O ex-presidente Lula perdeu a batalha mais importante de sua vida. Tem pela frente, ainda, um demorado tiroteio nas altas, médias e baixas cortes da Justiça Penal brasileira. Mas não tem mais esperanças de sobreviver a uma doença para a qual não existe cura conhecida: a destruição de sua força moral. Trata-se do conjunto de atributos que realmente separa os homens, e mesmo as nações, em matéria de sucesso ou fracasso, e ao qual se costuma dar o nome genérico de caráter. Sabe-se desde sempre o que entra nesse conjunto. Entram aí o valor da palavra dada, a reputação, o respeito aos outros e a si próprio, a capacidade de transmitir confiança. É a força que faz uma pessoa falar e ser naturalmente acreditada. É a coragem para assumir responsabilidades, enfrentar momentos adversos, não abandonar os amigos em dificuldade. É o exercício da honestidade e da integridade comuns. Em suma, é o que na linguagem do dia a dia se chama de “vergonha na cara” ─ ou honra pessoal. Muito mais que fama, força ou riqueza, é o que realmente faz a diferença. Fará toda a diferença para Lula. Sua batalha está perdida porque ele perdeu o bem mais precioso que poderia ter ─ a força moral decisiva para tornar-se alguém que valha a pena como pessoa e como homem público.
Hoje, vivendo acuado num prédio de escritórios do bairro paulistano do Ipiranga, com suas despesas pagas por magnatas, cercado não pela massa dos pobres que diz ter salvado, mas por negociantes de “marketing”, burocratas do PT, parasitas variados e uma armada de advogados que pouquíssimos brasileiros poderiam pagar, Lula está só. Do povo, nem sinal. O homem que tanto menosprezou os adversários falando de sua popularidade de 100% não pode ir a um campo de futebol ─ nem ao estádio do Corinthians, em Itaquera, cuja construção impôs para a Copa do Mundo de 2014, da qual não conseguiu assistir a um único jogo. Não pode ir jantar um frango com polenta em São Bernardo. Não pode ir a uma loja, comer um pastel de feira ou andar sem a proteção de um regimento de seguranças. Não pode ir ao infeliz sítio de Atibaia que tanto frequentou até faz pouco, e no qual empreiteiros amigos socaram uma fortuna em reformas ─ nem, menos ainda, a esse amaldiçoado tríplex do Guarujá. Não pode, no fim das contas, sair à rua ─ e, como se fosse um castigo, não pode gastar livremente no próprio país os milhões de reais que ganhou fazendo palestras para construtoras de obras públicas e outros colossos da elite empresarial brasileira. Que líder de massas é esse? Aos 70 anos de idade, Lula veio acabar metido na situação contrária à que Guimarães Rosa descreve num conto particularmente genial de sua vasta coleção de contos geniais, o Burrinho Pedrês. Como se lembram os leitores da história, o modesto burrinho sabia uma coisa mais importante que todas as outras, para quem, como ele, tinha sido sorteado com uma vida difícil ─ jamais entrava em lugar algum de onde não soubesse como sair depois. O ex-presidente entrou com tudo. Agora precisa sair, mas não sabe onde está a saída.
É certo que Lula não será ajudado, nessa procura por um caminho capaz de tirá-lo do buraco, por nenhuma das manobras que vem utilizando há trinta anos para dar a volta em seus problemas. A causa verdadeira do colapso que vive hoje é o fato de ter entrado em estado de coma moral ─ e isso não se resolve chamando um gerente de propaganda para bolar comerciais de TV, da mesma forma que “imagem”, por mais esperteza que se empregue em sua criação, não substitui caráter. Também não adianta gastar dinheiro com advogados que passam o tempo armando chicanas processuais e outros truques destinados a impedir que se julgue o mérito real dos fatos alegados contra ele; isso pode funcionar como estratégia de fuga, mas não cria valores em cima dos quais se consiga construir uma reputação. Não é possível sair do lugar em que o ex-presidente se enfiou distribuindo camisetas vermelhas, fretando ônibus e pagando diárias, sempre com dinheiro público, a milícias que se apresentam como “movimentos sociais”. Dá errado, cada vez mais, continuar atirando em Fernando Henrique Cardoso ─ isso para ficar apenas no alvo que se tornou sua ideia fixa ─ na esperança de provar que “todo mundo é igual”; quanto mais tentam fazer a comparação, mais chocantes ficam as diferenças de conduta entre os dois. Enfim: tem-se tentado de tudo, e nada dá certo. Continuará assim, pois nada altera a pane central que existe nessa história: Lula não é o homem que diz ser. Também não é o que seus admiradores, de boa-fé ou por interesse, acham que seja.
A desmontagem da estrutura ética do ex-presidente está sendo feita unicamente através de fatos, não de alegações; e são fatos que não precisam mais ser provados, pois todas as provas já foram exibidas e confirmadas. Mais: nenhum deles, até agora, foi apresentado ao público brasileiro pela oposição, que se limita a acompanhar sua divulgação na imprensa e fazer o mínimo possível de comentários.
A derrota, enfim, não veio por causa de nenhuma batalha dessas que fazem tremer a terra ─ nada de Waterloo, ou de invasão da Normandia no Dia D. Tudo veio acabar em mesquinharia e pequenez, nas miudezas miseráveis da reforma de um sítio de segunda linha, nas 200 caixas de mudança da “transportadora Cinco Estrelas”, nos desvãos de uma arapuca imobiliária que lesou 3 000 famílias com um golpe na praça. Não houve a discutir, nessa demolição, uma única questão de princípio, filosofia política ou consciência ─ ficou tudo exclusivamente numa conversa de fim de feira sobre quem é o dono do tríplex na cooperativa falida, quem pagou a cozinha Kitchens, quem mora de graça na casa de quem. Mais que qualquer outra coisa, ficou uma palavra-guia, a palavra que não pode mais calar na biografia de Lula: empreiteira, empreiteira, empreiteira. É aí, na hora da verdade, que ele encontrou de fato sua perdição.
Nada destruiu tanto a autoridade moral de Lula quanto seu convívio com as empreiteiras de obras brasileiras, durante e depois de seus dois mandatos. Nunca antes, em toda a história do Brasil, houve um presidente da República com tantos e tão íntimos amigos entre os empreiteiros. Alguém é capaz de citar outro? Em apenas quatro anos, de 2011 a 2014, momento em que a casa começou enfim a cair, Lula recebeu 27 milhões de reais para fazer palestras encomendadas pelos gigantes da construção pesada no país. Foi presenteado, também, com contribuições milionárias para sustentar as despesas do seu Instituto Lula ─ isso e mais viagens de jatinho, uma antena de celular a 100 metros do sítio que utiliza em Atibaia, e as obras de reforma nesse mesmo e malfadado sítio, que agora atormentam sua vida. Os presentes não vieram apenas das empreiteiras, certo, mas isso não melhora sua situação em nada ─ vieram de fontes mais sombrias ainda, como um consórcio de estaleiros que vivem de contratos com a Petrobras, o Banco BTG Pactual, um “centro de estudos” de Angola. Através da francesa GDF Suez, há traços até da inesquecível Astra Oil, que vendeu à Petrobras o ferro-velho da refinaria americana de Pasadena, algo tão parecido com uma negociata em estado puro, mas tão parecido, que até hoje não foi possível descobrir a diferença. Ganhar dinheiro fazendo palestras para essa gente está dentro da lei? Está. Está dentro da moral comum? Não está, e é aí que começa e acaba o problema. Um ex-presidente da República não pode, simplesmente não pode, aceitar dinheiro de empresas que dependem do Tesouro para sobreviver. É isso, e ponto final.
Como seria possível confiar na imparcialidade, na palavra e na integridade de valores de alguém que anda em tais companhias, ainda mais quando se sabe da influência que exerce no governo que está aí? Lula recebeu dinheiro das empreiteiras porque foi presidente do Brasil por oito anos, e não por seus conhecimentos em matéria de viadutos, ferrovias e usinas hidrelétricas; ninguém lhe daria um tostão furado se tivesse sido apenas presidente de sindicato. Lula diz o tempo todo que só chegou ao comando da nação porque os pobres votaram nele. Mas não vê nenhum problema no ato de transformar em dinheiro vivo, agora, o apoio que recebeu dos humildes ─ a quem deve tudo, inclusive sua transformação em milionário. O ex-presidente, de tempos em tempos, diz que tem o direito de ser rico. Tem, mas não tem. Não pode botar no bolso, sem se desmoralizar, 27 milhões de reais de empreiteiros ─ nem ser seu amigo íntimo, prestar-lhes serviços, permitir que lhe paguem despesas, aceitar que sejam sócios de um dos seus filhos e sabe-se lá ainda o que mais. Um homem público como ele não pode, nessas coisas, ser igual aos demais cidadãos. Tem de abrir mão de uma porção de confortos; é o preço a pagar para manter inteira a sua moral. Se achar injusto, bastará deixar a vida pública; ninguém é obrigado a ser presidente da República.
Lula acostumou-se a achar que tem direito a tudo, e não está sujeito a nada. Imaginou que pudesse ser o mais querido entre as empreiteiras ─ e que isso não iria lhe trazer problema algum. Achou que seus dois filhos pudessem ganhar milhões fazendo negócios com empresas que dependem do governo. Não viu nada de mais em meter-se com uma quadrilha que vendeu apartamentos na planta a bancários, roubou o dinheiro que recebeu deles e foi à falência sem entregar os prédios. Com exceção, claro, de um ou outro que foi concluído por uma empreiteira, mais uma, e reservado aos amigos ─ entre eles o que abriga o tríplex do Guarujá. O que Lula, que nem bancário é, estava fazendo no meio dessa gente? As histórias vão adiante e adiante; o que apareceu escrito aqui está muito longe de ser tudo. Mas é o suficiente. Este é um combate que claramente chegou ao fim.
domingo, 6 de março de 2016
Lula propõe anarquia que pode explodir o governo de Dilma
Ao lançar, como fez na entrevista coletiva de sexta-feira, a ideia de um movimento popular no país para defendê-lo das acusações que pesam sobre ele, o ex-presidente Lula na realidade está propondo as bases de uma anarquia, a qual, além de não lhe adiantar nada, pode explodir o governo Dilma Rousseff.
O que deseja Lula? Na realidade um confronto de parte da população que o inocenta e apoia contra o Poder Judiciário e o Ministério Público. A contradição é evidente, a colisão inevitável, cujos estilhaços serão remetidos contra o Palácio do Planalto e, portanto, contra a presidente Dilma Rousseff. Isso porque tal perspectiva não pode interessá-la para exercer seu mandato, cujo caminho já se encontra cheio de obstáculos. O maior deles construído pelo próprio Lula ao aceitar que Odebrecht e OAS pagassem por palestras e pelo acabamento do Guarujá e Atibaia, bens que sustenta não lhe pertencerem.
As contradições de Lula não terminam aí. Na, entrevista afirmou-se indignado contra sua condução ao depoimento à Polícia Federal, determinada pelo juiz Sérgio Moro. Porém, na realidade o ex-presidente não estava disposto a depor, pois se assim fosse não teria recorrido ao Supremo em busca de uma liminar que pudesse afastá-lo dessa obrigação. Tanto recorreu que a relatora do processo, Ministra Rosa Weber, negou-lhe a medida. Verifica-se então o seguinte: o ex-presidente diz uma coisa e na realidade age para obter o efeito contrário. Este aspecto da questão é o que mais o compromete e retira a força da realidade de suas afirmações.
De fato, o ex-presidente não deseja discutir ou esclarecer as acusações contra ele. Apenas tenta evaporá-las, o que revela um sentimento de culpa evidente. Afinal de contas, qual o motivo que o leva a tentar escapar das explicações? Ora, é a inconsistência de suas próprias declarações possíveis.
Falei no título na perspectiva de uma incursão para desencadear uma anarquia no país. É isso mesmo. Pois este aspecto, aliás bem analisado pela repórter Fernanda Mona, Folha de São Paulo de sábado, destaca bem a hipótese mais que viável de a campanha de Lula contra o Ministério Público e o Poder Judiciário desencadear uma série de conflitos em massa no Brasil. Anarquia evidente, porque não existe lógica alguma na tentativa de alguém contrapor-se à Justiça com base em manifestações populares.
Os confrontos que vão decorrer das manifestações podem detonar uma crise colossal no país, causando explosões seguidas com as quais Dilma Rousseff não poderá concordar ou se omitir.
Implantada a anarquia não estará em jogo apenas o destino de Lula. Estará em jogo principalmente o futuro do governo Dilma Rousseff.
O que deseja Lula? Na realidade um confronto de parte da população que o inocenta e apoia contra o Poder Judiciário e o Ministério Público. A contradição é evidente, a colisão inevitável, cujos estilhaços serão remetidos contra o Palácio do Planalto e, portanto, contra a presidente Dilma Rousseff. Isso porque tal perspectiva não pode interessá-la para exercer seu mandato, cujo caminho já se encontra cheio de obstáculos. O maior deles construído pelo próprio Lula ao aceitar que Odebrecht e OAS pagassem por palestras e pelo acabamento do Guarujá e Atibaia, bens que sustenta não lhe pertencerem.
De fato, o ex-presidente não deseja discutir ou esclarecer as acusações contra ele. Apenas tenta evaporá-las, o que revela um sentimento de culpa evidente. Afinal de contas, qual o motivo que o leva a tentar escapar das explicações? Ora, é a inconsistência de suas próprias declarações possíveis.
Falei no título na perspectiva de uma incursão para desencadear uma anarquia no país. É isso mesmo. Pois este aspecto, aliás bem analisado pela repórter Fernanda Mona, Folha de São Paulo de sábado, destaca bem a hipótese mais que viável de a campanha de Lula contra o Ministério Público e o Poder Judiciário desencadear uma série de conflitos em massa no Brasil. Anarquia evidente, porque não existe lógica alguma na tentativa de alguém contrapor-se à Justiça com base em manifestações populares.
Os confrontos que vão decorrer das manifestações podem detonar uma crise colossal no país, causando explosões seguidas com as quais Dilma Rousseff não poderá concordar ou se omitir.
Implantada a anarquia não estará em jogo apenas o destino de Lula. Estará em jogo principalmente o futuro do governo Dilma Rousseff.
O xeque-mate da Justiça e a aula magna de cinismo
Lindo dia este em que o país indignado assistiu eufórico à aula prática de civilidade a que o rei da era da canalhice foi submetido. Num xeque-mate, o juiz Sergio Moro aplicou uma lição simples: a de que ninguém está acima da lei. O jeca e respectivos devotos, refratários a essa luz civilizatória mínima para qualquer país se viabilizar, reagiram como sempre: reafirmando a mentira como um modo de estar no mundo e, para ser escuridão em manhã plena de luz, Lula responde ao xeque-mate da Justiça ministrando uma aula magna de cinismo.
Insistindo em deformar a realidade, o jeca amputou a verdade mediante o vitimismo de drama de circo; a clivagem já ineficaz entre “nós” e “eles”, excetuado o bando devoto; a tentativa inútil de fazer o juiz Sergio Moro, a pessoa mais admirada no país atualmente, parecer detestável. Um metalúrgico não pode ter um sítio? Claro que sim: ao milionário Lula, assim como a qualquer cidadão, basta adquiri-lo honestamente e declarar o bem. Onde guardar 11 contêineres da mudança? Um bazar beneficente com os presentes cedidos pelo amigão dos pobres teria sido uma boa maneira de aliviar essa carga. Necessária a condução coercitiva? Pergunte-se ao procurador Cássio Conserino que não pôde colher o depoimento do casal fujão que debocha da lei.
A fala expelida das profundezas da pilantragem profissional germina naquilo em que é mestre: falsidade, truculência e arrogância que têm, no coração do caudilho, ninho indevassável. Do que mais precisa para triunfar um homem primitivo com esse talento insuperável para a farsa? Gerado no peleguismo sindical, amamentado no colo da ditadura, amadurecido nos braços das esquerdas na redemocratização, a Lula só faltava a chave do cofre e, de lambuja, um ambiente semicivilizado, inóspito à dissidência, ao cumprimento das leis e ao confronto político.
Dono da chave do cofre eleito presidente, tratou de degradar ainda mais o ambiente, o que o eternizaria na posse da chave, uma coisa garantindo a outra. Muito simples: cooptação de capitalistas selvagens, colonização ideológica, demagogia, sabotagem da democracia, compra de consciências. Até a manhã luzidia desta sexta-feira a que a Lava Jato e a conduta serena e segura de Sergio Moro nos trouxeram, acelerando o desmanche da farsa iniciado há algum tempo com a nação exangue que tenta se reerguer como pode, apoiada nas instituições falhas e tardias, no jornalismo independente que resiste e abandonada pela oposição.
Depois do depoimento, a fala de Lula traduziu um líder – para os devotos incuráveis – que, atingido, se fortalece e se apresenta para liderar, precisamente, os devotos incuráveis. Mas também mostra que, cego pela luz da manhã radiosa, não vê que ela vai raiar ainda outras vezes em desdobramentos saneadores do primitivismo que a súcia quis eternizar e que esse xeque-mate é apenas parte disso. O jeca que se vê como herói de dramas falsos ignora a verdadeira tragédia pessoal da farsa que se crê mito: como disse Isaac Asimov, na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate.
Insistindo em deformar a realidade, o jeca amputou a verdade mediante o vitimismo de drama de circo; a clivagem já ineficaz entre “nós” e “eles”, excetuado o bando devoto; a tentativa inútil de fazer o juiz Sergio Moro, a pessoa mais admirada no país atualmente, parecer detestável. Um metalúrgico não pode ter um sítio? Claro que sim: ao milionário Lula, assim como a qualquer cidadão, basta adquiri-lo honestamente e declarar o bem. Onde guardar 11 contêineres da mudança? Um bazar beneficente com os presentes cedidos pelo amigão dos pobres teria sido uma boa maneira de aliviar essa carga. Necessária a condução coercitiva? Pergunte-se ao procurador Cássio Conserino que não pôde colher o depoimento do casal fujão que debocha da lei.
A fala expelida das profundezas da pilantragem profissional germina naquilo em que é mestre: falsidade, truculência e arrogância que têm, no coração do caudilho, ninho indevassável. Do que mais precisa para triunfar um homem primitivo com esse talento insuperável para a farsa? Gerado no peleguismo sindical, amamentado no colo da ditadura, amadurecido nos braços das esquerdas na redemocratização, a Lula só faltava a chave do cofre e, de lambuja, um ambiente semicivilizado, inóspito à dissidência, ao cumprimento das leis e ao confronto político.
Dono da chave do cofre eleito presidente, tratou de degradar ainda mais o ambiente, o que o eternizaria na posse da chave, uma coisa garantindo a outra. Muito simples: cooptação de capitalistas selvagens, colonização ideológica, demagogia, sabotagem da democracia, compra de consciências. Até a manhã luzidia desta sexta-feira a que a Lava Jato e a conduta serena e segura de Sergio Moro nos trouxeram, acelerando o desmanche da farsa iniciado há algum tempo com a nação exangue que tenta se reerguer como pode, apoiada nas instituições falhas e tardias, no jornalismo independente que resiste e abandonada pela oposição.
Depois do depoimento, a fala de Lula traduziu um líder – para os devotos incuráveis – que, atingido, se fortalece e se apresenta para liderar, precisamente, os devotos incuráveis. Mas também mostra que, cego pela luz da manhã radiosa, não vê que ela vai raiar ainda outras vezes em desdobramentos saneadores do primitivismo que a súcia quis eternizar e que esse xeque-mate é apenas parte disso. O jeca que se vê como herói de dramas falsos ignora a verdadeira tragédia pessoal da farsa que se crê mito: como disse Isaac Asimov, na vida, ao contrário do xadrez, o jogo continua após o xeque-mate.
'Genocídio' dos vulneráveis
A corrupção afeta mais agudamente os brasileiros mais pobres. Quando o corrupto rouba dinheiro para benefício próprio, saúde, educação, alimentação, saneamento e outros direitos humanos básicos são negados aos setores mais vulneráveis da sociedade. A corrupção é um imposto pago pelos mais pobres de nossos paísesJosé Ugaz, presidente da Transparência Internacional
Acima da lei e fora da lei
Enquanto um punhado de militantes petistas protestava contra a ação da Polícia Federal que conduzira Lula ao aeroporto de Congonhas, veio-me à mente imagem com a qual me deparei ontem no Google. Retrata um evento da campanha eleitoral de 2002. Lula, Genoíno, Mercadante, Berzoini e Alencar formam um abre-alas e marcham portando faixa, devidamente estrelada, com os dizeres "Quero um Brasil decente". Fácil compreender a decepção de quantos creram que a faixa expressasse um sentimento real.
Os fundadores do PT viam-se como agentes de um processo revolucionário. Frei Betto, em artigo de 2007, assim descreve os anseios dos vitoriosos de 2002: "A lua seria o nosso troféu. Haveríamos de escalar suas montanhas e, lá em cima, desfraldar as bandeiras da socialização compulsória". O nome disso é revolução. E nenhuma causa revolucionária consegue ser compatível com o Estado de Direito. A revolução por dentro do regime democrático, sem sangue, como sonhou o PT, é uma lavoura que, entre outros requisitos, precisa ser irrigada com dinheiro. Dinheiro para as campanhas eleitorais, para a militância e para os movimentos sociais controlados pelo partido, para manter operante um exército de jornalistas e formadores de opinião. É preciso ter e manter multidão de agentes que começam no sanduíche de mortadela, mas miram o topo da cadeia alimentar revolucionária, onde estão a lagosta ao thermidor e o Romanée-Conti. O sanduíche é meio e não fim de toda jornada socialista. Não conheço um só revolucionário que queira o comunismo para continuar batendo cartão e operando a mesma máquina.
Numa democracia, o poder é buscado dentro da regra do jogo, dentro da lei. No entanto, se o objetivo é revolucionário, pertence à própria natureza do processo que seus agentes se considerem acima da lei. A causa vem antes e lhe é superior. A lei que não convém à causa é iníqua e não merece respeito. Na primeira etapa, então, se instala esse sentimento de superioridade em relação à ordem jurídica. Face bem visível do que descrevo pode ser observada nos assim chamados "movimentos sociais". Quem se opõe às suas ações é acusado de criminalizá-los. Por quê? Porque quem está acima da lei não comete crimes.
É aí que se começa a explicar o incomparável desastre moral que acometeu o PT. A mentira vira argumento. Calúnia, difamação e injúria ganham utilidade política. Fatos são substituídos por versões. A verdade perde interesse e utilidade. E por aí vai a decência para o brejo.
As reações que surgem nestas horas às ações da PF, do MPF e do juiz Sérgio Moro são motivadas pelo mesmo fenômeno. Ou seja, o petismo ainda não caiu em si. Na fala do presidente Rui Falcão, na gritaria dos militantes no aeroporto de Guarulhos, no posterior discurso de Lula à claque petista, percebe-se a mesma convicção: todos supõem ser devida a seus líderes e ao partido uma reverência que os tornaria inatingíveis pela Justiça. E à sombra dessa reverência deveriam ficar resguardadas as condutas mais suspeitas e a vertiginosa prosperidade pessoal e familiar de tantos. A infinita sucessão de escândalos não é entendida como conduta fora da lei, mas situação normal para quem está acima dela.
Percival Puggina
Os arquivos de 'Judas'
Uma certeza prevalece sobre a torrente de dúvidas lançada nas últimas 48 horas na cena brasileira: como está, não vai ficar.
Dissipam-se as possibilidades de Dilma Rousseff se manter ilesa até o fim do mandato. O depoimento do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral (PT-MS) expôs a presidente a novas e múltiplas iniciativas jurídicas por crime de responsabilidade.
A consequência imediata, previsível, é uma decisão mais rápida do Supremo Tribunal Federal na liberação do rito do processo de impeachment na Câmara dos Deputados.
Dilma tem pela frente, além da ação para impedimento, um processo de cassação do mandato no Tribunal Superior Eleitoral. A previsão dos juízes é que o desfecho ocorra, no máximo, até setembro.
A corrosão do governo ocorre sob as piores condições. Perdeu a base e a principal frente oposicionista se consolida dentro do próprio partido, capitaneada por Lula, que há tempos deixou-se seduzir pelo jogo simulado de conduzir a própria oposição, e governar na divisão. São de Lula as digitais na derrubada dos ministros da Fazenda (Guido Mantega e Joaquim Levy) e da Justiça (José Eduardo Cardozo).
Com o seu aval, também, o PT atravessou os últimos 14 meses sabotando todas as iniciativas do governo Dilma na economia, cujas dificuldades estruturais mais evidentes são herança da era Lula, agravadas pela soberba da presidente na condução da político-econômica. Resultou em recordes como o declínio de 14% nos investimentos em 2015 — o mais significativo em um quarto de século, desde o impeachment de Collor.
Astuto, Lula viu ontem uma chance na ordem assinada pelo juiz Sérgio Moro na última segunda-feira, 29, recheada de cautelas: “NÃO deve ser utilizada algema e NÃO deve, em hipótese alguma, ser filmado... O mandado SÓ DEVE SER UTILIZADO E CUMPRIDO, caso o ex-Presidente, convidado a acompanhar a autoridade policial para depoimento, recuse-se a fazê-lo”.
O ex-presidente anunciou que vai viajar pelo país fazendo aquilo que mais gosta: subir em palanques para demonstrar a certeza granítica de que todo o mal deve ser atribuído aos outros.
Dilma, ao contrário, mostrou-se nervosa. Em reuniões, xingava seu ex-líder no Senado. Nem teve o privilégio da primazia: em abril de 2006, no governo Lula, o então deputado Jorge Bittar (PT-RJ) chamou-o de “Judas”, no mais suave dos impropérios. A CPI dos Correios terminava com um acordo de Delcídio com o presidente: o relatório final isentava Lula e omitia o nome de um de seus filhos, Fábio.
Quando inconformados, como Bittar, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo, ameaçaram expulsá-lo do PT, ele anunciou um livro: “Registrei tudo, com parlamentares, executivos, empresários e pessoas do governo”, repetia pelos corredores do Senado.
Se livro e gravações existem, não se sabe, mas desde então Delcídio ascendeu no partido, com o apoio de Lula e Dilma. As poucas páginas já divulgadas da sua delação contêm detalhes suficientes para sugerir que o senador andou espanando a poeira dos arquivos.
Dissipam-se as possibilidades de Dilma Rousseff se manter ilesa até o fim do mandato. O depoimento do ex-líder do governo no Senado Delcídio Amaral (PT-MS) expôs a presidente a novas e múltiplas iniciativas jurídicas por crime de responsabilidade.
A consequência imediata, previsível, é uma decisão mais rápida do Supremo Tribunal Federal na liberação do rito do processo de impeachment na Câmara dos Deputados.
Dilma tem pela frente, além da ação para impedimento, um processo de cassação do mandato no Tribunal Superior Eleitoral. A previsão dos juízes é que o desfecho ocorra, no máximo, até setembro.
A corrosão do governo ocorre sob as piores condições. Perdeu a base e a principal frente oposicionista se consolida dentro do próprio partido, capitaneada por Lula, que há tempos deixou-se seduzir pelo jogo simulado de conduzir a própria oposição, e governar na divisão. São de Lula as digitais na derrubada dos ministros da Fazenda (Guido Mantega e Joaquim Levy) e da Justiça (José Eduardo Cardozo).
Com o seu aval, também, o PT atravessou os últimos 14 meses sabotando todas as iniciativas do governo Dilma na economia, cujas dificuldades estruturais mais evidentes são herança da era Lula, agravadas pela soberba da presidente na condução da político-econômica. Resultou em recordes como o declínio de 14% nos investimentos em 2015 — o mais significativo em um quarto de século, desde o impeachment de Collor.

O ex-presidente anunciou que vai viajar pelo país fazendo aquilo que mais gosta: subir em palanques para demonstrar a certeza granítica de que todo o mal deve ser atribuído aos outros.
Dilma, ao contrário, mostrou-se nervosa. Em reuniões, xingava seu ex-líder no Senado. Nem teve o privilégio da primazia: em abril de 2006, no governo Lula, o então deputado Jorge Bittar (PT-RJ) chamou-o de “Judas”, no mais suave dos impropérios. A CPI dos Correios terminava com um acordo de Delcídio com o presidente: o relatório final isentava Lula e omitia o nome de um de seus filhos, Fábio.
Quando inconformados, como Bittar, Aloizio Mercadante e José Eduardo Cardozo, ameaçaram expulsá-lo do PT, ele anunciou um livro: “Registrei tudo, com parlamentares, executivos, empresários e pessoas do governo”, repetia pelos corredores do Senado.
Se livro e gravações existem, não se sabe, mas desde então Delcídio ascendeu no partido, com o apoio de Lula e Dilma. As poucas páginas já divulgadas da sua delação contêm detalhes suficientes para sugerir que o senador andou espanando a poeira dos arquivos.
Velho infrator
Septuagenário, Lula, após ter sido convidado a prestar depoimento na Polícia Federal, foi levado ao aeroporto de Congonhas , e lá ficou por três horas. Ao sair, parecia um desses jovens infratores que, encaminhados às delegacias especializadas e, na certeza de que serão libertados , surgem nas televisões, com imagem distorcidas e vozes digitais, falando besteiras, afrontando policiais, xingando repórteres e proclamando que são "dimenor".
O líder dos enfurecidos companheiros, comportando-se como incentivador de badernas e violência, usando a sua emissora privada, prometeu colocar seus ilegais guerreiros nas ruas para exigir respeito e privilégios.
Sendo "dimaior", o ex-presidente, com a colaboração de vídeo postado nas redes sociais pela "aliada Jandira Feghali", fala ao telefone com a ameaçada sucessora, e diz que podem enfiar, no orifício anal - para não ser chulo como o ex-presidente - os processos contra ele. Lula, que já havia feito discurso midiático, debochando da Polícia Federal, do Ministério Público, da Justiça e da maioria do povo brasileiro, com a divulgação do vídeo de Jandira confirmou a sua fama de debochado e desbocado.
É inacreditável que tenhamos sido governado, por tantos anos, por uma pessoa que incita a violência, destrata interlocutores, desafia a mídia, além de preferir bebidas fortes a vinhos refinados, apesar de possuir adega climatizada em um sítio emprestado de um amigo.
A fama de apreciador contumaz de cachaça, Lula deve ter tomado uns tragos antes de proferir o seu discurso. Olhos empapuçados, cabelos ralos e desgrenhados, voz rouca vinda da garganta sofrida, o ex-presidente encontrou o palanque que ,a tempos, buscava e vociferou ameaças aos ventos.
Em um momento terrível para o Brasil, Lula deveria se espelhar no africano Nélson Mandela que, após vinte e sete anos de injusta prisão, pregou a paz e o perdão aos seus concidadãos. A preferência do assustado conduzido depoente pela África, governada por ditadores, aclara o interesse de investir fortunas naquelas paragens. Deve ser este o ideal do político decadente: governar o país sem oposição, sem democracia e sem justiça para todos.
Lula sabe que os seus dias de liberdade estão por um fio e, desesperadamente, retoma as rédeas do seu séquito e pretende sair às ruas do país, cobrando dos mais pobres a dívida por ter proporcionado a eles melhores condições de vida. Esses cidadãos não devem nada ao ex-presidente, ao contrário, todos governantes devem proteger os carentes, desde que não coloquem uma parte dos recursos em seus bolsos através de artifícios.
A derrocada da maioria dos nossos políticos é a verdadeira prova dos desmandos causados por corruptos e incompetentes. As investigações que desmancham as maravilhas do Brasil líder mundial já levaram à condenação e prisão homens de confiança de Lula e, agora, se aproximam, implacavelmente, ao governo da presidente Dilma.
Deve ser duro para uma menina que sonhava, erroneamente, implantar uma sociedade mais justa, estar atolada no lamaçal arrasador que destruiu não uma represa, mas, uma nação.
Dilma, que também é "dimaior", mas não tem os privilégios dos septuagenários, deveria se afastar das más companhias para não ser convidada, ao amanhecer, antes sair nas constantes pedaladas, a depor no processo da Lava-Jato perante ministros do Supremo Tribunal Federal.
O líder dos enfurecidos companheiros, comportando-se como incentivador de badernas e violência, usando a sua emissora privada, prometeu colocar seus ilegais guerreiros nas ruas para exigir respeito e privilégios.

É inacreditável que tenhamos sido governado, por tantos anos, por uma pessoa que incita a violência, destrata interlocutores, desafia a mídia, além de preferir bebidas fortes a vinhos refinados, apesar de possuir adega climatizada em um sítio emprestado de um amigo.
A fama de apreciador contumaz de cachaça, Lula deve ter tomado uns tragos antes de proferir o seu discurso. Olhos empapuçados, cabelos ralos e desgrenhados, voz rouca vinda da garganta sofrida, o ex-presidente encontrou o palanque que ,a tempos, buscava e vociferou ameaças aos ventos.
Em um momento terrível para o Brasil, Lula deveria se espelhar no africano Nélson Mandela que, após vinte e sete anos de injusta prisão, pregou a paz e o perdão aos seus concidadãos. A preferência do assustado conduzido depoente pela África, governada por ditadores, aclara o interesse de investir fortunas naquelas paragens. Deve ser este o ideal do político decadente: governar o país sem oposição, sem democracia e sem justiça para todos.
Lula sabe que os seus dias de liberdade estão por um fio e, desesperadamente, retoma as rédeas do seu séquito e pretende sair às ruas do país, cobrando dos mais pobres a dívida por ter proporcionado a eles melhores condições de vida. Esses cidadãos não devem nada ao ex-presidente, ao contrário, todos governantes devem proteger os carentes, desde que não coloquem uma parte dos recursos em seus bolsos através de artifícios.
A derrocada da maioria dos nossos políticos é a verdadeira prova dos desmandos causados por corruptos e incompetentes. As investigações que desmancham as maravilhas do Brasil líder mundial já levaram à condenação e prisão homens de confiança de Lula e, agora, se aproximam, implacavelmente, ao governo da presidente Dilma.
Deve ser duro para uma menina que sonhava, erroneamente, implantar uma sociedade mais justa, estar atolada no lamaçal arrasador que destruiu não uma represa, mas, uma nação.
Dilma, que também é "dimaior", mas não tem os privilégios dos septuagenários, deveria se afastar das más companhias para não ser convidada, ao amanhecer, antes sair nas constantes pedaladas, a depor no processo da Lava-Jato perante ministros do Supremo Tribunal Federal.
O número 13
O número 13, associado ao dia de sexta-feira, ganhou fama de maldito por via da conjuração contra a Ordem dos Templários, formada por cavaleiros que se intitulavam depositários do tesouro do rei Salomão, do Santo Gral, cálice que recolheu o sangue de Cristo, e da chave da sabedoria antiga.
Essa ordem celibatária, composta de monges guerreiros cristãos, pelas regras severas no limite do desprezo da dor física que adotavam, se transformou numa força transnacional poderosa como nenhuma outra. Seus adeptos tinham na ilha de Malta e em Rodes seus centros e bases de apoio, construídos na época das cruzadas para reconquistar Jerusalém e o Santo Sepulcro. Ainda hoje em Rodes existe o castelo da ordem, transformado em museu, que guarda a história e os brasões dos grandes mestres templários.
A ordem foi fundada em Jerusalém, em 1118, por oito cavaleiros (daí a lenda da Mesa Redonda) e passou em seguida a herdar de seus membros, que provinham de famílias abastadas da Europa, verdadeiras fortunas.
O tesouro da ordem também contava com o butim das conquistas em terras de infiéis. A riqueza deu origem a uma espécie de Banco Central do mundo ocidental, com sedes por todo lado e controle do mar Mediterrâneo. Os pagamentos e financiamentos passaram a ser apanágio da ordem. Poder acima do poder, maior que das endividadas famílias reais (dinastias merovíngias) da Europa; assim, a ordem, depois de dois séculos de expansão, trombou, no início do século XIV, com o rei da França, Felipe IV, o Belo.
Com o prestígio minguando e para restaurar o domínio em grande parte cedido aos templários banqueiros (e dar, assim, um calote na ordem), as realezas europeias, orquestradas por Felipe IV, pelo fraco papa Clemente V e por Guilherme de Nogaret (mentor da trama), fizeram chegar, bem em cima da hora, a mesma “ordem” escrita para prender, em qualquer país, e matar, na primeira hora de sexta-feira de 13 de outubro de 1307, os templários. Deu-se assim um extermínio no mundo ocidental já nas primeiras horas da sexta maldita. O plano, salvo algumas exceções, correu à risca; o grande mestre da ordem Jacques de Molay foi rendido e preso.
Depois de sete anos de masmorra, Jacques de Molay foi executado ardendo no fogo no dia 14 de março de 1314. Assim que a fogueira foi atiçada, ele teria desferido uma maldição aos inimigos pedindo que no mesmo ano todos fossem levados ao inferno sofrendo horrores.
Coincidência ou não, o papa Clemente V expirou em 20 de abril por doença intestinal; Felipe, apesar de Belo, caiu do cavalo, e um javali o rasgou, arrastando suas entranhas, em 29 de novembro; e Nogaret encontrou seu fim, por doença, exatamente no dia 31 de dezembro de 1314.
Os templários que escaparam da conspiração se organizaram em seitas, deixando de ser guerreiros e continuando a se vangloriar de depositários do Santo Gral e de outras façanhas do rei Salomão. Teriam originado a Ordem dos Cavaleiros de Malta, dos rosa-cruzes, dos Illuminati di Baviera, que até hoje emergem hora ou outra como manobristas da ordem mundial.
O número 13 ficou na história e na superstição; mesmo sem ser associado à sexta-feira, restou como número de má sorte, mas, para alguns, o número seria o contrário, de sorte. Ainda contra ele pesa o número de participantes da Santa Ceia, 12 apóstolos e o Mestre.
Ao se escolher o 13, se enfrenta sempre o dilema, hamletiano: bom ou ruim? Em alguns países o número 13 foi varrido como andar de prédios, como número de rua, e, se numa mesa sentam-se 13, mais um tem que ser chamado.
O próximo dia 13 será um dia decisivo para medir a capacidade de enfrentar a onda do impeachment, que depois de um recuo volta com força, aumentada pela recessão e pelo desemprego, a bater às portas do Planalto.
Lula, acossado como nunca, desceu do trono da popularidade e disputa agora o papel que lhe resta, de mito, para não passar por aquele de vilão. Sairá destruído ou fortalecido.
Resta o fato de que no Brasil a produção em qualquer setor (exceção para a agricultura) vem despencando verticalmente, fazendo empresas fecharem as portas, despejando multidões de desempregados. O governo enfrenta uma rejeição nunca registrada antes.
No horizonte e no Planalto não se enxerga algo que possa servir de freio à queda livre, e, sobretudo, dar sinal de controlar a confusão instalada na política e na economia, devastando as esperanças no Brasil e o conceito lá fora.
O Brasil precisa deixar para trás a insegurança, tem o dever de crescer, desenvolver, dar soluções às demandas de 200 milhões de brasileiros.
Novos tempos
Os poderosos perderam o medo de serem chamados de ladrões. É uma desfaçatezJosé María Guelbenzu, em O poderoso quer tudo, recém lançado na Espanha
Preso por excesso de honestidade
O mais honrado e honesto brasileiro foi levado nesta sexta-feira por condução coercitiva a prestar depoimento na Polícia Federal por excesso de honestidade e de honradez? Foi o que Lula passou em sua conclamação à militância, hoje tão minguada que só lota ônibus com bolsa mortadela.
O ex-presidente sentiu o golpe de entrar no camburão da PF.
Não é a mesma coisa quando o pelego entrava no camburão da Polícia, nos tempos da ditadura, seguindo para o DOPS. Era então livre e íntimo que mais parecia integrante policial do que passageiro em ação coercitiva.
Era apenas líder sindical, lutando por interesses dos trabalhadores, mas na manhã dessa sexta-feira era um ex-presidente que deve se explicar sobre a promiscuidade entre o público e o privado. O Pai dos Pobres, beneficiário das zelites empresariais, não se explicou publicamente ainda. Fez apenas o que sempre faz: balançou a pança e convocou as massas, hoje magérrimas. Dá uma de pobre, que não é mais, esnjando os prêmios da Bolsa-Família que lhe rendeu os favores de inexplicáveis milhões.
Fez o velho discurso do pobre que subiu na vida como é do gosto petista. Da mesma forma, muitos companheiros conseguiram "emprego" e fizeram "carreira" de ex-pobres semi-analfabetos a novos ricos alfabetizados na cartilha petista.
O super ex, que desafia a justiça e menospreza a polícia, ainda se achando com foro de imunidade, se desmontou. Sente que não está apenas na mira, mas nas mãos da Polícia Federal da qual sempre correu. Não tem mais aqueles companheiros aguerridos, hoje presos, esquecidos propositalmente pr ele, a fim de não se sujar. Traição, que é um traço no seu carreirismo, bem sabem os abandonados pelos caminho pelo honesto santo.
Resta carregar com a família o peso criminoso dos presentes das zelites empresariais a quem ataca só de boca pra fora, porque dentro dos bolsos sempre cabe mais um dindim. .
O ex-presidente sentiu o golpe de entrar no camburão da PF.
Não é a mesma coisa quando o pelego entrava no camburão da Polícia, nos tempos da ditadura, seguindo para o DOPS. Era então livre e íntimo que mais parecia integrante policial do que passageiro em ação coercitiva.
Era apenas líder sindical, lutando por interesses dos trabalhadores, mas na manhã dessa sexta-feira era um ex-presidente que deve se explicar sobre a promiscuidade entre o público e o privado. O Pai dos Pobres, beneficiário das zelites empresariais, não se explicou publicamente ainda. Fez apenas o que sempre faz: balançou a pança e convocou as massas, hoje magérrimas. Dá uma de pobre, que não é mais, esnjando os prêmios da Bolsa-Família que lhe rendeu os favores de inexplicáveis milhões.
Fez o velho discurso do pobre que subiu na vida como é do gosto petista. Da mesma forma, muitos companheiros conseguiram "emprego" e fizeram "carreira" de ex-pobres semi-analfabetos a novos ricos alfabetizados na cartilha petista.
O super ex, que desafia a justiça e menospreza a polícia, ainda se achando com foro de imunidade, se desmontou. Sente que não está apenas na mira, mas nas mãos da Polícia Federal da qual sempre correu. Não tem mais aqueles companheiros aguerridos, hoje presos, esquecidos propositalmente pr ele, a fim de não se sujar. Traição, que é um traço no seu carreirismo, bem sabem os abandonados pelos caminho pelo honesto santo.
Resta carregar com a família o peso criminoso dos presentes das zelites empresariais a quem ataca só de boca pra fora, porque dentro dos bolsos sempre cabe mais um dindim. .
Perda de consciência antes da guilhotina
São clássicos dois fenômenos de ciência política ocorrendo hoje no Brasil. O primeiro é a alienação cega dos governantes em relação ao quadro real dos momentos históricos decisivos pré-ruptura institucional. O segundo é o retardo dos atores das forças políticas em assimilar e se sintonizar com o clamor popular, ocasionando a ruptura.
Quanto ao primeiro, a passagem mais emblemática é a atribuída a Maria Antonieta reagindo ao clamor da plebe por pão. Teria sugerido brioches, a sério. Resultado: foi decapitada por uma engenhoca engendrada por um médico, um certo Doutor Guillotin na Revolução Burguesa de Paris. Alegava o doutor que o seccionamento abrupto da medula espinhal logo abaixo do bulbo cerebral evitava o sofrimento dos enforcados, pois a perda da consciência era imediata. Enganava-se o doutor.A perda da consciência dos decapitados já se dera no exercício do poder.
Hoje já se sabe que L'Autrichienne (a austríaca) ou L'Autre-chienne (a outra cadela), como era apelidada raivosamente pelo povo a última rainha da França, jamais proferiu tal frase sobre os brioches. Mas era notória a sua alienação e distanciamento das agruras populares num gueto palaciano em saraus operísticos, enquanto os miseráveis proliferavam à sua volta e a burguesia se armava para derrubar a monarquia.
Outro exemplo clássico do mesmo fenômeno dessa alienação cega é o episódio histórico do Baile da Ilha Fiscal. A monarquia já caíra de fato, e seus ocupantes bailavam.
O baile, às margens da Baía da Guanabara, se realizou a exatos seis dias da Proclamação da República. Oficialmente, era para homenagear a tripulação de um navio chileno, o Almirante Cochrane, que se encontrava fundeado em águas brasileiras.
Mas o Visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho de Ministros, aproveitou para saudar pomposamente as bodas de prata da Princesa Isabel com o Conde D’Eu, gastando na festança o equivalente a 10% do orçamento da província fluminense, retirados da verba do Ministério da Viação e Obras para socorro das vítimas do flagelo da seca nordestina.
Enquanto isso, no Clube Militar, em terra firme, Benjamin Constant exortava os militares a derrubar a monarquia. Há outros exemplos. Mas esses dois já nos bastam. Qualquer semelhança com as falas reformistas, espúrias barganhas ministeriais, viagens internacionais, discursos na ONU e passeios de bicicleta da nossa “presidenta” é mera coincidência.
O segundo fenômeno é o delay técnico entre a ação parlamentar em se sintonizar adequadamente com o brado retumbante das ruas, apesar de todas as evidências, hoje potencializado pelos resultados das pesquisas de opinião, pelo próprio noticiário das televisões e da intensa mobilização pela internet no Brasil.
São inúmeros os exemplos históricos, sendo o mais significativo o episódio da República de Weimar. Governava-se um país em fermentação xenófoba e nacionalista com as massas se organizando militarmente em torno das propostas de Hitler, e os parlamentares de Weimar assistiam ao filme da normalidade institucional.
Na Itália, o mesmo fenômeno é tratado de modo magistral no romance épico de Giorgio Bassani, “Il giardino dei Finzi Contini”, não menos genialmente transportado para o cinema pelo talento de Vittorio De Sica, retratando a alienação da alta burguesia italiana dos anos que antecedem imediatamente à Segunda Guerra Mundial.
Qualquer semelhança com a situação brasileira de hoje também é mera coincidência.
Parece que o Parlamento brasileiro está localizado em outro país. Não é à toa que Brasília é apelidada a “capital da lua”.
Os presidentes das duas casas, membros do maior partido da base de sustentação do governo, sob investigação policial, o segundo maior partido com dois tesoureiros, um ex-presidente encarcerados e um senador, líder do governo, preso pelo STF em flagrantes e graves delitos, que abre o jogo em bombástica delação premiada, envolvendo diretamente a “presidenta” enquanto a Polícia Federal vasculha as residências de Lula e famiglia.
A República desgovernada, a economia em frangalhos, e o Parlamento agindo como se as manifestações que colocam multidões nas ruas estivessem acontecendo na Bessarábia.
As ruas pedem probidade na representação, e a cada dia se revelam mais escândalos de roubalheira do dinheiro público nos três níveis da desacreditada representação popular.
As ruas pedem a renúncia ou o impeachment de uma presidente desmoralizada, conivente com a incúria e a inépcia, e o maior partido no Congresso fortalece sua aliança com um Executivo apodrecido, através da barganha de ministérios, dando o da Saúde (o maior orçamento ministerial e onde se dá a qualidade mais sofrível do serviço público) a um ilustre desconhecido, apenas porque pertence aos quadros de um legislativo apequenado e fisiológico em tempos de epidemia mundial de zika.
As ruas rejeitam mais impostos e, em sua primeira e patética entrevista, esse ministro picaresco declara que não irá lutar apenas pela reimplantação da CPMF, mas por dobrar sua incidência.
São os tais brioches de Maria Antonieta ou o farto menu da Ilha Fiscal para o banquete de cinco mil convidados com o dinheiro dos flagelados da seca endêmica do reinado em decadência. Ou o Doutor Guillotin redivivo amolando a lâmina de sua engenhoca mortífera.
Nelson Paes Leme
Quanto ao primeiro, a passagem mais emblemática é a atribuída a Maria Antonieta reagindo ao clamor da plebe por pão. Teria sugerido brioches, a sério. Resultado: foi decapitada por uma engenhoca engendrada por um médico, um certo Doutor Guillotin na Revolução Burguesa de Paris. Alegava o doutor que o seccionamento abrupto da medula espinhal logo abaixo do bulbo cerebral evitava o sofrimento dos enforcados, pois a perda da consciência era imediata. Enganava-se o doutor.A perda da consciência dos decapitados já se dera no exercício do poder.
Outro exemplo clássico do mesmo fenômeno dessa alienação cega é o episódio histórico do Baile da Ilha Fiscal. A monarquia já caíra de fato, e seus ocupantes bailavam.
O baile, às margens da Baía da Guanabara, se realizou a exatos seis dias da Proclamação da República. Oficialmente, era para homenagear a tripulação de um navio chileno, o Almirante Cochrane, que se encontrava fundeado em águas brasileiras.
Mas o Visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho de Ministros, aproveitou para saudar pomposamente as bodas de prata da Princesa Isabel com o Conde D’Eu, gastando na festança o equivalente a 10% do orçamento da província fluminense, retirados da verba do Ministério da Viação e Obras para socorro das vítimas do flagelo da seca nordestina.
Enquanto isso, no Clube Militar, em terra firme, Benjamin Constant exortava os militares a derrubar a monarquia. Há outros exemplos. Mas esses dois já nos bastam. Qualquer semelhança com as falas reformistas, espúrias barganhas ministeriais, viagens internacionais, discursos na ONU e passeios de bicicleta da nossa “presidenta” é mera coincidência.
O segundo fenômeno é o delay técnico entre a ação parlamentar em se sintonizar adequadamente com o brado retumbante das ruas, apesar de todas as evidências, hoje potencializado pelos resultados das pesquisas de opinião, pelo próprio noticiário das televisões e da intensa mobilização pela internet no Brasil.
São inúmeros os exemplos históricos, sendo o mais significativo o episódio da República de Weimar. Governava-se um país em fermentação xenófoba e nacionalista com as massas se organizando militarmente em torno das propostas de Hitler, e os parlamentares de Weimar assistiam ao filme da normalidade institucional.
Na Itália, o mesmo fenômeno é tratado de modo magistral no romance épico de Giorgio Bassani, “Il giardino dei Finzi Contini”, não menos genialmente transportado para o cinema pelo talento de Vittorio De Sica, retratando a alienação da alta burguesia italiana dos anos que antecedem imediatamente à Segunda Guerra Mundial.
Qualquer semelhança com a situação brasileira de hoje também é mera coincidência.
Parece que o Parlamento brasileiro está localizado em outro país. Não é à toa que Brasília é apelidada a “capital da lua”.
Os presidentes das duas casas, membros do maior partido da base de sustentação do governo, sob investigação policial, o segundo maior partido com dois tesoureiros, um ex-presidente encarcerados e um senador, líder do governo, preso pelo STF em flagrantes e graves delitos, que abre o jogo em bombástica delação premiada, envolvendo diretamente a “presidenta” enquanto a Polícia Federal vasculha as residências de Lula e famiglia.
A República desgovernada, a economia em frangalhos, e o Parlamento agindo como se as manifestações que colocam multidões nas ruas estivessem acontecendo na Bessarábia.
As ruas pedem probidade na representação, e a cada dia se revelam mais escândalos de roubalheira do dinheiro público nos três níveis da desacreditada representação popular.
As ruas pedem a renúncia ou o impeachment de uma presidente desmoralizada, conivente com a incúria e a inépcia, e o maior partido no Congresso fortalece sua aliança com um Executivo apodrecido, através da barganha de ministérios, dando o da Saúde (o maior orçamento ministerial e onde se dá a qualidade mais sofrível do serviço público) a um ilustre desconhecido, apenas porque pertence aos quadros de um legislativo apequenado e fisiológico em tempos de epidemia mundial de zika.
As ruas rejeitam mais impostos e, em sua primeira e patética entrevista, esse ministro picaresco declara que não irá lutar apenas pela reimplantação da CPMF, mas por dobrar sua incidência.
São os tais brioches de Maria Antonieta ou o farto menu da Ilha Fiscal para o banquete de cinco mil convidados com o dinheiro dos flagelados da seca endêmica do reinado em decadência. Ou o Doutor Guillotin redivivo amolando a lâmina de sua engenhoca mortífera.
Nelson Paes Leme
sábado, 5 de março de 2016
Está inaugurada a democracia brasileira

Corria o ano da graça de 1605 e a força do Poder Judiciário inglês onde todo julgamento continuava sendo baseado na forma tradicional como cada queixa ou cada crime sempre fora tratado, estava encurralada pelo rei James, o primeiro da dinastia Stuart. Ele queria para si os mesmos poderes absolutos que os reis da Europa Continental tinham conseguido amealhar justamente acabando com esse modo de fazer justiça que fora comum a toda a Europa, Portugal inclusive.
Por volta de 1300 abre-se esse desvio a partir da Universidade de Bolonha onde foi costurado, sob o disfarce de “um renascimento do direito romano”, o esquema que poria os tribunais a serviço do rei, garantido seus poderes absolutos.
A Inglaterra, protegida pela sua condição de ilha, foi exceção. Por essa mesma altura – 1300 – resolveu sistematizar o seu método tradicional. Desde essa época todo julgamento na Inglaterra é minuciosamente documentado em duas versões, um relato dos fatos em discussão e outro, igualmete minucioso, do cumprimento dos ritos que, aos poucos, foram sendo estabelecidos para o processo. Foi constituido um juri de “iguais” das partes em litígio e neutros em relação à queixa? Convocadas testemunhas dos acontecimentos para restabelecer a verdade dos fatos? Elas foram interrogadas pela acusação e pela defesa? As duas versões são aquivadas e, para se requerer do Poder Judiciário uma satisfação, passa a ser obrigatório encontrar o “precedente” do seu caso para reivindicar do sistema “a mesma satisfação que sempre foi dada a casos semelhantes“. É o juri quem diz, ouvidas as testemunhas e reconstuida a verdade dos fatos, “sim“, ou “não“, o caso é exatamente semelhante ao anterior, cabendo então ao juiz passar sentença obrigatóriamente idêntica à do caso precedente. Nenhum espaço para arbítrio. Nenhuma brecha para a corrupção ou a negociação de sentenças diferentes para casos iguais.
Com o acumulo desses relatos ao longo dos séculos, torna-se necessário criar um índice de resumos tecnicamente perfeitos de acesso a eles, para que os queixosos encontrem, na montanha de precedentes, qual o parecido com o seu, já que esta deve ser a exata formulação de qualquer queixa a ser julgada. A importância dessa função e a precisão exigida desses índices de “writs” é o pilar fundamental do sistema. Por isso só dois autores dos ultimos tres séculos, naquele alvorecer dos anos 1600, são reconhecidos como portas autorizadas de entrada nos tribunais.
Mas então surge a prensa de Guttemberg e o mundo do conhecimento sofre um choque muito parecido com o que a internet está provocando hoje, guardadas as proporções. Passa a ser muito mais fácil e barato editar e publicar livros que ate então, tinham de ser copiados a mão. Na Inglaterra, uma das áreas afetadas por essa “disrrupção” é a desses índices de “writs”. Começam a surgir “vulgatas” acessiveis em qualquer canto nas quais não ha nenhuma garantia de precisão num sistema que ainda não sabia se defender dessa ameaça. A confusão é tanta que a certeza jurídica fica abalada…
O Judiciário verdadeiro resiste. Tem à frente o juiz supremo Edward Coke. Ele cassa as sentenças das cortes do rei, anula seus decretos na velha Corte de Queixas Comuns (Common Pleas) que toda a Ingaterra aprendera a respeitar. Resiste. Luta. Mas o rei tem, sim, poderes extremos sobre a pessoa de seus suditos. “Traição” é uma acusação que leva diretamente à morte. O jogo é pesado. James espreme, ameaça, persegue. Mas Coke é, ele mesmo, uma instituição. Não é fácil tocá-lo impunemente.
O confronto final é inevitável. O rei chama à sala do trono todos os juízes. O ambiente é de quase pânico. Todos cabisbaixos, a capitulação é iminente. Menos Coke…
É ele mesmo quem relata:
“…o rei disse que acreditava que a lei estava fundada na razão e que tanto ele quanto outros eram possuidores de razão, assim como os juízes. Ao que eu respondi que sim, Deus tinha concedido a sua majestade excelente ciência e grandes dotes naturais; mas sua majestade não é versado nas leis deste reino da Inglaterra e nas causas concernentes à vida, à herança, aos bens e à fortuna de seus súditos; que essas coisas não devem ser decididas pela razão natural mas pela razão artificial e pelo julgamento da lei cujo conhecimento requer longo estudo e experiência; e que a lei é a ferramenta de ouro e a medida para julgar as causas envolvendo os súditos e para manter sua majestade em paz e segurança.
Com o que o rei se mostrou muito ofendido e disse que era traição um homem afirmar que ele devesse estar submetido à lei. Ao que eu retruquei que sim, o rei não está submetido a homem nenhum, mas está submetido a Deus e à lei”.
“…under god and under the law”, significando, esse “under god”, que nem mesmo sua majestade podia reescrever ou negar os fatos ao seu bel prazer; eles, mais a lei, é que tinham de prevalecer para orientar o oferecimento de justiça ou não poderia haver paz nem segurança jamais.
Estava nascendo a democracia moderna!
Nos tribunais, como prisioneiro na Torre, no Parlamento depois que fecharam-lhe as portas do Judiciário, Edward Coke segue com sua luta para desmontar os poderes arbitrários do rei. Sua obra vai ser coroada pelaPetition of Right, elemento basilar do moderno Estado de Direito, aprovada pelo Parlamento em maio de 1628, dando aos representantes do povo inglês e às leis por ele aprovadas os mesmos poderes soberanos que têm até hoje.
411 anos depois ver esta mesma cena se repetir no Brasil ainda me emociona. É longo, muito longo o caminho pela frente, mas foi finalmente plantada a pedra fundamental da democracia brasileira.
A perda da razão
Delírio! Quer dizer que vivemos um golpe aplicado pela dobradinha Judiciário-Mídia?
Quer dizer que é golpe uma operação policial autorizada pela Justiça?
Quer dizer que Lula "foi sequestrado por Moro" só por ter sido levado para depor em local seguro na companhia de advogados dele?

É mentira dizer que Lula sempre esteve à disposição da Justiça. Ele tem usado e abusado de todos os meios para escapar dela.
Enquanto o PT bate na Justiça e na mídia, o que ocorre por aqui é reconhecido no mundo como exemplo de vitalidade democrata.
Quando o PT se dará a chance de reconhecer seus graves erros e de tentar começar tudo de novo?
O PT humilha sua militância ao forçá-la a sair em defesa do indefensável.
Se empresas envolvidas em roubalheira entopem os bolsos de Lula com dinheiro e o presenteiam com reformas em imóveis, tal relação promíscua não merece ser investigada?
Se qualquer um de nós pode ser convocado ou levado para depor por que Lula não? No que ele é melhor do que nós?
Por que aumenta a cada dia o número dos brasileiros que dizem que não votarão de jeito nenhum em Lula em 2018? Serão uns tolos?
Se Lula nada deve, nada deveria temer. Se for injustiçado, os brasileiros saberão reconhecer que foi e ficarão ao seu lado.
Lula faz mais mal à esquerda brasileira do que ela quer admitir. Do que ela admitirá um dia.
O PT perdeu a razão.
Quer dizer que é golpe uma operação policial autorizada pela Justiça?
Quer dizer que Lula "foi sequestrado por Moro" só por ter sido levado para depor em local seguro na companhia de advogados dele?

Enquanto o PT bate na Justiça e na mídia, o que ocorre por aqui é reconhecido no mundo como exemplo de vitalidade democrata.
O PT humilha sua militância ao forçá-la a sair em defesa do indefensável.
Se empresas envolvidas em roubalheira entopem os bolsos de Lula com dinheiro e o presenteiam com reformas em imóveis, tal relação promíscua não merece ser investigada?
Se qualquer um de nós pode ser convocado ou levado para depor por que Lula não? No que ele é melhor do que nós?
Por que aumenta a cada dia o número dos brasileiros que dizem que não votarão de jeito nenhum em Lula em 2018? Serão uns tolos?
Se Lula nada deve, nada deveria temer. Se for injustiçado, os brasileiros saberão reconhecer que foi e ficarão ao seu lado.
Lula faz mais mal à esquerda brasileira do que ela quer admitir. Do que ela admitirá um dia.
O PT perdeu a razão.
Justiça brasileira ainda deve prova de isenção política
Certamente não caíram do céu os agentes da Polícia Federal que, cedo da manhã desta sexta-feira (04/03), levaram o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para depor. Há semanas que se fala do suposto envolvimento dele no esquema investigado na Operação Lava Jato. Mesmo assim, a condução coercitiva do ex-presidente tem um grande impacto, pois sinaliza que também ele – apesar de toda a sua popularidade – não está acima da lei.
No Brasil, porém, isso não é exatamente algo óbvio para todos. Afinal, a lista dos que são culpados, nas nunca foram acusados; dos que foram acusados, mas nunca foram condenados; e dos que foram condenados, mas nunca foram punidos, é longa.
Os dois casos mais famosos estão por aí, livres, leves, soltos e no poder: o ex-presidente Fernando Collor de Mello representa desde 2007 o estado de Maceió no Senado. E o ex-governador e ex-prefeito Paulo Maluf – acusado de corrupção, formação de quadrilha, lavagem de dinheiro e desvio de recursos públicos, com vários mandados de prisão no exterior e origem do verbo "malufar" – é deputado em Brasília.
Por que essas pessoas são reeleitas é algo que se deve perguntar a quem vota nelas. Por que elas podem concorrer, porém, é uma questão que deve ser feita à Justiça brasileira.
Desde 2010 existe um instrumento legal: a Ficha Limpa, assinada por Lula, que torna inelegíveis por oito anos as pessoas que já foram condenadas ou tiveram um mandato cassado – ao menos na prática, pois a aplicação da lei exige promotores e juízes independentes e eficientes.
Só que desses há poucos, afirmam muitos brasileiros – sobretudo os partidários de Lula, da presidente Dilma Rousseff e do PT. Eles fazem acusações graves à Justiça brasileira: por que nomes do alto escalão do PT foram condenados à cadeia no escândalo do mensalão e, ao mesmo tempo, o escândalo de corrupção – bem menor, mas na essência muito semelhante – do mensalão mineiro, que envolve o PSDB, não foi investigado com o mesmo fervor?
Já os adversários do PT rebatem perguntando por que Lula não foi questionado na Justiça sobre como é possível que ele, na condição de presidente da República, não soubesse que deputados eram comprados para votar com o governo.
Quem sempre fez essa pergunta deve agora estar sentindo uma certa satisfação. Mas isso não quer dizer que essas pessoas acreditem na imparcialidade da Justiça.
Mais de 30 anos depois da redemocratização, está mais do que na hora de a Justiça começar a melhorar sua credibilidade. Os investigadores da Lava Jato colaboram para isso, sem dúvida – nem tanto, porém, porque têm a coragem de levar para depor uma das pessoas mais conhecidas e populares do Brasil. Muito mais importante é que, ao longo da Lava Jato, haja investigações amplas, não importa de que partido.
Decisivo para a reputação da Justiça brasileira é que ela se mantenha firme e também no futuro investigue suspeitas sem considerar implicações partidárias ou empresariais.
Jan D. Walter
Acordado pela polícia, Lula descobriu o Brasil redesenhado pela Lava Jato
Há dois dias, o comentário de 1 minuto para o site de VEJA constatou que, por negar-se a enxergar as mudanças operadas pela Lava Jato na paisagem brasileira, a alma penada de Lula ainda não descobrira que, hoje, nenhum fora da lei está acima da lei. Descobriu nesta manhã, quando a mão do destino ─ disfarçado de Polícia Federal ─ bateu à porta do apartamento do ex-presidente em São Bernardo.
Até este histórico 4 de março, Lula acreditava que, se todos são iguais perante a lei, ele sempre seria mais igual que os outros. Esse status de condenado à perpétua impunidade lhe permitiria, por exemplo, rejeitar intimações judiciais, zombar de autoridades dispostas a fazer Justiça e debochar do Estado Democrático de Direito. Acordou para a vida real ao ser acordado pela 24ª fase da Lava Jato, batizada de Alethea.
Conduzidos coercitivamente ao local do depoimento, Lula e o filho Lulinha tiveram de abrir o bico ─ pela primeira vez ─ sobre as bandalheiras em que se meteram. A família que se julgava inimputável foi enquadrada por juízes, procuradores e policiais que não temem criminosos da classe executiva. Alethea, convém ressaltar, é uma palavra grega que significa “busca da verdade”. Nesta sexta-feira, a verdade venceu a mentira.
A busca da verdade não cessará tão cedo. Mas a Era da Canalhice está perto do fim, confirmaram a discurseira do chefão e a contra-ofensiva ensaiada pelo Mestre e seu rebanho agonizante. Um dia depois de divulgado o desastroso desempenho do PIB em 2015, Lula tornou a festejar o Brasil Maravilha que só existe na cabeça baldia de embusteiros e na imaginação de cretinos fundamentais.
Ele também relançou a candidatura à Presidência que as revelações de Delcídio do Amaral haviam afundado de vez na véspera. A Alethea, por sinal, já dispunha de munição suficiente quando Delcídio começou a contar o que sabe ─ e o que sabe o ex-líder do governo no Senado vai adicionar toneladas de dinamite ao vasto arsenal da Lava Jato. Como Lula tentará escapar da sequência de explosões?
A resposta é fácil: ele vai ampliar ainda mais o acervo de mentiras que engordou algumas arrobas com o falatório desta tarde. Os truques e vigarices do mágico de picadeiro já não iludem sequer marilenas chauís. De novo, Lula não deu um pio sobre as acusações que o transformaram em campeão de impopularidade. Ele simplesmente não tem como justificar as delinquências que protagonizou, sobretudo as praticadas no ofício de camelô de empreiteira.
A “mobilização nacional da militância” prometida por cartolas do PT e pelegos que prosperam nos “movimentos sociais” só serviu para reafirmar que o partido que virou sinônimo de roubalheira tornou-se um ajuntamento de fanáticos sem cura. Manifestaram-se nesta sexta os devotos que restam. Os protestos da turma da estrela reuniram menos gente que procissão de vilarejo.
Muito mais abrangente e eficaz foi a mobilização da Polícia Federal decretada pela Alethea. Munidos de mandados de busca e apreensão, destacamentos de agentes vasculharam residências, escritórios e esconderijos de gente graúda engajada no projeto criminoso de poder. Declarações de delegados envolvidos na ofensiva atestaram que a Lava Jato já reuniu muito mais provas do que se imaginava.
Outras tantas foram recolhidas na devassa que atingiu 44 alvos, de Marisa Letícia e três lulinhas a Paulo Okamotto e o bunker no Instituto Lula, da Odebrecht e da OAS aos sitiantes de araque Fernando Bittar e Jonas Suassuna, passando por coadjuvantes como o engenheiro que trabalha de graça nas férias. Ficou ainda mais variado o elenco recrutado pela operação que investiga o maior esquema corrupto descoberto desde o Dia da Criação.
Hoje se ouviu o choro das carpideiras transformadas em animadoras de velório. Em 13 de março, a imensidão de indignados invadirá as ruas para exigir, além da punição de todos os poderosos patifes, o imediato despejo do governo destroçado pela incompetência, pelo cinismo, pela corrupção e pelo Código Penal. Oito dias depois dos uivos da subespécie em extinção, a nação ouvirá o rugido do país que presta.
Até este histórico 4 de março, Lula acreditava que, se todos são iguais perante a lei, ele sempre seria mais igual que os outros. Esse status de condenado à perpétua impunidade lhe permitiria, por exemplo, rejeitar intimações judiciais, zombar de autoridades dispostas a fazer Justiça e debochar do Estado Democrático de Direito. Acordou para a vida real ao ser acordado pela 24ª fase da Lava Jato, batizada de Alethea.
A busca da verdade não cessará tão cedo. Mas a Era da Canalhice está perto do fim, confirmaram a discurseira do chefão e a contra-ofensiva ensaiada pelo Mestre e seu rebanho agonizante. Um dia depois de divulgado o desastroso desempenho do PIB em 2015, Lula tornou a festejar o Brasil Maravilha que só existe na cabeça baldia de embusteiros e na imaginação de cretinos fundamentais.
Ele também relançou a candidatura à Presidência que as revelações de Delcídio do Amaral haviam afundado de vez na véspera. A Alethea, por sinal, já dispunha de munição suficiente quando Delcídio começou a contar o que sabe ─ e o que sabe o ex-líder do governo no Senado vai adicionar toneladas de dinamite ao vasto arsenal da Lava Jato. Como Lula tentará escapar da sequência de explosões?
A resposta é fácil: ele vai ampliar ainda mais o acervo de mentiras que engordou algumas arrobas com o falatório desta tarde. Os truques e vigarices do mágico de picadeiro já não iludem sequer marilenas chauís. De novo, Lula não deu um pio sobre as acusações que o transformaram em campeão de impopularidade. Ele simplesmente não tem como justificar as delinquências que protagonizou, sobretudo as praticadas no ofício de camelô de empreiteira.
A “mobilização nacional da militância” prometida por cartolas do PT e pelegos que prosperam nos “movimentos sociais” só serviu para reafirmar que o partido que virou sinônimo de roubalheira tornou-se um ajuntamento de fanáticos sem cura. Manifestaram-se nesta sexta os devotos que restam. Os protestos da turma da estrela reuniram menos gente que procissão de vilarejo.
Muito mais abrangente e eficaz foi a mobilização da Polícia Federal decretada pela Alethea. Munidos de mandados de busca e apreensão, destacamentos de agentes vasculharam residências, escritórios e esconderijos de gente graúda engajada no projeto criminoso de poder. Declarações de delegados envolvidos na ofensiva atestaram que a Lava Jato já reuniu muito mais provas do que se imaginava.
Outras tantas foram recolhidas na devassa que atingiu 44 alvos, de Marisa Letícia e três lulinhas a Paulo Okamotto e o bunker no Instituto Lula, da Odebrecht e da OAS aos sitiantes de araque Fernando Bittar e Jonas Suassuna, passando por coadjuvantes como o engenheiro que trabalha de graça nas férias. Ficou ainda mais variado o elenco recrutado pela operação que investiga o maior esquema corrupto descoberto desde o Dia da Criação.
Hoje se ouviu o choro das carpideiras transformadas em animadoras de velório. Em 13 de março, a imensidão de indignados invadirá as ruas para exigir, além da punição de todos os poderosos patifes, o imediato despejo do governo destroçado pela incompetência, pelo cinismo, pela corrupção e pelo Código Penal. Oito dias depois dos uivos da subespécie em extinção, a nação ouvirá o rugido do país que presta.
Vergonha
Nem se prendessem a Dilma ficaria pior. Porque a prisão do Lula, filhos e dirigentes de empresas a ele ligadas equivaleu, na manhã de ontem, à maior das vergonhas jamais registradas no Brasil. Preso ele já tinha sido, mas com honra, por haver liderado greve geral de trabalhadores em pleno regime militar. Daí, porém, a ser levado à representação da Polícia Federal no aeroporto de Congonhas, para explicar os recursos entregues sem prestação de serviços ao Instituto Lula, é olímpica a distância. Provas de que um ex-presidente da República tenha se beneficiado por receber dinheiro de empreiteiras, jamais havia sido evidenciado. Nunca governantes jamais foram liberados para agir como se tivessem liberdade para fazer do país o seu quintal. A acusação é de que, a pretexto de palestras e conferências pretensiosamente pronunciadas por ele, chegou a faturar 20 milhões de reais.
A ser verdadeira a acusação, concluir-se-á não ter limites a desfaçatez com que se avança sobre a coisa pública. Não tarda a se conhecer os limites de até onde o Lula considerou como sua e de seus familiares a propriedade coletiva.
Conduzido à prisão, mesmo por poucas horas, o ex –presidente acaba de destroçar a imagem do partido um dia tido como a esperança da redenção nacional. Leva com ele os companheiros, os filhos, e os empresários envolvidos mas, acima de tudo, apanha a sucessora. Madame não vale mais nada, como presidente da República. Mesmo que nada tenha a ver com as lambanças do antecessor, Dilma encontra-se umbelicalmente ligada a ele.
O espetáculo verificado no aeroporto de Congonhas, para onde o Lula foi levado, exigiu a presença da Polícia Militar de São Paulo. Não foi fácil evitar a confusão entre os militantes do PT, exasperados pela prisão do Lula, de um lado, e seus adversários, de outro. O grave foi e ainda é o choque.
Há quem suponha que essa inusitada ação da Polícia Federal se deu à demissão do ministro da Justiça, por muitos meses acusado pela oposição de não conter o ímpeto da Polícia Federal contra o PT. Assim,o novo ministro teria decidido avançar sobre o partido, para demonstrar que não se intimida.
A ser verdadeira a acusação, concluir-se-á não ter limites a desfaçatez com que se avança sobre a coisa pública. Não tarda a se conhecer os limites de até onde o Lula considerou como sua e de seus familiares a propriedade coletiva.
Conduzido à prisão, mesmo por poucas horas, o ex –presidente acaba de destroçar a imagem do partido um dia tido como a esperança da redenção nacional. Leva com ele os companheiros, os filhos, e os empresários envolvidos mas, acima de tudo, apanha a sucessora. Madame não vale mais nada, como presidente da República. Mesmo que nada tenha a ver com as lambanças do antecessor, Dilma encontra-se umbelicalmente ligada a ele.
O espetáculo verificado no aeroporto de Congonhas, para onde o Lula foi levado, exigiu a presença da Polícia Militar de São Paulo. Não foi fácil evitar a confusão entre os militantes do PT, exasperados pela prisão do Lula, de um lado, e seus adversários, de outro. O grave foi e ainda é o choque.
Há quem suponha que essa inusitada ação da Polícia Federal se deu à demissão do ministro da Justiça, por muitos meses acusado pela oposição de não conter o ímpeto da Polícia Federal contra o PT. Assim,o novo ministro teria decidido avançar sobre o partido, para demonstrar que não se intimida.
Cardápio de medos
Com exceção de tempos em guerra, as gerações costumam deixar futuro melhor para seus jovens; sobretudo, um futuro alentador. Mas, de todas as dificuldades que os adultos de hoje estão deixando para os jovens brasileiros, nenhuma é mais imperdoável do que o medo. Nosso legado é um cardápio de medo.
Não estamos sendo capazes de oferecer as ferramentas necessárias para os jovens enfrentarem as incertezas criadas pelas mudanças no mundo, e ainda estamos criando novos medos brasileiros. Por força das transformações no mercado de trabalho, devido ao avanço técnico, os jovens estão com medo de desemprego, sem um sistema educacional capaz de enfrentar os desafios criados pelo avanço tecnológico; e ainda estamos provocando desemprego conjuntural, devido à recessão econômica criada pela incompetência e irresponsabilidade do governo atual.
Os jovens têm medo de andar nas ruas, usar tênis da moda ou um relógio que o pai presenteou. Todos estão com medo de epidemias, especialmente dengue, ainda mais as mulheres jovens, assustadas com o risco de seus filhos sofrerem microcefalia. E a imensa maioria, que depende do sistema de saúde pública, teme pela falta do necessário atendimento médico.
Estão com medo de que não terão um sistema sólido de aposentadoria, porque começam a perceber que a vantagem de uma vida mais longa vai exigir reformas que lhes obrigarão a trabalhar por mais tempo; e temem que a falta da reforma ameace a solidez do sistema.
Como todos os brasileiros, os jovens estão assustados com a inflação. Eles cresceram acostumados à estabilidade monetária e agora temem, com razão, o que vai acontecer no país se não conseguirmos recuperar a estabilidade monetária. E temem também as consequências que o enfrentamento deste problema provocará, devido aos cortes de verbas na educação, na saúde, na infraestrutura.
Sofrem com o medo da recessão econômica, que diminuirá a renda per capita que lhes caberá, diminuirá a posição do Brasil no mundo, degradará nossa infraestrutura econômica e social, reduzirá o nível de consumo e o bem-estar.
Estamos deixando aos jovens o medo do desequilíbrio ambiental, o aquecimento global, um dia enchentes, noutro falta de água, os recursos naturais ficando escassos. Não fomos capazes de acenar para eles um futuro no qual o progresso não signifique degradação ambiental, concentração de renda, violência, desigualdade social.
Medo do trânsito que ameaça a vida por acidentes, especialmente envolvendo motos e bicicletas, e rouba a vida silenciosamente pelas perdas de tempo no dia a dia dos engarrafamentos.
Também têm medo da corrupção e suas consequências, inclusive de nós, dirigentes, que hoje estamos construindo o futuro em que eles viverão, com medo. Medo de que em 2018 nenhum candidato a presidente prometa e ofereça, transmitindo confiança, credibilidade e competência, os caminhos para assegurar aos jovens que eles terão um país sem medo. Pelo menos isto: um Brasil sem medo.
Cristovam Buarque
Não estamos sendo capazes de oferecer as ferramentas necessárias para os jovens enfrentarem as incertezas criadas pelas mudanças no mundo, e ainda estamos criando novos medos brasileiros. Por força das transformações no mercado de trabalho, devido ao avanço técnico, os jovens estão com medo de desemprego, sem um sistema educacional capaz de enfrentar os desafios criados pelo avanço tecnológico; e ainda estamos provocando desemprego conjuntural, devido à recessão econômica criada pela incompetência e irresponsabilidade do governo atual.
Os jovens têm medo de andar nas ruas, usar tênis da moda ou um relógio que o pai presenteou. Todos estão com medo de epidemias, especialmente dengue, ainda mais as mulheres jovens, assustadas com o risco de seus filhos sofrerem microcefalia. E a imensa maioria, que depende do sistema de saúde pública, teme pela falta do necessário atendimento médico.
Estão com medo de que não terão um sistema sólido de aposentadoria, porque começam a perceber que a vantagem de uma vida mais longa vai exigir reformas que lhes obrigarão a trabalhar por mais tempo; e temem que a falta da reforma ameace a solidez do sistema.
Como todos os brasileiros, os jovens estão assustados com a inflação. Eles cresceram acostumados à estabilidade monetária e agora temem, com razão, o que vai acontecer no país se não conseguirmos recuperar a estabilidade monetária. E temem também as consequências que o enfrentamento deste problema provocará, devido aos cortes de verbas na educação, na saúde, na infraestrutura.
Sofrem com o medo da recessão econômica, que diminuirá a renda per capita que lhes caberá, diminuirá a posição do Brasil no mundo, degradará nossa infraestrutura econômica e social, reduzirá o nível de consumo e o bem-estar.
Estamos deixando aos jovens o medo do desequilíbrio ambiental, o aquecimento global, um dia enchentes, noutro falta de água, os recursos naturais ficando escassos. Não fomos capazes de acenar para eles um futuro no qual o progresso não signifique degradação ambiental, concentração de renda, violência, desigualdade social.
Medo do trânsito que ameaça a vida por acidentes, especialmente envolvendo motos e bicicletas, e rouba a vida silenciosamente pelas perdas de tempo no dia a dia dos engarrafamentos.
Também têm medo da corrupção e suas consequências, inclusive de nós, dirigentes, que hoje estamos construindo o futuro em que eles viverão, com medo. Medo de que em 2018 nenhum candidato a presidente prometa e ofereça, transmitindo confiança, credibilidade e competência, os caminhos para assegurar aos jovens que eles terão um país sem medo. Pelo menos isto: um Brasil sem medo.
Cristovam Buarque
O ídolo que cambaleia
Aconteceu na última campanha eleitoral, em um comício do Partido dos Trabalhadores na periferia sul e pobre de São Pulo. Lula, com a camiseta vermelha do partido e a voz cavernosa e cansada depois de semanas de forçar a estropiada garganta, entrou em cena para pedir outra vez o voto em Dilma Rousseff. Um operário metalúrgico o ouvia da rua, com um sorriso de orelha a orelha. Diante da pergunta sobre se gostava de Lula, o operário respondeu, sem parar de sorrir: “Há muitos anos, ele, Lula, vinha a nossas fábricas nos dizer quando tínhamos de protestar, quando tínhamos de fazer greve. Eu voto nele porque o conheço, porque não mudou”.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva deixou o poder depois de governar o Brasil durante oito anos, de 2003 a 2010, armazenava uma inaudita popularidade de mais de 80%. Não estava mal para um operário convertido em sindicalista convertido em presidente de um país de 200 milhões de habitantes, chegado sem estudos a São Paulo na década de cinquenta com seus seis irmãos e a mãe na traseira de um caminhão procedente de um dos rincões mais miseráveis do país. Ele era um a mais entre os milhões de habitantes do Nordeste brasileiro que buscavam na grande cidade uma saída do labirinto da pobreza, seca e desemprego.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva deixou o poder depois de governar o Brasil durante oito anos, de 2003 a 2010, armazenava uma inaudita popularidade de mais de 80%. Não estava mal para um operário convertido em sindicalista convertido em presidente de um país de 200 milhões de habitantes, chegado sem estudos a São Paulo na década de cinquenta com seus seis irmãos e a mãe na traseira de um caminhão procedente de um dos rincões mais miseráveis do país. Ele era um a mais entre os milhões de habitantes do Nordeste brasileiro que buscavam na grande cidade uma saída do labirinto da pobreza, seca e desemprego.

Hoje o índice de rejeição a Lula, segundo pesquisas recentes, é de 47%. E a causa deve ser buscada, sobretudo, nas acusações de corrupção que pesam sobre ele e sua família, e que o perseguem há meses. Ele nega tudo. Afirma, com a mesma veemência que empregava ao pedir o voto em Dilma Rousseff nos comícios de campanha na periferia, que não existe no Brasil uma “alma mais honrada”. Ainda pensa em apresentar-se às eleições de 2018. Há alguns dias dizia que então terá 72 anos e o tesão de um de 30. Mas será preciso ver se sua gente ainda o considera um dos seus. Se ainda consideram que não mudou. Que o Ministério Público o acuse de aceitar presentes milionários das empresas envolvidas na peçonha da Petrobras, que o Ministério Público considere que essas mesmas empresas lhe pagam, entre outras coisas, os eletrodomésticos de cozinha de primeira e os móveis de luxo de um apartamento de três andares na praia não vai ajudar em nada.
Bordel em pânico
O ainda senador petista e ex-líder do governo, Delcídio do Amaral, escancarou a porta do bordel. Sua delação parcial expôs a orgia governamental, deixando claro que não há inocentes a bordo.
As suspeitas que pesavam sobre Lula e Dilma já não são meras suspeitas. Ganharam materialidade na voz de alguém que privou da intimidade e da confiança de ambos, cumprindo missões que agora revela. A rigor, quem acompanha de perto as investigações – na imprensa, na polícia, no Congresso – não teve qualquer surpresa.
Nenhum dos fatos arrolados era desconhecido. Muitos já haviam sido noticiados, com base em fontes que se mantinham anônimas. O impacto e a novidade ficam por conta de agora terem um informante que, longe de ser mero observador privilegiado, era um agente, cujo depoimento equivale a uma confissão, o que, no direito, é também chamada de rainha das provas.
Seu papel, nesse processo, é semelhante ao de Roberto Jefferson no Mensalão. Com agravantes: era o líder do governo, a voz da presidente no Senado. Jefferson era personagem periférico no Mensalão, presidente de um partido da base, o PTB, que se queixava exatamente do tratamento secundário que recebia.
Delcídio, não. Era, no Congresso, o próprio governo e também o elo entre Dilma e Lula, com os quais mantinha contatos quase diários. Ao abordar o filho de Nestor Cerveró, propor-lhe um plano de fuga e oferecer mesada – empreitada que o levou à cadeia -, Delcídio disse que cumpria missão a mando de Lula. Terá oportunidade de demonstrá-lo com mais dados.
O argumento do governo, expresso pelo ex-ministro da Justiça e novo advogado geral da União, José Eduardo Cardoso, de que Delcídio não tem credibilidade e está apenas querendo se vingar, é frágil. Pior: burro. Primeiro: se não tem credibilidade, por que era líder do governo? Segundo: numa delação premiada – que, se falsa, aumenta a pena do réu -, não há espaço para leviandades.
Colocar em dúvida a existência da delação de Delcídio dispensa comentários. Todos sabem que existe, carecendo apenas de homologação pelo STF – que, agora, diante do que já provocou, dificilmente a rejeitará. Se o fizer, aprofundará o seu descrédito.
As revelações, seguidas pela condução coercitiva de Lula a um depoimento que se empenhava em evitar, sugerem que as manifestações do próximo dia 13 devem superar as anteriores.
A militância do PT – ruidosa, agressiva, insensata – é numericamente inexpressiva. Não reflete nem de longe a sociedade brasileira. Consegue se fazer presente com agilidade, a qualquer dia ou hora, nos locais estratégicos, porque vive disso. Não trabalha em outra coisa. São profissionais do protesto.
Mas as pesquisas demonstram reiteradamente que a imensa maioria da população – na escala dos 90% - exige que as investigações se aprofundem e justiça seja feita com rigor, seja lá quem esteja em pauta: Lula, Dilma ou o mais obscuro lobista.
O PT alega que a Lava Jato estaria agindo politicamente. O que se dá é o contrário: os políticos do governo é que estão, há anos, agindo criminosamente, a ponto de transformar a análise política em criptografia policial. Não se trata de ideologia: crime não é de direita ou de esquerda – é crime. E o partido que o promove e oculta merece o título de organização criminosa, máfia em estado pleno.
Prova disso é que, até aqui, o empenho do governo e de seu partido – Lula à frente – não foi o de se defender, mas o de evitar a Justiça, obstruindo-a e cancelando depoimentos, recorrendo aos mais diversos e sórdidos ardis processuais. Quem deve, teme.
O argumento do líder do PT, José Guimarães, de que Lula jamais se recusou a depor - e que, portanto, a coerção não era necessária -, é falso. Na festa dos 36 anos do PT, Lula disse que não iria depor de maneira nenhuma. E acusou a Polícia Federal, a Justiça e a imprensa, dando palavras de ordem à militância.
Tão espantoso quanto tudo isso é a reação frouxa, intimidada (quase solidária) da oposição, sobretudo do PSDB.
A sociedade está mobilizada, há uma manifestação nacional prevista para daqui a uma semana, revelam-se denúncias gravíssimas de um ex-líder do governo – que, em circunstâncias normais imporiam a deposição da presidente - e a oposição age como quem tem dúvidas. Em vez de ir às ruas, fecha-se, intimidada, em gabinetes. O PT mobiliza seus diretórios e organizações que sustenta (CUT, MST, MTST, UNE etc.) com dinheiro público para que ocupem as ruas e promovam badernas. E a oposição faz o quê? Aguarda.
O líder tucano Cássio Cunha Lima diz que “não vai sapatear sobre o governo”, mesmo sabendo que o governo, rodeado de indícios consistentes de que praticou crimes, não tem feito outra coisa sobre a sociedade. Com isso, apenas dá substância às insinuações do PT, de que tem também o que ocultar. Terá?
O bordel está em pânico. A festa, ao que parece, acabou.
As suspeitas que pesavam sobre Lula e Dilma já não são meras suspeitas. Ganharam materialidade na voz de alguém que privou da intimidade e da confiança de ambos, cumprindo missões que agora revela. A rigor, quem acompanha de perto as investigações – na imprensa, na polícia, no Congresso – não teve qualquer surpresa.
Nenhum dos fatos arrolados era desconhecido. Muitos já haviam sido noticiados, com base em fontes que se mantinham anônimas. O impacto e a novidade ficam por conta de agora terem um informante que, longe de ser mero observador privilegiado, era um agente, cujo depoimento equivale a uma confissão, o que, no direito, é também chamada de rainha das provas.

Seu papel, nesse processo, é semelhante ao de Roberto Jefferson no Mensalão. Com agravantes: era o líder do governo, a voz da presidente no Senado. Jefferson era personagem periférico no Mensalão, presidente de um partido da base, o PTB, que se queixava exatamente do tratamento secundário que recebia.
Delcídio, não. Era, no Congresso, o próprio governo e também o elo entre Dilma e Lula, com os quais mantinha contatos quase diários. Ao abordar o filho de Nestor Cerveró, propor-lhe um plano de fuga e oferecer mesada – empreitada que o levou à cadeia -, Delcídio disse que cumpria missão a mando de Lula. Terá oportunidade de demonstrá-lo com mais dados.
O argumento do governo, expresso pelo ex-ministro da Justiça e novo advogado geral da União, José Eduardo Cardoso, de que Delcídio não tem credibilidade e está apenas querendo se vingar, é frágil. Pior: burro. Primeiro: se não tem credibilidade, por que era líder do governo? Segundo: numa delação premiada – que, se falsa, aumenta a pena do réu -, não há espaço para leviandades.
Colocar em dúvida a existência da delação de Delcídio dispensa comentários. Todos sabem que existe, carecendo apenas de homologação pelo STF – que, agora, diante do que já provocou, dificilmente a rejeitará. Se o fizer, aprofundará o seu descrédito.
As revelações, seguidas pela condução coercitiva de Lula a um depoimento que se empenhava em evitar, sugerem que as manifestações do próximo dia 13 devem superar as anteriores.
A militância do PT – ruidosa, agressiva, insensata – é numericamente inexpressiva. Não reflete nem de longe a sociedade brasileira. Consegue se fazer presente com agilidade, a qualquer dia ou hora, nos locais estratégicos, porque vive disso. Não trabalha em outra coisa. São profissionais do protesto.
Mas as pesquisas demonstram reiteradamente que a imensa maioria da população – na escala dos 90% - exige que as investigações se aprofundem e justiça seja feita com rigor, seja lá quem esteja em pauta: Lula, Dilma ou o mais obscuro lobista.
O PT alega que a Lava Jato estaria agindo politicamente. O que se dá é o contrário: os políticos do governo é que estão, há anos, agindo criminosamente, a ponto de transformar a análise política em criptografia policial. Não se trata de ideologia: crime não é de direita ou de esquerda – é crime. E o partido que o promove e oculta merece o título de organização criminosa, máfia em estado pleno.
Prova disso é que, até aqui, o empenho do governo e de seu partido – Lula à frente – não foi o de se defender, mas o de evitar a Justiça, obstruindo-a e cancelando depoimentos, recorrendo aos mais diversos e sórdidos ardis processuais. Quem deve, teme.
O argumento do líder do PT, José Guimarães, de que Lula jamais se recusou a depor - e que, portanto, a coerção não era necessária -, é falso. Na festa dos 36 anos do PT, Lula disse que não iria depor de maneira nenhuma. E acusou a Polícia Federal, a Justiça e a imprensa, dando palavras de ordem à militância.
Tão espantoso quanto tudo isso é a reação frouxa, intimidada (quase solidária) da oposição, sobretudo do PSDB.
A sociedade está mobilizada, há uma manifestação nacional prevista para daqui a uma semana, revelam-se denúncias gravíssimas de um ex-líder do governo – que, em circunstâncias normais imporiam a deposição da presidente - e a oposição age como quem tem dúvidas. Em vez de ir às ruas, fecha-se, intimidada, em gabinetes. O PT mobiliza seus diretórios e organizações que sustenta (CUT, MST, MTST, UNE etc.) com dinheiro público para que ocupem as ruas e promovam badernas. E a oposição faz o quê? Aguarda.
O líder tucano Cássio Cunha Lima diz que “não vai sapatear sobre o governo”, mesmo sabendo que o governo, rodeado de indícios consistentes de que praticou crimes, não tem feito outra coisa sobre a sociedade. Com isso, apenas dá substância às insinuações do PT, de que tem também o que ocultar. Terá?
O bordel está em pânico. A festa, ao que parece, acabou.
É o fim do projeto do PT
A condução coercitiva de Lula e de seu primogênito, Fábio Luiz, não foi nenhuma surpresa no mundo político, mas é daqueles fatos que todo mundo espera, mas, quando acontecem, são como uma explosão atômica. Com Lula depondo na Polícia Federal e acossado, junto com a presidente Dilma Rousseff, pela delação premiada do ex-líder do governo Delcídio Amaral, não há outra conclusão possível senão a óbvia: é o fim do projeto do PT, o fim de uma era.
Até por isso, a Justiça, o Ministério Público, a Polícia Federal e a Receita Federal cercaram-se de todos os cuidados. Há meses vinham dando indícios de que Lula seria preso, mas isso só ocorreria quando as provas fossem consistentes, inquestionáveis. "Não podemos morder o Lula. Quando chegarmos nele, é para engolir", diziam os investigadores, ilustrando a consciência de que, deixar brechas de contestação, seria não apenas implodir a Lava Jato, mas também desmoralizar as instituições responsáveis.
Hoje, a Lava Jato engoliu Lula e, com ele, o projeto de eternização do PT no poder. De uma forma simples e direta, há provas de que havia uma triangulação criminosa: o dinheiro saía da Petrobrás, passava pelas empreiteiras e parte dele ia para o ex-presidente em forma de pagamentos dissimulados de palestras, viagens pelo mundo, o sítio de Atibaia e o triplex do Guarujá. Lula, portanto, seria beneficiário dos desvios da maior companhia brasileira, hoje uma das maiores empresas mais endividadas do mundo. Sem falar na Operação Zelotes...
A condução coercitiva de Lula, a prisão do marqueteiro dele e de Dilma, a delação do ex-líder do governo sobre o envolvimento de Dilma na compra suspeitíssima da refinaria de Pasadena e na tentativa de manipular o Judiciário para soltar empreiteiros amigos... tudo isso configura um cerco a Lula e a Dilma que, apesar de dependerem visceralmente um do outro, entram na dolorosa fase do "salve-se quem puder" ou, de outra forma, "cada um por si".
Como pano de fundo, a crise política e a economia. Por uma macabra coincidência, ou não, o resultado da economia em 2015 saiu no dia do vazamento da delação de Delcídio e na véspera da condução coercitiva de Lula e de seu filho. O Brasil teve uma recessão de 3,8% e ficou em 30º lugar entre 32 países pesquisados, só atrás da Venezuela, que quebrou, e da Ucrânia, que vem perdendo parte do seu território para a Rússia.
Tudo somado, Dilma está totalmente isolada em seus palácios, enquanto Lula se despe da roupagem do "Lulinha paz e amor" e conclama suas tropas para a guerra. A possibilidade de impeachment de Dilma é cada vez mais real e a próxima etapa de todo esse processo deve ocorrer nas ruas. Vêm aí as manifestações do dia 13 contra Dilma, Lula e o PT, mas, antes delas, já começam os confrontos. As bandeiras vermelhas, em minoria, vão tentar ganhar no grito - ou na pancadaria.
Lava Jato enquadra agressividade de Lula e protestos ganham força
Com o crescente cerco da Lava Jato, mas não só ela, sobre si e sua família, Lula buscou vestir novamente o figurino de líder sindical raivoso. Com discursos inflados, decretou a morte do "Lulinha paz e amor" que envergava para não assustar as elites que conquistou e nutriu para ter dois bem-sucedidos mandatos à frente da Presidência.
De duas semanas para cá, criou site para tentar intimidar jornalistas. Prometeu processar Deus e o mundo. Esbravejou na Justiça, e obteve vitórias no intento, que não poderia ser investigado. Derrubou José Eduardo Cardozo da pasta da Justiça com a enésima queixa de que ele não controlava a PF que agora bateu à sua porta.

Deu no que deu. Como outros personagens, sendo João Santana e sua mulher exemplos mais recentes, sabem, a Lava Jato não perdoa soberba. Obviamente, ser implacável anda de mãos dadas com correção: para o bem do futuro da força-tarefa, é bom que haja motivos bem sólidos para tudo o que está acontecendo na manhã desta sexta.
O recado para os poderes constituídos é brutal. Como disse, no hoje longínquo 2014, um dos capitães da investigação, "não sobrará ninguém". Perguntei se isso incluiria os próceres do poder e a resposta foi um assertivo sorriso.
A reação, previsivelmente, será também de força. A imagem de carros de polícia na frente da casa de Lula certamente remeterá, para os que ainda o apoiam no espectro petistas-governista, ao sindicalista preso na ditadura militar. Lula irá usar a analogia, buscará a vitimização a fim de somar o martírio à sua usual hagiografia.
Isso pode dar certo, embora seja incerto dado que os indícios acumulados contra o petista são muito grandes –de quebra, sítios e apartamentos, a fração teoricamente menos grave do que se imputa no escopo da Lava Jato ao líder petista, são ícones de fácil assimilação pela sabedoria popular.
Ainda assim, é previsível também que subiu o grau de risco de confronto no próximo fim de semana, para quando está marcado o próximo protesto pedindo o impeachment de Dilma Rousseff. Militantes a soldo e apoiadores espontâneos de Lula, cada vez mais pertencentes a nichos com demandas específicas e autointituladas progressistas, talvez tentem fazer frente ao provável engrossamento do coro antipetista em centros urbanos.
Politicamente, é um prego no caixão cada vez mais fundo na terra do PT e do governo. No caso do partido, Lula é passado, presente e futuro sob ameaça. É o único presidenciável viável da sigla, com respeitável apoio popular, ainda que decadente de forma acelerada.
O cerco contra o líder encima um longo processo pelo qual os petistas e suas práticas reveladas são as responsáveis centrais, apesar do choro contra elites, imprensa e os suspeitos de sempre. Nesse sentido, o batismo da operação, Aletheia, remete ao desvelamento da verdade além das aparências. Soa apropriado, ainda que alguém possa implicar com a associação nazista do principal filósofo a trabalhar o conceito no século 20, Martin Heidegger.
Já para Dilma, que em outros momentos talvez até agradecesse ver o antigo mentor e não ela no centro do fogo, não há boa notícia possível. Após a pré-delação vazada do seu ex-líder no Senado Delcídio do Amaral (PT-MS) a colocar diretamente na mira da Lava Jato, a petista vê a queda em desgraça do homem que a criou politicamente –e a quem entregou a cabeça de Cardozo, numa demonstração de fraqueza compatível com sua baixíssima popularidade e com o esfarelamento econômico e político do país sob seu comando.
A queda de Lula, que, ressalte-se, nem de longe pode ser considerada definitiva, só favoreceria uma Dilma em momento de força, algo que não acontece desde os protestos de junho de 2013. Agora, mesmo com ambos estremecidos, restará um tentar apoiar-se no outro. Lula é mestre em ressurreições e tem a resiliência política mais conhecida do país, mas tal abraço poderá ser de afogados sob os jatos d´água de Curitiba.
Lula isolou-se da realidade em sua bolha petista
As pessoas ficam falando mal do Lula, mas, na verdade, ele só merece pena. É uma vida desgraçada a do ex-presidente petista. Está certo, dá dinheiro. Dá muito dinheiro. Dá dinheiro demais —R$ 30 milhões em palestras e doações ao Instituto Lula feitas por empreiteiras pilhadas assaltando a Petrobras, noves fora o salário e a aposentadoria do Estado. O excesso de liquidez é uma das misérias da ex-presidência petista.
Outros seres humanos vivem com rendimentos exagerados. Mas o ex-presidente do PT é dependente do exorbitante. É como aquelas pessoas doentes que, não podendo respirar oxigênio, são isoladas numa bolha. Lula sofre com a insensibilidade do Sérgio Moro com o seu vício pela anormalidade.
“[…] É forçoso reconhecer que se trata de valores altos para doações e palestras, o que, no contexto do esquema criminoso da Petrobras, gera dúvidas sobre a generosidade das empresas”, anotou o juiz da Lava Jato no despacho em que ordenou que Lula fosse retirado da bolha para ser interrogado no Brasil real.
No interior da bolha petista vigora uma monarquia absolutista. Ali, o ex-presidente Luís Inácio autoproclamou-se Dom Lula 1º (e único), o venturoso. Isolado do meio ambiente exterior, respira exorbitância, sua substância vital. Faz isso como se nada tivesse sido descoberto sobre o que ele fez nos verões passados.
Coisas estranhas sucedem com o ex-presidente no reino da bolha. Imóveis lhe caem no colo —um sítio do tamanho de 24 campos de futebol, um triplex à beira mar… Empreiteiras se oferecem para reformar as propriedades. Composta de gente incompreensiva, a força-tarefa da Lava Jato destila suspeição em documento oficial:
“A suspeita é que os valores com que o ex-presidente foi agraciado constituem propinas pagas a título de contraprestação pelos favores ilícitos obtidos no esquema Petrobras. A vantagem não precisa ser dinheiro, não precisar estar diretamente ligada ao ato. Nós podemos verificar que mesmo após o exercício da Presidência podem estar sendo pagos ainda vantagens ao ex-presidente.”
Arrancado “coercitivamente” do reino da bolha pela Política Federal, Dom Lula 1º (e único) se deparou nesta sexta-feira com a República, cuja proclamação ele passou a considerar um erro. Sobretudo depois que as instituições republicanas começaram a iluminar seus calcanhares de vidro, o sítio de vidro, o triplex de vidro, as palestras de vidro, o instituto de vidro, a biografia de vidro…
Depois de interrogado, o ex-presidente petista foi liberado para retornar ao mundo da bolha. Disse que, por algumas horas, se sentiu como um “prisioneiro”. Horas depois, declarou ter sido “sequestrado” pela Polícia Federal. O soberano estava de volta ao seu abiente (i) natural.
Uma claque de devotos realiza o trabalho humanitário, estimulando com urros e palavras de ordem um ex-presidente notoriamente despreparado para lidar com a realidade. A militância faz as vezes de qualquer mãe com seu filho problemático. Estimula-o a desfrutar de sua anormalidade.
Meio choroso, Lula acenou com a hipótese de trocar a bolha pelo Planalto em 2018, se o doutor Moro deixar. “Cutucaram o cão com vara curta. Eu quero oferecer a vocês esse jovem de 70 anos de idade, com tesão de 30, corpo de atleta de 20 anos. Não tenho preguiça de acordar às 6h e dormir as 22h. A partir de hoje a única resposta à insolência e ofensa que fizeram a mim é ir pra rua e dizer: ‘Eu tô vivo e sou mais honesto que vocês’.”
Alguma coisa subiu à cabeça do soberano petista. E não é nada que se pareça com sensatez. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva.''
A jararaca é capaz de tudo, menos de dar explicações. Elitizada, declara-se perseguida pela “elite”. Quem não é devoto não consegue entender os efeitos que a prosperidade exerce sobre uma cobra criada no reino da bolha, respirando exorbitância.
Outros seres humanos vivem com rendimentos exagerados. Mas o ex-presidente do PT é dependente do exorbitante. É como aquelas pessoas doentes que, não podendo respirar oxigênio, são isoladas numa bolha. Lula sofre com a insensibilidade do Sérgio Moro com o seu vício pela anormalidade.
“[…] É forçoso reconhecer que se trata de valores altos para doações e palestras, o que, no contexto do esquema criminoso da Petrobras, gera dúvidas sobre a generosidade das empresas”, anotou o juiz da Lava Jato no despacho em que ordenou que Lula fosse retirado da bolha para ser interrogado no Brasil real.
No interior da bolha petista vigora uma monarquia absolutista. Ali, o ex-presidente Luís Inácio autoproclamou-se Dom Lula 1º (e único), o venturoso. Isolado do meio ambiente exterior, respira exorbitância, sua substância vital. Faz isso como se nada tivesse sido descoberto sobre o que ele fez nos verões passados.
Coisas estranhas sucedem com o ex-presidente no reino da bolha. Imóveis lhe caem no colo —um sítio do tamanho de 24 campos de futebol, um triplex à beira mar… Empreiteiras se oferecem para reformar as propriedades. Composta de gente incompreensiva, a força-tarefa da Lava Jato destila suspeição em documento oficial:
“A suspeita é que os valores com que o ex-presidente foi agraciado constituem propinas pagas a título de contraprestação pelos favores ilícitos obtidos no esquema Petrobras. A vantagem não precisa ser dinheiro, não precisar estar diretamente ligada ao ato. Nós podemos verificar que mesmo após o exercício da Presidência podem estar sendo pagos ainda vantagens ao ex-presidente.”
Arrancado “coercitivamente” do reino da bolha pela Política Federal, Dom Lula 1º (e único) se deparou nesta sexta-feira com a República, cuja proclamação ele passou a considerar um erro. Sobretudo depois que as instituições republicanas começaram a iluminar seus calcanhares de vidro, o sítio de vidro, o triplex de vidro, as palestras de vidro, o instituto de vidro, a biografia de vidro…
Depois de interrogado, o ex-presidente petista foi liberado para retornar ao mundo da bolha. Disse que, por algumas horas, se sentiu como um “prisioneiro”. Horas depois, declarou ter sido “sequestrado” pela Polícia Federal. O soberano estava de volta ao seu abiente (i) natural.
Uma claque de devotos realiza o trabalho humanitário, estimulando com urros e palavras de ordem um ex-presidente notoriamente despreparado para lidar com a realidade. A militância faz as vezes de qualquer mãe com seu filho problemático. Estimula-o a desfrutar de sua anormalidade.
Meio choroso, Lula acenou com a hipótese de trocar a bolha pelo Planalto em 2018, se o doutor Moro deixar. “Cutucaram o cão com vara curta. Eu quero oferecer a vocês esse jovem de 70 anos de idade, com tesão de 30, corpo de atleta de 20 anos. Não tenho preguiça de acordar às 6h e dormir as 22h. A partir de hoje a única resposta à insolência e ofensa que fizeram a mim é ir pra rua e dizer: ‘Eu tô vivo e sou mais honesto que vocês’.”
Alguma coisa subiu à cabeça do soberano petista. E não é nada que se pareça com sensatez. “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça, bateram no rabo, porque a jararaca está viva.''
A jararaca é capaz de tudo, menos de dar explicações. Elitizada, declara-se perseguida pela “elite”. Quem não é devoto não consegue entender os efeitos que a prosperidade exerce sobre uma cobra criada no reino da bolha, respirando exorbitância.
Lula e o chamado ao confronto
As chicanas da alma mais honesta do país não adiantaram, e na manhã de sexta-feira o ex-presidente Lula acabou forçado a prestar depoimento à Polícia Federal. O mandado de condução coercitiva contra Lula foi o mais relevante entre os 44 expedidos pela Aletheia, a 24.ª fase da Operação Lava Jato. Ainda que o ex-presidente não tenha sido preso, apenas conduzido para prestar esclarecimentos, a reação da cúpula do Partido dos Trabalhadores e de parte da sua militância passou dos limites, merecendo repúdio e atenção da sociedade.
A conta do PT no Twitter, por exemplo, lançou a hashtag #LulaPresoPolítico – uma falsidade dupla, não apenas porque Lula não foi preso, mas porque a própria expressão “preso político” deixa implícita a noção de que o país vive um estado de exceção, em que as liberdades democráticas não vigoram. O próprio partido se encarregou de dissipar a dúvida sobre o que realmente pensa ao divulgar nota, assinada pelo presidente da legenda, Rui Falcão, segundo a qual “a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa um ataque à democracia e à Constituição” e “a nação está sendo sangrada pela construção de um regime de exceção e arbítrio”. O vice-líder do partido na Câmara, Wadih Damous, chegou ao ponto de dizer que “isso não foi condução coercitiva, foi um sequestro perpetrado pela Polícia Federal a mando do juiz da Lava Jato” – declaração cuja irresponsabilidade é ainda maior por vir de um ex-presidente da seccional fluminense da OAB.
Mas antes se tratasse apenas de palavras. Parte da militância partidária e entidades-satélites do petismo foram às ruas, protagonizando cenas de confronto com cidadãos contrários ao PT e a Lula. Equipes de filmagem também foram hostilizadas em São Paulo. Não foi exatamente uma surpresa: o discurso de ódio que divide o país, especialmente entre pobres e ricos, sempre foi uma tônica de Lula e das lideranças petistas, mas desde o início do ano passado essa retórica adotou um tom belicista, com a menção de Lula ao “exército de Stédile” e o presidente da CUT falando em “armas na mão” em evento com a participação da presidente Dilma Rousseff. Na manhã de sexta-feira, Falcão afirmou, na nota, que “os petistas estão chamados a defender, ao lado de nossos aliados, nas ruas e nas instituições, as regras constitucionais e a inocência do ex-presidente Lula”. O mesmo tuíte que chamou Lula de preso político afirmava que “não podemos deixar barato. Precisamos todos reagir. Agora!” Parlamentares petistas ouvidos pelo jornal O Globo em Brasília foram ainda mais explícitos: “Se querem transformar o Brasil na Venezuela, vão conseguir. Se preparem”, afirmou um deles. “Estamos com ódio, uma indignação muito grande, faca nos dentes, sangue nos olhos. Não temos mais nada a perder, agora mexeram com o Lula”, disse outro.
Incitar o confronto desta forma é apenas agravar a polarização que as lideranças petistas alimentaram nos últimos anos, é arrastar para a violência político-partidária um país que já sofre com uma grave crise econômica, com inflação e desemprego, consequências das escolhas erradas do governo petista na condução da economia. É preciso parar para pensar: se uma condução coercitiva já é suficiente para provocar tal reação, o que não aconteceria em caso de prisão, ainda que embasada em sólidas evidências? A vigilância da sociedade é fundamental para evitar um esgarçamento ainda maior do tecido social e novas agressões às instituições democráticas.
sexta-feira, 4 de março de 2016
País à deriva
Quem governa o Brasil? Dilma? Lula por meio de Dilma? Sérgio Moro por meio da Lava-Jato? O Supremo Tribunal Federal diante da fraqueza do Congresso e do governo Dilma? Ninguém governa?
Governam os fatos. A verdade é essa. O país navega ao sabor dos fatos que se sucedem. Os fatos podem derivar da ação de um dos poderes, da ação de todos eles e da inação do governo e do Congresso.
Mas eles mandam. E como se sucedem mais ou menos livremente, e em muitos casos de maneira contraditória, o horizonte muda de direção com frequência. Como um país pode avançar assim? Não avança.
Como um país do porte do nosso poderá se arrastar assim por mais dois ou três anos? Não pode. Ou não deveria poder. Não é aconselhável que possa. Só teremos a perder com isso.
Em um regime presidencialista como o nosso, imperialmente presidencialista, espera-se que o servidor número um da República ofereça um norte. Diga com segurança: “É por aqui”.
Não se trata do triunfo da vontade de uma só pessoa, nem mesmo de um só partido ou de um conjunto de partidos. Trata-se de um elenco de escolhas que foram avalizadas pela maioria do povo em eleições livres.
E no que votaram aqueles que elegeram Dilma para governar pela segunda vez? No país que ela garantiu que era possível. Ocorre que o país prometido por ela era uma grossa mentira, e ela sabia disso. Mentiu deliberadamente.
O resultado está aí. O país em crescimento rola ladeira abaixo. O país do Minha Casa Minha Vida oferece menos casos e uma vida mais degradada. No país da inflação sob controle, a inflação está próxima dos dois dígitos.
O país com mais empregos perdeu milhões deles. No país da guerra sem tréguas à corrupção, a guerra foi perdida. A corrupção, agora, engolfa aqueles que se apresentaram como seus maiores adversários.
Restou o país do Bolsa Família, que por falta de dinheiro não comporta mais ninguém.
A pergunta que mais faço a políticos, empresários, magistrados e estudiosos da situação é: “O que vai acontecer?” Eles, primeiro hesitam. Depois de olham meio aparvalhados.
A resposta mais comum que obtenho costuma ser: “Não sei. Mas algo haverá de acontecer. Do jeito que está, não dá”.
Esse “algo” tão esperado terá começado a acontecer ontem com as revelações sobre a delação premiada do senador Delcídio Amaral? Não sei. Quem sabe? Ou esse “algo” ainda está por vir? Quem sabe?
É o império dos fatos sem governo.
Governam os fatos. A verdade é essa. O país navega ao sabor dos fatos que se sucedem. Os fatos podem derivar da ação de um dos poderes, da ação de todos eles e da inação do governo e do Congresso.
Mas eles mandam. E como se sucedem mais ou menos livremente, e em muitos casos de maneira contraditória, o horizonte muda de direção com frequência. Como um país pode avançar assim? Não avança.

Como um país do porte do nosso poderá se arrastar assim por mais dois ou três anos? Não pode. Ou não deveria poder. Não é aconselhável que possa. Só teremos a perder com isso.
Em um regime presidencialista como o nosso, imperialmente presidencialista, espera-se que o servidor número um da República ofereça um norte. Diga com segurança: “É por aqui”.
Não se trata do triunfo da vontade de uma só pessoa, nem mesmo de um só partido ou de um conjunto de partidos. Trata-se de um elenco de escolhas que foram avalizadas pela maioria do povo em eleições livres.
E no que votaram aqueles que elegeram Dilma para governar pela segunda vez? No país que ela garantiu que era possível. Ocorre que o país prometido por ela era uma grossa mentira, e ela sabia disso. Mentiu deliberadamente.
O resultado está aí. O país em crescimento rola ladeira abaixo. O país do Minha Casa Minha Vida oferece menos casos e uma vida mais degradada. No país da inflação sob controle, a inflação está próxima dos dois dígitos.
O país com mais empregos perdeu milhões deles. No país da guerra sem tréguas à corrupção, a guerra foi perdida. A corrupção, agora, engolfa aqueles que se apresentaram como seus maiores adversários.
Restou o país do Bolsa Família, que por falta de dinheiro não comporta mais ninguém.
A pergunta que mais faço a políticos, empresários, magistrados e estudiosos da situação é: “O que vai acontecer?” Eles, primeiro hesitam. Depois de olham meio aparvalhados.
A resposta mais comum que obtenho costuma ser: “Não sei. Mas algo haverá de acontecer. Do jeito que está, não dá”.
Esse “algo” tão esperado terá começado a acontecer ontem com as revelações sobre a delação premiada do senador Delcídio Amaral? Não sei. Quem sabe? Ou esse “algo” ainda está por vir? Quem sabe?
É o império dos fatos sem governo.
Dilma já não gere os fatos, é governada por eles
O acordo de delação premiada firmado pelo senador Delcídio Amaral (PT-MS) com a Procuradoria-Geral da República deixou o governo tonto. Arrastada pela primeira vez para o epicentro do escândalo da Petrobras, Dilma Rousseff teve um primeiro impulso de desqualificar o delator. Um auxiliar recordou à presidente que, antes de ser preso, Delcídio era líder do governo dela no Senado. Como explicar a escolha de um desqualificado para exercer as atribuições de líder do governo? O Planalto se deu conta de que sua reação não poderia ser improvisada.
Dilma manteve a decisão de tentar desacreditar Delcídio, atacando-lhe a reputação. Não lhe restaram alternativas. Depois de passar a manhã remoendo os termos do acordo de delação do ex-líder, ainda pendente de homologação do STF, os auxiliares de Dilma começaram a se manifestar. Acertaram os ponteiros com a presidente. Referem-se a Delcídio como um falastrão. Afirmam que suas declarações não fazem nexo. O Ministério Público Federal pensa de outro modo, tanto que submeteu a delação ao crivo do ministro Teori Zavascki, relator da Lava Jato no STF.
Em privado, Dilma repete um bordão que já recitou em público: Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa o bastante para atacar a minha honra?, ela pergunta. Delcídio, segundo Dilma, não teria condições de emparedá-la. O problema da presidente é que nenhum delator da Lava Jato saiu de um convento. E a qualidade das revelações cresce na proporção direta do encolhimento das biografias.
Dois detalhes diferenciam Delcídio de outros delatores: 1) Ele é o primeiro petista a suar o dedo na Lava Jato. 2) Sua proximidade com o Planalto fez dele um personagem com um arsenal de informações que permitem reescrever a fábula do “eu não sabia”, já bastante desmoralizada. Além de Dilma, o senador alvejou Lula. Mal comparando, Delcídio aciona um fósforo tão perigoso quanto o que foi riscado por Roberto Jefferson ao acender o pavio do mensalão, em 2005. Naquele escândalo, Delcídio estava do outro lado do balcão. Presidiu a CPI dos Correios, que ofereceu farta matéria-prima para a denúncia que levou a cúpula do PT para a penitenciária da Papuda.
A novidade sobre o destampatório de Delcídio chegou em péssima hora, um dia em que as manchetes escancaram o tamanho da ruína econômica produzida sob Dilma: o PIB de 2015 despencou 3,8%. Esse dado expõe, uma vez mais, a empulhação do enredo que embalou a campanha presidencial de Dilma em 2014. O mentor desse enredo, o marqueteiro João Santana, encontra-se na cadeia. A Procuradoria pediu ao juiz Sérgio Moro a renovação da cana de Santana e da mulher dele, Mônica Moura, agora por tempo indeterminado.
O maior receio do governo é o de que o encontro da estagnação da economia com a lama da Petrobras produza uma espécie de pororoca que leve o asfalto a roncar novamente nas manifestações programadas para 13 de março. Governistas e oposicionistas concordam num ponto: o impeachment só tem chances de avançar se as ruas empurrarem o pedido que se encontra na Câmara, pendente de votação.
De resto, a delação de Delcídio compromete o esforço que Dilma vinha fazendo para passar a impressão de que seu governo ainda tem capacidade para fazer e acontecer. Na verdade, a presidente tenta equilibrar-se em meio ao entrechoque de dois fenômenos: o desastre gerencial em que se converteu o seu governo e as investigações que expõem os porões da corrupção com uma voracidade histórica.
Para desassossego de Dilma, a impressão de que seu governo tornou-se uma estrutura pendurada no ar foi reforçada depois que o STF decidiu antecipar a execução das penas de prisão a partir das sentenças da segunda instância do Judiciário. Ao farejar o odor do calabouço, a oligarquia enrolada na Lava Jato passou a coçar a língua. Executivos das empreiteiras OAS, Andrade Gutierrez e até da Odebrecht, a maior delas, tornaram-se delatores esperando na fila para acontecer.
Dilma já não governa os fatos que condicionam o futuro do seu governo. É governada por eles. Até aqui, a presidente se limitava a perseguir dois objetivos estratégicos: não cair e passar a sensação de que comanda. O segundo objetivo já foi comprometido. Dilma segura-se na cadeira como pode. Revela uma enorme disposição de permanecer ao volante, ainda que lhe falte um itinerário.

Em privado, Dilma repete um bordão que já recitou em público: Quem tem força moral, reputação ilibada e biografia limpa o bastante para atacar a minha honra?, ela pergunta. Delcídio, segundo Dilma, não teria condições de emparedá-la. O problema da presidente é que nenhum delator da Lava Jato saiu de um convento. E a qualidade das revelações cresce na proporção direta do encolhimento das biografias.
Dois detalhes diferenciam Delcídio de outros delatores: 1) Ele é o primeiro petista a suar o dedo na Lava Jato. 2) Sua proximidade com o Planalto fez dele um personagem com um arsenal de informações que permitem reescrever a fábula do “eu não sabia”, já bastante desmoralizada. Além de Dilma, o senador alvejou Lula. Mal comparando, Delcídio aciona um fósforo tão perigoso quanto o que foi riscado por Roberto Jefferson ao acender o pavio do mensalão, em 2005. Naquele escândalo, Delcídio estava do outro lado do balcão. Presidiu a CPI dos Correios, que ofereceu farta matéria-prima para a denúncia que levou a cúpula do PT para a penitenciária da Papuda.
A novidade sobre o destampatório de Delcídio chegou em péssima hora, um dia em que as manchetes escancaram o tamanho da ruína econômica produzida sob Dilma: o PIB de 2015 despencou 3,8%. Esse dado expõe, uma vez mais, a empulhação do enredo que embalou a campanha presidencial de Dilma em 2014. O mentor desse enredo, o marqueteiro João Santana, encontra-se na cadeia. A Procuradoria pediu ao juiz Sérgio Moro a renovação da cana de Santana e da mulher dele, Mônica Moura, agora por tempo indeterminado.
O maior receio do governo é o de que o encontro da estagnação da economia com a lama da Petrobras produza uma espécie de pororoca que leve o asfalto a roncar novamente nas manifestações programadas para 13 de março. Governistas e oposicionistas concordam num ponto: o impeachment só tem chances de avançar se as ruas empurrarem o pedido que se encontra na Câmara, pendente de votação.
De resto, a delação de Delcídio compromete o esforço que Dilma vinha fazendo para passar a impressão de que seu governo ainda tem capacidade para fazer e acontecer. Na verdade, a presidente tenta equilibrar-se em meio ao entrechoque de dois fenômenos: o desastre gerencial em que se converteu o seu governo e as investigações que expõem os porões da corrupção com uma voracidade histórica.
Para desassossego de Dilma, a impressão de que seu governo tornou-se uma estrutura pendurada no ar foi reforçada depois que o STF decidiu antecipar a execução das penas de prisão a partir das sentenças da segunda instância do Judiciário. Ao farejar o odor do calabouço, a oligarquia enrolada na Lava Jato passou a coçar a língua. Executivos das empreiteiras OAS, Andrade Gutierrez e até da Odebrecht, a maior delas, tornaram-se delatores esperando na fila para acontecer.
Dilma já não governa os fatos que condicionam o futuro do seu governo. É governada por eles. Até aqui, a presidente se limitava a perseguir dois objetivos estratégicos: não cair e passar a sensação de que comanda. O segundo objetivo já foi comprometido. Dilma segura-se na cadeira como pode. Revela uma enorme disposição de permanecer ao volante, ainda que lhe falte um itinerário.
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