sábado, 9 de novembro de 2024

Faltam escolhas sábias


A participação pública não é a única coisa a se considerar, a gente também quer que as pessoas façam escolhas sábias quando votam. Acho que elas estão votando por causa de questões de curto prazo, como a inflação, sem atentar para outras, de longo prazo, muito mais importantes, como a sobrevivência do Estado de direito nos EUA.
Francis Fukuyama, autor de "O fim da história e o último homem"

Civilização Ocidental

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

Agostinho Neto

O homem certo

Hoje, numa época em que se misturam todos os discursos, em que profetas e charlatães usam as mesmas fórmulas com mínimas diferenças, cujo percurso nenhum homem ocupado tem tempo de seguir, num tempo em que as redações dos jornais são constantemente incomodadas por gente que acha que é um gênio, é muito difícil ajuizar do valor de um homem ou de uma ideia. Temos de nos deixar guiar pelo ouvido para podermos perceber se os rumores, os sussurros e o raspar de pés diante da porta da redação são suficientemente fortes para poderem ser admitidos como voz da polis. A partir desse momento, porém, o génio passa a outra condição. Deixa de ser matéria fútil da crítica literária ou teatral, cujas contradições os leitores que qualquer jornal deseja ter levam tão pouco a sério como a tagarelice de uma criança, para aceder ao estatuto de fatos concretos, com todas as consequências que isso tem.

Certos fanáticos insensatos ignoram a necessidade desesperada de idealismo que se esconde por detrás de tal situação. O mundo dos que escrevem porque têm de escrever está cheio de grandes palavras e conceitos que perderam a substância.

Os atributos dos grandes homens e das grandes causas sobrevivem ao que quer que seja que lhes deu origem, e é por isso que sobram sempre muitos atributos. Foram criados um dia por algum homem importante para outro homem importante, mas esses homens há muito que morreram, e os conceitos que lhes sobreviveram têm de ser utilizados. Por isso andamos sempre à procura do homem certo para um determinado adjetivo. A "portentosa plenitude" de Shakespeare, a "universalidade" de Goethe, a "profundidade psicológica" de Dostoievski e muitas outras imagens que uma longa tradição literária deixou atrás de si andam às centenas nas cabeças dos que escrevem, e essa sobrelotação de reservas leva-os a dizer hoje que um estrategista do tênis é "insondável" ou um poeta em moda "grandioso". É compreensível que se sintam gratos quando conseguem aplicar sem desperdício a sua reserva de palavras. Mas terá sempre de se tratar de um homem cuja importância já é um fato aceite, de maneira a que se compreenda como as palavras se ajustam bem a ele, ainda que não se diga exatamente a que qualidades.

Robert Musil, "O Homem sem Qualidades"

Bruxas de importação

Já faz alguns anos que, na véspera do Dia de Todos os Santos, a criançada das redondezas de onde moro, no subúrbio de São Paulo, logo depois de escurecer, em grupos, muito sorridente e alegre, bate à porta de casa e quando atendemos somos saudados com o que parece ser mais uma ameaça do que uma brincadeira: “Gostosuras ou diabruras?”.

A alegria infantil das atitudes contrasta com a sisudez da frase estrangeira, originária de uma cultura religiosa repressiva dos tempos puritanos da caça às bruxas nos EUA.

No começo, aqui em casa, resistimos em aderir e participar. Não víamos nenhuma relação com nossa sociedade e nossos costumes. Aquilo era estranho e postiço.


Para minha mulher e eu, não tinha sentido. Amigos nos sugeriram que havia aqui um equivalente das bruxas americanas, o saci-pererê. Na verdade o saci é outra coisa. Não é bruxa. Nem feiticeiro. É um “trickster”, um ser ambíguo. Para muitos é o nosso malandro simbólico. Situa-se no limite dos lados, desrespeita regras, encarapita-se nos mourões das porteiras. Separa e une. De certo modo, é um poder.

Um jovem indígena de uma aldeia do sul da cidade de São Paulo explicou-me que, ao contrário da impressão geral, o saci não é negro, é de origem indígena. Suas características físicas, menino de uma perna só, o sugerem. Como o curupira, que tem os pés invertidos em relação à direção do caminhar. No século XVIII, com o incremento do tráfico negreiro, tornou-se negro, com as características que tem hoje na cultura popular. Assumiu a identidade do outro.

Procuramos entender o que significava aquela novidade, de bruxas americanas a falar português e expressar concepções de um imaginário estrangeiro. No mundo inteiro, países coloniais e países atrasados como o nosso sofreram invasão cultural como técnica de sujeição cultural dos nativos.

Foi interessante e foi uma descoberta. Vinham em bandos sucessivos, e as visitas se prolongavam até antes da meia-noite. Os primeiros grupos eram de crianças pequenas, sempre acompanhadas por alguns adolescentes, claramente para protegê-las. Eram crianças, não eram malandros. Os mais velhos vinham mais tarde. E os malandros vinham na véspera.

Aprendemos a comprar balas e doces com antecipação e a preparar pacotinhos de “doçuras”. Chegamos a distribuir, todos os anos, quase cem pacotes de balas de vários tipos. Nunca falta o “muito obrigado” de todos e de cada um, sempre seguido de um “Deus os abençoe”. São crianças que vêm dos bairros pobres e da favela das proximidades. É um jeito de adoçar a vida para elas amarga.

De bruxa, nem notícia. Reinventam a prática esdrúxula, resistem ao que não tem sentido. O Halloween tornou-se aqui um artifício para saciar da carência de doçura esta sociedade de insuficiências e insatisfações, que precisa imitar o que não é para chupar uma bala.

A difusão dessas práticas não é coisa apenas de pobres. A classe média, no mundo inteiro destituída de autenticidade, aqui é fascinada pela ideia de imitar e copiar, pela ideia de ser coadjuvante de quem aparece no cinema.

Os ricos são, no Brasil, grandes importadores de costumes estrangeiros, que por meio deles se disseminam. Foi o caso do Papai Noel, nas décadas finais do século XIX, trazido pelos fazendeiros de café, do Sudeste, que após a colheita iam para a Europa desfrutar os créditos obtidos com a comercialização da safra.

Nosso Natal era apenas, e assim fora durante todo o período colonial, o marco da passagem de ano. A partir do Dia de Natal, o calendário civil mudava. O dia 24 de dezembro de 1553 foi o último do ano, e o dia 25 de dezembro do mesmo 1553 já vinha numerado nos documentos oficiais como 1554.

O dia festivo para as crianças era o dos Santos Reis, 6 de janeiro, que comemora as dádivas dos Santos Reis para o menino da manjedoura. É o dia do desmontar o presépio doméstico.

Apesar da poderosa concorrência da mentalidade mercantil difundida pelo comércio natalino, a celebração dos Santos Reis ainda resiste. Mesmo nas cidades, não só as do interior.

As Folias de Reis ressurgiram nas cidades, nos bairros de migrantes oriundos da roça. Ainda fazem a visita ritual em alguns bairros. Os migrantes são os grandes preservadores da religiosidade popular na região metropolitana de São Paulo, justamente a região que foi por longo tempo uma região industrial.

Foi aí pelos anos 1990 que numa noite de janeiro ouvimos um cântico vindo do portão de casa. Acompanhado por acordes de viola caipira, um grupo precatório de foliões dos Santos Reis entoava o “Deus Te Salve Casa Santa”. Procedia de um bairro pobre vizinho para surpresa dos moradores de minha rua. Nasceu daí meu livro “O coração da Pauliceia ainda bate”.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


.A arte de engolir sapos

O Adão, meu amigo, professor de biologia, já encantado, amava os sapos. Dedicou sua vida a estudá-los. Estudava e admirava. Era capaz de identificá-los não só por sua aparência física como também pelo seu canto. Creio que o Adão achava os sapos bonitos. E é certo que eles têm uma beleza que lhes é peculiar. O filósofo Ludwig Feuerbach diria que para os sapos não existe nada mais belo que o sapo e, se entre eles houvesse teólogos, haveriam de dizer que Deus é um sapo. Cada forma de vida é o Bem Supremo para si mesma.

Eu mesmo, sem ter a sensibilidade do Adão, escrevi um livro para crianças em que um dos heróis é o sapo Gregório. Mas desejo confessar que não acho os sapos bonitos. Bonita eu acho a sua cantoria durante a noite, a despeito da sua falta de imaginação e da sua monotonia. Mas o que ela perde em riqueza estética é plenamente compensado pelo seu poder hipnótico, o que é bom para fazer dormir.

Mas o fato é que nós, humanos, não consideramos os sapos como animais com que gostaríamos de conviver. Ter um cãozinho, um gato ou um coelho como bichinho de estimação, tudo bem. Mas se o menino quisesse ter um sapo como bichinho de estimação, os pais tratariam de levá-lo logo a um psicólogo para saber o que havia de errado com ele. Sapo é bicho de pesadelo.

Quem sugere isso são as Escrituras Sagradas. Está relatado, no capítulo oitavo do livro de Êxodo, que Deus, para dobrar a obstinação do faraó egípcio que não queria deixar que o povo de Israel se fosse, enviou-lhe uma série de pragas de horrores, uma delas sendo a dos sapos. Diz o texto que a praga era de rãs, mas não faz muita diferença.

Eis que castigarei com rãs todos os teus territórios. O rio produzirá rãs em abundância, que subirão e entrarão em tua casa, e no teu quarto de dormir, e sobre o teu leito, e nas casas dos teus oficiais, e sobre o teu povo, e nos teus fornos, e nas tuas amassadeiras.

Já imaginaram o horror? A gente entra debaixo das cobertas e sente o frio das rãs que lá estão. Morde o pão e dentro dele está uma rã assada.

Nas estórias infantis é a mesma coisa. A bruxa poderia ter transformado o príncipe numa girafa, num tatu ou num gato. Escolheu transformá-lo no mais nojento, um sapo. E há aquela outra estória em que o sapo queria dormir na cama com a princezinha. Tão horrorizada ela ficou de ter de dormir com um sapo que, para evitar os beijos e seus desenvolvimentos inevitáveis, pegou-o pela perna e jogou-o contra a parede. Esse ato teve efeito mágico, pois, ao cair no chão, o sapo transformou-se em príncipe. Já aconselhei pessoas a lançar contra a parede seus sapos e sapas conjugais, para ver se o contrafeitiço funciona também para os humanos. Parece que não.

O horror do sapo aparece também numa sugestiva expressão popular: “ter de engolir sapo”. Por que não “ter de engolir gato”, “ter de engolir borboleta”, “ter de engolir tico-tico”? Porque mais nojento que sapo não existe.

Essa expressão traz o sapo para o campo das atividades alimentares. Engolir é comer. O ato de comer é presidido pelo paladar. O paladar é uma função discriminatória. Ele separa o saboroso do não saboroso. O saboroso é para ser engolido com prazer. O não saboroso, o corpo se recusa a comer. Cospe. “Ter de engolir sapo”: ser forçado a colocar dentro do corpo aquilo que é nojento, repulsivo, viscoso, frio, mole.


Não há forma de engolir sapo com prazer. Engolir um sapo é ser estuprado pela boca. Há um ditado inglês que diz: “If you are going to be raped, and there is nothing you can do about it, relax and enjoy it”: se você vai ser estuprado e você não pode fazer nada para impedi-lo, relaxe e trate de gozar o mais que puder. Esse ditado sugere a possibilidade de sentir prazer em ser estuprado. Pode até ser. A psicanálise me ensinou a aceitar a possibilidade dos mais estranhos prazeres perversos. Mas não há relaxamento que faça do ato de engolir um sapo uma experiência prazerosa.

Por que engolir um sapo?

Há pessoas que engolem sapos por medo. Bem que seria possível evitar a repulsiva refeição: o sapo é um sapinho. Mas elas preferem engolir o sapo a enfrentá-lo. Não têm coragem de pegá-lo e jogá-lo contra a parede. Pessoas que fizeram do ato de engolir sapos um hábito acabam por ficar parecidas com eles: andam aos pulos, sempre rente ao chão e coaxam monotonamente.

Mas há situações em que é inevitável engolir o sapo. Eu mesmo já engoli muitos sapos e disto não me envergonho. O meu desejo, com esta crônica, é dar uma contribuição ao saber psicanalítico, que até agora fez silêncio sobre o assunto. Muitos dos sintomas neuróticos que afligem as pessoas resultam de sapos engolidos e não digeridos.

Tudo começa com um encontro: à minha frente um sapo enorme, ameaçador, com boca grande. A prudência me diz que é melhor engolir o sapo a ser engolido por ele. É melhor ter um sapo dentro do estômago (sapos engolidos nunca vão além do estômago) do que estar no estômago do sapo.

Aí, impotente e sem opções, deixo que ele entre na minha boca, aquela massa mole e nojenta. É muito ruim. O estômago protesta, ameaça vomitar. Explico-lhe as razões. Ele cessa os seus protestos, resignado ao inevitável. Não consigo mastigar o sapo. Seria muito pior. Engulo. Ele escorrega e cai no estômago.

Alimentos não digeríveis são eliminados pelo aparelho digestivo de duas formas: ou são expelidos pelo vômito ou são expelidos pela diarreia. Os sapos são uma exceção. Não são digeridos, mas não são expelidos nem pelas vias superiores nem pelas vias inferiores. Os sapos se alojam no estômago. Transformam-no em morada. Ficam lá dentro. Por vezes hibernam. Mas logo acordam e começam a mexer.

Ninguém engole sapo de livre vontade. Engole porque não tem outro jeito. Tem sempre alguém que nos obriga a engolir o sapo, à força. A pessoa que nos obriga a engolir o sapo, a gente nunca mais esquece. Diz a Adélia que “aquilo que a memória amou fica eterno”. Aí eu acrescento algo que aprendi no Grande sertão. Conversa de jagunços matadores. Diz um: “Mato, mas nunca fico com raiva”. Retruca o outro, espantado: “Mas como?”. Explica o primeiro: “Quem fica com raiva leva o outro para a cama”. É isso. A gente leva para a cama a pessoa que nos obrigou a engolir o sapo. A raiva também eterniza as pessoas. Não adianta falar em perdão. A gente fica esperando o dia em que ela também terá de engolir um sapo. Ou, como dizia uma propaganda antiga de loteria, a gente reza: “O seu dia chegará...”.
Rubem Alves, "Palavras para desatar nós"

O bicho está vivo

Eu queria que a Kamala ganhasse e estava convencido de que ia ganhar. Até fiz apostas e tudo, gravadas em vídeo para não haver dúvidas.

Substitua-se a palavra Kamala por Hillary e podíamos estar em 2016: será que não aprendi nada em quase dez anos?

O único alento vem do eleitorado americano, que representa todos os eleitorados, em todas as democracias em que cada pessoa pode votar, e cada voto vale tanto como qualquer outro.

Qualquer eleição é magnífica. Representa o triunfo do indivíduo. Representa o triunfo da sensatez: todos aceitam que a maioria é que tem o direito de decidir.

No caso da vitória de Trump, tenho isto a dizer: quem quer vencer eleições não pode insultar a maioria. E também não se pode insultar as grandes minorias que facilmente se tornam maiorias. Não o pode fazer nem directa nem implicitamente. Tanto faz dizer que são deploráveis (Hillary Clinton) ou que são lixo (Joe Biden).



Nem é preciso chamar-lhes nomes: basta ficar calado e agir com a condescendência do costume.


O lixo reage mal. É que o lixo é constituído um a um. Cada bocado de lixo é diferente. E cada bocado de lixo pensa antes de votar.

Trump ganhou porque as mulheres não votaram todas como se queria que as mulheres votassem. Ganhou porque os negros não votaram todos como se queria que os negros votassem. Ganhou porque os latinos não votaram todos como se queria que os latinos votassem.

Votaram um a um, como eleitores que são. Recusaram-se, um a um, a corresponder ao que era esperado deles. E porquê? Porque não são grupos. Não são peças num tabuleiro. Não são blocos. Não são sondagens.

São indivíduos. São imprevisíveis. São desobedientes. São complexos – até para os amigos, até para a família. Só têm uma coisa em comum: não gostam de ser catalogados.

Não gostam que a individualidade deles seja diluída. Não gostam de raspanetes. Não gostam de ser tratados como criancinhas. Não gostam de receber ordens.

O bicho está vivo: o bicho é o povo.

Testemunha


Não podemos afirmar a inocência de ninguém, ao passo que podemos afirmar com segurança a culpabilidade de todos. Cada homem é testemunha do crime de todos os outros
Albert Camus, "A queda"

Elon Musk: de visionário a rei da desinformação

Os Estados Unidos foram às urnas, e, além de Trump, outro grande vencedor emergiu: Elon Musk. Isso não é um bom presságio, nem para os EUA, nem para o Brasil, nem para o mundo. Antes aclamado por seus avanços pioneiros na mobilidade elétrica (Tesla), no acesso à internet (Starlink) e nas viagens espaciais (SpaceX), Musk agora se tornou um teórico da conspiração, que espalha sem filtro mentiras no X em favor de Donald Trump e de grupos de extrema direita.

O Brasil deveria interpretar isso como um alerta: Musk também está influenciando a política brasileira por meio do X. Quando ele se recusou a bloquear contas que, segundo o ministro do STF Alexandre de Moraes, desestabilizam a democracia, o X foi bloqueado por seis semanas. Em resposta, Musk chamou o juiz de "criminoso" e "ditatorial" – mas é ele, o homem mais rico do mundo, que está manipulando eleições.

A questão nem são os 118 milhões de dólares que Musk doou a Trump através do America PAC – doações de empresários também vão para os democratas. Isso apenas revela o quanto o sistema é falho: só ganha quem investe milhões de dólares, o que contradiz a essência da democracia. Cada grande doador tem, evidentemente, seus próprios interesses econômicos, que raramente coincidem com os da maioria.


A campanha eleitoral deste ano nos EUA foi mais que nunca um espetáculo, com drama, reviravoltas, muita emoção, música e celebridades. Quem se beneficia são as emissoras de TV e rádio, além das gigantes de internet como Google, Meta, ByteDance (TikTok) e o X, de Musk. Quanto mais o X entra em polêmica, mais Musk lucra, e ele contribuiu muito para isso.

Musk, que possui Síndrome de Asperger, destaca-se por ideias geniais e por vezes megalomaníacas (como a colonização de Marte), mas também está cada vez mais desconectado da realidade. Musk afirma que comprou o X por 44 bilhões de dólares para salvar a liberdade de expressão. Para ele, no entanto, essa liberdade significa espalhar desinformação irresponsável. Ele difundiu, por exemplo, a teoria do "Grande Substituição", segundo a qual haveria um plano governamental para substituir a população branca dos EUA por pessoas da América Latina, África e Ásia.

Desde que Musk assumiu o controle da rede social, o algoritmo do X começou a despejar cada vez mais conteúdo desse tipo nas timelines dos usuários: bizarros, absurdos, repletos de ressentimento e ódio. O feed pessoal de Musk se transformou num megafone pró-Trump, onde ele constantemente reproduziu slogans do movimento Maga (Make America Great Again) para seus 203 milhões de seguidores.

Para ampliar seu alcance, Musk contratou, em julho, cerca de 80 engenheiros. Como resultado, o engajamento na conta de Musk no X aumentou drasticamente. As visualizações de suas postagens cresceram 138%, os retuítes, 238%, e as curtidas, 186%.

Segundo uma pesquisa da ONG Center for Countering Digital Hate (CCDH), as postagens políticas de Musk foram exibidas mais de 17 bilhões de vezes nas timelines dos usuários. Se fossem anúncios, valeriam cerca de 24 milhões de dólares. Ainda conforme o CCDH, 87 das postagens de Musk sobre as eleições nos EUA eram falsas ou enganosas, incluindo a alegação de que os democratas trariam milhões de imigrantes sem documentos para obter seus votos. Essa mentira foi reproduzida 3 bilhões de vezes.

Curiosamente, nenhuma dessas 87 postagens foi sinalizada com as chamadas Community Notes. Essas notas existem para permitir que os usuários "adicionem contexto a postagens potencialmente enganosas".

Musk e seus fãs gostam de afirmar que o X é neutro, mas estudos mostram que o conteúdo pró-Maga se tornou viral muito mais frequentemente e alcançou mais pessoas do que outros conteúdos. Provavelmente o mesmo acontecerá em futuras eleições no Brasil.

O mergulho de Musk no universo Maga e no bolsonarismo tem raízes pessoais. Seu filho, nascido em 2004 como Xavier Alexander Musk, anunciou sua mudança de gênero e nome há dois anos. Desde então, Musk tem se desentendido com Vivian Jenna Wilson. "Perdi meu filho ", disse Musk, acrescentando que ele estaria "morto".

Segundo o próprio Musk, foi essa experiência que o levou a prometer destruir o "vírus do woke". Desde então, ele dissemina teses questionáveis sobre pessoas trans e aboliu as regras de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI) na Tesla – chamando-as, numa inversão dos fatos, de "racistas" e "sexistas".

É surpreendente que alguém como Musk, cujos produtos exigem precisão científica, adere a teorias da conspiração. Torna-se mais compreensível quando se entende que as empresas de Musk mantêm contratos grandes e lucrativos com o governo americano. Ao mesmo tempo, enfrentam investigações em pelo menos 20 casos, incluindo a segurança dos veículos da Tesla e os impactos ambientais dos foguetes da SpaceX.

Trump prometeu ao seu novo aliado nomeá-lo chefe de uma nova "comissão de eficiência governamental". Caso Musk conquiste o cargo prometido por Trump, ele terá o poder de regulamentar justamente as agências que fiscalizam suas empresas por violações legais. Um conflito de interesses absurdo – mas não é surpreendente: o capitalista apoia os políticos que o ajudam a atingir seus objetivos.

Nestas eleições, o próprio Musk destruiu a ideia de que redes sociais como o X são neutras. Por muito tempo, essas plataformas gozaram de uma imunidade para disseminar mentiras que corroem o debate público saudável. Está na hora de os governos regulamentarem com mais rigor o poder oligopolista que um punhado de bilionários da tecnologia, como Musk, exerce sobre nossa informação diária. O Brasil e Alexandre de Moraes já mostraram como isso pode ser feito.

A volta do fantasma de Bolsonaro

Fantasma. Substantivo masculino. Imagem fantasiosa e ilusória que infunde terror e medo. Desde a violenta pantomima de 8 de janeiro de 2023, dia de uma tentativa de golpe insuflado pelo clã Bolsonaro, eu parei de mencionar esse nome na coluna. Não foi promessa. Tinha se tornado um nome indizível – e, felizmente, inelegível. Melhor não valorizar assombrações, porque elas podem voltar.

O fantasma voltou, com a vitória avassaladora de Trump. Louvo o enorme esforço dos colunistas políticos para explicar a nós e ao mundo o porquê de um placar tão surpreendente. Uma hora é a economia, estúpido – são os altos preços nos supermercados, os aluguéis caros e os baixos salários. Outra hora é a revanche contra elites intelectuais. Ou a repulsa a imigrantes. Ou a idolatria às armas. Ou a aversão ao aborto. O que seja.


A desilusão mundial com a política convencional também é responsável pelos votos de vingança. Há um claro prazer em votar contra, por ressentimento. É uma catarse do povão que não se vê representado por ninguém – e adora candidato grosseiro que fala palavrão e imita sexo oral com microfone. A Oposição tem feito estragos em eleições. Por isso, 2026 é um ano que pode legitimar versões pioradas de Bolsonaro. Elas marçalam por aí.

Os brasileiros não se interessaram pela eleição americana apenas porque os EUA são uma superpotência nuclear, econômica, militar. Pensamos em nosso futuro, nossas florestas, nossos empregos, nossos filhos, nossa saúde, nossa paz. E sabemos que grande parte do eleitorado no Brasil apoia Trump e seu amigo tosco brasileiro.

“Não fiquem desesperados”, discursou Kamala, e seu sorriso exibia um travo amargo. Moças choravam. Não há como não sentir desespero diante de tanto poder dado a Trump. Um convidado na festa no resort de Mar-a-Lago era Eduardo Bolsonaro. Seu pai, condenado pela Justiça, quer o passaporte de volta para celebrar a vitória do ídolo nos States. Soa a pesadelo. Uma coisa é a afinidade com Milei, outra o apoio de Trump.

É preciso, sim, respeitar o voto popular. E o Brasil tem de perseguir uma relação pragmática com Trump. Mas o futuro dá medo. Sabemos o que foram os quatro anos de Bolsonaro, aprendiz do trumpismo. A ignorância e a crueldade durante a pandemia. Muita gente esquece e minimiza o estrago, as mortes. O vandalismo contra nossa democracia.

Se existe algo que torna o Brasil superior aos EUA diante dessas duas figuras políticas, é a Justiça. O STF tornou Bolsonaro inelegível. Mas Trump pôde se candidatar como se não fosse um criminoso condenado. Muito antes de tudo isso, nossa democracia havia falhado ao não cassar o mandato do então deputado Jair Messias Bolsonaro quando ele elogiou publicamente, na Câmara, um torturador, o coronel Ustra. Estava tão claro, ali, o ovo da serpente.

Leio um livro oportuno. “Autocracia S.A. – os ditadores que querem dominar o mundo”, de uma ex-colunista do Washington Post, Anne Applebaum, ganhadora do Pulitzer. “Todos temos na mente uma imagem caricata do Estado autocrático. Há um homem mau no topo. Ele controla o Exército e a polícia. Que ameaçam as pessoas com violência. Há colaboradores malvados e, talvez, alguns bravos dissidentes”.

No século XXI, escreve Anne, “essa imagem tem pouca semelhança com a realidade. As autocracias são governadas não por um cara malvado, mas por sofisticadas redes. Escoradas em estruturas financeiras cleptocráticas, um complexo de serviços de segurança, e especialistas em tecnologia que fornecem vigilância, propaganda e desinformação”.

Deu na Bloomberg: com a eleição de Trump, a fortuna dos 10 mais ricos do mundo subiu US$ 64 bilhões em um único dia, um recorde histórico. Elon Musk foi o maior vencedor, com US$ 26,5 bilhões.

No creo en brujas, pero que las hay, las hay.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Pensamento do Dia

 


Na nova eleição de Trump, o triunfo da perversidade

“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.” Nunca pensei que um dia diria isso, mas a Dilma tinha razão. Nessa eleição, não houve ganhadores ou perdedores: todos perderam. Mesmo que Kamala Harris tivesse saído vitoriosa (o que teria sido, antes de tudo, um alívio imenso), a realidade é que seria impossível ignorar a quantidade de eleitores americanos – "estadunidenses" – que considerou normal votar em Donald Trump. Ou, dito de outra forma, que achou, e ainda acha, Donald Trump normal.

(Aliás: chamar “americano” de “estadunidense” é o tipo de preciosismo que ajuda a eleger trumps. É desnecessário, é ridículo e, sobretudo, como todo jargão identitário, é divisivo, uma sinalização de virtude cultural acintosa. Ninguém jamais se confundiu, ninguém jamais pensou num mexicano, num canadense ou num sul-americano ao ouvir “americano”. Todo mundo sabe que americano é americano – “O americano tranquilo”, “Um americano em Paris”, “Pastoral americana”. Me avisem quando começarem a cantar “Tu vuò fà lo statunitense”.)

Essas eleições não foram sobre esquerda ou direita, dois rótulos gastos e cada vez mais irrelevantes; foram sobre duas formas de se estar no mundo, sobre os limites do que se entende por sociedade, civilização, decência.


O problema de Donald Trump não é ser de direita – é todo o resto. O problema dos seus eleitores não é serem de direita – é aceitarem que para o seu candidato não existem regras no jogo, e que um homem despreparado, rancoroso e desprovido de empatia pode ser líder, não apesar das suas falhas, mas justamente por elas.

Estão comemorando, sem se dar conta da derrota geral, universal mesmo, que representa essa vitória.

Foi fácil entender quem elegeu Trump pela primeira vez. Já em 1959, aqui no Brasil, Cacareco, rinoceronte carioca emprestada ao zoológico paulista, teve mais de 100 mil votos para a Assembleia, superando qualquer outro candidato. É lógico que os eleitores que escreveram “Cacareco” nas cédulas não achavam que ela podia fazer um bom trabalho; apenas tinham certeza de que ninguém na disputa os representava, e deram sua opinião sincera sobre o establishment.

Em 2016 Trump era um Cacareco, um voto de protesto que podia ser justificado pela alienação do eleitorado e pela escolha de Hillary Clinton pelo Partido Democrata.

A reeleição de Trump agora, em 2024, é mais difícil de entender. Ele conduziu uma política isolacionista que diminuiu os Estados Unidos no cenário internacional, fez uma administração catastrófica da pandemia, incitou a invasão do Capitólio. Sabemos o que pensa. Seu caráter é conhecido – ele é visceralmente mau, e não faz esforço algum para disfarçar a falta de compromisso com qualquer virtude.

Uma coisa é um voto de protesto numa figura pública duvidosa, outra é o voto num homem tão reconhecidamente perverso. Achar graça de Trump ainda podia ser compreensível em 2016; não em 2024. A sua reeleição esvazia o argumento do Cacareco, e desfaz a narrativa reconfortante que, da primeira vez, ele foi eleito quase que por acaso.

Não, o eleitor não é inocente.


A maioria aterrorizante

Este país queria Donald Trump e sua promessa de liderança e força. Os Estados Unidos queriam o radicalismo, a brutalidade e a clareza que Trump exala. Trump não é um acidente de percurso na história, o país tomou uma decisão consciente. O poder dele se baseia na vontade de uma maioria aterrorizante.
 
Süddeutsche Zeitung, maior jornal diário na Alemanha

Vitorioso de novo, Trump não é um acidente da história

Em 16 de junho de 2015, Donald Trump, milionário da construção civil e celebridade da mídia com seu programa "O Aprendiz", anunciou das escadas rolantes de sua dourada Trump Tower que iria se candidatar à Presidência dos EUA. Muita gente achou que não passava de mais um de seus lances para valorizar sua imagem e aumentar sua fama.

Nos primeiros meses, houve até um debate no meio jornalístico sobre se a imprensa deveria cobrir sua campanha na seção de política ou de entretenimento.

Depois de sua vitória em 2016 e nos anos seguintes, muitos passaram a considerá-lo um acidente da história, um tropeço passageiro na sólida caminhada da democracia americana prestes a celebrar 250 anos em 2026.

Agora, com sua recondução para um novo mandato, parece claro que essa interpretação é equivocada e ingênua. Trump representa vigorosamente o pensamento e as convicções de uma porcentagem significativa da população do país: de 25 a 33% dos cidadãos com direito a voto e cerca da metade dos que efetivamente exercem esse direito.


Mais ainda: ele não é um raio em céu azul. Trump é apenas o mais recente e bizarro caso de uma linhagem de populistas e demagogos de extrema direita que tiveram o apoio de dezenas de milhões de americanos ao longo da história. Ele não é causa, mas sim consequência das ações e crenças dessas pessoas.

Por exemplo, em 20 de fevereiro de 1939, no mesmo Madison Square Garden em Nova York onde Trump fez seu último grande comício de campanha deste ano, a organização America First juntou 20 mil pessoas para ouvirem discursos antissemitas e pró-germânicos em que os oradores falavam de um pódio com a imagem atrás de si de George Washington cercado de suásticas.

Nos anos 1940, os programas de rádio do padre Charles Coughlin, que também pregava o antissemitismo, tinham audiência estimada em 30 milhões de pessoas, quando a população do país era de 130 milhões.

Na época, o principal porta-voz do movimento America First era o aviador Charles Lindbergh, um dos maiores ídolos nacionais na primeira metade do século passado, que havia sido condecorado pelo regime de Adolf Hitler e chegou a ser seriamente considerado para ser candidato à Presidência do país pelo Partido Republicano.

Em 1968, o governador racista do Alabama, George Wallace, e seu colega de chapa por um partido independente, general Curtis LeMay (que defendia o uso de bombas nucleares contra o Vietnã até reduzir aquele país à Idade da Pedra), conseguiram 14% dos votos populares e 46 dos 538 votos do Colégio Eleitoral.

Os exemplos recentes ou mais antigos se multiplicam: as leis de apartheid que permaneceram vigentes em estados do sul do país até os anos 1960; a Ku Klux Klan, movimento que sobrevive até hoje, responsável por incontáveis atos de terrorismo e de assassinatos e linchamentos de negros, judeus e católicos; a perseguição a comunistas liderada por Joe McCarthy nos anos 1950.

Trump e seus apoiadores são continuadores dessa tradição americana, que é minoritária na sociedade, mas não é desprezível nem numericamente nem do ponto de vista de influência e poder político.

Vários estudiosos importantes, como Steven Levitsky (de Harvard), estudam a atual distopia americana e alertam para a possibilidade da ruptura da democracia nos EUA no bojo da onda de ressentimento de pessoas brancas radicais que empoderam Trump e o veem como o líder capaz de resolver os seus problemas.

Esse movimento autoritário, extremista e discriminatório subsiste há séculos e não acabará enquanto suas causas mais profundas não forem entendidas e as instituições não se equiparem para combatê-las e as superarem.

Bolsonaro, chega de enganação. Vai procurar o que fazer!

“O que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil”, disse Juracy Magalhães, embaixador do Brasil em Washington, nomeado pelo general Humberto Castelo Branco, o primeiro presidente da ditadura militar de 64. A frase ainda ressoa.

O Brasil, à época da guerra fria, quando o mundo estava dividido em dois blocos – um sob o comando dos Estados Unidos, o outro sob o comando da União Soviética –, era mais uma ditadura militar a instalar-se na América Latina, a mais importante delas.

Os militares haviam dado o golpe a pretexto de salvar o país do comunismo. E parte dos políticos que aderiu ao golpe acreditou que a democracia seria restabelecida a tempo de realizar uma nova eleição presidencial dali a um ano. Ela aconteceu 25 anos depois.


Se dependesse de Bolsonaro, filhote da ditadura, a democracia não teria sido restabelecida tão cedo. E para seu gosto, teria torturado e matado muito mais gente do que torturou e matou. Quem o disse foi ele mesmo em discursos e entrevistas disponíveis no Youtube.

Agora, com a volta de Trump à Casa Branca, o que Bolsonaro passou a dizer? Não pegaria bem para ele simplesmente plagiar Magalhães. De resto, a frase de Magalhães pode escapar ao seu conhecimento. Raso como um pires e autocentrado, ele então diz:

– O Trump agora tem maioria no Senado. […] Nós partiremos para uma revolução em 2026. Podemos ter, sim, uma bancada enorme de senadores e deputados, agregando outros partidos do nosso lado. Tem tudo para acontecer.

Eduardo Bolsonaro (PL-SP), o Zero Três, ousa ir mais adiante do pai. E a respeito de Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal e presidente do inquérito sobre o fracassado golpe do 8 de janeiro, afirma sem pestanejar:

– Vai ser colocado uma espécie de freio [nele]. Você acha que o Alexandre de Moraes vai comprar briga com o ministro Elon Musk?!

Dono do X, Musk deverá ocupar um cargo importante no novo governo de Trump. Moraes tirou o X do ar no Brasil porque Musk descumpriu ordens da justiça brasileira. Eduardo imagina que a inelegibilidade do seu pai será revertida em breve.

Doravante, não só Musk se daria ao trabalho de pressionar Moraes em favor de Bolsonaro: Trump também o faria. O que Moraes e seus colegas acham disso? Eles acham graça. Têm mais o que fazer do que dar trela à família Bolsonaro.

Trump é um fenômeno político, goste dele ou não. Bolsonaro não passa de uma caricatura grosseira de Trump. Por quatro anos, Trump manteve-se à tona e está de volta. Bolsonaro foi o único presidente brasileiro que não se reelegeu e que poderá ser preso.

O que possa ser bom para os Estados Unidos deixou de ser necessariamente bom para o Brasil.

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

A mensagem das eleições

A mensagem destas eleições não seria a reformulação de implacáveis polos? Elas não apresentam o desejo de tempos mais igualitários e democráticos? Eleição que nas brutais cadeiradas e repugnante má-fé confirma nossa dificuldade de competir como iguais, vendo os adversários como alternativa, e não como inimigo?

O equilíbrio dos eleitores, comprovando que sabem votar, expressa a domesticação das dualidades negativas que vão dos “dois Brasis” — o desenvolvido e o subdesenvolvido — ao clássico e messiânico “litoral/sertão”; assenta-se na oposição da casa/rua, do sabido/trouxa e chega ao cósmico Fla-Flu de Nélson Rodrigues.

No meu entender, o resultado eleitoral estampa o velho “nem um nem outro”. É sinal dos estertores para a polarização, sempre embrulhada em redes de relações pessoais, entre uma esquerda santificada e pura, destinada a cuidar do povo pobre e do pobre povo, contra uma direita satânica, compromissada com o mercado e com o imperialismo ianque.

Ao sinalizar a recusa da polaridade negativa, esse resultado não seria revelador do elo moral escondido entre Lula e Bolsonaro? Sim, porque sem o Lula do petrolão, não haveria o Bolsonaro da negação e do golpe. A preferência para o “centro” mostra o esvaziamento das fórmulas tipo bala de prata esquerdistas e do caos “salvacionista” da direita.

O resultado das urnas não é um gesto de esperança da cura de nossa estadomania, estadolatria e estadopatia? A fé cega de que será exclusivamente pelo Estado que a sociedade, vista como errada ou doente, inviável ou feudal e torta pela tara de origem racial doentia, seria consertada? Corrigida e curada por seus luminares, donos das receitas legais que logo anistiam os desviantes em função de suas prerrogativas que reagem ao poder público.

Não seria o ajustamento entre costumes, práticas sociais, legislações e diretrizes públicas que os eleitores pretendem? Não seria uma mensagem de que os extremos são reais, mas podem ser complementares? Não seria essa humildade de ser eleito para o povo e não pelo povo, como manda o populismo?

Não seria este pleito municipal um voto devotado a eleger quem promete mais liberdade para trabalhar com autonomia individual? Com menos chavões ideológicos e ineficiência cartorial, como dizia Hélio Jaguaribe? Com mais competência e menos da pomposa burrice legal que facilita a malandragem burocrática dos jeitinhos e da grossa corrupção?

Menos Estado onipotente e mais sociedade com liberdade e consciência dos limites dos seus costumes? Não seria essa a aspiração de todos nós, cansados de legalismos que excluem os privilegiados — seres isentos e acima das leis?

Não seria a hora de domesticar o elitismo de direita e de esquerda e sair dos privilégios e dos palácios feitos por nobres, mas irresistíveis aos eleitos pelo povo? Não seria tempo de mais coerência jurídica, condenando os que usam a máquina do Estado para suas ambições? Não seria tempo de governar menos para a parentela, partido, ideologia; e mais para as carências das cidades e do povo anônimo, relevante apenas no período eleitoral?

Quando — parece presumir o resultado eleitoral — uma dessas figuras será mesmo enjaulada provando que a lei vale para todos?

Esta eleição inventou o “pobre de direita”, a expressão mais reacionária do direito de escolher vigente nos Estados Democráticos de Direito. A direita estigmatizada faz perna com o “pobre de esquerda”, que também tem seu ponto cego como todo posicionamento ideológico.

Aliás, cabe perguntar: quem é mais conservador? Os esquerdistas, que permanecem atados a sua fé nos “operários de todo o mundo, uni-vos”, ou este velho cronista, que simplesmente tem fé na obrigação de compreender os inesperados? As permanentes surpresas que destoam e sepultam nossas previsões e determinismos; e escancaram a surpreendente porta da História.

A eleitorcracia contra o mundo

Por muitos séculos, as tribos de seres humanos não percebiam que o mundo existia; cada grupo étnico se sentia único. Aos poucos, o mundo foi se transformando na soma-de-países diferentes que conviviam ou disputavam em guerras entre eles. O mundo passou a ser percebido maior do que cada país, mas suas populações não eram integradas.

Nas últimas décadas, o mundo ficou integrado econômica e culturalmente, diversas entidades foram sendo criadas para promover a cooperação entre países em fóruns internacionais. É muito recente a atual realidade em que cada país é um pedaço-do-mundo. A foto desde o espaço trouxe a percepção de que a Terra é um território unificado e com recursos limitados. O planeta deixou de ser apenas um conceito de astronomia e se transformou na casa de todos os humanos. As mudanças climáticas passaram a ser vividas em qualquer parte do globo, mostrando que a humanidade não é mais apenas um conceito filosófico. Pela primeira vez, os seres humanos perceberam que têm um destino comum que não respeita fronteiras nacionais. As migrações em massa mostram que a busca por sobrevivência não respeita as distâncias nem as fronteiras.


A Terra passou a ser uma casa e a humanidade, uma família, mas cada indivíduo se mantém ligado e fiel ao seu país. A política segue baseada nos interesses dos indivíduos organizados nos espaços nacionais e até regionais. Para o eleitor, o que interessa é qual será o melhor presidente para atender aos interesses de seu país nos próximos anos. No caso dos Estados Unidos, país decisivo no futuro do planeta e da humanidade, a eleição pode ser decidida pelos interesses dos eleitores do bairro de uma cidade, sem qualquer compromisso com o longo prazo do mundo.

O mundo ficou interligado, mas a democracia escolhe os dirigentes locais conforme as promessas dos candidatos para atender aos interesses da maioria dos indivíduos local e imediatamente. A democracia é, na verdade, uma eleitorcracia movendo os eleitores sem sentimento com a humanidade, sem compromisso com o resto do mundo, nem mesmo com povos que vivem em países vizinhos. Tampouco com os interesses da própria nação no longo prazo. Cada país é um pedaço-do-mundo, nenhum povo aceita decidir seu futuro com base em ser parte da humanidade, nem os de outro país, nem aqueles que ainda não nasceram no próprio país. Isso fica visível na aversão dos eleitores de cada país aos imigrantes, tanto os estrangeiros vindos de outros países quanto as gerações que ainda não nasceram. Sobretudo no momento em que a era da abundância deu lugar a uma era da escassez.

As eleições recentes nos Estados Unidos e na Europa mostram a visão míope da eleitorcracia. A fala e as atitudes dos candidatos, uns mais outros menos, têm de estar sintonizadas com os interesses dos eleitores para o presente em suas comunidades. O sonho nacional não foi substituído por um sonho humanista. A política segue vinculada ao tempo do mundo soma-de-países, e os candidatos são obrigados a fazer promessas colocando os desejos dos eleitores em primeiro lugar, sem considerar o suicídio implícito no longo prazo. Nos anos 1960, a corrida armamentista levou eleitores e eleitos dos Estados Unidos e da União Soviética a defenderem cada um deles, sabendo-se que, no longo prazo, se marchava para um suicídio da civilização. A catástrofe não ocorreu porque os governos tinham possibilidade de controlar o uso das bombas, mas nenhum presidente controla a ânsia de consumo e de ganância de cada cidadão, e o espírito tribal de proteger os privilégios que já dispõe contra os estrangeiros.

Diferentemente da bomba atômica, a bomba consumista é detonada por cada ser humano, controlando aos governantes pelo poder soberano do eleitor na eleitorcracia.

Os eleitores não escolhem o melhor presidente para fazer um mundo melhor no futuro, apenas o que melhora o seu ao redor nacional no imediato. A maioria dos eleitores não busca o melhor nem mesmo para o seu país como pedaço do mundo no longo prazo. A democracia não reflete o interesse do povo no futuro, apenas da maioria dos eleitores para hoje. Por isso, deveria ser chamada eleitorcracia.

Dificilmente a eleitorcracia vai definir regras nacionais para proteger o meio ambiente planetário no longo prazo. O emprego no presente pesa mais na decisão do eleitor do que o risco das catástrofes mundiais devido às mudanças climáticas. Por isso, os candidatos se aproximam na hora das propostas sobre imigrantes e meio ambiente. A eleitorcracia tem horror ao planeta, ao humanismo, ao futuro, aos estrangeiros, defende com lucidez os interesses imediatos e nacionais dos eleitores contra o resto mundo.

Pensamento do Dia


 

Assassinos louvados

Maria sabia que envenenava João, mas continuou na mesma trilha, sem alterar suas ações. Um outro João estava ciente de que, pouco a pouco, matava uma outra Maria, mas não mudou seu comportamento. Ainda um outro João divulgou mensagens falsas para esconder o fato de que, aos poucos, matava uma outra Maria. E muitos outros joões e marias seguiam na mesma trilha: conscientemente continuavam a matar outras marias e joões, mas alegavam que lhes era essencial continuar com as mesmas ações: questão de sobrevivência. Sobrevivência de quem, cara pálida?

Esses joões e essas marias acreditavam-se oráculos e, assim, se desculpavam, pois muitos os admiravam, pois a propaganda que faziam funcionava! Estes admiradores fechavam os olhos para as marias e os joões mortos ou moribundos e miravam apenas uma coisa que aqueles outros joões e marias queriam mostrar: the bottom line! Ou seja, dos muitos resultados decorrentes do comportamento daquelas marias e joões, só um interessava, só a um se dava importância. Como se algo tão vasto, complexo e importante como a qualidade da vida pudesse ser medido por apenas um número, o “resultado final” de uma contabilidade enviesada, que contabiliza apenas parte dos custos, socializando muitos outros. Tais como a fumaça do cigarro, a exaustão dos motores, as florestas queimadas, os peixes intoxicados, os rios assoreados e as zonas mortas nas suas fozes, o plástico em nossas veias, os químicos eternos nas nossas comidas, o arremedo de comida que nos envenena, o ar poluído que mata, a cada ano, mais que o holocausto!

Não obstante todos esses óbitos, o resultado trimestral apresentado às bolsas é o que mais importa, o que é mais louvado, como se tais resultados não decorressem, em larga medida, daquelas mortes e doenças.


São marcas de luxo que lucram com trabalho escravo, produtores de mercadorias que envenenam pessoas, extratores de recursos naturais que desequilibram o clima, vendedores de sonhos que convencem as pessoas a se endividarem para comprar coisas de que não necessitam, todo um conjunto de pessoas articuladas entre si que, comprovadamente, levam-nos, e mais ainda nossos filhos e netos, ao abismo.

Mas esses assassinos criam empregos, pagam impostos, desenvolvem tecnologias. Sem dúvida isso é verdade. Mas, quais empregos, aqueles que levam as pessoas a crises de burn out? E os impostos que pagam, superam os subsídios que recebem e os custos que não contabilizam? E as tecnologias que desenvolvem focam na ampliação do bottom line e em não contabilizar parte dos custos, que passam a ser rotulados de “externalidades”, “acidentes” e outros eufemismos! Menos de dez empresas gigantescas são responsáveis por mais da metade do plástico que destrói os oceanos!!

É triste constatar que convivemos com assassinos que, ao invés de processados e condenados, são louvados por grande parte da imprensa e dos políticos. Alguns diriam que é o mundo que se está a construir; outros, mais realistas, dirão que é a vida, inclusive a humana, que se está a destruir!

Repetição dos mesmos erros

Mesmo um exame superficial da história revela que nós, seres humanos, temos uma triste tendência para cometer os mesmos erros repetidas vezes. Temos medo dos desconhecidos ou de qualquer pessoa que seja um pouco diferente de nós. Quando ficamos assustados, começamos a ser agressivos para as pessoas que nos rodeiam. Temos botões de fácil acesso que, quando carregamos neles, libertam emoções poderosas. Podemos ser manipulados até extremos de insensatez por políticos espertos. Deem-nos o tipo de chefe certo e, tal como o mais sugestionável paciente do terapeuta pela hipnose, faremos de bom grado quase tudo o que ele quer - mesmo coisas que sabemos serem erradas.

Carl Sagan, "O Mundo Infestado de Demônios"