quinta-feira, 19 de dezembro de 2024
Politicamente incorreto
Numa de suas viagens imaginárias Gulliver visita a Academia de Lagado; nela várias experiências eram feitas para se encontrar a felicidade plena. Os sábios, convictos de suas certezas, tinham abolido a linguagem. Cansados dos equívocos que as palavras encerram – apenas travestiam a realidade –, resolveram comunicar-se através dos objetos a que se referiam. Andavam com sacos e carroças repleto de coisas e, ao serem interpelados, as mostravam para dizer exatamente aquilo que desejavam exprimir. Entretanto, dizem os linguistas, mesmo se fosse possível reunir em único lugar um número expressivo de baleias, seria impossível dizer “todas as baleias”. O significado de “todas” transcende a materialidade empírica daquilo que denota. Há uma longa história do devaneio da língua perfeita, idioma do Paraíso (Umberto Eco se dedicou a decifrá-la); sua estrutura celestial seria capaz de apreender o mundo com justeza e precisão, entre as palavras e as coisas não existiria o hiato da inexatidão. A cada objeto ou ideia haveria um único termo para denominá-los; assim, qualquer ambiguidade de sentido seria eliminada.
Porém, a língua é uma representação, ela não se esgota na mensagem que enuncia. O politicamente correto acredita que os termos de um idioma contêm a essência daquilo a que se refere, entre as palavras e o mundo haveria uma conjunção harmônica e íntegra. Assim, dizer algo errado é equivocar-se em relação à essência, a correção é necessária para ajustar o desvio pressuposto entre linguagem e realidade. O “cancelamento” decorre desta intenção: isolar o verdadeiro do falso.
Nada há de novo nisso, existem vários exemplos de disciplinarização da língua; é o caso da Revolução Francesa. Os revolucionários procuraram extirpar todos os traços da tradição cristã da vida francesa, a reforma do calendário gregoriano tinha justamente esse objetivo. Os doze meses do ano foram rebatizados (Brumário, mês das brumas; Nivoso, da neve; Pluvioso, das chuvas; Florial, das flores; etc.), os dias da semana redefinidos (primidi, duodi, tridi, quartidi, etc.) e não mais seriam dedicados a nomes de santos (foram trocados por elementos da terra: açafrão, uva, castanha, etc.). Algumas palavras foram também banidas do vocabulário quotidiano, “senhor” e “senhora” sendo substituídos por “cidadão”, manifestação do espírito de igualdade entre as pessoas. Entretanto, o “terror linguístico” (assim foi denominado na época) tinha uma amplitude maior, a emergência do Estado-nação republicano exigia a manifestação da unicidade da língua; os vários dialetos existentes no país foram, portanto, censurados e perseguidos, todos deveriam se expressar em um único idioma: o francês. Afirmava-se a totalidade da nação para se contrapor ao diverso que a ameaçava; como no mito de Babel, a diversidade era uma maldição. No caso do politicamente correto tem-se algo irônico: o ideal da diversidade exige o controle da língua, porém, o diverso é o fundamento da homogeneidade almejada.
Jakobson dizia que uma língua se define pelo que pode e não pelo que permite ou deve dizer, por isso nenhum idioma é superior ou inferior aos outros (muito se escreveu sobre a superioridade do inglês, ele seria capaz de expressar coisas que outras línguas desconheceriam). Na verdade, os idiomas representam o mundo à sua maneira, cada um deles contém uma verdade na qual a linguagem se assenta. Entretanto, toda língua se realiza em contexto (essa é a diferença entre linguagem e língua); nela, o significado das palavras se transforma e se desdiz. A entonação da voz, indicando suavidade ou rispidez, a ironia, a expressão facial de quem fala, constituem elementos que modificam o sentido expresso do que é dito. O contexto é a situação na qual as palavras (diz-se que uma frase foi retirada de contexto) ou os indivíduos se encontram. A linguagem, enquanto estrutura, não garante imediatamente a inteligibilidade da fala (ou da escrita), é necessário que ela se insira numa determinada rede de interação social. A mesma coisa dita em lugares distintos, com entonação distinta, tem significado diferente. Imaginar a existência de um manual da utilização correta das palavras, reduzindo-as a um determinismo militante, é uma quimera. O contexto é história e a história é um destino coletivo, não o monopólio da definição das boas intenções. A riqueza de uma língua exprime-se na multiplicidade de sentidos que ela possibilita dizer, a ternura ou o ódio, a frustração ou a tristeza, a dominação ou a liberdade.
Sempre me intrigou a obra de Botero, com suas gordas e gordos. Não entendia sua intuição estética até visitar o museu de Medellin. Nele existem várias esculturas, mulheres gordas, padres gordos, gatos gordos, burgueses gordos, mesas e cadeiras com bordas arredondadas, vasos redondos, etc. Percebe-se que seu interesse é pelas curvas, o volume das coisas, enfim, aquilo que é esférico, roliço. O universo de Botero é sem arestas, tudo está sinteticamente integrado na sinuosidade das formas. Diante das agruras do real, das contradições, da amargura, o artista imagina uma configuração de elementos que idealmente contrasta sua aspereza. Porém, como todo artista, ele sabe que sua ficção é distinta daquilo que o cerca, o real é ponto de partida para sua imaginação. O politicamente correto padece da tentação do Bem e de uma certa ilusão de ótica, aspira a um mundo no qual a sombra dos objetos se projeta sobre sua própria essência. Suprime-se, assim, o hiato entre a verdade e a dúvida, ser e estar.
Renato Ortiz
Porém, a língua é uma representação, ela não se esgota na mensagem que enuncia. O politicamente correto acredita que os termos de um idioma contêm a essência daquilo a que se refere, entre as palavras e o mundo haveria uma conjunção harmônica e íntegra. Assim, dizer algo errado é equivocar-se em relação à essência, a correção é necessária para ajustar o desvio pressuposto entre linguagem e realidade. O “cancelamento” decorre desta intenção: isolar o verdadeiro do falso.
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| Fernando Botero |
Nada há de novo nisso, existem vários exemplos de disciplinarização da língua; é o caso da Revolução Francesa. Os revolucionários procuraram extirpar todos os traços da tradição cristã da vida francesa, a reforma do calendário gregoriano tinha justamente esse objetivo. Os doze meses do ano foram rebatizados (Brumário, mês das brumas; Nivoso, da neve; Pluvioso, das chuvas; Florial, das flores; etc.), os dias da semana redefinidos (primidi, duodi, tridi, quartidi, etc.) e não mais seriam dedicados a nomes de santos (foram trocados por elementos da terra: açafrão, uva, castanha, etc.). Algumas palavras foram também banidas do vocabulário quotidiano, “senhor” e “senhora” sendo substituídos por “cidadão”, manifestação do espírito de igualdade entre as pessoas. Entretanto, o “terror linguístico” (assim foi denominado na época) tinha uma amplitude maior, a emergência do Estado-nação republicano exigia a manifestação da unicidade da língua; os vários dialetos existentes no país foram, portanto, censurados e perseguidos, todos deveriam se expressar em um único idioma: o francês. Afirmava-se a totalidade da nação para se contrapor ao diverso que a ameaçava; como no mito de Babel, a diversidade era uma maldição. No caso do politicamente correto tem-se algo irônico: o ideal da diversidade exige o controle da língua, porém, o diverso é o fundamento da homogeneidade almejada.
Jakobson dizia que uma língua se define pelo que pode e não pelo que permite ou deve dizer, por isso nenhum idioma é superior ou inferior aos outros (muito se escreveu sobre a superioridade do inglês, ele seria capaz de expressar coisas que outras línguas desconheceriam). Na verdade, os idiomas representam o mundo à sua maneira, cada um deles contém uma verdade na qual a linguagem se assenta. Entretanto, toda língua se realiza em contexto (essa é a diferença entre linguagem e língua); nela, o significado das palavras se transforma e se desdiz. A entonação da voz, indicando suavidade ou rispidez, a ironia, a expressão facial de quem fala, constituem elementos que modificam o sentido expresso do que é dito. O contexto é a situação na qual as palavras (diz-se que uma frase foi retirada de contexto) ou os indivíduos se encontram. A linguagem, enquanto estrutura, não garante imediatamente a inteligibilidade da fala (ou da escrita), é necessário que ela se insira numa determinada rede de interação social. A mesma coisa dita em lugares distintos, com entonação distinta, tem significado diferente. Imaginar a existência de um manual da utilização correta das palavras, reduzindo-as a um determinismo militante, é uma quimera. O contexto é história e a história é um destino coletivo, não o monopólio da definição das boas intenções. A riqueza de uma língua exprime-se na multiplicidade de sentidos que ela possibilita dizer, a ternura ou o ódio, a frustração ou a tristeza, a dominação ou a liberdade.
Sempre me intrigou a obra de Botero, com suas gordas e gordos. Não entendia sua intuição estética até visitar o museu de Medellin. Nele existem várias esculturas, mulheres gordas, padres gordos, gatos gordos, burgueses gordos, mesas e cadeiras com bordas arredondadas, vasos redondos, etc. Percebe-se que seu interesse é pelas curvas, o volume das coisas, enfim, aquilo que é esférico, roliço. O universo de Botero é sem arestas, tudo está sinteticamente integrado na sinuosidade das formas. Diante das agruras do real, das contradições, da amargura, o artista imagina uma configuração de elementos que idealmente contrasta sua aspereza. Porém, como todo artista, ele sabe que sua ficção é distinta daquilo que o cerca, o real é ponto de partida para sua imaginação. O politicamente correto padece da tentação do Bem e de uma certa ilusão de ótica, aspira a um mundo no qual a sombra dos objetos se projeta sobre sua própria essência. Suprime-se, assim, o hiato entre a verdade e a dúvida, ser e estar.
Renato Ortiz
Luiz Inácio avisou: 'São 300 picaretas com anel de doutor'
Não basta ser bom de gogó para que se consiga governar. Getúlio Vargas era ruim de gogó e governou o Brasil de 1930 a 1945 como ditador, e de 1950 a 1954 como presidente eleito pelo voto popular. Matou-se com um tiro no peito para não ser derrubado mais uma vez por um golpe militar. O golpe só ocorreu 10 anos depois.
Mas Juscelino Kubitschek era bom de gogó, Jânio Quadros, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula também, cada um e suas circunstâncias. Nenhum dos generais-presidentes da ditadura foi bom de gogó, mas eles tinham a força ao seu lado. O voto e a anarquia militar puseram fim à ditadura.
Atribui-se a Fernando Henrique uma frase que ele nunca disse: a de que teria governado pela primeira vez com o gogó. Da segunda vez, o gogó não bastou. O Plano Real, que o elegeu em 1994, perdera o encanto, o país já não estava bem, e seu candidato a presidente em 2002, José Serra, acabou derrotado por Lula.
No último volume dos “Diários da Presidência”, obra que ditou para um gravador durante seus oito anos de governo, Fernando Henrique diz que para negociar com o Congresso foi preciso “botar a mão na lama”. E explicou, sem descer a detalhes:
– Há setores políticos da base que são uma podridão. Esse é o problema do Brasil. Não é a maioria, mas os mais espertos dominam parte importante da maioria, e eles são partes do jogo brasileiro.
– Não tenho preocupação com pessoas nem com o falso moralismo. Tenho que contar com o que existe aí. É botar a mão na lama para fazer adobe (tijolo) e construir uma casa. É complicado.
Lula sabe exatamente o que Fernando Henrique quis dizer. Nos seus primeiros dois governos, Lula também teve que pôr a mão na lama para governar com “o que existe aí”. Deu no que deu no Lula 1: o escândalo do mensalão do PT; e no Lula 2, o Petrolão. Pagou muito caro por isso. Pegou 580 dias de prisão.
Fernando Henrique sempre contou com a proteção do establishment; Lula, com a sua hostilidade. Em 2022, uma pequena fração do establishment votou em Lula para livrar-se de Bolsonaro, o pior presidente da história, a quem apoiara em 2018 acreditando que assim poria o último prego no caixão da esquerda.
Lula voltou por um sopro de votos. A esperança do establishment é que o prego possa ser batido em definitivo daqui a dois anos, sem Bolsonaro, mas com um nome da direita que tenta em se apresentar como civilizada, essa mesma direita que, hoje, boicota todos os esforços do governo para tirar o país do buraco.
Em setembro de 1993, com a experiência de dois mandatos como deputado federal, Lula disse a respeito do Congresso:
– Há [ali] uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses.
Cobrado a se explicar, disse mais tarde que defendia o poder Legislativo: “O resto é gente boa […] que vota por convicção ideológica e não por fisiologismo.” A menção aos picaretas virou letra de música da banda Paralamas do Sucesso:
– Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou/São 300 picaretas com anel de doutor.
É com 300 ou mais picaretas que Lula 3 é obrigado a negociar, com a diferença de que o Congresso naquela época era muito menos poderoso e não votava apenas em troca de dinheiro.
Ricardo Noblat
Mas Juscelino Kubitschek era bom de gogó, Jânio Quadros, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula também, cada um e suas circunstâncias. Nenhum dos generais-presidentes da ditadura foi bom de gogó, mas eles tinham a força ao seu lado. O voto e a anarquia militar puseram fim à ditadura.
Atribui-se a Fernando Henrique uma frase que ele nunca disse: a de que teria governado pela primeira vez com o gogó. Da segunda vez, o gogó não bastou. O Plano Real, que o elegeu em 1994, perdera o encanto, o país já não estava bem, e seu candidato a presidente em 2002, José Serra, acabou derrotado por Lula.
No último volume dos “Diários da Presidência”, obra que ditou para um gravador durante seus oito anos de governo, Fernando Henrique diz que para negociar com o Congresso foi preciso “botar a mão na lama”. E explicou, sem descer a detalhes:
– Há setores políticos da base que são uma podridão. Esse é o problema do Brasil. Não é a maioria, mas os mais espertos dominam parte importante da maioria, e eles são partes do jogo brasileiro.
– Não tenho preocupação com pessoas nem com o falso moralismo. Tenho que contar com o que existe aí. É botar a mão na lama para fazer adobe (tijolo) e construir uma casa. É complicado.
Lula sabe exatamente o que Fernando Henrique quis dizer. Nos seus primeiros dois governos, Lula também teve que pôr a mão na lama para governar com “o que existe aí”. Deu no que deu no Lula 1: o escândalo do mensalão do PT; e no Lula 2, o Petrolão. Pagou muito caro por isso. Pegou 580 dias de prisão.
Fernando Henrique sempre contou com a proteção do establishment; Lula, com a sua hostilidade. Em 2022, uma pequena fração do establishment votou em Lula para livrar-se de Bolsonaro, o pior presidente da história, a quem apoiara em 2018 acreditando que assim poria o último prego no caixão da esquerda.
Lula voltou por um sopro de votos. A esperança do establishment é que o prego possa ser batido em definitivo daqui a dois anos, sem Bolsonaro, mas com um nome da direita que tenta em se apresentar como civilizada, essa mesma direita que, hoje, boicota todos os esforços do governo para tirar o país do buraco.
Em setembro de 1993, com a experiência de dois mandatos como deputado federal, Lula disse a respeito do Congresso:
– Há [ali] uma maioria de 300 picaretas que defendem apenas seus próprios interesses.
Cobrado a se explicar, disse mais tarde que defendia o poder Legislativo: “O resto é gente boa […] que vota por convicção ideológica e não por fisiologismo.” A menção aos picaretas virou letra de música da banda Paralamas do Sucesso:
– Luiz Inácio falou, Luiz Inácio avisou/São 300 picaretas com anel de doutor.
É com 300 ou mais picaretas que Lula 3 é obrigado a negociar, com a diferença de que o Congresso naquela época era muito menos poderoso e não votava apenas em troca de dinheiro.
Ricardo Noblat
Onde está a democracia?
Tinha dito que iria propor tirar a palavra utopia do dicionário. Mas, enfim, não vou a tanto. Deixe ela lá estar, porque está quieta. O que eu queria dizer, é que há uma outra questão que tem de ser urgentemente revista. Tudo se discute neste mundo, menos uma única coisa: a democracia. Ela está aí, como se fosse uma espécie de santa no altar, de quem já não se espera milagres, mas que está aí como referência. E não se repara que a democracia em que vivemos é uma democracia seqüestrada, condicionada, amputada.
O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Onde está então a democracia?
José Saramago
O poder do cidadão, o poder de cada um de nós, limita-se, na esfera política, a tirar um governo de que não se gosta e a pôr outro de que talvez venha a se gostar. Nada mais. Mas as grandes decisões são tomadas em uma outra grande esfera e todos sabemos qual é. As grandes organizações financeiras internacionais, os FMIs, a Organização Mundial do Comércio, os bancos mundiais. Nenhum desses organismos é democrático. E, portanto, como falar em democracia se aqueles que efetivamente governam o mundo não são eleitos democraticamente pelo povo? Quem é que escolhe os representantes dos países nessas organizações? Onde está então a democracia?
José Saramago
A alienação da humanidade
Chegamos ao fim do ano com más notícias sobre a crise climática. O Observatório Copernicus, da União Europeia, confirmou que 2024 foi o ano mais quente da história. Pela primeira vez, a temperatura média do mundo ultrapassará o limite climático de 1,5ºC, — desde que há registros —, acima da era pré-industrial, com uma anomalia positiva próxima de 1,6ºC, previsto apenas para 2025. Sem medidas urgentes para equacionar esse problema, com o corte drástico nas emissões de gases com efeito estufa, atingiremos um ponto de não retorno, ou seja, uma tragédia.
Há muito que o mundo sofre com a violência da crise climática. Embora nenhum país esteja imune às mudanças acarretadas pelo descuido com o meio ambiente, os mais atingidos, numa lista de 10 elaborada pela Norte Dame Global Adaptation Initiative, são as nações de mais baixa renda, nove delas no Continente Africano.
Sofremos secas na Amazônia e no Centro-Oeste brasileiro, incêndios no Pantanal, inundações catastróficas no Sul, ondas de calor, desmoronamentos e enchentes nas periferias das cidades. São milhares os desabrigados, aumentando o contingente de refugiados do clima. A recente devastação causada pelas chuvas no Rio Grande do Sul alerta, mais uma vez, lideranças políticas e governante, antes e depois, para providências capazes de conter esses desastres, o que é possível.
Os impactos climáticos são cada vez mais intensos e frequentes, devido aos aumentos voláteis de energia na atmosfera. Mas outras são as preocupações do Congresso do Brasil, onde uma maioria parlamentar permanece chantageando o Governo para a aprovação de emendas do seu interesse. É um vergonhoso toma lá dá cá. Ou o governo cede, ou não se votam projetos do interesse nacional, como é o caso do pacote fiscal.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) relata que as anomalias relacionadas às mudanças climáticas têm custado bilhões de dólares anualmente e vêm crescendo exponencialmente. Por enquanto, são danos calculados em moeda, mas, logo, surgirão as implicações nutricionais, ou seja, a comida pode rarear e não ser suficiente para alimentar populações em todo o mundo.
Nem os Oceanos, de onde retiramos parte da nossa alimentação, escapam das influências negativas do clima. Nos últimos 34 anos, metade dos corais e recifes em todo o mundo morreram, por causa do aumento da temperatura da água e da acidicação causada pela alta concentração de CO2 nos mares. A acidicação degrada a base da cadeia alimentar marinha, reduzindo em 50% a capacidade reprodutiva dos peixes no planeta. O aumento do nível dos mares indica que mais catástrofes se aproximam, representando risco para bilhões de habitantes das zonas costeiras.
É consenso entre os cientistas que estudam a trajetória climática que precisamos estar 2 graus abaixo das temperaturas que representam o aquecimento global. Será que vamos conseguir? Pouco provável. Ninguém quer pagar essa conta. Não se percebe na maioria dos países, onde se inclui o Brasil, esforços realísticos nessa direção. Lideranças de todo o mundo reúnem-se em congressos internacionais para deliberar sobre o assunto, mas as verbas que disponibilizam para evitar esses desastres são sempre inferiores ao necessário.
Agrava nossa preocupação o fato de Donald Trump, que assumirá a presidência dos Estados Unidos, desdenhar o problema negando sua existência. Trump estaria preparando-se para sair do Acordo de Paris. Ele já fez isso no mandato anterior. Os governadores de Califórnia, Nova York e Washington fundaram a Aliança Climática dos Estados Unidos (USCA), com a finalidade de manter os esforços para a redução de poluentes.
É óbvio que não sabemos ao certo como será o futuro, mas podemos enxergar as tendências. Infelizmente, as recentes inovações, investimentos e patentes indicam que a alienação da humanidade está crescendo e sendo canalizada para o consumismo e as engenharias financeiras.
Evidências anteriores a nós sugerem que iremos sofrer incontroláveis e perigosos níveis de alteração climática, que trará fome, destruição, migrações, doenças e guerras, como acontece atualmente. O tempo não está do nosso lado, já alertou o Secretário-geral da ONU, o português Antônio Guterres.
Há muito que o mundo sofre com a violência da crise climática. Embora nenhum país esteja imune às mudanças acarretadas pelo descuido com o meio ambiente, os mais atingidos, numa lista de 10 elaborada pela Norte Dame Global Adaptation Initiative, são as nações de mais baixa renda, nove delas no Continente Africano.
Sofremos secas na Amazônia e no Centro-Oeste brasileiro, incêndios no Pantanal, inundações catastróficas no Sul, ondas de calor, desmoronamentos e enchentes nas periferias das cidades. São milhares os desabrigados, aumentando o contingente de refugiados do clima. A recente devastação causada pelas chuvas no Rio Grande do Sul alerta, mais uma vez, lideranças políticas e governante, antes e depois, para providências capazes de conter esses desastres, o que é possível.
Os impactos climáticos são cada vez mais intensos e frequentes, devido aos aumentos voláteis de energia na atmosfera. Mas outras são as preocupações do Congresso do Brasil, onde uma maioria parlamentar permanece chantageando o Governo para a aprovação de emendas do seu interesse. É um vergonhoso toma lá dá cá. Ou o governo cede, ou não se votam projetos do interesse nacional, como é o caso do pacote fiscal.
A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) relata que as anomalias relacionadas às mudanças climáticas têm custado bilhões de dólares anualmente e vêm crescendo exponencialmente. Por enquanto, são danos calculados em moeda, mas, logo, surgirão as implicações nutricionais, ou seja, a comida pode rarear e não ser suficiente para alimentar populações em todo o mundo.
Nem os Oceanos, de onde retiramos parte da nossa alimentação, escapam das influências negativas do clima. Nos últimos 34 anos, metade dos corais e recifes em todo o mundo morreram, por causa do aumento da temperatura da água e da acidicação causada pela alta concentração de CO2 nos mares. A acidicação degrada a base da cadeia alimentar marinha, reduzindo em 50% a capacidade reprodutiva dos peixes no planeta. O aumento do nível dos mares indica que mais catástrofes se aproximam, representando risco para bilhões de habitantes das zonas costeiras.
É consenso entre os cientistas que estudam a trajetória climática que precisamos estar 2 graus abaixo das temperaturas que representam o aquecimento global. Será que vamos conseguir? Pouco provável. Ninguém quer pagar essa conta. Não se percebe na maioria dos países, onde se inclui o Brasil, esforços realísticos nessa direção. Lideranças de todo o mundo reúnem-se em congressos internacionais para deliberar sobre o assunto, mas as verbas que disponibilizam para evitar esses desastres são sempre inferiores ao necessário.
Agrava nossa preocupação o fato de Donald Trump, que assumirá a presidência dos Estados Unidos, desdenhar o problema negando sua existência. Trump estaria preparando-se para sair do Acordo de Paris. Ele já fez isso no mandato anterior. Os governadores de Califórnia, Nova York e Washington fundaram a Aliança Climática dos Estados Unidos (USCA), com a finalidade de manter os esforços para a redução de poluentes.
É óbvio que não sabemos ao certo como será o futuro, mas podemos enxergar as tendências. Infelizmente, as recentes inovações, investimentos e patentes indicam que a alienação da humanidade está crescendo e sendo canalizada para o consumismo e as engenharias financeiras.
Evidências anteriores a nós sugerem que iremos sofrer incontroláveis e perigosos níveis de alteração climática, que trará fome, destruição, migrações, doenças e guerras, como acontece atualmente. O tempo não está do nosso lado, já alertou o Secretário-geral da ONU, o português Antônio Guterres.
Financiadores do assassinato político
O agronegócio brasileiro é mesmo um grande sucesso – de marketing. Criou o slogan “o agro é pop” e fez todo mundo acreditar que ele é o motor da economia brasileira. Na verdade, ele corresponde a apenas 7% do PIB brasileiro e infla sua participação colocando na conta todos os insumos que usa, equipamentos etc.
O retorno para o país em termos de impostos é irrisório, já que seu mercado principal está no exterior e suas exportações são isentas de tributação. São os pequenos proprietários, da agricultura familiar, que produzem 70% do alimento que nós comemos.
Entre a mecanização, por um lado, e a superexploração da mão-de-obra, incluindo condições análogas à escravidão, por outro, gera bem poucos empregos decentes.
Na mídia, é de rigueur dizer que o agronegócio brasileiro é um grande parceiro da conservação ambiental, não importa que todas as evidências mostrem o contrário.
Na verdade, o sucesso do agro brasileiro começa com o estranho desaparecimento da palavra “latifúndio” do nosso vocabulário. Parece que o latifúndio acabou. Mas o fato é que 15.686 propriedades rurais, 0,3% do total, somam 25% das terras do país.
O dinheiro que economiza nos impostos o agro gasta financiando campanhas e comprando políticos. Sua bancada no Congresso é imbatível. A “Frente Parlamentar da Agropecuária”, isto é, a bancada ruralista, conta com quase dois terços dos deputados federais e mais de 60% dos senadores.
Como um pingo de gente na população pode ter tanta força parlamentar? A resposta é simples. Vou dar uma dica pra vocês: começa com “di” e termina com “nheiro”.
Daí a isenção tributária para a carne foi aprovada por 477 votos a favor e apenas três contra, apesar do óbvio impacto ambiental da medida. Daí o Brasil é campeão mundial de veneno na comida. Tem até um bizarro projeto que retira da Anvisa e passa para o Congresso a atribuição de liberar o uso de classes de agrotóxicos.
Enquanto isso, a Contag, que representa 15 milhões de trabalhadores rurais (pequenos proprietários e assalariados agrícolas), comemorou que em 2022 conseguiu eleger cinco deputados federais e um senador, com outros 11 parlamentares considerados aliados…
Essa disparidade na representação é uma das (muitas) evidências de que o capitalismo mutila a democracia.
Pois o “pessoal do agro” não está satisfeito, mesmo com todo o poder que tem. Eles querem resistência zero. Um governo que fala em direito do trabalhador ou que combate trabalho escravo já é ruim demais.
Bom é ditadura. Por isso, segundo consta, foi o “pessoal do agro” que mandou grana para o general Braga Netto pôr na rua o plano de matar Lula, Alckmin e Moraes.
A gente quer saber o nome desses financiadores do assassinato político. E o que vai acontecer com eles.
Prisão e expropriação de suas empresas é o mínimo.
Luis Felipe Miguel
O retorno para o país em termos de impostos é irrisório, já que seu mercado principal está no exterior e suas exportações são isentas de tributação. São os pequenos proprietários, da agricultura familiar, que produzem 70% do alimento que nós comemos.
Entre a mecanização, por um lado, e a superexploração da mão-de-obra, incluindo condições análogas à escravidão, por outro, gera bem poucos empregos decentes.
Na mídia, é de rigueur dizer que o agronegócio brasileiro é um grande parceiro da conservação ambiental, não importa que todas as evidências mostrem o contrário.
Na verdade, o sucesso do agro brasileiro começa com o estranho desaparecimento da palavra “latifúndio” do nosso vocabulário. Parece que o latifúndio acabou. Mas o fato é que 15.686 propriedades rurais, 0,3% do total, somam 25% das terras do país.
O dinheiro que economiza nos impostos o agro gasta financiando campanhas e comprando políticos. Sua bancada no Congresso é imbatível. A “Frente Parlamentar da Agropecuária”, isto é, a bancada ruralista, conta com quase dois terços dos deputados federais e mais de 60% dos senadores.
Como um pingo de gente na população pode ter tanta força parlamentar? A resposta é simples. Vou dar uma dica pra vocês: começa com “di” e termina com “nheiro”.
Daí a isenção tributária para a carne foi aprovada por 477 votos a favor e apenas três contra, apesar do óbvio impacto ambiental da medida. Daí o Brasil é campeão mundial de veneno na comida. Tem até um bizarro projeto que retira da Anvisa e passa para o Congresso a atribuição de liberar o uso de classes de agrotóxicos.
Enquanto isso, a Contag, que representa 15 milhões de trabalhadores rurais (pequenos proprietários e assalariados agrícolas), comemorou que em 2022 conseguiu eleger cinco deputados federais e um senador, com outros 11 parlamentares considerados aliados…
Essa disparidade na representação é uma das (muitas) evidências de que o capitalismo mutila a democracia.
Pois o “pessoal do agro” não está satisfeito, mesmo com todo o poder que tem. Eles querem resistência zero. Um governo que fala em direito do trabalhador ou que combate trabalho escravo já é ruim demais.
Bom é ditadura. Por isso, segundo consta, foi o “pessoal do agro” que mandou grana para o general Braga Netto pôr na rua o plano de matar Lula, Alckmin e Moraes.
A gente quer saber o nome desses financiadores do assassinato político. E o que vai acontecer com eles.
Prisão e expropriação de suas empresas é o mínimo.
Luis Felipe Miguel
quarta-feira, 18 de dezembro de 2024
Crise do clima é efeito não previsto do capitalismo
Todas as sociedades humanas evitam inesperados. Suas rotinas fabricam hábitos e costumes que, inutilmente, pretendem controlar o imprevisto entre o cultural e o natural irredutível — a cabeça e o pé, o lado direito e o esquerdo, o negro da noite e a claridade do dia, o Sol e a Lua, as enchentes, os terremotos, as tempestades e, acima de tudo, o silêncio da morte e a paz enternecedora do esquecimento.
Não há sociedade sem ideias sobre nascer, morrer, sobre a injustiça e as causas dos acidentes e doenças que subvertem as classificações. Tudo o que vivemos como básico ou essencial — aquilo que elege os populistas — é alvo de um mitológico e religioso reconhecimento em toda coletividade humana. Todas têm protocolos para a sovinice, o poder e, principalmente, para os inesperados — para o que atravessa as classificações que ordenam o Universo. Para os eventos individuais ou coletivos, incidentais e inesperados, que ameaçam — como ensinaram Durkheim e Mauss — a ordem estabelecida, a estrutura.
Tais surpreendentes desenganos são a matéria-prima de gente como Balzac, Borges, Maupassant e outros mestres dos inesperados, como Allan Poe, O. Henry, Lobato, Machado de Assis, Tchekhov e Jorge Amado, entre outros...
Uma das fontes do mal-estar do mundo atual resulta da imperiosa programação do capitalismo ocidental. Ela multiplicou oportunidades, criou confortos inimagináveis e acelerou um estilo de vida baseado no progressismo e na quantidade, mas o efeito inesperado desse programa afeta o clima e o equilíbrio do planeta. As mais brilhantes previsões geopolíticas são forçadas a realizar um tradicional “ouça, pare e olhe” para a dinâmica da Terra enquanto palco que reage a um drama incongruente.
A grande contradição não seria a que Marx anunciou — a classe trabalhadora explorada contra os malvados capitalistas encartolados —, mas o não previsto desgaste irracional de uma Terra explorada racionalmente. O imenso e incomensurável inesperado é a ameaça climática que invade nossas vidas como um palco que, surpreendentemente, se torna ator.
No ensaio “Raça e História”, Lévi-Strauss adverte:
— A exclusiva fatalidade, a única tara que pode afligir um grupo humano e impedi-lo de realizar plenamente sua natureza, é estar só.
Publicado em 1952, o ensaio não tinha como prever que o mundo trocaria um milenar e parcimonioso isolamento de línguas e culturas pelo avassalador progressismo movido a cobiça, decorrente das consequências não previstas de um modo de produção global, voltado para a quantidade.
A modéstia e a parcimônia de milênios de evolução deram lugar a uma enxurrada de mensagens expressivas da maldade, do desejo de confundir e da hipocrisia decorrentes do exagerado poder de comunicação que a Humanidade conquistou.
Ao lado das perversas fake news, temos a vergonha de descobrir que a hipocrisia, a maldade e o autoritarismo não são as marcas de um período histórico ou cultural. São parte constitutiva de nossa índole que os meios digitais ampliam. Operam seguindo as intenções dos seus donos — os Musks e os Trumps deste mundo —, mas, eis o inesperado, têm vida própria. E mostram que os tais “países desenvolvidos” à direta e à esquerda são, surpreendentemente, muito mais parecidos com o nosso “Brasil subdesenvolvido” do que imaginávamos.
Valha-nos Deus!
Não há sociedade sem ideias sobre nascer, morrer, sobre a injustiça e as causas dos acidentes e doenças que subvertem as classificações. Tudo o que vivemos como básico ou essencial — aquilo que elege os populistas — é alvo de um mitológico e religioso reconhecimento em toda coletividade humana. Todas têm protocolos para a sovinice, o poder e, principalmente, para os inesperados — para o que atravessa as classificações que ordenam o Universo. Para os eventos individuais ou coletivos, incidentais e inesperados, que ameaçam — como ensinaram Durkheim e Mauss — a ordem estabelecida, a estrutura.
Robert Merton publicou em 1936, na American Sociological Review, um artigo essencial sobre as consequências não previstas de atos sociais programados. Eu quero ficar rico e compro ações que perdem o valor. Depois de diagnosticar toda a população de Itaguaí como louca, o douto alienista descobre o óbvio. O maluco era ele, e sua doidice o faz libertar os habitantes e, numa inversão inesperada, interna-se no manicômio. A ignorância, a ambiguidade ou a inocência, como mostra a literatura, são uma dimensão intrigante da vida social. Ela compete e está ligada às “racionalidades”.
Tais surpreendentes desenganos são a matéria-prima de gente como Balzac, Borges, Maupassant e outros mestres dos inesperados, como Allan Poe, O. Henry, Lobato, Machado de Assis, Tchekhov e Jorge Amado, entre outros...
Uma das fontes do mal-estar do mundo atual resulta da imperiosa programação do capitalismo ocidental. Ela multiplicou oportunidades, criou confortos inimagináveis e acelerou um estilo de vida baseado no progressismo e na quantidade, mas o efeito inesperado desse programa afeta o clima e o equilíbrio do planeta. As mais brilhantes previsões geopolíticas são forçadas a realizar um tradicional “ouça, pare e olhe” para a dinâmica da Terra enquanto palco que reage a um drama incongruente.
A grande contradição não seria a que Marx anunciou — a classe trabalhadora explorada contra os malvados capitalistas encartolados —, mas o não previsto desgaste irracional de uma Terra explorada racionalmente. O imenso e incomensurável inesperado é a ameaça climática que invade nossas vidas como um palco que, surpreendentemente, se torna ator.
No ensaio “Raça e História”, Lévi-Strauss adverte:
— A exclusiva fatalidade, a única tara que pode afligir um grupo humano e impedi-lo de realizar plenamente sua natureza, é estar só.
Publicado em 1952, o ensaio não tinha como prever que o mundo trocaria um milenar e parcimonioso isolamento de línguas e culturas pelo avassalador progressismo movido a cobiça, decorrente das consequências não previstas de um modo de produção global, voltado para a quantidade.
A modéstia e a parcimônia de milênios de evolução deram lugar a uma enxurrada de mensagens expressivas da maldade, do desejo de confundir e da hipocrisia decorrentes do exagerado poder de comunicação que a Humanidade conquistou.
Ao lado das perversas fake news, temos a vergonha de descobrir que a hipocrisia, a maldade e o autoritarismo não são as marcas de um período histórico ou cultural. São parte constitutiva de nossa índole que os meios digitais ampliam. Operam seguindo as intenções dos seus donos — os Musks e os Trumps deste mundo —, mas, eis o inesperado, têm vida própria. E mostram que os tais “países desenvolvidos” à direta e à esquerda são, surpreendentemente, muito mais parecidos com o nosso “Brasil subdesenvolvido” do que imaginávamos.
Valha-nos Deus!
Elogio da dúvida
Vamos brindar – à dúvida!
E você, trate com simpatia e respeito
o homem que escuta o que você fala
como quem testa uma moeda suspeita.
Seja esperto. Não dê sua palavra
com tanta certeza assim.
Leia livros de história. Leia sobre
a fuga em pânico de tantos exércitos invencíveis.
Para onde quer que você olhe
há fortalezas inexpugnáveis desmoronando,
e mesmo que a Armada fosse incalculável
quando deixou o porto,
era sempre possível contar
quantos navios voltaram.
Sempre há um dia em que
um homem pousa o pé no pico inatingível,
e um navio chega ao limite
do infinito mar.
Como é belo ver cabeças que discordam
diante da indiscutível verdade!
Bravo! – para o médico que curou
o paciente desenganado.
Mas a mais bela das dúvidas
é quando os explorados e os ofendidos
erguem a cabeça,
e param de pensar que seu opressor
não pode ser derrotado.
E você, trate com simpatia e respeito
o homem que escuta o que você fala
como quem testa uma moeda suspeita.
Seja esperto. Não dê sua palavra
com tanta certeza assim.
Leia livros de história. Leia sobre
a fuga em pânico de tantos exércitos invencíveis.
Para onde quer que você olhe
há fortalezas inexpugnáveis desmoronando,
e mesmo que a Armada fosse incalculável
quando deixou o porto,
era sempre possível contar
quantos navios voltaram.
Sempre há um dia em que
um homem pousa o pé no pico inatingível,
e um navio chega ao limite
do infinito mar.
Como é belo ver cabeças que discordam
diante da indiscutível verdade!
Bravo! – para o médico que curou
o paciente desenganado.
Mas a mais bela das dúvidas
é quando os explorados e os ofendidos
erguem a cabeça,
e param de pensar que seu opressor
não pode ser derrotado.
Bertolt Brecht
General preso não faz democracia
Há uma parede na sede do Correio Braziliense onde estão as páginas mais criativas e expressivas já publicadas pelo jornal. Neste domingo, a primeira página com a palavra "Preso" acima da foto do general Braga Netto merece ir para esse panteão de manchetes. Em uma palavra, todo um discurso: "as instituições civis são capazes de prender um general quatro estrelas que conspirava contra a democracia". O discurso e a manchete seriam ainda mais fortes se tivessem colocado a foto do general fardado. Ao escolher a foto com traje civil, o Correio teve o cuidado de não expor as Forças Armadas. O mesmo cuidado os democratas devem ter ao comemorar o fato de um militar golpista estar preso, sabendo que um general preso não faz a democracia.
Para tanto, é preciso que a instituição militar, toda a tropa, e que a política, todos políticos, sejam comprometidos com a ética no comportamento e nas prioridades. A democracia tem razões para sentir otimismo com a prisão de um general golpista, mas deve entender que generais presos não fazem tropa democrática. É preciso promover nova mentalidade entre os militares; e que os políticos civis sejam comprometidos com a causa pública, sensíveis aos interesses da população e íntegros no exercício dos cargos. Sem isso, ameaçam a democracia apodrecendo-a por dentro.
Apesar do farto noticiário sobre o inusitado de um general golpista preso, nenhuma pesquisa apurou ainda qual a reação da tropa à prisão. Sabe-se que os comandos estão respeitando a decisão da justiça e o trabalho da polícia, mas não se sabe se a caserna está mais indignada com a postura dos golpistas querendo impedir a posse dos vitoriosos, e até com intenção de assassiná-los, ou se estão indignados com a incompetência para levar adiante o plano. O Ministério da Defesa não parece saber ou estaria escondendo se a tropa considera Braga Netto e sua turma como criminosos golpistas traidores da Constituição e da pátria ou se patriotas incompetentes para vencer uma batalha pelo futuro do país livre do que os militares consideram corruptos civis. Não há manifestação de repúdio da tropa aos golpistas, mas há descontentamento com a falta de respeito de Braga Netto aos colegas que ele teria chamado de covardes por serem legalistas.
Em quase meio século de democracia, nenhum dos presidentes enfrentou a questão militar no Brasil: adotar formação legalista, comportamento hierárquico e não apenas protocolar em relação ao poder civil eleito, consciência democrática, respeito às instituições. Nenhum presidente expôs aos militares de hoje o conhecimento pleno dos crimes nos 21 anos de ditadura, tortura, assassinatos, covas anônimas, censura; não tentou punir os culpados. Aceita-se a permanência de um sistema que põe as armas com poder moderador sobre as urnas, contra o que julgam incompetência, corrupção ou simplesmente ideias exóticas. Sobretudo, todos os oito presidentes civis se comportam assustados e temerosos diante do poder militar.
Os políticos democratas precisam entender que os golpes ocorrem mais pelo apodrecimento interno da democracia dos civis do que por reação golpista de militares. Lembrar que parte substancial da população apoiou o golpe em 1964 e que, em 2022, apenas um milhão de eleitores barrou o presidente golpista nas urnas. O eleitorado prefere a democracia, mas não está satisfeito com o Brasil construído nos últimos 40 anos: sente que diminuiu a penúria, mas a pobreza continua, a concentração de renda se mantém e a desigualdade se transformou em apartheid social; os privilégios e benefícios foram ampliados; a produtividade não aumentou; a economia não sai de uma renda média baixa; a corrupção se espalhou e ficou normal; a violência chegou ao nível de uma guerra civil; o número de analfabetos adultos não diminuiu; o número de crianças matriculadas aumentou, mas não cresceu a percentagem dos que concluem educação de base com qualidade; o presente pode até parecer melhor, mas os anos de democracia não estão acenando para um país eficiente, sem privilégios e sem corrupção, sem pobreza, com renda bem distribuída, com juventude esperançosa e motivada.
Feliz a democracia em que um juiz legalista tem poder para prender um general golpista, mas nenhum juiz empoderado ou general preso constrói a democracia; é preciso que os políticos civis sejam respeitados e usem o sistema democrático para abolir a corrupção no comportamento e nas prioridades, atendam aos sonhos da população, enfrentem a secular questão militar do Brasil, ao ponto que a ideia de golpe não faça mais parte do imaginário dos militares.
Para tanto, é preciso que a instituição militar, toda a tropa, e que a política, todos políticos, sejam comprometidos com a ética no comportamento e nas prioridades. A democracia tem razões para sentir otimismo com a prisão de um general golpista, mas deve entender que generais presos não fazem tropa democrática. É preciso promover nova mentalidade entre os militares; e que os políticos civis sejam comprometidos com a causa pública, sensíveis aos interesses da população e íntegros no exercício dos cargos. Sem isso, ameaçam a democracia apodrecendo-a por dentro.
Apesar do farto noticiário sobre o inusitado de um general golpista preso, nenhuma pesquisa apurou ainda qual a reação da tropa à prisão. Sabe-se que os comandos estão respeitando a decisão da justiça e o trabalho da polícia, mas não se sabe se a caserna está mais indignada com a postura dos golpistas querendo impedir a posse dos vitoriosos, e até com intenção de assassiná-los, ou se estão indignados com a incompetência para levar adiante o plano. O Ministério da Defesa não parece saber ou estaria escondendo se a tropa considera Braga Netto e sua turma como criminosos golpistas traidores da Constituição e da pátria ou se patriotas incompetentes para vencer uma batalha pelo futuro do país livre do que os militares consideram corruptos civis. Não há manifestação de repúdio da tropa aos golpistas, mas há descontentamento com a falta de respeito de Braga Netto aos colegas que ele teria chamado de covardes por serem legalistas.
Em quase meio século de democracia, nenhum dos presidentes enfrentou a questão militar no Brasil: adotar formação legalista, comportamento hierárquico e não apenas protocolar em relação ao poder civil eleito, consciência democrática, respeito às instituições. Nenhum presidente expôs aos militares de hoje o conhecimento pleno dos crimes nos 21 anos de ditadura, tortura, assassinatos, covas anônimas, censura; não tentou punir os culpados. Aceita-se a permanência de um sistema que põe as armas com poder moderador sobre as urnas, contra o que julgam incompetência, corrupção ou simplesmente ideias exóticas. Sobretudo, todos os oito presidentes civis se comportam assustados e temerosos diante do poder militar.
Os políticos democratas precisam entender que os golpes ocorrem mais pelo apodrecimento interno da democracia dos civis do que por reação golpista de militares. Lembrar que parte substancial da população apoiou o golpe em 1964 e que, em 2022, apenas um milhão de eleitores barrou o presidente golpista nas urnas. O eleitorado prefere a democracia, mas não está satisfeito com o Brasil construído nos últimos 40 anos: sente que diminuiu a penúria, mas a pobreza continua, a concentração de renda se mantém e a desigualdade se transformou em apartheid social; os privilégios e benefícios foram ampliados; a produtividade não aumentou; a economia não sai de uma renda média baixa; a corrupção se espalhou e ficou normal; a violência chegou ao nível de uma guerra civil; o número de analfabetos adultos não diminuiu; o número de crianças matriculadas aumentou, mas não cresceu a percentagem dos que concluem educação de base com qualidade; o presente pode até parecer melhor, mas os anos de democracia não estão acenando para um país eficiente, sem privilégios e sem corrupção, sem pobreza, com renda bem distribuída, com juventude esperançosa e motivada.
Feliz a democracia em que um juiz legalista tem poder para prender um general golpista, mas nenhum juiz empoderado ou general preso constrói a democracia; é preciso que os políticos civis sejam respeitados e usem o sistema democrático para abolir a corrupção no comportamento e nas prioridades, atendam aos sonhos da população, enfrentem a secular questão militar do Brasil, ao ponto que a ideia de golpe não faça mais parte do imaginário dos militares.
Ler pouco, crescer pouco
A redução da pobreza e da extrema pobreza no Brasil para os níveis mais baixos já aferidos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) deveria instilar-nos algum otimismo, de que tanto carecemos nestes tempos. Segundo a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE, entre 2022 e 2023, 8,7 milhões de brasileiros deixaram a linha de pobreza, outros 3,1 milhões saíram da condição de miséria e a proporção da população considerada pobre diminuiu de 31,6% para 27,4%. O aquecimento do mercado de trabalho e o pagamento de benefícios sociais, como os vinculados ao Bolsa Família, são apontados como fatores decisivos para a melhora, o que mostra a importância desses programas.
Muito lentamente, as condições de vida estão melhorando para a população mais sacrificada nos tempos de dificuldades e nem sempre suficientemente recompensada nos períodos de prosperidade. Mas persiste um quadro social inquietante, dominado por um imenso contingente de pobres. Ainda há 59 milhões de brasileiros sobrevivendo com menos de R$ 22,17 por dia. Mais de um quarto da população é muito pobre.
As piores consequências da deformada distribuição de renda no País têm sido atenuadas por programas sociais e de serviços públicos, especialmente na saúde. Mais eficácia poderia ser alcançada com medidas no campo tributário, mas, por conhecidas dificuldades no seu relacionamento com um Congresso de nítido perfil conservador, o governo não mostrou disposição de avançar nesse rumo.
São, reconheça-se, caminhos alternativos. O central é óbvio: oferecer a todos as condições para progredir por meio de uma educação inclusiva e formadora de cidadãos aptos a desempenhar com competência e consciência seu papel econômico, social e político.
Não há motivos para animar os que se preocupam com o futuro. No campo da educação, parece que decidimos parar ou caminhar para trás. É entristecedor saber que o País, onde se lê pouco, perdeu 6,7 milhões de leitores em cinco anos. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (feita pelo Instituto Pró-Livro, Ipec e Itaú Cultural) constatou pela primeira vez que a maioria dos brasileiros não lê livros.
Falta de tempo, mais dedicação à internet, televisão e outros motivos foram apontados para a queda no número de leitores. Quaisquer que sejam as razões, é um fato preocupante. Baixo índice de leitura significa menor compreensão do mundo em que se vive, mais dificuldades no acesso a melhores postos de trabalho e nas demais atividades da vida em sociedade.
O problema é mais profundo. Mesmo quem lê entende mal o que lê, como aponta há tempos o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), estudo comparativo realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No último relatório, relativo a 2022 e divulgado no ano passado, o Brasil manteve os resultados alcançados em 2018 em matemática, leitura e ciências.
Com otimismo, pode-se dizer que o Brasil mostrou resistência na pandemia da covid19. Não piorou. Mas isso pouco significa. Em 16 países que fazem parte da OCDE, a média em 2018 foi de 487 pontos em proficiência em leitura; estudantes brasileiros de 15 anos registraram média de 413 pontos. Esses números mostram que os estudantes brasileiros não aprenderam a interpretar o que leem (quando leem, pois o índice de leitura está em queda, como vimos acima) e não estão habituados a ler outras obras além dos livros didáticos ou as exigidas pela escola.
É claro que os resultados variam de acordo com a situação econômica e social das famílias. Desigualdades sociais estão por trás de resultados desiguais alcançados por estudantes pertencentes a famíforum@estadao.com lias de diferentes situações econômicas. Uma pesquisa do Insper sobre a democratização da educação profissional e tecnológica constatou que estudantes de nível econômico e social mais baixo têm menor acesso a esse tipo de ensino. E esse grupo social é justamente o que mais poderia se beneficiar com o acesso à educação profissional e tecnológica.
Critérios para a ação do Ministério da Educação anunciados pelo ministro Camilo Santana apontam o caminho correto, com prioridade para alfabetização na idade certa, educação em tempo integral, permanência do jovem na escola e melhoria na formação inicial e continuada dos professores.
Talvez devêssemos concentrar atenção no último item. Causa desassossego ter de concordar com o editorial Professores que não sabem ensinar publicado pelo Estadão (13/12). Não se trata de inculpar o professor, mas de defendê-lo. Ele é vítima de um círculo vicioso, formado por salários inadequados, falta de reconhecimento social de seu papel vital na formação das pessoas, desrespeito nos locais de trabalho, desestímulo ao bom preparo didático e ao aperfeiçoamento, baixa qualidade do ensino, alunos mal preparados e baixos salários. Esse círculo precisa ser rompido, e com urgência.
Jorge J. Okubaro
Muito lentamente, as condições de vida estão melhorando para a população mais sacrificada nos tempos de dificuldades e nem sempre suficientemente recompensada nos períodos de prosperidade. Mas persiste um quadro social inquietante, dominado por um imenso contingente de pobres. Ainda há 59 milhões de brasileiros sobrevivendo com menos de R$ 22,17 por dia. Mais de um quarto da população é muito pobre.
As piores consequências da deformada distribuição de renda no País têm sido atenuadas por programas sociais e de serviços públicos, especialmente na saúde. Mais eficácia poderia ser alcançada com medidas no campo tributário, mas, por conhecidas dificuldades no seu relacionamento com um Congresso de nítido perfil conservador, o governo não mostrou disposição de avançar nesse rumo.
São, reconheça-se, caminhos alternativos. O central é óbvio: oferecer a todos as condições para progredir por meio de uma educação inclusiva e formadora de cidadãos aptos a desempenhar com competência e consciência seu papel econômico, social e político.
Falta de tempo, mais dedicação à internet, televisão e outros motivos foram apontados para a queda no número de leitores. Quaisquer que sejam as razões, é um fato preocupante. Baixo índice de leitura significa menor compreensão do mundo em que se vive, mais dificuldades no acesso a melhores postos de trabalho e nas demais atividades da vida em sociedade.
O problema é mais profundo. Mesmo quem lê entende mal o que lê, como aponta há tempos o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa), estudo comparativo realizado a cada três anos pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No último relatório, relativo a 2022 e divulgado no ano passado, o Brasil manteve os resultados alcançados em 2018 em matemática, leitura e ciências.
Com otimismo, pode-se dizer que o Brasil mostrou resistência na pandemia da covid19. Não piorou. Mas isso pouco significa. Em 16 países que fazem parte da OCDE, a média em 2018 foi de 487 pontos em proficiência em leitura; estudantes brasileiros de 15 anos registraram média de 413 pontos. Esses números mostram que os estudantes brasileiros não aprenderam a interpretar o que leem (quando leem, pois o índice de leitura está em queda, como vimos acima) e não estão habituados a ler outras obras além dos livros didáticos ou as exigidas pela escola.
É claro que os resultados variam de acordo com a situação econômica e social das famílias. Desigualdades sociais estão por trás de resultados desiguais alcançados por estudantes pertencentes a famíforum@estadao.com lias de diferentes situações econômicas. Uma pesquisa do Insper sobre a democratização da educação profissional e tecnológica constatou que estudantes de nível econômico e social mais baixo têm menor acesso a esse tipo de ensino. E esse grupo social é justamente o que mais poderia se beneficiar com o acesso à educação profissional e tecnológica.
Critérios para a ação do Ministério da Educação anunciados pelo ministro Camilo Santana apontam o caminho correto, com prioridade para alfabetização na idade certa, educação em tempo integral, permanência do jovem na escola e melhoria na formação inicial e continuada dos professores.
Talvez devêssemos concentrar atenção no último item. Causa desassossego ter de concordar com o editorial Professores que não sabem ensinar publicado pelo Estadão (13/12). Não se trata de inculpar o professor, mas de defendê-lo. Ele é vítima de um círculo vicioso, formado por salários inadequados, falta de reconhecimento social de seu papel vital na formação das pessoas, desrespeito nos locais de trabalho, desestímulo ao bom preparo didático e ao aperfeiçoamento, baixa qualidade do ensino, alunos mal preparados e baixos salários. Esse círculo precisa ser rompido, e com urgência.
Jorge J. Okubaro
Às vésperas de completar 40 anos, a democracia inspira cuidados
Deve-se louvar o golpista ou o indiferente ao Estado de Direito que sinceramente converteu-se à democracia. O Estado de Direito é aquele que assegura que nenhum indivíduo está “acima da lei”.
Mas ao golpista ou ao indiferente ao Estado de Direito, não basta converter-se. Ao golpista, para que sua conversão seja reconhecida como verdadeira, há que se cobrar explicações.
Pelo menos duas: por que antes foi golpista? E o que o fez mudar de posição? Há também que se cobrar um pedido público de desculpas se suas ações pretéritas causaram danos ao país.
A mesma receita deveria ser aplicada às instituições. Quantos Papas já não pediram desculpas e autorizaram o pagamento de indenizações a fiéis abusados sexualmente por sacerdotes?
Não se pode dizer da Igreja Católica que ela, em algum momento, tenha estimulado o abuso. Mas pode-se dizer, sim, que ela por séculos tolerou o abuso que provocou tanto mal aos seus servos.
O Estado alemão, até hoje, se penitencia pelo mal que o nazismo infligiu à Humanidade, especialmente aos 6 milhões de judeus, ciganos e outras minorias mortos em câmaras de gás.
O ministro José Múcio Monteiro, da Defesa, prega que é preciso diferenciar o CPF do CNPJ das Forças Armadas quando se discute o comportamento dos militares em relação a golpes.
CPF é o Cadastro de Pessoa Física, CNPJ, o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. O que José Múcio quer dizer: as Forças Armadas não são golpistas; mas há militares que são ou que foram.
É uma sacada engenhosa do ministro para preservar a imagem da instituição, as Forças Armadas, mas se lida à luz da história, não corresponde à realidade; é apenas uma sacada oportuna.
Só pelo prazer de argumentar: dou de barato que CPFs tramaram o golpe de dezembro de 2022 para impedir a posse de Lula, e o de janeiro de 2023 para interromper seu governo mal iniciado.
Mas não foram CPFs que acolheram em diversas partes do país os golpistas acampados à porta de quarteis; ali, área de segurança nacional, sem o endosso do CNPJ, ninguém acampa.
Sem endosso do CNPJ, CPF não movimenta tropas e armamento pesado para retardar a prisão de golpistas como aconteceu na noite do 8 de janeiro, nem sugere uma operação para restaurar a ordem.
Foi um golpe militar que derrubou a monarquia e proclamou a República entre nós. Foi um golpe militar que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930 e que o retirou de lá em 1945.
Getúlio voltou em 1950, desta vez pelo povo popular, matando-se com um tiro no peito quatro anos depois para não ser derrubado por outro golpe. Sua morte postergou em 10 anos a ditadura de 64.
A anistia de 1976, dita ampla, geral e irrestrita, perdoou os crimes dos militares que torturaram e mataram adversários do regime; esses, pagaram seus crimes com o próprio sangue.
Uma anistia de araque, portanto, que serviu mais a um lado do que ao outro; uma anistia que dispensou as Forças Armadas de ao menos pedirem desculpa e de revisarem sua formação.
Às vésperas de completar 40 anos, a democracia brasileira ainda coxeia, sente-se ameaçada e inspira cuidados.
Ricardo Noblat
Mas ao golpista ou ao indiferente ao Estado de Direito, não basta converter-se. Ao golpista, para que sua conversão seja reconhecida como verdadeira, há que se cobrar explicações.
Pelo menos duas: por que antes foi golpista? E o que o fez mudar de posição? Há também que se cobrar um pedido público de desculpas se suas ações pretéritas causaram danos ao país.
A mesma receita deveria ser aplicada às instituições. Quantos Papas já não pediram desculpas e autorizaram o pagamento de indenizações a fiéis abusados sexualmente por sacerdotes?
Não se pode dizer da Igreja Católica que ela, em algum momento, tenha estimulado o abuso. Mas pode-se dizer, sim, que ela por séculos tolerou o abuso que provocou tanto mal aos seus servos.
O Estado alemão, até hoje, se penitencia pelo mal que o nazismo infligiu à Humanidade, especialmente aos 6 milhões de judeus, ciganos e outras minorias mortos em câmaras de gás.
O ministro José Múcio Monteiro, da Defesa, prega que é preciso diferenciar o CPF do CNPJ das Forças Armadas quando se discute o comportamento dos militares em relação a golpes.
CPF é o Cadastro de Pessoa Física, CNPJ, o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica. O que José Múcio quer dizer: as Forças Armadas não são golpistas; mas há militares que são ou que foram.
É uma sacada engenhosa do ministro para preservar a imagem da instituição, as Forças Armadas, mas se lida à luz da história, não corresponde à realidade; é apenas uma sacada oportuna.
Só pelo prazer de argumentar: dou de barato que CPFs tramaram o golpe de dezembro de 2022 para impedir a posse de Lula, e o de janeiro de 2023 para interromper seu governo mal iniciado.
Mas não foram CPFs que acolheram em diversas partes do país os golpistas acampados à porta de quarteis; ali, área de segurança nacional, sem o endosso do CNPJ, ninguém acampa.
Sem endosso do CNPJ, CPF não movimenta tropas e armamento pesado para retardar a prisão de golpistas como aconteceu na noite do 8 de janeiro, nem sugere uma operação para restaurar a ordem.
Foi um golpe militar que derrubou a monarquia e proclamou a República entre nós. Foi um golpe militar que levou Getúlio Vargas ao poder em 1930 e que o retirou de lá em 1945.
Getúlio voltou em 1950, desta vez pelo povo popular, matando-se com um tiro no peito quatro anos depois para não ser derrubado por outro golpe. Sua morte postergou em 10 anos a ditadura de 64.
A anistia de 1976, dita ampla, geral e irrestrita, perdoou os crimes dos militares que torturaram e mataram adversários do regime; esses, pagaram seus crimes com o próprio sangue.
Uma anistia de araque, portanto, que serviu mais a um lado do que ao outro; uma anistia que dispensou as Forças Armadas de ao menos pedirem desculpa e de revisarem sua formação.
Às vésperas de completar 40 anos, a democracia brasileira ainda coxeia, sente-se ameaçada e inspira cuidados.
Ricardo Noblat
terça-feira, 17 de dezembro de 2024
Os pilares do seu corpo
Imagine-se morando com pessoas queridas num prédio com nove pilares. Se um fica comprometido você se preocupa, mas espera que os engenheiros tenham feito os cálculos com boa margem de segurança. Em seguida vem a notícia, derivada de estudos confiáveis e testados, de que não é um, são seis ou sete os pilares comprometidos (areia inadequada na construção, ferragem enferrujada, vazamentos de água e líquidos tóxicos…).
Qual sua reação? Foge do prédio? Para onde, se você não tem outro pouso? Fica quieto? Banca avestruz e diz que os especialistas estão errados? Ou age em defesa dos interesses seus e dos seus filhos/as e netos/as? Como agir, dado o enorme diferencial entre o seu poder e o daqueles que minimizam ou postergam o enfrentamento das causas do problema? E fazem-no por se saberem culpados, em razão de suas ações passadas e presentes, e por estarem cientes de que, por justiça, deveriam arcar com os custos da correção dos danos! E se os poderosos culpados não agem e você não tem outro pouso, fazer o quê?
Agir implica riscos e não agir resulta, mais dia menos dia, no desabamento do prédio, pois o processo de degradação dos pilares continua.
Podemos substituir a imagem dos pilares do prédio pelos do corpo de uma filha sua, ou seja, seus sistemas vitais. Imagine que as ações de certas pessoas já comprometeram, com maior ou menor severidade, o sistema circulatório dela, o muscular, o digestório, o endócrino e o urinário… Restam poucas chances de uma boa vida futura para sua querida filha, não? E você faz o quê com os responsáveis pelo comprometimento dos sistemas vitais dela? Como disse Gonzaguinha: “Você deve estampar um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado”???!!!
Digamos que sua filha se chama Gaia, nome da deusa grega tida como a mãe-terra. Assim como sua filha, a outra Gaia, este único planeta habitável, tem sistemas vitais (atmosfera, hidrosfera, criosfera, geosfera e a biosfera) comprometidos. Todos eles, com maior ou menor severidade, degradados pela insensata marcha da civilização industrial, cuja dinâmica, em seus cerca de três séculos, conseguiu danificar os sistemas vitais do planeta, alguns além da capacidade de regeneração e, parece, prestes a explodirem. Mas essa mesma (dita) civilização não foi capaz de dar à 80% dos humanos vida digna; essa parcela de humanos “não vive, apena aguenta”!
Para salvarmos nossas filhas e netas temos que buscar maneiras de substituir os processos de degradação por outros, de recuperação; os mecanismos de competição pelos de cooperação; o foco na acumulação pela prioridade à distribuição; a busca do (indefinido) “desenvolvimento” pela qualidade de vida, já; o poder das armas pela força das ideias, da cultura e da solidariedade. Tudo o mais é promessa de políticos e seus aliados para se darem bem, cegos à violência contra as Gaias, sua filha e o planeta.
Embora possam parecer, as regras que regem a dinâmica das sociedades humanas não são eternas; algumas duram séculos, outras apenas décadas. Mudar a dinâmica atual na direção indicada acima é, pois, possível, essencial e urgente!
Qual sua reação? Foge do prédio? Para onde, se você não tem outro pouso? Fica quieto? Banca avestruz e diz que os especialistas estão errados? Ou age em defesa dos interesses seus e dos seus filhos/as e netos/as? Como agir, dado o enorme diferencial entre o seu poder e o daqueles que minimizam ou postergam o enfrentamento das causas do problema? E fazem-no por se saberem culpados, em razão de suas ações passadas e presentes, e por estarem cientes de que, por justiça, deveriam arcar com os custos da correção dos danos! E se os poderosos culpados não agem e você não tem outro pouso, fazer o quê?
Agir implica riscos e não agir resulta, mais dia menos dia, no desabamento do prédio, pois o processo de degradação dos pilares continua.
Podemos substituir a imagem dos pilares do prédio pelos do corpo de uma filha sua, ou seja, seus sistemas vitais. Imagine que as ações de certas pessoas já comprometeram, com maior ou menor severidade, o sistema circulatório dela, o muscular, o digestório, o endócrino e o urinário… Restam poucas chances de uma boa vida futura para sua querida filha, não? E você faz o quê com os responsáveis pelo comprometimento dos sistemas vitais dela? Como disse Gonzaguinha: “Você deve estampar um ar de alegria e dizer tudo tem melhorado”???!!!
Digamos que sua filha se chama Gaia, nome da deusa grega tida como a mãe-terra. Assim como sua filha, a outra Gaia, este único planeta habitável, tem sistemas vitais (atmosfera, hidrosfera, criosfera, geosfera e a biosfera) comprometidos. Todos eles, com maior ou menor severidade, degradados pela insensata marcha da civilização industrial, cuja dinâmica, em seus cerca de três séculos, conseguiu danificar os sistemas vitais do planeta, alguns além da capacidade de regeneração e, parece, prestes a explodirem. Mas essa mesma (dita) civilização não foi capaz de dar à 80% dos humanos vida digna; essa parcela de humanos “não vive, apena aguenta”!
Para salvarmos nossas filhas e netas temos que buscar maneiras de substituir os processos de degradação por outros, de recuperação; os mecanismos de competição pelos de cooperação; o foco na acumulação pela prioridade à distribuição; a busca do (indefinido) “desenvolvimento” pela qualidade de vida, já; o poder das armas pela força das ideias, da cultura e da solidariedade. Tudo o mais é promessa de políticos e seus aliados para se darem bem, cegos à violência contra as Gaias, sua filha e o planeta.
Embora possam parecer, as regras que regem a dinâmica das sociedades humanas não são eternas; algumas duram séculos, outras apenas décadas. Mudar a dinâmica atual na direção indicada acima é, pois, possível, essencial e urgente!
Pensar o país
Pensar o meu país. De repente toda a gente se pôs a um canto a meditar o país. Nunca o tínhamos pensado, pensáramos apenas os que o governavam sem pensar. E de súbito foi isto. Mas para se chegar ao país tem de se atravessar o espesso nevoeiro da mediocralhada que o infestou. Será que a democracia exige a mediocridade? Mas os povos civilizados dizem que não. Nós é que temos um estilo de ser medíocres. Não é questão de se ser ignorante, incompetente e tudo o mais que se pode acrescentar ao estado em bruto. Não é questão de se ser estúpido. Temos saber, temos inteligência. A questão é só a do equilíbrio e harmonia, a questão é a do bom senso. Há um modo profundo de se ser que fica vivo por baixo de todas as cataplasmas de verniz que se lhe aplicarem. Há um modo de se ser grosseiro, sem ao menos se ter o rasgo de assumir a grosseria. E o resultado é o ridículo, a fífia, a «fuga do pé para o chinelo». O Espanhol é um «bárbaro», mas assume a barbaridade. Nós somos uns campónios com a obsessão de parecermos civilizados. O Francês é um ser artificioso, mas que vive dentro do artifício. O Alemão é uma broca ou um parafuso, mas que tem o feitio de uma broca ou de um parafuso. O Italiano é um histérico, mas que se investe da sua condição no parlapatar barato, na gritaria. O Inglês é um sujeito grave de coco, mas que assume a gravidade e o ridículo que vier nela. Nós somos sobretudo ridículos porque o não queremos parecer. A politiqueirada portuguesa é uma gentalha execranda, parlapatona, intriguista, charlatã, exibicionista, fanfarrona, de um empertigamento patarreco — e tocante de candura. Deus. É pois isto a democracia?
Vergílio Ferreira, "Conta-Corrente 2"
Um buraco à espreita da América
Kurt Gödel, de origem austro-húngara, foi um dos maiores matemáticos do mundo moderno. Demonstrou a incompletude dos sistemas axiomáticos, inclusive da própria matemática, que comportaria falhas. De sua atribulada história pessoal consta o episódio conhecido como "buraco de Gödel": na solenidade de sua naturalização americana, ele quis apontar um buraco lógico na Constituição dos EUA que abriria caminho para uma ditadura. Foi contido pelo padrinho Einstein e pelo juiz, que o teria mandado calar-se. Nunca mais voltou ao assunto, jamais se soube onde estaria o furo.
A realidade é que essa Carta resulta de um país fundado por intelectuais como Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton, John Adams e outros citados como "founding fathers". Segunda proclamada no mundo, em 1787, é também a menor existente, com cinco capítulos e 27 emendas. Uma simplicidade aparente, pois é a mais difícil de acolher emendas, o que explicaria a persistência de vieses antidemocráticos. Feita em nome da liberdade, passou ao largo da abolição da escravatura. Seu principal cuidado é o equilíbrio entre o poder central e o dos estados, cerceando eventuais inclinações autocráticas por um sistema de contrapesos,
Uma coisa é o formalismo de um sistema, outra a sua inserção numa forma de vida. No fluxo vital é que as palavras ganham pleno sentido e aparece a diversidade radical dos indivíduos em meio à sua aparente semelhança. Isso era significativo quando a união constitucional não destoava dos discursos civis nem de como a mídia figurava a cidadania americana.
Tudo começou a mudar desde os anos 60 com a crescente percepção de ameaça identitária por parte de grupos sociais. Após forte onda imigratória e profundo rearranjo partidário, os republicanos consolidaram-se como bunker paranoico dos cristãos brancos, da supremacia racial e da reação aos costumes. A intensidade das mudanças, inclusive as demográficas, contribui para a percepção de fenecimento do mito da "verdadeira América".
Trump é fruto maduro dessa transformação. Em qualidades humanas, um fruto podre, ou "brain rot", a expressão do ano. Posto na balança, é uma derivação de presidentes como Reagan, Nixon, Bush, só que com aberrações pessoais expostas. No governo, não assassinou com drones tanta gente como o liberal e simpático Obama.
Nenhum desses brucutus parece ter sequer sonhado em violar a Constituição apregoada pela razão liberal como a mais sólida do mundo. Mas a razão também sonha, diz Goya, e assim "produz monstros". O pesadelo de uma brecha racional para a monstruosidade da ditadura poderia ser o "buraco de Gödel".
Talvez não se precise de furo lógico. Um buraco real já pode estar aberto na civilidade que sustenta a Constituição. A Suprema Corte parece feita de supremos cortesões. E Trump, disposto a testar a resiliência do sistema, aparelha o seu secretariado com o top de linha do sórdido em termos civis e gerenciais. "O horror, o horror", exclama o coronel Kurtz em "Coração das Trevas" e "Apocalypse Now". E trevas justificam a Lei de Murphy: o que é ruim tende a piorar.
A realidade é que essa Carta resulta de um país fundado por intelectuais como Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Alexander Hamilton, John Adams e outros citados como "founding fathers". Segunda proclamada no mundo, em 1787, é também a menor existente, com cinco capítulos e 27 emendas. Uma simplicidade aparente, pois é a mais difícil de acolher emendas, o que explicaria a persistência de vieses antidemocráticos. Feita em nome da liberdade, passou ao largo da abolição da escravatura. Seu principal cuidado é o equilíbrio entre o poder central e o dos estados, cerceando eventuais inclinações autocráticas por um sistema de contrapesos,
Uma coisa é o formalismo de um sistema, outra a sua inserção numa forma de vida. No fluxo vital é que as palavras ganham pleno sentido e aparece a diversidade radical dos indivíduos em meio à sua aparente semelhança. Isso era significativo quando a união constitucional não destoava dos discursos civis nem de como a mídia figurava a cidadania americana.
Tudo começou a mudar desde os anos 60 com a crescente percepção de ameaça identitária por parte de grupos sociais. Após forte onda imigratória e profundo rearranjo partidário, os republicanos consolidaram-se como bunker paranoico dos cristãos brancos, da supremacia racial e da reação aos costumes. A intensidade das mudanças, inclusive as demográficas, contribui para a percepção de fenecimento do mito da "verdadeira América".
Trump é fruto maduro dessa transformação. Em qualidades humanas, um fruto podre, ou "brain rot", a expressão do ano. Posto na balança, é uma derivação de presidentes como Reagan, Nixon, Bush, só que com aberrações pessoais expostas. No governo, não assassinou com drones tanta gente como o liberal e simpático Obama.
Nenhum desses brucutus parece ter sequer sonhado em violar a Constituição apregoada pela razão liberal como a mais sólida do mundo. Mas a razão também sonha, diz Goya, e assim "produz monstros". O pesadelo de uma brecha racional para a monstruosidade da ditadura poderia ser o "buraco de Gödel".
Talvez não se precise de furo lógico. Um buraco real já pode estar aberto na civilidade que sustenta a Constituição. A Suprema Corte parece feita de supremos cortesões. E Trump, disposto a testar a resiliência do sistema, aparelha o seu secretariado com o top de linha do sórdido em termos civis e gerenciais. "O horror, o horror", exclama o coronel Kurtz em "Coração das Trevas" e "Apocalypse Now". E trevas justificam a Lei de Murphy: o que é ruim tende a piorar.
Filho golpista não tem pai
Filho feio não tem pai. As Forças Armadas hoje procuram afastar os laços com Braga Netto, considerando-o traidor da farda e, ao lado de Bolsonaro, arquiteto do golpe de 2022. Nem sempre foi assim.
Em 2018, quando a popularidade da caserna atingia o auge, os políticos tradicionais eram demonizados e Bolsonaro já ocupava o segundo lugar nas pesquisas eleitorais para presidente, Braga Netto foi escolhido para chefiar a intervenção federal no Rio. A operação foi um desastre digno do governo Temer, não mudou o quadro de insegurança, deixou um rastro de casos de corrupção e os milicianos aproveitaram para matar Marielle. Mas o caminho para a entrada dos generais no poder estava aberto.
Quatro estrelas no ombro, Braga Netto era um deles. Construiu a imagem de discreto, o perfil técnico que iria moderar os arroubos do capitão. Dizia-se nos bastidores que detestava política. Como ministro da Casa Civil, decidiu sobre a compra ou não de vacinas, abafou a crise de oxigênio em Manaus, aprovou a importação e a fabricação de cloroquina. Em 2020, durante a pandemia, chegou a receber quase R$ 1 milhão de salário. Deve ter sido aí que passou a gostar de política.
Candidato a vice-presidente derrotado na chapa de Bolsonaro, partiu para o terror, combinando em sua própria casa a eliminação de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. É difícil imaginar que Braga Netto tenha pensado em tudo sozinho. Outras cabeças estão livres. Por enquanto.
Braga Netto usou à vontade a estrutura do PL para montar um QG do golpe e ainda deixou documentos impressos como prova. Ao conspirar contra a democracia na sede da sigla, fica evidente que o filho feio não pertence apenas ao Exército. Valdemar Costa Neto assumiu a criança com orgulho. O partido só desistiu de lançar a candidatura do general a prefeito do Rio quando ele se tornou inelegível. Alexandre Ramagem, não à toa também indiciado pela Polícia Federal na trama golpista, era o plano B.
Mauro Cid disse que Braga Netto recebeu dinheiro do "pessoal do agronegócio", repassando-o em sacolas de vinho aos kids pretos. Nunca se viu um rebento com tantos progenitores.
Alvaro Costa e Silva
Em 2018, quando a popularidade da caserna atingia o auge, os políticos tradicionais eram demonizados e Bolsonaro já ocupava o segundo lugar nas pesquisas eleitorais para presidente, Braga Netto foi escolhido para chefiar a intervenção federal no Rio. A operação foi um desastre digno do governo Temer, não mudou o quadro de insegurança, deixou um rastro de casos de corrupção e os milicianos aproveitaram para matar Marielle. Mas o caminho para a entrada dos generais no poder estava aberto.
Quatro estrelas no ombro, Braga Netto era um deles. Construiu a imagem de discreto, o perfil técnico que iria moderar os arroubos do capitão. Dizia-se nos bastidores que detestava política. Como ministro da Casa Civil, decidiu sobre a compra ou não de vacinas, abafou a crise de oxigênio em Manaus, aprovou a importação e a fabricação de cloroquina. Em 2020, durante a pandemia, chegou a receber quase R$ 1 milhão de salário. Deve ter sido aí que passou a gostar de política.
Candidato a vice-presidente derrotado na chapa de Bolsonaro, partiu para o terror, combinando em sua própria casa a eliminação de Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes. É difícil imaginar que Braga Netto tenha pensado em tudo sozinho. Outras cabeças estão livres. Por enquanto.
Braga Netto usou à vontade a estrutura do PL para montar um QG do golpe e ainda deixou documentos impressos como prova. Ao conspirar contra a democracia na sede da sigla, fica evidente que o filho feio não pertence apenas ao Exército. Valdemar Costa Neto assumiu a criança com orgulho. O partido só desistiu de lançar a candidatura do general a prefeito do Rio quando ele se tornou inelegível. Alexandre Ramagem, não à toa também indiciado pela Polícia Federal na trama golpista, era o plano B.
Mauro Cid disse que Braga Netto recebeu dinheiro do "pessoal do agronegócio", repassando-o em sacolas de vinho aos kids pretos. Nunca se viu um rebento com tantos progenitores.
Alvaro Costa e Silva
A lealdade do general Braga Netto a Bolsonaro não é retribuída
Uma vez que a política é como uma nuvem que muda de forma a cada momento, não cobre acertos em demasia a quem é obrigado a observá-la e a escrever a respeito. O “Repórter Esso”, o primeiro noticiário de radiojornalismo do Brasil, se dizia “testemunha ocular da história” entre os anos 1940 e final dos anos 1960.
Mas isso era força de expressão acima de tudo. “Testemunha ocular” é quem presencia diretamente um fato ou evento, podendo relatar em detalhes o que viu, ouviu ou percebeu. Raramente, e não só aqui, assistimos de fato o que acontece. Ouvimos muito sobre o que aconteceu depois do acontecido, e aí registramos.
Feita a ressalva… Em off, sempre em off, parte dos que se oferecem como porta-vozes informais do meio militar diz que por ali reina paz apesar da prisão de um general de quatro estrelas, da detenção de oito altos oficiais e do indiciamento de outros 25 por suspeita de terem tramado a derrubada do Estado Democrático de Direito.
Outra parte dos porta-vozes informais do meio militar, contudo, em off, sempre em off, diz que não é bem assim. Reina muito nervosismo entre militares da ativa e da caserna, e tanto mais porque espera-se, em breve, o indiciamento de novos oficiais de alta patente, inclusive generais, implicados no golpe que fracassou.
O atual comando do Exército e da Aeronáutica é legalista; o da Marinha, há poucas semanas, revelou-se menos ao postar em suas redes um vídeo que exaltava a vida dura dos militares em contraste com a aparente boa vida dos paisanos. Lula ficou furioso e cobrou explicações. Aguarda um pedido de desculpas do comandante.
Quem também aguarda é José Múcio Monteiro, ministro da Defesa, conhecido entre os colegas como “ministro-do-deixa disso”. Múcio foi pego de surpresa pelo vídeo. Desde que tomou posse, Lula já almoçou ou jantou com os comandantes quatro vezes – uma única, na casa de um deles, justamente o da Marinha.
Presidente da República não pede desculpas. Se não quiser ser substituído, então que o comandante da Marinha peça desculpas. Não é humilhação admitir que errou. Múcio já substituiu um comandante do Exército antes que Lula exigisse sua demissão. Lula sabe ser bonzinho quando quer, ou mau como um pica-pau.
Bolsonaro é useiro e vezeiro em abandonar quem lhe fez companhia e acabou mais tarde caindo em desgraça. Deu sinais de que continuará se comportando assim ao saber da prisão de Braga Netto, seu ex-ministro da Casa Civil e da Defesa, e candidato a vice-presidente em sua chapa nas eleições de 2022.
Levou 12 horas para dizer algo. E quando disse, não foi para defender o general, mas para reclamar da Polícia Federal que o teria indiciado depois do encerramento do inquérito. Braga Netto notou a diferença. Se condenado, os crimes que lhe são atribuídos poderão render uma pena de prisão superior a 30 anos.
Um trecho da nota de defesa do general dá uma pista de como ele poderá reagir ao abandono anunciado por Bolsonaro. Eis o trecho:
– Durante o governo passado, [o general] foi um dos poucos, entre civis e militares, que manteve lealdade ao presidente Bolsonaro até o final do governo, em dezembro de 2022, e a mantém até os dias atuais, por crença nos mesmos valores e princípios inegociáveis.
Que valores e princípios inegociáveis são esses? A lealdade é um dos valores mais cultuados pelos militares. A obediência é outro valor. Soldado algum obedece à ordem de ir à guerra e arrisca-se a morrer se seu superior não for leal a ele, e vice-versa. Não se abandonam feridos e mortos em campos de batalha.
Como tudo isso acabará um dia? Não faço ideia. Torço para que acabe bem, com a punição dos culpados e o fortalecimento da democracia. Mas aprendi há muito tempo que não posso confundir o que desejo que aconteça com o que irá acontecer. Daí porque sigo observando a nuvem com meu olho já cansado.
Mas isso era força de expressão acima de tudo. “Testemunha ocular” é quem presencia diretamente um fato ou evento, podendo relatar em detalhes o que viu, ouviu ou percebeu. Raramente, e não só aqui, assistimos de fato o que acontece. Ouvimos muito sobre o que aconteceu depois do acontecido, e aí registramos.
Feita a ressalva… Em off, sempre em off, parte dos que se oferecem como porta-vozes informais do meio militar diz que por ali reina paz apesar da prisão de um general de quatro estrelas, da detenção de oito altos oficiais e do indiciamento de outros 25 por suspeita de terem tramado a derrubada do Estado Democrático de Direito.
Outra parte dos porta-vozes informais do meio militar, contudo, em off, sempre em off, diz que não é bem assim. Reina muito nervosismo entre militares da ativa e da caserna, e tanto mais porque espera-se, em breve, o indiciamento de novos oficiais de alta patente, inclusive generais, implicados no golpe que fracassou.
O atual comando do Exército e da Aeronáutica é legalista; o da Marinha, há poucas semanas, revelou-se menos ao postar em suas redes um vídeo que exaltava a vida dura dos militares em contraste com a aparente boa vida dos paisanos. Lula ficou furioso e cobrou explicações. Aguarda um pedido de desculpas do comandante.
Quem também aguarda é José Múcio Monteiro, ministro da Defesa, conhecido entre os colegas como “ministro-do-deixa disso”. Múcio foi pego de surpresa pelo vídeo. Desde que tomou posse, Lula já almoçou ou jantou com os comandantes quatro vezes – uma única, na casa de um deles, justamente o da Marinha.
Presidente da República não pede desculpas. Se não quiser ser substituído, então que o comandante da Marinha peça desculpas. Não é humilhação admitir que errou. Múcio já substituiu um comandante do Exército antes que Lula exigisse sua demissão. Lula sabe ser bonzinho quando quer, ou mau como um pica-pau.
Bolsonaro é useiro e vezeiro em abandonar quem lhe fez companhia e acabou mais tarde caindo em desgraça. Deu sinais de que continuará se comportando assim ao saber da prisão de Braga Netto, seu ex-ministro da Casa Civil e da Defesa, e candidato a vice-presidente em sua chapa nas eleições de 2022.
Levou 12 horas para dizer algo. E quando disse, não foi para defender o general, mas para reclamar da Polícia Federal que o teria indiciado depois do encerramento do inquérito. Braga Netto notou a diferença. Se condenado, os crimes que lhe são atribuídos poderão render uma pena de prisão superior a 30 anos.
Um trecho da nota de defesa do general dá uma pista de como ele poderá reagir ao abandono anunciado por Bolsonaro. Eis o trecho:
– Durante o governo passado, [o general] foi um dos poucos, entre civis e militares, que manteve lealdade ao presidente Bolsonaro até o final do governo, em dezembro de 2022, e a mantém até os dias atuais, por crença nos mesmos valores e princípios inegociáveis.
Que valores e princípios inegociáveis são esses? A lealdade é um dos valores mais cultuados pelos militares. A obediência é outro valor. Soldado algum obedece à ordem de ir à guerra e arrisca-se a morrer se seu superior não for leal a ele, e vice-versa. Não se abandonam feridos e mortos em campos de batalha.
Como tudo isso acabará um dia? Não faço ideia. Torço para que acabe bem, com a punição dos culpados e o fortalecimento da democracia. Mas aprendi há muito tempo que não posso confundir o que desejo que aconteça com o que irá acontecer. Daí porque sigo observando a nuvem com meu olho já cansado.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2024
Arte e silêncio falam por nós em mundo desumano
‘Palavras são minha matéria. Elas fazem coisas, mudam coisas, formam ondas contínuas’, garante o belo manifesto de 2016 da escritora Ursula K. Le Guin sobre a mágica do diálogo humano. Elas transformam tanto quem as pronuncia como quem as ouve, produzem energia e expandem o viver. Demandamos delas o que muitas vezes não podem carregar — a complexidade da experiência, a polifonia de vozes que habitam nosso interior. Tampouco a demanda por clareza em meio à névoa do viver. Quando palavras nos falham, quando essas peças pré-fabricadas se revelam pequenas demais para traduzir o intraduzível, falamos por meio do silêncio. Ou da arte.
Primo Levi começou a escrever o seminal “É isto um homem?” em dezembro de 1945, imediatamente depois de retornar do campo de Auschwitz para sua Turim natal, num “impulso violento e imediato”, como indicou no prefácio da época. Iniciou pelo último capítulo, que trata dos dez dias entre a derrocada dos nazistas e a chegada dos russos que libertaram o campo. O manuscrito enviado à editora italiana Einaudi acabou rejeitado por ninguém menos que Natalia Ginzburg, mas o escritor compreendeu: a negativa fora expressão de uma rejeição coletiva e ampla. Naquele imediato Pós-Guerra, viveu-se “um tempo de esquecimento voluntário, de relação conflituosa entre a memória e o olvido”. Ao contrário do que havia ocorrido ao final da Grande Guerra de 1914-18, cuja memória coletiva logo se espraiou e alterou comportamentos no continente europeu, na barbárie seguinte deu-se o contrário. A torrente inicial de relatos feitos por sobreviventes permaneceu desestimulada por quase duas décadas.
No relato de Levi, as vítimas nem sempre morrem, simplesmente vão se apagando, desaparecem. Uma cena descreve o raro enforcamento público de um prisioneiro que participara de um levante no campo de Birkenau, cuja punição, paradoxalmente, conseguiu devolver-lhe humanidade e identidade.
Meses atrás o editor israelense Noam Sheizaf debruçou-se sobre uma nova versão em hebraico de “É isto um homem?” para refletir sobre a desumanização crescente e contínua de lá para cá. Houve o genocídio cometido pelo governo de Ruanda em 1994 (quase 1 milhão de tútsis chacinados em apenas três meses), houve o massacre de 8.372 meninos e homens muçulmanos na Bósnia enquanto fugiam de olhos vendados e mãos amarradas pelos rios, floresta e campos de Srebrenica, há a metódica asfixia do viver e ser palestino em Gaza. Com a separação em curso entre humanidade e ser humano, está cada vez mais difícil encontrar palavras que nos devolvam o sentido de responsabilidade, envolvimento, um mínimo de honestidade interior e consciência.
Exatamente uma semana atrás, no alto de uma colina de Damasco, capital da Síria, os portões da infame prisão política de Sednaya foram derrubados a marretadas, em sequência ao golpe-relâmpago que implodiu a longeva ditadura dos Assad. Daquela masmorra onde perto de 30 mil presos políticos simplesmente sumiram e outros tantos foram declarados mortos, começaram a emergir os sobreviventes de 53 anos de ditadura e 13 de guerra civil. Alguns haviam perdido a memória, outros partes do corpo, muitos a própria alma. Em sentido contrário, colina acima, uma fila cerrada de vultos acorreu em busca de esperança — uma pista, um documento, algum vestígio de parente engolido há anos pela engrenagem do regime deposto. Será preciso reaprender a falar, a usar a palavra, a sair do silêncio, a apoiar-se na potência transformadora da arte.
O “presente” anunciado no título deste texto é um convite, grátis (disponível no link). Trata-se de um curta intitulado “AMA”, referência à milenar tradição japonesa de mergulhadoras de pérolas. A música “Sarajevo”, do compositor germano-britânico Max Richter, despedaça, enleva, perturba. Ela conta o cerco estrangulador de três anos, dez meses, três semanas e três dias à cidade bósnia na guerra civil iugoslava dos anos 1990. Julie Gautier, uma artista francesa nascida na Ilha da Reunião, interpreta a música num balé subaquático de seis minutos e meio ininterruptos, sem ajuda de equipamento respiratório. Difícil não se deixar reumanizar diante do belo. Vale a pena tentar para poder respirar de novo.
Primo Levi começou a escrever o seminal “É isto um homem?” em dezembro de 1945, imediatamente depois de retornar do campo de Auschwitz para sua Turim natal, num “impulso violento e imediato”, como indicou no prefácio da época. Iniciou pelo último capítulo, que trata dos dez dias entre a derrocada dos nazistas e a chegada dos russos que libertaram o campo. O manuscrito enviado à editora italiana Einaudi acabou rejeitado por ninguém menos que Natalia Ginzburg, mas o escritor compreendeu: a negativa fora expressão de uma rejeição coletiva e ampla. Naquele imediato Pós-Guerra, viveu-se “um tempo de esquecimento voluntário, de relação conflituosa entre a memória e o olvido”. Ao contrário do que havia ocorrido ao final da Grande Guerra de 1914-18, cuja memória coletiva logo se espraiou e alterou comportamentos no continente europeu, na barbárie seguinte deu-se o contrário. A torrente inicial de relatos feitos por sobreviventes permaneceu desestimulada por quase duas décadas.
No relato de Levi, as vítimas nem sempre morrem, simplesmente vão se apagando, desaparecem. Uma cena descreve o raro enforcamento público de um prisioneiro que participara de um levante no campo de Birkenau, cuja punição, paradoxalmente, conseguiu devolver-lhe humanidade e identidade.
Meses atrás o editor israelense Noam Sheizaf debruçou-se sobre uma nova versão em hebraico de “É isto um homem?” para refletir sobre a desumanização crescente e contínua de lá para cá. Houve o genocídio cometido pelo governo de Ruanda em 1994 (quase 1 milhão de tútsis chacinados em apenas três meses), houve o massacre de 8.372 meninos e homens muçulmanos na Bósnia enquanto fugiam de olhos vendados e mãos amarradas pelos rios, floresta e campos de Srebrenica, há a metódica asfixia do viver e ser palestino em Gaza. Com a separação em curso entre humanidade e ser humano, está cada vez mais difícil encontrar palavras que nos devolvam o sentido de responsabilidade, envolvimento, um mínimo de honestidade interior e consciência.
Exatamente uma semana atrás, no alto de uma colina de Damasco, capital da Síria, os portões da infame prisão política de Sednaya foram derrubados a marretadas, em sequência ao golpe-relâmpago que implodiu a longeva ditadura dos Assad. Daquela masmorra onde perto de 30 mil presos políticos simplesmente sumiram e outros tantos foram declarados mortos, começaram a emergir os sobreviventes de 53 anos de ditadura e 13 de guerra civil. Alguns haviam perdido a memória, outros partes do corpo, muitos a própria alma. Em sentido contrário, colina acima, uma fila cerrada de vultos acorreu em busca de esperança — uma pista, um documento, algum vestígio de parente engolido há anos pela engrenagem do regime deposto. Será preciso reaprender a falar, a usar a palavra, a sair do silêncio, a apoiar-se na potência transformadora da arte.
O “presente” anunciado no título deste texto é um convite, grátis (disponível no link). Trata-se de um curta intitulado “AMA”, referência à milenar tradição japonesa de mergulhadoras de pérolas. A música “Sarajevo”, do compositor germano-britânico Max Richter, despedaça, enleva, perturba. Ela conta o cerco estrangulador de três anos, dez meses, três semanas e três dias à cidade bósnia na guerra civil iugoslava dos anos 1990. Julie Gautier, uma artista francesa nascida na Ilha da Reunião, interpreta a música num balé subaquático de seis minutos e meio ininterruptos, sem ajuda de equipamento respiratório. Difícil não se deixar reumanizar diante do belo. Vale a pena tentar para poder respirar de novo.
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