segunda-feira, 22 de março de 2021

Engrossa o caldo dos que querem ver Bolsonaro pelas costas

Qual o sonho de consumo do brasileiro ameaçado pelo vírus que bate à sua porta? Se for inevitável contraí-lo, quer uma vaga de UTI no melhor hospital que existir, medicamentos em profusão, cilindros de oxigênio à farta e uma equipe de sábios doutores e de experientes enfermeiros que cuidem dele em tempo integral.

A isso a pandemia nos reduziu. A isso que nos reduziu um presidente da República genocida por natureza que parece ter forte compulsão pela morte, sabe-se lá por quê. Freud explica, certamente. Assunto para estimular discussões intermináveis entre psicanalistas das mais diversas escolas.

Seria o caso também de eles se debruçar, junto com sociólogos, antropólogos e historiadores, sobre o comportamento até aqui indiferente ou resignado da maioria dos brasileiros diante do número de mortos pela doença que em breve superará a marca dos 300 mil. Por que procedemos assim? O que nos move?

Bolsonaro, que tantas vezes desafiou a morte como paraquedista do Exército antes de ser afastado de lá, acusado de conduta antiética, é movido pela falta de compaixão e pelo firme propósito de tirar vantagem de tudo, até de um banho nas águas frias do rio Jordão. Ele, acima de tudo! Os filhos, acima de todos!


Só muda quando o desespero toma conta de sua alma. Sempre que se vê acuado, apela às Forças Armadas e finge contar com o seu apoio para governar e, em situação extrema, ir além – se der, via adoção de medidas capazes de instalar no país um regime autoritário. Seu compromisso com a democracia é zero.

Se não a sabota mais do que já faz é porque lhe falta respaldo. Nas eleições de 2018, ele de fato foi o candidato dos militares, preocupados em impedir um eventual retorno da esquerda ao poder. Nas eleições de 2022, tudo indica que continuará sendo. Mas se for derrotado, lhe baterão continência à saída, tchau, e só.

Por formação, militar é de direita, aprecia armas, trata os subordinados aos berros e cobra obediência. Mas muitos nos escalões superiores são estudiosos e bons analistas. Sabem ler o mundo e o país. Sabem que a supressão da democracia faria do Brasil um pária internacional. E isso eles não querem.

Pária já é. A nova cepa brasileira do vírus aterroriza os governos da região. Peru e Colômbia proibiram voos do Brasil. O Uruguai mandou mais doses de vacinas para a fronteira com o Rio Grande do Sul. Quem vai do Brasil para o Chile fica em quarentena. Os argentinos impuseram restrições à entrada de brasileiros.

Insensível ao que se passa ao redor, Bolsonaro usa os militares como espantalho doméstico, e eles se deixam usar, encantados, como estão, com a volta ao poder, desta vez pelo voto. Não ligam quando o presidente fala em seu nome como fez, ontem, outra vez. É coisa de político, desculpam. Bolsonaro proclamou:

“Pode ter certeza, o nosso exército é verde-oliva e vocês também. Contem com as Forças Armadas pela democracia e pela liberdade. Estão esticando a corda, faço qualquer coisa pelo meu povo. Esse qualquer coisa é o que está na nossa Constituição, nossa democracia e nosso direito de ir e vir.”

E ao concluir uma das peças mais demagógicas do seu pobre repertório, prometeu: “Enquanto for vivo, enquanto for presidente, porque só Deus me tira daqui, eu estarei com vocês”. Estará para quê? Para associar-se ao vírus e dar passagem à morte? Para destruir a Amazônia? Para pôr a educação ao rés-do-chão?

Engrossa o caldo dos que à esquerda e à direita querem ver Bolsonaro pelas costas, se possível antes do fim do mandato. Já foi melhor negócio para o Centrão apoiá-lo em troca de benefícios. A companhia dele começa a tornar-se tóxica. Um deputado federal pernambucano, bolsonarista convicto, disse a este blog:

– Poderemos ir com ele até a porta do cemitério, mas não entraremos.

A chance histórica do STF contra um 'corpo insepulto'

O ex-ministro da Justiça Miguel Reale Jr. e outros seis juristas encaminharam a Gilmar Mendes um memorando sobre os artigos 22 e 26 da Lei de Segurança Nacional (LSN), que data da época do regime militar e, de uns tempos democráticos para cá, passou a ser invocada para solapar o direito da liberdade de expressão por gente que adora liberdade desde que no sapato alheio. Para se ter ideia, de acordo com um levantamento feito pelo Estadão, houve um aumento de 285% no número de inquéritos feitos com base na LSN apenas no dois primeiros anos de desgoverno de Jair Bolsonaro, na comparação com o mesmo período dos mandatos dos dois presidentes antecedentes, aqueles cuja chapa não foi cassada por excesso de provas. Entre 2015 e 2016, foram abertas 20 investigações; entre 2019 e 2020, 77 inquéritos. É um espanto, ainda mais quando se verifica que a maior ameaça à segurança nacional é justamente o sociopata protegido pela LSN.

Gilmar Mendes recebeu o documento porque é relator de uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental, protocolada no Supremo Tribunal Federal pelo PSB, que questiona a constitucionalidade de onze artigos da LSN. Os autores do memorando concentram-se nos dois já citados. Os dispositivos são mesmo uma estrovenga digna de uma república das bananas. O artigo 22 prevê que é atentar contra segurança nacional: “Fazer, em público, propaganda: I – de processos violentos ou ilegais para alteração da ordem política ou social; II – de discriminação racial, de luta pela violência entre as classes sociais, de perseguição religiosa; III – de guerra; IV – de qualquer dos crimes previstos nesta Lei. Pena: detenção, de 1 a 4 anos”. Já o artigo 26 prevê como crime contra a segurança nacional: “Caluniar ou difamar o Presidente da República, o do Senado Federal, o da Câmara dos Deputados ou o do Supremo Tribunal Federal, imputando-lhes fato definido como crime ou fato ofensivo à reputação. Pena: reclusão, de 1 a 4 anos”.



Miguel Reale Jr. e os outros seis juristas preconizam que, do artigo 22 da LSN, “devem ser excluídos os casos em que a realização de propaganda venha desacompanhada de um resultado de perigo consubstanciado no abalo real do funcionamento das instituições do Estado de Direito, de modo a que se dificulte ou inviabilize o exercício das atribuições ou competências que lhes são constitucionalmente assinaladas”.
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Quanto ao artigo 26 da LSN, os autores do memorando afirmam que o “esse tipo penal, que confere especial proteção à honra de determinados agentes públicos encontra-se em descompasso com a Constituição e com a moderna jurisprudência do Supremo Tribunal Federal e de outros Tribunais internacionais”. Mais: o artigo “simplesmente inverte a relação de primazia do institucional sobre o pessoal em um duplo sentido: ao confundir, em primeiro lugar, o ocupante da Presidência de um dos Poderes com a Presidência, e, em segundo lugar, ao confundir a Presidência com a instituição em si”. Os juristas argumentam que a preocupação expressa pelo artigo não é com o funcionamento das instituições, mas com a “honorabilidade” da Presidência ou de quem as exerce. “Essa dimensão individual, contudo, já vem atendida pela lei penal. A proteção dos indivíduos que, transitoriamente, representam o Estado deve, assim, restringir-se às proibições penais comuns já existentes, sobretudo aos crimes contra a honra previstos no Código Penal, que já prevê tutela especial da honra do Presidente da República e de funcionários públicos, em razão de suas funções”, afirmam os autores do parecer.

O documento encaminhado a Gilmar Mendes é uma peça tão bonita quanto necessária. Ela classifica o artigo 26″, do qual tem se valido Jair Bolsonaro e André Mendonça, como “um corpo estranho, um morto insepulto” e que o artigo 1º da LSN, ao prever os crimes que lesam ou expõem a perigo de lesão “a pessoa dos chefes dos Poderes da União”, é “símbolo de um insistente culto à personalidade”. E acrescentam: “O direito à liberdade de expressão apresenta-se, a rigor, com ainda mais robustez no contexto de críticas, mesmo ofensivas, contra agentes detentores do poder político, sobretudo se realizadas na arena pública, na discussão objetiva de assuntos de interesse comum”.

Na conclusão, Miguel Reale Jr., Adriano Teixeira, Alaor Leite, Alexandre Wunderlich, Maurício de Oliveira Campos Jr., Oscar Vilhena Vieira e Theodomiro Dias Neto dizem “Nesta ADPF 799 — antes que a primeira Lei de Segurança Nacional se converta em nonagenária — temos a chance histórica de assistir ao espetáculo republicano do triunfo do institucional sobre o pessoal, iluminado pela consagração do direito fundamental à liberdade de expressão”.

Como profissional que tem na liberdade de expressão o seu ganha-pão, agradeço aos autores desse memorando magnífico, em nome também de todos aqueles que estão ameaçados pelo Presidente da República, parlamentares e ministros dos tribunais superiores, que usam de excrescências legais para intimidar e calar vozes discordantes. Sempre lembrando que o nosso direito de falar implica o direito dos outros de ouvir, e este também é inalienável.

Sangue transborda para os palácios

Não sei mais quantas mortes ainda serão necessárias para esse convencimento. O Parlamento está anestesiado. Os congressistas perderam a capacidade de se indignar, não sei se o volume de emenda é tão substancial a ponto de acharem normal haver tantas mortes
Júnior Bozzella,(PSL-SP) que recolhe assinaturas para instalar uma CPI da Covid na Câmara

Turno da madrugada

Chove sobre os buracos mal tapados da avenida a essa hora vazia (são quatro da madrugada), chove sobre os postes como uma chuva prateada que metralha o ar de brilho, e eu me pergunto quantos têm atravessado a noite em claro, por insônia ou por assombro ou por vigília, quantos perdidos por um fio se sustentando, e ainda sorrindo entre o gentil e o delirante, e agora a chuva engrossa, se enviesa com o vento, enverga os galhos das árvores velhas da avenida, chove toda a escuridão do céu nessa chibata d’água que chamamos bátega, e eu me pergunto quantos dos que estão dormindo amanhã acordarão descansados, e quantas mais serão as baixas, e quanto tempo de apneia até subir de volta à tona, quanto tempo sem governo nos guiando uns aos outros, e quanto do nosso falso cotidiano não é já uma prévia de partida, quanto do nosso olá não é só melancolia, agora passa um carro solitário na avenida, levantando a água do asfalto num chiado longo que começa a abrir o dia, e como é que discordamos da toada deprimente, como que ainda desafinamos da realidade corrente, como esse súbito azul limpo sobre as nossas cabeças, que loucura de beleza, que prazeres de Pompeia, que amor triste de Hiroshima ainda nos faz vivos por dentro?, contra essa vida sonâmbula, contra esse fim dos tempos todo tempo, que Rilke na mochila, que canção, que carinho, que olhos na medalha ainda nos dão ganas de viver?, e agora passa o primeiro ônibus da manhã, num chacoalhar de máquina oca, vai acordando uma cidade fantasmagórica, a chuva de há pouco já é quase mentira, e eu só me pergunto quais palavras estão quentes, quais os nomes do desejo que ainda vibram, qual sonho ativo, qual ave livre de medo, qual fé ferrenha, qual passo aéreo, qual alegria.

Mariana Ianelli

Imagem do Brasil (lá fora)

 


Para dizer nunca mais

Tanto falamos numa frente para combater Bolsonaro, centro, centro-direita, centro-esquerda, empurra para lá, empurra um pouco para cá, tentamos encher com nossos desejos e preconceitos o ônibus que nos levaria para longe dessa grotesca versão de governo.

Olhando o cotidiano, observo que essa frente até mais ampla e generosa do que projetamos acabou se formando em torno do tema crucial: a rejeição ao papel de Bolsonaro na pandemia.

Mesmo os presidentes do Senado e da Câmara, eleitos com o apoio de Bolsonaro, tentam se distanciar dele quando o tema é a Covid-19.

De certa maneira, a maioria compreendeu Bolsonaro: 56% dos entrevistados na pesquisa do Datafolha o consideram incapaz para dirigir o país.

Isso pode ser uma boa notícia para as eleições. Mas seria um erro monumental pensar em eleições quando temos diante de nós um caminho complexo e tortuoso como o combate à pandemia.

O líder do governo disse, no auge dos recordes letais da pandemia no Brasil, que a situação do país é “até confortável”. É uma declaração estapafúrdia, que os fatos esmagam. Noto, entretanto, que mencionou na mesma fala a existência da oposição a Bolsonaro.

Ocorreu-me pensar que o líder considera que a oposição verbal a Bolsonaro é também algo que está dentro da zona de conforto.

A existência de uma pandemia devastadora e de uma frente ampla contra Bolsonaro pede mais que uma oposição verbal. Ele se incomoda quando o chamam de “genocida” ou mesmo de “pequi roído”.

Certamente, vai se incomodar mais quando essa frente ampla multiplicar suas ações em todos os níveis do combate à pandemia.

Quando escrevi que os governadores e a sociedade deveriam avançar no caso das vacinas, alguns acharam que não havia salvação fora do poder federal. Felizmente, a realidade mostrou que é possível agir. Governadores do Nordeste conseguiram fechar negócio para comprar 37 milhões de doses da Sputnik V. Na verdade, a realidade já mostrara antes disso que foi a iniciativa de São Paulo que garantiu afinal a maior parte das vacinas que imunizam neste momento cerca de 5% da população.

Ficou evidente também que o governo não tem o monopólio das relações externas. Na verdade, seria um absurdo colocá-las nas mãos de um chanceler extremista como Ernesto Araújo.

O caminho diplomático não se resume a comprar vacinas. Os governadores tentam convencer a OMS da urgência da remessa da compra de três milhões de doses, já efetuada junto ao Covax, consórcio que busca democratizar a venda de vacinas.

Lula propôs que Biden se encontre com outros líderes mundiais e discuta esse ponto central das vacinas no mundo. Aliás, Biden já participou de um encontro para garantir vacinas a alguns países asiáticos.

Os Estados Unidos têm 30 milhões de doses da vacina de Oxford estocadas em Ohio. Ela ainda não foi aprovada pelas autoridades sanitárias de lá. Parte será doada ao México.

A vacina de Oxford seria útil aqui. Poderíamos comprá-la, se for o caso, ou mesmo pagar com as doses que a Fiocruz produzirá no segundo semestre. Essas manobras diplomáticas não são simples. Mas os governadores poderiam tentar.

Tudo o que fizermos agora, seja no nível diplomático, seja no da própria sociedade, é um ato dessa frente ampla que se formou não apenas contra a Covid-19, mas contra seu principal aliado objetivo: Jair Bolsonaro.

Não importa o que aconteça lá na frente. Quando tivermos eleições, certamente a frente ampla terá amadurecido não só a ponto de ajustar as contas com Bolsonaro na Justiça, mas também para redefini-lo como o adversário comum.

A realidade nos trouxe uma tragédia que pode nos custar meio milhão de mortos. Mas, depois dela, saberemos dizer: nunca mais. 
Fernando Gabeira

Democracia como vacina política e as cloroquinas de ocasião

Dedico a coluna de hoje ao Dr. Severino Elias, médico com profundo sentido de missão, que nos deixou ontem, depois de semanas de luta pessoal contra a Covid. Essa foi, porém, apenas a sua batalha final. Antes desse desfecho, chorado por quem perdeu o amigo e a referência profissional, houve um ano de dedicação e bravura cotidianas para não abandonar seus pacientes, apesar dos mais de 70 anos de idade e quase 50 de serviços prestados. Dele é possível dizer, sem exagero, que doou sua vida a uma vocação. Eis a razão desta homenagem, que me vale, também, de estímulo para escrever o que segue.

Peço perdão a Cabral (o João) por passar agora da evocação de uma morte e vida severina, alegórico exemplar do seu poema imortal da humanidade brasileira, para uma alusão à mais abjeta negação de qualquer humanidade. Incluo, a contragosto, entre as reflexões de hoje, as mais recentes agressões psicopáticas do presidente da República à dor infinita do povo que ele deveria defender. Evocar seus ares debochados com as vítimas da falta de ar e o seu incentivo perverso a saques e outras violências incalculáveis é um introito necessário ao argumento que aqui procurarei desenvolver.

O desespero de incontáveis pessoas está fazendo com que se disponham a pagar qualquer preço para que Bolsonaro seja tirado, o quanto antes, do lugar de poder que ele desonra. Compreensível desejo que não pode, contudo, nos distrair da hipótese de que um Putin militar esteja nos aguardando na esquina. O que o Dr. Marcelo Queiroga está prometendo fazer caso assuma mesmo o Ministério da Saúde pode dar ideia do que seria o resultado da substituição do presidente por seu vice, se feita de modo imprudente, sob pressão desse desespero, ou por sua manipulação. Seria cloroquina, nada mais.

Confirmam-se, no MS, sombrias conjecturas. O que era péssimo com o general Pazuello, ensaia piorar. Sua queda banal - que para muitos parecia ser cirurgia providencial, a ponto de se apostar fichas numa CPI de tempestividade e eficácia duvidosas - não diminuiu a premência da vigilância constante da fera, pela comunidade da saúde, imprensa e sociedade, assim como não provou ser medida mais eficaz do que o tratamento paliativo, tópico, atenuante, conservador, com que a atitude prudencial do Congresso e do sistema político de um modo geral, contém efeitos dos impulsos de morte emanados do palácio.

O médico que se quer impor ao ministério é mais perigoso do que o general destrambelhado. Ele pode destilar o veneno da dúvida na opinião técnica, dividi-la, isso resultar em maior desorientação ainda da população e essa desorientação, por sua vez, alimentar ainda mais aglomerações e outras atitudes de risco, às quais terão que corresponder atitudes mais duras de polícias estaduais. Tudo isso gera um altíssimo potencial de conflito político entre poderes e de confrontos de rua, inclusive físicos, entre pessoas. Em síntese, o caos social expresso em desordem. Essa é, ao fim e ao cabo, a meta que Bolsonaro persegue, enquanto finge preocupar-se apenas com as urnas. Resistamos ao autoengano: se urnas prometem, cada dia mais, ser um pesadelo para ele, não se deve esperar que marchará para elas como se fosse um líder democrático, porque ele é a antítese disso. É claro que precisamos estar cientes de que o subversivo fará tudo que estiver ao seu alcance para virar a mesa antes disso. E que quem comanda nossas instituições não pode vacilar um só dia na vigília para impedi-lo de tornar seus planos realidade.

Impedir não é, contudo, virar a mesa antes dele, permitindo que o impulso autocrático que ele encarna retorne ao jogo com força. O tratamento conservador, da democracia sem atalhos, continua sendo crucial para a saúde política e social desse paciente em estado crítico que é o nosso país, por mais enervante e angustiante que essa linha de conduta seja. Democracia é a vacina, tudo o mais, cloroquina.


Embora a queda de Pazuello sequer tenha sido consumada na prática, as primeiras pistas oferecidas pelo agente Queiroga, um projeto de Dr. No (personagem de romance de Ian Fleming, popularizado pelo cinema, ao fazê-lo antagonista de James Bond, o agente 007), permite também imaginar o que seria um pós-bolsonaro antecipado sob a batuta salvacionista do ex-general Mourão. Ou mesmo a investidura desse último, como quer a procuradoria do MPF junto ao TCU, na gestão do combate à pandemia. Nenhuma morte já marcada para ocorrer, por falta de remédios, oxigênio, ou leitos, deixaria de ocorrer. Mesmo se um anti-bolsonarista autêntico (que nem de longe é o perfil do ex-general em causa) chegasse ao MS, levaria semanas, talvez meses, para conseguir o que hoje falta para salvar vidas de novas dezenas, talvez centenas, de milhares de brasileiras e brasileiros marcados para morrer anonimamente.

É preciso ver que se torna cada dia mais difícil conter a revolta e a suposição de alívio que a ideia de Bolsonaro ser logo afastado produz. Nessas condições, a solução proposta ao TCU, se considerada, poderá produzir mesmo algum alívio, se for uma tentativa de, ao menos, impedir o prolongamento da atual tragédia seguindo semestre afora, que é a missão dada, pelo visto, ao ministro que consta estar prestes a assumir. Ficam, mesmo assim, dúvidas, que nada têm de laterais, sobre o que ou quem levaria Mourão - caso assumisse a gestão da pandemia e até cancelasse a virtual nomeação de Queiroga - a tirar os militares do Ministério da Saúde e sobre até onde iria o seu poder para tirar, de agências governamentais externas ao MS, outros agentes que poderiam ajudar Bolsonaro a minar uma suposta nova política sanitária para perpetrar a próxima etapa do seu plano macabro. Questões em aberto.

A partir dessas dúvidas, alguém poderá argumentar, com alguma razão, que esse paliativo não resolve, sendo preciso afastar Bolsonaro, não apenas da gestão da pandemia, como do próprio cargo que ocupa. Mas ainda que sigamos esse raciocínio aparentemente pragmático, respaldado pela intensidade da atual tragédia sanitária, é preciso indagar, de saída, em que bases poderia surgir, de fato, um novo governo e não apenas a troca do ex-capitão por um ex-general no comando do mesmo governo. Quem, nessa situação ditada pelo desespero, poderia exigir de Mourão o desmonte do atual governo e do dispositivo paramilitar que foi nele introduzido e, com isso, constituir um governo de transição? Mais provável seria que tomássemos o caminho da Rússia, mudando expectativas e regras, para manter a situação.

Com isso não quero dizer que alternativas intermediárias arriscadas devam ser preliminarmente afastadas, em qualquer hipótese. Algo que se considera provável não é sempre uma fatalidade, claro. A política democrática pode criar caminhos onde parece haver apenas muros e precipícios. Essa é a sua missão legítima, desde que se respeite a Constituição, a premissa que a legitima. Mas o que não se pode é ser afoito, ou ingênuo, diante dos perigos. Para evitar risco de Rússia, o melhor é aguentar as pontas até 2022, no limite máximo do possível. E correr o risco de que tentem invadir, antes, o nosso capitólio. Será custoso defendê-lo, mas igualmente preciso.

O desafio à resiliência democrática já era grande, antes da reentrada de Lula no primeiro plano da cena política. Agora, a situação torna-se ainda mais complexa e precisa ser analisada por ângulos diversos. De um lado, é óbvio que mais gente do topo, do establishment, seja civil ou militar, tende a ser tomada, como se fossem ultra-esquerdistas voluntariosos, por uma súbita e suspeitíssima pressa de livrar logo o país de Bolsonaro e entregá-lo a um guardião que atalhe o caminho até as urnas, não para calar a voz do demos soberano, mas para modular a sua fala. De outro lado, a visibilidade que ganhou, há dez dias, uma primeira alternativa pré-eleitoral concreta a Bolsonaro pode fortalecer e animar democratas de várias orientações políticas a persistirem na aposta na democracia, apesar das tentativas de bloqueio a essa reta visão que, por vezes, tornam sinuoso esse caminho.

No horizonte está, como é óbvio, uma eleição daqui a um ano e meio. Ainda bem que assim é. Ligada a esse horizonte, sem se prender exclusivamente a ele, é que pode prosperar uma política de unidade democrática. Com o cuidado de não se fazer dela um evangelho oco, desligado da realidade cotidiana das pessoas comuns. Tão importante quanto pregar unidade é deixar claro o que se quer dizer com ela.

Proclama-se a torto e a direito a necessidade de uma “frente única” contra Bolsonaro. Essa frente única não é e nunca foi provável, do ponto de vista eleitoral. O que se pode ter, ou melhor, o que temos tido é uma frente amplíssima em defesa da democracia contra as investidas golpistas e autocráticas do palácio e de suas cercanias espúrias, visíveis e invisíveis. E mais recentemente nota-se também a formação de uma frente política e social igualmente ampla, em prol de vacinas, de vacinação e do provimento, na contramão da desorientação deliberada que Bolsonaro dá ao governo federal, de mínimas condições de governabilidade e de amparo médico, hospitalar e social nesse instante crítico da pandemia.

Mas isso é uma coisa e a questão pré-eleitoral é outra. Não há como juntar as forças políticas democráticas, de direita, centro e esquerda em torno de uma única candidatura já no primeiro turno das eleições presidenciais. Se pensarmos bem, isso nem seria desejável, pois anteciparia o segundo turno para o primeiro sem que os eleitores pudessem captar o posicionamento atual de cada força política. Essa visão turva tenderia a reeditar o script de 2018 e o resultado dele, como sabemos, é o desastre que vivemos hoje. Lula e o PT podem até ser protagonistas no novo cenário, sem que isso signifique flertar com a tragédia. Flertar com a tragédia será, sim, repetir, não tanto os atores, mas aquele script. Entre a proliferação de candidaturas ao centro e à esquerda (como houve em 2018) e a antecipação de um segundo turno ainda durante o primeiro, um meio termo é desejável e possível.

Dois processos de agregação oposicionistas podem ocorrer, um na centro-direita, outro na centro-esquerda e ambos tenderem ao centro, com seus candidatos evitando, ao máximo, trocar farpas e assim prepararem terreno a uma aliança no segundo turno. A agregação da esquerda ao centro dificilmente se fará em torno de outro nome que não Lula e de outro partido que não o PT. Já a que pode ir da centro-direita ao centro é só incerteza se o critério for a intenção de voto, cuja medição, hoje, só pode refletir o recall de 2018. Se o critério for o capital político estimado como potencial de voto, a incerteza diminui e sobressai, como já comentei aqui na semana passada, o nome ex-ministro Luiz Mandetta.

A possibilidade de uma saída desse tormento por uma via democrática torna legitimo que se fale, sim, abertamente, de política, em plena pandemia. Sei que o preço em vidas para manter a democracia está sendo muito alto. Mas os países que conhecem o seu valor, pagam, porque sabem que ela, a democracia, é a única vacina disponível e que, fora dela, não há solução melhor e mais sustentável do que as lentas e penosas soluções que, através dela, a política pode construir. Essa convicção - sem a qual uma sociedade se torna escrava – é que impede elites políticas e sociedade civil de alienarem a condução do país a autocratas, cloroquinas que estão sempre de plantão. Saber recusar, no meio de uma tragédia social, esse barato que afinal sairá mais caro, é teste definitivo de maturidade democrática. A sociedade que passa por esse teste não só se livra do inimigo - ainda que tarde e chore muitas perdas severinas - como submete à justa punição, na devida hora, quem a ele se aliou na hora de batalhas decisivas.

Desavergonhados não faltam


Pode ter certeza, o nosso Exército é o verde oliva e são vocês também. Contem com as Forças Armadas pela democracia e pela liberdade. Estão esticando a corda
Jair Bolsonaro

Bolsonaro é tetra

Aos 22 anos, o caçula da família virou alvo de inquérito por suspeita de tráfico de influência. Ele tem usado o sobrenome para abrir portas em Brasília. Circula com empresários, recebe presentes e se reúne com autoridades fora da agenda oficial.

Em agosto passado, o Zero Quatro esteve com o secretário especial da Cultura, Mario Frias. O jovem disse ter tratado de interesses do setor de games. Dois meses depois, seu pai reduziu as alíquotas do IPI sobre jogos eletrônicos. Na contramão do aperto fiscal, a União abriu mão de arrecadar cerca de R$ 80 milhões até 2022.

Em novembro, Jair Renan levou empresários ao gabinete do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho. O grupo queria apresentar um projeto de habitação popular a ser financiado pelo governo. A pasta informou que o Zero Quatro esteve no encontro “na qualidade de ouvinte”.


Ao que tudo indica, um ouvinte bem remunerado. Reportagem do GLOBO revelou que a empresa presenteou Jair Renan com um carro elétrico avaliado em R$ 90 mil. A firma ainda doou placas de granito para o escritório da Bolsonaro Jr. Eventos e Mídia, registrada em nome do caçula do presidente.

A troca de favores também marcou a inauguração do negócio de Jair Renan. A “Folha de S.Paulo” mostrou que a Astronauta Filmes registrou a festa sem cobrar pelo serviço. Em 2020, a produtora recebeu ao menos R$ 1,4 milhão dos cofres federais.

O advogado do clã, Frederick Wassef, nega qualquer irregularidade. No ano passado, ele negou ter escondido Fabrício Queiroz na sua chácara em Atibaia.

A abertura de inquérito na PF faz de Jair Renan o quarto filho do presidente sob investigação. Flávio Bolsonaro, o Zero Um, já foi denunciado por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Carlos, o Zero Dois, é suspeito de reproduzir o esquema da rachadinha na Câmara Municipal. Eduardo, o Zero Três, é alvo de uma apuração preliminar da Procuradoria-Geral da República pela compra de imóveis com dinheiro vivo.

Os quatro casos têm a marca do patriarca da família. Bolsonaro ensinou os filhos mais velhos a transformar a atividade parlamentar num negócio lucrativo. Em 28 anos na Câmara, ele também nomeou funcionários fantasmas e engordou o patrimônio com transações em espécie. No caso de Jair Renan, a lição foi pelo exemplo. O caçula ainda não entrou na política, mas já ganha dinheiro com o nome do pai.

Ação Direta de Irresponsabilidade

Ele nunca teve qualquer respeito pelo Congresso e demais esferas de poder, sempre fez pouco caso das instituições. (Des)governa pelas redes sociais, escorraçando qualquer um que dele ouse discordar. Agora, via uma Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) contra restrições para deter a circulação do coronavírus impostas pelos governadores do Distrito Federal, Bahia e Rio Grande do Sul, o presidente Jair Bolsonaro materializa em juridiquês a via direta que sempre desejou, sem ser atrapalhado por opositores e intermediários.

De quebra, tenta mais uma vez jogar nas costas de outros os custos e as consequências de sua irresponsabilidade.

As 24 páginas da Adin traduzem para a linguagem técnica e formal as bestices ditas sobre a pandemia quase todos os dias no cercadinho do Alvorada e nas lives semanais. Expõem seu absoluto descaso com a doença que já matou quase 300 mil brasileiros e a falsa rivalidade entre saúde e economia, além de impor a liberdade individual acima da responsabilidade coletiva.

Nos detalhes, a Adin esclarece pretensões que vão muito além da peça jurídica.


Além de se apresentar como defensor do povo diante da tirania de governadores e prefeitos - um papel e tanto para quem virou a encarnação do genocida -, Bolsonaro se indispõe abertamente com quase a totalidade dos governadores em favor dos 30% contrários às medidas de isolamento. É esse o público que ele quer manter cativo. Para ir às ruas em seu nome e defendê-lo das consequências nefastas da pandemia, das mortes em série, dos hospitais abarrotados, do desemprego e da fome.

A questão é matemática. Diante da escalada progressiva de mortes pelo coronavírus nos últimos 25 dias e da acelerada queda de popularidade e confiança, Bolsonaro teria duas saídas.

A primeira, uma inversão radical em sua biruta desvairada, ele usou por um par de dias. Passou a colocar máscara, parou de provocar aglomerações em eventos lucrativos para campanha e inúteis para o país. Demitiu o obediente e atrapalhado general do Ministério da Saúde. A outra era a de agradar a sua galera, o terço fiel, cerca de 15% fidelíssimos.

Entre os pássaros que voam e os que tem nas mãos, preferiu segurar os seus na gaiola.

Até porque Bolsonaro, cujo ídolo Donald Trump foi descartado nas urnas, sente o peso de ter sido um dos poucos líderes mundiais a negar taxativamente a pandemia e a ciência. E o único que mesmo depois das pilhas de mortos ainda não se converteu.

Está careca de saber que é difícil agora, e será ainda mais árduo durante a campanha de 2022, desdizer o que disse sobre vacinas - “falar fino”, “virar jacaré” - e a doença que banalizou - “gripezinha”, “e dai?”. Tudo registrado em vídeo, a um google de distância. Seus adversários não deixarão os eleitores esquecerem do “país de maricas” ou do “não sou coveiro”, e tantas outras agressões desumanas desferidas cotidianamente enquanto famílias e amigos choravam seus mortos.

Bolsonaro também sabe e a Advocacia-Geral da União está cansada de saber que as restrições impostas por governadores e prefeitos para tentar deter a contaminação nada têm a ver com estado de sítio. Ele tem repetido o termo propositalmente, para deixar o cheiro de golpe no ar.

O Brasil de Bolsonaro não tem 290 mil mortos, as UTIs não estão lotadas, não faltam profissionais de saúde nem medicamentos. O fechamento do comércio e a restrição da circulação de pessoas têm o único intuito de prejudicar o seu governo. “Todo local está morrendo gente (sic), aqui virou guerra contra o presidente”, defendeu-se diante de seus apoiadores.

Não, presidente. Nos locais com aumento de contágio, por menor que seja, os presidentes lideram o combate. Decretam distanciamento social ou fecham tudo, promovem o verdadeiro lockdown, que cidade brasileira alguma viu ainda. Imunizam seu povo. Não fazem comercial de remédios ineficazes nem propagam notícias falsas. Muito menos perdem tempo em guerrilhas contra governadores ou qualquer outro poder. Têm mais o que fazer.

Diante de tamanho descalabro, não se pode perder de vista um outro tipo de Adin, desta feita uma Ação Direta de Irresponsabilidade contra Bolsonaro, vulgo impeachment.
Mary Zaidan

domingo, 21 de março de 2021

Imagem do Brasil

 


Medos cruzados

Curioso como, em meio ao horror nosso de cada dia, um mero tuíte — quase banal de tão singelo — foi capaz de acionar meus sensores semianestesiados por um ano de pandemia. “Confesso que estou exausta. Já escrevendo errado e com muita angústia do que está por vir. É a primeira vez que tenho medo do que está acontecendo”, dizia a postagem de Ethel Maciel, que eu nem sequer conhecia. Ela é, entre outras qualificações, epidemiologista e professora da Federal do Espírito Santo e dizia sentir tristeza pela falta de empatia geral no país.“O pior está por vir. Se cuidem! Estamos à deriva”, concluiu sem se alongar.

O medo, como se sabe, é desde sempre a mais primal e potente emoção a mover todas as espécies, inclusive a humana. Estudiosos ensinam que os gregos da Antiguidade tinham tantas variantes para a palavra “medo” quanto são múltiplas as designações dos povos inuit para “neve”. Felizmente, Freud simplificou as coisas. Com ele aprendemos a distinguir o medo real (nossa resposta racional e compreensível à percepção de um perigo concreto), do medo neurótico (nossa expectativa movida a ansiedade, desencadeada por coisas tão inofensivas como uma sombra na calçada). O medo real, como o da professora Maciel, exige algum tipo de ação, seja fugir para se proteger, seja combater o perigo com as armas que tiver. O medo imaginário — aquele que interpreta coincidências como sinais letais e constrói cenários catastróficos — costuma resultar em paralisia.


Pois Jair Bolsonaro, em sua cavalgada de presidente em precipício, se dedica a inverter os sinais. Declara imaginária e neurótica a mortandade por Covid-19 que, de Norte a Sul, esvazia de vida o Brasil, enquanto acredita em suas próprias insânias com medo real de perder o poder. Nada pior para um país do que ser governado por um celerado em tempos de pandemia. Em todas as unidades da Federação, o estoque de 11 medicamentos recomendados para a entubação de pacientes (derradeiro recurso, antes do óbito) está minguando. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, uma falha na distribuição de oxigênio causou a morte de 6 doentes num só dia. No cemitério de uma cidade pernambucana de 140 mil habitantes (Vitória de Santo Antão), corpos em decomposição amontoados a céu aberto prenunciam o amanhã coletivo. Em São Paulo, a prefeitura inaugura três “hospitais de catástrofe” para estancar a hemorragia de vidas — mais de 20 mil na capital. De Teresina, chega a foto de um idoso esquálido que morreu no chão de uma UPA não mais por falta de leito de UTI, ou de leito de enfermaria, mas por falta de simples maca ou cadeira de plástico para “morrer na contramão”, como diz a canção de Chico Buarque. São as entranhas do país expostas por um presidente perverso e vigarista, que necessita de caos e fúria para existir. Quanto maior o descontrole, mais cresce seu flerte obsessivo com a exumação do “estado de sítio”.

Chefes de Estado negacionistas houve vários no planeta infectado, com gradações múltiplas de conveniência política, porém só Bolsonaro arrosta até hoje, passado um ano de horror pandêmico, seu descrédito presidencial quanto ao número de óbitos por Covid-19 no país. Segundo o colunista Lauro Jardim, a insânia já contaminou o futuro ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, antes mesmo de sua posse. Em conversa privada com pelo menos um colega médico, Queiroga teria manifestado a intenção de fazer blitzes em hospitais para aferir se as UTIs estão realmente lotadas, se tem essa gente toda morrendo de Covid-19.

Então cabem algumas perguntas: como não condenar um presidente que prega “desobediência civil” a seus fiéis, para que resistam a medidas de isolamento capazes de salvar suas vidas? Como não condenar um chefe do Executivo que finge ameaçar o Judiciário com “ação dura” caso não consiga impedir governadores de decretar lockdown? Como não condenar o presidente de um regime ainda democrático que chama o Exército de seu? “O MEU exército não vai para a rua para cumprir decreto de governador. Não vai”, garantiu Bolsonaro em tom exaltado na sexta-feira. “Se o povo começar a sair de casa, entrar na desobediência civil, não adianta chamar o Exército, porque MEU exército não vai.”

Uma última pergunta, talvez ainda mais pertinente, fica no ar: e se Bolsonaro não estiver completamente celerado ao chamar o Exército brasileiro de seu?

Daí a conveniência de a sociedade manter seu justificado medo no âmbito do perigo real — aquele que demanda de cada um uma reação. No caso, seja para se proteger, seja para combater o sombrio conluio do presidente da República com o óbito do Brasil.

Poder da 'egolatrina'

Diante do comportamento do senhor Jair, eu acho que há elementos suficientes para que se possa dar uma hipótese diagnóstica. Se acham os grandes poderosos, e aí vem a tirania, porque só eles que estão certos. Essas pessoas não deveriam nunca ter esse poder de mando, mas quando têm é sempre uma lástima.

 


 São ególatras, ou seja, estão sempre pensando em si mesmos. São indivíduos que não têm remorso nunca. São tidos como pessoas toscas, capazes de ter determinados comportamentos e não percebem aquilo que estão fazendo de errado

Guido Palomba , psiquiatra forense

A palavra que habita em nós

Genocídio. Por que a palavra ficou tão presente na vida brasileira? Porque ela é usada quando um povo está morrendo. Nós estamos morrendo. Todas as outras palavras parecem pálidas. Prisioneiros de uma armadilha institucional e trágica, os brasileiros morrem diariamente aos milhares. Os remédios usados no tratamento extremo, a intubação, estão acabando, e o país está numa macabra contagem regressiva de quantos dias durarão os estoques. O que acontecerá se os medicamentos acabarem antes de serem repostos? Seremos intubados sem sedativos ou sufocaremos? Nós não estamos apenas morrendo. Caminhamos para morrer em maior número e de maneira mais cruel. Que nome deve ser usado? Genocídio.

A palavra habita nossas mentes porque estamos vendo os fatos, temos consciência do destino. Objetivamente, é a única que temos para descrever os eventos deste tempo. Quem se ofende com ela, se fosse pessoa com sentimentos humanos, teria reagido para evitar a tragédia. Nós sabemos sinceramente que nada podemos esperar de quem empurrou o país para este momento de barbárie.


A armadilha em que estamos é que não há remédio institucional fácil, e suficientemente rápido, para neutralizarmos o agente de nossa própria morte. Não temos legítima defesa. Os democratas respeitam as regras do jogo constitucional. O constituinte não pensou que haveria um tempo assim tão perigoso em que o governante atentaria contra a vida coletiva. Na Constituição está escrito que a saúde é um direito do povo e um dever do Estado. Esse é o primeiro princípio, de uma infinidade de outros, que está sendo quebrado.

O presidente da República convidou o presidente do Supremo Tribunal Federal para participar de um comitê de combate à pandemia. Estranho, porque ele nunca combateu a pandemia. Ao mesmo tempo, ingressou no Supremo contra três governos estaduais que tomaram medidas para reduzir a circulação de pessoas e, portanto, do vírus. O ministro Luiz Fux perguntou aos colegas se devia ir e recebeu a aprovação. Fux vai para um “diálogo institucional”, mas já avisou que não participará de uma comissão formal. Não existe meia entrada nessa reunião. Jair Bolsonaro está em litígio com os governadores. Se o STF vai julgar essas ações não pode participar de diálogo algum. É uma armadilha. Mais uma.

O que mais ele terá que fazer? Quantas mortes serão suficientes? Quanto fel ele ainda terá que destilar? Até quando os poderes da República vão acreditar que estão diante de um governo normal, com o qual se pode ter diálogo?

Desde o início desta pandemia o presidente da República escolheu seu lado. Não é o da vida. Diariamente ele maquina o mal. Ficou contra cada medida que poderia evitar mortes. Seu governo se nega a fazer a coordenação que, numa federação centralizada como a nossa, cabe à União. Ele não apenas se omite, ele age. Bolsonaro sabota a ação do aparato de Estado que o país construiu. O Ministério da Saúde é uma sombra do que foi, do que poderia ter sido nesta crise. A demolição institucional continua sendo executada com crueldade.

O presidente é pessoa de extrema perversidade. Mas um perverso com método. Ele apostou, desde o início, que a melhor forma de se salvar é defender que a economia deve continuar funcionando. Calculou que a imunidade coletiva chegaria e nesse momento ele diria que estava certo desde o início. Então a raiva da população ferida poderia ser dirigida contra os outros. Que outros? Todos. Governadores, prefeitos, ministros do Supremo, adversários políticos, jornalistas. Qual a variável de ajuste dessa equação? Os mortos. Podem ser quantos forem até que se atinja a imunidade coletiva que, na sua visão, viria da contaminação em massa. Bolsonaro certa vez comparou o coronavírus à chuva. “Ela vai molhar 70% de vocês”. Bolsonaro está errado desde o início. A ciência nos ensina que diante deste vírus mutante e mortal a imunidade coletiva só virá com a vacinação em massa.

O presidente adotou conscientemente o caminho de nos levar para esta exposição máxima ao vírus porque desta forma se chegaria, na cabeça dele, ao fim da pandemia. O caminho está errado sob todos os pontos de vista: médico, científico, humano. Ele está nos levando para a morte. Qual é a palavra exata? Genocídio.

Vacinação devagar, quase parando

Imagine a paciência que os aspones são obrigados a ter com Bolsonaro nesses dias em que a popularidade do chefe despenca como laranja bichada. Convencê-lo, por exemplo, de que a vacinação é a melhor e mais eficiente maneira de estancar o avanço da Covid-19:

"E se o senhor, digamos, o senhor que está perto de completar 66 anos, digamos que o senhor aproveite a data que se aproxima para entrar na fila com outros brasileiros da mesma idade e tomar a primeira dose, veja bem, a primeira, depois o senhor teria de tomar a segunda, e, mostrando o braço de atleta, receber a vacina e provar que o senhor não tem medo da picada e, digamos, que está a favor da vacinação?".


Se não xingasse os assessores ou encerasse a conversa abruptamente, como costuma fazer diante das perguntas incômodas de jornalistas, Bolsonaro teria um bom tempo para pensar na resposta. Seu aniversário é neste domingo (21), mas a vacinação está devagar, quase parando. No ritmo atual, a cobertura de 70% da população, a mínima necessária para que haja imunidade coletiva, não virá em 2021. As mortes, sim, deverão chegar a 300 mil ainda neste mês.

Os conselhos para que Bolsonaro pare de negar a gravidade da pandemia —o que faz desde março do ano passado, quando promoveu aglomerações em frente ao Ministério da Saúde para criticar soluções sanitárias do próprio órgão— foram reforçados depois da ressurreição de Lula. O capitão anda tão nervoso que não se pode mais nem chamá-lo de "pequi roído", pois lá vem processo.

Não está no seu horizonte nenhuma mudança na retórica populista que combate as medidas severas de isolamento. Bolsonaro enxerga nelas um complô, uma guerra contra sua reeleição —única coisa a que se dedica. Tanto que agravou a crise federativa ao pedir ao STF que restrinja o poder de governadores. Mais desperdício de tempo, significando mais vidas perdidas.

Sobreviver é preciso

… só morte tem encontrado
quem pensava encontrar a vida,
e o pouco que não foi morte
foi de vida severina
(aquela vida que é menos
vivida que defendida…)
.
Jamais imaginei que usasse um dia versos de Morte e vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, para ilustrar uma crônica. Nunca pensamos tanto na morte e valorizamos tanto a vida. A vida que passa diante dos olhos, no voo da borboleta, no mato acumulado em volta da árvore e que dá flor, no miado do gato de rua, sempre à mesma hora, no pio dos pássaros que visitam o telhado, nos urubus brincando de ciranda entre as nuvens, nas elegantes gaivotas e seu sóbrio silêncio. A vida que se reafirma na graça dos bebês, na inocência dos pequenos, na beleza dos jovens, na tenacidade dos adultos, na persistência dos idosos.

 A morte que leva embora o vizinho amigo que, com a esposa, formava um casal invejável. Usavam a garagem fechada como estúdio, ele, para criar objetos de madeira e ela, para usar a máquina de costura. No dia em que passei mal, me acudiram prontamente. Na parede do escritório, tenho a floreira feita por ele, que recebi de presente. E a assisti desmontar o apartamento, quando resolveu voltar a morar em São Paulo, a fim de ficar mais perto de onde o marido permanecia internado. Por não gostar de despedidas, não se despediu. Penso que não volta.


A morte também está no obituário do jornal de todo dia, cada vez com mais colunas e nomes de todas as idades e profissões. Em conversas com os motoristas de táxi, quase sempre sobre perdas: o salário que não cobre as despesas, os parentes desempregados, a aposentadoria que ainda demora, o medo que representa cada passageiro, os boatos assustadores.

Assim sobrevivemos um ano e iniciamos outro, ainda sem certezas. Hoje devo tomar a primeira dose da vacina, defendendo a vida como Severina. Ela ainda me encanta, apesar dos altos e baixos, atualmente, mais baixos que altos. Ainda pulsa em cada ação, desejo, sonho, na fome, na sede, na saudade. O outono vem chegando, com sua brisa fresca e cores amenas. Tempo considerado de recolhimento, mesmo para nós, há tanto recolhidos. Se o presente não nos pertence, o futuro pertencerá. Há que se ter esperança.

Madô Martins

sábado, 20 de março de 2021

Pensamento do Dia

 


Presidente perverso recusa-se a ouvir o grito dos que sofrem

À falta melhor do que fazer, uma vez que o combate à pandemia da Covid-19 só lhe desperta os instintos mais primitivos, Jair Bolsonaro passou pelo vexame de ouvir um “para com isso” do ministro Luiz Fux, presidente do Supremo Tribunal Federal.

No Rio, onde se encontrava, Fux soube que em Brasília, na sua pregação diária para devotos reunidos nos jardins do Palácio da Alvorada, Bolsonaro deu a entender que poderia decretar Estado de Sítio no país ou em algumas de suas regiões.

Estado de Sítio é coisa séria. Só pode ser decretado após consulta ao Conselho da República, ao Conselho de Defesa Nacional e mediante autorização do Congresso. O presidente do Supremo Tribunal Federal é um dos membros do Conselho da República.

Daí o interesse de Fux pelo assunto, o que o levou a telefonar de imediato para Bolsonaro. Segundo o artigo 137 da Constituição, o Estado de Sítio só se justifica em dois casos:

I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;

II – declaração de estado de guerra ou resposta a agressão armada estrangeira.

De fato, o Brasil pode estar caminhando na direção de um estado de comoção grave diante da recusa de Bolsonaro em combater o coronavírus, deixando que morram os que tiverem de morrer porque ele simplesmente não é coveiro. Mas ainda não chegou lá.


É possível que ao presidente da República interesse que chegue. Enquanto durar o Estado de Sítio, aumentam seus poderes e se enfraquecem os direitos individuais dos cidadãos. Ele poderá, por exemplo, suspender a liberdade de reunião e ir além.

O Estado poderá fazer busca e apreensão em domicílios sem prévia consulta à justiça, e intervir em empresas particulares requisitando os bens que lhe aprouver. A correspondência entre pessoas perde sua inviolabilidade. As prisões se tornam moeda corrente.

Funciona, digamos, como um ensaio de um Estado de exceção. Um presidente democrata faria tudo para evitá-lo. Para um presidente de extrema direita, pronto a celebrar mais um aniversário do golpe militar de 64, o Estado de Sítio é uma tentação irresistível.

A Fux, Bolsonaro negou que tenha falado em Estado de Sítio ou que cogite adotá-lo. Então por que o mal entendido? Porque ele disse, sem que ninguém lhe perguntasse, que “vai chegar o momento” em que o governo terá de tomar uma “ação dura”.

Afirmou que a miséria, a fome e a pobreza são “terreno fértil para ditadura” no País. E, provocou: “Será que o governo federal vai ter que tomar uma decisão antes que isso aconteça? Será que a população está preparada para uma ação dura no tocante a isso?”.

Ação dura para quê? Ele mesmo respondeu: “É para dar liberdade pro povo, é para dar o direito de o povo trabalhar. Não é ditadura não, uns hipócritas aí falando de ditadura o tempo todo, uns imbecis”. Ação dura contra medidas de isolamento social.

Bolsonaro bateu às portas do Supremo atrás da revogação de medidas de isolamento baixadas pelos governadores do Distrito Federal, Bahia e Rio Grande do Sul. Está cansado de saber que o Supremo se negará a revogá-las. Por que insiste mesmo assim?

Para reforçar seu discurso de que não age contra o vírus como gostaria por que a justiça o impede. Para jogar a população contra governadores e prefeitos apontados por ele como “projeto de pequenos ditadores”. Para tumultuar ainda mais a situação.

“Jamais adotaria o lockdown no Brasil. O meu Exército não vai para a rua cumprir decreto de governadores”, repetiu Bolsonaro. “Se o povo começar a sair [de casa], entrar na desobediência civil, não adianta pedir Exército. Nem por ordem do Papa, não vai”.

Com os 2.730 óbitos registrados nas últimas 24 horas, março de 2021 se tornou o mês mais mortal da pandemia, superando julho do ano passado. No momento, o governo dispõe de dois ministros da Saúde – um general e um médico. Significa não ter nenhum.

O general está à espera que lhe arranjem um novo cargo – de preferência com status de ministro para se resguardar de processos. O médico precisa de tempo para desvincular-se de suas atividades de empresário. Por ora, um não sai e o outro não entra.

O presidente perverso tem campo aberto para exercitar sua desumanidade e tocar horror.

Ge-no-ci-da!

Em meados do ano passado, o Brasil já ia pela casa dos 50 mil mortos pela pandemia. E o que fez o genocida? Incentivou seus cães ferozes a invadir hospitais. Na época, o cartunista Renato Aroeira traduziu numa charge a indignação de muitos brasileiros. No desenho, a cruz vermelha dos hospitais é convertida na suástica nazista pelo genocida. Uma imagem forte e poderosa. O Ministério da Justiça decidiu perseguir Aroeira, mas deu um tiro no pé. Em solidariedade, mais de 70 artistas republicaram a charge e amplificaram a crítica.


Movimento semelhante ocorreu nesta semana, quando o Brasil já está perto de alcançar cinco vezes mais mortes do que em junho. Cinco manifestantes foram presos em Brasília por expor um cartaz que reproduz o trabalho de Aroeira e acrescenta a palavra que está no centro do debate nacional: genocida. A mesma palavra motivou uma intimação policial ao youtuber Felipe Neto, que a usara para criticar o presidente"¦ genocida.

Rapidamente, uma frente de advogados criou a plataforma "Cala boca já morreu", que oferece defesa gratuita para quem for processado ou preso por críticas ao genocida. Felipe Neto não se deixou intimidar e revidou à altura no ecossistema que conhece como poucos e por meio do qual alcança milhões de pessoas. Ele postou o vídeo "Bolso família", programa de transferência de renda para uma única família, no caso, a do genocida.

Bem que a oposição poderia tomar aulas de comunicação com o youtuber. Graças ao seu alcance, o epíteto pegou e estará colado para sempre na testa de Bolsonaro: genocida! Seus atos estimulam a reprodução do vírus que está matando milhares. Por isso, Bolsonaro não é um assassino comum. É um genocida.

O país derrete no colapso hospitalar e sanitário. Todos os dias são de despedidas. Para não adoecer de Brasil, temos que expressar nossa indignação. Neste texto, usei 11 vezes o termo genocida. E peço que você repita comigo, escandindo as sílabas: GE-NO-CI-DA!

Pedido para matar

Esse documento (pedido protocolado por Jair Bolsonaro no STF para impedir o toque de recolher contra a epidemia) vai rodar o mundo e vai servir como prova definitiva de que as intenções da presidência não são voltadas ao bem maior da sociedade. E, quando um mandatário renuncia à sua obrigação máxima de proteger e salvar seus cidadãos, outros poderes da República têm de intervir. O presidente botou no papel o que o mundo inteiro já sabia: que ele quer fazer o oposto do necessário para evitar um genocídio no Brasil
Miguel Nicolelis

Brasil mergulhado na barbárie

O Brasil começa a ser um campo onde parece ter se instalado um regime bárbaro com atos de terrorismo perpetrados contra aqueles que defendem as medidas de lockdown contra a pandemia que ameaça afundar o país na maior crise de saúde de sua história. Dois atos de terror e violência levados a cabo nos últimos dias contra dois jornalistas por fanáticos de Jair Bolsonaro levantaram o alarme de que os seguidores do presidente, que os qualifica de “meu exército”, estão dispostos a incendiar o país para impedir as medidas restritivas exigidas pela ciência e pela medicina como única arma junto com a vacina para tentar deter o rastro de mortes cada dia maior que horroriza o país. Nesta quinta-feira, o presidente deu mais um incentivo a eles: em nova transmissão ao vivo, disse ter acionado o Supremo Tribunal Federal contra as medidas para conter a circulação.

O último ato de terror aconteceu na cidade de Olímpia, no interior de São Paulo, contra José Antonio Arantes, editor do jornal local que quase morreu junto com a mulher e a neta de sete anos enquanto dormiam. Atearam fogo na casa durante a madrugada e se não fossem os dois cachorros que os despertaram com o quarto já cheio de fumaça e fogo, toda a família teria morrido. “Mais quinze minutos e teríamos todos morrido sufocados pelo fogo”, disse o jornalista, que acrescentou: “Estou há 40 anos na profissão, comecei minha carreira já no final da ditadura. Não vou abrir mão de lutar pelo meu povo e contra qualquer tipo de terrorismo e pensamento político que visem tirar a liberdade e suprimir os direitos de minha população”.

Outro jornalista, do O Estado de Minas há 20 anos, foi agredido durante uma manifestação de bolsonaristas com pontapés e pancadas na cabeça dadas com um capacete de motociclista aos gritos de “Comunista! Não vamos deixar!”. O jornalista comentou: “A ferida está na alma. Saber que temos um líder no país que incentiva a violência”. A Associação Nacional de Jornais (ANJ) escreveu que “o extremismo e a intolerância contra jornalistas atingem toda a sociedade”.

É sabido que os grandes incêndios que devastam florestas inteiras às vezes começam com uma ponta de cigarro acesa. O mesmo acontece na política. Muitas das grandes tragédias da humanidade às vezes começaram com um único tiro de pistola e acabaram manchando de sangue países inteiros.


O Brasil está numa situação grave e perigosa que, se não for contida a tempo, pode arrastar o país para as cenas dantescas vistas no final do Governo Trump. As instituições do Estado responsáveis pela defesa dos direitos sancionados na sociedade não podem fechar os olhos nem pensar que Bolsonaro ainda pode mudar, defender os valores da liberdade e acalmar suas hostes violentas. Em mais de dois anos de Governo já deu provas suficientes de que sua personalidade negacionista, destrutiva e violenta não vai mudar.

Como vários psiquiatras já indicaram, sua personalidade pertence a pessoas com traços de patologia impossíveis de curar. Em sua coluna de ontem no jornal Folha de S. Paulo, intitulada Jair Messias e o ‘pai dos psicopatas’, Guido Palomba cita o psiquiatra alemão Kurt Schneider, que em seu último livro tenta decifrar os transtornos de personalidade em tempos de tensão.

São disfunções de personalidade “com ausência de sentimento de piedade, compaixão e altruísmo; falta de valores éticos e morais e incapacidade de se sentirem culpados. São pessoas sem remorso e arrependimento”. São pessoas sem ressonância afetiva com a dor alheia. Por vaidade exagerada, sentem-se acima de tudo e de todos. São personagens agressivos, mal-educados e provocadores.

O psiquiatra alemão os compara aos oligofrênicos e os descreve como pessoas que, se voltam atrás, não é para reconhecer seus erros, mas por estratégia. “Rancorosos e vingativos reagem com virulência”, e conclui significativamente: “Ninguém os detêm, salvo uma reprimenda enérgica judicial ou legal”.

Seria possível dizer que, se o capitão responde a esse distúrbio psiquiátrico, é inútil continuar esperando dele alguma conversão milagrosa. Agora os responsáveis são os que têm o poder, com a lei nas mãos, de pôr fim a essa barbárie que oprime cada vez mais este país, ameaçando deixá-lo à própria sorte, deixando que a epidemia o devore com gente morrendo nos corredores dos hospitais à espera de uma UTI.

Deixar um país inteiro à deriva, não por falta de recursos, mas de liderança, é um crime que também recai sobre as autoridades incapazes de intervir.

Seria de se perguntar se os militares que hoje apoiam o presidente em seu Governo também vão fechar os olhos. Se vão preferir ficar também eles presos no Titanic ou se preferirão abandoná-lo antes que seja tarde demais. O Brasil não merece este massacre que produz morte e desolação sem esperança de salvação.

Sob o império da mentira

Faz tempo que nós, brasileiros, vimos sentindo nossa autoestima baixar cada vez mais. Não vendo muito de positivo a celebrar, ressaltamos nossos defeitos, que, de fato, não são poucos.

Mas, sinceramente, nunca me ocorreu que tantos de nós fôssemos imbecis, canalhas e irresponsáveis como essas multidões que estão antepondo todo tipo de obstáculos ao combate à pandemia. Pondo em risco não só a nossa vida, mas também a deles.

A pandemia já ceifou quase 300 mil vidas e uma parcela importante dessa perda se deve ao comportamento do insano que nos preside. Seu objetivo parece ser muito mais o de impedir a ascensão eleitoral do governador João Doria do que livrar o nosso país dos riscos trazidos pelo coronavírus. Sabotando o trabalho dos agentes de saúde, fomentando aglomerações, insuflando fanáticos que o apoiam, mentindo sem nenhum pudor (por exemplo, quando afirma que o Supremo Tribunal Federal o impede de agir), ele vem tornando nossa tragédia muito maior do que ela precisaria ser. Hoje somos uma “ameaça global” e uma vergonha para o mundo.

Era o caso de esperar mais de um capitão excluído das Forças Armadas por indisciplina para em seguida se tornar um lídimo representante do “baixo clero” na Câmara dos Deputados? Justiça feita, ele não é um caso isolado. O que hoje temos na cúpula dos três Poderes é provavelmente a pior composição da nossa História. No próprio Supremo, guardião da Constituição, alguns ministros parecem empenhados tão somente em combater o combate à corrupção.

O império da mentira parece não ter limites. Veja-se o caso de Lula. Minutos após ter suas condenações pelo triplex e pelo sítio em Atibaia invalidadas pelo ministro Fachin, fazendo pose de estadista ele proferiu uma mentira que o futuro certamente lembrará como um notável paradoxo. Afirmou ter sido “vítima da pior mentira jurídica de nossa história”. Proferiu, portanto, uma mentira que se autodesmente, como na história do cachorro correndo atrás de seu próprio rabo. Mesmo o período de um ano e meio em que esteve preso em Pinheirais é uma grande mentira, pois esteve confortavelmente instalado, com direito a televisão e a visitas de seus advogados e outras pessoas. Lula sabe muito bem que, no espaço de dois ou três meses, sob os governos militares, muita gente sofreu centenas de vezes mais do que ele.

Lembremos, contudo, que algumas das piores coisas que ouvimos ultimamente não são mentiras. Minutos após ser empossado como presidente da Câmara dos Deputados, o deputado Arthur Lira (PP-Alagoas) manifestou sua intenção de restabelecer a coligação entre partidos nas eleições legislativas. Essa, sim, é de cabo de esquadra.

A revogação das coligações (efetivada na reforma de 2017) foi a única medida séria que logramos aprovar no terreno da reforma política em mais de 30 anos de tentativas. A referida modalidade de coligação era uma evidente fraude da vontade do eleitor e da consistência que temos o direito de esperar dos partidos políticos. Minigrupos que, isoladamente, não conseguiriam atingir o chamado quociente eleitoral, habilitando-se a participar da distribuição das cadeiras, aliavam-se – como se fossem um partido! – a fim de atingi-lo. Concretizado esse objetivo espúrio, separavam-se, juntavam-se a outros e faziam o que bem entendiam com a parcela da representação popular que supostamente teriam angariado.

A vedação das coligações foi aplicada na eleição municipal de 2020, com resultados por enquanto modestos, mas positivos.

A intenção externada pelo presidente da Câmara é um péssimo augúrio. Sugere que uma parte da classe política persiste na obtusidade que a caracteriza há várias legislaturas. Que não compreende que o Brasil precisa de uma reforma política séria e abrangente, sob pena de não lograr o impulso necessário para retomar o crescimento econômico e a busca do bem-estar. Nesse mister, não estamos lutando para evitar um retrocesso, estamos metidos até o pescoço num retrocesso gravíssimo, que implica nossa permanência num nível de pobreza avultante por toda uma geração. Tal reforma terá de ser feita, cedo ou tarde, e num contexto preocupante. Trata-se de uma reforma difícil, que por certo envolverá alterações constitucionais, portanto, um desafio de grande monta para a atual geração política, sabidamente mediana.

Trinta e cinco anos atrás, no Congresso Constituinte, qualquer cidadão informado não precisaria de mais que cinco minutos para apontar dez, quinze ou vinte líderes de expressão nacional. Falo da qualidade de tais líderes, não da ideologia de tal ou qual. De A a Z, dispúnhamos de figuras públicas habilitadas a representar a sociedade nos escalões mais altos. Lá estavam Ulysses Guimarães, Franco Montoro, Mário Covas, Roberto Campos, Delfim Netto, Fernando Henrique Cardoso.

Hoje, se me permitem um breve resumo, temos um cenário extremamente preocupante para as próximas duas ou três décadas e uma classe política, ao que tudo indica, despreparada para enfrentar esse magno desafio.

A minha segunda dose

Eu devia estar contente. Ontem, gastei apenas 10 minutos para, sem fila, tomar minha segunda dose de CoronaVac. Por que não comemorar a entrada no pequeno grupo dos brasileiros que tiveram essa sorte?

Porque o que há em volta é de entristecer: a semana que passou constituiu-se na mais letal da pandemia, e o país foi considerado um risco para o mundo. Além da carência de leitos, remédios e insumos, agora faltam até covas e, sem necrotérios, os corpos estão sendo “enterrados” em contêineres.

São mais de 265 mil mortes em um ano causadas pela Covid-19, ou 1.582 em 24 horas; ou um óbito a cada 50 segundos, com curva ascendente. Em janeiro e fevereiro, as mortes pelo vírus subiram 71%.


O SUS tem mais de 80% dos leitos de UTI ocupados em pelo menos 17 capitais do país; e a Organização Mundial da Saúde adverte que o Brasil vive “uma tragédia” e não sabe como enfrentá-la. Para quatro ex-ministros da Saúde, falta liderança; para secretários estaduais, vivemos o “pior momento” da pandemia e, por isso, pedem toque de recolher das 20h às 6h.

O pior é que esses números já devem estar superados quando eu acabar de escrever este artigo. E eles escondem nomes, alguns de pessoas queridas, compondo um “memorial de despedidas”, segundo relatos obtidos por Janaína Figueiredo e Maiá Menezes. Às vezes são os derradeiros diálogos, como os do médico Ricardo Cruz com sua mulher:

— Piorei muito. O pulmão não responde. Prepare-se para o pior, ok?

E, já sem fôlego, deixou por escrito suas últimas recomendações.

Lendo, me lembrei de ter participado de alguns debates culturais que o doutor Ricardo promovia e animava nos hospitais onde clinicava. Foi impossível não chorar. E não me envergonho de confessar. Vergonha eu tenho de um presidente que debocha dos que choram seus mortos. Num vídeo que viralizou nas redes sociais, o romancista e jornalista português Miguel Sousa Tavares faz duras críticas a Bolsonaro.

Muito lido no Brasil, que conhece bem e onde admira personagens como Drummond, Kubitschek, Chico Buarque e Oscar Niemeyer, o autor do clássico “Equador” diz que “dói a alma” constatar que o Brasil esteja sendo governado por um “fantoche, alguém absolutamente ignorante e cruel não só do ponto de vista político, mas também humano”.

Miguel disse tudo isso e muito mais, antes de conhecer a última do presidente: o desprezo pelos que sofrem por suas perdas. Bolsonaro demonstrou mais uma vez que sua personalidade não é feita só de ignorância, mas também de má-fé e mau caráter.

Em meio a tanta omissão criminosa, não se pode esquecer e nunca é demais exaltar a voz da ciência — a “Moção médica em prol da vacina já”, em que 2.168 profissionais do Rio manifestaram-se preocupados com a condução da pandemia no estado e no país. Ao se referir ao número escandaloso de mortes, o texto ressalta: ISSO NÃO PODE CONTINUAR, assim mesmo, em caixa-alta, como se fosse um grito.

É possível que o leitor, como eu, já tenha recorrido a um desses importantes nomes num momento de dor ou aflição. Ler agora essa demonstração de coragem cívica de nossa classe médica é um conforto.