sábado, 19 de setembro de 2026

Extrema direita agradece a autodestruição do Supremo

Nos projetos de destruição da democracia por dentro, a luta contra o Judiciário é essencial. Em vez de fechar os tribunais, usando a força, com "um cabo e um soldado", o autocrata atual age para enfraquecer, aparelhar ou neutralizar a independência das cortes.

Exemplos não faltam de que a Suprema Corte é o alvo número 1: Hungria, Venezuela, Israel, Polônia, Turquia. A relação entre Executivo e Judiciário gera embates nos Estados Unidos, na Argentina, na Itália, na Colômbia, países que estão na rota do tsunami de extrema direita.


Em El Salvador, o presidente Nayib Bukele —modelo para as candidaturas de Flávio Bolsonaro, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado— substituiu ministros para mudar a Constituição e se reeleger. Derrotado nas eleições de 2022, após passar todo o mandato atacando e desacreditando o Supremo, Jair Bolsonaro tentou um golpe que só não deu certo porque Exército e Aeronáutica pularam fora e, sobretudo, porque não teve o apoio dos EUA, sob Joe Biden.

Herdeiro do golpismo de Jair, o filho 01 tem hoje um ministro que lhe facilita a campanha presidencial e meio trabalho realizado diante de uma corte que resolveu se autodestruir, com conchavos, interesses não republicanos, traições, cinismo e corrupção.

Pelo menos cinco ministros se deixaram vorcarizar. Puxando a fila está Alexandre de Moraes, que combateu o presidente golpista, mas se rendeu ao empresário picareta. Suas explicações não convencem. Idem para André Mendonça, que "esqueceu" de avisar ao país que Flávio Bolsonaro é investigado por ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro. Tragado pelo buraco Master, Dias Toffoli finge-se de morto.

Mensagens do celular de Vorcaro tratam de pagamentos (que seriam de R$ 500 mil mensais) destinados ao advogado Kevin Marques, filho de Nunes Marques. Outras revelam sua intimidade com Rodrigo Fux, filho do ministro do STF. Rodrigo, a exemplo de Flávio Bolsonaro, chama o banqueiro de "irmão".

Os amigos do rei formavam uma espécie de irmandade, que se dedicava a mamatas e surubas.

Não é pelos 20 centavos

Rio de Janeiro, agosto de 1979. Uma multidão segue rumo à Cinelândia, exigindo anistia ampla, geral e irrestrita aos perseguidos pelo regime militar. Na altura do Theatro Municipal, o estudante de arquitetura de 20 anos recebe das mãos de um desconhecido a vara que sustenta uma das pontas de uma faixa de protesto e a carrega até que o braço se canse, e ele a passe adiante. Ainda levará quase seis anos para que a ditadura acabe, mas em poucos dias os primeiros exilados começarão a chegar.

Fevereiro, Belo Horizonte, 1984. Nunca se saberá ao certo quantos estão ali, na Avenida Afonso Pena, no comício pelas Diretas Já. Funcionário do Banco do Brasil, 24 anos, ele está lá, prestes a ter sua primeira crise de pânico: é gente demais, impossível se mover — e maior que o desejo de enfim votar para presidente é o medo de morrer esmagado. Não morre, e o voto só virá cinco anos mais tarde — no candidato do Partido Comunista Brasileiro.


Junho de 2013, Rio de Janeiro. Corrupção, precariedade dos serviços públicos, violência policial. “Vem pra rua”, “O gigante acordou”, “Queremos hospitais e escolas padrão Fifa”. Aos 54 anos, arquiteto, câmera fotográfica em punho, ele vai aos protestos no Centro, na Barra, em Copacabana, atento para debandar antes que cheguem os black blocs.

Salvador, 2016. Domingo de abril, Jardim de Alah apinhado de gente de verde e amarelo, pedindo o segundo impeachment desde a redemocratização. O arquiteto fechou o escritório, trabalha como freelancer e, às vésperas dos 57, precisa dar um jeito de recomeçar a vida. Acha que o Brasil também.

Setembro de 2026, Rio de Janeiro. Aposentado, tardiamente cronista, 67 anos, ele podia hoje ter retomado as anotações sobre o novo mapa-múndi, o disco que Elis não gravou, as cartas dos leitores, o chacundum, o patrimônio arquitetônico que o Rio está perdendo. Ou, quem sabe, algo lírico sobre seus cachorros. Mas, como se perguntava o grande escritor que ocupava este mesmo espaço às quintas-feiras, “poesia numa hora dessas?”.

Quando o Palácio do Supremo Tribunal Federal foi depredado por vândalos na baderna do 8 de Janeiro, o país reagiu com atos em defesa da democracia. Agora a própria Justiça é vilipendiada pelo escárnio dos ministros, na infame sessão de 15 de setembro, e ninguém foi para a rua protestar. Uma facção togada decidiu que está acima da lei, e não há uma passeata, uma greve geral, um panelaço — nada.

Não é pelas relações impróprias entre um ex-banqueiro e os presidentes da Câmara e do Senado, o procurador-geral da República, servidores do Banco Central. Não é pelos indícios de pagamento de R$ 10 mil a uma prostituta por serviços prestados a um ministro ou de repasses mensais de R$ 500 mil ao filho dele. Não é pelos R$ 35 milhões em negócios envolvendo um resort no Paraná, de empresa da família de outro ministro. Não é pelos R$ 61 milhões para financiar a hagiografia cinematográfica de um ex-presidente — parcialmente desviados, com emendas parlamentares, para fins ainda menos nobres. Não é pelos R$ 130 milhões do contrato com a mulher de um ministro ou pela assessoria clandestina que, ao que tudo indica, esse ministro prestava a um investigado pelos crimes de fraude financeira, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Não é pelos bilhões do Rioprevidência e do Banco de Brasília.

É pelos 20 centavos da nossa dignidade, da nossa cidadania.

E as ruas, as praias, as praças estão vazias.

Predadores digitais: o negócio dos dados pessoais

Todo mundo tem segredos que não contaria a ninguém. Exceto, talvez, ao seu aplicativo de namoro. Que tipo de parceiro procuram. Que lugares gostam de frequentar para conhecer pessoas. Talvez até suas preferências sexuais ou seu estado de saúde. Com essas informações, o aplicativo os ajuda a encontrar pessoas compatíveis. Os usuários geralmente não percebem que esses dados também são vendidos para outras empresas.

Foi exatamente isso que supostamente aconteceu com o Grindr, um aplicativo de encontros voltado explicitamente para a comunidade LGBTQ+. Cerca de 12.000 usuários do aplicativo processaram a empresa no Reino Unido por supostamente transmitir informações pessoais altamente sensíveis a anunciantes. Em alguns casos, isso incluía até mesmo o status de HIV dos usuários .

A batalha judicial acaba de terminar com um acordo totalizando 26 milhões de libras, embora o Grindr negue qualquer responsabilidade. Em outras palavras, eles pagaram uma quantia substancial, mas não houve admissão oficial de culpa, nem condenação. Segundo o quê?


Para nós, usuários, um aplicativo é antes de tudo um produto útil, mas por trás dele geralmente existem também serviços em nuvem, ferramentas de análise, redes de publicidade e outros provedores de serviços. Estes armazenam e transmitem dados, os interligam e os analisam.

Muitas das grandes empresas de tecnologia, explica o especialista em políticas digitais Jan Penfrat, queriam "tornar o mais difícil possível para os usuários e autoridades de supervisão entenderem quais dados cada entidade coleta em nossos dispositivos e para qual finalidade".

Todo mundo sabe disso: um aplicativo — por exemplo, um serviço de mensagens — instala-se rapidamente e, quando surge a questão sobre se os dados pessoais podem ser usados , os usuários geralmente clicam em "Sim". Quem quer ler páginas e páginas de políticas de privacidade?
Imagens de conversas privadas

Mas o problema está nos detalhes. Por exemplo, o WhatsApp acessa os contatos do smartphone durante a instalação. Isso significa que os números de telefone de pessoas que nem sequer usam o WhatsApp e que nunca consentiram em compartilhar seus contatos também são transmitidos para os servidores.

O serviço de mensagens Discord coleta todas as mensagens de texto, imagens e links enviados por seus usuários — mesmo em chats privados — a menos que eles se oponham explicitamente a essa prática. Somente após anos de reclamações, em maio de 2016, o Discord introduziu a criptografia para gravações de voz e vídeo.

Quanto maior e mais interconectada for uma empresa, menos se trata de pontos de dados individuais e mais se trata de padrões: "O Google controla muitas partes diferentes de nossas vidas digitais e, por assim dizer, introduziu sistemas de coleta de dados e vigilância em praticamente todos os níveis", explica Penfrat.

"Isso começa com o hardware, quando o Google fabrica seus próprios telefones, e continua com o sistema operacional, ou seja, o Android, que já possui um identificador de publicidade único e permanente que identifica cada dispositivo durante toda a sua vida útil."

A isso se somam os aplicativos que o Google gerencia diretamente e que geralmente vêm pré-instalados: Gmail, agenda de endereços, contatos, calendário e, por último, mas não menos importante, o Google Maps, "onde você pode registrar os locais onde as pessoas estão a cada minuto. E tudo isso acaba formando parte de um enorme perfil."

O Google é apenas um dos muitos fornecedores. "É um mercado global gigantesco, de bilhões de dólares, onde os perfis de dados pessoais das pessoas são simplesmente negociados."

A União Europeia já possui uma das regulamentações de proteção de dados mais rigorosas do mundo. O Regulamento Geral de Proteção de Dados (RGPD) visa proteger os dados pessoais e a privacidade dos indivíduos.

Outras leis digitais da UE, como a Lei dos Mercados Digitais e a Lei dos Serviços Digitais, visam impedir que grandes empresas de tecnologia abusem do seu poder contra empresas e utilizadores. Estas leis também devem ser respeitadas pelas empresas americanas quando oferecem os seus serviços a pessoas na Europa ou monitorizam o seu comportamento.

Mas um controle verdadeiramente eficaz por parte da UE não é tão simples: as gigantes da tecnologia possuem infraestruturas globais, enormes recursos financeiros e modelos de negócios complexos. As autoridades europeias teriam primeiro que penetrar e compreendê-las.

A isso se soma a própria dependência da Europa: serviços em nuvem, sistemas operacionais, plataformas e, cada vez mais, também a infraestrutura de inteligência artificial são — pelo menos até agora — fornecidos em grande parte por empresas americanas .

Então, o que um consumidor pode fazer? Jan Penfrat menciona duas regras básicas: "Uma é sempre me perguntar: qual é o modelo de negócios? Como o dinheiro é ganho aqui? E aqui se aplica a frase de ouro: 'Se eu não pagar, eu sou o produto'."

Clima extremo afeta o bolso do consumidor no mundo

Os últimos 11 anos foram os mais quentes já registrados no planeta. Essa mudança climática se manifesta em eventos extremos, como ondas de calor e incêndios florestais. Mas menos evidentes são os preços mais altos e os salários menores associados a um mundo cada vez mais quente.

Segundo um estudo de 2026 da MIT Sloan School of Management e da UCLA School of Law, as mudanças climáticas já elevaram as despesas médias das famílias americanas em 900 dólares (cerca de R$ 4,6 mil) por ano, chegando a mais de 1,3 mil dólares em um de cada dez condados dos Estados Unidos.

Esses custos não existiriam em um mundo sem mudanças climáticas. Eles incluem o aumento dos seguros residenciais (em média 600 dólares mais caros), a elevação de impostos estaduais e federais devido aos custos de recuperação de desastres ou aos impactos da fumaça dos incêndios florestais sobre a saúde, por exemplo.

"A inação climática não é apenas um fracasso ambiental; ela funciona como um imposto sobre todas as famílias americanas", escreveram os pesquisadores.


Um relatório de 2024 do Instituto Potsdam para Pesquisa sobre Impactos Climáticos, na Alemanha, estimou que os danos das mudanças climáticas à agricultura, à infraestrutura e à saúde, bem como as perdas de produtividade, podem custar à economia mundial 38 trilhões de dólares por ano até 2050.

Mas de que forma os eventos climáticos extremos impulsionados pelas mudanças do clima já afetaram salários e orçamentos familiares?

"Se não conseguirmos descobrir quanto as mudanças climáticas já estão nos custando com os dados que temos, projetar o futuro se torna quase impossível", afirmou Derek Lemoine, professor de economia da Universidade do Arizona, que estimou uma redução de 12% na renda dos americanos à medida que as temperaturas globais aumentaram. A comparação é feita com um cenário sem mudanças climáticas.

Lemoine mostra como extremos de temperatura em um condado dos Estados Unidos estão provocando impactos econômicos em cascata em localidades distantes com clima mais ameno, devido à interconexão do comércio e das cadeias de suprimentos.

"Muitos estudos analisam as mudanças climáticas como se elas alterassem o clima em apenas um ano e em um único lugar por vez", disse Lemoine à DW.

Em vez disso, ele busca entender como, se uma onda de calor destruir plantações de milho em todo o território americano, outras indústrias que dependem desse milho, incluindo produtores de gado e de alimentos, serão afetadas à medida que a commodity se tornar mais escassa e mais cara.

"À medida que os custos [dos produtores afetados em toda a cadeia de suprimentos do milho] aumentam", disse Lemoine, "isso fará com que a renda de todos os que dependem deles diminua".

Os impactos do clima sobre o comércio também já são sentidos na Alemanha, onde os níveis recordes de baixa do rio Reno, a via navegável interior mais movimentada da Europa, podem reduzir em até 0,2% a produção econômica alemã no terceiro trimestre de 2026, observou o Instituto Kiel para a Economia Mundial em julho.

O clima seco prolongado associado às mudanças climáticas é o responsável, já que a capacidade de transporte caiu para apenas 15% em alguns trechos do rio que conecta o maior porto da Europa, em Roterdã, na Holanda, a grande parte do oeste da Alemanha.

Um estudo australiano também analisa como mudanças climáticas amplas, e não apenas choques locais provocados por eventos extremos isolados, levaram gradualmente à queda da produtividade e da produção econômica.

Timothy Neal, pesquisador do Instituto para Risco e Resposta Climática da Universidade de New South Wales, na Austrália, foi coautor de um relatório que mostra que o aquecimento global reduziu a produção econômica do estado de NSW em cerca de 18% em média, o equivalente a 21.288 dólares australianos (cerca de R$ 80 mil) por pessoa em 2024.

"Os danos já foram bastante severos", disse Neal à DW, acrescentando que, em um cenário sem aquecimento global, os cidadãos teriam "preços mais baixos para os alimentos" e "menos pobreza".

O relatório menciona secas em partes de NSW em meados e no final da década de 2010 que reduziram a produtividade em todo o estado em até 10 bilhões de dólares australianos, devido à queda das colheitas e da renda agrícola, ao aumento dos custos da água e à maior dependência de assistência governamental.

Esses impactos financeiros se acumularam ao longo do tempo em toda a economia do estado, influenciando os custos de alimentos, seguros e manutenção de infraestrutura.

Nas palavras do relatório, esses efeitos também "agravam pressões econômicas já existentes e contribuem para ampliar as disparidades entre regiões", o que significa aumento da desigualdade de renda e riqueza.

"A ação climática não deve ser vista apenas como uma questão ambiental, mas também como uma decisão economicamente sensata", afirmou Frank Jotzo, economista e comissário da Comissão Net Zero de NSW, que trabalha para descarbonizar o estado e encomendou o estudo citado acima.

Ao se referir a "investimentos defensivos contra as mudanças climáticas", como o reforço de estradas, ferrovias e infraestrutura de transporte marítimo para adaptação a um mundo mais quente, Jotzo acrescentou que "se não fosse pelas mudanças climáticas, poderíamos estar investindo esse dinheiro e esse esforço em outras coisas".

No entanto, medidas de adaptação, como a ampliação das áreas verdes nas cidades para reduzir os efeitos das ilhas de calor, serão fundamentais para evitar impactos econômicos muito mais severos no futuro.

As ondas de calor europeias de 2026, por exemplo, já custaram cerca de 180 bilhões de euros (R$ 1,06 trilhão), valor equivalente a todo o crescimento econômico projetado para a União Europeia neste ano, segundo uma análise.

A adaptação também envolverá o fortalecimento do sistemas de saúde e da rede hospitalar para enfrentar os efeitos das ondas de calor, que reduzem a produtividade à medida que trabalhadores submetidos ao estresse térmico se cansam mais rapidamente ou têm dificuldade para dormir, observou Jotzo.

Mas Lemoine afirma que a adaptação ao declínio econômico provocado pelas mudanças climáticas é tão "cara por si só" que pode agravar a perda de renda e ser ineficaz se não for implementada de forma abrangente.

Somente quando "todos os lugares" estiverem protegidos dos eventos climáticos extremos, será possível enfrentar os impactos econômicos em cascata, diz ele.

Ainda assim, tanto a adaptação quanto uma rápida redução das emissões que aquecem o planeta são necessárias para evitar perdas de renda impulsionadas pelas mudanças climáticas, que tendem a se agravar se o aquecimento global ultrapassar as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris.

"Mudanças climáticas sem controle criariam um peso permanente sobre os salários e a produtividade", concluiu Jotzo.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


Escândalo do Master vai eleger quem tomou dinheiro de Vorcaro?

O escândalo do Banco Master pode dar votos ao único candidato que tomou dinheiro de Daniel Vorcaro? É o que parece acontecer na eleição presidencial, a julgar pelas pesquisas divulgadas nos últimos dias.

Dos 12 concorrentes, só Flávio Bolsonaro figura como beneficiário direto do esquema. Ele é investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a Vorcaro, a quem chamava de “irmão”.


Ao ser questionado sobre o rolo, o senador simulou indignação: “É mentira! De onde você tirou isso?”. Quando ficou claro que o mentiroso não era o repórter, ele mudou de tom e alegou ter pedido patrocínio para o que descreveu como uma “obra-prima”.

Flávio nunca apresentou a prestação de contas que prometeu. Tampouco explicou como uma fita capenga, produzida pelo astro de “Floribella”, poderia se tornar o filme mais caro da história do cinema brasileiro.


Poupado das operações policiais que atingiram outros políticos da lista de Vorcaro, o senador conseguiu recuperar os pontos que perdeu em maio, quando o “Dark horse” saiu da cocheira. Agora aparece em empate técnico com Lula nas simulações de segundo turno.

Há algumas explicações na praça para o paradoxo do Master. A principal, aceita pelas duas campanhas, sustenta que Flávio é o maior beneficiário da crise no Supremo. A percepção de que até a cúpula do Judiciário se envolveu em corrupção tende a favorecer políticos que apostam no discurso antissistema. O pai do senador já surfou essa onda em 2018, no auge da Lava-Jato.

O fato de Alexandre de Moraes estar no centro das suspeitas também impulsiona o candidato do PL. O ministro foi indicado por um presidente de direita, mas se notabilizou como o homem que prendeu Jair Bolsonaro. Seu derretimento respinga na imagem de Lula, ainda que o presidente tente se distanciar do caso.

Por fim, é difícil não notar a mão amiga de André Mendonça em favor de Flávio. O ministro ocultou por quase dois meses a informação de que o presidenciável era investigado pela PF. E ainda protegeu três colegas citados no celular de Vorcaro enquanto lançava Moraes sozinho na fogueira.

A chuva já tem dono

Há uma decisão que saiu no início deste mês nos Estados Unidos e que merecia mais atenção do que teve. Um tribunal federal de recurso, reunido em plenário, decidiu que a Constituição americana não garante o direito a beber água limpa. E, no mesmo passo, decidiu que também não garante o direito a que o Estado diga a verdade aos cidadãos quando a água está contaminada.

O caso é em Jackson, no Mississippi, uma cidade onde a água que saía das torneiras tinha chumbo e onde os residentes sustentam que a autarquia sabia e deixou correr. Foram a tribunal e perderam. O juiz relator explicou-lhes, com uma serenidade que impressiona, que têm alternativas: podem intentar ações de responsabilidade civil, podem eleger autarcas que giram melhor o sistema, podem dirigir petições aos seus representantes. Pessoas que beberam chumbo durante anos receberam, como resposta do direito, um convite para participar na vida cívica.


O que me inquieta não é a indignação fácil que a decisão provoca. É perceber que os dez juízes da maioria não estão a inventar nada. A Constituição americana não fala de água. Foi escrita no século XVIII por homens para quem a água era como o ar: estava lá, e não se escreve numa constituição o direito a respirar. Os direitos que não se escrevem são precisamente os que parecem mais seguros, e são os primeiros a cair no dia em que alguém os põe em causa num tribunal. Ninguém escreveu o direito à água porque ninguém acreditou que fosse necessário. Agora que é necessário, não está lá.

Houve um tempo em que não era preciso. Nas Instituições de Justiniano, o ar, a água corrente, o mar e as praias são coisas comuns a todos por direito natural, e ninguém pode ser dono delas porque pertencem à condição de estar vivo. Esta ideia atravessou quinze séculos de direito europeu e chegou às nossas leis, que dizem que a água é um bem público. O problema é que, entre a afirmação de princípio e a prática, foi-se abrindo um espaço, e é nesse espaço que hoje se decide quase tudo.

Desde dezembro de 2020 que a água tem cotação na bolsa de Chicago. O CME Group, o mesmo mercado onde se negoceia o trigo, o petróleo e o ouro, lançou o primeiro contrato de futuros sobre água, indexado ao preço a que se compram e vendem direitos de água na Califórnia. Um agricultor que teme um verão seco compra hoje a água de junho. Um fundo de investimento que aposta na seca compra também. Convém dizer isto sem exagero, porque o exagero não ajuda: o contrato serve para gerir risco, e gerir risco é uma atividade legítima. Mas o efeito de fundo é este: a escassez de água passou a ser uma posição financeira, e há quem ganhe quando falta. Não por maldade, mas porque o sistema em que trabalha o recompensa por isso.

Depois há o Colorado, onde a história é mais reveladora precisamente porque é menos dramática. Circulam nas redes muitas histórias sobre estados americanos onde é proibido apanhar água da chuva, e a maior parte delas são falsas. A verdade é mais estranha do que o boato. No Colorado, até 2016, era efetivamente ilegal pôr um barril debaixo do algeroz. Hoje é permitido, até dois barris, e nem uma gota mais. Naquela parte do mundo a água pertence a quem primeiro a reclamou, e a chuva que cai no meu telhado, se eu a apanhar, não chega ao rio de quem detém esse direito. A chuva já tem dono antes de tocar no chão. Não é uma metáfora, é um regime jurídico com um século de tribunais a sustentá-lo.

Conto isto porque tendemos a olhar para estes casos como excentricidades americanas, e não são. São o fim de um caminho que começa sempre no mesmo sítio: no momento em que uma comunidade deixa de pensar na água como condição de vida e passa a pensar nela como recurso a gerir. E nós já estamos nesse caminho, mais adiantados do que gostamos de admitir.

Em Sines, está a nascer um dos maiores campus de centros de dados da Europa, pensado para a Inteligência Artificial, com investimento anunciado da Microsoft. Diga-se com justiça o que está bem feito: o arrefecimento faz-se com água do mar, captada e devolvida ao oceano, e não com água doce, o que é uma escolha melhor do que a de muitos centros de dados pelo mundo fora, que evaporam milhões de litros de água potável para arrefecer servidores. Mas há duas perguntas que ficaram por fazer em voz alta. A primeira é de escala: quando o campus estiver completo, passarão por ele mais de um milhão de metros cúbicos de água do mar por dia, devolvidos ao mar até três graus mais quentes, e ninguém sabe ainda muito bem o que isso faz a uma costa. A segunda é de poder: em fevereiro deste ano, o Governo publicou um decreto-lei que alarga os poderes exclusivos de uma empresa pública sobre a água na região de Sines, para responder à procura industrial gerada por projetos como este, e retirou à EDP os canais de água do mar que servem o centro de dados. A EDP foi para tribunal. Repare-se no que aconteceu: a água daquela região foi reorganizada, por decreto, em função de quem a vai precisar em grande quantidade. Pode ser a decisão certa, mas ninguém perguntou publicamente qual é a ordem das prioridades quando a água não chegar para todos, e Sines fica no Alentejo, numa zona já pressionada pela agricultura intensiva, e não é preciso muita imaginação para ver o dia em que a pergunta deixa de ser teórica.

E é aqui que a decisão de Jackson deixa de ser uma notícia distante. Em 2010, as Nações Unidas reconheceram o acesso a água potável e ao saneamento como direito humano. A Eslovénia, em 2016, inscreveu esse direito na sua Constituição com duas frases que eu gostava de ver noutras: os recursos hídricos são um bem público gerido pelo Estado e, na parte em que servem para abastecer a população, não são uma mercadoria. A nossa Constituição não o diz. Tem o direito ao ambiente e o direito à saúde, tem a Lei da Água, tem um decreto-lei de 2023 que obriga o Estado a identificar quem não tem acesso à água e a corrigir isso. É tudo lei ordinária, e a lei ordinária altera-se com uma maioria numa tarde. O direito à água, em Portugal, não está escrito onde não se possa apagar.

Não é preciso ir muito longe para ver como as prioridades mudam depressa. Em janeiro de 2024, as barragens do Algarve estavam a um quarto da capacidade, cortaram-se consumos à agricultura, ao turismo e às casas, expropriaram-se terrenos em Albufeira para uma dessalinizadora, e o processo anda desde então pelos tribunais. Este ano choveu, as barragens recuperaram e, a 30 de abril, o primeiro-ministro anunciou em Beja, numa conferência de imprensa sem perguntas, que “em Portugal não temos falta de água, temos é falta de capacidade de armazenar esse recurso”, e anunciou uma sociedade anónima para coordenar os projetos do programa Água que Une, com mil e quinhentos milhões de euros já em aplicação na área da água. Não é a empresa que me preocupa. É a gramática: em 2024 a água era uma emergência que justificava cortes e expropriações; em 2026 é um recurso que justifica uma empresa; em nenhum dos dois momentos alguém perguntou de quem é, nem quem fica em primeiro lugar quando não houver para todos.

Há coisas concretas que se podiam fazer, e nenhuma delas é radical. Escrever o direito à água na Constituição, como fez a Eslovénia, para que nenhum tribunal tenha um dia de dizer o que disse o de Jackson. Fixar em lei, de forma clara e pública, a ordem de prioridade dos usos em situação de escassez, com o abastecimento humano em primeiro lugar e sem exceções negociadas à porta fechada. Tornar públicos os contratos e as licenças de captação dos grandes consumidores industriais, para que se saiba quanta água foi prometida a quem e por quanto tempo. E exigir que qualquer projeto que precise de água em grande escala responda, antes de ser aprovado, a uma pergunta simples: em ano de seca, quem cede?

A água é de todos. Foi isso que dissemos durante quinze séculos, é isso que a nossa lei ainda diz. A questão que se coloca agora, em Sines, no Algarve, em Chicago e em Jackson, é se continua a ser para todos, ou se vai sendo, discretamente e com boas razões, cada vez mais para alguns.

Hoje à noite pode chover. Se chover no Colorado, a água que cai no telhado já tem dono. Se chover em Jackson, ninguém garante que se possa beber. Se chover em Sines, vale a pena perguntar para onde vai.

Estamos mudos e isolados

Olhe pela janela, você verá como vai o mundo. Para onde correm as pessoas? O que querem? Não diferençamos mais o encadeamento das coisas que lhes daria um sentido supra-pessoal. A despeito do rumor geral, cada um está mudo e isolado em si mesmo. O encaixe dos valores do mundo e dos valores do eu já não funcionam convenientemente. Não vivemos num mundo destruído, vivemos num mundo transtornado.
Franz Kafka, "Conversas com Kafka"

O que o caso do Banco Master coloca em cena?

Que o corpo-notícia das mulheres tem sido colocado em cena nas mídias brasileiras como vítima de violências físicas e simbólicas, todos já sabemos. São notícias que, de tão recorrentes, parecem ter perdido a capacidade de nos espantar, já fazem parte de nossa paisagem (habitual e naturalizada), como herança maldita. Feminicídios, violências sexuais, domésticas, obstétricas e digitais, entre tantas outras formas que constituem algumas das portas de entrada pelas quais o corpo feminino é produzido como notícia.

Mas, recentemente, com o escândalo do Banco Master, o corpo-notícia das mulheres parece adquirir outro modo de aparecer: o corpo-business. No caso em questão, o corpo da mulher é noticiado não mais como corpo-vítima, violentado, silenciado ou morto, mas como empreendimento e entretenimento no circuito político-empresarial masculino. O corpo feminino passa a operar como elemento estético em uma cena pública atravessada por poder, dinheiro e masculinidade patriarcal.


A escritora Bell Hooks, no livro A vontade de mudar: homens, masculinidade e amor, mostra que o problema não é a existência da masculinidade em si; é o modo como o patriarcado produz um determinado modelo de ser homem. Não se trata de uma identidade, mas de um regime de aprendizagem do próprio poder. Esse regime inclui demonstrar masculinidade, virilidade, portanto, poder, diante de outros homens. Os homens, particularmente no mundo dos negócios, exercem essa pedagogia pelo exercício de dominação, controle, invulnerabilidade. Um certo “posso tudo” e, nesse poder do “tudo”, o corpo da mulher é o objeto do consumo pelo qual se pode pagar. Corpo que é partícipe dos próprios circuitos políticos de troca e negociação. Crédito: Circuito Fora do Eixo

Mas, como as mulheres aparecem no caso Master? Para quem apareceram e sob quais condições seus corpos foram convocados a aparecer?

Na coluna da Folha de São Paulo, publicada em 12 de setembro de 2026, o jornalista Elio Gaspari, no que chama de As camas do Master, aponta a presença de mulheres, dentre elas, russas, ucranianas e convidadas do Leste Europeu em festas patrocinadas pelo banqueiro Vorcaro. Era o próprio banqueiro, nos termos do jornalista, que avaliava as mulheres categorizando-as como “wow”, “loirinha top” ou de “+”.

O texto retrata, ainda, que, em mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal (PF), sua ex-noiva reclamou porque o banqueiro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava “putas”. E, em reposta, o banqueiro respondeu que “Fazia parte do meu ‘business’”.

A reportagem da Piauí, publicada em 10 de setembro de 2026, A festa das “suíças” de Vorcaro, afirma: “Vorcaro fazia das festas uma forma de estreitar laços, conquistar aliados e agradar figuras da República estratégicas para os seus interesses”. A festa contou com a presença de 20 homens e 120 mulheres, e a preferência era por “só menina nova”.

Essa questão abre um debate sobre idade e sobre o tempo inscrito no corpo de mulheres. Havia um desejo dos homens de negócios por meninas novas, como se o corpo-novo significasse um capital simbólico maior, talvez um maior poder de barganha. O corpo de uma mulher mais velha é produzido por esse circuito patriarcal como um corpo de menor valor simbólico no interior de uma hierarquia social e patriarcal dos corpos.

Esse corpo-novo aparece nas reportagens como certo mecanismo de networking masculino, como uma moeda de troca equivalente à propina, uma dimensão simbólica do poder que vê no corpo feminino jovem um capital corporal representado por beleza, vigor, disponibilidade e valor.

Judith Butler, filósofa e teórica estadunidense, tem se dedicado a pensar o conceito de aparecimento e, para ela, existem regimes que determinam quem pode ou não aparecer e, mais ainda, como um dado corpo pode aparecer. No caso do empreendimento econômico e político do Banco Master, o aparecer para esses corpos-novos não era um fenômeno meramente visual e sexual; era tornar-se corporalmente disponível ao olhar e ao desejo de posse do próprio poder.

O corpo-business da mulher entra nessa cena como um signo de luxo, num espaço em que o poder patriarcal se reconhece naquilo que a psicóloga e pesquisadora do campo da saúde mental, Valeska Zanello, no seu livro Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, chama de “broderagem”. Ou seja, não era simplesmente uma festa com mulheres bonitas; havia um pacto feito entre os homens como forma de sociabilidade, cumplicidade, aliança e proteção mútuas, como pode ser visto no trecho de uma das mensagens divulgadas pela Revista Piauí: “Irmão, a ideia da Allure é boa, mas não queria ninguém de fora nessa festa. De homem. Vai ter uma turma relevante pra mim, não quero ninguém desconfortável.” Os homens não só se reconhecem entre si, como produzem confiança e cumplicidade.

Todavia, cabe pensarmos: qual a função que o corpo feminino desempenha na estruturação do poder da masculinidade patriarcal? O corpo-business, exposto no escândalo do Banco Master, talvez seja uma resposta a essa questão, quando percebemos que se trata de um corpo-objeto por meio do qual circulam códigos, privilégios, informações, negócios, alianças políticas e capital. Essa reflexão pode nos ajudar a pensar sobre como os corpos das mulheres aparecem e são mobilizados dentro de circuitos de poder, dinheiro, prestígio, sociabilidade masculina e coroamento narcísico dos homens poderosos.

No meio político e dos negócios, como o homem demonstra eficácia? Que dispositivo faz essa masculinidade patriarcal operar uma engrenagem luxuosa e cara, apostando em festas milionárias com mulheres bonitas como espelho do luxo e signo da sofisticação?

Talvez, a resposta a essa pergunta possa estar na própria pedagogia da masculinidade patriarcal, ao se demonstrar que se pode. O luxo torna-se, assim, uma linguagem do poder.

Voltando à escritora Valeska Zanello, a masculinidade é organizada por duas formas: a laborativa, como aquela que faz o homem ser bem-sucedido, produtivo, acumulador de capital, como status social e reconhecimento; e, por outro lado, a masculinidade, que precisa demonstrar a potência sexual e certa a capacidade de mostrar uma sexualidade considerada viril. Essa performance nas festas e no agenciamento de mulheres seria um cruzamento dessas duas dimensões? Seria uma forma de chancela e reconhecimento na sociabilidade masculina desse dispositivo de eficácia, que envolve trabalho e virilidade?

As mensagens que foram divulgadas nas mídias mostram que dinheiro, poder, trabalho, política, status, sexualidade, beleza e desejo não estão apartados da produção da masculinidade e, portanto, das formas espiralares de fazer circular politicamente o poder, que encontram no corpo-business da mulher uma de suas passagens.

O que não se esperava era que o corpo-business viesse a se transformar em corpo-notícia. A espetacularização foi, assim, uma segunda dobra da objetificação. E aqui vemos, mais uma vez, o corpo da mulher produzindo interesses midiáticos, despertando curiosidades nas redes sociais, sejam sobre as mulheres que participaram das festas, sejam das mulheres que situadas na vizinhança de um circuito de poder masculino, também despertaram interesses da mídia, como é o caso da ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, e de Patrícia Abravanel, esposa de Fabio Faria. Assim, pode-se perceber que o corpo feminino, mesmo quando não é causa do acontecimento, é sugado para dentro da notícia e do mesmo modo, espetacularizado.

Contudo, o que antes circulava como parte de uma sociabilidade político-empresarial masculina privada, passa a circular como espetáculo público. Mais uma vez a mulher é colocada em cena, agora como corpo-objeto de curiosidade, especulações e julgamentos morais.

Muda-se o cenário, mas não a lógica do uso de um corpo-mulher-objeto-business-notícia que pode ser exposto.

Inferno astral à moda brasileira

Ao escrever Os Demônios (Rússia, 1873), Dostoiévski não queria falar sobre fenômenos espíritas, tampouco sobre exorcismo. Os demônios a que se referiu assombravam o bolso e a panela do povão russo quando o czarismo respirava por aparelhos. Em plena efervescência das democracias liberais e da contagiante Belle Époque, os russos também viviam sua ebulição cultural, animados pelos ecos do iluminismo europeu. A Revolução Gloriosa na Inglaterra, a Independência Estadunidense e a Revolução Francesa encontravam correspondência no mundo todo, especialmente no quintal dos truculentos Romanov.


Curiosamente, os demônios que frequentavam as mentes russas eram os mesmos que tiravam (e ainda tiram) o sossego de outras nações, apesar da derrocada monarquista mundo afora. A diferença estava no fato de que, nas democracias que sucederam o absolutismo, tais demônios haviam perdido força, ou abrandado suas feições. Nos dias de hoje, por exemplo, Dostoiévski facilmente enxergaria os demônios, que ainda atormentam a democracia resiliente da Ilha da Vera Cruz. Possivelmente seria atual para nós o parágrafo: “Esses demônios […] são todas as chagas […] que se acumularam na nossa Rússia (ou Brasil?) para todo o sempre”. Certamente por isso mesmo, alguns anjos decaídos, inclusive brasileiros, ainda queiram devolvê-lo às prisões da Sibéria, um século e meio depois de sua morte.

Por sua vez, no auge da II Guerra Mundial, o inglês C.S. Lewis publicou o surpreendente “A Abolição do Homem” (Oxford University, 1944), no qual nos apresentava o que podemos chamar de a outra bandinha da laranja dos “Demônios”. Lewis se referia ao “Tao da política” – algo que podemos resumir como sendo o espírito democrático em sua mais elevada manifestação. Segundo o britânico, ali no fogo cruzado da incubadora da guerra fria, o Tao democrático já vivia sob bombardeio cerrado de todo tipo de golpistas, de direita e de esquerda. Lewis e Dostoiévski enxergavam, a partir de ângulos de visão e épocas diferentes, que as privações de bem-estar sofridas pelas camadas mais vulneráveis da sociedade eram intencionais, seja em favor da nobreza, dos magnatas capitalistas, dos gabinetes fascistas ou do recente establishment comunista.

O processo é cíclico, pendular. Muitas vezes sutil. A democracia vaivém, sobe-desce, cai-não-cai, até hoje. Por aqui, a coisa parecia melhorar, ainda que fosse aos trancos e barrancos, até o golpe parlamentar(ista) sofrido por Dilma Rousseff. Desde então, “lá vem o Brasil descendo a ladeira”, perdendo os freios… e contrapesos, surfando na onda internacional do extremismo neofascista. Dá pena ver a república enganchada em um Parlamento que governa e desgoverna por meio de orçamentos secretos bilionários. É de ficar triste testemunhar o desmonte premeditado e autofágico da Suprema Corte “em tenebrosas transações”. Renato Russo tinha razão. “Festa estranha, gente esquisita, eu não tô legal”. Felizmente, enquanto persistem por aqui capetas tropicais como o golpismo, o negacionismo, a corrupção, desigualdade social, crime, devastação ambiental e outros de legiões semelhantes, os alertas de Os Demônios ainda apavoram diabretes desde a Faria Lima até Sinop. Cabe às forças do naipe político progressista e da sociedade civil se reorganizarem de modo independente, para além do Estado e com o Estado, retomando as rédeas da transformação social que ainda temos razões para valorizar.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Como Flávio Bolsonaro planeja dominar o STF. É isso o que você quer?

Desde que o mar de lama começou a tragar o Supremo Tribunal Federal (STF), Flávio Bolsonaro apregoa, dia sim, dia não, que, caso se eleja presidente da República, submeterá ao crivo do Senado cinco novos nomes para ministros da mais alta Corte de Justiça do país. Caso se eleja, não. Ele dá sua eleição como algo certo, sem sequer precisar disputar o segundo turno. Para tanto, aposta no voto útil que abandonará seus demais concorrentes da direita.

Três dos atuais ministros atingirão a idade limite de 75 anos ao longo do próximo mandato presidencial: Luiz Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (dezembro de 2030). Há uma vaga aberta no STF desde que Luís Roberto Barroso se aposentou precocemente em 2025. Para fechar o número de cinco indicações, Flávio afirma que trabalha com a hipótese de impeachment ou destituição de Alexandre de Moraes. É tudo o que ele quer.

O filho do único ex-presidente do Brasil condenado por tentativa de golpe de Estado tem reiterado que seus escolhidos serão homens e mulheres “defensores da Constituição”, com perfil conservador, posicionando-se de forma contrária ao aborto e à descriminalização das drogas. Se tudo acontecer como ele imagina, ao final do seu mandato, contará com a simpatia de 7 dos 11 ministros do tribunal, incluindo-se aí André Mendonça e Nunes Marques.

Considerando toda a história do Brasil, o presidente que indicou o maior número de ministros para o STF foi Getúlio Vargas, com um total de 21 nomeações. Ele governou o país em dois períodos diferentes: de 1930 a 1945, como ditador, e de 1951 a 1954, como presidente eleito pelo voto popular. Logo atrás de Vargas no ranking histórico, aparecem os marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, ambos com 15 indicações cada um.

Lula indicou 10 ministros para o STF ao longo de seus três mandatos – 8 nos dois primeiros e 2 no terceiro. Dos 10, apenas 4 ainda permanecem lá: Cármen Lúcia, Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino. Quis emplacar Jorge Messias na vaga de Luís Roberto Barroso, mas o nome dele foi rejeitado pelo Senado. Duas vezes presidente, Dilma Rousseff não teve esse problema, tendo indicado 5 ministros. Destes, apenas 2 seguem no cargo: Luiz Fux e Edson Fachin.

Se você pretende votar em Flávio para presidente, não tem com que se preocupar. Se ele se reeleger em 2030, no mínimo indicará mais um ministro para o STF na vaga que se abrirá com a aposentadoria de Fachin. Só não venha, depois, a se queixar.

As muitas derrotas da Suprema Corte

O grupo do ministro Alexandre de Moraes se acha vitorioso porque conseguiu deter o procedimento contra Moraes. O grupo do ministro André Mendonça pode avaliar que saiu vencedor porque até a tibieza em plenário ajuda a construir a ideia de que ele luta contra o sistema, uma espécie de Davi contra Golias. Mendonça fortaleceu seu ponto porque ao acusar a Polícia Federal, sem prova, teve o apoio do ministro Luiz Fux. Contudo, todos os vitoriosos nas batalhas pontuais perderam a guerra.

A exposição das brigas tóxicas entre os ministros do Supremo Tribunal Federal enfraquece a confiança na democracia a 17 dias das eleições. E não é porque a sessão foi aberta, e sim porque o comportamento dos ministros foi deplorável. Eles que encarnam a instância máxima do poder atiraram contra a própria cidadela. O país que sobreviveu a um golpe de Estado há menos de quatro anos — tendo a ação da Suprema Corte como parte fundamental da resistência — pode estar no umbral de um novo atentado. E agora, chancelado pelas urnas.


E o eleitor, Excelências? O que devemos pensar nós, os eleitores, que estamos no caminho das urnas para decidir quem nos governará nos próximos quatro anos? Vale a pena manter um sistema de Justiça em que ministros se envolvem em maior ou menor grau com um trambiqueiro da pior laia? Ou é melhor se entregar ao primeiro discurso antissistema, ao primeiro aventureiro que aparecer com a ideia de fechar o STF?

Em julho de 2018, o então deputado Eduardo Bolsonaro disse que poderia fechar o Supremo com um cabo e um soldado. O grupo foi eleito e realmente tentou fechar o STF. Primeiro, com uma campanha contra o processo eleitoral, e tendo como alvo alguns ministros, como Alexandre de Moraes. Depois, conspirando com militares para primeiro levantarem dúvidas sobre o TSE e por fim organizarem a tomada de poder. A conspiração não deu certo. Até quando?

O bolsonarismo jamais admitiu o crime e disse que os condenados, entre eles o ex-presidente, são vítimas. O primeiro filho de Jair Bolsonaro concorre com chances de vitória. Os demais candidatos de oposição prometeram anistia para os envolvidos na trama antidemocrática. O ministro do STF que conduziu a condenação dos golpistas, Alexandre de Moraes, é suspeito de ter recebido mensagens estranhas do banqueiro corruptor. E há o contrato entre a sua mulher e Daniel Vorcaro. Em vez de explicar tudo ao país, Moraes prefere gastar sua grande energia em escaramuças no plenário.

O ministro André Mendonça afirmou que há uma Polícia Federal paralela, esquecido de que trabalhou num governo, e por ele foi indicado ao Supremo, que tinha o objetivo, explicitado em reunião ministerial pelo presidente da República, de ter um sistema de informações paralelo. Mendonça não apresenta fatos para a sua acusação e a derruba na prática quando usa exatamente o que ele chama de “achado da Polícia Federal” para embasar seu procedimento contra Alexandre de Moraes. O ministro Luiz Fux vai além e, igualmente sem provas, diz que a PF está “peitando” o Supremo.

O ministro Gilmar Mendes chegou ao decanato sem o equilíbrio que a idade costuma trazer. Mantém inalterados seus métodos e temperamento mercurial. Ele pode ter razão quando alerta para a coincidência da data política e a possível intenção eleitoral da ação de Mendonça. O ministro Mendonça primeiro tirou o sigilo do relatório da Polícia Federal contra Moraes, depois o encaminhou ao presidente da Corte. Mas Gilmar Mendes consegue desprover-se da própria razão pela absoluta falta de temperança. Seu tom nas mensagens de WhatsApp para os colegas é ainda mais corrosivo.

O ministro Flávio Dino pode se achar vitorioso. Ele agora controla o tempo, já que pediu vista. Fez questão de mostrar que achou fraca a condução de Edson Fachin, só que desde o começo atuou para enfraquecer a liderança, sem ficar claro o que o país ganharia com isso. Mostrou nos seus muitos apartes um farto conhecimento jurídico, mas falhou na estratégia.

Em que ponto mesmo querem chegar os ministros que se acham vitoriosos? Se era para erodir a confiança da cidadania no Tribunal, eles acertaram. Deixam a instituição vulnerável no momento em que golpistas não arrependidos podem voltar ao poder pelo voto. Essa feia sessão do Supremo permanecerá parada no ar enquanto eleitoras e eleitores tomam sua decisão de voto, ou mesmo de não participar do processo eleitoral.
Míriam Leitão

América Latina: A ascensão da direita e a memória histórica

Condenado a mais de mil anos de prisão em mais de 80 sentenças confirmadas pela Suprema Corte do Chile, o ex-oficial militar Miguel Krassnoff, de 80 anos, está encarcerado desde 2005 por sequestro, tortura e desaparecimentos forçados durante a ditadura. Em seus escritos, ele não demonstra nenhum remorso — "Não preciso de indultos nem favores", afirmou recentemente em uma carta — e continua a justificar a repressão do regime de Augusto Pinochet .

Krassnoff é um dos condenados por violações dos direitos humanos cujos casos poderiam ser perdoados, uma medida atualmente em análise pelo presidente chileno José Antonio Kast. O líder da extrema-direita e defensor da ditadura afirmou que analisará cada caso individualmente, por razões humanitárias. A medida gerou forte oposição por parte das famílias das vítimas e de organizações de direitos humanos.

Assim como Krassnoff, a maioria dos condenados por crimes contra a humanidade no Chile "foram julgados em vários casos, em vários julgamentos", disse Elizabeth Lira, do Centro de Direitos Humanos da Universidade Alberto Hurtado (UAH) do Chile. A professora de psicologia da UAH indica que "é muito problemático para o conceito de integridade e segurança institucional quando os procedimentos civilizados de um país para processar os responsáveis ​​por crimes atrozes são substituídos por uma decisão política do poder executivo".

"De uma perspectiva histórica e voltada para o futuro, acho que é um péssimo sinal pensar que crimes contra a humanidade possam ser perdoados, porque isso também contraria o compromisso do Estado de garantir a não repetição", alerta Elizabeth Lira.


“Medidas de impunidade tão severas quanto o indulto acarretam um custo político significativo para os governos, mesmo os de direita. Os julgamentos no Chile e na Argentina, apesar das dificuldades, são processos relativamente bem estabelecidos”, disse Verónica Torras, diretora da Memoria Abierta, uma aliança de organizações argentinas de direitos humanos. Além disso, em relação a indultos ou outros benefícios não previstos em lei, “há uma posição unânime de rejeição”, acrescentou Torras, que também é vice-presidente do Centro de Estudos Jurídicos e Sociais da Argentina.

Rainer Huhle, do Centro de Direitos Humanos de Nuremberg, acredita que a possibilidade de indulto para alguém condenado por crimes contra a humanidade exige reciprocidade: "Ou seja, um benefício que as vítimas possam esperar: uma confissão do condenado de que o que fez foi um crime, um reconhecimento de culpa, um pedido de desculpas e uma tentativa de reparação. E o mínimo de reparação é dizer a verdade sobre o que fizeram e revelar o paradeiro dos desaparecidos", disse ele. "Caso contrário, esses atos parecem humanitários, mas têm um forte viés de impunidade", enfatizou.

Se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a região da América Latina vivenciará a hegemonia da extrema direita. Tal situação não se via desde a era das ditaduras e dos governos autoritários

Em relação à possibilidade de redução de penas, ele indica que é necessário um processo, como aconteceu na Colômbia: "Se pensarmos na Jurisdição Especial para a Paz, houve reduções significativas de penas, mas em troca de um forte compromisso de dizer a verdade e pedir desculpas. Sem isso, libertar os criminosos mais perigosos me parece inaceitável."

Entretanto, um projeto de lei promovido por senadores de direita no Chile prevê a concessão de prisão domiciliar, sob certas condições, a pessoas com problemas graves de saúde e a maiores de 70 anos. A medida teria um propósito humanitário e visaria aliviar a superlotação carcerária. Críticos dessa reforma argumentam que ela beneficiaria criminosos da época da ditadura.

Em geral, a legislação atual considera que uma pessoa gravemente doente que necessite de tratamento médico com cuidados constantes deve ser transferida para outra instituição ou colocada em prisão domiciliar. "Essa é a norma em todos os países. Questiona-se qual a necessidade de uma nova lei para isso", indaga Huhle. "Se o benefício da libertação da prisão se deve a um problema de saúde devidamente documentado por médicos independentes, trata-se de uma medida humanitária, e eu não a chamaria de medida de impunidade. O importante é ter certeza de que essa é a única razão, porque já vimos que doenças também podem ser fingidas. Todos os chilenos se lembram da chegada de Pinochet ao Chile, quando ele se desfez de sua bengala", acrescenta.

Em relação à permissão de prisão domiciliar após certa idade, "é uma questão que deve ser analisada com muito cuidado, porque a idade por si só não é uma doença e não pode, por si só, ser uma justificativa para a libertação de alguém condenado por crimes contra a humanidade", observa Huhle.

A situação é diferente em alguns países, onde essa regra para toda a população carcerária já está incorporada à legislação. Na Argentina, para conceder o benefício com base na idade, os juízes devem analisar considerações como o risco de fuga e obstrução da investigação judicial em cada caso, explica Torras. Nos últimos anos, a tendência tem sido aceitar os pedidos de condenados por violações de direitos humanos. "Os pedidos foram negados em casos específicos e emblemáticos de repressores cujos crimes deixaram uma marca indelével na opinião pública devido à natureza do delito e ao seu comportamento subsequente. Hoje, praticamente 90% dos condenados por crimes contra a humanidade na Argentina gozam do benefício da prisão domiciliar. Em resposta, a posição das organizações de direitos humanos não tem sido unânime", indica Torras.

Outro fator a considerar, destaca Lira, é que no Chile muitos dos presos por violações de direitos humanos "não conseguem voltar para suas famílias, porque foram abandonados ou porque suas famílias se recusam a assumir a responsabilidade por eles. A única alternativa que o Estado tem é mantê-los presos ou em outras condições". Isso representa tanto um risco quanto um desafio.

A controvérsia não se limita ao Chile. Em meio à onda de governos de direita na América Latina, surgem disputas sobre a revisão da memória histórica e as consequências legais de crimes passados. Os governos têm optado por uma estratégia de corte de verbas públicas para políticas públicas e desmantelamento de programas. Buscam também revisar as narrativas dos museus e até mesmo colocaram negacionistas do Holocausto em posições-chave, com o objetivo de influenciar as narrativas sobre o passado recente.

"Um momento dramático está se desenrolando no Peru, onde há uma tentativa de mudar a narrativa em torno do Lugar da Memória, que foi uma vitória muito importante para as vítimas dos crimes de Estado durante o conflito armado interno e a ditadura de Fujimori. Agora, existe um discurso abertamente contrário que busca negar esses crimes, reconhecendo apenas aqueles cometidos pela insurgência. Há uma crescente anticultura da memória histórica", alerta Huhle.

Lira alerta que "quando os métodos acordados para a resolução de conflitos e a criação de condições para a paz são corroídos, juntamente com a capacidade política das instituições para recuperar a memória histórica, existe um risco muito elevado de que formas de violência que se esperava que fossem resolvidas sejam reinstauradas". A este respeito, ela vê com preocupação a redução do financiamento para o processo de paz na Colômbia e para as políticas de memória na Argentina. Entretanto, no Chile, o orçamento para o Plano Nacional de Busca (pelos desaparecidos) foi cortado e a expropriação da antiga Colonia Dignidad , onde estava previsto um memorial, foi suspensa.

"Sinto um grande desespero com tudo isso, porque é como se as pessoas que governam hoje fossem muito ignorantes em relação à história, ou tivessem decidido ignorar as consequências de não considerar essa história, por causa de suas próprias posições políticas", lamenta o acadêmico chileno.

Por sua vez, Torras acredita que o impacto não será necessariamente apenas negativo: "Frequentemente, diante de governos tão reacionários em suas posições sobre essas questões, surgem fortes movimentos de resistência dentro das sociedades". A diretora da Memoria Abierta alerta que "se Flávio Bolsonaro vencer no Brasil no próximo mês, será a primeira vez em 50 anos que toda a região da América Latina vivenciará a hegemonia da extrema direita. Tal situação não se via desde a era das ditaduras e dos governos autoritários". Nesse contexto, as disputas sobre narrativas podem se intensificar, inclusive com abordagens abertamente negacionistas ou que glorificam o passado autoritário.

Nesse cenário, o maior impacto será sentido nas políticas públicas que dependem do Poder Executivo. Na esfera judicial, porém, o avanço revisionista deverá ser mais limitado, acredita Torras, pois implica um risco maior de exposição e danos à reputação desses governos em nível internacional.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Pensamento do Dia

 


O STF, as eleições e o futuro do Brasil

A melancólica sessão deste 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF) terá impacto decisivo nas urnas, e o resultado das eleições que se avizinham, tanto para a Presidência da República quanto para a composição do futuro Congresso, certamente contribuirá para uma mudança significativa no papel institucional do STF.

Os ministros optaram por implodir a ordem vigente para evitar a singela abertura de uma investigação a respeito da conduta de um dos seus. Mas há sério risco de que sejam, eles próprios, os principais atingidos por essa decisão de radicalização.


Os avisos já vinham sendo dados há dias, semanas até. Mas a ferocidade com que o grupo de ministros mais próximo de Alexandre de Moraes se lançou à tarefa de dilapidar a autoridade de Edson Fachin durante quase sete horas de sessão pegou a todos de surpresa.

O ápice foi a decisão de Flávio Dino, ele próprio autor da questão de ordem que monopolizou toda a sessão, de pedir vista da petição, a tal “PET” a que aludiram durante horas, tendo, para isso, de voltar atrás por ora no próprio voto pela análise em conjunto dos casos de Moraes e André Mendonça.

Diante da evidência de que a questão de ordem produziria um empate e, a partir disso, poderia de novo caber a Fachin decidir o caminho a seguir, optou-se pelo plano B que esteve o tempo todo no horizonte: empurrar a decisão para depois das eleições. A ala “alexandrina” do STF apontou ação político-eleitoral de André Mendonça pelos métodos e pela escolha da data próxima ao 7 de Setembro para investir contra Moraes. O timing adotado pelo relator do Master de fato autoriza essa imputação.

Mas, com o espetáculo que promoveram na sessão de ontem, provavelmente esses ministros contribuíram de maneira mais decisiva para reforçar o discurso anti-STF que vem sendo entoado de forma oportunista pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ele próprio investigado pelo mesmo STF desde julho, por ter recebido milhões de Daniel Vorcaro e não ter explicado a destinação desses recursos.

Para a estratégia de Lula de se desvencilhar da crise do STF e do destino de Moraes, o protagonismo de Dino, indicado por ele e seu ex-ministro da Justiça, não ajuda em nada. Para leigos que não entendem a linguagem por vezes pernóstica e sempre inacessível dos ministros, o que restou do papelão de ontem é uma conclusão simples: os ministros estão dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja até mesmo investigado.

Diante da decisão ostensiva por não deliberar, que deve levar, por um mínimo de coerência, a que se adie também na semana que vem a necessária apuração a respeito da conduta e dos procedimentos de Mendonça, a eleição acontecerá com esse imenso elefante espalhado na sala.

A depender do ânimo do eleitor perplexo e atordoado com tanto tumulto processual —razão por que a ministra Cármen Lúcia pediu desculpas tardias e pouco convincentes depois de um silêncio sepulcral durante todo o show de horrores —, os ministros podem deparar com uma composição de Executivo e Legislativo que os leve a discutir, na marra e completamente divididos, o que se recusam a tratar agora.

É extremamente grave e preocupante que a eleição tenha como um dos vetores principais uma ameaça explícita de reforma do Judiciário por vias tortas, a partir de um sentido de revanche e vingança. Mas é inegável que foi o próprio STF que mais contribuiu para essa situação, ao misturar de forma irresponsável a conduta pessoal de seus ministros com a respeitabilidade da própria Corte.

A depender do resultado de outubro, a reforma adiada do STF e a adoção de um simples Código de Conduta podem dar lugar ao emparedamento de um dos Poderes da República. Que não terá a coesão sequer para se contrapor a isso.

Crises da imaginação progressista

Política é encenação. Nos últimos anos, virou um picadeiro em que lideranças disputam a opinião pública a partir do riso, do escárnio. Constatar o elemento teatral da política, porém, costuma ser tarefa dos cínicos, aqueles que demonizam a atividade humana por excelência acusando-a de teatro de marionetes.

É fora dessa lógica, no entanto, que afirmo que política é encenação. Na verdade, tudo que corresponde à vida social é encenado, ainda que inconscientemente. Os estudos de gênero, por exemplo, estão avançados na hipótese de que a performance orienta as maneiras de ser no mundo, como mostra Judith Butler.

Na política institucional, o esquema é parecido. Basta ver as inúmeras imagens de bolsonaristas ajoelhados rezando ao Deus neopentecostal dentro dos parlamentos brasileiros. A performatividade, no entanto, é comum a todos os espectros ideológicos. Afinal, o populismo, tão demonizado, é gênero discurso e não programa partidário, segundo Maria Esperanza Casullo.

Quando o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva apareceu no debate presidencial de 2022 da TV Bandeirantes usando broche de campanha de combate à violência sexual contra menores, ele performou ser contra a pedofilia, contrapondo-se ao então presidente Jair Bolsonaro, que disse que “pintou um clima” com meninas venezuelas de 14 e 15 anos. Sintetizando, é provável, visto o histórico, que o petista realmente rechace a pedofilia – nem toda performance é falsa. Agora, a ação política foi encenada. Era uma mensagem clara aos eleitores de que ele demoniza a violência sexual e, de forma subliminar ma non troppo, acusar o adversário de ter postura oposta. Tudo isso é válido. Faz parte do jogo.


No passado, este tipo de estratégia na política era quase exclusividade dos períodos eleitorais. Com a comunicação digital, as campanhas se tornaram permanentes. E para fazer campanhas, grupos com mais orçamento contratam consultores, que se valem de diversas metodologias quantitativas e qualitativas das ciências sociais para traçarem diagnósticos da opinião pública. O rápido desenvolvimento tecnológico torna os resultados mais precisos ano a ano.

Com as informações, os profissionais desenvolvem estratégias para conquistar objetivos, mitigando possíveis impactos negativos e ressaltando aspectos positivos. Criam-se linhas narrativas. Em outras palavras, planejamentos estratégicos que guiarão a encenação do candidato ao longo do período pré-estabelecido – ou até os grupos focais mostrarem que tais discursos perderam a validade. As narrativas valem-se da poética, de recursos literários para obterem seus resultados. É performance, mas é como se Shakespeare tivesse à mão ferramentas de análise de dados avançadíssimas.

O que os profissionais da comunicação política chamam de “campanha permanente” é, na realidade, o auge do que Walter Benjamin chamou de “estetização da política”. O filósofo alemão argumenta que a reprodutibilidade técnica atrofia a aura da obra de arte, isto é, a distância contemplativa entre o emissor e o receptador da obra de arte.

Com isso, o objeto artístico perderia sua autenticidade, transformando a função social da arte, o culto, fundando-se à política. Essa transposição teria criado a cultura de massas. Sem aura, a arte torna-se mero entretenimento servindo a fins mercadológicos. O público passaria, portanto, a cultuar o produto exposto.

O fascismo, então, se aproveitaria de tal dinâmica para corromper a massa, apagando a formação de consciência de classe. Assim, “o fascismo caminha diretamente em direção a uma estetização da vida política. Com D’Annunzio a decadência penetrou a política; com Marinetti, o futurismo; e com Hitler, a tradição de Schwabling”. Tudo isso culminou, para Benjamin, em guerra. O manifesto de Marinetti, inclusive, referencia a guerra como objetivo estético.

A reprodutibilidade técnica a que Walter Benjamin se refere é a fotografia e, principalmente, o cinema. No século 21, os serviços de inteligência artificial e o predomínio da comunicação digital – mediada pelas Big Techs do Vale do Silício – elevou a reprodução ao máximo de sua eficiência.

Em 2007, Steve Jobs apresenta a primeira versão do iPhone, ainda rudimentar. No ano seguinte, Barack Obama é eleito presidente dos Estados Unidos, sendo pioneiro no uso das redes sociais digitais em campanhas. Em 2016, menos de dez anos depois, os smartphones já estavam nas mãos de quase toda a totalidade dos eleitores estadunidenses. E é nesse ano que este país elege o populista de extrema direita Donald Trump, abrindo margem para líderes autoritários. Em 2022, a Open AI lança o ChatGPT, mudando para sempre a (re)produção intelectual humana. Em 2026, enquanto escrevo essa dissertação, o mundo vive em hegemonia fascista. Gaza e Ucrânia ardem no seio de uma batalha que é, antes de tudo, estética.

*

Escutei um rapaz conversando com um amigo nos corredores da universidade. “A arte nunca foi tão acessível. Nunca houve tantas pessoas consumindo arte”, disse ele, e a frase permaneceu reverberando em mim, que ouvi a conversa de escanteio. Todos estão conectados, assistindo a filmes e séries, ouvindo músicas nas plataformas de streaming. Com o Instagram e TikTok, a imagem se tornou permanente na vida das massas. Com isso, argumenta-se que há hegemonia progressista no campo das artes (olá, olavistas), afinal temas ditos identitários parecem ganhar algum tipo de tração nos espaços intelectualizados.

Isso é mentira em partes, visto que as redes operam em bolhas, evidenciando aquilo que o público quer ver – mesmo que seja para odiar. Porém, caso fosse verdadeiro, elas funcionam a partir da lógica do consumo. Os algoritmos entregam ao público aquilo que tem função mercadológica, tudo se torna pasteurizado. Um lançamento parece ser sempre o mesmo. O público de Taylor Swift celebra os relançamentos de álbuns da cantora como se fossem novidade.

O fascismo contemporâneo aproveita, então, a corrosão da função social da arte, como apontava Walter Benjamin, culminando na ausência de consciência de classe, para estetizar sua prática política. Propagam-se, então, narrativas populistas que dividem a sociedade entre um povo oprimido e uma elite opressora, composta por vilões caricatos (o bilionário judeu, a lésbica feminista, o terrorista imigrante). Os salvadores seguem perfeitamente a jornada do herói. Deus opera pelas mãos de Donald Trump, Javier Milei é o leão que veio para devorar a casta, Jair Bolsonaro é o mito que, com mãos de ferro, salvará o Brasil da corrupção e do progressismo desmoralizante. Para nós, os antifascistas, chega a ser engraçado descrever essas estratégias. E o desconforto cômico que sentimos é pela inautenticidade. Afinal, tudo isso é ficção. A política é encenação.

“Assim configura-se a estetização da política operada pelo fascismo. A ele o comunismo responde com a politização da arte”, analisa Benjamin. Ele infelizmente não sobreviveu ao nazismo, suicidando-se na fronteira da França para evitar ser enviado a um campo de concentração. O que derrotou o fascismo foram os exércitos, não a politização da arte. Esta serviu no processo de desnazificação. Mas interpreto a sentença de Benjamin ainda na etapa de disputa, quando o fascismo busca consolidar-se. Aí sim a politização da arte é capaz de fazer frente a estetização da política.

Acontece que, neste tempo, no século 21, é ingenuidade falar em comunismo. Ao ser perguntada sobre a maior conquista de seu governo, Margareth Thatcher respondeu que é Tony Blair e o novo Trabalhismo inglês. Isto é, a esquerda tornou-se neoliberal, mas com verniz progressista, diria Nancy Fraser. E assim é possível afirmar que houve intensa politização da arte justamente no sentido neoliberal. O que é mais individual do que o eu? E quais são os romances em destaque no mercado, nas listas de recomendações? A grande tendência da literatura contemporânea são as “autoficções”, trabalhos autobiográficos com alto componente narcísico em que, quase sempre, as narrações são sobre as dores, as lutas – mas, note-se, sempre individuais. Edouard Louis fala da sua homofobia sofrida. Annie Ernaux fala do seu aborto. É lógico que são experiências com forte componente universal. Os leitores, então, se identificam com as narrativas do eu. A politização da arte é, então, uma politização conservadora. Não aponta para mudanças estruturais, não imagina o futuro, mas instiga o ressentimento de seu público.

Com isso, o progressismo monetiza traumas, colocando-se sempre na posição de vítima. E a vítima, que passa a vida toda ressentida sem agir, não é mais do que um ser impotente. Já não há mais consciência de classe, apenas glorificação da dor, a aceitação do lugar de derrotado. Território fértil para o fascimo.

“É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, sentencia Mark Fisher. A questão é que com a reprodutibilidade técnica, imaginar tornou-se ato desnecessário. Tudo é literal, tudo é biográfico, ainda que fantasioso. É missão do nosso tempo, portanto, mostrar que é possível um futuro melhor, mais justo. Cabe à literatura e às artes imaginar o amanhã.

Por outro lado, esta arte não deve ser panfletária. Jacques Rancière classifica a forma propagandista de se fazer arte como parte de um “regime ético”. A proposta, então, não é um movimento artístico que defina quem são os bons e os maus – isso a autoficção vitimista já faz.

Leitores são capazes de, por seu próprio sentido ético, identificarem os conflitos sociais narrados. A missão ética da arte, esta sim, com alto caráter revolucionário, é tão somente imaginar e oferecer ferramentas poéticas e metáforas para tanto. Mostrar que é possível imaginar, esperançar.

Política e esperança, substantivos femininos

Pelo menos duas instituições internacionais relevantes apontam a Dinamarca como o país onde há menos corrupção governamental no mundo. Em ambas as listas, o Brasil não figura sequer entre os 50 melhores colocados.

Não faltam argumentos para explicar o exemplo positivo do país europeu, para além de suas estruturas de governo ou de seu alto índice de desenvolvimento humano, mas vamos nos concentrar em uma razão que não costuma ser iluminada da forma devida: a participação das mulheres na política.

A Dinamarca também apresenta altos índices de qualidade de vida e felicidade de seus habitantes. Não é um país tropical abençoado por Deus, mas uma nação nórdica governada por uma primeira-ministra desde 2019 e com 48% das cadeiras do parlamento nacional preenchidas por mulheres.


Pesquisa do Instituto Ideia com a Voga Inteligência e Comunicação, divulgada recentemente, mostra que 55% dos brasileiros afirmam que o Brasil seria um país menos corrupto com mais mulheres na política. E 58% acreditam que elas têm soluções melhores para os problemas reais do Brasil. No entanto, 35% ainda afirmam que causa estranhamento ver mulheres na política, índice que só é menor do que a presença de mulheres nas forças armadas.

São muitas décadas em que o machismo estrutural molda percepções e decisões políticas no Brasil. Sua face visível é uma maioria de homens brancos que se revezam no comando de instituições públicas e governos (com algumas honrosas exceções). Quando se pensa em desenvolvimento humano, equidade, distribuição de renda e qualidade de vida em larga escala, esse modo de fazer política produziu resultados medíocres para um país com as riquezas e o potencial do Brasil.

E quanto à corrupção em todas as esferas de poder, compactuada por entes privados que se beneficiam dela, quando exposta e escancarada, revela invariavelmente como protagonistas homens de ternos bem cortados, gostos extravagantes e reputação fabricada.

Na Dinamarca, a afirmação da equidade de gênero é resultado de uma visão de estado e de mundo que entendeu que representatividade não é retórica e que o pensamento e a atuação feminina nas corporações, instituições e governos traz não apenas um saudável e necessário equilíbrio para o debate e as decisões, mas também demonstra maturidade política e produz resultados melhores.

Enquanto por aqui todos os partidos, do PL ao PT, pleitearam conjuntamente ao TSE flexibilizar a política de cotas para mulheres e negros nas eleições deste ano. Pode-se dizer que foi a única coisa que uniu esquerda e direita neste Brasil polarizado. Olhando para o primeiro quarto deste novo século, houve mudança significativa na realidade sociodemográfica brasileira, com mais mulheres chefiando lares, empreendendo e tornando-se maioria absoluta na formação acadêmica. Movimento de autonomia que cresceu na mesma medida em que todos os tipos de violência contra a mulher, chegando à brutal estatística atual de feminicídios no país.

Se a realidade social mudou, o fato é que política não conseguiu acompanhar. Segundo a ONU, o Brasil ocupa a vergonhosa posição de 139º no mundo em representação parlamentar feminina, com apenas 17% das cadeiras ocupadas por mulheres, um terço do que é hoje o retrato da população do país. Nem é preciso comparar com o mundo desenvolvido para perceber como ficamos muito para trás.

Podemos crer que a mudança, assim como na Dinamarca, acontecerá de dentro para fora, com a tardia consciência e atuação dos dirigentes partidários, das lideranças políticas nacionais ou de poderes relevantes (como a imprensa) para enfrentar o problema. Mas a história do Brasil, infelizmente, não faz jus à crença.

Portanto, talvez a mudança possa começar a acontecer através da manifestação popular democrática – o voto – nesta eleição de 2026. E como provavelmente você ainda não escolheu seus candidatos para o pleito de outubro, passe a considerar fortemente as candidatas. Vai fazer um bem enorme ao Brasil.

As Cruzadas são fonte recorrente de inspiração para líderes políticos

“O momento atual é muito semelhante ao século XI… Não queremos lutar, mas, como nossos irmãos cristãos há mil anos, devemos fazê-lo.” Essas são as palavras de Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, em seu livro de 2020, Cruzada Americana: Nossa Luta para Permanecer Livre . Hegseth tem usado repetidamente a linguagem bíblica e o simbolismo das Cruzadas para enquadrar tanto a política interna quanto a internacional.

E ele não é o único. A questão é por que as Cruzadas são uma fonte de inspiração tão poderosa para os líderes contemporâneos.

A história das Cruzadas é um exemplo de como a religião pode se tornar uma ferramenta poderosa para fins políticos em larga escala.

No Concilio de Clermont de 1095, o papa
 Urbano II convocou a guerra santa: "Deus vult!"

Em meados do século XI, os turcos seljúcidas (muçulmanos) conquistaram vastos territórios no Oriente Médio. No início da década de 1070, eles haviam tomado o controle de Jerusalém, o local mais sagrado da cristandade. O imperador bizantino Aleixo I Comneno apelou ao Papa Urbano II em 1095 por ajuda para se defender dos seljúcidas. Para o papado, essa era uma oportunidade de demonstrar seu poder, mobilizando a nobreza europeia e embarcando em nada menos que uma Guerra Santa.

No contexto da Europa medieval, uma era assolada por secas, fomes e epidemias, a crença no "fim dos tempos" era generalizada. O apelo de Urbano II por uma Guerra Santa para "libertar a Igreja de Deus" demonizou os muçulmanos e prometeu aos cruzados o perdão de todos os seus pecados passados ​​e a salvação eterna.

"Se pensarmos no que uma cruzada implicava, veremos que as pessoas eram solicitadas a aventurar-se no desconhecido, viajando milhares de quilômetros para terras inexploradas", diz Jonathan Phillips, especialista em história das Cruzadas da Royal Holloway University, em Londres. As chances de morte variavam de 35 a 40 por cento, afirma ele.

O apelo de Urbano à Guerra Santa foi atendido por homens e mulheres de todas as classes sociais, "de príncipes a camponeses", observa Phillips, e, acompanhados por pregadores, partiram para a Terra Santa em 1096. A chamada Cruzada Popular fez suas primeiras vítimas na Renânia, onde comunidades judaicas foram massacradas em um dos primeiros surtos de antissemitismo na Europa medieval.

A Terra Santa, localizada entre o que hoje são a Turquia, a Síria e o Egito, era uma sociedade multilíngue dividida entre os turcos seljúcidas (sunitas) e o califado fatímida (xiitas).

Mohamad El-Merheb, especialista no Mediterrâneo oriental islâmico pré-moderno da SOAS, Universidade de Londres, acredita que "algumas cidades eram bem defendidas e outras não; mas tudo isso ocorreu em um contexto de poder político muito fragmentado".

Os cruzados realizaram o que El-Merheb descreve como uma série de conquistas rápidas de cidades importantes. No entanto, a maioria retornou para casa ou morreu de doenças, fome ou puro esgotamento.

Quando conquistaram Jerusalém em 1099, os cruzados massacraram milhares de muçulmanos e judeus, pois não conseguiam distinguir entre eles.

Muitos historiadores consideram a queda de Acre para os guerreiros mamelucos em 1291 como o marco do fim das Cruzadas na Terra Santa. No entanto, outras cruzadas foram convocadas, seja para deter o avanço dos turcos otomanos na Europa Oriental durante o século XIV, seja como campanhas militares cristãs da Reconquista para retomar o controle da Península Ibérica do domínio muçulmano até o final do século XV.

O legado das Cruzadas permanece um poderoso e controverso ponto de referência cultural tanto no Oriente quanto no Ocidente. A memória histórica dessas guerras santas medievais é frequentemente usada para definir identidades, políticas e conflitos modernos .

Em 2001, o presidente dos EUA, George W. Bush, causou grande alvoroço ao descrever a chamada "Guerra ao Terror" como uma "cruzada", um termo que Osama bin Laden havia usado anteriormente para retratar as guerras lideradas pelos EUA como conflitos religiosos com o objetivo de destruir o Islã.

Em sua propaganda para legitimar sua jihad global, Bin Laden também invocou o legado de Saladino, um lendário sultão turco de origem curda, venerado até hoje como o herói que reconquistou Jerusalém dos cruzados em 1187.

El-Merheb explica que "ao longo do século XX, muitos grupos islamistas também começaram a se referir às potências ocidentais como cruzadas. Assim, isso se tornou parte do nacionalismo político, tanto em nível estatal quanto popular — por exemplo, no cinema. Agora, no Ocidente, está acontecendo o oposto."

A frase em latim "Deus vult" ("Deus o quer"), lema da Primeira Cruzada em 1095, foi usada pelo assassino em massa de extrema-direita Anders Breivik. Também foi usada pelo partido alemão de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), e Pete Hegseth, Secretário de Defesa dos EUA, a tem tatuada no braço.

No entanto, El-Merheb acredita que essas referências muitas vezes reduzem as Cruzadas a um simples confronto entre o cristianismo e o islamismo, e "ignoram as inúmeras alianças inter-religiosas entre muçulmanos e cruzados".