sábado, 8 de abril de 2023
Massacres em escolas trazem muitas perguntas
Estou longe de ser um especialista na matéria, mas, por coordenar um grupo de pesquisa com integrantes que estudam este tema e por ter olhado mais de uma vez para as comunidades on-line que cultuam massacres, acho que tenho algo a compartilhar com os leitores. Abaixo, elenquei algumas perguntas que me faço sobre esse fenômeno sinistro. Agradeço a Michele Prado pela generosa interlocução.
A pergunta mais inquietante e mais fundamental é a seguinte: o que move adolescentes e crianças a cometer assassinatos em massa? A literatura acadêmica americana dá algumas pistas, se supusermos que aqui acontece algo parecido com lá: os agressores normalmente — mas nem sempre — têm problemas mentais, de tipos diversos, e enfrentaram um período recente de forte adversidade social (bullying, desemprego ou humilhação) ou agravamento de sua condição psicológica.
Isso dá o contexto, mas, obviamente, não explica o que ocorre. Não é de hoje que adolescentes sofrem bullying e enfrentam problemas psicológicos, mas só de uns anos para cá alguns respondem a essas situações planejando e executando massacres.
É bastante perturbador ler o que os agressores têm a dizer, mas nessas mensagens publicadas em fóruns e mídias sociais talvez se encontrem pistas para responder à pergunta. Ao lê-las, duas coisas me chamam a atenção.
A primeira é o sentimento de onipotência na idealização dos massacres. O adolescente que executou um tio e sete colegas numa escola em Suzano, em 2019, passou mais de ano escrevendo uma espécie de diário no Twitter. Nos tuítes, ele se imagina entrando armado na escola e exercendo um poder de vida e morte sobre os colegas, como um Deus. É profundamente desconcertante a desumanização das vítimas nessas postagens.
A segunda coisa que chama a atenção é a busca de reconhecimento, uma espécie de redenção, de salvação por meio do crime mais abjeto. Muitos agressores participam de comunidades virtuais com outros jovens que cultuam massacres passados. De certa forma, ao cometer um crime pavoroso, eles saem da condição anônima de jovens rebaixados, se inscrevem nessa história de assassinos célebres e conseguem o reconhecimento que tanto procuram. Por meio de um expediente criminoso, conseguem se fazer ouvir e externar sua dor — infligindo uma dor imensa às vítimas e a suas famílias.
Acredito que a busca de reconhecimento pelos pares deve ser o que faz com que os atentados aconteçam em escolas (e não em centros comerciais ou noutros locais públicos). Querem se comunicar com e impressionar outros adolescentes — e não nós, os adultos. Os ataques a creches parecem ser uma derivação puramente casual. Em Saudades (SC), em 2021, um rapaz de 18 anos pretendia cometer um massacre na escola em que estudava, mas achou que poderia não conseguir enfrentar os adultos que trabalhavam lá. Optou por atacar uma creche onde as vítimas eram mais indefesas. Assassinou duas professoras e três bebês. O agressor da creche em Blumenau provavelmente se inspirou no crime bárbaro que aconteceu dois anos antes em seu estado.
Algo que deveria nos preocupar bastante é a velocidade com que esse tipo de atentado está escalando no Brasil. Em duas décadas, entre outubro de 2002 e janeiro de 2022, aconteceram 11 atentados com vítimas em escolas. Nos últimos 14 meses, já são 12. Estamos ficando perigosamente próximos dos Estados Unidos, onde o problema é crônico. Temos quase tantos atentados com vítimas no Brasil hoje quanto os Estados Unidos tinham em 2016, quando eles explodiram por lá.
Mais da metade dos atentados no Brasil deixou traços digitais que nos permitem vinculá-los às comunidades on-line que cultuam massacres. Algumas dessas comunidades parecem ser organizadas por adultos — não conseguimos determinar isso com certeza, porque são anônimas. Um desses que parecem ser adultos escreveu certa vez que poderia ser preso, e seu canal fechado pela polícia, mas que tudo seria em vão, porque há uma realidade subjacente de sofrimento e opressão que é a verdadeira causa destes atentados.
Essa ponderação cínica de um instigador adulto me perturba — talvez porque ele pareça ter alguma razão. Não sei bem o que tem causado tudo isso, mas obviamente estamos falhando enquanto sociedade. Para mim, é bastante claro que não se trata apenas de distúrbio psicológico dos agressores, mas de uma moléstia social do nosso tempo.
A pergunta mais inquietante e mais fundamental é a seguinte: o que move adolescentes e crianças a cometer assassinatos em massa? A literatura acadêmica americana dá algumas pistas, se supusermos que aqui acontece algo parecido com lá: os agressores normalmente — mas nem sempre — têm problemas mentais, de tipos diversos, e enfrentaram um período recente de forte adversidade social (bullying, desemprego ou humilhação) ou agravamento de sua condição psicológica.
Isso dá o contexto, mas, obviamente, não explica o que ocorre. Não é de hoje que adolescentes sofrem bullying e enfrentam problemas psicológicos, mas só de uns anos para cá alguns respondem a essas situações planejando e executando massacres.
É bastante perturbador ler o que os agressores têm a dizer, mas nessas mensagens publicadas em fóruns e mídias sociais talvez se encontrem pistas para responder à pergunta. Ao lê-las, duas coisas me chamam a atenção.
A primeira é o sentimento de onipotência na idealização dos massacres. O adolescente que executou um tio e sete colegas numa escola em Suzano, em 2019, passou mais de ano escrevendo uma espécie de diário no Twitter. Nos tuítes, ele se imagina entrando armado na escola e exercendo um poder de vida e morte sobre os colegas, como um Deus. É profundamente desconcertante a desumanização das vítimas nessas postagens.
A segunda coisa que chama a atenção é a busca de reconhecimento, uma espécie de redenção, de salvação por meio do crime mais abjeto. Muitos agressores participam de comunidades virtuais com outros jovens que cultuam massacres passados. De certa forma, ao cometer um crime pavoroso, eles saem da condição anônima de jovens rebaixados, se inscrevem nessa história de assassinos célebres e conseguem o reconhecimento que tanto procuram. Por meio de um expediente criminoso, conseguem se fazer ouvir e externar sua dor — infligindo uma dor imensa às vítimas e a suas famílias.
Acredito que a busca de reconhecimento pelos pares deve ser o que faz com que os atentados aconteçam em escolas (e não em centros comerciais ou noutros locais públicos). Querem se comunicar com e impressionar outros adolescentes — e não nós, os adultos. Os ataques a creches parecem ser uma derivação puramente casual. Em Saudades (SC), em 2021, um rapaz de 18 anos pretendia cometer um massacre na escola em que estudava, mas achou que poderia não conseguir enfrentar os adultos que trabalhavam lá. Optou por atacar uma creche onde as vítimas eram mais indefesas. Assassinou duas professoras e três bebês. O agressor da creche em Blumenau provavelmente se inspirou no crime bárbaro que aconteceu dois anos antes em seu estado.
Algo que deveria nos preocupar bastante é a velocidade com que esse tipo de atentado está escalando no Brasil. Em duas décadas, entre outubro de 2002 e janeiro de 2022, aconteceram 11 atentados com vítimas em escolas. Nos últimos 14 meses, já são 12. Estamos ficando perigosamente próximos dos Estados Unidos, onde o problema é crônico. Temos quase tantos atentados com vítimas no Brasil hoje quanto os Estados Unidos tinham em 2016, quando eles explodiram por lá.
Mais da metade dos atentados no Brasil deixou traços digitais que nos permitem vinculá-los às comunidades on-line que cultuam massacres. Algumas dessas comunidades parecem ser organizadas por adultos — não conseguimos determinar isso com certeza, porque são anônimas. Um desses que parecem ser adultos escreveu certa vez que poderia ser preso, e seu canal fechado pela polícia, mas que tudo seria em vão, porque há uma realidade subjacente de sofrimento e opressão que é a verdadeira causa destes atentados.
Essa ponderação cínica de um instigador adulto me perturba — talvez porque ele pareça ter alguma razão. Não sei bem o que tem causado tudo isso, mas obviamente estamos falhando enquanto sociedade. Para mim, é bastante claro que não se trata apenas de distúrbio psicológico dos agressores, mas de uma moléstia social do nosso tempo.
Dançarinos do arame
Dentro das atuais coordenadas do espaço e do tempo, aqui nos vamos equilibrando sobre este fio de vida...
Que rede de segurança, pensamos nós, cheios de esperança e medo, que rede de segurança nos aparará?Mário Quintana, "Caderno H"
O retorno dos engenheiros do caos
Atenção! É preciso que o Centro do espectro político se prepare. O retorno de Jair Bolsonaro ao Brasil já reativou as máquinas digitais dos “engenheiros do caos”, nas redes sociais e no ciberespaço. O reforço da calcificação da polarização política.
É boa hora para ler, ou reler, o livro “Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli. Ele narra os fatos, eventos e fenômenos que convergiram para a ascensão dos físicos, cientistas e consultores especializados em Big Data, oriundos das premissas da física quântica. Criaram, na metáfora de Empoli, “partidos-algoritmos”, sobrepujando os partidos políticos tradicionais.
São os protagonistas da utilização das plataformas digitais, a partir do Facebook, para a construção do neo-populismo em escala transnacional: Gianroberto Casaleggio, com o Movimento 5 Estrelas na Itália; Steve Bannon, com Trump nos EUA; Dominic Cummings, com o Brexit no Reino Unido; Milo Yannopoulos, o blogueiro inglês que trabalhou com Trump; e Arthur Finkelstein, conselheiro de Viktor Orban. Dentre muitos outros.
Entenderam e canalizaram o espírito da época para a construção do neo-populismo. O nome do jogo é engajamento. Para canalizar o medo, a raiva, o ódio e a cólera. Escolhendo inimigos políticos para calcificar a polarização política, em causação circular. Cultivar a cólera e estimular o narcisismo das “selfies”, para criar sensação de pertencimento, tensionando a polarização política com os seus algoritmos.

Esvaziam a possibilidade da moderação política que converge para o Centro, objetivo da democracia liberal. Estimulam os extremos. Direcionam a política para movimentos centrífugos. Que se voltam para reverter os movimentos centrípetos da democracia representativa. Em vez da moderação, o radicalismo.
O “partido digital” se torna adversário dos partidos políticos tradicionais, enfatiza Giuliano Da Empoli. Substitui a democracia liberal pela “iliberal”. Trolls, fake news, verdades alternativas que colocam a democracia representativa no canto do ringue.
Trata-se da hegemonia cultural do ciberespaço, retratada no trabalho seminal de Empoli. Aqui no Brasil resultou, como sabemos, no bolsonarismo, inspirado por Bannon e por Trump. Bolsonaro também na trilha de Carl Schimitt, citado por Empoli : “a política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo”.
Pois bem. Jair Bolsonaro está de volta. O seu PL, liderado por Valdemar Costa Neto, programa iniciar desde já viagens pelo Brasil, seja com Jair Bolsonaro, seja com Michelle Bolsonaro. Pé na estrada para alimentar engajamentos e a polarização antipetista com o governo Lula. Colocando, desde já, as eleições de 2024 nas ruas. Mirando 2024 e, principalmente, 2026. É o “modo eleição permanente”, que construiu o bolsonarismo.
Assim, mesmo com as possibilidades de inelegibilidade que pairam sobre Bolsonaro, o fato concreto é que o partido-algoritmo está de volta. Agora, também, com avanços de “novidades” tecnológicas: (1) o “deep fake”, onde a Inteligência Artificial substitui rostos em vídeos de fotos;(2) os “malwares”, softwares que transmitem informações sem consentimento dos seus proprietários; (3) os ecossistemas de nichos (fóruns de discussões e outros) que, sem monitoramento social impulsionam narrativas ( por exemplo, fraudes nas eleições).
Sinais de tensões centrífugas permanentes sobre a conjuntura política brasileira. É hora do presidente Lula materializar para valer a ideia da Frente Ampla. Isto não aconteceu ainda. Ainda é hora. Mas a ampulheta está na mesa.
Antônio Carlos de Medeiros
É boa hora para ler, ou reler, o livro “Engenheiros do Caos”, de Giuliano Da Empoli. Ele narra os fatos, eventos e fenômenos que convergiram para a ascensão dos físicos, cientistas e consultores especializados em Big Data, oriundos das premissas da física quântica. Criaram, na metáfora de Empoli, “partidos-algoritmos”, sobrepujando os partidos políticos tradicionais.
São os protagonistas da utilização das plataformas digitais, a partir do Facebook, para a construção do neo-populismo em escala transnacional: Gianroberto Casaleggio, com o Movimento 5 Estrelas na Itália; Steve Bannon, com Trump nos EUA; Dominic Cummings, com o Brexit no Reino Unido; Milo Yannopoulos, o blogueiro inglês que trabalhou com Trump; e Arthur Finkelstein, conselheiro de Viktor Orban. Dentre muitos outros.
Entenderam e canalizaram o espírito da época para a construção do neo-populismo. O nome do jogo é engajamento. Para canalizar o medo, a raiva, o ódio e a cólera. Escolhendo inimigos políticos para calcificar a polarização política, em causação circular. Cultivar a cólera e estimular o narcisismo das “selfies”, para criar sensação de pertencimento, tensionando a polarização política com os seus algoritmos.
Esvaziam a possibilidade da moderação política que converge para o Centro, objetivo da democracia liberal. Estimulam os extremos. Direcionam a política para movimentos centrífugos. Que se voltam para reverter os movimentos centrípetos da democracia representativa. Em vez da moderação, o radicalismo.
O “partido digital” se torna adversário dos partidos políticos tradicionais, enfatiza Giuliano Da Empoli. Substitui a democracia liberal pela “iliberal”. Trolls, fake news, verdades alternativas que colocam a democracia representativa no canto do ringue.
Trata-se da hegemonia cultural do ciberespaço, retratada no trabalho seminal de Empoli. Aqui no Brasil resultou, como sabemos, no bolsonarismo, inspirado por Bannon e por Trump. Bolsonaro também na trilha de Carl Schimitt, citado por Empoli : “a política consiste, antes de tudo, em identificar o inimigo”.
Pois bem. Jair Bolsonaro está de volta. O seu PL, liderado por Valdemar Costa Neto, programa iniciar desde já viagens pelo Brasil, seja com Jair Bolsonaro, seja com Michelle Bolsonaro. Pé na estrada para alimentar engajamentos e a polarização antipetista com o governo Lula. Colocando, desde já, as eleições de 2024 nas ruas. Mirando 2024 e, principalmente, 2026. É o “modo eleição permanente”, que construiu o bolsonarismo.
Assim, mesmo com as possibilidades de inelegibilidade que pairam sobre Bolsonaro, o fato concreto é que o partido-algoritmo está de volta. Agora, também, com avanços de “novidades” tecnológicas: (1) o “deep fake”, onde a Inteligência Artificial substitui rostos em vídeos de fotos;(2) os “malwares”, softwares que transmitem informações sem consentimento dos seus proprietários; (3) os ecossistemas de nichos (fóruns de discussões e outros) que, sem monitoramento social impulsionam narrativas ( por exemplo, fraudes nas eleições).
Sinais de tensões centrífugas permanentes sobre a conjuntura política brasileira. É hora do presidente Lula materializar para valer a ideia da Frente Ampla. Isto não aconteceu ainda. Ainda é hora. Mas a ampulheta está na mesa.
Antônio Carlos de Medeiros
Enzo, Larissa, Bernardo...
Na manhã da última quarta-feira, Bernardo, de 4 anos, se espreguiçou na cama pela última vez. Enzo, também de 4 anos, vestiu pela última vez o uniforme. Outro Bernardo, de 5, tomou seu último café da manhã. Larissa, de 7, se penteou — e foi a última vez que se viu no espelho.
Todos eram filhos únicos. E que filho não é único?
Dali a pouco estariam mortos, diante de outras crianças feridas, em choque, e de professoras atônitas.
Essa deveria ser a notícia. Esses, os nomes a ser lembrados.
Mas há outro personagem — que também se espreguiçou pela manhã, se vestiu, deve ter tomado café e se olhado no espelho. E que continuará a fazer isso todos os dias. Por algum tempo, dentro de uma cela; logo, muito antes que Larissa, Enzo e os xarás Bernardos pudessem saber o que é estar apaixonado e ter sofrido a primeira dor de amor, esse personagem estará de volta às mesmas ruas que Enzo, Bernardos e Larissa nunca mais pisarão.
Sete anos antes da manhã em que se armou e ligou a motocicleta, o sem nome foi preso por uma briga. Dois anos antes de pular o muro da creche, esfaqueou o padrasto. Nove meses antes de caminhar por entre os balanços e escorregadores, havia sido detido por posse de cocaína. Quatro meses antes de se lançar sobre nove crianças, a vítima de seus golpes fora um cachorro.
Em pelo menos quatro oportunidades, poderia ter sido afastado temporariamente da sociedade. Tratado, se sofresse de algum transtorno. Reeducado, em caso de desajuste. Acolhido, se vítima de um histórico de abandono. Sabe-se lá quantas vezes terá dado sinais de comportamento agressivo. E quantas chances de evitar que sua violência atingisse Bernardos, Larissa e Enzo foram perdidas.
Os meios de comunicação que levam o jornalismo a sério tornaram mais cuidadosa a divulgação desse tipo de crime. Não há fotos do assassino. Seu nome nem sequer é mencionado. Ao contrário da notoriedade que certamente almeja, terá a ignomínia — a perda do nome, o anonimato.
A cada atentado — em Caraí, Ipaussu, Medianeira, Morro do Chapéu, Janaúba, Santa Rita, São Caetano do Sul, Rio de Janeiro — debate-se o (urgente, necessário) controle de armas de fogo. Mas não há como limitar o uso de armas brancas, paus, pedras, álcool, fósforos. O problema está na motivação por trás da mão que ataca, não naquilo que a mão carrega. Está na indiferença de parentes e amigos diante dos alertas, na inoperância da polícia, na leniência da Justiça, na inexistência de um sistema eficiente de saúde mental, na falência do Estado em prover educação, segurança, assistência social.
Cada tragédia como esta — em Blumenau, São Paulo, Aracruz, Barreiras, Saudades, Suzano, Goiânia — é pretexto para que se retome a rinha politiqueira, a troca oportunista de acusações (“Faz arminha!”, “Faz o L!”). Como se a defesa da vida, a condenação da impunidade, a proteção ao cidadão fossem monopólio deste ou daquele partido.
Quem perde pai ou mãe torna-se órfão. Não há palavra para designar quem perde o filho. Desde quarta-feira, o Brasil tem os órfãos reversos de Enzo, Bernardo, Larissa — como já tinha os de Selena, Juan Pablo, Ana Clara, Kaio, João Pedro, Sarah, Anna Bela, Samira...
E mais um assassino inominável. Que em breve será outra prova viva da cegueira da Justiça.
Todos eram filhos únicos. E que filho não é único?
Dali a pouco estariam mortos, diante de outras crianças feridas, em choque, e de professoras atônitas.
Essa deveria ser a notícia. Esses, os nomes a ser lembrados.
Mas há outro personagem — que também se espreguiçou pela manhã, se vestiu, deve ter tomado café e se olhado no espelho. E que continuará a fazer isso todos os dias. Por algum tempo, dentro de uma cela; logo, muito antes que Larissa, Enzo e os xarás Bernardos pudessem saber o que é estar apaixonado e ter sofrido a primeira dor de amor, esse personagem estará de volta às mesmas ruas que Enzo, Bernardos e Larissa nunca mais pisarão.
Sete anos antes da manhã em que se armou e ligou a motocicleta, o sem nome foi preso por uma briga. Dois anos antes de pular o muro da creche, esfaqueou o padrasto. Nove meses antes de caminhar por entre os balanços e escorregadores, havia sido detido por posse de cocaína. Quatro meses antes de se lançar sobre nove crianças, a vítima de seus golpes fora um cachorro.
Em pelo menos quatro oportunidades, poderia ter sido afastado temporariamente da sociedade. Tratado, se sofresse de algum transtorno. Reeducado, em caso de desajuste. Acolhido, se vítima de um histórico de abandono. Sabe-se lá quantas vezes terá dado sinais de comportamento agressivo. E quantas chances de evitar que sua violência atingisse Bernardos, Larissa e Enzo foram perdidas.
Os meios de comunicação que levam o jornalismo a sério tornaram mais cuidadosa a divulgação desse tipo de crime. Não há fotos do assassino. Seu nome nem sequer é mencionado. Ao contrário da notoriedade que certamente almeja, terá a ignomínia — a perda do nome, o anonimato.
A cada atentado — em Caraí, Ipaussu, Medianeira, Morro do Chapéu, Janaúba, Santa Rita, São Caetano do Sul, Rio de Janeiro — debate-se o (urgente, necessário) controle de armas de fogo. Mas não há como limitar o uso de armas brancas, paus, pedras, álcool, fósforos. O problema está na motivação por trás da mão que ataca, não naquilo que a mão carrega. Está na indiferença de parentes e amigos diante dos alertas, na inoperância da polícia, na leniência da Justiça, na inexistência de um sistema eficiente de saúde mental, na falência do Estado em prover educação, segurança, assistência social.
Cada tragédia como esta — em Blumenau, São Paulo, Aracruz, Barreiras, Saudades, Suzano, Goiânia — é pretexto para que se retome a rinha politiqueira, a troca oportunista de acusações (“Faz arminha!”, “Faz o L!”). Como se a defesa da vida, a condenação da impunidade, a proteção ao cidadão fossem monopólio deste ou daquele partido.
Quem perde pai ou mãe torna-se órfão. Não há palavra para designar quem perde o filho. Desde quarta-feira, o Brasil tem os órfãos reversos de Enzo, Bernardo, Larissa — como já tinha os de Selena, Juan Pablo, Ana Clara, Kaio, João Pedro, Sarah, Anna Bela, Samira...
E mais um assassino inominável. Que em breve será outra prova viva da cegueira da Justiça.
sexta-feira, 7 de abril de 2023
Ele nos ensinou a odiar
Em minha última coluna, escrevi que Bolsonaro corrompeu, estuprou e prostituiu instituições civis e militares. Faltou espaço para acrescentar o que já me passava pela cabeça e que, poucas horas depois, a tragédia de Blumenau —crianças assassinadas a machadadas numa creche— viria confirmar: o embrutecimento e a desumanidade que ele nos legou. Bolsonaro conseguiu acrescentar um fator novo à violência a que já estávamos habituados. Acrescentou o ódio.
Nossa violência até então tinha cenários, personagens e motivações previsíveis: latrocínio, tiroteios em comunidades, balas perdidas, chacinas em prisões, ajuste de contas, queima de arquivo, crimes passionais, disputa de terras, extermínio de indígenas, assassinato de missionários e ecologistas —quase sempre, coisa de profissionais. O povo fazia parte desse horror, mas, basicamente, como vítima. Não mais. Bolsonaro ensinou os amadores a odiar.
Em quatro anos, o Brasil se reduziu a um puxadinho da Taurus. As pessoas se armaram. Trabucos saltam dos cintos nos ambientes mais inesperados. Pistolas, fuzis e metralhadoras abarrotam o porão de políticos, ex-policiais e cafajestes comuns, alguns, bem a propósito, vizinhos de condomínio de Bolsonaro. A banalização desses arsenais passou uma mensagem para o brasileiro comum: a bala é um meio de expressão. À falta dela, o porrete, o punhal, a picareta, a machadinha, alguns, aliás, usados no 8 de janeiro.
Daí a escalada de crimes contra mulheres, pretos e trans, apenas porque são "diferentes". E, não por acaso, várias escolas têm sido cenário desses surtos de ódio. É o ódio à educação, à razão —que Bolsonaro, também não por acaso, levou quatro anos tentando destruir.
E é disso que nasce o ódio mais perigoso: aquele que não se sabe contra quem ou por quê, nem precisa saber —mas que, como Bolsonaro ensinou, agora temos o direito de expressar com uma arma.
Ruy Castro
Nossa violência até então tinha cenários, personagens e motivações previsíveis: latrocínio, tiroteios em comunidades, balas perdidas, chacinas em prisões, ajuste de contas, queima de arquivo, crimes passionais, disputa de terras, extermínio de indígenas, assassinato de missionários e ecologistas —quase sempre, coisa de profissionais. O povo fazia parte desse horror, mas, basicamente, como vítima. Não mais. Bolsonaro ensinou os amadores a odiar.
Em quatro anos, o Brasil se reduziu a um puxadinho da Taurus. As pessoas se armaram. Trabucos saltam dos cintos nos ambientes mais inesperados. Pistolas, fuzis e metralhadoras abarrotam o porão de políticos, ex-policiais e cafajestes comuns, alguns, bem a propósito, vizinhos de condomínio de Bolsonaro. A banalização desses arsenais passou uma mensagem para o brasileiro comum: a bala é um meio de expressão. À falta dela, o porrete, o punhal, a picareta, a machadinha, alguns, aliás, usados no 8 de janeiro.
Daí a escalada de crimes contra mulheres, pretos e trans, apenas porque são "diferentes". E, não por acaso, várias escolas têm sido cenário desses surtos de ódio. É o ódio à educação, à razão —que Bolsonaro, também não por acaso, levou quatro anos tentando destruir.
E é disso que nasce o ódio mais perigoso: aquele que não se sabe contra quem ou por quê, nem precisa saber —mas que, como Bolsonaro ensinou, agora temos o direito de expressar com uma arma.
Ruy Castro
A resistência à barbárie na Amazônia
Em janeiro de 2020, dois cidadãos americanos, Frank Giannuzzi e Steven Bellino, além de um brasileiro, Brubeyk Nascimento, apresentaram-se na alfândega do aeroporto de Manaus para registrar a documentação de carga a ser embarcada por eles, dias depois, com destino aos Estados Unidos.
Declararam que transportariam, em mãos, 35 quilos de ouro em barras avaliadas em R$ 10 milhões. A Receita liberou a carga, mas, ao voltarem para o embarque, as barras foram apreendidas e os três, detidos. Entre a declaração de transporte e o embarque, o funcionário da Receita acionou a Polícia Federal.
Nada batia. A história juntava dois agentes financeiros que atuavam em Wall Street e um brasileiro com endereço em Manaus, telefone com DDD de Goiânia e carga adquirida em São Paulo. Só o embarque por Manaus fazia sentido. Era por ali que se escoava o ouro adquirido no garimpo ilegal.
Naquela semana, a Superintendência da PF em Manaus havia recebido um equipamento importado da Alemanha capaz de fazer a análise instantânea da composição química de materiais. Se as barras se originassem da reciclagem de joias, o percentual de ouro não ultrapassaria 75%, mas o detector alemão cravou outro resultado: 98% de pureza.
Os policiais não tiveram dúvida de que tinham em mãos um produto do garimpo ilegal. Apesar da comoção internacional despertada pelo crime, aqueles contrabandistas eram a prova de que o ouro brasileiro continuava a fazer fortunas também no exterior.
A história está contada em “Selva - madeireiros, garimpeiros e corruptos na Amazônia sem lei” (Intrínseca, 2023), do delegado da PF Alexandre Saraiva. O autor ainda desafiou a justiça, que, além de mandar soltar os contrabandistas, liberou, por decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça Ney Bello, as barras de ouro.
Saraiva mandou uma equipe tirar as barras dos cofres da Caixa Econômica Federal, onde supôs que o gerente não resistiria a um oficial de justiça, e conseguiu que a Agência Nacional de Mineração ordenasse uma apreensão administrativa que não estaria ao alcance da decisão judicial. As barras estão no cofre da Superintendência da PF no Amazonas, mas a disputa por sua posse continua nos tribunais. “Literalmente iríamos entregar o ouro ao bandido”, lembra Saraiva.
A experiência deu ao delegado a certeza de que a investida anunciada pelo Banco Central sobre a comercialização do ouro não vai dar em nada. O BC foi intimado a prestar informações ao Supremo, em ação proposta pelo PV e relatada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a aquisição de ouro pelas distribuidoras de títulos e valores mobiliários.
Na resposta enviada ao STF, o BC diz que está em busca de tecnologia adequada para que as informações relativas à origem do ouro fornecidas às DTVMs não seja feita apenas com base na boa-fé dos declarantes. Saraiva demonstra que a tecnologia já existe.
Antes mesmo que a tecnologia da composição química estreasse em Manaus, há três anos, já era possível cruzar as autorizações da Agência Nacional de Mineração e as imagens de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Se houver autorização sem lavra é indício de “lavagem” de ouro ilegal. Sobram meios para conferir a documentação de origem por rastreamento científico.
Saraiva ainda ganhou proeminência, ao longo do governo Jair Bolsonaro, por ter liderado a maior apreensão de madeira ilegal do país, avaliada em R$ 130 milhões. Suficiente para carregar 7,5 mil caminhões, a apreensão resultaria na demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente.
A operação é um dos capítulos mais ricos sobre o faroeste amazônico sob Bolsonaro. Nascido em São Gonçalo (RJ), em 1970, e tendo trabalhado os oito primeiros anos de sua carreira como policial federal no Rio, Saraiva viu o Estado chegar a um ponto hoje considerado de não retorno em relação ao crime organizado. Foi nesta rota que o governo Bolsonaro deixou a Amazônia, diz Saraiva.
O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, num território disputado por facções que se valem do garimpo ilegal nas terras indígenas para a compra de cocaína no outro lado da fronteira, é apenas a última das evidências de que o Brasil está a um passo de perder a Amazônia para o crime organizado.
A investigação conduzida por Saraiva demonstrou como Salles integrava um grupo que fornecia documentos fraudulentos à PF, dificultava a fiscalização ambiental e obstruía a investigação policial. Os relatórios da PF apontavam o uso da própria mãe, de quem Salles, hoje deputado federal pelo PL de São Paulo, é sócio, num escritório de advocacia, como “laranja” de atividades ilegais.
O relato dá conta, ainda, da mudança na postura do Comando Militar do Norte. Depois de auxiliar a PF na guarda das toras apreendidas, comunicou, repentinamente, que não poderia fazer a remoção da madeira.
Saraiva conduziu a operação sob o temor de que poderia ser afastado da Superintendência da PF no Amazonas a qualquer momento. Ciente de que poderia ser barrado pelo diretor-geral da PF, Paulo Maiurino, comunicou-lhe a denúncia contra o ministro 20 minutos depois de dar entrada no sistema eletrônico do STF. No dia seguinte, foi exonerado.
A superintendência no Amazonas foi o terceiro último cargo na região ocupado por Saraiva ao longo de uma temporada de dez anos iniciada em Roraima e com uma passagem ainda pelo Maranhão. Ao longo do período na região, deu-se conta das limitações do trabalho da PF. Em Manaus apreendeu toras registradas em nomes de empresas que, anos antes, havia autuado em Roraima.
Foi lá que entendeu como a distribuição de títulos de terras faz com que na Amazônia as propriedades rurais tenham que ser “empilhadas” para caberem nos limites territoriais dos Estados. A burla no registro fundiário é o primeiro passo na cadeia de fraudes que resultava na emissão indiscriminada de Documentos de Origem Florestal (DOFs) pelo Ibama. Isso se ampliou num momento em que, das 27 superintendências estaduais do Ibama, 24 foram parar nas mãos de coronéis da PM e uma nas de um coronel do Exército.
De posse desse documento, os proprietários obtêm uma autorização de desmate alegadamente para agricultura, mas, de fato, apenas para a extração da madeira. A atuação na região e o doutorado na Universidade Federal do Amazonas deram a Saraiva a certeza de que a agropecuária é apenas uma fachada para a indústria ilegal de extração de madeira.
O delegado vê o Brasil a caminho de repetir o desastre do Sudeste Asiático, que derrubou suas florestas para abastecer primeiro o Japão, depois o resto do mundo de madeira barata. Foi o esgotamento das reservas naquela região que levou à elevação do preço da madeira brasileira. Por isso, defende a moratória da extração de madeiras nativas. E espera que, um dia, um piso de mogno seja tão reprovável quanto hoje o é usar um casaco de peles.
Essa indústria não vicejaria sem a vista grossa da comunidade internacional que cobra a proteção das florestas mas importa madeira sem se ocupar de sua origem. Vide a Biblioteca Nacional em Paris. Templo de uma cultura enraizada do ambientalismo, o prédio, obra de François Mitterrand, usou 60 mil m2 de ipê.
Não se trata de uma infração do passado. Saraiva esmiuçou a regulamentação europeia e concluiu que as regras de importação de madeira na União Europeia são muito mais lenientes do que aquelas de produtos agropecuários brasileiros que enfrentam concorrência local.
Do embate com Salles lhe sobrou uma sindicância interna pelas entrevistas concedidas. Saraiva é tão confiante em decisão do Supremo que lhe garante o direito de se manifestar que escreveu “Selva”. Além da sindicância, o embate lhe rendeu também um convite do PSB do Rio para que disputasse a Câmara dos Deputados. Rejeitou fundo eleitoral ou partidário. Gastou R$ 5 mil do próprio bolso - R$ 1,5 mil com advogado, R$ 1,5 mil com o contador e R$ 2 mil com adesivos. Teve 16 mil votos.
Concluiu não ter vocação para a política. Chegou a participar da transição, quando sugeriu uma operação urgente na reserva dos Yanomâmis, que só acabaria acontecendo por causa da denúncia do site Sumaúma, em 20 de janeiro, e operações em portos e aeroportos para barrar o embarque de madeira ilegal.
Na montagem do governo, porém, não foi convidado a voltar à Amazônia ou a cargo de confiança. Permanece em Volta Redonda. Não deixa de ser verdade que o delegado queira ficar perto de sua família, depois de 10 anos na Amazônia, como se alega na PF, mas o fato é que nenhum convite foi feito.
A ação destemida calou os críticos que exploravam sua proximidade com Alexandre Ramagem, delegado que foi chefiado por Saraiva em Roraima. Chefe da Abin sob Bolsonaro, foi ele quem levou o colega até o ex-presidente quando estava em pauta um nome para o Meio Ambiente.
Saraiva, superintendente da PF no Amazonas à época, foi até a casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca. Não concordaram em nada. O delegado saiu de lá sem convite e o cargo acabaria sendo oferecido a Salles.
Muitos dos que Saraiva enfrentou na Amazônia hoje integram a base do governo - e o ministério. Quando foi exonerado, desmatavam-se 1,5 mil km2 por ano na Amazônia Legal. Em 2021, ano em que deixou a região, pulou para 2,3 mil. No ano seguinte chegou a 2,6 mil. Mais do que uma cidade de São Paulo abaixo por ano.
O compromisso eleitoral deste governo impõe uma reversão em 2023, mas há pressões em curso. O ipê, a exemplo do pau brasil e do mogno, integrava a lista de árvores ameaçadas até ser dela retirada por Bolsonaro. Ao fazê-lo, previu que as madeiras do gênero Handroantus, nas quais estão incluídos todos os ipês, voltassem ao index em julho. Portaria do atual governo prorrogou sua exclusão do index até novembro de 2024. Segundo o Ibama, para se ajustar à convenção internacional. Handroantus foi o nome da operação da PF que derrubou Ricardo Salles.
Declararam que transportariam, em mãos, 35 quilos de ouro em barras avaliadas em R$ 10 milhões. A Receita liberou a carga, mas, ao voltarem para o embarque, as barras foram apreendidas e os três, detidos. Entre a declaração de transporte e o embarque, o funcionário da Receita acionou a Polícia Federal.
Nada batia. A história juntava dois agentes financeiros que atuavam em Wall Street e um brasileiro com endereço em Manaus, telefone com DDD de Goiânia e carga adquirida em São Paulo. Só o embarque por Manaus fazia sentido. Era por ali que se escoava o ouro adquirido no garimpo ilegal.
Naquela semana, a Superintendência da PF em Manaus havia recebido um equipamento importado da Alemanha capaz de fazer a análise instantânea da composição química de materiais. Se as barras se originassem da reciclagem de joias, o percentual de ouro não ultrapassaria 75%, mas o detector alemão cravou outro resultado: 98% de pureza.
Os policiais não tiveram dúvida de que tinham em mãos um produto do garimpo ilegal. Apesar da comoção internacional despertada pelo crime, aqueles contrabandistas eram a prova de que o ouro brasileiro continuava a fazer fortunas também no exterior.
A história está contada em “Selva - madeireiros, garimpeiros e corruptos na Amazônia sem lei” (Intrínseca, 2023), do delegado da PF Alexandre Saraiva. O autor ainda desafiou a justiça, que, além de mandar soltar os contrabandistas, liberou, por decisão do ministro do Superior Tribunal de Justiça Ney Bello, as barras de ouro.
Saraiva mandou uma equipe tirar as barras dos cofres da Caixa Econômica Federal, onde supôs que o gerente não resistiria a um oficial de justiça, e conseguiu que a Agência Nacional de Mineração ordenasse uma apreensão administrativa que não estaria ao alcance da decisão judicial. As barras estão no cofre da Superintendência da PF no Amazonas, mas a disputa por sua posse continua nos tribunais. “Literalmente iríamos entregar o ouro ao bandido”, lembra Saraiva.
A experiência deu ao delegado a certeza de que a investida anunciada pelo Banco Central sobre a comercialização do ouro não vai dar em nada. O BC foi intimado a prestar informações ao Supremo, em ação proposta pelo PV e relatada pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a aquisição de ouro pelas distribuidoras de títulos e valores mobiliários.
Na resposta enviada ao STF, o BC diz que está em busca de tecnologia adequada para que as informações relativas à origem do ouro fornecidas às DTVMs não seja feita apenas com base na boa-fé dos declarantes. Saraiva demonstra que a tecnologia já existe.
Antes mesmo que a tecnologia da composição química estreasse em Manaus, há três anos, já era possível cruzar as autorizações da Agência Nacional de Mineração e as imagens de satélite do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe). Se houver autorização sem lavra é indício de “lavagem” de ouro ilegal. Sobram meios para conferir a documentação de origem por rastreamento científico.
Saraiva ainda ganhou proeminência, ao longo do governo Jair Bolsonaro, por ter liderado a maior apreensão de madeira ilegal do país, avaliada em R$ 130 milhões. Suficiente para carregar 7,5 mil caminhões, a apreensão resultaria na demissão de Ricardo Salles do Ministério do Meio Ambiente.
A operação é um dos capítulos mais ricos sobre o faroeste amazônico sob Bolsonaro. Nascido em São Gonçalo (RJ), em 1970, e tendo trabalhado os oito primeiros anos de sua carreira como policial federal no Rio, Saraiva viu o Estado chegar a um ponto hoje considerado de não retorno em relação ao crime organizado. Foi nesta rota que o governo Bolsonaro deixou a Amazônia, diz Saraiva.
O assassinato do indigenista Bruno Pereira e do jornalista Dom Phillips, num território disputado por facções que se valem do garimpo ilegal nas terras indígenas para a compra de cocaína no outro lado da fronteira, é apenas a última das evidências de que o Brasil está a um passo de perder a Amazônia para o crime organizado.
A investigação conduzida por Saraiva demonstrou como Salles integrava um grupo que fornecia documentos fraudulentos à PF, dificultava a fiscalização ambiental e obstruía a investigação policial. Os relatórios da PF apontavam o uso da própria mãe, de quem Salles, hoje deputado federal pelo PL de São Paulo, é sócio, num escritório de advocacia, como “laranja” de atividades ilegais.
O relato dá conta, ainda, da mudança na postura do Comando Militar do Norte. Depois de auxiliar a PF na guarda das toras apreendidas, comunicou, repentinamente, que não poderia fazer a remoção da madeira.
Saraiva conduziu a operação sob o temor de que poderia ser afastado da Superintendência da PF no Amazonas a qualquer momento. Ciente de que poderia ser barrado pelo diretor-geral da PF, Paulo Maiurino, comunicou-lhe a denúncia contra o ministro 20 minutos depois de dar entrada no sistema eletrônico do STF. No dia seguinte, foi exonerado.
A superintendência no Amazonas foi o terceiro último cargo na região ocupado por Saraiva ao longo de uma temporada de dez anos iniciada em Roraima e com uma passagem ainda pelo Maranhão. Ao longo do período na região, deu-se conta das limitações do trabalho da PF. Em Manaus apreendeu toras registradas em nomes de empresas que, anos antes, havia autuado em Roraima.
Foi lá que entendeu como a distribuição de títulos de terras faz com que na Amazônia as propriedades rurais tenham que ser “empilhadas” para caberem nos limites territoriais dos Estados. A burla no registro fundiário é o primeiro passo na cadeia de fraudes que resultava na emissão indiscriminada de Documentos de Origem Florestal (DOFs) pelo Ibama. Isso se ampliou num momento em que, das 27 superintendências estaduais do Ibama, 24 foram parar nas mãos de coronéis da PM e uma nas de um coronel do Exército.
De posse desse documento, os proprietários obtêm uma autorização de desmate alegadamente para agricultura, mas, de fato, apenas para a extração da madeira. A atuação na região e o doutorado na Universidade Federal do Amazonas deram a Saraiva a certeza de que a agropecuária é apenas uma fachada para a indústria ilegal de extração de madeira.
O delegado vê o Brasil a caminho de repetir o desastre do Sudeste Asiático, que derrubou suas florestas para abastecer primeiro o Japão, depois o resto do mundo de madeira barata. Foi o esgotamento das reservas naquela região que levou à elevação do preço da madeira brasileira. Por isso, defende a moratória da extração de madeiras nativas. E espera que, um dia, um piso de mogno seja tão reprovável quanto hoje o é usar um casaco de peles.
Essa indústria não vicejaria sem a vista grossa da comunidade internacional que cobra a proteção das florestas mas importa madeira sem se ocupar de sua origem. Vide a Biblioteca Nacional em Paris. Templo de uma cultura enraizada do ambientalismo, o prédio, obra de François Mitterrand, usou 60 mil m2 de ipê.
Não se trata de uma infração do passado. Saraiva esmiuçou a regulamentação europeia e concluiu que as regras de importação de madeira na União Europeia são muito mais lenientes do que aquelas de produtos agropecuários brasileiros que enfrentam concorrência local.
Do embate com Salles lhe sobrou uma sindicância interna pelas entrevistas concedidas. Saraiva é tão confiante em decisão do Supremo que lhe garante o direito de se manifestar que escreveu “Selva”. Além da sindicância, o embate lhe rendeu também um convite do PSB do Rio para que disputasse a Câmara dos Deputados. Rejeitou fundo eleitoral ou partidário. Gastou R$ 5 mil do próprio bolso - R$ 1,5 mil com advogado, R$ 1,5 mil com o contador e R$ 2 mil com adesivos. Teve 16 mil votos.
Concluiu não ter vocação para a política. Chegou a participar da transição, quando sugeriu uma operação urgente na reserva dos Yanomâmis, que só acabaria acontecendo por causa da denúncia do site Sumaúma, em 20 de janeiro, e operações em portos e aeroportos para barrar o embarque de madeira ilegal.
Na montagem do governo, porém, não foi convidado a voltar à Amazônia ou a cargo de confiança. Permanece em Volta Redonda. Não deixa de ser verdade que o delegado queira ficar perto de sua família, depois de 10 anos na Amazônia, como se alega na PF, mas o fato é que nenhum convite foi feito.
A ação destemida calou os críticos que exploravam sua proximidade com Alexandre Ramagem, delegado que foi chefiado por Saraiva em Roraima. Chefe da Abin sob Bolsonaro, foi ele quem levou o colega até o ex-presidente quando estava em pauta um nome para o Meio Ambiente.
Saraiva, superintendente da PF no Amazonas à época, foi até a casa de Bolsonaro na Barra da Tijuca. Não concordaram em nada. O delegado saiu de lá sem convite e o cargo acabaria sendo oferecido a Salles.
Muitos dos que Saraiva enfrentou na Amazônia hoje integram a base do governo - e o ministério. Quando foi exonerado, desmatavam-se 1,5 mil km2 por ano na Amazônia Legal. Em 2021, ano em que deixou a região, pulou para 2,3 mil. No ano seguinte chegou a 2,6 mil. Mais do que uma cidade de São Paulo abaixo por ano.
O compromisso eleitoral deste governo impõe uma reversão em 2023, mas há pressões em curso. O ipê, a exemplo do pau brasil e do mogno, integrava a lista de árvores ameaçadas até ser dela retirada por Bolsonaro. Ao fazê-lo, previu que as madeiras do gênero Handroantus, nas quais estão incluídos todos os ipês, voltassem ao index em julho. Portaria do atual governo prorrogou sua exclusão do index até novembro de 2024. Segundo o Ibama, para se ajustar à convenção internacional. Handroantus foi o nome da operação da PF que derrubou Ricardo Salles.
Quando o criminoso vai além do crime
Os crimes aberrantes devem ser recordados para que jamais se repitam. Evitar a repetição, porém, leva a investigar as origens, ir às causas, em especial as difusas e, por isso, diretas ou permanentes, pois, ao serem profundas, não são visíveis.
Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.
Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.
Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?
Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exigindo presteza manual e longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua até chegar à morte.
Mais ainda: como um menino de apenas 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas em condições de gerar ódio e despertar a maldade de Caim que levamos dentro de nós?
Trata-se de um caso patológico, de um surto psicótico, dirão todos. A patologia assassina, porém, não nasce ao acaso. Tem raízes profundas no dia a dia, crescendo nas invencionices e mentiras das chamadas redes sociais e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As séries televisivas (ou até as novelas com excelente dramaturgia) exibem traições e tiros, e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento passa a habitar nosso inconsciente.
São Paulo maldade dos vídeo jogos (que chamamos de video games, em inglês, numa violência verbal ao nosso idioma) em que ganha quem mata mais na tela do celular. A partir da tenra infância, isso se transforma num convite para matar de verdade na vida adulta, pois basta apertar o gatilho...
Trata-se da banalização da vida em forma contínua, por uma parte, e, por outra, de entronizar o assassinato como normalidade.
O caso do juiz sádico mostra, além de tudo, outra aberração que espalha seus requintes perversos sobre a sociedade. Pergunto: como pode um magistrado, que vai julgar os demais (definindo o certo e o errado), portar-se de forma aberrante na vida pessoal?
A exigência de vida “ilibada” não é privativa para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, mas recai logicamente na totalidade dos magistrados. Só assim o Poder Judiciário atenderá à sua verdadeira função.
Seria insólito que a sociedade tivesse de julgar o comportamento dos magistrados, mas é impossível deixar de aplaudir a decisão do Tribunal de Justiça de suspender das funções o juiz sádico.
A aberração não pode guiar a intimidade daqueles cuja função seja decidir sobre o comportamento da sociedade. Não se deve exigir que um juiz chegue à perfeição absoluta ou, menos ainda, que se transforme em pequena divindade. Não se pode, porém, admitir o oposto. A aberração é o crime dos crimes, ou a própria perversão da perversidade.
Existe, no entanto, um componente histórico na formação da violência na vida social e que, de fato, principia na infância da vida familiar. Pergunto: o que são, em verdade e no mais profundo de si, aquelas histórias infantis repetidas ao longo dos anos (ou até dos séculos...) que contam dos perigos do lobo mau que acaba comendo a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?
Não seremos nós mesmos que cultivamos a violência, até sem a perceber?
As histórias infantis estão abarrotadas (ou infestadas) de medo ou até de horror. Mesmo assim, são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que, ao ser aplicada, nos torna resistentes ao mal e, assim, nos livra da enfermidade que provoca.
A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e, assim, o incorpora ao nosso cotidiano, como se fizesse parte da vida. No caso concreto do juiz sádico, as cenas filmadas com câmeras ocultas mostraram (na televisão) a repetição contínua da brutalidade, com a mulher submetida ao suplício.
Direta ou indiretamente, tratava-se da antessala do feminicídio, em que a mulher recebia o tratamento de coisa, não de gente, pelo fato único de ser mulher...
Nada, porém, supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau (SC), onde um homem adulto, com uma machadinha, assassinou quatro crianças numa creche, num ato abjeto e inominável em que o criminoso vai além do crime em si.
Refiro-me a dois crimes aberrantes perpetrados em São Paulo dias atrás, que permanecem atuais pela estarrecedora brutalidade em si.
Primeiro, em plena sala de aula, um menino de 13 anos assassinou a facadas uma professora de 71 anos e feriu outras três. Logo, como na sequência de um filme de terror, um juiz acorrentava a própria esposa para, a socos e bofetadas, obrigá-la ao ato sexual, num sadismo aberrante substituindo a beleza do erotismo amoroso.
Ambas as situações disputam a primazia do horror. No primeiro caso, os escabrosos detalhes levam a uma pergunta: em que sociedade vivemos para que um menino imberbe, ainda pré-adolescente, se transforme em requintado criminoso?
Sim, pois a morte a facadas é requintada em si, exigindo presteza manual e longos segundos para insistir na morte. Não é como um tiro, em que se aperta o gatilho e a bala faz o resto. A facada exige repetição contínua até chegar à morte.
Mais ainda: como um menino de apenas 13 anos pode ter acumulado desgostos e incertezas em condições de gerar ódio e despertar a maldade de Caim que levamos dentro de nós?
Trata-se de um caso patológico, de um surto psicótico, dirão todos. A patologia assassina, porém, não nasce ao acaso. Tem raízes profundas no dia a dia, crescendo nas invencionices e mentiras das chamadas redes sociais e naquilo que mais ocupa nosso interesse, que é a televisão. Após o trabalho diário, é a TV que nos dá lazer e descanso, mas nela somos levados a um mundo de violência. As séries televisivas (ou até as novelas com excelente dramaturgia) exibem traições e tiros, e, mesmo com o triunfo do bem, o desenrolar violento passa a habitar nosso inconsciente.
Nada, no entanto, supera a bala de prata para matar lobisomens e monstros do tipo. A carga tributária no Brasil está em 33,9%. Usando as palavras de Tebet, “para agradar a todos”, em níveis federal, estadual e municipal, será preciso aumentá-la para mais perto de 40%. Ela tem razão, será uma bala de prata no coração do cidadão brasileiro. E, como dizia Bilac: “Criança! não verás país nenhum como este”. Nenhum país do mundo tem uma carga tributária tão pesada, porque ninguém é capaz de suportála. A ministra do Planejamento pode planejar um belo discurso fúnebre para a nossa economia. Jorge Alberto Nurkin jorge.nurkin@gmail.com
São Paulo maldade dos vídeo jogos (que chamamos de video games, em inglês, numa violência verbal ao nosso idioma) em que ganha quem mata mais na tela do celular. A partir da tenra infância, isso se transforma num convite para matar de verdade na vida adulta, pois basta apertar o gatilho...
Trata-se da banalização da vida em forma contínua, por uma parte, e, por outra, de entronizar o assassinato como normalidade.
O caso do juiz sádico mostra, além de tudo, outra aberração que espalha seus requintes perversos sobre a sociedade. Pergunto: como pode um magistrado, que vai julgar os demais (definindo o certo e o errado), portar-se de forma aberrante na vida pessoal?
A exigência de vida “ilibada” não é privativa para a escolha dos ministros do Supremo Tribunal Federal, mas recai logicamente na totalidade dos magistrados. Só assim o Poder Judiciário atenderá à sua verdadeira função.
Seria insólito que a sociedade tivesse de julgar o comportamento dos magistrados, mas é impossível deixar de aplaudir a decisão do Tribunal de Justiça de suspender das funções o juiz sádico.
A aberração não pode guiar a intimidade daqueles cuja função seja decidir sobre o comportamento da sociedade. Não se deve exigir que um juiz chegue à perfeição absoluta ou, menos ainda, que se transforme em pequena divindade. Não se pode, porém, admitir o oposto. A aberração é o crime dos crimes, ou a própria perversão da perversidade.
Existe, no entanto, um componente histórico na formação da violência na vida social e que, de fato, principia na infância da vida familiar. Pergunto: o que são, em verdade e no mais profundo de si, aquelas histórias infantis repetidas ao longo dos anos (ou até dos séculos...) que contam dos perigos do lobo mau que acaba comendo a indefesa vovozinha para quem a netinha levava deliciosos docinhos?
Não seremos nós mesmos que cultivamos a violência, até sem a perceber?
As histórias infantis estão abarrotadas (ou infestadas) de medo ou até de horror. Mesmo assim, são transmitidas de geração em geração. A transmissão do horror não pode ser encarada tal qual uma vacina que, ao ser aplicada, nos torna resistentes ao mal e, assim, nos livra da enfermidade que provoca.
A verbalização do horror acaba nos familiarizando com o próprio horror e, assim, o incorpora ao nosso cotidiano, como se fizesse parte da vida. No caso concreto do juiz sádico, as cenas filmadas com câmeras ocultas mostraram (na televisão) a repetição contínua da brutalidade, com a mulher submetida ao suplício.
Direta ou indiretamente, tratava-se da antessala do feminicídio, em que a mulher recebia o tratamento de coisa, não de gente, pelo fato único de ser mulher...
Nada, porém, supera em vileza e terror a tragédia de Blumenau (SC), onde um homem adulto, com uma machadinha, assassinou quatro crianças numa creche, num ato abjeto e inominável em que o criminoso vai além do crime em si.
Como seria a vida de Cristo no Brasil atual?
Estamos na Semana Santa, tradição cristã que, atualmente, representa a ressurreição de Cristo no domingo de Páscoa (embora seja, originalmente, uma festividade de religiões consideradas “pagãs”).
A festividade também nos faz refletir sobre como seria se o protagonista da história vivesse nos dias de hoje. E se, em vez de Israel e Palestina, ele tivesse nascido no Brasil atual?
Provavelmente, Maria, sua mãe, anunciaria sua gravidez a José. Mesmo se aparecesse um anjo dizendo tratar-se do filho de Deus, o marido responderia: “Eu sou lá homem de criar filho dos outros?”. E sairia para comprar um cigarro e nunca mais voltar.
Sem casa, Maria pariria seu bebê em uma manjedoura, mas seria acusada de ser uma invasora de terra do MST e expulsa pelo proprietário.
Os três reis magos seriam enviados para dar presentes ao menino Jesus, mas questionariam: “Se a gente der presentes, esse bebê vai virar um vagabundo que não sabe ir atrás do seu sustento. Ele precisa trabalhar duro para ganhar a mirra, o incenso e o ouro”. E o menino ficaria sem presentes.
Já adulto, Jesus seria batizado em um rio pelo primo, João, mas contrairia uma diarreia violenta causada pela poluição do local.
Após se recuperar, começaria suas pregações em uma praça. “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança”, diria. De longe, ouviria um cidadão de bem gritar: “Vai para Cuba, comunista!”.
Jesus pregaria: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”. Na praça, um expectador refutaria: “Ah, virou babá de bandido? Se tá com dó, leva pra casa”.
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, diria Jesus. Mas um transeunte gritaria: “Ah, agora virou crime ser rico no Brasil?”.
Quando o filho de Deus dissesse: “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”, alguém responderia: “Tem é que encher o inimigo de bala! Por isso que tem que armar a população”.
No fim, quando Jesus fosse preso, torturado e crucificado, um homem chamado Jair gritaria: “Eu sou favorável à cruz mesmo. Funciona! Eu sou favorável à tortura, com cruz, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também!”. E completaria: “Tá com dó do bandido? Leva pra casa!”
A festividade também nos faz refletir sobre como seria se o protagonista da história vivesse nos dias de hoje. E se, em vez de Israel e Palestina, ele tivesse nascido no Brasil atual?
Provavelmente, Maria, sua mãe, anunciaria sua gravidez a José. Mesmo se aparecesse um anjo dizendo tratar-se do filho de Deus, o marido responderia: “Eu sou lá homem de criar filho dos outros?”. E sairia para comprar um cigarro e nunca mais voltar.
Sem casa, Maria pariria seu bebê em uma manjedoura, mas seria acusada de ser uma invasora de terra do MST e expulsa pelo proprietário.
Os três reis magos seriam enviados para dar presentes ao menino Jesus, mas questionariam: “Se a gente der presentes, esse bebê vai virar um vagabundo que não sabe ir atrás do seu sustento. Ele precisa trabalhar duro para ganhar a mirra, o incenso e o ouro”. E o menino ficaria sem presentes.
Já adulto, Jesus seria batizado em um rio pelo primo, João, mas contrairia uma diarreia violenta causada pela poluição do local.
Após se recuperar, começaria suas pregações em uma praça. “Bem-aventurados os humildes, pois eles receberão a terra por herança”, diria. De longe, ouviria um cidadão de bem gritar: “Vai para Cuba, comunista!”.
Jesus pregaria: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça, pois deles é o Reino dos céus”. Na praça, um expectador refutaria: “Ah, virou babá de bandido? Se tá com dó, leva pra casa”.
“É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus”, diria Jesus. Mas um transeunte gritaria: “Ah, agora virou crime ser rico no Brasil?”.
Quando o filho de Deus dissesse: “Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra”, alguém responderia: “Tem é que encher o inimigo de bala! Por isso que tem que armar a população”.
No fim, quando Jesus fosse preso, torturado e crucificado, um homem chamado Jair gritaria: “Eu sou favorável à cruz mesmo. Funciona! Eu sou favorável à tortura, com cruz, tu sabe disso. E o povo é favorável a isso também!”. E completaria: “Tá com dó do bandido? Leva pra casa!”
Levantem-se contra a banalização do mal que nos ameaça
Apela-se à filósofa alemã Hannah Arendt sempre que um ato maligno choca a todos por sua brutalidade e carece de explicação para ser entendido, o que não significa normalizado.
Foi ao escrever sobre o julgamento do oficial nazista Otto Adolf Eichmann”, um dos organizadores do Holocausto, que ela cunhou uma expressão que ficaria famosa – a “banalização do mal”.
Arendt concluiu que o mal praticado por ele não era demoníaco, mas um mal constante, parte da rotina dos oficiais nazistas como instrumento de trabalho. Ele cumpria ordens.
Durante o julgamento que o condenaria a morrer enforcado, Eichmann dizia, e de fato acreditava, que seguia o certo, o governo e as leis do Estado, e que por isso era inocente.
O homem de 25 anos que assassinou à machadinha e a facadas 4 crianças numa creche de Blumenau, em Santa Catarina, e feriu 5 disse à polícia que cumpriu ordens de outro que o ameaçou.
Parece mais razoável que tenha agido sob o estímulo do discurso do ódio, da intolerância e do preconceito que a extrema-direita propaga abertamente nas redes sociais, e não só no esgoto delas.
Mentes doentes não racionalizam. Confundem violência com coragem. Os que se sentem marginalizados e injustiçados pela vida que levam são presas fáceis do desejo de vingança.
É previsível que haja novos ataques a creches e escolas pelo país. O efeito imitação é poderoso. É tão certo como esperar que nos Estados Unidos, a essa hora, um atirador esteja matando a esmo.
Levantamento da Universidade de São Paulo registra que 22 ações violentas contra unidades de ensino aconteceram no Brasil desde 2002 – metade delas de 2022 para cá. Total de mortos: 40.
O celular já foi um artefato inocente. A internet, um meio que daria voz aos que não tinham voz, aproximando as pessoas e as incentivando a se entenderem; um ideal do paraíso.
Enquanto as redes sociais não forem reguladas, e se dependerem dos seus donos jamais serão, elas continuarão servindo de pasto viçoso para alimentar os instintos humanos mais viscerais.
Não basta regulá-las. Nem apenas cobrar dos governos medidas de reforço à segurança pública. É preciso que caia a ficha da sociedade e que nos mobilizemos para enfrentar a banalização do mal.
Mais educação. Mais saúde. Mais renda para quem tem pouca, o que quer dizer menos desigualdade. Mais rigor na venda de armas. Mais mão pesada da justiça no julgamento de crimes bárbaros.
E fé. Sim, acreditar que ainda é possível a construção de um mundo melhor. Sem esperança, só andaremos para trás.
Foi ao escrever sobre o julgamento do oficial nazista Otto Adolf Eichmann”, um dos organizadores do Holocausto, que ela cunhou uma expressão que ficaria famosa – a “banalização do mal”.
Arendt concluiu que o mal praticado por ele não era demoníaco, mas um mal constante, parte da rotina dos oficiais nazistas como instrumento de trabalho. Ele cumpria ordens.
Durante o julgamento que o condenaria a morrer enforcado, Eichmann dizia, e de fato acreditava, que seguia o certo, o governo e as leis do Estado, e que por isso era inocente.
O homem de 25 anos que assassinou à machadinha e a facadas 4 crianças numa creche de Blumenau, em Santa Catarina, e feriu 5 disse à polícia que cumpriu ordens de outro que o ameaçou.
Parece mais razoável que tenha agido sob o estímulo do discurso do ódio, da intolerância e do preconceito que a extrema-direita propaga abertamente nas redes sociais, e não só no esgoto delas.
Mentes doentes não racionalizam. Confundem violência com coragem. Os que se sentem marginalizados e injustiçados pela vida que levam são presas fáceis do desejo de vingança.
É previsível que haja novos ataques a creches e escolas pelo país. O efeito imitação é poderoso. É tão certo como esperar que nos Estados Unidos, a essa hora, um atirador esteja matando a esmo.
Levantamento da Universidade de São Paulo registra que 22 ações violentas contra unidades de ensino aconteceram no Brasil desde 2002 – metade delas de 2022 para cá. Total de mortos: 40.
O celular já foi um artefato inocente. A internet, um meio que daria voz aos que não tinham voz, aproximando as pessoas e as incentivando a se entenderem; um ideal do paraíso.
Enquanto as redes sociais não forem reguladas, e se dependerem dos seus donos jamais serão, elas continuarão servindo de pasto viçoso para alimentar os instintos humanos mais viscerais.
Não basta regulá-las. Nem apenas cobrar dos governos medidas de reforço à segurança pública. É preciso que caia a ficha da sociedade e que nos mobilizemos para enfrentar a banalização do mal.
Mais educação. Mais saúde. Mais renda para quem tem pouca, o que quer dizer menos desigualdade. Mais rigor na venda de armas. Mais mão pesada da justiça no julgamento de crimes bárbaros.
E fé. Sim, acreditar que ainda é possível a construção de um mundo melhor. Sem esperança, só andaremos para trás.
Uma sociedade doentia
O clima de ódio e violência que estamos vivenciando nos últimos tempos, oriundos do período em que o bolsonarismo começou a implantar suas raízes, é filho do despertar dos instintos primitivos de indivíduos antissociais que viviam contidos pelos ditames e valores majoritários numa sociedade democrática e sentiram-se liberados para falar, e fazer, qualquer coisa. Como agia seu líder político, saído dos círculos morais mais baixos da sociedade para influenciar seguidores que identificaram por meio de metodologias tecnológicas que se mostraram tristemente eficazes.
São cidadãos que se sentiam rechaçados, esquecidos, até mesmo rejeitados pela onda, que parecia francamente majoritária, do politicamente correto, do identitarismo, do globalismo, instrumentos da esquerda para se impor. Quando Lula tinha 80% de aprovação, no segundo mandato, os petistas desdenhavam esses 20%, perguntando em que mundo viviam. Pois viviam nas sombras, remoendo suas feridas, buscando um sentimento de pertencimento que Bolsonaro lhes deu.
Em vez de ser incluídos na maioria, foram sendo apartados até transformarem-se, eles mesmos, em maioria, levando o capitão a um poder para o qual não estava preparado. Contra o establishment a que pertencia marginalmente, Bolsonaro atraiu não apenas o lumpesinato sempre em busca de um salvador da pátria, mas também uma elite predadora que se aproveitou do pretenso liberalismo de Bolsonaro, que enganou quem queria se enganar.
Uma das principais teses “liberais” de Bolsonaro é a permissão descontrolada de armamento e munições pelos cidadãos, como sinônimo de liberdade, de segurança, de emancipação cidadã. Nada mais falacioso, uma cópia mambembe da trágica tradição histórica dos Estados Unidos, que não tem nada a ver com nossa História. Nos Estados Unidos, cada vez que acontece um massacre de inocentes por atirador(es) aleatório(s), aumenta a discussão sobre a necessidade de controlar venda e porte de armas, ligadas a uma sensação de liberdade, de proteção da individualidade, que vem do tempo em que o território americano era ocupado, depois da independência da Inglaterra.
A origem desse direito considerado inalienável foram as milícias, grupos que se reuniam para proteger propriedades e combater os que não aceitavam a independência recém-conquistada. A Declaração de Direitos fundamentais dos cidadãos do novo país foi colocada na Constituição, incluindo no mesmo status de proteção à individualidade a posse de armas, assim como o direito à reunião, à religião, à liberdade de imprensa. O mesmo que Bolsonaro conseguiu implantar, algumas vezes na lei, outras na cabeça dos seguidores, quando eleito em 2018, dando conotação distorcida aos direitos dos cidadãos.
Tanto em 1791, nos Estados Unidos, quanto hoje no Brasil, as milícias fora da lei são a base da expansão da ideia armamentista. Só que os americanos, centenas de anos depois, tentam desvencilhar-se dessa linha do tempo que hoje já não faz sentido, enquanto no Brasil vivemos o ápice do crime organizado, com milícias formadas por policiais e facções criminosas em busca do domínio do território que deveria ser regido pela lei.
Abrir a compra por cidadãos de armamentos praticamente sem controle é uma oferta de fortalecimento a esses grupos fora da lei. Está provado que a criação de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) proliferou justamente para legalizar armas do crime organizado, e os ataques frívolos com armas em disputas banais e discussões de bar estão à nossa vista. Alimentar a violência com esse tipo de atitude irresponsável só pode criar uma sociedade patológica, onde tudo é possível, até assassinatos a machadadas de crianças.
São cidadãos que se sentiam rechaçados, esquecidos, até mesmo rejeitados pela onda, que parecia francamente majoritária, do politicamente correto, do identitarismo, do globalismo, instrumentos da esquerda para se impor. Quando Lula tinha 80% de aprovação, no segundo mandato, os petistas desdenhavam esses 20%, perguntando em que mundo viviam. Pois viviam nas sombras, remoendo suas feridas, buscando um sentimento de pertencimento que Bolsonaro lhes deu.
Em vez de ser incluídos na maioria, foram sendo apartados até transformarem-se, eles mesmos, em maioria, levando o capitão a um poder para o qual não estava preparado. Contra o establishment a que pertencia marginalmente, Bolsonaro atraiu não apenas o lumpesinato sempre em busca de um salvador da pátria, mas também uma elite predadora que se aproveitou do pretenso liberalismo de Bolsonaro, que enganou quem queria se enganar.
Uma das principais teses “liberais” de Bolsonaro é a permissão descontrolada de armamento e munições pelos cidadãos, como sinônimo de liberdade, de segurança, de emancipação cidadã. Nada mais falacioso, uma cópia mambembe da trágica tradição histórica dos Estados Unidos, que não tem nada a ver com nossa História. Nos Estados Unidos, cada vez que acontece um massacre de inocentes por atirador(es) aleatório(s), aumenta a discussão sobre a necessidade de controlar venda e porte de armas, ligadas a uma sensação de liberdade, de proteção da individualidade, que vem do tempo em que o território americano era ocupado, depois da independência da Inglaterra.
A origem desse direito considerado inalienável foram as milícias, grupos que se reuniam para proteger propriedades e combater os que não aceitavam a independência recém-conquistada. A Declaração de Direitos fundamentais dos cidadãos do novo país foi colocada na Constituição, incluindo no mesmo status de proteção à individualidade a posse de armas, assim como o direito à reunião, à religião, à liberdade de imprensa. O mesmo que Bolsonaro conseguiu implantar, algumas vezes na lei, outras na cabeça dos seguidores, quando eleito em 2018, dando conotação distorcida aos direitos dos cidadãos.
Tanto em 1791, nos Estados Unidos, quanto hoje no Brasil, as milícias fora da lei são a base da expansão da ideia armamentista. Só que os americanos, centenas de anos depois, tentam desvencilhar-se dessa linha do tempo que hoje já não faz sentido, enquanto no Brasil vivemos o ápice do crime organizado, com milícias formadas por policiais e facções criminosas em busca do domínio do território que deveria ser regido pela lei.
Abrir a compra por cidadãos de armamentos praticamente sem controle é uma oferta de fortalecimento a esses grupos fora da lei. Está provado que a criação de CACs (colecionadores, atiradores desportivos e caçadores) proliferou justamente para legalizar armas do crime organizado, e os ataques frívolos com armas em disputas banais e discussões de bar estão à nossa vista. Alimentar a violência com esse tipo de atitude irresponsável só pode criar uma sociedade patológica, onde tudo é possível, até assassinatos a machadadas de crianças.
quinta-feira, 6 de abril de 2023
É isto um homem?
Trabalhadores escravizados no Brasil pouco diferem dos personagens de "É isto um homem?", de Primo Levi sobre os tempos que passou em campos de concentração nazistas
Tempo de morrer
Houve tempos, ditos Pré-científicos, em que se acreditava na necessidade de matar, e de fato se matava, alguns poucos animais, humanos e não-humanos, com o objetivo de agradar aos deuses para assegurar uma boa colheita e a sobrevivência da população! Depois, começaram os tempos ditos científicos, em que a ciência (aparentemente) dominava. Nestes novos tempos, milhões de animais, humanos e não humanos, são mortos anualmente com o objetivo de … garantir boas colheitas, agrícolas ou não! Tais mortes decorrem do uso de “avanços” científicos na agronomia, na indústria, nos transportes e, mesmo, na medicina e higiene coletiva.
As poucas mortes dos tempos pré-científicos são hoje chamadas de “sacrifícios”, e atribuídas à crença em mitos; as milhões dos tempos atuais já foram chamadas “efeitos inesperados” do “desenvolvimento”, mas, hoje, não mais podem ser assim qualificadas; são consequências inerentes ao tipo de “progresso” que vivemos, e que tem sido incapaz de retirar da pobreza (renda menor que US$10,00/dia) 80% da humanidade. Sendo assim, por que não se supera essa semelhança entre os tempos pré e pós-científicos? Não mais para agradar aos deuses, mas para não descontentar o “mercado”.
Restringir o uso dos materiais e práticas que, embora tragam alguns benefícios, causam tantas mortes – combustíveis fósseis, fertilizantes, agrotóxicos, materiais de uso único, embalagens descartáveis, produtos programados para durar pouco e serem substituídos, a “moda” que induz a comprar roupas novas embora as antigas ainda sejam úteis, a propaganda que provoca compras por impulso e não por necessidade, entre tantas outras práticas tidas como “normais” e “necessárias” ao bom andamento da “economia” – todas essas são postergadas ou evitadas, pois desagradam o novo elemento a ser incensado, o “mercado” e seu “crescimento”.
E a preservação da vida e a redução da pobreza, como ficam? Estes deixaram de ser objetivos a perseguir, substituídos que foram pela busca do indefinido “desenvolvimento”, cujos inevitáveis subprodutos – mantido o rumo atual – a propaganda busca minimizar. A mitologia pró-mercado prevalece, e este agradece! A desejável melhoria da qualidade de vida da maioria fica relegada para depois do “desenvolvimento”. Para quando?
Há, pelo menos, mais de meio século que se persegue tal “desenvolvimento”. Nesse período, algumas melhorias na qualidade de vida, sim, ocorreram, mas nada como seria possível caso o foco das políticas públicas fosse, de fato, tal melhoria, e não a aceitação de que algumas – hoje, de fato milhões – de mortes é um preço razoável para continuar o, repito, indefinido “desenvolvimento”.
Mitologias antigas, repaginadas para os tempos modernos, hoje sacrificando milhões, “justificadas” por crenças, ditas científicas ou não. E a melhoria da qualidade de vida da maioria fica postergada. Até quando?
As poucas mortes dos tempos pré-científicos são hoje chamadas de “sacrifícios”, e atribuídas à crença em mitos; as milhões dos tempos atuais já foram chamadas “efeitos inesperados” do “desenvolvimento”, mas, hoje, não mais podem ser assim qualificadas; são consequências inerentes ao tipo de “progresso” que vivemos, e que tem sido incapaz de retirar da pobreza (renda menor que US$10,00/dia) 80% da humanidade. Sendo assim, por que não se supera essa semelhança entre os tempos pré e pós-científicos? Não mais para agradar aos deuses, mas para não descontentar o “mercado”.
Restringir o uso dos materiais e práticas que, embora tragam alguns benefícios, causam tantas mortes – combustíveis fósseis, fertilizantes, agrotóxicos, materiais de uso único, embalagens descartáveis, produtos programados para durar pouco e serem substituídos, a “moda” que induz a comprar roupas novas embora as antigas ainda sejam úteis, a propaganda que provoca compras por impulso e não por necessidade, entre tantas outras práticas tidas como “normais” e “necessárias” ao bom andamento da “economia” – todas essas são postergadas ou evitadas, pois desagradam o novo elemento a ser incensado, o “mercado” e seu “crescimento”.
E a preservação da vida e a redução da pobreza, como ficam? Estes deixaram de ser objetivos a perseguir, substituídos que foram pela busca do indefinido “desenvolvimento”, cujos inevitáveis subprodutos – mantido o rumo atual – a propaganda busca minimizar. A mitologia pró-mercado prevalece, e este agradece! A desejável melhoria da qualidade de vida da maioria fica relegada para depois do “desenvolvimento”. Para quando?
Há, pelo menos, mais de meio século que se persegue tal “desenvolvimento”. Nesse período, algumas melhorias na qualidade de vida, sim, ocorreram, mas nada como seria possível caso o foco das políticas públicas fosse, de fato, tal melhoria, e não a aceitação de que algumas – hoje, de fato milhões – de mortes é um preço razoável para continuar o, repito, indefinido “desenvolvimento”.
Mitologias antigas, repaginadas para os tempos modernos, hoje sacrificando milhões, “justificadas” por crenças, ditas científicas ou não. E a melhoria da qualidade de vida da maioria fica postergada. Até quando?
Os dados mostram explosão no número de ataques a escolas no Brasil
O ataque a uma creche em Blumenau (SC), que deixou quatro crianças mortas nesta quarta-feira é mais um exemplo trágico de uma estatística alarmante: somente em 2022 e 2023, o número de ataques em escolas no Brasil já supera o total registrado nos 20 anos anteriores, segundo pesquisadores.
Somente neste início de ano, já foram ao menos quatro casos de mais destaque: o ataque com bomba caseira por um ex-aluno em Monte Mor (SP), em 13 de fevereiro; o ataque a faca por um aluno de 13 anos a uma escola em São Paulo, que deixou uma professora morta e quatro pessoas feridas em 27 de março; o ataque a faca por um aluno a colegas em uma escola do Rio de Janeiro em 28 de março; e agora o atentado à creche em Santa Catarina.
Levantamento feito pela pesquisadora Michele Prado, do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), registrou 22 ataques a escolas entre outubro 2002 e março de 2023.
Antes do caso de Blumenau, e sem incluir na conta o ataque a faca no Rio de Janeiro, 11 desses casos haviam sido registrados somente em 2022 e 2023.
Com os dois casos mais recentes, portanto, os últimos dois anos já superam em número de ataques os 20 anos anteriores.
Levantamento feito por pesquisadores da Unicamp chegam a números semelhantes.
Considerando apenas casos envolvendo alunos e ex-alunos como agressores, o grupo liderado pela pesquisadora Telma Vinha, registra 22 ataques entre 2002 e 2023, sendo 10 deles nos últimos dois anos.
Os ataques a escola também foram tema de um relatório entregue ao governo de transição no final do ano passado. Além dos ataques efetivamente realizados, o documento mostra os atentados evitados. O padrão aqui também revela um forte aumento da frequência em anos recentes.
Segundo o relatório O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental, foram 34 ataques a escolas evitados no Brasil entre 2012 e 2022, sendo 22 deles somente no ano passado.
Dos 22 ataques evitados em 2022, oito tinham como alvos escolas em Goiás e 4 em Minas Gerais.
Segundo os pesquisadores, os agressores são em geral jovens (10 a 25 anos), do sexo masculino. E muitos deles são vítimas de bullying na escola, possuem características de isolamento social e indícios de transtornos mentais não diagnosticados ou acompanhados.
Eles se articulam em comunidades online onde há incentivo à violência, à misoginia, e em plataformas de fácil acesso na internet.
Para Michele Prado, o aumento da frequência dos ataques no país é fruto de um processo de radicalização online em massa que atinge principalmente o público jovem, a partir dos 10 anos.
“Elas não estão da deep web ou na dark web, estão na superfície, em aplicativos como Discord, Twitter, TikTok, Telegram e WhatsApp”, diz Prado.
A pesquisadora afirma que não há uma razão única para a radicalização e os agressores têm perfis radicalizados distintos.
“Alguns jovens se queixam de bullying, outros parecem ter transtorno de personalidade narcisista, com perfil de agressores e não de vítimas. Nas redes, eles são expostos a teorias conspiratórias que desumanizam grupos específicos”, exemplifica.
Para Danila Di Pietro, pesquisadora da Unicamp e parte do grupo liderado pela professora Telma Vinha, o aumento no número de ataques a escolas nos últimos anos está relacionado também ao avanço da cultura de violência no país.
"De cinco anos para cá, passamos por uma banalização da violência. O uso de armas de fogo, de um discurso de ódio, separatista, racista, misógino, homofóbico, até por autoridades oficiais, com isso ganhando escala pública, tudo isso faz com que as pessoas que cultivavam esses valores no seu ambiente privado passem a ganhar corpo público", afirma Di Pietro.
As pesquisadoras destacam ainda o papel da cobertura da imprensa na multiplicação desses casos, já que os agressores em geral buscam notoriedade e se inspiram a partir de ataque anteriores.
"Nosso pedido à imprensa é de não divulgar em detalhes como a coisa se deu, porque isso acaba ensinando como se fazer. É preciso focar muito mais nas vítimas do que no agressor, porque tudo que ele querem é notoriedade", diz a pesquisadora da Unicamp.
Somente neste início de ano, já foram ao menos quatro casos de mais destaque: o ataque com bomba caseira por um ex-aluno em Monte Mor (SP), em 13 de fevereiro; o ataque a faca por um aluno de 13 anos a uma escola em São Paulo, que deixou uma professora morta e quatro pessoas feridas em 27 de março; o ataque a faca por um aluno a colegas em uma escola do Rio de Janeiro em 28 de março; e agora o atentado à creche em Santa Catarina.
Levantamento feito pela pesquisadora Michele Prado, do Monitor do Debate Político no Meio Digital da USP (Universidade de São Paulo), registrou 22 ataques a escolas entre outubro 2002 e março de 2023.
Antes do caso de Blumenau, e sem incluir na conta o ataque a faca no Rio de Janeiro, 11 desses casos haviam sido registrados somente em 2022 e 2023.
Com os dois casos mais recentes, portanto, os últimos dois anos já superam em número de ataques os 20 anos anteriores.
Levantamento feito por pesquisadores da Unicamp chegam a números semelhantes.
Considerando apenas casos envolvendo alunos e ex-alunos como agressores, o grupo liderado pela pesquisadora Telma Vinha, registra 22 ataques entre 2002 e 2023, sendo 10 deles nos últimos dois anos.
Os ataques a escola também foram tema de um relatório entregue ao governo de transição no final do ano passado. Além dos ataques efetivamente realizados, o documento mostra os atentados evitados. O padrão aqui também revela um forte aumento da frequência em anos recentes.
Segundo o relatório O extremismo de direita entre adolescentes e jovens no Brasil: ataques às escolas e alternativas para a ação governamental, foram 34 ataques a escolas evitados no Brasil entre 2012 e 2022, sendo 22 deles somente no ano passado.
Dos 22 ataques evitados em 2022, oito tinham como alvos escolas em Goiás e 4 em Minas Gerais.
Segundo os pesquisadores, os agressores são em geral jovens (10 a 25 anos), do sexo masculino. E muitos deles são vítimas de bullying na escola, possuem características de isolamento social e indícios de transtornos mentais não diagnosticados ou acompanhados.
Eles se articulam em comunidades online onde há incentivo à violência, à misoginia, e em plataformas de fácil acesso na internet.
Para Michele Prado, o aumento da frequência dos ataques no país é fruto de um processo de radicalização online em massa que atinge principalmente o público jovem, a partir dos 10 anos.
“Elas não estão da deep web ou na dark web, estão na superfície, em aplicativos como Discord, Twitter, TikTok, Telegram e WhatsApp”, diz Prado.
A pesquisadora afirma que não há uma razão única para a radicalização e os agressores têm perfis radicalizados distintos.
“Alguns jovens se queixam de bullying, outros parecem ter transtorno de personalidade narcisista, com perfil de agressores e não de vítimas. Nas redes, eles são expostos a teorias conspiratórias que desumanizam grupos específicos”, exemplifica.
Para Danila Di Pietro, pesquisadora da Unicamp e parte do grupo liderado pela professora Telma Vinha, o aumento no número de ataques a escolas nos últimos anos está relacionado também ao avanço da cultura de violência no país.
"De cinco anos para cá, passamos por uma banalização da violência. O uso de armas de fogo, de um discurso de ódio, separatista, racista, misógino, homofóbico, até por autoridades oficiais, com isso ganhando escala pública, tudo isso faz com que as pessoas que cultivavam esses valores no seu ambiente privado passem a ganhar corpo público", afirma Di Pietro.
As pesquisadoras destacam ainda o papel da cobertura da imprensa na multiplicação desses casos, já que os agressores em geral buscam notoriedade e se inspiram a partir de ataque anteriores.
"Nosso pedido à imprensa é de não divulgar em detalhes como a coisa se deu, porque isso acaba ensinando como se fazer. É preciso focar muito mais nas vítimas do que no agressor, porque tudo que ele querem é notoriedade", diz a pesquisadora da Unicamp.
Bolsonaro, de ladrão de joias a inimigo da democracia
Elementar: quanto mais Bolsonaro se complica, melhor para seus adversários. O que elementar não é: que ele se estrepasse por atos deliberados que carregam suas indeléveis impressões digitais.
Entenda-se por deliberados: atos de sua iniciativa, sobre os quais deve ter refletido bastante. Supor o contrário seria achar que Bolsonaro não tem juízo, comporta-se como um animal irracional.
Ele pode ser inculto, como tantas vezes demonstrou. Se não mentiu, e como já disse, só leu, ou mal leu, um livro em toda a sua vida – as memórias do coronel torturador Carlos Alberto Ustra.
Deu azar no ano passado ao esbarrar em Lula que imaginara fora do seu caminho desde que o ex-juiz Sérgio Moro o prendera e condenara. Ainda assim, perdeu por uma titica de votos.
Era para ter perdido por uma grande diferença, afinal carregava nas costas 700 mil mortos pela Covid, a situação deplorável da economia e os ataques furiosos à democracia que jurou respeitar.
Ao seu modo, fez quase tudo certo para tentar se reeleger. Ao perder, entrou em estado de choque. De lá para cá, fez tudo errado. Tivesse reconhecido a derrota, não estaria à beira do cadafalso.
Provocava-lhe náuseas telefonar para Lula parabenizando-o pela vitória? Era-lhe inadmissível participar da cerimônia de transferência da faixa presidencial? Absurdo, mas sairia na urina.
Não foi, porém, o que aconteceu. Paralisado, com a erisipela a aumentar seu sofrimento, absteve-se de governar por dois meses e estimulou silenciosamente o golpe de 8 de janeiro.
Ou os golpistas teriam ido às ruas se Bolsonaro, de pronto, ordenasse o retorno para casa? Ou o Exército deixaria contra a vontade de Bolsonaro que golpistas acampassem à sua porta?
Para completar a desdita, antes de fugir para os Estados Unidos de onde não deveria ter voltado tão cedo, Bolsonaro caiu na tentação de surrupiar joias que seriam incorporadas ao acervo do Estado.
E, de fato, surrupiou uma parte – infelizmente, para ele, a de menor valor. E tentou surrupiar a outra parte, no valor de 16,5 milhões de reais, que fora apreendida pela Receita Federal.
Vem, agora, em depoimento à Polícia Federal, e diz com a maior cara de pau que só tomou conhecimento das joias dadas de presente pela ditadura da Arábia Saudita mais de um ano depois.
E que ao tentar reavê-las, quis salvar o Brasil da vergonha de apreender presentes oferecidos por um governo ao outro. Ora, por que não os declarou desde logo como presentes entre governos?
As joias teriam sido liberadas, conforme a lei. E por que se apropriou de parte delas que lhe chegou às mãos, levando-as ao deixar o governo? É uma história sem pé nem cabeça, surreal.
Em resumo, no que Bolsonaro quer que acreditemos:
Entenda-se por deliberados: atos de sua iniciativa, sobre os quais deve ter refletido bastante. Supor o contrário seria achar que Bolsonaro não tem juízo, comporta-se como um animal irracional.
Ele pode ser inculto, como tantas vezes demonstrou. Se não mentiu, e como já disse, só leu, ou mal leu, um livro em toda a sua vida – as memórias do coronel torturador Carlos Alberto Ustra.
Mas uma toupeira, seguramente ele não é. Uma toupeira não chega à presidência da República. Em 2018, unir a direita em torno de si foi uma obra admirável de argúcia e arquitetura política.
Deu azar no ano passado ao esbarrar em Lula que imaginara fora do seu caminho desde que o ex-juiz Sérgio Moro o prendera e condenara. Ainda assim, perdeu por uma titica de votos.
Era para ter perdido por uma grande diferença, afinal carregava nas costas 700 mil mortos pela Covid, a situação deplorável da economia e os ataques furiosos à democracia que jurou respeitar.
Ao seu modo, fez quase tudo certo para tentar se reeleger. Ao perder, entrou em estado de choque. De lá para cá, fez tudo errado. Tivesse reconhecido a derrota, não estaria à beira do cadafalso.
Provocava-lhe náuseas telefonar para Lula parabenizando-o pela vitória? Era-lhe inadmissível participar da cerimônia de transferência da faixa presidencial? Absurdo, mas sairia na urina.
Não foi, porém, o que aconteceu. Paralisado, com a erisipela a aumentar seu sofrimento, absteve-se de governar por dois meses e estimulou silenciosamente o golpe de 8 de janeiro.
Ou os golpistas teriam ido às ruas se Bolsonaro, de pronto, ordenasse o retorno para casa? Ou o Exército deixaria contra a vontade de Bolsonaro que golpistas acampassem à sua porta?
Para completar a desdita, antes de fugir para os Estados Unidos de onde não deveria ter voltado tão cedo, Bolsonaro caiu na tentação de surrupiar joias que seriam incorporadas ao acervo do Estado.
E, de fato, surrupiou uma parte – infelizmente, para ele, a de menor valor. E tentou surrupiar a outra parte, no valor de 16,5 milhões de reais, que fora apreendida pela Receita Federal.
Vem, agora, em depoimento à Polícia Federal, e diz com a maior cara de pau que só tomou conhecimento das joias dadas de presente pela ditadura da Arábia Saudita mais de um ano depois.
E que ao tentar reavê-las, quis salvar o Brasil da vergonha de apreender presentes oferecidos por um governo ao outro. Ora, por que não os declarou desde logo como presentes entre governos?
As joias teriam sido liberadas, conforme a lei. E por que se apropriou de parte delas que lhe chegou às mãos, levando-as ao deixar o governo? É uma história sem pé nem cabeça, surreal.
Em resumo, no que Bolsonaro quer que acreditemos:
* Que apenas a poucos dias do fim do seu governo ficou sabendo que jazia há mais de um ano em um cofre da Receita um estojo com joias destinadas a Michelle;
* Que por mais de um ano sonegaram-lhe a informação de que um estojo com joias destinadas a ele esteve guardado em algum lugar do Ministério das Minas e Energia, não se sabe por quê;
* Que sinceramente não lembra do nome do auxiliar que o avisou sobre as joias para ele e para Michelle trazidas da Arábia Saudita pelo almirante e ex-ministro Bento Albuquerque.
A história é outra, e poderá custar-lhe o indiciamento em crimes de peculato e corrupção passiva. Deixar a cena como ladrão é pior do que ficar inelegível por sabotar a democracia.
* Que por mais de um ano sonegaram-lhe a informação de que um estojo com joias destinadas a ele esteve guardado em algum lugar do Ministério das Minas e Energia, não se sabe por quê;
* Que sinceramente não lembra do nome do auxiliar que o avisou sobre as joias para ele e para Michelle trazidas da Arábia Saudita pelo almirante e ex-ministro Bento Albuquerque.
A história é outra, e poderá custar-lhe o indiciamento em crimes de peculato e corrupção passiva. Deixar a cena como ladrão é pior do que ficar inelegível por sabotar a democracia.
quarta-feira, 5 de abril de 2023
Do planeta imaginário para a terra real
Existe uma noção crescentemente difundida de que o nosso planeta mudou muito desde a Revolução Industrial. Ao longo dos anos, nesta crónica do JL tenho procurado documentar profusamente aquilo que o historiador John McNeill (2000) designou como “A Grande Aceleração”: o crescimento exponencial do impacto humano sobre o complexo software planetário, aumentando a sua entropia e desequilibrando os seus frágeis equilíbrios, de que depende a biosfera, incluindo a sobrevivência da nossa espécie. Contudo, mesmo entre as camadas mais educadas da população, em virtude também da visão fragmentada do mundo que nos é oferecida pelas formações académicas hiperespecializadas (mesmo dentro das ciências naturais e quantitativas), a dimensão, profundidade e significado dessa mudança é bastante vaga e imprecisa.
As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.
Em busca de uma nova visão da Terra a história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspectiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.
Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).
O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:
“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).
Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).
Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.
Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.
As políticas públicas de ambiente e clima – incluindo as suas conexões com as políticas de economia, saúde ou defesa – têm-se caracterizado pelo pressuposto não interrogado de que a crise ambiental e climática constitui um epifenómeno indesejado de um processo globalmente positivo, que pode ser corrigido através de uma convicção, também ela não questionada, acerca da essência ilimitada do nosso engenho técnico, capaz de estar à altura de todo e qualquer desafio (Soromenho-Marques & Ribeiro, 2022). Por muito dolorosos que sejam os danos colaterais, para essa visão convencional não está em causa a bondade do processo civilizacional em curso, nem a possibilidade de resolver, ou, pelo menos, atenuar substantivamente, os danos colaterais infligidos pela ação antrópica sobre o ambiente.
Em busca de uma nova visão da Terra a história da ciência moderna manifesta sem ambiguidade a natureza coletiva e institucional da empresa científica. São precisos meios materiais e humanos, organizados numa perspectiva de longo prazo. A empresa científica tem de estar associada ao sistema educativo, suportada por políticas públicas, articulada com os atores de mercado, legitimada pelo apoio da opinião pública e das organizações da sociedade civil. O processo de transição de uma visão parcelar, disfuncional, das questões ambientais para uma visão holística, integrada, capaz de oferecer representações e modelos com uma sólida base quantitativa e uma rigorosa adesão à realidade concreta, foi bastante lento e penoso. Foi preciso aproximar disciplinas e, sobretudo, pessoas de culturas académicas diferenciadas. Foi indispensável reorganizar projetos científicos, incluindo difíceis estratégias interdisciplinares e complexos modelos de financiamento.
Esse caminho começou a ser percorrido, com deliberação e consciência, por parte dos seus intervenientes, cerca da década de 1980 (o fim da guerra fria libertou meios e vontades para essa expansão). O resultado é o que hoje se designa, muitas vezes sem noção da novidade do que está em causa, a “ciência do Sistema-Terra” (Earth System science). No seu processo de construção, têm-se congregado não apenas as ciências naturais, mas também as ciências sociais e humanas (Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J. et al, 2020).
O Sistema-Terra, ao ultrapassar uma visão especializada e fragmentar da “natureza” predominante durante séculos na cultura científica ocidental moderna, permite dar visibilidade a fenómenos e processos complexos “emergentes”, objetos que só se tornam visíveis a partir da combinação entre os domínios que, anteriormente eram encarados como áreas especializadas, tendencialmente autónomas, esse é o caso de um indicador fundamental para estudarmos as alterações climáticas, o da temperatura média global de superfície, como nos explica Will Steffen, um dos cientistas mais relevantes nas pesquisas sobre os nossos desafios existenciais:
“Basicamente, o ‘Sistema Terra’ refere-se aos processos físicos, químicos e biológicos que interagem entre si e ligam a atmosfera, a criosfera (gelo), a terra, o oceano e a litosfera. Estes processos criam ‘propriedades emergentes’ – ou seja, propriedades e características do Sistema Terra como um todo, que surgem da interação entre estas esferas. A temperatura média global de superfície é um bom exemplo – é uma propriedade do Sistema Terra como um todo.” (Steffen, W. & Morgan, J., 2021).
Uma janela para a realidade escondida Ao longo das últimas duas décadas, nomeadamente com a identificação do nosso presente como constituindo uma nova época da história geológica, isto é, do tempo longo planetário, o Antropoceno (Crutzen & 2000), essa ideia geral de um “Sistema-Terra” , de um planeta constituído não por blocos mecanicamente autónomos (como é representado na visão convencional), mas pela complexa interação e interdependência de processos, ciclos, e fluxos de matéria e energia, deu origem a um sofisticado modelo, e em permanente atualização. A Terra, modelada desse modo, compreende os seguintes campos e respetivos limites: 1) Alterações climáticas; 2) Taxa de perda de biodiversidade; 3) Ciclo do azoto/ciclo do fósforo – que compreende conjuntamente o limite do fluxo biogeoquímico; 4) Depleção do ozono estratosférico; 5) Acidificação oceânica; 6) Utilização global da água doce; 7) Alteração do uso do solo; 8) Carga atmosférica de aerossóis; 9) Poluição química (Rockström, J., Steffen, W., Noone, K. et al. 2009; Steffen, W., Richardson, K., Rockström, J., et al., 2015).
Trata-se de um autêntico painel de controlo, identificando os “limites planetários” (planetary boundaries) que não devem ser ultrapassados numa gestão prudente da nossa habitação histórica neste planeta. Um instrumento precioso para a sobrevivência, tanto mais quando é factual que em seis desses nove campos a luz vermelha do perigo já se acendeu. Parece-me desprovido de ambiguidade o desafio que a ciência do Sistema-Terra lança à política, à economia, ao direito, às relações internacionais, à ética: só conseguiremos evitar um colapso da civilização – que erguemos na base de uma fictícia visão da Terra (que considerámos, e continuamos na prática a considerar, como uma estrutura solidamente permanente e à nossa disposição para necessidades e caprichos) – se trabalharmos em conjunto, numa cooperação compulsória, imposta pela brutal realidade da encruzilhada existencial em que nos encontramos.
Que em vez disso, sejam os demónios da guerra e da discórdia, a falar mais alto, diz-nos bem, da distância gigantesca entre aquilo que é e o que deveria ser.
Está chegando a hora de Bolsonaro devolver-se à sua insignificância
Na condição inédita e desonrosa de primeiro ex-presidente dos Estados Unidos a sentar no banco dos réus, Donald Trump é acusado de subornar pessoas para que não revelassem informações que poderiam ter prejudicado suas chances de se eleger em 2020.
Entre os subornados, um porteiro, uma modelo, coelhinha da revista Playboy, e uma atriz de filmes pornográficos. Com as duas, ele manteve casos fora do seu casamento, o que nos Estados Unidos é capaz de destruir candidaturas e reputações.
Bolsonaro, hoje, irá depor à Polícia Federal na condição inédita e igualmente desonrosa de ex-presidente do Brasil acusado de surrupiar presentes milionários ofertados por outro país, e que deveriam ter sido incorporados ao acervo do Estado.
Parte dos presentes ficou retida na Receita Federal do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, porque desembarcou escondida na bagagem de um assessor do almirante Bento Gonçalves, então ministro das Minas e Energia, e não foi declarada.
A outra parte entrou ilegalmente no país na bagagem do próprio ministro, e dela Bolsonaro se apoderou e levou com ele ao fim do seu governo. Mas não ficou satisfeito. Fez tudo para reaver parte dos presentes apreendida pela Receita, tudo menos declará-la.
Esgota-se nesta semana o prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral para que Bolsonaro se defenda da acusação de conspirar para solapar a democracia. Nenhum outro ex-presidente foi condenado por esse crime. Ele poderá ser também o primeiro.
O Congresso derrubou o presidente Fernando Collor acusando-o de corrupção. Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal absolveu-o. O ex-juiz Sérgio Moro prendeu e condenou Lula por corrupção. O Supremo anulou a sentença, Lula foi solto e se elegeu presidente.
Por duas vezes, o presidente Michel Temer foi acusado de corrupção. O Congresso salvou-o de ser processado. No caso do escândalo das joias avaliadas em 18 milhões de reais, Bolsonaro poderá ser enquadrado por peculato e corrupção passiva.
Antigamente, para qualquer pessoa, especialmente para um homem público, virar réu em um processo era algo vergonhoso e talvez mortal. No Japão ainda tem quem se mate para lavar a honra, ou renuncie ao cargo e saia definitivamente de cena.
Trump prende usar sua condição de réu como trunfo para em 2024 vingar-se da derrota que o presidente Joe Biden lhe impôs há dois anos. A legislação americana permite que ele concorra e se eleja de dentro da cadeia, se for o caso. A nossa não permite.
Se condenado por crime contra a democracia, Bolsonaro ficará inelegível por 8 anos. São fartas e convincentes as provas de que ele se empenhou em desacreditar o processo eleitoral brasileiro e que usou a máquina do governo para roubar a reeleição.
Ou você acredita que Anderson Torres, então ministro da Justiça, sem autorização de Bolsonaro, desembarcaria na Bahia às vésperas do segundo turno da eleição passada para armar um esquema que impedisse eleitores petistas de votarem em Lula?
O ministro Gilmar Mendes acha que a “maior contribuição de Bolsonaro [ao país] foi devolver Moro ao nada”. Não foi. Embora justa, é birra de Gilmar com Moro. A maior contribuição de Bolsonaro ao país será ele mesmo devolver-se ao nada.
Sua hora está próxima.
Entre os subornados, um porteiro, uma modelo, coelhinha da revista Playboy, e uma atriz de filmes pornográficos. Com as duas, ele manteve casos fora do seu casamento, o que nos Estados Unidos é capaz de destruir candidaturas e reputações.
Bolsonaro, hoje, irá depor à Polícia Federal na condição inédita e igualmente desonrosa de ex-presidente do Brasil acusado de surrupiar presentes milionários ofertados por outro país, e que deveriam ter sido incorporados ao acervo do Estado.
Parte dos presentes ficou retida na Receita Federal do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, porque desembarcou escondida na bagagem de um assessor do almirante Bento Gonçalves, então ministro das Minas e Energia, e não foi declarada.
A outra parte entrou ilegalmente no país na bagagem do próprio ministro, e dela Bolsonaro se apoderou e levou com ele ao fim do seu governo. Mas não ficou satisfeito. Fez tudo para reaver parte dos presentes apreendida pela Receita, tudo menos declará-la.
Esgota-se nesta semana o prazo dado pelo Tribunal Superior Eleitoral para que Bolsonaro se defenda da acusação de conspirar para solapar a democracia. Nenhum outro ex-presidente foi condenado por esse crime. Ele poderá ser também o primeiro.
O Congresso derrubou o presidente Fernando Collor acusando-o de corrupção. Mais tarde, o Supremo Tribunal Federal absolveu-o. O ex-juiz Sérgio Moro prendeu e condenou Lula por corrupção. O Supremo anulou a sentença, Lula foi solto e se elegeu presidente.
Por duas vezes, o presidente Michel Temer foi acusado de corrupção. O Congresso salvou-o de ser processado. No caso do escândalo das joias avaliadas em 18 milhões de reais, Bolsonaro poderá ser enquadrado por peculato e corrupção passiva.
Antigamente, para qualquer pessoa, especialmente para um homem público, virar réu em um processo era algo vergonhoso e talvez mortal. No Japão ainda tem quem se mate para lavar a honra, ou renuncie ao cargo e saia definitivamente de cena.
Trump prende usar sua condição de réu como trunfo para em 2024 vingar-se da derrota que o presidente Joe Biden lhe impôs há dois anos. A legislação americana permite que ele concorra e se eleja de dentro da cadeia, se for o caso. A nossa não permite.
Se condenado por crime contra a democracia, Bolsonaro ficará inelegível por 8 anos. São fartas e convincentes as provas de que ele se empenhou em desacreditar o processo eleitoral brasileiro e que usou a máquina do governo para roubar a reeleição.
Ou você acredita que Anderson Torres, então ministro da Justiça, sem autorização de Bolsonaro, desembarcaria na Bahia às vésperas do segundo turno da eleição passada para armar um esquema que impedisse eleitores petistas de votarem em Lula?
O ministro Gilmar Mendes acha que a “maior contribuição de Bolsonaro [ao país] foi devolver Moro ao nada”. Não foi. Embora justa, é birra de Gilmar com Moro. A maior contribuição de Bolsonaro ao país será ele mesmo devolver-se ao nada.
Sua hora está próxima.
O milagre da Democracia
Acreditar em soluções milagrosas, decisões monocráticas, decretos contundentes é como acreditar em deus e não questionar mais nada. De uma certa forma é mais confortável, te exime de responsabilidades e te coloca num lugar privilegiado em cima do muro. Num estudo mais generalizado e superficial, as religiões mais imediatas agem assim. Não pergunte, acredite e tudo vai se resolver. Os governos menos democráticos também. Confie nos meus atos, não fique em dúvida e não questione. Vivemos um período recente em que as decisões eram tomadas desta maneira. Claro que nada visava o bem estar da população e sim, hoje sabemos, o bem estar privado de poucos. Como ninguém até então questionava, tudo ia bem. E como eles não pensavam em largar o osso tão cedo, melhor ainda.
Quando você não tem dogmas para te orientar, a vida fica tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo, mais fascinante. Não saber e querer aprender é muito mais interessante do que aceitar “verdades”. Não acreditar em deus pode ser mais interessante do que aceitar simplesmente que ele existe. Questionar sua existência ou até sua não existência é muito mais interessante. Tudo que faz pensar dá mais trabalho. É gratificante, mas tira você da zona de conforto.
Governar o Brasil com essas questões todas que uma aliança tão ampla e necessária se apresenta fica difícil. Uma parte espera de Lula milagres imediatos. Outros torcem pelo fracasso também sem dar tempo ao tempo e sem participar desta dinâmica de reconstrução. Outras pessoas também reclamam da lentidão da Justiça para julgar os crimes evidentes de Bolsonaro e sua turma. A Justiça democrática, mesmo que lenta como a nossa, é muito mais justa do que os atos sumários e disfarçados de jurídicos que estávamos habituados a engolir. Lula foi preso por Moro e a boa parte da sociedade aceitou sem problemas porque o pensamento comum era o de direita que culpava Lula e o PT por todas as mazelas brasileiras. O projeto da direita envolveu a mídia, o empresariado e a classe média nessa demonização. O próprio Supremo atropelou todos os seus “datas vênias” para justificar a atitude autoritária. Deu no que deu.
Mas hoje, que vivemos tempos diferentes e a falcatrua foi descoberta e denunciada, assistimos uma justiça mais lenta, mas mais democrática e um governo que tem mais dificuldades para resolver as questões. Mas a elite, que envolve parte da imprensa, está louca para morder o governo eleito pelo povo e que, democraticamente, tenta governar. Difícil viver de fato a democracia. Difícil aceitar os mistérios do universo sem colocar a responsabilidade em deus. Difícil trabalhar por soluções sem desejar no fundo soluções rápidas e milagrosas.
Viver dá trabalho, mas é fascinante. Governar um país dá trabalho, mas o resultado pode ser bem gratificante. Ver um povo mais feliz é como realizar uma tarefa ou descansar depois de um dia inteiro de trabalho e questionamentos. Temos que valorizar aquilo que só o ser humano tem, a capacidade de pensar e elaborar para poder minimizar um defeito que também só nós, acho eu, temos. A capacidade de aniquilar o próximo por mero prazer, doença ou por interesses espúrios. Acreditar na democracia é como não acreditar em milagres.
Quando você não tem dogmas para te orientar, a vida fica tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo, mais fascinante. Não saber e querer aprender é muito mais interessante do que aceitar “verdades”. Não acreditar em deus pode ser mais interessante do que aceitar simplesmente que ele existe. Questionar sua existência ou até sua não existência é muito mais interessante. Tudo que faz pensar dá mais trabalho. É gratificante, mas tira você da zona de conforto.
Governar o Brasil com essas questões todas que uma aliança tão ampla e necessária se apresenta fica difícil. Uma parte espera de Lula milagres imediatos. Outros torcem pelo fracasso também sem dar tempo ao tempo e sem participar desta dinâmica de reconstrução. Outras pessoas também reclamam da lentidão da Justiça para julgar os crimes evidentes de Bolsonaro e sua turma. A Justiça democrática, mesmo que lenta como a nossa, é muito mais justa do que os atos sumários e disfarçados de jurídicos que estávamos habituados a engolir. Lula foi preso por Moro e a boa parte da sociedade aceitou sem problemas porque o pensamento comum era o de direita que culpava Lula e o PT por todas as mazelas brasileiras. O projeto da direita envolveu a mídia, o empresariado e a classe média nessa demonização. O próprio Supremo atropelou todos os seus “datas vênias” para justificar a atitude autoritária. Deu no que deu.
Mas hoje, que vivemos tempos diferentes e a falcatrua foi descoberta e denunciada, assistimos uma justiça mais lenta, mas mais democrática e um governo que tem mais dificuldades para resolver as questões. Mas a elite, que envolve parte da imprensa, está louca para morder o governo eleito pelo povo e que, democraticamente, tenta governar. Difícil viver de fato a democracia. Difícil aceitar os mistérios do universo sem colocar a responsabilidade em deus. Difícil trabalhar por soluções sem desejar no fundo soluções rápidas e milagrosas.
Viver dá trabalho, mas é fascinante. Governar um país dá trabalho, mas o resultado pode ser bem gratificante. Ver um povo mais feliz é como realizar uma tarefa ou descansar depois de um dia inteiro de trabalho e questionamentos. Temos que valorizar aquilo que só o ser humano tem, a capacidade de pensar e elaborar para poder minimizar um defeito que também só nós, acho eu, temos. A capacidade de aniquilar o próximo por mero prazer, doença ou por interesses espúrios. Acreditar na democracia é como não acreditar em milagres.
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