quarta-feira, 23 de setembro de 2015

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Dilma mente falando

Às vezes me dá um desânimo... Todo dia é a mesma coisa: vivemos a mesmice do “rebojo”, rodamos junto com o país e ficamos tontos com tanta safadeza e mentiras. E com tudo isso – e muito mais – que está provado na operação Lava Jato, ninguém, a não ser os delatores, assume responsabilidades pelo maior escândalo havido no Brasil desde a escravidão.

Assim, até acredito que Dona Dilma não sabia (e não saiba) de nada, como afirma, e talvez nunca tenha ouvido falar em Pasadena. Dilma ainda está em combate, de metralhadora em punho, tentando derrubar governos para implantação do comunismo que já foi da Rússia. Dilma não mente, simplesmente é a própria mentira. Quando colocou em seu currículo que era mestra e doutora pela Unicamp, ela não mentiu, apenas não sabia o que é isso. Quem pensa, como ela, que a mandioca é uma invenção tecnológica não pode mesmo saber que “impeachment” é matéria de direito constitucional. Nunca pensei em “impeachment” da presidente, sempre pensei em interdição. Dona Dilma é incapaz, mas, convenhamos, aguentar Michel Temer com sua antipatia, falando e gesticulando com cara de pensador, é como tomar bicarbonato só para arrotar. Sei não, mas é preciso mudar esse cardápio antes que o vômito da indigestão nos desidrate.

O povo vai ter de pagar a conta da bebedeira do PT? Eles, governo e petistas, com raríssimas exceções, falam em fazer isso e aquilo para combater a inflação, para pagar o déficit fiscal do país, como se não fossem eles os únicos responsáveis. Eu e outros, que não toleramos mais este governo e o PT, teremos de pagar o que a gatunagem deles provocou? E aqueles que simplesmente não votaram nessa gente? Cara, é o caso de repetir: “Quem pariu Mateus que o embale”.

Recebi de um amigo uma sugestão interessante para resolver o déficit anunciado no Orçamento fiscal do próximo ano, e sem misturar nesse “mexido” quem nada tem com isso: “Pegar o valor do rombo nas contas do governo e dividir pelos eleitores do PT... R$30.000.000.000/ 54.501.118 de eleitores = R$ 550,45. Plano para pagamento em 12 meses; R$ 45,87 direto no boleto; para 24 meses; R$ 22,93 direto no boleto. Vamos lá, ajude quem você elegeu a sair dessa enrascada! Seja verdadeiramente um cidadão petista”. Que tal?

E, para terminar, alguns sinais de metástase na roubalheira e na covardia que imperam no Brasil: dia desses, uma revista de circulação nacional publicou notícia num canto de página, sugerindo que o aumento dos cargos em comissão nas Assembleias Legislativas visa aumentar a remuneração de deputados, já que os agraciados são obrigados a dividir seus vencimentos com quem os nomeou para seus gabinetes. Pensei cá comigo: meu Deus, em que tempo estamos... Estão batendo carteira de cegos... Fiquei mais tranquilo quando me lembrei de que vivemos em Minas Gerais, e deputados mineiros jamais cometeriam tais ignomínias, jamais! Mineiro tem espírito escoteiro, então, “sempre alerta” deve ser o lema...

Vítimas de uma guerra amazônica


Uma das ilhas do Xingu, desmatada e queimada para o enchimento do lago de Belo Monte. Foto: Lilo Clareto
A saga de João e Raimunda tem seu ápice em dois atos de uma guerra amazônica não reconhecida pelo Estado e pela maioria dos brasileiros. Ainda assim, ela está lá. Aqui. Essa história, decidida neste momento no Pará, na região de Altamira e da bacia de um dos rios mais ricos em biodiversidade da Amazônia, o Xingu, é contada por um homem e por uma mulher, apenas dois entre dezenas de milhares de expulsos pela hidrelétrica de Belo Monte, gente que hoje vaga por um território que não reconhece – e no qual não se reconhece. Mas esta não é mais uma entre tantas narrativas dramáticas em um país assinalado pela violação sistemática dos direitos de negros e de indígenas. Raimunda e João trazem inscritos no corpo uma encruzilhada histórica. A de um país que chegou ao presente, depois de tanto ser futuro, e se descobriu atolado no passado. O epílogo de um partido que chegou ao poder com a promessa de dar dignidade aos mais pobres e aos mais desprotegidos e os traiu na porção mais distante do centro do poder político e econômico, a Amazônia. Esta é também a anatomia de uma perversão: a de viver numa democracia formal, mas submetido a forças acima da Lei. O não reconhecimento da violência sofrida inflige a suas vítimas uma dor ainda maior, e uma sensação de irrealidade que as violenta uma segunda vez. É a experiência de viver não fora da lei, mas sem lei que escava a existência de Raimunda e de João – e os faz escolher destinos diferentes diante da aniquilação.

Raimunda decidiu viver, ainda que carregando seus pedaços. João não sabe como viver. Para ele, só há sentido na morte em sacrifício.

Neste momento, João e Raimunda vivem esse impasse.

Enquanto isso, a Norte Energia espera apenas que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) dê a Licença de Operação da hidrelétrica, mesmo sem que a empresa tenha cumprido as medidas de redução e compensação do impacto, para começar a encher o lago de Belo Monte.

O terceiro ato ainda é uma incerteza.

A devastação do Xingu em imagens

Dilma: Didi Mocó e Dedé no poder, segundo Delfim

Com experiência de professor aposentado da USP, ex-czar da economia na ditadura, ex-constituinte, ex-parlamentar e ex-espírito santo de orelha de dois presidentes nos (até agora) 12 anos e 9 meses de lulopetismo no governo federal, Delfim Netto garantiu, em entrevista a Eliane Cantanhêde, no Estado: “A Dilma é simplesmente uma trapalhona”. Didi Mocó e Dedé no poder. E honesta! Mas definiu sua proposta de Orçamento com déficit primário (mais gastos a pagar do que rendas a arrecadar) como uma “barbeiragem”. E o pacote fiscal para debelar a crise, uma “fraude”.

O papa de uma patota de economistas tidos e havidos como da maior competência (até hoje atuantes), dono de uma inteligência comparável à de Lula da Silva e uma cultura invejável, que o outro não tem, pelo visto perdeu a paciência com madama gerenta incompetenta. Mas o brilho de seu raciocínio não impede que se enxergue a impropriedade dessa mistureba, que seu velho inspirador em lógica, Aristóteles, não aceitaria. Déficit em Orçamento é ilícito, pois viola a Lei de Responsabilidade Fiscal. E fraude não é sinônimo de honestidade nem no mais permissivo dos dicionários.

No fragor da batalha pelo controle da Constituição de 1988, Delfim, que então já se dizia “socialista fabiano”, fez uma profecia que hoje se mostra sábia, mas, ao contrário do que se podia deduzir à época, menos devastadora do que de fato viria a ser. Para ele, convinha dar o poder ao Partido dos Trabalhadores, de seu colega parlamentar Luiz Inácio Lula da Silva, de vez que só assim o País se livraria do mal que o mito de santidade da esquerda fazia. Em 2014, às vésperas de uma eleição que ainda parecia indefinida entre a presidente petista e o líder tucano da oposição, Aécio Neves, Delfim vaticinou a interlocutores mais próximos que ela ganharia a eleição. Mas, em seu segundo mandato, os resultados da “nova política econômica” (conforme a inspiração leninista) produziriam tal crise que o governo chegaria ao fim antes dos quatro anos previstos.

Por incrível que pareça, as duas profecias são coerentes entre si. Embora o profeta tenha aconselhado o padim Lula Romão Batista de Caetés em seus dois mandatos e também tenha sido ouvido pela afilhada e sucessora deste, não há como cobrar de Delfim o fato de tal purgatório ter durado tanto. O bom senso do Macunaíma do ABC, com a economia tutelada por Antônio Palocci e Henrique Meirelles, guiou a nau capitânia por mares sem procelas. E, assim, a navegação continuou beneficiada pelo vento de popa, usando a metáfora náutica que deu título às memórias de outro célebre economista da época do milagre econômico da ditadura militar e ex-colega dos dois no Legislativo, Roberto Campos.

O vento de proa que impulsionou a nau sem rumo para a tempestade a pegou no pior momento: quando ao leme estava uma capitã sem habilidades para comandar uma canoa de pescador e completamente inabilitada para dar rumo ao bote salva-vidas que é a situação de momento. Na crise produzida pelo delírio consumista de seu padroeiro ou pelas próprias convicções intervencionistas, a comandanta faz sua “travessia” sem Moisés nem a bonança da conjuntura internacional favorável. Se ela içar as bujarronas, o temporal destroçará o barco. Se as recolher, o afundará por inércia.


Faltam-lhe perícia, humildade e sensatez. Resta-lhe apelar para a boia à mão: a velha democracia burguesa, que ela sempre odiou, tal como Robespierre e Marat. “Ei, vocês aí da oposição: não venham de borzeguins ao leito. Fui eleita pela maioria dos cidadãos e vocês têm de aceitar a vontade das urnas” – berra, teimosamente, essa meia-verdade. Mas é cada vez menos ouvida, pois a tempestade rugindo e os vagalhões minando a estrutura do barquinho sem rumo tornam sua gritaria, normalmente incompreensível, uma algaravia incapaz de iludir náufragos ameaçados pelo afogamento.

A tarefa dela não é fácil. Enquanto se agarra ao bote repetindo “eu sou a democracia”, bagagens e outros passageiros são jogados ao mar sem dó. Há 15 dias, neste pedaço de página, referi-me a 1 milhão de trabalhadores perdendo o emprego neste primeiro ano de segundo desgoverno. Agora, já se fala em 1,6 milhão – 60% mais!

E como instrumento de navegação ela só dispõe da ilusão de que é A democracia. Pois, favorita dos mortadelas, ela teve mais votos do que o candidato dos coxinhas há dez meses e meio. Mas sua democracia não é a de Danton e Jefferson. Em sua cabeça, entorpecida por Marx, Lenin, Stalin, Lula e devotos do pixuleco, ela a encara como um pôquer disputado a cada quatro anos, com cacife assegurado pelo período intermediário para criar ministérios e outros penduricalhos para a barganha com aliados.

Ela se diz heroína da liberdade, ainda que a ditadura que ela combatia e a que ela almejava fossem siamesas, embora antípodas. A mentira bastaria para desqualificar sua versão do regime, que não é o menos ruim de todos (apud Churchill), mas o melhor para a cupinchada. E há quem reze “diuturnamentee noturnamente” para ela pedir perdão, pagar penitência dividindo o doce e prosseguir!

Até hoje, lendo no tele-prompter patacoadas de seu marqueteiro Patinhas, Dilma garante que arriscou a vida pela liberdade, mas não se sente na obrigação de mostrar nenhum dos muitos documentos de grupos armados contra os milicos que tenha citado uma vez só a palavra “democracia”. Isso já faz tempo e ela está ocupada demais para rememorar inconveniências. Mas quando é que ela vai enfrentar os panelaços num pronunciamento público em cadeia de rádio e televisão para execrar o que Genoino, Dirceu e Delúbio fizeram do PT? E afastar Edinho, Oliva e outros acusados dessa confusão criminosa entre coisa pública e república (hospedaria) de quem aderiu ao capitalismo do propinoduto? Podia até aproveitar e exigir atitude similar dos adversários tucanos com o Aloysio lá deles, ora!

Quando o poder dá as cartas

quando o poder dá as cartas
falta um coringa no baralho
os ases se sentem reis
as rainhas andam com valetes
a sueca vira buraco
onde cada canastrão bate
pega o morto
e sai atrás de ouros
onde sobram copas, paus e espadas
até perder o que era pra ganhar
sem saber o que foi apostado
quando o poder dá as cartas
o baralho está sempre marcado
joga-se a paixão contra a ilusão
e quem tem as cartas na mão
nem sempre tem a sorte
ao seu lado
e trapaceia
por pura falta de opção
quando o poder dá as cartas
o jogo vira trabalho
a carta que cada um tem na manga
é sempre aquele coringa
que falta no baralho

Tavinho Paes

O homem errado

Todos sabemos: se você encontrar um jabuti em cima da árvore, não queira saber como ele subiu até lá –foi alguém que o colocou. E por que alguém colocaria um jabuti em cima da árvore? Para preencher um tempo morto, já que um jabuti em cima da árvore não serve para nada. Ou para manter a árvore ocupada até chegar a hora de tirá-lo.

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Em 2011, Lula colocou Dilma em cima da árvore, contando com que ela lhe devolveria o galho em 2015. Mas Dilma gostou do que viu lá de cima e quis continuar por mais quatro anos. Já aconteceu mil vezes: a criatura apaixona-se por si mesma, descobre que tem vontade própria e dá uma banana para seu criador. É elementar. Espanta que Lula não tenha previsto essa possibilidade.

Há outros espantos. Lula vendeu Dilma como uma grande gerente, uma executiva, uma administradora. Hoje sabemos que é exatamente o que ela não é –seu governo ficará como o mais incompetente da história. Se Lula achava que Dilma fosse aquilo tudo, revelou-se péssimo avaliador de material humano. Se sabia que ela não era, e a bancou assim mesmo, ele deve explicações ao seu pessoal.

Dizem que Lula escalou Dilma como sua sucessora porque Dirceu e Palocci foram abatidos no mensalão. Duvido –Lula os temia porque eram espertos e ambiciosos demais, poderiam crescer e engoli-lo. O ideal para Lula era mesmo Dilma, que o PT não queria, mas teve de digerir. Essa é uma característica do grande líder: quando ele erra, obriga todo mundo a errar com ele. Lula deve ter vendido Dilma como dócil, maternal e obediente. Ela se revelou voluntarista, grossa e incontrolável –além de politicamente desastrosa. Como se pode errar tanto?

Lula pôs o jabuti em cima da árvore. Isso é comum na política. Mas errou de árvore ou errou de jabuti. Em compensação, acertou um tiro no pé.

Entregues à providência divina

O país reclama do governo por uma agenda positiva, ou seja, um elenco de iniciativas capazes de restabelecer a esperança e a confiança em que sairemos da crise. Madame, no entanto, não consegue livrar-se da agenda negativa. Nem ela nem seus adversários. O dólar acaba de romper a barreira dos quatro reais, ao tempo em que o palácio do Planalto busca adiar a rejeição, pelo Congresso, dos vetos presidenciais a projetos aprovados pela maioria de deputados e senadores. Ao mesmo tempo, ignora-se quantos e quais ministérios serão extintos, sob a inquietação dos partidos da base oficial. Enquanto o segundo ajuste fiscal apenas assusta, com a recriação da CPMF, mas não chegou como projeto à Câmara dos Deputados, por medo da derrota, os efeitos do primeiro pacote fazem-se sentir em toda a sociedade: redução de direitos trabalhistas e de salários, aumento de impostos, taxas e tarifas, ascensão do custo de vida e, acima de tudo, desemprego em massa.

Na Esplanada dos Ministérios e na Praça dos Três Poderes, ninguém pensa na formulação de medidas em condições de recuperar a economia. Torna-se tão calamitosa a situação a ponto de o ex-deputado Delfim Neto acusar Madame de trapalhona e de um ícone fundador do PT, Hélio Bicudo, ter dado entrada no pedido de impeachment da presidente da República. Acrescente-se que o Tribunal de Contas da União está próximo de rejeitar as contas do governo em 2014 e de o Tribunal Superior Eleitoral, prestes a anular as eleições do ano passado, de Dilma e Temer, pela utilização de dinheiro podre na campanha. O PMDB abandona a coligação com o PT e os pequenos partidos saltam de banda.


A renúncia da presidente ganha cada vez mais clamores, ainda que não apenas a ela se deva inculpar pela desagregação econômica e institucional. A Justiça continua cumprindo seu papel, em ritmo peculiar, punindo muito menos do que descobrindo novos lances da roubalheira ao patrimônio público.

É esse o retrato do Brasil, jamais escondido no porão, como o de Dorian Gray, mas escancarado à vista de todos. Nem o empresariado nem os sindicalistas conseguem mais do que protestar em defesa de seus interesses. Na bancarrota, os Estados e Municípios enfrentam a inadimplência, assistindo a Federação desfazer-se e a União penalizando-os cada dia mais, sem conseguir livrar-se de dívidas sempre crescentes.

Muita gente acha que com a renúncia ou o impeachment seria possível começar tudo de novo, mera ilusão inviável, pois que grupo, partido ou corporação assumiria o encargo? E com que propostas? A conclusão é de que somos um país em frangalhos, entregue à Divina Providência, se é que Ela existe.

Queimou as caravelas

Quando da conquista do México, o espanhol Hernán Cortés mandou queimar as caravelas para não deixar nenhuma rota de fuga. Só restava a seus soldados seguir em frente, se quisessem sobreviver. A presidente Dilma Rousseff foi mais além, na sua reforma ministerial: mandou queimar as caravelas em pleno mar. E com ela dentro!

Só assim pode ser entendida sua resposta de que não poderia mais voltar atrás, quando aconselhada por Michel Temer a jogar a reforma ministerial para as calendas gregas para não criar quiproquó em sua base e instabilidade ainda maior no Congresso.

A arapuca na qual se meteu foi armada por ela própria, uma jejuna em política, que parte para frente como um touro bravo, sem cuidar da defesa dos seus flancos. A rainha ignora o bê-á-bá dessa arte: político digno desse nome não faz movimentos dos quais não possa recuar, ao menos taticamente. Nessa seara as coisas acontecem assim. O tudo ou nada dá sempre em nada.

Até os contínuos do Palácio do Planalto sabem que medidas de redução de cargos e de ministérios só são factíveis se tomadas por governos extremamente fortes. Em um governo enfraquecido, como o atual, em vez de ser um instrumento de coesão de sua base de sustentação é mais um fator de desagregação, de luta fratricida entre forças aliadas.

A reforma ministerial já seria uma operação de alto risco se executada logo após a acirradíssima disputa presidencial, imaginem dez meses depois, em um quadro de enfraquecimento e de barata voa nas hostes governistas. Um desatino, claro. Mas a presidente viu na reforma ministerial a cenoura que poderia fazer a sociedade, o mercado e o Parlamento engolirem goela a baixo seu pacote de maldades.
De quebra, vislumbrou na jogada a possibilidade de ter um mínimo de votos para evitar um processo de impeachment. Passou ao largo de suas intenções uma verdadeira reforma do Estado, capaz de despatrimonializá-lo.

Ao contrário, seu simulacro de reforma radicaliza o loteamento político, transforma o butim ministerial em mercado persa e aprofunda o escambo na relação com os partidos aliados.

O tiro saiu pela culatra. Em vez de ser a solução a “reforma” virou um problemão. Gerou insatisfações no MST e na ala esquerda do lulopetismo e deixou de cabelos ouriçados aliados hoje aboletados em ministérios.
Brasil afundando (Foto: Arquivo Google)

E, quem diria, a presidente ouviu um sonoro não da cúpula peemedebista, convidada a participar do reparte do bolo já em farelos, um fato cuja gravidade é autoexplicativa.

Nitidamente a espinha dorsal do PMDB, leia-se Temer, seus escudeiros, Renan, Eduardo Cunha, Romero Jucá e outros caciques, aproveitam-se da rateada presidencial para içar velas e abandonar o cais governista. Se alguém tiver alguma dúvida sobre qual rumo seguirão os profissionais da política, poderá dirimi-la por meio da declaração de Moreira Franco, homem de extrema confiança de Michel Temer: “O governo chamou Kassab (Gilberto) e Cid (Gomes) para desidratar o PMDB. Nós sabemos disso”.

Só que os peemedebistas não são dados à imolação. Sua cúpula não vai assistir passivamente Dilma enfiar uma cunha (desculpem o trocadilho) no PMDB, por meio da neopeemedebista Kátia Abreu ou da nomeação, à sua revelia, de algum deputado ou senador para um novo ministério dilmista.

A presidente não apenas queimou as caravelas com tripulação e tudo. Jogou também gasolina em suas vestes e está prestes a acender o fósforo.

O preço da paralisia


A cena foi surreal, simbólica da confusão dominante. Deputados federais gastaram uma tarde inteira, semana passada, discutindo se o Estado quebrado deve ou não cobrar de defunto, durante o velório. O projeto inovava ao adicionar uma certeza à vida na crise das finanças públicas: a tributação depois da morte.

— Defunto rico pagará mais? — ironizou o neossocialista Heráclito Fortes (PSB-PI).

O cristão Marcos Retagui (PSC-AC) foi além:

— O Imposto sobre Serviços (ISS) será cobrado sobre um imóvel, a sepultura, como é que vai ser executado: caso não seja pago, os prefeitos vão fazer o despejo dos ossos?

Tornou-se inevitável a evocação da lógica governamental de Odorico Paraguaçu, personagem de Dias Gomes, que prometia revolucionar o Brasil de 1984, com mais de 100% de inflação mensal, enquanto aguardava um cadáver para inaugurar o cemitério, sua principal obra.

— Promoverei a justiça social, mediante um plano econômico deverasmente revolucionário — anunciava. — A oposição difamista e subversenta fala muito mal da inflação. É bem verdade que a inflação já passou dos cem por cento, mas isso são os pratrasmentes. Prafrentemente é que importa. E eu provo por A mais B e por C menos D, que é justamente a inflação que vai nos salvar.

Prosseguia:

— Os salários até três mínimos são reajustados acima da inflação. Ora, 95% da população do país ganha menos de três mínimos. E se a inflação continua, esses 95% vão melhorando de vida, melhorando, até que se igualarão aos 5% que ganham mais. Então, será feita a redistribuição da riqueza, a igualdade entre as classes, a justiça social. Destarte, se eleito, promoverei o aumento da inflação para 300% até o ano 2000, tempo suficiente para que, pelo encumpridamento dos pequenos salários e achatamento dos grandes, seja feito o nivelamento salarial.

Na semana passada os legisladores acabaram isentando os mortos de tributação pelo Estado semifalido. Do embaraço denfuntício, como diria Paraguaçu, restou exposto de forma crua algo bem mais grave — o clima de paralisia nas instituições brasileiras.

A presidente manteve-se no Palácio do Planalto, sem bússola e refém da teia de interesses patrimonialistas do PT e partidos aliados, que ajudou a reforçar na última década.

No Congresso prosseguiu-se na toada de um possível processo de impeachment de Dilma Rousseff, mesmo sem evidências de prova material e conclusiva de delito constitucional — como observou o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal, Ayres Britto. Mesmo se fosse possível abstrair essa realidade, seria previsível uma longa e incerta disputa judicial em torno do mandato presidencial.

O STF continuou indeciso a respeito das investigações criminais sobre os presidentes da Câmara, do Senado e centena e meia de parlamentares, todos interessados no desfecho da crise pelo impeachment.

À margem, o país mergulha na recessão. Se a retração se estender também por 2016, advertem economistas como José Roberto Affonso, será a primeira vez desde os anos 30 a se ter dois anos seguidos de retrocesso econômico.

A paralisia institucional ameaça impor um novo preço à crise brasileira: o risco de depressão. Seria o custo do desatino.
Temos um experimento absolutamente fracassado de populismo econômico
Monica de Bolle

TV por assinatura e economia de mercado à brasileira

Outro dia, querendo confrontar-me, um interlocutor exclamou: "Ah, já vi que o senhor defende o Estado mínimo!". Retruquei: "Não sei de que você está falando. Eu só conheço Estado grande, enorme, mastodôntico. E, cá entre nós, ele não precisa que você o defenda porque faz isso muito bem com sua força, leis, regulações, monopólios e mais uma lista inesgotável de meios através dos quais intervém na nossa liberdade e toma nosso dinheiro. Não se aborreça comigo por tentar defendê-lo desse Estado espremedor".

Diferentemente do que possa estar supondo o leitor destas linhas, não me conto entre os que esperam do mercado todas as soluções e as soluções para tudo. Não, não é isso que penso. Há tarefas que são típicas de Estado e a definição sobre quais sejam é polêmica. Independentemente desse debate necessário, tenho como certo que nós, brasileiros, somos tolerantes com o fato de que o Estado vai à contramão da modernidade, ampliando suas atribuições, seu poder e seus custos. Ele, que deveria estar se retraindo a meia dúzia de funções, se expande sem cessar. Para isso, nos trata como se fôssemos limões a espremer e descartar. Não satisfeito, quando os limões acabam, passa a espremer a safra futura, e a outra, e a outra, garantindo que os limões do porvir já cheguem devidamente amassados.
Tal compreensão da realidade não implica considerar o livre mercado como símbolo da perfeição. Não, o mercado não é perfeito. Frequentemente surgem nele distorções cuja correção, pelo próprio mercado, demanda tempo. Mas afirmo, sem qualquer dúvida, que intromissões reguladoras do Estado sobre o mercado nunca são mais eficientes do que as decisões dos consumidores.

Por exemplo: 90% do serviço de TV por assinatura, no Brasil, está em mãos de duas empresas e ambas adotam, além de preços excessivamente elevados, a respeito dos quais é impossível negociar (o que convenhamos, é uma prática antimercadológica, pois não há motivo pelo qual eu possa negociar na loja o preço de um sofá e não possa negociar o preço dos programas de TV que irei assistir sentado nele). Recentemente, não tendo interesse no "pacote HBO" da NET, solicitei cancelamento. Enquanto conversava com o atendente, tentei compor um menú contendo apenas aquilo que eu realmente gostaria de ter à disposição. Impossível. No cardápio do restaurante da TV por assinatura o consumidor não pode dar palpite. Não é permitido, sequer, trocar arroz à grega por batata suíça. A consequência é que todos, sem exceção, pagamos pelos serviços de TV por assinatura muito mais do que consumimos. Pagamos pelo muito que não vemos e o preço final resulta extorsivo.

Felizmente, a tecnologia que associa TV à internet proporcionou o surgimento da Netflix, serviço no qual, por menos de 20 reais/mês, se dispõe de vasto elenco de filmes e séries à livre escolha do cliente. Viva! O mercado está encontrando uma saída para os abusos das gigantes do setor, que passa a lutar contra esse inesperado intruso em mesa onde davam as cartas e jogavam de mão. A quem apelam, para conservar seus anéis nos dedos? Apelam ao Estado, meu amigo! Querem a ajuda do Estado para coibir a Netflix, forçando-a, por via tributária, a elevar seus custos e preços. Alguém tem dúvidas sobre o que fará a respeito o Estado máximo?

O prejuízo do cidadão

O sistema de Previdência Social começou a ser implantado no Brasil em 1923, portanto há 92 anos. Nesse tempo, ele se desenvolveu gradativamente, alcançando mais segmentos da população e somando, hoje, cerca de 31 milhões de brasileiros.

Graças ao sistema, parte significativa da população é sustentada em patamares dignos de sobrevivência. O volume de recursos pagos aos beneficiários impulsiona a economia de muitos municípios, sendo superiores a outros repasses do governo federal.

A importância do sistema na vida nacional fica evidenciada quando ele entra em crise, como no momento. Há quase 80 dias os servidores do INSS mantém uma greve nacional reivindicando aumento de salários e melhores condições de trabalho.

Por causa dela, está praticamente interrompida a concessão de novos benefícios, como aposentadorias, pensões por morte, auxílio-doença e licença-maternidade, entre outros. Segundo estimativas, quase 1 milhão de pessoas estão sem assistência.

Grande parte é constituída de pessoas humildes, sem outros recursos, precisando urgentemente desse apoio do governo. O órgão recomenda que o interessado agende o procedimento, mas, quando ele comparece à agência do INSS, não é atendido.

Observadores avaliam que o governo está tirando proveito disso, uma vez que não tem de desembolsar mais recursos. Doutro lado, como as perícias estão paralisadas, muitos trabalhadores, aptos para trabalhar, continuam à disposição do INSS.

A situação se agravou no atual governo, que, no bojo de um ajuste fiscal, aprovou uma minirreforma, cortando benefícios, e, posteriormente, propôs o adiamento do reajuste do funcionalismo público e cancelou a realização de concursos públicos.

Como se tornou comum no Brasil, hoje, no embate entre governo e servidores, a população em geral e o cidadão em particular são os maiores prejudicados.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Esquerdofrenia

Leio no jornal que o economista Fabio Biambiagi escreveu um livro chamado “Capitalismo – Modo de Usar”, no qual há uma frase essencial para entendermos o caos da economia brasileira: “Mesmo após o sepultamento do socialismo no mundo e a ascensão do capitalismo como sistema dominante em quase todo o planeta, o Brasil mantém um componente anticapitalista enraizado na sociedade” .


O PT é nefasto não apenas por ser o clube da corrupção, mas por praticar essa esquizofrenia de governar um país capitalista com uma cabeça socialista.

Deu no que deu: tudo que era sólido no país hoje se desmancha no ar. A catástrofe era inevitável porque eles não têm memória (ou não querem ter) do passado de erros que a chamada “esquerda” cometeu nos últimos 50 anos.

Eu já fui do Partido Comunista. Por três semanas. Nunca vi nada tão chato como reunião de comunas. As discussões jamais contemplavam a complexidade do processo brasileiro. Tudo se dividia em três classes: o proletariado, a pequena burguesia e a burguesia, todas dominadas pelo chamado “imperialismo norte-americano” – a palavra mágica que tudo explicava. O que mais me intrigava e irritava eram as toscas premissas para a ação política.

Dentro deste enorme país, raciocinávamos com as mesmas ideias que ressoam até hoje nas reuniões dos herdeiros da ilusão: o PT, melhor, o Ex-PT, hoje oportunista e de direita. E, pior, essa estupidez é ensinada pelos professores nas universidades, catequizando jovens desinformados.
Mas eu, na minha vacilação de “pequeno-burguês da zona Sul”, olhava do meu canto a sutil burrice nas ideias e sentia que alguma coisa estava terrivelmente errada naquela esperança arrogante. Eu via o reducionismo, a insensatez nas discussões, não porque eu fosse mais lúcido, mas porque o delírio era muito visível. Qualquer dúvida levantada contra a “linha justa” era denunciada como “revisionismo” ou “alienação”. Discutíamos infinitamente para chegar à mesma conclusão da qual partíamos. Ideologia é isso. Quase todos esses cacoetes derivavam de um só sentimento: “Somos superiores”.

Antes do golpe de 64, antes da luta armada pós-68, já vivíamos na ilusão de um programa para o país feito de projetos inócuos como “reformas de base”, reforma urbana, agrária etc., mas ninguém tinha a mínima ideia de como implantá-las. Vivíamos de frases, pois a competência era coisa de gente de “direita” que raciocinava dentro do “sistema”. Era espantoso o autoengano. Antes do golpe, nos comportávamos como destinados a uma missão, que seria fácil. Falávamos uma língua própria, tínhamos gestos próprios e contávamos até com o presidente da República para dar partida à revolução. Relacionávamo-nos como companheiros de uma grande missão. Estava tudo nítido na maneira de falar, nas certezas irremovíveis, no sentimento de especialidade em relação ao resto do país; e até mesmo durante a ditadura, nossa dor nos enobrecia como “vítimas do mal”, sentindo certo orgulho de nossa solidão.

O golpe de 64 não aconteceu apenas por causa das marchas da família com Deus, mas se deu pela absoluta ignorância da população sobre esses desejos teóricos sem base na realidade. Ninguém sabia de nada. Falávamos de operários e camponeses como se eles estivessem de mãos dadas conosco, os “revolucionários”.

O espantoso foi a facilidade com que se deu o golpe. Descobrimos (alguns) que não tínhamos nada nas mãos, que nosso sonho tinha virado um pesadelo. E até hoje muita gente não se dá conta disso. E mais: esses caras que estão no poder acham que estão retomando a agenda de 63, na base do “antes não deu, mas agora vamos”.

No entanto, dentro do curto espaço democrático que ainda havia, o Brasil ficou mais inteligível depois da queda de 64. A desgraça nos ensinou muito. Ficou mais claro que o buraco era mais embaixo, que a realidade brasileira não se resumia a três ou quatro obviedades críticas. O golpe sofisticou nosso entendimento. Mas os futuros e atuais petistas renegaram essa evidência.

Depois, a barra pesou. 1968 foi o início de outro tipo de ilusão. Derrotaríamos a ditadura com armas revolucionárias. Bela proposta inexequível – foram muitos admiráveis heróis, mas, apesar disso, estavam errados. A luta armada foi uma tragédia de ilusões perdidas. Vimos, então, a espantosa eficiência da repressão. Foi um massacre. Essa coragem dos guerrilheiros era inviável por causa da mentalidade das tradicionais regras de luta armada clássica. A guerrilha urbana trabalhava nas brechas escuras da realidade, secreta, fugindo da morte, achando que ia derrotar o Exército com meia dúzia de revólveres e assaltos a banco. A guerrilha foi heroica, mas convencional. Havia quase 40 grupos na luta armada.

Um dos celebrados líderes foi Carlos Marighela, herói voluntarista e onipotente que, entre outros indícios de loucura, escreveu, no “Manual de Guerrilha” : “É necessário que todo guerrilheiro urbano tenha em mente que somente poderá sobreviver se estiver disposto a matar os policiais e todos aqueles dedicados à repressão, e se estiver verdadeiramente dedicado a expropriar a riqueza dos grandes capitalistas, dos latifundiários e dos imperialistas”. Nunca disse como. Leiam o resto na web.

O grande salto qualitativo, a grande vitória da guerrilha, foi a superação desse silêncio secreto por um gesto que repercutiu no mundo todo: o sequestro do embaixador norte-americano por Gabeira e seu grupo. Foi um ato contemporâneo muito mais eficaz do que heroísmo e suicídios secretos. Isso questionou a ditadura, expôs sua vergonhosa impotência diante da imaginação dos guerreiros. A ditadura sentiu o golpe e redobrou sua violência criminosa, mas sua mediocridade estava exposta.
Por isso, me apavora a marcha á ré que nos ameaça, pela falta de memória e burrice do poder.
Agora, quando o capitalismo está na China e renasce timidamente em Cuba, só resta a eles a companhia da Coreia do Norte.

Aprovação de CPMF é estelionato eleitoral

 Os governadores vão cometer um grande estelionato eleitoral se apoiar, como estão pensando, a CPMF da Dilma, uma governante sem credibilidade e sem o apoio da população. Iludidos com as promessas de que uma parte do imposto iria para o caixa dos estados, muitos deles se articulam para pressionar suas bases pela aprovação de mais um tributo que, como todos os outros, visa a onerar o bolso dos brasileiros. Não faz muito tempo, a Dilma reuniu todos os governadores para anunciar um plano de infraestrutura que até hoje não saiu do papel. É sempre assim: quando a coisa aperta, ela cria um factoide e espera com isso acalmar a oposição que insiste no seu impeachment.

A Dilma faz um governo de mentira, de farsa, de engodo. Já disse aqui – e repito – que ela deveria ser interditada e submetia a uma junta médica. Não é sã um governante que agora pensa em incentivar o crime com abertura das casas de bingo, dos cassinos e da legalização do jogo do bicho para tentar arrecadar uns trocados, antes da falência do país. Não está batendo bem da cabeça um governante que não consegue transferir para seus subordinados propostas claras e objetivas para reorientar o rumo do país. E, por fim, não é normal uma pessoa que não consegue juntar palavras que deem sentido a uma frase e que apresenta sintomas graves de alucinação.

O poste, infelizmente, ainda não acendeu. Ao vendê-lo ao Brasil como uma peça sólida, transparente e iluminada, o ex-presidente Lula, mais uma vez, mostrou que não tinha responsabilidade com o seu país. Preferiu enfiar goela adentro dos brasileiros uma burocrata despreparada para o cargo a escolher um candidato com um currículo capaz de salvar a estabilidade econômica que já dava sinal de fragilidade no seu governo.

Nessa nova rodada de negociações, os governadores de primeiro mandato deixaram o Palácio do Planalto eufóricos. Os petistas que cercam a Dilma adoçaram a boca de alguns deles quando anunciaram que os bilhões arrecadados pela CPMF iriam para os cofres de seus estados. Tudo mentira. Quando esse imposto foi criado no governo do FHC, o destino seria a saúde. O ex-ministro da Saúde, Adib Jatene, defensor vigoroso à época da CPMF, cansou de denunciar que o dinheiro estava sendo desviado para outras atividades do governo enquanto a saúde permanecia em estado de coma.

Mais uma vez, o governo do PT tenta enganar os trouxas, aliás, os governadores. Como os estados da federação estão agonizantes, a Dilma tenta enganá-los com a promessa de que boa parte do dinheiro arrecadado chegaria aos estados para obras de infraestrutura. Outra mentira. Quando a coisa fedeu, com o povo indo às ruas pedindo a sua cabeça, ela fez a mesma coisa. Numa solenidade festiva anunciou um pacote de infraestrutura. Nada aconteceu, mais uma peça de ficção para uma forte candidata ao Oscar de efeitos especiais.

Na verdade, o que se percebe é que o governo acabou. E leva com ele para o buraco a sétima economia do mundo, agora sob ameaça de cair e se aproximar dos países mais carentes do planeta. Não adianta, gente, a Dilma já mostrou que não tem condições de se manter no poder. A permanecer no Palácio do Planalto, infelizmente, o povo brasileiro corre o risco de assistir cenas pitorescas e bizarras de uma pessoa que está desconectada com a realidade. Como uma lunática, ela não tem a dimensão do que está ocorrendo de fato no Brasil e no mundo, portanto, pode ser inimputável pelos crimes de responsabilidade no comando da Presidência da República.

Carta-aberta de Tito Costa

Meu amigo Lula, você perdeu a oportunidade de se tornar o verdadeiro líder de um país ainda em busca de um caminho de prosperidade

Meu caro Lula, permito-me escrever-lhe publicamente diante da impossibilidade de nos falarmos em pessoa, com a franqueza dos tempos de nossos seguidos contatos – você na presidência do Sindicato dos Metalúrgicos e eu prefeito de São Bernardo do Campo.

Não vou falar das greves que ocorreram de 1979 a 1981, que projetaram seu nome no Brasil e no exterior. Não quero lembrar os dias angustiantes da intervenção no sindicato pelo ministro do Trabalho, em março de 1979, e da violência que se seguiu com prisões, processos e a sua detenção pelo Dops (Departamento de Ordem Política e Social).

Todos esses fatos sempre foram acompanhados por mim juntamente ao senador Teotônio Vilela, a Ulysses Guimarães e a numerosos políticos do então MDB.

Na véspera da intervenção no sindicato, você ligou ao meu gabinete me pedindo ajuda para retirar estoques de alimentos ali guardados. Enviei caminhões da prefeitura para retirá-los, e o material foi depositado na igreja matriz da cidade.

Não falo das reuniões, madrugadas adentro, em meu apartamento em São Bernardo, com figuras expressivas do mundo político e também de outras esferas, como dom Cláudio Hummes, nosso amigo, então bispo de Santo André, hoje pessoa de confiança do papa Francisco, em Roma. Éramos todos preocupados com a sua sorte, a do sindicato e também a das nossas instituições em pleno regime militar.

Prefiro não falar dos dias em que o acolhi em minha chácara na pequena cidade de Torrinha, no interior de São Paulo, acobertando-o de perseguições do poder militar da época: você, Marisa, os filhos pequenos, vivendo horas de aflição e preocupantes expectativas.

Nem quero me lembrar das assembleias do sindicato, depois da intervenção no estádio de Vila Euclides, cedido pela Prefeitura de São Bernardo, fornecendo os aparatos possíveis de segurança.

Eram os primórdios de uma carreira vitoriosa como líder operário que chegou à Presidência da República por um partido político que prometia seriedade no manejo da coisa pública e logo decepcionou a todos pelos desvios de comportamento e por abusos na condução da máquina administrativa do Estado.

E aqui começa o seu desvio de uma carreira política que poderia tê-lo consagrado como autêntico líder para um país ainda em busca de desenvolvimento. Você deixou escapar das mãos a oportunidade histórica de liderar a implantação de urgentes mudanças estruturais na máquina do poder público.

Como bem lembrou Frei Betto, seu amigo e colaborador, você, liderando o Partido dos Trabalhadores, abandonou um projeto de Brasil para dedicar-se tão somente a um ambicioso e impatriótico projeto de poder, acomodando-se aos vícios da política tradicional.

Assim, seu partido – em seus alargados anos de governo, com indissimulada arrogância – optou por embrenhar-se na busca incessante, impatriótica e irresponsável do aparelhamento do Estado em favor de sua causa, que não é a do país.

Enganou-se você com a pretensão equivocada de implantar uma era de bonança artificial pela via perversa do paternalismo e do consumismo em favor das classes menos favorecidas, levando-as ao engano do qual agora se apercebem com natural desapontamento.

Por isso, meu caro Lula, segundo penso, você perdeu a oportunidade histórica de se tornar o verdadeiro líder de um país que ainda busca um caminho de prosperidade, igualdade e solidariedade para todos. Alguma coisa que poderia beirar a utopia, mas perfeitamente factível pelo poder político que você e seu partido detiveram por largo tempo.

Agora, perdido o ensejo de sua consagração como grande liderança de nossa história republicana recente, o operário-estadista, resta à população brasileira o desconsolo de esperar por uma era de dificuldades e incertezas.

Seu amigo, Tito Costa
Antonio Tito Costa, de 92 anos, foi prefeito de São Bernardo do Campo (1977-1983) pelo MDB/PMDB, quando teve atuação destacada nas greves de metalúrgicos no ABC paulista, durante os movimentos de oposição à ditadura militar. Foi também deputado federal constituinte (1987-1990)

Refugiada no Palácio

Dilma Rousseff afirmou que o Brasil está “de braços abertos” para receber refugiados de outros países.

Coração de mãe é uma bênção. Chefiando um governo que não tem onde cair morto, fazendo a população de seu país comer o pão que o diabo amassou numa crise hedionda, a presidenta-mulher encontrou forças para seu aceno solidário ao mundo. A geopolítica das migrações não será mais a mesma depois do brado retumbante de Dilma. A sorte é que o mundo não sabe distinguir solidariedade de pedalada verbal.

Para os não iniciados, vale o esclarecimento: pedalada verbal é quando alguém fala alguma coisa para desviar a atenção de outra. A esperança da presidenta-mulher e de seus mandantes é que a plateia abobada se distraia mais um pouquinho com aquela conversa de coração valente, dando-lhes algum oxigênio extra para a sobrevida no palácio. Dilma discursou sobre os refugiados no 7 de Setembro, escreveu sobre os refugiados em artigo na imprensa, usou seu posto de chefe de Estado na Semana da Pátria para tratar dos refugiados no Oriente Médio. Se alguém na Síria ouviu esse apelo dramático, é capaz de atravessar o Mediterrâneo e o Atlântico a nado para alcançar a salvação petista. Chegando à praia, levará logo uma cravada da CPMF para saber onde está pisando.

Isso é tudo o que restou a Dilma e seu governo moribundo: demagogia sentimental e chantagem emocional. Mas não custa mandar o aviso aos refugiados de todo o planeta: o PT não é solidário nem com a mãe gentil. 

Depenou a economia popular sugando o patrimônio público e se refugiou no palácio. Quem tentou tirá-los de lá pelas vias normais (o voto) teve seus botes postos a pique por uma artilharia pesada – incluindo roubo da maior empresa nacional para financiar os truques eleitorais, segundo investigação da Operação Lava Jato. Tesoureiros e financiadores da Miss Solidariedade, prezados refugiados, já foram investigados e presos por tirar do povo para dar ao partido. 

O Brasil está de braços abertos e os brasileiros estão de mãos ao alto.
A crise dos refugiados é terrível, e é terrível a carona que os humanistas de butique pegam nela. A solução entoada pelos traficantes de bondade é fácil: Europa, abra as portas para todo mundo que quiser entrar! Deixe de ser egoísta e xenófoba, socorra os migrantes que estão morrendo no mar! Aliás, por que o mundo não pensou nisso antes? Todo ser humano que vive em dificuldade em seu país pobre e violento deveria se mudar para um país rico e pacífico. Pronto, tudo resolvido! E como fazer para que os mercados e as cidades europeias absorvam as populações deslocadas e a conta continue fechando, com bem-estar social para todos? Ora, se vira, seu capitalista selvagem!

Um dos primeiros países não europeus a anunciar que estava de portas abertas para os refugiados foi a… Venezuela. O companheiro Maduro talvez só fique devendo aos hóspedes o luxo de usar papel higiênico, mas essas necessidades primárias são facilmente substituíveis por uma boa cantilena chavista. Tanto na Venezuela quanto no Brasil, na Argentina, na Bolívia e em todos os países bonzinhos com o chapéu alheio, não existe esse problema neoliberal de fazer a conta fechar. A conta foi privatizada pelos companheiros, eles pedalam quanto quiserem para deixar os números lindos de morrer – e dessa cartola sem fundo fazem aparecer o que quiserem. Até bolsa refugiado.

Foi assim que o Brasil mandou pelos ares o tal grau de investimento, que os petistas informam que não tem a menor importância. Afinal, quem está preocupado com selo de bom pagador? O que importa é o selo de bom falador – capaz até de falar aos corações dos refugiados d’além-mar. Se faltar dinheiro, é só pedir para o Vaccari, ou para o Delúbio, ou para algum ajudante deles que não esteja em situação de xadrez. E, se ainda assim continuar faltando, não tem problema: é só meter a mão no bolso do brasileiro, esse ser pacato e compreensivo.

“As pessoas nem sentem”, comentou o petista José Guimarães, líder do governo na Câmara, sobre a recriação da CPMF.Mão leve é isso aí. E, se o Brasil não se importa com o bolso, melhor entregar logo as calças aos companheiros. Se mudar de ideia, a única saída é não aceitar mais mulher sapiens refugiada em palácio.

Nosso Mediterrâneo


O mesmo noticiário da TV mostrou a tragédia dos imigrantes na Europa e o resultado do analfabetismo de nossas crianças na escola.

Parecem coisas diferentes, mas a tragédia é a mesma: os primeiros estão impedidos de entrar na riqueza do outro lado do Mediterrâneo, as nossas crianças estão impedidas de entrar no futuro com a educação necessária para saírem da pobreza.

Os primeiros usam barcos precários correndo o risco do naufrágio biológico que leva a perda da vida, os nossos usam escolas precárias, condenados ao naufrágio intelectual, sem o conhecimento necessário à uma vida plena no mundo moderno.

Os dois grupos naufragam, buscando sair das privações.

Os primeiros sofrem pela desigualdade entre seus países e os países da Europa, os nossos pela desigualdade interna e o abandono por nossas elites.

Os primeiros têm esperança de que os governos europeus possam ter a consciência e a ética da necessidade de apoiarem os náufragos, retira-los da água, darem abrigo e até absorvê-los; aqui, nos próximos anos ou décadas, dificilmente nossa elite dirigente desejará ou conseguirá salvar nossos náufragos, dando-lhes o barco de uma escola com qualidade.

Lá, o Mediterrâneo serve como uma cortina de ouro protegendo os privilégios dos europeus contra os invasores que chegam em barcos precários, aqui, os ricos brasileiros se protegem com outra forma da mesma cortina de ouro que impede os pobres de emigrarem ao futuro usando as naves espaciais de boas escola.
Cristovam Buarque

O impeachment já ocorreu

Podem berrar, espernear, choramingar, esbravejar ou se lamentar. Podem protestar nas ruas, assembleias, Facebook ou WhatsApp. Podem barrar a iniciativa no Congresso, no Senado, no Judiciário e nas reuniões de Centros Acadêmicos. Pouco importa o resultado, ele terá sido meramente burocrático. Da mesma forma que um dia se foram as presidências de João Figueiredo, José Sarney, Itamar Franco e George W. Bush, resta pouco deste mandato presidencial que mal começou.

A decisão não pertence mais à ocupante do cargo ou às forças políticas que desejam a sua saída. Basta uma pequena análise da estrutura de redes para se constatar que o poder Executivo, de tão acuado, se tornou transparente.

Desde Charles Darwin que se sabe que o mais adaptado - não o mais forte - é aquele que tem a maior probabilidade de sobrevivência. Mas isso não parece passar pela cabeça do governo que, no melhor estilo Maria Antonieta a propor brioches, fala na CPMF como se fosse transitória ou capaz de resolver alguma coisa. Em seu mundo de fantasia parecem não perceber que a paciência se foi. Não há como pedir para uma população que paga mais de 35% de seu salário que ajude um governo perdulário e caótico, que nunca deu praticamente nada em troca.

Investigada pelo Supremo, barrada no Congresso, relutante a tributar os ricos, desprovida do apoio dos trabalhadores, empresários, funcionários públicos e movimentos sociais para qualquer novo pacote, a presidência ainda precisa dar ouvidos para seu ex-padrinho, que não tem cargo ou importância outra além de ter criado boa parte do problema. O resultado é uma enorme desorientação, que confunde aliados, irrita bases, enlouquece o setor produtivo e abre rombos ainda maiores no orçamento.

No mundo da tecnologia, decisões assim são constantes. Kodak, Nokia e Blackberry são exemplos de empresas cuja prepotência ignorou a demanda por mudança. Como elas, a presidência foi julgada, condenada e executada antes mesmo de ser processada.

Da mesma forma que um chefe que logo será demitido, um vereador em debate corporativo, um técnico de futebol que acumula derrotas, um tio chato em reunião de família ou um marido que está prestes a ser dispensado, o Poder Executivo dá claros indícios de ter sido contornado. Ninguém sabe direito o que fazer com ele, até que ponto levá-lo a sério e por quanto tempo suportá-lo.

Sua irrelevância chegou a tal ponto que pouco importa quem ocupe o assento. Por mais que os fanáticos de um lado afirmem que o país acabará na eventualidade de um impeachment, ou que os radicais do outro lado acreditem que a crise acabaria por mágica com a troca de comando, a maioria das pessoas com algum bom senso já percebeu que o mais provável é que nada mude.

O encolhimento da importância do poder executivo não é fato novo, e tem pouco a ver com a Petrobras. Desde antes das eleições uma disputa de anões era configurada. Quatro não-candidatos, irrelevantes em discurso e importância, se engalfinharam nos debates mais monótonos dos últimos tempos. Ninguém levaria a sério uma candidatura do Aecinho, da Marina ou da Luciana, se seu concorrente não fosse alguém igualmente apático. A situação era tão pobre que nem o José Serra, freguês habitual com vocação para a lanterna, participou. Agora que a situação esquenta e que a presidente pode perder o cargo que se passa a temer a figura do vice, que como Itamar, Alckmim e Sarney, nunca teria carisma para um posto tão importante.

Sua irrelevância não termina com a figura manufaturada de uma presidente tão merecedora de seu cargo quanto Celso Pitta o foi da prefeitura de São Paulo. Da mesma forma que ela, seus ministérios raramente são lembrados. Fala-se em reforma ministerial como se boa parte de seus ocupantes, tipo um tal de Mercadante, ainda estivesse em exercício. Em teoria, ele está. Na prática, discute-se a sua saída como se ele não estivesse presente. Quando se fala em ministros, a propósito, a primeira imagem que surge é a dos principais ocupantes do Poder Judiciário, mais impulsivos e grandiloquentes do que aconselharia o decoro do cargo.

As redes, digitais ou não, mostram que há espaço para todo tipo de política, com exceção da inexistência. Pior do que uma instituição detestada é uma instituição ignorada. Como acontece frequentemente com a lei ou com figuras de autoridade, nem sempre é possível ser popular. Leis odiadas podem ser contestadas ou, com o tempo, incorporadas à dinâmica social. Leis ignoradas não passam de papéis fictícios.

Nessas condições, pouco importa quem vença. Todos perdem.

Quatro perguntas sobre a crise

Os matemáticos franceses Fermat e Pascal trocaram cartas em 1654, discutindo o problema da divisão dos recursos acumulados entre jogadores, caso o jogo seja interrompido antes do final. Os argumentos deram origem à teoria da probabilidade e, para muitos, esse foi o marco inicial da ciência, pois teria sido a primeira tentativa de explicar conceitualmente o imprevisível e o desconhecido. Permitiu também refletir logicamente sobre o futuro, ou seja, fazer previsões. É pressuposto de toda disciplina científica a capacidade de prever, em face da natureza mutante das coisas, o que produz algum controle sobre o que virá adiante. 


Sem a reflexão daqueles pensadores e os desenvolvimentos seguintes, como a teoria sobre riscos, certamente não teríamos observado o progresso material das sociedades. Foi o conhecimento que ativou a dinâmica social, quebrando a paralisia da Idade Média. Mas as ciências dedicadas aos comportamentos sociais, no entanto, não desenvolveram a mesma capacidade de previsão, poder que prosperou de forma fulgurante na Era Moderna entre os demais campos científicos. Onde os humanos incidem mais diretamente sobre os processos e fenômenos o grau de imprevisibilidade é muito maior e enxergar mais claramente o futuro se torna duro desafio. É preciso redobrada cautela, por exemplo, quando debatemos sobre processos políticos ou, ainda mais assombroso, quando assoma uma gigantesca crise como a ora vivida por todos nós, brasileiros.

Por isso arrisco submeter apenas quatro perguntas sobre a crise atual, esperando construir alguma concordância nas respostas.

A primeira delas indaga sobre o epicentro do terremoto que nos assola e se vai avolumando, em espiral avassaladora. É uma crise política ou seu fulcro é, sobretudo, a parada econômica, originada no monumental desarranjo das contas públicas? Ouso sugerir, como hipótese, que os dois focos são centrais, mas talvez a razão maior da crise seja o que intitularíamos de “o campo petista no poder”.

Sem detalhamento neste espaço, até porque suas inúmeras facetas são notórias, há um fato objetivo: o partido recebe em nossos dias a mais profunda antipatia da sociedade e se esgotou espetacularmente como proposta partidária. É descontentamento que se vai traduzindo, cada vez mais, em repulsa visceral. O que temos observado, desde os eventos de 2013, é apenas o crescimento desse sentimento coletivo, atualmente espalhado entre todos os grupos sociais e em todas as regiões.

A impopularidade da presidente, de fato, abarca todo o campo petista. Por isso, a crise tem um primeiro imperativo, que é discutir e concretizar a forma democrática justa de remover o PT do poder central. Sem uma resposta adequada a esse bloqueio viveremos um período ampliado de conflitos de diversas ordens, uma “agonia de longa duração” que se estenderá pelo menos até 2018.

A segunda pergunta é mais direta: o que se passa pela cabeça de Michel Temer? Aos 74 anos e com uma pálida trajetória política, a História oferece-lhe agora a chance inusitada de figurar no panteão dos grandes brasileiros. E não precisaria muito: como presidente do PMDB, bastará convencer a maioria de seus correligionários a concordar com a travessia dos próximos três anos sob seu comando, abandonando a aliança com os petistas. Se o fizer, a faixa presidencial trocará de dono e não será preciso nenhum Fiat Elba para justificar a ansiada mudança. O impeachment é processo político e apear do poder um grupo que tem a idiotia como forma de governo já é argumento suficiente. Temer e seu partido, contudo, provavelmente hesitam porque não têm ainda em mãos uma resposta satisfatória à terceira pergunta.

Esta seria: existirá uma via de ação que nos tire da crise econômica em tempo o mais curto possível? Lendo avidamente os especialistas, resta apenas uma certeza – é generalizado o tiroteio entre os diversos diagnósticos disponíveis e ninguém garante nada. Assim, assumir a Presidência representará um risco político altíssimo e dificilmente um partido gelatinoso como o PMDB se moverá em tal direção. É urgente que um grupo realista, experiente e suprapartidário de economistas ofereça um roteiro consistente para atravessar o mar proceloso da recessão que vem afligindo o nosso país. Será o manual de instruções que talvez convença esse partido a dar o passo reclamado por quase todos os brasileiros.

Quarta pergunta: haverá reação significativa dos famosos movimentos sociais ou de outros setores? Entendo ser muito improvável. A crise é tão abissal que aqueles que usam a retórica de esquerda para reagir à mudança presidencial não terão tropas sociais para nenhum confronto. O movimento sindical cutista, por exemplo, desmoralizou-se em face de sua postura invertebrada em relação aos desmandos petistas no poder e divide o espaço sindical com diversas outras confederações mais responsáveis, alarmadas com o crescente desemprego, que se alastra em todos os setores. E outras ameaças? Alguém ainda acredita em “movimento estudantil”? Já o “exército do Stédile” não passa de risível ficção, pois o MST, concretamente, nem existe mais.

Em síntese, hoje nos deparamos com um contexto explosivo, pois existe uma espantosa escassez de lideranças e dependemos de políticos míopes e de um partido inconfiável, atuando como coadjuvante do patético partido que finge nos governar. E pior, não temos uma carta de navegação segura à mão para atravessar o desastre que se vai formando. É preciso ter mais sentido de urgência e, em especial, mais comprometimento com a sociedade, o País e seu futuro. Mantidos o impasse e a exasperante lentidão decisória, os protestos se tornarão incontroláveis e, aí sim, a confusão política e o destino de nossa economia se tornarão absolutamente imprevisíveis.