quarta-feira, 5 de maio de 2021

O meu voto merece respeito!

Os programas de fidelidade se tornaram comuns nos últimos tempos. Eles capturam clientes oferecendo trocar pontos, que se acumulam periodicamente, por produtos e serviços disponíveis nos seus catálogos. Nem sempre são escambos justos.

Trocar fidelidade por benefícios também ocorre em ambiente político, com implicações para a saúde moral da sociedade. Alguns dizem que permutar apoios por recompensas pessoais é fazer política. Trocar apoios por projetos, isso sim, é fazer política!

No passado, barganhas imorais eram mais sutis, negociadas em restrito. Exceto quando alguém não cumpria o acordo. Abria-se então a cortina de um espetáculo bizarro. A cena: criminosos enfiando dinheiro de transações espúrias em cuecas, meias e até…

Com o advento da política nas mídias sociais, a fidelidade foi exigida à luz do dia. Os usuários são instados a declarar seus amores a líderes duvidosos, reforçando as falas desconexas dessas figuras. Ao mesmo tempo, lhes é imposto externar suas repulsas aos contendores em estridentes decibéis.
conteudo patrocinado


Contudo, no escurinho do cinema, as velhas práticas permaneceram. As planilhas de fidelização se sofisticaram. Trazem links para os aplicativos de mídia social dos beneficiados, com valores específicos e apoios exigidos.

Esse processo tornou-se intolerável. Quaisquer justificativas para o seu uso são cínicas e devem ser anuladas da consciência dos virtuosos.

A larga maioria das pessoas não participa desses conchavos. Exercitam suas vontades cidadãs em benefício da boa fé. São crédulos nos dons dos seus políticos. Confiam que seus esforços reverterão em boas políticas públicas.

É compreensível esse denodo, pois governos pretéritos foram criminosamente desastrosos e fruto de seus descalabros ainda sofremos muitas sequelas. A mentira é a matriz da corrupção. E foi contra essa praga que nos unimos há dois anos. Não pode ter sido em vão.

O contrato entre eleitor e eleito continua pouco legível, com letras miúdas e referências de rodapé que protegem a má gestão dos mandatários. A maioria dos eleitores os assina sem o cuidado de lê-los.

Nesse programa existem diferentes classes de cartão. Os BLACK têm acesso aos convescotes do poder e dirigem a massa a partir de uma sala localizada na inacessível torre executiva.

Aqueles que participam lá embaixo, figurantes no cenário diário da sobrevivência, são os portadores do cartão mais simples que nada lhes oferece em troca.

É quase um roteiro adaptado do filme Show de Truman (1998), obra distópica com Jim Carrey, no qual o ator é ludibriado diariamente, tendo sua vida integralmente dominada pelo diretório central.

Sabe aquelas pirâmides financeiras miraculosas? Nelas, o ladino que as gestou, e que sempre se encontra no topo, é o único ganhador. Pois bem, é isso que vem acontecendo.

O sistema atual, embora enfermo por tudo que vemos, respira sem aparelhos. As aglomerações confirmaram os analistas de política. Os extremos se estabilizaram. Nichos amalgamados, mas sem expectativas de crescimento. Não são trincheiras inexpugnáveis. Mas merecem ser respeitadas.

Os gestores desses grupos já perceberam o rechaço a produtos radicais. Lançarão novas campanhas, buscando tosquiar a velha imagem, adaptando-a aos ares de momento. Resta saber se conseguirão vender a nova efígie.

Há um vácuo e, portanto, é hora de lançar-se um novo programa de fidelidade, distinto dos ultrapassados, com regras claras, letras em tamanho normal e cláusulas de destituição mais eficientes contra os maus gestores.

Vamos ser claros: se queremos uma opção aos extremos, a via de acesso precisa ser logo mobiliada e pela melhor tropa. Uma que detenha disposição para atacar com resiliência na busca do objetivo final. Uma que saiba unir aliados de naturezas diversas. Quanto mais adiar o ataque principal, mas tempo as defesas adversárias terão para ajustar-se.

O que se deseja ao conquistar o objetivo? Uma gestão executiva que promova bem-estar social e recupere nossa confiança como cidadão.

Eu não ofereço cheque em branco assinado a qualquer governante para usá-lo em meu nome. Reconheço a importância das escolhas. Acerta-se e erra-se. Mas reconheço mais ainda que o meu voto merece respeito.
Otávio Santana do Rêgo Barros

Imagem do Brasil

 


Bem-vindos à galáxia paralela de Bolsonaro no Facebook

O Jair Messias Bolsonaro mais genuíno aparece toda quinta-feira em celulares e telas. Às 19 horas em ponto começa a live semanal do presidente do Brasil no Facebook. A cada sete dias, o elenco muda, mas o cenário, o roteiro e o tom variam pouco no resumo moldado à medida dos bolsonaristas da direita mais extremista. Dois indígenas, que ele apresentou como “irmãos índios”, o acompanharam esta semana como exemplo vivo do que motiva seu mais polêmico projeto legislativo para a Amazônia. Em calça e camisa, os dois convidados ofereciam a imagem do indígena de que Bolsonaro gosta, o assimilado à vida urbana. Nada a ver com os povos originários que vivem nas aldeias.

O presidente chegou a dizer que, para prosperar, os indígenas deveriam poder plantar em larga escala, cortar madeira, extrair ouro, diamantes ou construir hidrelétricas em suas terras, se assim quiserem (agora é ilegal). Falou-se em desenvolvimento social e econômico, mas nenhuma palavra sobre o valor ecológico dessas terras —que incluem a Amazônia—, a biodiversidade ou a crise climática.

O assunto que tomava as manchetes da imprensa naquele momento —o coronavírus já matou 400 mil brasileiros— foi mencionado de passagem durante a hora de transmissão, feita no Palácio do Planalto, em Brasília. Tudo sem máscaras nem distanciamento de segurança.


É uma espécie de Alô, presidente à la Bolsonaro. Versão 2.0 do formato inventado por outro populista, este de esquerda, o venezuelano Hugo Chávez. É a galáxia paralela que a extrema direita brasileira criou para se comunicar diretamente, agora desde o topo do poder político, com aqueles que permanecem ao seu lado, apesar da pandemia, da inflação, do desemprego e dos escândalos: um terço do eleitorado, segundo as pesquisas.

Com mais de 20 milhões de seguidores nas redes, reúne um grande público neste país de 210 milhões de habitantes. Quase um milhão de internautas assistiu ao último programa ao vivo, que ultrapassou os 93.000 comentários. O poder multiplicador do Facebook e do WhatsApp foi determinante para sua surpreendente vitória eleitoral em 2018 neste país sem televisão pública, onde a Rede Globo domina a televisão com imenso poder midiático.

O formato é sempre o mesmo. Bolsonaro está sentado atrás de uma mesa com um intérprete de sinais à sua esquerda (muitas vezes, a única mulher em cena, porque o Governo é quase todo masculino) e à direita, um ou dois ministros ou altos funcionários a quem ele faz perguntas como se lhes estivessem tomando a lição. Às vezes, anuncia medidas governamentais, como o bônus de Natal do Bolsa Família.

Na quinta-feira foi a vez do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Marcelo Xavier da Silva, delegado de polícia. Juntos, esmiuçaram a defesa do projeto de lei que visa autorizar a exploração de minérios em terras indígenas com o argumento de que não é possível que milhões de índios vivam na miséria em terras de fabulosas riquezas. Com eles, os indígenas Arnaldo, da etnia parecis, e Josélio, um surucucu. O primeiro falava em português fluente até que Bolsonaro o interrompeu: “Ei, fala alguma coisa na tua língua”.

Como todo populista, o Bolsonaro precisa de inimigos para manter as fileiras cerradas. Os desta quinta-feira eram a Europa, que apresentou como preocupada da boca pra fora com os indígenas, mas alheia às suas misérias, e as ONGs, e uma imprensa que acusa de desinformar ... Também repisou as clássicas ameaças do seu manual: o socialismo, comunismo, a Venezuela, a esquerda, o partido social-democrata, “o candidato que acaba de recuperar seus direitos políticos”, referindo-se a Luiz Inácio Lula da Silva. E com os olhos postos nas eleições presidenciais de 2022, agitou o fantasma da fraude eleitoral. Gabou-se de medidas governamentais e pronunciou uma de suas frases favoritas: “Eu me chamo Messias, mas não faço milagres”.

Os dois assuntos mais quentes na imprensa tradicional apareceram apenas fugazmente. Às vítimas da covid-19, Bolsonaro dedicou poucas palavras: “Lamentamos as mortes, chegou um número enorme de mortes”, seguidas de um apelo: “A gente espera que não haja uma terceira onda, a gente pede a Deus”. E sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que vai analisar a partir da próxima terça-feira as ações e omissões do seu Governo nesta crise sanitária, disse: “A gente continua trabalhando a todo vapor, não tamos preocupados com essa CPI, nós não tamos preocupados”. Em seguida, ele anunciou a inauguração de uma dessas obras eternas.

Desde que descobriu o filão de se comunicar com o povo sem intermediários, Bolsonaro o adotou com fervor. Os FBs ao vivo são agora a zona de conforto deste presidente que não dá coletivas de imprensa, oferece poucas oportunidades de ser abordado diretamente pela imprensa e só concede entrevistas a jornalistas afins. É a sua bolha, onde ninguém o questiona ou critica. As entrevistas diretas incluem perguntas via um celular que um militar traz para ele, mas não vêm do povo, e sim de jornalistas de um programa radiofônico simpático a ele.

O Brasil acaba de cair para a 111ª posição entre 180 países na classificação anual da Repórteres Sem Fronteiras. A RSF sustenta que “o contexto tóxico em que trabalham os profissionais da imprensa brasileira” é culpa principalmente do presidente. “Os insultos, a estigmatização e as humilhações públicas orquestradas contra os jornalistas se tornaram a marca registrada do presidente Bolsonaro, de sua família e de seu círculo próximo”, acrescenta a RSF.

Durante as transmissões presidenciais ao vivo, os internautas comentam. Entre incentivos, elogios e bênçãos ardentes, petições antidemocráticas como a de Rubanubio Pereira Silva: “Presidente, esperamos uma intervenção militar com o senhor à frente”.

Neste país aficionado pelas redes sociais, muitos momentos viralizaram. Dois dos mais polêmicos: ele e seu então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, um trumpista, bebem um copo de leite em um gesto interpretado pelos internautas como um aceno aos supremacistas brancos. E no dia em que o Brasil ultrapassou 55.000 mortes por covid-19, o atual ministro do Turismo, Gilson Machado, tocou no acordeão a Ave Maria em homenagem às vítimas junto com o presidente da “gripezinha”, o ministro da Economia e a intérprete de sinais. Para os 400.000 que morreram, não houve homenagem.

Pesquisa entre cidades bolsonaristas e não bolsonaristas confirma: negacionismo mata

Já que estamos falando de CPI da Covid, vale a pena entrar nas conclusões da mais nova e profunda pesquisa sobre os efeitos do negacionismo no número de casos e de mortes no Brasil: nos municípios onde o presidente Jair Bolsonaro teve mais de 50% dos votos no segundo turno de 2018, o risco de infecção foi 299% e o de mortes, 415% maior do que nos municípios onde ele perdeu a eleição.

Quando o foco fecha nas cidades mais ferrenhamente bolsonaristas, em que ele obteve mais de 70% no segundo turno, o resultado é ainda mais alarmante: quem vive num desses municípios chegou a ter 567% a mais de chance de se infectar e 647% a mais de risco de morrer do que numa cidade onde ele teve menos de 30% dos votos. Isso equivale a sete vezes mais mortes nas cidades onde Bolsonaro ganhou com ampla margem.

“O estudo joga luzes e mostra, metodologicamente, os efeitos nefastos do negacionismo dos líderes, particularmente sobre seus próprios apoiadores e seguidores”, registraram os autores, professores Sandro Cabral (Insper), Nobuiuki Ito (Ibmec) e Leandro Pongeluppe (Universidade de Toronto, Canadá). (Link).

Eles planejaram e executaram um trabalho ambicioso, que condensou os dados de mortes e casos de, nada mais nada menos, todos os 5.570 municípios brasileiros, durante as primeiras 52 semanas da pandemia, equivalentes a um ano. Todo esse banco gigantesco de dois milhões de dados foi cruzado com as informações do TSE sobre os resultados de 2018 em cada cidade.


É claro que outros fatores influenciam no maior ou menor risco de cidadãos e cidadãs por distribuição geográfica, renda, condições sanitárias, mas o estudo nos leva a uma conclusão lógica: onde as pessoas seguiram as orientações erradas e anticientíficas de Bolsonaro, todos ficaram mais expostos ao coronavírus.

Se o presidente combate ostensivamente o isolamento social e as máscaras – únicas “vacinas” possíveis antes das vacinas reais – as pessoas, particularmente as que votaram nele, passam a se aglomerar, a sair sem máscara, a se arriscar. Logo, a se contaminar e a contaminar os demais, inclusive quem não votou em Bolsonaro. E o risco de morte é maior para todos.

Um dado reforça a tese e é de fácil identificação visual nos gráficos da pesquisa: foi na sétima semana da pandemia, quando Bolsonaro fez o último (último!) pronunciamento oficial sobre a covid, no rádio e na TV, que o risco de infecção e morte aumentou claramente nos municípios com maioria bolsonarista em relação aos não bolsonaristas.

Dez semanas depois (na 17.ª), esse descolamento entre os registros nos dois blocos de cidades passa a ter fortíssima significância estatística. Com um detalhe: a partir da 38.ª semana, o distanciamento dispara. A dedução parece também lógica: ocorreu exatamente a partir das eleições municipais, quando os candidatos alinhados ao Planalto replicaram nos municípios bolsonaristas o discurso tóxico do “mito” no combate à pandemia.

A CPI, que começa quente hoje, com o depoimento do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, tem uma profusão de dados e vários caminhos a percorrer no negacionismo de Bolsonaro e de seu governo, incluindo uma guerra insana contra as vacinas, que levou o chefe da Casa Civil a se vacinar escondido. A pesquisa mostra até onde esse negacionismo levou o País.

Como destacaram os professores na apresentação do trabalho, “o estilo negacionista pode ser desastroso para toda a Nação e para a comunidade internacional”. Sim, o mundo não tem mais fronteiras, muito menos as regiões, Estados e municípios brasileiros. É impossível isolar os que se guiam pela ciência e a medicina dos que seguem cegamente os exemplos e as orientações perversas do presidente. Todos saem perdendo. E o resultado é perturbador.

Baratas em pânico

Certa vez escrevi que a vida de uma barata não valia nada no Brasil. Em pânico, sem ter para onde fugir, elas estavam morrendo em massa por uma campanha de dedetização então em curso por algum governo. De Jair Bolsonaro em diante, a frase precisa ser outra: o que não vale nada é a vida do brasileiro.

Diante de uma pandemia que acabara de surgir e já assombrava o mundo, Bolsonaro classificou-a como uma "gripezinha", que pouparia quem tivesse "histórico de atleta" e só mataria os velhos, o que, segundo ele, não era nada demais. Nos meses seguintes, à medida que a peste se espalhava e o Brasil enterrava pais e avós, Bolsonaro continuou a fomentá-la, exibindo-se sem máscara, promovendo aglomerações e debochando dos mortos e de suas famílias.

Em seguida, saiu à praça como camelô da cloroquina, droga tão eficaz no tratamento precoce da doença quanto no da ejaculação precoce. Obrigou o Exército a fabricá-la e médicos e hospitais a prescrevê-la, o que resultou em ainda mais mortes, agora também de nossos filhos e netos. Não satisfeito, Bolsonaro desdenhou das vacinas, sabotou sua importação e suspendeu compras. Muitos que estariam hoje se beneficiando delas já foram para o cemitério.

Bolsonaro pôde fazer o que quis porque, livre dos profissionais que tentavam impor as medidas adequadas, escalou como ministro cenográfico um palhaço de farda, Eduardo Pazuello, pronto a trocar a chefia da faxina de um quartel pela de executor de uma política de extermínio.

Nunca uma CPI teve tantos e tão bem documentados crimes a investigar. Afinal, tudo o que Bolsonaro, Pazuello e seus asseclas disseram e fizeram foi gravado —até por eles mesmos, certos da impunidade. Trataram os brasileiros como se fôssemos baratas, mas, agora, num surto de covardia que só não causa mais repugnância porque esperado, quem busca buracos para se esconder, como baratas em pânico, são eles.

Os brasileiros que a escola não alcança

"Nunca vi a escola como um negócio que futuramente me daria retorno. Eu ia para a escola quando mais novo, pois era obrigado." Essa é a visão que um ex-estudante da rede pública tinha da escola. Ele agora faz parte da estatística de alunos que não concluíram a educação básica. Dados da PNAD Educação 2019 apontaram que 20% das 50 milhões de pessoas de 14 a 29 anos no país não completaram alguma das etapas da educação básica.


O segundo maior motivo para a evasão escolar foi a "falta de interesse" e correspondeu a 29% do total de alunos que abandonaram a escola – o primeiro motivo é a necessidade de trabalhar (39%). Ao fazermos do diploma do ensino médio um pré-requisito para quase todos os empregos formais atualmente, criamos uma dificuldade de inserção no mercado de trabalho para aqueles que não o possuem. Nesse cenário, esses jovens acabam aceitando qualquer emprego para sobreviver, mesmo aqueles em que podem ser explorados ou não ter acesso a direitos trabalhistas básicos.

Por essa razão, acho o termo "falta de interesse" raso e perigoso, pois ao definirmos 2,9 milhões de jovens assim, estamos, consequentemente, assumindo que eles simplesmente escolheram ter uma vida adulta de dificuldade financeira, falta de oportunidades e sujeita a exploração no mercado de trabalho. Além disso, perdemos a oportunidade de os ouvir para entender o que faltou na escola para eles, se viam sentido nela.
Histórico de reprovação

Para entender um pouco as histórias de vida por trás da "falta de interesse", tive a oportunidade de conversar com quatro estudantes que abandonaram a escola e se enquadram no perfil. Um deles é do Amapá; uma é da Bahia; um, do Rio Grande do Sul; e o outro, de São Paulo.

Por coincidência, todos tinham histórico de reprovação antes de optarem por parar de frequentar a escola. "Na última vez que reprovei, caiu a minha ficha. No primeiro dia de aula quando voltei, pensei que tinha ido para o terceiro ano e não tinha ido. Naquele dia eu chorei tanto, meu Deus do céu", diz o aluno do Sul. Segundo os estudantes, se não tivessem repetido outras vezes, não teriam desistido.

Como os pais lidaram com as reprovações e a desistência? De acordo com os estudantes, de forma um tanto quanto indiferente. Segundo a aluna da Bahia: "Quando eu contei, eles já esperavam. Sabe a cara deles de 'tanto faz para mim, já esperava isso de você'. Aí meu pai disse que não valeria a pena tentar mais, pois iria reprovar novamente. Ali, para mim, meu mundo caiu. Coloquei na cabeça e nem tento mais. Sei que vou fracassar de novo. Foi ali que pensei, realmente devo parar, mas sinto muito falta".
Distante do "mundo real"

O maior motivo das reprovações foram as faltas. Eles simplesmente não tinham vontade de ir para a escola. Não viam sentido nem relação entre a instituição e o "mundo real" que conheciam. Principalmente, não enxergavam a escola como um instrumento de acesso a um futuro com mais oportunidades.

"Eu já tinha um pensamento de que estudo, lá na frente, não faria falta pra mim", diz o aluno de São Paulo. Já o do Amapá disse que "vivia bagunçando, queria ficar jogando bola. Fui expulso de uma escola, até hoje não me querem lá. Fui com alguns amigos. Ai me lasquei, né?"

Talvez a grande dificuldade seja fazer com que esses jovens vejam sentido na escola. Certamente não será tentando os convencer, a qualquer custo, de que é importante ler livros, ter acesso à literatura clássica e aprender matemática. Falta um sentido mais prático. Penso que, primeiro, precisamos buscar formas de tornar o mais visual, óbvio e explícito possível a relação entre escolaridade e mercado de trabalho. Dessa forma, pelo menos, iremos conseguir trazer para a conversa esses alunos "desinteressados". Eles poderão se apropriar mais da escola sabendo que ela terá uma relação direta com os seus sonhos e planos futuros. Pois todos eles têm sonhos, mas não associam a escola como instrumento para os alcançar.

Com eles na conversa e como parte ativa na construção de como a escola deveria ser, poderemos os ouvir e, principalmente, aprender com eles. Quais são as demandas que eles têm, mas que a escola não cobre? Como gostariam que fosse? O que falta para verem sentido nela? Dessa forma, teríamos na construção da educação brasileira também as vozes desses milhões de alunos que atualmente, infelizmente, não se interessam por ela.
Vinícius De Andrade

terça-feira, 4 de maio de 2021

Pensamento do Dia

 


El Salvador vira modelo 'democrático' dos Bolsonaro

Muito se tem falado nos últimos anos a respeito das novas formas de minar a democracia, sem a necessidade de golpes de Estado clássicos, com tanques e tropas nas ruas. Regimes e governantes eleitos pelo povo, em processos que nem necessariamente são evitados de fraude eleitoral, passam a minar as instituições imediatamente após empossados, com o objetivo claro de blindar seus governos de críticas, fiscalização e oposição e se perpetuar no poder.

O processo está em curso, sem nenhuma tentativa de disfarce, em El Salvador. Eleito em 2019 para presidir o País, o jovem publicitário Nayib Bukele, obteve em fevereiro deste ano uma importante vitória legislativa, conquistando 61 das 80 cadeiras legislativas. O triunfo teve resultado imediata: empossada, a nova Assembleia Legislativa depôs todos os juízes da Suprema Corte e o procurador-geral que eram críticos ao regime de Bukele.

E foi aí que o presidente do pequeno país americano caiu nas graças do bolsonarismo, carente de espelhos desde a queda de Donald Trump. Na ausência de um primo rico num país grande e democrático, o jeito é se espelhar em alguém mais próximo.


Bukele reúne algumas das características caras ao bolsonarismo: é jovem, com perfil autoritário (já chegou a invadir o parlamento com força policial para pressionar por uma votação), teve ascendência meteórica na política, costuma atribuir a si mesmo desígnios divinos para tomar decisões, vem de um partido de extrema-direita que chegou ao poder depois de vencer a esquerda combalida por denúncias de corrupção e usa as redes sociais com maestria.

Sem esconder a inspiração, sobretudo depois que o Supremo Tribunal Federal virou a pedra no sapato para os arreganhos autoritários de Jair Bolsonaro, seu filho Eduardo, o suposto especialista em política externa da família, passou o fim de semana numa escalada de admiração por Bukele no Twitter. Chegou a exaltar a deposição da Suprema Corte: "Tudo constitucional", escreveu, com indisfarçada inveja.

"Juízes julgam casos, se quiserem ditar políticas que saiam às ruas para se elegerem", afirmou.

Fez a postagem em cima de outra em que o presidente salvadorenho convida os "amigos da América Latina" a uma espécie de intercâmbio político, um convite para a criação de uma "Ursal da direita", para usar um dos fetiches da direita nas eleições de 2018.

Não é de hoje que Eduardo Bolsonaro, Filipe Martins, Ernesto Araújo e o próprio Bolsonaro tentam emular regimes que corroem a democracia por dentro, implodindo suas instituições. As sucessivas manifestações, inclusive no último fim de semana, tendo o STF como alvo nada mais são do que investidas para plantar na sociedade a semente da insatisfação com o funcionamento do estado democrático de direito e tentar aumentar o apoio a saídas golpistas, como intervenção militar de alguma espécie.

Há, inclusive, narrativas que falseiam o que diz a Constituição a esse respeito, para criar a fantasia de que é "tudo constitucional", como diz Eduardo Bolsonaro, cuja inteligência limitada sempre faz com que deixe patentes todas as suas intenções.

Acontece que o Brasil não é El Salvador, e a popularidade combalida de Bolsonaro, graças à sua desastrosa condução da economia, não dá a ele algo nem próximo do aval que Bukele obteve nas urnas em fevereiro para colocar em marcha seu golpe branco.

Ainda assim, repito uma cantilena muito comum a esse espaço, mas que continuarei proferindo enquanto a ameaça golpista constantemente brandida pelo bolsonarismo prosseguir: ou as instituições ficam vigilantes para reagir a tentativas de fragilizá-las, ou só perceberão a infiltração quando ela tiver comprometido a estrutura do prédio da democracia constitucional.

Apagão de emprego e capital

O pastor anglicano Thomas Malthus era um pessimista, em meio ao otimismo iluminista do final do século 18. Atribuía aos impulsos sexuais o crescimento da população e, em decorrência, o aumento da pobreza. Era um darwinista social, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que acha absurdo as pessoas quererem viver até os 100 anos e os filhos de porteiros sonharem com aquele canudo de papel do samba O pequeno burguês, grande sucesso de Martinho da Vila.

Somente Thomas Malthus explica a naturalidade com que o presidente Jair Bolsonaro e Guedes estão lidando com a crise sanitária e os 400 mil mortos pela covid-19 já contabilizados no Brasil. A teoria econômica malthusiana sustentava-se na tese de que a produção de alimentos não acompanharia o crescimento da população; porém, com a má alimentação e as doenças, haveria um reequilíbrio, com a redução da expectativa de vida e da taxa de natalidade. Mais semelhança com pensamento dominante no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, impossível.

Entretanto, àquela época, a teoria malthusiana já havia sido ultrapassada pelo desenvolvimento do capitalismo, cujas inovações permitiram a maior produção de alimentos, de bens e de serviços. Hoje, a população inglesa é três vezes maior e 10 vezes mais rica do que há 200 anos. Mesmo na China, que até recentemente proibia os casais de terem mais de um filho, em decorrência do fracasso do “Grande salto para a frente” de Mao Zedong (45 milhões de chineses morreram de fome), o problema alimentar foi resolvido. Em grande parte, graças ao Brasil, que se tornou seu maior fornecedor de grãos e proteínas.


Com a pandemia, no entanto, milhões de brasileiros estão mergulhados na miséria absoluta, sem ter nem o que comer em casa por falta de renda. São números acachapantes: 14,4% de desempregados e redução da massa salarial da ordem de 7,4%,uma perda de R$16,8 bilhões, entre o trimestre encerrado em fevereiro de 2021 e o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasi- leiro de Geografia e Estatística (IBGE). A menor queda foi na agrope- cuária (-0,8%). A administração pública, porém, teve aumento surreal nos rendimentos, de 5,3%. Tem algo errado aí.

As atividades de alojamento e alimentação perderam 1,5 milhão de empregos, maior queda percentual (-27,4%). A indústria fechou cerca de 1,3 milhão de postos (-10,8%), mesmo número dos serviços domésticos (-20,6%). O comércio perdeu 1,98 milhão de vagas (-11%). Somente a agropecuária (226mil) e o setor público (374 mil) elevaram o número de vagas. Durante a pandemia, houve um aumento de 2 milhões de desempregados; ou seja, a situação já era muito grave no mercado formal antes disso, com 12,4 milhões de desempregados. Um dado chama muita atenção: a perda de rendimento de empregadores (-5,4%) e dos trabalhadores domésticos (-3,6%).

O agravante é que nada será como antes, porque a covid-19 acelerou transformações no mundo do trabalho que vieram para ficar, com a substituição de mão de obra por mais tecnologia e a adoção do trabalho avulso e remoto. Além disso, 10,5 milhões de pessoas deixaram de procurar emprego, dos quais 1,2 milhão passaram a compor o grupo de desalentados, que chegou ao patamar recorde de quase 6milhões, um aumento de 27% em um ano.

Empresas com mais capacidade de investimentos aproveitam a oportunidade para avançar sobre os concorrentes e obter ganhos de produtividade. Entretanto, tão grave quanto o desemprego é o apagão de capital de micro, pequenos e médios empreendedores, que encerraram suas atividades e queimaram suas economias para sobrevivência das suas famílias. Guedes, entretanto, vê na pandemia uma oportunidade de ouro para descontruir políticas públicas, sem pôr nada no lugar, porque suas teorias ultraliberais estão tão ultrapassadas quanto as teses malthusianas.

Precisamos escapar do universo paralelo de Lula e Bolsonaro

A manifestação na Avenida Paulista, no último sábado, simboliza a apropriação indébita e a impostura que ocorrem sob Jair Bolsonaro. O presidente que se elegeu aproveitando-se da bandeira anticorrupção da Lava Jato não só ajudou a destruir a operação, em conluio tácito com o PT e demais partidos implicados em crimes, como agora se utiliza de uma das figuras políticas mais associadas à corrupção do PT, o mensaleiro Roberto Jefferson, para fazer discurso na via paulistana que serviu de palco para os maiores protestos contra a corrupção já registrados no país, depois da redemocratização.

Foi como se descortinássemos um universo paralelo: o verde-amarelo de 2016 agora é do bolsonarismo; no alto da caminhão de som, Roberto Jefferson no lugar de personalidades respeitáveis; ao invés de exigência de democracia e fortalecimento das instituições, gritos por intervenção militar e fechamento do STF.


Por ocasião das manifestações de 2016, havia um grupo de aloprados com as mesmas bandeiras, ainda sem Bolsonaro, que ocupava uma pequena porção da avenida, pedindo absurdos idênticos: intervenção militar e correlatos. Não chegava a um quarteirão. O número dessas pessoas não aumentou tanto assim desde então. O problema é que, agora, eles são os únicos a ir para a rua. Está certo que, ao contrário dos demais, esse pessoal que aplaudiu Roberto Jefferson se comporta como aliado do vírus da Covid. Mas é de se perguntar se a maioria hoje silenciosa só está recolhida por causa da pandemia ou se apresente mais do que cansada diante das sucessivas derrotas da Lava Jato em todas as frentes e do espetáculo estarrecedor que se desenrola sem freios em Brasília. Essa maioria hoje silenciosa não quer fechar instituição nenhuma e não quer saber de militar tomando poder. Continua a querer manutenção das liberdades democráticas, instituições que funcionam, honradez e honestidade.

É compreensível o cansaço de repetir as demandas, apontar as mesmas picaretagens e redundar nos protestos. Também é prudente não ir à rua, com um vírus ameaçador como o da Covid circulando livremente pelo Brasil. Mas nem o cansaço nem a prudência deveriam resultar em resignação. Estaria a maioria de 2016, hoje silenciosa, resignada? Essa impassibilidade pode se traduzir em duas formas perigosas nas próximas eleições, sem que a ordem implique hierarquia em matéria de risco: a primeira delas é a conclusão de que Lula é a opção mais sensata depois de quatro anos de selvageria. Lula também tinha o mesmo Roberto Jefferson e tudo o que ele representa ao lado dele. Lula também tem uma visão autoritária, como expressaram os anos em que permaneceu no poder e o programa de governo do seu poste. Lula também deu no que deu, ao operar desvio de dinheiro público no varejo e no atacado. A outra forma perigosa é reprisar 2018 e votar em Bolsonaro, a fim de evitar Lula, fechando os olhos para as ignomínias cometidas por ele, para a sua sociopatia, para o aparelhamento das instituições na defesa da sua família e para as alianças com os corruptos especializados em operar no varejo — e que fatalmente pularão para o atacado.

Lula e Bolsonaro são duas faces de uma mesma podridão sistêmica. Assistir a Lula pregando por democracia e honestidade na paradigmática avenida Paulista será assistir igualmente a um espetáculo protagonizado num universo paralelo, só mudarão as cores. Não nos resignemos com essa gente. É preciso sanear a democracia brasileira. Trata-se de tarefa difícil — eu mesmo, aqui nesta trincheira, não consigo ver a paisagem clareada neste momento –, mas não é impossível. A democracia costuma se comportar como uma floresta que, depois de devastada, regenera-se com rapidez surpreendente mesmo para os especialistas. O que estava previsto para renascer em décadas recupera-se em questão de meses.

Apostemos na democracia, na sua capacidade de regeneração, e escapemos do universo paralelo de Bolsonaro e Lula.

Recolhidos e cansados, sim; resignados, nunca.

Assim caminha o Brasil...

 


O exército de 5,9 milhões de 'desempregados' de fora do índice oficial

De um ano para cá, mais de um milhão de brasileiros desistiram de procurar emprego. Alguns porque buscavam há meses, sem sucesso. Outros, porque simplesmente não veem novas vagas sendo abertas na cidade onde moram.

As razões são várias.

Apesar de estarem disponíveis para trabalhar, essas pessoas não entram no cálculo da taxa de desemprego. Para ser considerado desempregado, pelos parâmetros internacionais de estatística, é preciso estar ativamente buscando uma vaga.

Isso não significa necessariamente, contudo, que a situação financeira dos chamados desalentados seja mais confortável do que a dos que estão oficialmente desempregados, os 14,4 milhões contabilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

De acordo com os dados divulgados na sexta, os desalentados somaram 5,9 milhões em fevereiro, recorde na série histórica da Pnad Contínua, que começa em 2012. O levantamento é feito em trimestres móveis - o dado de fevereiro, portanto, é uma média composta com dezembro e janeiro.

O número é 26,8% maior do que o registrado um ano atrás, no trimestre móvel encerrado em fevereiro de 2020, o que significa um aumento de 1,259 milhão de pessoas.

Este foi o oitavo mês consecutivo em que o desalento cresceu a uma velocidade superior a 20% no país.


"Esse aumento tem um motivo bem claro, que é a questão da pandemia. Tem muita gente com medo [de ficar doente], muita gente que sabe que as atividades estão fechando, que por isso acaba não saindo para procurar emprego", diz o economista Bruno Ottoni, pesquisador do IDados e do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV).


Essa dinâmica tem um impacto indireto importante sobre a própria taxa de desemprego, já que as pessoas que estão fora da força de trabalho não entram na conta. A estimativa de Ottoni para o dado divulgado nesta sexta, por exemplo, era desemprego de 14,8%, 0,4 ponto percentual acima do que foi efetivamente registrado, 14,4%.

"O dado do desalento surpreendeu. Eu esperava que mais gente tivesse voltado ao mercado de trabalho em fevereiro - a pandemia ainda não tinha piorado como em março, quando vieram as medidas mais restritivas", pontua o economista.

O desalento reduz a taxa de participação no mercado de trabalho, que é a relação entre a quantidade de pessoas que estão de fato empregadas ou à procura pelo total de pessoas em idade para trabalhar - uma boa medida para enxergar o chamado "desemprego oculto".

Em fevereiro, a taxa de participação foi de 56,8%, 4,9 pontos percentuais a menos do que o registrado no mesmo período do ano passado, 61%.

Caso o percentual tivesse se mantido constante, conforme calcula o economista Alberto Ramos, Diretor de Pesquisa Econômica para a América Latina do Goldman Sachs, a taxa de desemprego teria atingido expressivos 21,2% em fevereiro.

Essa discrepância sinaliza que o desemprego tem um espaço mais restrito para melhora à medida que a economia tiver espaço para crescer.

"A taxa pode não reduzir de forma significativa quando a epidemia for controlada, à medida que os desalentados voltem a procurar emprego e retornem à força de trabalho em ritmo mais acelerado do que a criação de novas vagas", escreveu o economista em relatório enviado a clientes.

Além do desalento, a Pnad Contínua também acompanha o que chama de subocupação: aqueles que trabalharam no mês de referência, mas menos horas do que gostariam ou precisariam - é o trabalhador que faz um bico quando aparece, por exemplo.

Em fevereiro, 6,9 milhões de pessoas estavam nessa situação.

A pesquisa agrega esses e outros grupos na taxa de subutilização da força de trabalho, uma medida mais ampla e, por isso, um bom retrato dos problemas do mercado de trabalho que vão além da taxa de desemprego.

No trimestre móvel encerrado em fevereiro, o volume de pessoas subutilizadas no Brasil chegou a 32,6 milhões. Nesse total estão incluídos os 14,4 milhões oficialmente desempregados, os 5,9 milhões de desalentados, os 6,9 milhões subocupados e outros 5,4 milhões que compõem a força de trabalho potencial junto com os desalentados.

Ottoni batizou esse último grupo de "indisponíveis". São aqueles que gostariam de trabalhar e chegaram a procurar, mas não podiam no período de referência da pesquisa. Aí entram, por exemplo, mulheres que tiveram filhos e têm de ficar em casa porque não há disponibilidade de creches na região em que moram.

Para o economista, a ampla vacinação é condição fundamental para a recuperação da economia brasileira e, por consequência, do mercado de trabalho.

É o ritmo de imunização que vai ditar a velocidade de recuperação.

A expectativa, diz ele, é que o desemprego aumente um pouco nos próximos meses, com o retorno dos desalentados à força de trabalho. A partir do segundo semestre, à medida que a economia conseguir gerar mais vagas para absorver os trabalhadores disponíveis, o indicador deve começar a melhorar.

O insuportável estado vulgar

O que não podia suportar era aquele estado vulgar das coisas, aquela sufocante apatia que lhes dava um ar de seres que se consomem num lento aniquilamento. Por momentos, parecia esquecer-se de tudo. Mas eis que de repente, a um golpe ou a um ruído, a angústia voltava a obsedar-lhe a alma. Ele não tinha sentidos senão para sofrer e desejar inutilmente.
Lúcio Cardoso

Almoço das 400 mil mortes

Tá cada vez mais down na high society. Como canta Elis Regina, a crise já está virando zona. Deve dar indigestão sentar-se ao lado do homem que regurgita 400 mil mortes por Covid-19. Deveria dar, ao menos. Crime de lesa-humanidade não compõe boa entrada para o almoço. Ao andar de cima, indigestão é para os fracos. É para o filho do porteiro que estudou na universidade pelo Fies, pensam. Para quem está acostumado a lecionar economia no Chile de Pinochet, os fracos devem ser os outros.

E daí? A mesa está posta, o vinho servido, a máscara descartada, a branquitude presente. Por que não desfrutar do almoço enquanto o resto do país volta ao mapa mundial da fome e, se não fossem campanhas como a Tem Gente com Fome e o auxílio que o governo não queria, seria ainda pior?

Enfileiram-se as empresas com hashtag vidas negras importam. Importam sim, dirão, exceto as 400 mil vidas que perdemos por inação e ação de quem se assenta ao seu lado na mesa.


De entrada, serviremos uma porção de ar. Ar puro. O mesmo ar que faltou em Manaus. O mesmo ar de cuja escassez o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, soube ao menos quatro dias antes do colapso no Amazonas. Em 11 de janeiro, Pazuello relatou a conversa que teve com a cunhada cujo irmão estava “sem oxigênio nem para passar o dia”: “O que você vai fazer?”, ela perguntou. Resposta do ex-ministro: “Nada. Você e todo mundo vão esperar chegar o oxigênio e ser distribuído. Vamos com calma.” Em homenagem a todos que padeceram sem ar, a entrada no almoço de hoje com o presidente será: ar. Respirem sem parcimônia!

Óbvio, a bebida não pode faltar. Serviremos água e vinho. Água, claro, é potável. Diferente da água que circula no estado do Rio de Janeiro, apesar do martelo no leilão e o sorriso para foto. Em homenagem ao veto presidencial de 8 de julho de 2020, serviremos a água potável que o governo federal negou fornecer, no auge da pandemia, a indígenas, quilombolas e povos tradicionais em extrema situação de vulnerabilidade. Serviremos água cristalina diretamente tirada da boca de indígenas. Aos espíritos mais festivos, dispostos a celebrar o feito macabro de 400 mil mortes por Covid-19, serviremos vinho.

Serviremos o cálice do sangue de todas as mortes que poderiam ter sido evitadas e não foram.

De prato principal, serviremos cloroquina, azitromicina e ivermectina. Mais precisamente, serviremos 31 milhões de comprimidos sem eficácia contra a Covid-19, a mesma quantidade enviada pelo governo federal aos estados. Gastamos R$ 126,5 milhões com esse prato principal. Espero que apreciem!

Esperamos também que não morram ao inalar cloroquina nebulizada, como aconteceu com uma paciente em Manaus em 2 de março, após médicos aplicarem esta terapia ineficaz, mas difundida pelo homem que se assenta ao seu lado. Teremos, ademais, um prato surpresa. Sigiloso. Como também são sigilosos os gastos no valor de R$ 150 mil do Exército brasileiro na pandemia, autorizados em fevereiro pelo presidente.

De sobremesa, teremos crimes contra a humanidade e genocídio. Mas não se preocupe, os outros que sentirão o amargo. Os senhores e as senhoras sentirão apenas a doçura do leite condensado, muito leite condensado. Sentirão apenas o frescor da fila VIP da vacina em Miami, a brisa dos jatinhos sobrevoando Trancoso, a água no rosto durante o passeio de jet-ski nas férias pagas com dinheiro público.

Ao final, tiraremos uma foto. Uma foto alegre, onde possamos ver todos os seus dentes e peles alvas. Num país onde não há justiça, o que nos resta é a memória: uma forma de eternizar, antes que esta nos falhe novamente, quem com a morte se assentou na mesa dos hipócritas.​

E por falar em utopia

Ao participar há dias de um debate sobre utopia, não foi difícil constatar que estamos vivendo justamente o contrário, uma distopia como nunca vivemos: um acúmulo de crises — sanitária, política, econômica, ética, social, ambiental. Por isso, para muitos, a utopia do século XXI é a sustentabilidade, isto é, o equilíbrio entre progresso, bem-estar social e conservação dos recursos naturais. E, se não o fim, pelo menos a redução das distâncias obscenas entre riqueza e pobreza.

Aliás, a utopia sempre foi, digamos, meio utópica, desde o começo. Thomas Morus, o filósofo autor do livro “Utopia”, que em grego quer dizer “não lugar”, “lugar que não existe”, apresentava em 1516 o cenário de uma sociedade em que todos seriam felizes, ninguém era dono de nada, todos eram ricos. Porém o criador desse paraíso utópico morreu infeliz. Preso na Torre de Londres, foi executado por ordem de Henrique VIII. Quer dizer: o criador da utopia teve um fim distópico.

O Brasil tinha 3 anos de idade quando entrou para a história da utopia. Em 1503, o navegador italiano Américo Vespúcio exclamou: “Aqui é o paraíso”. Era a Ilha de Fernando de Noronha, que, ao que tudo indica, inspirou Morus a escrever seu famoso livro. De um jeito ou de outro, experimentamos sempre o sentimento da utopia. Seja olhando para a frente, como “país do futuro” (por sinal, Stefan Zweig suicidou-se aqui, ele e a mulher), ou para trás, com nostalgia de anos dourados, em geral idealizados. Não se pode esquecer que a lenda situava o Eldorado, o país do ouro, entre o Brasil e a Venezuela. Estamos sempre esperando alcançar algo que nunca chega ou que já passou.

“Utopia selvagem”, de Darcy Ribeiro, sonha substituir o país oficial centrado na figura do branco, do índio e do negro por um povo novo, miscigenado —“um povo para ser a mais bela nação da Terra”. O antropólogo viveu durante dez anos entre as tribos dos kadiwéus, terenas, kaiowás e bororos.

Por se tratar do terreno que envolve a imaginação e o sonho, a utopia está sempre presente nele de alguma maneira, como inspiração ou como referência. Um dos poemas mais populares de Manuel Bandeira é “Vou-me embora pra Pasárgada”, o lugar ideal onde o poeta quer se refugiar: “Vou-me embora pra Pasárgada/ Lá sou amigo do rei/ Lá tenho a mulher que eu quero/ Na cama que escolherei”. Noutra versão, o compositor e poeta Dorival Caymmi canta: “Eu vou pra Maracangalha, eu vou (...) Se Anália não quiser ir , eu vou só...”.

O professor Francisco Ortega, estudioso do fenômeno médico-fisicalista, tem uma tese original: “Não podendo mudar o mundo, tentamos mudar o corpo, o único espaço que restou à utopia”. Seriam as utopias corporais substituindo as sociais.

Essa “ideologia” do corpo sarado, siliconado cria a obsessão por intervenções como bodybuilding, cuting, tatuagem e piercing —na língua, no nariz, no bico dos seios e até nos lugares mais recônditos da mulher e do homem. A mais comum dessas mudanças consiste nas cirurgias plásticas.

Mas nossa grande utopia mesmo é o fim da pandemia e a comprovação pela CPI da Covid dos responsáveis pelo genocídio de mais de 400 mil pessoas em pouco mais de um ano no Brasil.

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Horizontes escurecidos

Há uma época em que as desilusões, o cansaço da luta e uma íntima convicção de que afinal a vida não vale tão grandes esforços convertem-se, para determinados espíritos, numa nuvem que aumenta aos poucos, até obscurecer todo o horizonte. O jogador sente então que a partida está definitivamente perdida e examina, sem saber o que fazer delas, as cartas que ainda lhe restam nas mãos. Não é exatamente este o sentimento dos velhos, ou melhor, daqueles que lutaram a vida inteira por uma tranquilidade que sempre se sentiram cada vez mais distantes?
Lúcio Cardoso

No Dia da Liberdade de Imprensa, perguntar é preciso

“Você é freelancer?”, me inquiriu Grande Otelo.

Eu entrevistava o ator, glória das artes nacionais, e o assunto era o passado das escolas de samba. Otelo, também compositor, era parceiro de Herivelto Martins no clássico “Praça XI”, e eu queria saber detalhes sobre as gambiarras que as escolas carregavam para iluminar os desfiles pioneiros naquele canto do Rio. Foi aí que ele deixou de lado o sorriso de comediante e botou o “freelancer” no meio. Eu ainda redargui que não, orgulhoso da carteira profissional recém assinada pelo jornal. Mesmo assim, Otelo completou irônico:

“Pois, meu filho, isso é pergunta de freelancer!” – e se recusou a responder.

Décadas depois eu continuo sem saber o que seria uma pergunta de “freelancer”, mas seja o que fosse, fosse o que seria, eu estou me lembrando dela porque hoje é o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa e eis a ocasião propícia para dizer que não só toda maneira de amor vale a pena, mas toda maneira de perguntar mais ainda.

Semana passada, a uma repórter que queria uma explicação sobre sua foto com a expressão miliciana “CPF cancelado”, o presidente da República também desdenhou e classificou a pergunta de “idiota”. Mais do que perguntas de “freelancer”, perguntas idiotas são fundamentais para explicar o Brasil 2021.

Tem ainda a pergunta que não quer calar, a pergunta de um milhão de dólares, a pergunta de algibeira. Na rotina cotidiana de não sair de casa sem elas, o cartão de crédito que a sociedade lhe deu, o jornalista parte de um dos princípios basilares desse Dia Mundial da Liberdade de Imprensa – a certeza de que perguntas não ofendem. Já uma resposta ofensiva vai para a conta do entrevistado, e pode ser o lead da matéria. 

Uma vez fui entrevistar um coronel da PM, atrás de informações para compor o perfil de um general que assumiria o Ministério do Exército. Eu precisava de detalhes da personalidade, o lado humano do novo ministro. O que ele gosta fora da caserna?, perguntei. “Escreve aí”, mandou o militar, com a autoridade característica. “O general não gosta de homem com cabelo comprido feito o seu”. Era 1974. Ditadura. Sorri verde e amarelo.

É uma profissão de risco, mesmo para quem se especializou nas amenidades do fait-divers das coisas culturais. Um dia, depois de ler uma crítica adversa, o cantor Fagner mandou me avisar que ao primeiro encontro não faria perguntas e me encheria de porrada. Como se sabe, é um homem nordestino, aquele que antes de tudo é um forte, e graças ao Padim Ciço nunca mais eu e Fagner nos vimos.

O repórter Gabriel García Márquez dizia que, acompanhado de ética como o zumbido acompanha o besouro, ao jornalismo tudo é permitido. Eu estava ungido pelo mais ético desses zumbidos quando perguntei ao John Travolta, ainda não catapultado de volta ao sucesso por Tarantino, como ele definia o fracasso. Travolta magoou. Levantou-se, cumprimentou-me respeitosamente e bateu em retirada. Sua não-resposta salvou a entrevista.

A liberdade de imprensa começa pelo direito a perguntas e é bom que seja celebrada na semana em que a CPI da Covid fará um monte delas para investigar quem matou 400 mil pessoas. Um dia, no tempo da delicadeza, telefonei para Carlos Drummond de Andrade: “O que o senhor acha do biquíni asa delta?”. “Ah, meu caro, quem me dera sabê-lo”, respondeu, sem entrar no mérito se a pergunta era freelancer, idiota ou os dois tipos juntos. Poetas e repórteres sabem – perguntar é preciso, viver também.

Apagão de emprego e capital

O pastor anglicano Thomas Malthus era um pessimista, em meio ao otimismo iluminista do final do século 18. Atribuía aos impulsos sexuais o crescimento da população e, em decorrência, o aumento da pobreza. Era um darwinista social, como o ministro da Economia, Paulo Guedes, que acha absurdo as pessoas quererem viver até os 100 anos e os filhos de porteiros sonharem com aquele canudo de papel do samba O pequeno burguês, grande sucesso de Martinho da Vila.

Somente Thomas Malthus explica a naturalidade com que o presidente Jair Bolsonaro e Guedes estão lidando com a crise sanitária e os 400 mil mortos pela covid-19 já contabilizados no Brasil. A teoria econômica malthusiana sustentava-se na tese de que a produção de alimentos não acompanharia o crescimento da população; porém, com a má alimentação e as doenças, haveria um reequilíbrio, com a redução da expectativa de vida e da taxa de natalidade. Mais semelhança com pensamento dominante no Palácio do Planalto e no Ministério da Fazenda, impossível.


Entretanto, àquela época, a teoria malthusiana já havia sido ultrapassada pelo desenvolvimento do capitalismo, cujas inovações permitiram a maior produção de alimentos, de bens e de serviços. Hoje, a população inglesa é três vezes maior e 10 vezes mais rica do que há 200 anos. Mesmo na China, que até recentemente proibia os casais de terem mais de um filho, em decorrência do fracasso do “Grande salto para a frente” de Mao Zedong (45 milhões de chineses morreram de fome), o problema alimentar foi resolvido. Em grande parte, graças ao Brasil, que se tornou seu maior fornecedor de grãos e proteínas.

Com a pandemia, no entanto, milhões de brasileiros estão mergulhados na miséria absoluta, sem ter nem o que comer em casa por falta de renda. São números acachapantes: 14,4% de desempregados e redução da massa salarial da ordem de 7,4%,uma perda de R$16,8 bilhões, entre o trimestre encerrado em fevereiro de 2021 e o mesmo período do ano passado, segundo o Instituto Brasi- leiro de Geografia e Estatística (IBGE). A menor queda foi na agrope- cuária (-0,8%). A administração pública, porém, teve aumento surreal nos rendimentos, de 5,3%. Tem algo errado aí.

As atividades de alojamento e alimentação perderam 1,5 milhão de empregos, maior queda percentual (-27,4%). A indústria fechou cerca de 1,3 milhão de postos (-10,8%), mesmo número dos serviços domésticos (-20,6%). O comércio perdeu 1,98 milhão de vagas (-11%). Somente a agropecuária (226mil) e o setor público (374 mil) elevaram o número de vagas. Durante a pandemia, houve um aumento de 2 milhões de desempregados; ou seja, a situação já era muito grave no mercado formal antes disso, com 12,4 milhões de desempregados. Um dado chama muita atenção: a perda de rendimento de empregadores (-5,4%) e dos trabalhadores domésticos (-3,6%).

O agravante é que nada será como antes, porque a covid-19 acelerou transformações no mundo do trabalho que vieram para ficar, com a substituição de mão de obra por mais tecnologia e a adoção do trabalho avulso e remoto. Além disso, 10,5 milhões de pessoas deixaram de procurar emprego, dos quais 1,2 milhão passaram a compor o grupo de desalentados, que chegou ao patamar recorde de quase 6 milhões, um aumento de 27% em um ano.

Empresas com mais capacidade de investimentos aproveitam a oportunidade para avançar sobre os concorrentes e obter ganhos de produtividade. Entretanto, tão grave quanto o desemprego é o apagão de capital de micro, pequenos e médios empreendedores, que encerraram suas atividades e queimaram suas economias para sobrevivência das suas famílias. Guedes, entretanto, vê na pandemia uma oportunidade de ouro para descontruir políticas públicas, sem pôr nada no lugar, porque suas teorias ultraliberais estão tão ultrapassadas quanto as teses malthusianas.

O general pulou a cerca

Tive um avô que comia doce escondido, fugindo das prescrições médicas. Lembrei-me dele quando o general Luiz Eduardo Ramos confessou que tomou vacina escondido, para respeitar a medicina e a ciência:

— Tomei e vou ser sincero. Como qualquer ser humano, quero viver, pô.

As coisas mudaram no Brasil de hoje. Um general do Exército toma vacina escondido porque sabe que, para o governo a que está ligado, isso é uma heresia.

O que o general esconde é para ele o impulso de qualquer ser humano. Se for um pouco mais longe, perceberá que está presente em todos os seres vivos.


O belo documentário sobre os ensinamentos de um polvo mostra suas estratégias de sobrevivência, ora caçando um camarão, ora escapando de um tubarão, ou mesmo colocando seus ovos em lugar seguro. Além de sobreviver, os seres vivos tendem a perpetuar sua espécie, general.

Na mesma gravação em que confessa sua escapada para a vida, o general Luiz Eduardo Ramos afirma que está na luta para convencer Bolsonaro a se vacinar também:

— Não podemos perder o presidente para um vírus desses.

Mas, de certa forma, o general e alguns eleitores de Bolsonaro já o perderam para o vírus desde o momento em que o presidente decidiu negá-lo. Bolsonaro não poderia combater o que não existe, o que não é mais do que uma gripezinha.

Um general sensato deveria parar para pensar um pouco na história. Num passado recente, os adversários eram postos na clandestinidade. Mas hoje é o próprio impulso vital que se torna clandestino no interior do governo.

Indo um pouco para trás, encontraremos presidente que se suicidou no auge de uma crise, mas nunca houve presidente que escolhesse o suicídio como um estilo de vida.

Depois de comandar o Ministério da Saúde, o general Pazuello, investigado por negligência nas mortes de Manaus, foi a um shopping center sem máscara.

Ele manteve um nível de obediência total a Bolsonaro, mostrando-se o aliado fiel, aquele que marcha com seu líder ainda que seja para a sepultura.

A travessura do general Ramos é apenas uma das pequenas brechas em que a vida consegue penetrar o fúnebre edifício do governo Bolsonaro. Mas sua própria confissão indica como está enterrado nesse pântano cadavérico.

Ele não tem vergonha de querer viver como os outros seres humanos. Mas também não se orgulha disso nem celebra o ato vital de se vacinar. É apenas uma contingência, pô.

Aliás a expressão “pô” é uma forma simplificada porque achamos na imprensa que, depois de tudo por que passaram os brasileiros, ainda não podem ler certas palavras cruas.

De modo geral, não me interessam generais que se enterram ou mesmo os que põem rapidamente a cabeça de fora.

Eles são apenas a guarnição militar de um projeto de morte que, desvelado para a maioria do país, certamente não sobrevive depois de 22.

O problema é que esse projeto domina hoje o país onde vivo e se espalha além dos mais de 400 mil túmulos que cavou com a pandemia. Ele nos retira o Censo para que não saibamos exatamente quantos somos e que problemas concretos temos de enfrentar. Ele nos impõe e aprova um Orçamento com verdadeiros cheques em branco para políticos.

Enfim, não basta conduzir um projeto de morte, mas é necessário também romper com os elementos de orientação e planejamento coletivos.

É como se tivéssemos que marchar de olhos fechados para o nosso próprio cadafalso. É um plano meticuloso que se estende à escuridão, ao imposto sobre os livros, para que se feche também essa janela para o mundo.

Houve um pastor que levou seus fiéis ao abismo nas Guianas. Chamava-se Jim Jones. Mesmo para alguém como eu, que não acredita em reencarnação, as coincidências são assustadoras.

Durante muito tempo se pensou em suicídio coletivo, mas o que prevaleceu foi a tese do assassinato em massa.

Pensamento do Dia

 

Seyran Caferli (Azerbaijão)