quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 


'Papai, por que você votou no Hitler?'

Em 5 de março de 1933, Otto, garoto de 5 anos, vê seus pais discutindo. A mãe repudiava o voto do pai no dia da eleição. O pai, com medo da crise econômica no país, aponta as promessas de emprego e prosperidade de seu candidato.

O líder prometia ordem e trabalho, o resto era menos importante. As ameaças, as propostas, o ódio, tudo era periférico. "Papai dizia que era preciso que as coisas mudassem."

Ao longo do livro, Otto testemunha os efeitos do regime apoiado por seu pai. Vizinhos desaparecem, livros queimados, censura, um primeiro campo de concentração para homossexuais, ciganos, judeus, pessoas com deficiência. Até que chega a tragédia familiar: nasce sua irmã, bebê com deficiência mental, alvo das políticas de eugenia do governo que seu pai ajudou a eleger.


A história ilustra o processo rápido e violento de radicalização pela perspectiva da família, pelos olhos de uma criança. Mostra a preocupação com conveniências imediatas do pai, rejeitadas pela mãe.

Ilumina a banalidade do voto que incentiva a força mais sociopática naquela comunidade. Não era um voto ideológico, apenas desespero e ressentimento, crente em soluções mágicas. O autoengano, a subestimação do risco, a cumplicidade. A miopia de curto prazo. O líder lhe deu uma explicação da crise, um culpado.

Otto nunca faz ao pai a pergunta do título ("Papai, Por Que Você Votou no Hitler?", de Didier Daeninckx, tradução de Julia Simões, Ed. Cecerelê). Ela ecoa no silêncio da casa, na sua incapacidade de entender e verbalizar a incongruência entre o voto do pai e o som ao redor.

Otto não julga, apenas sobrevive. E expõe a maior crueldade do voto extremista: atinge a família e deixa legado para o futuro. O pai, homem de bem, ignora sinais. Jornais também ignoram e não nomeiam o horror. Ele não sabia que poderia atingir a própria filha, cuja existência o regime não atribuía valor.

Analistas sabichões podem dizer que o livro não passa de um exemplo da "Lei de Godwin": à medida que uma discussão se estende, aumenta a probabilidade de surgir uma comparação com Hitler. Mike Godwin, que deu nome a essa "lei", se referia a abusos hiperbólicos, não à possibilidade de qualquer comparação com o nazismo. Ele próprio afirmou: "É ok comparar Trump com Hitler. Não me deixe impedi-lo".

Richard Hamilton, no livro "Quem Votou em Hitler?", mostrou que o voto no partido nazista crescia conforme aumentava o nível econômico. Milton Mayer, em "Eles Pensavam Que Eram Livres: Alemães Entre 1933-1945", mostra como cidadãos comuns vão ignorando perdas graduais nas liberdades até ser tarde demais.

A imagem viral que marca a comemoração do resultado eleitoral de domingo no Brasil foi a de um menino com camisa do Brasil dançando no capô de um carro segurando uma arma.

Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos, discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e liberar recursos nacionais para país estrangeiro.

Ignorar a Constituição. E você diz sim, negócio fechado.

Muitos Bolsonaros para um Brasil só

Foi a vitória de Deus, da pátria e da família Bolsonaro. Deus ainda terá de aguardar para saber com o que será aquinhoado —a promoção, talvez, da praça dos Três Poderes para a dos Quatro Poderes. A pátria nem imagina o que a espera, mas já decidiu que será bom para ela também. E a família já se garantiu —dos 20 Bolsonaros que concorreram às eleições, 1 aguarda o segundo turno e 13 se elegeram ou ficaram como suplentes, já no aquecimento para entrar em campo. As demais famílias brasileiras continuam onde estavam, vivendo através das redes sociais.


Jair Bolsonaro, sem sair de casa, provisoriamente atado a um pé de mesa por uma tornozeleira eletrônica, emplacou o filho Flávio Bolsonaro, na boca para a Presidência; a mulher, Michelle Bolsonaro, senadora; outro filho, Carlos Bolsonaro, também senador; mais um filho, Jair Renan Bolsonaro, deputado federal; e até um irmão, Renato Bolsonaro, também federal. Uma bancada que só não se reunirá para um churrasco familiar porque madrasta e enteados se odeiam e não será surpresa se ela partir para voo solo.

Rogéria Bolsonaro, ex-mulher de Jair Bolsonaro, ficou na suplência para federal no DF. Se Flávio Bolsonaro for presidente, fará de um deputado eleito o chefe do armário de vassouras do Planalto e abrirá a vaga para a sua mãe. E, suplentes como ela, mas para os Legislativos regionais, Eduardo Torres, irmão de Michelle Bolsonaro, e Marcelo Bolsonaro (primo de Jair Bolsonaro) e sua esposa, Valéria Bolsonaro. Os Bolsonaros são muitos para um Brasil só.

Vários Bolsonaros avulsos, parentes ou não, também se elegeram ou foram para o banco em disputas locais, como Fabiana Bolsonaro e Samanta Bolsonaro (SP), Jean Bolsonaro (RJ), Joel Bolsonaro (RS) e Fã do Bolsonaro (PR). Inapelavelmente derrotados, só Freitas Bolsonaro (ES), Helio Rodrigues Bolsonaro (TO), Renata Bolsonaro (SP), Rodrigo Bolsonaro (RN), Bolsonaro Sergipano (SE) e Bolsonaro da Shopee (MT).

Hélio Negão não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro. Perdeu. Logo ele, fiel Bolsonaro cenográfico.

Para que não digam depois que votaram em Flávio por engano

Ah, mas que bobagem, dizem os defensores da candidatura do extremista de direita Flávio Bolsonaro à Presidência da República. E prosseguem: foi só mais uma jogada política dele para agradar ao seu eleitorado. Referem-se ao anúncio feito por Flávio de que, tão logo tome posse, irá “mudar a Constituição” para, assim, redemocratizar o país. O que significa, em suma, que não existe democracia por aqui.


Isso suscita a questão sobre o que Flávio entende por democracia. Para ele, em 1964, não houve um golpe militar, mas sim “uma revolução” para salvar a democracia do comunismo. No mais, não importa que o golpe tenha implantado uma ditadura que se estendeu por 21 anos, torturou, matou e sumiu com os corpos de muitos dos seus oponentes para, no final, fracassar e bater em retirada.

Flávio pensa a mesma coisa sobre a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, que resultou na condenação de seu pai a 27 anos e 3 meses de prisão. O que o Brasil assistiu pela televisão, na opinião dele, não passou de uma ação desesperada de pessoas acampadas às portas de quartéis e que, legitimamente, protestavam contra a eleição de Lula. Afinal, elas tinham o direito de expressar seu pensamento.

Deu na invasão e vandalização das sedes dos Três Poderes da República (Palácio do Planalto, Congresso Nacional e Supremo Tribunal Federal)? Infelizmente, sim. Mas havia, em meio à turba descontrolada, agentes da esquerda infiltrados que estimularam a baderna, segundo Flávio. Os culpados foram eles, não a massa de bolsonaristas convocada para participar da “Festa da Selma”.

A palavra “Selma” é uma alusão direta a “Selva!”, o tradicional grito de guerra do Exército Brasileiro, amplamente adotado por grupos de extrema-direita e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. O uso desse tipo de jargão de mobilização ganhou tração logo após as eleições de 2022, impulsionado por narrativas alinhadas a articuladores internacionais da extrema-direita.

Coincidência ou não, a mulher do almirante Almir Garnier Santos, ex-comandante da Marinha — o único chefe militar que pôs suas tropas à disposição de Bolsonaro para dar o golpe —, chama-se Selma Foligne Crespio de Pinho. Garnier Santos cumpre pena em regime fechado na Estação de Rádio da Marinha, uma instalação militar no Distrito Federal. Foi condenado a 24 anos de prisão.

A exemplo do pai, que lhe deu como missão libertá-lo, o que disse e fez Flávio no passado, e o que diga ou venha a fazer agora, merece ser escrutinado sem dó nem piedade. Porque ele está a poucos passos de ser eleito (tomara que não seja). E para que ninguém, no futuro, possa alegar que não o conhecia muito bem ou que votou nele por engano.

Não há falta de futuros, mas há falta de sentidos

"Estamos fartos", diz um dos participantes nos protestos estudantis em França. "Não há futuro para nós", diz outro. As mesmas frases poderiam ser ditas —e foram— sobre outros protestos e revoltas na história; as mesmas frases têm sido usadas para descrever as reações de eleitorados em todo o mundo, a cada vez que uma eleição corre como não era previsto. Não é impossível que os protestos deste ano na França acabem por ajudar à eleição de Marine Le Pen no próximo ano. Mas será que o lugar-comum faz sentido?


A sensação de que "nada acontece" tem sido usada como justificativa para uma tendência aceleracionista em política, principalmente à direita, mas não só, na tentativa de provocar uma transformação política e social extremada, qualquer que ela seja.

Mas olhem o mundo à nossa volta: alguém pode dizer verdadeiramente que nada acontece? Temos várias guerras em simultâneo, limpeza étnica e (por mais que alguns tentem evitar vê-lo) políticos que aceitam ou até promovem ideias de limpeza étnica e genocídio, da Ucrânia a Gaza.

O avanço tecnológico, em particular no campo da inteligência artificial, é de natureza exponencial. Tivemos pandemias, resultados inesperados em eleições e referendos, crises financeiras, golpes de Estado. Alguém pode seriamente dizer que está aborrecido porque nada acontece?

O aborrecimento pode ser genuíno, mas a razão tem de ser outra. E o mesmo se pode dizer desta sensação de "falta de futuro". Na verdade, nunca os futuros foram tantos e tão divergentes: da superabundância tecnológica ao colapso ecológico, do fim do trabalho à sociedade em rede, escolha não falta. Mas a sensação de falta de futuro é real, e não basta dizer a estes jovens: por que não se empenham numa destas versões do futuro desejável e lutam por ela?

A questão não é, portanto, a da falta. Nem falta de acontecimentos, nem falta de futuros possíveis. Mais plausível dizer que vivemos num problema de excesso: excesso de acontecimentos dramáticos e excesso de possibilidades de futuro, gerando confusão e pânico.

O problema é outro: o da falta de sentidos. Por duas razões.

A primeira é a da dessensibilização, fomentada em boa medida pelas redes sociais e pela mediação tecnológica entre humanos e acontecimentos. Não é que aconteçam poucas coisas: nós é que estamos como que entorpecidos e distantes. O sofrimento é lá longe; enquanto passamos os polegares pelas telas dos celulares, a desgraça do mundo começa por indignar, mas depois deprime e desmobiliza.

A segunda razão é a da crise de imaginação em que estamos mergulhados: ela atravessa a política progressista, a cultura e até as artes. A única imaginação que sobra é cínica e destrutiva. Democratas e progressistas ficam limitados a responder à sua ofensiva, em vez de terem tempo e espaço mental para inventar alternativas.

Discute-se muito se a pauta do campo progressista deve estar focada na narrativa ou nas questões materiais. A dicotomia é errada.

Nós podemos dar uma abundância de bens materiais às pessoas. Mas se não lhes dermos sentidos — para a democracia, para o progresso e até para a humanidade— não teremos vidas que valham a pena ser vividas. O vazio que explica a revolta começa por aí. A humanidade busca significados morais e não tem lideranças que lhos queiram dar.

A síndrome do segundo mandato

Biológica e juridicamente, Jair e Flávio Bolsonaro são seres distintos. Mas, politicamente, atuam como um coletivo. Assim, uma vitória de Flávio iniciaria não o seu primeiro mandato, mas o segundo do clã Bolsonaro. E é aí que mora o perigo.

A literatura mostra que processos de erosão democrática patrocinados por líderes autoritários costumam ficar mais agudos a partir de seus segundos mandatos. E esses movimentos tendem a intensificar-se ainda mais se o dirigente tiver sido removido do poder por um período e depois retornado. É aí que eles vêm com sangue nos olhos. Vimos isso claramente nos casos de Trump 2, de Netanyahu pós-2022 e do último Viktor Orbán. Candidatos a explicar a radicalização incluem os ressentimentos acumulados, o maior conhecimento das engrenagens do poder, que torna suas ações mais eficazes, e o afastamento dos membros mais moderados de suas coalizões.


No caso brasileiro, um eventual Bolsonaros 2 encontrará ainda um ambiente institucional deteriorado. O STF, que no mandato de Jair foi uma importante linha de defesa contra abusos, está em frangalhos.

Registre-se que a fragilidade do Supremo decorre de erros e defeitos de seus próprios membros. Outra força moderadora da política brasileira é o centrão. O bloco de parlamentares com pouca ideologia e muito amor por cargos e verbas nunca teve problemas para apoiar qualquer administração que pagasse seu preço, mas costumava vetar radicalismos.

O centrão se opôs às iniciativas legislativas mais tresloucadas de Bolsonaro 1 e, mais recentemente, não permitiu a aprovação de uma anistia ao ex-presidente condenado. Bem, a vitória da direita bolsonarista no Parlamento foi tão contundente que o centrão, ao menos nominalmente, perdeu espaço.

O grupo segue existindo e continuará a atuar como fiel da balança. Mas, a partir da nova legislatura, o bolsonarismo não precisará cooptar mais do que meia dúzia de senadores e algumas dezenas de deputados do bloco para fazer passar suas boiadas constitucionais e impeachments.

O risco extremo da democracia

Para o Brasil, não há cenários fáceis à frente. Se o presidente Lula for eleito, pode enfrentar crises de governabilidade, a menos que tenha a capacidade de formar uma coalizão diante da direita fortalecida no Congresso. Se o eleito for Flávio Bolsonaro, ele terá nas mãos mais instrumentos para realizar o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump. A ciência política sabe que é no segundo mandato que o projeto autocrata dobra a aposta. Veja-se o caso de Donald Trump. O risco não é de o filho repetir o pai, é de superá-lo.

Só o então PMDB, no começo da redemocratização, teve bancadas maiores do que a que o PL terá na próxima legislatura. Mas o MDB, não tinha candidato competitivo à presidência, e o PL tem Flávio chegando com chances reais de ganhar o pleito no segundo turno. Portanto, será um partido ainda mais forte. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tinha o projeto de ter apenas uma boa bancada para ficar com a parte maior dos fundos partidário e eleitoral. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito por outro partido, o PSL, que usou como carona. Depois é que foi para o PL. O partido nunca teve um projeto ideológico. Preferia ser capaz de se adaptar às circunstâncias.

Se for eleito, Lula enfrentará uma oposição com a força que jamais enfrentou. Uma bancada de 121 deputados e 28 senadores apenas do PL. Para manter a governabilidade e aprovar seus projetos, Lula teria que atrair o centrão e negociar com os parlamentares com os quais seja possível algum diálogo.

A vitória de Lula no segundo turno de 2022 veio com o voto de eleitores progressistas que não se identificavam como petistas, e do movimento de personalidades que fizeram parte dos governos do PSDB, que o consideraram a barreira contra o risco de golpe. Tanto havia perigo de um ataque às instituições, que houve o atentado em 8 de janeiro. Esse grupo depois foi desprezado. O presidente não fez movimentos ao centro. E parte dos eleitores que se identificam com esse grupo pode ter simplesmente deixado de votar. Esse é o cálculo que alguns especialistas fazem para explicar o fato de Lula ter tido três milhões de votos a menos em 2026 do que em 2022.

Lula terá que fazer um caminho muito longo para ser reeleito em 25 de outubro, dado que chegou em segundo lugar, dois pontos percentuais atrás de Flávio Bolsonaro. Terá que recuperar os votos perdidos, terá que convencer uma parte do eleitorado que optou pelos outros candidatos, e trazer de volta às urnas quem simplesmente se absteve por falta de interesse em qualquer um dos postulantes. Como ele fará isso não está claro. Ontem, em entrevista ao Estúdio i de Andréia Sadi, o presidente do PT, Edinho Silva, admitiu a ausência de material de campanha no primeiro turno e disse que será resolvido. Mas não explicitou nenhum outro movimento de mudança na campanha. Ele disse que faltou o confronto entre os candidatos no primeiro turno, que desta vez Flávio Bolsonaro não poderá fugir disso, e anunciou a ida de Lula aos debates.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entrevistado no mesmo programa, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro vai participar ativamente do mandato de Flávio Bolsonaro. Falou que o senador “aprendeu” com o pai e seguirá as mesmas diretrizes sobre como montar equipe e de que maneira governar. Em outras palavras, um governo de Flávio seria exercido por Jair, que sempre mostrou mão de ferro para comandar o clã. Mesmo preso, foi de Jair Bolsonaro a escolha de Flávio Bolsonaro para disputar a presidência. O perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas ideias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.

Lula precisa mudar radicalmente a campanha para ter alguma chance de vitória. Desde a redemocratização, nenhum candidato que ficou em segundo lugar na disputa para a presidência ganhou a eleição. Caso eleito, Lula terá uma outra batalha para montar a coalizão. Flávio Bolsonaro, se eleito, terá provavelmente o seu chefe de campanha, Rogério Marinho, na presidência do Senado e uma tropa de choque para realizar o projeto antidemocrático da extrema direita. 

Míriam Leitão

Como o Plano Barrabás e mexida na Constituição ameaçam ajuste fiscal de um Bolsonaro 2

Donos e administradores do dinheiro grosso tiveram de alterar suas aplicações porque Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno. Dadas as alternativas, Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cresceu um pouco a probabilidade de contenção de gasto e dívida do governo, o que afeta juros, moeda, etc.

Não interessa agora se a expectativa vai se confirmar. Amanhã vai ser outro dia. Importa falar dos riscos das expectativas para Bolsonaro 2.


Para vencer, Lula precisa do voto de 2 de cada 3 eleitores que optaram por outros candidatos que não Flávio. É aritmética rudimentar, com pressupostos óbvios: abstenção, nulos e brancos na mesma; Flávio não perde votos. Serve apenas para indicar que a situação está difícil para Lula, o que se confirma com a mera inspeção de outros resultados do primeiro turno.

Enquanto pesquisas não desmentirem essa aritmética, a conversa é o "ajuste" de Flávio, de que ninguém sabe e ninguém viu, fora pequena panela bolsonarista. Há dúvidas.

Primeiro, não se sabe o quanto um Bolsonaro 2 vai se dedicar, por exemplo, ao Plano Barrabás (libertação de golpistas), que já conta com a ajuda de Kassio Nunes Marques. De modo geral, não se sabe se vai dar prioridade a atacar o "sistema" ou, como diz, "redemocratizar o país" mudando a Constituição. Vai fazê-lo no início, no meio ou no fim do governo?

Segundo, o histórico bolsonarista de gestão econômica é feito das mutretas de 2022 e das tentativas de Bolsonaro 1 de evitar reformas "liberais" em 2019 (era contra a reforma da Previdência). No mais, entregou o governo ao centrão vorcarista; a epidemia solapou outras possibilidades.

Terceiro, em 2027 o crescimento do PIB será baixo. Pode ser menor ainda pois, de início, "ajustes" tendem a ser recessivos. A receita do governo crescerá pouco ou nada. Não se sabe qual será a receita também por causa do início da reforma tributária. Vai haver menos emprego novo ou mais desemprego. Difícil que o peso de pagamento de dívidas diminua em relação à renda média das famílias. A inadimplência deve cair bem pouco. Nesse ambiente, empresas faturam menos; dívidas sufocam muitas delas.

Quarto, dificilmente haverá superávit nas contas públicas federais — vai faltar receita. Pode haver contenção de despesa, o que implica também que a renda das famílias seria afetada porque benefícios sociais não teriam reajuste real. Quanto menos corte de benefício de imposto para rico e certas empresas, mais o povo será esfolado. Será ambiente político difícil, a não ser que o povo aceite o sacrifício. Os Bolsonaros, demagogos sempiternos, aguentariam em paz a impopularidade?

Quinto, havendo plano capaz, coerente em termos macroeconômicos, goste-se ou não dele, o Congresso Nacional vai aceitá-lo ou "cortar na carne" das emendas?

Sexto, na hipótese de haver plano bom e de implementação longa (quatro anos e mais), Bolsonaro 2 vai sustentá-lo? Não vai dar jeito de gastar ou meter a mão de outra maneira?

Sétimo, a equipe de um Bolsonaro 2, Fazenda e Casa Civil, será capaz de negociar o pacote com o Congresso? A Casa Civil estará dedicada a isso ou a mudar "o sistema"? Qual será então o grau de apodrecimento institucional (Supremo, Congresso etc.)?

Oitavo, em troca de apoio para o "ajuste", Bolsonaro 2 vai negociar acordão entre Poderes, políticos e poderosos para ajudar todo mundo a fugir da polícia (nos casos Vorcaro, emendas, INSS etc.)? Quanto vai custar o apoio do centrão? Em qual moeda?
Vinicius Torres Freire

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Computando a felicidade

Até agora, discutimos a felicidade como se esta fosse, em grande medida, produto de fatores materiais, como saúde, dieta e riqueza. Se as pessoas são mais ricas e mais saudáveis, também devem ser mais felizes. Mas isso é mesmo assim tão óbvio? Filósofos, padres e poetas refletiram sobre a natureza da felicidade durante milênios, e muitos concluíram que fatores sociais, éticos e espirituais têm tanta influência sobre nossa felicidade quanto as condições materiais. E se as pessoas nas sociedades afluentes modernas sofrem muitíssimo de alienação e carência de sentido, apesar de sua prosperidade? E se nossos ancestrais menos abastados encontravam grande contentamento na comunidade, na religião e em um vínculo com a natureza?

Nas últimas décadas, psicólogos e biólogos aceitaram o desafio de estudar cientificamente o que de fato deixa as pessoas felizes. É o dinheiro, a família, a genética ou, talvez, a moral? O primeiro passo é definir o que será medido. A definição geralmente aceita de felicidade é “bem-estar subjetivo”. A felicidade, de acordo com essa visão, é algo que sinto dentro de mim, uma sensação de prazer imediato ou de contentamento no longo prazo com o modo como minha vida avança. Se é algo sentido do lado de dentro, como pode ser medido de fora? Supostamente, podemos fazer isso pedindo que as pessoas nos digam como se sentem. Desse modo, os psicólogos e biólogos que desejam avaliar o quanto as pessoas se sentem felizes lhes dão questionários para responder e computam os resultados.


Um típico questionário sobre bem-estar subjetivo pede aos entrevistados para avaliarem em uma escala de zero a dez o quanto concordam com afirmações do tipo “Sinto-me satisfeito com minha forma de ser”, “Sinto que a vida é muito satisfatória”, “Sou otimista com relação ao futuro” e “A vida é boa”. O pesquisador, então, soma todas as respostas e calcula o nível geral de bem-estar subjetivo do entrevistado.

Tais questionários são usados para correlacionar a felicidade com vários fatores objetivos. Um estudo pode comparar mil pessoas que ganham 100 mil dólares por ano com mil pessoas que ganham 50 mil dólares por ano. Se o estudo descobrir que o primeiro grupo tem um nível médio de bem-estar subjetivo de 8,7, ao passo que o segundo grupo tem um nível médio de apenas 7,3, o pesquisador pode concluir, de maneira razoável, que há uma correlação positiva entre riqueza e bem-estar subjetivo. Dito de forma simples, dinheiro traz felicidade. O mesmo método pode ser usado para examinar se pessoas vivendo em democracias são mais felizes que pessoas vivendo em ditaduras e se os casados são mais felizes que os solteiros, divorciados ou viúvos.

Isso fornece uma base para os historiadores, que podem examinar a riqueza, a liberdade política e os índices de divórcio no passado. Se as pessoas são mais felizes em democracias e as pessoas casadas são mais felizes que as divorciadas, um historiador tem uma base para argumentar que o processo de democratização das últimas décadas contribuiu para a felicidade da humanidade, ao passo que os índices crescentes de divórcio indicam uma tendência oposta.

Essa maneira de pensar não é isenta de falhas, mas, antes de apontar algumas delas, vale considerar suas descobertas.

Uma conclusão interessante é que, de fato, o dinheiro traz felicidade. Mas só até certo ponto, e além desse ponto tem pouca significância. Para as pessoas presas na base da pirâmide econômica, mais dinheiro significa mais felicidade. Se você é uma mãe solteira brasileira que ganha 12 mil reais por ano limpando casas e de repente ganha 500 mil reais na loteria, provavelmente sentirá um aumento significativo e duradouro em seu bem-estar subjetivo. Conseguirá alimentar e vestir seus filhos sem se afundar ainda mais em dívidas. No entanto, se você é um alto executivo que ganha 250 mil reais por ano e de repente ganha 1 milhão de reais na loteria, ou se a diretoria de sua empresa de repente decide dobrar seu salário, é provável que seu aumento no bem-estar subjetivo dure apenas algumas semanas. De acordo com descobertas empíricas, é quase certo que não fará uma grande diferença no modo como você se sente no longo prazo. Você comprará um carro mais pomposo, se mudará para uma casa suntuosa, se acostumará a comer coisas mais sofisticadas e a tomar os melhores vinhos, mas logo tudo isso parecerá rotineiro e nada excepcional.

Outra descoberta interessante é que a doença diminui a felicidade no curto prazo, mas só é fonte de sofrimento no longo prazo se as condições de vida de uma pessoa se deteriorarem de forma constante ou se a doença envolver dor contínua e debilitante. As pessoas que são diagnosticadas com doenças crônicas como diabetes geralmente ficam deprimidas por um tempo, mas, se a doença não piorar, elas se ajustam à nova condição e classificam sua felicidade nos mesmos patamares que as pessoas saudáveis. Imagine que Lúcia e Lucas são gêmeos de classe média, que concordam em participar de um estudo sobre bem-estar. Ao voltar do laboratório de psicologia, o carro de Lúcia é atingido por um ônibus, deixando-a com uma série de ossos fraturados e uma perna permanentemente danificada. Enquanto a equipe de resgate a está tirando do meio das ferragens, o telefone toca e Lucas grita que acabou de ganhar 10 milhões de reais na loteria. Dois anos depois, ela estará mancando e ele estará muito mais rico, mas, quando o psicólogo aparece para um estudo de acompanhamento, ambos tendem a dar as mesmas respostas que deram na manhã daquele dia fatídico.

Família e comunidade parecem ter mais impacto na nossa felicidade do que dinheiro e saúde. Pessoas com famílias coesas que vivem em comunidades unidas que lhes dão apoio são significativamente mais felizes do que pessoas cujas famílias são disfuncionais e que nunca encontraram (ou nunca buscaram) uma comunidade da qual fazer parte. O casamento é particularmente importante. Repetidos estudos descobriram que há uma relação muito direta entre bons casamentos e nível elevado de bem-estar subjetivo e entre maus casamentos e sofrimento. Isso é verdade independentemente de condições econômicas ou mesmo físicas. Um inválido sem recursos cercado por uma esposa amorosa, uma família dedicada e uma comunidade afetuosa pode se sentir melhor do que um bilionário alienado, contanto que a pobreza do inválido não seja extrema e que sua doença não seja degenerativa nem dolorosa.

Isso levanta a possibilidade de que a melhoria gigantesca nas condições materiais dos últimos dois séculos tenha sido compensada pelo colapso da família e da comunidade. As pessoas no mundo desenvolvido contam com o Estado e o mercado para quase tudo de que necessitam: alimento, abrigo, educação, saúde, segurança. Desse modo, tornou-se possível sobreviver sem ter uma família estendida ou amigos reais. Um indivíduo que mora em uma cobertura urbana é cercado por milhares de pessoas onde quer que vá, mas possivelmente jamais visitou o apartamento vizinho e sabe muito pouco sobre seus colegas de trabalho. Até mesmo seus amigos talvez sejam apenas companheiros de bar. Hoje, muitas amizades envolvem pouco mais do que conversar e se divertir juntos.

Encontramos um amigo em um bar, telefonamos para ele ou lhe enviamos um e-mail para aliviar nossa raiva sobre o que aconteceu hoje no escritório ou compartilhar nossas opiniões sobre o último escândalo político. Mas até que ponto podemos conhecer bem uma pessoa somente com base em conversas?
Diferentemente de tais companheiros de bar, os amigos na Idade da Pedra dependiam uns dos outros para sua própria sobrevivência. Os humanos viviam em comunidades solidárias, e os amigos eram pessoas com quem se caçava mamutes. Juntos, sobreviviam a longas jornadas e a invernos rigorosos. Cuidavam um do outro quando um deles ficava doente, e compartilhavam a última porção de comida em épocas de necessidade. Tais amigos conheciam uns aos outros mais intimamente do que muitos casais de nossos dias. Quantos maridos podem dizer que sabem qual será o comportamento da esposa se eles forem atacados por um mamute enfurecido? Substituir tais redes tribais precárias pela segurança das economias e dos Estados paternalistas modernos obviamente tem vantagens enormes, mas é provável que a qualidade e a profundidade das relações íntimas tenha sido afetada.

Mas a descoberta mais importante de todas é que a felicidade não depende de condições objetivas de riqueza, saúde ou mesmo comunidade. Em vez disso, depende da correlação entre condições objetivas e expectativas subjetivas. Se você quer uma carroça e consegue uma carroça, fica contente. Se você quer uma Ferrari zero e só consegue um Fiat usado, sente que algo lhe foi negado. É por isso que ganhar na loteria tem, com o tempo, o mesmo impacto sobre a felicidade das pessoas que um acidente de carro debilitante. Quando as coisas melhoram, as expectativas inflam, e consequentemente até mesmo melhorias drásticas nas condições objetivas podem nos deixar insatisfeitos. Quando as coisas se deterioram, as expectativas diminuem, e consequentemente até mesmo com uma doença grave a pessoa pode ser tão feliz quanto era antes.

Você poderia dizer que não precisamos de um bando de psicólogos e seus questionários para descobrir isso. Profetas, poetas e filósofos perceberam, há milhares de anos, que estar satisfeito com o que você já tem é muito mais importante do que obter mais daquilo que deseja. Ainda assim, é bom quando pesquisas atuais – sustentadas por uma porção de números e gráficos – chegam à mesma conclusão a que os antigos chegaram.

Yuval Noah Harari, "Sapiens: uma breve história da humanidade"

'Redemocratização' ???

A Constituição da República não pode ser objeto de um ‘cheque em branco eleitoral’. A reforma constitucional constitui instrumento legítimo de aperfeiçoamento institucional. Seu exercício, contudo, está subordinado a procedimentos e limites que nenhuma vitória nas urnas autoriza transgredir.

Também causa profunda estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo político, oposição legítima e liberdade de crítica. A própria possibilidade de o candidato disputar a Presidência e defender publicamente suas propostas integra essa realidade.
Celso de Mello, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF)

A Constituição de 1988 e o golpe dentro das regras do jogo

Durante os seus dois mandatos, conquistados nas eleições de 1994 e 1998, críticos políticos argumentavam que, em momentos de desespero econômico ou institucional, o presidente Fernando Henrique Cardoso tentava segurar as crises “no gogó”. Ou seja, utilizava sua articulação intelectual, palestras e pronunciamentos para compensar as dificuldades estruturais de governança.

Por outro lado, o próprio PT e analistas políticos frequentemente apontavam que Lula tinha a capacidade única de fazer o marketing do seu governo sozinho. Ele desarmava tensões sociais diretamente com o público “no gogó”, uma herança direta de seus tempos de liderança sindical, quando discursava para milhares de operários. Vale ressaltar que tanto Fernando Henrique quanto Lula continuam vivos.




Caso se eleja presidente, faltará “gogó” a Flávio Bolsonaro para governar em momentos de crise. Falta-lhe também a experiência de que seus antecessores dispunham, em graus variados, no exercício de cargos públicos, além do carisma que Fernando Collor de Mello, Lula e Jair Bolsonaro sempre tiveram de sobra. Por fim, Itamar Franco, Dilma Rousseff e Michel Temer pontuaram positivamente no quesito disposição para o trabalho.

Para os eleitores de Flávio, porém, nada disso parece ter alguma importância, nem mesmo o vazio de suas ideias. E assim ele sente-se autorizado a calar-se, a ser vago ou a dizer qualquer coisa sobre o que lhe der na telha, guiado apenas pelo que seus assessores lhe soprem a cada instante em que tenha de abrir a boca.

Então, tome a prometer que cortará despesas tão logo se eleja, e sem apontar onde. É o que ele chama de “tesouraço”, remédio para curar todos os males do país.

Então, tome a prometer a castração química de pedófilos e estupradores, a redução da maioridade penal e a promoção das facções criminosas à categoria de “organizações terroristas”, por exigência do presidente Donald Trump. Então, tome a promessa de que irá “arregaçar com vagabundos”, sem estabelecer que “vagabundos” são esses, nem o que significa “arregaçar”.

Essa postura centralizadora e messiânica faz lembrar o universo da fantasia. “Eu tenho a força” é a frase clássica de transformação do He-Man, um dos heróis mais icônicos dos desenhos animados dos anos 1980 e 1990! A expressão completa que ele diz ao erguer a Espada de Grayskull é: “Pelos poderes de Grayskull… Eu tenho a força!”

Agora, sem sequer ter sido eleito, Flávio imagina que terá essa mesma força mítica para redesenhar o Brasil ao seu gosto. E como? E por quê?

Com a palavra o candidato que pensa que seu destino já está traçado: “O Brasil já me deu um Congresso muito mais à direita do que é hoje, com maioria no Senado para fazer o presidente do Senado, e na Câmara dos Deputados para fazer o presidente da Câmara. Para a gente mudar a Constituição, para a gente redemocratizar este país, para as instituições voltarem a respeitar a Constituição”.

A Constituição Federal de 1988 completou 38 anos de existência no último dia 5 de outubro. Ela já foi emendada 145 vezes, e a responsabilidade de alterá-la cabe exclusivamente ao Congresso Nacional por meio de um rigoroso processo de votação.

Mas, como um eventual governo Flávio supostamente contará com o apoio quase integral do Parlamento para obter a supermaioria necessária para aprovar os projetos de seu interesse, as barreiras institucionais desapareceriam. Assim, as vontades do novo presidente seriam prontamente satisfeitas.

Está em marcha um golpe dentro das regras do jogo que dispensaria o emprego da força bruta. Se ele não for bem-sucedido, não se descarte o uso da força sem disfarce.

Pensamento do Dia

 


Quando restringir direitos se torna promessa de proteção

A radicalização política ganha força quando transforma inseguranças reais em autorização para controlar corpos, limitar direitos e escolher quem merece proteção.

A promessa de proteção pode carregar um projeto de submissão. Quando uma liderança afirma que salvará a família, restaurará a ordem ou defenderá a sociedade, é necessário perguntar o que pretende fazer em nome dessas palavras. Quem terá sua liberdade restringida? Quem será obrigado a obedecer? E quem receberá o poder de definir quais vidas são aceitáveis?

É nesse terreno que Gilead, a sociedade de O conto da aia, de Margaret Atwood, oferece uma referência incômoda. Seu poder organiza a subordinação das mulheres por meio de uma ordem que reivindica legitimidade religiosa. O corpo feminino passa a cumprir uma função determinada pelo regime. A autonomia torna-se uma ameaça; a obediência, uma virtude pública. 

O Brasil não é Gilead. A comparação interessa porque permite examinar uma operação política: apresentar a retirada de direitos como condição para preservar a sociedade. Sua eficácia depende de fazer com que parte da população aceite a perda da liberdade alheia como garantia de sua própria segurança.

A democracia se enfraquece quando aceita que proteger uns exige retirar direitos de outros

A radicalização do Congresso precisa ser discutida a partir dessa operação. O problema ultrapassa a classificação dos parlamentares em conservadores e progressistas. Está na força adquirida por projetos que prometem resolver conflitos sociais mediante o controle de determinados grupos e na tolerância que encontram para transformar essa promessa em legislação. A restrição de direitos raramente precisa se anunciar dessa maneira. Pode chegar como defesa da infância, preservação dos valores, combate à criminalidade ou proteção da vida. Essas finalidades têm apelo porque dizem respeito a preocupações legítimas. É justamente por isso que exigem exame: uma justificativa socialmente valorizada pode encobrir medidas que agravam a vulnerabilidade de quem dizem proteger.

Um exemplo concreto está no texto original do PL 1904/2024. A proposta equiparava a homicídio simples o aborto após 22 semanas, inclusive em gravidez decorrente de estupro. Em junho de 2024, a Câmara aprovou sua urgência, permitindo que fosse levado diretamente ao plenário. A aprovação da urgência não tornou a proposta lei, mas demonstrou que uma medida com esse alcance punitivo conseguiu obter prioridade institucional.


A pergunta política é incontornável: que proteção se oferece a uma vítima de estupro quando sua possibilidade de interromper a gestação é colocada sob a ameaça de punição equivalente à de homicídio? A retórica da defesa da vida precisa responder pela vida concreta da pessoa submetida à violência. Precisa explicar por que sua integridade, sua saúde e sua capacidade de decidir recebem menor importância que a obrigação que se pretende impor.

Nesse caso, a crítica deve alcançar a autoridade que o Estado reivindica sobre o corpo. Uma convicção moral particular passa a disputar a condição de comando jurídico obrigatório. Quem dispõe de poder legislativo procura definir quanto sofrimento outra pessoa deverá suportar para cumprir uma concepção de sociedade que talvez sequer compartilhe.

Gilead ajuda a enxergar esse deslocamento: a mulher é reconhecida pela função que deve desempenhar, e sua liberdade fica subordinada a essa função. A analogia não exige identidade entre a ficção e o Brasil. Exige atenção ao momento em que a autonomia passa a ser tratada como um obstáculo à ordem.

Os dados eleitorais acrescentam uma contradição importante. A cobertura inicial das eleições de 2026, registrou 109 mulheres eleitas para a Câmara, diante de 91 em 2022. Se confirmada na base oficial consolidada, essa contagem corresponderá a aproximadamente 21,2% das cadeiras. O crescimento merece reconhecimento, mas mantém uma ampla desigualdade na distribuição do poder parlamentar.

Também exige abandonar uma expectativa simplificadora: a presença de mulheres não determina, por si só, uma agenda favorável à autonomia feminina. Mulheres podem defender projetos conservadores, assim como homens podem atuar pela igualdade de gênero. Isso não diminui a importância da representação. Obriga a avaliar presença e atuação conjuntamente.

A questão não pode terminar na contagem de quantas mulheres chegaram ao Parlamento. Deve alcançar o uso que todos os representantes fazem do poder conquistado. Uma instituição pode ampliar sua diversidade e continuar a produzir normas que restringem as possibilidades de vida de parte da população. O reconhecimento da identidade de uma liderança não dispensa o exame de suas propostas. O mesmo cuidado vale para a composição partidária. A Câmara informou que o PL elegeu 121 deputados em 2026, aproximadamente 23,6% das cadeiras. O número dimensiona uma capacidade expressiva de negociação e influência, embora não dê ao partido maioria absoluta nem autorize presumir o comportamento individual de todos os eleitos.

O que esse poder poderá produzir depende de alianças, prioridades e disputas internas. É exatamente por isso que a análise precisa ir além do resultado eleitoral. Uma bancada ganha consequências políticas quando controla comissões, influencia a pauta, negocia apoio e transforma certas propostas em prioridades. A normalização de uma ideia se completa institucionalmente quando ela deixa de ser apenas uma declaração e passa a organizar o trabalho do Estado.

Como chegamos a esse ponto? Uma explicação séria precisa investigar a organização política construída entre eleições, a distribuição de recursos, as redes de comunicação e os vínculos territoriais. Mas também deve examinar a oferta de sentido feita ao eleitorado: quem explica seu sofrimento, quem lhe oferece pertencimento e quem consegue dar um nome à ameaça que parece cercá-lo?

A insegurança econômica, o medo da violência e a sensação de abandono não são invenções. Podem, contudo, ser mobilizados para sustentar respostas que concentram poder e restringem direitos. O sofrimento ganha uma explicação acessível: a sociedade teria perdido o rumo porque concedeu liberdade demais a determinadas pessoas. A solução proposta é recuperar o controle.

Essa narrativa transforma relações de igualdade em sinais de desordem. A autonomia das mulheres pode aparecer como ataque à família; a visibilidade LGBTQIA+, como ameaça à infância; garantias processuais, como obstáculo à segurança. São associações que precisam ser identificadas e contestadas sempre que surgem no debate público, porque deslocam a responsabilidade pelos problemas sociais para a existência ou para os direitos de grupos específicos. O ganho político está na fabricação de uma fronteira entre quem merece proteção e quem pode ser sacrificado em seu nome. Uma sociedade atravessada por desigualdades torna-se especialmente vulnerável a essa divisão: é possível prometer segurança a alguns enquanto se amplia a exposição de outros à violência, à punição e ao abandono.

Para mulheres negras e moradores de periferias, essa distinção merece atenção particular. A pergunta sobre proteção estatal deve considerar quem consegue acessar serviços, fazer uma denúncia ser ouvida, obter defesa jurídica e contestar uma decisão. Uma restrição formalmente geral pode ter consequências profundamente desiguais quando as condições para enfrentá-la já são desiguais.

A crítica também precisa alcançar os setores que oferecem respeitabilidade ou apoio a essas agendas por conveniência. Uma aliança deve ser avaliada pelo que viabiliza. Apoiar a ascensão de uma força política em troca de benefícios econômicos ou posições institucionais produz responsabilidade pelas condições criadas para o avanço de seu programa. A moderação declarada perde consistência quando convive com a aceitação prática de medidas que corroem direitos.

Isso não autoriza tratar toda posição conservadora como autoritária. Uma democracia comporta disputas sobre valores e políticas públicas. O critério deve ser o conteúdo das propostas: preservam a igualdade jurídica, o pluralismo e a legitimidade dos adversários? Ou procuram subordinar certos grupos a uma ordem em cuja definição eles terão menos voz?

A participação religiosa merece o mesmo rigor. Pessoas religiosas têm pleno direito à atuação política. O problema aparece quando uma interpretação particular reivindica poder estatal para obrigar toda a sociedade a viver segundo seus preceitos. A liberdade religiosa pressupõe também a possibilidade de não professar aquela fé e de não ser submetido a suas regras por imposição pública.

A normalização do autoritarismo se fortalece quando essa distinção deixa de importar. O debate passa a premiar a contundência da promessa e a dispensar o exame de suas consequências. A capacidade de produzir medo torna-se um recurso de autoridade. Quem apresenta a ameaça reivindica também o direito de definir a resposta. Uma vitória eleitoral amplia essa capacidade, mas não elimina os limites democráticos. O mandato autoriza governar e legislar sob a Constituição. Não transforma toda medida em legítima nem retira da sociedade o direito de contestá-la. Uma maioria política continua obrigada a reconhecer os direitos daqueles que não a elegeram.

A resposta democrática exige mais que denunciar o extremismo. Precisa enfrentar as condições que tornam atraente a promessa de ordem: insegurança material, violência, ausência de serviços e dificuldade de participar das decisões. Direitos devem chegar à experiência cotidiana como proteção efetiva. Quando essa proteção falha, cresce o espaço para quem oferece submissão como solução.

O roteiro de Gilead é útil porque nos obriga a examinar o preço da segurança prometida. A pergunta decisiva é quem será obrigado a pagá-lo. Quando a liberdade de algumas pessoas se torna moeda para conquistar votos e negociar poder, o problema já ultrapassou o discurso: alcançou a definição de quem poderá viver com autonomia.

A democracia se enfraquece quando aceita que proteger uns exige retirar direitos de outros. Sua defesa começa por recusar essa autorização, especialmente quando ela chega às urnas com linguagem de cuidado e ao Congresso com poder para legislar.

As ilusões perdidas e o futuro da República após o voto de 2026

Ao fazer o retrato inicial de Lucien Chardon, o jovem de origem modesta que aspirava à aristocracia adotando o nome da mãe – Rubempré –, Balzac escreveu que suas “belas ilusões da juventude” ainda não “haviam sido afetadas pelos desejos e pelas dificuldades da vida”. Lucien reencontrava suas recordações, suas ilusões e seus vinte anos ao voltar à sua terra. Esse parece o caso, em cada eleição, das principais forças políticas do País.

Seria preciso um Balzac para demonstrar como a terceira via se iludiu durante quatro anos ao se juntar aos Bolsonaros em cada manifestação da Avenida Paulista em vez de lhes disputar a hegemonia na oposição? Quem passou a vida vendo a banda passar sai da urna da mesma forma que entrou. Ou pior: desempregado. Esperidião Amin que o diga. A direita tradicional pensou que trataria o bolsonarismo como o velho MDB tratava as siglas de esquerda que abrigava nos anos 1980: uma turma do barulho, mas que lhe trazia votos.


O bolsonarismo se estabiliza no centro do poder como, nos anos 2000, nem o petismo conseguiu. E surge nova ilusão na 3.ª via: achar outra vez que esse movimento pode ser normalizado ou controlado em suas pulsões. Liberais cometeram esse erro na Europa em relação à ultradireita. Lei e ordem não eram limites para Viktor Orbán. Em vez de se preparar como alternativa aos Bolsonaros, há quem deixe a prudência e o cálculo de lado.

Caiado, Kassab, Eduardo Leite e outros têm pouco a ver com as práticas do bolsonarismo. Pode-se perguntar: quem acredita que o entorno carioca de Flávio não estará presente em um futuro governo? Kassab é um dos que não creem, assim como Leite. Nenhum deles parece assinar um cheque em branco a quem, no passado, demonstrou o mesmo populismo fiscal que todos apontam no oponente.

Enfim, pode-se dizer que, do outro lado, está Lula e tudo o que ele representa. Todos nesta eleição sabem o que os dois candidatos no 2.º turno são. Ninguém pode alegar desconhecimento de seus passados, de seus entornos, de suas políticas e das consequências de suas escolhas ideológicas. Quais valores éticos e morais cada um representa. Para o bem e para o mal. É difícil crer que exista alguém iludido. E nenhum colunista, por mais vaidoso, pode ter a pretensão de que seu texto tenha o mesmo efeito que os nomes para a antiga aristocracia.

Ainda assim, Pedro Parente e Moreira Salles estão debatendo. Nenhum deles é como o jovem Lucien. Todos já perderam suas ilusões, fizeram escolhas. Ninguém deseja o destino do personagem de Balzac. O eleitor pode entregar o País a quem lhe aprouver, mas ainda é preciso lembrar que há diferença entre democracia e republicanismo.

Escolas fake-militares e a militarização como privatização

Em março de 2024, o município de São José de Ribamar, na Região Metropolitana de São Luís, rescindiu o acordo de cooperação que mantinha desde 2017 com a Polícia Militar do Maranhão para a implantação de um colégio “militar” em sua rede municipal. A medida fez com que o Colégio Militar Tiradentes VI voltasse a se chamar Escola Municipal Parque Vitória.

A retirada dos militares da escola se deveu à decisão unilateral da PM do Maranhão de fechar as turmas de Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que obrigaria a Secretaria Municipal de Educação de São José de Ribamar a transferir centenas de crianças para outras unidades escolares. A resposta da prefeitura à intromissão da PM foi o cancelamento da parceria, que o governo do estado do Maranhão tentou reativar com uma estapafúrdia Ação Civil Pública contra o município. 

O prefeito ribamarense Dr. Julinho (Podemos) não chega a ser um baluarte da desmilitarização de escolas. São José de Ribamar possui outros dois colégios “militares” do Corpo de Bombeiros do Maranhão e mais seis escolas “da guarda municipal”, sendo uma delas a própria Escola Municipal Parque Vitória, ex-colégio “militar” e atual escola “cívica” com práticas disciplinares semelhantes às da PM.

Apesar disso, este caso particular de “desmilitarização” interessa por revelar duas coisas: 1) o bizarro nível de invasão da competência federativa municipal por um governo estadual, fenômeno perturbadoramente corriqueiro em redes municipais militarizadas em parcerias com polícias e corpos de bombeiros; 2) o funcionamento de escolas “militares” que não são propriamente militares.


Esta declaração do prefeito de São José de Ribamar, feita alguns meses após a saída dos policiais da Escola Municipal Parque Vitória, ilustra bem este segundo ponto: “Não tenho conhecimento de que o governador manda uma cibalena para as escolas [os colégios ‘militares’]. (…) A prefeitura custeia desde a alimentação dos alunos até os professores e demais funcionários. (…) O governo do estado tenta ganhar méritos em uma educação em que ele não investe. O único apoio estadual nas unidades de ensino é o pagamento dos bombeiros militares que atuam nas instituições. Todo o restante é responsabilidade da prefeitura”. (Dr. Julinho, 17 dez. 2024)

Em números exatos, o Brasil possui 96 escolas/colégios efetivamente militares: 71 estaduais, vinculados às polícias e corpos de bombeiros militares, e 25 federais, vinculados às três forças armadas. Essas escolas de educação básica são administradas pelas secretarias de segurança pública dos estados e pelo Ministério da Defesa, e não pelas secretarias de educação ou pelo MEC. Operam, inclusive, dentro de sistemas de ensino de natureza militar criados por leis específicas.

A não ser por um ou outro repasse pontual, essas escolas não são financiadas com recursos da educação, chegando a funcionar como verdadeiras escolas privadas, com cobrança regular de mensalidades e taxas de uniforme e material didático, processos seletivos de ingresso e reserva da maior parte de suas vagas para dependentes de militares.

Há variações. Algumas escolas militares são gratuitas, outras disponibilizam mais vagas para filhos de civis; umas selecionam por sorteios, outras por provas; algumas tem mais de cinquenta anos, outras foram criadas a partir da conversão de escolas regulares e da doação de prédios por secretarias estaduais de educação. Seja como for, elas são autorizadas por lei e sua existência e funcionamento não estão sendo questionados no debate público ou na justiça.

Em paralelo a esse universo diminuto de escolas verdadeiramente militares – e, no limite, privadas –, há um conjunto 344% maior de estabelecimentos públicos de ensino que também adotam o nome de escola ou colégio “militar”, mas que são, do ponto de vista administrativo-financeiro, quase idênticos às escolas denominadas “cívico-militares” que ocupam o centro da controvérsia jurídica e social no país.

Essas escolas fake-militares totalizam 330 unidades, sendo 201 estaduais e 129 municipais. Representam 20,6% das 1.601 escolas públicas militarizadas no Brasil e, além do nome, imitam os colégios militares na estrutura e hierarquia de quartel, na cobrança de taxas de manutenção e fardamento, nos processos seletivos e nas reservas de vagas para filhos de militares.

A diferença essencial é que essas escolas integram formalmente os sistemas de ensino estaduais e municipais; sendo, portanto, financiadas com verbas da educação. Todavia, são administradas apenas parcialmente pelas secretarias de educação, que pagam todas as contas das escolas fake-militares, mas perdem parte crucial do poder decisório em suas próprias redes de ensino.

Os termos de cooperação vigentes entre corporações militares e secretarias de educação Brasil afora para a implantação dessas escolas compreendem exigências como: concentração de matrículas em etapas/ciclos específicos da educação básica, fechamento de classes noturnas e da Educação de Jovens e Adultos, reforma completa e climatização de prédios escolares, corpo docente com dedicação exclusiva e, em alguns casos, até o fornecimento de viaturas. Isso vale tanto para as escolas “militares” quanto para aquelas que adotam nomes mais honestos, como “cívico-militar” ou “militarizada”.

Às secretarias de educação cabe assegurar que tudo esteja a contento da autoridade fardada, sob o risco de esta denunciar o descumprimento dos acordos e abandonar as escolas; inclusive com estardalhaço em redes sociais para fomentar a antipatia popular contra secretários, prefeitos e governadores. Em nossas pesquisas, documentamos dezenas de casos assim.

Nas “parcerias” com estados e municípios, as corporações militares entram com a vontade de mandar: estabelecem nas escolas a rotina, a ética e a estética do quartel, aplicam lições de civismo, ameaçam crianças e adolescentes com castigos físicos e impõem seus padrões de “normalidade”. No entanto, como explica o Dr. Julinho, não compram nem um comprimidinho para dor de cabeça. Na verdade, toda a dor de cabeça fica com as secretarias de educação, para as quais, além da responsabilidade de financiar, também sobra a de lidar com as consequências mais perversas da substituição de educadores profissionais por militares, notadamente os incontáveis casos de violência, assédio e abuso de autoridade registrados diuturnamente nas escolas militarizadas.

Não é à toa que a quantidade de escolas efetivamente militares é tão menor que a de escolas militarizadas, sejam elas cívico-militares, fake-militares ou coisa que o valha. Os orçamentos das corporações militares não permitem o luxo de sustentar redes escolares com a escala das redes de ensino regulares; tendo em vista, sobretudo, o tamanho das folhas de pagamento da educação, que são ainda maiores que as da segurança.

Para se ter uma ideia, o Exército Brasileiro, que comanda a maioria das escolas militares na esfera federal, possui apenas dezoito estabelecimentos de educação básica, incluindo os catorze colégios do Sistema de Ensino do Exército (Lei n. 9.786/1999). No âmbito estadual, as maiores redes militares são as das polícias de Paraná (7 escolas), Santa Catarina (7), Rio Grande do Sul (8) e Minas Gerais (30). Essas redes enxutas contrastam com as dos colégios fake-militares em estados como Rondônia (15 escolas), Mato Grosso (30), Goiás (83) e Maranhão (136).

Como aponta a Nota Técnica que acompanhou o lançamento da base de dados “Escolas de educação básica militarizadas e militares no Brasil”, coordenada por mim, o número de escolas militarizadas não é um indicador adequado para avaliar o grau de ocupação militar de uma rede de ensino. Dessa forma, comparar a relevância das escolas militares e fake-militares nas redes de ensino requer que estimemos os pesos das matrículas nesses dois tipos de escolas em relação ao total de matrículas públicas disponíveis.

É assim que descobrimos que, enquanto os trinta Colégios Militares Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais (escolas militares de verdade) respondem por apenas 1,1% e 1,2% do total de matrículas públicas respectivamente disponíveis para os Anos Finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio em Minas Gerais, os quinze Colégios Tiradentes da Polícia Militar de Rondônia (escolas fake-militares custeadas com recursos da educação estadual) abocanham 8,5% e 6,0% das matrículas da rede rondoniense para as mesmas etapas. Logo, em termos relativos, as escolas fake-militares têm peso bem maior nas matrículas públicas do que as efetivamente militares.

Na média global, as matrículas nas 96 escolas militares estaduais e federais do país representam no máximo 0,4% da matrícula total para os Anos Finais e 0,5% para o Ensino Médio nos dezessete estados em que estão localizadas. Nessa categoria, o caso extremo é o do Distrito Federal, onde três colégios militares estaduais (duas unidades do Colégio Militar Dom Pedro II do Corpo de Bombeiros e uma do Colégio Militar Tiradentes da Polícia Militar) e o federal Colégio Militar de Brasília aglutinam 2,4% e 3,7% das matrículas públicas respectivamente disponíveis para os Anos Finais e o Ensino Médio.

Por sua vez, as escolas fake-militares estaduais presentes em dez unidades da federação comprometem, em valores médios, 3,7% e 4,6% das matrículas públicas dos Anos Finais e do Ensino Médio nesses estados. Goiás, pioneiro na militarização massiva de escolas estaduais, é o que possui o maior número de escolas fake-militares em uma única rede (83), que comprometem 12,7% e 16,9% das matrículas públicas disponíveis no estado para os Anos Finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio.

A despeito dos números aparentemente mais modestos, as escolas “militares” de Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins ainda dividem espaço nas redes desses estados com escolas cívico-militares igualmente financiadas com verbas da educação. Para além da fiscalização disciplinar cotidiana e da pantomima patriótica encenada em pátios e corredores – tarefas desempenhadas por monitores (ou instrutores, ou tutores) militares –, dois terços das escolas militarizadas no Brasil possuem militares atuando em cargos de gestão. Isso reduz ainda mais as diferenças entre as escolas cívico-militares e as falsamente militares, já que muitas das primeiras também se esforçam para copiar a forma organizacional dos quartéis.

Impacto das escolas militares e fake-militares nas matrículas públicas disponíveis em alguns estados e municípios (percentual da matrícula pública total*). Para cada categoria de escola, a tabela exibe as médias e alguns exemplos

Os críticos costumam associar a militarização de escolas a um certo apetite dos militares por um complemento de renda subvencionado pela educação pública. A popular boquinha, que beneficia tanto militares aposentados quanto da ativa nas mais de 1.600 escolas públicas militarizadas pelo país.

Uma visita ao Siope, o Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação, permite identificar a presença de militares remunerados com a fração de 70% dos recursos do Fundeb, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, reservada para o pagamento de profissionais da educação. Militares que, nas folhas de pagamento de pelo menos duas centenas de municípios, aparecem identificados tanto como profissionais da gestão escolar quanto do magistério, em contratos temporários ou cargos comissionados. Há militares, inclusive da ativa, remunerados por mais de um município.

Ocorre que, nas escolas fake-militares, essa boquinha ultrapassa o pagamento aos militares e estende-se aos seus dependentes, que podem ter vagas reservadas e acesso preferencial a escolas diferenciadas em redes públicas de ensino frequentemente precárias. Com isso queremos dizer que a ocupação militar das redes públicas tem um inegável caráter de privatização. Em troca da dádiva de implantar uma pedagogia da violência contra crianças e adolescentes, os militares recebem tanto ou mais que os profissionais da educação e ainda exigem do Estado uma escola com infraestrutura melhorada e professores com dedicação exclusiva para seus próprios filhos.

O caso mais patológico de privatização de escolas públicas via militarização é o do Maranhão, com duas “redes” escolares – Colégio Militar Tiradentes (PM) e Colégio Militar 2 de Julho (Bombeiros) – que cresceram quase exponencialmente na última década. Embora os processos de militarização escolar tenham se iniciado no estado em 2006, sua expansão começou no segundo mandato de Flávio Dino e aprofundou-se de forma assustadora no governo de seu vice e sucessor no cargo, Carlos Brandão (MDB).

Das 137 escolas hoje militarizadas pela Polícia Militar e pelo Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão, apenas 11 são estaduais. Todas as outras são escolas municipais que, a exemplo da de São José de Ribamar, migraram para um regime de gestão “compartilhada” entre as secretarias municipais de educação e uma das duas corporações militares. Gestão em que, como vimos, uma das partes efetivamente comanda as escolas, enquanto a outra paga as contas e resolve as crises.

A militarização de escolas é um dos pilares da agenda municipalista de Carlos Brandão (MDB), que tentou emplacar o sobrinho como governador. Orleans Brandão (MDB), que também era secretário estadual de assuntos municipalistas no governo do tio, foi derrotado por Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís que não esboçou a ideia de acabar com as escolas fake-militares no estado.

O Maranhão é um estado com quase 100% das matrículas do Ensino Fundamental municipalizadas, de modo que a rede estadual é basicamente responsável pela oferta do Ensino Médio. Isso significa que, enquanto as 11 escolas fake-militares estaduais comprometem 0,8 e 2,2% das matrículas dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio ofertadas no estado, as 126 municipais comprometem 4,5% das matrículas públicas de Anos Iniciais e 17,7% de Anos Finais nos 99 municípios onde estão implantadas. Destes, 42 municípios têm menos de 20 mil habitantes, o que implica um comprometimento elevado das matrículas do Ensino Fundamental pela militarização e a impossibilidade de estudar em uma escola pública que não tenha militares no lugar de educadores.

Nos municípios maranhenses de Milagres do Maranhão (8.818 hab.), São Roberto (4.554 hab.) e Satubinha (8.770 hab.), por exemplo, a quantidade de matrículas militarizadas ultrapassa 50% das matrículas públicas disponíveis para os Anos Finais do Ensino Fundamental. As escolas “militares” de São Roberto e Satubinha foram criadas recentemente, e ainda não há informações disponíveis sobre processos seletivos. Já na de Milagres do Maranhão, os editais de ingresso preveem exames de admissão com reserva de 50% das vagas aos dependentes legais dos servidores militares do estado do Maranhão, funcionários civis da PMMA, professores, funcionários dos colégios militares da PMMA, e também alunos egressos de Colégios Militares Tiradentes de municípios ligados à Diretoria de Ensino Regular da PMMA.

O Colégio Militar Tiradentes X é a única escola na área urbana de Milagres do Maranhão com oferta de Anos Finais, concentrando 52,8% do total de matrículas para o ciclo/etapa disponíveis no município. Segundo os dados do Censo Escolar 2025 do Inep, todas as demais matrículas para alunos entre 11 e 14 anos estão em duas escolas rurais distantes 30km e 50 km da sede do município. Tal como ocorre no resto do país, os indicadores de infraestrutura da escola militarizada de Milagres do Maranhão são melhores que os das demais escolas.

Depois da Bahia, o Maranhão é o estado do país que mais se beneficia das complementações da União ao Fundeb, destinadas tanto a estados que não alcançam o valor anual mínimo por aluno definido nacionalmente (a complementação VAAF) quanto a entes federados com capacidades fiscais limitadas (a complementação VAAT).

Em 2026, só a complementação VAAT colocará R$ 2,7 bilhões adicionais do Fundeb nos municípios maranhenses. É escandaloso que complementações de recursos que teriam a finalidade de equalizar as condições de oferta educativa desses municípios com relação ao restante do país sejam canalizadas para custear escolas “militares” com processos seletivos de ingresso e distribuidoras de privilégios para descendentes de bombeiros e policiais, inclusive em municípios pequenos.

A esta indevida apropriação da escola pública soma-se a alta frequência de cultos evangélicos e “louvores” nas dependências das escolas “militares” geridas por policiais e bombeiros do Maranhão, que também impõem seus valores religiosos privados e violam outro princípio do Estado brasileiro e da educação pública nacional: o da laicidade. Durante a campanha eleitoral de 2026, alguns desses colégios “militares” serviram como pontos de encontro de carreatas e motociatas organizadas por candidatos bolsonaristas nos municípios maranhenses.

Em comparação às escolas fake-militares do Maranhão, os 83 Colégios Estatuais da Polícia Militar de Goiás selecionam os seus estudantes por sorteio e deixaram de reservar vagas para dependentes de militares em 2017, após recomendação do Ministério Público Estadual. Apesar disso, as escolas “militares” goianas têm práticas altamente seletivas e, nelas, os policiais também se apossam de uma gestão pedagógica que deveria ser realizada por educadores profissionais. Segmentação da rede pública de ensino e amplificação de desigualdades escolares financiadas com recursos que deveriam servir para combatê-las.

Batizar escolas públicas financiadas com recursos carimbados da educação como “Militares” ou “da Polícia Militar” é uma estratégia para livrá-las do escrutínio público. Afinal, elas seriam militares, amparadas por lei; e não cívico-militares, abusivas e potencialmente inconstitucionais. Essa confusão tem servido inclusive como disfarce para o avanço das escolas cívico-militares.

Recentemente, o governador-tampão de Minas Gerais e candidato ao governo Mateus Simões (PSD) tentou levar adiante a bravata de seu antecessor, o presidenciável Romeu Zema (Novo), e anunciou a intenção de criar setecentas escolas cívico-militares no estado. Diante da impossibilidade de cumprir a promessa faraônica num estado altamente endividado e com instâncias de controle vigilantes, resolveu propor a conversão de trinta escolas estaduais em Colégios Tiradentes da Polícia Militar. A diferença desses potenciais novos colégios “militares”, notada inclusive por membros da PM mineira, é que apenas 50% das vagas seriam destinadas a dependentes de militares, contra os quase 100% das vagas reservadas nas trinta unidades efetivamente militares atuais.

O movimento esboçado por Simões não é inédito, e já foi realizado, como mostrou a pesquisa de Eduardo Junio Ferreira Santos, no estado da Bahia, cujo Colégio da Polícia Militar (CPM) – inicialmente militar – viabilizou a sua expansão no estado através de uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, que converteu o CPM de escola militar em fake-militar. Depois, sob o nome-fantasia “Modelo CPM”, ampliou-se para mais de uma centena de municípios baianos, em acordos de cooperação que obrigam prefeituras paupérrimas a criar cargos comissionados para remunerar policiais. Essas escolas, pelo menos, não se reivindicam militares e aceitam de bom grado a alcunha “cívico-militar”.

A falta de definições mais precisas de escola militar e militarizada alimenta a irresponsabilidade de secretários de educação, prefeitos e governadores que, interessados em auferir dividendos político-eleitorais com a pauta educacional reacionária, entregam escolas públicas a militares e apostam na desinformação sobre o que as escolas militares realmente são, como funcionam e quem paga por elas.

Os críticos da militarização, com muita justiça, denunciam o cabide de emprego que as escolas militarizadas representam no Brasil, drenando os disputados recursos da educação pública para o pagamento de prebendas e sinecuras às castas fardadas. Sem desconsiderar a relevância desse debate, é preciso que as críticas às escolas cívico-militares se estendam àquelas que, fingindo-se de militares, chupinham as verbas da educação com a mesma voracidade e amplificam desigualdades escolares em esquemas de privatização que excluem a maioria e agraciam uns poucos e afortunados filhos de Tiradentes.
Fernando Cássio

O risco extremo da democracia

Para o Brasil, não há cenários fáceis à frente. Se o presidente Lula for eleito, pode enfrentar crises de governabilidade, a menos que tenha a capacidade de formar uma coalizão diante da direita fortalecida no Congresso. Se o eleito for Flávio Bolsonaro, ele terá nas mãos mais instrumentos para realizar o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump. A ciência política sabe que é no segundo mandato que o projeto autocrata dobra a aposta. Veja-se o caso de Donald Trump. O risco não é de o filho repetir o pai, é de superá-lo.


Só o então PMDB, no começo da redemocratização, teve bancadas maiores do que a que o PL terá na próxima legislatura. Mas o MDB, não tinha candidato competitivo à presidência, e o PL tem Flávio chegando com chances reais de ganhar o pleito no segundo turno. Portanto, será um partido ainda mais forte. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tinha o projeto de ter apenas uma boa bancada para ficar com a parte maior dos fundos partidário e eleitoral. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito por outro partido, o PSL, que usou como carona. Depois é que foi para o PL. O partido nunca teve um projeto ideológico. Preferia ser capaz de se adaptar às circunstâncias.

Se for eleito, Lula enfrentará uma oposição com a força que jamais enfrentou. Uma bancada de 121 deputados e 28 senadores apenas do PL. Para manter a governabilidade e aprovar seus projetos, Lula teria que atrair o centrão e negociar com os parlamentares com os quais seja possível algum diálogo.

A vitória de Lula no segundo turno de 2022 veio com o voto de eleitores progressistas que não se identificavam como petistas, e do movimento de personalidades que fizeram parte dos governos do PSDB, que o consideraram a barreira contra o risco de golpe. Tanto havia perigo de um ataque às instituições, que houve o atentado em 8 de janeiro. Esse grupo depois foi desprezado. O presidente não fez movimentos ao centro. E parte dos eleitores que se identificam com esse grupo pode ter simplesmente deixado de votar. Esse é o cálculo que alguns especialistas fazem para explicar o fato de Lula ter tido três milhões de votos a menos em 2026 do que em 2022.

Lula terá que fazer um caminho muito longo para ser reeleito em 25 de outubro, dado que chegou em segundo lugar, dois pontos percentuais atrás de Flávio Bolsonaro. Terá que recuperar os votos perdidos, terá que convencer uma parte do eleitorado que optou pelos outros candidatos, e trazer de volta às urnas quem simplesmente se absteve por falta de interesse em qualquer um dos postulantes. Como ele fará isso não está claro. Ontem, em entrevista ao Estúdio i de Andréia Sadi, o presidente do PT, Edinho Silva, admitiu a ausência de material de campanha no primeiro turno e disse que será resolvido. Mas não explicitou nenhum outro movimento de mudança na campanha. Ele disse que faltou o confronto entre os candidatos no primeiro turno, que desta vez Flávio Bolsonaro não poderá fugir disso, e anunciou a ida de Lula aos debates.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entrevistado no mesmo programa, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro vai participar ativamente do mandato de Flávio Bolsonaro. Falou que o senador “aprendeu” com o pai e seguirá as mesmas diretrizes sobre como montar equipe e de que maneira governar. Em outras palavras, um governo de Flávio seria exercido por Jair, que sempre mostrou mão de ferro para comandar o clã. Mesmo preso, foi de Jair Bolsonaro a escolha de Flávio Bolsonaro para disputar a presidência. O perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas ideias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.

Lula precisa mudar radicalmente a campanha para ter alguma chance de vitória. Desde a redemocratização, nenhum candidato que ficou em segundo lugar na disputa para a presidência ganhou a eleição. Caso eleito, Lula terá uma outra batalha para montar a coalizão. Flávio Bolsonaro, se eleito, terá provavelmente o seu chefe de campanha, Rogério Marinho, na presidência do Senado e uma tropa de choque para realizar o projeto antidemocrático da extrema direita.

A restauração da dinastia

Caso as urnas confirmem a vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais, no dia 25, teremos por aqui uma espécie de versão tropical da restauração de uma dinastia. O que coroaria com ares franceses o retorno da família ao poder.

Em 1792, a Revolução Francesa derrubou o rei Luís XVI, executado no ano seguinte. Era um momento de combate aos privilégios da velha aristocracia, que deslizou para o terror e depois para a Primeira República Francesa.

Em 1804 foi a vez de Napoleão Bonaparte instituir o primeiro império do país. Mas esse império não durou muito. Dez anos e muitas guerras depois chega a vez da Restauração, e Luís XVIII se torna o rei da França.


A família Bourbon retomava o controle do país. Não foi exatamente como antes, pois o novo rei foi forçado pelo Congresso a adotar uma Constituição. Mas a família permaneceu no poder até a Revolução de 1830.

Por aqui, como sabemos, não há monarquia. Mas o sobrenome Bolsonaro pode vir a designar uma espécie de dinastia republicana. Tanto que já há planos para além do mandato de quatro anos que Flávio ainda nem conquistou.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já se entusiasmou com a ideia de fazer de Jair Bolsonaro o sucessor do filho Flávio, nas eleições de 2030.

“O Jair Bolsonaro pode ser um forte candidato daqui a quatro anos”, apostou Costa Neto, um dia depois do primeiro turno das eleições. “O povo vai querer Jair Bolsonaro”.

Daí se pode compreender um pouco a promessa feita por Flávio de não buscar a reeleição em 2030. Podia ser um jeito de atrair a simpatia do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, desde já pré-candidato ao Palácio do Planalto.

Mas não. O senador herdeiro do sobrenome poderia apenas manter por quatro anos o poder em mãos da dinastia, até que seu pai estivesse apto, depois de condenado por tentativa de golpe de Estado, a disputar novamente eleições.

Jair Bolsonaro costumava dizer, no auge de seu poder, que só deixaria o Palácio do Planalto “bem lá na frente”. Ou seja, mirava na primeira reeleição e talvez em uma segunda, que poderia se tornar viável por uma emenda à Constituição.

Não foi assim que funcionou. O patriarca da dinastia perdeu as eleições, ainda como presidente, para Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia sido inquilino do Palácio da Alvorada por oito anos.

Jair não gostou do resultado, tramou um golpe e acabou na cadeia. De onde Flávio pretende tirá-lo no primeiro dia de seu possível mandato como presidente. Uma vez livre, leve e solto, Jair estaria pronto para compor a equipe do filho, já em preparativos para a sucessão em família em 2030.

O tsunami de votos em candidatos ultraconservadores no último domingo foi amplamente interpretado como esmagadora vitória da extrema direita. E foi. Mas pode também ter representado o primeiro passo para a Restauração Bolsonaro.

Em tese, a não ser pela idade ou por motivos de saúde, o ex-presidente poderia disputar eleições em 2030 e, se vitorioso, em 2034. A não ser que representantes de uma nova geração da extrema direita reivindiquem prioridade na definição de candidaturas.

O maior exemplo pode ser o próprio Tarcísio de Freitas, que teria dificuldades em apoiar daqui a quatro anos uma nova candidatura do capitão – quando ele mesmo estará concluindo o segundo mandato como governador de São Paulo.

Até lá, senadores e deputados eleitos na onda da restauração poderão dar início ao trabalho de moldar o país, mais uma vez, ao estilo Bolsonaro de ser.

Podem estar com os dias contados programas de inclusão social, defesa do meio ambiente e estímulo à cultura. E talvez voltem à moda as motociatas ao estilo de Mussolini e as declarações a aliados no cercadinho do Alvorada.

Mais longo período democrático em risco: 'Ensaio sobre a Cegueira' e as rãs

É assustadora a cegueira voluntária que toma conta de setores majoritários da imprensa nestas eleições. Caíram sem bússola do trem da história. Não se trata de uma fatalidade ou de uma peste inexplicável. Precisamos de um novo “Ensaio sobre a Cegueira”, à moda de José Saramago, para entender essa forma iluminada de ofuscamento da razão. O óbvio perde seus contornos nesse “mar de leite” — uma brancura luminosa e total que absorve as cores e as formas, tornando-as invisíveis por excesso de luz.

Para quem leu a obra, a memória é imediata: a primeira vítima do mal, paralisada no trânsito, é auxiliada por um desconhecido que se oferece para dirigir e lhe rouba o veículo. Hoje, os nossos valentes parecem dispostos a entregar, de bom grado, as chaves da República a um ladrão de instituições, enquanto juram, convictos, que tudo está sob controle.


Nesse contexto, parece contraproducente o presidente Lula apresentar um rol de conquistas sociais, lembrar a redução da miséria, o desemprego em nível recorde, a renda em patamar inédito ou enumerar os avanços econômicos da gestão. Se eu desse conselhos, diria: “Esqueça, presidente! O caminho pode ser outro”. O que disse mesmo a Mulher do Médico no livro de Saramago? “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.

A questão está em como traduzir — nem que seja para instruir a resistência — que a fratura iminente no país é a do modelo de garantias instituído pela Constituição de 1988. Será que o Brasil, como escreveu Millôr, tem apenas “um enorme passado pela frente”?

Como deixar claro o que realmente está em jogo? Não se trata de uma escolha corriqueira entre dois programas de governo. A extrema direita, ora sob a liderança de Flávio Bolsonaro, ameaça pulverizar os fundamentos do pacto civilizatório que garantiu o maior período de estabilidade democrática da nossa história, enquanto amplos setores do jornalismo se negam a enxergar a ameaça institucional que se avizinha. A crer nesses de que falo, o Brasil tem apenas dois problemas: a dívida pública e a “crise no Supremo” — como se a vulneração dos marcos institucionais fosse uma resposta adequada a ambos. Isso é de uma irresponsabilidade assombrosa.

O que as urnas vão decidir não é como a economia será tocada nos próximos quatro anos, mas qual marco institucional continuará de pé. Ou o Brasil protege a sua experiência democrática mais longeva — a Constituição completou 38 anos nesta segunda —, com todos os seus defeitos, ou capitula diante de um delírio trumpista que busca destruí-la. É esse risco que tem de ganhar uma tradução compreensível para a maioria.

Infelizmente, esses setores de que falo vivem uma regressão golpista. A extrema direita já os havia capturado no terreno da economia, com a promessa de um ajuste draconiano — e nem eu acredito que ela o aplique se vencer. Faltava a capitulação no terreno da política. O Caso Master operou, então, esse alinhamento, de sorte que a cobertura da eleição foi inteiramente substituída por uma campanha de degola de ministros do Supremo, com a Corte rebaixada à condição de mero abrigo de “inimigos da pátria”.

Os comentaristas mais desastrados tiveram a audácia de associar decisões absolutamente legais, tomadas por magistrados, às articulações golpistas de Jair Bolsonaro. A agenda reacionária na economia vem sempre recoberta por um verniz moralizante, de modo que interesses privados ganhem o vulto de um interesse público genuíno. A síntese derrisória dessa patuscada é que os cegados por tanta luz pretendem dar as chaves do carro a Flávio — justamente o político que mais recebeu recursos do Master para supostamente financiar o tal filme.

O Brasil, como se nota, não ficou livre da onda reacionária que varreu as democracias mundo afora ao sabor dos algoritmos. Imaginar que o ódio ao Supremo explica, por exemplo, o resultado da eleição no Rio de Janeiro requer muito exercício de criatividade. Fico aqui a cogitar: “Flávio Bolsonaro, livre-nos desse STF contaminado pelo Master…” Deveria haver um limite para o ridículo.

A verdade é que esses setores da imprensa aos quais me refiro vivem verdadeiros frêmitos gozosos com a possibilidade de impeachment de ministros do STF. E emprestam a seu fetiche punitivista a grandiloquência de um arroubo patriótico.

A pauta jurídica do país foi, por exemplo, sequestrada por André Mendonça, que passou a ser saudado pelos barulhentos como um misto da deusa Têmis com o Rei Salomão. Pois é… E se o sábio bíblico mandou cortar a criancinha ao meio não por estratégia, mas para tentar ser sagaz? A piada, infelizmente, não é deste escriba, mas de Joseph Heller no impagável livro “God Knows”. Pois bem: a nossa versão de Salomão de toga parece operar sob essa mesma astúcia duvidosa, aplaudida de pé por quem prefere o arbítrio ao rito. E, vejam vocês!, tem como parceiro Nunes Marques, que pretende devolver Bolsonaro às ruas logo depois do segundo turno. Até agora, a dupla não ganhou nenhum editorial.

Quando as instituições começam a ser corroídas por dentro sob o aplauso de quem deveria pregar a contenção, convém consultar quem entendeu a anatomia do desastre antes de todo mundo. Em “Origens do Totalitarismo” no Capítulo 11, intitulado “O Movimento Totalitário”, Hannah Arendt desmascara o mecanismo que hoje vemos operando nas redes, nos palanques da extrema direita e nessas áreas da imprensa. Escreve:

“A propaganda totalitária prospera nesse escapismo da realidade para a ficção, do visível para o invisível (…). O que as massas recusam a reconhecer é o elemento de acaso que permeia a realidade; elas são predispostas a aceitar todas as ideologias porque estas explicam os fatos como meros exemplos de leis estabelecidas, e eliminam as coincidências inventando uma onipotência que tudo governa.”

Para os que acharam Arendt algo incompreensível, que tal a fábula das rãs que queriam um rei? Elas viviam livres e saltitantes, mas, entediadas, pediram a Zeus que lhes mandasse um soberano para pôr ordem na casa. Ele jogou um pedaço de madeira, o que as assustou. Depois de algum tempo, perceberam que o objeto era inofensivo e, digamos assim, democrático demais. Queriam ordem e passaram a importunar o deus: “Cadê nosso rei?” Ele se aborreceu e mandou uma cegonha, que começou a devorá-las uma a uma sob o novo regime. As que sobreviveram começaram a reclamar, e o deus deu de ombros. Se não se contentaram com o líder pacífico, que aguentassem as consequências da sua escolha.

É assombroso. As regras do jogo democrático começam a ser vistas, inclusive por quem deveria guardá-las, como meros estorvos. Os paralelos históricos gritam: a erosão da República de Weimar, na Alemanha dos anos 1930, e o sufocamento institucional recente na Hungria de Viktor Orbán. Nem uma coisa nem outra começaram com tanques nas ruas, mas com a captura do Legislativo e a subsequente asfixia do Judiciário por vias pretensamente legais. É o veneno autocrático bebido em doses homeopáticas. Como as rãs de Esopo, há quem esteja coaxando freneticamente em favor da própria destruição.

O perigo ganha contornos assustadores. Com o Congresso, especialmente o Senado, capturado pela extrema direita, há o risco efetivo de quebra do equilíbrio entre os Poderes.

Essa nova configuração não almeja o debate republicano; antecipa uma faca no pescoço do STF, empunhando a ameaça constante de destituição de ministros e o consequente aparelhamento da Corte. No exercício propriamente legislativo, o que se antevê é uma usina de emendas constitucionais destinada a diluir, fragmentar e, por fim, destruir o arcabouço de direitos garantidos em 1988.

O presidente Lula já falou sobre economia o suficiente, penso eu. Para ganhar ou para perder, é preciso traduzir aos eleitores o que está em jogo.

Quanto aos tais setores da imprensa, fazer o quê? Volto a Saramago. Em “Ensaio sobre a Cegueira”, escreve:

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.” 

 Se aqueles de quem falo continuarem nesse transe, brincando de rigor fiscal e moralização do Supremo para, de fato, abraçar a agenda reacionária de notórios golpistas, ou serão devorados ou serão cúmplices.

Reinaldo Azevedo