sábado, 16 de novembro de 2024

A flor e a náusea


Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
Carlos Drummond de Andrade, "A Rosa do Povo"

Faz sentido cancelar o X?

Na sequência da vitória de Trump e da influência de Elon Musk na campanha eleitoral e agora na Administração, o The Guardian tomou uma decisão drástica: o jornal britânico abandonou a plataforma X (o antigo Twitter, redenominado desde que Musk passou a ser proprietário da rede). De acordo com o jornal, o X transformou-se numa rede tóxica, promotora de conteúdos racistas e de teorias da conspiração, e o seu proprietário tem utilizado a plataforma para formatar o discurso político. O The Guardian reconhece que as redes sociais são importantes para os meios de comunicação, enquanto tornam possível alcançar novas audiências. No entanto, neste momento a direção editorial considera preferível que os leitores se dirijam diretamente ao site do jornal, onde o jornalismo está disponível para todos.

O The Guardian é o caso mais significativo de uma tendência que se tem feito sentir nos últimos tempos. Desde que Musk adquiriu o X, os utilizadores têm diminuído – nos EUA, a queda é da ordem dos 30% – e só no dia seguinte às eleições norte-americanas, 280 mil pessoas abandonaram a plataforma. Os resultados financeiros também estão longe de ser famosos: pese embora a obscuridade das contas da empresa, o valor do X terá caído 75% nos últimos dois anos. O que pouco importará a Musk, beneficiário de contratos de milhares de milhões com o Estado norte-americano e agora transformado num gigantesco conflito de interesses ambulantes.

Existem de fato boas razões para abandonar o X, hoje uma miragem do que foi o Twitter. Há cerca de 15 anos, quando abri a minha conta, a informação chegava mais cedo no Twitter, com opiniões livres e com ângulos mais provocadores e interessantes do que os dos media tradicionais. A combinação de agilidade com liberdade tornou a plataforma influente e contrastante com a tendência da comunicação social para arrastar os pés.

O tempo encarregou-se de revelar, desta feita no Twitter, quão insólita é a ideia de que a liberdade medra sem freios. Como a história demonstra, a liberdade consolidou-se com instituições de intermediação e formas de regulação. Por isso, a comunicação social tem critérios editoriais e obrigações deontológicas e as leis limitam o que pode ser dito e escrito. Hoje, o X é um espaço aberto aos trolls, à insídia e raramente se vislumbra qualquer debate produtivo. Mais, o algoritmo empurra-nos de forma imparável para conteúdos violentos, notícias falsas e revela um evidente enviesamento político, distante do espírito liberal fundador.

Foi este o contexto que levou o The Guardian a abandonar a plataforma. O que só acontece porque, com mais de um milhão de assinantes, provenientes de 180 países, o jornal britânico é um media global, com músculo financeiro para fazer esta escolha. Em parte, o The Guardian sai do X, porque pode gerir os custos de uma saída. Dificilmente um meio de comunicação social de base nacional poderia abdicar desta fonte de tráfego.

Mas quais seriam as consequências, se outras vozes acompanhassem o The Guardian no cancelamento do X? O resultado agregado seria mais um passo rumo ao acantonamento, ao fechamento face a outras visões do mundo e ao fim de um espaço comum de informação, mesmo que o debate seja hoje praticamente inexistente. O X pode ter-se transformado numa rede social bem menos recomendável, mas cancelar a plataforma corresponderia a uma entrega de território e a mais uma capitulação das vozes progressistas, que abdicariam de estarem presentes nas redes sociais com influência e impacto real.
Pedro Adão e Silva

sexta-feira, 15 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


A declaração de amor que não devia ter escrito

Subia todos os dias as escadas de madeira até ao quarto andar. O velho edifício era como um barco. Do topo avistava-se o Tejo e em cada piso remavam tripulações nem sempre articuladas. Vivemos aí muitas tempestades. E, tendo passado antes por outras redações, foi aquela em que primeiro me senti parte de uma grande família disfuncional, com amores e ódios, muitas noitadas, zangas, gritos, gargalhadas e piadas que mais ninguém entendia. É difícil explicar a quem nunca viveu numa redação (porque se vive lá dentro) o que é esta coisa de ser jornalista. Visto de fora, parece insano. E é.

A um jornalista que se preze nunca ninguém precisa de mandar trabalhar. Nunca paramos. Alguma coisa nos agita as antenas e aí vamos nós, lançados, atrás da magia da notícia. É um vício. Às vezes não dá para pagar as contas. E quem está de fora pergunta muitas vezes porque é que insistimos nesta relação tóxica. Mas é difícil sair. Na verdade, sai-se da profissão sem nunca se deixar de ser jornalista. É uma coisa que nos fica colada à pele, um instinto, uma maneira de ver o mundo.

As paixões são incompreensíveis e ridículas. E, por isso, estas linhas não dizem nada a quem não está apaixonado por fazer jornalismo. Soam a uma excentricidade fora de moda, uma arrogância fora de tempo, uma irracionalidade fora de pé. E é mesmo assim. É isso tudo. E é por isso que talvez não devesse tornar pública esta declaração de amor. Os amores segredam-se. Não se gritam.


Talvez não devêssemos deixar que soubessem o quanto amamos esta profissão. “Não é uma profissão, é um ofício”, dizia-me ontem uma camarada (porque é camaradas que somos). E tem razão. Nem sei se não será mais do que um ofício, uma forma de ser. Porque ninguém pode deixar de ser o que é, porque um vício é uma coisa que nos comanda, porque a paixão nos faz pairar acima das coisas comezinhas, tira-nos o sono e a fome. E, afinal, porque é que nos deviam pagar para fazer uma coisa destas? Uma coisa que não conseguimos parar de fazer?

Naquele edifício nau, estive várias vezes à beira do naufrágio. Em todas as redações que se seguiram, cada vez mais encolhidas, cada vez mais vergadas, encontrei o mesmo amor e as mesmas tempestades. A nave vai, mas adornando.

Sim, não devia insistir nesta imagem quixotesca, que nos faz parecer antiquados, obsoletos, desligados do mundo, convencidos de termos sido ungidos por uma força maior. E, sobretudo, incapazes de autocrítica, quando na verdade nos consumimos tantas vezes na frustração e no desespero dos amores que não conseguem ser perfeitos e sucumbem à realidade.

Há nas fábricas operários que resistem quando a empresa ameaça falir. Há amor em quem faz sapatos. Há nas caixas de supermercado quem encontre camaradagem nos colegas de trabalho. Há paixão cega em quem ensina. Há esforço e dedicação em quem trabalha em hospitais, limpa casas, monta janelas e caixilharia. Não há nada de tão especial assim em quem faz jornalismo. O amor só é especial para quem o vive por dentro. Visto de fora, é tão banal.

Os tecnocratas assépticos que desenham folhas de Excel, os que vivem deslumbrados com a magia dos algoritmos e da inteligência artificial, os que não querem saber porque já sabem tudo, os que querem que os outros não saibam nada, os que vivem enrolados dentro seu umbigo, os que deixaram de saber questionar-se, os que seguem a manada, os que perderam a fé na Humanidade e no fundo anseiam ser substituídos por androides sem paixões… Esses não precisam de nós. Espera-os um amanhã feito de verdades alternativas e trevas, com tribos desavindas incapazes de comunicar entre si.

O futuro não tem de ser assim. Nada do que ainda não aconteceu está escrito. Assim tenhamos nós a força e a coragem para resistir, porque a paixão não nos falta.

Nomeados 'pró-Israel' de Trump são os piores dos inimigos

Tragédias estão se abatendo sobre Israel uma após a outra. A próxima iminente ocorrerá em 20 de janeiro, quando Donald Trump tomar posse como presidente. Se o Secretário de Estado, o Secretário de Defesa, o Conselheiro de Segurança Nacional e o embaixador dos EUA em Israel mantiverem suas palavras, os próximos anos significarão desastre para Israel. O próximo período determinará seu destino como um estado de apartheid perene graças a seus amigos ostensivos, que não são mais do que mercadores de sangue, traficantes que aprofundarão o vício de Israel em ocupação, derramamento de sangue e poder.

A chance de o Brasil mostrar ao mundo como salvar a democracia


 Nas próximas semanas, tudo indica que Donald Trump irá dar um indulto aos invasores do Capitólio, enquanto centenas de processos vão ser arquivados. Tudo que existe contra ele por conta de uma suspeita de envolvimento em atos antidemocráticos será abafado. Enquanto isso, grupos extremistas voltam a circular, com um sentimento de revanche.

Vejo ainda como, com recursos públicos, parlamentares brasileiros viajam aos EUA para articular com a extrema direita americana uma aliança para pressionar as instituições brasileiras a partir de falsas narrativas e manipulações.

Mas a realidade é que o Brasil tem agora uma oportunidade única: mostrar ao mundo como se socorre uma democracia, depois de tentativas de golpe, mortes, mentirosos no poder que se passam por colunistas de jornais e uma operação de desinformação sem precedentes.

Mas, para isso, só existe um caminho: a rejeição a qualquer ideia de anistia.

A inelegibilidade de Jair Bolsonaro abriu aquela esperança típica dos sonhadores de que isso significará o fim da sua carreira política, usada como plataforma para interesses pessoais. Mas isso não basta, ainda que possa ser uma decisão importante para a saúde das instituições nacionais.

Eu, particularmente, vou cobrar três outros destinos para nossa história: verdade, memória e justiça.

Quero a verdade, para que a história recente do Brasil não se repita. Nem como tragédia e nem como farsa.

Verdade, a tradução da capacidade de a população saber o que de fato ocorreu enquanto um grupo usou o poder para se apoderar de instituições de estado. O que de fato foi considerado quando foram tomadas decisões que resultaram na morte de pessoas durante a pandemia. O que estava em jogo quando, debochando do sofrimento de milhões de pessoas, buscava-se apenas a reeleição.

Trata-se do direito à integridade de uma pessoa, a saber o que ocorreu diante da angústia instalada. Num cenário pós-guerra, as famílias querem a verdade sobre o destino dos corpos de seus filhos, quem disparou a bala, por qual ideal padeceram.

No Brasil, exigimos saber por qual motivo vidas foram criminosamente abreviadas.

Mas também qual era o objetivo quando a democracia foi estilhaçada no planalto central em 8 de janeiro de 2023. Nesta semana, os ecos daquelas bombas ainda soaram pela capital e num sinal de que o desafio não foi superado.

Quero também preservar a memória, para que a história recente do Brasil não se repita. Nem como tragédia e nem como farsa.

Para que as próximas gerações saibam exatamente o que ocorreu no Brasil entre 2019 e 2023, para que os livros de história tragam o isolamento que se estabeleceu para o país no mundo e para que cada cova cavada não seja a história de uma inevitabilidade.

Há sete décadas, a Alemanha destina milhões de euros para se desnazificar. Todos os dias. E parte desse trabalho é conduzido nas escolas e na conscientização do que representam as ideias que chegaram ao poder, nos anos 30.

A busca pela memória promove o debate, sem tabus. E, sem atalhos, esse é o caminho para promover uma reconciliação e fechar feridas.

Mas isso tampouco basta.

Precisamos, portanto, de justiça para que a história recente do Brasil não se repita. Nem como tragédia e nem como farsa.

Justiça, que Freud chamava de “o primeiro requisito da civilização”, não é erguer um picadeiro para que revanche seja feita. Justiça é, sobretudo, um reconhecimento da existência de vítimas e a proteção do futuro.

A democracia não morre apenas no escuro ou num noite chuvosa.

Ela também morre em plena luz do dia, em publicações obscuras no diário oficial, em invasões de terras, na circulação de um vírus, na propagação do ódio, no uso da mentira como estratégia de poder. E ela morre quando não lidamos com seus detratores e quando a impunidade vence.

Desta vez, a anistia não tem lugar.

Não estamos falando sobre o passado. Mas sobre a construção do futuro.

No dicionário da democracia, os conceitos de memória, verdade e justiça estão todos no mesmo capítulo. Aquele escrito com sangue e que tem como objetivo resgatar sociedades mergulhadas num ciclo de violência, recolocando-as num longo caminho de uma cultura da paz.

Sem Anistia.

Elon Musk, vice-presidente dos EUA

Na ressaca das eleições norte-americanas de 2016, a rede social mais falada foi o Facebook. O mundo acordava para a influência subterrânea que as redes podiam ter nas democracias, especialmente pela forma como a rede de Mark Zuckerberg tinha servido de veículo para interferência russa, ajudando Donald Trump a vencer.

Oito anos depois, não poderíamos estar mais longe desse espanto inicial com que entramos na era da “pós-verdade”. Como escreve Carole Cadwallader, jornalista do The Guardian que desvendou os segredos da Cambridge Analytica, “2016 foi o começo do começo”. Depois disso, algumas redes, como o Facebook, diminuíram a propagação de conteúdos políticos (apagando os “media” pelo caminho), a direita contra-atacou as tentativas de regulação com o argumento da “liberdade de expressão” e o X ergueu-se como o megafone de que Trump precisava para a sua reeleição.

Hoje não é preciso procurar influências encobertas. Elas são completamente visíveis na forma como o proprietário desta rede, Elon Musk, a colocou ao serviço do candidato republicano de que ele é o primeiro arauto. Só entre os dias 5 e 7 de novembro, fez mais de 400 publicações saudando a sua vitória e dando indicações sobre o futuro. Doou para a campanha pelo menos 119 milhões de dólares e transformou a própria eleição numa loteria, oferecendo um milhão por dia aos eleitores que aderissem a alguns princípios do ideário de Trump.


Não é possível deixar de olhar com algum cinismo a ideia de que Trump vence ao dar voz aos desapossados pelas elites, quando o homem mais rico do mundo se ergue como um dos seus mais poderosos aliados e, quem sabe, um dos seus principais conselheiros.

Também não vale a pena assumir a posição de virgem ofendida quando sabemos que os ricos e poderosos sempre procuraram influenciar em seu proveito os caminhos da política. Agora, foi só mais descarado e com novas e mais influentes ferramentas. Um dia após a vitória de Trump, graças à subida das acções da Tesla, Musk adicionou quase 20 mil milhões de dólares à sua fortuna. Seja por contratos federais que esperará ganhar, seja graças à desregulação que quer ver em vários sectores onde tem interesses, Musk irá ter muitos mais milhões a arrecadar.

O que vale mesmo a pena sublinhar é que não será só Trump a ser imitado em todo o mundo. Com Musk, abriu-se uma nova era para a capacidade que os super-ricos têm para influenciar os destinos da política e da sociedade. As democracias que se cuidem.
David Pontes

À espera da última pá de cal na cova do bolsonarismo extremo

O bolsonarismo mata! E no limite, é capaz de matar-se para alcançar seus fins. Ainda não se sabe se Francisco Wanderley Luiz, autor das explosões na noite do 13/11 em Brasília, apenas tentou matar o ministro Alexandre de Moraes como planejara, e uma vez impedido, suicidou-se. Saberemos no decorrer das investigações.


Mas isso não fará diferença. Importa que o que ele fez comprovou que a semente do ódio plantada pelo bolsonarismo, e regada pelo jardineiro-mor, segue viva graças, em parte, à lentidão da justiça. Ela agiu com rapidez para punir os bagrinhos do golpe fracassado do 8/1; quanto aos peixões, sequer foram denunciados até hoje.

Foi bonita a festa, e ilusória. Deu-se a democracia como salva, exaltando-se a solidez das instituições. Os chefes dos três Poderes desfilaram de mãos dadas para celebrar a vitória robusta do bem contra o mal. Golpe nunca mais! Os culpados serão condenados e presos, e a paz restabelecida. Então, bola pra frente.


Vê-se que por um breve período não mais se falou que a democracia é uma planta frágil que precisa ser regada o tempo inteiro; e que o golpismo não morreu, jamais morrerá em lugar algum como meio de se conquistar o poder, muito menos em terras em que se plantando tudo dá e viceja com exuberância.

Foram quatro anos de pregação quase diária a favor do uso velado ou acintoso da força como solução para os problemas do país. Nem os generais-presidentes do ciclo de 64 ousaram chegar a tanto; quando nada, preservaram certos ritos da democracia suspensa para que a ditadura não fosse chamada pelo seu próprio nome.

O ato protagonizado por Francisco Wanderlei Luiz de tentar incendiar o prédio do Supremo Tribunal Federal se encaixa perfeitamente na série de episódios violentos que precederam o 8/1. A saber:

* a depredação por bolsonaristas da sede da Polícia Federal em Brasília na noite da diplomação de Lula como presidente;

* na mesma noite, a queima de ônibus no centro de Brasília;

* e na véspera do Natal de 2022, a bomba afixada num caminhão de combustível para explodir uma ala do aeroporto de Brasília.

Ao meu sentir, o que disseram, ontem, os ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes foi a penúltima pá de cal jogada na cova onde será enterrada a pretensão de Bolsonaro de ser anistiado para poder se candidatar novamente em 2026.

A última pá de cal será jogada pela maioria dos ministros do tribunal quando julgar e condenar em definitivo Bolsonaro à pena máxima pelo crime de atentar contra o Estado Democrático de Direito. Não há crime mais grave. Que não se demore a virar a página. O país está cansado.

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


O entretenimento como religião

Por graça ou interesse, as igrejas se valem dos meios de comunicação para ganhar fiéis. Sabemos disso há coisa de cem anos. Foi nos Estados Unidos, pelas ondas do rádio, que a prática se tornou um expediente assíduo, ainda na primeira metade do século 20. Na década de 1960, os televangelizadores, à imagem e semelhança de Billy Graham, cresceram e se multiplicaram em escalas miraculosas. O cristianismo de raízes protestantes e feições evangélicas se apossou de um filão inteiro das redes de TV, num empuxo que se replicou mundo afora. Então, o linguajar plangente, a cenografia ambientada em templos vastos, o figurino em traje passeio completo e a coreografia expressionista fincaram seus púlpitos em plagas longínquas – algumas verdadeiramente remotas, como as brasileiras. Por aqui, quando baixa o horário nobre, pregadores oram e peroram em quase todos os canais abertos. Todas as religiões, ou virtualmente todas, requisitam os préstimos e os auxílios das tecnologias midiáticas em prol da fé. O divino é um campeão de audiência. O demônio também – depende do ponto de vista do freguês.


Mas disso tudo já sabemos, e não é de hoje. O que não sabemos e teimamos em não saber é que, no instante em que invocaram as energias gentis do entretenimento para arrebatar assembleias maiores, as igrejas selaram um pacto, se não com o satanás em pessoa, com entidades que desconheciam e que podiam devorá-las por dentro. Tanto podiam que devoraram.

O resultado está aí, diante dos nossos olhos incrédulos. Não foi o espetáculo televisivo que atendeu com diligência às demandas das múltiplas profissões de fé – estas é que serviram, sem se dar conta, aos desígnios do espetáculo. Quem tomou vulto ao longo das décadas não foi a caridade, não foi o amor ao próximo, não foi o recolhimento pio, não foi a fraternidade, não foi o retiro espiritual, não foi o voto de pobreza – foi, isto sim, o transe do showbiz, foi o êxtase das receitas publicitárias, foi a indústria do sagrado lucrativo, foi o mercado do pastoreio próspero e galante.

Não importa o tema da programação, importa somente a forma da diversão catártica – a religiosidade está na forma, não no conteúdo. Você pode achar que estamos em meio ao politeísmo pluralista de credos distintos que convivem entre si num ambiente ecumênico. Você pode acreditar que os megaeventos na cidade comprovam o que temos chamado de diversidade. Você pode até argumentar que a Marcha para Jesus lança mensagens opostas às da Parada Gay, e vice-versa. No entanto, por trás do aparente “multiculturalismo”, imperam as leis ocultas do espetáculo, que a tudo igualam, padronizam e uniformizam. Olhe e comprove. Na sua forma, a Parada Gay e a Marcha para Jesus são, mais do que equivalentes, idênticas: ambas se espelham como gêmeas siamesas e simétricas. As duas, supondo tirar proveito das turbinas do entretenimento, ofertam a essas turbinas, em sacrifício, o combustível precioso das almas fervorosas e dos corpos ferventes.

O entretenimento é o altar dos altares: não é uma ferramenta pronta para entregar as encomendas que lhe chegam das seitas – ele é, antes, a forma social da religião, de qualquer religião possível no nosso tempo. Toda espécie de religação – seja como vínculo identitário, seja como laço comunitário – só se realiza se passar pela mediação da malha comunicacional orientada para o mercado e apenas para o mercado. É como empresa privada que uma igreja se faz ativar pelos meios de comunicação.

As religiões não têm o poder de impor nenhuma liturgia às telas eletrônicas – estas é que plasmam sua liturgia vaga sobre o ser etéreo das religiões. Isso significa que, quando fala a língua do rádio, da TV ou da internet, uma agremiação mística se converte à cosmogonia barata do rádio, da televisão e da internet.

Fundamentalista, o entretenimento rege os seres humanos com a força de um monoteísmo sem deus. Mesmo quando não trata de santos ou de orixás, mesmo quando não fala sobre Jesus ou sobre Jeová, mesmo quando só se ocupa de mercadorias banais, de atrizes sorridentes, de cantoras estridentes e de jogadores de futebol, o entretenimento impera com seus cânones draconianos (a sujeição à imagem, por exemplo), seus hábitos regulares (as togas dos ministros do STF são envergadas como se fossem a capa do Batman), seus ritos rígidos (os celulares de luzes acesas ondulando nos estádios) e seus códigos aparentemente profanos, mas dogmáticos (vigaristas fazendo coraçãozinho com as duas mãos juntas).

O cardápio dos sentimentos e o contorno dos afetos foram consolidados pela indústria da diversão. Ela definiu o sentido do amor, da justiça, da beleza, da comiseração e do ódio. O sujeito que vê em Donald Trump um herói destemido projeta nele o que aprendeu nos filmes de Bruce Willis. Apenas isso.

A religião do entretenimento fez do público uma plateia fanática, para a qual a democracia é só mais uma atração. Não adianta pedir que a plateia pense sobre o que faz. Na doutrina que ela abraçou com devoção, o pensamento é o maior dos pecados mortais. Talvez seja o único.

Líderes autoritários voltam como zumbis vingativos após derrotas

Quando Viktor Orbán regressou ao poder na Hungria em maio de 2010, ninguém atribuiu enorme significado ao acontecimento. É comum, nomeadamente em regimes parlamentares, a reeleição de políticos que tenham sido derrotados numa eleição anterior.

Orbán fora antes primeiro-ministro por um mandato, entre 1998 e 2002, e poucos fora da Hungria conheciam o discurso amargo que ele fizera ao perder as eleições no fim desse mandato. "A nação não pode estar na oposição!", disse na ocasião, deixando claro que, para ele, apenas o seu partido representava a verdadeira Hungria e que qualquer outro partido que estivesse no poder em seu lugar seria composto por traidores e, no fundo, usurpadores.


Toda a gente achou até normal que Orbán tivesse conquistado um pouco menos de metade dos votos —tendo em conta que tinha havido um escândalo com o governo socialista anterior— e não se preocupou demasiado com o fato de esses votos terem dado direito a dois terços dos deputados, permitindo a Orbán mudar a Constituição e votar leis de valor reforçado a seu bel-prazer.

Os primeiros sinais de alarme tocaram no segundo semestre de 2010, quando Orbán fez aprovar três leis de controle da mídia que foram imediatamente consideradas das mais restritivas da Europa —incluindo a criação de uma nova autoridade capaz de impor multas que poderiam atirar para fora do mercado os títulos de imprensa cuja cobertura fosse considerada desequilibrada.

Essas leis foram seguidas por uma nova Constituição, que por sua vez foi seguida por inúmeras alterações legais e institucionais, todas num sentido de concentração de poder. Orbán tinha voltado com foco na vingança —e com um plano. E a sua tomada do poder foi célere.

Quando visitei Budapeste numa delegação do Parlamento Europeu, em setembro de 2012, todos os partidos de oposição nos alertaram para mudanças nas leis eleitorais que nem nos briefings mais atualizados apareciam. Pudera: a nova lei eleitoral tinha sido introduzida na sexta-feira anterior para ser votada (e aprovada, como foi) na semana seguinte.

A partir daí, seria praticamente impossível a Orbán perder eleições —ou mesmo não ganhá-las com uma quase permanente e muito conveniente maioria de dois terços. A partir de 2018, as eleições na Hungria deixaram de ser consideradas "livres e justas", e a partir de 2019, o país deixou de ser considerado uma "democracia plena" pela Freedom House.

O caso de Orbán é apenas um dos vários em que líderes autoritários se tornam ainda mais vingativos e repressivos quando regressam ao poder após uma derrota eleitoral. São outros casos o de Binyamin Netanyahu, que em Israel saiu do poder em 1999 e voltou em 2009; Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, que saiu de primeiro-ministro para presidente em 2014; e até Vladimir Putin, que deixou de ser presidente em 2008 para voltar em 2012.

Veremos o que acontece com Donald Trump, que tentou dar um golpe para não sair em 2021 e vai regressar agora.

Mas o padrão é claro: líderes autoritários quando perdem eleições e regressam depois ao poder são mais perigosos, vingativos e organizados. É um padrão pelo menos claro o bastante para que todos os outros países em risco de lhes acontecer o mesmo possam começar a tirar apontamentos.

Correndo para trás das calças de Trump

Foi notável como, assim que soube da vitória de Donald Trump, na semana passada, Jair Bolsonaro se transformou. Deixou de ser o homem que os serviçais flagravam chorando pelos cantos, a cada passo das investigações que o deixam mais perto de ser preso, e voltou a ser o velho bazófio e arrogante de seu palanque presidencial. Seu primeiro ato foi convidar-se para a posse de Trump e se julgar no direito de ter de volta o passaporte para viajar. "O STF", leia-se Alexandre de Moraes, "não terá a ousadia de negar. Quem vai contrariar o homem mais poderoso do mundo?", disse.


É a ideia que Bolsonaro faz do Brasil: um país tão babão diante de uma potência quanto ele, que se acapacha aos pés de alguém que considera seu superior —como se representasse alguma coisa para esse alguém. Lembra uma sequência do clássico "Casablanca", filme de 1943, em que Peter Lorre, fazendo um personagem viscoso e insignificante, pergunta a um inatingível Humphrey Bogart: "Você me despreza, não é?". E Bogart, sem sequer olhar para ele: "Se eu pensasse em você, provavelmente desprezaria". Há alguns anos, Bolsonaro viveu esse diálogo com Trump na Flórida. Ao gemer para Trump "eu te amo!", ouviu de volta: "Prazer em te ver".

Tal subserviência de Bolsonaro é uma ameaça até à soberania nacional, como se provou na sua reunião em 2022 com os embaixadores estrangeiros, que convocou para denunciar supostas fraudes do nosso sistema eleitoral. O que queria com aquilo? Desmoralizar a democracia brasileira aos olhos de quem, para ele, poderia interferir nela.

Bolsonaro é um covarde. Correr para trás das calças de Trump não o tornará reelegível nem o livrará da Polícia Federal, nos processos às vésperas de conclusão por desvio de joias da Presidência e tentativa de golpe de Estado. As grades o esperam.

Em 2017, outro ex-presidente brasileiro foi processado. Compareceu a todos os interrogatórios, foi condenado e teve a prisão decretada. No dia em que foram buscá-lo, não resistiu à prisão nem tentou fugir. Ficou à espera dos agentes. Não precisou ser conduzido à força. Portou-se como um homem.

Os Magãos

Trump transformou-se no grande profeta da nova religião. Alguns dos seus fiéis tratam-no mesmo como o filho de Deus. O presidente-eleito é muito mais do que um líder político carismático pois tornou-se ele mesmo num novo culto para milhões de americanos.

Trump cometeu a proeza de conseguir afastar a direita religiosa evangélica do evangelho, das suas comunidades de fé e da Bíblia, tudo princípios até agora inegociáveis neste segmento religioso e que seria impensável deixar cair.

Só que este abandono tem um preço. Ao afastar os evangélicos da moralidade bíblica e fazer com que o sigam religiosamente, Trump toma o lugar da figura central da fé cristã, Jesus de Nazaré. Ao abandonarem o evangelho e a ética cristã os evangélicos substituíram o amor ao próximo, ao estrangeiro, ao necessitado e ao enfermo pelo ressentimento e sentimentos negativos aos quais ele apela constantemente.


Mas também substituíram a alegria da comunhão cristã pela liturgia MAGA (Make America Great Again), pelo que, em vez se continuarem a ser cristãos, ou seja, centrados em Cristo, agora serão magãos, isto é, centrados na ilusão de recuperar milagrosamente a grandeza perdida dos EUA. Além do mais deixaram de ir à igreja por que o seu messias também nunca vai, o que lhe interessa pois assim pode manipulá-los à vontade, distantes que ficam do capital espiritual e comunitário daí decorrente.

Por outro lado, as igrejas evangélicas nos EUA têm vindo a reduzir a sua assistência devido ao secularismo e outros fenómenos sociais a ele associados, por que as novas gerações já não aceitam a politização das suas lideranças nem o conservadorismo de algumas das suas posições, mas também pelo movimento geral de maior individualismo presente na sociedade americana.

Uma apoiante envergava recentemente uma T-shirt num evento da campanha republicana em Wildwood, Nova Jersey, que dizia: “Deus, armas & Trump”. “Deus fez Trump” declara a sua rede social, a Truth Social. O político é assim elevado à condição de profeta e ungido de Deus que está a edificar a sua igreja. Daí resulta que os fiéis já não necessitam de se manter nas suas comunidades de fé e muito menos precisam dos seus pastores, até por que eles já tinham dado a sua bênção ao novo profeta de forma explícita e entusiástica, iludidos que foram pelas promessas de conquista do poder político e judicial, bastando para isso apenas apoiar o novo profeta.

Não só não ganharam nada com isso, como quando se quiserem arrepender será tarde demais. Mesmo em relação ao aborto, com a revogação de Roe, as coisas ainda terão piorado devido ao aumento no número de interrupções voluntárias de gravidez devido à presente insegurança.

Os líderes religiosos quiseram ganhar vantagem política mas não esperavam que Trump se apresentasse aos fiéis como o novo Cristo, o ungido de Deus. Uma coisa era ser uma espécie de Ciro moderno, o imperador pagão que facilitou a vida aos judeus exilados na Babilónia para que regressassem e reconstruíssem os muros de Jerusalém, as suas casas e o templo, coisa diferente seria ele próprio se auto-erigir em messias, ele que é uma espécie de anticristo santificado pela direita religiosa.

É que ao pisar, pelo seu discurso e exemplo de vida, a ética e os valores cristãos, Trump concede aos fiéis o direito de também eles passarem a desprezá-los. De facto, agora já não é mais necessário seguir Jesus, uma personagem que a lógica trumpiana classificaria imediatamente como falhado (loser). Em vez disso os seus discípulos são atraídos pela lógica ilusória e o discurso inconsequente de vencedor que ele protagoniza.

O Maganismo tornou-se assim a mais recente religião americana, em linha com a tradição dos Estados Unidos como alfobre de inúmeras propostas religiosas sob a capa do cristianismo.

Receia-se que se repita agora nos EUA um fenómeno semelhante ao da velha Europa do pós-guerra, quando a fé cristã sofreu duramente as consequências do apoio de vastos sectores religiosos aos extremismos emergentes no período entre guerras, incluindo o nazismo alemão e o fascismo italiano. Desde aí nunca mais a fé cristã voltou a erguer-se ao nível anterior, embora devido também a outros factores.

Com o 13/11, a anistia para os golpistas do 8/1 poderá ir pelo ralo

Como sempre mais rápida no gatilho, a extrema-direita saiu na frente da construção de uma narrativa para explicar as explosões de ontem à noite, em Brasília, na Praça dos Três Poderes, palco em 8 de janeiro de 2023 da tentativa frustrada de um golpe de Estado.

Francisco Wanderley Luiz, o autor das explosões, foi chamado de “maluco” por Bolsonaro. Logo apareceu um deputado, Jorge Gootten (Republicanos-SC), conterrâneo de Francisco, que disse que ele aparentava “sérios problemas mentais”.

Desde quando? Segundo Gootten, desde que se separou da mulher, há dois ou três meses, e veio morar em Brasília. Não há relatos de que pirou a mais tempo. Há relatos abundantes, escritos por ele mesmo, sobre suas ações como um radical de direita.


Daí foi um salto para que Francisco nas redes sociais fosse apontado como o “Adélio Bispo da direita”. Adélio esfaqueou Bolsonaro em Juiz de Fora. Em dois ou três inquéritos, a Polícia Federal concluiu que Adélio era doente mental.

Até hoje, para Bolsonaro, Adélio era um militante de esquerda que o esfaqueou por encomenda e não sozinho. Francisco seguramente teria agido por conta própria, em decorrência da doença que sofria. É conveniente para a extrema-direita desvincular-se de Francisco.

De Roma, onde se encontra, o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), disse que Francisco, “pelas informações da polícia, trata-se de um suicida”. A vice de Ibaneis, Celina Leão (PP), referiu-se a Francisco como “um lobo solitário”.

Àquela altura, o corpo de Francisco sequer fora removido do local onde ele morreu, em frente ao prédio do Supremo Tribunal Federal. Cuidadosa, a polícia confirmava que o carro repleto de explosivos era de Francisco, mas que o corpo poderia não ser. Era.

“Um homem morreu ao se explodir”, estampou um jornal de larga circulação com base no que declarou Ibaneis. Francisco pode não ter se suicidado, e sim ter morrido pela explosão de uma bomba que arremessou contra o prédio do Supremo.

Ou pode ter morrido por bala disparada por seguranças do prédio que ao avistarem correram na sua direção. Investigações em curso é que dirão de fato o que aconteceu. O certo é que no mínimo a anistia para os golpistas do 8 de janeiro ficou mais distante.

E isso é muito ruim para Bolsonaro que esperava beneficiar-se dela. O ministro Alexandre de Moraes, a quem caberá o comando das investigações sobre o 13 de novembro, a esta hora deve estar lambendo os beiços. Não só ele.

quarta-feira, 13 de novembro de 2024

O apocalipse, segundo Donald Trump

Todos os países são ficções, mas alguns são mais fictícios do que outros. Quero dizer que todos os países são construídos a partir de uma história: pode ser uma história que a sociedade assume como sua, para além das divisões internas – liberdade, igualdade e fraternidade – ou uma história que funcionou durante séculos e depois entrou em crise repentina, como a da União Europeia. História de impérios, ou uma história que parte das nossas aspirações, mesmo que a realidade não as justifique.

Entre todas as ficções do Ocidente, a dos Estados Unidos foi talvez a mais arriscada, porque tentou construir uma identidade monolítica numa das sociedades menos monolíticas do planeta: durante décadas a História foi estudada em escolas com um livro intitulado “The American Experiment”. Clichês entram em cena: “o sonho americano”, o “caldeirão de culturas”, “a maior nação da Terra”. Todos os políticos nos Estados Unidos pronunciam estas últimas palavras sem o menor sinal de modéstia ou ironia: fazê-lo – e também, de forma implausível, acreditar nelas – é um requisito para aspirar a qualquer cargo público.

No seu discurso mais famoso, Martin Luther King ansiava por uma nação que “vivesse de acordo com o verdadeiro significado do seu credo”. O que isto significa? Isso significa que, mais do que outras daquelas construções fictícias que chamamos de países, o norte-americano está constantemente se fazendo, definindo-se como um eterno adolescente, sempre dependendo do seu próprio conceito de si mesmo. Era isso que eu pensava há alguns dias, antes do desastre eleitoral, quando Kamala Harris falou num dos seus últimos discursos sobre a diferença entre a sua proposta e a de Trump. Tendo a Casa Branca como pano de fundo, no mesmo lugar do universo a partir do qual Trump apelou a uma insurreição violenta diante dos olhos de todos, Harris disse que seu oponente passou uma década tentando dividir os cidadãos e semeando o medo entre eles. “É ele”, disse ela. “Mas esta noite, América, venho dizer: não somos assim.”

Dias depois, 73 milhões de votos – bem como uma vitória republicana no Senado e provavelmente na Câmara – disseram a Harris que talvez sejam: que isto, seja o que for, é quem eles são. E a crise de identidade dos Estados Unidos levará muitos anos, muito mais do que a presidência de Trump, para chegar a uma certa conclusão sobre o que aconteceu para que um personagem do seu calibre fosse eleito pela segunda vez, mas a verdade profunda é inevitável: Trump criou uma história baseada em ressentimento, queixa, ódio, e milhões de eleitores a aceitaram.

Apesar do que se lê nos bonés vermelhos de seus eleitores, sua ficção não era sobre o retorno da América a um passado maior, mas sobre se defender de um presente horrível: um presente distópico ao lado do qual “Blade Runner” parece uma cena da “Barbie” , um presente de horror onde hordas de estrangeiros libertados das prisões e asilos do Terceiro Mundo estão a invadir as nossas cidades, a violar as nossas mulheres, a comer nossos animais de estimação e a envenenar o sangue do nosso país, e onde o “inimigo interior” está a destruir as nossas liberdades, abortando crianças depois de nascerem e mudando de sexo à força quando vão para a escola.

Devo esclarecer: nem uma palavra que acabei de escrever é exagero ou caricatura. Estas são as palavras de Trump, ditas em público e diante das câmaras, aplaudidas veementemente pelo seu povo. E parece-me que não foi dito o suficiente sobre a grande lição que a vitória de Trump deixa aos aspirantes a autoritários em todo o mundo: não existe ficção tão extrema, nenhuma mentira tão grande, que não possa ser aceita pela sociedade. São necessários apenas dois ingredientes: por um lado, uma cidadania vulnerável, assustada, desinformada ou crédula; de outro, um líder cujos escrúpulos são inversamente proporcionais ao seu desespero.

É assim que é. Para Trump, regressar ao poder não foi uma questão de ganância, mas de sobrevivência: ser presidente era a única forma de não acabar na prisão vestido com um macacão da cor da sua maquiagem. A sua longa vida como violador de todas as regras – e de muitas das leis – estava a apanhá-lo. O eterno assediador sexual que o traficante de crianças Jeffrey Epstein considerava o seu melhor amigo, aquele que foi perseguido pelas acusações credíveis de mais de 20 mulheres, aquele que se gabou do seu assédio numa conversa privada impossível de ouvir sem nojo, já foi condenado a pagar cerca de 90 milhões de dólares por difamar um dos queixosos, e essa condenação civil abre a porta à consideração criminal dos seus vários excessos. O empresário fraudulento, que passou a vida a trapacear, que ainda não cumpriu a tradição presidencial de publicar a sua declaração de rendimentos, que se orgulhava de não pagar os impostos devidos, já foi condenado por 34 crimes e aguarda atualmente sentença. A pena, no caso de qualquer outro cidadão, seria de prisão; no caso de Trump, nunca saberemos. Porque a sentença não virá: um dos primeiros atos do seu mandato será perdoar-se. Mas ele já nos tinha anunciado que só seria ditador no primeiro dia.

Seus delitos são tantos que é difícil acompanhar: nunca na história dos Estados Unidos um presidente teve tal histórico de mau comportamento, ou comportamento antiético ou crimes comprovados, e nem pela opinião pública ou pela mídia – que em qualquer caso não é confiável, como sabemos: eles são “inimigos do povo”, são “notícias falsas” – mas pela justiça. Depois de cada um dos seus muitos escândalos, o anti-trumpismo foi rápido a declarar a sua morte política, e sempre esteve errado. O superpoder de Trump é a sua incapacidade de sentir vergonha: tal como uma morte é uma tragédia, mas um milhão de mortes é uma estatística, Trump descobriu que uma mentira pode destruir um político – ela fez isso com Nixon, quase fez isso com Clinton – mas dezenas de milhares de mentiras repetidas interminavelmente o levarão à Casa Branca. Das muitas características dolorosas da vitória de Trump, esta é talvez a mais pitoresca e ao mesmo tempo a mais perigosa: a capacidade implausível não só de mentir, mas de sustentar a mentira mesmo quando o mundo inteiro está a ver a verdade.

Donald Trump vendeu uma ficção distópica – não apocalíptica – para obter os votos daqueles que se sentem inseguros ou ameaçados há décadas por uma economia que não cuida deles, por guerras culturais, por elites globalizadas. O assustador é que agora, para governar, ele terá que manter essa ficção. Em abril do ano passado escrevi que deveria ter disparado todos os alarmes. Trump pronunciou-se perante um grupo de conservadores, incluindo alguns dos seus cúmplices mais fanáticos e até mesmo os seus correspondentes no novo mundo da extrema direita transnacional: Bolsonaro, por exemplo. “Em 2016, declarei que sou a sua voz”, disse-lhes Trump. “Hoje acrescento que sou seu guerreiro, sou sua justiça. E para aqueles que sofreram injustiças e traições, eu sou a sua vingança. Eu sou sua vingança.

O que foi anunciado começará em janeiro. Talvez tenhamos direito a um resfriado.
Juan Gabriel Vásquez

Pensamento do Dia

 


Como carências na infância afetam a renda futura

Resolver carências básicas das crianças brasileiras mais pobres, como dar óculos às que têm problemas de visão ou levar saneamento às casas onde moram, melhora não só a sua vida imediata, mas também sua renda na idade adulta e o potencial de o país como um todo se desenvolver.

Isso é o que apontam duas pesquisas divulgadas em outubro. Uma mediu qual é o impacto de não ter óculos nos anos escolares na futura vida profissional, e outra investigou a associação entre falta de saneamento e expectativa de renda.

Ambas mostram que priorizar o cuidado na infância traz benefícios individuais e coletivos no longo prazo, com custo baixo, e comprovam que deixar as crianças desatendidas prejudica seu desenvolvimento cerebral e físico e pode fadá-las a uma vida inteira de dificuldades.


Crucial, o acesso a óculos para crianças com miopia, astigmatismo ou hipermetropia é deficiente no Brasil. Há problemas para marcar consulta com oftalmologistas do Sistema Único de Saúde (SUS) em muitas cidades – e, mesmo que haja o diagnóstico, não há uma política pública nacional que ofereça óculos gratuitos às famílias mais pobres. Sem enxergar bem, as crianças não conseguem ler corretamente lousas e livros e ficam para trás no aprendizado.

Uma pesquisa da Agência Internacional para a Prevenção da Cegueira (IAPB) estimou qual é o efeito de fornecer óculos a crianças com problemas de visão a partir dos 5 anos de idade. O resultado: aquelas que recebem óculos terão ao longo da vida uma renda em média 78% superior às que não receberam.

Para chegar a esse resultado, a IAPB primeiro analisou os resultados de quatro grandes ensaios clínicos realizados na China com participantes escolhidos de forma aleatória, que coletaram dados sobre o impacto no aprendizado de fornecer óculos a crianças com problemas de visão. A conclusão foi de que uma criança sem a visão corrigida aprende cerca de metade do que aprendem as demais.

Depois, o estudo calculou estimativas para diversos países, tendo em vista as condições econômicas de cada um deles. No Brasil, há cerca de 380 mil crianças de 5 a 11 anos e 410 mil adolescentes de 12 a 17 anos com problemas de visão não corrigidos, segundo o estudo global Global Burden of Disease de 2021. Se essas crianças recebessem óculos, o Brasil seria o terceiro país mais beneficiado do mundo, atrás de China e Índia.

Uma maior escolaridade geral se reflete também em crescimento econômico. No cenário de todas as crianças com os problemas de visão corrigidos, o Brasil teria um incremento anual no seu Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 21,9 bilhões, estimou a pesquisa.

Ir para a escola sem enxergar direito a lousa era um problema diário para Dhavi Pietro da Silva, de 12 anos, morador de Campina Grande, na Paraíba. Com astigmatismo e miopia, e sem condições de realizar exames e comprar óculos, a dificuldade de aprendizado se impunha.

"Minha visão começou a embaçar, e eu forçava muito a vista. Comecei a sentar mais na frente, mas mesmo assim não conseguia enxergar o quadro. Era complicado para fazer as atividades", disse ele à DW.

No ano passado, Dhavi Pietro participou de um projeto de sua cidade que coletava cartas das crianças para o Papai Noel, e uma ótica local atendeu ao pedido e doou um exame e óculos para ele. "Mudou muito, mesmo sentando em qualquer canto da sala conseguia enxergar o quadro, as notas melhoraram, minha vida melhorou", afirma.

"Queria que outras crianças pudessem ter o mesmo acesso que tive", diz. Mas ele sabe do risco de voltar a ter problemas, e diz que sua mãe tem dificuldade para agendar consulta com oftalmologista no SUS para fazer os exames periódicos.

Caio Abujamra, presidente do Instituto Suel Abujamra, que oferece atendimento oftalmológico a pessoas em situação de vulnerabilidade e é parceiro da IAPB, confirma à DW que faltam oftalmologistas do SUS em diversas áreas do país.

Mesmo quando há um profissional disponível, muitos pais não sabem da importância de levar os filhos pequenos para uma consulta. "Podem achar que a criança tem ansiedade, TDAH, quando às vezes ela só não está prestando atenção à aula porque não está conseguindo enxergar e não tem óculos", diz.

Associado a outras duas organizações, o instituto firmou uma parceria com a cidade de São Paulo para examinar as 420 mil crianças do ensino fundamental da cidade e fornecer gratuitamente óculos às que precisam – o mutirão começou em fevereiro e deve ser concluído em junho de 2025.

"Não é o olho que enxerga, é o cérebro, o olho é só uma ferramenta, mas temos que aprender a usá-lo. E temos mais aptidão para ensinar o cérebro até os 7 anos de idade, por isso é crucial fazer a triagem cedo. Tem um impacto para o resto da vida", afirma Abujamra.

Outra carência durante a infância e a adolescência que afeta a renda na vida adulta é a falta de saneamento básico. Na primeira infância, isso expõe os bebês a mais casos de diarreias e outras doenças transmitidas pela água ou pela proximidade com o lixo, impactando seu desenvolvimento físico e cognitivo. Mais tarde, surgem também os problemas de saúde bucal, que causarão novos problemas e afastamentos da escola.

Um estudo encomendado pelo Instituto Trata Brasil mediu qual é o atraso escolar associado à falta de esgoto, água tratada e banheiro, a partir de dados do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que a cada dois anos aplica testes e questionários a estudantes da rede pública e privada. A pesquisa concluiu que, ao final do ensino médio, um jovem que mora em local sem saneamento básico terá uma defasagem escolar de 1,8 ano em relação a um jovem com acesso ao saneamento – o que, por si só, levaria a uma queda de 12,7% na sua remuneração futura.

Com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continuada do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o estudo também estimou que, entre dois jovens de 19 anos com o mesmo gênero, raça e área de residência, o que mora numa casa sem saneamento tem renda média mensal 33,4% inferior ao que dispõe desses serviços. A pesquisa então projetou que a falta de saneamento é associada a uma renda 46,1% menor na vida adulta.

A partir de uma estimativa matemática, a pesquisa conclui que a renda média de um jovem de 19 anos de idade sem saneamento ao longo de 35 anos de vida profissional será R$ 126 mil menor do que a de um com saneamento – valor suficiente para dar entrada num imóvel, por exemplo.

A advogada Isabela Minelli, do Instituto Alana, lembra que saneamento básico envolve, além de água tratada e coleta de esgoto, o manejo de resíduos sólidos e a drenagem pluvial – e está associado a outras carências. E cita a chamada Equação Heckman, do economista James Heckman, Nobel de Economia em 2000: "A cada dólar investido na primeira infância, sete dólares retornam para a sociedade, por exemplo com redução de gastos médicos, menor índice de evasão escolar e violência."

Um dos maiores pesquisadores brasileiros que se dedica à estudar a relação entre infância e desenvolvimento é Naercio Menezes, professor da Cátedra Ruth Cardoso do Insper e membro do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI).

Ele diz que a ciência vem apresentando seguidas evidências de que uma criança que vive em condições ideais na primeira infância – com estímulo familiar, renda suficiente para a compra de alimentos e roupas e um ambiente sem violência – irá se desenvolver melhor e mais rapidamente, com efeitos cumulativos ao longo da vida. Ela terá melhor educação, maior probabilidade de entrar na faculdade ou abrir um negócio, e maior produtividade e renda futura.

Menezes está conduzindo com o Centro Brasileiro de Pesquisa Aplicada à Primeira Infância (CPAPI) uma pesquisa de longo prazo para entender melhor como o desenvolvimento infantil afeta o aprendizado, que pretende acompanhar 2 mil crianças nascidas no segundo semestre do ano passado em Ribeirão Preto por toda a sua vida, aplicando testes periódicos sobre diversas variáveis.

"O baixo aprendizado é um dos principais problemas do Brasil. Não conseguimos melhorar a posição dos jovens, um quarto deles não estuda nem trabalha, é uma juventude com pouca esperança no mercado de trabalho e no futuro. Queremos entender como o desenvolvimento infantil está relacionado com essas questões", afirma.

Os resultados dessa pesquisa ainda vão demorar para sair, mas a orientação já é clara: "Os recursos gastos com políticas públicas na primeira infância têm um retorno muito grande para a sociedade, pois isso evita uma série de problemas no futuro."

A parolagem do capitão Derrite

Em menos de uma semana, o aparelho de segurança de São Paulo mostrou seu rosto violento e poderoso para baixo, inepto e sonolento para cima.

Aos fatos.

Na terça-feira da semana passada, o menino Ryan da Silva Andrade Santos, de 4 anos, foi baleado no Morro São Bento, em Santos. Segundo a Polícia Militar, o tiro “provavelmente” partiu de um PM. Leonel, pai de Ryan, havia sido um dos 56 mortos deixados pela Operação Verão há alguns meses.

Ryan morreu na quarta-feira. Na quinta, um pelotão de PMs fardados e armados para um combate apareceu no cemitério onde a criança era velada.

Na sexta-feira, Antônio Vinícius Lopes Gritzbach — um operador da caixa do Primeiro Comando da Capital (PCC) que vinha colaborando com o Ministério Público — foi fuzilado na área de desembarque do aeroporto de Guarulhos. Uma gravação informa que o PCC havia colocado sua cabeça a prêmio (R$ 3 milhões). Os assassinos dispararam dezenas de tiros de fuzil, ferindo duas pessoas e matando um motorista que trabalhava no aeroporto.


Nas palavras do secretário de Segurança, Guilherme Derrite, Gritzbach era um criminoso. Havia recusado a proteção oferecida pelo Ministério Público, pois contava com sua própria segurança. Ela era formada por quatro PMs. E cadê a escolta (privada) do “criminoso”? Escoltavam um automóvel parado, que, segundo eles, tinha defeito. Derrite revelou que os policiais vinham sendo investigados havia um mês. O tempo poderá esclarecer por que se precisa de mais de 48 horas para concluir que um PM trabalha na escolta de um “criminoso”.

Ao chegar ao aeroporto, Gritzbach caiu numa armadilha montada por outras pessoas. Quem não se lembra da execução de Sonny Corleone (James Caan no filme da trama emotiva de Mario Puzo)? Os assassinos são coadjuvantes. Gritzbach denunciava a hierarquia do PCC e suas conexões com policiais corruptos.

O PCC é uma das maiores organizações criminosas em atividade no país. Segundo o Ministério da Justiça, elas são pelo menos 88. É talvez a maior, com âmbito nacional e braços em atividades legítimas. Gritzbach operava no mercado imobiliário.

Os doutores discutiram se e como a Polícia Federal entraria no caso. Na segunda-feira, triunfante, o capitão Derrite anunciou que foi criada uma força-tarefa. Com a PF, para chegar aos bandidos. Maldita expressão, designa o truque pelo qual se exibe força e não se conclui a tarefa.

Como os mordomos, o PCC é o primeiro suspeito, mas há ainda o segundo e o terceiro, todos parceiros. São os incomodados pelas delações. Gritzbach havia denunciado policiais de dois departamentos e de duas delegacias. Está tudo registrado, em depoimentos e em áudios. Basta puxar os fios.

Pelo espetáculo, ao gosto das quadrilhas, o fuzilamento de Gritzbach demarcou autoridade e sinalizou o poder sobre a vida de quem pensa em falar. Para os cabeças dessas organizações, a ciranda de doutores faz parte de um teatro.

É uma polícia que mata em bairros pobres e, para que ninguém ouse reclamar, constrange velórios. Às vezes investiga ilustres conexões, mas, quando alguém fala (quase sempre, o que se sabe), elas vão lá, matam e assistem à criação de uma força-tarefa.
Elio Gaspari

Vitória significa rejeição do liberalismo clássico e inaugura nova era nos EUA e no mundo

A vitória esmagadora de Donald Trump e do Partido Republicano no último dia 5 levará a grandes mudanças em áreas importantes na política dos Estados Unidos, desde a imigração até a Ucrânia. Mas o significado da eleição vai muito além dessas questões específicas e representa uma rejeição decisiva dos eleitores americanos ao liberalismo e à maneira particular como a compreensão de uma "sociedade livre" evoluiu desde os anos 1980.

Quando Trump foi eleito pela primeira vez em 2016, era fácil acreditar que esse evento era uma aberração. Ele estava concorrendo contra uma oponente fraca que não o levava a sério e, de qualquer forma, Trump não venceu no voto popular. Quando Biden conquistou a Casa Branca quatro anos depois, parecia que as coisas tinham voltado ao normal após uma desastrosa Presidência de um mandato só.

Após a votação do dia 5, agora parece que a anomalia foi a Presidência de Biden, e que Trump está inaugurando uma nova era na política dos EUA e talvez no mundo como um todo. Os americanos votaram nele com pleno conhecimento de quem Trump era e o que ele representava. Não só ele ganhou a maioria dos votos e todos os estados-pêndulo, mas os republicanos retomaram o Senado e parecem que vão manter a maioria da Câmara dos Representantes. Dada a sua já existente dominância na Suprema Corte, eles agora estão prontos para controlar todos os Três Poderes do governo.


Mas qual é a natureza desta nova fase da história americana?

O liberalismo clássico é uma doutrina construída em torno do respeito pela dignidade dos indivíduos por meio de um Estado de Direito que protege seus direitos e de controles constitucionais sobre a capacidade do Estado de interferir nesses direitos.

Mas, ao longo do último meio século, esse impulso básico sofreu duas grandes distorções. A primeira foi a ascensão do neoliberalismo, uma doutrina econômica que canonizou os mercados e reduziu a capacidade dos governos de proteger aqueles prejudicados por mudanças econômicas. O mundo ficou muito mais rico ao todo, enquanto a classe trabalhadora perdeu empregos e oportunidades. O poder se deslocou dos lugares onde nasceu a Revolução Industrial para a Ásia e outras partes do mundo em desenvolvimento.

A segunda distorção foi a ascensão do identitarismo ou do que se poderia chamar de liberalismo "woke" (forma como é chamado o discurso de pautas identitárias nos EUA), em que a preocupação progressista com a classe trabalhadora foi substituída por proteções direcionadas para um conjunto mais restrito de grupos marginalizados: minorias raciais, imigrantes, minorias sexuais e afins. O poder do Estado foi cada vez mais usado não a serviço da justiça imparcial, mas sim para promover resultados sociais específicos para esses grupos.

Enquanto isso, os mercados de trabalho estavam mudando para uma economia da informação. Em um mundo em que a maioria dos trabalhadores se senta em frente a uma tela de computador em vez de levantar objetos pesados do chão da fábrica, as mulheres têm uma posição mais igualitária. Isso transformou o poder dentro das famílias e levou à percepção de uma celebração aparentemente constante das conquistas femininas.

A ascensão desses entendimentos distorcidos a respeito do que é o liberalismo impulsionou uma grande mudança na base social do poder político. A classe trabalhadora sentiu que os partidos políticos de esquerda não estavam mais defendendo seus interesses e começou a votar em partidos de direita.

Assim, o Partido Democrata perdeu o contato com sua base da classe trabalhadora e se tornou um partido dominado por profissionais urbanos escolarizados. Os trabalhadores escolheram votar nos republicanos. Na Europa, eleitores do partido comunista na França e na Itália desertaram para Marine Le Pen e Giorgia Meloni.

Todos esses grupos estavam insatisfeitos com um sistema de livre comércio que eliminou seus meios de subsistência, ao mesmo tempo em que criou uma nova classe de super-ricos, e também estavam insatisfeitos com partidos progressistas que aparentemente se importavam mais com estrangeiros e o meio ambiente do que com sua própria condição econômica.

Essas grandes mudanças sociológicas foram refletidas nos padrões de votação na terça-feira. A vitória republicana foi construída em torno de eleitores brancos da classe trabalhadora, mas Trump conseguiu atrair significativamente mais eleitores negros e hispânicos em comparação com a eleição de 2020. Isso foi especialmente verdadeiro para os homens dentro desses grupos. Para eles, a classe importava mais do que raça ou etnia. Não há razão particular para que um latino da classe trabalhadora, por exemplo, deva se sentir particularmente atraído por um liberalismo woke que favorece imigrantes recentes e se concentra em avançar os interesses das mulheres.

Também está claro que a grande maioria dos eleitores da classe trabalhadora simplesmente não se importava com a ameaça à ordem liberal, tanto doméstica quanto internacional, representada por Trump.

Donald Trump não quer apenas reverter o neoliberalismo e o liberalismo woke, mas é uma grande ameaça ao próprio liberalismo clássico. Essa ameaça é visível em várias questões políticas; uma nova Presidência de Trump não se parecerá em nada com seu primeiro mandato. A verdadeira questão neste ponto não é se suas intenções são malignas, mas sim sua capacidade de verdadeiramente cumprir o que ameaça.

Muitos eleitores simplesmente não levam sua retórica a sério, enquanto republicanos tradicionais argumentam que os freios e contrapesos do sistema americano o impedirão de fazer o pior. Isso é um erro: devemos levar suas intenções declaradas muito a sério.

Trump é um protecionista autoproclamado, que diz que tarifa é a palavra mais bonita da língua inglesa. Ele propôs tarifas de 10% ou 20% contra todos os bens produzidos no exterior, por nações amigas ou inimigas, e não precisa do aval do Congresso para fazê-lo.

Como um grande número de economistas apontou, esse nível de protecionismo terá efeitos extremamente negativos sobre a inflação, produtividade e emprego. Será extremamente prejudicial para as cadeias de suprimentos, o que levará os produtores domésticos a solicitar isenções. Isso então proporciona a oportunidade para altos níveis de corrupção e favoritismo, à medida que as empresas correm para agradar o presidente.

Tarifas nesse nível também convidam a retaliações igualmente massivas por outros países, criando uma situação em que o comércio (e, portanto, a renda) colapsa. Talvez Trump recue diante disso; ele também pode responder como a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, corrompendo a agência estatística que reporta as más notícias econômicas.

Com relação à imigração, Trump não quer mais simplesmente fechar a fronteira; ele quer deportar o máximo possível dos 11 milhões de imigrantes em situação irregular já no país. Essa é uma tarefa administrativa tão grande que exigirá anos de investimento na infraestrutura necessária para realizá-la — centros de detenção, agentes de controle de imigração, tribunais e assim por diante.

Terá efeitos devastadores em vários setores que dependem da mão de obra imigrante, particularmente construção civil e agricultura. Também será enormemente desafiador em termos morais, à medida que pais são separados de seus filhos americanos, e criaria o cenário para um conflito civil, já que muitos dos imigrantes vivem em jurisdições democratas que farão o que puderem para impedir que Trump consiga o que quer.

Com relação ao Estado de Direito, Trump se concentrou, durante a campanha, em buscar vingança pelas injustiças que acredita ter sofrido nas mãos de seus adversários. Ele prometeu usar o sistema de justiça para perseguir de Liz Cheney e Joe Biden ao ex-presidente do Estado-Maior Mark Milley e Barack Obama. Ele quer silenciar críticos da mídia retirando suas concessões ou impondo penalidades.

Se Trump terá o poder de fazer qualquer uma dessas coisas é incerto: o sistema judicial foi uma das barreiras mais resilientes aos seus excessos durante o primeiro mandato. Mas os republicanos têm trabalhado consistentemente para inserir juízes trumpistas no sistema, como a juíza Aileen Cannon na Flórida, que rejeitou o forte caso dos documentos confidenciais contra Trump.

Algumas das mudanças mais importantes virão na política externa e na natureza da ordem internacional. A Ucrânia é de longe a maior perdedora; sua luta militar contra a Rússia estava enfraquecendo mesmo antes da eleição, e Trump pode forçá-la a se render nos termos da Rússia ao reter armas, como a Câmara Republicana fez por seis meses no inverno passado.

Trump ameaçou reservadamente sair da Otan, mas mesmo que não o faça, ele pode enfraquecer gravemente a aliança ao não cumprir sua garantia de defesa mútua do Artigo 5. Não há líderes europeus que possam substituir os Estados Unidos como líder da aliança, então sua futura capacidade de enfrentar a Rússia e a China está em grave perigo. Pelo contrário, a vitória de Trump inspirará outros populistas europeus, como a Alternativa para a Alemanha e a Reunião Nacional na França.

Aliados e amigos dos EUA no Leste Asiático não estão em posição melhor. Embora Trump tenha falado duramente sobre a China, ele também admira muito Xi Jinping por suas características autocráticas e pode estar disposto a fazer um acordo com ele sobre Taiwan. Trump parece avesso por natureza ao uso do poder militar e é facilmente manipulado, mas uma exceção pode ser o Oriente Médio, onde ele provavelmente apoiará completamente as guerras de Benjamin Netanyahu contra o Hamas, o Hezbollah e o Irã.

Há fortes razões para pensar que Trump será muito mais eficaz em cumprir essa agenda do que foi durante seu primeiro mandato. Ele e os republicanos reconheceram que a implementação de políticas depende da equipe. Quando foi eleito pela primeira vez em 2016, ele não entrou no cargo cercado por um grupo de assessores leais; em vez disso, teve que contar com republicanos do establishment.

Em muitos casos, eles bloquearam ou retardaram suas ordens. No final de seu mandato, ele emitiu uma ordem executiva que retiraria todas as proteções de estabilidade dos servidores federais e permitiria que ele demitisse qualquer burocrata que quisesse. Um renascimento dessa medida está no cerne dos planos para um segundo mandato de Trump, e os conservadores têm estado ocupados compilando listas de potenciais funcionários cuja principal qualificação é a lealdade pessoal a Trump. É por isso que ele tem mais chances de executar seus planos desta vez.

Antes da eleição, críticos, incluindo Kamala Harris, acusaram Trump de ser um fascista. Isso foi equivocado na medida em que ele não estava prestes a implementar um regime totalitário nos EUA. Em vez disso, haveria uma decadência gradual das instituições liberais, assim como ocorreu na Hungria após o retorno de Viktor Orbán ao poder em 2010.

Essa decadência já começou, e Trump causou danos substanciais. Ele aprofundou uma polarização já significativa e transformou os EUA de uma sociedade de alta confiança para uma de baixa confiança; ele demonizou o governo e enfraqueceu a crença de que ele representa os interesses coletivos dos americanos; ele tornou o discurso político mais grosseiro e deu permissão para expressões abertas de intolerância e misoginia; e ele convenceu a maioria dos republicanos de que seu antecessor foi um presidente ilegítimo que fraudou a eleição de 2020.

A amplitude da vitória republicana, estendendo-se da Presidência ao Senado e provavelmente à Câmara dos Representantes também, será interpretada como um forte mandato político confirmando essas ideias e permitindo que Trump aja como quiser. Só podemos esperar que algumas das barreiras institucionais restantes sigam de pé. Mas pode ser que as coisas tenham de piorar muito antes de melhorarem.

A 'Folha' deve uma explicação aos seus leitores sobre Bolsonaro

Espaço de opinião é para colaboradores fixos e avulsos de um veículo de comunicação, e para o próprio veículo se expressar por meio de editoriais. Os editoriais são a voz do dono, não dos jornalistas; os artigos, a voz dos seus autores, jornalistas ou não.

Com menos frequência, o espaço de opinião também é usado por convidados especiais do dono do veículo ou dos que comandam sua redação, levando-se em conta a importância dos convidados e o que eles têm a dizer de relevante e oportuno naquele momento.

A Folha de São Paulo julgou relevante e oportuno convidar o ex- presidente Jair Bolsonaro para que escrevesse um artigo, e o publicou no último dia 10, às 20h, em sua edição digital, reproduzindo-o no dia seguinte em sua edição impressa.


Não foi um ato isolado. A ombudsman da Folha notou que, ultimamente, o jornal tem aberto generoso espaço para destacar ações de Bolsonaro e dos seus aliados. Se isso significa uma conversão ao bolsonarismo, não sei, mas a Folha tem esse direito.

Sob o título que soa irônico “Aceitem a democracia”, e o subtítulo “O povo tem escolhido a ordem, o progresso, a liberdade econômica e de expressão e o respeito às famílias e à religião”, o artigo exalta o avanço da direita no mundo e desanca a esquerda.

Alguns trechos:

“Nada consegue conter a onda conservadora. Nem a censura, nem os cancelamentos, nem o boicote econômico, nem as perseguições policiais, nem as longas, arbitrárias e injustas prisões.”

“A resistência e a resiliência da direita têm uma razão muito simples: nossas bandeiras, mesmo sob ataque do grosso dos veículos de comunicação e de seus jornalistas, expressam os sentimentos e anseios mais profundos da maioria da sociedade.”

“A moda é nos acusar de inimigos da democracia. Mas quem mostra dificuldade de aceitar a democracia é a esquerda quando a maioria do povo decide por caminhos diferentes do que ela gostaria. Basta olhar a reação da esquerda às suas derrotas.”

“Cada um que faça suas escolhas. Nós, da direita, tão injustamente acusados de “extremismo”, continuaremos perseverando no caminho que sempre defendemos, o da liberdade e da democracia, entendida como o governo do povo.”

A polêmica desatada pela publicação do artigo tem a ver com duas coisas: deve-se dar voz a um golpista, filhote da ditadura que a seu juízo torturou e matou menos gente do que deveria, e logo para que ele defenda hipocritamente a democracia que já tentou derrubar?

A normalização de um líder autoritário só faz mal à democracia

Bolsonaro está inelegível, condenado por abuso de poder político e econômico nas comemorações do Bicentenário da Independência do Brasil. Há fartas provas de que na iminência da derrota em 2022, ele tramou dar um golpe, e não foi a única vez que tramou.

O artigo de Bolsonaro é um exercício de pura enganação, embora ele tenha o direito de enganar a rodo. A Constituição não proíbe a mentira e assegura a liberdade de expressão por mais deletéria que ela possa ser. Nas democracias é assim, daí sua vulnerabilidade.

A segunda coisa que tem a ver com a publicação do artigo é esta: os leitores da Folha esperavam que ela refletisse sobre o conteúdo da peça escrita por Bolsonaro, seja para a criticar ou corroborar. É o que a Folha costuma fazer com assuntos de grande repercussão.

Por que o jornal desta vez preferiu calar? Por que não demoliu um por um os argumentos de Bolsonaro sem lastro na realidade? A normalização de líderes autoritários serve ao propósito dos que se beneficiam da democracia com a intenção de miná-la por dentro.

A Folha deve uma explicação aos seus leitores. Não basta abrir espaço para que a critiquem, nem acionar repórteres para que confrontem Bolsonaro com ele mesmo. Se o jornal está aos poucos se reposicionando, que o faça com transparência.

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

Armadilhas da história

Pobre Francis Fukuyama. Ele escreveu que a democracia liberal era a última e definitiva forma de organização política. Fim da História. Pobres de nós. Pensamos que os regimes autoritários precisavam transitar para a democracia para garantir prosperidade às pessoas. O mundo deu uma volta. As democracias têm dificuldade de crescimento sustentável. Não agradam como antes. Os regimes autoritários adotam os métodos capitalistas e conseguem decolar.

Em 1995, apenas 4% das pessoas com renda de US$ 20 mil ao ano viviam em países de regime autoritário. Eram 35 milhões. Hoje, mais de 350 milhões ganham isso, na Rússia, no Cazaquistão e em países do Golfo Pérsico. Incluindo províncias costeiras da China, o número sobe a 800 milhões. A liberdade de expressão, direitos políticos, tudo isso foi trocado por bem-estar e um certo orgulho nacional.

Trump admira alguns desses regimes autoritários, líderes fortes. Se avançar sem resistência sobre a democracia liberal americana, o planeta muda de figura definitivamente.

Assegurar o regime democrático em nosso continente é uma acrobacia: apoiar a esquerda quando surge o perigo pela direita, como no Brasil; apoiar a direita quando o perigo vem da esquerda, como na Venezuela.


A grande questão que se coloca é a sobrevivência da liberdade num contexto político em que a democracia perde prestígio e cresce a sedução autoritária. O que fazer? Claro que temos muito a discutir, superar divergências. Pouco adiantará nossa discussão se não buscarmos as pessoas, inclusive aquelas mais distantes na periferia. Vivemos numa sociedade de riscos, e os pobres são os principais atingidos pelos eventos extremos. É preciso organizar sua autodefesa, conhecer suas demandas.

Os políticos profissionais parecem não se dar conta da possibilidade de o povo se voltar contra a democracia. Em 2013, houve uma revolta por serviços do Estado. Mesmo agora, é impossível oferecer serviços eficazes se não houver grande esforço, que passa pela redução dos custos do aparato burocrático militar, supressão de supersalários e adaptação às condições reais do país. Os projetos sociais precisam ser modernizados, como na Índia, onde a adoção de um número pessoal suprimiu todo o desperdício, sem prejuízo dos benefícios.

Será preciso ser mais realista na luta identitária. Ela não é instrumento principal, sobretudo em eleições majoritárias. O rígido politicamente correto e os cancelamentos só atrapalham.

O próprio sistema jurídico poderia contribuir para amenizar a polarização. Os vencedores do momento precisam mostrar mais generosidade. Manter presa a mulher que escreveu com batom numa estátua, condenar a 17 anos de prisão uma idosa que fez cocô no STF, tudo isso merece ser revisto. A ideia é que participavam de um plano golpista, abriam caminho aos militares e aos políticos. Os militares não apareceram, os políticos ficaram em seus gabinetes; estamos punindo pesadamente um corpo sem cabeça.

Sei que, assim argumentando, me exponho às acusações de sempre: estar a serviço da direita. Não tenho medo de ser condenado à lata de lixo da História, sempre saio dela reciclado. Vejo o momento como muito grave, um túnel escuro em que os democratas precisam se unir.
Quando começa um período mais difícil, sempre penso nesta frase:

— Coragem, o Reino dos Céus está próximo.

Ouvi de integrantes do Exército da Salvação em Estocolmo. É apenas uma licença poética. Não acredito em reino dos céus. Mas gosto do som da frase.

Importante traçar um rumo desde agora: não sectário, fixado no essencial. Quanto menos estresse, menos conflito inútil, maior a possibilidade de pensar uma saída em tempos sombrios e um dia, quem sabe, a gente poderá rir um pouco de todo esse sufoco.

Os horrores de uma guerra que Israel tenta esconder do mundo

Ou as Forças de Defesa de Israel têm má pontaria ou para elas pouco importa matar deliberadamente civis inocentes, de preferência mulheres e crianças, desde que aqui e acolá matem vez por outra combatentes armados ou desarmados do grupo Hamas.

Se você dispara um míssil contra um prédio ou um conjunto deles, seja durante o dia, mas principalmente à noite, é impossível desconhecer que o míssil não distinguirá entre homens armados ou desarmados, mulheres e crianças que ali habitam.

Você poderá chamar de “danos colaterais” a morte de inocentes. Eu chamo de assassinato em massa, genocídio, holocausto como o que dizimou milhões de judeus, ciganos e outras minorias na Alemanha de Hitler à época da Segunda Guerra Mundial.


Durante séculos, a palavra “holocausto” foi usada para designar grandes massacres. Desde os anos 1960, porém, o termo passou a ser usado por estudiosos e escritores para se referir especificamente ao genocídio nazista contra o povo judeu.

Quase 70% dos mortos na Faixa de Gaza nos primeiros seis meses da guerra eram mulheres e crianças, de acordo com o mais recente relatório da ONU. Em números: das 8.119 mortes investigadas, 3.588 foram de crianças e 2.036 de mulheres.

A vítima mais jovem era um menino de um dia de vida, e a mais velha uma mulher de 97 anos. O conflito se arrasta há 13 meses. Segundo as autoridades de saúde palestinas, nesse período o número total de mortos já ultrapassou a casa dos 43 mil.

O relatório diz que os números indicam “uma violação sistemática dos princípios fundamentais do direito internacional humanitário”. A esmagadora maioria das mortes ocorreu em prédios residenciais ou habitações similares.

Crianças de cinco a nove anos representam a maior faixa etária atingida, seguidas por aquelas de 10 a 14 anos e, por fim, as de até quatro anos. Em 88% dos casos verificados, cinco ou mais pessoas foram mortas no mesmo ataque por armas de uso israelense.

Os funcionários da ONU encontraram 484 famílias que perderam entre cinco e mais de 30 membros. A família Al Najjar perdeu 138 dos seus membros, entre os quais 35 mulheres e 62 crianças; a família Al Astal perdeu 94, sendo 33 mulheres e 45 crianças.

O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, comenta: “Esse nível sem precedentes de mortes e ferimentos de civis é uma consequência direta da falha em cumprir os princípios fundamentais do direito humanitário internacional”.

Quase 2 milhões de pessoas, 80% dos que ainda vivem na Faixa de Gaza, passaram por deslocamentos ordenados por Israel. Os palestinos estão limitados a 20% da área que antes ocupavam. É dramática a escassez de água, luz, comida e remédios.

É uma guerra cujos horrores Israel tenta esconder do mundo, uma vez que a imprensa é proibida de acompanhá-la no local. Pelo menos 129 jornalistas e profissionais da mídia palestinos foram mortos, informa o Committee to Protect Journalists (CPJ).

Este foi o ano mais mortal para jornalistas desde que o CPJ começou a registrar os números em 1992. Nas primeiras 10 semanas da guerra, mais jornalistas foram mortos na Faixa de Gaza do que em qualquer país ao longo de um ano inteiro.