domingo, 20 de setembro de 2026

Soberania e cidadania em risco

O Brasil se aproxima da mais dramática eleição do ciclo democrático iniciado em 1988.

O que está em jogo não é apenas se o Brasil migrará para a extrema direita, como têm feito alguns países vizinhos, ou reafirmará a opção por uma aliança entre a centro-esquerda e o centrão.

Não se trata apenas de uma eleição em que se decidirá o destino da escala 6x1, do ajuste fiscal, da modernização tecnológica, da regulação da inteligência artificial, das leis ambientais, dos povos indígenas, da obrigatoriedade das vacinas, do Estado laico, da abertura de novos mercados ou do combate ao crime organizado. Todos esses são temas de máxima importância, que naturalmente dividem o eleitorado numa sociedade pluralista, e precisam ser arbitrados, sem violência, pelo processo eleitoral.


A complexidade da presente eleição é que ela também nos coloca frente a escolhas existenciais, que normalmente não estão presentes em pleitos ordinários, em que discutimos quais políticas públicas são mais eficientes ou mais justas, que políticos são os mais competentes e honestos, ou que valores morais devem ou não ser incorporados pela legislação.

Nesta eleição, o tema central é a preservação tanto de nossa soberania, no sentido de nossa independência em relação a outras potências, como de nossa cidadania, entendida como direito de participar dos destinos da comunidade. Ou seja, de nossa autonomia, como indivíduos e como sociedade.

Temos assistido a uma crescente desordem mundial, na qual o poder bruto tem se imposto às regras internacionais e às instituições multilaterais voltadas a promover uma convivência pacífica entre as nações e a colaboração para o enfrentamento de problemas comuns, como as mudanças climáticas e o crime organizado.

Em nosso hemisfério, o presidente norte-americano tem deixado cada vez mais claro que não há espaço para autodeterminação dos demais países. Que nossas riquezas naturais e mercados têm que estar à disposição de seus interesses.

No plano interno, por sua vez, a incompetência de sucessivos governos, a incapacidade do Parlamento de cumprir sua obrigação de oferecer respostas aos principais problemas que afetam a sociedade brasileira e do sistema de justiça de aplicar a lei de forma imparcial, sobretudo aos seus próprios membros, têm gerado profundo desencantamento por parte dos cidadãos, abrindo espaço para lideranças antissistema.

O espetáculo constrangedor oferecido por alguns ministros do STF nesta semana não pode se sobrepor, no entanto, à disposição estoica apresentada pelo presidente Edson Fachin para apurar os fatos e preservar a autoridade da lei.

Neste momento de deterioração das instituições concebidas para resolver problemas, canalizar conflitos e aplicar imparcialmente a lei, a tentação de "acabar com tudo isso que aí está" é grande. Mas disso nada advirá.

Penso que a maior contribuição que as lideranças da sociedade civil podem oferecer ao Brasil neste momento é levantar andaimes e escoras em torno das instituições, para que possam ser urgentemente reformadas.

Aos políticos, ao menos àqueles que têm compromisso com a soberania popular e nacional, caberia construir de pontes de diálogo entre os diversos setores da sociedade, para que possamos encontrar as soluções para os nossos problemas.

O desafio das angustiadas eleitoras e eleitores, por sua vez, é fazer escolhas que não coloquem em risco o direito fundamental de determinarmos nosso próprio destino, como cidadãos e como nação soberana.

Relatório da Abin enviado a governo e TSE aponta risco de interferência dos EUA nas eleições

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) produziu um relatório no qual aponta risco de influência ou interferência dos Estados Unidos nas eleições deste ano e identifica uma escalada da pressão americana sobre o Brasil. O documento foi encaminhado no fim de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça. 

No documento, a Abin aponta um “nível de criticidade” em relação à possibilidade de interferência externa e afirma haver uma “tendência de escalada de pressão sobre o Brasil”. A avaliação é de que houve uma intensificação das ações dos Estados Unidos em relação ao país nos últimos meses.


A agência relaciona esse movimento à estratégia do governo de Donald Trump para a América Latina. Segundo o relatório, os Estados Unidos buscam reduzir a influência de potências rivais na região, sobretudo da China, e impedir o acesso desses países a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestrutura. A Abin também aponta uma estratégia de apoio à ascensão de governos conservadores alinhados ao Executivo norte-americano.

O relatório cita ainda as sanções impostas pelos Estados Unidos a brasileiros e empresas e avalia que as medidas representam uma mudança de fase na pressão americana sobre o país. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, também é citado no documento, que atribui à sua atuação um componente ideológico e o objetivo de influenciar a política externa dos países da região.

No TSE, porém, a avaliação até o momento é de que não foram identificados sinais concretos de influência externa sobre o processo eleitoral, segundo integrantes da Corte. A leitura é que o alerta feito pela Abin deve ser acompanhado pelo tribunal, mas que, até agora, esse risco não se traduziu em episódios de interferência percebidos no andamento das eleições.

A Abin participa de dois grupos de trabalho no TSE e mantém interlocução com a Corte durante o período eleitoral. A presença da agência nesses colegiados faz parte da estrutura de acompanhamento do pleito e permite o compartilhamento de informações relacionadas a eventuais ameaças ao processo eleitoral.

É desolador o Brasil virar refém do fanatismo religioso

A certa altura do segundo ato de “O Neguinho da Beija-Flor”*, biografia musical do cantor e compositor que se despediu da Marquês de Sapucaí em 2025, após meio século defendendo a mesma agremiação, um momento religioso comove. O artista, como sabemos, enfrentou um câncer no intestino em 2008. Tornou públicos diagnóstico e tratamento. No ano seguinte, recuperado, casou-se com Elaine Reis em pleno Sambódromo e, na sequência, conduziu a escola de Nilópolis por mais um desfile, de cima do carro de som, com o médico ao lado. No palco, Mãe Joana, a ialorixá narradora, comanda um ritual de candomblé pela saúde do protagonista; em seguida, duas mulheres evangélicas oram por ele; por fim, um padre católico reza.

A cena apresentada no Teatro João Caetano emociona pelo que se vê, mas sobretudo pelo que já se viu numa esquina perto de você. Quando revelou numa entrevista a Mariana Gross, no RJ-TV, que estava doente, Neguinho da Beija-Flor recebeu de volta uma avalanche de demonstrações de fé por sua recuperação. Saía um pai de santo, entrava um pastor. Promessas, obrigações, correntes de oração multiplicaram-se. Na quadra lotada da escola, os componentes rezaram em coro um inesquecível Pai-Nosso. Houve um tempo em que a convivência respeitosa entre sacerdotes e fiéis de diferentes credos não era somente possível, mas real.


Cresci no subúrbio de Irajá, Zona Norte do Rio, assistindo a missas na igreja e recebendo, na rua e nos terreiros, saquinhos de doces em celebração a Cosme e Damião. Demonização das religiões de matriz africana não é novidade. A perseguição se deu até pelo Estado — a provar, estão os acervos de peças sagradas sequestradas pela polícia em operações Brasil afora, desde fins do século XIX. Mas, a despeito da Carta Magna de 1988, que consagrou a liberdade culto e o Estado laico, são crescentes a intolerância religiosa e o ativismo político em nome de Deus.

O registro da candidatura à Presidência do empresário, influenciador digital e coach Pablo Marçal, inelegível até 2032 por abuso de poder econômico, foi rejeitado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na semana passada. Antes de sair da disputa, ele foi denunciado ao Ministério Público Eleitoral (MPE) e à polícia do Rio de Janeiro, por racismo religioso e discurso de ódio. Atacou religiões afro-brasileiras numa entrevista. Disse que “todo macumbeiro é um derrotado, é gente invejosa, que não prospera”, entre outras ofensas. Três advogados, Carlos Nicodemos, Maria Fernanda Fernandes e Rafaela Batistone, representaram contra Marçal no MPE. O Centro de Articulação das Populações Marginalizadas (Ceap) ingressou com notícia de fato na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância no Rio.

No Supremo Tribunal Federal (STF), o enfrentamento fratricida entre integrantes do colegiado também tem contornos religiosos. André Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União de Jair Bolsonaro, indicado à Corte por ser “terrivelmente evangélico”, imprimiu tom messiânico à investigação que busca aprovar em plenário contra o colega Alexandre de Moraes. Dias depois de quebrar o sigilo do relatório da Polícia Federal que identificara Moraes como destinatário de mensagens de Daniel Vorcaro, agradeceu em vídeo a “irmãos e irmãs” por mensagens e orações. Foi a senha para a mobilização de evangélicos para a disputa no STF. Na antevéspera do Sete de Setembro, a ex-primeira-dama e candidata ao Senado Michelle Bolsonaro (PL-DF) tratou Mendonça como “escolhido e ungido do Senhor”. No feriado nacional, um boneco inflável do ministro foi erguido no ato de campanha à Presidência de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na Avenida Paulista, em São Paulo.

A crise no STF, escancarada após a sessão da última terça-feira, é gravíssima. Acossa um Poder essencial à democracia, mais uma vez sob ameaça. Mas não tem nada a ver com Deus ou religião. Tampouco a corrida presidencial. É desolador que uma nação forjada na combinação de crenças e ritos de indígenas sul-americanos, negros de África e cristãos europeus se torne refém de um fanatismo religioso — por devoção de fieis e oportunismo de líderes — que obstrui possibilidades de diálogo político, convivência comunitária e respeito aos direitos fundamentais. Democracias também morrem por essa via.

 Flávia Oliveira

O que Lula e Flávio prometem para a política externa

Em uma eleição presidencial que ocorre à sombra de tensões internacionais, os programas de governo dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro(PL), apresentam propostas e visões diametralmente opostas em temas de política externa.

As diferenças de visão de mundo são explícitas quando se trata de temas como relações com os Estados Unidos, a participação do Brasil no Mercosul e no Brics, e até relações com Israel.

Os programas de governo dos dois candidatos protocolados junto à Justiça Eleitoral são vagos em vários temas específicos de política externa que vêm dominando o noticiário, muitas vezes sem detalhar propostas ou metas. Temas como relações com a União Europeia e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, por exemplo, estão completamente ausentes das propostas.

Mas falas e ações de Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos meses permitem preencher algumas lacunas e apontar que direção os dois candidatos pretendem dar à diplomacia brasileira nos próximos quatro anos.


Em seu programa de governo, Lula deu preferência em listar realizações de política externa do seu atual mandato, mas há diretrizes sobre como a administração pretende continuar a se portar. Em linha com a atual postura do Planalto, o programa menciona várias vezes a importância de reafirmar a "soberania" e a "independência" do Brasil.

O plano ainda abraça o multilateralismo e aponta que a "integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil". Lula também fala em uma maior aproximação com a Ásia, a África, o Oriente Médio "para ampliar a cooperação política, econômica, tecnológica e cultural".

Lula ainda voltou a bandeiras tradicionais do seu governo, como a defesa do Conselho de Segurança da ONU e de organismos como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial OMC.

No atual mandato de Lula, o Itamaraty é comandado pelo ministro Mauro Vieira, um diplomata de carreira, que já havia ocupado o posto no governo Dilma Rousseff. Lula ainda conta com Celso Amorim, outro veterano, no cargo de assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.
Flávio Bolsonaro: política externa "anti Lula"

O plano de diretrizes de governo de Flávio Bolsonaro é bastante breve em política externa, dedicando apenas duas páginas ao assunto, com boa parte dos parágrafos sendo usados para criticar a diplomacia da administração Lula em temas como Venezuela e Irã, argumentando que "política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".

"Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia", disse Flávio Bolsonaro, que é alinhado com os governos de ultradireita dos EUA, Argentina e Israel.

De específico, o programa de Flávio menciona que seu governo pretende retomar a inserção do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, de maneira mais genérica, o plano fala em aumentar a abertura comercial e ampliar acordos que abram novos mercados para o Brasil.

Flávio não divulgou oficialmente nomes que podem comandar o Itamaraty sob sua gestão. Em janeiro, ele chegou a dizer que o irmão Eduardo Bolsonaro, que foi condenado à prisão e hoje vive nos EUA sob a proteção do governo de Donald Trump, poderia comandar a pasta do exterior. No entanto, Flávio passou a desconversar sobre o tema após reação negativa de empresários e políticos aliados.

O programa de Lula menciona o Brics três vezes. Atualmente, o Brics é formado por dez países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Foi no segundo governo Lula que o bloco foi formado, com o Brasil entre seus fundadores.

No seu programa, Lula defende o aprofundamento das relações entre países do Brics e o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco – uma medida que é vista com hostilidade pelos EUA de Trump, que temem que o Brics possa minar a hegemonia do dólar no comércio mundial.

Desde que voltou ao Planalto, em 2023, Lula também defendeu publicamente que o bloco deveria adotar uma moeda de referência alternativa ao dólar para trocas comerciais entre países do Brics ou que os países usem suas próprias moedas locais. Em fevereiro, por exemplo, Lula mencionou essa possibilidade em entrevista a uma rádio da Índia. "Não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia precise ser feito em dólares americanos. O que eu defendo é que podemos usar nossas próprias moedas", disse.

O programa de Flávio não menciona o Brics uma vez sequer. Mas o candidato, que é alinhado com Trump, já deu declarações sinalizando que pode ser hostil ao bloco, que costuma ser alvo de críticas e ameaças por parte da Casa Branca.

Flávio, por exemplo, afirmou num podcast em junho que seu governo pode vir a retirar o Brasil do Brics. "No primeiro dia que eu me sentar na cadeira de presidente, vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os Estados Unidos", disse.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro, novamente alinhado com os EUA, disse ser contra a possibilidade de redução de dependência do dólar americano em transações internacionais, refutando propostas de Lula e da Rússia nesse sentido, que já provocaram ameaças de retaliação por parte de Trump no passado.

Em julho, num ofício encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio também propôs que o Brasil deve impedir que o Pix seja integrado a mecanismos internacionais de compensação financeira fora da esfera ocidental – ou seja, fora do alcance dos EUA.

Desde a volta de Donald Trump ao poder nos EUA, em 2025, o Brasil sob Lula passou a ser alvo de repetidas rodadas de tarifas por parte da Casa Branca. Algumas com objetivos comerciais, outras foram encaradas como tática de pressão para beneficiar a família Bolsonaro, aliada de Trump.

O programa de governo de Lula não menciona os Estados Unidos nominalmente, mas faz várias referências veladas à posição de confronto da Casa Branca, defendendo que o Brasil determine suas políticas sem interferência externa e com autonomia. O texto parece seguir a postura do Planalto nos últimos meses, que tem criticado a interferência de Trump no Brasil, mas sem romper completamente com os EUA ou direcionar animosidade diretamente ao presidente americano, buscando uma solução negociada.

"Em um cenário de tensões geopolíticas crescentes e quebras das regras de convivência internacional, o Brasil deve reafirmar sua soberania e preservar sua capacidade de fazer escolhas políticas e econômicas de forma independente, à luz de seus interesses, sem qualquer tipo de subordinação estratégica", diz o texto.

Em outro trecho, o programa diz que o governo fará "firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica".

Na sequência, o texto parece fazer uma referência velada a Flávio Bolsonaro e seu alinhamento com os EUA: "Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas".

Apesar do alinhamento de Flávio Bolsonaro com o governo Trump, a relação estreita não é mencionada no programa de diretrizes do candidato. Referências aos EUA são poucas. Em um dos trechos, o programa fala em "reverter" o distanciamento entre Brasília e Washington e em buscar "soluções diplomáticas" contra as "sanções" dos EUA a produtos brasileiros.

No entanto, em falas nos últimos meses, Flávio foi mais explícito em como enxerga como seria a relação entre o Brasil e os EUA sob seu eventual governo. Em março, num discurso nos EUA, Flávio falou em formalizar uma aliança com o país de Trump. "No próximo ano, quando eu retornar a este palco como presidente do Brasil, não estaremos apenas celebrando mais uma vitória eleitoral. Estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental", disse.

Em julho, ele também sugeriu que o Brasil firmasse um acordo de livre comércio com os EUA nos moldes da antiga Nafta, o bloco econômico de livre-comércio formado pelos americanos, o Canadá e o México, que foi esvaziado por Trump em 2020. O plano do candidato, porém, não menciona como seu governo pretende lidar com o tarifaço de Trump, que, em parte, foi inicialmente incentivado por Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Ainda em seu plano de governo, Flávio fez menções genéricas a minerais críticos. Em falas nos últimos meses, no entanto, ele foi explícito em afirmar que deseja que os EUA explorem os minerais no Brasil, para reduzir sua dependência da China. "O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos", disse o entãopré-candidato a presidente, em evento no Texas.

O programa de Lula propõe continuar a fortalecer o Mercosul, especialmente como plataforma para a ampliação de iniciativas de integração econômica, como no acordo de livre-comércio firmado com a União Europeia, que passou a vigorar em maio.

"Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional, especialmente nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Consolidaremos o Mercosul como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul", diz o programa.

O programa de Flávio Bolsonaro não menciona o Mercosul. Mas o candidato já indicou que, ao contrário de Lula, vê o bloco como um empecilho para iniciativas de política externa unilaterais. Em julho, num documento enviado ao governo americano, ele propôs que o Brasil se "liberte das amarras" do bloco sul-americano para uma "busca agressiva" de novos acordos comerciais, sinalizando que pode adotar uma postura como a do presidente argentino Javier Milei, que buscou um acordo comercial com os EUA sem participação de parceiros do Mercosul nas negociações.
Israel e questão palestina

Os planos de governo de Lula não mencionam Israel e a questão palestina diretamente, mas a postura da atual administração é bem explícita sobre o conflito no Oriente Médio.

Em 7 de outubro de 2023, na esteira do ataque do Hamas que deixou mais de 1.000 mortos em Israel, Lula condenou as ações do grupo palestino e manifestou "repúdio ao terrorismo". Ao mesmo tempo, ele defendeu negociações para a existência "de um Estado Palestino viável".

Posteriormente, com a ampliação das ações militares em Gaza, Lula passou a criticar ações israelenses. Em 2025, Lula disse que "em Gaza não tem uma guerra, tem um genocídio". Antes disso, em 2024, declarações de Lula comparando a situação da população de Gaza com o Holocausto provocaram tensão entre Israel e Brasil. Os israelenses acabaram declarando Lula "ersona non grata (alguém que não é bem-vindo).

Após outros incidentes diplomáticos, o governo Lula retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv. Em 2025, foi a vez de o governo do israelense Benjamin Netanyahu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil. Israel também segue sem embaixador no Brasil. Sob Lula, o Brasil também apoia a ação apresentada pela África do Sul contra Israel por acusações de genocídio na Faixa de Gaza.

O plano de governo de Flávio não menciona Israel ou a questão palestina. Mas falas e ações do candidato vem seguindo o mesmo roteiro do seu pai, Jair Bolsonaro, que estreitou as relações do Brasil com Israel, e, especialmente, com o premiê Netanyahu.

Em janeiro, Flávio Bolsonaro, escolheu Israel como destino da sua primeira viagem ao exterior na condição de pré-candidato. No país, foi recebido em um jantar de gala por Netanyahu. Em julho, foi a vez de o premiê participar, via mensagem em vídeo, do lançamento oficial da campanha de Flávio, chamando o brasileiro de "meu amigo".

De propostas práticas, Flávio mencionou que no seu primeiro dia como presidente pretende receber um novo embaixador israelense no Brasil. Flávio também contemplou publicamente transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo dos EUA de Donald Trump. "Em 2027, o Brasil não apenas voltará a ter embaixador em Israel, como dará o passo de transferir sua embaixada para a capital de Israel: Jerusalém", disse Flávio.

Em 2019, seu pai, Jair Bolsonaro, havia tentado essa transferência, mas recuou diante de possíveis retaliações de países árabes que são grandes parceiros comerciais do Brasil.

sábado, 19 de setembro de 2026

Extrema direita agradece a autodestruição do Supremo

Nos projetos de destruição da democracia por dentro, a luta contra o Judiciário é essencial. Em vez de fechar os tribunais, usando a força, com "um cabo e um soldado", o autocrata atual age para enfraquecer, aparelhar ou neutralizar a independência das cortes.

Exemplos não faltam de que a Suprema Corte é o alvo número 1: Hungria, Venezuela, Israel, Polônia, Turquia. A relação entre Executivo e Judiciário gera embates nos Estados Unidos, na Argentina, na Itália, na Colômbia, países que estão na rota do tsunami de extrema direita.


Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele —modelo para as candidaturas de Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado— substituiu ministros para mudar a Constituição e se reeleger. Derrotado nas eleições de 2022, após passar todo o mandato atacando e desacreditando o Supremo, Jair Bolsonaro tentou um golpe que só não deu certo porque Exército e Aeronáutica pularam fora e, sobretudo, porque não teve o apoio dos EUA, sob Joe Biden.

Herdeiro do golpismo de Jair, o filho 01 tem hoje um ministro que lhe facilita a campanha presidencial e meio trabalho realizado diante de uma corte que resolveu se autodestruir, com conchavos, interesses não republicanos, traições, cinismo e corrupção.

Pelo menos cinco ministros se deixaram vorcarizar. Puxando a fila está Alexandre de Moraes, que combateu o presidente golpista, mas se rendeu ao empresário picareta. Suas explicações não convencem. Idem para André Mendonça, que "esqueceu" de avisar ao país que Flávio Bolsonaro é investigado por ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. Tragado pelo buraco Master, Dias Toffoli finge-se de morto.

Mensagens do celular de Vorcaro tratam de pagamentos (que seriam de R$ 500 mil mensais) destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. Outras revelam sua intimidade com Rodrigo Fux, filho do ministro do STF. Rodrigo, a exemplo de Flávio Bolsonaro, chama o banqueiro de "irmão".

Os amigos do rei formavam uma espécie de irmandade, que se dedicava a mamatas e surubas.

Não é pelos 20 centavos

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.


Junho de 2013, Rio de Janeiro. Corrupção, precariedade dos serviços públicos, violência policial. “Vem pra rua”, “O gigante acordou”, “Queremos hospitais e escolas padrão Fifa”. Aos 54 anos, arquiteto, câmera fotográfica em punho, ele vai aos protestos no Centro, na Barra, em Copacabana, atento para debandar antes que cheguem os black blocs.

Salvador, 2016. Domingo de abril, Jardim de Alah apinhado de gente de verde e amarelo, pedindo o segundo impeachment desde a redemocratização. O arquiteto fechou o escritório, trabalha como freelancer e, às vésperas dos 57, precisa dar um jeito de recomeçar a vida. Acha que o Brasil também.

Setembro de 2026, Rio de Janeiro. Aposentado, tardiamente cronista, 67 anos, ele podia hoje ter retomado as anotações sobre o novo mapa-múndi, o disco que Elis não gravou, as cartas dos leitores, o chacundum, o patrimônio arquitetônico que o Rio está perdendo. Ou, quem sabe, algo lírico sobre seus cachorros. Mas, como se perguntava o grande escritor que ocupava este mesmo espaço às quintas-feiras, “poesia numa hora dessas?”.

Quando o Palácio do Supremo Tribunal Federal foi depredado por vândalos na baderna do 8 de Janeiro, o país reagiu com atos em defesa da democracia. Agora a própria Justiça é vilipendiada pelo escárnio dos ministros, na infame sessão de 15 de setembro, e ninguém foi para a rua protestar. Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada.

Não é pelas relações impróprias entre um ex-banqueiro e os presidentes da Câmara e do Senado, o procurador-geral da República, servidores do Banco Central. Não é pelos indícios de pagamento de R$ 10 mil a uma prostituta por serviços prestados a um ministro ou de repasses mensais de R$ 500 mil ao filho dele. Não é pelos R$ 35 milhões em negócios envolvendo um resort no Paraná, de empresa da família de outro ministro. Não é pelos R$ 61 milhões para financiar a hagiografia cinematográfica de um ex-presidente — parcialmente desviados, com emendas parlamentares, para fins ainda menos nobres. Não é pelos R$ 130 milhões do contrato com a mulher de um ministro ou pela assessoria clandestina que, ao que tudo indica, esse ministro prestava a um investigado pelos crimes de fraude financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Não é pelos bilhões do Rioprevidência e do Banco de Brasília.

É pelos 20 centavos da nossa dignidade, da nossa cidadania.

E as ruas, as praias, as praças estão vazias.

Predadores digitais: o negócio dos dados pessoais

Todo mundo tem segredos que não contaria a ninguém. Exceto, talvez, ao seu aplicativo de namoro. Que tipo de parceiro procuram. Que lugares gostam de frequentar para conhecer pessoas. Talvez até suas preferências sexuais ou seu estado de saúde. Com essas informações, o aplicativo os ajuda a encontrar pessoas compatíveis. Os usuários geralmente não percebem que esses dados também são vendidos para outras empresas.

Foi exatamente isso que supostamente aconteceu com o Grindr, um aplicativo de encontros voltado explicitamente para a comunidade LGBTQ+. Cerca de 12.000 usuários do aplicativo processaram a empresa no Reino Unido por supostamente transmitir informações pessoais altamente sensíveis a anunciantes. Em alguns casos, isso incluía até mesmo o status de HIV dos usuários .

A batalha judicial acaba de terminar com um acordo totalizando 26 milhões de libras, embora o Grindr negue qualquer responsabilidade. Em outras palavras, eles pagaram uma quantia substancial, mas não houve admissão oficial de culpa, nem condenação. Segundo o quê?


Para nós, usuários, um aplicativo é antes de tudo um produto útil, mas por trás dele geralmente existem também serviços em nuvem, ferramentas de análise, redes de publicidade e outros provedores de serviços. Estes armazenam e transmitem dados, os interligam e os analisam.

Muitas das grandes empresas de tecnologia, explica o especialista em políticas digitais Jan Penfrat, queriam "tornar o mais difícil possível para os usuários e autoridades de supervisão entenderem quais dados cada entidade coleta em nossos dispositivos e para qual finalidade".

Todo mundo sabe disso: um aplicativo — por exemplo, um serviço de mensagens — instala-se rapidamente e, quando surge a questão sobre se os dados pessoais podem ser usados , os usuários geralmente clicam em "Sim". Quem quer ler páginas e páginas de políticas de privacidade?
Imagens de conversas privadas

Mas o problema está nos detalhes. Por exemplo, o WhatsApp acessa os contatos do smartphone durante a instalação. Isso significa que os números de telefone de pessoas que nem sequer usam o WhatsApp e que nunca consentiram em compartilhar seus contatos também são transmitidos para os servidores.

O serviço de mensagens Discord coleta todas as mensagens de texto, imagens e links enviados por seus usuários — mesmo em chats privados — a menos que eles se oponham explicitamente a essa prática. Somente após anos de reclamações, em maio de 2016, o Discord introduziu a criptografia para gravações de voz e vídeo.

Quanto maior e mais interconectada for uma empresa, menos se trata de pontos de dados individuais e mais se trata de padrões: "O Google controla muitas partes diferentes de nossas vidas digitais e, por assim dizer, introduziu sistemas de coleta de dados e vigilância em praticamente todos os níveis", explica Penfrat.

"Isso começa com o hardware, quando o Google fabrica seus próprios telefones, e continua com o sistema operacional, ou seja, o Android, que já possui um identificador de publicidade único e permanente que identifica cada dispositivo durante toda a sua vida útil."

A isso se somam os aplicativos que o Google gerencia diretamente e que geralmente vêm pré-instalados: Gmail, agenda de endereços, contatos, calendário e, por último, mas não menos importante, o Google Maps, "onde você pode registrar os locais onde as pessoas estão a cada minuto. E tudo isso acaba formando parte de um enorme perfil."

O Google é apenas um dos muitos fornecedores. "É um mercado global gigantesco, de bilhões de dólares, onde os perfis de dados pessoais das pessoas são simplesmente negociados."

A União Europeia já possui uma das regulamentações de proteção de dados mais rigorosas do mundo. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) visa proteger os dados pessoais e a privacidade dos indivíduos.

Outras leis digitais da UE, como a Lei dos Mercados Digitais e a Lei dos Serviços Digitais, visam impedir que grandes empresas de tecnologia abusem do seu poder contra empresas e utilizadores. Estas leis também devem ser respeitadas pelas empresas americanas quando oferecem os seus serviços a pessoas na Europa ou monitorizam o seu comportamento.

Mas um controle verdadeiramente eficaz por parte da UE não é tão simples: as gigantes da tecnologia possuem infraestruturas globais, enormes recursos financeiros e modelos de negócios complexos. As autoridades europeias teriam primeiro que penetrar e compreendê-las.

A isso se soma a própria dependência da Europa: serviços em nuvem, sistemas operacionais, plataformas e, cada vez mais, também a infraestrutura de inteligência artificial são — pelo menos até agora — fornecidos em grande parte por empresas americanas .

Então, o que um consumidor pode fazer? Jan Penfrat menciona duas regras básicas: "Uma é sempre me perguntar: qual é o modelo de negócios? Como o dinheiro é ganho aqui? E aqui se aplica a frase de ouro: 'Se eu não pagar, eu sou o produto'."

Clima extremo afeta o bolso do consumidor no mundo

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta. Essa mudança climática se manifesta em eventos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais. Mas menos evidentes são os preços mais altos e os salários menores associados a um mundo cada vez mais quente.

Segundo um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law, as mudanças climáticas já elevaram as despesas médias das famílias americanas em 900 dólares (cerca de R$ 4,6 mil) por ano, chegando a mais de 1,3 mil dólares em um de cada dez condados dos Estados Unidos.

Esses custos não existiriam em um mundo sem mudanças climáticas. Eles incluem o aumento dos seguros residenciais (em média 600 dólares mais caros), a elevação de impostos estaduais e federais devido aos custos de recuperação de desastres ou aos impactos da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde, por exemplo.

"A inação climática não é apenas um fracasso ambiental; ela funciona como um imposto sobre todas as famílias americanas", escreveram os pesquisadores.


Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estimou que os danos das mudanças climáticas à agricultura, à infraestrutura e à saúde, bem como as perdas de produtividade, podem custar à economia mundial 38 trilhões de dólares por ano até 2050.

Mas de que forma os eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças do clima já afetaram salários e orçamentos familiares?

"Se não conseguirmos descobrir quanto as mudanças climáticas já estão nos custando com os dados que temos, projetar o futuro se torna quase impossível", afirmou Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, que estimou uma redução de 12% na renda dos americanos à medida que as temperaturas globais aumentaram. A comparação é feita com um cenário sem mudanças climáticas.

Lemoine mostra como extremos de temperatura em um condado dos Estados Unidos estão provocando impactos econômicos em cascata em localidades distantes com clima mais ameno, devido à interconexão do comércio e das cadeias de suprimentos.

"Muitos estudos analisam as mudanças climáticas como se elas alterassem o clima em apenas um ano e em um único lugar por vez", disse Lemoine à DW.

Em vez disso, ele busca entender como, se uma onda de calor destruir plantações de milho em todo o território americano, outras indústrias que dependem desse milho, incluindo produtores de gado e de alimentos, serão afetadas à medida que a commodity se tornar mais escassa e mais cara.

"À medida que os custos [dos produtores afetados em toda a cadeia de suprimentos do milho] aumentam", disse Lemoine, "isso fará com que a renda de todos os que dependem deles diminua".

Os impactos do clima sobre o comércio também já são sentidos na Alemanha, onde os níveis recordes de baixa do rio Reno, a via navegável interior mais movimentada da Europa, podem reduzir em até 0,2% a produção econômica alemã no terceiro trimestre de 2026, observou o Instituto Kiel para a Economia Mundial em julho.

O clima seco prolongado associado às mudanças climáticas é o responsável, já que a capacidade de transporte caiu para apenas 15% em alguns trechos do rio que conecta o maior porto da Europa, em Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste da Alemanha.

Um estudo australiano também analisa como mudanças climáticas amplas, e não apenas choques locais provocados por eventos extremos isolados, levaram gradualmente à queda da produtividade e da produção econômica.

Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales, na Austrália, foi coautor de um relatório que mostra que o aquecimento global reduziu a produção econômica do estado de NSW em cerca de 18% em média, o equivalente a 21.288 dólares australianos (cerca de R$ 80 mil) por pessoa em 2024.

"Os danos já foram bastante severos", disse Neal à DW, acrescentando que, em um cenário sem aquecimento global, os cidadãos teriam "preços mais baixos para os alimentos" e "menos pobreza".

O relatório menciona secas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 que reduziram a produtividade em todo o estado em até 10 bilhões de dólares australianos, devido à queda das colheitas e da renda agrícola, ao aumento dos custos da água e à maior dependência de assistência governamental.

Esses impactos financeiros se acumularam ao longo do tempo em toda a economia do estado, influenciando os custos de alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura.

Nas palavras do relatório, esses efeitos também "agravam pressões econômicas já existentes e contribuem para ampliar as disparidades entre regiões", o que significa aumento da desigualdade de renda e riqueza.

"A ação climática não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma decisão economicamente sensata", afirmou Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, que trabalha para descarbonizar o estado e encomendou o estudo citado acima.

Ao se referir a "investimentos defensivos contra as mudanças climáticas", como o reforço de estradas, ferrovias e infraestrutura de transporte marítimo para adaptação a um mundo mais quente, Jotzo acrescentou que "se não fosse pelas mudanças climáticas, poderíamos estar investindo esse dinheiro e esse esforço em outras coisas".

No entanto, medidas de adaptação, como a ampliação das áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor, serão fundamentais para evitar impactos econômicos muito mais severos no futuro.

As ondas de calor europeias de 2026, por exemplo, já custaram cerca de 180 bilhões de euros (R$ 1,06 trilhão), valor equivalente a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano, segundo uma análise.

A adaptação também envolverá o fortalecimento do sistemas de saúde e da rede hospitalar para enfrentar os efeitos das ondas de calor, que reduzem a produtividade à medida que trabalhadores submetidos ao estresse térmico se cansam mais rapidamente ou têm dificuldade para dormir, observou Jotzo.

Mas Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é tão "cara por si só" que pode agravar a perda de renda e ser ineficaz se não for implementada de forma abrangente.

Somente quando "todos os lugares" estiverem protegidos dos eventos climáticos extremos, será possível enfrentar os impactos econômicos em cascata, diz ele.

Ainda assim, tanto a adaptação quanto uma rápida redução das emissões que aquecem o planeta são necessárias para evitar perdas de renda impulsionadas pelas mudanças climáticas, que tendem a se agravar se o aquecimento global ultrapassar as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

"Mudanças climáticas sem controle criariam um peso permanente sobre os salários e a produtividade", concluiu Jotzo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Escândalo do Master vai eleger quem tomou dinheiro de Vorcaro?

O escândalo do Banco Master pode dar votos ao único candidato que tomou dinheiro de Daniel Vorcaro? É o que parece acontecer na eleição presidencial, a julgar pelas pesquisas divulgadas nos últimos dias.

Dos 12 concorrentes, só Flávio Bolsonaro figura como beneficiário direto do esquema. Ele é investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro, a quem chamava de “irmão”.


Ao ser questionado sobre o rolo, o senador simulou indignação: “É mentira! De onde você tirou isso?”. Quando ficou claro que o mentiroso não era o repórter, ele mudou de tom e alegou ter pedido patrocínio para o que descreveu como uma “obra-prima”.

Flávio nunca apresentou a prestação de contas que prometeu. Tampouco explicou como uma fita capenga, produzida pelo astro de “Floribella”, poderia se tornar o filme mais caro da história do cinema brasileiro.


Poupado das operações policiais que atingiram outros políticos da lista de Vorcaro, o senador conseguiu recuperar os pontos que perdeu em maio, quando o “Dark horse” saiu da cocheira. Agora aparece em empate técnico com Lula nas simulações de segundo turno.

Há algumas explicações na praça para o paradoxo do Master. A principal, aceita pelas duas campanhas, sustenta que Flávio é o maior beneficiário da crise no Supremo. A percepção de que até a cúpula do Judiciário se envolveu em corrupção tende a favorecer políticos que apostam no discurso antissistema. O pai do senador já surfou essa onda em 2018, no auge da Lava-Jato.

O fato de Alexandre de Moraes estar no centro das suspeitas também impulsiona o candidato do PL. O ministro foi indicado por um presidente de direita, mas se notabilizou como o homem que prendeu Jair Bolsonaro. Seu derretimento respinga na imagem de Lula, ainda que o presidente tente se distanciar do caso.

Por fim, é difícil não notar a mão amiga de André Mendonça em favor de Flávio. O ministro ocultou por quase dois meses a informação de que o presidenciável era investigado pela PF. E ainda protegeu três colegas citados no celular de Vorcaro enquanto lançava Moraes sozinho na fogueira.

A chuva já tem dono

Há uma decisão que saiu no início deste mês nos Estados Unidos e que merecia mais atenção do que teve. Um tribunal federal de recurso, reunido em plenário, decidiu que a Constituição americana não garante o direito a beber água limpa. E, no mesmo passo, decidiu que também não garante o direito a que o Estado diga a verdade aos cidadãos quando a água está contaminada.

O caso é em Jackson, no Mississippi, uma cidade onde a água que saía das torneiras tinha chumbo e onde os residentes sustentam que a autarquia sabia e deixou correr. Foram a tribunal e perderam. O juiz relator explicou-lhes, com uma serenidade que impressiona, que têm alternativas: podem intentar ações de responsabilidade civil, podem eleger autarcas que giram melhor o sistema, podem dirigir petições aos seus representantes. Pessoas que beberam chumbo durante anos receberam, como resposta do direito, um convite para participar na vida cívica.


O que me inquieta não é a indignação fácil que a decisão provoca. É perceber que os dez juízes da maioria não estão a inventar nada. A Constituição americana não fala de água. Foi escrita no século XVIII por homens para quem a água era como o ar: estava lá, e não se escreve numa constituição o direito a respirar. Os direitos que não se escrevem são precisamente os que parecem mais seguros, e são os primeiros a cair no dia em que alguém os põe em causa num tribunal. Ninguém escreveu o direito à água porque ninguém acreditou que fosse necessário. Agora que é necessário, não está lá.

Houve um tempo em que não era preciso. Nas Instituições de Justiniano, o ar, a água corrente, o mar e as praias são coisas comuns a todos por direito natural, e ninguém pode ser dono delas porque pertencem à condição de estar vivo. Esta ideia atravessou quinze séculos de direito europeu e chegou às nossas leis, que dizem que a água é um bem público. O problema é que, entre a afirmação de princípio e a prática, foi-se abrindo um espaço, e é nesse espaço que hoje se decide quase tudo.

Desde dezembro de 2020 que a água tem cotação na bolsa de Chicago. O CME Group, o mesmo mercado onde se negoceia o trigo, o petróleo e o ouro, lançou o primeiro contrato de futuros sobre água, indexado ao preço a que se compram e vendem direitos de água na Califórnia. Um agricultor que teme um verão seco compra hoje a água de junho. Um fundo de investimento que aposta na seca compra também. Convém dizer isto sem exagero, porque o exagero não ajuda: o contrato serve para gerir risco, e gerir risco é uma atividade legítima. Mas o efeito de fundo é este: a escassez de água passou a ser uma posição financeira, e há quem ganhe quando falta. Não por maldade, mas porque o sistema em que trabalha o recompensa por isso.

Depois há o Colorado, onde a história é mais reveladora precisamente porque é menos dramática. Circulam nas redes muitas histórias sobre estados americanos onde é proibido apanhar água da chuva, e a maior parte delas são falsas. A verdade é mais estranha do que o boato. No Colorado, até 2016, era efetivamente ilegal pôr um barril debaixo do algeroz. Hoje é permitido, até dois barris, e nem uma gota mais. Naquela parte do mundo a água pertence a quem primeiro a reclamou, e a chuva que cai no meu telhado, se eu a apanhar, não chega ao rio de quem detém esse direito. A chuva já tem dono antes de tocar no chão. Não é uma metáfora, é um regime jurídico com um século de tribunais a sustentá-lo.

Conto isto porque tendemos a olhar para estes casos como excentricidades americanas, e não são. São o fim de um caminho que começa sempre no mesmo sítio: no momento em que uma comunidade deixa de pensar na água como condição de vida e passa a pensar nela como recurso a gerir. E nós já estamos nesse caminho, mais adiantados do que gostamos de admitir.

Em Sines, está a nascer um dos maiores campus de centros de dados da Europa, pensado para a Inteligência Artificial, com investimento anunciado da Microsoft. Diga-se com justiça o que está bem feito: o arrefecimento faz-se com água do mar, captada e devolvida ao oceano, e não com água doce, o que é uma escolha melhor do que a de muitos centros de dados pelo mundo fora, que evaporam milhões de litros de água potável para arrefecer servidores. Mas há duas perguntas que ficaram por fazer em voz alta. A primeira é de escala: quando o campus estiver completo, passarão por ele mais de um milhão de metros cúbicos de água do mar por dia, devolvidos ao mar até três graus mais quentes, e ninguém sabe ainda muito bem o que isso faz a uma costa. A segunda é de poder: em fevereiro deste ano, o Governo publicou um decreto-lei que alarga os poderes exclusivos de uma empresa pública sobre a água na região de Sines, para responder à procura industrial gerada por projetos como este, e retirou à EDP os canais de água do mar que servem o centro de dados. A EDP foi para tribunal. Repare-se no que aconteceu: a água daquela região foi reorganizada, por decreto, em função de quem a vai precisar em grande quantidade. Pode ser a decisão certa, mas ninguém perguntou publicamente qual é a ordem das prioridades quando a água não chegar para todos, e Sines fica no Alentejo, numa zona já pressionada pela agricultura intensiva, e não é preciso muita imaginação para ver o dia em que a pergunta deixa de ser teórica.

E é aqui que a decisão de Jackson deixa de ser uma notícia distante. Em 2010, as Nações Unidas reconheceram o acesso a água potável e ao saneamento como direito humano. A Eslovénia, em 2016, inscreveu esse direito na sua Constituição com duas frases que eu gostava de ver noutras: os recursos hídricos são um bem público gerido pelo Estado e, na parte em que servem para abastecer a população, não são uma mercadoria. A nossa Constituição não o diz. Tem o direito ao ambiente e o direito à saúde, tem a Lei da Água, tem um decreto-lei de 2023 que obriga o Estado a identificar quem não tem acesso à água e a corrigir isso. É tudo lei ordinária, e a lei ordinária altera-se com uma maioria numa tarde. O direito à água, em Portugal, não está escrito onde não se possa apagar.

Não é preciso ir muito longe para ver como as prioridades mudam depressa. Em janeiro de 2024, as barragens do Algarve estavam a um quarto da capacidade, cortaram-se consumos à agricultura, ao turismo e às casas, expropriaram-se terrenos em Albufeira para uma dessalinizadora, e o processo anda desde então pelos tribunais. Este ano choveu, as barragens recuperaram e, a 30 de abril, o primeiro-ministro anunciou em Beja, numa conferência de imprensa sem perguntas, que “em Portugal não temos falta de água, temos é falta de capacidade de armazenar esse recurso”, e anunciou uma sociedade anónima para coordenar os projetos do programa Água que Une, com mil e quinhentos milhões de euros já em aplicação na área da água. Não é a empresa que me preocupa. É a gramática: em 2024 a água era uma emergência que justificava cortes e expropriações; em 2026 é um recurso que justifica uma empresa; em nenhum dos dois momentos alguém perguntou de quem é, nem quem fica em primeiro lugar quando não houver para todos.

Há coisas concretas que se podiam fazer, e nenhuma delas é radical. Escrever o direito à água na Constituição, como fez a Eslovénia, para que nenhum tribunal tenha um dia de dizer o que disse o de Jackson. Fixar em lei, de forma clara e pública, a ordem de prioridade dos usos em situação de escassez, com o abastecimento humano em primeiro lugar e sem exceções negociadas à porta fechada. Tornar públicos os contratos e as licenças de captação dos grandes consumidores industriais, para que se saiba quanta água foi prometida a quem e por quanto tempo. E exigir que qualquer projeto que precise de água em grande escala responda, antes de ser aprovado, a uma pergunta simples: em ano de seca, quem cede?

A água é de todos. Foi isso que dissemos durante quinze séculos, é isso que a nossa lei ainda diz. A questão que se coloca agora, em Sines, no Algarve, em Chicago e em Jackson, é se continua a ser para todos, ou se vai sendo, discretamente e com boas razões, cada vez mais para alguns.

Hoje à noite pode chover. Se chover no Colorado, a água que cai no telhado já tem dono. Se chover em Jackson, ninguém garante que se possa beber. Se chover em Sines, vale a pena perguntar para onde vai.

Estamos mudos e isolados

Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra-pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.
Franz Kafka, "Conversas com Kafka"

O que o caso do Banco Master coloca em cena?

Que o corpo-notícia das mulheres tem sido colocado em cena nas mídias brasileiras como vítima de violências físicas e simbólicas, todos já sabemos. São notícias que, de tão recorrentes, parecem ter perdido a capacidade de nos espantar, já fazem parte de nossa paisagem (habitual e naturalizada), como herança maldita. Feminicídios, violências sexuais, domésticas, obstétricas e digitais, entre tantas outras formas que constituem algumas das portas de entrada pelas quais o corpo feminino é produzido como notícia.

Mas, recentemente, com o escândalo do Banco Master, o corpo-notícia das mulheres parece adquirir outro modo de aparecer: o corpo-business. No caso em questão, o corpo da mulher é noticiado não mais como corpo-vítima, violentado, silenciado ou morto, mas como empreendimento e entretenimento no circuito político-empresarial masculino. O corpo feminino passa a operar como elemento estético em uma cena pública atravessada por poder, dinheiro e masculinidade patriarcal.


A escritora Bell Hooks, no livro A vontade de mudar: homens, masculinidade e amor, mostra que o problema não é a existência da masculinidade em si; é o modo como o patriarcado produz um determinado modelo de ser homem. Não se trata de uma identidade, mas de um regime de aprendizagem do próprio poder. Esse regime inclui demonstrar masculinidade, virilidade, portanto, poder, diante de outros homens. Os homens, particularmente no mundo dos negócios, exercem essa pedagogia pelo exercício de dominação, controle, invulnerabilidade. Um certo “posso tudo” e, nesse poder do “tudo”, o corpo da mulher é o objeto do consumo pelo qual se pode pagar. Corpo que é partícipe dos próprios circuitos políticos de troca e negociação. Crédito: Circuito Fora do Eixo

Mas, como as mulheres aparecem no caso Master? Para quem apareceram e sob quais condições seus corpos foram convocados a aparecer?

Na coluna da Folha de São Paulo, publicada em 12 de setembro de 2026, o jornalista Elio Gaspari, no que chama de As camas do Master, aponta a presença de mulheres, dentre elas, russas, ucranianas e convidadas do Leste Europeu em festas patrocinadas pelo banqueiro Vorcaro. Era o próprio banqueiro, nos termos do jornalista, que avaliava as mulheres categorizando-as como “wow”, “loirinha top” ou de “+”.

O texto retrata, ainda, que, em mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal (PF), sua ex-noiva reclamou porque o banqueiro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava “putas”. E, em reposta, o banqueiro respondeu que “Fazia parte do meu ‘business’”.

A reportagem da Piauí, publicada em 10 de setembro de 2026, A festa das “suíças” de Vorcaro, afirma: “Vorcaro fazia das festas uma forma de estreitar laços, conquistar aliados e agradar figuras da República estratégicas para os seus interesses”. A festa contou com a presença de 20 homens e 120 mulheres, e a preferência era por “só menina nova”.

Essa questão abre um debate sobre idade e sobre o tempo inscrito no corpo de mulheres. Havia um desejo dos homens de negócios por meninas novas, como se o corpo-novo significasse um capital simbólico maior, talvez um maior poder de barganha. O corpo de uma mulher mais velha é produzido por esse circuito patriarcal como um corpo de menor valor simbólico no interior de uma hierarquia social e patriarcal dos corpos.

Esse corpo-novo aparece nas reportagens como certo mecanismo de networking masculino, como uma moeda de troca equivalente à propina, uma dimensão simbólica do poder que vê no corpo feminino jovem um capital corporal representado por beleza, vigor, disponibilidade e valor.

Judith Butler, filósofa e teórica estadunidense, tem se dedicado a pensar o conceito de aparecimento e, para ela, existem regimes que determinam quem pode ou não aparecer e, mais ainda, como um dado corpo pode aparecer. No caso do empreendimento econômico e político do Banco Master, o aparecer para esses corpos-novos não era um fenômeno meramente visual e sexual; era tornar-se corporalmente disponível ao olhar e ao desejo de posse do próprio poder.

O corpo-business da mulher entra nessa cena como um signo de luxo, num espaço em que o poder patriarcal se reconhece naquilo que a psicóloga e pesquisadora do campo da saúde mental, Valeska Zanello, no seu livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, chama de “broderagem”. Ou seja, não era simplesmente uma festa com mulheres bonitas; havia um pacto feito entre os homens como forma de sociabilidade, cumplicidade, aliança e proteção mútuas, como pode ser visto no trecho de uma das mensagens divulgadas pela Revista Piauí: “Irmão, a ideia da Allure é boa, mas não queria ninguém de fora nessa festa. De homem. Vai ter uma turma relevante pra mim, não quero ninguém desconfortável.” Os homens não só se reconhecem entre si, como produzem confiança e cumplicidade.

Todavia, cabe pensarmos: qual a função que o corpo feminino desempenha na estruturação do poder da masculinidade patriarcal? O corpo-business, exposto no escândalo do Banco Master, talvez seja uma resposta a essa questão, quando percebemos que se trata de um corpo-objeto por meio do qual circulam códigos, privilégios, informações, negócios, alianças políticas e capital. Essa reflexão pode nos ajudar a pensar sobre como os corpos das mulheres aparecem e são mobilizados dentro de circuitos de poder, dinheiro, prestígio, sociabilidade masculina e coroamento narcísico dos homens poderosos.

No meio político e dos negócios, como o homem demonstra eficácia? Que dispositivo faz essa masculinidade patriarcal operar uma engrenagem luxuosa e cara, apostando em festas milionárias com mulheres bonitas como espelho do luxo e signo da sofisticação?

Talvez, a resposta a essa pergunta possa estar na própria pedagogia da masculinidade patriarcal, ao se demonstrar que se pode. O luxo torna-se, assim, uma linguagem do poder.

Voltando à escritora Valeska Zanello, a masculinidade é organizada por duas formas: a laborativa, como aquela que faz o homem ser bem-sucedido, produtivo, acumulador de capital, como status social e reconhecimento; e, por outro lado, a masculinidade, que precisa demonstrar a potência sexual e certa a capacidade de mostrar uma sexualidade considerada viril. Essa performance nas festas e no agenciamento de mulheres seria um cruzamento dessas duas dimensões? Seria uma forma de chancela e reconhecimento na sociabilidade masculina desse dispositivo de eficácia, que envolve trabalho e virilidade?

As mensagens que foram divulgadas nas mídias mostram que dinheiro, poder, trabalho, política, status, sexualidade, beleza e desejo não estão apartados da produção da masculinidade e, portanto, das formas espiralares de fazer circular politicamente o poder, que encontram no corpo-business da mulher uma de suas passagens.

O que não se esperava era que o corpo-business viesse a se transformar em corpo-notícia. A espetacularização foi, assim, uma segunda dobra da objetificação. E aqui vemos, mais uma vez, o corpo da mulher produzindo interesses midiáticos, despertando curiosidades nas redes sociais, sejam sobre as mulheres que participaram das festas, sejam das mulheres que situadas na vizinhança de um circuito de poder masculino, também despertaram interesses da mídia, como é o caso da ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, e de Patrícia Abravanel, esposa de Fabio Faria. Assim, pode-se perceber que o corpo feminino, mesmo quando não é causa do acontecimento, é sugado para dentro da notícia e do mesmo modo, espetacularizado.

Contudo, o que antes circulava como parte de uma sociabilidade político-empresarial masculina privada, passa a circular como espetáculo público. Mais uma vez a mulher é colocada em cena, agora como corpo-objeto de curiosidade, especulações e julgamentos morais.

Muda-se o cenário, mas não a lógica do uso de um corpo-mulher-objeto-business-notícia que pode ser exposto.

Inferno astral à moda brasileira

Ao escrever Os Demônios (Rússia, 1873), Dostoiévski não queria falar sobre fenômenos espíritas, tampouco sobre exorcismo. Os demônios a que se referiu assombravam o bolso e a panela do povão russo quando o czarismo respirava por aparelhos. Em plena efervescência das democracias liberais e da contagiante Belle Époque, os russos também viviam sua ebulição cultural, animados pelos ecos do iluminismo europeu. A Revolução Gloriosa na Inglaterra, a Independência Estadunidense e a Revolução Francesa encontravam correspondência no mundo todo, especialmente no quintal dos truculentos Romanov.


Curiosamente, os demônios que frequentavam as mentes russas eram os mesmos que tiravam (e ainda tiram) o sossego de outras nações, apesar da derrocada monarquista mundo afora. A diferença estava no fato de que, nas democracias que sucederam o absolutismo, tais demônios haviam perdido força, ou abrandado suas feições. Nos dias de hoje, por exemplo, Dostoiévski facilmente enxergaria os demônios, que ainda atormentam a democracia resiliente da Ilha da Vera Cruz. Possivelmente seria atual para nós o parágrafo: “Esses demônios […] são todas as chagas […] que se acumularam na nossa Rússia (ou Brasil?) para todo o sempre”. Certamente por isso mesmo, alguns anjos decaídos, inclusive brasileiros, ainda queiram devolvê-lo às prisões da Sibéria, um século e meio depois de sua morte.

Por sua vez, no auge da II Guerra Mundial, o inglês C.S. Lewis publicou o surpreendente “A Abolição do Homem” (Oxford University, 1944), no qual nos apresentava o que podemos chamar de a outra bandinha da laranja dos “Demônios”. Lewis se referia ao “Tao da política” – algo que podemos resumir como sendo o espírito democrático em sua mais elevada manifestação. Segundo o britânico, ali no fogo cruzado da incubadora da guerra fria, o Tao democrático já vivia sob bombardeio cerrado de todo tipo de golpistas, de direita e de esquerda. Lewis e Dostoiévski enxergavam, a partir de ângulos de visão e épocas diferentes, que as privações de bem-estar sofridas pelas camadas mais vulneráveis da sociedade eram intencionais, seja em favor da nobreza, dos magnatas capitalistas, dos gabinetes fascistas ou do recente establishment comunista.

O processo é cíclico, pendular. Muitas vezes sutil. A democracia vaivém, sobe-desce, cai-não-cai, até hoje. Por aqui, a coisa parecia melhorar, ainda que fosse aos trancos e barrancos, até o golpe parlamentar(ista) sofrido por Dilma Rousseff. Desde então, “lá vem o Brasil descendo a ladeira”, perdendo os freios… e contrapesos, surfando na onda internacional do extremismo neofascista. Dá pena ver a república enganchada em um Parlamento que governa e desgoverna por meio de orçamentos secretos bilionários. É de ficar triste testemunhar o desmonte premeditado e autofágico da Suprema Corte “em tenebrosas transações”. Renato Russo tinha razão. “Festa estranha, gente esquisita, eu não tô legal”. Felizmente, enquanto persistem por aqui capetas tropicais como o golpismo, o negacionismo, a corrupção, desigualdade social, crime, devastação ambiental e outros de legiões semelhantes, os alertas de Os Demônios ainda apavoram diabretes desde a Faria Lima até Sinop. Cabe às forças do naipe político progressista e da sociedade civil se reorganizarem de modo independente, para além do Estado e com o Estado, retomando as rédeas da transformação social que ainda temos razões para valorizar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Como Flávio Bolsonaro planeja dominar o STF. É isso o que você quer?

Desde que o mar de lama começou a tragar o Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Bolsonaro apregoa, dia sim, dia não, que, caso se eleja presidente da República, submeterá ao crivo do Senado cinco novos nomes para ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Caso se eleja, não. Ele dá sua eleição como algo certo, sem sequer precisar disputar o segundo turno. Para tanto, aposta no voto útil que abandonará seus demais concorrentes da direita.

Três dos atuais ministros atingirão a idade limite de 75 anos ao longo do próximo mandato presidencial: Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (dezembro de 2030). Há uma vaga aberta no STF desde que Luís Roberto Barroso se aposentou precocemente em 2025. Para fechar o número de cinco indicações, Flávio afirma que trabalha com a hipótese de impeachment ou destituição de Alexandre de Moraes. É tudo o que ele quer.

O filho do único ex-presidente do Brasil condenado por tentativa de golpe de Estado tem reiterado que seus escolhidos serão homens e mulheres “defensores da Constituição”, com perfil conservador, posicionando-se de forma contrária ao aborto e à descriminalização das drogas. Se tudo acontecer como ele imagina, ao final do seu mandato, contará com a simpatia de 7 dos 11 ministros do tribunal, incluindo-se aí André Mendonça e Nunes Marques.

Considerando toda a história do Brasil, o presidente que indicou o maior número de ministros para o STF foi Getúlio Vargas, com um total de 21 nomeações. Ele governou o país em dois períodos diferentes: de 1930 a 1945, como ditador, e de 1951 a 1954, como presidente eleito pelo voto popular. Logo atrás de Vargas no ranking histórico, aparecem os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ambos com 15 indicações cada um.

Lula indicou 10 ministros para o STF ao longo de seus três mandatos – 8 nos dois primeiros e 2 no terceiro. Dos 10, apenas 4 ainda permanecem lá: Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Quis emplacar Jorge Messias na vaga de Luís Roberto Barroso, mas o nome dele foi rejeitado pelo Senado. Duas vezes presidente, Dilma Rousseff não teve esse problema, tendo indicado 5 ministros. Destes, apenas 2 seguem no cargo: Luiz Fux e Edson Fachin.

Se você pretende votar em Flávio para presidente, não tem com que se preocupar. Se ele se reeleger em 2030, no mínimo indicará mais um ministro para o STF na vaga que se abrirá com a aposentadoria de Fachin. Só não venha, depois, a se queixar.

As muitas derrotas da Suprema Corte

O grupo do ministro Alexandre de Moraes se acha vitorioso porque conseguiu deter o procedimento contra Moraes. O grupo do ministro André Mendonça pode avaliar que saiu vencedor porque até a tibieza em plenário ajuda a construir a ideia de que ele luta contra o sistema, uma espécie de Davi contra Golias. Mendonça fortaleceu seu ponto porque ao acusar a Polícia Federal, sem prova, teve o apoio do ministro Luiz Fux. Contudo, todos os vitoriosos nas batalhas pontuais perderam a guerra.

A exposição das brigas tóxicas entre os ministros do Supremo Tribunal Federal enfraquece a confiança na democracia a 17 dias das eleições. E não é porque a sessão foi aberta, e sim porque o comportamento dos ministros foi deplorável. Eles que encarnam a instância máxima do poder atiraram contra a própria cidadela. O país que sobreviveu a um golpe de Estado há menos de quatro anos — tendo a ação da Suprema Corte como parte fundamental da resistência — pode estar no umbral de um novo atentado. E agora, chancelado pelas urnas.


E o eleitor, Excelências? O que devemos pensar nós, os eleitores, que estamos no caminho das urnas para decidir quem nos governará nos próximos quatro anos? Vale a pena manter um sistema de Justiça em que ministros se envolvem em maior ou menor grau com um trambiqueiro da pior laia? Ou é melhor se entregar ao primeiro discurso antissistema, ao primeiro aventureiro que aparecer com a ideia de fechar o STF?

Em julho de 2018, o então deputado Eduardo Bolsonaro disse que poderia fechar o Supremo com um cabo e um soldado. O grupo foi eleito e realmente tentou fechar o STF. Primeiro, com uma campanha contra o processo eleitoral, e tendo como alvo alguns ministros, como Alexandre de Moraes. Depois, conspirando com militares para primeiro levantarem dúvidas sobre o TSE e por fim organizarem a tomada de poder. A conspiração não deu certo. Até quando?

O bolsonarismo jamais admitiu o crime e disse que os condenados, entre eles o ex-presidente, são vítimas. O primeiro filho de Jair Bolsonaro concorre com chances de vitória. Os demais candidatos de oposição prometeram anistia para os envolvidos na trama antidemocrática. O ministro do STF que conduziu a condenação dos golpistas, Alexandre de Moraes, é suspeito de ter recebido mensagens estranhas do banqueiro corruptor. E há o contrato entre a sua mulher e Daniel Vorcaro. Em vez de explicar tudo ao país, Moraes prefere gastar sua grande energia em escaramuças no plenário.

O ministro André Mendonça afirmou que há uma Polícia Federal paralela, esquecido de que trabalhou num governo, e por ele foi indicado ao Supremo, que tinha o objetivo, explicitado em reunião ministerial pelo presidente da República, de ter um sistema de informações paralelo. Mendonça não apresenta fatos para a sua acusação e a derruba na prática quando usa exatamente o que ele chama de “achado da Polícia Federal” para embasar seu procedimento contra Alexandre de Moraes. O ministro Luiz Fux vai além e, igualmente sem provas, diz que a PF está “peitando” o Supremo.

O ministro Gilmar Mendes chegou ao decanato sem o equilíbrio que a idade costuma trazer. Mantém inalterados seus métodos e temperamento mercurial. Ele pode ter razão quando alerta para a coincidência da data política e a possível intenção eleitoral da ação de Mendonça. O ministro Mendonça primeiro tirou o sigilo do relatório da Polícia Federal contra Moraes, depois o encaminhou ao presidente da Corte. Mas Gilmar Mendes consegue desprover-se da própria razão pela absoluta falta de temperança. Seu tom nas mensagens de WhatsApp para os colegas é ainda mais corrosivo.

O ministro Flávio Dino pode se achar vitorioso. Ele agora controla o tempo, já que pediu vista. Fez questão de mostrar que achou fraca a condução de Edson Fachin, só que desde o começo atuou para enfraquecer a liderança, sem ficar claro o que o país ganharia com isso. Mostrou nos seus muitos apartes um farto conhecimento jurídico, mas falhou na estratégia.

Em que ponto mesmo querem chegar os ministros que se acham vitoriosos? Se era para erodir a confiança da cidadania no Tribunal, eles acertaram. Deixam a instituição vulnerável no momento em que golpistas não arrependidos podem voltar ao poder pelo voto. Essa feia sessão do Supremo permanecerá parada no ar enquanto eleitoras e eleitores tomam sua decisão de voto, ou mesmo de não participar do processo eleitoral.
Míriam Leitão

América Latina: A ascensão da direita e a memória histórica

Condenado a mais de mil anos de prisão em mais de 80 sentenças confirmadas pela Suprema Corte do Chile, o ex-oficial militar Miguel Krassnoff, de 80 anos, está encarcerado desde 2005 por sequestro, tortura e desaparecimentos forçados durante a ditadura. Em seus escritos, ele não demonstra nenhum remorso — "Não preciso de indultos nem favores", afirmou recentemente em uma carta — e continua a justificar a repressão do regime de Augusto Pinochet .

Krassnoff é um dos condenados por violações dos direitos humanos cujos casos poderiam ser perdoados, uma medida atualmente em análise pelo presidente chileno José Antonio Kast. O líder da extrema-direita e defensor da ditadura afirmou que analisará cada caso individualmente, por razões humanitárias. A medida gerou forte oposição por parte das famílias das vítimas e de organizações de direitos humanos.

Assim como Krassnoff, a maioria dos condenados por crimes contra a humanidade no Chile "foram julgados em vários casos, em vários julgamentos", disse Elizabeth Lira, do Centro de Direitos Humanos da Universidade Alberto Hurtado (UAH) do Chile. A professora de psicologia da UAH indica que "é muito problemático para o conceito de integridade e segurança institucional quando os procedimentos civilizados de um país para processar os responsáveis ​​por crimes atrozes são substituídos por uma decisão política do poder executivo".

"De uma perspectiva histórica e voltada para o futuro, acho que é um péssimo sinal pensar que crimes contra a humanidade possam ser perdoados, porque isso também contraria o compromisso do Estado de garantir a não repetição", alerta Elizabeth Lira.


“Medidas de impunidade tão severas quanto o indulto acarretam um custo político significativo para os governos, mesmo os de direita. Os julgamentos no Chile e na Argentina, apesar das dificuldades, são processos relativamente bem estabelecidos”, disse Verónica Torras, diretora da Memoria Abierta, uma aliança de organizações argentinas de direitos humanos. Além disso, em relação a indultos ou outros benefícios não previstos em lei, “há uma posição unânime de rejeição”, acrescentou Torras, que também é vice-presidente do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais da Argentina.

Rainer Huhle, do Centro de Direitos Humanos de Nuremberg, acredita que a possibilidade de indulto para alguém condenado por crimes contra a humanidade exige reciprocidade: "Ou seja, um benefício que as vítimas possam esperar: uma confissão do condenado de que o que fez foi um crime, um reconhecimento de culpa, um pedido de desculpas e uma tentativa de reparação. E o mínimo de reparação é dizer a verdade sobre o que fizeram e revelar o paradeiro dos desaparecidos", disse ele. "Caso contrário, esses atos parecem humanitários, mas têm um forte viés de impunidade", enfatizou.

Se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a região da América Latina vivenciará a hegemonia da extrema direita. Tal situação não se via desde a era das ditaduras e dos governos autoritários

Em relação à possibilidade de redução de penas, ele indica que é necessário um processo, como aconteceu na Colômbia: "Se pensarmos na Jurisdição Especial para a Paz, houve reduções significativas de penas, mas em troca de um forte compromisso de dizer a verdade e pedir desculpas. Sem isso, libertar os criminosos mais perigosos me parece inaceitável."

Entretanto, um projeto de lei promovido por senadores de direita no Chile prevê a concessão de prisão domiciliar, sob certas condições, a pessoas com problemas graves de saúde e a maiores de 70 anos. A medida teria um propósito humanitário e visaria aliviar a superlotação carcerária. Críticos dessa reforma argumentam que ela beneficiaria criminosos da época da ditadura.

Em geral, a legislação atual considera que uma pessoa gravemente doente que necessite de tratamento médico com cuidados constantes deve ser transferida para outra instituição ou colocada em prisão domiciliar. "Essa é a norma em todos os países. Questiona-se qual a necessidade de uma nova lei para isso", indaga Huhle. "Se o benefício da libertação da prisão se deve a um problema de saúde devidamente documentado por médicos independentes, trata-se de uma medida humanitária, e eu não a chamaria de medida de impunidade. O importante é ter certeza de que essa é a única razão, porque já vimos que doenças também podem ser fingidas. Todos os chilenos se lembram da chegada de Pinochet ao Chile, quando ele se desfez de sua bengala", acrescenta.

Em relação à permissão de prisão domiciliar após certa idade, "é uma questão que deve ser analisada com muito cuidado, porque a idade por si só não é uma doença e não pode, por si só, ser uma justificativa para a libertação de alguém condenado por crimes contra a humanidade", observa Huhle.

A situação é diferente em alguns países, onde essa regra para toda a população carcerária já está incorporada à legislação. Na Argentina, para conceder o benefício com base na idade, os juízes devem analisar considerações como o risco de fuga e obstrução da investigação judicial em cada caso, explica Torras. Nos últimos anos, a tendência tem sido aceitar os pedidos de condenados por violações de direitos humanos. "Os pedidos foram negados em casos específicos e emblemáticos de repressores cujos crimes deixaram uma marca indelével na opinião pública devido à natureza do delito e ao seu comportamento subsequente. Hoje, praticamente 90% dos condenados por crimes contra a humanidade na Argentina gozam do benefício da prisão domiciliar. Em resposta, a posição das organizações de direitos humanos não tem sido unânime", indica Torras.

Outro fator a considerar, destaca Lira, é que no Chile muitos dos presos por violações de direitos humanos "não conseguem voltar para suas famílias, porque foram abandonados ou porque suas famílias se recusam a assumir a responsabilidade por eles. A única alternativa que o Estado tem é mantê-los presos ou em outras condições". Isso representa tanto um risco quanto um desafio.

A controvérsia não se limita ao Chile. Em meio à onda de governos de direita na América Latina, surgem disputas sobre a revisão da memória histórica e as consequências legais de crimes passados. Os governos têm optado por uma estratégia de corte de verbas públicas para políticas públicas e desmantelamento de programas. Buscam também revisar as narrativas dos museus e até mesmo colocaram negacionistas do Holocausto em posições-chave, com o objetivo de influenciar as narrativas sobre o passado recente.

"Um momento dramático está se desenrolando no Peru, onde há uma tentativa de mudar a narrativa em torno do Lugar da Memória, que foi uma vitória muito importante para as vítimas dos crimes de Estado durante o conflito armado interno e a ditadura de Fujimori. Agora, existe um discurso abertamente contrário que busca negar esses crimes, reconhecendo apenas aqueles cometidos pela insurgência. Há uma crescente anticultura da memória histórica", alerta Huhle.

Lira alerta que "quando os métodos acordados para a resolução de conflitos e a criação de condições para a paz são corroídos, juntamente com a capacidade política das instituições para recuperar a memória histórica, existe um risco muito elevado de que formas de violência que se esperava que fossem resolvidas sejam reinstauradas". A este respeito, ela vê com preocupação a redução do financiamento para o processo de paz na Colômbia e para as políticas de memória na Argentina. Entretanto, no Chile, o orçamento para o Plano Nacional de Busca (pelos desaparecidos) foi cortado e a expropriação da antiga Colonia Dignidad , onde estava previsto um memorial, foi suspensa.

"Sinto um grande desespero com tudo isso, porque é como se as pessoas que governam hoje fossem muito ignorantes em relação à história, ou tivessem decidido ignorar as consequências de não considerar essa história, por causa de suas próprias posições políticas", lamenta o acadêmico chileno.

Por sua vez, Torras acredita que o impacto não será necessariamente apenas negativo: "Frequentemente, diante de governos tão reacionários em suas posições sobre essas questões, surgem fortes movimentos de resistência dentro das sociedades". A diretora da Memoria Abierta alerta que "se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a região da América Latina vivenciará a hegemonia da extrema direita. Tal situação não se via desde a era das ditaduras e dos governos autoritários". Nesse contexto, as disputas sobre narrativas podem se intensificar, inclusive com abordagens abertamente negacionistas ou que glorificam o passado autoritário.

Nesse cenário, o maior impacto será sentido nas políticas públicas que dependem do Poder Executivo. Na esfera judicial, porém, o avanço revisionista deverá ser mais limitado, acredita Torras, pois implica um risco maior de exposição e danos à reputação desses governos em nível internacional.