quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Escolas fake-militares e a militarização como privatização

Em março de 2024, o município de São José de Ribamar, na Região Metropolitana de São Luís, rescindiu o acordo de cooperação que mantinha desde 2017 com a Polícia Militar do Maranhão para a implantação de um colégio “militar” em sua rede municipal. A medida fez com que o Colégio Militar Tiradentes VI voltasse a se chamar Escola Municipal Parque Vitória.

A retirada dos militares da escola se deveu à decisão unilateral da PM do Maranhão de fechar as turmas de Anos Iniciais do Ensino Fundamental, que obrigaria a Secretaria Municipal de Educação de São José de Ribamar a transferir centenas de crianças para outras unidades escolares. A resposta da prefeitura à intromissão da PM foi o cancelamento da parceria, que o governo do estado do Maranhão tentou reativar com uma estapafúrdia Ação Civil Pública contra o município. 

O prefeito ribamarense Dr. Julinho (Podemos) não chega a ser um baluarte da desmilitarização de escolas. São José de Ribamar possui outros dois colégios “militares” do Corpo de Bombeiros do Maranhão e mais seis escolas “da guarda municipal”, sendo uma delas a própria Escola Municipal Parque Vitória, ex-colégio “militar” e atual escola “cívica” com práticas disciplinares semelhantes às da PM.

Apesar disso, este caso particular de “desmilitarização” interessa por revelar duas coisas: 1) o bizarro nível de invasão da competência federativa municipal por um governo estadual, fenômeno perturbadoramente corriqueiro em redes municipais militarizadas em parcerias com polícias e corpos de bombeiros; 2) o funcionamento de escolas “militares” que não são propriamente militares.


Esta declaração do prefeito de São José de Ribamar, feita alguns meses após a saída dos policiais da Escola Municipal Parque Vitória, ilustra bem este segundo ponto: “Não tenho conhecimento de que o governador manda uma cibalena para as escolas [os colégios ‘militares’]. (…) A prefeitura custeia desde a alimentação dos alunos até os professores e demais funcionários. (…) O governo do estado tenta ganhar méritos em uma educação em que ele não investe. O único apoio estadual nas unidades de ensino é o pagamento dos bombeiros militares que atuam nas instituições. Todo o restante é responsabilidade da prefeitura”. (Dr. Julinho, 17 dez. 2024)

Em números exatos, o Brasil possui 96 escolas/colégios efetivamente militares: 71 estaduais, vinculados às polícias e corpos de bombeiros militares, e 25 federais, vinculados às três forças armadas. Essas escolas de educação básica são administradas pelas secretarias de segurança pública dos estados e pelo Ministério da Defesa, e não pelas secretarias de educação ou pelo MEC. Operam, inclusive, dentro de sistemas de ensino de natureza militar criados por leis específicas.

A não ser por um ou outro repasse pontual, essas escolas não são financiadas com recursos da educação, chegando a funcionar como verdadeiras escolas privadas, com cobrança regular de mensalidades e taxas de uniforme e material didático, processos seletivos de ingresso e reserva da maior parte de suas vagas para dependentes de militares.

Há variações. Algumas escolas militares são gratuitas, outras disponibilizam mais vagas para filhos de civis; umas selecionam por sorteios, outras por provas; algumas tem mais de cinquenta anos, outras foram criadas a partir da conversão de escolas regulares e da doação de prédios por secretarias estaduais de educação. Seja como for, elas são autorizadas por lei e sua existência e funcionamento não estão sendo questionados no debate público ou na justiça.

Em paralelo a esse universo diminuto de escolas verdadeiramente militares – e, no limite, privadas –, há um conjunto 344% maior de estabelecimentos públicos de ensino que também adotam o nome de escola ou colégio “militar”, mas que são, do ponto de vista administrativo-financeiro, quase idênticos às escolas denominadas “cívico-militares” que ocupam o centro da controvérsia jurídica e social no país.

Essas escolas fake-militares totalizam 330 unidades, sendo 201 estaduais e 129 municipais. Representam 20,6% das 1.601 escolas públicas militarizadas no Brasil e, além do nome, imitam os colégios militares na estrutura e hierarquia de quartel, na cobrança de taxas de manutenção e fardamento, nos processos seletivos e nas reservas de vagas para filhos de militares.

A diferença essencial é que essas escolas integram formalmente os sistemas de ensino estaduais e municipais; sendo, portanto, financiadas com verbas da educação. Todavia, são administradas apenas parcialmente pelas secretarias de educação, que pagam todas as contas das escolas fake-militares, mas perdem parte crucial do poder decisório em suas próprias redes de ensino.

Os termos de cooperação vigentes entre corporações militares e secretarias de educação Brasil afora para a implantação dessas escolas compreendem exigências como: concentração de matrículas em etapas/ciclos específicos da educação básica, fechamento de classes noturnas e da Educação de Jovens e Adultos, reforma completa e climatização de prédios escolares, corpo docente com dedicação exclusiva e, em alguns casos, até o fornecimento de viaturas. Isso vale tanto para as escolas “militares” quanto para aquelas que adotam nomes mais honestos, como “cívico-militar” ou “militarizada”.

Às secretarias de educação cabe assegurar que tudo esteja a contento da autoridade fardada, sob o risco de esta denunciar o descumprimento dos acordos e abandonar as escolas; inclusive com estardalhaço em redes sociais para fomentar a antipatia popular contra secretários, prefeitos e governadores. Em nossas pesquisas, documentamos dezenas de casos assim.

Nas “parcerias” com estados e municípios, as corporações militares entram com a vontade de mandar: estabelecem nas escolas a rotina, a ética e a estética do quartel, aplicam lições de civismo, ameaçam crianças e adolescentes com castigos físicos e impõem seus padrões de “normalidade”. No entanto, como explica o Dr. Julinho, não compram nem um comprimidinho para dor de cabeça. Na verdade, toda a dor de cabeça fica com as secretarias de educação, para as quais, além da responsabilidade de financiar, também sobra a de lidar com as consequências mais perversas da substituição de educadores profissionais por militares, notadamente os incontáveis casos de violência, assédio e abuso de autoridade registrados diuturnamente nas escolas militarizadas.

Não é à toa que a quantidade de escolas efetivamente militares é tão menor que a de escolas militarizadas, sejam elas cívico-militares, fake-militares ou coisa que o valha. Os orçamentos das corporações militares não permitem o luxo de sustentar redes escolares com a escala das redes de ensino regulares; tendo em vista, sobretudo, o tamanho das folhas de pagamento da educação, que são ainda maiores que as da segurança.

Para se ter uma ideia, o Exército Brasileiro, que comanda a maioria das escolas militares na esfera federal, possui apenas dezoito estabelecimentos de educação básica, incluindo os catorze colégios do Sistema de Ensino do Exército (Lei n. 9.786/1999). No âmbito estadual, as maiores redes militares são as das polícias de Paraná (7 escolas), Santa Catarina (7), Rio Grande do Sul (8) e Minas Gerais (30). Essas redes enxutas contrastam com as dos colégios fake-militares em estados como Rondônia (15 escolas), Mato Grosso (30), Goiás (83) e Maranhão (136).

Como aponta a Nota Técnica que acompanhou o lançamento da base de dados “Escolas de educação básica militarizadas e militares no Brasil”, coordenada por mim, o número de escolas militarizadas não é um indicador adequado para avaliar o grau de ocupação militar de uma rede de ensino. Dessa forma, comparar a relevância das escolas militares e fake-militares nas redes de ensino requer que estimemos os pesos das matrículas nesses dois tipos de escolas em relação ao total de matrículas públicas disponíveis.

É assim que descobrimos que, enquanto os trinta Colégios Militares Tiradentes da Polícia Militar de Minas Gerais (escolas militares de verdade) respondem por apenas 1,1% e 1,2% do total de matrículas públicas respectivamente disponíveis para os Anos Finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio em Minas Gerais, os quinze Colégios Tiradentes da Polícia Militar de Rondônia (escolas fake-militares custeadas com recursos da educação estadual) abocanham 8,5% e 6,0% das matrículas da rede rondoniense para as mesmas etapas. Logo, em termos relativos, as escolas fake-militares têm peso bem maior nas matrículas públicas do que as efetivamente militares.

Na média global, as matrículas nas 96 escolas militares estaduais e federais do país representam no máximo 0,4% da matrícula total para os Anos Finais e 0,5% para o Ensino Médio nos dezessete estados em que estão localizadas. Nessa categoria, o caso extremo é o do Distrito Federal, onde três colégios militares estaduais (duas unidades do Colégio Militar Dom Pedro II do Corpo de Bombeiros e uma do Colégio Militar Tiradentes da Polícia Militar) e o federal Colégio Militar de Brasília aglutinam 2,4% e 3,7% das matrículas públicas respectivamente disponíveis para os Anos Finais e o Ensino Médio.

Por sua vez, as escolas fake-militares estaduais presentes em dez unidades da federação comprometem, em valores médios, 3,7% e 4,6% das matrículas públicas dos Anos Finais e do Ensino Médio nesses estados. Goiás, pioneiro na militarização massiva de escolas estaduais, é o que possui o maior número de escolas fake-militares em uma única rede (83), que comprometem 12,7% e 16,9% das matrículas públicas disponíveis no estado para os Anos Finais do Ensino Fundamental e o Ensino Médio.

A despeito dos números aparentemente mais modestos, as escolas “militares” de Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Tocantins ainda dividem espaço nas redes desses estados com escolas cívico-militares igualmente financiadas com verbas da educação. Para além da fiscalização disciplinar cotidiana e da pantomima patriótica encenada em pátios e corredores – tarefas desempenhadas por monitores (ou instrutores, ou tutores) militares –, dois terços das escolas militarizadas no Brasil possuem militares atuando em cargos de gestão. Isso reduz ainda mais as diferenças entre as escolas cívico-militares e as falsamente militares, já que muitas das primeiras também se esforçam para copiar a forma organizacional dos quartéis.

Impacto das escolas militares e fake-militares nas matrículas públicas disponíveis em alguns estados e municípios (percentual da matrícula pública total*). Para cada categoria de escola, a tabela exibe as médias e alguns exemplos

Os críticos costumam associar a militarização de escolas a um certo apetite dos militares por um complemento de renda subvencionado pela educação pública. A popular boquinha, que beneficia tanto militares aposentados quanto da ativa nas mais de 1.600 escolas públicas militarizadas pelo país.

Uma visita ao Siope, o Sistema de Informações sobre Orçamentos Públicos em Educação, permite identificar a presença de militares remunerados com a fração de 70% dos recursos do Fundeb, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, reservada para o pagamento de profissionais da educação. Militares que, nas folhas de pagamento de pelo menos duas centenas de municípios, aparecem identificados tanto como profissionais da gestão escolar quanto do magistério, em contratos temporários ou cargos comissionados. Há militares, inclusive da ativa, remunerados por mais de um município.

Ocorre que, nas escolas fake-militares, essa boquinha ultrapassa o pagamento aos militares e estende-se aos seus dependentes, que podem ter vagas reservadas e acesso preferencial a escolas diferenciadas em redes públicas de ensino frequentemente precárias. Com isso queremos dizer que a ocupação militar das redes públicas tem um inegável caráter de privatização. Em troca da dádiva de implantar uma pedagogia da violência contra crianças e adolescentes, os militares recebem tanto ou mais que os profissionais da educação e ainda exigem do Estado uma escola com infraestrutura melhorada e professores com dedicação exclusiva para seus próprios filhos.

O caso mais patológico de privatização de escolas públicas via militarização é o do Maranhão, com duas “redes” escolares – Colégio Militar Tiradentes (PM) e Colégio Militar 2 de Julho (Bombeiros) – que cresceram quase exponencialmente na última década. Embora os processos de militarização escolar tenham se iniciado no estado em 2006, sua expansão começou no segundo mandato de Flávio Dino e aprofundou-se de forma assustadora no governo de seu vice e sucessor no cargo, Carlos Brandão (MDB).

Das 137 escolas hoje militarizadas pela Polícia Militar e pelo Corpo de Bombeiros Militar do Maranhão, apenas 11 são estaduais. Todas as outras são escolas municipais que, a exemplo da de São José de Ribamar, migraram para um regime de gestão “compartilhada” entre as secretarias municipais de educação e uma das duas corporações militares. Gestão em que, como vimos, uma das partes efetivamente comanda as escolas, enquanto a outra paga as contas e resolve as crises.

A militarização de escolas é um dos pilares da agenda municipalista de Carlos Brandão (MDB), que tentou emplacar o sobrinho como governador. Orleans Brandão (MDB), que também era secretário estadual de assuntos municipalistas no governo do tio, foi derrotado por Eduardo Braide (PSD), ex-prefeito de São Luís que não esboçou a ideia de acabar com as escolas fake-militares no estado.

O Maranhão é um estado com quase 100% das matrículas do Ensino Fundamental municipalizadas, de modo que a rede estadual é basicamente responsável pela oferta do Ensino Médio. Isso significa que, enquanto as 11 escolas fake-militares estaduais comprometem 0,8 e 2,2% das matrículas dos Anos Finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio ofertadas no estado, as 126 municipais comprometem 4,5% das matrículas públicas de Anos Iniciais e 17,7% de Anos Finais nos 99 municípios onde estão implantadas. Destes, 42 municípios têm menos de 20 mil habitantes, o que implica um comprometimento elevado das matrículas do Ensino Fundamental pela militarização e a impossibilidade de estudar em uma escola pública que não tenha militares no lugar de educadores.

Nos municípios maranhenses de Milagres do Maranhão (8.818 hab.), São Roberto (4.554 hab.) e Satubinha (8.770 hab.), por exemplo, a quantidade de matrículas militarizadas ultrapassa 50% das matrículas públicas disponíveis para os Anos Finais do Ensino Fundamental. As escolas “militares” de São Roberto e Satubinha foram criadas recentemente, e ainda não há informações disponíveis sobre processos seletivos. Já na de Milagres do Maranhão, os editais de ingresso preveem exames de admissão com reserva de 50% das vagas aos dependentes legais dos servidores militares do estado do Maranhão, funcionários civis da PMMA, professores, funcionários dos colégios militares da PMMA, e também alunos egressos de Colégios Militares Tiradentes de municípios ligados à Diretoria de Ensino Regular da PMMA.

O Colégio Militar Tiradentes X é a única escola na área urbana de Milagres do Maranhão com oferta de Anos Finais, concentrando 52,8% do total de matrículas para o ciclo/etapa disponíveis no município. Segundo os dados do Censo Escolar 2025 do Inep, todas as demais matrículas para alunos entre 11 e 14 anos estão em duas escolas rurais distantes 30km e 50 km da sede do município. Tal como ocorre no resto do país, os indicadores de infraestrutura da escola militarizada de Milagres do Maranhão são melhores que os das demais escolas.

Depois da Bahia, o Maranhão é o estado do país que mais se beneficia das complementações da União ao Fundeb, destinadas tanto a estados que não alcançam o valor anual mínimo por aluno definido nacionalmente (a complementação VAAF) quanto a entes federados com capacidades fiscais limitadas (a complementação VAAT).

Em 2026, só a complementação VAAT colocará R$ 2,7 bilhões adicionais do Fundeb nos municípios maranhenses. É escandaloso que complementações de recursos que teriam a finalidade de equalizar as condições de oferta educativa desses municípios com relação ao restante do país sejam canalizadas para custear escolas “militares” com processos seletivos de ingresso e distribuidoras de privilégios para descendentes de bombeiros e policiais, inclusive em municípios pequenos.

A esta indevida apropriação da escola pública soma-se a alta frequência de cultos evangélicos e “louvores” nas dependências das escolas “militares” geridas por policiais e bombeiros do Maranhão, que também impõem seus valores religiosos privados e violam outro princípio do Estado brasileiro e da educação pública nacional: o da laicidade. Durante a campanha eleitoral de 2026, alguns desses colégios “militares” serviram como pontos de encontro de carreatas e motociatas organizadas por candidatos bolsonaristas nos municípios maranhenses.

Em comparação às escolas fake-militares do Maranhão, os 83 Colégios Estatuais da Polícia Militar de Goiás selecionam os seus estudantes por sorteio e deixaram de reservar vagas para dependentes de militares em 2017, após recomendação do Ministério Público Estadual. Apesar disso, as escolas “militares” goianas têm práticas altamente seletivas e, nelas, os policiais também se apossam de uma gestão pedagógica que deveria ser realizada por educadores profissionais. Segmentação da rede pública de ensino e amplificação de desigualdades escolares financiadas com recursos que deveriam servir para combatê-las.

Batizar escolas públicas financiadas com recursos carimbados da educação como “Militares” ou “da Polícia Militar” é uma estratégia para livrá-las do escrutínio público. Afinal, elas seriam militares, amparadas por lei; e não cívico-militares, abusivas e potencialmente inconstitucionais. Essa confusão tem servido inclusive como disfarce para o avanço das escolas cívico-militares.

Recentemente, o governador-tampão de Minas Gerais e candidato ao governo Mateus Simões (PSD) tentou levar adiante a bravata de seu antecessor, o presidenciável Romeu Zema (Novo), e anunciou a intenção de criar setecentas escolas cívico-militares no estado. Diante da impossibilidade de cumprir a promessa faraônica num estado altamente endividado e com instâncias de controle vigilantes, resolveu propor a conversão de trinta escolas estaduais em Colégios Tiradentes da Polícia Militar. A diferença desses potenciais novos colégios “militares”, notada inclusive por membros da PM mineira, é que apenas 50% das vagas seriam destinadas a dependentes de militares, contra os quase 100% das vagas reservadas nas trinta unidades efetivamente militares atuais.

O movimento esboçado por Simões não é inédito, e já foi realizado, como mostrou a pesquisa de Eduardo Junio Ferreira Santos, no estado da Bahia, cujo Colégio da Polícia Militar (CPM) – inicialmente militar – viabilizou a sua expansão no estado através de uma parceria com a Secretaria da Educação do Estado da Bahia, que converteu o CPM de escola militar em fake-militar. Depois, sob o nome-fantasia “Modelo CPM”, ampliou-se para mais de uma centena de municípios baianos, em acordos de cooperação que obrigam prefeituras paupérrimas a criar cargos comissionados para remunerar policiais. Essas escolas, pelo menos, não se reivindicam militares e aceitam de bom grado a alcunha “cívico-militar”.

A falta de definições mais precisas de escola militar e militarizada alimenta a irresponsabilidade de secretários de educação, prefeitos e governadores que, interessados em auferir dividendos político-eleitorais com a pauta educacional reacionária, entregam escolas públicas a militares e apostam na desinformação sobre o que as escolas militares realmente são, como funcionam e quem paga por elas.

Os críticos da militarização, com muita justiça, denunciam o cabide de emprego que as escolas militarizadas representam no Brasil, drenando os disputados recursos da educação pública para o pagamento de prebendas e sinecuras às castas fardadas. Sem desconsiderar a relevância desse debate, é preciso que as críticas às escolas cívico-militares se estendam àquelas que, fingindo-se de militares, chupinham as verbas da educação com a mesma voracidade e amplificam desigualdades escolares em esquemas de privatização que excluem a maioria e agraciam uns poucos e afortunados filhos de Tiradentes.
Fernando Cássio

O risco extremo da democracia

Para o Brasil, não há cenários fáceis à frente. Se o presidente Lula for eleito, pode enfrentar crises de governabilidade, a menos que tenha a capacidade de formar uma coalizão diante da direita fortalecida no Congresso. Se o eleito for Flávio Bolsonaro, ele terá nas mãos mais instrumentos para realizar o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara e no Senado, o Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump. A ciência política sabe que é no segundo mandato que o projeto autocrata dobra a aposta. Veja-se o caso de Donald Trump. O risco não é de o filho repetir o pai, é de superá-lo.


Só o então PMDB, no começo da redemocratização, teve bancadas maiores do que a que o PL terá na próxima legislatura. Mas o MDB, não tinha candidato competitivo à presidência, e o PL tem Flávio chegando com chances reais de ganhar o pleito no segundo turno. Portanto, será um partido ainda mais forte. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, tinha o projeto de ter apenas uma boa bancada para ficar com a parte maior dos fundos partidário e eleitoral. O ex-presidente Jair Bolsonaro foi eleito por outro partido, o PSL, que usou como carona. Depois é que foi para o PL. O partido nunca teve um projeto ideológico. Preferia ser capaz de se adaptar às circunstâncias.

Se for eleito, Lula enfrentará uma oposição com a força que jamais enfrentou. Uma bancada de 121 deputados e 28 senadores apenas do PL. Para manter a governabilidade e aprovar seus projetos, Lula teria que atrair o centrão e negociar com os parlamentares com os quais seja possível algum diálogo.

A vitória de Lula no segundo turno de 2022 veio com o voto de eleitores progressistas que não se identificavam como petistas, e do movimento de personalidades que fizeram parte dos governos do PSDB, que o consideraram a barreira contra o risco de golpe. Tanto havia perigo de um ataque às instituições, que houve o atentado em 8 de janeiro. Esse grupo depois foi desprezado. O presidente não fez movimentos ao centro. E parte dos eleitores que se identificam com esse grupo pode ter simplesmente deixado de votar. Esse é o cálculo que alguns especialistas fazem para explicar o fato de Lula ter tido três milhões de votos a menos em 2026 do que em 2022.

Lula terá que fazer um caminho muito longo para ser reeleito em 25 de outubro, dado que chegou em segundo lugar, dois pontos percentuais atrás de Flávio Bolsonaro. Terá que recuperar os votos perdidos, terá que convencer uma parte do eleitorado que optou pelos outros candidatos, e trazer de volta às urnas quem simplesmente se absteve por falta de interesse em qualquer um dos postulantes. Como ele fará isso não está claro. Ontem, em entrevista ao Estúdio i de Andréia Sadi, o presidente do PT, Edinho Silva, admitiu a ausência de material de campanha no primeiro turno e disse que será resolvido. Mas não explicitou nenhum outro movimento de mudança na campanha. Ele disse que faltou o confronto entre os candidatos no primeiro turno, que desta vez Flávio Bolsonaro não poderá fugir disso, e anunciou a ida de Lula aos debates.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, entrevistado no mesmo programa, afirmou que o ex-presidente Jair Bolsonaro vai participar ativamente do mandato de Flávio Bolsonaro. Falou que o senador “aprendeu” com o pai e seguirá as mesmas diretrizes sobre como montar equipe e de que maneira governar. Em outras palavras, um governo de Flávio seria exercido por Jair, que sempre mostrou mão de ferro para comandar o clã. Mesmo preso, foi de Jair Bolsonaro a escolha de Flávio Bolsonaro para disputar a presidência. O perigo extremo e concreto da eleição do candidato do PL é nova tentativa de golpe de Estado. Flávio segue as mesmas ideias do pai e já disse que é preciso que haja uma intervenção nas instituições.

Lula precisa mudar radicalmente a campanha para ter alguma chance de vitória. Desde a redemocratização, nenhum candidato que ficou em segundo lugar na disputa para a presidência ganhou a eleição. Caso eleito, Lula terá uma outra batalha para montar a coalizão. Flávio Bolsonaro, se eleito, terá provavelmente o seu chefe de campanha, Rogério Marinho, na presidência do Senado e uma tropa de choque para realizar o projeto antidemocrático da extrema direita.

A restauração da dinastia

Caso as urnas confirmem a vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais, no dia 25, teremos por aqui uma espécie de versão tropical da restauração de uma dinastia. O que coroaria com ares franceses o retorno da família ao poder.

Em 1792, a Revolução Francesa derrubou o rei Luís XVI, executado no ano seguinte. Era um momento de combate aos privilégios da velha aristocracia, que deslizou para o terror e depois para a Primeira República Francesa.

Em 1804 foi a vez de Napoleão Bonaparte instituir o primeiro império do país. Mas esse império não durou muito. Dez anos e muitas guerras depois chega a vez da Restauração, e Luís XVIII se torna o rei da França.


A família Bourbon retomava o controle do país. Não foi exatamente como antes, pois o novo rei foi forçado pelo Congresso a adotar uma Constituição. Mas a família permaneceu no poder até a Revolução de 1830.

Por aqui, como sabemos, não há monarquia. Mas o sobrenome Bolsonaro pode vir a designar uma espécie de dinastia republicana. Tanto que já há planos para além do mandato de quatro anos que Flávio ainda nem conquistou.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, já se entusiasmou com a ideia de fazer de Jair Bolsonaro o sucessor do filho Flávio, nas eleições de 2030.

“O Jair Bolsonaro pode ser um forte candidato daqui a quatro anos”, apostou Costa Neto, um dia depois do primeiro turno das eleições. “O povo vai querer Jair Bolsonaro”.

Daí se pode compreender um pouco a promessa feita por Flávio de não buscar a reeleição em 2030. Podia ser um jeito de atrair a simpatia do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, desde já pré-candidato ao Palácio do Planalto.

Mas não. O senador herdeiro do sobrenome poderia apenas manter por quatro anos o poder em mãos da dinastia, até que seu pai estivesse apto, depois de condenado por tentativa de golpe de Estado, a disputar novamente eleições.

Jair Bolsonaro costumava dizer, no auge de seu poder, que só deixaria o Palácio do Planalto “bem lá na frente”. Ou seja, mirava na primeira reeleição e talvez em uma segunda, que poderia se tornar viável por uma emenda à Constituição.

Não foi assim que funcionou. O patriarca da dinastia perdeu as eleições, ainda como presidente, para Luiz Inácio Lula da Silva, que já havia sido inquilino do Palácio da Alvorada por oito anos.

Jair não gostou do resultado, tramou um golpe e acabou na cadeia. De onde Flávio pretende tirá-lo no primeiro dia de seu possível mandato como presidente. Uma vez livre, leve e solto, Jair estaria pronto para compor a equipe do filho, já em preparativos para a sucessão em família em 2030.

O tsunami de votos em candidatos ultraconservadores no último domingo foi amplamente interpretado como esmagadora vitória da extrema direita. E foi. Mas pode também ter representado o primeiro passo para a Restauração Bolsonaro.

Em tese, a não ser pela idade ou por motivos de saúde, o ex-presidente poderia disputar eleições em 2030 e, se vitorioso, em 2034. A não ser que representantes de uma nova geração da extrema direita reivindiquem prioridade na definição de candidaturas.

O maior exemplo pode ser o próprio Tarcísio de Freitas, que teria dificuldades em apoiar daqui a quatro anos uma nova candidatura do capitão – quando ele mesmo estará concluindo o segundo mandato como governador de São Paulo.

Até lá, senadores e deputados eleitos na onda da restauração poderão dar início ao trabalho de moldar o país, mais uma vez, ao estilo Bolsonaro de ser.

Podem estar com os dias contados programas de inclusão social, defesa do meio ambiente e estímulo à cultura. E talvez voltem à moda as motociatas ao estilo de Mussolini e as declarações a aliados no cercadinho do Alvorada.

Mais longo período democrático em risco: 'Ensaio sobre a Cegueira' e as rãs

É assustadora a cegueira voluntária que toma conta de setores majoritários da imprensa nestas eleições. Caíram sem bússola do trem da história. Não se trata de uma fatalidade ou de uma peste inexplicável. Precisamos de um novo “Ensaio sobre a Cegueira”, à moda de José Saramago, para entender essa forma iluminada de ofuscamento da razão. O óbvio perde seus contornos nesse “mar de leite” — uma brancura luminosa e total que absorve as cores e as formas, tornando-as invisíveis por excesso de luz.

Para quem leu a obra, a memória é imediata: a primeira vítima do mal, paralisada no trânsito, é auxiliada por um desconhecido que se oferece para dirigir e lhe rouba o veículo. Hoje, os nossos valentes parecem dispostos a entregar, de bom grado, as chaves da República a um ladrão de instituições, enquanto juram, convictos, que tudo está sob controle.


Nesse contexto, parece contraproducente o presidente Lula apresentar um rol de conquistas sociais, lembrar a redução da miséria, o desemprego em nível recorde, a renda em patamar inédito ou enumerar os avanços econômicos da gestão. Se eu desse conselhos, diria: “Esqueça, presidente! O caminho pode ser outro”. O que disse mesmo a Mulher do Médico no livro de Saramago? “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, cegos que veem, cegos que, vendo, não veem”.

A questão está em como traduzir — nem que seja para instruir a resistência — que a fratura iminente no país é a do modelo de garantias instituído pela Constituição de 1988. Será que o Brasil, como escreveu Millôr, tem apenas “um enorme passado pela frente”?

Como deixar claro o que realmente está em jogo? Não se trata de uma escolha corriqueira entre dois programas de governo. A extrema direita, ora sob a liderança de Flávio Bolsonaro, ameaça pulverizar os fundamentos do pacto civilizatório que garantiu o maior período de estabilidade democrática da nossa história, enquanto amplos setores do jornalismo se negam a enxergar a ameaça institucional que se avizinha. A crer nesses de que falo, o Brasil tem apenas dois problemas: a dívida pública e a “crise no Supremo” — como se a vulneração dos marcos institucionais fosse uma resposta adequada a ambos. Isso é de uma irresponsabilidade assombrosa.

O que as urnas vão decidir não é como a economia será tocada nos próximos quatro anos, mas qual marco institucional continuará de pé. Ou o Brasil protege a sua experiência democrática mais longeva — a Constituição completou 38 anos nesta segunda —, com todos os seus defeitos, ou capitula diante de um delírio trumpista que busca destruí-la. É esse risco que tem de ganhar uma tradução compreensível para a maioria.

Infelizmente, esses setores de que falo vivem uma regressão golpista. A extrema direita já os havia capturado no terreno da economia, com a promessa de um ajuste draconiano — e nem eu acredito que ela o aplique se vencer. Faltava a capitulação no terreno da política. O Caso Master operou, então, esse alinhamento, de sorte que a cobertura da eleição foi inteiramente substituída por uma campanha de degola de ministros do Supremo, com a Corte rebaixada à condição de mero abrigo de “inimigos da pátria”.

Os comentaristas mais desastrados tiveram a audácia de associar decisões absolutamente legais, tomadas por magistrados, às articulações golpistas de Jair Bolsonaro. A agenda reacionária na economia vem sempre recoberta por um verniz moralizante, de modo que interesses privados ganhem o vulto de um interesse público genuíno. A síntese derrisória dessa patuscada é que os cegados por tanta luz pretendem dar as chaves do carro a Flávio — justamente o político que mais recebeu recursos do Master para supostamente financiar o tal filme.

O Brasil, como se nota, não ficou livre da onda reacionária que varreu as democracias mundo afora ao sabor dos algoritmos. Imaginar que o ódio ao Supremo explica, por exemplo, o resultado da eleição no Rio de Janeiro requer muito exercício de criatividade. Fico aqui a cogitar: “Flávio Bolsonaro, livre-nos desse STF contaminado pelo Master…” Deveria haver um limite para o ridículo.

A verdade é que esses setores da imprensa aos quais me refiro vivem verdadeiros frêmitos gozosos com a possibilidade de impeachment de ministros do STF. E emprestam a seu fetiche punitivista a grandiloquência de um arroubo patriótico.

A pauta jurídica do país foi, por exemplo, sequestrada por André Mendonça, que passou a ser saudado pelos barulhentos como um misto da deusa Têmis com o Rei Salomão. Pois é… E se o sábio bíblico mandou cortar a criancinha ao meio não por estratégia, mas para tentar ser sagaz? A piada, infelizmente, não é deste escriba, mas de Joseph Heller no impagável livro “God Knows”. Pois bem: a nossa versão de Salomão de toga parece operar sob essa mesma astúcia duvidosa, aplaudida de pé por quem prefere o arbítrio ao rito. E, vejam vocês!, tem como parceiro Nunes Marques, que pretende devolver Bolsonaro às ruas logo depois do segundo turno. Até agora, a dupla não ganhou nenhum editorial.

Quando as instituições começam a ser corroídas por dentro sob o aplauso de quem deveria pregar a contenção, convém consultar quem entendeu a anatomia do desastre antes de todo mundo. Em “Origens do Totalitarismo” no Capítulo 11, intitulado “O Movimento Totalitário”, Hannah Arendt desmascara o mecanismo que hoje vemos operando nas redes, nos palanques da extrema direita e nessas áreas da imprensa. Escreve:

“A propaganda totalitária prospera nesse escapismo da realidade para a ficção, do visível para o invisível (…). O que as massas recusam a reconhecer é o elemento de acaso que permeia a realidade; elas são predispostas a aceitar todas as ideologias porque estas explicam os fatos como meros exemplos de leis estabelecidas, e eliminam as coincidências inventando uma onipotência que tudo governa.”

Para os que acharam Arendt algo incompreensível, que tal a fábula das rãs que queriam um rei? Elas viviam livres e saltitantes, mas, entediadas, pediram a Zeus que lhes mandasse um soberano para pôr ordem na casa. Ele jogou um pedaço de madeira, o que as assustou. Depois de algum tempo, perceberam que o objeto era inofensivo e, digamos assim, democrático demais. Queriam ordem e passaram a importunar o deus: “Cadê nosso rei?” Ele se aborreceu e mandou uma cegonha, que começou a devorá-las uma a uma sob o novo regime. As que sobreviveram começaram a reclamar, e o deus deu de ombros. Se não se contentaram com o líder pacífico, que aguentassem as consequências da sua escolha.

É assombroso. As regras do jogo democrático começam a ser vistas, inclusive por quem deveria guardá-las, como meros estorvos. Os paralelos históricos gritam: a erosão da República de Weimar, na Alemanha dos anos 1930, e o sufocamento institucional recente na Hungria de Viktor Orbán. Nem uma coisa nem outra começaram com tanques nas ruas, mas com a captura do Legislativo e a subsequente asfixia do Judiciário por vias pretensamente legais. É o veneno autocrático bebido em doses homeopáticas. Como as rãs de Esopo, há quem esteja coaxando freneticamente em favor da própria destruição.

O perigo ganha contornos assustadores. Com o Congresso, especialmente o Senado, capturado pela extrema direita, há o risco efetivo de quebra do equilíbrio entre os Poderes.

Essa nova configuração não almeja o debate republicano; antecipa uma faca no pescoço do STF, empunhando a ameaça constante de destituição de ministros e o consequente aparelhamento da Corte. No exercício propriamente legislativo, o que se antevê é uma usina de emendas constitucionais destinada a diluir, fragmentar e, por fim, destruir o arcabouço de direitos garantidos em 1988.

O presidente Lula já falou sobre economia o suficiente, penso eu. Para ganhar ou para perder, é preciso traduzir aos eleitores o que está em jogo.

Quanto aos tais setores da imprensa, fazer o quê? Volto a Saramago. Em “Ensaio sobre a Cegueira”, escreve:

“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros. São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos.” 

 Se aqueles de quem falo continuarem nesse transe, brincando de rigor fiscal e moralização do Supremo para, de fato, abraçar a agenda reacionária de notórios golpistas, ou serão devorados ou serão cúmplices.

Reinaldo Azevedo

‘Há duas questões centrais em jogo: em primeiro lugar, a democracia’

Há, para mim, duas questões centrais em jogo. Em primeiro lugar, a democracia. O ponto, digamos, mais profundo de risco à democracia é a negação da tentativa de golpe de 2022 por Flávio Bolsonaro.

A crise no STF completou o processo de esgarçamento institucional. O presidencialismo de coalizão está paralisado com o desequilíbrio nas relações Executivo/Legislativo. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. E a crise no STF atinge a capacidade de mediação e resolução de conflitos entre os dois Poderes.

O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita.

O segundo tema crucial é a preparação do país para a travessia na longa transição estrutural global iniciada pela revolução digital. Trata-se de uma metamorfose global que mudará significativamente a política e a economia na construção da sociedade digital. Cada país terá que encontrar o seu caminho, enfrentando as dificuldades da transição e se aproveitando das oportunidades de mudança nos padrões de produção, consumo, trabalho, educação e representação política. A começar por saber usar e controlar a IA, nosso desafio imediato.

O Brasil enfrenta o risco de Bolsonaro

A onda ultraconservadora que varre a América Latina obteve uma vitória retumbante no Brasil neste domingo, um triunfo repleto de riscos para o país e para o continente. Apesar da maioria das pesquisas prever uma vitória no primeiro turno para o atual presidente, Luiz Inácio Lula da Silva, o senador Flávio Bolsonaro saiu vitorioso. A margem é estreita, mas coloca o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso, em uma posição forte para o segundo turno das eleições, marcado para 25 de outubro. Além disso, o Partido Liberal do ex-presidente e seus filhos fortaleceu sua presença no Congresso, tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados.


O impacto do resultado vai muito além das fronteiras do país. A vitória de Bolsonaro soma-se aos recentes avanços da extrema-direita na Colômbia e no Peru, e às guinadas conservadoras já observadas em outros países da região — sociedades muito diferentes, com problemas distintos, mas todas marcadas por um sentimento comum de inquietação. A extrema-direita conseguiu transformar esse descontentamento em uma poderosa plataforma eleitoral baseada na ordem, na vingança e na rejeição do legado progressista.

O Brasil agora representa o novo campo de batalha dessa onda reacionária. Diante dos avanços sociais das últimas décadas, uma nova concepção de poder se consolida, uma que promete cortes, mão pesada e vingança, e transforma o adversário em inimigo. Flávio Bolsonaro tentou se distanciar dos excessos retóricos de seu pai, mas não de seu projeto. Ele jamais condenou a tentativa de golpe liderada por Jair Bolsonaro após a derrota nas eleições de 2022. E prometeu indultá-lo caso se torne presidente, além de apagar as consequências legais de um dos episódios mais graves sofridos pela democracia brasileira desde o fim da ditadura. Tudo isso constitui uma estreia desastrosa e um presságio desanimador para o colosso sul-americano.

Lula, símbolo do progressismo global, entra nesta batalha final desgastado, com o fardo de alguém que governou por 11 anos em diferentes períodos e com uma sociedade profundamente polarizada. Mas ele também representa um período de prosperidade, redução da pobreza, ampliação de direitos e fortalecimento de políticas públicas que transformaram a vida de milhões de brasileiros. Em seu terceiro mandato, ele também restaurou a projeção internacional do Brasil e reconstruiu parte do Estado de bem-estar social desmantelado durante os anos de Jair Bolsonaro.

Os brasileiros precisam saber não apenas o que o próximo presidente fará, mas também quais limites ele respeitará no poder. No dia 25 de outubro, escolherão entre dois projetos radicalmente diferentes. O vencedor terá que assumir a responsabilidade de governar para todos os brasileiros e respeitar as instituições, os direitos das minorias e as regras que tornaram possível sua própria vitória. No entanto, o favorito no segundo turno e sua família sempre se opuseram diametralmente a esse compromisso. Em um continente onde a tentação do autoritarismo ganha terreno novamente, o Brasil tem a responsabilidade de demonstrar que as urnas servem para mudar ou confirmar governos, mas nunca para enfraquecer a democracia.

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Pensamento do Dia

 



Ventos de direita anunciam crise

Aconteceu. Independentemente do resultado do segundo turno, o grande fato político é a vitória da direita no Senado, que, desde já, anuncia um ano de crises institucionais com o STF.

Aconteceu, e não creio que se possam culpar apenas os erros de campanha. A performance do governo teve peso. A frente que venceu em 2022 não foi capaz de crescer após as eleições, não soube se expandir para setores ainda não conquistados.


Escrevi alguns artigos mencionando minhas dúvidas aqui e ali. Mas às vezes as críticas são muito mal recebidas, e o velho argumento de que criticar é favorecer o adversário continua sendo dominante.

Para começar, acho que o tratamento judicial dado aos presos do 8 de Janeiro foi rigoroso demais. As sentenças foram muito longas, não houve avaliação individual de culpa.

O bolsonarismo se valeu da ideia de perseguição política e cresceu na condição de vítima. Creio que, em Santa Catarina, num desses discursos de campanha, Lula afirmou ser candidato para manter Bolsonaro na cadeia.

Esses discursos inflamados animam a militância, mas não trazem crescimento na sociedade. Identificar-se tão completamente com as decisões do Supremo não era um bom caminho, mesmo porque, adiante, o STF cairia em desgraça com o caso Master e se transformaria em vilão nacional.

Não pretendo me fixar nesse ponto, mas política de frente é algo distinto do que foi desenvolvido no Brasil. Frente significa trabalho comum e formulação comum. O PT tem uma indiscutível propensão hegemônica. Agrega, distribui cargos, mas quer o monopólio nas questões essenciais, como política externa.

Houve erros de interpretação dos ventos de direita que sopram no mundo. É difícil entendê-los, porque em cada país sopram de um jeito especial. No meu entender, a corrupção tem papel no Brasil. Mas é desconcertante para essa interpretação ver a vitória parcial de Flávio Bolsonaro. Ele tem os mesmos problemas de um político convencional, enriquecendo silenciosamente ao longo de seus mandatos.

O vento que soprou no Senado, de certa forma, atinge a Câmara. No caso específico do Rio de Janeiro, houve muitas baixas entre deputados de esquerda, uma estranha lista dos mais votados e a derrota parcial de quem parecia favorito, Eduardo Paes.

É difícil interpretar esse tsunami depois de um longo fim de semana de trabalho. Precisaremos de mais tempo, flexibilidade e abertura para entender melhor o que se passa no Brasil. Precisamos também de mais tolerância no debate. Não dá para avançar quando se pune o exercício do pensamento com agressões morais.

Detesto enfoques do tipo “bem que avisei”. No meu caso, avisei muito timidamente. Poderia ter feito mais, porque minha vida também estava em jogo. Dediquei anos à legislação ambiental, e ela será a primeira vítima.

Diziam no passado que a esquerda só se une na prisão. Ela tem uma excelente oportunidade de se unir nessa derrota parcial. Os anos que virão, com um Congresso dominado, serão difíceis. Deveríamos superar a arrogância, a lacração e nos tratarmos com a fraternidade dos outros tempos. Sabemos menos que pensamos, podemos menos que imaginamos, não sei mais o que falta para nos aplicarmos uma boa dose de humildade.

A volta a um passado que nunca existiu

Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, "sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado". E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.


Um passado não só fictício como perigoso, porque transforma em supostas glórias os crimes que se cometeram para garanti-las e faz com que eles, os crimes, sejam vistos com naturalidade e anseio. Na Europa, isso se manifesta no atual controle pela extrema direita de países como Itália, Suécia, Hungria e Polônia e no crescimento dela na França, Espanha, Áustria e, inacreditavelmente, Alemanha. Que tais países estejam à beira de uma nova onda nazifascista já é suficientemente incompreensível – para que lutaram os avós desse pessoal entre 1932 e 1945? Mas, na Alemanha, é chocante – nenhum outro foi mais algoz e vítima de si mesmo.

Os argumentos dos extremistas europeus são os mesmos que Mussolini e Hitler usaram para se impor: crise econômica, nacionalismo, antiglobalização, xenofobia, pureza racial (luta contra a imigração) e a "volta à verdadeira essência da nação" —como se uma suposta essência fosse possível de determinar.

No Brasil, a receita bolsonarista adota a maioria desses ingredientes, enfatizando o papel da religião, com Jesus Cristo, como diz Almino, "rebaixado a cabo eleitoral". Há também uma nostalgia da ditadura civil-militar – nostalgia que, para existir, precisa negar o que a sustentou por 21 anos: proibição de eleições, empobrecimento político de duas gerações, censura, prisões, tortura, exílio de seus melhores cérebros (de imediato acolhidos pelos EUA e pela Europa) e um falso "milagre econômico".

Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá.

Teje preso!


O país do futuro ficou preso no passado

Miguel Baumgartner

Religião, poder e disputa pelo imaginário nacional

A disputa em torno de símbolos religiosos vai além da fé: em uma sociedade onde religião e vida pública se cruzam, ela também expressa diferentes projetos de nação. Associada à própria identidade brasileira ao longo do século XX, Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular nessa disputa, fazendo com que qualquer controvérsia em torno de sua figura alcance o campo do imaginário nacional.

Esse movimento ocorre em meio à crescente presença de setores evangélicos na política e no debate público. Embora o evangelicalismo seja diverso e a participação religiosa na política não represente, por si só, uma ameaça ao Estado laico, a questão ganha outra dimensão quando determinadas correntes passam a defender a reorganização da sociedade a partir de uma visão religiosa específica. Assim, a controvérsia ultrapassa o campo devocional: o que está em jogo é também a definição simbólica do Brasil, seus valores e os limites da relação entre religião e poder público.

Para compreender esse movimento, é necessário recorrer a um conceito que ganhou espaço no debate sobre a relação contemporânea entre cristianismo e política: a teologia do domínio. Mais do que identificar automaticamente essa corrente com qualquer grupo religioso ou movimento político, interessa compreender suas origens, seus fundamentos e a concepção de sociedade e de poder que ela expressa. É a partir dessa perspectiva que podemos examinar em que medida determinadas ideias sobre a presença do cristianismo na esfera pública ajudam a iluminar as disputas que vêm ocorrendo no Brasil.

Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderíamos misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço (Michele Bolsonaro)

A Teologia do Domínio emergiu nos Estados Unidos na segunda metade do século XX, inicialmente vinculada ao chamado Christian Reconstructionism e, posteriormente, reelaborada por diferentes correntes do evangelicalismo e do movimento carismático. Seu desenvolvimento ocorreu em meio às profundas transformações sociais e culturais que atravessaram a sociedade norte-americana a partir das décadas de 1960 e 1970, incluindo o avanço da secularização (maior separação entre o Estado e as instituições religiosas), a luta pelos direitos civis, a revolução sexual, o feminismo e a transformação do papel da religião na educação e na vida pública. Em oposição à ideia de que a fé cristã deveria permanecer restrita à esfera privada ou eclesial, essa corrente passou a defender que os cristãos teriam um mandato bíblico para ocupar, influenciar e transformar as principais estruturas da sociedade, como governo, educação, mídia, economia e cultura, segundo princípios considerados derivados da Bíblia.

É nesse mesmo período histórico, embora em contexto geográfico e social completamente distinto, que ganha força na América Latina outra importante corrente cristã: a Teologia da Libertação. Enquanto esta se desenvolveu a partir da realidade de pobreza, desigualdade e exclusão social latino-americana, propondo uma leitura da fé orientada pelo compromisso com os pobres e pela transformação das estruturas de injustiça, a Teologia do Domínio partiu de outra premissa: a necessidade de recuperar a influência cristã sobre as estruturas que organizam a sociedade.

São, portanto, duas respostas teológicas distintas às grandes transformações de seu tempo e duas concepções diferentes sobre o lugar do cristianismo na vida social: uma privilegia a transformação da realidade a partir dos grupos socialmente marginalizados; a outra enfatiza a transformação das estruturas de poder a partir da presença cristã em suas instâncias de autoridade.


Essa perspectiva ajuda a compreender uma mudança importante na relação entre religião e política: a política deixa de ser vista apenas como espaço de representação de interesses religiosos e passa a ser concebida como parte de uma missão espiritual de transformação da sociedade. É nesse deslocamento que a ideia de uma “guerra espiritual” pode adquirir dimensão política: adversários deixam de representar apenas projetos diferentes de sociedade e passam, em determinadas narrativas, a ser identificados com forças que ameaçariam uma determinada ordem moral cristã.

No Brasil, essa linguagem encontrou expressão particularmente visível no campo político recente. Em fevereiro de 2024, durante um ato na Avenida Paulista, a então ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro afirmou:

“Por um bom tempo fomos negligentes ao ponto de falarmos que não poderíamos misturar política com religião, e o mal ocupou o espaço. Chegou o momento da libertação. Eu creio em um Deus todo-poderoso capaz de restaurar e curar nossa nação.”

A fala é reveladora porque apresenta a presença religiosa na política não apenas como uma escolha de participação cidadã, mas como resposta a uma suposta ocupação do espaço público pelo “mal”. Pesquisadores e analistas ouvidos à época interpretaram o discurso como expressão de uma concepção de supremacia cristã e de tensão com a laicidade do Estado.

É importante, contudo, não transformar essa relação em uma equivalência automática: nem todo evangélico, nem todo pentecostal e nem todo político que mobiliza referências cristãs adere à Teologia do Domínio. A questão é identificar quando determinadas ideias, como a necessidade de “ocupar” a política, a concepção de uma batalha entre o bem e o mal e a associação entre a restauração nacional e uma determinada ordem cristã, aproximam o discurso político de uma lógica dominionista.

O ponto crítico, portanto, não está na participação dos religiosos na política, que é legítima em uma democracia pluralista, mas na possibilidade de que uma determinada interpretação religiosa passe a reivindicar autoridade para definir a moral pública, a identidade nacional e os próprios limites de atuação do Estado. É nessa fronteira entre fé, poder e projeto de sociedade que a Teologia do Domínio se torna uma chave de leitura para compreender parte das disputas políticas e culturais que vêm ocorrendo no Brasil.

Nossa Senhora Aparecida ocupa um lugar singular na história brasileira porque seu significado ultrapassa as fronteiras da devoção católica. Ao longo do século XX, especialmente a partir de sua proclamação oficial como Padroeira do Brasil em 1930, a imagem foi progressivamente incorporada pelo Estado e pelas narrativas oficiais como um dos pilares da construção simbólica da nacionalidade.

A Padroeira passou a representar não apenas um dogma eclesial, mas uma síntese cultural da própria brasilidade, associada ao acolhimento, à coesão social, ao pertencimento coletivo e à ideia de proteção e unidade nacional.

É justamente por carregar essa dimensão simbólica que as controvérsias em torno de sua figura adquirem densidade política. A rejeição ao culto de santos e ao uso de imagens é uma objeção teológica histórica em determinadas tradições protestantes, fundamentada na interpretação do Segundo Mandamento bíblico sobre a proibição da idolatria. No entanto, quando atravessadas pela lógica da Teologia do Domínio, essas divergências doutrinárias mudam de escala: a “idolatria” deixa de ser apenas uma discordância de fé individual e passa a ser apresentada como um obstáculo espiritual que impediria o pleno alinhamento e a restauração da nação.

A disputa também envolve os sentidos sociais atribuídos à própria imagem de Aparecida. Negra e encontrada quebrada nas águas do Rio Paraíba do Sul por pescadores, sua trajetória foi incorporada à tradição da religiosidade popular brasileira e associada, ao longo do tempo, a experiências de proteção, sofrimento e pertencimento de parcelas amplas da população. A imagem tornou-se, assim, parte de uma memória religiosa que não se limita às instituições eclesiais, mas atravessa diferentes grupos sociais e dimensões da experiência brasileira.

É nesse ponto que a disputa pelo símbolo religioso se aproxima da disputa pelo imaginário nacional. De um lado, está uma tradição que reconhece em Aparecida uma expressão histórica da religiosidade popular e da formação cultural brasileira. De outro, determinadas correntes cristãs podem interpretar essa mesma tradição a partir de categorias como idolatria, batalha espiritual e necessidade de restauração moral. Não se trata, portanto, de uma simples oposição entre católicos e evangélicos, mas de diferentes formas de interpretar a relação entre religião, cultura, identidade e poder.

Por isso, a controvérsia em torno de Nossa Senhora Aparecida não deve ser compreendida como um episódio isolado. Ela expressa uma disputa mais ampla sobre quem possui autoridade para definir os símbolos, os valores e as referências que representam a nação. Se Aparecida foi historicamente incorporada ao imaginário nacional, contestar seu lugar nesse imaginário significa também disputar o próprio significado de Brasil. A questão deixa de ser apenas quem pode venerar uma santa e passa a envolver uma pergunta mais profunda: quem tem o direito de definir o que é o Brasil?

Ao término desta análise, torna-se evidente que as controvérsias contemporâneas em torno de Nossa Senhora Aparecida dizem muito menos sobre a figura da santa ou sobre dogmas marianos do que sobre quem pretende arrogar para si o direito de definir o que é o Brasil. A Padroeira, enquanto patrimônio cívico, histórico e afetivo, torna-se o terreno onde se confrontam duas visões distintas sobre o país: uma assentada na memória plural, na religiosidade popular e na diversidade cultural; outra pautada pela restauração moral, pela lógica da batalha espiritual e pela ocupação institucional do Estado.

A questão fundamental não é saber se o Brasil deve ou não ser uma sociedade religiosa. A presença da religião na vida pública faz parte de sua própria história, e a participação de pessoas e grupos religiosos na política é legítima em uma democracia. Em uma sociedade plural, nenhum grupo religioso precisa abandonar sua fé para participar da vida pública. Mas nenhum grupo pode transformar sua própria interpretação da fé em sinônimo da identidade nacional.

É exatamente nessa fronteira que o debate sobre a Teologia do Domínio se torna decisivo. A questão não é a existência de convicções religiosas nem sua atuação na política, mas o risco de uma interpretação teológica específica querer definir, sozinha, a moral pública, a identidade nacional e os limites da cidadania. Quando isso acontece, a disputa deixa de ser religiosa e passa a atingir a própria natureza do espaço público.

Nesse sentido, a laicidade do Estado não representa uma barreira à religião, mas uma condição para que diferentes crenças, e também a ausência delas, possam participar da vida pública em condições de igualdade. Preservar essa dimensão plural não significa negar a importância histórica e cultural da religiosidade, significa assegurar que no Brasil as diferentes crenças possam coexistir sem que uma visão teológica específica se imponha como valor universal da brasilidade.

Talvez seja justamente por isso que a disputa em torno de Nossa Senhora Aparecida seja tão reveladora. A questão não é apenas quem pode venerar uma santa, mas quem tem o poder de dizer quais símbolos, valores e crenças podem falar em nome do Brasil.
Mauricio Alfredo

Congresso Internacional do Medo


Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade, "Sentimento do Mundo"

A direita e o futuro do Brasil

Lula ladrão foi um apelido que pegou. Flávio miliciano não, e, se pegou, não causou prejuízos. Quase todas as falsas acusações contra a esquerda são levadas a sério, e todas as verdadeiras acusações contra a direita batem e voltam. O resultado do primeiro turno das eleições mostrou bem isso. Quanto mais provas surgiam do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o Banco Master e sua rede de lavagem de dinheiro, fraudes e falcatruas, mais ele subia nas pesquisas. Os vídeos das festinhas, então, se fossem divulgados, iam alimentar o mito do macho alfa e jamais o do defensor de Deus, Pátria e Família desmascarado.


Parece que esses valores, mesmo que discutíveis, deixaram de ter importância. O mito desfavorável que o PT criou para si e as trapalhadas do STF na fiscalização da Constituição para evitar que alguns de seus membros pudessem ser envolvidos na trama do Master acabaram dando a entender, erradamente, que o Supremo trabalha para o governo do PT e que é “tudo ladrão mesmo”.

O que o governo fez, sobretudo neste último governo de Lula, não foi levado em consideração. A queda do desemprego e da inflação, o aumento da qualidade de vida e dos salários, a melhora do atendimento no SUS e o desempenho do ensino público nem foram considerados e, se foram, também não tiveram importância nem marcaram pontos a favor dos candidatos do governo. E olha que muita gente boa deixou de ser eleita, enquanto outros, sem nenhuma relevância, conseguiram.

Há, no mundo inteiro, uma incontestável guinada à direita que assusta a democracia. Aliás, democracia é um sistema que está saindo de moda. Qualquer valor que envolva a coletividade ou que se baseie no pensamento de vários é desconsiderado. O que importa agora é a rede social, a iniciativa individual, o empreendedorismo que vai do vendedor de salgadinho na praia ao banqueiro que lava o dinheiro, que pode também ajudar o empreendedor mais bem relacionado que faça um negócio em que sobre mais para todos, além dos salgadinhos produzidos. É uma teia que ignora o Estado nesse aspecto, despreza os sindicatos e associações e leva em consideração somente a iniciativa privada. Seja você mesmo e somente você para poder ser agraciado por Deus ou pelo seu esforço pessoal, que será reconhecido. Ignorando as dificuldades sociais e estruturais, cobram de você um sucesso quase impossível, mas que, quando acontece, é supervalorizado.

Assim vivemos essas eleições, com um partido chamado de desonesto, que trabalha pela coletividade, de um lado, e, do outro, um grupo político que ignora, despreza a política, que se diz contra o sistema e que pretende usar os elementos decadentes da democracia para se manter no poder e valorizar o indivíduo, e que atrai muita gente, o suficiente para levá-los ao poder.

Flávio ganhou as eleições sem falar de plano de governo. Os empresários da Faria Lima querem que ele apresente uma proposta. Eles são gananciosos, mas querem profissionalismo. Aquele que o candidato Lula fornecia para eles no seu governo, mas valorizando também o ganho coletivo. Eles preferem o lucro sem ter que abrir mão de nada. Aí entram Flávio, Tarcísio e toda a direita.

Vai ser difícil retomar o rumo que o Brasil seguia, valorizando a política, a cultura, a educação e tudo o mais que faz de um país um lugar melhor para se viver. Se Lula não ganhar no segundo turno e usar sua capacidade política para negociar apoios e acordos, será complicado. Vamos reviver momentos de total descrédito no povo brasileiro, esse mesmo que, pela metade, optou por esta situação, e vamos ter que renovar a energia e a capacidade de luta para voltar a ter esperança no Brasil.

Vitória de Lula é a única possibilidade de conter uma avalanche reacionária

Vocês querem um pouco de paz, assim, na chamada coisa pública? Acho que não terão. Se Lula vencer a eleição — e é claro que pode triunfar —, encontrará o Congresso mais adverso de seus quatro mandatos. Se Flávio Bolsonaro se sagrar vitorioso, aí o grande risco está no delírio da vitória. Com um apoio que pode ser esmagador no Senado e com chance de uma maioria contundente na Câmara, pode ser tomado pelo frenesi do poder absoluto — justamente aquele que só encontra seu limite na lei. Mas Flávio já falou — e seu pai, o Jair, também — que o objetivo mesmo é atropelar o STF, além de controlar todas as instâncias do Estado, inclusive as agências reguladoras. Vencendo o candidato do PL, vamos finalmente conhecer as “mudanças” que a extrema direita quer fazer no Brasil e como os pobres vão encontrar a redenção.

“O Último Dia de Pompeia”, de Karl Bryullov (1799-1852)
 sobre a erupção do Vesúvio no ano 79


Vamos a algumas considerações sobre a disputa eleitoral deste domingo e os cenários possíveis. A extrema direita teve, sim, uma vitória acachapante. A coisa muda um pouco de figura se perder a eleição presidencial, o que obviamente é possível, embora Flávio Bolsonaro, do PL, esteja à frente. No primeiro turno, o presidente Lula, do PT, obteve 45,16% dos votos válidos, contra 47,03% do senador do PL. No dia 25 de outubro, ambos disputam o segundo turno. O resultado surpreendeu Lula e o PT, embora pesquisas tenham captado o movimento em favor do voto útil. Em alguns Estados, o desempenho do atual mandatário ficou bem abaixo do esperado. Qualquer que seja o resultado, a chance de uma crise das boas é imensa se faltar juízo. Os mercados estão animadinhos porque maximizam a importância do “equilíbrio das contas” — se vier — e tendem a ignorar o risco de uma confusão dos diabos com o Judiciário.

É evidente que a campanha de Flávio em favor do voto útil funcionou. Todos os demais candidatos da direita tiveram um desempenho abaixo do que indicavam as pesquisas, ainda que dentro da margem de erro: Augusto Cury (Avante), 2,89%; Renan Santos (Missão), 2,24%; Ronaldo Caiado (PSD), 2,18%; e Romeu Zema (Novo), 0,27%. Esses dados, curiosamente, podem ser um alento para o petista, a ver. A pregação em favor do voto útil foi muito forte — já que o mote era “evitar a vitória de Lula”. Em tese, ao menos, estes que resistiram não migram em massa para o candidato do PL. Mas tudo depende da campanha. Vamos ver.

A vitória mais contundente da extrema direita se deu no Senado. O PL elegeu 19 senadores e passará a contar com uma bancada de 28; o PP salta de 3 para 6; o extremista Novo, que hoje não tem parlamentar na Casa, passará a contar com 3; o União Brasil cresce de 2 para 5. Até aqui, estamos falando já de 42 senadores. Com os 6 do Republicanos, chega-se a 48. Juntando-se 2 do Podemos, atinge-se a marca de 50. O MDB passará a ter uma representação de 8, e certamente contam-se bolsonaristas entre eles. É certo que o PL tentará fazer a Presidência da Casa — e, nesse caso, o senador Rogério Marinho (RN) é um candidato, vamos dizer, natural. Ainda que Flávio perca, a agenda de vingança contra o Supremo vira item obrigatório da pauta dos reacionários. Se vão ou não levar a efeito, é o que se vai ver. Nota: o PSD, que tem uma agenda de contenção de extremismos sob a batuta de Gilberto Kassab, é o grande derrotado na Casa: cai dos atuais 14 senadores para 5 — elegeu apenas 2. O PT conseguiu eleger 6 e conserva os mesmos 9 que já tinha. O PSB elegeu 3, mas cai de 7 para 4.

Os progressistas perderam espaço: a Federação PT-PCdoB-PV até subiu de 82 para 88 deputados, mas o PL salto de 98 para 121 . O PSB passou de 17 para 15, e o PDT caiu de 10 para 6. O União Brasil, que até ensaia alguma moderação às vezes, perdeu 6: de 52 para 46; o PP, de 46 para 41, e o Republicanos, de Motta, foi de 42 para 41. O Novo, que estava com 5 deputados e passa a ter 10. É claro que o bolsonarismo tentará ter o comando da Câmara também. Quando menos, num eventual acordo com Hugo Motta, o que hoje parece improvável, tentaria lhe impor uma agenda reacionária.

Depois da divulgação de resultados, Flávio não fez exatamente o discurso dos que esperam muito sangue. Não repetiu, por exemplo, a promessa de que vai subir a rampa em companhia do pai, Jair, que está em prisão domiciliar. Disse que o resultado é o prenúncio do que chamou de “fim da era PT” e fez um resumo bem perturbado sobre o que é o governo Lula. O Supremo não ficou de fora, mas se limitou a falar sobre as quatro indicações que há por fazer no próximo mandato. Na campanha, manifestou a intenção de se livrar de todos os magistrados indicados pelo PT — além, claro, de alvejar Alexandre de Moraes. Certamente espera deixar isso com o Senado. Reafirmou seu compromisso de encaminhar o fim da reeleição para presidente.

Lula também discursou ontem. Admitiu que o desempenho ficou aquém de suas expectativas e brincou que o povo gosta que ele dispute o segundo turno. Criticou o que chamou de “biografia tenebrosa” do adversário, acusando ligação com as milícias e com o crime organizado. Pregou equilíbrio fiscal, mas disse que o ajuste não será feito para “prejudicar as pessoas mais pobres do país”. Dadas as mais de 33 milhões de abstenções, o presidente fez uma convocação para que as pessoas compareçam às urnas. E disse que “o jogo vai começar de verdade”.

Já assistimos a muitas viradas eleitorais em Estados e cidades em que há segundo turno — isto é, quem larga atrás acaba vencendo —, mas isso nunca aconteceu numa disputa presidencial. Lula, de todo modo, é o homem dos ineditismos — ninguém antes se elegeu três vezes presidente da República. Se conseguir o quarto mandato, marcará dois ineditismos: além de chefiar o Executivo pela quarta vez, ultrapassar quem larga na frente. As pesquisas não tardarão. No sábado, quatro institutos divulgaram números de uma simulação da etapa final. Todas apontam empate técnico, e três delas com o petista numericamente à frente: Atlas/Bloomberg: 50,1% a 49,9%, com margem de erro de um ponto; CNT/MDA: 47,3% a 43,1%, com margem de 2,2 pontos; Datafolha: 47% a 46%, com dois de oscilação possível. A Quaest apontou Flávio com 44% e Lula com 42%, também com dois pontos a mais ou a menos.

A direita também ganhou de lavada nos governos dos Estados. Vinte deles elegeram ou reelegeram em primeiro turno o chefe dos Executivos estaduais. O PL, que tem apenas um mandatário hoje, já elegeu cinco: Sergio Moro (PR); Luciano Zucco (RS); Marcos Rogério (RO); Arthur Henrique (RR) e Jorginho Mello (SC). Entre os outros 15, há pelo menos outros cinco bolsonaristas, a começar por Tarcísio de Freitas (Republicanos), que teve uma vitória maiúscula em São Paulo. O PL ainda disputa o governo do Rio: Douglas Ruas (49,27%) enfrenta Eduardo Paes, do PSD, que ficou com 42,76%. No DF, Celina Leão, do PP (49,93%), entra como franca favorita contra Leandro Grass, do PT (34,47%). O PT é competitivo no Rio Grande do Norte com Carlos Eduardo Xavier (35,16%), que enfrenta Allyson Bezerra, do União (36,94%). Há apenas três governadores progressistas efetivamente eleitos: CE, PI e BA. Pode haver um quarto no Rio Grande do Norte. No Amazonas, Omar Aziz, do PSD, alinhado com Lula, entra como favorito.

Voltemos ao ponto: alguma chance de sossego? Depende. Se Lula vencer, parece certo que os bolsonaristas tentarão sabotar o governo e só a lei poderá lhes impor algum limite. Se Flávio chegar à Presidência, aí o objetivo já declarado pelo pai e pelo filho é tomar de assalto também a lei. Viveremos dias agitados e creio que não muito interessantes.

PS: Os dados da composição da Cãmara foram alterados com dados oficiais. Antes, eram projeções apenas.

O tsunami do pior da direita que varreu o Brasil

Ela pode até não saber, mas metade dos brasileiros que votaram ontem para presidente da República se sente representada por um governo extremista, fundamentalista e fascista. Apenas isso.

Nas democracias, perdem-se eleições. Numa eleição, o que não se pode perder é a democracia. Se tal coisa não faz diferença para metade dos brasileiros, sinto muito, mas para a outra metade faz..



Não se pode dizer democrata quem chama golpe militar de revolução e tentativa de golpe de baderna. Democrata não é quem assiste calado a atos que desqualificam o processo eleitoral.

Tampouco é honesto quem se apropria de dinheiro público destinado ao pagamento de servidores, compra imóveis abaixo dos preços cobrados pelo mercado e aceita doações para equipá-los.

Como confiar em quem é ligado ao crime organizado, condecora assassinos de aluguel e defende o direito de a polícia matar a rodo bandidos ou simples suspeitos de bandidagem?

Pode ser tudo, menos patriota, quem bate à porta de governos estrangeiros e hipoteca os interesses do seu próprio país em troca de ajuda para vencer uma eleição. Na verdade, é um entreguista.

Investigado por evasão de divisas, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e organização criminosa, Flávio Bolsonaro, até que prove sua inocência, não merece ocupar nenhum cargo público.

O tsunami que varreu o Brasil, produzindo muitos estragos ao final do primeiro turno das eleições gerais deste ano, não foi provocado pela direita, mas pelo que há de pior na direita.

Flávio atraiu 47,03% dos votos válidos contra os 45,16% de Lula, uma diferença de 1,87 ponto percentual. Sua vantagem crescerá quando órfãos dos demais candidatos migrarem para seu lado.

A política é regida por leis informais. Uma delas: candidato a presidente que vai para o segundo turno atrás do vencedor do primeiro está condenado à derrota. Esse é o maior desafio de Lula.

Mas leis informais existem para ser quebradas. Aconteceu em 2022: presidente candidato à reeleição nunca perde. Jair Bolsonaro perdeu no segundo turno por 1,80 ponto percentual.

Se arrependimento matasse, Jair estaria morto. Tivesse sido ele o candidato no lugar do filho, a essa altura o morto seria Lula. O DNA de golpista de Bolsonaro prevaleceu sobre a astúcia do político.

domingo, 4 de outubro de 2026

A jornada do voto e os riscos atuais

Quando minha mãe nasceu, mulher não votava. O direito eleitoral feminino é recente. O voto é novo no Brasil. Há apenas 37 anos, o Brasil voltou a escolher livremente o presidente e os governadores, após a longa interrupção imposta pela ditadura. Apesar de as eleições terem se tornado rotina desde a redemocratização, não podemos perder de vista como é valioso o direito que hoje podemos exercer. No fim deste domingo, 4 de outubro, o país terá escolhido dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados, todas as Assembleias Legislativas e vários chefes do Executivo. A composição do Senado definirá o perfil do Supremo Tribunal Federal que teremos. Será um Supremo capaz de corrigir seus erros ou ele será capturado para o projeto autoritário que um dia combateu?

Os 158 milhões de brasileiros aptos a votar decidirão o destino do país, e não apenas nos próximos quatro anos. Um projeto autoritário tem na sua essência o continuísmo e segue a estratégia de corroer por dentro as instituições, até que elas percam sua força de contrapeso. Velhos medos, que minha geração acreditou ter deixado para trás, estão vivos. O autoritarismo é o maior deles. O intervencionismo americano recuou a meados do século passado. Donald Trump é tão primitivo que quer da América Latina nada menos do que a vassalagem. O alinhamento acrítico aos Estados Unidos é um risco que um país como o Brasil não pode correr.

A suspensão do atendimento na embaixada americana na sexta-feira, movimento seguido por consulados de outros países que pertencem ao mesmo grupo de troca de informações de inteligência, foi dramatizado pelas redes bolsonaristas que alimentam um clima de tensão.

Esta campanha transcorreu no inverno do nosso descontentamento. O STF foi a instituição mais atacada no governo de Jair Bolsonaro porque com o Supremo fraco ficaria mais fácil o plano golpista. Foi o ponto da resistência. Esse mesmo STF minou a si próprio desta vez. De novo, o risco maior é o democrático, mas agora o país desconfia da sua cidadela. Se a briga fratricida dos ministros expôs o país ao perigo, toda a campanha foi estranha. O momento mais inusitado teve Nossa Senhora Aparecida no meio da polêmica eleitoral.

O Supremo precisa corrigir a si próprio. O Senado a ser escolhido hoje pode ajudar a fortalecer a instituição, que tem sido disfuncional nos últimos tempos, ou pode aproveitar as fraquezas do Supremo e completar o golpe que ficou inacabado em 2023. Tudo o que o STF fez e falou será usado contra ele e contra a democracia. É doloroso que os ministros não tenham entendido a dimensão do risco que enfrentamos. Era previsível que a campanha da extrema direita usasse como bandeira a proposta de eleger senadores para destituir ministros do Supremo. E evidentemente, a ideia é não parar por aí.

Eu comecei esta coluna falando de minha mãe, Mariana, e tenho motivos para esta volta para casa quando falo de eleição. Ela nasceu em 1925 e morreu em setembro de 1989, sem conseguir dar seu voto ao Doutor Ulysses, candidato que havia escolhido. Num dos últimos encontros que tivemos, minha mãe estava às voltas com o recadastramento eleitoral, trabalho para o qual ela havia se voluntariado naquele renascimento do direito do voto. Meus pais eram cerimoniosos com o ato de votar. Ainda os vejo, descendo a rua Princesa Isabel, vestidos com a elegância de um evento social, indo votar para presidente, em 1960, antes que a ditadura acabasse com esse direito.

Minha neta mais velha, também Mariana, vota hoje pela segunda vez, e levará junto seu irmão Daniel que, aos 16, estreia seu título. Votarão na mesma zona eleitoral que o pai, Matheus. A luta do movimento sufragista permitiu que minha mãe votasse pela primeira vez para presidente, aos 20 anos, em 1945, no encerramento da ditadura de Vargas. Quando votei pela primeira vez para presidente, meu filho Vladimir também votava pela primeira vez. A minha família traz vários símbolos — e cicatrizes — de como o direito do voto é conquista árdua. Hoje correntes de extrema direita defendem o fim do voto feminino. Parece delírio que a vitória do movimento sufragista seja posta em questão um século depois, mas não se deve subestimar os perigos de hoje em dia. No livro que meu marido, Sérgio Abranches, acaba de lançar “A terceira margem do Ipiranga” há uma frase da qual eu gosto muito. “A democracia nunca teve vida fácil entre nós”.
Míriam Leitão

Pensamento do Dia

 


Que Deus? Que pátria? Que família?

Em meio à guerra santa que ameaça o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, Flávio Bolsonaro, sem esconder o constrangimento, ergueu uma santa de crochê à maneira de um capitão de time de várzea que empunha uma taça de latão. Caso Robin, o parceiro do Batman naquele seriado de tevê dos anos 60 do século passado, assistisse a esse momento de devoção, não titubearia: “Santa hipocrisia”.

A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.



Lembremos os fatos: a jornalista apenas, e tão somente, informou o incômodo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com uma ala evangélica ligada umbilicalmente ao senador que defende o “rebaixamento” da santa. Como se sabe, os protestantes sempre criticaram a adoração de imagens. A preocupação da CNBB tem razão de ser. Desde 2018, aponta um relatório da Comissão de Justiça e Paz, foram registrados 58 episódios de ataques a católicos. Victório Galli, ex-deputado e ex-assessor da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro, propôs um projeto, rejeitado na Câmara, para mudar o status de Nossa Senhora para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O pastor JB Carvalho, responsável pelo batismo de Flávio Bolsonaro, considera inconstitucional o título da santa estabelecido por uma lei de 1980. E o presidenciável afirmou que, na eventualidade de ser eleito, decretará, como primeiro ato, “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo” (supomos que o segundo será assinar a anistia ao pai, condenado por tentativa de golpe).

Em geral, onde há fumaça há fogo, mas os meios de comunicação, em uma cruzada, se empenharam em desqualificar esse conjunto de evidências por meio de editoriais, artigos e “reportagens”. Faltam registros de veemência semelhante quando mentiras comprovadas – e não análises plausíveis − contra candidatos progressistas, de qualquer época, influíram na dinâmica eleitoral. Mais. Não foram raros os momentos em que a mídia foi o centro irradiador ou a caixa de ressonância da desinformação. Mas nunca é tarde para a remissão dos pecados.

Apesar da condescendência, Flávio Bolsonaro não passa de uma caricatura. O carola no expediente comercial vira um endiabrado entre quatro paredes, conforme as revelações de Alexandre Santini, seu ex-sócio na fantástica loja de chocolates, a mais lucrativa franquia da Kopenhagen, especializada em movimentar dinheiro vivo. Diante das “encomendas” – e nem vieram à tona detalhes das festas de Daniel Vorcaro em Trancoso −, pode-se dizer que o presidenciável tem um conceito amplo de família. Sempre cabe mais uma.

O filho 01 encarna, por fim, um paradoxo consolidado sob a égide do bolsonarismo: o patriota entreguista. Flávio não concorre ao cargo de presidente do Brasil. Sua ambição, captada pela foto da visita à Casa Branca, é arrumar um bico de mordomo de Trump.

Neste domingo, os eleitores terão a chance de afastar a tentação.