mas, as empresas estatais apresentam enorme ineficiência e déficits orçamentários monstruosos. A sociedade percebeu o problema.
A eleição presidencial só vai terminar no final deste mês. Lula e sua equipe vão ter que suar a camisa e ter muita imaginação para reverter a votação e fazer a maioria. Não é fácil. Será necessário mergulhar numa autocrítica rigorosa, calçar as sandálias da humildade e enxergar a realidade. O brasileiro melhorou de vida nos últimos anos e pretende se credenciar para novas conquistas. O país precisa abrir novas fronteiras de trabalho, criar melhores expectativas de emprego e fazer a economia crescer, de fato, além dos discursos triunfalistas pronunciados no Palácio do Planalto. O mundo informatizado, regido por decisões rapidíssimas, exige competência, conhecimento e cultura. É o século 21 que chegou ao Brasil.
Flávio Bolsonaro tem a seu lado um personagem interessante, Rogério Marinho, neto do saudoso Djalma Marinho, que marcou com honradez sua passagem pela Câmara dos Deputados. Ele se recusou a fazer a vontade dos militares e renunciou à presidência da Comissão de Constituição e Justiça para não abrir processo contra o deputado Márcio Moreira Alves. Isto aconteceu em 1968, antes da decretação do Ato Institucional número 5. O senador do Rio Grande do Norte pode fazer a diferença. Ele já procurou ministros do Supremo Tribunal Federal para dizer que não haverá revanche. Ou seja, seu grupo não está preocupado em promover uma vingança, mas sim em governar.
Neste quesito aparece uma enorme interrogação. Flávio Bolsonaro, filho de Jair, vai querer a presença de seu pai na sua solenidade de posse, se vencer. Será o primeiro impasse. O outro vai ocorrer naturalmente. Ele é filho de Jair, fala muito e não costuma refletir sobre palavras e atos. No início do governo Bolsonaro, os militares achavam que poderiam controlar Jair. Não controlaram e ele meteu os pés pelas mãos. Tentou o golpe depois de perder a reeleição. Flávio não tem experiência administrativa, equipe, saber jurídico ou vivência política para exercer as funções de Presidente da República. É um noviço. Se for eleito, ficará na difícil posição do líder que pode mais do que sabe.
Vou citar alguns: Gleisi Hoffmann, José Dirceu, Aécio Neves, Fernando Haddad, Simone Tebet, Marina Silva, Roseana Sarney, Ciro Nogueira, Benedita da Silva, Requião Filho, Randolfe Rodrigues, Jorge Viana, Manuela d’Ávila, Érika Kokay, Tulio Gadelha, Paulo Pimenta, Vicentinho, Tiririca, Marcelo Crivella, Soraya Thronicke, Renan Filho e Renan Calheiros. A lista é abrangente. Não respeita idade, partido político ou orientação ideológica. Junto com esta turma, alguns comentaristas na televisão e nos jornais ficaram falando sozinhos. Não perceberam o que estava acontecendo debaixo de seus respectivos narizes
Eleição é sempre uma surpresa. No caso brasileiro, a surpresa veio pelo péssimo serviço prestado pelos institutos de pesquisa que fizeram previsões completamente equivocadas: no Rio de Janeiro, Douglas Ruas chegou muito perto de vencer no primeiro turno, quando os institutos indicavam vitória tranquila de Eduardo Paes. No plano nacional, Flavio Bolsonaro quase foi eleito no primeiro turno, contra, também, todas as previsões das instituições que supostamente mediam as intenções do eleitorado. Tudo errado. Além disto, 183 deputados foram eleitos em primeiro mandato para a Câmara dos Deputados. Outra surpresa.
O Partido Liberal passou a ter 28 representantes no Senado. Junto com seus aliados, a atual oposição deve contar com 49 votos capazes de modificar o texto da Constituição e, se quiser, promover o impeachment de ministro do Supremo Tribunal Federal. Sob este aspecto a eleição já terminou. Não há segundo turno para escolha de integrantes do Congresso. A oposição fez a maioria. O que faz supor que, junto com a aposentadoria de uma geração, acabou, também o sonho da social-democracia brasileira. A direita que vem prevalecendo no mundo ocidental mostrou suas armas no Brasil.
O eleitorado fez sua opção. Quer um país com menos governo e mais desenvolvimento. Menos burocracia e mais ação de empresários. Menor taxa de juros e desenvolvimento rápido. O presidente Lula e seu partido demonstravam estarem perigosamente plantados nas ideias econômicas dos anos sessenta, do crescimento baseado na intervenção do estado. Mas, as empresas estatais apresentam enorme ineficiência e déficits orçamentários monstruosos. A sociedade percebeu o problema.
A eleição presidencial só vai terminar no final deste mês. Lula e sua equipe vão ter que suar a camisa e ter muita imaginação para reverter a votação e fazer a maioria. Não é fácil. Será necessário mergulhar numa autocrítica rigorosa, calçar as sandálias da humildade e enxergar a realidade. O brasileiro melhorou de vida nos últimos anos e pretende se credenciar para novas conquistas. O país precisa abrir novas fronteiras de trabalho, criar melhores expectativas de emprego e fazer a economia crescer, de fato, além dos discursos triunfalistas pronunciados no Palácio do Planalto. O mundo informatizado, regido por decisões rapidíssimas, exige competência, conhecimento e cultura. É o século 21 que chegou ao Brasil.
Flávio Bolsonaro tem a seu lado um personagem interessante, Rogério Marinho, neto do saudoso Djalma Marinho, que marcou com honradez sua passagem pela Câmara dos Deputados. Ele se recusou a fazer a vontade dos militares e renunciou à presidência da Comissão de Constituição e Justiça para não abrir processo contra o deputado Márcio Moreira Alves. Isto aconteceu em 1968, antes da decretação do Ato Institucional número 5. O senador do Rio Grande do Norte pode fazer a diferença. Ele já procurou ministros do Supremo Tribunal Federal para dizer que não haverá revanche. Ou seja, seu grupo não está preocupado em promover uma vingança, mas sim em governar.
Neste quesito aparece uma enorme interrogação. Flávio Bolsonaro, filho de Jair, vai querer a presença de seu pai na sua solenidade de posse, se vencer. Será o primeiro impasse. O outro vai ocorrer naturalmente. Ele é filho de Jair, fala muito e não costuma refletir sobre palavras e atos. No início do governo Bolsonaro, os militares achavam que poderiam controlar Jair. Não controlaram e ele meteu os pés pelas mãos. Tentou o golpe depois de perder a reeleição. Flávio não tem experiência administrativa, equipe, saber jurídico ou vivência política para exercer as funções de Presidente da República. É um noviço. Se for eleito, ficará na difícil posição do líder que pode mais do que sabe.
A escolha de um governante é o espelho dos valores de uma sociedade
Está tudo aí, à mostra. Ninguém poderá dizer que não viu. A verdade é que quase todo mundo enxerga o cenário real, mas uma grande parte concorda com o que lhe é oferecido — ou simplesmente não se incomoda.
Foi exatamente assim que, em 2018, Jair Bolsonaro — um deputado do baixo clero que passou duas décadas na Câmara sem grande relevância — se elegeu presidente da República. O que ele prometia? Derrubar o sistema. Para quê? Para pôr outro no lugar. Qual? Ele nunca dizia. Como resultado, seu governo terminou com uma tentativa de golpe de Estado.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, não fala em derrubar o sistema. Até porque ele é o candidato do próprio sistema, aquele que deseja que tudo permaneça exatamente como está.
Esse projeto político ignora o debate sobre justiça social, rejeita a redução da jornada de trabalho e desidrata os investimentos em programas sociais. Mais do que isso: jamais aceitará que os mais ricos paguem impostos proporcionais, mantendo a conta mais pesada sobre os ombros dos mais necessitados. Os Estados Unidos são o espelho dessa linha de pensamento; a Argentina de Javier Milei também.
A escolha de um governante é o reflexo mais nítido dos valores de uma sociedade. Se formos capazes de conduzir à Presidência da República uma figura pública com o histórico de Flávio — formalmente investigado pelo STF no caso Dark Horse sob suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e corrupção, além de carregar um histórico de notórias ligações com milicianos —, essa decisão não poderá ser entendida como um deslize. É tudo, menos isso.
Em uma era hiperconectada, o argumento da ignorância perdeu completamente a validade. Detalhes sobre repasses financeiros e movimentações sob a lupa da Polícia Federal são de amplo conhecimento público.
Portanto, um eventual triunfo eleitoral desse projeto não decorrerá de imprevidência, engano ou falta de informação. Será, sim, um endosso consciente e deliberado. A responsabilidade final não recairá apenas sobre quem governa, mas sobre a própria coletividade que escolheu o autoengano, provando que uma nação acaba tendo o governo que tolera e merece.
Foi exatamente assim que, em 2018, Jair Bolsonaro — um deputado do baixo clero que passou duas décadas na Câmara sem grande relevância — se elegeu presidente da República. O que ele prometia? Derrubar o sistema. Para quê? Para pôr outro no lugar. Qual? Ele nunca dizia. Como resultado, seu governo terminou com uma tentativa de golpe de Estado.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, não fala em derrubar o sistema. Até porque ele é o candidato do próprio sistema, aquele que deseja que tudo permaneça exatamente como está.
Esse projeto político ignora o debate sobre justiça social, rejeita a redução da jornada de trabalho e desidrata os investimentos em programas sociais. Mais do que isso: jamais aceitará que os mais ricos paguem impostos proporcionais, mantendo a conta mais pesada sobre os ombros dos mais necessitados. Os Estados Unidos são o espelho dessa linha de pensamento; a Argentina de Javier Milei também.
A escolha de um governante é o reflexo mais nítido dos valores de uma sociedade. Se formos capazes de conduzir à Presidência da República uma figura pública com o histórico de Flávio — formalmente investigado pelo STF no caso Dark Horse sob suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, organização criminosa e corrupção, além de carregar um histórico de notórias ligações com milicianos —, essa decisão não poderá ser entendida como um deslize. É tudo, menos isso.
Em uma era hiperconectada, o argumento da ignorância perdeu completamente a validade. Detalhes sobre repasses financeiros e movimentações sob a lupa da Polícia Federal são de amplo conhecimento público.
Portanto, um eventual triunfo eleitoral desse projeto não decorrerá de imprevidência, engano ou falta de informação. Será, sim, um endosso consciente e deliberado. A responsabilidade final não recairá apenas sobre quem governa, mas sobre a própria coletividade que escolheu o autoengano, provando que uma nação acaba tendo o governo que tolera e merece.
O espírito de Ekuikui
A democracia é, antes de mais nada, um exercício de escuta. Aprender a escutar o outro — aquele que não pensa como nós — deveria ser uma disciplina obrigatória no ensino básico.
Infelizmente, mergulhamos num tempo em que pouca gente se esforça para praticar a escuta, a empatia, a alteridade. Vemos até pessoas muito influentes, como Elon Musk, condenando a empatia, encarada como uma espécie de falha civilizacional: “A fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, disse o empresário, assim mesmo, com todas as letras. Segundo ele, a empatia pode ser utilizada como uma arma contra a própria sociedade.
A frase de Musk resume muito bem a ideologia da direita mais radical, que vem conquistando terreno nas Américas e na Europa. Suspeito que será lembrada e discutida por muito tempo.
E assim avançamos (ou recuamos), cegos e surdos, dispostos a escutar apenas aqueles que confirmam nossos próprios preconceitos.
Seria bom se os brasileiros conseguissem aproveitar os próximos dias — estes dias de grande tensão antes do segundo turno das eleições presidenciais — para se olharem nos olhos e se escutarem.
Ambos os lados falam na necessidade de “virar voto”. Porém, como conseguiremos convencer alguém a “mudar de opinião” se não o escutarmos?
José Saramago, a propósito, dizia que tentar convencer alguém lhe parecia uma falta de respeito, uma tentativa de colonização do outro. Compreendo o que pretendia dizer, embora não concorde inteiramente com ele. Afinal, o debate de ideias é essencial à democracia. O que me parece uma pequena brutalidade — no mínimo, uma descortesia — é tentar persuadir alguém sem antes nos darmos ao trabalho de escutá-lo. Incomoda-me a arrogância de quem entra numa discussão não para escutar, mas apenas para vencer. Quem não admite a possibilidade de estar equivocado não quer conversar — quer discursar.
Conta-se que Ekuikui II, que governou o reino do Bailundo, no centro de Angola, no fim do século XIX, pouco antes da ocupação portuguesa, gostava de se transformar em toupeira para escutar as queixas de seus súditos. O rei ovimbundo não estava interessado nos elogios, e sim nas reclamações. Imagino-o avançando pelo subsolo, de casa em casa, com os pequenos ouvidos atentos às conversas de seus súditos. Ao contrário de tantos outros soberanos, que se rodeavam de aduladores, Ekuikui procurava aqueles que tinham razões para estar descontentes. Sabia que não aprendemos nada com quem se limita a nos aplaudir.
O espírito de Ekuikui me parece fundamental no momento atual. Não basta falar para aqueles que já nos escutam. É preciso ter a coragem de procurar os que discordam de nós, ouvir atentamente suas razões, compreender seus receios. A gentileza não pode ser confundida com fraqueza. É uma maneira de manter aberto o diálogo, mesmo quando tudo parece convidar ao confronto.
Há dois pensamentos distintos nestas eleições — um acredita que a empatia é uma peça fundamental no avanço das civilizações; o outro pensa o contrário. Se a democracia vencer — como espero que aconteça — será através de um forte reforço da empatia.
Infelizmente, mergulhamos num tempo em que pouca gente se esforça para praticar a escuta, a empatia, a alteridade. Vemos até pessoas muito influentes, como Elon Musk, condenando a empatia, encarada como uma espécie de falha civilizacional: “A fraqueza fundamental da civilização ocidental é a empatia”, disse o empresário, assim mesmo, com todas as letras. Segundo ele, a empatia pode ser utilizada como uma arma contra a própria sociedade.
A frase de Musk resume muito bem a ideologia da direita mais radical, que vem conquistando terreno nas Américas e na Europa. Suspeito que será lembrada e discutida por muito tempo.
E assim avançamos (ou recuamos), cegos e surdos, dispostos a escutar apenas aqueles que confirmam nossos próprios preconceitos.
Seria bom se os brasileiros conseguissem aproveitar os próximos dias — estes dias de grande tensão antes do segundo turno das eleições presidenciais — para se olharem nos olhos e se escutarem.
Ambos os lados falam na necessidade de “virar voto”. Porém, como conseguiremos convencer alguém a “mudar de opinião” se não o escutarmos?
José Saramago, a propósito, dizia que tentar convencer alguém lhe parecia uma falta de respeito, uma tentativa de colonização do outro. Compreendo o que pretendia dizer, embora não concorde inteiramente com ele. Afinal, o debate de ideias é essencial à democracia. O que me parece uma pequena brutalidade — no mínimo, uma descortesia — é tentar persuadir alguém sem antes nos darmos ao trabalho de escutá-lo. Incomoda-me a arrogância de quem entra numa discussão não para escutar, mas apenas para vencer. Quem não admite a possibilidade de estar equivocado não quer conversar — quer discursar.
Conta-se que Ekuikui II, que governou o reino do Bailundo, no centro de Angola, no fim do século XIX, pouco antes da ocupação portuguesa, gostava de se transformar em toupeira para escutar as queixas de seus súditos. O rei ovimbundo não estava interessado nos elogios, e sim nas reclamações. Imagino-o avançando pelo subsolo, de casa em casa, com os pequenos ouvidos atentos às conversas de seus súditos. Ao contrário de tantos outros soberanos, que se rodeavam de aduladores, Ekuikui procurava aqueles que tinham razões para estar descontentes. Sabia que não aprendemos nada com quem se limita a nos aplaudir.
O espírito de Ekuikui me parece fundamental no momento atual. Não basta falar para aqueles que já nos escutam. É preciso ter a coragem de procurar os que discordam de nós, ouvir atentamente suas razões, compreender seus receios. A gentileza não pode ser confundida com fraqueza. É uma maneira de manter aberto o diálogo, mesmo quando tudo parece convidar ao confronto.
Há dois pensamentos distintos nestas eleições — um acredita que a empatia é uma peça fundamental no avanço das civilizações; o outro pensa o contrário. Se a democracia vencer — como espero que aconteça — será através de um forte reforço da empatia.
O que está vir, caso Flávio Bolsonaro seja eleito
Pelo menos desde a publicação de "Como as democracias morrem", de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, sabemos que mudanças repentinas da ordem política – por golpes militares, revoluções ou invasões externas – deixaram de ser a via esperada do colapso da democracia. Exemplo disso foi o fracasso do golpe de Jair Bolsonaro, em janeiro de 2023. Democracias também morrem lentamente, pela mão dos próprios eleitos, que pouco a pouco corroem a distribuição institucional do poder e os procedimentos deliberativos de tomada de decisão, que possibilitam alguma convergência ou, ao menos, convivência onde há divergência. Morrem pela coerção ou cooptação da oposição, dos órgãos de controle, dos tribunais e das Forças Armadas, ou ainda pela mudança das regras do jogo em favor dos eleitos. A erosão é difícil de perceber por ser gradual, por manter a aparência de legalidade. Este será, possivelmente, o caminho de Flávio Bolsonaro.
Ao contrário do pai, Flávio estará, se eleito, a poucos votos de uma maioria qualificada nas duas Casas do Congresso. Conforme mostra o gráfico que acompanha este texto, faltam apenas 4 votos no Senado e 56 na Câmara para que a extrema direita e a direita alcancem o quórum de 2/3, último recurso estabelecido pela Constituição Federal para assegurar a estabilidade institucional. A maioria de 3/5 já a possuem no Senado. Chegar aos 2/3 em ambas Casas seria factível, pois os ministérios e o orçamento da União se consolidaram como veículos do presidencialismo de coalizão. Para que o leitor tenha a dimensão disso: são necessários 3/5 dos votos para aprovar emendas à Constituição – lembre-se da emenda da reeleição, no governo FHC – e 2/3 para o impeachment do presidente da República e de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para a cassação de congressistas, basta a maioria absoluta. Isso significa que, seja qual for o resultado de 25 de outubro, o equilíbrio entre os Poderes estará nas mãos dos conservadores.
Dada essa configuração de forças, o que pode acontecer em um eventual governo de Flávio Bolsonaro? A seguir, apresento algumas tendências que julgo razoáveis. Não tratarei de medidas de curto alcance, como a concessão de indulto presidencial ao pai e aos militares condenados pelo 8 de janeiro. Mais importante é antecipar possíveis mudanças estruturais, que surtiriam efeitos a longo prazo.
Controle do STF, sem necessidade de cabo nem soldado
Hegemonia cultural
A milícia como organização político-econômica paramilitar
Controle geopolítico estadunidense
Ao contrário do pai, Flávio estará, se eleito, a poucos votos de uma maioria qualificada nas duas Casas do Congresso. Conforme mostra o gráfico que acompanha este texto, faltam apenas 4 votos no Senado e 56 na Câmara para que a extrema direita e a direita alcancem o quórum de 2/3, último recurso estabelecido pela Constituição Federal para assegurar a estabilidade institucional. A maioria de 3/5 já a possuem no Senado. Chegar aos 2/3 em ambas Casas seria factível, pois os ministérios e o orçamento da União se consolidaram como veículos do presidencialismo de coalizão. Para que o leitor tenha a dimensão disso: são necessários 3/5 dos votos para aprovar emendas à Constituição – lembre-se da emenda da reeleição, no governo FHC – e 2/3 para o impeachment do presidente da República e de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para a cassação de congressistas, basta a maioria absoluta. Isso significa que, seja qual for o resultado de 25 de outubro, o equilíbrio entre os Poderes estará nas mãos dos conservadores.
Dada essa configuração de forças, o que pode acontecer em um eventual governo de Flávio Bolsonaro? A seguir, apresento algumas tendências que julgo razoáveis. Não tratarei de medidas de curto alcance, como a concessão de indulto presidencial ao pai e aos militares condenados pelo 8 de janeiro. Mais importante é antecipar possíveis mudanças estruturais, que surtiriam efeitos a longo prazo.
Instituir uma democracia restrita, de mando autoritário
Recentemente, Flávio Bolsonaro disse publicamente que pretende alterar a Constituição. O que pretende fazer? Propõe a redução da maioridade penal, a restrição das atribuições dos ministros do STF, o fim da reeleição, entre outras medidas. No entanto, a julgar pelos autos, não pelas falas, é razoável supor que buscará prolongar-se no poder. A família Bolsonaro tentou um golpe de Estado, mesmo sem amplo apoio no Congresso. A mesma maioria que permitiria acabar com a reeleição, permitiria também eliminar o limite de dois mandatos consecutivos para cargos do Executivo. Isso aproximaria o presidencialismo brasileiro da Venezuela, de El Salvador e da Nicarágua, ou ainda da Indonésia de Suharto, que se reelegeu sucessivamente por trinta anos. Flávio tem 45 anos. Caso o custo político de um “golpe branco” como esse seja excessivo, resta ainda a opção da alternância no poder entre pai e filho, entre filhos e agregados.
Controle do STF, sem necessidade de cabo nem soldado
Atualmente, a extrema direita tem dois ministros na Corte (Kassio Nunes Marques e André Mendonça). O próximo presidente nomeará quatro ministros, o que, somado aos dois atuais, lhe garantiria maioria absoluta até o fim do mandato: seis dos onze votos. Além disso, com 2/3 do Senado, Flávio Bolsonaro poderá manter a Corte sob coerção, sob ameaça de impeachment. Não seria surpreendente se, caso eleito, aventasse, já no primeiro ano de mandato, o impedimento de Alexandre de Moraes, não apenas como filius patris inspirado pela lei de talião, mas também, e sobretudo, como demonstração de poder. É preferível ser temido, quando não se pode ser amado – nos ensinou Maquiavel. Se isso acontecer, a extrema direita terá nomeado sete ministros até 2030.
Hegemonia cultural
O Estado é reprodutor e gerador de valores e símbolos. Reproduz e transforma o que é aceitável. Isso se deve não apenas ao alcance da voz daqueles que passam a representar a vontade coletiva, mas também, e sobretudo, à criação de leis e à sua aplicação na vida cotidiana. Com o controle da Presidência, do Congresso e do STF, a extrema direita terá as condições institucionais para consolidar o evangelismo como convenção cultural e, em última instância, como ideologia hegemônica. Nesse processo, poderão contar com a vasta rede do Partido Digital Bolsonarista – ver o trabalho recente de Marcos Nobre – e a imprensa evangélica, cuja influência tenderá a crescer. Segundo o último Censo do IBGE (2022), evangélicos somam 26,9% dos brasileiros, e se considerarmos o caráter combativo de algumas denominações, é provável que intolerância religiosa e conflitos dela decorrentes – como a recente polêmica em torno à Nossa Senhora Aparecida – cresçam em frequência e intensidade.
A milícia como organização político-econômica paramilitar
Milícias não são apenas organizações criminosas que praticam contrabando, extorsão ou tráfico de drogas. Foram formadas por agentes de segurança do Estado (sobretudo policiais) e detêm o controle econômico do território: cobram “taxa de segurança”, vendem botijões de gás, organizam o transporte e o mercado imobiliário. O controle, no entanto, não se restringe à atividade econômica, converte-se também em voto, em curral eleitoral – como mostra Bruno Paes Manso em "A república das milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro"; ver também os relatórios do GENI/UFF e do Observatório das Metrópoles. Pode-se dizer, apesar das diferenças de contexto, que a milícia é uma forma urbana e criminosa de coronelismo – sobre o qual a análise canônica é a de Victor Nunes Leal. A milícia é uma organização econômica de mando político paramilitar. Se eleito, Flávio poderá contar com o apoio de dez governadores eleitos – e, potencialmente, de outros sete, dependendo do resultado do segundo turno – e das respectivas polícias militares e civis. Em conjunto, o controle do orçamento federal e o apoio dos estados poderão favorecer a expansão nacional do modelo de controle político-econômico que o candidato consolidou no Rio de Janeiro, estado governado por aliados da família desde 2019. Se isso acontecer, as milícias passarão por um processo de institucionalização nacional, que as unificará sob o comando centralizado do governo federal, podendo consolidar-se como polícia política.
Controle geopolítico estadunidense
Com maioria qualificada no Congresso, o alinhamento do Brasil aos EUA se tornará estrutural e perdurará nos próximos governos, por meio da atuação de empresas estadunidenses em território nacional. Como na Venezuela, isso significará a cessão de parte de nossa soberania e a continuidade de uma posição periférica.
Direta ou indiretamente, Jair e Flávio Bolsonaro verbalizaram cada uma das tendências acima. Se em algo sempre foram honestos, foi sobre suas intenções autoritárias e à submissão aos EUA. Identificar essas tendências tem o propósito de ajudar a nós, democratas, a nos preparar para o que está por vir. O que fazer?
Para responder a essa pergunta, precisamos entender o que nos levou até aqui. Como foi possível que, depois do sofrimento coletivo causado pela pandemia de covid-19, dos escândalos sucessivos de corrupção envolvendo a família, do apoio consistente e público a milícias e do culto aberto à violência, os Bolsonaro tenham mantido tamanha força eleitoral? Certamente, “plataformização” do trabalho, ressentimento e sonho das classes populares são elementos importantes – sobre isso, ver o artigo recente de Rosana Pinheiro-Machado. A isso, acrescentaria uma mudança estrutural: de modo semelhante ao que aconteceu com a generalização do acesso ao rádio e à televisão ao longo do século XX, a comunicação digital alterou as formas de socialização e de integração social, e com elas, o modo como ideologia e, em particular, vontade política são construídas. Entre os deputados federais mais votados, por exemplo, há jovens com forte presença nas redes sociais. O “influenciador” parece ter se tornado a nova liderança de bairro. Além disso, tendo em vista o êxito eleitoral dos conservadores nos estados, a comunicação digital parece anunciar uma centralização ideológica mais ampla, na qual líderes regionais perdem força.
Estevão Bosco, Pró-Reitor da Universidade Americana do Mediterrâneo (Espanha).
Direta ou indiretamente, Jair e Flávio Bolsonaro verbalizaram cada uma das tendências acima. Se em algo sempre foram honestos, foi sobre suas intenções autoritárias e à submissão aos EUA. Identificar essas tendências tem o propósito de ajudar a nós, democratas, a nos preparar para o que está por vir. O que fazer?
Para responder a essa pergunta, precisamos entender o que nos levou até aqui. Como foi possível que, depois do sofrimento coletivo causado pela pandemia de covid-19, dos escândalos sucessivos de corrupção envolvendo a família, do apoio consistente e público a milícias e do culto aberto à violência, os Bolsonaro tenham mantido tamanha força eleitoral? Certamente, “plataformização” do trabalho, ressentimento e sonho das classes populares são elementos importantes – sobre isso, ver o artigo recente de Rosana Pinheiro-Machado. A isso, acrescentaria uma mudança estrutural: de modo semelhante ao que aconteceu com a generalização do acesso ao rádio e à televisão ao longo do século XX, a comunicação digital alterou as formas de socialização e de integração social, e com elas, o modo como ideologia e, em particular, vontade política são construídas. Entre os deputados federais mais votados, por exemplo, há jovens com forte presença nas redes sociais. O “influenciador” parece ter se tornado a nova liderança de bairro. Além disso, tendo em vista o êxito eleitoral dos conservadores nos estados, a comunicação digital parece anunciar uma centralização ideológica mais ampla, na qual líderes regionais perdem força.
Estevão Bosco, Pró-Reitor da Universidade Americana do Mediterrâneo (Espanha).
Vivemos em apneia
Hannah Arendt trouxe para a discussão uma expressão que ainda hoje nos obriga a pensar: a banalidade do mal. Não porque o mal seja banal, mas porque podemos chegar a um ponto em que certas realidades, de tão repetidas, deixam de nos provocar o espanto necessário para as questionarmos.
Talvez valha a pena olhar para o nosso tempo a partir de uma inquietação semelhante: estaremos a banalizar o conceito de crise?
Vivemos uma crise da habitação, uma crise energética, uma crise ambiental, uma crise inflacionária, uma crise demográfica, uma crise cultural. A palavra tornou-se omnipresente. Quase tudo parece estar em crise.
Mas o que é, afinal, uma crise?
A palavra pressupõe uma rutura. Algo interrompe um estado anterior, considerado normal, e obriga-nos a reagir. A crise seria, portanto, uma espécie de desvio à norma.
Mas quem constrói essa norma?
Michel Foucault mostrou-nos que a norma não é simplesmente aquilo que existe antes de nós. É construída, produzida e reproduzida por instituições, discursos e relações de poder. E esta ideia é particularmente importante quando olhamos para a forma como descrevemos o presente.
Será que estamos perante uma crise da transformação digital ou perante uma transformação profunda da sociedade que ainda não aprendemos a acompanhar? Será uma crise do trabalho ou uma mudança estrutural na forma como trabalhamos? Será uma crise demográfica ou o resultado de uma sociedade que mudou e para a qual continuamos a responder com modelos pensados para outra realidade?
Não se trata de negar as crises. A dificuldade em pagar uma casa não é uma construção discursiva. A pobreza não é uma metáfora. As alterações climáticas não deixam de existir porque lhes mudamos o nome. A questão é outra: o que acontece quando passamos a interpretar quase tudo através da ideia de crise?
Talvez comecemos a viver num estado permanente de alerta. Uma espécie de apneia coletiva.
Não temos tempo para respirar entre uma emergência e a seguinte. Reagimos. Corrigimos. Anunciamos. Regulamos. Criamos medidas. Respondemos à urgência.
E, nesse movimento permanente, podemos perder a capacidade de distinguir o essencial do acessório.
É aqui que a palavra crise pode tornar-se perigosa. Não necessariamente porque esconda os problemas, mas porque pode tornar-nos excessivamente reativos. Uma sociedade em permanente estado de emergência pode tornar-se muito competente a apagar fogos e extraordinariamente incompetente a perguntar por que razão estão sempre a surgir incêndios.
Também os governos podem ficar presos nesta lógica. Entre a urgência mediática, a pressão social e a necessidade de apresentar respostas imediatas, corre-se o risco de mergulhar no acessório enquanto o essencial permanece à superfície.
A crise da habitação, por exemplo, não é apenas uma questão de preços. É uma questão de modelo económico, território, emprego, mobilidade, demografia e condições de vida. A crise demográfica não se resolve apenas com incentivos à natalidade. A transformação digital não se resolve apenas comprando tecnologia. E a crise ambiental não se resolve apenas acrescentando novas regras a um modelo que talvez precise de ser profundamente repensado.
Talvez precisemos de menos respostas para cada crise e de mais capacidade para compreender as transformações que estão por detrás delas. Porque talvez algumas das coisas a que chamamos crises sejam, na verdade, mudanças de paradigma que ainda insistimos em medir com as ferramentas do mundo anterior.
E talvez esta seja uma das grandes dificuldades do nosso tempo: confundimos a perda da normalidade com a necessidade de regressar a ela.
Mas e se essa normalidade já não existir? E se o mundo estiver, simplesmente, a mudar?
Nesse caso, insistir em chamar crise a tudo pode ser uma forma confortável de adiar a pergunta verdadeiramente difícil: que sociedade queremos construir a partir daqui?
Talvez precisemos de voltar a respirar. De parar, por momentos, a sucessão de emergências e olhar para aquilo que permanece quando a espuma baixa. Porque uma sociedade não pode viver eternamente em apneia.
E talvez a verdadeira urgência do nosso tempo seja precisamente esta: deixar de correr atrás de todas as crises para começar a decidir, com alguma lucidez, o que é realmente essencial.
Talvez valha a pena olhar para o nosso tempo a partir de uma inquietação semelhante: estaremos a banalizar o conceito de crise?
Vivemos uma crise da habitação, uma crise energética, uma crise ambiental, uma crise inflacionária, uma crise demográfica, uma crise cultural. A palavra tornou-se omnipresente. Quase tudo parece estar em crise.
Mas o que é, afinal, uma crise?
A palavra pressupõe uma rutura. Algo interrompe um estado anterior, considerado normal, e obriga-nos a reagir. A crise seria, portanto, uma espécie de desvio à norma.
Mas quem constrói essa norma?
Michel Foucault mostrou-nos que a norma não é simplesmente aquilo que existe antes de nós. É construída, produzida e reproduzida por instituições, discursos e relações de poder. E esta ideia é particularmente importante quando olhamos para a forma como descrevemos o presente.
Será que estamos perante uma crise da transformação digital ou perante uma transformação profunda da sociedade que ainda não aprendemos a acompanhar? Será uma crise do trabalho ou uma mudança estrutural na forma como trabalhamos? Será uma crise demográfica ou o resultado de uma sociedade que mudou e para a qual continuamos a responder com modelos pensados para outra realidade?
Não se trata de negar as crises. A dificuldade em pagar uma casa não é uma construção discursiva. A pobreza não é uma metáfora. As alterações climáticas não deixam de existir porque lhes mudamos o nome. A questão é outra: o que acontece quando passamos a interpretar quase tudo através da ideia de crise?
Talvez comecemos a viver num estado permanente de alerta. Uma espécie de apneia coletiva.
Não temos tempo para respirar entre uma emergência e a seguinte. Reagimos. Corrigimos. Anunciamos. Regulamos. Criamos medidas. Respondemos à urgência.
E, nesse movimento permanente, podemos perder a capacidade de distinguir o essencial do acessório.
É aqui que a palavra crise pode tornar-se perigosa. Não necessariamente porque esconda os problemas, mas porque pode tornar-nos excessivamente reativos. Uma sociedade em permanente estado de emergência pode tornar-se muito competente a apagar fogos e extraordinariamente incompetente a perguntar por que razão estão sempre a surgir incêndios.
Também os governos podem ficar presos nesta lógica. Entre a urgência mediática, a pressão social e a necessidade de apresentar respostas imediatas, corre-se o risco de mergulhar no acessório enquanto o essencial permanece à superfície.
A crise da habitação, por exemplo, não é apenas uma questão de preços. É uma questão de modelo económico, território, emprego, mobilidade, demografia e condições de vida. A crise demográfica não se resolve apenas com incentivos à natalidade. A transformação digital não se resolve apenas comprando tecnologia. E a crise ambiental não se resolve apenas acrescentando novas regras a um modelo que talvez precise de ser profundamente repensado.
Talvez precisemos de menos respostas para cada crise e de mais capacidade para compreender as transformações que estão por detrás delas. Porque talvez algumas das coisas a que chamamos crises sejam, na verdade, mudanças de paradigma que ainda insistimos em medir com as ferramentas do mundo anterior.
E talvez esta seja uma das grandes dificuldades do nosso tempo: confundimos a perda da normalidade com a necessidade de regressar a ela.
Mas e se essa normalidade já não existir? E se o mundo estiver, simplesmente, a mudar?
Nesse caso, insistir em chamar crise a tudo pode ser uma forma confortável de adiar a pergunta verdadeiramente difícil: que sociedade queremos construir a partir daqui?
Talvez precisemos de voltar a respirar. De parar, por momentos, a sucessão de emergências e olhar para aquilo que permanece quando a espuma baixa. Porque uma sociedade não pode viver eternamente em apneia.
E talvez a verdadeira urgência do nosso tempo seja precisamente esta: deixar de correr atrás de todas as crises para começar a decidir, com alguma lucidez, o que é realmente essencial.
O poder de decidir uma vida melhor
Quem trabalha na assistência social conhece bem essa cena: a mulher chega ao CRAS com os documentos numa pasta, a criança no colo e as contas do mês calculadas de cabeça. Às vezes fala baixo, pede desculpas por estar ali e faz questão de explicar que trabalha, que não está pedindo favor. Depois de tantos anos nessa profissão, aprendi a reconhecer o peso desse constrangimento. É como se, ao acessar um direito, alguém fosse obrigado a se justificar.
Essa mulher não deve nada a ninguém. Muitas vezes, trabalha na informalidade e faz o recurso recebido render até o fim do mês como pode. Além disso, cuida dos filhos, dos netos, da mãe idosa ou de alguém da família com deficiência. São mulheres que fazem um trabalho essencial, mas que quase nunca é reconhecido como trabalho. Também são mães que deixam o emprego para acompanhar terapias, consultas e a vida escolar dos filhos. Para muitas famílias, o BPC é o que permite manter esse cuidado. No caminho, enfrentam filas, cadastros, perícias e preconceito. Não precisam de julgamento. Precisam ter seus direitos respeitados.
E essas mulheres também são eleitoras. Na urna, o voto delas vale tanto quanto o de um empresário, de um deputado ou de qualquer outra pessoa. Mesmo assim, ainda se tenta convencer quem vive com pouco de que política não é assunto seu, de que tanto faz quem ganha ou que o benefício vai continuar de qualquer jeito. Não é assim que funciona.
O Bolsa Família e o BPC são direitos construídos com a Constituição de 1988, e com muita luta social. Ninguém precisa agradecer a um governante por receber aquilo a que tem direito. Mas é preciso saber que o valor do benefício, as regras de acesso e o dinheiro destinado às políticas sociais dependem de decisões de quem governa e de quem legisla. Isso vale para o Bolsa Família, para o BPC e também para políticas como a Farmácia Popular, as creches e o Pé-de-Meia.
Em 2023, o governo Lula recriou o Bolsa Família, com valor mínimo de R$600 e adicionais de R$150 por criança de até 6 anos e de R$50 para gestantes, nutrizes e crianças e adolescentes de 7 a 18 anos. A Lei nº 14.601/2023, também estabeleceu a correção periódica dos valores e a proibição de reduzi-los. Neste mês, segundo os dados apresentados pelo governo, o reajuste de 15,04% recompõe a inflação acumulada desde 2023, e eleva o piso para R$691. Foi também o governo Lula que criou o Pé-de-Meia, uma poupança para incentivar jovens de baixa renda a permanecer no ensino médio. Retomou o Farmácia Popular, para que as pessoas não decidam entre um remédio ou a mistura do mês. Essas medidas não aconteceram por acaso. Foram escolhas políticas.
O outro campo também tem um histórico que precisa ser lembrado. Em 2019, o governo Jair Bolsonaro apresentou uma reforma da Previdência que previa elevar para 70 anos a idade de acesso ao BPC e desvincular o benefício do salário mínimo. O Congresso barrou esses dois pontos. Em 2022, durante a campanha, Bolsonaro prometeu manter os R$600, mas enviou um orçamento para 2023, com valor médio de R$405 para o Auxílio Brasil.
Naquele mesmo ano, Flávio Bolsonaro, seu filho, votou contra a PEC da Transição, que abriu espaço no orçamento para o Bolsa Família de 2023. Agora, sua campanha anuncia um corte de cerca de R$190 bilhões já no primeiro ano, sem explicar de onde virá a economia. Ele ainda promete uma PEC de corte de gastos na transição. Uma medida assim pode atingir políticas sociais e direitos que hoje estão protegidos, entre eles, o BPC vinculado ao salário mínimo.
O PL também tem demonstrado claramente sua posição sobre quem recebe benefícios. No Rio Grande do Sul, em Bento Gonçalves, durante a gestão do prefeito Diogo Siqueira (PL), hoje deputado federal eleito, foi aprovada uma lei que prevê corte do benefício e multa de R$7,2 mil para famílias com cadastro irregular. O número de famílias que recebem Bolsa Família no município caiu de 2.115 para 1.266, entre novembro de 2024 e abril de 2026.
A Defensoria Pública da União questionou a lei. O deputado gaúcho Bibo Nunes, também do PL, é autor de uma proposta de emenda à Constituição que proíbe pessoas que recebem Bolsa Família de votar em ano eleitoral. Jair Bolsonaro já chamou o programa de “compra de votos” e seus beneficiários de “eleitores de cabresto”; Flávio Bolsonaro usou o apelido “bolsa-farelo”. São falas que tratam essas famílias com desconfiança e desrespeito, como se fossem cidadãs menores e com menos direitos que as outras.
A vida de muitas famílias melhorou, mas ainda há muita coisa para ser resolvida. O preço dos alimentos ainda pesa, o trabalho é instável e o acesso aos serviços públicos nem sempre funciona como deveria. Quem vive essa realidade sabe disso melhor do que ninguém. As mulheres que atendi não querem depender de benefício para sempre: querem trabalho digno, uma casa segura e a possibilidade de ver os filhos chegarem à universidade. O benefício ajuda a atravessar o presente e a construir outros caminhos. Para isso, precisamos avançar, não começar cortando justamente o que o País mais precisa. É por isso que defendo a continuidade do projeto de Lula.
No primeiro turno, 33,4 milhões de pessoas deixaram de votar, a maior abstenção desde 1998. A diferença entre os dois candidatos ficou em cerca de 2,2 milhões de votos. Entre as famílias de baixa renda, faltar à votação nem sempre é desinteresse. Pode ser a distância até a seção eleitoral, a falta de ônibus no domingo, a dificuldade de deixar as crianças com alguém ou o medo provocado por boatos. Quando essas mulheres não conseguem votar, outras pessoas acabam decidindo também sobre o futuro delas. Quando vão à urna, exercem o direito de escolher por si mesmas.
Por isso, é importante repetir: o voto é secreto e nenhum benefício depende de votar em determinado candidato. Ninguém na prefeitura, no CRAS, na igreja ou no trabalho tem como saber em quem uma pessoa votou. Constranger alguém por causa do voto pode configurar crime eleitoral. Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo. No dia 25, a votação será das 8h às 17h. Basta levar um documento oficial com foto. O transporte público será gratuito em todo o país.
Quem recebe benefício não vota por gratidão nem por cabresto. Vota a partir da própria experiência e do que vive dentro de casa. Vota pelo futuro que deseja para a sua família. No dia 25, essa escolha está nas mãos de cada eleitora. Pela mãe, pela filha, pela neta e por si mesma. Ninguém pode decidir por ela. Para continuar avançando na proteção social, meu voto é Lula.
Essa mulher não deve nada a ninguém. Muitas vezes, trabalha na informalidade e faz o recurso recebido render até o fim do mês como pode. Além disso, cuida dos filhos, dos netos, da mãe idosa ou de alguém da família com deficiência. São mulheres que fazem um trabalho essencial, mas que quase nunca é reconhecido como trabalho. Também são mães que deixam o emprego para acompanhar terapias, consultas e a vida escolar dos filhos. Para muitas famílias, o BPC é o que permite manter esse cuidado. No caminho, enfrentam filas, cadastros, perícias e preconceito. Não precisam de julgamento. Precisam ter seus direitos respeitados.
E essas mulheres também são eleitoras. Na urna, o voto delas vale tanto quanto o de um empresário, de um deputado ou de qualquer outra pessoa. Mesmo assim, ainda se tenta convencer quem vive com pouco de que política não é assunto seu, de que tanto faz quem ganha ou que o benefício vai continuar de qualquer jeito. Não é assim que funciona.
O Bolsa Família e o BPC são direitos construídos com a Constituição de 1988, e com muita luta social. Ninguém precisa agradecer a um governante por receber aquilo a que tem direito. Mas é preciso saber que o valor do benefício, as regras de acesso e o dinheiro destinado às políticas sociais dependem de decisões de quem governa e de quem legisla. Isso vale para o Bolsa Família, para o BPC e também para políticas como a Farmácia Popular, as creches e o Pé-de-Meia.
Em 2023, o governo Lula recriou o Bolsa Família, com valor mínimo de R$600 e adicionais de R$150 por criança de até 6 anos e de R$50 para gestantes, nutrizes e crianças e adolescentes de 7 a 18 anos. A Lei nº 14.601/2023, também estabeleceu a correção periódica dos valores e a proibição de reduzi-los. Neste mês, segundo os dados apresentados pelo governo, o reajuste de 15,04% recompõe a inflação acumulada desde 2023, e eleva o piso para R$691. Foi também o governo Lula que criou o Pé-de-Meia, uma poupança para incentivar jovens de baixa renda a permanecer no ensino médio. Retomou o Farmácia Popular, para que as pessoas não decidam entre um remédio ou a mistura do mês. Essas medidas não aconteceram por acaso. Foram escolhas políticas.
O outro campo também tem um histórico que precisa ser lembrado. Em 2019, o governo Jair Bolsonaro apresentou uma reforma da Previdência que previa elevar para 70 anos a idade de acesso ao BPC e desvincular o benefício do salário mínimo. O Congresso barrou esses dois pontos. Em 2022, durante a campanha, Bolsonaro prometeu manter os R$600, mas enviou um orçamento para 2023, com valor médio de R$405 para o Auxílio Brasil.
Naquele mesmo ano, Flávio Bolsonaro, seu filho, votou contra a PEC da Transição, que abriu espaço no orçamento para o Bolsa Família de 2023. Agora, sua campanha anuncia um corte de cerca de R$190 bilhões já no primeiro ano, sem explicar de onde virá a economia. Ele ainda promete uma PEC de corte de gastos na transição. Uma medida assim pode atingir políticas sociais e direitos que hoje estão protegidos, entre eles, o BPC vinculado ao salário mínimo.
O PL também tem demonstrado claramente sua posição sobre quem recebe benefícios. No Rio Grande do Sul, em Bento Gonçalves, durante a gestão do prefeito Diogo Siqueira (PL), hoje deputado federal eleito, foi aprovada uma lei que prevê corte do benefício e multa de R$7,2 mil para famílias com cadastro irregular. O número de famílias que recebem Bolsa Família no município caiu de 2.115 para 1.266, entre novembro de 2024 e abril de 2026.
A Defensoria Pública da União questionou a lei. O deputado gaúcho Bibo Nunes, também do PL, é autor de uma proposta de emenda à Constituição que proíbe pessoas que recebem Bolsa Família de votar em ano eleitoral. Jair Bolsonaro já chamou o programa de “compra de votos” e seus beneficiários de “eleitores de cabresto”; Flávio Bolsonaro usou o apelido “bolsa-farelo”. São falas que tratam essas famílias com desconfiança e desrespeito, como se fossem cidadãs menores e com menos direitos que as outras.
A vida de muitas famílias melhorou, mas ainda há muita coisa para ser resolvida. O preço dos alimentos ainda pesa, o trabalho é instável e o acesso aos serviços públicos nem sempre funciona como deveria. Quem vive essa realidade sabe disso melhor do que ninguém. As mulheres que atendi não querem depender de benefício para sempre: querem trabalho digno, uma casa segura e a possibilidade de ver os filhos chegarem à universidade. O benefício ajuda a atravessar o presente e a construir outros caminhos. Para isso, precisamos avançar, não começar cortando justamente o que o País mais precisa. É por isso que defendo a continuidade do projeto de Lula.
No primeiro turno, 33,4 milhões de pessoas deixaram de votar, a maior abstenção desde 1998. A diferença entre os dois candidatos ficou em cerca de 2,2 milhões de votos. Entre as famílias de baixa renda, faltar à votação nem sempre é desinteresse. Pode ser a distância até a seção eleitoral, a falta de ônibus no domingo, a dificuldade de deixar as crianças com alguém ou o medo provocado por boatos. Quando essas mulheres não conseguem votar, outras pessoas acabam decidindo também sobre o futuro delas. Quando vão à urna, exercem o direito de escolher por si mesmas.
Por isso, é importante repetir: o voto é secreto e nenhum benefício depende de votar em determinado candidato. Ninguém na prefeitura, no CRAS, na igreja ou no trabalho tem como saber em quem uma pessoa votou. Constranger alguém por causa do voto pode configurar crime eleitoral. Quem não votou no primeiro turno pode votar no segundo. No dia 25, a votação será das 8h às 17h. Basta levar um documento oficial com foto. O transporte público será gratuito em todo o país.
Quem recebe benefício não vota por gratidão nem por cabresto. Vota a partir da própria experiência e do que vive dentro de casa. Vota pelo futuro que deseja para a sua família. No dia 25, essa escolha está nas mãos de cada eleitora. Pela mãe, pela filha, pela neta e por si mesma. Ninguém pode decidir por ela. Para continuar avançando na proteção social, meu voto é Lula.
sábado, 10 de outubro de 2026
A democracia em risco novamente
Os resultados verificados nas eleições parlamentares do último dia 4 de outubro acendem um alerta vermelho para a democracia no Brasil. A ocupação pela extrema-direita de grande parte do espaço político no Legislativo, que vinha sendo preenchido pelo chamado Centrão e pela direita mais moderada, constitui um perigo para o Estado Democrático de Direito. Afinal, Câmara e Senado passarão a ser dominados por uma força política disruptiva, que já tentou um golpe de Estado há relativamente pouco tempo. Ainda é cedo para prever o desfecho das eleições presidenciais. O presidente Lula é um grande líder popular e, sendo pequena a diferença de votos, é ainda possível reverter o resultado desfavorável. Mas é preciso apontar que o risco à democracia já instalado pela nova composição do Congresso certamente seria amplificado com a vitória de Flávio Bolsonaro, uma vez que teríamos dois dos Poderes da República capturados por essas forças golpistas.
Adentrando a análise de como será a correlação de forças no Legislativo, percebemos uma manutenção da base numérica de cadeiras dos progressistas. Quem perdeu para a extrema-direita foram o Centrão e a direita moderada. Se Lula vier a ser eleito, terá uma dificuldade ainda maior de criar composições com o Parlamento, resultando em um aumento do nível da tensão entre Executivo e Legislativo. Projeta-se, também, a partir da nova formação do Senado, uma forte disposição para embates com o Supremo Tribunal Federal, especialmente quanto à abertura de processos de impeachment de ministros da Corte. No Senado, a direita e a extrema-direita não terão, de saída, um contingente de senadores suficiente para decretar esse tipo de medida – haverá 49 de orientação conservadora. Seriam necessários 54 (dois terços de um total de 81) votos para viabilizar a destituição de um ministro do STF. Mas sabe-se que não seria nada muito complexo conquistar cinco votos entre o Centrão e os moderados.
É importante lembrar que o próximo presidente da República terá, em tese, o direito de nomear entre três e cinco novos ministros para o Supremo. Há ainda sem definição a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, além das substituições necessárias por conta das futuras aposentadorias dos ministros Luiz Fux e Cármen Lúcia, e, eventualmente, do ministro Gilmar Mendes, que completará a idade para se aposentar no penúltimo dia do mandato da gestão do futuro presidente. Aventa-se, ainda, a cassação do mandato de Alexandre de Moraes, o que elevaria para até cinco novas nomeações. Essas mudanças significam um grande impacto em sua composição e a possibilidade de o futuro governo estabelecer um domínio absolutamente invulgar sobre o órgão máximo do Poder Judiciário do Brasil.
O processo eleitoral em curso também nos traz desafios. Um dos pontos de destaque é que, tanto no eleitorado da extrema-direita quanto no eleitorado progressista, observamos um acentuado crescimento de candidatos jovens que obtiveram votações muito expressivas. Em contrapartida, candidatos extremamente qualificados, porém mais velhos, não conseguiram se eleger, especialmente no campo da esquerda. A mudança na comunicação com o eleitorado, ao que tudo indica, foi o ponto-chave nesse pleito. A juventude política se vale das redes sociais e do domínio da linguagem nelas empregada para alcançar seus eleitores – e o faz de maneira eficaz.
Considerando a extrema-direita, os exemplos mais emblemáticos são o de Eduarda Campopiano, do PL, de 23 anos, a deputada mais votada para a Alesp, e Lucas Pavanato, de 28, também do PL, que se tornou o deputado federal mais votado da história de São Paulo, recebendo mais de 3 milhões de votos.
Adentrando a análise de como será a correlação de forças no Legislativo, percebemos uma manutenção da base numérica de cadeiras dos progressistas. Quem perdeu para a extrema-direita foram o Centrão e a direita moderada. Se Lula vier a ser eleito, terá uma dificuldade ainda maior de criar composições com o Parlamento, resultando em um aumento do nível da tensão entre Executivo e Legislativo. Projeta-se, também, a partir da nova formação do Senado, uma forte disposição para embates com o Supremo Tribunal Federal, especialmente quanto à abertura de processos de impeachment de ministros da Corte. No Senado, a direita e a extrema-direita não terão, de saída, um contingente de senadores suficiente para decretar esse tipo de medida – haverá 49 de orientação conservadora. Seriam necessários 54 (dois terços de um total de 81) votos para viabilizar a destituição de um ministro do STF. Mas sabe-se que não seria nada muito complexo conquistar cinco votos entre o Centrão e os moderados.
É importante lembrar que o próximo presidente da República terá, em tese, o direito de nomear entre três e cinco novos ministros para o Supremo. Há ainda sem definição a vaga deixada pelo ministro Luís Roberto Barroso, além das substituições necessárias por conta das futuras aposentadorias dos ministros Luiz Fux e Cármen Lúcia, e, eventualmente, do ministro Gilmar Mendes, que completará a idade para se aposentar no penúltimo dia do mandato da gestão do futuro presidente. Aventa-se, ainda, a cassação do mandato de Alexandre de Moraes, o que elevaria para até cinco novas nomeações. Essas mudanças significam um grande impacto em sua composição e a possibilidade de o futuro governo estabelecer um domínio absolutamente invulgar sobre o órgão máximo do Poder Judiciário do Brasil.
O processo eleitoral em curso também nos traz desafios. Um dos pontos de destaque é que, tanto no eleitorado da extrema-direita quanto no eleitorado progressista, observamos um acentuado crescimento de candidatos jovens que obtiveram votações muito expressivas. Em contrapartida, candidatos extremamente qualificados, porém mais velhos, não conseguiram se eleger, especialmente no campo da esquerda. A mudança na comunicação com o eleitorado, ao que tudo indica, foi o ponto-chave nesse pleito. A juventude política se vale das redes sociais e do domínio da linguagem nelas empregada para alcançar seus eleitores – e o faz de maneira eficaz.
Considerando a extrema-direita, os exemplos mais emblemáticos são o de Eduarda Campopiano, do PL, de 23 anos, a deputada mais votada para a Alesp, e Lucas Pavanato, de 28, também do PL, que se tornou o deputado federal mais votado da história de São Paulo, recebendo mais de 3 milhões de votos.
Conhecidos por uma agenda política ultraconservadora voltada, por exemplo, ao fim das cotas raciais e de gênero, eles investiram mais de 50% do valor gasto na campanha eleitoral em conteúdos nas redes sociais, em detrimento de ações com eleitores nas ruas, de acordo com o portal Metrópoles. Aos 21 anos, Ana Elisa, do PT, a deputada federal mais jovem já eleita no País e a mulher mais votada da história de Minas Gerais para a Câmara dos Deputados, também apontou a comunicação nas redes como responsável pelo seu desempenho nas urnas. No campo progressista, trata-se de uma juventude que demonstra capacidade de unificar a luta universal pela justiça social e ações pelos direitos humanos de minorias, abraçando movimentos a favor das mulheres, dos LGBTQIAPN+ e contra o racismo, por exemplo. Essa unificação se evidencia como o caminho do progressismo, constituindo uma luta contra a exploração e pela emancipação ao mesmo tempo. É nessa frente que precisamos concentrar nossos esforços.
As eleições e o futuro como desafio
Os resultados trouxeram perigos e alertas para os atores da política democrática brasileira. Nas eleições legislativas, a maioria formada pelo PL (Bolsonaro) na Câmara e no Senado foi um dado chamativo. Os demais partidos oscilaram. A maioria saiu-se mal, com a exceção do PSOL, que teve bom desempenho e elegeu uma bancada competitiva na Câmara. Já nas eleições para a Presidência, o campo democrático – representado por Lula, pelo PT, pelo PSDB, Rede e Cidadania, além de pedaços do chamado “Centrão” e dos liberais que prezam a democracia — sofreu uma inesperada derrota.
Não houve um único culpado pelos resultados do primeiro turno. Foram tantos os fatos que incidiram sobre a eleitorado (os escândalos, as denúncias, a crise moral do STF, as declarações precipitadas, o desarranjo social crescente, os apelos à religião e à religiosidade), que não faz sentido explicar a situação por causalidades simples. Mas os atores principais, por sua própria relevância política, estão forçados a avaliar onde foi que erraram. O PT e Lula não foram os únicos responsáveis pelo esmaecimento do arco de forças democráticas formado após o fim da ditadura. Não ajudaram, porém, a alimentá-lo. Por estarem a governar desde 2002, com um breve intervalo entre 2016 e 2022, os petistas deixaram de lado a blindagem política da democracia. O PT se entregou a Lula como “grande timoneiro”, líder único e insubstituível, cercando-o de dirigentes com reduzida capacidade estratégica e de formulação. Insistiu em se apresentar como a “única verdadeira democracia” e desprezar alianças com os democratas não petistas, a não ser que esses aceitassem ser cooptados. Não soube se renovar e se pluralizar como ator político.
As direitas, extremas à frente, mostraram uma força que não se previa e não se imaginava existir. Varreram o país, deixando Lula praticamente ilhado no Nordeste. Lá, ele respirou e acumulou votos. Em termos políticos, porém, os centros mais pujantes e eleitoralmente mais importantes (o Sudeste e o Sul) ficaram ao lado de Bolsonaro. Somados aos cerca de 20 milhões de abstenções, garantiram a ele a vantagem de 2 milhões de votos no primeiro turno, mostrando a ampla capilaridade da extrema direita.
A força da extrema direita não caiu do céu. Frutificou no correr de um processo, apoiado numa espécie de “conservadorismo” entranhado no modo de ser do brasileiro. Ganhou impulso a partir do governo Dilma e das grandes manifestações de 2013. Sua base operacional combinou doses cavalares de antipolítica, uso maciço e competente das redes sociais, incorporação política da religiosidade e apoios da internacional direitista que hoje circula pelo mundo.
Seu crescimento coincidiu com uma mudança no padrão da socialidade. Combinou-se com a conversão do país em uma sociedade hipermoderna: mais fragmentada, com novas formas de trabalho, novos comportamentos e aspirações, dúvidas existenciais no terreno moral, guerras culturais incessantes, alterações profundas nas visões de mundo e no modo como se encara a política. Os brasileiros passaram a viver em mudança célere e transferiram isso para a política: mudar se tornou um estilo de vida, uma busca constante por novidades e, por extensão, uma forte rejeição daquilo que é visto como “mais do mesmo”.
A revolução digital ajudou a que surgisse um ambiente favorável ao desarranjo social e institucional, como costuma ocorrer nos grandes processos de transição. A rápida disseminação das redes sociais e, agora, das aplicações de IA, alterou o modo como se vive, como se consome, como se trabalha e como se pensa, abrindo espaços generosos para a configuração de um diferente modo de viver a política.
Na sociedade hipermoderna movida por tecnologia intensiva, o eleitor (o cidadão) não compreende que seus problemas não podem ser resolvidos com um estalar de dedos dos governos. O eleitor é impaciente e se move por uma lógica de satisfação imediata, lógica essa irmanada com a lógica do capitalismo atual. Quem governa nesse clima está sempre devendo. O que a revolução desorganiza (ou reorganiza), a extrema direita captura, oferecendo uma visão “antissistema” que atrai a indignação e o desconforto de tantas pessoas. Na Europa, ela trabalha para fornecer proteção aos nacionais contra os imigrantes, para valorizar o “branco” em detrimento dos “não brancos”, para criticar o Estado de Bem-estar e a globalização. No Brasil, a extrema direita brada um “nacionalismo” retórico ao mesmo tempo em que se subordina às orientações de Donal Trump. Oculta essa subordinação falando em “defesa nacional”, “Pátria” e proteção do território.
Os resultados do primeiro turno traduziram a grave crise institucional em que se encontra o país. É uma crise que, em parte, está associada às transfigurações provocadas pela revolução digital. Mas que reflete, sobretudo, a “despolitização” socialmente instalada, a fraqueza dos partidos, os atritos improdutivos entre as instituições, que passaram a funcionar de modo mais precário, colidindo umas com as outras. Os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) paralisaram-se uns aos outros, trocando a articulação funcional por disparos desfuncionais. A crise do STF desnudou o ponto extremo dessa crise, cujo maior efeito foi a perda de credibilidade da Corte. Sua decomposição moral fez o fogo crepitar e produziu ondas crescentes de decepção e insatisfação, convertendo-se em moeda eleitoral. O fato preponderante é que, no correr de alguns meses, os Poderes se converteram em brigadas alinhadas umas contra as outras, com os conflitos sendo exibidos à luz do dia. A governabilidade e a governança ficaram travadas. A desintermediação fragilizou a democracia e a dinâmica política, sempre conflituosa e cada vez mais polarizada, passou a transcorrer à base de atritos ruidosos entre os Poderes, reverberando na opinião pública e na sociedade.
Os brasileiros vocalizaram nas urnas uma expectativa de mudança. Fizeram isso sem clareza sobre o sentido da mudança. Mudar para onde, e de que maneira? Podem ter olhado para trás e se reconfortado com a ideia de que antes “éramos felizes e não sabíamos”, assim como podem ter olhado para a frente e vislumbrado um cenário diferente de tudo o que está aí. Houve mais emoção do que racionalidade. A velocidade das mudanças vindas da revolução digital jogou grande peso, ao incentivar a ideia de que a lentidão das condutas governamentais e políticas colidiria com a rapidez das mudanças socioculturais e existenciais. Uma vida mais “individualizada”, o trabalho em aplicativos de entrega, a propaganda exaustiva e as informações desencontradas fornecidas pelas redes fizeram com que se alargasse a busca por candidatos “novos”, diferentes dos que se conheciam.
As duas campanhas principais foram igualmente medíocres. De um lado, o candidato da direita esbravejou contra tudo e todos, esgrimindo as mais diferentes armas contra um suposto “dragão da maldade” (o sistema) e insuflando o ressentimento popular. De outro, um Lula cansado de guerra, com uma retórica cheia de promessas envelhecidas, agarrado à sua biografia pregressa – heroica, mas de uma época que já passou –, fechado para o novo mundo em gestação. Nenhum deles apresentou propostas concretas ou “sugestões” sobre o futuro, uma ideia de país e de governo. Contaminados pela polarização, limitaram-se a se atacar reciprocamente. É provável que nada tenham falado porque nada tinham para falar. Entregaram-se por isso à pura e simples agitação, que pode tê-los ajudado a levar mais longe suas “mensagens”, mas nada acrescentou à percepção dos brasileiros e à compreensão do mundo em que vivemos.
O cidadão médio brasileiro não votou pela democracia. Talvez por não a entender, talvez por não a valorizar, talvez por ter tido sua memória histórica sequestrada e não se lembrar dos anos duros da ditadura militar. Deixou-se levar pela indignação e não encontrou um rumo claro para se posicionar. Não é razoável, porém, concluir que 56 milhões de eleitores se tornaram, conscientemente, de extrema direita, ou “fascistas”. O que há de bolsonarismo no país cavalgou o cansaço e as decepções da população, sem ter tido condições de organizá-la de forma sustentável.
Ninguém vence uma eleição apertada sem que seu adversário cometa erros importantes. O vencedor do primeiro turno tinha sua cota de malfeitos e relacionamentos suspeitos, mas sua campanha soube blindá-lo. Ele próprio se escondeu, desviando-se da artilharia do lado oposto. Sua campanha soube explorar o maior erro do PT e de Lula: não renovar suas lideranças e seu discurso, confiando excessivamente na lealdade dos brasileiros, sem levar em conta que esses brasileiros se descolaram dos resíduos do século XX e ingressaram no século XXI, na hipermodernidade. O PT não conseguiu abandonar ou neutralizar sua “superioridade moral”. Como não irão nos apoiar, a nós, lulistas e petistas, depois de tudo o que fizemos por esse país? Não precisamos de outros apoios (de uma “frente democrática”, por exemplo), pois nos bastamos a nós mesmos. Além do mais, nosso adversário é um pangaré, não corre tanto quanto o nosso alazão. Autoestima exageradamente elevada combinada com subestimação do adversário. Receita certa para perder votos.
Os votos direcionados ao filho de Bolsonaro misturaram antilulismo, ingenuidade, conservadorismo, cansaço, desejo de mudança e indignação social. Formou-se um mix de comportamentos e ideias afetivas, passionais e valorativas, com uma pitada de ideologia, que estendeu um tapete vermelho para a extrema direita. A essa altura, não me parece haver grande densidade organizacional e social no bolsonarismo. A impressão é que ele flutua sobre a realidade brasileira, explorando-a com malícia e competência. Adota uma perspectiva hegemônica curiosa, imperfeita, que não dispõe de grandes intelectuais (substituídos por influenciadores e redes) e depende de uma mobilização social inorgânica, que opera mediante soluços e apostas. Seria algo mais próximo de um “populismo de direita”, mas mesmo esse é carente de uma figura carismática explícita e inquestionável.
As redes sociais passaram a ocupar uma posição central na vida atual. Reverberam na política. Têm poder: um poder hostil à política, assentado na estridência, na mentira, na denúncia, na provocação e na crítica retórica. As redes, em boa medida, afastaram de si a política. Fecharam-se para o diálogo democrático. Suas bolhas são autorreferenciadas. Ajudam a desorganizar e a confundir os eleitores. Por outro lado, são bons canais de propaganda, especialmente quando impulsionadas pelo tráfego pago. A extrema direita aprendeu a surfar nas redes e nos canais digitais. Tem bons influenciadores, que se aproveitam da falta de consensos entre os democratas e dos desencontros sociais. Explora com eficiência a indignação e a decepção da população, interagindo com o que há de ruídos e cacofonia na vida atual. Hoje, as informações circulam com rapidez e em excesso, as atenções se dispersam e se deslocam rapidamente. Fala-se muito, diverge-se sobre tudo, ataca-se sem dó todos os que pensam diferente. Dialoga-se pouquíssimo. Não há cooperação política. Os partidos evaporaram, não fazem mais contato com os cidadãos. Olham para o poder, a gestão e as eleições, não chegam à população e não se interessam pela educação cívica.
Os eleitores hipermodernos não seguem qualquer tipo de ordem unida democrática. No Brasil, são pouco afetados pelas linguagens governamentais, cuja dissonância os afasta. A antipolítica prolonga o estrago, facilitando o surgimento de condutas hostis a partidos e políticos. Visto em seu conjunto, o eleitorado parece se ressentir da falta daquele arco de forças políticas direcionadas para defender a Constituição de 1988 e governar o país democraticamente. Esse arco foi se desfazendo com o passar do tempo, consumindo-se de polarização em polarização, sem que surgisse um ator com disposição e tirocínio para mantê-lo vivo. Ah, poderão dizer, Lula reavivou a frente democrática para vencer as eleições de 2022. Fez isso, é verdade, mas ao tomar posse se esqueceu dela. A iniciativa lhe serviu somente como recurso eleitoral.
A partir de agora, será preciso aprofundar a reflexão. Atualizar o discurso. Parar de ver conspirações e golpes em todo canto. O eleitor de Flávio (56 milhões!) não é um bolsonarista. É somente um cara insatisfeito com o que vê e com o que não recebe dos políticos. Alguém cansado e decepcionado com governos, políticos e juízes, que quer uma mudança que o inclua, nem que seja em termos simbólicos. Flávio Bolsonaro provavelmente não contará com o consentimento de seus eleitores se fizer um governo de “vingança” e compadrio, sem qualidade técnica para entregar políticas de inclusão, de segurança, educacionais, ambientais, sem capacidade de interpretar o mundo que está aí, fora de nossas janelas. Isso quer dizer que o jogo está aberto.
Para a democracia brasileira, a eventual vitória de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro será um complicado teste. Se ela já está fragilizada, tenderá a ficar ainda mais exposta. Mas devemos pagar para ver o que ele fará. É provável que seja um governante fraco, sem muitas ideias e com um saco de maldades pronto para ser aberto. Poderá travar alguns programas, ameaçar a educação, deixar de financiar a cultura.de inclusão. Poderá não ser responsável com as contas públicas. Terá dificuldades com o Congresso Nacional (o Legislativo), mesmo que conte com maioria em ambas as Casas. Afinal, o Legislativo de hoje seguirá sendo o Legislativo de amanhã: um poder interessado em aprisionar e condicionar o Executivo, roubar-lhe recursos mediante emendas suspeitas.
Seja quem vencer o segundo turno, terá pela frente muitos desafios. Como administrará os gastos obrigatórios e a dívida pública? Poderá contar com o STF? Como posicionará o Brasil no contexto internacional e na “guerra” entre as grandes potências? Seguirá impulsionando as políticas compensatórias? Adotará com firmeza uma política de segurança que proteja de fato a população e combata o crime organizado? E quanto aos recursos estratégicos, aos minerais críticos e à proteção ambiental? Conseguirá obter consensos para atuar com firmeza nesses diferentes e explosivos terrenos?
Um cenário desse tipo, com tantos desafios e tanta confusão institucional, sugere uma governança mergulhada em crise sucessivas, em impasses procedimentais, pressionada pela indignação social e pela resistência patrimonialista e social, que poderá ser exacerbada pela ausência de propostas ou por uma atuação governamental destrambelhada.
O futuro próximo pode ser pensado como uma oportunidade. Poderá ajudar a que os democratas – liberais, socialistas, comunistas, libertários – reaprendam a dialogar, a agir de forma articulada e com um causa comum como guia. Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo, que foi, a rigor, um dos fatores causadores da devastação de 4 de outubro. Insistir nele, a partir de agora, será fazer o jogo dos antidemocratas.
Não houve um único culpado pelos resultados do primeiro turno. Foram tantos os fatos que incidiram sobre a eleitorado (os escândalos, as denúncias, a crise moral do STF, as declarações precipitadas, o desarranjo social crescente, os apelos à religião e à religiosidade), que não faz sentido explicar a situação por causalidades simples. Mas os atores principais, por sua própria relevância política, estão forçados a avaliar onde foi que erraram. O PT e Lula não foram os únicos responsáveis pelo esmaecimento do arco de forças democráticas formado após o fim da ditadura. Não ajudaram, porém, a alimentá-lo. Por estarem a governar desde 2002, com um breve intervalo entre 2016 e 2022, os petistas deixaram de lado a blindagem política da democracia. O PT se entregou a Lula como “grande timoneiro”, líder único e insubstituível, cercando-o de dirigentes com reduzida capacidade estratégica e de formulação. Insistiu em se apresentar como a “única verdadeira democracia” e desprezar alianças com os democratas não petistas, a não ser que esses aceitassem ser cooptados. Não soube se renovar e se pluralizar como ator político.
As direitas, extremas à frente, mostraram uma força que não se previa e não se imaginava existir. Varreram o país, deixando Lula praticamente ilhado no Nordeste. Lá, ele respirou e acumulou votos. Em termos políticos, porém, os centros mais pujantes e eleitoralmente mais importantes (o Sudeste e o Sul) ficaram ao lado de Bolsonaro. Somados aos cerca de 20 milhões de abstenções, garantiram a ele a vantagem de 2 milhões de votos no primeiro turno, mostrando a ampla capilaridade da extrema direita.
A força da extrema direita não caiu do céu. Frutificou no correr de um processo, apoiado numa espécie de “conservadorismo” entranhado no modo de ser do brasileiro. Ganhou impulso a partir do governo Dilma e das grandes manifestações de 2013. Sua base operacional combinou doses cavalares de antipolítica, uso maciço e competente das redes sociais, incorporação política da religiosidade e apoios da internacional direitista que hoje circula pelo mundo.
Seu crescimento coincidiu com uma mudança no padrão da socialidade. Combinou-se com a conversão do país em uma sociedade hipermoderna: mais fragmentada, com novas formas de trabalho, novos comportamentos e aspirações, dúvidas existenciais no terreno moral, guerras culturais incessantes, alterações profundas nas visões de mundo e no modo como se encara a política. Os brasileiros passaram a viver em mudança célere e transferiram isso para a política: mudar se tornou um estilo de vida, uma busca constante por novidades e, por extensão, uma forte rejeição daquilo que é visto como “mais do mesmo”.
A revolução digital ajudou a que surgisse um ambiente favorável ao desarranjo social e institucional, como costuma ocorrer nos grandes processos de transição. A rápida disseminação das redes sociais e, agora, das aplicações de IA, alterou o modo como se vive, como se consome, como se trabalha e como se pensa, abrindo espaços generosos para a configuração de um diferente modo de viver a política.
Na sociedade hipermoderna movida por tecnologia intensiva, o eleitor (o cidadão) não compreende que seus problemas não podem ser resolvidos com um estalar de dedos dos governos. O eleitor é impaciente e se move por uma lógica de satisfação imediata, lógica essa irmanada com a lógica do capitalismo atual. Quem governa nesse clima está sempre devendo. O que a revolução desorganiza (ou reorganiza), a extrema direita captura, oferecendo uma visão “antissistema” que atrai a indignação e o desconforto de tantas pessoas. Na Europa, ela trabalha para fornecer proteção aos nacionais contra os imigrantes, para valorizar o “branco” em detrimento dos “não brancos”, para criticar o Estado de Bem-estar e a globalização. No Brasil, a extrema direita brada um “nacionalismo” retórico ao mesmo tempo em que se subordina às orientações de Donal Trump. Oculta essa subordinação falando em “defesa nacional”, “Pátria” e proteção do território.
Os resultados do primeiro turno traduziram a grave crise institucional em que se encontra o país. É uma crise que, em parte, está associada às transfigurações provocadas pela revolução digital. Mas que reflete, sobretudo, a “despolitização” socialmente instalada, a fraqueza dos partidos, os atritos improdutivos entre as instituições, que passaram a funcionar de modo mais precário, colidindo umas com as outras. Os Poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) paralisaram-se uns aos outros, trocando a articulação funcional por disparos desfuncionais. A crise do STF desnudou o ponto extremo dessa crise, cujo maior efeito foi a perda de credibilidade da Corte. Sua decomposição moral fez o fogo crepitar e produziu ondas crescentes de decepção e insatisfação, convertendo-se em moeda eleitoral. O fato preponderante é que, no correr de alguns meses, os Poderes se converteram em brigadas alinhadas umas contra as outras, com os conflitos sendo exibidos à luz do dia. A governabilidade e a governança ficaram travadas. A desintermediação fragilizou a democracia e a dinâmica política, sempre conflituosa e cada vez mais polarizada, passou a transcorrer à base de atritos ruidosos entre os Poderes, reverberando na opinião pública e na sociedade.
Os brasileiros vocalizaram nas urnas uma expectativa de mudança. Fizeram isso sem clareza sobre o sentido da mudança. Mudar para onde, e de que maneira? Podem ter olhado para trás e se reconfortado com a ideia de que antes “éramos felizes e não sabíamos”, assim como podem ter olhado para a frente e vislumbrado um cenário diferente de tudo o que está aí. Houve mais emoção do que racionalidade. A velocidade das mudanças vindas da revolução digital jogou grande peso, ao incentivar a ideia de que a lentidão das condutas governamentais e políticas colidiria com a rapidez das mudanças socioculturais e existenciais. Uma vida mais “individualizada”, o trabalho em aplicativos de entrega, a propaganda exaustiva e as informações desencontradas fornecidas pelas redes fizeram com que se alargasse a busca por candidatos “novos”, diferentes dos que se conheciam.
As duas campanhas principais foram igualmente medíocres. De um lado, o candidato da direita esbravejou contra tudo e todos, esgrimindo as mais diferentes armas contra um suposto “dragão da maldade” (o sistema) e insuflando o ressentimento popular. De outro, um Lula cansado de guerra, com uma retórica cheia de promessas envelhecidas, agarrado à sua biografia pregressa – heroica, mas de uma época que já passou –, fechado para o novo mundo em gestação. Nenhum deles apresentou propostas concretas ou “sugestões” sobre o futuro, uma ideia de país e de governo. Contaminados pela polarização, limitaram-se a se atacar reciprocamente. É provável que nada tenham falado porque nada tinham para falar. Entregaram-se por isso à pura e simples agitação, que pode tê-los ajudado a levar mais longe suas “mensagens”, mas nada acrescentou à percepção dos brasileiros e à compreensão do mundo em que vivemos.
O cidadão médio brasileiro não votou pela democracia. Talvez por não a entender, talvez por não a valorizar, talvez por ter tido sua memória histórica sequestrada e não se lembrar dos anos duros da ditadura militar. Deixou-se levar pela indignação e não encontrou um rumo claro para se posicionar. Não é razoável, porém, concluir que 56 milhões de eleitores se tornaram, conscientemente, de extrema direita, ou “fascistas”. O que há de bolsonarismo no país cavalgou o cansaço e as decepções da população, sem ter tido condições de organizá-la de forma sustentável.
Ninguém vence uma eleição apertada sem que seu adversário cometa erros importantes. O vencedor do primeiro turno tinha sua cota de malfeitos e relacionamentos suspeitos, mas sua campanha soube blindá-lo. Ele próprio se escondeu, desviando-se da artilharia do lado oposto. Sua campanha soube explorar o maior erro do PT e de Lula: não renovar suas lideranças e seu discurso, confiando excessivamente na lealdade dos brasileiros, sem levar em conta que esses brasileiros se descolaram dos resíduos do século XX e ingressaram no século XXI, na hipermodernidade. O PT não conseguiu abandonar ou neutralizar sua “superioridade moral”. Como não irão nos apoiar, a nós, lulistas e petistas, depois de tudo o que fizemos por esse país? Não precisamos de outros apoios (de uma “frente democrática”, por exemplo), pois nos bastamos a nós mesmos. Além do mais, nosso adversário é um pangaré, não corre tanto quanto o nosso alazão. Autoestima exageradamente elevada combinada com subestimação do adversário. Receita certa para perder votos.
Os votos direcionados ao filho de Bolsonaro misturaram antilulismo, ingenuidade, conservadorismo, cansaço, desejo de mudança e indignação social. Formou-se um mix de comportamentos e ideias afetivas, passionais e valorativas, com uma pitada de ideologia, que estendeu um tapete vermelho para a extrema direita. A essa altura, não me parece haver grande densidade organizacional e social no bolsonarismo. A impressão é que ele flutua sobre a realidade brasileira, explorando-a com malícia e competência. Adota uma perspectiva hegemônica curiosa, imperfeita, que não dispõe de grandes intelectuais (substituídos por influenciadores e redes) e depende de uma mobilização social inorgânica, que opera mediante soluços e apostas. Seria algo mais próximo de um “populismo de direita”, mas mesmo esse é carente de uma figura carismática explícita e inquestionável.
As redes sociais passaram a ocupar uma posição central na vida atual. Reverberam na política. Têm poder: um poder hostil à política, assentado na estridência, na mentira, na denúncia, na provocação e na crítica retórica. As redes, em boa medida, afastaram de si a política. Fecharam-se para o diálogo democrático. Suas bolhas são autorreferenciadas. Ajudam a desorganizar e a confundir os eleitores. Por outro lado, são bons canais de propaganda, especialmente quando impulsionadas pelo tráfego pago. A extrema direita aprendeu a surfar nas redes e nos canais digitais. Tem bons influenciadores, que se aproveitam da falta de consensos entre os democratas e dos desencontros sociais. Explora com eficiência a indignação e a decepção da população, interagindo com o que há de ruídos e cacofonia na vida atual. Hoje, as informações circulam com rapidez e em excesso, as atenções se dispersam e se deslocam rapidamente. Fala-se muito, diverge-se sobre tudo, ataca-se sem dó todos os que pensam diferente. Dialoga-se pouquíssimo. Não há cooperação política. Os partidos evaporaram, não fazem mais contato com os cidadãos. Olham para o poder, a gestão e as eleições, não chegam à população e não se interessam pela educação cívica.
Os eleitores hipermodernos não seguem qualquer tipo de ordem unida democrática. No Brasil, são pouco afetados pelas linguagens governamentais, cuja dissonância os afasta. A antipolítica prolonga o estrago, facilitando o surgimento de condutas hostis a partidos e políticos. Visto em seu conjunto, o eleitorado parece se ressentir da falta daquele arco de forças políticas direcionadas para defender a Constituição de 1988 e governar o país democraticamente. Esse arco foi se desfazendo com o passar do tempo, consumindo-se de polarização em polarização, sem que surgisse um ator com disposição e tirocínio para mantê-lo vivo. Ah, poderão dizer, Lula reavivou a frente democrática para vencer as eleições de 2022. Fez isso, é verdade, mas ao tomar posse se esqueceu dela. A iniciativa lhe serviu somente como recurso eleitoral.
A partir de agora, será preciso aprofundar a reflexão. Atualizar o discurso. Parar de ver conspirações e golpes em todo canto. O eleitor de Flávio (56 milhões!) não é um bolsonarista. É somente um cara insatisfeito com o que vê e com o que não recebe dos políticos. Alguém cansado e decepcionado com governos, políticos e juízes, que quer uma mudança que o inclua, nem que seja em termos simbólicos. Flávio Bolsonaro provavelmente não contará com o consentimento de seus eleitores se fizer um governo de “vingança” e compadrio, sem qualidade técnica para entregar políticas de inclusão, de segurança, educacionais, ambientais, sem capacidade de interpretar o mundo que está aí, fora de nossas janelas. Isso quer dizer que o jogo está aberto.
Para a democracia brasileira, a eventual vitória de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro será um complicado teste. Se ela já está fragilizada, tenderá a ficar ainda mais exposta. Mas devemos pagar para ver o que ele fará. É provável que seja um governante fraco, sem muitas ideias e com um saco de maldades pronto para ser aberto. Poderá travar alguns programas, ameaçar a educação, deixar de financiar a cultura.de inclusão. Poderá não ser responsável com as contas públicas. Terá dificuldades com o Congresso Nacional (o Legislativo), mesmo que conte com maioria em ambas as Casas. Afinal, o Legislativo de hoje seguirá sendo o Legislativo de amanhã: um poder interessado em aprisionar e condicionar o Executivo, roubar-lhe recursos mediante emendas suspeitas.
Seja quem vencer o segundo turno, terá pela frente muitos desafios. Como administrará os gastos obrigatórios e a dívida pública? Poderá contar com o STF? Como posicionará o Brasil no contexto internacional e na “guerra” entre as grandes potências? Seguirá impulsionando as políticas compensatórias? Adotará com firmeza uma política de segurança que proteja de fato a população e combata o crime organizado? E quanto aos recursos estratégicos, aos minerais críticos e à proteção ambiental? Conseguirá obter consensos para atuar com firmeza nesses diferentes e explosivos terrenos?
Um cenário desse tipo, com tantos desafios e tanta confusão institucional, sugere uma governança mergulhada em crise sucessivas, em impasses procedimentais, pressionada pela indignação social e pela resistência patrimonialista e social, que poderá ser exacerbada pela ausência de propostas ou por uma atuação governamental destrambelhada.
O futuro próximo pode ser pensado como uma oportunidade. Poderá ajudar a que os democratas – liberais, socialistas, comunistas, libertários – reaprendam a dialogar, a agir de forma articulada e com um causa comum como guia. Não dá mais para tudo ser resolvido a partir de um confronto eterno entre lulismo e bolsonarismo, que foi, a rigor, um dos fatores causadores da devastação de 4 de outubro. Insistir nele, a partir de agora, será fazer o jogo dos antidemocratas.
Bolsonarismo e sociedade de massa
Os trancos e barrancos do comportamento dos seguidores do projeto bolsonarista despertam suposições as mais divergentes, quando não disparatadas, a respeito dos verdadeiros propósitos – ou falta deles – incrustrados no espírito do homem-massa.
A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.
No livro The Mass Psychology of Fascism, Wilhelm Reich assegura que a mentalidade fascista é a mentalidade do “homenzinho”: escravizado, anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde. Não é coincidência que todos os ditadores fascistas tenham surgido no meio reacionário do homenzinho.
A civilização mecanicista e despótica colhe do homenzinho humilhado apenas o que semeou nas massas de seres humanos subjugados, lançando o desgraçado nos caminhos do fascismo governado pelo automatismo psíquico. Essa “pequena burguesia” copiou muito bem o comportamento dos grandes da grande burguesia e o reproduz de forma distorcida e amplificada.
O fascismo sempre e em todo lugar se manifesta como um movimento apoiado pelas massas de homens, ele traz todos os traços e contradições da estrutura de caráter das massas de homens: não é, como geralmente se acredita, um movimento puramente reacionário, mas constitui um amálgama de emoções “rebeldes” e ideias sociais reacionárias.
O fascismo, em sua forma mais pura, é a soma de todas as reações irracionais do caráter humano médio. O sociólogo obtuso, que não tem coragem para reconhecer o papel predominante da irracionalidade na história da humanidade, vê a teoria fascista da raça apenas como um “preconceito”. A intensidade e a ampla difusão dos “preconceitos raciais” são prova de que eles estão enraizados na parte obscura do caráter humano.
Em palestra aos estudantes do Kenyon College, o escritor norte-americano David Foster Wallace começou sua exposição com um apólogo: “Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: ‘Bom dia, meninos. Como está a água?’ Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: ‘Água? Que diabos é isso?’”
Wallace explica: “O ponto central da história dos peixes ensina que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida… Os pensamentos e os sentimentos dos outros precisam achar um caminho para ser captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras ‘virtudes’. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração-padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser”.
Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em que vive. Por isso exerce seus desejos, medos e anseios em aras de agressividade contra os demais. Os Bolsonaro não têm empatia, suas personalidades exigem o confronto permanente com tudo e com todos. Com a cabeça no travesseiro eles sofrem as dores do sentimento de inferioridade cevado nos baixios de suas ignorâncias.
Em vez de comandar ações efetivas para contrabalançar os danos sociais e econômicos da pandemia, o presidente-homenzinho Bolsonaro dedicou-se a pressionar pela reabertura de fábricas, lojas e outras atividades, ignorando o risco de as mortes se avolumarem. Sua inumanidade se expressou na frase: “70% vão ser contaminados. Eles estão com medo”.
Vou relembrar que a alma do Senhor Cloroquina foi exposta em carne viva no episódio da demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta. O presidente do Brasil sentiu-se humilhado perante o protagonismo do ministro e diminuído diante da argumentação científica do seu auxiliar. O homenzinho-presidente (ou presidente-homenzinho?) apareceu horas depois da demissão exibindo uma estampa de Jesus Cristo.
O cristianismo dos Bolsonaro e de seus seguidores é o cristianismo utilitarista. Utilizar a imagem de Cristo para fazer propaganda política ou surrupiar grana dos que têm pouco é uma infâmia. Um insulto e um desrespeito aos princípios de amor e compaixão ensinados pelo filho de Maria aos homens filhos de Deus.
A leitura obsessiva de alguns autores irreverentes instigou minha resistência a oposições binárias. Isto ou aquilo? Prefiro a forma “isto e aquilo”. É a estratégia da loucura, o desvario finalista e inconsciente de um certo tipo de gente que deambula nos espaços sociais criados pela sociedade capitalista de massa.
No livro The Mass Psychology of Fascism, Wilhelm Reich assegura que a mentalidade fascista é a mentalidade do “homenzinho”: escravizado, anseia por autoridade e, ao mesmo tempo, é rebelde. Não é coincidência que todos os ditadores fascistas tenham surgido no meio reacionário do homenzinho.
A civilização mecanicista e despótica colhe do homenzinho humilhado apenas o que semeou nas massas de seres humanos subjugados, lançando o desgraçado nos caminhos do fascismo governado pelo automatismo psíquico. Essa “pequena burguesia” copiou muito bem o comportamento dos grandes da grande burguesia e o reproduz de forma distorcida e amplificada.
O fascismo sempre e em todo lugar se manifesta como um movimento apoiado pelas massas de homens, ele traz todos os traços e contradições da estrutura de caráter das massas de homens: não é, como geralmente se acredita, um movimento puramente reacionário, mas constitui um amálgama de emoções “rebeldes” e ideias sociais reacionárias.
O fascismo, em sua forma mais pura, é a soma de todas as reações irracionais do caráter humano médio. O sociólogo obtuso, que não tem coragem para reconhecer o papel predominante da irracionalidade na história da humanidade, vê a teoria fascista da raça apenas como um “preconceito”. A intensidade e a ampla difusão dos “preconceitos raciais” são prova de que eles estão enraizados na parte obscura do caráter humano.
Em palestra aos estudantes do Kenyon College, o escritor norte-americano David Foster Wallace começou sua exposição com um apólogo: “Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz: ‘Bom dia, meninos. Como está a água?’ Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta: ‘Água? Que diabos é isso?’”
Wallace explica: “O ponto central da história dos peixes ensina que a realidade mais óbvia, ubíqua e vital costuma ser a mais difícil de ser reconhecida… Os pensamentos e os sentimentos dos outros precisam achar um caminho para ser captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real. Não pensem que estou me preparando para fazer um sermão sobre compaixão, desprendimento ou outras ‘virtudes’. Essa não é uma questão de virtude – trata-se de optar por tentar alterar minha configuração-padrão original, impressa nos meus circuitos. Significa optar por me libertar desse egocentrismo profundo e literal que me faz ver e interpretar absolutamente tudo pelas lentes do meu ser”.
Essa camada de homenzinhos, como os peixinhos mergulhados em seu egocentrismo, não consegue reconhecer o ambiente social em que vive. Por isso exerce seus desejos, medos e anseios em aras de agressividade contra os demais. Os Bolsonaro não têm empatia, suas personalidades exigem o confronto permanente com tudo e com todos. Com a cabeça no travesseiro eles sofrem as dores do sentimento de inferioridade cevado nos baixios de suas ignorâncias.
Em vez de comandar ações efetivas para contrabalançar os danos sociais e econômicos da pandemia, o presidente-homenzinho Bolsonaro dedicou-se a pressionar pela reabertura de fábricas, lojas e outras atividades, ignorando o risco de as mortes se avolumarem. Sua inumanidade se expressou na frase: “70% vão ser contaminados. Eles estão com medo”.
Vou relembrar que a alma do Senhor Cloroquina foi exposta em carne viva no episódio da demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta. O presidente do Brasil sentiu-se humilhado perante o protagonismo do ministro e diminuído diante da argumentação científica do seu auxiliar. O homenzinho-presidente (ou presidente-homenzinho?) apareceu horas depois da demissão exibindo uma estampa de Jesus Cristo.
O cristianismo dos Bolsonaro e de seus seguidores é o cristianismo utilitarista. Utilizar a imagem de Cristo para fazer propaganda política ou surrupiar grana dos que têm pouco é uma infâmia. Um insulto e um desrespeito aos princípios de amor e compaixão ensinados pelo filho de Maria aos homens filhos de Deus.
A urna não autoriza o arbítrio
Cedo este espaço ao jurista Celso de Mello, que foi ministro do Supremo Tribunal Federal de 1989 a 2020, tendo sido presidente do tribunal de 1997 a 1999 e decano (membro mais antigo) a partir de 2007. Ricardo Noblat
“Há momentos em que o horizonte político se torna sombrio, e os resultados eleitorais, embora devam ser respeitados como expressão da vontade popular, parecem anunciar tempos procelosos para a democracia e para as liberdades.
Assusta pensar que as próprias urnas possam conferir força a projetos que venham a comprometer as garantias que tornam possível o exercício livre do voto.A vitória eleitoral, por expressiva que seja, não constitui autorização para o arbítrio.
Nenhuma maioria é senhora da Constituição, nenhuma liderança pode apropriar-se do Estado, e nenhum governante tem o direito de converter os direitos fundamentais em concessões pessoais.
A democracia impõe limites ao poder, respeito às minorias e instituições capazes de resistir às tentações autoritárias.
Sob perspectiva eminentemente democrática, sinto essa profunda inquietação. Ela nos impõe, contudo, o dever de permanecer vigilantes, pois a erosão das liberdades pode começar sob a aparência da normalidade institucional.
Há conquistas civilizatórias cuja defesa não admite cansaço nem silêncio: a dignidade humana, a liberdade e o direito de viver sem medo do poder.
Em todo esse contexto, o papel do jornalista cresce ainda mais de importância, na medida em que sua voz em defesa da Constituição terá significativa projeção no âmbito social.
Ruy Barbosa, em “A imprensa e o dever da verdade”, proclamou que “a imprensa é a vista da Nação”. Sem ela, a sociedade viveria no escuro! Essa imagem traduz uma elevada responsabilidade cívica: permitir que a sociedade reconheça os perigos que a ameaçam, perceba os abusos do poder e compreenda o valor das liberdades.
É também nessa perspectiva que vejo a missão do jornalista: a de velar pela Constituição, esclarecendo consciências e denunciando, com independência, rigor e coragem, as iniciativas que possam comprometer a integridade da ordem democrática.
Em tempos de inquietação, a voz do jornalista pode impedir que o arbítrio se banalize, que a intolerância se torne hábito e que a sociedade se acostume à perda de suas próprias garantias.
Defender a Constituição é preservar o espaço em que todos, inclusive os que divergem de nós, possam viver e manifestar-se em liberdade.
A atuação do jornalista terá, por isso, o significado de um serviço precioso prestado à República: lembrar que nenhum triunfo eleitoral dispensa o respeito aos limites do poder e que nenhuma maioria pode dispor da liberdade de todos.
Há momentos na vida dos povos em que a palavra pública adquire uma responsabilidade extraordinária. Quando a inquietação se dissemina, as certezas se desfazem e o debate se converte em território de hostilidades, o jornalista assume uma missão de particular relevo: oferecer à sociedade os elementos necessários para compreender os acontecimentos, discernir a realidade e exercer, com liberdade, o próprio juízo. Sua voz pode iluminar aquilo que o medo obscurece e revelar aquilo que o poder deseja ocultar.
Essa responsabilidade exige independência, coragem e rigor. A urgência da notícia não dispensa a apuração; a gravidade da suspeita não autoriza convertê-la em certeza; a intensidade das paixões coletivas não exonera ninguém do dever de verificar.
Em tempos de inquietação, o compromisso com a verdade dos fatos torna-se ainda mais necessário, porque a mentira encontra, na ansiedade e no ressentimento, condições propícias à sua propagação.
Cabe ao jornalista resistir à sedução do espetáculo e à facilidade das conclusões antecipadas.
A independência jornalística tampouco se confunde com indiferença diante da opressão. É possível — e necessário — observar os deveres de exatidão, ouvir os envolvidos e respeitar a diversidade de opiniões, sem conceder à falsidade a mesma autoridade dos fatos ou tratar a violência como simples expressão de uma preferência política.
O pluralismo reclama abertura ao dissenso, mas não exige abdicação da consciência crítica. Uma imprensa livre deve saber reconhecer quando a disputa de ideias passa a ameaçar as próprias condições que tornam possível o debate.
Ao fiscalizar o poder, investigar abusos e dar visibilidade aos que não dispõem de meios para fazer ouvir a própria voz, o jornalista amplia o espaço da cidadania. Nenhuma autoridade deve considerar-se imune ao escrutínio público, assim como nenhuma acusação deve escapar ao exame responsável de seus fundamentos. A credibilidade da imprensa nasce dessa dupla fidelidade: a firmeza perante os poderosos e a honestidade perante os fatos.
Há, ainda, uma dimensão humana nesse ofício. Por trás das crises, dos conflitos e das estatísticas, existem pessoas concretas, atingidas em sua dignidade, em seus direitos e em suas esperanças. O bom jornalismo restitui rosto e história àqueles que a linguagem abstrata do poder frequentemente reduz a números. E, ao preservar a memória dos acontecimentos, impede que o sofrimento seja apagado e que os erros do passado retornem sob a proteção do esquecimento.
Em tempos de inquietação, informar é também ajudar a sociedade a recuperar a capacidade de pensar. Isso pressupõe contextualizar, distinguir o essencial do acessório e recusar tanto o alarmismo quanto a complacência.
O jornalista não precisa oferecer certezas que os fatos ainda não permitem; precisa ter a integridade de reconhecer o que sabe, o que permanece obscuro e o que ainda exige investigação.
A palavra jornalística alcança sua mais alta dignidade quando permite ao cidadão compreender e decidir por si mesmo. Quando a inquietação ameaça obscurecer a razão pública, a imprensa livre tem o dever de manter acesa a luz dos fatos”.
Após 5 governadores presos, Rio terá governador investigado antes da posse
A confirmação da vitória de Douglas Ruas (PL) em primeiro turno, a ser declarada pelo Tribunal Superior Eleitoral, lança o Rio de Janeiro numa situação inédita.
Depois de ter cinco ex-governadores presos, o estado terá um novo governador investigado antes mesmo de tomar posse.
Ruas é alvo de um procedimento que apura a suposta prática de crimes licitatórios, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A investigação foi aberta em 17 de julho pelo procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, como noticiou o colunista Lauro Jardim. O caso tramita em sigilo no Tribunal de Justiça, sob relatoria do desembargador Carlos Santos de Oliveira.
O procedimento foi aberto para apurar suspeitas de conflito de interesses e enriquecimento ilícito em negócios que envolvem o governo Cláudio Castro Prefeitura de São Gonçalo, chefiada por Capitão Nelson (PL), pai do governador eleito.
Ao G1, Ruas negou irregularidades e disse que o MP já arquivou outra investigação "porque verificou se tratar de fatos inverídicos". "E tenho certeza de que esse outro procedimento aberto terá o mesmo desfecho", defendeu-se.
"Em breve será arquivado porque vai se chegar à conclusão de que se trata de mentiras e ataques da velha política a minha candidatura a governador”, acrescentou.
Ao ser diplomado governador, Ruas passará a ter foro privilegiado. Isso significa que a investigação deverá ser deslocada do Tribunal de Justiça, no Rio, para o Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.
Depois de ter cinco ex-governadores presos, o estado terá um novo governador investigado antes mesmo de tomar posse.
Ruas é alvo de um procedimento que apura a suposta prática de crimes licitatórios, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A investigação foi aberta em 17 de julho pelo procurador-geral de Justiça, Antonio José Campos Moreira, como noticiou o colunista Lauro Jardim. O caso tramita em sigilo no Tribunal de Justiça, sob relatoria do desembargador Carlos Santos de Oliveira.
O procedimento foi aberto para apurar suspeitas de conflito de interesses e enriquecimento ilícito em negócios que envolvem o governo Cláudio Castro Prefeitura de São Gonçalo, chefiada por Capitão Nelson (PL), pai do governador eleito.
Ao G1, Ruas negou irregularidades e disse que o MP já arquivou outra investigação "porque verificou se tratar de fatos inverídicos". "E tenho certeza de que esse outro procedimento aberto terá o mesmo desfecho", defendeu-se.
"Em breve será arquivado porque vai se chegar à conclusão de que se trata de mentiras e ataques da velha política a minha candidatura a governador”, acrescentou.
Ao ser diplomado governador, Ruas passará a ter foro privilegiado. Isso significa que a investigação deverá ser deslocada do Tribunal de Justiça, no Rio, para o Superior Tribunal de Justiça, em Brasília.
Rachados ao meio
Vamos conversar? Trocar abraços, confidenciar sonhos, ativar a esperança? Penso em você, meu amigo que mora em Portugal e se preocupa comigo. Como estará recebendo as notícias que chegam daqui?
Apesar da Primavera, os dias andam sombrios e vão se arrastar até o dia 25. Mas a fé move montanhas, como dizem, e não podemos abrir mão dela. Andamos cansados da realidade, que nos mostra um mundo quase todo tomado pela direita, a pior delas, nos contamina com a lentidão da Justiça, que mantém impunes tantos criminosos, e adota como mote o “quanto pior, melhor”.
O capital ainda financia nosso futuro, comprando votos e lançando candidatos criados só para confundir. Nestes tempos líquidos, falta-nos discernimento para separar o joio do trigo, falta informação confiável, falta isenção da mídia. O que esperar agora da eleição do presidente do país?
Abutres sobrevoam nossas cabeças, enquanto lutamos por reverter os efeitos da ignorância e da crendice. Enquanto isso, o país da águia contabiliza lucros, caso a direita chegue ao Executivo. Somos Davi diante de Golias, desejando que a lenda se torne verdade. Somos o amor, diante da paixão. Esta é sempre tentadora, mas nada garante, além de ilusão.
O abismo é logo ali e muitos já entregaram os pontos, admitindo a derrota. Outros, como nós, mal dormem, mal comem, pedindo iluminação aos deuses para estratégias bem-sucedidas que nos devolvam a paz. Na luta contra a barbárie, é vencer ou vencer. Não só por nós, mas também pelos que, equivocados, votaram na direita até aqui, abrindo mão de tantos direitos conquistados, mas podem mudar a escolha e restaurar a cidadania.
Há muito andamos rachados ao meio, esquecendo aquela máxima dos conquistadores: dividir para enfraquecer. E insistimos nessa guerra fratricida, colocando em risco a Nação, nossas riquezas, o papel que representamos no mundo, nossa potência por vezes ignorada pelos próprios brasileiros.
É, temos muito que conversar.
Apesar da Primavera, os dias andam sombrios e vão se arrastar até o dia 25. Mas a fé move montanhas, como dizem, e não podemos abrir mão dela. Andamos cansados da realidade, que nos mostra um mundo quase todo tomado pela direita, a pior delas, nos contamina com a lentidão da Justiça, que mantém impunes tantos criminosos, e adota como mote o “quanto pior, melhor”.
O capital ainda financia nosso futuro, comprando votos e lançando candidatos criados só para confundir. Nestes tempos líquidos, falta-nos discernimento para separar o joio do trigo, falta informação confiável, falta isenção da mídia. O que esperar agora da eleição do presidente do país?
Abutres sobrevoam nossas cabeças, enquanto lutamos por reverter os efeitos da ignorância e da crendice. Enquanto isso, o país da águia contabiliza lucros, caso a direita chegue ao Executivo. Somos Davi diante de Golias, desejando que a lenda se torne verdade. Somos o amor, diante da paixão. Esta é sempre tentadora, mas nada garante, além de ilusão.
O abismo é logo ali e muitos já entregaram os pontos, admitindo a derrota. Outros, como nós, mal dormem, mal comem, pedindo iluminação aos deuses para estratégias bem-sucedidas que nos devolvam a paz. Na luta contra a barbárie, é vencer ou vencer. Não só por nós, mas também pelos que, equivocados, votaram na direita até aqui, abrindo mão de tantos direitos conquistados, mas podem mudar a escolha e restaurar a cidadania.
Há muito andamos rachados ao meio, esquecendo aquela máxima dos conquistadores: dividir para enfraquecer. E insistimos nessa guerra fratricida, colocando em risco a Nação, nossas riquezas, o papel que representamos no mundo, nossa potência por vezes ignorada pelos próprios brasileiros.
É, temos muito que conversar.
Bolsonarismo 'moderado'? O que mudou de Jair para Flávio
Flávio Bolsonaro (PL), ao lado do pai, Jair Bolsonaro, pilota um avião militar que sobrevoa o oceano, em um vídeo de inteligência artificial (IA) divulgado em junho nas redes sociais bolsonaristas. Nele, duas lanchas militares – uma do PCC e outra do Comando Vermelho – aparecem sobre as águas. Flávio sai do cockpit e, com uma metralhadora, explode ambas as embarcações. Mas há uma terceira, logo atrás: a do PT, que dá meia-volta e foge pelo mar, enquanto o candidato do PL observa, com um sorriso no rosto.
Para o herdeiro de um líder político que afirmou, na campanha de 2018, que iria "fuzilar a petralhada", a atitude de poupar, seis anos depois, o barco do principal adversário do bolsonarismo parece indicar uma modulação no discurso do primeiro colocado no primeiro turno das eleições presidenciais deste ano. E não a única: militares e o golpe de 1964, tão presentes nas falas de Jair, também estão ausentes nas falas de Flávio.
"Eu já vi gente começar a dizer: 'Ah, agora, o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez'. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real", disse nessa segunda-feira o filho do ex-presidente, que está em prisão domiciliar após ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A fala ocorreu numa coletiva junto a partidos aliados no dia seguinte ao resultado do primeiro turno e das eleições legislativas, que garantiram superioridade do PL tanto na Câmara quanto no Senado, além da vantagem de Flávio sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No pronunciamento, o filho de Jair explicava o que queria dizer sobre "mudar a Constituição" – o que, segundo ele, ocorreria, entre outros, com alterações no STF, fim da reeleição e consequente extensão dos mandatos de quatro para cinco anos. Vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB) comparou a mudança na Carta Magna ao que a ditadura militar fez após o golpe, ao impor uma Constituição "totalmente autoritária".
"O Flávio sempre foi aquele representante da família com a fala mais mansa. Ele tem esse perfil de político mais conciliatório que dialoga, mas na essência compartilha das mesmas visões e das ideias dos pais e do restante da família", diz Caio Barbosa, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP).
Segundo ele, o senador tem se afastado de discursos mais radicalizados do pai por estratégia de campanha: ao se apresentar mais como uma alternativa ao PT do que uma continuidade do governo do pai, ele apela ao antipetismo de parte eleitorado, diz Barbosa.
"Mas, na essência não dá para esperar um governo menos radical, menos extremista que o governo do pai", acrescenta o pesquisador. "Na verdade, o que nos vemos na ciência política é que esses populistas de direita tendem a se radicalizar a partir do segundo mandato. Uma vez referendados pelas urnas, colocam o projeto autoritário em vigor. Vimos isso com o Viktor Orbán na Hungria e estamos vendo com Donald Trump nos EUA, que no segundo mandato veio mais autoritário. É o que podemos esperar."
Uma mudança geracional parecida também ocorreu na França, na família Le Pen, principal bastião da ultradireita no país. Por lá, Marine Le Pen expulsou da Frente Nacional (hoje Reunião Nacional) o pai, Jean-Marie Le Pen, por causa de declarações antissemitas dele.
Logicamente, Flávio não vai tão longe, pois precisa de grande parte dos votos do pai, ao menos por enquanto. De acordo com Caio Barbosa, esse eleitor "bolsonarista raiz", que inclusive apoia as tentativas de golpe de 8 de janeiro, representa cerca de um terço do total. "Mas você não ganha a eleição com esse número. Tem que atrair aquele que é independente, sem adesão fiel a um dos campos políticos, embora mais à direita", diz o cientista político. A questão, acrescenta ele, é que os riscos antidemocráticos não estão no radar dessa parcela da população.
Mas, aí, também há outro mecanismo discursivo em ação, a "negação" ("disavowal", em inglês), aponta o cientista político Renato Duarte Caetano, pesquisador de pós-doutorado vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) com base na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essa estratégia, diz ele, ocorre quando, por exemplo, Flávio não só nega flertes autoritários como transfere essa responsabilidade para o campo político oposto. "Ele vai falar que é contra a ditadura e jogá-la para o PT, falar que a ditadura é do PT. Isso funciona para inverter o discurso, projetando a violência e intolerância para o outro", complementa.
Ele atribui parte disso ao fato de que Jair Bolsonaro, assim como Trump, consegue jogar com a paródia, o que fazia com que, no seu discurso, "fuzilar a petralhada" prejudicasse menos a própria imagem. Flávio, por sua vez, é menos carismático; logo, precisa moderar mais, explica o pesquisador da UFMG.
"O [Jair] Bolsonaro era capaz de complementar essa violência dele com uma dimensão do ridículo. Assim, o eleitor conseguia acreditar no autoritarismo dele, mas, ao mesmo tempo, duvidar. Ele pensava: 'Ele tem essas coisas autoritárias, mas é o tio do pavê'", diz. "Como o Flávio não tem essa dimensão da paródia, qualquer alusão à violência feita por ele vai empurrar para longe o eleitor médio. Ele não é capaz de contrabalancear isso. O discurso do tio do pavê, que é brutal, é levado de uma forma diferente, porque ele é o tio do pavê."
Caetano afirma que essa estratégia vem sendo usada também pelo partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Líder do partido, Alice Weidel fez um vídeo assinando a revista Der Spiegel cuja capa a colocava como "inimiga da Constituição" e chamando a edição de "melhor propaganda eleitoral possível".
Mas, em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, Caetano e Barbosa concordam: não deverá haver moderação na tentativa de corroer as instituições democráticas. "Talvez seja pior. A diferença é que agora eles têm experiência de governo. Pode ser um governo muito mais brutal do ponto de vista institucional, do desmonte. Como tem sido o de Trump", conclui Caetano.
Para o herdeiro de um líder político que afirmou, na campanha de 2018, que iria "fuzilar a petralhada", a atitude de poupar, seis anos depois, o barco do principal adversário do bolsonarismo parece indicar uma modulação no discurso do primeiro colocado no primeiro turno das eleições presidenciais deste ano. E não a única: militares e o golpe de 1964, tão presentes nas falas de Jair, também estão ausentes nas falas de Flávio.
"Eu já vi gente começar a dizer: 'Ah, agora, o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez'. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real", disse nessa segunda-feira o filho do ex-presidente, que está em prisão domiciliar após ter sido condenado por tentativa de golpe de Estado pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
A fala ocorreu numa coletiva junto a partidos aliados no dia seguinte ao resultado do primeiro turno e das eleições legislativas, que garantiram superioridade do PL tanto na Câmara quanto no Senado, além da vantagem de Flávio sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
No pronunciamento, o filho de Jair explicava o que queria dizer sobre "mudar a Constituição" – o que, segundo ele, ocorreria, entre outros, com alterações no STF, fim da reeleição e consequente extensão dos mandatos de quatro para cinco anos. Vice de Lula, Geraldo Alckmin (PSB) comparou a mudança na Carta Magna ao que a ditadura militar fez após o golpe, ao impor uma Constituição "totalmente autoritária".
"O Flávio sempre foi aquele representante da família com a fala mais mansa. Ele tem esse perfil de político mais conciliatório que dialoga, mas na essência compartilha das mesmas visões e das ideias dos pais e do restante da família", diz Caio Barbosa, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP).
Segundo ele, o senador tem se afastado de discursos mais radicalizados do pai por estratégia de campanha: ao se apresentar mais como uma alternativa ao PT do que uma continuidade do governo do pai, ele apela ao antipetismo de parte eleitorado, diz Barbosa.
"Mas, na essência não dá para esperar um governo menos radical, menos extremista que o governo do pai", acrescenta o pesquisador. "Na verdade, o que nos vemos na ciência política é que esses populistas de direita tendem a se radicalizar a partir do segundo mandato. Uma vez referendados pelas urnas, colocam o projeto autoritário em vigor. Vimos isso com o Viktor Orbán na Hungria e estamos vendo com Donald Trump nos EUA, que no segundo mandato veio mais autoritário. É o que podemos esperar."
Uma mudança geracional parecida também ocorreu na França, na família Le Pen, principal bastião da ultradireita no país. Por lá, Marine Le Pen expulsou da Frente Nacional (hoje Reunião Nacional) o pai, Jean-Marie Le Pen, por causa de declarações antissemitas dele.
Logicamente, Flávio não vai tão longe, pois precisa de grande parte dos votos do pai, ao menos por enquanto. De acordo com Caio Barbosa, esse eleitor "bolsonarista raiz", que inclusive apoia as tentativas de golpe de 8 de janeiro, representa cerca de um terço do total. "Mas você não ganha a eleição com esse número. Tem que atrair aquele que é independente, sem adesão fiel a um dos campos políticos, embora mais à direita", diz o cientista político. A questão, acrescenta ele, é que os riscos antidemocráticos não estão no radar dessa parcela da população.
Mas, aí, também há outro mecanismo discursivo em ação, a "negação" ("disavowal", em inglês), aponta o cientista político Renato Duarte Caetano, pesquisador de pós-doutorado vinculado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD) com base na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Essa estratégia, diz ele, ocorre quando, por exemplo, Flávio não só nega flertes autoritários como transfere essa responsabilidade para o campo político oposto. "Ele vai falar que é contra a ditadura e jogá-la para o PT, falar que a ditadura é do PT. Isso funciona para inverter o discurso, projetando a violência e intolerância para o outro", complementa.
Ele atribui parte disso ao fato de que Jair Bolsonaro, assim como Trump, consegue jogar com a paródia, o que fazia com que, no seu discurso, "fuzilar a petralhada" prejudicasse menos a própria imagem. Flávio, por sua vez, é menos carismático; logo, precisa moderar mais, explica o pesquisador da UFMG.
"O [Jair] Bolsonaro era capaz de complementar essa violência dele com uma dimensão do ridículo. Assim, o eleitor conseguia acreditar no autoritarismo dele, mas, ao mesmo tempo, duvidar. Ele pensava: 'Ele tem essas coisas autoritárias, mas é o tio do pavê'", diz. "Como o Flávio não tem essa dimensão da paródia, qualquer alusão à violência feita por ele vai empurrar para longe o eleitor médio. Ele não é capaz de contrabalancear isso. O discurso do tio do pavê, que é brutal, é levado de uma forma diferente, porque ele é o tio do pavê."
Caetano afirma que essa estratégia vem sendo usada também pelo partido ultradireitista Alternativa para a Alemanha (AfD). Líder do partido, Alice Weidel fez um vídeo assinando a revista Der Spiegel cuja capa a colocava como "inimiga da Constituição" e chamando a edição de "melhor propaganda eleitoral possível".
Mas, em um eventual governo de Flávio Bolsonaro, Caetano e Barbosa concordam: não deverá haver moderação na tentativa de corroer as instituições democráticas. "Talvez seja pior. A diferença é que agora eles têm experiência de governo. Pode ser um governo muito mais brutal do ponto de vista institucional, do desmonte. Como tem sido o de Trump", conclui Caetano.
Fim de época
O resultado da eleição de 4 de outubro não foi uma surpresa. Ele já se anunciava há tempos, desde a eleição do candidato do PT à Presidência em 2002. Fernando Henrique Cardoso, então presidente em segundo mandato, não disfarçou sua enorme e genuína emoção no momento da passagem da faixa presidencial a Lula.
FHC era, provavelmente, o único brasileiro a compreender o significado politicamente revolucionário da eleição de um operário como presidente.
Num texto de 1977 sobre “O Estado na América Latina”, ele chamara a atenção para o fato de que o Brasil era o único país latino-americano a não se ter tornado independente por meio de uma revolução. O próprio Estado português fizera a independência do Brasil na proclamação feita em 7 de setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da Coroa. Não temos sido, portanto, um povo de protagonistas de nossa soberania nem do nosso destino.
O resultado desta eleição, de vários modos, expressa essa tradição, em que o próprio povo com facilidade pode ser manipulado para satisfazer ambições de poder de terceiros que são ambições de riqueza pessoal e de família. No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos, política e moralmente anômalos, mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem.
Fernando Henrique Cardoso, homem democrático e de esquerda, porém, compreendia claramente que a eleição de Lula quebrava a tradição da ausência do povo na política.
A eleição mostrou que o PT e os petistas compreenderam mal o processo político brasileiro e nossa realidade social. E compreenderam mal seu próprio protagonismo político.
Bastava ter observado as mudanças sociais, laborais e políticas na própria região de origem do PT, a região do chamado ABC, em São Paulo. A ascensão do PT coincidiu com o fato de que seis dos sete municípios da chamada região industrial tornaram-se petistas. Hoje, apenas um o é.
Os municípios em que estava instalada a chamada grande indústria, tecnologicamente mais desenvolvida e pagadora de grandes salários pelo trabalho altamente qualificado que empregava, criou uma classe operária rica.
O ABC tornou-se uma região de classe média, identificada com o ideal de ascensão social. Manifestações de racismo e nazismo surgiram na geração dos filhos dos operários que ouviam e aplaudiam os discursos de Lula no Estádio da Vila Euclides.
O cineasta Carlos Reichenbach lançou em 2003 o filme “Garotas do ABC”, inspirado em fatos reais, rodado numa tecelagem desativada, que mostra essa metamorfose social radical, a guinada para a direita. As classes sociais não são estruturas rígidas e estamentais fixas.
A eficácia política da classe operária persiste enquanto existem fatores e memória das lutas sociais, que são lutas de crítica e, no fundo, de aperfeiçoamento do capitalismo. Isso não elimina as contradições sociais que alimentam uma visão de esquerda do mundo.
O mundo do trabalhador não é um mundo de necessidades econômicas, simplesmente. Lula encampou uma visão economicista da realidade operária, a dos militantes, embora ele próprio intuísse e bem que o mundo operário não é só isso nem principalmente isso.
Há bem mais de cem anos, o capitalismo transformou o trabalho numa realidade nova, a do trabalho social e abstrato, criador de riqueza capitalista e não apenas de lucros. O capitalismo do mero lucro é o capitalismo do prejuízo. Lula é filho do novo proletariado, o do sindicalismo da mesa de negociação.
A reestruturação produtiva transformou o próprio trabalho. Se Lula quisesse voltar para a indústria, descobriria que sua profissão não existe mais. Computadores e máquinas fazem o mesmo trabalho e melhor.
Os fatores da consciência social de reivindicação do reconhecimento de direitos não terminou por isso. São outros. Ter filé-mignon à mesa no almoço e no jantar não significa que a classe trabalhadora foi saciada.
Hoje os trabalhadores na roça e na cidade têm necessidades de que nem mesmo são conscientes. São mais amplos e em maior número. Henri Lefebvre e Agnes Heller assinalam que surgiram o que chamam de necessidades radicais, as que só podem ser saciadas com transformações sociais.
As esquerdas, nesse cenário, são cogestoras do neocapitalismo da nova concepção de trabalho. A vitória da direita na eleição de 4 de outubro não significa nem derrota nem fim das esquerdas. A direita acaba de se transformar em vidraça em face do que ela própria produziu com suas anomalias ideológicas. Está devolvendo às esquerdas a função política de pedra de bodoque das pressões e reivindicações sociais: esquerdas desafiadas a retornar aos movimentos sociais e a redefinir sua relação com o Estado.
FHC era, provavelmente, o único brasileiro a compreender o significado politicamente revolucionário da eleição de um operário como presidente.
Num texto de 1977 sobre “O Estado na América Latina”, ele chamara a atenção para o fato de que o Brasil era o único país latino-americano a não se ter tornado independente por meio de uma revolução. O próprio Estado português fizera a independência do Brasil na proclamação feita em 7 de setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da Coroa. Não temos sido, portanto, um povo de protagonistas de nossa soberania nem do nosso destino.
O resultado desta eleição, de vários modos, expressa essa tradição, em que o próprio povo com facilidade pode ser manipulado para satisfazer ambições de poder de terceiros que são ambições de riqueza pessoal e de família. No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos, política e moralmente anômalos, mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem.
Fernando Henrique Cardoso, homem democrático e de esquerda, porém, compreendia claramente que a eleição de Lula quebrava a tradição da ausência do povo na política.
A eleição mostrou que o PT e os petistas compreenderam mal o processo político brasileiro e nossa realidade social. E compreenderam mal seu próprio protagonismo político.
Bastava ter observado as mudanças sociais, laborais e políticas na própria região de origem do PT, a região do chamado ABC, em São Paulo. A ascensão do PT coincidiu com o fato de que seis dos sete municípios da chamada região industrial tornaram-se petistas. Hoje, apenas um o é.
Os municípios em que estava instalada a chamada grande indústria, tecnologicamente mais desenvolvida e pagadora de grandes salários pelo trabalho altamente qualificado que empregava, criou uma classe operária rica.
O ABC tornou-se uma região de classe média, identificada com o ideal de ascensão social. Manifestações de racismo e nazismo surgiram na geração dos filhos dos operários que ouviam e aplaudiam os discursos de Lula no Estádio da Vila Euclides.
O cineasta Carlos Reichenbach lançou em 2003 o filme “Garotas do ABC”, inspirado em fatos reais, rodado numa tecelagem desativada, que mostra essa metamorfose social radical, a guinada para a direita. As classes sociais não são estruturas rígidas e estamentais fixas.
A eficácia política da classe operária persiste enquanto existem fatores e memória das lutas sociais, que são lutas de crítica e, no fundo, de aperfeiçoamento do capitalismo. Isso não elimina as contradições sociais que alimentam uma visão de esquerda do mundo.
O mundo do trabalhador não é um mundo de necessidades econômicas, simplesmente. Lula encampou uma visão economicista da realidade operária, a dos militantes, embora ele próprio intuísse e bem que o mundo operário não é só isso nem principalmente isso.
Há bem mais de cem anos, o capitalismo transformou o trabalho numa realidade nova, a do trabalho social e abstrato, criador de riqueza capitalista e não apenas de lucros. O capitalismo do mero lucro é o capitalismo do prejuízo. Lula é filho do novo proletariado, o do sindicalismo da mesa de negociação.
A reestruturação produtiva transformou o próprio trabalho. Se Lula quisesse voltar para a indústria, descobriria que sua profissão não existe mais. Computadores e máquinas fazem o mesmo trabalho e melhor.
Os fatores da consciência social de reivindicação do reconhecimento de direitos não terminou por isso. São outros. Ter filé-mignon à mesa no almoço e no jantar não significa que a classe trabalhadora foi saciada.
Hoje os trabalhadores na roça e na cidade têm necessidades de que nem mesmo são conscientes. São mais amplos e em maior número. Henri Lefebvre e Agnes Heller assinalam que surgiram o que chamam de necessidades radicais, as que só podem ser saciadas com transformações sociais.
As esquerdas, nesse cenário, são cogestoras do neocapitalismo da nova concepção de trabalho. A vitória da direita na eleição de 4 de outubro não significa nem derrota nem fim das esquerdas. A direita acaba de se transformar em vidraça em face do que ela própria produziu com suas anomalias ideológicas. Está devolvendo às esquerdas a função política de pedra de bodoque das pressões e reivindicações sociais: esquerdas desafiadas a retornar aos movimentos sociais e a redefinir sua relação com o Estado.
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