sábado, 6 de fevereiro de 2016

Crise ridícula

Poucas vezes tivemos crise como a que atravessamos. Não é dramática como a de 1954, que provocou o suicídio de um presidente. Nem sanguinária (até agora), como os golpes de 1964 e 1968. A atual é uma crise que seria apenas ridícula se não trouxesse os males que a nação está sofrendo desde que se inaugurou o governo do PT, em especial, o governo de dona Dilma, que ainda obriga seus auxiliares a chamá-la de “presidenta” e, se conseguiu emagrecer fisicamente, está fazendo o país emagrecer.

Tirante alguns petistas alucinados, que teimam em defendê-la e em defender o seu partido, a nação como um todo está perdendo a dignidade que se exige de um país que pretende ter um papel importante no cenário internacional.


Vemos todos os dias, nas mídias, que o Brasil está caindo cada vez mais no saco de gatos onde os países mirins se ferem uns aos outros e só produzem notas ao pé de página nos livros sobre o nosso tempo.

Tenho a impressão de que o povo, em sua maioria, não despertou para a realidade atual e sobretudo dos dias de amanhã, ou seja 2016. A situação de hoje já está há muito tempo trazendo o desespero para todas as classes, inclusive a classe média que foi promovida ficticiamente pelo governo anterior, também do PT.

O desemprego está começando a lembrar os dias de fome da crise de 1929, nos Estados Unidos. As demissões são feitas às toneladas, e diariamente. A violência, apesar de não ser instalada exclusivamente pelo governo do PT, continua alcançando índices alarmantes. E o problema da saúde, com hospitais desaparelhados, chega ao ponto de ameaçar a Olimpíada, forçando a desistência de grupos internacionais que estão cancelando suas reservas.

E o pior: a crise atual não levará o Brasil para cima, pelo contrário, está levando o país para baixo e para o ridículo.

A crise na carne

Sou um rato de livraria. Sempre vou a livrarias, grandes, pequenas, todas! Passeio pelos títulos. Compro mais do que consigo ler. As prateleiras das livrarias continuam cheias, mas as editoras andam lançando menos títulos. Boa parte é de livros lançados há tempos. As editoras estão desovando estoques antigos. É uma retração visível, que afeta o cotidiano de um devorador de livros como eu. Mais ainda: fechou a editora Cosac Naify, conhecida pela qualidade de seus lançamentos. Outras, sabe-se, não estão em boa situação. A crise econômica está corroendo nosso cotidiano. Até mesmo meus hábitos pessoais.

Jantar fora era um desses hábitos. Mas, com duas novelas seguidas,Verdades secretas e Eta mundo bom!, fiquei um tempo sem ver amigos, sem sair. Recentemente, voltei a um japonês que frequentava muito com um velho amigo. Pedimos os mesmos pratos das outras vezes, porque adoramos carpaccio de salmão, sashimi. A conta veio quase o dobro de seis, sete meses atrás. Foi um susto! Outra noite, resolvi jantar em três num lugar mais elegante, aonde também já fui várias vezes. Tinha uma ideia do valor da conta. Saiu o dobro. Francamente, ultrapassou os R$ 1.000 e nem bebemos vinho! Quase desmaiei quando entreguei meu cartão de crédito. Eu, incauto, havia convidado os dois amigos! Enquanto tentava recuperar a respiração, eles se levantaram rapidamente para pedir o carro. Conta alta faz os melhores amigos fugir da mesa na hora de pagar! Pior. Havia um restaurante em São Paulo do qual eu gostava especialmente, o Momotaro. Na parte de baixo, japonês comum. Na de cima, o chef Adriano servia somente dez pessoas, com um menu-degustação criado na hora. Uma maravilha! Tentei marcar. Ninguém atendeu o telefone. Descobri: fechado para reforma. Reforma?

A Escola de Danças Ruth Rachou existia havia 43 anos. Ruth Rachou em sua época foi uma das mais importantes bailarinas de São Paulo e uma das introdutoras da dança moderna no país. Seu filho Raul e eu estudamos juntos. Nunca dancei. Mas tenho uma ligação emocional com a dança, devido a essa amizade. Há pouco mais de um ano, a escola mudou de seu antigo endereço para a Rua Augusta, em São Paulo. Oferecia aulas de pilates também. Danças de salão. A crise da escola de dança não ocorreu só por causa do momento econômico. Houve uma época em que as pessoas davam prioridade a se expressar com o corpo. Hoje, querem malhar e cresceram as academias. A escola transformou-se em “studio”. No final do ano passado, fechou. Uma antiga aluna assumiu, deu novo nome e está tentando reerguer. Para piorar, a escola ficou com uma dívida em impostos. Pessoas do mundo da dança, como a crítica Helena Katz, tentam levantar dinheiro por meio de crowdfunding. Solidários, os amigos estão depositando para atingir o valor do pagamento. Mas uma escola de 43 anos fechada! Dói de falar.

Nos supermercados, os preços sobem sem parar. Mas as grandes grifes, antes do Natal de 2015, ofereceram promoção a 40%! Imaginem, a liquidação costuma ser depois do Natal. Se foi antes, é porque as compras caíram. Eu me pergunto quantas vão resistir. Com o preço do dólar, está difícil importar roupas a preço competitivo. Eu me pergunto: se até as grifes poderosas estão correndo atrás de compradores, e os mais modestos?

Confesso. Há mais de um ano tenho um andar comercial inteiro, novo, para alugar. Economizei muito para entrar na construção. Era parte do meu futuro projeto de aposentadoria. Já tenho 64! Queria uns aluguéis, para reforçar o orçamento. Do prédio inteiro, até agora alugaram só um conjunto. Em vez de ganhar, pago condomínio e impostos! Meu projeto de aposentadoria? Foi para o despenhadeiro, eis tudo.

De cortar o coração foi a observação de um amigo que mora na Espanha, ao andar em São Paulo.

– Nunca vi tanta gente pedindo esmola.

Muitos perderam o emprego. Foram obrigados a deixar suas casas. Morar na rua. Não está longe de mim. Tenho pelo menos dois amigos, profissionais, desempregados. Um come na casa da tia e toma ônibus de graça porque é maior de 60 anos. O outro pensa em ir para o exterior, de tão mal. Por enquanto, convidei-o para fazer as refeições em casa. Solidariedade é o que nos resta, não é?

Os pobres estão mais pobres, a classe média já não consegue manter o nível de vida. O medo nos contamina. A crise abraçou nossas vidas. Mais e mais, a gente sente na carne.

Marchinha

O Carnaval bate à porta
E a tristeza logo some
O pobre que passa fome
Nem da fome mais se importa
A zoeira lhe conforta
Pois é mais que um artifício
Pra que sua vida difícil
Em festa vá se formando
E o brasileiro sambando
Na beira do precipício

Todo Político adora
Essa data tão festiva
A turba desfila altiva
Até na rua onde mora
O pudor, se despudora
A Cachaça instiga o vício
O povo esquece o comício
E o País vai se acabando
E o brasileiro sambando
Na beira do precipício

Inflação? Alta do gás?
Impostos? Roubo? Propina?
Aumento da gasolina?
Disso ninguém lembra mais
Ter prazer nunca é demais
Mesmo sendo fictício
Já que o bolsa Benefício
Todo mês vai ajudando
E o brasileiro sambando
Na beira do precipício

Ninguém lembra do Senado
Armando outra pra a gente
Nem fala que a Presidente
Deixou o Brasil quebrado
Carnaval deixa um legado
De Tristeza e Malefício
De tomar no Orifício
Povão vai se acostumando
E o brasileiro sambando
Na beira do precipício

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

CPMF

Reverência brasileira

Uma conversa informal com a jovem universitária de São Paulo Mariana Esteves confirmou a tese, defendida por não poucos brasileiros, que ainda existe nessa sociedade uma excessiva reverência ao poder, e que a estudante atribui ao fato de que o Brasil é um país que “foi construído pelas vítimas”.

A tensão política, no amanhecer de 2016, se aprofunda na cúpula e esfria na rua, de acordo com algumas pesquisas de opinião. Os indignados com o Governo começam a encolher, enquanto seus defensores anunciam sua saída às ruas.

Os programas de humor e de sátira política praticamente desapareceram da televisão, embora tenham sido parcialmente recuperados nas redes sociais. A sátira é, no entanto, o sal que impede que a democracia se corrompa.

A gravidade da crise que o Brasil atravessa é manifesta e está sendo apontada pela imprensa internacional; os escândalos de corrupção aumentam em número e gravidade a cada dia, enquanto os indignados diminuem.

Por quê? Cansaço ou desencanto com a imobilidade dos responsáveis por tirar o país do atoleiro? Paralisia da oposição que parece dormir tranquila, alheia ao terremoto em andamento?

Talvez, mas também pelo fato de ainda existir incrustada na sociedade uma exagerada reverência com os poderes políticos, econômicos e até religiosos.

Isso não é dito pelo jornalista. Aparece na consciência de brasileiros de várias classes sociais que confirmam essa dificuldade de criticar a autoridade com a qual preferem compadrar.

Apesar da falta de credibilidade oferecida hoje pelos políticos e seus partidos, o Brasil é um país com uma democracia mais acostumada a queimar incenso aos pés do poder do que exigir satisfações deles.

É tal a dificuldade de confrontar e vigiar as autoridades que até os jornais que exercem sua função cívica e social de ser a consciência crítica do poder são considerados oposição. Os jornalistas existem, no entanto, para serem porta-vozes da sociedade, não do poder. Para trazer à luz o que os poderosos tentam esconder.

Em qualquer democracia desenvolvida, os estudantes universitários costumam ser, por exemplo, uma das vozes mais críticas ao Governo.

Em Brasília se viu, no entanto, como algo normal que a jovem presidenta da União Nacional dos Estudantes, Carmen Vitral, beijasse as mãos da presidenta Dilma Rousseff em sinal de homenagem.

Que os jovens, pouco importando suas tendências políticas, saiam às ruas para aplaudir ou defender o Governo costuma geralmente ocorrer apenas em ditaduras.

Se o jovem é conformista com 20 anos, como será aos 60?

Estamos constatando isso com muitos velhos militantes de esquerda que lutaram contra a ditadura na juventude e hoje balançam no conservadorismo e na corrupção.

Se os jovens pecam por algo, deveria ser pelo ardor libertário e irreverente com os poderes, dos quais nunca recebem o que lhes faria justiça.

A universitária paulista que me confirmou a existência desse pecado de reverência exagerada ao poder que, disse, “os brasileiros tem no sangue”, é de uma família humilde que teve de trabalhar duro para conseguir ir para frente. Segundo ela, o Brasil é um país “que foi construído pelas vítimas” e não por pessoas que decidiram vir livremente para construí-lo juntas, como aconteceu em outras partes do mundo.

Os colonizadores europeus, em sua grande maioria, foram enviados à força ou chegavam à procura de pura aventura, vítimas e párias que eram em seus países de origem.

Depois vieram os milhões de africanos que serviram como escravos de mão de obra bruta e servil. Acabaram abandonados à própria sorte.

Todas essas vítimas criaram, segundo ela, uma mentalidade que implica reverenciar o poderoso, para ser menos castigado e humilhado, ou para obter alguma vantagem para as suas vidas difíceis e sem direitos.

“Hoje eu estou consciente de que precisamos nos libertar dessa necessidade de agradar o poder em vez de ser sua consciência crítica, mas não é fácil quando seus antepassados cresceram sob essa cultura do medo dos poderosos ou do ‘jeitinho’ [flexibilidade sem acatar muitas normas ou leis] para arrancar algumas vantagens, lícitas ou não”, explicou a jovem Mariana.

Em sua coluna no jornal O Globo, Marcio Tavares D’Amaral escreveu há poucos dias: “Em nosso passado sempre houve quem nos dissesse que horas são”.

Permito-me tomar sua frase feliz para aplicá-la, embora em outro sentido, para indicar por que no Brasil ainda existe tanta reverência com os poderosos. Talvez porque as pessoas se acostumaram desde o início a que fossem eles que decidissem que hora marcava o relógio.

Terá chegado o momento em que o Brasil, em busca da modernidade, decida indicar a hora em que deseja viver uma democracia adulta, sem medo de expressar suas críticas e descontentamentos?

Não se chega a isso se deixamos que os interessados em manter seus privilégios e perpetuidade política continuem dizendo que horas marca o relógio.

Todo poder paternalista está mais perto de uma ditadura, embora velada, que de uma verdadeira democracia.

Se deixarmos o poder sem vigilância, ele continuará a nos impor a hora do seu relógio, mesmo à custa de sequestrar os nossos.

Pelo menos não nos coloquemos tão facilmente aos seus pés.

Seria o suicídio da democracia.

Irrisórios somos nós

Chego a essa conclusão ao acabar de ler os jornais da semana.

No meio de todas as noticias sobre reformas no triplex do Guarujá e no sítio em Atibaia (tenho para mim que não foram as únicas, mas isso é pura intuição...), vem o Gilberto Carvalho e declara, com a cara mais limpa, que “reforma em sítio é a coisa mais natural do mundo”.

Ô seu Gilberto, reforma em qualquer imóvel que esteja necessitando de consertos é muito natural. Não precisava o senhor usar toda a sua inteligência para parir essa frase!

O que talvez não seja natural é a reforma vir como um presente. Isso talvez seja inusitado.

Digo talvez porque aqui no Brasil nada parece inusitado, temos mais coisas estranhas rondando na área do que supunha até a vã filosofia de Shakespeare.


Duvida? Então leia ou releia.

O José Dirceu, em seu depoimento ao juiz Sergio Moro, disse que “Sem falsa modéstia, receber R$ 120 mil pelas consultorias que dava era uma quantia irrisória”.

Vocês lembram quando ele disse que um telefonema do José Dirceu era um telefonema do José Dirceu? Pois disse, disse, sim, e então penso com meus botões: quanto ele cobraria por cada telefonema?

Dirceu disse que não é rico. O irrisório que recebia, pelo visto, era todo usado para manter seu padrão de vida, não dava para juntar uns míseros reais. Não sei, e ele não disse, em que gastava o dinheiro, já que sua casa em Vinhedo também foi reformada, o que é muito natural, por um amigo empreiteiro.

Ele viajava muito, para atender seus clientes, os tais que se valiam de suas consultorias. Mas nem nessas viagens gastava parte do irrisório que recebia, já que Julio Camargo, o lobista, lhe cedia os jatinhos usados nas viagens.

Li por aí que José Serra se comoveu ao ver a capa da VEJA que mostrava Dirceu no Pavilhão 6 do Complexo Médico-Penal de Pinhas, perto de Curitiba. Não posso dizer o mesmo. Não me comovi. Mas posso dizer – e digo – que José Dirceu dá um nó na inteligência de qualquer outro petista. Ele não veio com lorotas ridículas. Assumiu que recebia ajuda do amigo Julio Camargo e pronto.

Tem algum mal um amigo ajudar o outro? Não creio. Só depende de onde o amigo tirou o dinheiro que tanto bem fez ao Dirceu. O problema agora é do Camargo que vai ter que explicar de onde saíram tantos irrisórios...

Outro amigo fantástico é um que se diz ator, o tal de Zé de Abreu. Sabendo que os irrisórios não davam para o Dirceu sobreviver com conforto, e informado de uma multa que a Justiça lhe cobrava, o que fez o amigão?

Organizou uma vaquinha e juntou R$1 milhão para ajudar o Dirceu! Não era o caso de os petistas que contribuíram com essa vaquinha reclamarem o seu de volta, já que o Dirceu confirmou ao juiz Moro o quanto amealhou por mês com sua empresa de consultoria?

Que nada! Vai ver estão muito orgulhosos e se gabam: “eu contribuí com a vaquinha do Zé de Abreu para ajudar o querido Zé Dirceu”.

É mesmo um país diferente.

Outro exemplo:

O ex-ministro Delfim Netto, que tantas aprontou, é um dos signatários do AI5, foi ministro da Fazenda no governo Costa e Silva e embaixador de Ernesto Geisel na França. Prometia fazer crescer o bolo para depois dividi-lo.

O bolo até que cresceu durante sua passagem pelo ministério da Fazenda. Só não foi dividido. Se foi, eu não recebi minha fatia...

Pois esse senhor, cujo nome estará para sempre anexado ao famigerado AI5, numa entrevista ao Estadão, em 19 de setembro de 2015, disse coisas do arco da velha a respeito da presidente. Por exemplo: "A Dilma é simplesmente
uma trapalhona".

“As pessoas sabem que a presidente é uma mulher com espírito muito forte, com vontades muito duras, e ela nunca explicou por que ela deu aquela conversão na estrada de Damasco. Ela deveria ter ido à televisão, já no primeiro momento, e dizer: “Errei. Achei que o modelo que nós tínhamos ia dar certo e não deu”. Mas, não. Ela mudou sem avisar e sem explicar nada para ninguém. Como confiar?”.

Não tem como confiar.

No entanto, foi a conselho do Delfim que Dilma foi abrir o Ano Legislativo.

Por acaso ela disse que errou? Por acaso desculpou-se e prometeu que ia se preocupar mais conosco – o povo – do que com o poder que detém?

Não, o que ela fez foi pedir que o Parlamento aprove a volta da CPMF. Diria mesmo que foi implorar.

E sobre a CPMF, o que disse o ex-ministro Delfim que a aconselhou a ir ao Parlamento?

“A CPMF é um imposto cumulativo, regressivo, inflacionário, tem efeito negativo sobre o crescimento e quem paga é o pobre”.

E quem se importa com isso? Pobre é tostão. Cai no chão e ninguém se abaixa para pegar
.

A senhora de um trilhão

Despertam curiosidade popular as listas de bilionários. Gente que se deu bem, pelos muitos milhões que amealhou no caminho da vida, quer por talento excepcional no esporte, nas artes, nos negócios, nas ciências (aqui, raramente), ou por pura esperteza e, no limite, por banditismo em nível corporativo, como são exemplos “El Chapo” e seu mestre, Pablo Escobar. Santos ou pecadores, são indivíduos fazedores, com grande poder de realização e liderança. O ponto comum entre todos é a enorme capacidade de criar e acumular ativos. São “realizadores”, para o bem ou para o mal.

Pouco se ouve falar, contudo, de outra lista, semelhante à primeira, só que com sinal trocado. Em vez de serem acumuladores de ativos, há também os acumuladores de passivos – referência aos indivíduos produtores de guerras, de moléstias ou, simplesmente, detonadores de riqueza, aqueles capazes de agir só para erodir, derrubar, solapar e deletar a riqueza e a capacidade de crescer de uma empresa, comunidade ou país. Alguns desses seres especiais têm custado caro à humanidade inteira. Outros, ao seu próprio país.

Sponholz - FMI
Em recente artigo, Monica de Bolle levantou a pergunta incômoda, mas necessária: quanto nos custou Dilma? E deu números ao debate: “… o Brasil perdeu R$ 300 bilhões de renda e de riqueza nos últimos quatro anos…”. Economistas podem fazer essa conta de “prejuízo bruto” de várias maneiras, todas válidas. Monica optou por olhar pelo lado da poupança, parcialmente destruída no período Dilma Rousseff. A poupança de famílias e empresas teria recuado – como ocorreu de fato – do patamar de 20% para 15% de um produto interno bruto (PIB) anual de cerca de R$ 6 trilhões. Perdemos, assim, cinco pontos porcentuais do PIB. Daí a conta de uma dilapidação de riqueza da ordem de 5% de R$ 6 trilhões, igual a R$ 300 bilhões. Será mesmo?

Estou disposto a colocar Dilma no Livro Guinness dos Recordes. Acho que Monica fez cálculo conservador da contribuição da nossa presidente para a destruição da riqueza nacional. Dilma seria a senhora de um trilhão de reais! Negativos, é verdade, mas ninguém pode ameaçar-lhe o troféu.

E por que um trilhão?

Pensem no quanto o Brasil teria crescido, a mais, se Dilma não tivesse feito nada (grande contribuição já seria!). A poupança referida por Monica ficaria nos 20% desde 2011, acarretando correspondentes investimentos, palavra-chave sem a qual não criamos riqueza nova alguma. Com 20% do PIB aplicado em investimentos (quem se lembra do PAC?) o país teria exibido um crescimento mais próximo do seu potencial, com ou sem a tal “crise mundial”. O “potencial” do PIB é conceito usado pelos economistas para calcular quanto um país é capaz de fazer, ano a ano. No Brasil, tal potencial já foi de 7% ao ano (que saudade!); caiu para 5% no fim dos anos 1970, depois para 3% nas décadas perdidas de 1980 e 1990; ameaçou pequena melhora para 3,5% com o milagreiro Lula e, finalmente, recuou para 2,5% na era Dilma. Se ela nada houvesse feito para atrapalhar, ainda assim o país do juro alto e da carga tributária de manicômio poderia ter crescido uns 2,5% ao ano.

Dilma conseguiu, no entanto, perpetrar um estrago sobre o qual falarão para sempre nossos livros de História. Estimando as perdas de PIB, ano a ano, desde que Dilma se aboletou na cadeira presidencial, e supondo que a ela seja concedido completar a façanha, teremos esbanjado uns 15% do PIB ao longo do octênio dilmista, que, em valores de hoje, correspondem à estonteante marca de um trilhão de reais!

Mas tem gente querendo impedir Dilma de atingir seu recorde. Quanta maldade!

Outra maneira de garantir o recorde é pelo método da acumulação de passivos. É aquela roubada coletiva que ocorre quando metem a mão grande no nosso bolso enquanto cantamos marchinhas carnavalescas sem ira nem birra. É preciso, às vezes, um rio inteiro de lama – no sentido literal – para despertar o raquítico instinto de interesse coletivo do nosso povo. Acumulação de prejuízos, entretanto, não figura no Direito brasileiro como responsabilidade direta de um mau gestor público. A imputação se atém a atos administrativos, como apontados no “Relatório Nardes” sobre as pedaladas de R$ 40 bilhões, que Dilma se apressou a “pagar”.

Mas pagar o quê, se a perda de riqueza permaneceu, como bem mostrou Monica? A omissão do dever de bem administrar gerou acumulação de passivos também pelo lado financeiro, pelos juros anormais que o Brasil vem pagando, e que pagará, pelo despautério da gestão dilmista – outro modo de se chegar ao mesmo trilhão de reais.

É o governo que nos avisou, na semana passada, quanto custou o encargo de rolar a dívida pública de R$ 3,9 trilhões: a bagatela de R$ 502 bilhões, apenas em 2015, entre juros e prejuízos de câmbio, os famigerados swaps inventados para segurar o câmbio antes do pleito de 2014. Este ano, mesmo com o Banco Central mantendo a taxa Selic onde está, a absurda conta do juro deve se repetir. Então, pelo lado do custo financeiro, Dilma também é a senhora de um trilhão de reais.

Os encargos dantescos elevaram a dívida pública de 51% do PIB, em 2011, para 66% ao final do ano passado. Bingo! São 15 pontos porcentuais do PIB acrescidos ao nosso passivo financeiro, portanto, mais um trilhão de reais acumulado à dívida dos brasileiros, pedágio ruinoso que todos pagamos para o mercado continuar “confiando” nas autoridades econômicas.

Um trilhão, essa é a conta. Juros a mais, PIB a menos, empregos eliminados, capital evaporado, confiança desfeita, futuro destroçado. Para tal crime, espantosamente, não parece haver remédio legal em nosso Direito positivo. Por isso a década “esbanjada” será concluída com êxito! Ninguém, afinal, conseguirá roubar essa Olimpíada de Dilma.

Oderbrecht e OAS só trabalham de graça para quem está no poder

Numa entrevista a Ranier Bragon, Folha de São Paulo de quinta-feira, o ex-ministro Gilberto Carvalho, que chefiou o gabinete do Palácio do Planalto ao longo dos mandatos de Lula, fez espantosa afirmação de que é a coisa mais natural do mundo empresas como a Odebrecht e OAS fazerem gratuitamente obras em propriedades particulares. Cabe, agora, o esclarecimento complementar por parte das duas empresas, uma vez que, por coincidência, tais obras particulares destinavam-se só a pessoas com influência no jogo do poder. Eram, portanto, restritas.

Casos do sítio de Atibaia e do apartamento triplex do Guarujá. Exemplos singulares de atos de desprendimento empresarial. Gilberto Carvalho, que foi exonerado pela presidente Dilma Rousseff, pouco antes da eleição de 2014, quando dirigiu restrições à sua atuação, colocou mais um argumento no esquema, que serve de ponte entre os contratos de obras públicas e a influência, que pode ser decisiva, do Executivo. Disse que tanto a Odebrecht quanto a OAS, entre as demais empreiteiras, procederam da mesma forma em relação ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Acrescentou a Ranier Bregon que pagaram – e pagam – despesas dos Institutos que levam os nomes dos dois ex-presidentes da República.

Só um ingênuo pode desconhecer os esforços que envolvem a convergência de interesses públicos e privados. Mas considerar normal o fato da execução gratuita de obras é demais. É ultrapassar os limites da percepção humana. Pois quem poderá acreditar na normalidade de tais iniciativas? Falando francamente, ninguém.

Surpreende principalmente Gilberto Carvalho afirmar, como está na matéria da FSP, que Lula não é dono formal da propriedade de Atibaia. Carvalho, com a frase, criou indiretamente a figura jurídica do dono informal de bens. Essa não.

Estabelecer comparações para cotejar o que teriam praticado ex-presidentes da República não diminui em nada o aspecto ético da questão. Gilberto Carvalho buscou esse caminho colocando diante de seu espelho as imagens de Luis Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. E daí? Significa, isso sim, culpar ambos. Pois não é pelo fato de um ter errado que o outro pode errar. Tal argumento é próprio de discussões entre pessoas de reduzido nível intelectual.

Por isso mesmo, espanta que o argumento também tenha sido apresentado por Élio Gáspari, jornalista de nível elevado, em sua coluna no Globo e na FSP de quarta-feira, cotejando o triplex de Lula, no Guarujá, com o do ex-presidente Juscelino Kubitschek na Avenida Vieira Souto. Mesmo que a origem de ambos tenha sido nebulosa, o primeiro não apaga o segundo erro.

Elio Gáspari, aliás, esqueceu ou não desejou se referir ao triplex de Carlos Lacerda, Praia do Flamengo. Omitiu também o sítio do general João Figueiredo perto de Petrópolis. A fazenda de João Goulart, fronteira Brasil e Uruguai foi recebida por herança. Não estou afirmando com isso que, na sua curta administração, não tenham ocorrido casos de jogos de influência.

Ao contrário de Gilberto Carvalho e Elio Gáspari, não me proponho a apagar um episódio por outro. Quanto a Carlos Lacerda, tanto eu quanto Gáspari podemos lembrar o episódio do perdão da dívida dos exportadores de café pelo porto do Rio.

Além do perdão do débito, ainda reduziu de 4 para 1 % a incidência do ICMS, objeto de julgamento no STF. Foi em 1961.

Dilma aproveita-se da epidemia para voltar ao blablablá

No final do ano, como é de praxe, o presidente da república normalmente se dirige à nação para fazer um balanço do ano que se encerra. Em 2015, com medo da reação dos brasileiros que tem reagido com panelaço, a Dilma não se apresentou em cadeia de TV.

Com uma aprovação de apenas 5%, o pior da história do país, a presidente preferiu prestar contas pela rede social. Nesta quarta-feira, no entanto, ela usou a televisão para falar do mosquito aedes aegypti e do zika vírus que promete bravamente exterminá-los para frear a epidemia que se alastra pelo país.

O pronunciamento da Dilma é oportunista e demagogo. Ela tenta fazer o papel de paladina da nação aproveitando-se de uma situação de calamidade pública que o seu governo, por incompetência, não consegue evitar. O mosquito da dengue e o zika vírus se espalham pelo país sob os olhares indiferentes do seu governo. É bem verdade que a população também tem sua parcela de culpa quando relaxa no combate a proliferação. Mas o fato é que até agora o governo mostrou-se incapaz de uma política séria de combate ao mosquito.

O Ministério da Saúde, a quem estaria afeto o problema, foi sempre usado como um órgão de barganha pelos partidos de olho nos recursos que dispõe. O critério de escolha do ministro é feito por políticos medíocres que se alternam no comando da Pasta como aves de rapina de olho no cofre. Nos últimos anos, os escândalos se sucederam dentro do ministério. O maior deles, denominado de Operação Vampiro, tinha entre os seus personagens o então ministro, Humberto Costa, senador, um dos políticos mais influentes do PT.

O depoimento da Dilma sobre o mosquito é mais uma retórica alienígena do seu governo despreparado e ineficaz. Com exceção de alguns anúncios mal ajambrados na mídia, não se conhece uma ação concreta do governo para combater o mosquito antes que o zika vírus virasse epidemia. Para eximir-se da reponsabilidade pela tragédia, a Dilma disse não saber a origem do mosquito. Ou seja, ele não é brasileiro, portanto, estamos combatendo invasores estrangeiros. Talvez, por isso, ela tenha apelado para o Barak Obama, presidente do EUA, antigo desafeto, para enfrentar a batalha.

Ora, os brasileiros assistem todos os dias pela televisão milhares de pessoas em busca de atendimento nos hospitais. Muitos morrem sem assistência e outros nem conseguem marcar consultas. Não se sabe, por exemplo, até hoje a contribuição dos médicos cubanos à saúde do Brasil vendidos, durante a campanha eleitoral, como os salvadores da pátria.

Dilma, na televisão, quer tirar proveito da tragédia, fazer uma média com os brasileiros. Aparece como o general da guerra contra o mosquito. Quer esmagá-lo com a retórica de que “ele não nos vencerá, somos mais forte”, como enfatizou no pronunciamento. Uma bobagem para vender a imagem de uma mulher valente, guerreira, obstinada, preocupada com o bem estar da população.

A epidemia no Brasil não se restringe apenas ao mosquito da dengue. Ela também chegou aos órgãos público na forma de corrupção. O país vive um dos seus piores momentos. Perdeu a credibilidade internacional e precisa recuperar a sua economia em frangalhos, destroçada por um governo tonto e desmiolado tão nocivo ao povo brasileiro como o próprio mosquito da dengue e o zika vírus.

Não é aparecendo na televisão, depois de ser vaiada na abertura dos trabalhos do Congresso Nacional, conclamando o povo para o mutirão contra a dengue e o zika vírus, que a presidente vai se isentar da responsabilidade pelo fracasso na prevenção do combate ao aedes aegypti

A Dilma precisa descer do palanque eletrônico que lhe permite aparecer sob efeitos especiais. Os brasileiros querem menos blablabá e mais ação.

Governo transforma, mas não produz

De vez em quando, afirmo que governo não produz riqueza e não dá nada à sociedade que antes dela não tenha tirado. Leitores indignados escrevem dizendo que isso é um absurdo, pois o governo produz estradas, pontes, assistência à saúde e outros serviços públicos. Imagino que sejam leitores sem instrução formal em teoria econômica, que é a explicação de como o sistema funciona. O problema começa por não compreenderem o significado da palavra “produzir” em economia.

Imagine uma vila de pescadores com mil habitantes. Todos pescam e produzem três mil quilos de peixe diariamente. Eles se alimentam dos peixes e dormem embaixo das árvores. A riqueza criada – os três mil quilos de peixe, que antes de serem pescados eram apenas “recursos naturais” – torna-se bem de consumo somente após o “trabalho” dos pescadores (que são, ao mesmo tempo, produtores e consumidores).
Pois é só isso que o governo faz: retira parte da riqueza produzida pela sociedade e a transforma em outra coisa
Certo dia, eles resolvem construir um conjunto habitacional comunitário, para o que decidem entregar metade dos peixes (1,5 mil quilos diários) a uma construtora da vila vizinha, contratada para fazer a obra. Um pescador chato, que entende de economia, diz: “mas os senhores estão dispostos a reduzir o consumo diário de peixes em 50% para entregar a metade da produção em troca das casas?” Primeira lição: como a produção total de uma nação é limitada, quanto mais investimento (casas), menos consumo (peixes), e vice-versa. Apesar disso, eles decidem ir em frente, pois é a única forma de terem o conjunto habitacional.

Para administrar e fiscalizar toda a operação de recolher os peixes e entregá-los à construtora, os moradores elegem, entre os pescadores, um líder e nove auxiliares. O pescador-economista, chato como sempre, pede a palavra de novo. “Vocês se deram conta de que os dez pescadores eleitos deixarão de pescar, pois terão de trabalhar no ‘serviço público’ de gestão da obra? E que os outros 990 terão de alimentar os 10 eleitos?”

Terminada a obra, todos estão magros, pois tiveram de cortar seu consumo à metade e dar mais 30 quilos diários de peixe para alimentar o líder e os nove auxiliares. Terminada a obra, o líder faz um belo discurso para mostrar o quanto ele e sua equipe produziram. Na prática, o líder e os ajudantes não criaram riqueza alguma, não produziram nada. Eles tomaram metade dos peixes produzidos pela comunidade (impostos) e “transformaram” em casas. Também tomaram mais 30 quilos/dia de peixes para alimentar a si mesmos, os “servidores do povo”.

Pois é só isso que o governo faz: retira parte da riqueza produzida pela sociedade e a transforma em outra coisa. O governo sempre será uma fração do que a sociedade (pessoas e empresas) produz, nunca mais que isso. Uma empresa estatal, como a Petrobras, é classificada na entidade “empresas” e não na entidade “governo”. O governo somente pegou o dinheiro do povo e construiu a empresa, a qual passa a produzir e vender seu produto. Logo, ela vive de vendas e não de impostos.

Mas, quanto aos serviços públicos, o governo os oferece com os recursos obtidos da sociedade via impostos, que são uma fração da produção nacional (renda e produto são as duas faces da mesma moeda). Como os serviços públicos são executados por pessoas e as obras públicas são produzidas por empresas, o governo somente tem a função de transformar uma riqueza (peixes) em outra coisa (casas).

José Pio Martins

Nazismo e liberdade de expressão

Os limites da liberdade de expressão são um tema ainda candente em um país que só se libertou da censura há menos de três décadas, e um desdobramento específico deste debate diz respeito a manifestações de cunho racista. O tema voltou à tona depois que Minha luta, de Adolf Hitler, caiu em domínio público, podendo ser publicado por qualquer editora. Para uma análise clara, em primeiro lugar é preciso examinar como o ordenamento jurídico brasileiro trata de crimes relacionados ao preconceito racial.

Edição crítica lançada recentemente
na Alemanha em dois volumes
Três meses após a promulgação da Constituição Federal, passou a vigorar no país a Lei 7.716/1989, que pune as condutas decorrentes de preconceito racial ou de cor. A lei disciplinou melhor o crime de praticar, induzir ou incitar, pelos meios de comunicação ou por publicações de qualquer natureza, a discriminação ou preconceito de raça, cor ou procedência nacional, com pena de dois a cinco anos. A mesma lei pune também quem fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos ou propaganda que usem a cruz suástica ou gamada para divulgação do nazismo.

Fica claro, portanto, que a liberdade de expressão não é absoluta. Embora essencial na construção e desenvolvimento de uma sociedade democrática, ela pode ser restringida em determinados casos, quando colide com outros direitos fundamentais garantidos constitucionalmente. Além das questões envolvendo preconceito racial ou de nacionalidade, a própria Constituição admite outras hipóteses em que a liberdade de expressão pode ser limitada, como nos casos de conflito com direitos personalíssimos (honra e intimidade), em casos de condutas tipificadas como crimes (apologia), de proteção do sentimento religioso e de proteção do menor.

Na quarta-feira, dia 3, o Juízo da 33.ª Vara Criminal do Rio de Janeiro suspendeu a comercialização da tradução em português de Minha luta. Desde que caiu em domínio público no mês passado, algumas editoras passaram a preparar edições da obra, em formato físico e virtual. O Juízo estabeleceu multa de R$ 5 mil por exemplar para quem descumprir a ordem.

A decisão violaria a liberdade de expressão? A resposta depende do que, exatamente, está sendo publicado. O texto de Minha luta, em si, é preconceituoso e racista, disso não há dúvida. No livro, Hitler chega ao cúmulo de afirmar que, se no início da Primeira Guerra Mundial a Alemanha tivesse submetido 12 mil ou 15 mil judeus ao gás asfixiante, não teria ocorrido o sacrifício de milhões de alemães na linha de frente. É uma retórica tão primária quanto brutalmente agressiva. Analisada à luz do direito brasileiro, a obra viola claramente a Lei 7.716/1989, cujos fundamentos constitucionais são os princípios da igualdade e da dignidade da pessoa humana. Portanto, a divulgação ou comercialização do livro é um abuso da liberdade de expressão, violando os direitos de igualdade e dignidade da pessoa. No caso em concreto, a liberdade de expressão cede espaço para outros direitos que precisam ser necessariamente protegidos.

A avaliação que acabamos de fazer se prende ao conteúdo do livro propriamente dito. Mas vozes ponderadas têm defendido que Minha luta seja publicado em uma edição crítica, com notas e outros recursos que desconstruam o conjunto de falácias apresentadas na obra. Certamente seria necessário um trabalho de grande envergadura intelectual para, passo a passo, demonstrar as centenas de incongruências e deturpações presentes no livro. Alguns editores já se propuseram a levar adiante essa tarefa, inclusive na Alemanha, e quem tiver sucesso nessa iniciativa estará, no fundo, prestando um grande serviço no combate ao racismo. Uma edição brasileira preparada nestes termos não terá como ser nem descartada, nem liberada de imediato: ela exigirá do Poder Judiciário uma análise aprofundada que, no fim, contribuirá para melhorar nosso entendimento sobre os limites da liberdade de expressão.

Editorial - Gazeta do Povo

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O que vamos deixar para nossos filhos

F. tem vinte anos. Na sexta-feira, saiu às nove horas da noite para encontrar alguns amigos em um barzinho. Após acomodarem-se em torno de uma mesa, iniciaram aquelas conversas animadas e exaltadas que mantemos quando guardamos ainda ilusões e sonhos e a vida nos parece o oceano visto da praia, que, embora nos cause temor, ansiamos por desbravá-lo. Em um determinado momento, F. deu falta de sua bolsa e seu universo desequilibrou-se. Roubaram o telefone celular, documentos, cartões de crédito e de débito – mas principalmente turvaram-lhe a vívida confiança em seus semelhantes. Quando chegou em casa, os familiares respiraram aliviados, constatando que F. tivera “sorte”, porque fora “apenas” roubada... já que ela poderia ter sido agredida, violentada, morta...

O Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, uma organização não-governamental mexicana, divulgou no final de janeiro uma lista que demonstra a areia movediça em que estamos afundando: o Brasil possui 21 das 50 cidades mais violentas do mundo. São dados estatísticos, portanto indiscutíveis, que aferem o número de homicídios por 100 mil habitantes em municípios com população acima de 300 mil habitantes. Em termos absolutos, o Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS): de cada 100 assassinatos ocorridos no mundo, 13 acontecem no Brasil. Em 2014, 56 mil pessoas perderam a vida – 29 casos por 100 mil habitantes, mais de quatro vezes a média mundial, de 6,9 mortes.

Fortaleza (CE), segundo dados da ONG mexicana, surge como o lugar mais perigoso do Brasil. Das 21 cidades representantes do Brasil, 12 localizam-se no Nordeste (além de Fortaleza, Natal, Salvador, João Pessoa, Maceió, São Luís, Feira de Santana, Teresina, Vitória da Conquista, Recife, Aracaju e Campina Grande), três no Norte (Manaus, Belém e Macapá), duas no Centro-Oeste (Cuiabá e Goiânia), duas no Sudeste (Vitória e Campos dos Goytacazes) e duas no Sul (Porto Alegre e Curitiba). Como se vê, nem Rio de Janeiro nem São Paulo, que ocupam espaço privilegiado no imaginário nacional, em termos de ameaça ao indivíduo, comparecem no ranking.

Mas, infelizmente, a violência não se limita às grandes cidades. A selvageria se espalha como uma metástase cancerígena, atingindo até os mais distantes rincões do país. Em 2014, o município de Caracaraí (RR), de 19 mil habitantes, teve o triste privilégio de ser eleito o mais violento do Brasil – lá foram constatados 40 homicídios naquele ano, o que equivale a um índice de 210 assassinatos por 100 mil habitantes, sete vezes mais alto que a já altíssima média brasileira. Antes de Fortaleza, primeira no mapa da violência das cidades com mais de 300 mil habitantes, aparecem pelo menos 150 municípios pequenos e médios espalhados por todas as regiões do país.

Nós, brasileiros, temos cada vez mais mostrado nosso descompromisso com a coletividade. Ao invés de tentar solucionar conjuntamente os graves problemas que vão surgindo – e que já são inúmeros – preferimos tomar atitudes individualistas que salvem o pequeno núcleo a que pertencemos. Se a violência nos ameaça, construímos prédios. Se os prédios não são seguros, colocamos seguranças. Se eles não dão conta, estendemos cercas elétricas. Se nem isso resolve, mudamo-nos para condomínios fechados, isolamo-nos do mundo, e fingimos que estamos protegidos.

O Institut of Economics and Peace avalia que a violência no Brasil custa por ano cerca de 765 bilhões de reais em despesas com o sistema de saúde, aparato de segurança pública e a máquina do Judiciário, o que equivale a 8% do PIB nacional. Mas, para além de razões econômicas, o maior custo da violência é sem dúvida, por um lado, a perda de qualidade de vida, e por outro a amargura que nos intoxica. Eu sinto vergonha e frustração por legar a meus filhos um país deteriorado socialmente – um lugar onde o maior objetivo é tentar chegar vivo em casa ao fim de um dia de trabalho.

Como não fazemos nada, como cruzamos os braços num misto de fatalismo e indiferença, termino por lembrar o terrível libelo inconformista do pastor alemão Martin Niemöller (1892-1984), que em um sermão proferido em Berlim, em 1933, alertava: “Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu. Como não sou judeu, não me incomodei. No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista. Como não sou comunista, não me incomodei. No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico. Como não sou católico, não me incomodei. No quarto dia, vieram e me levaram: já não havia ninguém para reclamar”.

Luiz Ruffato

Dilma e Lula decidem se dar o abraço de afogados

Consta da mitologia criada sobre Dilma Rousseff que ela foi, como vou dizer?, professora de marxismo. Eu duvido um pouco. Em primeiro lugar, porque, fora o tatibitate do Marx escrevendo sobre ideologia ou relendo a história, aquele troço não é simples — o que não quer dizer que seja nem bom nem correto. Mas fácil não é. Se, hoje, já bastante madura, a presidente tem um raciocínio notavelmente confuso, a gente pode imaginar como era quando tinha pouca experiência. Como sabemos, ela sempre perde a luta para a sintaxe.

Raciocínio confuso costuma combinar com escolhas igualmente atrapalhadas. Dilma chegou a ter a chance de se salvar, já escrevi aqui, lá pelo começo do ano passado. Deveria ter apeado do PT, enviado ao Congresso uma emenda parlamentarista e proposto um governo de coalizão. Não o fez. Preferiu se agarrar ao partido. Está afundando junto com ele, e continuo a achar que não conclui o seu mandato. O “esfriamento” do impeachment me parece aquela bonança que antecede a tempestade. O povo de verdade ainda não disse o que acha da crise.

A imagem de Lula se desintegra, se esfarela. E não porque alguém conspire contra ele, mas porque, a gente nota, o homem se mostra incapaz de dar explicações convincentes. E que se note: isso só está em curso porque, finalmente, alguém teve a ousadia de cobrar. E, como se sabe, até agora, não foi Rodrigo Janot, não foi o Ministério Público Federal. A Operação Triplo X, no que diz respeito a Lula, por enquanto, é apenas um trocadilho.

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Eis aí. De novo, com um pouco de inteligência política, só um pouquinho, Dilma poderia tentar passar pela porta estreita e tentar se descolar de Lula. Ocorre que ela se cercou de conselheiros… lulistas! E estes a convenceram de que ela só se salva se ele se salvar. Por mim, acho o conselho excelente porque intuo que todos eles naufragarão juntos.

Nesta terça-feira, na abertura do ano legislativo, Jaques Wagner, ministro da Casa Civil, conclamou parlamentares da base a fazer a defesa de Lula. O ministro disse aos aliados que o ex-presidente é alvo de uma perseguição e que a história de Lula “precisa ser respeitada”. Para muitos, a fala de Wagner teve um tom de desabafo, quase um pedido de ajuda.

Wagner só ecoava a cascata dos petistas no Senado, que decidiram argumentar abertamente não em favor de Lula, mas, até onde dá para entender, de sua inimputabilidade e, pois, da impunidade.

O petista Jorge Viana (AC) presidiu a primeira sessão do ano e mandou brasa, prestem atenção:

“Vamos tratar o presidente Lula com respeito porque ele merece o respeito por tudo de bom que fez pelo nosso povo, pelo nosso país. Vamos deixar o presidente em paz com sua família, sua esposa, Marisa, para que ele possa ter o direito de uma vida depois de ter sido presidente da República”.

Como? Observo que Viana nem mesmo se ocupou de declarar que Lula é inocente. Pede que o deixem em paz em razão da sua biografia. Também fazendo de conta que nenhuma suspeita pesa contra o ex-presidente, Humberto Costa (PE), líder do partido no Senado, afirmou: “São ataques sistemáticos, que têm como objetivo desqualificá-lo como homem público e desconstruir a imagem de um presidente que deixou o cargo nos braços dos brasileiros, com mais de 80% de aprovação popular”.

Questão: se Lula tivesse deixado o poder com 100% de aprovação, isso lhe daria o direito de pairar acima das leis? A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), investigada numa operação parente da Lava Jato, também resolveu dar a sua opinião, aí com um pouco menos de, vá lá, sagacidade do que os outros. E provocou: “Talvez vocês pudessem acusar o Lula de ter tirado 40 milhões de pessoas da miséria, de ter feito o maior programa de investimento em moradia popular que este país de já teve”. Digamos que assim seja: Lula está se enrolando todo por isso?

Eis por que, apesar da aparente calmaria, eu duvido que Dilma vá conseguir sair do sufoco e salvar o próprio pescoço. Os petistas ainda não se deram conta do quão velho e ultrapassado é esse discurso. Vá às ruas, converse com as pessoas comuns, vejam a quantas anda a imagem daquele que eles insistem em tratar como demiurgo.

Em vez de se livrar da mistificação e recomendar a seus ministros que se mantenham longe dessa operação, que coisa de governo não pode ser, Dilma se deixa convencer de que ela só será salva se Lula conseguir recuperar o seu prestígio.

Não é um sinal de inteligência política.

Querem saber? Dado o que eles pensam, eu acho é bom.

Primeiro, as comissões de frente

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Aproxima-se o Carnaval. Na Praça dos Três Poderes as fantasias vão ficando prontas. Vale, por hoje, referir as Comissões de Frente que abrirão o desfile. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, virá como Doutor Silvana, o inimigo número 1 da Humanidade, empenhado em implodir senão o planeta, ao menos o país. A informação é de que em seu laboratório secreto, nos porões da Câmara, o deputado pretende apresentar às arquibancadas a mais letal arma da atualidade brasileira, capaz de transferir para contas na Suíça os vencimentos devidos aos deputados.

Como “Paladino das Transformações”, o senador Renan Calheiros voará sobre o Congresso vestido de Capitão Marvel, disposto a proibir a apresentação da bancada do PT e seu patrono. O senador Aécio Neves usará o uniforme do Batman, Antonio Anastasia como Robin. Ambos entoando o samba-enredo “Vão Passar”, referência a José Serra e Geraldo Alckmin.

Ainda na abertura do desfile, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ricardo Lewandowski e suas pastoras, sob os acordes de “Saudades da Amélia”, carregarão imensa fotografia de Joaquim Barbosa.

Para encerrar a passagem das Comissões de Frente, “Branca de Neve e os Vinte e Sete Anões”, com Madame em vestido de gala, estranhamente desfilando de costas e olhando para os derradeiros blocos à procura do Príncipe Encantado. Este, lá longe, em vez de cavalgar um corcel branco, virá montado num burro…

A medida da canalha

Os petistas, para se defenderem e defenderem aos seus, apelam com a costumeira falta de vergonha, que deve vir de berço. Sem vergonha já nasce feito, não se torna.

Para acrescentar a outros atributos de falta de caráter, também dispõem de um arsenal de "conhecimento histórico" adquirido nas coxas. São analfabetos informais desde criancinha, aproveitando-se de tudo e de todos para esconder suas bandidagens, ou as dos companheiros.

A nova pérola da cretinice foi escarrada pelo ex-governador Tarso Genro, conhecido pelo seu idolatrado lulismo. Não fez por menos ao defender o mentiroso Lula como o "judeu da década".

Os salvadores dos pobres e desvalidos, para livrar a cara do poderoso chefão, menosprezam o genocídio, escarram em milhões de judeus mortos pelos nazistas. Lula seria o inocente levado às câmaras de gás da Justiça brasileira?

Tarso Genro demonstra a falta de respeito a tudo e a todos quando está em jogo a defesa do partido dos pobres e seus líderes, comparsas, colaboradores e bandidinhos de beira de estrada.

O partidão que cria, em seu cabideiro eleitoral, secretarias de assuntos religiosos e de direitos humanos é o mesmo que agora compara um mentiroso contumaz e reconhecido marginal da politicalha com inocentes jogados aos fornos, porque respeitavam preceitos morais e religiosos - por sinal, que o endeusado não tem.

O gesto do lulista demonstra que qualquer religião será comparativo para a honestidade de um desonesto em desrespeito a todas as religiões e todos os direitos humanos.

Tarso Genro e seu "judeu da década" são da mesma raça dos antissemitas de ontem e de hoje, dos que atacam as minorias, dos que levarão ao fogo e à bala que discorda deles. Se tiverem que massacrar os outros, os que não comem da mesma propina, que assim seja.

O Brasil está bem arranjado em abrigar gente dessa laia e seus seguidores mercenários pagos com propinas e dinheiro público para cometer qualquer atrocidade. O texto do ex-governador dá a medida do que são capazes, nada diferindo de qualquer ditadura rastaquera.

Sem Lula, Dilma usa mosquito para unir o país

Fraca e impopular, Dilma Rousseff fez o que costumam fazer os presidentes americanos quando precisam unir a nação em seu apoio: declarou guerra. Nada mais conveniente para entusiasmar os compatriotas e resolver as divisões internas do país do que um inimigo comum. “Convoco cada um de vocês para lutarmos juntos contra a propagação do mosquito transmissor do vírus zika”, disse Dilma, em cadeia nacional de radio e tevê. “Esse vírus deixou de ser um pesadelo distante para se transformar em ameaça real aos lares de todos os brasileiros.”

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O país está dividido entre os que acham que Dilma e sua inépcia devem ser banidos do Planalto e os que avaliam que seu castigo não deve chegar a tanto. Essa divisão fulmina a credibilidade da presidente e paralisa o seu governo. Sem poder recorrer a Lula, que se dedica a debater diariamente com sua assessoria os termos da penúltima nota oficial de desmentido sobre o triplex do Guarujá e o sítio de Atibaia, Dilma acionou o mosquito.

O governo poderia ter encomendado uma campanha de utilidade pública para prevenir o brasileiro sobre os novos perigos do Aedes aegypti. Mas Dilma preferiu agir como Dilma. Colocando o marketing à frente dos resultados, cuidou de realçar o caráter traiçoeiro do inimigo que seu governo tardou a enxergar. “Ele só precisa depositar seus ovos em água parada, limpa ou suja, para nascer, se proliferar e picar pessoas de modo a contaminá-las. […] A maneira mais eficaz é não deixando ele nascer, destruindo os seus criadouros, que em mais de dois terços estão dentro das nossas residências”.

Dilma busca novos aliados: “Conversei com o presidente Obama e acertamos colaborar nesse desafio.” Anunciou o envio de tropas à frente de batalha. No próximo dia 13, vão à caça das larvas inimigas 220 mil homens e mulheres das Forças Armadas. “A guerra contra o mosquito transmissor do zika é complexa, porque deve ser travada em todos os lugares e por isso exige engajamento de todos”, a presidente alertou.

Dilma prometera a si mesma que não faria mais discursos na tevê enquanto não recuperasse a popularidade. Mas os sábios do seu governo avaliaram que a declaração de guerra ao mosquito livraria a presidente das vaias e dos panelaços. Não funcionou. Ouviram-se protestos em várias localidades. Dilma talvez devesse considerar a hipótese de eleger novos inimigos. Além do mosquitos, poderia bombardear os parasitas que infestam o seu governo.

Por que precisa acabar o PT

Várias invenções do ser humano foram obra do acaso. São conhecidas como “invenções acidentais”, coisas que estavam sendo imaginadas para um determinado fim, mas que se mostraram mais adequadas para outro. Algumas delas foram decisivas para a melhoria de vida das pessoas - forno de micro-ondas, penicilina, sacarina, baquelite, Teflon, marca-passo, velcro, super bonder, Viagra e o raio-X - e acabaram se tornando invenções acidentais que deram bons frutos. Imagine como seria a vida sem a radiografia atual, sem as panelas antiaderentes, sem a possibilidade de recompor a harmonia dos músculos cardíacos e outras conquistas hoje definitivas.

Outras invenções jamais deveriam ter acontecido. Cigarros e congêneres, armas em geral, principalmente de destruição em massa, bebidas alcóolicas, drogas alucinógenas e viciantes, são maluquices que distorcem a virtude e a potencialidade do intelecto humano. Mas, por Deus, como são populares. De fato, pensando melhor, as maluquices criativas mais destrutivas provocam, em seus usuários ou entusiastas, um frêmito, um desejo quase incontrolável de a elas se submeter. Aumentou a passagem vinte centavos? Alguém inventa os “black blocks” e lá se vão atrás milhares de “usuários”. Surgiu uma droga mais forte no mercado? Sim, sempre há doidos o bastante para experimentá-las. Eis o que chamo de “invenções nefastas”. São aquelas invenções que, tal qual um vício, foram criadas por acaso, são difíceis da gente se livrar e que gostaríamos que jamais tivessem sido criadas.

No Brasil, o PT é uma dessas invenções acidentais que se tornou nefasta. Criado a partir de atividades sindicais que visavam melhoria da qualidade de vida, melhores salários e condições de trabalho para seus filiados, o PT se tornou uma boa ideia gerida pelas cabeças de Lula e vários outros líderes que militavam em outras frentes. O PT foi um partido que desarticulou a tese de que o comunismo iria se apossar sinistramente do Brasil. Lula foi uma ideia, naquele momento, extremamente pertinente, pois não personificava, em momento algum, o ideal socialista rançoso e assustador, mas apenas um desejo de ascensão social e política de um grupo social em crescimento. Aparentemente.

Passado o tempo, os líderes petistas maiores estão presos, Lula está enredado em sua volúpia pessoal e familiar pelo usufruto sequioso do poder e das benesses capitalistas, correndo o risco, também, de ser preso. Dilma Rousseff é um títere sem cordéis e mente funcional, errática e balbuciante, num país submerso em corrupção sem similar na história do universo. Os indicadores sociais, que são fruto de gestão pública mais ou menos eficiente, jogam-se do alto como se cometessem suicídio. O povo brasileiro assiste a tudo isso tal qual um viciado em crack, que observa, dia após dia, sua própria decomposição física e moral. Até mesmo alguns petistas chegam a sonhar com a hipótese de que o PT jamais tivesse sido inventado. Não com Lula, Dirceu, Delúbio, Silvinho, Pallocci, Gushiken, Celso Daniel, Edinho, Gilbertinho, Vaccari e outros tantos “gênios”.

Não podemos mais acabar com a cocaína, com a cachaça e nem com os canhões. Mas o PT precisa, sim, ver sua sigla banida do ambiente político e social do país. A lei eleitoral terá de se encarregar disto, e rápido. Uma boa ideia usada para o mal, nisto está virado o PT. Corrupção, negociatas, destruição de estatais e fundos de pensão onde jaziam as esperanças de milhões. E muito mais. Não bastassem os fatos, soma-se o assombro e a certeza de que nada foi aprendido e que tudo será repetido, se for permitido.

O PT, enfim, acabou se tornando uma péssima ideia. Até mesmo seus filiados já reconhecem. Uma invenção nefasta para o Brasil.

Esforços de Dilma para quebrar o país estão dando frutos

O economista Delfim Neto, desta vez, está com a razão. No Brasil, a crise atual tem semelhança com a Grande Depressão que atingiu os Estados Unidos e grande parte do mundo em 1929. Os números são catastróficos, assustadores, tenebrosos. Basta conferir a estatística do desemprego. No ano passado, segundo o próprio governo, foram fechadas mais de 1,5 milhão de vagas no mercado de trabalho, das quais quase 600 mil no mês de dezembro. Não adianta dizer que foi por causa da sazonalidade do final do ano, isso é conversa fiada. A crise é gravíssima e o verdadeiro número de desempregados nem se consegue calcular, porque quem desistiu de procurar emprego ou está vivendo como camelô, por exemplo, é tido como “empregado”, vejam só que estatística maluca.

Aliás, uma das definições de estatística é bastante apropriada para esse tipo de pesquisa – “a estatística é a arte de torturar os números até que eles confessem o resultadoque se deseja”.

E precisamos lembrar também que no final do ano passado o total de trabalhadores de carteira assinada ganhou a adesão de grande número de domésticas, que passaram a contribuir para o INSS e ter direito ao Fundo de Garantia.

A economia vem descendo a ladeira desde a posse de Dilma Rousseff, em janeiro de 2011, como se o governo Lula tivesse deixado uma bomba-relógio no colo dela, no estilo do atentado do Riocentro. Mais de um ano já se passou e a presidente da República não fez rigorosamente nada. Fala apenas em CPMF e em reforma da Previdência, mas estas duas propostas não resolvem a crise, que é muito mais grave do que se propaga.

A desindustrialização é um fato inquestionável. Ao invés de financiar os empresários brasileiros, como o BNDES fazia no primeiro mandato de Lula, quando o banco era comandado pela dupla Carlos Lessa/Darc Costa e alavancou a economia, os recursos públicos brasileiros passaram a custear obras das empreiteiras no exterior, sob o argumento de que essa política iria abrir empregos no Brasil, demonstrando que a desfaçatez do governo e do economista petista Luciano Coutinho não tem limites.

Todos os setores econômicos estão em crise, à exceção da agricultura e agroindústria, mas é só uma questão de tempo – logo serão também atingidos. E o governo continua inerte, com planos mirabolantes de aumentar a arrecadação num cenário de economia recessiva, deve ser uma nova teoria econômica da falsamente “doutorada” Dilma Rousseff.

Em meio a essa terra arrasada, a Petrobras não consegue se reerguer. A cotação do petróleo não ajuda, as obras inacabadas se tornaram um sorvedouro de recursos, o pré-sal foi um rio que passou em minha vida, porque não adianta investir sem possibilidade de superar o custo/benefício, e a recessão diminui a demanda.

Mas o pior são as ações contra a empresa no exterior. A Justiça norte-americana é implacável com esse tipo de situação, em que uma gigantesca empresa estrangeira entra no mercado de ações com informações falsas e apresenta um quadro de corrupção generalizada jamais visto, lesando fundos de pensão a acionistas dos Estados Unidos e de outros países.

O julgamento da Petrobras em Nova York será em setembro, a empresa não tem a menor chance de se livrar de vultosas indenizações, em moeda forte. E a Petrobras se arruinando significa a ruína também da indústria naval e de uma rede enorme de fornecedores, em efeito cascata (ou dominó).

Enquanto o país mergulha na maior crise de toda a sua História, a chefe do governo se comporta com uma inconcebível falta de responsabilidade. Todos os seus atos visam apenas a evitar o impeachment. Não tomou a menor iniciativa de enxugar a máquina administrativa, para não incomodar o PT e a base aliada, aumentou os gastos de custeio, ao invés de reduzir.

O mais grave é que a presidente Dilma Rouseff trata a dívida pública como se fosse apenas um detalhe. Não vê que é o maior problema da nação. O Congresso aprovou em dezembro a realização de uma auditoria sobre o endividamento e ela simplesmente vetou, argumentando que existe total transparência sobre as finanças públicas.

Enquanto isso, os bancos batem recordes de lucratividade neste país de economia destroçada. Há algo de pobre nesta equação, mas a chefe do governo não consegue perceber. É como se estivesse empenhada em destruir o país, e está sendo muito bem-sucedida nesta sinistra empreitada.

O vetor da corrupção

Ele costuma ser simpático, sorriso fácil, sempre prestativo. Se o hospedeiro precisa ir a algum lugar com rapidez, ele arruma um helicóptero. Se é mais longe, um jatinho. Se o outro quer relaxar, ele descola uma casa na praia, uma fazenda para pescar, um apartamento em Paris. Ele se antecipa e descobre qual uísque o hospedeiro gosta de beber, o que sua mulher gosta de comer e em qual cidade a ex-amante do hospedeiro gostaria de morar.

Ele também entende tudo de reformas: casa na praia, sítio de lazer, cozinha gourmet – seja o que for, tem sempre um conhecido que pode fazer o projeto e tocar a obra “sem custos”. Ainda arruma emprego, sócios ou clientes para os filhos do hospedeiro.

É fazendo favores, gerando oportunidades e apresentando pessoas que o vetor se aproxima de seu alvo. Cria intimidade e, no passo seguinte, cumplicidade. Divide segredos. Ganha confiança.


Ele tem muitos nomes: intermediário, facilitador, lobista. Mas – em tempos de zika, dengue e chikungunya – pode ser chamado também de “Aedes corruptus”. Como um mosquito, ele é o vetor da corrupção. Vive de sugar o sangue alheio e espalhar o vírus “uma mão lava a outra”, o “toma lá dá cá” e o “15% é pro partido”.

Em época de eleição, vira arrecadador de campanha. Se não tiver outro jeito, doa do próprio bolso, mas prefere passar o chapéu entre empresários. Assim, suga dois com uma picada só: fica com crédito junto ao hospedeiro e ainda prospecta futuros clientes.

Estabelecida a confiança mútua, o hospedeiro está infectado: pode pretender ignorar, não apresentar sintomas, chamar o vetor de amigo, mas, conscientemente ou não, será usado para propagar a doença. O “Aedes corruptus” vai explorar sua proximidade com os poderosos para fechar negócios. Vai se gabar de ter acesso fácil para vender serviços – que pode ou não entregar.

É um aspecto singular do contágio. Basta ao mosquito saber antes o que o hospedeiro fará, para vender como obra sua algo que já é certo mas ainda não foi anunciado. Os clientes estão tão acostumados à corrupção que, numa projeção de si próprios, julgam que tudo só acontece se engraxam a mão de alguém. O “Aedes corruptus” conhece sua clientela, e usa isso a seu favor.

Se detectar dúvida, pode cometer uma indiscrição para provar que convive com a família do poderoso infectado. Mostra no celular para o potencial cliente uma foto dele com o hospedeiro, conta um causo do último encontro, revela apelidos de família.

Quando a doença se alastra e o hospedeiro deixa de ser assintomático, o vetor muda de status e vira operador. Começa a intermediar nomeações, distribuir comissões e montar sociedades. Aumenta, porém, o risco de ser descoberto. Se é pego pelas autoridades sanitárias, é o primeiro a delatar. Entrega todo mundo, abranda sua pena e fica com parte do que ganhou. Enquanto isso, o hospedeiro enfraquece e, às vezes, morre, politicamente.

Podem achar que o mosquito acabou, mas ele só está buscando um novo vírus para transmitir. Se ficou manjado como vetor federal, vai traficar no local. Se não der para ele, vai dar para outros de sua espécie. Sempre haverá “Aedes corruptos” zunindo por aí.

A corrupção é endêmica no Brasil. Infecta tantas pessoas que se tornou o comportamento normal – com variações sazonais e espaciais, mas dentro do máximo esperado. Surtos epidêmicos são raros, porém, ocorrem. E sempre na mesma ocasião: quando há troca em massa no poder e uma nova população sem anticorpos vira alvo do “Aedes corruptus”. A propagação, aí, costuma ser explosiva, muito além do desvio padrão. É a festa do mosquito.

Como toda epidemia, uma hora ela acaba – seja porque aquele esquema foi descoberto, seja porque dizimou os hospedeiros. Aí voltamos ao nível endêmico de corrupção ao qual estamos acostumados. Vão-se os hospedeiros, ficam os mosquitos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

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Na rota do suicídio

O pacote do dinheiro do FGTS, seja para “turbinar o consumo” ou simplesmente “dar um gás na economia”, mostra que a Dilma, ou o PT ou quem quer que esteja regendo essa banda, se é que alguém está, não entendeu ainda de que é feita a crise. E como a crise é feita exatamente da persistência dessa obtusidade; dessa incapacidade de entender que os fatos não atendem chamadas à ordem unida nem com mandados expedidos pelos solertes ministros do colendo Supremo Tribunal Federal, com mais crise ficamos cada vez que eles se movem.


O problema real está identificado e admitido desde o momento em que se aceitou sem aceitar a subida de Joaquim Levy ao palco. Ele demonstrou matematicamente à Dilma e ao PT que não ha como reduzir o tamanho da diferença entre o que se gasta e o que se arrecada até o ponto que se requer para ressuscitar a economia sem reduzir drasticamente o tamanho desse Estado que foi dado em pagamento à militância do partido e seus associados e à nova “nobreza” que acha que R$ 120 mil/mes por “cliente” disputando o seu quinhão é “um preço irrisório para emprestar o seu prestígio” às sucessivas operações de compra de eleições, de “governabilidade” e de boladas de dinheiro público dos últimos 13 anos. Desde então a perspectiva de perder dedos e anéis os têm mantido, a todos, paralisados.

São incontáveis as formas de parasitismo que explicam como um país tão rico quanto o Brasil pode ficar tão pobre. Para efeito dos procedimentos de emergência para a reanimação cardiorrespiratória de uma economia em colapso teriam de ser abordadas ao menos as quatro grandes “contas do apocalipse”: a da Previdência (com rombo indo de 58 para 85 bi/ano), a da desordem tributária (passando de 2 tri em 2015), a da obesidade mórbida da folha de pagamentos da União (129 bi em 2015) e a do estupro “trabalhista” sistemático do empregador brasileiro (passando a casa dos 60 a 70 bi/ano).

A esta altura o PT inteiro já entendeu que o país não se salva sem mexer profundamente nisso. Mas como o partido é dominado por velhotes encantados com o que o poder tem feito pela qualidade dos seus fins de semana – “et aprés leur, le déluge” – os que olham para horizontes mais longos, ainda conservam pruridos de outra natureza e contemplam a ideia de recuar dois ou tres passos em favor dos miseráveis do Brasil só reunem coragem para, quando muito, balbuciar quase propostas que, invariavelmente, engolem de volta ao primeiro “Quiéquiéissocompanheiro”?! dos espertalhões que conhecem-lhes a suscetibilidade ao fraco pavloviano estilo baixo século 20 que lhes foi incutido na faculdade. E aí, mais um milhão de famílias são atiradas ao pântano da insegurança alimentar, mais uns tantos bilhões de reais deixam de ser arrecadados, a pena retroativa a trabalhos forçados da nação salta dos 10 para os 20 anos, e o “debate político” fica reduzido à especulação sobre se quem está montando as apresentações da “presidenta” sobre “aquilo de que não se ousa dizer o nome” à “sociedade civil” nacional e estrangeira é o Nelson Barbosa ou o João Santana…

O país está diante de opções de urgência urgentíssima sobre as quais, até ha bem pouco tempo, não se podia sequer cogitar. Ocorre que o fogo se alastrou até àquele ponto em que pular da janela torna-se a única opção segura e esse momento encontra o PT na rara contingência de só poder fazer oposição a si mesmo, o que põe as pessoas certas nas posições certas em matéria de “condições objetivas” de se quebrar velhos tabus.

Dilma abraçou a causa da reforma da Previdência pelo estabelecimento de uma idade mínima. Falta dizer qual para que a discussão comece, é verdade, mas a causa já está abraçada. Abraçou também a da desvinculação das verbas orçamentárias que torna outras contas “mexíveis”. Tudo isso era impensável até pouco antes dela aprender a dizer “por favor”, o que comprova que o que tem de acontecer tem mesmo muita força.

É daí para a frente, porém, que a conversa descamba para duas determinações em tom anterior ao milagre dos “pedidos encarecidos”: ela quer porque quer mais uma CPMF e repete sem parar que qualquer medida do ajuste “tem de respeitar direitos adquiridos”. Isso coloca o Brasil e o PT em campos opostos. Quem tem “direitos adquiridos” no Brasil é o setor público e o setor público é o PT. O que caracateriza esta crise é extatamente a ultrapassagem de todos os limites, por efeito de acumulação, do maior e mais injusto desses “direitos” que é o de fabricar crises sem sofre-las. Não ha saída, portanto, sem a revisão do conceito mesmo de “direito adquirido” pois, tanto quanto o de “igualdade perante a lei”, o antídoto inventado no século 18 exatamente para substituir pelo “merecimento” a legitimação dos direitos que hoje se “adquire” por outorga de privilégio contra cumplicidade com o crime, o conceito de “direito adquirido” é como a virgindade. “Direito adquirido” e “igualdade perante a lei” são coisas que se excluem mutuamente por definição; qualquer um dos dois ou se tem ou não se tem.

Mais uma CPMF? Depois das quantas que já nos arrancaram via o escorcho do petroleo barato com gasolina cara, da eletricidade multiplicada por três, da falta de correção do IR e da “derrama” geral que a cada dia anuncia mais um tiro nos empregos que sobram? E pra quê, se não se tapar antes o ralo?

A discussão, dentro do PT, é sobre um Brasil resumido a Brasilia onde só se estabelece quem for selecionado pelo demérito. Ela gira exclusivamente em torno de quem vai pagar essa conta, sendo a sua primeira “condição” a de que aquele Brasil de Brasília não paga um tostão.

Aqui fora, onde todos são avaliados online, minuto a minuto, e só se estabelece quem foi selecionado pelo mérito numa disputa planetária, a discussão é como sobreviver até amanhã carregando o outro nas costas cagando-lhe incessantemente regras que ele próprio não cumpre, por baixo de um cartaz que ameaça com dois anos de prisão quem reclamar do mau serviço que lhe for intrujado.

Continuar com isso mais tres anos é puro suicídio.

O Brasil é maior do que o mosquito?

A seis meses das Olimpíadas, quando deveria ser alvo das atenções mundiais e ocupar o noticiário internacional de forma positiva, o Brasil encontra-se no epicentro de uma emergência internacional decretada pela Organização Mundial da Saúde. É algo tão raro e tão grave que a OMS só tomou a mesma atitude em três situações extremas: na gripe suína, no surto de pólio na África do Sul e em países do Oriente Médio, e no surto de ebola no oeste da África.

A letargia e perplexidade das autoridades brasileiras diante da tragédia são bem um espelho da falência do sistema de saúde nesses anos de governo lulopetista.

Especialistas já alertavam, há dois anos, sobre o crescimento populacional do aedes aegypt e dos consequentes perigos para a população. Os números são eloquentes, falam por si. De 2009 a 2015 foram registrados no país cerca de 5,4 milhões de casos de dengue, com duas mil e 300 mortes.

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Enquanto a presidente Dilma Rousseff vendia um país inexistente em sua propaganda eleitoral, o mosquito dizimava brasileiros, alastrava-se pelo país, transmitia dengue, chycungunha e zika.

Combater mosquito não dava voto, daí o governo Dilma nunca ter se empenhado em enfrentar seriamente o vetor. Ao contrário, os recursos repassados às prefeituras tiveram redução de 60% entre 2013 e 2015, segundo o presidente do Conselho Federal de Medicina, Carlos Vital Tavares. Ou seja, enquanto os casos e óbitos de dengue tinham um aumento recorde, a verba destinada ao combate do mosquito transmissor caiu de R$ 366,4 milhões para R$ 143,7 milhões.

Só quando mães desesperadas chegaram à rede de saúde pública com bebês microcéfalos no colo é que o governo começou a desconfiar do efeito devastador do zika vírus. E de forma atabalhoada, em meio a enorme bate-cabeças. Não vamos aqui relembrar os desastrados dizeres do ministro da Saúde, Marcelo Castro, ora em ataques à inteligência, ora em constrangedores sincericídios.

Mas não pode passar batida a declaração do chefe da Casa Civil, Jacques Wagner, segundo a qual o governo encara “com absoluta perplexidade” a situação da saúde pública no Brasil, com a proliferação dos casos de zika vírus.

Se o governo está perplexo, como estão as mães dos bebês deformados pela microcefalia? E como estão as mulheres grávidas dependentes de uma rede onde faltam leitos, medicamentos, tratamentos importantes como hemodiálise, radioterapia, quimioterapia e até atendimentos básicos?

Não, não temos uma rede pública de saúde com capacidade para enfrentar uma emergência global, por melhores e mais dedicados que sejam os profissionais da área. Temos uma contradição que o lulopetismo não equacionou. A concepção do Sistema Único de Saúde, consagrada na Constituição de 1988, é avançadíssima, mas os serviços prestados aos brasileiros são de péssima qualidade. Daí o refúgio, de quem pode, para os planos de saúde privados.

Sim, o lulopetismo foi na contramão do que fizeram os países que experimentaram o “socialismo real” e a social-democracia. Em vez de universalizar serviços básicos de qualidade como a saúde, promoveu o “distributivismo direto”, priorizou o consumo e incentivos fiscais seletivos. Não investiu em saneamento básico. Condenou o Brasil a continuar sendo sujeito a epidemias típicas do terceiro mundo. A ser o país do aedes aegypti.

Vamos ser claros: o PT não disse a que veio, na área da saúde. Algum dos seus ministros da Saúde marcou época? Algum deles pode ser comparado a Jamil Haddad, Adib Jatene ou José Serra?

A tragédia está aí, estampada nos lares de milhões de brasileiros. Para enfrentá-la, os marqueteiros de Dilma já criaram seu slogan: “O Brasil é maior do que o mosquito”.

Algo tão vazio quanto “Pátria Educadora”.

Para Oslo, não há inocentes

Há um ano no comando da Petrobras, o administrador Aldemir Bendine ainda não conseguiu reverter o ceticismo de investidores sobre os rumos da “nova companhia”, como costuma qualificar. Na quinta-feira passada, viu-se confrontado pela desconfiança.

Enquanto Bendine divulgava no Rio o seu “abrangente, estruturante, complexo e revolucionário” projeto de mudanças administrativas na Petrobras, a 10,4 mil quilômetros de distância, em Oslo, o Banco Central da Noruega anunciava a revisão dos investimentos do país em ações da empresa brasileira “por causa do risco de corrupção grave”.


O governo da Noruega é dono de uma fatia de 0,61% do capital da Petrobras. Comprou ações da estatal , no governo Lula, com o dinheiro de um fundo formado com royalties do petróleo.

O aviso sobre a possível retirada de capital ainda neste ano é importante porque esse fundo norueguês é o maior investidor global. Seus ativos superam US$ 750 bilhões, soma do PIB da Argentina e do Chile, e incluem 1,3% das ações de nove mil empresas relevantes em 75 países.

A reclassificação da Petrobras foi recomendada pelo Conselho de Ética do fundo, depois de seis meses de análises e consultas à administração Bendine. O órgão concluiu que “a Petrobras tem responsabilidade pela corrupção grave”. Alertou sobre “o risco inaceitável” de a empresa ter cometido crimes puníveis na Noruega. Também advertiu sobre o perigo de “atos semelhantes no futuro”, por duvidar que o controle anticorrupção da estatal seja “suficientemente eficaz”.

Cinco conselheiros examinaram provas judiciais sobre subornos pagos a diretores e gerentes: “O alcance da corrupção indica que o resto da direção da empresa deve ter tido conhecimento do que acontecia”, escreveram.

A estatal argumentou ser vítima de crimes cometidos por ex-empregados. Eles refutaram: “À luz dos fatos, isso dá a impressão de que a empresa nega qualquer responsabilidade.”

A Petrobras vai enfrentar problemas similares nos Estados Unidos, prevê Isabel Franco, especialista na legislação americana anticorrupção. “A diplomacia pode até conseguir que a promotoria peça uma punição mais leve. Mas na SEC (Comissão de Valores Mobiliários), a Petrobras e seus diretores não têm como escapar. Não haveria como explicar aos que já foram punidos.” Na lista de sanções da SEC por corrupção destacam-se Siemens, Alstom, Halliburton, BAE, Total e Alcoa, entre outras.

Em Oslo, quatro grupos (Sevan, Akastor, Uglands e Acergy) começaram 2016 sob investigação por suspeita de pagamento de US$ 43 milhões em propinas ao ex-diretor da Petrobras Jorge Zelada e o gerente Eduardo Musa, condenados ontem em Curitiba.

A procuradora norueguesa Marianne Djupesland rastreia pagamentos a Zelada e Musa feitos pelos brasileiros, Raul Schmidt Felippe Jr. e João Henriques, e pelo francês Miloud Alain Hassene Daouadji.

A dimensão extraterritorial da corrupção na Petrobras fez o Conselho de Ética do fundo sugerir às autoridades da Noruega que considerem o caso como paradigma, um “sinal claro para o Brasil e o resto do mundo” de que “ninguém vai ficar sozinho — nem os executivos seniores, nem os melhores políticos, nem os funcionários públicos.”

Bendine precisa ser mais eficaz para erguer a “nova companhia”, como imagina.

Falta à humildade de Dilma um quê de contrição

Ninguém quer ver Dilma Rousseff ajoelhando para pedir perdão. Nem de uma gestora em apuros se esperaria semelhante teatro. Mas esta presidente é culpada pela crise econômica que carcome a sua credibilidade. E não obterá a “parceria'' que reivindica enquanto não abandonar a convicção segundo a qual a crise é “internacional”, seus efeitos sobre o Brasil serão “transitórios” e tudo terminará bem porque seu governo dispõe de uma “agenda”.

Dilma foi ao Congresso. Entregou pessoalmente a mensagem do Executivo com as prioridades que defenderá no Legislativo em 2016. O ministro Jaques Wagner disse que a presença da presidente entre os congressistas foi um gesto de “humildade”. O presidente do Congresso, Renan Calheiros, declarou que não é hora de apontar responsabilidades, mas de buscar soluções. Avaliou que Dilma abriu-se para o diálogo.

Humildade? Nenhum movimento dramático seria necessário se a Dilma que cumpre seu segundo mandato já tivesse reconhecido que a Dilma dos primeiros quatro anos foi uma administradora precária. Diálogo? Sem uma boa contrição, dificilmente se estabelecerá uma comunicação sincera entre Dilma e o Congresso.

São notáveis as escolhas que Dilma não fez quando tinha popularidade, base congressual e poder para realizá-las. Ainda que se desconsidere o governo Lula, período em que madame mandou na economia desde 2006, quando Antonio Pallocci se auto-implodiu, há o tempo já decorrido de sua própria administração.

Depois de mais de cinco anos de nenhuma responsabilidade fiscal, de absoluta negligência com o rombo crescente da Previdência, e de um mal disfarçado autoritarismo gerencial, conclui-se: ou a humildade de Dilma é falsa ou a presunção de autossuficiência a impede de reconhecer que também está sujeita à condição humana.

Fragmento de homem

Que tempo é o nosso? Há quem diga que é um tempo a que falta amor. Convenhamos que é, pelo menos, um tempo em que tudo o que era nobre foi degradado, convertido em mercadoria. A obsessão do lucro foi transformando o homem num objecto com preço marcado. Estrangeiro a si próprio, surdo ao apelo do sangue, asfixiando a alma por todos os meios ao seu alcance, o que vem à tona é o mais abominável dos simulacros. Toda a arte moderna nos dá conta dessa catástrofe: o desencontro do homem com o homem. A sua grandeza reside nessa denúncia; a sua dignidade, em não pactuar com a mentira; a sua coragem, em arrancar máscaras e máscaras
 
E poderia ser de outro modo? Num tempo em que todo o pensamento dogmático é mais do que suspeito, em que todas as morais se esbarrondam por alheias à «sabedoria» do corpo, em que o privilégio de uns poucos é utilizado implacavelmente para transformar o indivíduo em "cadáver adiado que procria", como poderia a arte deixar de refletir uma tal situação, se cada palavra, cada ritmo, cada cor, onde espírito e sangue ardem no mesmo fogo, estão arraigados no próprio cerne da vida? 
Desamparado até à medula, afogado nas águas difíceis da sua contradição, morrendo à míngua de autenticidade - eis o homem! Eis a triste, mutilada face humana, mais nostálgica de qualquer doutrina teológica que preocupada com uma problemática moral, que não sabe como fundar e instituir, pois nenhuma fará autoridade se não tiver em conta a totalidade do ser; nenhuma, em que espírito e vida sejam concebidos como irreconciliáveis; nenhuma, enquanto reduzir o homem a um fragmento do homem. Nós aprendemos com Pascal que o erro vem da exclusão. 
Eugénio de Andrade (1923 - 2005)