terça-feira, 17 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


Netanyahu faz com os palestinos o que o nazismo fez com os judeus

O governo de extrema direita do primeiro-ministro de Israel, Benjamin “Bibi” Netanyahu, acossado por denúncias de corrupção e pelo fracasso de dispor do mais poderoso exército do Oriente Médio que não soube defender seu país, mandou que os palestinos da Faixa de Gaza, moradores do Norte, se transferissem para o Sul do enclave. Do contrário, seriam bombardeados.


Dada a ordem, iniciado o êxodo, continuou bombardeando os que decidiram permanecer no Norte e passou a bombardear os que caminhavam para o Sul. E nenhum dos mais de 60 países que já anunciaram apoio a Israel disse nada até agora. Alguns limitaram-se a recomendar que respeitasse as regras de guerra estabelecidas pela Convenção de Genebra e pediram uma trégua.

O governo de “Bibi” não está nem aí para as tais regras que país algum respeita ao enfrentar um inimigo; quanto ao pedido de trégua, recusou-o. Nem por isso o chanceler da Alemanha, a maior economia da Europa, deixará de desembarcar, hoje, em Tel Aviv para reafirmar apoio a Israel. Nem por isso o presidente americano, Joe Biden, deixará de o fazer amanhã com o mesmo objetivo.

A última guerra justa travada pelos europeus foi contra a Alemanha de Hitler, que matou 6,5 milhões de judeus, ciganos e outras minorias. Devedores dos Estados Unidos, que os salvaram do nazismo, lutaram em todas as guerras que os americanos deflagraram ou se envolveram desde então. Foi assim, por exemplo, no Vietnã, nos anos 1960, no Afeganistão e no Iraque.

No Vietnã, os Estados Unidos foram à guerra a pretexto de impedir que o comunismo se apossasse do país. Acabaram derrotados depois de quase destruírem e queimarem o Vietnã inteiro com bombas incendiárias. Armaram os talibãs no Afeganistão para que enfrentassem os russos. Invadiram o Afeganistão, o país mais miserável do mundo, a pretexto de combater o terror.

Sabiam que eram sauditas os 14 terroristas que sequestraram quatro aviões e jogaram dois deles contra as Torres Gêmeas de Nova Iorque em setembro de 2021. Mas a Arábia Saudita é um dos maiores produtores de petróleo do planeta, do qual os Estados Unidos dependem. E o Afeganistão… Bem, o Afeganistão tem petróleo, mas é um país essencialmente agrícola.

Os Estados Unidos saíram do Afeganistão derrotados. Invadiram o Iraque a pretexto de derrubar a ditadura de Sadam Hussein, que dava abrigo aos terroristas do 11 de setembro e acumulava armas de destruição em massa. Não dava abrigo. Não acumulava armas de destruição em massa, como ficou provado. Sadam foi capturado e morto. Mais tarde, os Estados Unidos abandonaram o Iraque.

Nos últimos 14 anos, Israel bateu com o Hamas quatro vezes. Em duas delas, 2009 e 2014, Israel invadiu Gaza por terra. Morreram milhares de civis palestinos e centenas de israelenses. Há 9 anos, não havia nenhum israelense refém do Hamas; há 14 anos, só um. Hoje, existem de 200 a 250 reféns. O Hamas jamais esteve tão forte. Por que Israel o dizimará desta vez?

O que o governo Netanyahu faz em Gaza com os palestinos é a mesma coisa que o nazismo fez com os judeus. Gaza é um campo de concentração onde vivem 2,3 milhões de pessoas em petição de miséria, cercadas por um muro erguido por Israel, que dependem de Israel para comer, beber água, tomar banho, curar suas doenças e se locomover. Então, Israel decidiu privá-las de todas essas coisas.

Quer dizer: privá-las de viver.

Em comunidade

Passemos a outra questão: o modo de tratarmos com o nosso semelhante. Como devemos agir, que preceitos ministrar? Que não derramemos sangue humano? Ao nosso semelhante devemos fazer o bem: aconselhar a não lhe fazer mal, que ridículo! Até parece que encontrar algum homem que não seja uma fera para os outros já é coisa merecedora de encômios... Vamos aconselhar a que se estenda a mão ao náufrago, se indique o caminho a quem anda perdido, se divida o pão com o esfomeado? Mas para que hei-de eu enumerar todos os atos que devemos ou não devemos praticar quando posso numa só frase resumir todos os nossos deveres para com os outros? Tudo quanto vês, este espaço em que se contém o divino e o humano, é uno, e nós não somos senão os membros de um vasto corpo. A natureza gerou-nos como uma só família, pois nos criou da mesma matéria e nos dará o mesmo destino; a natureza faz-nos sentir amor uns pelos outros, e aponta-nos a vida em sociedade. A natureza determinou tudo quanto é lícito e justo; pela própria lei da natureza, é mais terrível fazer o mal do que sofrê-lo; em obediência à natureza, as nossas mãos devem estar prontas a auxiliar quem delas necessite. Devemos ter gravado na alma, e sempre na ponta da língua, o verso famoso: “Sou homem, tudo quanto é humano me concerne!”, de Terêncio. Possuamos tudo em comunidade, uma vez que como comunidade fomos gerados. A sociedade humana assemelha-se em tudo a um arco abobadado: as pedras que, sozinhas, cairiam, sustentam-se mutuamente, e assim conseguem manter-se firmes!

Sêneca, "Cartas a Lucílio"

E quando nos perguntarem por que não fizemos nada…

Amir é professor de Educação Cívica e está a dar uma segunda oportunidade a uma aluna conflituosa. O docente propõe-lhe que apresente um problema e uma solução para o mesmo. A escola fica numa cidade israelita e Lian dá um exemplo concreto de um problema: o assédio de dois rapazes árabes a uma das suas amigas. Para Lian, a solução é simples: proibir os árabes de frequentarem a mesma piscina. Amir lembra-lhe que não há outra, que talvez a solução possa passar por juntarem dinheiro para construir uma nova.

Mas Lian é irredutível: os árabes não podem frequentar a mesma piscina, aliás, não podem viver sequer no mesmo sítio. O melhor é enfiá-los em autocarros e depositá-los nos países vizinhos: Egipto, Líbano, Síria… Melhor, melhor é atirá-los ao mar, continua a rapariga que entretanto conquistou um aliado na turma, é Asir, cujo irmão foi ferido enquanto cumpria o serviço militar. No próximo ano serão eles a ir para as Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla inglesa).

A sala de aula grita quase em uníssono para que se atirem os palestinianos ao mar. O professor ainda argumenta que aquela terra já estava ocupada quando eles, judeus, lá chegaram; e lembra que na Alemanha nazi, a primeira proibição a que os judeus foram sujeitos foi precisamente a frequência das piscinas. Então, não foram metidos em autocarros, mas em comboios, para morrerem. Mas nenhum dos argumentas chama os alunos à razão.

São aqueles miúdos que, em poucos meses, terão treino militar e terão armas nas mãos, que não conseguem perceber que o que o seu governo está a fazer foi o que fizeram aos seus avós e bisavós; que, por exemplo, a Faixa de Gaza funciona como o gueto de Varsóvia, onde tudo o que entrava e saía era decidido pelos alemães, tal como hoje, tudo o que entra e sai de Gaza é decidido por Israel — esta comparação é minha, não do professor.

Ainda não terminei de ver A Lição, uma série de seis episódios que começou, na RTP2, poucos dias antes de o Hamas entrar em Israel e matar indiscriminadamente porque, desde o fim-de-semana passado, que a televisão tem estado ligada nos canais noticiosos e tudo o resto parece irrelevante. Desde que vi, pela primeira vez, os ataques do Hamas ao festival de música — onde perderam a vida mais de 260 jovens de várias nacionalidades, e desapareceram talvez mais de uma centena, que terá sido raptada e mantida em cativeiro pelo grupo terrorista —, que tenho dificuldade em dormir.

Naqueles rapazes e raparigas vejo os meus filhos, os seus companheiros e amigos. “E não nos vês na Faixa de Gaza?”, perguntaram-me os meus filhos, em diferentes momentos. Sim, respondi de imediato. Consigo ver-nos, a todos, de um lado e do outro. A sermos vítimas de um governo ditatorial que devia ter previsto e evitado o que aconteceu; e a sermos vítimas diárias desse mesmo governo, que decide se abre ou fecha a água, se liga ou desliga a luz, se podemos ou não podemos atravessar a fronteira para irmos trabalhar —; e reféns do Hamas, de um lado ou do outro da fronteira.

“É uma sorte o lugar onde nascemos”, diz com alguma constância a minha filha, que viveu dois anos fora, e cujas amigas de mestrado são de muitos cantos da Europa e do mundo. A ucraniana cuja melhor amiga era russa e deixaram de se falar quando a guerra rebentou; a russa que tenta ser amiga de todas e todas a evitam; a indiana de um estado de maioria islâmica que sofre com as leis nacionalistas de Modi — confessou ontem, numa troca de mensagens, que o que o Hamas fez só contribuiu para a demonização dos muçulmanos na Índia; a egípcia que frequentou uma das melhores universidades norte-americanas, mas tem dificuldade em arranjar visto para trabalhar na Europa por causa da sua nacionalidade; a norte-americana que antevê uma guerra civil no seu país, por isso, prefere ficar deste lado do Atlântico; a brasileira que ama a segurança da Europa, sobretudo dos países nórdicos; a colombiana…

Que sorte termos nascido em Portugal, sim, mas não confiemos na sorte. É preciso estarmos atentos. Quem votou em Netanyahu foram os israelitas; quem votou em Modi foram os indianos; quem votou em Trump foram os americanos; quem votou em Bolsonaro foram os brasileiros, etc., etc.. Há que ensinar os mais novos a compreender que há um poder que temos nas nossas mãos, há que saber ler, ver, ouvir e interpretar para usarmos correctamente esse poder, para não repetirmos erros antigos ou recentes.

Lembro-me de nas aulas de História, no secundário, perguntarmos ao professor como é que o Holocausto tinha acontecido sem que ninguém tivesse movido uma palha. Como vamos responder aos nossos filhos quando nos fizerem exactamente a mesma pergunta: onde é que estávamos, o que fizemos quando Israel decidiu não dar alternativa a um povo e bombardeá-lo?

E voltemos ao festival de música trance. Um adolescente português, que veja os vídeos sobre o que se passou quando os militantes do Hamas invadiram o recinto, pode facilmente identificar-se com aqueles jovens que dançam, que se divertem, que são obrigados a fugir, e tomar um partido. É mais fácil imaginar-se no corpo de um jovem israelita com um ar saudável do que de um palestiniano sujo do pó das bombas que caem. Por isso, cabe-nos a nós pais, ajudá-los a compreender que aquelas crianças e jovens não são animais, como apelidam vários ministros israelitas, mas são vítimas do Hamas, assim como de Israel; que não têm como sair dali, por mais que as Nações Unidas o implorem, que Israel comporta-se exactamente do mesmo modo que o Hamas. A diferença é que o primeiro é um Estado supostamente democrático, enquanto o segundo é um grupo terrorista, que cresceu com a complacência de Israel. Também os jovens israelitas, bem como as famílias mortas e sequestradas foram vítimas de parte a parte.

É importante saber o que está a acontecer no mundo. E o mundo entra pelos telefones dos nossos filhos, sem filtro, sem que tenhamos poder sobre isso, desconhecendo se o que vêem é ou não é informação fidedigna. É importante sentarmo-nos e contextualizarmos o que se está a passar. Explicar-lhes por quanto já passou um rapaz ou uma rapariga que tenha hoje 14 anos, em Gaza; que quando nasceu já era refugiado, que sobreviveu a quatro confrontos com Israel, que quando as IDF entram naquele território matam indiscriminadamente; que o mundo ocidental não olha da mesma maneira para um palestiniano e para um israelita, quando todos deviam ser iguais, ter os mesmos direitos e deveres. É importante ensinar-lhes a ter empatia, a ser solidários, a agir.

Guerra lá, guerra aqui

A partir da década de 1970 o Rio cresceu em direção à Barra da Tijuca, bairro mais ou menos planejado que oferecia, além da beleza natural de praias e lagoas, o conceito publicitário da segurança em condomínios fechados e shoppings. Uma espécie de paraíso para a classe média alta. Hoje o perigo mora ao lado.

Na semana passada, a Polícia Federal apreendeu 47 fuzis e centenas de munições calibre 556 escondidos numa mansão de um condomínio de luxo, na Barra. O arsenal veio de Belo Horizonte para abastecer traficantes de drogas, milicianos e bicheiros que estão em guerra na região. O que seria uma ilha de tranquilidade se transformou em palco de assassinatos brutais –como os que vitimaram por engano três médicos num quiosque.


Quem mora na Barra e no Recreio dos Bandeirantes se acostumou a ver comboios de três veículos, de cor preta e vidros cobertos por película escura. Dentro não vão executivos nem autoridades; estão os chefes do crime organizado, responsáveis por uma estatística que iguala a Baixada de Jacarepaguá à Baixada Fluminense no imaginário da violência. O número de homicídios quase triplicou entre janeiro e agosto deste ano em relação ao mesmo período de 2022.

É a prova de que tráfico e milícia, infiltrando-se na estrutura do Estado, agem livremente. A política de segurança do governador Cláudio Castro só parece eficaz para produzir chacinas em favelas. Estima-se que haja 56 mil traficantes e milicianos no Rio, com 28 mil fuzis a seu dispor. Nos últimos cinco anos, 114 crianças foram baleadas; 32 morreram. Um sofrimento imenso das famílias que, no calor da primeira hora, afeta a população em geral. Aos poucos, a dor coletiva vai sendo esquecida ou substituída por outra.

No momento, o horror do conflito no Oriente Médio magnetiza todas as atenções, sobretudo as ideológicas. Mas nossa guerra –permanente e gradual– não dá trégua.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Pensamento do Dia


 

'O morro não tem vez, e o que fez já é demais'


Com a nova Nakba que se desenha agora em Gaza, tudo indica que Israel busca não só avançar na eliminação dos palestinos de seu território, como mostrar ao mundo que a sua tecnologia de confinamento ainda é capaz de impedir o morro de descer quando não for Carnaval

Faixa de Gaza vira campo de concentração para palestinos pobres

Assim como as grandes potências do mundo ocidental fecharam os olhos ao sofrimento dos judeus enquanto eles eram dizimados pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial, agora procedem do mesmo modo em relação ao sofrimento imposto por Israel aos palestinos que vivem na Faixa de Gaza.

Nenhuma das grandes potências ignorava a existência de campos de concentração com suas câmeras de gás para matar judeus, ciganos e outras minorias, mas denunciar a existência deles ou atacá-los não fazia parte de suas prioridades. Era preciso derrotar Hitler rapidamente para poupar vidas de soldados aliados.

O mesmo raciocínio se aplicou à guerra contra o Japão. Derrotá-lo pelos meios convencionais custaria milhares de vidas a Estados Unidos, Rússia, Reino Unido e França. Então, os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas que mataram entre 90 mil e 166 mil pessoas em Hiroshima, e 60 mil a 80 mil em Nagasaki.

Em maio de 2016, o presidente Barack Obama visitou Hiroshima para depositar uma coroa de flores no monumento aos mortos. Hiroshima e Nagasaki não faziam parte do complexo industrial militar do Japão durante a Segunda Guerra. Perguntaram a Obama se ele pediria perdão pelo que seu país fez. Resposta:

“Não, porque creio que é importante reconhecer que, no meio de uma guerra, os líderes tomam todo tipo de decisões.”


Joe Biden era vice de Obama. Biden, ontem, como presidente dos Estados Unidos, falou ao mundo sobre os ataques do grupo terrorista Hamas que matou até aqui mais de 998 israelenses e feriu cerca de 3.420. Não deu uma palavra sobre os 950 palestinos mortos e os 5 mil feridos por causa dos ataques de Israel a Gaza.

Quando Israel começou a bombardear a Faixa de Gaza, no sábado à noite, a mulher de Amer Ashour entrou em trabalho de parto. “Estava preocupado em como chegaríamos à maternidade”, contou Ashour. O que não esperava é que, quando saísse do hospital, com o filho recém-nascido, não tivesse mais onde morar.

O apartamento de Ashour foi pulverizado por uma bomba israelense. Sua família faz parte dos mais de 180 mil habitantes da Faixa de Gaza que viram suas casas reduzidas a pó e destroços pelo bombardeio aéreo mais intenso de 75 anos de guerra entre israelenses e palestinos. Quem Israel pune?

“Há [16] anos, Israel reagiu à tomada de controle da Faixa de Gaza pelo Hamas, impondo a sanção coletiva de um bloqueio, sem precedentes, aos cerca de 2 milhões de habitantes deste território”, lembra Jean-Pierre Filiu, professor de Estudos do Oriente Médio no Instituto Sciences Po, em Paris.

Gazza tornou-se o que o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy chamou em 2007 de “a maior prisão do mundo a céu aberto”. Isso não impediu que, desde então, tivessem acontecido quatro guerras entre Israel e Hamas (2008-2009, 2012, 2014 e 2021). “Neste 7 de Outubro, o caldeirão acabou por explodir”, observa Filiu.

O bloqueio barra o acesso da população de Gaza a serviços fundamentais em Jerusalém, como cuidados especializados de saúde, bancos e educação. A taxa de desemprego é elevadíssima; duplicou de 23,6% em 2005, antes do bloqueio, para 49% em 2020. A taxa de pobreza saltou de 40% para 56%.

Israel limita a importação de alimentos a uma cesta básica de subsistência mínima, “que é suficiente para sobreviver sem desenvolver má nutrição”, segundo investigadores da Universidade Americana de Beirute (Líbano). Na verdade, 80% da população depende da ajuda humanitária internacional para sobreviver.

A mesma política aplica-se a eletricidade, combustível e água. Antes do início dos bombardeios no sábado, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, aconselhou os palestinos civis a abandonarem a Faixa de Gaza. Mas eles não podem fazê-lo. As duas entradas e saídas foram fechadas por Israel e Egito.

Gaza virou um campo de concentração para palestinos pobres, e uma fortaleza para o Hamas que os usam como escudos. “Combatemos animais humanos, e agimos em consequência”, justifica o ultradireitista Yoav Galant, ministro da Defesa de Israel. “Nem eletricidade, nem alimentos, nem combustível.”

'Bem-vindos ao Brasil. E tenham uma estadia segura'

"Obrigado por terem escolhido a Lufthansa. Tenham todos os uma estadia SEGURA no Rio de Janeiro e no Brasil". Essa frase foi dita pelo comandante de um voo lotado de turistas que me trouxe de Munique para o Rio há duas semanas. Estou acostumada, como viajante frequente, a ouvir "tenhamos um voo seguro". Mas essa foi a primeira vez que escutei um piloto desejar uma ESTADIA segura. E olha que já viajei para alguns lugares que não são modelo de segurança.

Ouvir o piloto falar assim do meu país e da minha cidade natal me fez rir de nervoso e comentar com amigos, em um surto de escapismo, que os alemães eram "diretos demais”. Só que o piloto estava coberto de razão. E não demorou mais que uma semana para que isso fosse jogado na minha cara com força. Na quinta-feira, 5 de outubro, acordamos com a notícia da execução de três médicos que participavam de um congresso de ortopedia na cidade.

Os ortopedistas Diego Ralf Bomfim, Marcos de Andrade Corsato, Perseu Ribeiro Almeida e Daniel Proença tomavam uma cerveja em um quiosque em frente a um hotel de luxo na Barra da Tijuca, quando foram alvejados. Diego, Marcos e Perseu foram mortos. Daniel escapou com ferimentos. De acordo com a polícia, três homens desceram de um carro e efetuaram pelo menos 33 disparos contra os médicos.


Essa barbárie aconteceu em pleno "asfalto" privilegiado, em um dos metros quadrados mais caros da cidade. Se um conhecido alemão me perguntasse se era perigoso tomar uma cerveja em um quiosque na praia da Barra da Tijuca, em frente ao hotel onde se hospedaria, eu responderia: "Claro que não".

No dia do horror, passamos por todo tipo de sentimento: o pavor de imaginar que a chacina poderia ser um crime político contra Sâmia Bomfim, que recebe centenas de ameaças de morte (estendidas à sua família), por conta de sua atuação e também por ela ser uma mulher feminista; o choque; o choro. E a incredulidade, quando a polícia civil do Rio de Janeiro afirmou que a razão do crime poderia ser o fato de um dos atingidos ser parecido fisicamente com um miliciano que estaria jurado de morte.

O assassinato teria sido um "engano", de acordo com o secretário de Polícia Civil do Rio de Janeiro, José Renato Torres.

No dia seguinte, a Polícia Civil do Rio informou que os assassinos dos médicos teriam sido mortos, e seus corpos, encontrados em dois carros na zona oeste. Ou seja: uma guerra.

A Polícia Federal também acompanha as investigações, que ainda estão em andamento.

Se você fosse gringa e lesse essas notícias você viajaria de férias para o Rio de Janeiro? Eu não.

É claro, a guerra não começou semana passada. Ela existe desde que me lembro por gente. Mas piora todo dia. De acordo com o Instituto Fogo Cruzado, 1.112 pessoas foram atingidas por arma de fogo na região do Grande Rio apenas no primeiro semestre de 2023.

No dia 5 de outubro, a barbárie avançou até uma área nobre da Barra da Tijuca, mas inocentes são mortos diariamente no Rio de Janeiro nas favelas e zonas periféricas. E a vida segue, como se nada tivesse acontecido. Essa é uma cidade onde não só médicos brancos são mortos "por engano pela milícia”, mas também onde crianças são mortas "por engano” pela polícia, como já escrevi aqui.

O piloto tinha toda razão. E a execução dos médicos provou mais uma vez que ao viajarmos para o Rio de Janeiro, e para o Brasil em geral, não basta que a gente diga: "divirta-se”. É preciso também: "tome cuidado”, ou "tenha sorte”. Você pode estar fazendo algo teoricamente muito seguro, como tomar um chope com os amigos depois de um dia de conferências e ser executado. É de dar enjôo. E não para aí.

Não deu para eu me recuperar emocionalmente. No dia seguinte ao assassinato dos médicos, meu amigo Vilmar Ledesma, um jornalista com mais de 30 anos de profissão que mora nos Jardins, uma das áreas mais nobres de São Paulo, narrou nas redes sociais outro episódio de barbárie:

"Houve um roubo na rua, acho que de celular. Ouvi uma gritaria imensa antes de sair de casa. E quando estava na rua, havia uma euforia por onde passava. O cara saiu correndo, foi perseguido e acabou linchado. O corpo estava estendido no chão (vi um pedaço do corpo da esquina), no quarteirão da Bela Cintra entre Jaú e Itu, Jardins/SP, Havia uma euforia de carnaval no ar, e ouvi vários comentários elogiando o linchamento. Voltei pra casa arrasado e com vontade de fugir para algum lugar longe dessa insensatez. Socorro!”

Sim, uma pessoa foi assassinada por populares na Rua Bela Cintra, um dos endereços mais caros da rica capital paulistana. Esse tipo de fato deve ser rotineiro, já que o linchamento dos Jardins nem foi noticiado pela mídia.

"Desejo a todos uma estadia segura”. O piloto alemão, repito, estava coberto de razão ao nos desejar isso. Ele podia ter acrescentado que "sacos de papel, no caso de enjoo, estariam disponíveis na cadeira à frente.”

O Produto Interno Bruto de nossa felicidade

Quem vê os rostos radiantes dos brasileiros que chegam ao Brasil, saídos do “inferno” da guerra Hamas x Israel, e trazidos pela Força Aérea Brasileira (FAB), podem inferir que os sorrisos de alegria estampam a cara da felicidade. Ledo engano. O país está com medo. Com muito medo, pois vive um ciclo de violência, com mortes que se multiplicam, aqui e ali, no Rio de Janeiro, em São Paulo e na Bahia, entre outros enclaves mortíferos.

A alegria passageira dos nossos conterrâneos ao pisar o nosso solo mostra que a felicidade é uma régua, que vai do 0 a 100, sendo balizada pelas circunstâncias. A proximidade da morte que uma guerra propicia acaba produzindo uma carga de pavor incomum, aliás determinante para a pessoa entrar em estado de euforia quando se vê distante de bombas e ataques terroristas.


Para arrematar a hipótese, este analista vale-se dos quatro impulsos básicos estudados por Pavlov para explicar as ações humanas: dois instintos relacionados à sobrevivência do indivíduo e dois instintos ligados à perpetuação da espécie – o combativo e o nutritivo; e os impulsos sexual e paternal.

Explicando: o ser humano enfrenta fenômenos da natureza (crises climáticas, inundações, por exemplo) e luta contra seus semelhantes (conflitos, guerras, ataques), para garantir sua sobrevivência. Os nossos conterrâneos foram combativos em sua ânsia para escapar dos bombardeios. Além disso, os seres precisam preservar sua vida, suprindo-se de alimentos e água, sem as quais fenecem.

Sobre o instinto nutritivo, este escriba até montou uma equação para explicar a hipótese: BO+BA+CO+CA = Bolso cheio, Barriga satisfeita, Coração agradecido, Cabeça decidindo aprovar o governante que lhe proporcionou bem-estar. Quanto mais “pança cheia”, mais agradecida será a população. Bolsas-Família fazem parte dos silos estocados para suprir o estômago. Nesse caso, a felicidade tem boa chance de aparecer. Ao contrário, barrigas roncando de fome geram revolta. Veto e não voto.

Quanto aos dois instintos ligados à perpetuação da espécie, o sexual e o paternal, constituem eles a função reprodutiva, a par de valores associados à humanidade da pessoa: amor, solidariedade, paz, harmonia, respeito, autoridade, humildade, caridade, enfim, as virtudes que sustentam o edifício da dignidade humana.

Como se pode aduzir, o conceito de felicidade carrega um escopo de necessidades, condições, ações, satisfações, princípios e valores, todos operando nos campos material e espiritual dos habitantes do planeta. Manter os níveis de energia, com alimento e oxigênio, recuperar os níveis de fluidos corporais, buscar a homeostase do corpo, preservar o mecanismo de perpetuação de nossa espécie e proteger a prole, são atividades rotineiras que ancoram uma vida feliz.

Portanto, calcular a Felicidade Interna Bruta, a FIB, como é chamada, exige um complexo sistema de controles e pesquisas para avaliar a qualidade de vida de um povo, sua satisfação com o trabalho, a saúde física e mental, a educação, a cultura, os níveis de degradação do meio ambiente. Essa FIB é uma invenção do então rei do Butão na década de 1970. O Butão é um país onde o budismo faz parte da identidade nacional.

Localizado no Sul da Ásia, vizinho da China, Índia e Nepal, o Butão possui cerca de 800 mil habitantes, composto por 10 estados e com a capital Thimphu. Com uma economia baseada na mineração, conheceu a TV em 2000 e a Internet, apenas em 2010. Suas matas ocupam 70% de sua extensão. É o único país do mundo que produz menos dióxido de carbono do que suas áreas verdes podem absorver. O governo mantém rígido controle de tabaco e álcool. Não se pode beber ou fumar em lugares públicos.

Sob essa configuração, dimensionar o Produto Interno Bruto da Felicidade brasileira mais parece um exercício para as gerações futuras. Somos um país de dimensão continental. Seu traçado reúne uma complexa camada de fatores díspares, diferentes cadeias de problemas e até de costumes. Relatórios de pesquisas que aparecem periodicamente com a intenção de medir o grau de satisfação de nossa população não passam de espelhos fragmentados (e tortos) da realidade. São pouco críveis, eis que um povo satisfeito com determinada ação pública de governos não quer dizer, necessariamente, que este seja um povo feliz.

A não ser que queiramos entender felicidade como a ironia de Zé Ramalho sobre o Admirável Gado Novo: “Vocês que fazem parte dessa massa/ Que passa nos projetos do futuro/ É duro tanto ter que caminhar/E dar muito mais do que receber. É ter que demonstrar sua coragem, à margem do que possa parecer/E ver que toda essa engrenagem/Já sente a ferrugem lhe comer…. E correm através da madrugada/A única velhice que chegou/Demoram-se na beira da estrada/E passam a contar o que sobrou!”. É o Brasil.

domingo, 15 de outubro de 2023

O antissemitismo estrutural que emerge na guerra de Gaza

O movimento negro brasileiro consolidou o conceito de racismo estrutural e desconstruiu a tese de que o Brasil é uma democracia racial, devido à miscigenação e ao voto direto, secreto e universal, que garante a negros, mulatos e pardos — classificação agora considerada “politicamente incorreta” — os mesmos direitos políticos da “elite branca”. O racismo estrutural, porém, limita o alcance desses direitos do ponto de vista econômico, social e mesmo político, se considerarmos as estruturas de poder.

Consiste na organização da sociedade de maneira a que privilegie um grupo de certa etnia ou cor em detrimento de outro, percebido como subalterno. A exclusão e discriminações complexas mascaram o fenômeno. O racismo estrutural é uma forma de exploração e opressão, enraizada na estrutura social e nas relações institucionais, econômicas, culturais e políticas.

Uma outra forma de racismo estrutural é o antissemitismo, que tem características completamente diferentes, porque não está associado à condição econômica e social subalterna, ao contrário, mas à condição étnica, especificamente, e ao preconceito cultural. Enquanto em relação aos negros, o racismo vem dos tempos da escravidão, no início do século XVI, o nosso antissemitismo tem origem na atuação da Inquisição católica, nos tempos da Reconquista, que expulsou árabes e judeus da Península Ibérica.


Sim, árabes e judeus são semitas. Na Antiguidade, fenícios, hebreus (judeus), babilônicos, arameus e outros se deslocaram da Península Arábica para a Mesopotâmia, 3 mil anos antes de Cristo. O termo semita como designação para esses povos do Oriente Médio foi cunhado pelo historiador alemão August Ludwig von Schloezer, em 1871, a partir de referências bíblicas. Apesar das diferenças religiosas e étnicas, segundo o Antigo Testamento, todos eram descendentes de um dos três filhos de Noé: Sem.

Entretanto, o termo antissemitismo é usado para designar o ódio e a aversão contra judeus por conta dos eventos históricos que resultaram na migração desses povos para vários cantos do mundo, como aconteceu com as famílias sefarditas na Espanha e Portugal. A primeira sinagoga das Américas, a Kahal Zur Israel (Rocha de Israel), foi fundada no Recife, em 1641, durante a dominação holandesa (1630-1657), pelo rabino luso-holandês Isaac Aboab da Fonseca. Com a derrota dos invasores holandeses na Batalha dos Guararapes, os judeus migraram de Pernambuco para Nova Amsterdã, atual Nova York, onde formaram a Congregação Shearith Israel, a primeira sinagoga da América do Norte.

O surgimento do movimente sionista no século XIX, em resposta à diáspora e à milenar perseguição aos judeus, com objetivo de reocupar a Palestina e construir um Estado-nação, apartou árabes e judeus. Sion significa Jerusalém, a cidade sagrada para os judeus, muçulmanos e cristãos, cujo lado oriental, que era administrado pela Jordânia, foi ocupado por Israel em 1967, na Guerra dos Seis Dias.

Sempre houve resistência ao sionismo entre os judeus, principalmente entre os judeus assimilados da Europa. A filósofa judia-alemã Hannah Arendt chegou a participar do movimento sionista, mas se desvinculou na década de 1940. Autora de A Condição Humana e Raizes do Totalitarismo, Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”para explicar o Holocausto, ao descrever o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann.

Sequestrado num subúrbio de Buenos Aires por um comando israelense, em 1960, Eichmann foi levado para Jerusalém. No mais importante julgamento de um criminoso nazista depois do tribunal de Nuremberg, em vez do monstro sanguinário, surgiu um burocrata medíocre e carreirista, incapaz de refletir sobre os próprios atos ao receber uma ordem. Para Arendt, o processo desnudou a capacidade de o Estado transformar o exercício da violência homicida em organogramas e mero cumprimento de metas.

O julgamento legitimou a grande vitória sionista que fora a criação do Estado de Israel, pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 1948, com objetivo de evitar um novo Holocausto, como o perpetrado pelo líder da Alemanha nazista, Adolph Hitler, na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, os palestinos (de maioria muçulmana), que já viviam no atual território de Israel, não aceitaram a hegemonia judaica. Desde então, conflitos e guerras inviabilizaram a criação de um Estado palestino.

O radicalismo político e religioso de ambas as partes inviabilizou todos os acordos. No atual conflito, o ataque terrorista do Hamas, inimaginável e inaceitável, não justifica o que ocorre em termos humanitários em Gaza, onde a população civil está sem água, energia elétrica, combustível, alimentos e remédios, forçada ao êxodo por bombardeios indiscriminados do Exército israelense.

O pior é que essa crise desperta o antissemitismo em quase todos os lugares. No caso do Brasil, árabes e judeus se integraram à vida nacional e convivem em harmonia, traduzem sua cultura para a nossa realidade (viva o Arranco de Varsóvia!), sem chauvinismo nem perda de identidade. É uma conquista civilizatória à qual não devemos nunca renunciar.

Pensamento do Dia

 


Bombas

Bombas agem com indiferença. Matam e destroem o que está em seu raio de ação. É coisa de espaço. Métrica que delimita a área da morte provável. Não liga para a cor da pele, nacionalidade, religião, inclinação política ou quaisquer outras dessas besteiras que a gente inventa para dizer que gente não é tudo igual. Ela só explode e acaba-se.

Para quem morre, tanto faz se foi morto a tiro, explosão, susto ou raiva. Mas faz diferença para quem mata. Mortos são todos iguais em sua mórbida paralisia. Assassinos é que são diferentes em suas formas de matar.

Quem mata a facada sente o hálito de quem mata. Suja as mãos de sangue. É coisa quase íntima.

Quem atira, tem alvo. Dispara chumbo ou cobre numa direção específica, com um propósito mortífero específico. Ou a esmo, quando tanto faz em quem acertar. Seja como for, é um tiro para uma morte. Tiro tem direção e limite. Não se espalha por aí indiferente à reta que o define.

Mas a bomba, que mata aos montes, é morte provocada por quem não está nem aí para quantos ou quem morrerá. É ferramenta de matar aos montes. Todo lançar de bombas é meio genocida. Da mesma forma que a bomba mata com indiferença. Quem mata com bomba também é indiferente ao matar quem provoca.

Matar só por matar, seja de que jeito for, é coisa rara de acontecer. Mistura de loucura, maldade e tédio. O comum é matar dizendo o porquê do morto merecer morrer. Apela-se às diferenças para justificar a diferença que há entre deixar-se viver e fazer morrer.

Pessoas que matam com bombas – e as que aplaudem quem mata com bombas – são diferentes de bombas. Não são indiferentes como as bombas que lançam com indiferença sobre os que creem não merecer viver. Agem movidos por simpatias e antipatias anteriores às bombas lançadas. E fazem, das mesmas bombas que estraçalham gente, boas ou más dependendo de quem se está a matar.

O curioso é que matar gente com bomba pararia se não olhássemos outros como diferentes. Se não inventássemos e enchêssemos de ódio tantas diferenças, qualquer bomba que mata seria um absurdo. Seria um crime não contra palestino ou israelense. Ou russo ou ucraniano. Mas crime contra a humanidade. Contra o humano que há em mim e em você.

Talvez, na indiferença que nos iguala a todos como humanos só porque somos igualmente capazes de sentir e pensar, pudéssemos ser indiferentes às diferenças do que sentimos e pensamos. Talvez, só talvez, a humanidade pudesse experimentar aquela paz tão falada, tão desejada e tão pouco buscada.

O ardil

Em tempos de precipício, alguma clareza ajuda: não pode haver espaço para relativizar a barbárie do terrorismo islâmico. Ela é absoluta e implacável. Nosso compasso humano não precisa saber se os bebês judeus foram degolados, carbonizados ou fuzilados pelos atacantes para nos situar como humanos.

De início, a matança espetaculosa desencadeada pelo Hamas contra Israel na manhã do último dia 7 não conseguiu desencadear uma guerra com mais atores. Foi, essencialmente, um atentado terrorista de crueldade máxima contra o maior número possível de judeus. Planejado e executado com ferocidade calculada pelo Hamas (acrônimo, em árabe, de Movimento de Resistência Islâmica, a entidade controladora dos 2,3 milhões de palestinos de Gaza), o ataque conseguiu o que pretendia: aterrorizar os civis, humilhar os militares e atrair as Forças Armadas do governo de Benjamin Netanyahu para o ardil de uma invasão ao enclave palestino.

Os 36 artigos da fundação do Hamas, criado em 1987, a que foram acrescidos outros 42 elaborados em 2017, deixam tudo às claras, por escrito — a necessidade de obliteração total de Israel, o estabelecimento de um Estado palestino teocrático do Mar Mediterrâneo até o Rio Jordão, a proibição de qualquer negociação, iniciativa internacional ou proposta de acordo, a purificação de crianças pela sharia, a conformidade obrigatória à lei islâmica da idealizada nação. O futuro e solução para o povo palestino seria um só, a qualquer preço: a jihad, guerra santa.


O poder do terror reside em fazer crer que é capaz do impossível. É a propaganda por meio do ato, a pedagogia por meio do assassinato — a propaganda e o produto. Não precisa sequer vencer o inimigo, basta humilhá-lo por meio do horror, impotência e desespero que gera. É comum grupos terroristas não terem pátria nem precisarem de conquistas territoriais para se sentir vitoriosos. Em 2001, os 19 jihadistas da Al-Qaeda que sequestraram quatro aviões comerciais, derrubaram as Torres Gêmeas, deixaram Nova York e Washington de joelhos e causaram a morte de mais de 3 mil civis aleatórios em pouco mais de uma hora não conquistaram 1 centímetro de terra. Não era seu propósito. Tampouco imaginaram conseguir afundar o governo de George W. Bush e a sociedade americana em duas décadas de guerras de retaliação — ambas equivocadas, invencíveis e ruinosas, ambas com gritantes violações do Direito internacional. E ambas com crimes de guerra comparáveis aos atos do terror.

Sim, também guerras têm um manual de regras. Ele vem sendo aperfeiçoado e frequentemente violado depois de cada conflito mundial. O recurso a armas químicas, o sequestro de civis, o genocídio, a execução de prisioneiros civis ou militares, ataques a populações não combatentes constituem alguns dos crimes de guerra ou contra a humanidade acordados pelas nações. Que não se aplicam a grupos terroristas, justamente por estarem fora de qualquer lei. Mas o Hamas parece ter calculado com assustadora precisão como arrastar as Forças de Defesa de Israel, as temidas e invencíveis FDI, para o pântano de uma guerra suja em vielas espremidas de Gaza. Fez mais de uma centena de reféns entre jovens, crianças, famílias inteiras, idosos civis e militares, e os entocou no enclave para usá-los como escudo humano e abominável trunfo. Ainda é difícil saber o objetivo final do Hamas para além da matança-surpresa.

É fácil, em contrapartida, imaginar a prioridade para Israel: a erradicação, a qualquer custo, da capacidade tentacular do grupo extremista. Primeiro foi cortado o suprimento de água, luz, comida e possibilidade de vida à população de Gaza, sublinhada por dias e noites de bombardeios ferozes. Na sexta-feira, o ultimato para que 1,1 milhão de palestinos do Norte abandonassem tudo e fugissem para o Sul prenunciava o pior. O resgate dos reféns, a possibilidade de um corredor humanitário, o destino de estrangeiros sem porta de escape daquela terra condenada — era tudo incerteza. Cinquenta anos atrás, uma colossal ofensiva militar da Síria e do Egito também pegou Israel de surpresa. Foram 19 dias de combates ferozes que transformaram a cena política do país e da região. Golda Meir, chefe do governo trabalhista que erguera Israel das cinzas do Holocausto, renunciou ao cargo por não ter prevenido o duplo assalto. Deixou aos inimigos uma das frases mais profundas e amargas da História:

— Eu não os odeio por terem matado nossas crianças. Eu os odeio por terem me levado a matar as vossas crianças.

A causa palestina de um Estado independente, laico e de convívio com Israel precisa ser possível, precisa ser viável. Não é mais possível desviar o olhar do que está à nossa frente: um povo em busca de existência.

Desordem mundial

Os tempos de paz foram, porventura, uma ilusão. Até porque ao longo das décadas em que pensávamos estar a viver em paz, nunca deixaram de existir guerras, conflitos escondidos e ataques desmesurados aos direitos humanos. Havia, no entanto, uma diferença fundamental em relação ao que se observa agora: apesar de as armas nunca se terem calado, a esmagadora maioria dos líderes mundiais continuava, em público, a falar da necessidade de pacificação mundial. Por isso, em busca de reconhecimento ou de uma glória efémera, desdobravam-se em conversações e em tentativas de acordos de paz – com a fotografia da assinatura a ficar guardada para a posteridade. Havia vergonha em apelar à guerra. Havia…

Os tempos mudaram. Em especial desde a retirada das tropas americanas e dos seus aliados no Afeganistão – o momento em que foi anunciado, com estrondo, o fim da chamada pax americana, em que vivíamos desde o final da Guerra Fria. Desde então, ficou livre o caminho para a criação de novas esferas de influência, em que vários atores procuram ganhar poder regional ou até reconhecimento mundial.


Agora, há ataques contínuos e cada vez mais explícitos à ordem internacional saída dos escombros da II Guerra Mundial. Não há zona do globo onde não se registem tensões e um escalar de conflitos que acabam por ter implicações em todo o mundo.

O que está a ocorrer no Médio Oriente é bem o exemplo desta nova desordem mundial, em que mergulhámos, de forma desprevenida, mas com consequências dramáticas, como sucede em todas as guerras. Aquela que foi uma das regiões mais martirizadas do globo nas últimas décadas parecia estar a caminhar, segundo uma visão superficial, para uma certa normalidade. Havia aproximações entre a Arábia Saudita e Israel, percebiam-se as tentativas de alguma parte do bloco ocidental para criar pontes com o Irão, apesar de o regime continuar a desenvolver o seu plano nuclear e a persistir na repressão dos direitos humanos. Afinal, era tudo uma ilusão. Os últimos dias demonstraram que organizações como o Hamas – mas também o Hezbollah – têm o poder para mergulhar a região no caos. E, mais uma vez, ficou demonstrado que os discursos de líderes autoritários e populistas, como Benjamin Nethanyau, sempre a insistir na tecla da segurança, são afinal ilusórios perante a realidade. Só isso explica que aqueles que eram considerados os melhores serviços secretos do mundo tenham sido apanhados completamente desprevenidos perante o ataque assassino perpetrado pelo Hamas, que visou diretamente a população civil de Israel.

Duma forma ou doutra, esta ação terrorista do Hamas não deixa de ser inspirada na invasão da Ucrânia pelas tropas de Vladimir Putin, outro momento fundador desta nova desordem mundial. E cujas consequências estão a alastrar pela zona europeia, com uma escalada preocupante no conflito adormecido entre a Sérvia e o Kosovo, nos Balcãs, mas também a servir de “combustível”, mesmo que indireto, para a tentativa do Azerbaijão de controlar o enclave de Nagorno-Karabakh na Arménia, que já provocou dezenas de milhares de refugiados.

Em África, por seu lado, sucedem-se os golpes militares na região do Sahel, criando um efeito de contágio que ameaça alastrar a outros pontos do continente, onde o combate à violência jihadista é aproveitado pela Rússia, através do grupo Wagner, para ganhar novos aliados. E, para cúmulo de tudo, nos EUA assistimos, atualmente, a um descontrolo total nas estruturas do poder, por causa da deriva extremista que está a tomar conta do Partido Republicano e, com isso, a paralisar o normal funcionamento das instituições da maior potência mundial. Quem beneficia, afinal, desta desordem? A resposta, infelizmente, ainda vai demorar a ser encontrada.

Manter a tensão interessa aos envolvidos

Em toda disputa, o maior objetivo é provocar no adversário a reação esperada. A previsibilidade decorrente dessa tática permite o planejamento estratégico. Quem domina essa técnica é capaz de manter a iniciativa. Reduzido à condição de coadjuvante, o adversário consome seu tempo e energia reagindo, enquanto o protagonista se ocupa do próximo lance.

Se dois atores em lados opostos souberem empregar esse método com maestria e sem limites morais, ele se torna a única tática efetiva. O centro do tabuleiro é esvaziado, e a eletricidade se concentra nos polos opostos. Os extremistas palestinos e israelenses empregam essa técnica há 80 anos. Sua eficácia avassaladora e seu custo humano são comprovados mais uma vez.


As Forças de Defesa de Israel ignoraram as advertências dos serviços de inteligência israelense, egípcio e americano. Elas falharam durante as incursões do Hamas no dia 7 porque suas atenções estavam voltadas para as prioridades do governo de Binyamin Netanyahu: a expansão das colônias judaicas na Cisjordânia e o acesso de fiéis judeus ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa.

O governo israelense não concede alvará de construção para palestinos na Cisjordânia e demole casas novas, assim como as residências das famílias de palestinos acusados de atos de violência. Ao mesmo tempo, financia a construção de novas moradias e a criação de novos assentamentos para judeus na Cisjordânia.

Essa política tem elevado as tensões e fomentado a atuação de células terroristas e de ataques de palestinos contra colonos judeus e contra as forças de segurança israelenses. Os judeus podem andar armados; os palestinos, não.

Os colonos, muitos deles recém-chegados da Europa e dos Estados Unidos, invadem casas de palestinos cujas famílias moram na Cisjordânia há muitas gerações, e os agridem, gritando frases como “vão embora, aqui não é a sua terra”. Algumas vezes, sob o olhar de aprovação de soldados israelenses.

REGRA. O ministro de Segurança Itamar Ben-Gvir, líder dos colonos judeus da Cisjordânia, defende o livre acesso de fiéis judeus ao complexo da Mesquita de Al-Aqsa. Grupos religiosos judeus acreditam que suas orações nesse local dariam início à construção do 3.º Templo. O 2.º Templo foi destruído pelos romanos no ano 70.

No mesmo local foi construída a mesquita entre 685 e 715. Os tratados de Paris e de Berlim, que regem o acesso a lugares sagrados em áreas disputadas, firmados em 1856 e 1878 respectivamente, determinam que só os judeus rezem no Muro das Lamentações, as fundações que restaram do 2.º Templo, e só os muçulmanos tenham acesso à parte de cima.

Israel tradicionalmente respeitou essa regra, violada pelo atual governo ultranacionalista. No terceiro dia da festa judaica dos Tabernáculos, dia 1.º, a polícia israelense ordenou que os palestinos fechassem suas lojas na Cidade Velha de Jerusalém, e impediu o acesso dos muçulmanos, para garantir a entrada de judeus no complexo de Al-Aqsa.

O Hamas denominou a incursão no dia 7 de “Inundação de Al-Aqsa”. Segundo seu comandante militar, Mohammed Deif, a operação começou a ser planejada em maio de 2021, depois que policiais israelenses invadiram a mesquita, durante o mês sagrado muçulmano do Ramadã, espancaram e arrastaram palestinos de dentro de lá, alegando que eles os haviam atacado.

O Hamas venceu as eleições de 2006 na Faixa de Gaza e seu rival palestino, o Fatah, ganhou na Cisjordânia. Mas Estados Unidos e União Europeia anunciaram o corte da ajuda de meio bilhão de dólares cada para os palestinos, se o Hamas assumisse, por considerá-lo organização terrorista. O Fatah então continuou governando Gaza até o ano seguinte, quando o Hamas tomou o poder no território à força.

Desde então, houve cinco guerras entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, que está sob bloqueio israelense. Metade da população do território está desempregada. Segundo o Programa de Alimentos da ONU, 1,84 milhão de palestinos não tem comida suficiente, ou seja, um terço da população nos dois territórios e mais Jerusalém Oriental. Desses, 1,1 milhão vive em “grave insegurança alimentar” – 90% deles na Faixa de Gaza.

Esse ambiente estimula o radicalismo palestino. Os ultranacionalistas israelenses sabem disso. A perpetuação do conflito interessa a ambos. Fazer essa análise não é justificar a violência. É entender suas causas. E, nesse sentido, honrar suas vítimas.

sábado, 14 de outubro de 2023

Pensamento do Dia

 


A guerra

A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito do erro da filosofia.
A guerra, como todo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.
Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do Universo por nós.
Tendo por consequência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer alterar.
Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer coisas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.
A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.
A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.
Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as coisas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

Alberto Caeiro (heterônimo de Fernando Pessoa)

Os últimos dias da morte

No século XXI, é provável que os humanos façam um lance sério para a aquisição da imortalidade. A luta contra a velhice e a morte será tão somente a continuação da luta, consagrada pelo tempo, contra a fome e a doença, e uma manifestação do valor supremo da cultura contemporânea: a valorização da vida humana. Somos constantemente lembrados de que ela é o que há de mais sagrado no universo. Todos dizem isso: professores nas escolas, políticos nos parlamentos, advogados nos tribunais e atores nos palcos de teatros. A Declaração Universal dos Direitos do Homem, adotada pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a Segunda Guerra Mundial — e que talvez seja o que há de mais próximo que temos de uma Constituição global —, declara categoricamente que o “direito à vida” é o valor fundamental da humanidade. Por se constituir em uma clara violação desse direito, a morte é um crime contra a humanidade, e temos de travar uma guerra total contra ela.

Durante a História, religiões e ideologias não santificaram a vida em si mesma. Santificaram sempre algo que está acima ou além da existência terrena, e consequentemente foram bem tolerantes com a morte. De fato, algumas delas mostraram-se bastante afeiçoadas ao Anjo da Morte. Uma vez que o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo insistiam que o significado de nossa existência dependia da sina no pós-vida, elas consideravam a morte como parte vital e positiva do mundo. Humanos morriam porque Deus assim decretava, e o momento de sua morte era uma experiência metafísica sagrada e repleta de significado. Quando um humano estava próximo de seu derradeiro suspiro, era hora de convocar sacerdotes, rabinos e xamãs, fazer o balanço de sua vida e assumir seu verdadeiro papel no universo. Tente imaginar o cristianismo, o islamismo ou o hinduísmo em um mundo sem mortes — o que seria também um mundo sem céu, inferno ou reencarnação.

A ciência e a cultura modernas têm uma visão totalmente diferente da vida e da morte. Não pensam nesta última como um mistério metafísico, e certamente não a veem como a fonte do sentido da vida. Na verdade, para pessoas modernas a morte é um problema técnico que pode e deve ser resolvido.

Como, exatamente, morrem os humanos? Histórias fantásticas medievais descrevem a Morte como uma figura envolvida por um manto negro com capuz, empunhando uma grande foice. Um homem vive sua vida, preocupando-se com isto e aquilo, correndo para lá e para cá, quando subitamente o Anjo da Morte surge à sua frente, bate em seu ombro com um dedo esquelético, e diz: “Venha!”. E o homem implora: “Não, por favor! Espere só um ano, um mês, um dia!”. Mas a figura encapuzada sibila: “Não! Você tem de vir AGORA !”. E é assim que morremos.


Na realidade, contudo, humanos não morrem porque uma figura envolta em um manto negro bate em seu ombro, ou porque Deus assim decretou, ou porque a mortalidade é parte essencial de algum grande plano cósmico. Humanos morrem devido a alguma falha técnica. O coração para de bombear sangue. A artéria principal entope com depósitos de gordura. Células cancerosas espalham-se no fígado. Germes multiplicam-se nos pulmões. E de quem é a responsabilidade por todas essas falhas técnicas? Outros problemas técnicos. O coração para de bombear o sangue porque não chega bastante oxigênio ao músculo cardíaco. Células cancerosas se espalham porque uma mutação genética acidental reescreve suas instruções. Germes se instalaram nos meus pulmões porque alguém espirrou no metrô. Nada metafísico. Somente problemas técnicos.

E todo problema técnico tem uma solução técnica. Não é preciso esperar pela volta de Cristo à Terra para superar a morte. Alguns nerds num laboratório podem fazer isso. Se a morte era tradicionalmente a especialidade de sacerdotes e teólogos, hoje são os engenheiros que estão assumindo o caso. As células cancerosas podem ser mortas por meio de quimioterapia ou por nanorrobôs. Os germes nos pulmões podem ser extintos com o uso de antibióticos. Se o coração parar de bater, é possível fortificá-lo com medicamentos e choques elétricos — e, se isso não funcionar, pode-se realizar o implante de um coração novo. É verdade que no momento não dispomos de solução para todos os problemas técnicos. Mas é exatamente por causa disso que investimos tanto tempo e dinheiro em pesquisas sobre o câncer, germes, a genética e a nanotecnologia.

Mesmo os leigos, que não estão envolvidos em pesquisas científicas, acostumaram-se a pensar na morte como um problema técnico. Quando uma mulher vai ao médico e pergunta “Doutor, o que há de errado comigo?”, ele poderá responder “Bem, você está com uma gripe” ou “Você tem tuberculose”, ou “Você tem câncer”. Mas nunca dirá “Você tem morte”. E é generalizada a percepção de que uma gripe, a tuberculose e o câncer são problemas técnicos, para os quais algum dia poderemos encontrar a solução técnica.

Mesmo quando pessoas morrem num furacão, num acidente de carro ou numa guerra, tendemos a tratar esse evento como uma falha técnica que poderia e deveria ter sido evitada. Se o governo tivesse adotado uma política melhor; se a municipalidade tivesse feito adequadamente seu trabalho; se o comandante militar tivesse tomado uma decisão mais sensata, a morte poderia ter sido evitada. A morte tornou-se um motivo quase automático para processos legais e investigações. “Como é possível que tenham morrido? Alguém, em algum lugar, meteu os pés pelas mãos.”

A grande maioria dos cientistas, médicos e estudiosos ainda se distancia de sonhos explícitos com a imortalidade com a alegação de que estão tentando superar este ou aquele problema específico. No entanto, como a velhice e a morte são o resultado de problemas específicos, e nada além disso, não existe um ponto no qual médicos e cientistas irão se deter e declarar: “Até aqui, e nenhum passo a mais. Já superamos a tuberculose e o câncer, mas não vamos erguer um só dedo para combater o Alzheimer. As pessoas poderão continuar a morrer desse mal”. Não se afirma na Declaração Universal dos Direitos do Homem que os humanos têm “direito à vida até os noventa anos”. O que se diz é que todo ser humano tem direito à vida. Ponto. Esse direito não é limitado por uma data de vencimento.

Consequentemente, uma minoria crescente de cientistas e pensadores está falando mais abertamente sobre o assunto hoje em dia e declara que a principal empreitada da ciência moderna é derrotar a morte e garantir aos humanos a juventude eterna. Exemplos notáveis são o gerontologista Aubrey de Grey e o polímata e inventor Ray Kurzweil (ganhador da Medalha Nacional dos Estados Unidos para Tecnologia e Inovação em 1999). Em 2012, Kurzweil foi nomeado diretor de engenharia no Google, e um ano depois o Google lançou uma subcompanhia chamada Calico, cuja missão declarada é “resolver a morte”. 
Recentemente o Google nomeou outro verdadeiro crente na imortalidade, Bill Maris, para presidir o fundo de investimentos Google Ventures. Em uma entrevista concedida em janeiro de 2015, Maris disse: “Se vocês me perguntarem hoje se é possível viver até os quinhentos anos, a resposta é sim”. Maris dá suporte a suas corajosas palavras com investimentos pesados. O Google Ventures está investindo 36% de sua carteira de 2 bilhões de dólares em start-ups na área da biociência, inclusive projetos ambiciosos relacionados com a prorrogação da vida. Empregando uma analogia com o futebol americano, Maris explicou que na luta contra a morte “não estamos tentando avançar algumas jardas. Estamos tentando ganhar o jogo”. Por quê? Porque, segundo ele, “viver é melhor do que morrer”.

Esses sonhos são compartilhados com outros luminares do Vale do Silício. O cofundador do PayPal, Peter Thiel, confessou recentemente que tem o desejo de viver para sempre. “Acredito que existem três modos de encarar [a morte]”, ele explicou. “Você pode aceitá-la, negá-la ou combatê-la. Nossa sociedade é dominada por pessoas que estão entre a negação e a aceitação; eu prefiro combatê-la.” Muitos irão rejeitar tais declarações por considerá-las fantasias de adolescentes. No entanto, Thiel deve ser levado muito a sério. Um dos mais bem-sucedidos e influentes empreendedores no Vale do Silício, possui uma fortuna pessoal estimada em 2,2 bilhões de dólares. É bem óbvio: igualdade é out — imortalidade é in.

O desenvolvimento vertiginoso de campos como a engenharia genética, a medicina regenerativa e a nanotecnologia estimulam profecias ainda mais otimistas. Alguns especialistas acreditam que os homens vão vencer a morte por volta de 2200; outros anunciam que isso acontecerá em 2100. Kurzweil e De Grey são ainda mais confiantes: eles sustentam que qualquer pessoa que tenha um corpo saudável e uma igualmente saudável conta bancária terá em 2050 uma chance séria de imortalidade, enganando a morte uma década por vez. Segundo esses dois estudiosos, a cada dez anos aproximadamente poderemos ir até uma clínica e receber um tratamento renovador que não só irá curar doenças, como também regenerar tecidos deteriorados e aumentar a eficácia de mãos, olhos e cérebro. Antes de se realizar o próximo tratamento, os médicos terão inventado uma série de novos medicamentos, atualizações e uma variedade de dispositivos. Se Kurzweil e De Grey estão certos, talvez já haja alguns imortais caminhando a seu lado na rua — ao menos se você estiver andando por Wall Street ou pela Quinta Avenida.

Na verdade, eles serão amortais, e não imortais. Ao contrário de Deus, os futuros super-homens poderão morrer em alguma guerra ou em um acidente de trânsito, e nada os trará de volta. Contudo, diferentemente de nós, mortais, suas vidas não teriam “data de vencimento”. Enquanto uma bomba não os fizer em pedaços ou um caminhão não lhes passar por cima, poderão continuar a viver indefinidamente. No entanto, é bem provável que isso fará dessas pessoas as mais ansiosas na História. Nós mortais arriscamos diariamente nossa vida porque sabemos que ela, de um jeito ou de outro, vai acabar. Assim, saímos em jornadas no Himalaia, nadamos no mar e participamos de outras ações perigosas, como atravessar a rua ou comer fora. Mas, se acreditarmos que podemos viver para sempre, seremos loucos se apostarmos com o infinito.

Será que teríamos um começo melhor se adotássemos metas mais modestas, como duplicar a expectativa de vida? No século XX , quase a duplicamos — a expectativa de vida passou de quarenta para setenta anos —; assim, no século XXI , poderíamos ao menos tornar possível uma nova duplicação e chegar aos 150. Embora esteja muito aquém da imortalidade, essa conquista iria revolucionar a sociedade humana. De saída, estrutura familiar, matrimônio e relações entre pais e filhos seriam transformados. Hoje em dia, as pessoas ainda esperam estar casadas “até que a morte as separe”, e boa parte da vida gira em torno de ter e criar filhos. Agora, tentemos imaginar uma pessoa com 150 anos de idade. Se se casasse aos quarenta, ela ainda teria 110 anos pela frente. Seria realista esperar que um casamento dure 110 anos? Até mesmo os fundamentalistas católicos veriam isso como um obstáculo. Em decorrência, a tendência atual de casamentos em série provavelmente se intensificaria. Uma pessoa que tem dois filhos aos quarenta anos terá, quando completar 120, apenas uma lembrança remota dos anos que dedicou à sua criação — um episódio menor em sua longa vida. Difícil dizer que tipo de relação pais-filhos poderia se desenvolver em tais circunstâncias.

E quanto às carreiras profissionais? Atualmente, de modo geral, estuda-se para se ter uma profissão da adolescência até pouco mais de vinte anos; depois, passa-se o resto da vida atuando nessa atividade. Obviamente existe um aprendizado mesmo quando se está com quarenta ou cinquenta anos, mas a vida costuma dividir-se em um período de aprendizagem seguido de um período de trabalho. Isso não vai funcionar se as pessoas começarem a viver até os 150 anos, sobretudo em um mundo constantemente sacudido por novas tecnologias. As carreiras serão muito mais longas e será preciso se reinventar de novo e de novo, mesmo aos noventa anos.

Ao mesmo tempo, as pessoas não vão se aposentar aos 65 anos nem vão abrir caminho para a nova geração com suas ideias inovadoras e suas aspirações. Em uma citação famosa, o físico Max Planck afirmou que a ciência avança de funeral em funeral. Ele quis dizer que somente quando uma geração desaparece é que surgem novas teorias com uma chance de erradicar as antigas. Isso se aplica não apenas às ciências. Pense por um momento em seu lugar de trabalho. Não importa se você é um acadêmico, um jornalista, um cozinheiro ou um jogador de futebol. Como você se sentiria se seu chefe tivesse 120 anos, suas ideias tivessem sido formuladas quando a rainha Vitória ainda governava, e sabendo que ele provavelmente permaneceria como seu chefe por mais algumas décadas?

Na esfera política, os resultados poderiam ser ainda mais sinistros. Você gostaria de ver Vladimir Putin circulando por aí por mais noventa anos? Pensando melhor, se as pessoas vivessem até os 150 anos, Stálin ainda estaria em Moscou, em 2016, governando firme e forte aos 138 anos, o presidente Mao estaria na meia-idade, com 123, e a princesa Elizabeth estaria esperando sentada para herdar o trono de um Jorge VI com 121 anos. Seu filho, o príncipe Charles, não chegaria a reinar antes de 2076.

De volta ao domínio da realidade: estamos muito longe de qualquer certeza de que as profecias de Kurzweil e De Grey se realizarão em 2050 ou em 2100. Minha opinião pessoal é de que as esperanças de juventude eterna no século XXI são prematuras, e quem quer que as leve demasiadamente a sério está sujeito a sofrer um amargo desapontamento. Não é fácil viver com a consciência de que vamos morrer, mas é muito pior acreditar na imortalidade e constatar que tudo se tratava de um equívoco.

Embora a duração média de vida tenha duplicado nos últimos cem anos, não é razoável extrapolar e concluir que podemos duplicá-la novamente para alcançar 150 anos no século seguinte. Em 1900, a expectativa de vida global não excedia os quarenta anos porque jovens morriam de subnutrição, doenças infecciosas e violência. Porém, quem escapava à fome, à peste e à guerra podia viver até os setenta ou oitenta anos, que é a duração de vida natural do Homo sapiens. Ao contrário do que em geral se supunha, em séculos anteriores os septuagenários não eram considerados aberrações da natureza. Galileu Galilei morreu com 77 anos, Isaac Newton com 84, e Michelangelo viveu 88 anos, sem a ajuda de antibióticos, vacinas ou transplante de órgãos. De fato, mesmo os chimpanzés na selva podem ter seis décadas de vida.

Na verdade, até o presente a medicina não prolongou o tempo de vida natural do ser humano em um ano sequer. Sua grande conquista foi nos salvar da morte prematura e permitir que usufruamos da plenitude da existência. Mesmo que o câncer, a diabetes e outros grandes assassinos possam ser vencidos, poderíamos nos estender até os noventa anos — mas isso não seria suficiente para nos levar aos 150, muito menos aos quinhentos anos. Para isso, a medicina terá não só de realizar a reengenharia das estruturas e dos processos fundamentais do corpo humano como também descobrir como regenerar órgãos e tecidos. Não está claro se seremos capazes de fazer isso até 2100.

Não obstante, toda tentativa frustrada de vencer a morte nos aproxima um passo do alvo, e isso vai nos dar esperança e encorajar esforços ainda maiores. Embora provavelmente a Calico, do Google, não vá “resolver a morte” a tempo de tornar imortais Sergey Brin e Larry Page (cofundadores do Google), decerto descobertas significativas em biologia celular, medicina genética e saúde humana serão realizadas. A próxima geração de googlers poderá iniciar seu ataque à morte a partir de posições mais recentes e mais efetivas. Os cientistas que gritam “imortalidade” são como o garoto que gritou “lobo”: mais cedo ou mais tarde, o lobo realmente aparece.

Mesmo que não conquistemos a imortalidade durante nossa existência, a guerra contra a morte ainda será o projeto emblemático do próximo século. Acrescente à nossa crença na santidade da vida humana a dinâmica do estamento científico e a esta as necessidades da economia capitalista, e a guerra implacável contra a morte parece inevitável. Nosso compromisso ideológico com a vida humana nunca permitirá que simplesmente aceitemos a morte. Enquanto a morte for motivada por alguma coisa, estaremos empenhados em superar suas causas.

O estado científico e a economia capitalista ficarão mais do que felizes em endossar esse empenho. A maior parte de cientistas e banqueiros não se importa com o que estão trabalhando, contanto que isso lhes ofereça a oportunidade de fazer novas descobertas e obter maiores lucros. Pode alguém imaginar um desafio científico maior do que driblar a morte — um mercado mais promissor do que o da juventude eterna? Se você tem mais de quarenta anos, feche os olhos por um minuto e tente se lembrar do corpo que tinha aos 25. Não se concentre em sua aparência, mas acima de tudo em como era senti-lo. Você estaria disposto a pagar quanto pela oportunidade de ter aquele corpo de volta? Sem dúvida, algumas pessoas não se importariam muito com isso, mas haveria muitas outras dispostas a pagar grandes quantias, constituindo um mercado quase infinito.

Se tudo isso ainda não é o bastante, o medo da morte entranhado na maioria dos humanos confere à guerra contra a morte um ímpeto irresistível. Desde que se conscientizaram de que a morte é inevitável, as pessoas se condicionaram a suprimir o desejo de viver para sempre, ou o refrearam em favor de novas metas. Elas querem viver para sempre e assim compõem uma sinfonia “imortal”, empenham-se pela “glória eterna” em alguma guerra, ou mesmo sacrificam a própria vida para que sua alma “desfrute da felicidade perpétua no paraíso”. Grande parte de nossa criatividade artística, de nosso comprometimento político e de nossa fé religiosa é alimentada pelo medo da morte.

Uma vez perguntaram a Woody Allen, que fez uma carreira fabulosa falando do medo da morte, se ele esperava viver para sempre nas telas. Allen respondeu: “Eu preferiria viver em meu apartamento”. E acrescentou: “Não quero atingir a imortalidade por meio do meu trabalho. Quero atingi-la não morrendo”. Glória eterna, cerimônias comemorativas nacionalistas e sonhos com o paraíso são substitutos muito insatisfatórios para o que humanos como Woody Allen realmente desejam — não morrer. Se as pessoas pensarem (com ou sem bons motivos) que têm uma boa probabilidade de escapar da morte, a vontade de viver se recusará a continuar empurrando a carroça da arte, da ideologia e da religião e se lançará à frente como uma avalanche.

Se você acha que fanáticos religiosos com olhos flamejantes e barbas esvoaçantes são cruéis, espere só para ver o que farão magnatas idosos do varejo e estrelinhas de Hollywood envelhecendo quando pensarem que o elixir da vida está ao alcance deles. Se e quando a ciência fizer um progresso significativo na guerra contra a morte, a batalha real sairá dos laboratórios para os parlamentos, os tribunais e as ruas. Os esforços científicos, uma vez coroados de sucesso, desencadearão conflitos políticos amargos. Todas as guerras e todos os conflitos da história tornar-se-ão um pálido prelúdio da verdadeira batalha a nossa frente: a busca da juventude eterna.
Yuval Noah Harari, "Homo Deus: uma breve história do amanhã"

O mundo em guerra

O mundo está em guerra, como sempre. O mundo tem hoje cerca de dez guerras em andamento. Todas são igualmente iguais, pela sua insensatez, crueldade e mortes. Mas algumas têm mais relevância pela sua amplitude e consequências políticas.

As três mais relevantes hoje são a Guerra entre o Hamas e Israel, sendo o Oriente Médio o berço e a origem dos conflitos de nossa civilização; a Guerra da Ucrânia, uma guerra geopolítica entre a Rússia e os Estados Unidos que domina toda a Europa, e joga por baixo a noção da relativa estabilidade da ordem mundial pós Segunda Guerra; e o possível conflito entre os Estados Unidos e a China, na luta pela hegemonia mundial deste século XXI, com a China tendendo a ultrapassar o PIB do Estados Unidos, gerando tensões que podem resultar em guerra. Este é o trio que nos amargura na visão quase apocalíptica do amanhã.

No berço de nossa civilização, Gregos e Persas se antepuseram, a Grécia mais ligada à noção de democracia, a Pérsia mais baseada no conceito do estado centralizado. Samuel Huntington, em “O choque de civilizações”, fala-nos sobre a relativa diminuição da economia ocidental e o relativo aumento da economia dos países árabes e islâmicos, em concepções antepostas. Israel com política expansionista territorial, entra em conflito contínuo com os Palestinos, ainda sem a constituição de um Estado, e com o mundo Árabe, com poucas chances de solução em não havendo negociação.


Na Europa, chega a impressionar que um país como a Ucrânia, com PIB de US$ 200 bilhões em 2021 e renda per capita de US$ 3.500, 00 dólares, hoje com o PIB diminuído para US 160 bilhões e recebendo auxílio militar de US$150 bilhões no primeiro ano do conflito, seja o palco de tamanha guerra que abala os alicerces mundiais. Em 2021, o PIB da Rússia aumentou 22%, o dos Estados Unidos 9%, o da União Europeia caiu 3,5%. Desde 1950, os Estados Unidos participaram em cerca de 30 guerras no mundo, a Rússia em seis.

No Mar da China, navios e aviões da China e dos Estados Unidos provocam-se reciprocamente, aumentando a possibilidade de conflito. De 2000 a 2021, o PIB dos Estados Unidos foi de US$ 10,3 trilhões para US$ 23,3 trilhões, a China de US$ 1,2 trilhões para US$ 17,7 trilhões. A China reivindica Taiwan, responsável por 90% da produção mundial dos supercondutores na vanguarda do conhecimento, os Estados Unidos defendem a sua autonomia. Os supercondutores são fundamentais na determinação do poder econômico e político das nações no século XXI. A luta que era antes por colônias, depois por petróleo, agora é por supercondutores.

Na música de Rita Lee, “Alô, alô Marciano, aqui quem fala é da Terra, pra variar, estamos em guerra, você não imagina a loucura, o ser humano tá na maior fissura porque, tá cada vez mais down in the high society”. O mundo é cego, e marcha para a sua possível autodestruição, na contraposição do mercado e da crise ecológica que se aproxima.