Quando soubemos que França e Alemanha estão começando novo lockdown com esta terceira onda, imaginamos que, como ocorreu na segunda, que começa na Europa, dois meses depois se alastra por outros continentes. Temos de estar preparados no Brasil. Não podemos esmorecer. É trabalhar, melhorar a estrutura física dos nossos hospitais, ter mais leitos, recursos humanos para, se vier uma onda mais forte, a gente ter capacidade de reação.Os números são relativamente bons em relação à população em geral, por conta da prevenção que temos. O índice de letalidade é muito baixo, menor do que na rede pública, graças a essa conscientização, essa compreensão, que é o que eu acho que, se melhorasse no Brasil, provavelmente, o número de contaminados seria bem menor.General Paulo Sérgio, responsável pelo setor de recursos humanos do Exército* A taxa de mortalidade na instituição é de 0,13%, bem abaixo do índice de 2,5% registrado na população civil
terça-feira, 30 de março de 2021
Exército não é Besta
Desculpe o clichê, mas 'Até quando?!'
Era um jornal popular, regido pelas regras de fisgar o leitor no meio da rua. Todo dia a redação precisava pôr em manchete algo que tirasse o cidadão da apatia de passar pela banca e, assoberbado dos próprios problemas, ir em frente sem comprar o exemplar.
Eu trabalhava lá e usei o recurso algumas vezes. Quando o acúmulo de indignação ia além do que permitia uma manchete convencional, quando o espaço da página era insuficiente para noticiar o descalabro em detalhes, aumentava-se o corpo das palavras – e aí, no uso sem constrangimento do clichê, gritava-se veemente na orelha do freguês: “Até quando?”.
Sei que isso foi no tempo do calor senegalesco, dos bravos soldados do fogo, e hoje soa inadmissível o elogio do lugar-comum num conceituado órgão de imprensa. O clichê é uma caixinha sem surpresas. Os manuais de redação pedem distância dessa insidiosa moléstia, desse inimigo soez. Não agrega valor. H.L Mencken, o jornalista americano sem papas na língua, dizia – “é o conforto dos medíocres”.
Nelson Rodrigues reclamava que, ao proibir o uso do ponto de exclamação, os jornais tinham perdido o sentido de estarrecimento, de boqueabrir o leitor, que uma notícia precisava ter. Dava como exemplo o texto de Émile Zola em favor do capitão Dreyfus, um dos momentos mais importantes da história do jornalismo. A dramaticidade do libelo era evidente, mas foi potencializada quando o redator do “L’Aurore” riscou o título careta do original de Zola – “Carta ao sr. M. Félix Faure, presidente da República” – e tascou no lugar o inesquecível, jornalístico e apropriadamente bem pontuado “Eu acuso!”.
O drama em cartaz nos jornais precisa do punhal acusatório de todos os pontos de estupor à disposição no parque gráfico, e que eles venham associados ao chocalho afetivo, tão Brasil, das frases feitas, das ladeiras íngremes, da beleza interior, do caráter sem jaça e da vontade de dançar como se não houvesse amanhã. Não é um país, é um clichê.
Ontem, foi anunciado que o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, um tradicional centro de pesquisa, seria reaberto como Palácio Imperial, controlado pelos Orleans e Bragança, num aceno aos valores da monarquia. Até quando?!
Anteontem, um ministro disse que lockdown não dá certo porque ninguém combinou com as pulgas, e elas continuam transportando o vírus para todos os lados. Até quando?!
Na contramão das regras do bom gosto, o palavrório de expressões gastas pelo uso, cercado de pontos de espanto por todos os lados, é um fuzuê de emoções descontroladas, inerentes à condição humana. O prazer de falar com a boca cheia. Nesta hora em que se busca a palavra exata, se impeachment, se genocida, mas nenhuma devolve o país à sua gramática de felicidade, é preciso usar o dicionário completo. Parodiar o poeta. Deixar o purismo de lado e pedir socorro a todas as palavras, todas as expressões, sobretudo os barbarismos universais. Falta vacina de lá, que sobre exclamação daqui!!!
Eu trabalhava lá e usei o recurso algumas vezes. Quando o acúmulo de indignação ia além do que permitia uma manchete convencional, quando o espaço da página era insuficiente para noticiar o descalabro em detalhes, aumentava-se o corpo das palavras – e aí, no uso sem constrangimento do clichê, gritava-se veemente na orelha do freguês: “Até quando?”.
Sei que isso foi no tempo do calor senegalesco, dos bravos soldados do fogo, e hoje soa inadmissível o elogio do lugar-comum num conceituado órgão de imprensa. O clichê é uma caixinha sem surpresas. Os manuais de redação pedem distância dessa insidiosa moléstia, desse inimigo soez. Não agrega valor. H.L Mencken, o jornalista americano sem papas na língua, dizia – “é o conforto dos medíocres”.
Eu estou surfando nessa nostalgia jornalística porque mais três mil pessoas vão morrer hoje de covid-19, amanhã seremos 315 mil mortos, e apesar de todos o assombros com essa realidade já terem sido escritos no mais escorreito português 2021, acho que voltou a hora de acrescentar uma exclamação à interrogação e, às favas com Mencken!, radicalizar na veemência furibunda do velho grito de guerra: “Até quando?!”.
Nelson Rodrigues reclamava que, ao proibir o uso do ponto de exclamação, os jornais tinham perdido o sentido de estarrecimento, de boqueabrir o leitor, que uma notícia precisava ter. Dava como exemplo o texto de Émile Zola em favor do capitão Dreyfus, um dos momentos mais importantes da história do jornalismo. A dramaticidade do libelo era evidente, mas foi potencializada quando o redator do “L’Aurore” riscou o título careta do original de Zola – “Carta ao sr. M. Félix Faure, presidente da República” – e tascou no lugar o inesquecível, jornalístico e apropriadamente bem pontuado “Eu acuso!”.
O drama em cartaz nos jornais precisa do punhal acusatório de todos os pontos de estupor à disposição no parque gráfico, e que eles venham associados ao chocalho afetivo, tão Brasil, das frases feitas, das ladeiras íngremes, da beleza interior, do caráter sem jaça e da vontade de dançar como se não houvesse amanhã. Não é um país, é um clichê.
Ontem, foi anunciado que o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, um tradicional centro de pesquisa, seria reaberto como Palácio Imperial, controlado pelos Orleans e Bragança, num aceno aos valores da monarquia. Até quando?!
Anteontem, um ministro disse que lockdown não dá certo porque ninguém combinou com as pulgas, e elas continuam transportando o vírus para todos os lados. Até quando?!
Na contramão das regras do bom gosto, o palavrório de expressões gastas pelo uso, cercado de pontos de espanto por todos os lados, é um fuzuê de emoções descontroladas, inerentes à condição humana. O prazer de falar com a boca cheia. Nesta hora em que se busca a palavra exata, se impeachment, se genocida, mas nenhuma devolve o país à sua gramática de felicidade, é preciso usar o dicionário completo. Parodiar o poeta. Deixar o purismo de lado e pedir socorro a todas as palavras, todas as expressões, sobretudo os barbarismos universais. Falta vacina de lá, que sobre exclamação daqui!!!
O enigma pós-pandemia
O futuro imediato está sendo desenhado pela forma como cada país lida com a crise sanitária global, mas ainda é um enigma. Toda a tecnologia utilizada para manter a atividade econômica maior possível num ambiente de distanciamento social já existia; todo o conhecimento científico empregado para a produção de vacinas numa velocidade inédita, também. Apesar da tragédia que se abateu sobre a humanidade, especialmente aqui no Brasil — que se destaca pelo número de infectados, de mortos e de negacionistas, entre os quais o presidente Jair Bolsonaro —, é preciso pensar no pós-pandemia. O novo coronavírus escancarou ainda mais as contradições da globalização, principalmente o agravamento das desigualdades, e colocou em xeque a ideia neoliberal de que o mercado sozinho é mais eficiente do que o Estado para cuidar das pessoas.
Provavelmente, se indagarmos a um jovem brasileiro se tem esperança de um futuro melhor, o risco é termos dele um categórico não. É uma visão completamente diferente do otimismo de seus pais e avós quando tinham a mesma idade, embora a maioria talvez tenha condições de vida até melhores, inclusive nas favelas e periferias. Há, porém, menos perspectivas. Frustrou-se o exagero patriótico do Conde Afonso Celso em Porque me ufano do meu país: “Há em ser brasileiro o gozo de um benefício, uma vantagem, uma superioridade”. Também o progressismo de um Stepan Zweig, ao escrever Brasil, o país do futuro. Recordo-me do relato sarcástico de um amigo sobre a emoção de seu pai no dia da reunificação da Alemanha:
— Chorando de alegria, pai?
— Não, de tristeza por vocês terem nascido aqui.
Desde a Revolução Francesa (1789- 1799), o Ocidente apostou no amanhã melhor do que hoje. O Brasil de Juscelino Kubitschek e da Bossa Nova parecia ser a encarnação dessa utopia. Com sinal trocado, o “milagre econômico” do regime militar também. Hoje, quantos jovens brasileiros de todas as classes sociais sonham com a possibilidade de migrar para outro país? Quantos desejam a dupla nacionalidade como principal herança de seus pais? E aqueles que não têm essa possibilidade e perdem completamente a perspectiva, diante do apagão de oportunidades? Disso decorre uma lógica exacerbada durante a pandemia: é preciso viver agora. Todo prazer adiado será perdido. Mesmo que, nas baladas, o vírus seja como uma bala solitária da roleta russa.
O “amanhã será melhor” era a base comum para todas as utopias, do liberalismo à social-democracia, do comunismo ao fascismo. Seus valores comuns eram: produtividade, crescimento, trabalho e urbanização. Em torno deles, os interesses nacionais e de classe teciam a identidade dos indivíduos. Nossa sociedade é fruto disso aí. O que dava sustentação à nossa identidade se desagrega: as nações, as classes sociais, a família; as relações entre gerações e entre os sexos. A vida privada — família, casa, carro, gastronomia, viagens — é a última trincheira da felicidade. A liberdade tornou-se um fim em si; o trabalho, apenas um desagradável meio de financiamento. E aqueles que não têm nada disso? São “invisíveis”.
O encontro da História com as utopias gerou uma espécie de beco sem saída. Bandeiras da velha esquerda foram capturadas pelo reacionarismo: o intervencionismo, o estatismo, as grandes obras, o nacionalismo. O que antes era um projeto de futuro se tornou anacrônico, foi ultrapassado pelas novas forças produtivas. Diferentemente das anteriores, porém, a crise civilizatória não anuncia nenhuma superação do capitalismo nem uma revolução redentora. Somente mais e mais tecnologia. Esse é o caldo de cultura para tanto negacionismo e a atual distopia. Definir um novo projeto de civilização, mais pluralista e justo, e reconstituir o nosso projeto de nação em bases democráticas não serão uma tarefa fácil, embora as condições materiais para isso existam, em termos de conhecimento e criatividade humana. Assim como um paciente da covid- 19 necessita de oxigênio, nossos jovens precisam de uma nova utopia para prosseguir em busca da felicidade.
— Chorando de alegria, pai?
— Não, de tristeza por vocês terem nascido aqui.
Desde a Revolução Francesa (1789- 1799), o Ocidente apostou no amanhã melhor do que hoje. O Brasil de Juscelino Kubitschek e da Bossa Nova parecia ser a encarnação dessa utopia. Com sinal trocado, o “milagre econômico” do regime militar também. Hoje, quantos jovens brasileiros de todas as classes sociais sonham com a possibilidade de migrar para outro país? Quantos desejam a dupla nacionalidade como principal herança de seus pais? E aqueles que não têm essa possibilidade e perdem completamente a perspectiva, diante do apagão de oportunidades? Disso decorre uma lógica exacerbada durante a pandemia: é preciso viver agora. Todo prazer adiado será perdido. Mesmo que, nas baladas, o vírus seja como uma bala solitária da roleta russa.
O “amanhã será melhor” era a base comum para todas as utopias, do liberalismo à social-democracia, do comunismo ao fascismo. Seus valores comuns eram: produtividade, crescimento, trabalho e urbanização. Em torno deles, os interesses nacionais e de classe teciam a identidade dos indivíduos. Nossa sociedade é fruto disso aí. O que dava sustentação à nossa identidade se desagrega: as nações, as classes sociais, a família; as relações entre gerações e entre os sexos. A vida privada — família, casa, carro, gastronomia, viagens — é a última trincheira da felicidade. A liberdade tornou-se um fim em si; o trabalho, apenas um desagradável meio de financiamento. E aqueles que não têm nada disso? São “invisíveis”.
O encontro da História com as utopias gerou uma espécie de beco sem saída. Bandeiras da velha esquerda foram capturadas pelo reacionarismo: o intervencionismo, o estatismo, as grandes obras, o nacionalismo. O que antes era um projeto de futuro se tornou anacrônico, foi ultrapassado pelas novas forças produtivas. Diferentemente das anteriores, porém, a crise civilizatória não anuncia nenhuma superação do capitalismo nem uma revolução redentora. Somente mais e mais tecnologia. Esse é o caldo de cultura para tanto negacionismo e a atual distopia. Definir um novo projeto de civilização, mais pluralista e justo, e reconstituir o nosso projeto de nação em bases democráticas não serão uma tarefa fácil, embora as condições materiais para isso existam, em termos de conhecimento e criatividade humana. Assim como um paciente da covid- 19 necessita de oxigênio, nossos jovens precisam de uma nova utopia para prosseguir em busca da felicidade.
Se a canoa não furar
Como sair dessa? Quando sair dessa? As perguntas não cessam de martelar nossa cabeça, e cada um tenta respondê-las com a mistura de análise e desejo que se entrelaçam em nossas conversas.
De uma forma muito simples, sem censura, tento desenhar para mim um quadro ideal de superação desta crise que, além de matar muita gente, pode nos roubar uma década de desenvolvimento, segundo a própria ONU.Nesse quadro ideal, unifico três condições: um líder como a da Nova Zelândia, uma vacinação tão intensa como a de Israel e um comportamento social como o japonês.
Diante desse quadro, sinto-me como aqueles andarilhos de uma peça de Harold Pinter que entraram, subitamente, na cozinha de um restaurante. De repente, começaram a surgir pedidos complexos, e eles tinham apenas alguns alimentos nas suas pobres sacolas.
É preciso fazer algo com poucos recursos, porque a luta contra o vírus é real, assim como é verdadeira a tragédia que se abate sobre nosso povo.
O primeiro ponto, liderança nacional: esquece.
Bolsonaro é um estorvo, e temos de seguir sem ele nesta luta, derrubando-o assim que for possível, pelos caminhos viáveis no momento dado.
É necessário um comitê nacional de crise, e não farsa encenada pelo Planalto. Um comitê que expresse a crítica à maneira como se conduziu até agora a luta contra a pandemia.
De nada adiantará, entretanto, apenas um comitê nacional. Ele teria de se apoiar em centenas, talvez milhares, de microcomitês, que tentem impulsionar uma política virtuosa. Esse movimento molecular ainda não surgiu na plenitude, embora tenha se esboçado no princípio da pandemia.
Nos milhares de grupos de amigos, dentro ou fora da internet, teria de ser colocada a pergunta: o que podemos fazer dentro de nossas possibilidades? Sempre haverá uma resposta, por mais modesta.
Essa liderança multiplicada seria importante não só para a necessária solidariedade. Mas também para a busca de uma nova tática que busque um comportamento mais responsável diante da doença.
Mais do que lições de moral, o discurso de cooperação só terá efeito se as pessoas sentirem os benefícios de pertencer a um coletivo humano.
Isso não implica a ausência de lockdowns, mas uma tentativa de superar, com o comportamento, a sucessiva necessidade de lockdowns, o constante fecha e abre que o vírus nos impõe.
O êxito da vacinação não resolve o problema a curto prazo. O Chile planejou e vacinou intensamente, mas está às voltas com um novo pico da doença.
A vacinação em massa é a grande estratégia, e isso até o obtuso presidente parece compreender, agora.
Não creio que o governo conseguirá vacinar 70 milhões de brasileiros até o fim do ano. Basta analisar o complexo mercado planetário de vacinas.
Quebrar patentes é uma solução que a Índia e a África do Sul defendem. Ambas acreditam que existem fábricas ociosas no Sul, e só não produzem porque não detêm o conhecimento.
Esse é um clamor justo. Como dizia Jonas Salk: vamos patentear o Sol?
Mas não há tempo hábil. A própria Índia está restringindo exportações. A Europa neste fim de semana fez uma reunião para endurecer as regras da exportação.
Além de obter a tecnologia para produzir vacinas na Fiocruz e no Butantan, é necessário ficar atento ao mercado internacional. Uma janela pode se abrir nos EUA, que vacinam ao ritmo de três milhões por dia. Pfizer, Moderna e Johnson podem ter uma folga no segundo semestre.
No fim de semana, o Instituto Butantan anunciou uma vacina 100% nacional para ser aplicada em julho. Terá de passar pela Anvisa, mas é uma esperança para o segundo semestre.
Será na combinação desses fatores, nem todos favoráveis, que podemos achar um caminho. Uma liderança nacional colegiada tem apenas uma desvantagem: não dispõe dos recursos materiais que estão sob o controle de Bolsonaro. Mas pode funcionar.
segunda-feira, 29 de março de 2021
Quem deve ser preso por Bolsonaro estar solto?
Se eu fosse Jair Bolsonaro, também teria cortado o financiamento do censo demográfico. No ritmo atual, chegaremos a meio milhão de mortos causados pela pandemia no meio de junho. Se contássemos a população esse ano, talvez Bolsonaro se tornasse o primeiro presidente brasileiro a ter seus crimes mensurados pelo IBGE.
E, até agora, não aconteceu nada, absolutamente nada, com o presidente da República.
Não é só que Bolsonaro sofreu menos do que Fernando Collor ou Dilma Rousseff, presidentes que sofreram impeachment. Sofreu muito menos do que qualquer presidente desde a redemocratização. Nos governos Lula e FHC, para ficar nos dois mais bem-sucedidos das últimas décadas, ministros caíam por qualquer denúncia. CPIs eram fatos normais da vida política nacional.
Mesmo antes de discutir impeachment, as instituições poderiam ter dado tiros de advertência para Bolsonaro antes que o desastre se consumasse. Fizeram isso em todos os outros governos. Não fizeram nesse.
Poderiam ter cassado o mandato dos elementos mais extremistas do bolsonarismo. Ao invés disso, a deputada extremista Bia Kicis preside a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Em 2020, o filho mais radical do presidente, Eduardo Bolsonaro, disse em uma transmissão online que um golpe de Estado não era questão de “se”, mas de “quando”. Se o Congresso achava demais derrubar Bolsonaro por seu golpismo, podia ter cassado o mandato de seu filho, contra quem as provas eram absolutamente indiscutíveis.
Não fizeram nada. Eduardo Bolsonaro não sofreu qualquer consequência e ainda tem poder de veto na escolha de ministros da Saúde.
O ex-ministro e deputado Osmar Terra alimenta o Planalto com projeções falsas desde o início da pandemia e as divulga impunemente para o público. Depois do próprio Bolsonaro, é o principal responsável pelo desastre. Poderia ter sido cassado no início da pandemia como advertência ao Planalto. Não foi. Continua mentindo nas redes sociais.
Enfim, mesmo se as instituições quisessem evitar o trauma do segundo impeachment em quatro anos –o que já seria covarde, o impeachment em excesso foi o de 2016–, toda essa gente poderia ter sido derrubada como advertência a Bolsonaro. Em todos os governos anteriores, gente muito melhor caiu por muito menos.
Ninguém fez nada, por medo dos militares e por gratidão por Bolsonaro ter matado a Lava Jato.
Há quem diga que Bolsonaro será preso depois de deixar a Presidência em 2023. Não há como ter certeza de que vai perder: a população, inclusive, pode ler a impunidade de Bolsonaro como atestado de que ele não fez nada demais.
O adiamento da prisão de Bolsonaro causou as mortes da segunda onda. Quantos ainda vão morrer por um novo adiamento? Além disso, adiar a prisão para depois da derrota de Bolsonaro torna uma nova ofensiva golpista praticamente inevitável: se Bolsonaro souber que a derrota significa cadeia, terá todo incentivo do mundo para melar o jogo.
É politicamente inviável, e talvez seja errado, tentar prender todos os que, em algum momento, evitaram que Bolsonaro fosse preso. Mas é preciso que haja um limite, um ponto a partir do qual quem não deixar prender tem que ser preso. Proponho que seja agora.
E, até agora, não aconteceu nada, absolutamente nada, com o presidente da República.
Não é só que Bolsonaro sofreu menos do que Fernando Collor ou Dilma Rousseff, presidentes que sofreram impeachment. Sofreu muito menos do que qualquer presidente desde a redemocratização. Nos governos Lula e FHC, para ficar nos dois mais bem-sucedidos das últimas décadas, ministros caíam por qualquer denúncia. CPIs eram fatos normais da vida política nacional.
Mesmo antes de discutir impeachment, as instituições poderiam ter dado tiros de advertência para Bolsonaro antes que o desastre se consumasse. Fizeram isso em todos os outros governos. Não fizeram nesse.
Poderiam ter cassado o mandato dos elementos mais extremistas do bolsonarismo. Ao invés disso, a deputada extremista Bia Kicis preside a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara.
Em 2020, o filho mais radical do presidente, Eduardo Bolsonaro, disse em uma transmissão online que um golpe de Estado não era questão de “se”, mas de “quando”. Se o Congresso achava demais derrubar Bolsonaro por seu golpismo, podia ter cassado o mandato de seu filho, contra quem as provas eram absolutamente indiscutíveis.
Não fizeram nada. Eduardo Bolsonaro não sofreu qualquer consequência e ainda tem poder de veto na escolha de ministros da Saúde.
O ex-ministro e deputado Osmar Terra alimenta o Planalto com projeções falsas desde o início da pandemia e as divulga impunemente para o público. Depois do próprio Bolsonaro, é o principal responsável pelo desastre. Poderia ter sido cassado no início da pandemia como advertência ao Planalto. Não foi. Continua mentindo nas redes sociais.
Enfim, mesmo se as instituições quisessem evitar o trauma do segundo impeachment em quatro anos –o que já seria covarde, o impeachment em excesso foi o de 2016–, toda essa gente poderia ter sido derrubada como advertência a Bolsonaro. Em todos os governos anteriores, gente muito melhor caiu por muito menos.
Ninguém fez nada, por medo dos militares e por gratidão por Bolsonaro ter matado a Lava Jato.
Há quem diga que Bolsonaro será preso depois de deixar a Presidência em 2023. Não há como ter certeza de que vai perder: a população, inclusive, pode ler a impunidade de Bolsonaro como atestado de que ele não fez nada demais.
O adiamento da prisão de Bolsonaro causou as mortes da segunda onda. Quantos ainda vão morrer por um novo adiamento? Além disso, adiar a prisão para depois da derrota de Bolsonaro torna uma nova ofensiva golpista praticamente inevitável: se Bolsonaro souber que a derrota significa cadeia, terá todo incentivo do mundo para melar o jogo.
É politicamente inviável, e talvez seja errado, tentar prender todos os que, em algum momento, evitaram que Bolsonaro fosse preso. Mas é preciso que haja um limite, um ponto a partir do qual quem não deixar prender tem que ser preso. Proponho que seja agora.
domingo, 28 de março de 2021
Com suas obsessões e mentiras, Bolsonaro está ficando sozinho
Seria uma reunião dos chefes dos três Poderes para tratar da pandemia, pois o número de mortos havia passado dos 300 mil. Foi uma palhaçada típica das marquetagens oficiais. A encenação tinha a ver com o Executivo, e só com ele. Os outros dois Poderes nunca se meteram com a cloroquina nem com a “gripezinha”. Além disso, a presença do ministro Luiz Fux na fotografia era meramente simbólica.
Bolsonaro levou para o encontro alguns de seus ministros e governadores amigos. Ao fim da reunião, anunciou a formação de comitê para tratar da pandemia e delegou ao presidente do Senado a coordenação do trabalho com os governadores.
Confundiu cloroquina com cloro de piscina. O presidente do Senado não tem mandato nem jurisdição para tratar de um assunto que é só do Executivo. Se isso fosse pouco, em março do ano passado, quando a Covid havia matado só uma pessoa, Bolsonaro criou um comitê para assessorá-lo diante da pandemia. Foi entregue ao chefe da Casa Civil, general Braga Netto. Deu em nada e sumiu. No dia 22 de março, quando a pandemia matou 1.383 pessoas, ele tirou férias.
O evento de quarta-feira tinha tudo para dar errado, e horas depois o presidente da Câmara respondeu:
“Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar: não vamos continuar aqui votando e seguindo um protocolo legislativo com o compromisso de não errar com o país se, fora daqui, erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que que são muito menores do que os acertos cometidos continuarem a serem praticados.”
(...)
“Os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável. Não é esta a intenção desta presidência. Preferimos que as atuais anomalias se curem por si mesmas, frutos da autocrítica, do instinto de sobrevivência, da sabedoria, da inteligência emocional e da capacidade política.”
Como ensinou Guimarães Rosa: “Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão”. Com suas obsessões e mentiras, Bolsonaro está ficando sozinho. É como gosta e como sempre esteve, desde quando era um capitão bagunceiro e transmutou-se num político irrelevante. Essa condição vai bem para a pessoa de Bolsonaro, mas está arruinando o país.
De novo, Guimarães Rosa avisou: “O Diabo na rua, no meio do redemoinho...”
Bolsonaro levou para o encontro alguns de seus ministros e governadores amigos. Ao fim da reunião, anunciou a formação de comitê para tratar da pandemia e delegou ao presidente do Senado a coordenação do trabalho com os governadores.
Confundiu cloroquina com cloro de piscina. O presidente do Senado não tem mandato nem jurisdição para tratar de um assunto que é só do Executivo. Se isso fosse pouco, em março do ano passado, quando a Covid havia matado só uma pessoa, Bolsonaro criou um comitê para assessorá-lo diante da pandemia. Foi entregue ao chefe da Casa Civil, general Braga Netto. Deu em nada e sumiu. No dia 22 de março, quando a pandemia matou 1.383 pessoas, ele tirou férias.
O evento de quarta-feira tinha tudo para dar errado, e horas depois o presidente da Câmara respondeu:
“Estou apertando hoje um sinal amarelo para quem quiser enxergar: não vamos continuar aqui votando e seguindo um protocolo legislativo com o compromisso de não errar com o país se, fora daqui, erros primários, erros desnecessários, erros inúteis, erros que que são muito menores do que os acertos cometidos continuarem a serem praticados.”
(...)
“Os remédios políticos no Parlamento são conhecidos e são todos amargos. Alguns, fatais. Muitas vezes são aplicados quando a espiral de erros de avaliação se torna uma escala geométrica incontrolável. Não é esta a intenção desta presidência. Preferimos que as atuais anomalias se curem por si mesmas, frutos da autocrítica, do instinto de sobrevivência, da sabedoria, da inteligência emocional e da capacidade política.”
Como ensinou Guimarães Rosa: “Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão”. Com suas obsessões e mentiras, Bolsonaro está ficando sozinho. É como gosta e como sempre esteve, desde quando era um capitão bagunceiro e transmutou-se num político irrelevante. Essa condição vai bem para a pessoa de Bolsonaro, mas está arruinando o país.
De novo, Guimarães Rosa avisou: “O Diabo na rua, no meio do redemoinho...”
Altos e baixos
Entramos numa fase em que até as palavras começam a perder oxigênio. A indignação nacional represada pela Covid-19 faz nascer uma sensação de atrofia verbal. Chegamos ao estágio em que a voz de todo um Brasil condenado à própria sorte/morte precisa de um empurrão para se manter vivo. Por enquanto, apenas a curta associação de dois vocábulos — Bolsonaro + genocida —mantém intacto seu poder de síntese para as gerações futuras.
Esta foi mais uma semana montanha-russa. As esperanças que dispararam com o anúncio de duas possíveis vacinas nacionais tiveram de conviver com dados abissais. Neste ano 1 de pandemia, a terra brasileira se viu escavada para abrigar seus primeiros 305 mil mortos de Covid-19. Haverá muitos mais. Os que até agora escaparam convivem com o peito sobressaltado pela necessidade de se atualizar com alarmes novos. Nos primórdios da pandemia, havia a falta de máscaras para a população e da proteção inadequada para os agentes de saúde. Houve escassez de leitos hospitalares, de respiradores, houve a multiplicação de covas-relâmpago. Depois veio a constatação da vacinação tardia, a conta-gotas, de leitos transbordantes também em enfermarias, do criminoso esgotamento do oxigênio hospitalar em Manaus, da iminente falta de kits de entubação em todo o território nacional. Por fim, chegamos à real ameaça de colapso dos próprios profissionais de saúde — sem que nenhuma das carências anteriores esteja dominada.
Tome-se o caso da Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, cidade de 250 mil habitantes do interior de São Paulo. Na quinta feira, reportou Ana Letícia Leão no GLOBO, à instituição só restavam kits de entubação para as 48 horas seguintes. O atendimento na UTI teve de ser suspenso, um apelo de transferência de 60 pacientes foi encaminhado à central estadual, e 27 técnicos de enfermagem e enfermeiros pediam demissão. O caso leva a pensar em condenados à morte na acepção convencional do termo.
Nos Estados Unidos, a pena de morte foi restabelecida em 1976 após um hiato de quatro anos, à condição de que fosse executada de forma menos bárbara do que a forca ou a cadeira elétrica. O Estado do Texas, eterno campeão na modalidade, introduziu então um método de mascarar a violência da execução, tornando-a mais “higiênica”: a injeção sequencial de três drogas que levam a óbito. Em princípio, seria indolor. Afivelado numa maca em recinto de aspecto hospitalar, o condenado recebe duas sondas em cada braço. A outra extremidade dos fios dessas sondas fica numa saleta contígua, longe da vista das testemunhas obrigatórias por lei. Ali, dois enfermeiros voluntários acionam as seringas na sequência indicada (o Conselho Americano de Anestesiologia proíbe a participação de seus filiados): primeiro um sedativo, depois um bloqueador neuromuscular, por fim a dose de cloreto de potássio para cessar o funcionamento cardíaco do “paciente”.
Em tese, o procedimento não é “nem cruel nem incomum”, como manda a Oitava Emenda da Constituição americana. Só que nem sempre tem sido assim. À medida que a pena capital foi sendo varrida das nações civilizadas, que passaram da abolição à condenação da prática, a União Europeia passou a proibir os laboratórios dos países-membros de vender esses insumos à Justiça criminal americana. Resultado: o coquetel letal original teve de ser substituído por alternativas locais e mambembes, resultando em procedimentos muitas vezes sombrios. O pior deles ocorreu em 2014, quando o condenado Joseph Wood teve de receber 15 injeções, sofreu 640 microconvulsões e viveu duas horas de suplício antes de poder morrer.
Em comum entre a aplicação do coquetel da morte nos EUA e o recurso para salvar vidas de brasileiros necessitados de entubação, apenas os dois ingredientes cruciais que aliviam a agonia: sedativos e o bloqueador neuromuscular. Na ausência de uns ou outro, o suplício físico de quem vai morrer ou de quem espera viver é semelhante. A diferença maior está no estender dos braços para a injeção. A maioria dos condenados à morte teve tempo para amadurecer seu medo, pois passou em média mais de 10 anos em cela solitária. O infectado em estado grave pela Covid-19 não teve nenhum preparo para se conciliar com o medo de não mais acordar.
Algumas notícias animadoras vez por outra amenizam a montanha-russa diária do brasileiro. Na sexta-feira, a cidade paulista de Araraquara pôde anunciar zero morte de Covid-19 nas 24 horas anteriores, graças ao radical lockdown de 20 dias decretado pelo prefeito petista Edinho Silva. Também foi merecedor de alívio o comunicado da criação de uma nova vacina contra a Covid, a Butanvac, com grife do Instituto Butantan e promessas de entrega ainda para este ano. Algumas horas mais tarde, o anúncio da estreia de uma segunda vacina iminente, a Versalume, impulsionada pelo governo federal, ajudou a temperar a escalada de 3.650 mortos nas 24 horas anteriores. Os testes clínicos em humanos de ambas ainda não foram iniciados, e nesta corrida prevalece a disputa política entre Brasília e a São Paulo de João Doria. Não importa. É uma arrancada.
A única constante a temer é a mente de Jair Bolsonaro, que continua congelada criogenicamente.
Esta foi mais uma semana montanha-russa. As esperanças que dispararam com o anúncio de duas possíveis vacinas nacionais tiveram de conviver com dados abissais. Neste ano 1 de pandemia, a terra brasileira se viu escavada para abrigar seus primeiros 305 mil mortos de Covid-19. Haverá muitos mais. Os que até agora escaparam convivem com o peito sobressaltado pela necessidade de se atualizar com alarmes novos. Nos primórdios da pandemia, havia a falta de máscaras para a população e da proteção inadequada para os agentes de saúde. Houve escassez de leitos hospitalares, de respiradores, houve a multiplicação de covas-relâmpago. Depois veio a constatação da vacinação tardia, a conta-gotas, de leitos transbordantes também em enfermarias, do criminoso esgotamento do oxigênio hospitalar em Manaus, da iminente falta de kits de entubação em todo o território nacional. Por fim, chegamos à real ameaça de colapso dos próprios profissionais de saúde — sem que nenhuma das carências anteriores esteja dominada.
Tome-se o caso da Santa Casa de Misericórdia de São Carlos, cidade de 250 mil habitantes do interior de São Paulo. Na quinta feira, reportou Ana Letícia Leão no GLOBO, à instituição só restavam kits de entubação para as 48 horas seguintes. O atendimento na UTI teve de ser suspenso, um apelo de transferência de 60 pacientes foi encaminhado à central estadual, e 27 técnicos de enfermagem e enfermeiros pediam demissão. O caso leva a pensar em condenados à morte na acepção convencional do termo.
Nos Estados Unidos, a pena de morte foi restabelecida em 1976 após um hiato de quatro anos, à condição de que fosse executada de forma menos bárbara do que a forca ou a cadeira elétrica. O Estado do Texas, eterno campeão na modalidade, introduziu então um método de mascarar a violência da execução, tornando-a mais “higiênica”: a injeção sequencial de três drogas que levam a óbito. Em princípio, seria indolor. Afivelado numa maca em recinto de aspecto hospitalar, o condenado recebe duas sondas em cada braço. A outra extremidade dos fios dessas sondas fica numa saleta contígua, longe da vista das testemunhas obrigatórias por lei. Ali, dois enfermeiros voluntários acionam as seringas na sequência indicada (o Conselho Americano de Anestesiologia proíbe a participação de seus filiados): primeiro um sedativo, depois um bloqueador neuromuscular, por fim a dose de cloreto de potássio para cessar o funcionamento cardíaco do “paciente”.
Em tese, o procedimento não é “nem cruel nem incomum”, como manda a Oitava Emenda da Constituição americana. Só que nem sempre tem sido assim. À medida que a pena capital foi sendo varrida das nações civilizadas, que passaram da abolição à condenação da prática, a União Europeia passou a proibir os laboratórios dos países-membros de vender esses insumos à Justiça criminal americana. Resultado: o coquetel letal original teve de ser substituído por alternativas locais e mambembes, resultando em procedimentos muitas vezes sombrios. O pior deles ocorreu em 2014, quando o condenado Joseph Wood teve de receber 15 injeções, sofreu 640 microconvulsões e viveu duas horas de suplício antes de poder morrer.
Em comum entre a aplicação do coquetel da morte nos EUA e o recurso para salvar vidas de brasileiros necessitados de entubação, apenas os dois ingredientes cruciais que aliviam a agonia: sedativos e o bloqueador neuromuscular. Na ausência de uns ou outro, o suplício físico de quem vai morrer ou de quem espera viver é semelhante. A diferença maior está no estender dos braços para a injeção. A maioria dos condenados à morte teve tempo para amadurecer seu medo, pois passou em média mais de 10 anos em cela solitária. O infectado em estado grave pela Covid-19 não teve nenhum preparo para se conciliar com o medo de não mais acordar.
Algumas notícias animadoras vez por outra amenizam a montanha-russa diária do brasileiro. Na sexta-feira, a cidade paulista de Araraquara pôde anunciar zero morte de Covid-19 nas 24 horas anteriores, graças ao radical lockdown de 20 dias decretado pelo prefeito petista Edinho Silva. Também foi merecedor de alívio o comunicado da criação de uma nova vacina contra a Covid, a Butanvac, com grife do Instituto Butantan e promessas de entrega ainda para este ano. Algumas horas mais tarde, o anúncio da estreia de uma segunda vacina iminente, a Versalume, impulsionada pelo governo federal, ajudou a temperar a escalada de 3.650 mortos nas 24 horas anteriores. Os testes clínicos em humanos de ambas ainda não foram iniciados, e nesta corrida prevalece a disputa política entre Brasília e a São Paulo de João Doria. Não importa. É uma arrancada.
A única constante a temer é a mente de Jair Bolsonaro, que continua congelada criogenicamente.
A raiz do mal
Bolsonaro quase me matou em 5 de outubro de 2018.
A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais, bastante tenso com a possibilidade de o candidato da extrema-direita vencer os dois turnos, tive um enfarte agudo do miocárdio.
Aos amigos e ao colunista Ancelmo Góis, de O Globo, esclareci que sofrera, na verdade, um “bolsonaro agudo do miocárdio”. Ninguém contestou, nem duvidou. Uma semana e três stents depois, já estava em casa, pronto para o segundo turno, cujo trágico desfecho, felizmente, não me levou de volta ao hospital.
A simples ideia de ouvir “o presidente Jair Bolsonaro” desafiava minhas coronárias e alentava minha crença na Primeira Lei de Murphy. Se algo pode dar errado, certo não dará.
Imaginar na presidência da República aquele deputado do baixo clero, inapto, demagogo, fanfarrão, que nada de útil ou relevante fizera em quase três décadas de politicagem, era algo que me soava tão absurdo e inimaginável quanto William Bonner noticiar que Trump restaurara a monarquia nos EUA e agora era rei, ou que Fernanda Montenegro aceitara participar do próximo BBB.
Parecia-me então que, tão ou mais duro do que metabolizar a presença do ex-paraquedista na presidência, seria vê-lo a toda hora na TV, a proferir asneiras com aquela inflexão vulgar de chefe de torcida de futebol: a fala em staccato para disfarçar a espessa ignorância, o tatibitate de um espírito tosco, inteiramente despreparado para o cargo a que o oportunismo político e a insensatez de um eleitorado ressentido e envenenado por distorções e mentiras das mídias sociais haviam conduzido.
Ao menos para mim, foi mais duro, sim. E muito pior ficou depois que ele a seu vastíssimo currículo de defeitos – não sendo a maneira de falar e a compulsão para a mentira os menos nocivos de todos – acrescentou uma sádica propensão ao extermínio de pessoas indesejadas.
Bem antes de tornar-se réu em potencial do Tribunal de Haia, acusado de genocídio e ecocídio, Bolsonaro, ainda deputado, já defendia a esterilização em massa de pobres, por uma perspectiva malthusiana jeca: “É gente demais! Não tem mais lugar para deitar na praia!”, discursou, em 5 de agosto de 2010.
Depois, como também está registrado em vídeo – e façamos aqui um brinde à implacabilidade da internet –, ameaçou mergulhar o País numa guerra civil, para matar, no mínimo, umas 30 mil pessoas.
Era só o trailer do filme.
Entre os cabras por ele marcados para morrer estava o mesmo FHC que há dias não apenas reiterou sua rejeição ao impeachment como avaliou Bolsonaro “mais competente que a Dilma” em lidar com os interesses que o seguram no poder; embora infinitamente menos passível de uma punição parlamentar, faltou ressaltar, mas ressalto eu, contornando, par delicatessen, a palavra “golpe”, por sinal já admitida até por seu maior beneficiário, Michel Temer.
Afinal, o que foram as “pedaladas fiscais” da Dilma comparadas aos estragos promovidos, em todas as instâncias e gradações, pelo capitão, em 28 meses de disfunção administrativa? E nem estou incluindo nesse passivo as 300 mil mortes por covid por ele estimuladas de várias formas – ininterruptamente.
300 mil! Dez vezes mais mortes do que os assassinatos prometidos por sua guerra civil.
Nada disso (ou pelo menos em tais proporções) teria acontecido se Bolsonaro tivesse sido cassado quando pela primeira vez, ainda como deputado, exaltou da tribuna da Câmara o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Dr. Tibiriçá das masmorras da ditadura militar e seu mais notório torturador. Ou se, também por falta de decoro parlamentar, tivessem-no punido com o devido rigor por hostilizar, de corpo presente, o Palácio do Planalto como “uma pocilga”, cheia de porcos “com faixa presidencial e broche de ministro de Estado, zombando, debochando do povo brasileiro”.
O mais grave senão da carta-manifesto de economistas e banqueiros, divulgada esta semana, com críticas às ações de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, à parte a necessidade de sua elaboração (a elite econômica precisando defender a adoção de medidas de saúde pública!), foi não exigir, explicitamente, que o presidente fosse afastado, para o bem do Brasil.
Bolsonaro é o núcleo, o eixo, a medula, o epicentro, a célula-mãe de toda a crise sanitária, diplomática, econômica, moral e cultural instalada no País, o teimoso fiador das nulidades, dos robôs e sabujos que escalou em seus ministérios, dos quais só passou a abrir mão com menor resistência depois que seu governo começou a afundar inexoravelmente. Inútil trocar ministros e deixar o capitão fazendo prevalecer, sempre, a sua vontade, as suas doentias e obtusas certezas e as de sua prole delinquente, abduzida pelo olavismo e os delírios nível Lex Luthor de Steve Bannon. É preciso cortar o mal pela raiz.
Em seu comentário da última terça-feira, no YouTube, o jornalista Bob Fernandes revelou como o governo Bolsonaro, transviado pelo chanceler olavista Ernesto Araújo, entubou as pressões de Trump para não comprarmos a vacina russa Sputnik e medicamentos afins da China, Venezuela e outros “países mal-intencionados”, na visão Guerra Fria do trumpismo.
Essa torpe submissão aos interesses de um lunático que já deixou a Casa Branca resultou na morte de milhares de brasileiros e pode ser comprovada no Relatório de 2020 do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA.
Afastado o Genocida, seus ministros irão para o vinagre. Aí zeramos a fita e tentaremos salvar o que ainda é possível. Não é só o que o Brasil precisa e espera, mas o que o mundo também espera, para não ser contaminado.
A dois dias do primeiro turno das eleições presidenciais, bastante tenso com a possibilidade de o candidato da extrema-direita vencer os dois turnos, tive um enfarte agudo do miocárdio.
Aos amigos e ao colunista Ancelmo Góis, de O Globo, esclareci que sofrera, na verdade, um “bolsonaro agudo do miocárdio”. Ninguém contestou, nem duvidou. Uma semana e três stents depois, já estava em casa, pronto para o segundo turno, cujo trágico desfecho, felizmente, não me levou de volta ao hospital.
A simples ideia de ouvir “o presidente Jair Bolsonaro” desafiava minhas coronárias e alentava minha crença na Primeira Lei de Murphy. Se algo pode dar errado, certo não dará.
Imaginar na presidência da República aquele deputado do baixo clero, inapto, demagogo, fanfarrão, que nada de útil ou relevante fizera em quase três décadas de politicagem, era algo que me soava tão absurdo e inimaginável quanto William Bonner noticiar que Trump restaurara a monarquia nos EUA e agora era rei, ou que Fernanda Montenegro aceitara participar do próximo BBB.
Parecia-me então que, tão ou mais duro do que metabolizar a presença do ex-paraquedista na presidência, seria vê-lo a toda hora na TV, a proferir asneiras com aquela inflexão vulgar de chefe de torcida de futebol: a fala em staccato para disfarçar a espessa ignorância, o tatibitate de um espírito tosco, inteiramente despreparado para o cargo a que o oportunismo político e a insensatez de um eleitorado ressentido e envenenado por distorções e mentiras das mídias sociais haviam conduzido.
Ao menos para mim, foi mais duro, sim. E muito pior ficou depois que ele a seu vastíssimo currículo de defeitos – não sendo a maneira de falar e a compulsão para a mentira os menos nocivos de todos – acrescentou uma sádica propensão ao extermínio de pessoas indesejadas.
Bem antes de tornar-se réu em potencial do Tribunal de Haia, acusado de genocídio e ecocídio, Bolsonaro, ainda deputado, já defendia a esterilização em massa de pobres, por uma perspectiva malthusiana jeca: “É gente demais! Não tem mais lugar para deitar na praia!”, discursou, em 5 de agosto de 2010.
Depois, como também está registrado em vídeo – e façamos aqui um brinde à implacabilidade da internet –, ameaçou mergulhar o País numa guerra civil, para matar, no mínimo, umas 30 mil pessoas.
Era só o trailer do filme.
Entre os cabras por ele marcados para morrer estava o mesmo FHC que há dias não apenas reiterou sua rejeição ao impeachment como avaliou Bolsonaro “mais competente que a Dilma” em lidar com os interesses que o seguram no poder; embora infinitamente menos passível de uma punição parlamentar, faltou ressaltar, mas ressalto eu, contornando, par delicatessen, a palavra “golpe”, por sinal já admitida até por seu maior beneficiário, Michel Temer.
Afinal, o que foram as “pedaladas fiscais” da Dilma comparadas aos estragos promovidos, em todas as instâncias e gradações, pelo capitão, em 28 meses de disfunção administrativa? E nem estou incluindo nesse passivo as 300 mil mortes por covid por ele estimuladas de várias formas – ininterruptamente.
300 mil! Dez vezes mais mortes do que os assassinatos prometidos por sua guerra civil.
Nada disso (ou pelo menos em tais proporções) teria acontecido se Bolsonaro tivesse sido cassado quando pela primeira vez, ainda como deputado, exaltou da tribuna da Câmara o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o Dr. Tibiriçá das masmorras da ditadura militar e seu mais notório torturador. Ou se, também por falta de decoro parlamentar, tivessem-no punido com o devido rigor por hostilizar, de corpo presente, o Palácio do Planalto como “uma pocilga”, cheia de porcos “com faixa presidencial e broche de ministro de Estado, zombando, debochando do povo brasileiro”.
O mais grave senão da carta-manifesto de economistas e banqueiros, divulgada esta semana, com críticas às ações de Bolsonaro no enfrentamento da pandemia, à parte a necessidade de sua elaboração (a elite econômica precisando defender a adoção de medidas de saúde pública!), foi não exigir, explicitamente, que o presidente fosse afastado, para o bem do Brasil.
Bolsonaro é o núcleo, o eixo, a medula, o epicentro, a célula-mãe de toda a crise sanitária, diplomática, econômica, moral e cultural instalada no País, o teimoso fiador das nulidades, dos robôs e sabujos que escalou em seus ministérios, dos quais só passou a abrir mão com menor resistência depois que seu governo começou a afundar inexoravelmente. Inútil trocar ministros e deixar o capitão fazendo prevalecer, sempre, a sua vontade, as suas doentias e obtusas certezas e as de sua prole delinquente, abduzida pelo olavismo e os delírios nível Lex Luthor de Steve Bannon. É preciso cortar o mal pela raiz.
Em seu comentário da última terça-feira, no YouTube, o jornalista Bob Fernandes revelou como o governo Bolsonaro, transviado pelo chanceler olavista Ernesto Araújo, entubou as pressões de Trump para não comprarmos a vacina russa Sputnik e medicamentos afins da China, Venezuela e outros “países mal-intencionados”, na visão Guerra Fria do trumpismo.
Essa torpe submissão aos interesses de um lunático que já deixou a Casa Branca resultou na morte de milhares de brasileiros e pode ser comprovada no Relatório de 2020 do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos EUA.
Afastado o Genocida, seus ministros irão para o vinagre. Aí zeramos a fita e tentaremos salvar o que ainda é possível. Não é só o que o Brasil precisa e espera, mas o que o mundo também espera, para não ser contaminado.
A vida de antes
Autonomia. Era o tínhamos até março de 2020. Uns mais, outros menos. Um medo aqui, uma dúvida ali. Mas gente de vida normal – não encarcerada - ia e vinha movida pelo desejo, pela necessidade. Ou por obrigações.
Era assim. Gente mais para o normal, vez por outa, dava-se o sagrado direito de descumprir obrigações – grandes ou pequenas. Necessidade sempre foi coisa mais rígida. O “tem que” é mais impositivo. Mas o bom e velho desejo tinha autonomia para desfazer, desarrumar e rearrumar tudo. Sempre foi possível desobrigar-se. Soberano, o desejo garante (ou garantia) a autonomia, com o limite de não ferir, não matar, não roubar.
Foi assim até um ano atrás. Nossa autonomia era tanta que nos permitiu fazer Presidente da República um coiso. Não foi desejo de todos, mas foi de muitos. Para alguns uma birra, desejo incontrolável de fazer perder os que vinham ganhando sempre. Ser humano tem dessas coisas.
Pra outros o coiso foi uma escolha. Tosca, é verdade, mas escolha, fruto do autônomo desejo - às vezes, como no caso, inconsequente, temerário.
Os que a gente, na nossa autonomia de pensar, enxerga como toscos incomodam-se muito com costumes que não são os seus, com jeitos diferentes de viver a vida, com horizontes mais largos e sem comandos de fé, padre ou pastor. Incomodados, revoltam-se e, dizendo defender Deus, pátria e família, votam. Às vezes, pior, provocam guerras. Nada santas.
No voto ou à bala, o propósito será esmagar os diferentes, as diferenças. Sem saber desfrutar de autonomia pessoal, juntam-se em bandos. Não serão razoáveis em nada, com nada. Praticam obediência cega às suas descrenças. Têm olhos cercados por antolhos, ódio como inspiração.
Pois então. No ano em que um vírus roubou nossa autonomia de viver segundo nosso desejo, indo, vindo ou ficando, topamos de frente com dois monstros: a doença no modo aerossol e o governo dos toscos. Um ameaça com a morte, outro, incompetente, atrapalhado e malvado, força para antecipar as mortes. A julgar pelo que assistimos, por puro prazer.
Se diariamente vivemos o difícil desapegar-se da autonomia de antes em favor da sobrevivência, também toda hora, o dia inteiro, tememos pelo o que mais virá dos toscos.
O game é violento, tipo Mortal Kombat, Wolfenstein 3D ou GTA. Passamos da fase do isso-não-está-acontecendo, para a do é real – tudo está acontecendo. Somos os alvos, eles os snipers.
A vida de antes já é memória. A de agora é pânico. Sem autonomia. Sobrevive o desejo de viver para contar – o que foi? o que poderia ter sido? o que ficará?
Tânia Fusco
Era assim. Gente mais para o normal, vez por outa, dava-se o sagrado direito de descumprir obrigações – grandes ou pequenas. Necessidade sempre foi coisa mais rígida. O “tem que” é mais impositivo. Mas o bom e velho desejo tinha autonomia para desfazer, desarrumar e rearrumar tudo. Sempre foi possível desobrigar-se. Soberano, o desejo garante (ou garantia) a autonomia, com o limite de não ferir, não matar, não roubar.
Foi assim até um ano atrás. Nossa autonomia era tanta que nos permitiu fazer Presidente da República um coiso. Não foi desejo de todos, mas foi de muitos. Para alguns uma birra, desejo incontrolável de fazer perder os que vinham ganhando sempre. Ser humano tem dessas coisas.
Pra outros o coiso foi uma escolha. Tosca, é verdade, mas escolha, fruto do autônomo desejo - às vezes, como no caso, inconsequente, temerário.
Os que a gente, na nossa autonomia de pensar, enxerga como toscos incomodam-se muito com costumes que não são os seus, com jeitos diferentes de viver a vida, com horizontes mais largos e sem comandos de fé, padre ou pastor. Incomodados, revoltam-se e, dizendo defender Deus, pátria e família, votam. Às vezes, pior, provocam guerras. Nada santas.
No voto ou à bala, o propósito será esmagar os diferentes, as diferenças. Sem saber desfrutar de autonomia pessoal, juntam-se em bandos. Não serão razoáveis em nada, com nada. Praticam obediência cega às suas descrenças. Têm olhos cercados por antolhos, ódio como inspiração.
Pois então. No ano em que um vírus roubou nossa autonomia de viver segundo nosso desejo, indo, vindo ou ficando, topamos de frente com dois monstros: a doença no modo aerossol e o governo dos toscos. Um ameaça com a morte, outro, incompetente, atrapalhado e malvado, força para antecipar as mortes. A julgar pelo que assistimos, por puro prazer.
Se diariamente vivemos o difícil desapegar-se da autonomia de antes em favor da sobrevivência, também toda hora, o dia inteiro, tememos pelo o que mais virá dos toscos.
O game é violento, tipo Mortal Kombat, Wolfenstein 3D ou GTA. Passamos da fase do isso-não-está-acontecendo, para a do é real – tudo está acontecendo. Somos os alvos, eles os snipers.
A vida de antes já é memória. A de agora é pânico. Sem autonomia. Sobrevive o desejo de viver para contar – o que foi? o que poderia ter sido? o que ficará?
Tânia Fusco
sábado, 27 de março de 2021
Exaustão
São 300 mil mortos, e estamos todos exaustos. Há um ano, era previsível que chegaríamos a 300 mil mortos, e estamos todos exaustos. Em 2018, já era possível antever o horror que seria o governo de Jair Bolsonaro, e estamos todos exaustos. Temos ainda meses duros pela frente e estamos todos exaustos. A angústia nos asfixia, e estamos todos exaustos. O medo nos oprime, e estamos todos exaustos. Mas exaustão não é sinônimo de tudo poder fazer. A exaustão não implica insensibilidade. A exaustão não pode determinar como tratamos pessoas que sequer conhecemos ou que mal sabemos como são e como pensam.
Como economista, estou exausta. Exausta de alertar, junto a outras vozes, que o Brasil estava caminhando para a tragédia dos corpos empilhados e asfixiados, das covas comuns e dos contêineres para os mortos, dos entubados nos corredores amarrados às macas sem sedativos, dos parentes aos prantos nas portas dos prontos-socorros. Das pessoas que morrem sozinhas, ainda que a realidade seja a de que todos nós, um dia, também vamos morrer sozinhos. A morte não permite acompanhantes, seja em que condições for. Sei disso, vivi isso junto ao leito de morte de meu pai há 30 anos, em um hospital, segurando sua mão. Ali estava ele, sozinho.
Tudo isso é muito duro. Tudo isso resulta da combinação entre o vírus, o descaso e as políticas intencionais do governo de fazer morrer. Como já escrevi neste espaço, essas políticas incluem a pauta econômica de Paulo Guedes, a pauta que é sempre poupada perante o descalabro. Tivemos, mais uma vez, o vislumbre de como se protege a pauta mesmo diante do colapso — começou no domingo e adentrou a semana a repercussão da carta que acertou e se esquivou em igual medida.
A dureza do momento não justifica a falta de civilidade no trato, a ausência da gentileza e da empatia. Ela tampouco justifica a frieza da economia perante os mortos. A economia conforme praticada no Brasil, que resolveu até o último instante se omitir, terá de ser dissecada no futuro para que seu papel nessa catástrofe seja plenamente compreendido. Afinal, não foram poucos os economistas que se omitiram. Muitos falaram, muitos sofreram, quiçá muitos tenham perdido amigos e entes queridos. Mas a economia como praticada no Brasil hipnotiza muitos de seus praticantes e os torna zumbis do custo-benefício, do cálculo diante de uma crise humanitária. O cálculo da dívida que cresce, do déficit que engorda, da inflação que sobe. Até que esses cálculos esbarram na realidade da morte. Da morte ao lado, pois os hospitais já não têm mais leitos e o dinheiro não permite que dela se salve. A paúra.
É grande a paúra quando nos defrontamos com a inevitabilidade de nossa transitoriedade. E talvez isso explique por que a economia, tal qual praticada no Brasil, não tenha capacidade de dar conta, de fazer a conta, da morte.
Durante esses últimos 12 meses, falei da morte. Não de forma aberta, mas implícita. A chamada de atenção para a morte, ou melhor, para como evitar os falecimentos desnecessários, esteve em cada palavra que escrevi e proferi. Esteve no que disse logo no início da pandemia: será longa, será dolorosa, preparem-se. Esteve em minha defesa do auxílio emergencial como medida de saúde pública. Esteve nas repetições infindáveis das mesmas ideias, com palavras distintas a cada vez. Contudo, nada é mais forte do que um governo que não apenas não se importa com as mortes evitáveis, mas as abraça. Disso faz parte o Estado Mínimo de Guedes. Disso faz parte a recusa em renovar o auxílio emergencial no ano passado. Disso faz parte a negação de que o Brasil sofreria uma nova onda da pandemia pior do que a primeira. Disso faz parte a tentativa de desmontar o SUS e de deixá-lo subfinanciado. Disso faz parte a insistência na votação da autonomia do Banco Central antes da aprovação do auxílio. Disso faz parte a tentativa de atrelar o auxílio a uma PEC cujos problemas são muitos. Sobre isso a carta dos economistas cala.
Nestes 12 meses me senti, ao mesmo tempo, impotente e capaz. Nestes 12 meses sofri ataques e ridicularizações de colegas de profissão. Não foram discordâncias sobre o que expunha, mas adjetivos que continuam guardados: “Macroeconomista de jornal”; “Tudóloga”; “YouTuber”. Teve também “essa daí é muito burra” e afins. Estou exausta da economia no “Brasil”.
Choro pelo Brasil, mas não deixarei de escrever. Tampouco de ficar exausta por todas as pessoas que merecem minha exaustão e pelo punhado que jamais a mereceu.
Como economista, estou exausta. Exausta de alertar, junto a outras vozes, que o Brasil estava caminhando para a tragédia dos corpos empilhados e asfixiados, das covas comuns e dos contêineres para os mortos, dos entubados nos corredores amarrados às macas sem sedativos, dos parentes aos prantos nas portas dos prontos-socorros. Das pessoas que morrem sozinhas, ainda que a realidade seja a de que todos nós, um dia, também vamos morrer sozinhos. A morte não permite acompanhantes, seja em que condições for. Sei disso, vivi isso junto ao leito de morte de meu pai há 30 anos, em um hospital, segurando sua mão. Ali estava ele, sozinho.
Tudo isso é muito duro. Tudo isso resulta da combinação entre o vírus, o descaso e as políticas intencionais do governo de fazer morrer. Como já escrevi neste espaço, essas políticas incluem a pauta econômica de Paulo Guedes, a pauta que é sempre poupada perante o descalabro. Tivemos, mais uma vez, o vislumbre de como se protege a pauta mesmo diante do colapso — começou no domingo e adentrou a semana a repercussão da carta que acertou e se esquivou em igual medida.
A dureza do momento não justifica a falta de civilidade no trato, a ausência da gentileza e da empatia. Ela tampouco justifica a frieza da economia perante os mortos. A economia conforme praticada no Brasil, que resolveu até o último instante se omitir, terá de ser dissecada no futuro para que seu papel nessa catástrofe seja plenamente compreendido. Afinal, não foram poucos os economistas que se omitiram. Muitos falaram, muitos sofreram, quiçá muitos tenham perdido amigos e entes queridos. Mas a economia como praticada no Brasil hipnotiza muitos de seus praticantes e os torna zumbis do custo-benefício, do cálculo diante de uma crise humanitária. O cálculo da dívida que cresce, do déficit que engorda, da inflação que sobe. Até que esses cálculos esbarram na realidade da morte. Da morte ao lado, pois os hospitais já não têm mais leitos e o dinheiro não permite que dela se salve. A paúra.
É grande a paúra quando nos defrontamos com a inevitabilidade de nossa transitoriedade. E talvez isso explique por que a economia, tal qual praticada no Brasil, não tenha capacidade de dar conta, de fazer a conta, da morte.
Durante esses últimos 12 meses, falei da morte. Não de forma aberta, mas implícita. A chamada de atenção para a morte, ou melhor, para como evitar os falecimentos desnecessários, esteve em cada palavra que escrevi e proferi. Esteve no que disse logo no início da pandemia: será longa, será dolorosa, preparem-se. Esteve em minha defesa do auxílio emergencial como medida de saúde pública. Esteve nas repetições infindáveis das mesmas ideias, com palavras distintas a cada vez. Contudo, nada é mais forte do que um governo que não apenas não se importa com as mortes evitáveis, mas as abraça. Disso faz parte o Estado Mínimo de Guedes. Disso faz parte a recusa em renovar o auxílio emergencial no ano passado. Disso faz parte a negação de que o Brasil sofreria uma nova onda da pandemia pior do que a primeira. Disso faz parte a tentativa de desmontar o SUS e de deixá-lo subfinanciado. Disso faz parte a insistência na votação da autonomia do Banco Central antes da aprovação do auxílio. Disso faz parte a tentativa de atrelar o auxílio a uma PEC cujos problemas são muitos. Sobre isso a carta dos economistas cala.
Nestes 12 meses me senti, ao mesmo tempo, impotente e capaz. Nestes 12 meses sofri ataques e ridicularizações de colegas de profissão. Não foram discordâncias sobre o que expunha, mas adjetivos que continuam guardados: “Macroeconomista de jornal”; “Tudóloga”; “YouTuber”. Teve também “essa daí é muito burra” e afins. Estou exausta da economia no “Brasil”.
Choro pelo Brasil, mas não deixarei de escrever. Tampouco de ficar exausta por todas as pessoas que merecem minha exaustão e pelo punhado que jamais a mereceu.
O caos que nos rouba a vida
Toda sociedade precisa de sistemas técnicos e administrativos. Quanto mais complexas e diversificadas, maior a necessidade. Sociedades desiguais, como a brasileira, dependem dramaticamente deles. O Estado, poder condensado, deveria funcionar como coordenador dos sistemas, em nome da vida comunitária, das liberdades e da justiça social. O próprio mercado é um vasto universo de sistemas. A vida coletiva, a rigor, é inconcebível sem recursos sistêmicos.
Há duas possibilidades de convivência entre os indivíduos (grupos, famílias, empresas) e as estruturas sistêmicas. A primeira seria aquela em que as pessoas acumulam recursos éticos e políticos para domesticar os sistemas e forçá-los a trabalhar em seu benefício sem sobrecargas desnecessárias.
A segunda é a que tem prevalecido na vida moderna: os sistemas submetem os indivíduos, roubando-lhes espaços de autonomia e defesa. Com sua progressiva burocratização, os sistemas crescem, blindam-se com normas e procedimentos, erguem muros que os afastam dos indivíduos. Processa-se o que o filósofo alemão Jürgen Habermas chamou de “colonização da vida” pelos sistemas. Sua conclusão é que nos entregamos ao que não podemos dispensar. Um belo dia descobrimos que estamos enredados nas malhas das estruturas que nos prestam serviços.
Comunidades com boas democracias e sociedades civis ativas conseguem maior sucesso na contestação dos sistemas, modelando-os para que atendam às necessidades coletivas. Munidos de capacidade de diálogo, elaboração discursiva e interpelação política dos poderes, os cidadãos se organizam e abrem janelas que “recolonizam” os sistemas.
Especialmente quando são complexos, os sistemas tendem a fugir de comandos autoritários, que se dedicam a desorganizá-los. São energizados pelas ideias de independência e autossuficiência. Agarram-se às suas expertises e à dedicação abnegada, muitas vezes heroica, de seus profissionais, que continuam a prestar serviços, salvar vidas, cuidar e educar.
É o caso, exemplar, do SUS e da rede de hospitais, centros de saúde e UPAs, do Butantan e da Fiocruz, para ficar no terreno sanitário. Sem o esforço descomunal que despendem para cumprir sua missão estaríamos em situação muito mais dramática. São elos de uma cadeia que sofre para agir, mas não desiste, mesmo tendo pela frente uma pandemia que bate ruidosamente à porta e faz o sistema conviver com o colapso, assoberbado pela profusão de casos e carente de recursos operacionais básicos.
Com Bolsonaro o ataque aos sistemas atingiu o auge. Muitos foram sucateados, perderam parte de sua potência positiva. O presidente não preside, age para impedir que o governo governe. A inteligência desapareceu, rejeitada por uma equipe ministerial pouco qualificada e desorientada pela ausência de um plano concatenado de governo. Os sistemas foram atingidos no coração. Não só na saúde. A corrosão atinge também a educação, a cultura, a ciência e a tecnologia, o meio ambiente.
O governo atual, em vez de atuar como vértice supremo dos sistemas, age deliberadamente para desorganizá-los, recusa-se a coordenar suas peças e as impede de funcionar. Forma-se assim uma nuvem tóxica, de rara perversidade, que provoca caos sistêmico geral, impulsiona a disseminação do vírus e aumenta o número de doentes e mortos. É um crime.
Hoje olhamos para o SUS sufocado, o Ministério da Saúde cortado pela incompetência, e vemos o tamanho do estrago. A cultura está em pandarecos, o sistema educacional vive espremido entre a “guerra cultural”, a religiosidade postiça e a falação sobre homeschooling. O sistema de Justiça claudica, o sistema político funciona aos trancos, mergulhado num mar de mediocridade.
A crise provocada pela pandemia e pelo desgoverno Bolsonaro atirou o País num poço, do qual será difícil sair.
Não temos uma sociedade que “atue sobre si mesma de modo democrático”, como diz Habermas. Não estamos, como cidadãos, conseguindo nos reunir num âmbito coletivo que nos dê força para intervir. Falta-nos solidariedade cívica, sobra fragmentação política, as “dissonâncias cognitivas” nos paralisam, o palavreado tosco e agressivo de quem deveria prezar pela serenidade causa horror. Ficou muito mais difícil um agir consciente sobre o mundo.
Ao nos isolar e assustar, a pandemia explica muita coisa, mas não serve de justificativa. O Estado, hoje, no Brasil não é uma comunidade política organizada, assentada nos interesses comuns de seus integrantes. Faltam-nos elites qualificadas e boas estruturas associativas. Está submetido aos desmandos, à incompetência e à incúria perversa de um governo desqualificado, que manipula e amplia a pandemia, em vez de combatê-la com firmeza e inteligência. A demolição é abrangente: institucional, ética, política, econômica, ambiental, existencial.
A luta contra essa situação e uma resposta articulada ao caos que nos rouba a vida serão as principais tarefas dos próximos anos. Quanto antes começarmos a cumpri-las, melhor.
Há duas possibilidades de convivência entre os indivíduos (grupos, famílias, empresas) e as estruturas sistêmicas. A primeira seria aquela em que as pessoas acumulam recursos éticos e políticos para domesticar os sistemas e forçá-los a trabalhar em seu benefício sem sobrecargas desnecessárias.
A segunda é a que tem prevalecido na vida moderna: os sistemas submetem os indivíduos, roubando-lhes espaços de autonomia e defesa. Com sua progressiva burocratização, os sistemas crescem, blindam-se com normas e procedimentos, erguem muros que os afastam dos indivíduos. Processa-se o que o filósofo alemão Jürgen Habermas chamou de “colonização da vida” pelos sistemas. Sua conclusão é que nos entregamos ao que não podemos dispensar. Um belo dia descobrimos que estamos enredados nas malhas das estruturas que nos prestam serviços.
Comunidades com boas democracias e sociedades civis ativas conseguem maior sucesso na contestação dos sistemas, modelando-os para que atendam às necessidades coletivas. Munidos de capacidade de diálogo, elaboração discursiva e interpelação política dos poderes, os cidadãos se organizam e abrem janelas que “recolonizam” os sistemas.
Especialmente quando são complexos, os sistemas tendem a fugir de comandos autoritários, que se dedicam a desorganizá-los. São energizados pelas ideias de independência e autossuficiência. Agarram-se às suas expertises e à dedicação abnegada, muitas vezes heroica, de seus profissionais, que continuam a prestar serviços, salvar vidas, cuidar e educar.
É o caso, exemplar, do SUS e da rede de hospitais, centros de saúde e UPAs, do Butantan e da Fiocruz, para ficar no terreno sanitário. Sem o esforço descomunal que despendem para cumprir sua missão estaríamos em situação muito mais dramática. São elos de uma cadeia que sofre para agir, mas não desiste, mesmo tendo pela frente uma pandemia que bate ruidosamente à porta e faz o sistema conviver com o colapso, assoberbado pela profusão de casos e carente de recursos operacionais básicos.
Com Bolsonaro o ataque aos sistemas atingiu o auge. Muitos foram sucateados, perderam parte de sua potência positiva. O presidente não preside, age para impedir que o governo governe. A inteligência desapareceu, rejeitada por uma equipe ministerial pouco qualificada e desorientada pela ausência de um plano concatenado de governo. Os sistemas foram atingidos no coração. Não só na saúde. A corrosão atinge também a educação, a cultura, a ciência e a tecnologia, o meio ambiente.
O governo atual, em vez de atuar como vértice supremo dos sistemas, age deliberadamente para desorganizá-los, recusa-se a coordenar suas peças e as impede de funcionar. Forma-se assim uma nuvem tóxica, de rara perversidade, que provoca caos sistêmico geral, impulsiona a disseminação do vírus e aumenta o número de doentes e mortos. É um crime.
Hoje olhamos para o SUS sufocado, o Ministério da Saúde cortado pela incompetência, e vemos o tamanho do estrago. A cultura está em pandarecos, o sistema educacional vive espremido entre a “guerra cultural”, a religiosidade postiça e a falação sobre homeschooling. O sistema de Justiça claudica, o sistema político funciona aos trancos, mergulhado num mar de mediocridade.
A crise provocada pela pandemia e pelo desgoverno Bolsonaro atirou o País num poço, do qual será difícil sair.
Não temos uma sociedade que “atue sobre si mesma de modo democrático”, como diz Habermas. Não estamos, como cidadãos, conseguindo nos reunir num âmbito coletivo que nos dê força para intervir. Falta-nos solidariedade cívica, sobra fragmentação política, as “dissonâncias cognitivas” nos paralisam, o palavreado tosco e agressivo de quem deveria prezar pela serenidade causa horror. Ficou muito mais difícil um agir consciente sobre o mundo.
Ao nos isolar e assustar, a pandemia explica muita coisa, mas não serve de justificativa. O Estado, hoje, no Brasil não é uma comunidade política organizada, assentada nos interesses comuns de seus integrantes. Faltam-nos elites qualificadas e boas estruturas associativas. Está submetido aos desmandos, à incompetência e à incúria perversa de um governo desqualificado, que manipula e amplia a pandemia, em vez de combatê-la com firmeza e inteligência. A demolição é abrangente: institucional, ética, política, econômica, ambiental, existencial.
A luta contra essa situação e uma resposta articulada ao caos que nos rouba a vida serão as principais tarefas dos próximos anos. Quanto antes começarmos a cumpri-las, melhor.
Um Brasil poético e solidário
Para Thomaz Souto Corrêa
Fugimos de São Paulo e aqui estamos, evitando o colapso da covid. Momento exato. Minha idade me torna vulnerável e quero ainda gozar os anos que me restam. Não professo a teoria do genocida. Aqui, aos poucos, viemos penetrando na atmosfera da comunidade, lentamente porque é preciso ir com jeito. O mineiro é bom, solidário, generoso, mas confia com cautela. Marcia e Rita já apanharam o modo de eles falarem, as contrações, prêle, os termos próprios, o LI quando querem dizer ALI, e dezenas de expressões poéticas. Nossa casa é conhecida como a casa da dona Marcia e foi construída velozmente por três homens, não mais. Das fundações aos acabamentos, hidráulica, pintura, Marcinho, Geovanni e Genildo cuidaram de tudo. O muro de pedra foi erguido pelo Fortunato, que manejou pedras pesadíssimas. José Messias se encarrega da horta e ali buscamos couve, feijão, alface, almeirão, vagem macarrão, couve chinesa e já temos limão plantado. Ele é daqueles que têm mão santa, planta, germina, cresce. Os governantes não conhecem o interior do Brasil, é outro mundo distante de Brasília, ninho de escorpiões.
Véspera de Natal, fim de ano. Não resistimos, viemos com a casa inacabada. Faltavam móveis e geladeira. A loja não teve como cumprir prazos. Logo a notícia se espalhou, eu diria que aqui é uma espécie de condado com suas casas espalhadas, bistrô da Nilda, o Florença, onde se come truta fresca e se tomam boas cervejas artesanais, algumas pousadas (desertas com a pandemia), igreja, pequena vila, chamada Maria, a piscinona da Lurdes, um campo de futebol, um empório, o do Horlando, onde você encontra tudo, ou quase tudo. A mulher dele, Dalila, e a filha Camila ajudam a tomar conta e tudo é posto na caderneta, digo no computador. Ali é ponto de encontro, troca de informações, concentração dos times que jogam no domingo no campo vizinho
Todos os dias vinha a pergunta: “Chegaram os móveis da Marcia? E a geladeira?”. Os motoristas de cada caminhão que passava pelo Horlando ouviam a mesma indagação ansiosa: “Trouxe os móveis da Marcia? E a geladeira?”. As festas de final de ano chegavam. Suspense geral. Criou-se um clima, todos inquietos. A estrada de terra para nossa casa passa frente ao Horlando e um dia por ali circulou um caminhão-baú vindo de Lagoa Dourada e Camila gritou: “É a geladeira?”. O motorista respondeu: “Não, são os móveis da dona Marcia”.
Alegria. O caminhão seguiu rumo a nossa casa. Mas sendo estrada de terra, tinha chovido, a carga era pesada, em uma ladeira enlameada, ele atolou. E agora? Bem, o Miguelzinho passou por ali de moto, olhou, viu que eram os móveis, voou em busca do Alci com o trator, desencalharam o caminhão. Este chegou em casa à noite seguido por um bando de gente disposta a ajudar a descarregar. O que deveria ter durado três horas com o motorista e seu ajudante, virou menos de 40 minutos, todo mundo levando mesa, cadeiras, sofás, colchões, armários, rindo e brincando. Foi linda a solidariedade, a disposição, o companheirismo. Sentimo-nos aceitos.
Passamos o Natal sem geladeira. Certo dia, passou pelo Horlando uma caminhoneta com uma geladeira na traseira. Tomou nosso caminho. Camila deu o alerta: “Chegou a geladeira da Marcia”. Teve gente que veio verificar. Quem veio, tomou cerveja. Preciso dizer que um dia trouxe um livro meu para o Horlando. Ele tirou uma foto, ampliou, está no “shopping”, alertando que sou imortal em duas academias, a Paulista e a Brasileira. Pretendo trazer livros para todo mundo, montar uma biblioteca aqui que será cuidada pela Vitória, que adora literatura. Ah, sim acabaram de trazer amendoim e pinhões recém-colhidos. Este é um Brasil cordial que ainda existe.
Lembrem-se:
Faixa negra nas janelas no Movimento Luto pela vida.
A mitologia do mito Jair Bolsonaro
Soldados são treinados para matar, e, eventualmente, morrer pela pátria. Não têm adversários, têm inimigos a exterminar, missões a cumprir e ordens a obedecer. Foi essa a formação de Bolsonaro, que, com seu negacionismo, sua incompetência e seu autoritarismo, já ajudou a matar mais de 300 mil brasileiros. Como teve 55% do eleitorado, mais de 160 mil mortos eram seus eleitores. Esses mortos não são números, têm famílias, amigos, companheiros de trabalho, que também morrem um pouco a cada perda, atingidos pela dor individual e coletiva. Já que a realidade está insuportável, vamos estudar a mitologia do mito.
O mito da integridade — Foi acusado de planejar explodir bombas em quartéis por aumento de salário, chegou a ser preso, foi julgado, considerado culpado numa instância inferior e, inocentado pelo Superior Tribunal Militar, acabou na reserva. Já em seu mandato de deputado, empregou um batalhão de parentes e amigos e há indícios do esquema de rachadinha, que anos depois ganhou evidência, administrado por seu amigo de longa data Fabrício Queiroz, com seu filho.
O mito do anticorrupção — Participou do desmonte da Lava-Jato, uniu-se ao Centrão e seus inúmeros réus e investigados por corrupção. Tirou o poder, e até o nome, do Coaf. Tem obsessão por “inteligência”, informações e espionagens, não para investigar corruptos, mas para controlar seus inimigos reais e imaginários. Seu filho Flávio está sob investigação judicial justamente por rachadinha. Outros indícios de irregularidades pesam sobre seus outros filhos.
O mito da autoridade — Ele confunde autoridade com autoritarismo. Não dialoga, manda. O chefe sou eu. Sou eu que mando, porra. Ele quer ter autoridade sem assumir a responsabilidade, minimizando a pandemia e sabotando a vacinação, capaz de cancelar a compra de 46 milhões de doses da “vacina chinesa do Dória”. Ou quando ignorou propostas da Pfizer e agora tem que comprar por preço que pode ser muito mais caro e ficar no fim da fila para receber.
O mito da coragem — Tem comportamento paranoico, vê inimigos e conspiradores em toda parte, mas na verdade é covarde, abandona companheiros por futricas dos filhos, como fez com Gustavo Bebiano, e com quem ousar contrariá-lo. Sem a facada teria sido desmitificado nos debates na TV até pelo Cabo Daciolo.
O mito do líder — Depois da submissão a Trump, sem proveito para o Brasil, fala insanidades contra parceiros como a China e depois tem que desmentir tudo e mendigar vacinas. Vive dizendo que é fácil instalar uma ditadura no Brasil, mas precisa combinar com o Congresso, o Judiciário e 70% da população que não o apoia. Nenhum presidente brasileiro foi tão debochado e ridicularizado no exterior como ele. Com ele o Brasil se tornou um pária internacional — e um perigo para a América Latina.
O mito da verdade — Seu lema é “a verdade vos libertará”, mas ele é de longe o presidente mais mentiroso que o Brasil já teve, e foram muitos, é quase um requisito para o cargo. Só que mente mal, são mentiras toscas, bravatas ridículas, e todos percebem que o mito é um mitômano, que as vezes parece viver em uma realidade paralela sob efeito de alucinógenos.
O mito da integridade — Foi acusado de planejar explodir bombas em quartéis por aumento de salário, chegou a ser preso, foi julgado, considerado culpado numa instância inferior e, inocentado pelo Superior Tribunal Militar, acabou na reserva. Já em seu mandato de deputado, empregou um batalhão de parentes e amigos e há indícios do esquema de rachadinha, que anos depois ganhou evidência, administrado por seu amigo de longa data Fabrício Queiroz, com seu filho.
O mito do anticorrupção — Participou do desmonte da Lava-Jato, uniu-se ao Centrão e seus inúmeros réus e investigados por corrupção. Tirou o poder, e até o nome, do Coaf. Tem obsessão por “inteligência”, informações e espionagens, não para investigar corruptos, mas para controlar seus inimigos reais e imaginários. Seu filho Flávio está sob investigação judicial justamente por rachadinha. Outros indícios de irregularidades pesam sobre seus outros filhos.
O mito da autoridade — Ele confunde autoridade com autoritarismo. Não dialoga, manda. O chefe sou eu. Sou eu que mando, porra. Ele quer ter autoridade sem assumir a responsabilidade, minimizando a pandemia e sabotando a vacinação, capaz de cancelar a compra de 46 milhões de doses da “vacina chinesa do Dória”. Ou quando ignorou propostas da Pfizer e agora tem que comprar por preço que pode ser muito mais caro e ficar no fim da fila para receber.
O mito da coragem — Tem comportamento paranoico, vê inimigos e conspiradores em toda parte, mas na verdade é covarde, abandona companheiros por futricas dos filhos, como fez com Gustavo Bebiano, e com quem ousar contrariá-lo. Sem a facada teria sido desmitificado nos debates na TV até pelo Cabo Daciolo.
O mito do líder — Depois da submissão a Trump, sem proveito para o Brasil, fala insanidades contra parceiros como a China e depois tem que desmentir tudo e mendigar vacinas. Vive dizendo que é fácil instalar uma ditadura no Brasil, mas precisa combinar com o Congresso, o Judiciário e 70% da população que não o apoia. Nenhum presidente brasileiro foi tão debochado e ridicularizado no exterior como ele. Com ele o Brasil se tornou um pária internacional — e um perigo para a América Latina.
O mito da verdade — Seu lema é “a verdade vos libertará”, mas ele é de longe o presidente mais mentiroso que o Brasil já teve, e foram muitos, é quase um requisito para o cargo. Só que mente mal, são mentiras toscas, bravatas ridículas, e todos percebem que o mito é um mitômano, que as vezes parece viver em uma realidade paralela sob efeito de alucinógenos.
A segunda fase do regime militar
O Brasil tem certa vocação para a invenção. Fomos um país criado a partir de um experimento econômico: o latifúndio escravocrata primário exportador. Em nenhum outro lugar do globo tal experimento foi desenvolvido em tão larga escala. 35% de todos os sujeitos escravizados na África e direcionados às Américas aportaram aqui. Fomos também os responsáveis, no século XIX, pela junção singular entre escravismo e economia integrada ao “liberalismo concorrencial”. Mais próximo, conseguimos criar uma ditadura militar primorosa na arte de durar. A mais longa ditadura militar da América no ciclo que começa nos anos 60, capaz de entender que só duraria se preservasse algum nível de pantomima democrática. Tínhamos eleições, partido de oposição, Congresso em funcionamento na maior parte do tempo, tortura, livros de Marx vendidos nas bancas, corpos desaparecidos, estupros de opositoras, censura. Tudo ao mesmo tempo.
Há de se admirar essa engenharia brasileira do terror de Estado. Ela conseguiu preservar todas as peças do dispositivo empresarial-militar, mesmo durante trinta anos de período pós-ditadura. Ela conseguiu ainda preservar toda a força de terror administrada pelas polícias e suas milícias contra as populações vulneráveis em sua guerra civil cotidiana. Elementos fundamentais do aparato jurídico institucional criado sob ditadura continuaram vigentes. O Brasil mostra como nenhum outro país que desenvolvimento capitalista é outro nome para guerra de espoliação máxima, de medo e de depredação contra uma natureza que não se submete facilmente à condição de propriedade privada.
Dentro dessa tecnologia de poder, o Brasil acaba de apresentar ao mundo mais uma de suas invenção, a saber, um regime militar sem golpe militar. O que temos atualmente é algo muito próximo a um regime militar que não usou golpes militares clássicos para ser implementado. Entenda-se por “clássico” nesse contexto, ocupações de poder feitas através do deslocamento de tropas e uso explícito da violência.
Mas devemos ainda falar em regime militar porque temos, inicialmente, a ocupação do Estado pelo aparelho militar e seu ideário. Por mais que a narrativa vendida seja outra, Jair Bolsonaro é a encarnação direta do ideário militar nacional. Para além dos mais de 7.000 militares na gestão do Estado, desde o Ministério da Saúde, até as Comunicações e a Petrobrás, temos o deslocamento das Forças Armadas para o centro do poder com o intuito de garantir as condições para um processo brutalizado de acumulação primitiva, de espoliação de terras e concentração de renda.
O Brasil assiste a uma nova fase de concentração de renda, e a ameaça de sublevação popular que normalmente acompanha tais momentos, exige das Forças Armadas sua presença direta no Estado, a fim de intensificar a guerra civil contra populações vulneráveis. Essa concentração volta em seus moldes tradicionais, como o colonialismo interno que leva a predação da natureza, escondida sob a capa do desenvolvimento, para espaços cada vez mais amplos. Colonialismo que intensifica os incêndios contra povos originários e florestas.
Processo que, por sua vez, exige a mobilização contínua da perseguição e pressão de setores com potencial de sublevação, no que vemos a utilidade da eterna luta contra o comunismo (o único inimigo que, no século XX, efetivamente foi capaz de usar a guerra contra quem gerencia a guerra civil social). Por fim, as Forças Armadas ocupam o Estado tendo em vista a militarização da vida social, seja através da generalização extensiva de “formações militares” (segundo o projeto de paulatinamente transformar escolas públicas em escolas militares), seja através da organização armada e generalizada de grupos paramilitares de apoio.
Mas isso que nos anos sessenta obrigou a organização de um golpe clássico de Estado foi imposto agora através de uma lógica extremamente astuta de “custo menor”. São sucessões de operações relativamente regionais que, paulatinamente, deslocam o poder para o horizonte gerencial militar, fazendo com que ele avance mesmo que pareça não estar lá. Como já se disse mais de uma vez, uma das maiores astúcias do diabo é levar-nos a acreditar que ele não existe.
Primeiro, era necessário impedir que a eleição de 2018 ocorresse. O custo de uma simples suspensão de eleições presidenciais seria enorme, arcaico, desnecessário. Mas havia algo mais astuto: um tuíte, um simples tuíte das Forças Armadas ameaçando o Poder Judiciário caso o candidato indesejável pudesse concorrer. Além do tuíte, um processo jurídico “contra a corrupção” capaz até mesmo de anexar depoimentos de pessoas que nunca deram depoimento algum. Um processo incensado por setores hegemônicos da imprensa e seus interesses inconfessos pela radicalização do processo de acumulação primitiva da classe trabalhadora espoliada. Assim, a eleição estaria assegurada no bom e velho modelo da República Velha onde os embates já estavam decididos de antemão. Afinal, para que um golpe clássico se a possibilidade de preparar resultados favoráveis está à mão?
Mas a ocupação do Estado exigiria o abandono dos aliados que acreditavam que seriam convidados para sentar à mesa principal da gestão do poder. Como na ditadura militar, quando os civis descobriram que haviam se tornados atores secundários através do veto a Pedro Aleixo ocupar a presidência da República, todos aqueles que pavimentaram esse caminho foram enterrados sob o asfalto que eles mesmos esquentaram. De Eduardo Cunha aos degenerados da Lava Jato, da própria imprensa ao “centro democrático”: todos foram deixados para trás até que acordássemos em um regime militar em pleno século XXI.
Ainda na lógica do “custo menor” havia dois problemas a resolver. O primeiro era a censura. Mas “censura” é, mais uma vez, algo arcaico, custoso e, principalmente, desnecessário. O poder só procura censurar quando teme a força da palavra. Melhor seria operar através de uma “usura” da palavra. Tirar a força da palavra, criar paralisia em seu uso, ao invés de simplesmente censura-la. Uma paralisia criada pela inversão constante de seu significado. Usar “liberdade” para descrever a indiferença em relação ao genocídio de Estado diante da pior pandemia da história recente, usar “ditadura” para descrever exigências mínimas de solidariedade social diante da catástrofe, usar “coragem” quando se quer mostrar o descaso com quem não pode ter acesso ao sistema privado de saúde para sobreviver, usar “doutrinação” onde outros falam de pensamento crítico. Há de se lembrar que era George Orwell quem fazia os habitantes da Eurásia gritarem: “ignorância é força, liberdade é escravidão”.
Se 30% da população participasse dessas estratégias de usura da palavra o processo político estaria paralisado. E não seria difícil contar com esses 30%. Quem conhece a história brasileira sabe que eles nunca faltariam ao seu dever. Enquanto isto, o resto perderia seu tempo a espera de “frentes amplas” que nunca aconteceriam (basta ver quem foi apoiar o candidato do governo nas eleições para a presidência da Câmara) ou discutindo eliminações do BBB na semana em que o Banco Central ganharia sua “autonomia”, ou melhor, sua definitiva servidão aos interesses mais brutais da elite rentista, esses mesmos interesses que são a base da realidade material que sustenta o eixo das formas gerais de espoliação (imaginar que nossa emancipação viria sob formas administradas pela indústria cultural e sua estrutura monopolista articulada aos interesses maiores da elite empresarial … isso talvez explique o que ocorre quando conceitos como “indústria cultural” são abandonados em prol de práticas que se recusam a problematizar os meios de enunciação).
Mas havia um segundo problema a resolver. Um regime militar não aceita ser deposto. E este ponto volta agora em sua tensão efetiva, principalmente depois da possibilidade de Lula concorrer à presidência novamente. O Brasil conhece atualmente um conflito entre o que poderíamos chamar de “direita oligárquica” (a saber, esse grupo dirigente que deriva das oligarquias locais e seus representantes, a começar pela oligarquia paulista) e uma “extrema-direita popular” (que vem da longa história do fascismo brasileiro). O horizonte convergente de interesses permite a esses dois grupos sentarem-se à mesma mesa quando necessário. Mas tomado o poder, eles também entram em choque, como se mostrou ao longo da história nacional.
O deslocamento de Lula para o centro do jogo eleitoral não foi exatamente resultado de uma pressão popular irresistível, de um clamor irrefreável, mas de uma manobra arriscada de setores da direita oligárquica no poder para conter Bolsonaro em sua escalada fascista, como fizeram em junho quando Queiroz foi enfim “encontrado” em um sítio em Atibaia e o primeiro “enquadre” foi dado.
Com a vitória de Bolsonaro pelo controle da Câmara e do Senado e com sua liberdade absoluta de operação, era necessário um segundo enquadre, e ele foi dado através da ressurreição do único político com estatura eleitoral compatível com Bolsonaro e que parecia capaz de fazer, efetivamente, uma aliança de centro no Brasil com alguma estabilidade. Exatamente nesse momento, o poder Judiciário brasileiro “descobriu” que, afinal, o processo contra Lula era uma aberração jurídica e que ele nunca teve direito efetivo de defesa. Lula apareceu como o único capaz de fazer uma efetiva aliança de centro porque os outros fazem apenas acordos entre oligarcas sem muita densidade popular. Já ele opera por uma versão do “sindicalismo de resultados” que parecia poder funcionar no começo desse século. Por isso, falar em “polarização” chega a ser um desrespeito à inteligência nacional. Lula é a última figura capaz de tentar operar políticas de grande aliança no Brasil. Ele é exatamente o contrário de toda e qualquer “polarização”. Seu governo não nos deixa mentir.
No entanto, como foi dito anteriormente, um regime militar não aceita ser deposto. Em manifestações inéditas na vida política nacional, o dia seguinte ao anúncio de possibilidade de Lula concorrer foi marcado por declarações de militares dizendo ver a volta do ex-presidente como algo inaceitável. O que demonstra como caminhamos para um cenário de confronto e tensão. Quando a ditadura militar foi implementada em 1964, o “centro democrático” (sempre ele) se preparava pela eleição nos próximos anos: Juscelino era o nome principal nessa operação. Tal eleição nunca veio. Sessenta anos depois, os militares aprenderam a fazer isso muito melhor. Eles descobriram que o vocabulário da “inexistência” é muito mais sutil, se habilmente manipulado. Há de se estar preparado para isto.
Há de se admirar essa engenharia brasileira do terror de Estado. Ela conseguiu preservar todas as peças do dispositivo empresarial-militar, mesmo durante trinta anos de período pós-ditadura. Ela conseguiu ainda preservar toda a força de terror administrada pelas polícias e suas milícias contra as populações vulneráveis em sua guerra civil cotidiana. Elementos fundamentais do aparato jurídico institucional criado sob ditadura continuaram vigentes. O Brasil mostra como nenhum outro país que desenvolvimento capitalista é outro nome para guerra de espoliação máxima, de medo e de depredação contra uma natureza que não se submete facilmente à condição de propriedade privada.
Dentro dessa tecnologia de poder, o Brasil acaba de apresentar ao mundo mais uma de suas invenção, a saber, um regime militar sem golpe militar. O que temos atualmente é algo muito próximo a um regime militar que não usou golpes militares clássicos para ser implementado. Entenda-se por “clássico” nesse contexto, ocupações de poder feitas através do deslocamento de tropas e uso explícito da violência.
Mas devemos ainda falar em regime militar porque temos, inicialmente, a ocupação do Estado pelo aparelho militar e seu ideário. Por mais que a narrativa vendida seja outra, Jair Bolsonaro é a encarnação direta do ideário militar nacional. Para além dos mais de 7.000 militares na gestão do Estado, desde o Ministério da Saúde, até as Comunicações e a Petrobrás, temos o deslocamento das Forças Armadas para o centro do poder com o intuito de garantir as condições para um processo brutalizado de acumulação primitiva, de espoliação de terras e concentração de renda.
O Brasil assiste a uma nova fase de concentração de renda, e a ameaça de sublevação popular que normalmente acompanha tais momentos, exige das Forças Armadas sua presença direta no Estado, a fim de intensificar a guerra civil contra populações vulneráveis. Essa concentração volta em seus moldes tradicionais, como o colonialismo interno que leva a predação da natureza, escondida sob a capa do desenvolvimento, para espaços cada vez mais amplos. Colonialismo que intensifica os incêndios contra povos originários e florestas.
Processo que, por sua vez, exige a mobilização contínua da perseguição e pressão de setores com potencial de sublevação, no que vemos a utilidade da eterna luta contra o comunismo (o único inimigo que, no século XX, efetivamente foi capaz de usar a guerra contra quem gerencia a guerra civil social). Por fim, as Forças Armadas ocupam o Estado tendo em vista a militarização da vida social, seja através da generalização extensiva de “formações militares” (segundo o projeto de paulatinamente transformar escolas públicas em escolas militares), seja através da organização armada e generalizada de grupos paramilitares de apoio.
Mas isso que nos anos sessenta obrigou a organização de um golpe clássico de Estado foi imposto agora através de uma lógica extremamente astuta de “custo menor”. São sucessões de operações relativamente regionais que, paulatinamente, deslocam o poder para o horizonte gerencial militar, fazendo com que ele avance mesmo que pareça não estar lá. Como já se disse mais de uma vez, uma das maiores astúcias do diabo é levar-nos a acreditar que ele não existe.
Primeiro, era necessário impedir que a eleição de 2018 ocorresse. O custo de uma simples suspensão de eleições presidenciais seria enorme, arcaico, desnecessário. Mas havia algo mais astuto: um tuíte, um simples tuíte das Forças Armadas ameaçando o Poder Judiciário caso o candidato indesejável pudesse concorrer. Além do tuíte, um processo jurídico “contra a corrupção” capaz até mesmo de anexar depoimentos de pessoas que nunca deram depoimento algum. Um processo incensado por setores hegemônicos da imprensa e seus interesses inconfessos pela radicalização do processo de acumulação primitiva da classe trabalhadora espoliada. Assim, a eleição estaria assegurada no bom e velho modelo da República Velha onde os embates já estavam decididos de antemão. Afinal, para que um golpe clássico se a possibilidade de preparar resultados favoráveis está à mão?
Mas a ocupação do Estado exigiria o abandono dos aliados que acreditavam que seriam convidados para sentar à mesa principal da gestão do poder. Como na ditadura militar, quando os civis descobriram que haviam se tornados atores secundários através do veto a Pedro Aleixo ocupar a presidência da República, todos aqueles que pavimentaram esse caminho foram enterrados sob o asfalto que eles mesmos esquentaram. De Eduardo Cunha aos degenerados da Lava Jato, da própria imprensa ao “centro democrático”: todos foram deixados para trás até que acordássemos em um regime militar em pleno século XXI.
Ainda na lógica do “custo menor” havia dois problemas a resolver. O primeiro era a censura. Mas “censura” é, mais uma vez, algo arcaico, custoso e, principalmente, desnecessário. O poder só procura censurar quando teme a força da palavra. Melhor seria operar através de uma “usura” da palavra. Tirar a força da palavra, criar paralisia em seu uso, ao invés de simplesmente censura-la. Uma paralisia criada pela inversão constante de seu significado. Usar “liberdade” para descrever a indiferença em relação ao genocídio de Estado diante da pior pandemia da história recente, usar “ditadura” para descrever exigências mínimas de solidariedade social diante da catástrofe, usar “coragem” quando se quer mostrar o descaso com quem não pode ter acesso ao sistema privado de saúde para sobreviver, usar “doutrinação” onde outros falam de pensamento crítico. Há de se lembrar que era George Orwell quem fazia os habitantes da Eurásia gritarem: “ignorância é força, liberdade é escravidão”.
Se 30% da população participasse dessas estratégias de usura da palavra o processo político estaria paralisado. E não seria difícil contar com esses 30%. Quem conhece a história brasileira sabe que eles nunca faltariam ao seu dever. Enquanto isto, o resto perderia seu tempo a espera de “frentes amplas” que nunca aconteceriam (basta ver quem foi apoiar o candidato do governo nas eleições para a presidência da Câmara) ou discutindo eliminações do BBB na semana em que o Banco Central ganharia sua “autonomia”, ou melhor, sua definitiva servidão aos interesses mais brutais da elite rentista, esses mesmos interesses que são a base da realidade material que sustenta o eixo das formas gerais de espoliação (imaginar que nossa emancipação viria sob formas administradas pela indústria cultural e sua estrutura monopolista articulada aos interesses maiores da elite empresarial … isso talvez explique o que ocorre quando conceitos como “indústria cultural” são abandonados em prol de práticas que se recusam a problematizar os meios de enunciação).
Mas havia um segundo problema a resolver. Um regime militar não aceita ser deposto. E este ponto volta agora em sua tensão efetiva, principalmente depois da possibilidade de Lula concorrer à presidência novamente. O Brasil conhece atualmente um conflito entre o que poderíamos chamar de “direita oligárquica” (a saber, esse grupo dirigente que deriva das oligarquias locais e seus representantes, a começar pela oligarquia paulista) e uma “extrema-direita popular” (que vem da longa história do fascismo brasileiro). O horizonte convergente de interesses permite a esses dois grupos sentarem-se à mesma mesa quando necessário. Mas tomado o poder, eles também entram em choque, como se mostrou ao longo da história nacional.
O deslocamento de Lula para o centro do jogo eleitoral não foi exatamente resultado de uma pressão popular irresistível, de um clamor irrefreável, mas de uma manobra arriscada de setores da direita oligárquica no poder para conter Bolsonaro em sua escalada fascista, como fizeram em junho quando Queiroz foi enfim “encontrado” em um sítio em Atibaia e o primeiro “enquadre” foi dado.
Com a vitória de Bolsonaro pelo controle da Câmara e do Senado e com sua liberdade absoluta de operação, era necessário um segundo enquadre, e ele foi dado através da ressurreição do único político com estatura eleitoral compatível com Bolsonaro e que parecia capaz de fazer, efetivamente, uma aliança de centro no Brasil com alguma estabilidade. Exatamente nesse momento, o poder Judiciário brasileiro “descobriu” que, afinal, o processo contra Lula era uma aberração jurídica e que ele nunca teve direito efetivo de defesa. Lula apareceu como o único capaz de fazer uma efetiva aliança de centro porque os outros fazem apenas acordos entre oligarcas sem muita densidade popular. Já ele opera por uma versão do “sindicalismo de resultados” que parecia poder funcionar no começo desse século. Por isso, falar em “polarização” chega a ser um desrespeito à inteligência nacional. Lula é a última figura capaz de tentar operar políticas de grande aliança no Brasil. Ele é exatamente o contrário de toda e qualquer “polarização”. Seu governo não nos deixa mentir.
No entanto, como foi dito anteriormente, um regime militar não aceita ser deposto. Em manifestações inéditas na vida política nacional, o dia seguinte ao anúncio de possibilidade de Lula concorrer foi marcado por declarações de militares dizendo ver a volta do ex-presidente como algo inaceitável. O que demonstra como caminhamos para um cenário de confronto e tensão. Quando a ditadura militar foi implementada em 1964, o “centro democrático” (sempre ele) se preparava pela eleição nos próximos anos: Juscelino era o nome principal nessa operação. Tal eleição nunca veio. Sessenta anos depois, os militares aprenderam a fazer isso muito melhor. Eles descobriram que o vocabulário da “inexistência” é muito mais sutil, se habilmente manipulado. Há de se estar preparado para isto.
Como o Judiciário brasileiro prejudica a si mesmo
Confesso que não saberia citar um único nome dos 16 juízes que compõe o Supremo Tribunal Federal (STF) alemão. Em todo caso, mal conheço juízes ou promotores públicos alemães. Há algumas exceções: autores que, paralelamente à sua atuação como juízes, escrevem livros interessantes e ensaios para jornais. Compartilho minha ignorância sobre o pessoal do sistema judiciário alemão com a maioria dos alemães, a menos que eles próprios sejam juristas. O terceiro poder costuma atuar de forma discreta e imperceptível na Alemanha, com os juízes raramente aparecendo na mídia e suas decisões raramente sendo discutidas em público. A maioria dos juízes na Alemanha traça uma linha clara entre seu trabalho jurídico e suas visões políticas. Eles atuam nos bastidores.
No Brasil é o contrário. Sei os nomes de todos os 11 juízes do STF brasileiro. Conheço suas feições, suas escolhas e seus temperamentos particulares. Isso se deve ao fato de suas decisões, muitas vezes controversas, serem discutidas quase diariamente no Brasil. Ora são aplaudidas pelo público, ora há uma manifestação contra elas. Alguns juízes recebem até ameaças pessoais.
O que chama a atenção nisso tudo é o quão inconclusivos são com frequência até mesmo os julgamentos da Suprema Corte. Um juiz dá um veredicto monocrático, mas que pode ser anulado por um plenário de juízes. Nas discussões do STF, costuma haver muita exaltação. Os juízes se atacam pessoalmente e até se tornam ofensivos. Como se fosse realizado um Fla-Flu no STF.
Mas não só os juízes do STF me são familiares, como também os membros do Judiciário brasileiro de instâncias inferiores. Por exemplo, o juiz Marcelo Bretas, que posta selfies na academia e aparece nos eventos de Jair Bolsonaro. Outro exemplo é a desembargadora do Rio Marília de Castro Neves, que ficou conhecida em todo o Brasil pelas mentiras sobre Marielle Franco, mas que já havia causado rebuliço nas redes sociais por suas posições radicais. Ou o desembargador Eduardo Siqueira, de São Paulo, flagrado ofendendo um Guarda Civil Municipal, após ser multado por não utilizar máscara. Discrição, contenção e modéstia não são os pontos fortes do Judiciário brasileiro. A Justiça do país tem pouco decoro.
Mas de onde vem a postura triunfante de muitos juízes e o papel de destaque que eles acham que devem desempenhar em público? Na minha opinião, tem a ver com privilégios. Até ao momento, ninguém soube me explicar, por exemplo, por que é que os juízes, com seus salários já suntuosos, também recebem auxílio-moradia. Em um país com salário mensal médio de R$ 1.900 líquidos, esse privilégio contradiz qualquer bom senso. No Brasil, juízes (mas também deputados e senadores) são tratados como nobres. Como resultado, alguns deles se comportam como nobres.
Também chama a atenção que muitos juízes e promotores não façam uma distinção clara entre seu trabalho jurídico e político. Isso ficou extremamente evidente durante a investigação da Lava Jato contra Lula e os veredictos finais contra ele. É difícil negar que o promotor Deltan Dallagnol e o juiz Sérgio Moro queriam colocar Lula atrás das grades antes da eleição presidencial de 2018. Dallagnol e Moro contribuíram para o fato de Bolsonaro ser hoje presidente.
E não é apenas no caso Lula que a afinidade política parece ser o fator decisivo nos veredictos de alguns juízes. Por exemplo,o presidente do STJ, João Otávio de Noronha, atendeu aos interesses do governo Bolsonaro em 87,5% das suas decisões individuais. Sob sua liderança, o STJ invalidou, por exemplo, a decisão do juiz Flávio Itabaiana contra Flávio Bolsonaro por considerá-la sucinta.
O aparecimento quase diário de juízes e suas decisões na mídia sugere duas coisas. Em primeiro lugar, a politização do Judiciário brasileiro. O STF, em particular, tornou-se um ator no cenário político polarizado do país. Isso foi possível porque sua função não está claramente definida. E isso não é bom para o STF, nem para a confiança na Justiça brasileira.
Em segundo lugar, muitas vezes me parece que as leis são tão mal feitas que podem significar qualquer coisa. É claro que as leis sempre estão sujeitas à interpretação, mas no Brasil parece que, para cada parágrafo, há um parágrafo diferente que significa exatamente o contrário. É como na Bíblia, que no Antigo Testamento diz "olho por olho", mas no Novo Testamento, Jesus ensina a oferecer a outra face quando se é agredido. O Judiciário brasileiro atua de forma semelhante. Cada um escolhe o que quer. É muito difícil fazer o público entender isso.
É completamente incompreensível para mim, por exemplo, por que o juiz Edson Fachin só percebeu depois de vários anos que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o foro competente para julgar Lula. Mas completamente absurdo é o fato de essa decisão de Fachin ainda poder ser revogada por um plenário de cinco juízes – por que este mesmo plenário não decide de uma vez? Isso mina a autoridade que deveria emanar de uma Suprema Corte.
Em última análise, o Judiciário brasileiro prejudica sobretudo a si mesmo com os privilégios aristocráticos de alguns de seus representantes e a falta de clareza de suas decisões. E assim, contribui para a perda de confiança dos cidadãos no Estado.
Philipp Lichterbeck
No Brasil é o contrário. Sei os nomes de todos os 11 juízes do STF brasileiro. Conheço suas feições, suas escolhas e seus temperamentos particulares. Isso se deve ao fato de suas decisões, muitas vezes controversas, serem discutidas quase diariamente no Brasil. Ora são aplaudidas pelo público, ora há uma manifestação contra elas. Alguns juízes recebem até ameaças pessoais.
O que chama a atenção nisso tudo é o quão inconclusivos são com frequência até mesmo os julgamentos da Suprema Corte. Um juiz dá um veredicto monocrático, mas que pode ser anulado por um plenário de juízes. Nas discussões do STF, costuma haver muita exaltação. Os juízes se atacam pessoalmente e até se tornam ofensivos. Como se fosse realizado um Fla-Flu no STF.
Mas não só os juízes do STF me são familiares, como também os membros do Judiciário brasileiro de instâncias inferiores. Por exemplo, o juiz Marcelo Bretas, que posta selfies na academia e aparece nos eventos de Jair Bolsonaro. Outro exemplo é a desembargadora do Rio Marília de Castro Neves, que ficou conhecida em todo o Brasil pelas mentiras sobre Marielle Franco, mas que já havia causado rebuliço nas redes sociais por suas posições radicais. Ou o desembargador Eduardo Siqueira, de São Paulo, flagrado ofendendo um Guarda Civil Municipal, após ser multado por não utilizar máscara. Discrição, contenção e modéstia não são os pontos fortes do Judiciário brasileiro. A Justiça do país tem pouco decoro.
Mas de onde vem a postura triunfante de muitos juízes e o papel de destaque que eles acham que devem desempenhar em público? Na minha opinião, tem a ver com privilégios. Até ao momento, ninguém soube me explicar, por exemplo, por que é que os juízes, com seus salários já suntuosos, também recebem auxílio-moradia. Em um país com salário mensal médio de R$ 1.900 líquidos, esse privilégio contradiz qualquer bom senso. No Brasil, juízes (mas também deputados e senadores) são tratados como nobres. Como resultado, alguns deles se comportam como nobres.
Também chama a atenção que muitos juízes e promotores não façam uma distinção clara entre seu trabalho jurídico e político. Isso ficou extremamente evidente durante a investigação da Lava Jato contra Lula e os veredictos finais contra ele. É difícil negar que o promotor Deltan Dallagnol e o juiz Sérgio Moro queriam colocar Lula atrás das grades antes da eleição presidencial de 2018. Dallagnol e Moro contribuíram para o fato de Bolsonaro ser hoje presidente.
E não é apenas no caso Lula que a afinidade política parece ser o fator decisivo nos veredictos de alguns juízes. Por exemplo,o presidente do STJ, João Otávio de Noronha, atendeu aos interesses do governo Bolsonaro em 87,5% das suas decisões individuais. Sob sua liderança, o STJ invalidou, por exemplo, a decisão do juiz Flávio Itabaiana contra Flávio Bolsonaro por considerá-la sucinta.
O aparecimento quase diário de juízes e suas decisões na mídia sugere duas coisas. Em primeiro lugar, a politização do Judiciário brasileiro. O STF, em particular, tornou-se um ator no cenário político polarizado do país. Isso foi possível porque sua função não está claramente definida. E isso não é bom para o STF, nem para a confiança na Justiça brasileira.
Em segundo lugar, muitas vezes me parece que as leis são tão mal feitas que podem significar qualquer coisa. É claro que as leis sempre estão sujeitas à interpretação, mas no Brasil parece que, para cada parágrafo, há um parágrafo diferente que significa exatamente o contrário. É como na Bíblia, que no Antigo Testamento diz "olho por olho", mas no Novo Testamento, Jesus ensina a oferecer a outra face quando se é agredido. O Judiciário brasileiro atua de forma semelhante. Cada um escolhe o que quer. É muito difícil fazer o público entender isso.
É completamente incompreensível para mim, por exemplo, por que o juiz Edson Fachin só percebeu depois de vários anos que a 13ª Vara Federal de Curitiba não era o foro competente para julgar Lula. Mas completamente absurdo é o fato de essa decisão de Fachin ainda poder ser revogada por um plenário de cinco juízes – por que este mesmo plenário não decide de uma vez? Isso mina a autoridade que deveria emanar de uma Suprema Corte.
Em última análise, o Judiciário brasileiro prejudica sobretudo a si mesmo com os privilégios aristocráticos de alguns de seus representantes e a falta de clareza de suas decisões. E assim, contribui para a perda de confiança dos cidadãos no Estado.
Philipp Lichterbeck
A cara do fascismo digital
Há um aspecto da composição do governo Jair Bolsonaro muito pouco discutido. É como, na linguagem que usa para se apresentar ao mundo digital, transmite uma ideologia neofascista. O motivo por que se fala tão pouco desse lado é porque esses códigos são realmente pouco conhecidos. Mas é também porque parte da lógica da extrema-direita digital está, paradoxalmente, em se disfarçar enquanto se apresenta com clareza. É o que, na internet, se chama trollagem. E é o que o assessor Filipe Martins fez esta semana no Senado Federal, durante a sabatina do chanceler Ernesto Araújo.
Essa cultura se construiu ao longo das últimas décadas nos muitos fóruns em que jovens de direita, principalmente de extrema direita, se encontram na internet. Um deles, o mais célebre, é o 4chan. Sua versão radicalizada é o 8chan. Há redes sociais exclusivas da direita, caso da Gab. E há, claro, o submundo da internet — a Deep Web. Não foi nesses ambientes que a cultura troll nasceu. Mas foi neles que ela se desenvolveu.
O comportamento do troll é uma tentativa de humor. Ele ironiza alguém, ataca alguém, faz piada na cara de alguém — mas esse alguém não percebe. Quem percebe são os outros trolls em volta. É algo particularmente masculino, tipicamente adolescente. A piada interna que os amigos entendem, quem está em volta não percebe. O jogo ganha escala quando alguém de fora acusa ter compreendido a mensagem. Nesse momento, o troll nega. Diz que é delírio.
A diferença entre o adolescente e a extrema-direita é que a mensagem do neofascismo é xenófoba, é violenta, é antidemocrática. O gesto de Filipe Martins, o símbolo de O.k. americano apresentado de cabeça para baixo, quer dizer White Power. Poder Branco. É o grito da Ku Klux Klan contemporânea. Os outros supremacistas brancos conhecem o código e sabem do que se trata. Mas é um gesto tão parecido com o de um O.k. que, quando flagrado, o troll logo diz que era só um movimento de mãos inocente.
A alt-right digital está cravada de códigos assim. O ato de beber leite, por exemplo. Há uma característica genética de caucasianos que torna, para eles, mais fácil digerir lactose quando adultos. Daí que, quando vários homens adultos bebem leite juntos, nos círculos dessa alt-right, estão celebrando ser brancos. Numa de suas lives no ano passado, o presidente Jair Bolsonaro e seus assessores beberam leite juntos. Quando questionados, negaram a simbologia, fizeram troça. Mas, nos círculos da extrema-direita, aquilo foi interpretado como o que é: o sinal de que “é um de nós”.
Filipe Martins é pródigo nesse comportamento. Num tuíte recente para o vereador Carlos Bolsonaro, falou espanhol. “¡Ya hemos pasao!” — a expressão que os soldados franquistas usavam em resposta ao grito comunista de “¡No passarán!” durante a Guerra Civil. Mais de uma vez citou o mote latino “Oderint dum metuant”, lema do grupo neonazista britânico Combat 18 — “Que nos odeiem, desde que nos temam”. Na imagem principal de seu perfil de Twitter, estão os versos do grande poeta galês Dylan Thomas: “Do not go gentle into that good night”. Não mergulhe docilmente naquela boa noite. É a frase com que um velho frequentador do 8chan, o terrorista que matou mais de uma dezena na Nova Zelândia há dois anos, abriu seu manifesto.
Não há acidente em tanta frequência. Não quando vem de um especialista em comunicação digital, que passou a juventude enfurnado nos cantos da direita on-line e conviveu num ambiente de trolls. Parte da maneira como o governo Bolsonaro escolhe se comunicar on-line é esta. A dos símbolos do fascismo cibernético.
Essa cultura se construiu ao longo das últimas décadas nos muitos fóruns em que jovens de direita, principalmente de extrema direita, se encontram na internet. Um deles, o mais célebre, é o 4chan. Sua versão radicalizada é o 8chan. Há redes sociais exclusivas da direita, caso da Gab. E há, claro, o submundo da internet — a Deep Web. Não foi nesses ambientes que a cultura troll nasceu. Mas foi neles que ela se desenvolveu.
O comportamento do troll é uma tentativa de humor. Ele ironiza alguém, ataca alguém, faz piada na cara de alguém — mas esse alguém não percebe. Quem percebe são os outros trolls em volta. É algo particularmente masculino, tipicamente adolescente. A piada interna que os amigos entendem, quem está em volta não percebe. O jogo ganha escala quando alguém de fora acusa ter compreendido a mensagem. Nesse momento, o troll nega. Diz que é delírio.
A diferença entre o adolescente e a extrema-direita é que a mensagem do neofascismo é xenófoba, é violenta, é antidemocrática. O gesto de Filipe Martins, o símbolo de O.k. americano apresentado de cabeça para baixo, quer dizer White Power. Poder Branco. É o grito da Ku Klux Klan contemporânea. Os outros supremacistas brancos conhecem o código e sabem do que se trata. Mas é um gesto tão parecido com o de um O.k. que, quando flagrado, o troll logo diz que era só um movimento de mãos inocente.
A alt-right digital está cravada de códigos assim. O ato de beber leite, por exemplo. Há uma característica genética de caucasianos que torna, para eles, mais fácil digerir lactose quando adultos. Daí que, quando vários homens adultos bebem leite juntos, nos círculos dessa alt-right, estão celebrando ser brancos. Numa de suas lives no ano passado, o presidente Jair Bolsonaro e seus assessores beberam leite juntos. Quando questionados, negaram a simbologia, fizeram troça. Mas, nos círculos da extrema-direita, aquilo foi interpretado como o que é: o sinal de que “é um de nós”.
Filipe Martins é pródigo nesse comportamento. Num tuíte recente para o vereador Carlos Bolsonaro, falou espanhol. “¡Ya hemos pasao!” — a expressão que os soldados franquistas usavam em resposta ao grito comunista de “¡No passarán!” durante a Guerra Civil. Mais de uma vez citou o mote latino “Oderint dum metuant”, lema do grupo neonazista britânico Combat 18 — “Que nos odeiem, desde que nos temam”. Na imagem principal de seu perfil de Twitter, estão os versos do grande poeta galês Dylan Thomas: “Do not go gentle into that good night”. Não mergulhe docilmente naquela boa noite. É a frase com que um velho frequentador do 8chan, o terrorista que matou mais de uma dezena na Nova Zelândia há dois anos, abriu seu manifesto.
Não há acidente em tanta frequência. Não quando vem de um especialista em comunicação digital, que passou a juventude enfurnado nos cantos da direita on-line e conviveu num ambiente de trolls. Parte da maneira como o governo Bolsonaro escolhe se comunicar on-line é esta. A dos símbolos do fascismo cibernético.
A peste e a supremacia
O enfrentamento da pandemia tem uma orientação ideológica. Gestos de supremacia podem indicar o código para atos praticados deliberadamente. Nascida no século XIX, em um momento rudimentar do cientificismo, a ideia de uma raça biologicamente mais forte, que deve dominar os demais e levá-los à morte quanto antes, gerou estudos falsos e movimentos genocidas como o Nazismo. Machado de Assis ridiculariza esta ideologia supremacista na figura de Quincas Borba (título de seu romance de 1891), personagem que cria a teoria do Humanitismo, ironicamente o inverso do Humanismo. Diz o filósofo ensandecido: “Supõe tu um campo de batatas e duas tribos famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos que assim adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo, não chegam a nutrir-se suficientemente e morrem de inanição [...]. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. A frase final, famosa, guarda a ideia de um grupo que, pela destruição do outro, vai garantir a sua sobrevivência em momento de escassez.
Mais premonitória impossível do que esta teoria. Durante o nazismo, prevendo falta de alimentos, e movido pelo desejo sem traumas de destruir os judeus, Hitler criou os guetos, prendendo neles o maior número possível de pessoas. Os guetos foram o primeiro sistema de extermínio em massa. Neles, a população vivia a fome, a falta de batatas, e sofria todos os tipos de doenças, principalmente o tifo. Populações inteiras foram dizimadas assim, “espontaneamente”, dando aos vencedores nazistas, naquele momento, o acesso às batatas. Só depois, para aumentar a escala da destruição, se criaram os campos de concentração e os terríveis campos de extermínio em escala industrial.
O tratamento dado à pandemia do coronavírus pelo Governo Federal parece reproduzir a máquina názi. Deixar a população mais frágil desassistida, sem vacinas, sem campanhas de conscientização e de isolamento, expostas à contaminação num país que virou um grande gueto, principalmente para a classe trabalhadora ou em estado de rua, não deixa de ser um projeto consciente. Os mais fortes sobreviveriam, pois têm “históricos de atleta” ou podem usar o sistema de saúde ou ainda fazer o isolamento, enquanto os mais fracos serão ceifados pela doença. Não se trata de negligência por parte do governo federal e de seus apoiadores, nem mesmo de uma falta de capacidade de gestão. É a atitude que se assemelha a um projeto eugênico de eliminação do outro. A pandemia teria sido instrumentalizada para fazer a “limpeza” dos mais fracos.
Em seu romance A Peste (1947), o francês Albert Camus diz que o nazismo era o vírus que destruiu a Europa, tendo este movimento ficado conhecido entre os franceses como “a peste marrom”. O Nobel sul-africano J.M. Coetzee, em Ensaios Recentes (Carambaia, 2020), lembra a “facilidade com que uma comunidade pode ser infectada por uma ideologia que atua como algum bacilo” . O que vivemos, sob a disseminação da Covid-19 não apenas consentida mas incentivada pelo Governo Federal, com mudanças de narrativas para não fazer o investimento em vacinas, encaixa-se como projeto de extermínio de populações identificadas como uma força humana e política inimiga. A perda de controle deste suposto projeto supremacista, uma vez que todo o espectro social e biológico (jovens e idosos) acabou atingido, tem levado a tentativas de correção de rotas.
Durante o período das ditaduras da direita na Europa, o Brasil criou um movimento similar, o integralismo, versão tupiniquim do nazifascismo. É este bacilo, a peste verde-amarela, que tomou de assalto o país com seus delírios de supremacia racial.
Mais premonitória impossível do que esta teoria. Durante o nazismo, prevendo falta de alimentos, e movido pelo desejo sem traumas de destruir os judeus, Hitler criou os guetos, prendendo neles o maior número possível de pessoas. Os guetos foram o primeiro sistema de extermínio em massa. Neles, a população vivia a fome, a falta de batatas, e sofria todos os tipos de doenças, principalmente o tifo. Populações inteiras foram dizimadas assim, “espontaneamente”, dando aos vencedores nazistas, naquele momento, o acesso às batatas. Só depois, para aumentar a escala da destruição, se criaram os campos de concentração e os terríveis campos de extermínio em escala industrial.
O tratamento dado à pandemia do coronavírus pelo Governo Federal parece reproduzir a máquina názi. Deixar a população mais frágil desassistida, sem vacinas, sem campanhas de conscientização e de isolamento, expostas à contaminação num país que virou um grande gueto, principalmente para a classe trabalhadora ou em estado de rua, não deixa de ser um projeto consciente. Os mais fortes sobreviveriam, pois têm “históricos de atleta” ou podem usar o sistema de saúde ou ainda fazer o isolamento, enquanto os mais fracos serão ceifados pela doença. Não se trata de negligência por parte do governo federal e de seus apoiadores, nem mesmo de uma falta de capacidade de gestão. É a atitude que se assemelha a um projeto eugênico de eliminação do outro. A pandemia teria sido instrumentalizada para fazer a “limpeza” dos mais fracos.
Em seu romance A Peste (1947), o francês Albert Camus diz que o nazismo era o vírus que destruiu a Europa, tendo este movimento ficado conhecido entre os franceses como “a peste marrom”. O Nobel sul-africano J.M. Coetzee, em Ensaios Recentes (Carambaia, 2020), lembra a “facilidade com que uma comunidade pode ser infectada por uma ideologia que atua como algum bacilo” . O que vivemos, sob a disseminação da Covid-19 não apenas consentida mas incentivada pelo Governo Federal, com mudanças de narrativas para não fazer o investimento em vacinas, encaixa-se como projeto de extermínio de populações identificadas como uma força humana e política inimiga. A perda de controle deste suposto projeto supremacista, uma vez que todo o espectro social e biológico (jovens e idosos) acabou atingido, tem levado a tentativas de correção de rotas.
Durante o período das ditaduras da direita na Europa, o Brasil criou um movimento similar, o integralismo, versão tupiniquim do nazifascismo. É este bacilo, a peste verde-amarela, que tomou de assalto o país com seus delírios de supremacia racial.
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