Para quem leu a obra, a memória é imediata: a primeira vítima do mal, paralisada no trânsito, é auxiliada por um desconhecido que se oferece para dirigir e lhe rouba o veículo. Hoje, os nossos valentes parecem dispostos a entregar, de bom grado, as chaves da República a um ladrão de instituições, enquanto juram, convictos, que tudo está sob controle.
Nesse contexto, parece contraproducente o presidente Lula apresentar um rol de conquistas sociais, lembrar a redução da miséria, o desemprego em nível recorde, a renda em patamar inédito ou enumerar os avanços econômicos da gestão. Se eu desse conselhos, diria: “Esqueça, presidente! O caminho pode ser outro”. O que disse mesmo a Mulher do Médico no livro de Saramago? “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.
A questão está em como traduzir — nem que seja para instruir a resistência — que a fratura iminente no país é a do modelo de garantias instituído pela Constituição de 1988. Será que o Brasil, como escreveu Millôr, tem apenas “um enorme passado pela frente”?
Como deixar claro o que realmente está em jogo? Não se trata de uma escolha corriqueira entre dois programas de governo. A extrema direita, ora sob a liderança de Flávio Bolsonaro, ameaça pulverizar os fundamentos do pacto civilizatório que garantiu o maior período de estabilidade democrática da nossa história, enquanto amplos setores do jornalismo se negam a enxergar a ameaça institucional que se avizinha. A crer nesses de que falo, o Brasil tem apenas dois problemas: a dívida pública e a “crise no Supremo” — como se a vulneração dos marcos institucionais fosse uma resposta adequada a ambos. Isso é de uma irresponsabilidade assombrosa.
O que as urnas vão decidir não é como a economia será tocada nos próximos quatro anos, mas qual marco institucional continuará de pé. Ou o Brasil protege a sua experiência democrática mais longeva — a Constituição completou 38 anos nesta segunda —, com todos os seus defeitos, ou capitula diante de um delírio trumpista que busca destruí-la. É esse risco que tem de ganhar uma tradução compreensível para a maioria.
Infelizmente, esses setores de que falo vivem uma regressão golpista. A extrema direita já os havia capturado no terreno da economia, com a promessa de um ajuste draconiano — e nem eu acredito que ela o aplique se vencer. Faltava a capitulação no terreno da política. O Caso Master operou, então, esse alinhamento, de sorte que a cobertura da eleição foi inteiramente substituída por uma campanha de degola de ministros do Supremo, com a Corte rebaixada à condição de mero abrigo de “inimigos da pátria”.
Os comentaristas mais desastrados tiveram a audácia de associar decisões absolutamente legais, tomadas por magistrados, às articulações golpistas de Jair Bolsonaro. A agenda reacionária na economia vem sempre recoberta por um verniz moralizante, de modo que interesses privados ganhem o vulto de um interesse público genuíno. A síntese derrisória dessa patuscada é que os cegados por tanta luz pretendem dar as chaves do carro a Flávio — justamente o político que mais recebeu recursos do Master para supostamente financiar o tal filme.
O Brasil, como se nota, não ficou livre da onda reacionária que varreu as democracias mundo afora ao sabor dos algoritmos. Imaginar que o ódio ao Supremo explica, por exemplo, o resultado da eleição no Rio de Janeiro requer muito exercício de criatividade. Fico aqui a cogitar: “Flávio Bolsonaro, livre-nos desse STF contaminado pelo Master…” Deveria haver um limite para o ridículo.
A verdade é que esses setores da imprensa aos quais me refiro vivem verdadeiros frêmitos gozosos com a possibilidade de impeachment de ministros do STF. E emprestam a seu fetiche punitivista a grandiloquência de um arroubo patriótico.
A pauta jurídica do país foi, por exemplo, sequestrada por André Mendonça, que passou a ser saudado pelos barulhentos como um misto da deusa Têmis com o Rei Salomão. Pois é… E se o sábio bíblico mandou cortar a criancinha ao meio não por estratégia, mas para tentar ser sagaz? A piada, infelizmente, não é deste escriba, mas de Joseph Heller no impagável livro “God Knows”. Pois bem: a nossa versão de Salomão de toga parece operar sob essa mesma astúcia duvidosa, aplaudida de pé por quem prefere o arbítrio ao rito. E, vejam vocês!, tem como parceiro Nunes Marques, que pretende devolver Bolsonaro às ruas logo depois do segundo turno. Até agora, a dupla não ganhou nenhum editorial.
Quando as instituições começam a ser corroídas por dentro sob o aplauso de quem deveria pregar a contenção, convém consultar quem entendeu a anatomia do desastre antes de todo mundo. Em “Origens do Totalitarismo” no Capítulo 11, intitulado “O Movimento Totalitário”, Hannah Arendt desmascara o mecanismo que hoje vemos operando nas redes, nos palanques da extrema direita e nessas áreas da imprensa. Escreve:
“A propaganda totalitária prospera nesse escapismo da realidade para a ficção, do visível para o invisível (…). O que as massas recusam a reconhecer é o elemento de acaso que permeia a realidade; elas são predispostas a aceitar todas as ideologias porque estas explicam os fatos como meros exemplos de leis estabelecidas, e eliminam as coincidências inventando uma onipotência que tudo governa.”
Para os que acharam Arendt algo incompreensível, que tal a fábula das rãs que queriam um rei? Elas viviam livres e saltitantes, mas, entediadas, pediram a Zeus que lhes mandasse um soberano para pôr ordem na casa. Ele jogou um pedaço de madeira, o que as assustou. Depois de algum tempo, perceberam que o objeto era inofensivo e, digamos assim, democrático demais. Queriam ordem e passaram a importunar o deus: “Cadê nosso rei?” Ele se aborreceu e mandou uma cegonha, que começou a devorá-las uma a uma sob o novo regime. As que sobreviveram começaram a reclamar, e o deus deu de ombros. Se não se contentaram com o líder pacífico, que aguentassem as consequências da sua escolha.
É assombroso. As regras do jogo democrático começam a ser vistas, inclusive por quem deveria guardá-las, como meros estorvos. Os paralelos históricos gritam: a erosão da República de Weimar, na Alemanha dos anos 1930, e o sufocamento institucional recente na Hungria de Viktor Orbán. Nem uma coisa nem outra começaram com tanques nas ruas, mas com a captura do Legislativo e a subsequente asfixia do Judiciário por vias pretensamente legais. É o veneno autocrático bebido em doses homeopáticas. Como as rãs de Esopo, há quem esteja coaxando freneticamente em favor da própria destruição.
O perigo ganha contornos assustadores. Com o Congresso, especialmente o Senado, capturado pela extrema direita, há o risco efetivo de quebra do equilíbrio entre os Poderes.
Essa nova configuração não almeja o debate republicano; antecipa uma faca no pescoço do STF, empunhando a ameaça constante de destituição de ministros e o consequente aparelhamento da Corte. No exercício propriamente legislativo, o que se antevê é uma usina de emendas constitucionais destinada a diluir, fragmentar e, por fim, destruir o arcabouço de direitos garantidos em 1988.
O presidente Lula já falou sobre economia o suficiente, penso eu. Para ganhar ou para perder, é preciso traduzir aos eleitores o que está em jogo.
Quanto aos tais setores da imprensa, fazer o quê? Volto a Saramago. Em “Ensaio sobre a Cegueira”, escreve:
“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.”
Se aqueles de quem falo continuarem nesse transe, brincando de rigor fiscal e moralização do Supremo para, de fato, abraçar a agenda reacionária de notórios golpistas, ou serão devorados ou serão cúmplices.

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