domingo, 22 de outubro de 2023

Com olhos em Gaza

O mundo está doente, sem muito onde esconder esta dor cortante que se chama guerra. Ela, a guerra dos tempos atuais, gosta de se exibir, de se mostrar na tela de qualquer celular. Ela adentra agora a terceira semana de uma escalada de matanças iniciada pelo grupo terrorista Hamas e respondida por Israel com punição coletiva máxima à vida em Gaza. Esse horror poderia ser pior? Sim, e muito — tanto para nossos compatriotas como para o resto do mundo. Basta imaginar o Brasil e os Estados Unidos ainda em mãos de Jair Bolsonaro e Donald Trump, com ambos encorajando os piores instintos do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. A remota eventualidade de o congressista de extrema direita Jim Jordan ocupar a presidência da Câmara dos Representantes americana, atualmente acéfala, já dá calafrios. Se eleito, Jordan se tornaria o terceiro na linha de sucessão, portanto logo atrás de Kamala Harris, em caso de afastamento do presidente Joe Biden por algum motivo. Integrantes do próprio Partido Republicano designam Jordan como “legislador terrorista”, golpista e partidário de uma política de terra arrasada.


Os historiadores Will e Ariel Durant, coautores dos quase 20 volumes de “História da civilização”, calcularam que, em toda a história da humanidade, vivemos apenas 27 anos sem que alguma guerra estivesse ocorrendo em algum canto do planeta. Guerras não são, portanto, uma aberração. Apenas expõem um lado da natureza humana mascarado por convenções de civilidade que moldam a sociedade. Nunca é demais dar um Google ou fazer uma imersão física na obra-prima de Goya, “El 3 de mayo en Madrid”, exposta no Museu do Prado, de Madri. Na monumental tela de 2,6 x 3,4 metros pintada em 1814, a vítima anônima a ser fuzilada passou a representar todas as vítimas inocentes de todas as guerras. É terrivelmente bela.

Ao longo da semana passada, assistiu-se a um esforço concentrado do Conselho de Segurança da ONU, sob a presidência do Brasil, para chegar a um acordo mínimo capaz de interromper a asfixia, por fome, sede, deslocamento, enfermidades ou bombardeios ininterruptos, de palestinos amontoados no que resta de vida em Gaza. Joe Biden deu o único voto contra, chamando para si a primazia de dizer ao mundo (e a seu eleitorado americano) quando e como arranjos humanitários teriam o aval dos Estados Unidos. Entrementes mais vidas palestinas iam se apagando. Até a sexta-feira, já havia mais de 1.600 crianças palestinas envoltas em mortalhas brancas, choradas por quem ainda podia chorar.

Até hoje, nenhuma negociação envolvendo o Estado de Israel e a Palestina conseguiu superar uma disparidade semântica criada propositalmente quase cinco décadas atrás. No dia 22 de novembro de 1967, com o Oriente Médio mal refeito da Guerra dos Seis Dias, o Conselho de Segurança aprovou a Resolução 242, que exigia a retirada de Israel “de territórios ocupados no conflito recente”. Na versão oficial em francês, contudo, à preposição se acrescentou o artigo definido: retirada “dos territórios ocupados”, de todos eles (Cisjordânia, Deserto do Sinai, Colinas de Golã, Gaza). Enquanto a versão em inglês permitia flexibilidade para negociações futuras, a francesa não dava espaço a interpretações. Ambas foram referendadas à época, sobreviveram aos Acordos d Paz de Camp David (1978), Oslo (1993) e continuam a reger essa diferença intransponível.

Não por acaso, “Vai pra Gaza” tornou-se expressão coloquial israelense, usada por quem quer mandar o outro ao inferno. Entrou para o léxico por força do statu quo, não muito diferente do “Vai pra Cuba” dirigido por “brasileiros de bem” a comunistas imaginários. Não dói, mas diz muito sobre o que está subjacente. Quando o atual ministro da Defesa israelense, Yoav Gallant, classifica os palestinos de Gaza de “animais desumanos”, recorre à mesma linguagem atiçada do terror.

A trágica história do povo judeu criou a tragédia atual do povo palestino, resumiu o pensador francês Edgar Morin com lucidez centenária (está com 102 anos). Morin talvez seja um dos últimos adeptos do universalismo, a convicção de que determinados princípios e ideias trazem embutidos um valor universal que transcende nações, fronteiras e laços de sangue. Mas como tomar conta do mundo, perguntaria Clarice Lispector, se não encontramos a quem prestar contas?

Guerra contra todos

O mundo responsável segue preocupado com o ataque do Hamas ao sítio israelense e à resposta dos atacados. Os mortos já passam de 5 mil mil cidadãos, cidadãs e crianças. A cidade de Gaza e o resto da Faixa de Gaza já estão quase totalmente destruídos, como não podia deixar de ser. Só vemos fotos na imprensa onde tudo se encontra em restos de paredes e estruturas pelo chão.

No meio da tragédia somos informados de que os palestinos libertaram duas pessoas sequestradas por razões humanitárias. Estão livres, podem voltar para o seio da família, o contrário do que os sequestradores anunciavam quando começaram a entrar em ação.

Ótimo. Claro que nos sentimos solidários à alegria da dupla, que aplaudimos a decisão dos sequestradores. Mas de onde vem essa decisão? O que ela significa? A que ela nos leva? Que brincadeira é essa com os nossos corações?

Quando essa guerra começou, há duas semanas, nos manifestamos contra sua natureza e sobretudo quanto aos motivos e às disposições dos dois lados dela. Considerávamos que não havia por que ambos afirmarem tal ódio ao “inimigo” por tão pouco. Nosso mundo não justificava mais (nem nunca justificou) uma oposição racial ou religiosa tão intensa quanto a que eles sempre afirmaram sentir um pelo outro. Uma oposição capaz de gerar um nível de ódio impossível de ser explicado, a não ser pela simples e inexplicável estupidez humana.

Na eleição de Joe Biden à presidência americana, nos unimos ao que havia de melhor nos Estados Unidos e no mundo em um elogio à derrota de Donald Trump, cuja vitória significaria um sucesso da extrema direita violenta, guerreira, inimiga dos fundadores libertários do século XIX.


Hoje vemos que estávamos enganados. Ou seja, que Biden não era muito melhor que Trump. Será que não podemos ter esperança alguma num futuro do planeta?

Há pouco o Brasil estava assumindo a presidência do Conselho de Segurança da ONU por um mês, como é de praxe, com o governo enfrentando os “amigos” do Congresso que queriam que se declarasse apoio a Israel e ao bombardeio de Gaza. O Itamaraty e o ministro do Exterior, Mauro Vieira, apresentaram uma proposta adulta, que deixava esse apoio a critério de cada país. E que, ao mesmo tempo, pregava a paz. Pois o representante dos Estados Unidos não quis saber de nada, recusou-se a assinar a moção brasileira. Foi o único membro do Conselho a adotar essa posição e como tem direito a veto, junto com mais cinco nações igualmente poderosas, acabou neutralizando a pacífica intenção da proposta.

Talvez seja também a prova de uma ingenuidade brasileira, o não entendimento de que a paz não seria um bom negócio para os poderosos. Mas, se estamos sós, a sós ficaremos!

Quem sabe isso não será também um recado para nós todos que desejamos antes de tudo o fim das guerras. No fundo, talvez seja o que os países membros do Conselho da ONU com direito a veto desejem nos dizer, para não nos metermos nesses assuntos que são da alçada deles.

O fato é que a maldição dessa guerra insana (insana como toda guerra) impediu que as vítimas da Faixa de Gaza recebessem um pouco de água e comida, além dos serviços médicos de que devem estar precisando tanto.

Gaza — que, na definição de um político europeu, foi chamada de a maior prisão a céu aberto do mundo — continuará recebendo os líderes da guerra de braços dados com o desorientado Benjamin Netanyahu a fim de comemorar as “vitórias” no combate contra palestinos e israelenses.

Pensamento do Dia

 


Vingança não muda o mundo


Quando mataram meu filho no Líbano, quis me vingar. Mas vingança não muda nada
David Grossman, escritor israelense

A caixa de Pandora

Na Mitologia Grega, o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus e deu aos homens, para eles serem superiores aos outros aninais. Zeus, em retaliação, pediu a Hefesto, Deus do Fogo, e a Atena, Deusa da Sabedoria, para criar Pandora, dotada de beleza, graciosidade e curiosidade. Para se vingar dos homens, Zeus fez chegar à Pandora uma caixa onde estavam todos os males do mundo, como a guerra, a doença, a mentira, e o ódio, mas também a esperança, com a recomendação de que ela nunca deveria ser aberta. Pandora abre a caixa, espalhando todos os males do mundo, fechando-a com a esperança dentro. Pandora tenta destruir a caixa, mas ela tem um feitiço para não ser destruída. Triste, Pandora se suicida.

Os limites dos homens são complicados. Maquiavel, filósofo e historiador Italiano e um dos fundadores pensamento político Ocidental, diz que na guerra, “não se deve humilhar o vencido, pois a humilhação leva ao ódio, e o ódio à vingança”. Sun Tzu, general e estrategista da China antiga e de suma importância no pensamento militar do Oriente, diz que “ao cercar o inimigo deve-se deixar uma possibilidade de fuga, não para que ele fuja, mas para que não lute com a força de um leão enfurecido”. E Carl von Clausewitz, general Prussiano e o mais importante e influente teórico militar contemporâneo, diz que “as guerras modernas raramente são travadas sem ódio entre as nações; isso serve mais ou menos como um substituto para o ódio entre indivíduos”. Erros recíprocos podem levar ao ódio, que se retroalimenta.


O homem é um animal que compartilha a emoção, boas e más, com a razão. Quando a emoção se deteriora, surgindo a raiva, pode-se perder a razão por completo, no império do ódio.

Nos Sete Pecados Capitais, estão a inveja, a ira, e a soberba, em contraposição à empatia, à generosidade, e à humildade.

Em sua excelente análise sobre os limites a que o homem pode chegar, Edson de Oliveira Nunes, em seu artigo recente, diz-nos sobre a banalidade do mal, evocando Hannah Arendt, quando as causas se perdem, e surge o mal pelo mal, o mal puro, “aquela hora na qual desaparece a humanidade das pessoas”, como escrito em seu artigo.

No Oriente Médio, a guerra se acirra. No Brasil, o rio Solimões seca. Na Sibéria, “vírus zumbis” se renascem após 50 mil anos, pelo degelo. Perdem-se momentos históricos em decisões equivocadas. Que alguém reabra a caixa de Pandora onde ainda se encontra a esperança, nas atitudes altruístas da humildade e do bem-querer, para que o homem sobreviva, hoje à beira do precipício.

A contribuição da mídia para o ciclo de violência

Uma vez mais, a exemplo do que acontece há décadas, é um ataque a Israel o elemento a ativar uma cobertura jornalística exaustiva da mídia comercial brasileira sobre o conflito israelo-palestino. Claro, a magnitude sem precedentes (sob o ponto de vista israelense) dos atentados terroristas cometidos pelo grupo palestino Hamas contra civis em 7 de outubro – muitos dos 1.300 mortos – mais do que justifica a atual repercussão. Porém, é inescapável a constatação de que, via de regra, ofensivas contra palestinos não são suficientes para tanto, à exceção de quando são realizadas a modo de “retaliação” – nesse caso, novamente a partir da perspectiva de Israel.

Já nos períodos entre tais ataques, ou entre as “guerras”, o interesse jornalístico sobre a região cessa. A impressão, portanto, é de normalização. Só que o “normal” e corrente é a opressão sistemática do Estado de Israel sobre os palestinos, há décadas submetidos a uma política de militarização, segregação institucionalizada, roubo de terras, demolição de casas, violências físicas e morais, encarceramento em massa e assassinatos. Nesse alinhamento editorial quase
automático à narrativa israelense e das potências ocidentais sobre os fatos, a vida dos palestinos parece valer menos.

Tal postura é compreensível. Afinal, os israelenses “são pessoas como todos nós”, como disse um jornalista brasileiro. Esquece-se, talvez, que os palestinos também são. A identificação e, logo, empatia com o “similar” e a desumanização do “outro” não é novidade entre a mídia hegemônica no Brasil e no Ocidente. Em relação aos árabes e muçulmanos, tal desumanização ganhou muita força, especialmente, após os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Na BBC, enquanto os israelenses são mortos, os palestinos morrem. Na CNN Brasil, a legenda do noticiário diz que o Hamas “ataca” Israel, mas bombas aparentemente sem dono “atingem” Gaza.

Em Jenin, ingleses destruíram um quarteirão da cidade com dinamite, em 1938

O foco desproporcional das e dos jornalistas brasileiros (mas também os de fora) em, por um lado, repetidamente proclamar os atos do grupo palestino em 7 de outubro como terroristas – com razão – mas, por outro, sonegar ao público o contexto estrutural e conjuntural em que se inserem contribui, conscientemente ou não, para justificar (ou, no mínimo, tornar mais palatável) a “retaliação” israelense, historicamente carregada de crimes de guerra e números de assassinatos de civis flagrantemente mais graves. Mesmo nos minoritários comentários críticos sobre as consequências dos bombardeios israelenses à Faixa de Gaza (os de agora ou os anteriores), a carga emotiva fica muito longe de ser a mesma. As vítimas palestinas raramente têm nome, rosto, histórias como “de todos nós”. Jornalistas ávidos a chamar “as coisas pelo seu nome” no caso do Hamas não se esforçam tanto assim para nomear de forma contundente o caráter e as ações de Israel – um agente estatal, vale lembrar.

Até 16 de outubro, o atual bombardeio a Gaza já havia matado mais de 2.800 pessoas, incluindo mais de mil crianças, e deslocado forçosamente ao menos 1 milhão. Já havia evidências de ataques a hospitais, ambulâncias e escolas, assassinatos de funcionários da ONU e Cruz Vermelha, utilização de fósforo branco, arma química proibida pela legislação internacional, além do bloqueio total da entrada de alimentos, água e combustível. Elementos que configuram claramente a prática de punição coletiva. Contudo, com raríssimas exceções, as expressões “crimes de guerra” ou “terrorismo de Estado”, assim como as palavras “crueldade” ou “atrocidades”, não são ditas nem escritas pelas bocas e mãos dos jornalistas brasileiros. Pelo menos não com o mesmo destaque. Pelo contrário: na escalada do “Jornal das Dez” de 12 de outubro, da GloboNews, por exemplo, o âncora anunciou: “Funcionários da ONU e da Cruz Vermelha morrem em Gaza em meio ao fogo cruzado”. Comentaristas dizem sem meias palavras serem contrários a um cessar-fogo. Em meio ao amplamente denunciado desrespeito absoluto às leis internacionais por parte de Israel, não faltam entrevistas com soldados e sua linguagem desumanizadora. E não são raros os momentos em que notícias sobre os ataques a Israel são atualizadas tendo como imagens de fundo as vítimas do bombardeio israelense.

Além disso, o foco desproporcional na natureza do Hamas escamoteia o verdadeiro debate que a maioria dos profissionais dos meios de comunicação se recusa a fazer: quais as causas do estopim de mais esse ciclo de violência? Buscar entender as condições conjunturais e estruturais que levam a essa situação não exclui a condenação das atrocidades cometidas pelo grupo islâmico palestino. Não compreendê-las, por outro lado, necessariamente contribui para a perpetuação do ciclo de violência e da flagrante situação de injustiça (e violência cotidiana) sofrida pelos palestinos.

Em editorial, o Haaretz, mais importante jornal israelense, afirma de forma categórica: o responsável pelo mais recente ciclo de violência é o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu. No mesmo veículo, o respeitado jornalista Gideon Levy argumenta que Israel não poderia aprisionar 2 milhões de pessoas sem pagar um preço cruel. Não se viu elaborações do tipo partindo de jornalistas brasileiros da mídia corporativa – no mínimo, não ganharam destaque. Aparentemente, mesmo na imprensa israelense há mais espaço para o contraditório sobre… Israel.

Se exercessem de maneira minimamente equilibrada sua função, os jornalistas da imprensa comercial não sonegariam a informação crucial de que Israel promove um regime de apartheid contra os palestinos. Essa não é uma classificação bradada “apenas” por palestinos ou apoiadores da causa há décadas: além da respeitada organização de direitos humanos palestina Al-Haq, o entendimento de que o Estado de Israel adota políticas, práticas e leis cujo objetivo é consolidar a supremacia de judeus sobre palestinos é compartilhado pelas amplamente reconhecidas Anistia Internacional e Human Rights Watch, além da ONU e da B-Tselem, principal organização de direitos humanos de… Israel. À mesma conclusão chegaram, entre outros, dois ex-embaixadores israelenses na África do Sul e ninguém menos do que o arcebispo sul-africano Desmond Tutu, um dos mais proeminentes opositores da segregação institucional que existiu por décadas em seu próprio país.

O apartheid também é a realidade dos cerca de 20% de palestinos que vivem dentro de Israel e que possuem cidadania israelense. Em 2018, a imprensa brasileira não repercutiu exaustivamente a aprovação no Knesset (o parlamento local) da Lei do Estado-Nação, que definiu oficialmente Israel como “Estado-Nação do povo judeu”, reservou o direito à autodeterminação apenas a esse povo e estabeleceu o hebraico como única língua oficial. Não se fala também que na “única democracia do Oriente Médio” existem 65 leis discriminatórias contra palestinos que vivem nos territórios palestinos ocupados e/ou em Israel e que estes últimos, longe de gozarem de condições iguais a qualquer cidadão, ocupam a base da pirâmide da sociedade.

Mesmo diante de tamanho volume de evidências, a palavra “apartheid” não aparece nos comentários sobre o conflito na imprensa comercial. Não seria sequer preciso pronunciá-la com a mesma contundência adotada sem hesitação para definir o Hamas; bastaria, simplesmente, informar que as mais do que respeitadas entidades internacionais o fazem – e expor suas motivações. No máximo, menciona-se a “ocupação” do Estado israelense na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental, mas sempre de forma quase etérea, anódina, sem que se detalhe o que isso significa na prática para milhões de palestinos.

A afirmação de que os palestinos de Gaza “vivem sob a ditadura do Hamas” é repetida à exaustão, mas nunca se explica que a população palestina da Cisjordânia e Jerusalém Oriental está submetida à ditadura israelense. Um regime militar colonial de apartheid que, como testemunhei durante três semanas em maio deste ano, confina palestinos em bantustões, mata civis sistematicamente (incluindo crianças), encarcera em massa sem acusação formal (de novo, incluindo centenas de crianças), confisca terras e poços de água, ergue check-points e centenas de quilômetros de muros – violando o direito de ir e vir –, demole casas e escolas, impede a construção de novas residências palestinas e promove a expansão de assentamentos israelenses sobre as terras roubadas, boa parte deles habitada por colonos religiosos ultranacionalistas fortemente armados que realizam ataques praticamente diários a palestinos, seus lares e seus cultivos, resultando, por vezes, no desaparecimento completo de vilas palestinas. Entretanto, enquanto os ocupados e principais vítimas da violência estão sob a jurisdição da Justiça militar de Israel, os israelenses dos assentamentos respondem à Justiça civil. Em 12 de outubro, a GloboNews chegou ao ponto de entrevistar um militar israelense-brasileiro, morador de um assentamento na Cisjordânia, e ouvi-lo dizer que as “tensões” nessa região são comuns sem contestá-lo em nenhum momento sobre a ocupação.

Outro discurso amplamente repetido por jornalistas brasileiros é o famoso clichê de que “Israel tem o direito de se defender”. A não ser que a intenção seja cumprir a função de assessoria de comunicação dos governos de Israel, Estados Unidos e Reino Unido, entre outros, do ponto de vista jornalístico uma afirmação como essa é um atestado de falta de profissionalismo. Em primeiro lugar, porque, como é regra na cobertura da mídia comercial sobre o assunto, posiciona o início da linha temporal do conflito sempre no momento em que Israel é atacado, “escondendo”, assim, o contexto em que tal incidente se insere. A máxima isenta o Estado de Israel de sua responsabilidade como potência colonizadora de poder e força infinitamente superiores, promotora de segregação e violência cotidiana contra os palestinos não desde 1967, como frequentemente se imagina, mas desde 1947.

Pois, de dezembro desse ano até meados de 1949, milícias sionistas puseram em marcha uma operação militar, planejada com antecipação, que resultou na expulsão de cerca de 700 mil palestinos, na destruição de centenas de vilarejos e na realização de dezenas de massacres, com milhares de mortos. Em vez dos 56% do território determinados pela questionável proposta de partilha da ONU, o novo Estado se apoderou de 78%. Esse evento ficou conhecido como Nakba (catástrofe, em árabe). Sempre denunciada pelos palestinos e apagada pelos sionistas, foi “corroborada” a partir dos anos 1980 pelos chamados “novos historiadores” israelenses, com base na abertura dos arquivos militares de Israel referentes aos acontecimentos.

O clichê “Israel tem o direito de se defender” ignora mais esse fato histórico. A limpeza étnica de palestinos como base fundacional de Israel não é mencionada na imprensa nem mesmo nas matérias e comentários sobre o histórico do conflito, muito menos a informação de que 70% da população da Faixa de Gaza é formada justamente por refugiados da Nakba. Ou seja, são originários de vilarejos destruídos para dar lugar ao Estado sionista.

Oculta, ainda, a extrema desproporção de mortes dos “dois lados” do conflito resultante dessa absoluta assimetria de força e razão. Segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA, na sigla em inglês), somente de 2008 a 19 de setembro de 2023, 6.407 palestinos haviam sido mortos, entre eles, nada menos do que 1.437 crianças. Do lado israelense, esse número era de 308; destes, 177 eram civis, entre eles, 25 crianças. Ou seja, apenas a quantidade de crianças assassinadas de um lado foi oito vezes maior do que a do total de civis do outro. Do total de mortos, 95% são palestinos. Reconhecer que não existe uma “guerra”, mas sim uma entidade flagrantemente opressora – Israel – e outra flagrantemente oprimida – o povo palestino, é exercício de pura objetividade jornalística.

Até 18 de setembro, somente na Cisjordânia, 2023 já era o ano em que mais palestinos haviam sido mortos pelas forças de segurança israelenses desde 2005: 181, incluindo 38 crianças, superando 2022, o mais letal até então. Desde o ano passado, colonos israelenses, não raro sob a proteção do Exército, vêm realizando um número sem precedentes de ataques a vilas e vilarejos palestinos na mesma região, com assassinatos, queima de casas e cultivos, mortes de animais e cortes de oliveiras, a árvore-símbolo da Palestina e de importância crucial para a geração de renda de sua população. Por diversas vezes, invadiram o complexo da mesquita de Al Aqsa, terceiro local mais sagrado para os muçulmanos – de novo, sempre sob a proteção do Exército de Israel. A crescente violência empregada por esses colonos fez a própria Agência de Segurança de Israel, a Shin Bet, a classificá-los como terroristas cujos atos levam a um aumento da resistência contra a ocupação, conclusão que descontentou profundamente integrantes do governo de extrema-direita israelense.

Todavia, nem o terrorismo dos colonos israelenses nem boa parte de todo esse contexto relatado acima foram noticiados por aqui. Não se destaca, também, o fato de que a violência contra palestinos na Cisjordânia explodiu desde o dia do atentado do Hamas de 7 de outubro: em apenas oito dias, ataques de colonos e soldados israelenses já haviam matado 58 pessoas, incluindo 14 crianças, e causado a evacuação total de dois vilarejos. As forças de segurança de Israel estão instalando novos check-points e bloqueios de estradas, realizando prisões arbitrárias em massa e intensificando as violações contra prisioneiros palestinos, submetendo-os a medidas de punição coletiva.

O segundo motivo pelo qual nenhum jornalista deveria afirmar que Israel tem o direito de se defender deveria ser óbvio: ao longo da história do “conflito” já está mais do que demonstrado que tal “defesa” sempre (sem exceção) resulta no assassinato de uma maioria assustadora de civis – homens, mulheres, crianças. Investigações realizadas por respeitadas organizações de direitos humanos – como Anistia Internacional, a israelense B-Tselem e a Euro-Med Monitor – sobre os bombardeios anteriores à Faixa de Gaza atestam que o Estado israelense invariavelmente comete uma série de crimes de guerra, como a prática de punição coletiva e o lançamento intencional de ataques desproporcionais.

Nem manifestações e iniciativas pacíficas são poupadas. Entre março e dezembro de 2018, milhares de manifestantes desarmados de Gaza realizaram semanalmente a Marcha do Retorno, que reivindicava o retorno dos palestinos deslocados desde a criação de Israel. Segundo uma investigação da ONU, mais de 6 mil civis desarmados foram atingidos por disparos vindos dos militares israelenses, dos quais 189 foram mortos. Entre eles, 35 eram crianças. Já na madrugada de 31 de maio de 2010, navios da Marinha do Estado judeu abordaram e dispararam contra a pequena frota internacional que levava ajuda humanitária a Gaza, matando oito turcos e um estadunidense de origem turca. Sem falar na repressão absolutamente desproporcional contra os levantes populares que ficaram conhecidos como Primeira e Segunda Intifada, que causou a morte de milhares de civis palestinos.

Jornalistas que cobrem ou comentam o conflito israelo-palestino têm a obrigação de conhecer todo esse contexto – e informar seu público a respeito. Deveriam, também, saber que o próprio bloqueio terrestre, aéreo e marítimo à Faixa de Gaza, que dura dezesseis anos, configura em si um crime de guerra. Uma punição coletiva que condena boa parte de sua população a uma morte “lenta” ao não ter acesso adequado a água potável e serviços de saúde e ao depender de autorizações nem sempre concedidas para realizar tratamentos fora da região, entre outros fatores. Uma crueldade promovida por um Estado, não por uma agente não estatal, que faz que virtualmente todas as crianças nascidas ali não conheçam outra realidade que não a do bloqueio e dos bombardeios e sofram, assim, um trauma continuado, que especialistas afirmam não se enquadrar na categoria do transtorno de estresse pós-traumático em razão do fato de que o evento traumático não se encerra, não se dando chance, portanto, para que se inicie o processo de cura. O bombardeio atual é o quinto de grandes proporções à Faixa de Gaza desde 2009.

É nesta realidade estrutural e conjuntural que se inserem não somente os ataques dos Hamas em território israelense, como também sua própria criação, em 1987 – financiada, aliás, por Israel, com o intuito de enfraquecer os seculares Organização pela Libertação da Palestina (OLP) e o partido Fatah, liderados por Yasser Arafat. Compreender que esse tipo de ação é consequência da violência estrutural imposta pelo Estado de Israel sobre os palestinos há 76 anos não significa deixar de condenar as atrocidades cometidas contra civis israelenses em 7 de outubro.

Enquanto a ocupação militar e o apartheid israelenses continuarem existindo e se expandindo, a resposta militar legitimada e justificada por grande parte da imprensa brasileira e ocidental – de forma velada ou explícita – nunca será verdadeiramente vitoriosa. No entanto, o jornalismo hegemônico se recusa a fazer esse debate. De nada serve, também, o discurso pretensamente mais ponderado de condenar a brutalidade dos “dois lados” se não se ressalta que um deles é, de longe, o mais brutal. De nada serve performar timidamente a defesa da criação do Estado palestino se não se aponta que o principal obstáculo para isso é a postura do Estado de Israel de manter a ocupação e promover ininterruptamente a expansão territorial sobre terras palestinas. Que tipo de país seria viável em um território cada vez mais reduzido e fragmentado?

Não é a falta de diálogo ou o “ódio” entre dois povos que impedem o fim do ciclo de violência, mas sim a persistência de uma terrível injustiça que nem as potências ocidentais nem a mídia empresarial desses países e do Brasil têm interesse de denunciar ou condenar.

sábado, 21 de outubro de 2023

Eles não se massacram

A guerra é um massacre entre gente que não se conhece para proveito de pessoas que se conhecem mas não se massacram
Paul Valéry

O radicalismo mata a paz

Nada justifica a barbárie e o massacre selvagem de cidadãos israelitas. Israel tem, por isso, direito à autodefesa. Mas nada legitima uma resposta desproporcional e à margem das leis da guerra. Porque, de um lado e de outro da fronteira, as vítimas são sempre as mesmas: civis inocentes e indefesos. Foi a isto que nos conduziu a vitória do radicalismo sobre a moderação na política interna de Israel e da Palestina e, como consequência, a vitória do conflito sobre a diplomacia nas relações israelo-palestinianas. Que o mesmo é dizer a vitória da guerra sobre a paz.

Vamos por partes. Houve um tempo em que havia estadistas à frente das duas partes. Estadistas que carregavam em si o peso e a legitimidade política e militar das guerras passadas ao serviço das suas causas, mas que, independentemente da razão histórica de cada um, tiveram a visão estratégica e a coragem política de perceber que o futuro dos seus povos passava pela paz. E em 1993, sob a mediação de Bill Clinton, Yasser Arafat, líder da Organização de Libertação da Palestina (OLP) e Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelita, assinaram os chamados Acordos de Oslo.

O processo de paz assentava numa solução política de dois Estados: a OLP reconhecia pela primeira vez o Estado de Israel; e, por sua vez, Israel reconhecia a OLP como representante legítima do povo palestiniano e comprometia-se com a criação de um Estado palestiniano. Foi um compromisso histórico. Mas deixou para negociações futuras questões-chave que vinham desde a fundação do Estado de Israel: o regresso dos refugiados; as fronteiras do Estado palestiniano; a questão dos colonatos; e o estatuto de Jerusalém.


Do lado israelita como do lado palestiniano, as elites moderadas e laicas e a maioria da opinião pública acreditaram que era possível a solução dos dois Estados, queriam de facto a paz e lutaram por ela. Mas, imediatamente, de ambos os lados, os radicais começaram a manifestar a sua oposição: opunham-se à solução dos dois Estados porque não queriam reconhecer o direito do outro a ter um Estado; e por isso não queriam a paz e fizeram tudo para a boicotar. Do lado israelita, o momento simbólico foi o assassinato de Yitzhak Rabin, às mãos de um judeu ultranacionalista, em 1995. Do lado palestiniano, depois da provocação de Ariel Sharon, líder da oposição em Israel, se ter passeado junto à mesquita de Al-Aqsa, lugar santo para os muçulmanos e interdito aos judeus, o início da segunda intifada, em 2000.

O processo de paz e a solução dos dois Estados foram-se apagando e a desilusão foi crescendo na opinião pública. Os governos de Netanyahu, em Israel, e a vitória do Hamas, na faixa de Gaza, fizeram o resto.

Netanyahu sacrificou sempre o interesse nacional à sua sobrevivência política. Para se manter no poder aliou-se à extrema-direita religiosa, ortodoxa e ultranacionalista. Recorreu ao populismo para atacar os fundamentos básicos do Estado de direito israelita. E ao ultranacionalismo para expandir, como nenhum outro, os colonatos nos territórios ocupados na Cisjordânia. Favoreceu o Hamas para enfraquecer a Autoridade Palestiniana. Isto é, fez o que podia e o que não podia para inviabilizar o Estado palestiniano e instaurar uma pax israelita. Isto é, para minar a solução dos dois Estados e a possibilidade da paz.

O Hamas, no poder em Gaza desde 2006, cultiva o islamismo integrista como ideologia e o terrorismo como método. Usa e abusa das suas populações. Não reconhece sequer o Estado de Israel e faz tudo para matar a paz e provocar a guerra. É a sua forma de vida.

A guerra, a destruição e a morte é o destino a que nos leva a radicalização, triunfante de ambos os lados. Mas é preciso que saibamos que há outro caminho. E no fim da tragédia é preciso tirar as lições: superar os radicalismos político e religioso e dar uma oportunidade às oposições laicas e moderadas, israelita e palestiniana. Em Israel, responsabilizar Netanyahu pela incompetência que permitiu a quebra de segurança e o massacre. E dar uma oportunidade a uma nova geração democrática e livre do messianismo religioso e do populismo político. Na Palestina, desmantelar a estrutura militar do Hamas e devolver Gaza a uma nova geração da Autoridade Palestiniana, democrática e livre da corrupção.

A ONU terá, certamente, um papel a desempenhar. Mas o essencial é dar uma nova oportunidade à moderação política e à solução dos dois Estados, o único caminho para a paz.

A caixa de Pandora

Na Mitologia Grega, o titã Prometeu roubou o fogo de Zeus e deu aos homens, para eles serem superiores aos outros aninais. Zeus, em retaliação, pediu a Hefesto, Deus do Fogo, e a Atena, Deusa da Sabedoria, para criar Pandora, dotada de beleza, graciosidade e curiosidade. Para se vingar dos homens, Zeus fez chegar à Pandora uma caixa onde estavam todos os males do mundo, como a guerra, a doença, a mentira, e o ódio, mas também a esperança, com a recomendação de que ela nunca deveria ser aberta. Pandora abre a caixa, espalhando todos os males do mundo, fechando-a com a esperança dentro. Pandora tenta destruir a caixa, mas ela tem um feitiço para não ser destruída. Triste, Pandora se suicida.


Os limites dos homens são complicados. Maquiavel, filósofo e historiador Italiano e um dos fundadores pensamento político Ocidental, diz que na guerra, “não se deve humilhar o vencido, pois a humilhação leva ao ódio, e o ódio à vingança”. Sun Tzu, general e estrategista da China antiga e de suma importância no pensamento militar do Oriente, diz que “ao cercar o inimigo deve-se deixar uma possibilidade de fuga, não para que ele fuja, mas para que não lute com a força de um leão enfurecido”. E Carl von Clausewitz, general Prussiano e o mais importante e influente teórico militar contemporâneo, diz que “as guerras modernas raramente são travadas sem ódio entre as nações; isso serve mais ou menos como um substituto para o ódio entre indivíduos”. Erros recíprocos podem levar ao ódio, que se retroalimenta.

O homem é um animal que compartilha a emoção, boas e más, com a razão. Quando a emoção se deteriora, surgindo a raiva, pode-se perder a razão por completo, no império do ódio.

Nos Sete Pecados Capitais, estão a inveja, a ira, e a soberba, em contraposição à empatia, à generosidade, e à humildade.

Em sua excelente análise sobre os limites a que o homem pode chegar, Edson de Oliveira Nunes, em seu artigo recente, diz-nos sobre a banalidade do mal, evocando Hannah Arendt, quando as causas se perdem, e surge o mal pelo mal, o mal puro, “aquela hora na qual desaparece a humanidade das pessoas”, como escrito em seu artigo.

No Oriente Médio, a guerra se acirra. No Brasil, o rio Solimões seca. Na Sibéria, “vírus zumbis” se renascem após 50 mil anos, pelo degelo. Perdem-se momentos históricos em decisões equivocadas. Que alguém reabra a caixa de Pandora onde ainda se encontra a esperança, nas atitudes altruístas da humildade e do bem-querer, para que o homem sobreviva, hoje à beira do precipício.

Matar não é resposta

Meu filho foi morto por esses monstros. E, ainda assim, não quero nenhuma vingança em meu nome. Matar não é a resposta, a guerra não é a resposta. O terror só trará mais horror.

As crianças vão crescer e aprender a odiar. E eles deveriam ser ensinados a amar, a curar as feridas e a acabar com o ódio.

Eu imploro ao mundo todo: não vá para a guerra.
Michal Halev perdeu o filho Laor, de 20 anos, assassinado por terroristas do Hamas

Punição coletiva

Punição coletiva é o corolário lógico da noção de responsabilidade coletiva, que imputa a uma sociedade inteira a culpa por atos de um Estado ou governo. Os atentados de 7/10 que deflagraram o atual conflito e a represália militar na Faixa de Gaza inscrevem-se nessa lógica bárbara.

A operação do Hamas não teve nenhum objetivo militar. O massacre deliberado de 1.300 civis israelenses, inclusive crianças, numa orgia macabra de violência, desnuda a alma da organização terrorista. Do ponto de vista dela, inexiste diferença entre civis e militares, pois todos seriam "soldados da ocupação".

Na guerra de independência da Argélia (1954-62), a Frente de Libertação Nacional promoveu ataques a civis, lembram vozes prontas a oferecer uma justificativa anticolonial para o terror do Hamas. O argumento, em si mesmo problemático, delineia um paralelo falso –e, por isso, revelador.


Os colonos de origem francesa na Argélia pertenciam a um empreendimento imperial. Os israelenses massacrados, por outro lado, não perfilam-se sob a bandeira de um poder estrangeiro: Israel nasceu da imigração de judeus perseguidos por pogroms e pela máquina genocida nazista. Só se pode legitimar a barbárie do 7/10 pela adoção do objetivo político do Hamas: a destruição do Estado judeu.

O antissemitismo vive –e, na hora da guerra, rasga a fantasia esperta de antissionismo. "Morte aos judeus", gritaram manifestantes em Nova York, Paris, Londres e até Berlim. O discurso "decolonial" de raiz identitária ajusta-se como luva ao conceito abominável de punição coletiva. Israel seria parte do sedimento "ocidental", "europeu", "branco", depositado no mundo ao longo dos últimos séculos. Inexistiria, portanto, distinção entre o colono da Argélia e o civil israelense. Em nome da caricatura "decolonial", o Estado judeu deveria desaparecer.

As leis internacionais conferem ao Estado de Israel o direito de autodefesa, o que inclui uma represália suficiente para desmantelar o aparato militar e governamental do Hamas. Contudo, o direito humanitário estabelece condicionalidades, expressas pelas leis de guerra. Israel não tem o direito de enveredar pela punição coletiva.

De fontes insuspeitas, emergem indícios de que a tragédia no hospital de Gaza decorreu de foguetes errantes da Jihad Islâmica, não de bombas israelenses (shorturl.at/aCDE0). Entretanto, a eventual prova de inocência não exime Israel da responsabilidade pela interrupção total de fornecimento de água, eletricidade e alimentos à Faixa de Gaza e por bombardeios indiscriminados que causam milhares de vítimas civis. Tais atos configuram crimes de guerra –como, aliás, apontam familiares de israelenses trucidados ou tomados como reféns no 7/10.

Uma linha invisível divide a sociedade israelense. "Não tenho necessidade de vingança, nada ressuscitará os mortos", escreveu Ziv Stahl, diretora do grupo de direitos humanos Yesh Din, que escondeu-se num porão de seu kibutz durante os atentados. Ela alerta para a necessidade pragmática de uma "solução política". Contudo, do outro lado da linha, a pulsão de vingança nutre-se da ideia exterminista de que a população civil palestina é parte do conflito.

Bem antes do 7/10, Bezalel Smotrich, um dos fanáticos que ocupam pasta ministerial no governo de Israel, dirigiu aos cidadãos árabes-israelenses as seguintes palavras: "Vocês estão aqui por engano, porque Ben-Gurion [primeiro chefe de governo israelense] não concluiu o serviço em 1948 e não os chutou para fora". Os extremistas abrigados sob o guarda-chuva de Netanyahu tentam aproveitar a oportunidade oferecida pelo Hamas para "concluir o serviço".

Tanto o Hamas quanto Israel trilham a estrada da punição coletiva. Paralelo perfeito? Não: Ziv Stahl assina textos no Haaretz, enquanto oponentes palestinos do Hamas são torturados e executados em Gaza.

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

No Brasil, velhice é uma categoria econômica, e não etária

Neste mês de outubro, completo 85 anos de idade. Sou de uma classe social de origem em que meus avós não sabiam a própria idade nem sabiam para que servia sabê-la. Preocupei-me pela primeira vez com idade no dia em que o médico olhou os exames que eu havia feito e comentou: “Pra sua idade, você está muito bem!”. O acento em “na sua idade” parecia indicar uma anomalia e, nesse sentido, não estava bem.

O conceito de velho ficou claro quando uma economista do Ministério da Economia, no governo anterior, comentou, e vazou, que os velhos causavam prejuízo às contas da Previdência Social. Ou seja, um trabalhador viver mais e melhor não é um prêmio por uma vida de trabalho, é um crime de lesa-economia. Velho é, portanto, quem se aposenta e prejudica o sistema previdenciário. Senhor de escravos tinha mais generosa concepção da velhice de seus cativos.


Não é de agora que, no Brasil, velhice não é uma categoria etária, mas uma categoria econômica. Por aí, os seres humanos não devem ser definidos por sua humanidade, mas por sua lucratividade, o ser humano como matéria-prima da linha de produção.

Nasci e cresci no subúrbio operário de São Paulo, no meio de fábricas, numa família de trabalhadores. Meia hora depois do meu nascimento, a parteira me colocou nos braços de meu pai, que sentenciou: aos 7 anos eu iria para a escola primária, terminaria o curso com 10 anos de idade e aos 11 anos ingressaria na carpintaria de seus primos, meus tios, para aprender o ofício de carpinteiro, o de quase todos os membros homens de minha família paterna. Com 30 minutos de vida eu já estava empregado.

Só fui conhecer uma pessoa desempregada na vizinhança quando já era adulto. O desemprego só se tornou um problema social em meados dos anos 1950, com a multinacionalização da economia que nos trouxe técnicas de criação de superpopulação relativa no mercado de trabalho, como a reestruturação produtiva e a substituição cíclica de operários mais velhos e mais caros por operários mais moços e mais baratos.

Chegar aos 40 anos de idade era chegar à velhice decretada, não a do tempo vivido. Mais gente procurando emprego do que emprego procurando gente. Uma técnica laboral para diminuir a competência reivindicativa da classe operária e diminuir os custos do salário na contabilidade das empresas.

Há uns 40 anos, na fila do banco para pagar uma conta, descobri que a velhice se transformara numa profissão, a dos velhos que, por terem preferência no atendimento, furavam fila. Eram contratados para ir ao banco pagar as contas de diferentes empresas. Velhice em tempo parcial.

Diante da variedade de significados da palavra idade e da palavra velhice tentei descobrir o verdadeiro critério da pós-modernidade brasileira para definir o que é nascimento, o que é aniversário, o que é idade e o que é velhice. Na verdade, tomei de empréstimo uma definição de Florestan Fernandes, meu professor e meu catedrático de sociologia na Universidade de São Paulo.

Filho de uma lavadeira pobre, morara num porão e começara a trabalhar com 7 anos de idade. Como, em princípio, no Brasil, as pessoas são de fato consideradas aptas ao trabalho com 18 anos, ele acrescentava os 11 anos da antecipação laboral de sua maioridade à idade biológica.

Fiz o mesmo para ver no que dava. Nascido em 1938, comecei a trabalhar com 11 anos de idade. Sou uma do 1.319.182 crianças trabalhadores do censo de 1950. Acrescentei, portanto, aos 85 anos que estou fazendo, 7 anos à minha idade biológica e cheguei aos 92 anos de minha idade social.

Olhei no espelho e nunca vira nenhuma mudança. Até o dia em que um idiota, quando eu ainda dirigia, buzinou várias vezes, me ultrapassou, me chamou de velho e xingou minha mãe que nada tinha a ver. Desde então, tento entender o que a definição de velho quer dizer.

Aposentei-me depois de 38 anos como docente da Universidade de São Paulo. Com registro em carteira, eu já havia trabalhado sete anos em diferentes empresas e contribuíra para a Previdência Social em todos esses anos. Portanto, 45 anos de contribuição previdenciária, dez anos mais do que o necessário.

O sistema econômico do país roubou-me parte da infância e a adolescência inteira. Servidor público aposentado, o governo roubou-me também a velhice porque, mesmo inativo, ainda tenho que fazer a contribuição previdenciária. O Estado lembra-se todas os meses de me mandar essa conta, mas nem uma única vez lembrou-se de me devolver os valores dos dez anos de minha contribuição previdenciária acima da que eu estava obrigado.

Pensamento do Dia

 



O enviesado valor terapêutico da ideologia


A paz é o único combate
que vale a pena travar.
Albert Camus

Há quem viva só de ideologia e esteja completamente anestesiado para a sensibilidade, não sendo capaz de reagir ao horror da destruição e preferindo refugiar-se na abstracção fria das estatísticas e dos clichés ideológicos.

A ideologia é um colete que os protege do sentir e simpatizar com a dor verdadeira: a dor que doe aos de um lado e aos do outro. A ideologia é, muito frequentemente, um escudo contra a dura realidade. É uma ideologia fria e calculista, sem ouvido nem simpatia para o adversário e que, diante de uma vala comum de cadáveres apodrecidos, pergunta, primeiro, quem matou, para saber se deve ou não condenar. Porque há, como já se tem ouvido, assassinos maus e assassinos bons. Os actos dos bons escondem-se debaixo do tapete e a sempre prestável História que os absolva.

Há guerras boas e guerras más, dizem os ideólogos amigos destas dicotomias confortáveis. Mas Hemingway, que chafurdou em três guerras tremendamente mortíferas e, numa delas, se feriu, sabendo portanto bem do que falava, avisou-nos de que mesmo as guerras boas eram obviamente más. Porque viu o sangue, a lama e a urina, o vómito, os corpos estropiados e os piolhos em escala apocalíptica e, em face de tal visão, não havia lugar para finas destrinças ideológicas: era tudo infame, de um lado e do outro. O “não matarás” não se aplica só ao outro lado, aplica-se também ao nosso. E, para este mandamento, não pode haver “mas”.

O ideólogo frio e manietado por clichés é um assexuado do sentir, um estropiado da sensibilidade. A filologia leva ao crime, mostrou Ionesco, numa peça célebre. O ideólogo agarra-se à filologia, como boia de salvação que lhe permite flutuar no mar do não sentir. Diante de um amontoado de mortos anónimos, só lhe interessa saber se são mortos do lado certo ou do lado errado. O espectáculo do massacre não o arranha minimamente, o importante é receber o recado certo, do mandante seguro: que lhe diga, sem pestanejar, se deve ou não condenar.

O ideólogo refugia-se em clichés mortos, porque estes não sangram nem doem. Três milhões de mortos não têm importância, se o morticínio estiver do “lado certo da História”, signifique isto o que significar. O horror justificado não cria pesadelos. Substituir a fotografia de uma cidade destruída por uma frase desinfectada e maravilhosamente abstacta dá garantias de sonos bem dormidos. Enquanto debitam parágrafos sobre os ventos da História e sobre a inescapável justiça que esta fará aos da “boa doutrina”, não se é obrigado a reparar no Holocausto vigente. Há enormes promessas de conforto na filologia que, não só leva ao crime, como serve para o esconder debaixo do tapete.

Entretanto, vamo-nos inclinando cada vez mais para a convicção de que não há nada tão reles como a boa consciência dos patifes. Para estes, a razão serve para justificar que tudo pode ser justificado com ela.”

Eugénio Lisboa

O som da guerra!

Aproxima-se, a passos largos, a ofensiva israelita em Gaza. Os sinais são inequívocos, sendo que o mais importante de todos, desde há 15 dias, é a inabalável vontade e empenho nacional de Israel em acabar com o Hamas, e vingar os seus milhares de mortos. Netanyahu voltou a visitar a frente, o ministro da Defesa foi mais explícito, e tudo está preparado para este momento.

As incursões noturnas a Gaza estão a ter resultados, os ataques às chefias terroristas estão a decapitar o grupo, e o mapeamento dos pontos sensíveis, e o tipo de unidades que vão entrar já têm objetivos designados e locais marcados.


O Governo e as forças armadas israelitas não querem uma incursão relâmpago, que deixe metade do Hamas, e dos outros grupos terroristas, ainda ativo e com capacidades letais. Desta vez vai ser mais demorado, passo a passo, para eliminar, pelos próximos anos, essa ameaça.

Sabe-se, também, que a entrada em Gaza vai implicar um ataque em força no Sul do Líbano, contra o Hezbollah. Mantém-se o conflito da baixa intensidade, mas a batalha à séria está programada. O Hezbollah tem de sofrer um golpe duro e mortal, e no final será aumentada a zona tampão na fronteira. E a fonte que cria e alimenta o terror na região não escapará à pesada e longa mão israelita e americana.

Biden, por fim, também reaparece. A viagem à região sofreu um rude golpe político, ficando a meio, com o desastre do hospital, mas um discurso à Nação americana só se faz em momentos muito especiais, e quando a Casa Branca percebe que tem de demonstrar força, autoridade e controlo. É o som da guerra.

Solidão dos inocentes


Não há lugar mais solitário no mundo do que a cama de uma criança ferida que já não tem família para cuidar dela
Ghassan Abu Sittah, cirurgião plástico britânico do Hospital al-Shifa, em Gaza

Biden, Netanyahu e Putin são senhores da guerra

O jornalista Henry Foy, correspondente do Financial Times em Bruxelas, instiga a reflexão sobre a nova conjuntura internacional a partir da guerra de Gaza, que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu disse, ontem, que será de longa duração. Ou seja, não deve se encerrar enquanto Israel não invadir a Faixa, eliminar o Hamas e restabelecer seu controle sobre toda a região, a exemplo do que já ocorre na Cisjordânia — apesar da existência de uma enfraquecida Autoridade Palestina.

Segundo Foy, o apoio incondicional do Ocidente a Israel, especialmente Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia, envenenou os esforços para isolar a Rússia e obter apoio dos países em desenvolvimento em favor da Ucrânia. A reação implacável dos israelenses ao ataque terrorista do Hamas, em 7 de setembro, desconstruiu a narrativa do Ocidente em relação às violações de direitos humanos cometidas pela Rússia em Donetsk e outras regiões ocupadas por suas tropas.

“Na enxurrada de visitas diplomáticas de emergência, videoconferências e chamadas, os funcionários ocidentais foram acusados de não defender os interesses de 2,3 milhões de palestinos na sua pressa de condenar o ataque do Hamas e apoiar Israel”, destacou o analista do Financial Times. Isso teria corroído esforços diplomáticos para que a Índia, o Brasil e a África do Sul endurecessem o discurso contra o líder russo Vladimir Putin, com base na necessidade de defender uma ordem global em que as regras do direito internacional fossem respeitadas.

Apesar da generalizada condenação ao ataque de surpresa do Hamas, principalmente à morte e sequestro de civis, a crise humanitária na Faixa de Gaza solidificou posições enraizadas no mundo em desenvolvimento quanto ao conflito israelense-palestino. A maioria desses países apoia a posição oficial da ONU, favorável à criação do Estado da Palestina independente de Israel. “Todo o trabalho que fizemos com o Sul Global [sobre a Ucrânia] foi perdido. Esqueça sobre regras, esqueça a ordem mundial. Eles nunca vão nos ouvir novamente”, lamentava um diplomata do G7 ao jornalista britânico. O Grupo dos Sete é formado por Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido, com a União Europeia de observadora.


A maioria dos países em desenvolvimento sempre apoiou a causa palestina pelo prisma da autodeterminação e vê com desconfiança o domínio global dos EUA, o aliado principal de Israel. Os países árabes, inclusive aqueles que têm boas relações com o Washington e Tel Aviv, acumulam ressentimentos. Não são apenas os decorrentes da antiga ordem colonial, nem fruto de intervenções mal-sucedidas no Iraque, na Síria e na Líbia. Nesse caso de Gaza, estão diretamente ligados ao tratamento dado pelas potências ocidentais ao povo palestino.

Ao contrário, Rússia e China cultivam laços históricos com os palestinos. O presidente da Rússia, Vladimir Putin, na terça-feira, durante a reunião com o líder chinês XI Jinping, em Pequim, agarrou com as duas mãos a oportunidade de questionar o presidente dos EUA, Joe Biden, que adota dois pesos e duas medidas em relação à Ucrânia e à Faixa de Gaza. “O que dissemos sobre a Ucrânia deve se aplicar a Gaza. Caso contrário, perdemos toda a nossa credibilidade”, lamentou o diplomata do G7, segundo o jornalista do Financial Times.

Há pouco mais de um mês, na reunião do G20, em Nova Déli, Biden e outros líderes ocidentais conclamaram os países em desenvolvimento a condenar os ataques da Rússia a civis ucranianos, respeitar a Carta da ONU e o direito internacional. Desde o último domingo, porém, endossam incondicionalmente as ações de Israel na Faixa de Gaza, onde os civis estão sem água, eletricidade, gás de cozinha, comida e remédios.

A ordem global pós II Guerra Mundial não funciona para o mundo árabe, inclusive para a Jordânia e o Egito, que mantêm relações com Israel. Na União Europeia, o incomodo também começa a crescer, sobretudo depois de a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, viajar para Israel sem um mandato dos 27 estados-membros do bloco e não tratar da questão humanitária. Dublin, Madri e Luxemburgo queixaram-se de seu discurso em Tel Aviv.

Preocupada, a França começou a se movimentar em parceria com o Brasil, que protagoniza os esforços humanitários na presidência do Conselho de Segurança da ONU. Teme que a Rússia não esteja mais interessada em conter seus aliados na região, sobretudo o Irã. A crise de Gaza ofusca a guerra da Ucrânia e desloca recursos dos EUA para Israel, além de neutralizar a narrativa em relação às violações de direitos humanos pelo Exército russo.

Putin e Netanyahu já eram notórios senhores da guerra, mas Biden não tinha essa imagem, graças à retórica em defesa dos direitos humanos. Agora passou a ter.

'Parece que só fugimos de uma morte para outra'

Adnan Elbursh, repórter do serviço em árabe da BBC,
e a família dele tiveram que se mudar de casa mais de uma vez
Nós deixamos Jabalia, no norte de Gaza, na sexta-feira, 13 de Outubro, depois de Israel ter ordenado que os residentes evacuassem a área. Israel descreveu o sul como uma área segura do ponto de vista humanitário, então minha esposa, minhas quatro filhas, meu filho e eu fomos para a cidade de Khan Younis.

Agora estamos no sul. Vi colunas de fumaça e ouvi explosões. Fontes oficiais e testemunhas oculares me disseram que casas foram atingidas por ataques aéreos e famílias acabaram mortas.

Junto com meu irmão e a família dele, conseguimos encontrar um apartamento para ficar que achamos seguro. Éramos 12 pessoas hospedadas no local, que tinha dois quartos e um banheiro. Não havia água, eletricidade ou quaisquer outras instalações.

Mas logo fomos aconselhados a partir.

Disseram-nos que o exército israelense entrou em contato o proprietário do edifício para dizer que o local seria bombardeado. Eles afirmaram que o dono do prédio era procurado por uma associação com o Hamas.

Pouco depois do meio-dia, eu estava fazendo filmagens para uma reportagem da BBC. Minha família e a família do meu irmão foram retiradas às pressas. Eles não puderam levar nenhum dos pertences que havíamos trazido do norte de Gaza e fugiram rapidamente, sem saber qual direção seguir.

O prédio vizinho foi bombardeado enquanto eles fugiam. Felizmente, ninguém se feriu.

Agora minha família e eu estamos sem teto. Não sabemos para onde ir. Fui dominado pelo pânico e pelo medo. Alguém sugeriu que fôssemos ao prédio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho em Khan Younis. Lá até poderia ser seguro, mas o local já está superlotado — os corredores e os quartos estão cheios de gente.

Não sei o que fazer. Pergunto-me constantemente se devemos voltar à nossa casa no norte de Gaza — que é uma escolha perigosa — ou permanecer no sul — que também não é seguro.

Parece que só fugimos de uma morte para outra. Não há um único centímetro seguro em Gaza.


Sem ter onde dormir dentro de casa, passamos a noite ao ar livre, em um parque perto do prédio do Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Foi incrivelmente duro. Uma sensação de impotência me assombrou.

Minha esposa, meus filhos, os filhos do meu irmão e a esposa dele estavam deitados no chão. Foi uma visão terrível. Eles não tinham nada para se cobrir. Espalhamos pedaços de papelão e sentamos sobre eles.

O tempo ficou extremamente frio naquela noite e estávamos congelando, principalmente as crianças. Pegamos alguns cobertores emprestados das pessoas ao nosso redor para cobrir as crianças e ficamos acordados a noite toda, sem dormir.

Na manhã seguinte, decidi levar a minha família para ficar com um amigo que está no campo de Nuseirat, no meio da Faixa de Gaza.

Pouco antes de chegarmos, vários ataques aéreos atingiram uma padaria perto da região. Uma testemunha ocular me disse que os foguetes foram lançados pela força aérea israelense. Eles disseram que centenas de pessoas fizeram fila para comprar pão devido à escassez de alimentos. Com os bombardeios no local, pessoas foram mortas. Foi extremamente horrível e perigoso.

O Ministério da Saúde palestino afirma que os ataques iraelenses em Gaza causaram 3,5 mil mortes e 12,5 mil feridos até o momento. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, apelou a um cessar-fogo humanitário imediato para aliviar o "sofrimento humano épico".

O bombardeio de Israel é uma resposta ao ataque dos militantes do Hamas, que matou pelo menos 1,3 mil pessoas no dia 7 de outubro. Outros 199 indivíduos foram feitos reféns.

Os militares israelenses disseram na manhã de terça-feira (17/10) que atacaram centros de comando operacional, infraestrutura militar e esconderijos do Hamas em Khan Younis e em Rafah, que ficam no sul de Gaza, bem como em duas áreas ao norte.

Mas, para mim e para a minha família, o som dos aviões militares é alto e assustador. Minha família está no campo de Nuseirat. Eu estou em Khan Younis. Não sei onde passarei esta noite. Realmente não sei para onde ir.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

A paz morreu?

Na noite de quatro de novembro de 1995, cem mil pessoas se aglomeravam na Praça dos Reis de Israel em Tel Aviv. Realizava-se um comício pela paz entre israelenses e palestinos. A multidão foi ao delírio quando o primeiro-ministro Ytzhak Rabin concluiu seu discurso histórico: “sempre acreditei que a maioria de nós quer a paz e está disposta a morrer por ela”.

Poucos minutos depois Rabin foi assassinado quando se dirigia ao seu carro. O assassino, Igal Amin, um jovem militante da extrema-direita israelense confessou:” O meu objetivo era eliminar o chamado processo de paz com os palestinos e para alcançá-lo achei que seria melhor eliminar Rabin”.

Os três tiros disparados nas costas de Ytzhak Rabin dizimaram o sonho de muita gente. Simbolicamente é visto como a morte do processo de paz entre dois povos que sempre foram inimigos históricos.

Pouco antes disso aconteceram os acordos de Oslo de 1993 onde, por meio de negociações secretas, o governo de Israel e a Organização para a Libertação da Palestina de Yasser Arafat se comprometeram a unir esforços pela paz. Passos importantes foram dados: Israel saiu de territórios ocupados e os palestinos passaram a contar com um embrião de Estado, a Autoridade Palestina.

Os ataques terroristas do Hamas de 7 de outubro parecem confirmar a morte definitiva da paz entre palestinos e Israel. O sonho de dois estados também parece soterrado. Com boa dose de razão, uma onda de pessimismo varre o mundo, dado o temor de uma escalada do conflito, generalizando-se para toda a região.



O risco existe, mas considerá-lo como irreversível pode levar à paralisia e a ignorar que não há, para israelenses e palestinos, uma alternativa segura senão a paz definitiva. Ela só acontecerá se for assegurada a existência dos estados de Israel e da Palestina e se as forças interessadas na radicalização exponencial do conflito armado forem isoladas e derrotadas.

É preciso não confundir o Estado de Israel com o governo fundamentalista e de extrema-direita de Netanyahu. Desde 1996, quando chegou ao poder pela primeira vez, Netanyahu teve como estratégia avançar em territórios palestinos, particularmente na Cisjordânia, por meio de novos assentamentos de judeus. Antes, quando foram sacramentados os acordos de Oslo, existiam 200 mil assentados em territórios palestinos. Trinta anos depois são 700 mil.

Seu outro objetivo foi o enfraquecimento da Autoridade Palestina.

Seus planos naufragaram com o 7 de Outubro. Seu fracasso em garantir segurança para os israelenses o leva agora a tentar uma guerra final contra os palestinos. Seu objetivo é promover a diáspora palestina, com o êxodo de seus habitantes.

Netanyahu tenta se apropriar do apoio do mundo democrático ao direito de Israel de se defender e de enfrentar militarmente o Hamas. A opinião pública mundial, não está, contudo, avalizando a ocupação da Faixa de Gaza ou ações que violem o direito internacional. Esse é o sentido do alerta do presidente americano, Joe Biden, de que o “Hamas deve ser derrotado, mas Israel ocupar Gaza é um erro”.

Biden reconheceu ainda o direito dos palestinos de ter o seu próprio Estado e na visita que anunciou fazer à região pretende abrir diálogo com o polo moderado do mundo árabe, com vistas a fortalecê-lo.

Israel é um estado democrático, com uma opinião pública dinâmica e de valores ocidentais. Ela foi às ruas quando Netanyahu tentou usurpar poderes do Judiciário. Seu estado tem mecanismos democráticos para a alternância do poder. Isso aconteceu em 1973, quando o governo de Golda Meyer foi surpreendido pela invasão da Síria e do Egito. No médio prazo, forças moderadas israelenses podem se constituir em governo.

Também não se pode confundir o Hamas com os palestinos. Pesquisas indicam que mesmo na Faixa de Gaza, 64% da população preferem o caminho da negociação com Israel e apenas 12% confiam no Hamas. Os palestinos também são vítimas do terror e são usados como escudo humano. Se dependesse da vontade dos palestinos, viveriam em uma sociedade laica e democrática.

Diferentemente de Israel, não há no território dominado pelo Hamas mecanismos democráticos para a alternância do poder. O grupo terrorista chegou ao poder em 2006, quando ganhou as eleições, mas um ano depois expulsou a Autoridade Palestina da Faixa de Gaza e estabeleceu uma ditadura fundamentalista.

Só será deslocado pela combinação do enfrentamento militar com sua derrota política. Pelo seu isolamento e o fortalecimento da Autoridade Palestina, uma força moderada que firmou posição clara ao declarar sua opção pela política e pela resistência pacífica.

A alternativa à paz é a reprodução em escala infinitamente ampliada do enfrentamento dado ao Estado Islâmico na Síria. O ISIS foi exterminado, mas 20 mil pessoas foram mortas. Caso essa seja a opção, como defende o governo de Netanyahu, o derramamento de sangue será superior, dada a densidade demográfica na faixa de Gaza.

É preciso fugir da armadilha da mata escura. De um lado, Netanyahu ver como solução final a anexação total da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, com a expulsão dos palestinos. E, de outro, a solução final do Hamas que é eliminar o Estado de Israel.

É imperioso reconectar-se com o espírito de Oslo, quando políticos do porte de Itzhaki Rabin, Shimon Peres e Yasser Arafat deram uma chance à paz e por isso mereceram o Prêmio Nobel da Paz de 1994.

À época, Rabin percebeu que não havia mais condição de manter os palestinos como subcidadãos em seu próprio solo. São extremamente atuais suas palavras, quando recebeu o Nobel: “Cemitérios militares em todos os cantos do mundo são um testemunho silencioso do fracasso dos líderes nacionais em santificar a vida humana.”

O ataque a um hospital da Faixa de Gaza, no qual centenas de civis palestinos foram mortos, a maioria crianças e mulheres, impõe aos líderes da comunidade internacional encontrar caminhos para estancar a insanidade da guerra no Oriente Médio.

Desonestidade


O Hamas fez uma obscenidade moral. Mas nada que Israel não tivesse feito aos palestinos vezes sem conta. Dizer uma coisa e não dizer a outra é profundamente desonesto
Terry Eagleton, filósofo e crítico literário britânico 

Preservar o espaço da paz: o trabalho do mundo durante a guerra contra o Hamas

Aviv Kutz, de 54 anos, morador do kibutz Kfar Aza, é amigo de infância de um amigo meu muito próximo. Aviv e a mulher, Livnat, de 49 anos, e os filhos Roten, de 19, Yonatan, de 17 e Yiftach, de 15, moraram em Kfar Aza por anos. Ainda que a família Ktuz tenha passado por vários ataques com foguetes e morteiros do Hamas ao seu kibutz, pais e filhos continuaram esperando pela paz.

Todo ano, a família organizava um festival de pipas, com o objetivo de criar um pequeno espaço pacífico na zona de guerra. Pipas coloridas, algumas com mensagens de paz, eram empinadas perto da cerca da fronteira com Gaza. A irmã de Livnat, Adi Levy Salma, que participou do festival nos anos anteriores disse que “a ideia é empinar as pipas perto da cerca para mostrar a Gaza que só queremos viver em paz”.

O festival de pipas deste ano estava programado para o sábado, 7 de outubro. “Festival de pipas 2023”, dizia o convite, “vamos nos encontrar no campo de futebol às 16h para enfeitar o céu”. Algumas horas antes do festival começar, os terroristas do Hamas invadiram e ocuparam o kibutz. Os terroristas foram de casa em casa torturando, matando e sequestrando sistematicamente dezenas de moradores do kibutz. Todos os cinco membros da família Kutz foram mortos.


Atrocidades como estas confundem a mente. Por que os seres humanos fazem coisas como estas? O que o Hamas esperava alcançar? O objetivo do ataque do Hamas não era capturar e manter território. O Hamas não tem a capacidade militar de controlar o kibutz por muito tempo diante do Exército israelense.

Três coisas devem ser apontadas, para entender os objetivos do Hamas. Primeiro, o Hamas focou amplamente neste ataque em matar e sequestrar civis, ao invés de soldados. Em segundo lugar, os terroristas torturaram e executaram adultos, crianças e até bebês no modo mais tenebroso que poderiam imaginar. E, em terceiro lugar, ao invés de tentar esconder as atrocidades, o Hamas garantiu que elas fossem divulgadas, até filmando algumas eles mesmos e compartilhando os vídeos chocantes nas redes sociais.

Essa é a própria definição de terrorismo, e já vimos coisas similares antes com o Estado Islâmico (EI). Diferente da guerra convencional que usualmente busca conquistar território ou degradar capacidades militares, o terrorismo é uma forma de guerra psicológica, que visa a aterrorizar. Ao matar centenas de pessoas de formas brutais e tornando isso público, organizações como o Hamas e o EI buscam aterrorizar milhões — israelenses, palestinos e pessoas do mundo.

O Hamas é diferente de outras organizações palestinas como a OLP (Organização para a Libertação da Palestina), e não deve ser equiparada a todo o povo palestino. Desde sua fundação, o Hamas recusou-se veementemente a reconhecer o direito de existência de Israel e fez tudo o que estava ao seu alcance para arruinar todas as oportunidades de paz entre israelenses e palestinos, e entre Israel e o mundo árabe.

O pano de fundo imediato do atual ciclo de violência são os tratados de paz assinados entre Israel e países do Golfo Pérsico, e o esperado tratado de paz entre issraelenses e sauditas. Havia a expetativa de que esse acordo não apenas normalizasse as relações entre Israel e boa parte do mundo árabe, mas também que, de algum modo, aliviasse o sofrimento de milhões de palestinos vivendo sob ocupação israelense, e que reiniciasse o processo de paz entre os dois lados do conflito.

Nada alarma mais o Hamas do que a possibilidade de paz. É por isso que ele lançou este ataque — e é por isso que matou a família Kutz e mais de mil outros civis israelenses. O que o Hamas fez é um um crime contra a Humanidade no sentido mais profundo do termo. Um crime contra a Humanidade não é apenas sobre matar seres humanos. É sobre destruir nossa confiança na Humanidade. Quando você testemunha coisas como pais sendo torturados e executados na frente dos filhos, ou crianças pequenas brutalmente assassinadas, você pede toda a confiança nos seres humanos. E corre o risco de perder sua humanidade também.

Os crimes do Hamas não podem ser justificados pela conduta passada de Israel. Dois erros não fazem um acerto. Há muito por criticar Israel por manter milhões de palestinos por décadas sob ocupação, e por abandonar, nos últimos anos, qualquer tentativa séria de paz.

No entanto, o assassinato da família Kutz e muitas outras atrocidades cometidas pelo Hamas, não tinham o objetivo de reiniciar o processo de paz ou tem alguma probabilidade de liberarem um único palestino da ocupação israelense. Em vez disso, a guerra lançada pelo Hamas impõe imenso sofrimento a milhões de palestinos. Impulsionado pelo seu fanatismo religioso, o Hamas simplesmente não parece se importar com o sofrimento humano – israelense ou palestino.

Diferente da laica OLP, muitos dos líderes e ativistas do Hamas parecem só se importar com suas fantasias de vida paradisíaca após a morte. Eles estão dispostos a entregar este mundo às chamas e a destruir as nossas almas no processo, para que as suas próprias almas possam supostamente desfrutar da felicidade eterna num outro mundo. Nós temos que vencer essa guerra de almas.

Em sua guerra contra o Hamas, Israel tem o dever de defender seu território e seus cidadãos, mas deve também defender sua humanidade. Nossa guerra é com o Hamas, não com o povo palestino. Os civis palestinos merecem desfrutar de paz e prosperidade em sua terra, e até no meio do conflito, seus direitos humanos básicos devem ser reconhecidos pelos dois lados. Isso se refere não apenas a Israel, mas também ao Egito, que partilha a fronteira com a Faixa de Gaza, que fechou parcialmente.

Já o Hamas e seus apoiadores devem ser excomungados pela Humanidade. Não só Israel, mas toda a comunidade humana deveria colocar o Hamas completamente fora dos seus limites, assim como fez antes com o EI. Os cidadãos de Israel não podem viver em lugares como Kfar Aza, com o Hamas do outro lado da cerca, assim como iraquianos e sírios não podiam viver como o EI à sua porta.

Dezenas de milhares de israelenses já fugiram das áreas de fronteira, e não podem voltar para suas casas antes que a ameaça a suas vidas seja removida. Em um nível mais profundo, as vidas de todos os seres humanos são desvalorizadas e ameaçadas enquanto se permita que organizações como o Hamas e o Estado Islâmico existam.

Os objetivos da guerra em Gaza devem ser claros. Ao fim da guerra, o Hamas deve estar totalmente desarmado e a Faixa de Gaza deve ser desmilitarizada, para que os civis palestinos possam viver vidas dignas no território, e os civis israelenses possam viver sem medo ao lado da Faixa de Gaza.

Até que esses objetivos sejam atingidos, a luta para manter a nossa humanidade vai ser difícil. Muitos israelenses são psicologicamente incapazes nesse momento de ter empatia com os palestinos. A mente está cheia até a borda com nossa própria dor, e não resta espaço nem para reconhecer a dor dos outros.Muitas das pessoas que tentaram manter esse espaço — como a família Kutz — estão mortas ou profundamente traumatizadas. Muitos palestinos estão em uma situação semelhante — suas mentes também estão tão cheias de dor que não podem ver a nossa.

Mas os que estão de fora e não imersos na dor devem fazer um esforço para ter empatia com todos os seres humanos que sofrem, ao invés de preguiçosamente verem apenas uma parte da terrível realidade. É o trabalho dos que estão de fora ajudar a manter o espaço para a paz. Nós depositamos esse espaço pacífico com vocês, porque não podemos mantê-lo no momento. Cuidem bem dele para nós, para que um dia, quando a dor começar a sarar, tanto israelenses como palestinos possam habitar este espaço.