domingo, 27 de outubro de 2024

Se ao menos ...

O que está acontecendo com os palestinos agora é nada menos que um Holocausto. E sim, estou usando a palavra deliberadamente — porque até mesmo os sobreviventes do Holocausto estão chamando assim. Pessoas que viveram as piores atrocidades do século XX estão olhando para o que está acontecendo em Gaza e vendo os mesmos horrores se desenrolarem. Anistia Internacional, Human Rights Watch, o Tribunal Penal Internacional — todos disseram a mesma coisa: isso é genocídio, pura e simplesmente. Mas as autoridades israelenses e seu coro de apoiadores continuam rejeitando esses termos — eles ainda insistem que este é um conflito local normal. A evidência está bem na nossa frente gritando que isso não é. Uma olhada no TikTok ou no Twitter, e você se depara com imagens de revirar o estômago das IDF e seus soldados, praticamente ostentando seus crimes.

Não vamos medir palavras aqui. A IDF foi acusada de crimes de guerra que parecem saídos de um pesadelo — prisioneiros estuprados até a morte, médicos deliberadamente alvejados com drones, jornalistas mortos por atiradores, campos de refugiados bombardeados até o esquecimento, hospitais e escolas destruídos, pessoas inocentes assassinadas. E só para torcer a faca, eles transformaram o Holocausto em uma arma, usando o sofrimento indizível dos judeus nas mãos dos nazistas como um escudo para silenciar qualquer um que ouse criticá-los. Você não pode inventar essas coisas. Agora, a ONU diz que Israel está ameaçando matar de fome o norte de Gaza. Passamos do manual de guerra para a definição de aniquilação em massa.

Mas aqui estamos nós, fingindo que isso é apenas mais um "conflito normal". Não é. A história não será gentil com aqueles que ficaram parados e não disseram nada. Isso é genocídio. Isso é um Holocausto.
Daniel Medina (EUA), cartunista autor da ilustração

'O Exterminador do Futuro' previu nossos medos sobre inteligência artificial

Em um episódio da série da HBO Silicon Valley, Thomas Middleditch (Richard Hendricks) está explicando sua plataforma de machine learning (aprendizado automatizado) Pied Piper para participantes de um grupo focal, quando um deles inevitavelmente a compara ao filme O Exterminador do Futuro, de James Cameron, de 1984.

"Não, não, não", insiste o exasperado Middleditch.

"Posso garantir que não há nenhuma situação do tipo Skynet aqui. Não, o Pied Piper não vai se tornar senciente e tentar dominar o mundo."

Tarde demais. Ele perdeu a atenção dos participantes.

Com robôs assassinos e um sistema de inteligência artificial (IA) rebelde, chamado Skynet, O Exterminador do Futuro se tornou sinônimo do espectro de uma IA que se volta contra seus criadores humanos.

Os editores de imagens ilustram rotineiramente artigos sobre inteligência artificial com a caveira cromada do ciborgue assassino T-800 do filme. O roboticista Ronald Arkin usou trechos do filme durante uma palestra de advertência de 2013 chamada "Como NÃO construir um Exterminador do Futuro".


Mas o filme divide opiniões. O filósofo Nick Bostrom, cujo livro Superinteligência, de 2014, popularizou o risco existencial da "IA desalinhada" (inteligência artificial que não está alinhada com os valores e bem-estar humanos), admitiu que sua esposa o "provoca em relação ao Exterminador do Futuro, e o exército de robôs".

Em seu livro The Road to Conscious Machines ("O Caminho para Máquinas Conscientes", em tradução livre), o pesquisador de IA Michael Woolridge dedica um capítulo inteiro a reclamar sobre "a narrativa do Exterminador do Futuro relacionada à IA".

Há filmes influentes mais recentes, e mais plausíveis, sobre inteligência artificial, incluindo Ex Machina e Ela, mas quando se trata dos perigos da tecnologia, O Exterminador do Futuro reina supremo 40 anos após seu lançamento.

"É quase, de uma forma engraçada, mais pertinente agora do que quando foi lançado", disse Cameron ao site The Ringer sobre o filme e sua sequência de 1991, "porque a IA agora é uma coisa real com a qual temos que lidar — e, na época, era uma fantasia."

Essa é uma grande conquista para um filme que, na verdade, não está particularmente interessado na inteligência artificial.

Antes de mais nada, é um thriller simples e sinistro sobre um "homem" imparável que persegue uma mulher assustada, mas habilidosa. O T-800 é um assassino implacável, nos moldes do personagem Michael Myers, de Halloween. Cameron o chamou de "filme de ficção científica de terror".

Em segundo lugar, é um filme de viagem no tempo sobre o tema "destino x livre arbítrio", como disse Cameron.

A premissa rapidamente resumida é que, em algum momento entre 1984 e 2029, os EUA confiaram todo o seu sistema de defesa à Skynet. Um dia, a Skynet ganhou superinteligência — uma mente própria —, e deu início a uma guerra nuclear global.

Os sobreviventes da humanidade travaram então uma rebelião de décadas contra o exército de ciborgues da Skynet.

Em 2029, a resistência humana está à beira da vitória graças à liderança de John Connor, e a Skynet envia um T-800 (Arnold Schwarzenegger) para o ano de 1984, com a missão de matar a futura mãe de John, Sarah (Linda Hamilton), antes que ela engravide.

A resistência responde com o envio de Kyle Reese (Michael Biehn) para deter o T-800 — e salvar Sarah. Em um desses paradoxos de loop temporal que os espectadores não devem prestar muita atenção, Kyle se envolve com Sarah, e acaba se tornando o pai de John. O futuro é salvo.

O Exterminador do Futuro é, então, um thriller, uma história de amor, uma reflexão sobre o livre-arbítrio com viagem no tempo e uma sátira sobre nossa dependência da tecnologia. É anticorporativo, antiguerra, antiarmas e, em grande parte, antimáquina.

A tecnologia, de secretárias eletrônicas a walkmans, está envolvida quando as pessoas são mortas no filme. Mas tem muito pouco a dizer sobre a inteligência artificial propriamente dita.

O Exterminador do Futuro se tornaria um filme extremamente lucrativo, arrecadando US$ 78,4 milhões diante de um orçamento de US$ 6,4 milhões, mas Cameron não tinha expectativa de criar uma referência cultural.

Ele escreveu o roteiro em um hotel decadente em Roma, em 1982, após ser demitido do seu primeiro trabalho como diretor, em Piranha 2: Assassinas Voadoras; e sua produtora, Gale Ann Hurd, só conseguiu arrecadar um orçamento de US$ 6,4 milhões.

O ator principal, um ex-fisiculturista de talento duvidoso, não tinha grandes expectativas. Schwarzenegger contou a um amigo sobre "um filme de m... que estava fazendo, vai levar algumas semanas".

O próprio Cameron esperava que O Exterminador do Futuro fosse "massacrado" nas bilheterias pelos dois épicos de ficção científica daquele outono: Duna, de David Lynch, e 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, de Peter Hyams, uma sequência logo esquecida de 2001 - Uma Odisseia no Espaço.

Há uma sincronicidade interessante aqui: não só O Exterminador do Futuro superou o desempenho de 2010 - O Ano em Que Faremos Contato, como a Skynet suplantou o computador assassino HAL 9000 de 2001 - Uma Odisseia no Espaço, como a imagem dominante da inteligência artificial ​​que se rebela.

Muito antes do campo da IA existir, seus perigos potenciais se manifestaram na forma do robô criado por Karel Čapek em sua peça RUR, de 1921, e foram popularizados pelo filme Metrópolis, de Fritz Lang, de 1927.

Em seu excelente livro sobre O Exterminador do Futuro, da série de Clássicos Modernos do Instituto de Cinema Britânico (BFI, na sigla em inglês), Sean French sugere que a cena mais memorável do filme — o T-800 saindo das chamas, com seu esqueleto metálico exposto, após seu revestimento de carne ter derretido — foi uma referência ao robô queimado em Metrópolis.

Na década de 1920, era óbvio que a inteligência artificial andaria e falaria, como o monstro de Frankenstein. A popularidade dos robôs letais levou o escritor de ficção científica Isaac Asimov a elaborar, em 1942, as "três leis da robótica": a primeira tentativa de definir a inteligência artificial ética.

No mundo real, o campo da inteligência artificial começou oficialmente em 1956, durante um curso de verão na Universidade de Dartmouth, organizado pelos cientistas da computação John McCarthy (que cunhou o termo) e Marvin Minsky.

A ambição deles era desenvolver máquinas que pudessem pensar como seres humanos, mas isso se mostrou muito mais difícil do que eles imaginavam.

A história da inteligência artificial ​​é marcada por altos e baixos, as chamadas "primaveras" e "invernos" da IA. As promessas alucinantes atraem atenção, financiamento e talentos; mas sua falha em se concretizar faz com que todos esses três elementos entrem em colapso.

O boom da década de 1960, antes de a dimensão dos obstáculos técnicos se tornar aparente, é conhecido como a Era de Ouro da IA. O hype extravagante sobre "cérebros eletrônicos" entusiasmou o diretor Stanley Kubrick e o escritor Arthur C. Clarke, que incorporou a IA em 2001: Uma Odisseia no Espaço, de 1968, na forma de HAL 9000.

O nome (sigla em inglês para "Computador Algorítmico Heuristicamente Programado") foi dado pelo próprio Minsky, contratado como consultor por Kubrick. Os olhos vermelhos do T-800 são, sem dúvida, uma homenagem a HAL — ter assistido a 2001: Uma Odisseia no Espaço na infância, colocou Cameron na trajetória para se tornar cineasta.

Daniel Crevier, um historiador especializado em IA, comparou a situação de HAL (computador mal programado que dá errado) com a do Colossus (computador que se torna uma nova forma de vida semelhante a um deus), do livro homônimo de DF Jones, de 1966.

No romance de Jones, o governo dos EUA confia de forma imprudente todo seu maquinário de defesa ao supercomputador. O Colossus adquire senciência, une forças com sua contraparte soviética e chantageia a humanidade para que se submeta a uma ditadura tecnológica: renda-se ou enfrente a aniquilação nuclear. O Colossus é um protótipo da Skynet.

Nem HAL nem Colossus tinham — ou precisavam — de corpos. A brilhante inovação de Cameron foi combinar o computador fora de controle (Skynet) com o ciborgue assassino (T-800).

O T-800 é uma forma de IA com propósito único que é capaz de aprender com seu ambiente, resolver problemas, executar tarefas físicas sofisticadas e imitar vozes, mas tem dificuldade para manter uma conversa. A Skynet, ao que parece, pode fazer tudo, menos se mover.

A Skynet foi um produto da segunda primavera da IA. Enquanto Cameron escrevia o roteiro, o cientista da computação britânico-canadense Geoffrey Hinton estava repensando e revitalizando a pesquisa sobre a abordagem de rede neural para IA: modelar a inteligência da máquina com base nos neurônios do cérebro humano. A Skynet é uma IA de rede neural.

Hinton, que acaba de ganhar o Prêmio Nobel de Física, recentemente se tornou um pessimista em relação à IA ("Minha intuição é: estamos fritos. Este é o verdadeiro fim da história"), mas, de acordo com um perfil preparado pela revista New Yorker, ele gostou de O Exterminador do Futuro em 1984: "Não o incomodava que a Skynet... fosse uma rede neural; ele ficou satisfeito em ver a tecnologia retratada como promissora".

O nome Skynet também pode ter sido uma alusão ao programa Guerra nas Estrelas, o sonho fracassado do presidente americano Ronald Reagan de criar um escudo antinuclear ao redor dos EUA com lasers baseados no espaço. Felizmente para o futuro da franquia, também ecoou inadvertidamente a internet — palavra que existia em 1984, mas só começou a ser amplamente usada a partir da década de 1990.

Os nomes amalgamados de novas startups ambiciosas, como IntelliCorp, Syntelligence e TeKnowledge, possivelmente inspiraram Cameron a transformar o nome original da criadora da Skynet, Cyber Dynamics Corporation, em Cyberdyne Systems.

Ao assistir novamente ao filme O Exterminador do Futuro, é surpreendente descobrir que a palavra Skynet é pronunciada apenas duas vezes.

De acordo com o personagem Kyle Reese, ela era: "Nova. Poderosa. Conectada a tudo, confiável para executar tudo. Dizem que ficou inteligente... uma nova ordem de inteligência. Então, viu todas as pessoas como uma ameaça, não apenas as do outro lado. Decidiu nosso destino em um microssegundo... extermínio".

O interesse do filme em relação à IA para por aí. Como Cameron sempre disse, os filmes de O Exterminador do Futuro são, na verdade, sobre pessoas, e não sobre máquinas.

A sequência de sucesso O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final, de 1991, preencheu um pouco a história. Ela surge de outro paradoxo temporal: a unidade central de processamento e o braço direito do Exterminador original sobreviveram à sua destruição, e permitiram que o cientista Miles Bennett Dyson (Joe Morton), da Cyberdyne, desenvolvesse a Skynet.

A missão dos heróis agora não é apenas salvar John Connor, de 10 anos, do ciborgue T-1000 que viaja no tempo, mas destruir a Skynet em seu berço digital.

Em O Exterminador do Futuro 2, um ciborgue T-800 na forma de Schwarzenegger é o protetor, em vez de caçador — e, portanto, o portador da seguinte explicação:

"O sistema entra em operação em 4 de agosto de 1997. Decisões humanas são removidas da defesa estratégica. A Skynet começa a aprender, a uma taxa geométrica. Ela se torna autoconsciente às 2h14, horário do leste (nos EUA), em 29 de agosto. Em pânico, eles tentam desligá-la."

A Skynet revida lançando mísseis nucleares na Rússia, sabendo que o contra-ataque vai devastar os EUA. Três bilhões de pessoas morrem em 24 horas: no Dia do Julgamento Final.

Este é um relato fundamentalmente diferente do de Reese. No primeiro filme, a Skynet interpreta sua programação de forma exagerada, considerando toda a humanidade uma ameaça. No segundo, ela está agindo por interesse próprio. A contradição não incomoda a maioria dos espectadores, mas ilustra uma divergência crucial sobre o risco existencial da IA.

É provável que um leigo imagine a IA desalinhada como rebelde e malévola. Mas especialistas como Nick Bostrom insistem que o perigo real está na programação descuidada.

Pense na vassoura do aprendiz de feiticeiro em Fantasia, da Disney: um dispositivo que segue obedientemente suas instruções a extremos desastrosos.

O segundo tipo de IA não é humano o suficiente, carece de bom senso e julgamento moral. O primeiro é humano demais — egoísta, ressentido, sedento de poder. Ambos poderiam, em teoria, ser genocidas.

O Exterminador do Futuro, portanto, tanto ajuda quanto atrapalha nosso entendimento da inteligência artificial: o que significa para uma máquina "pensar", e como isso pode dar terrivelmente errado.

Muitos pesquisadores de IA se ressentem da obsessão pelo filme O Exterminador do Futuro por exagerar o risco existencial da tecnologia ​​em detrimento de perigos mais imediatos, como desemprego em massa, desinformação e armas autônomas.

"Primeiramente, ele faz com que a gente se preocupe com coisas com as quais provavelmente não precisamos nos preocupar", escreve Michael Woolridge.

"Mas, em segundo lugar, desvia a atenção das questões levantadas pela IA com as quais deveríamos nos preocupar."

Cameron revelou à revista Empire que está planejando um novo filme do Exterminador do Futuro que vai descartar toda a bagagem narrativa da franquia, mas manter a ideia central de humanos “impotentes” contra a IA.

Se isso acontecer, será fascinante ver o que o diretor tem a dizer sobre a inteligência artificial, agora que é algo sobre o que conversamos — e nos preocupamos — todos os dias.

Talvez a mensagem mais útil de O Exterminador do Futuro para pesquisadores de IA seja a de "destino x livre arbítrio": as decisões humanas determinam os resultados. Nada é inevitável.

sábado, 26 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Sobre humanidade

Marjane Satrapi, iraniana refugiada em França, conta em quadrinhos sua juventude marcada pela revolução e pela guerra no Irã, na série “Persépolis”, saga que milhões de cópias e foi traduzida para mais de cem idiomas. Satrapi recebeu esta semana o Prêmio Princesa das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em Oviedo (Espanha). Este foi o discurso de agradecimento;

Em primeiro lugar, queria expressar a minha profunda gratidão por este prémio extraordinário que me concederam.

E agora, já que é disso que estamos falando, vamos falar da humanidade.

Entre o que os biólogos chamam de animais autênticos, ou seja, mamíferos, o homem é o único que mata a sua fêmea. E qualificamos esse ato como bestial, já que nenhum outro animal, fora de nós, o comete. Isso é humanidade.

Mas também há humanos que perdem a vida às mãos dos seus torturadores para proteger os seus semelhantes, não para os denunciar, e sei muito bem do que estou a falar. Isso também é chamado de humanidade.


Há os membros da orquestra que tocam uma sinfonia e nos dão a forma mais pura de beleza, e há aqueles que orquestram guerras e que, por cada cem litros de sangue derramado, recebem uma nova medalha.

E aplaudimos uns aos outros com o mesmo fervor.

Com isso quero lhe dizer que não tenho uma visão idealizada da humanidade e que eu, em mim, vivencio essa dualidade. Aceito tanto a minha violência como a minha benevolência, esperando sempre que esta prevaleça sobre a primeira.

Durante muito tempo acreditei que a chave para qualquer ser humano viver com dignidade, para que nunca sofresse brutalidade ou humilhação por causa do seu sexo, da sua etnia ou da sua cor, era a educação. Mas Goebbels não tinha doutorado em filosofia? O Dr. Mengele não fez o Juramento de Hipócrates?

Estaremos errados quando definimos educação? Talvez antes de educar os nossos filhos para terem sucesso económico e social, devêssemos ensinar-lhes que o verdadeiro sucesso reside acima de tudo no humanismo.

Que o que permitiu ao homem colocar-se acima de todos os seres vivos foi ele ter criado sociedades; e uma sociedade só existe porque - ao contrário de um animal que está condenado a morrer quando quebra uma perna - nós cuidamos dos nossos semelhantes. Nós os carregamos em nossos ombros e os colocamos em segurança.

O homem sozinho não sobrevive na natureza. Só sobrevive juntando-se a outros e criando sociedades. E a condição sine qua non para conseguir isso é a empatia.

Talvez na educação, em vez de ensinarmos os nossos filhos a aprender tudo de cor e a recitar como papagaios, devêssemos ensinar-lhes ética, civilidade e, acima de tudo, compaixão e bondade. E garanto que não sou daqueles que dão a outra face. Por um tapa recebido eu devolveria dez, mas procuro nunca ser aquele que acerta o primeiro.

E, por fim, lerei para vocês um poema de Saadi, um grande poeta iraniano do século XIII:

O ser humano faz parte do mesmo corpo,
e tem a mesma origem.
Quando a vida causa dor a um membro
os outros não descansam.
Você que é indiferente ao sofrimento dos outros,
Você não merece ser chamado humano.

Obrigado por me ouvir e à humanidade em sua totalidade.

Israel perdeu a inocência

Ao contrário de vários escritos sobre a recente guerra no Médio-Oriente priorizando, por vezes algo doentiamente, ‘o estado ao que as coisas chegaram’, não é propósito neste artigo tecer considerandos críticos sobre a razia que vai ocorrendo contra povo palestiniano na Faixa de Gaza, por obra do Governo de Benjamin Netanyahu ( t.c.p. “Bibi”).

A tónica é avaliar a credibilidade ética de um Estado e, por tabela, de todo um estrato populacional (exceções aparte), ao qual historicamente se tem atribuído foros de ‘povo eleito’. Urge sublinhar a este respeito que semitismo diz respeito tanto a árabes como a judeus, pois, em termos bíblicos, ambos descendem de Abraão (os árabes – descendentes de Ismael, 1º filho de Abraão, nascido da escrava Agar, e os judeus – descendentes de Isaac, 2º filho de Abraão, nascido da esposa Sara).

A Resolução 181 do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CS/ONU) de 28 de novembro de 1947 intitula-se Plano de partilha de Palestina em um Estado Árabe e um Estado Judeu com união económica e regime especial para Jerusalém. Em apreço estava uma reivindicação anterior, bem ou mal assente na ideia-força de que o povo judaico tinha o direito a um espaço em terra palestina. Assim nasceram os alicerces do que hoje conhecemos como o Estado de Israel. O seu reconhecimento viria a ser impulsionado pela tragédia genocida dos cerca de 6 milhões de judeus no Holocausto levado a cabo pelo nazismo alemão. A sua vez, o previsto Estado palestiniano, ficaria a marcar passo, fruto de confluência de três circunstâncias diferenciadas: a oposição dos Estados Árabes à existência de um Estado Judaico, a firmeza do sionismo em sentido contrário e a inexistência de uma unidade palestina visando a constituição de um Estado próprio, o que só viria a conhecer a luz do dia em 1964 com a OLP (Organização de Libertação de Palestina) sob a liderança de Yasser Arafat.

De então para cá, a questão Israel-Palestina viria a conhecer uma vasta gama de acontecimentos, sendo de destacar os dois Acordos de Oslo (1993). Porém, o seu deturpado cumprimento veio a viabilizar a prática de Colonatos Israelitas, traduzidos na anexação de terrenos palestinianos e inerente expulsão dos habitantes destes. Deste procedimento resultaria um acréscimo territorial israelita superior a 22% quando comparado com os 56% da terra palestina que a Resolução havia alocado aos judeus. A Resolução 2334 do CS/ONU(2016) afirmou a ilegalidade dos colonatos (‘settlements’) israelitas em território palestiniano ocupado, incluindo os de Jerusalém Oriental tendo em conta as fronteiras de 1967.


Voltando à atualidade, não se pode dizer, por isso, que Israel esteja inocente de tudo quanto se está passar na Faixa de Gaza. Estivesse em funcionamento um Estado de Palestina e, porventura, no dizer do Professor Yuval Noah Harari na Universidade de Te-Aviv, “os israelitas (não) estariam a pagar o preço pelos seus anos de arrogância, durante os quais os seus governos e muitos israelitas comuns sentiram que eram muito mais fortes do que os palestinianos” (Público 12.10.2023, pgs 5).

É puramente quimérico estar-se a negar a existência do Estado de Israel de pleno direito. Fazê-lo seria um retrocesso da história, como estar a interrogar sobre as realidades existenciais dos EUA ou duma Austrália. A história não espera por nós, mas nós fazemos parte dela. É o avanço da civilização que o exige. Houve historicamente ocupações e usurpações de terras que a realidade consagrou como definitivas com o passar do tempo – uma espécie de usucapião histórico político. Foi a época de deslocação e fixação definitivas de povos dos séculos transatos. Mas se a história não retrocede, podem evitar-se os seus erros e abusos para o futuro. Daí que, no presente – 2º metade do seculo XX e XXI – a ocupação forçada de terras alheias qualifica-se, nem mais nem menos, como usurpação por falta de qualquer título de legitimidade. E qualquer ideia de facto consumado ou prescrição jurídica é afastada, dada a permanente contestação e repúdio a que a ONU vota tais colonatos. Neste domínio, e nesta parte, a lei internacional e a nacional regem-se pelos mesmos princípios.

Ora, é patente que os palestinianos não estão num processo de luta ou de guerra de libertação face ao Estado de Israel já que ninguém pode ser prisioneiro na sua própria casa. É tão simples quanto isto. Por isso, se não tem justificação o barbarismo do ato pratico pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, também certo é que nada pode justificar a barbárie cometida pelas Forças Armadas Israelitas, sob o comando do Governo de Benjamim Netanyahu. Neste quadro, não podem deixar de merecer o mais veemente e profundo repúdio a posição dos políticos americanos e europeus, que sob a cobertura das sua angélicas posturas políticas, acabam por patrocinar, fomentar e sustentar a continuação desta barbárie sob a capa de que estão a defender a liberdade e a democracia.

Não está em causa o direito ao exercício de autodefesa contra a investida do Hamas. A boa hermenêutica jurídica (nacional ou internacional) exige, porém, que a mesma seja exercida num imediatismo razoável e seja proporcional. Ora o que está a acontecer até ao presente, pelo menos até à data deste escrito, é uma deliberada e programada eliminação física de dezenas de milhares de palestinianos civis, a destruição de edifícios, hospitais e escolas do ativo, eliminação física de crianças e idosos em campo de refugiados e a deslocação territorial de mais de um milhão de pessoas carentes de alimentação e de saúde.

Posto isto, o que dizer de Israel? A razão apresentada para este procedimento é de que os combatentes do Hamas se escudam nos hospitais, nas escolas e misturam-se no meio da população. É …. vá daí, elimina-se tudo e todos. Certo, porém, é que a máscara caiu, o Kipá merece mais respeito e de pouco valem as “fantasias messiânicas”, as ortodoxias estéreis ou as lamentações junto ao muro, não o de apartheid da Cisjordânia, mas o de lamentações.

Israel é tido como um país bastante avançado e desenvolvido no contexto do Médio Oriente, dispondo de uns serviços secretos ultra-eficientes e havendo mesmo notícias que algumas das suas ações militares tem já dispositivo instrumental operado por Inteligência Artificial. Neste contexto, é pertinente a indignação quanto à grandiosidade de umas Forças Armadas que para desarticular um grupo armado demonstra não ter capacidade para os individualizar do resto da população tendo, para tanto, necessidade de dizimar mais de 40.000 civis para além de milhares de feridos! Neste afã de ataque e destruição não é de pôr de parte que estas forças possam ter atingido os 6 reféns israelitas.

Como se referiu, não está em causa o direito de autodefesa por parte de Israel. A legitima autodefesa pressupõe que a parte que a alega não crie situações de insustentabilidade que levem a parte contrária a reagir. Dito ‘alio modo’, o ‘auto-defendente’ não pode gerar contextos para depois, com base nestes, invocar este instituto. Nestes termos, a alegada autodefesa por Israel esgotou-se na resposta à intervenção de 7 de Outubro do Hamas pelo seu imediatismo e por tal ocorrer no seu território (não contemplando os excessos cometidos e que continuam a cometer-se em Gaza).

Mas, Israel parece estar a tentar contornar todo o contexto político, procurando estender a sua autodefesa a toda a problemática do conflito israelo-palestino em jeito de uma guerra. “Numa guerra, se um lado é mau, não significa que o outro seja bom……Basta ser guerra para não ter lados bons” (Eduardo Aqualusa – VISÃO 31 e Março de 2012, pgs 96). É aqui que perde toda a sua inocência e assinala a má-fé que rege o seu estofo ético histórico e político. Assumindo-se um Estado democrático, assente não numa Constituição escrita, mas em Leis Fundamentais avulsas, viu em 1 de setembro deste ano o seu Supremo Tribunal determinar a suspensão de uma greve geral “por motivos políticos” (ou seria, suspensão ‘por motivos políticos’ uma greve geral?)

A continuada política de colonatos ilegais por terras palestinianas, com a consequente expulsão dos donos das casas e das terras, sob a complacência das autoridades, nomeadamente dos tribunais, a conivência da população israelita neste processo e a perseguição de cidadãos palestinianos que rondam as dezenas de milhares – prática esta que tem vindo a ser condenada por n Resoluções das Nações Unidas, (organismo do qual Israel faz parte), mas que tem sido obstinadamente desrespeitadas demonstra ser a principal e basilar razão material deste conflito. Um tal comportamento poderia justificar a expulsão de Israel da ONU, porém a solução seria contraproducente, pois deixar o Estado de Israel ainda mais em roda livre, agravando o estatuto de “rogue-country” que já aparenta ser. Com qualificar um ‘leader’ político que tenta desacreditar a ONU, por o seu secretário-geral criticar veementemente Israel pela eliminação física e indiscriminada de uma população, já quase equiparada a um genocídio e desrespeita a decisão do Tribunal Internacional de Justiça de 19 de julho, por configurar a presença de Israel em território ocupado palestiniano como ilegal e apelando à imediata suspensão de construção de colonatos?

Dando o merecido crédito e respeito às recentes manifestações do povo israelita, a verdade é que Netanyahu foi eleito três vezes para primeiro-ministro, com a agravante de ser bem evidente que desta vez beneficiava do declarado apoio do setor ultraortodoxo do sionismo. Afere-se assim, que uma parte significativa do eleitor israelita tem a sua quota parte de responsabilidade no que esta a acontecer. A questão dos “reféns”, apesar da sua gravidade, assume neste âmbito a natureza de um “falso problema”, salvo se se entender que a vida de um refém israelita vale mais que a vida de 100 palestinianos!

Tudo leva a crer que a questão mediata se relaciona com o fanatismo e/ou chauvinismo doutrinário. A frase “religião é o ópio do povo” parece ter aqui toda a pertinência, de parte a parte, não no sentido da sua eliminação ou superação, mas como um ‘prius’, um agente intolerante de convivência entre povos e Nações, apelidando-se de “Estados religiosos”. A eliminação desta confusa mancomunação política/religião passa por uma abordagem conciliatória entre os responsáveis das religiões mais tradicionais. É de saudar por isso a Declaração Conjunta de Isteqlal de Jacarta – agosto 2024 – subscrita pelo Papa Francisco e o Grande Imã Nasaruddin Umar, ao reconhecer a existência de “valores comuns a todas as religiões para “derrotar a cultura de violência e de indiferença.

Numa altura em que, pelo mundo fora, se clama cada vez com mais ressonância por uma maior solidariedade e humanismo entre os povos e nesta dinâmica uma generalizada repulsa pelas atrocidades de que o povo palestiniano é vítima, eis que surge a deliberação da Assembleia Geral da ONU de 18 de setembro, votada por uma maioria de 2/3 dos seus membros (124, quando a ONU tem 193 membros), no sentido de exigir que Israel ponha termo à sua presença ilegal em Gaza, na Cisjordânia ocupada e Jerusalém Oriental, a cessação de novos colunatos, a restituição de terras e propriedades usurpadas e o regresso de palestinianos deslocados, no prazo de um ano.

Um prazo, diga-se de passagem, algo dilatado para Israel continuar com as suas investidas, havendo por isso quem interrogue pela não utilização do dispositivo de intervenção da Força Militar de Paz da ONU no caso presente, postura que contrasta com a prontidão com que agiu noutras paragens como o Ruanda, Kosovo e outros.

Os EUA foram um dos 14 países que votou contra a deliberação. Assumido que as constantes visitas de Anthony Blinken ao Médio Oriente não são de recreio, as mesmas mais se revestem de vendedor de promessas angélicas, permitindo incessantes adiamentos para a solução do conflito, sempre propícias para as Forças Armadas continuarem com as atrocidades (os tais 10% do acordo que ainda falta atingir) e a propulsão da indústria armamentista.

Do contexto gerado, há três situações desastrosas a temer e que despontam no horizonte: o sofrimento e dizimação do povo palestiniano, um crescente antissemitismo israelita e o alastramento de uma guerra generalizada pelo Médio Oriente.

Quo Vadis Israel?

Os munícipes que não reclamam

Na gestão em que se dedicaria a equilibrar as contas do município, enfrentar o desperdício e a ineficiência na administração, extinguir favores a compadres, pôr fim às extorsões que afligiam os mais pobres e, o mais inconveniente, relatar de forma clara e honesta o que fez e o que não conseguiu fazer durante o mandato, o prefeito de Palmeira dos Índios escreve, após o primeiro ano de trabalho: “Há descontentamento. Se a minha estada na prefeitura (...) dependesse de um plebiscito, talvez eu não obtivesse dez votos”.

O prefeito impopular, bem como o dono da autoavaliação seca, irônica e sobretudo literária, era Graciliano Ramos. O futuro romancista administrou Palmeira dos Índios, próxima a sua cidade natal, Quebrangulo, de janeiro de 1928 a abril de 1930, e no começo de cada ano escreveu relatórios de prestação de contas ao Conselho Municipal e ao governo de Alagoas. Desde aquela época os balanços da prefeitura chamaram a atenção da imprensa pela qualidade literária, e agora estão reunidos no livro O Prefeito Escritor: Dois Retratos de uma Administração (Record, 2024).


A leitura de texto tão burocrático, “com algarismos e prosa de guarda-livros”, interessa quase cem anos depois em primeiro lugar pelo que se pode antever do estilo do autor de Vidas Secas, já elogiado pelos contemporâneos dos relatórios. Em um trecho sobre os custos da administração, por exemplo, o prefeito escreve: “E lá se vão mais de trinta contos gastos sem uma varredela nas ruas, um golpe de picareta nas estradas, um professor, mesmo ruim, na Brecha ou no Anum”. Aos leitores atuais de Graciliano, interessa também o aspecto biográfico dos documentos, que ajudam a compreender o pensamento do homem que se tornaria preso político mais tarde. Por fim, para um público mais amplo, a leitura dos balanços interessa hoje porque muitos dos problemas que o prefeito escritor teve de lidar na Palmeira dos Índios do fim da década de 1920 o Brasil ainda enfrenta, como o patrimonialismo e o clientelismo.

No começo do mandato, diz um documento, o prefeito encontrou obstáculos dentro e fora da prefeitura: “Pensavam uns que tudo ia bem nas mãos de Nosso Senhor, que administra melhor do que todos nós; outros me davam três meses para levar um tiro”. A dificuldade de arrecadação do município, o que o autor explica por serem todos, prefeitos e contribuintes, mais ou menos compadres, foi um dos desafios em que Graciliano teve sucesso durante a gestão, marcada pelo aumento da receita, mas também pela impopularidade.

Austero com uns, incluindo amigos e familiares, o prefeito registrou gastos com serviços públicos sanitários e de instrução, investiu nos subúrbios e aliviou a arrecadação dos mais pobres, estabelecendo “a equidade que torna o imposto suportável”. “Se eu deixasse em paz o proprietário que abre as cercas de um desgraçado agricultor e lhe transforma em pasto a lavoura, devia enforcarme.” Quanto aos prestadores de serviço da prefeitura, se não foram valorizados pelo gestor, ao menos constam nos relatórios exemplos de indignação com as remunerações pagas a eles (“uns pobres homens que se esfalfam para não perder salários miseráveis”).

O corte de gastos nem sempre era possível, como no contrato para o fornecimento de energia elétrica firmado em outra gestão, no qual a cidade pagava “até a luz da Lua”. “Apesar de ser o negócio referente à claridade, julgo que assinaram aquilo às escuras”, graceja o prefeito. Se era obra importante mas prorrogável, ele adiava, a exemplo da construção do cemitério novo: “Os mortos esperarão mais um tempo. São os munícipes que não reclamam”. E enterrava os recursos na conservação.

“Aí está, em traços largos, o estado em que se encontra a Prefeitura de Palmeira do Índios”, conclui o prefeito no primeiro relatório. Do interior de Alagoas, os documentos chegaram até o editor Augusto Frederico Schmidt, no Rio de Janeiro, que imaginou que quem escreve um relatório de prestação de contas com tamanha graça deveria ter um romance na gaveta. E tinha mesmo. Caetés, o primeiro livro de Graciliano Ramos, foi escrito durante a gestão, e saiu pela editora de Schmidt em 1933. O romance, aliás, se passa em Palmeira dos Índios, e tem como protagonista um guarda-livros que deseja ser escritor e fazer parte da elite social da cidade.

Como uma obra literária inacabada, Graciliano não terminou o mandato, mas seus relatórios deixam reflexões sobre o papel do prefeito, esse cargo cada vez mais esquecido em relação às pautas de política nacional que dominam as conversas nos ônibus e padarias, mas fundamental para o lugar onde a vida acontece, ou seja, o município.

Matando-lhe “o bicho do ouvido”, as reclamações fizeram parte do começo ao fim da gestão do escritor, inclusive colaborando para a renúncia. Mas a indiferença da população à política local não ajudaria Graciliano a construir uma cidade mais próspera e justa. Pelo contrário, o prefeito escreve: “Bem comido, bem bebido, o pobre povo sofredor quer escolas, quer luz, quer estradas, quer higiene. É exigente e resmungão”. A apatia política, em vez disso, tende a buscar soluções tão fáceis quanto falsas, não se importando em destruir o que não afeta mais. É melhor que reclamem.

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Não me gritem!

Os estudos poderiam querer enganar-nos, mas a realidade ainda somos nós quem a faz todos os dias. E certamente todos os dias há menos um espectador clássico de televisão, e no seu lugar nasce o programador da sua própria emissão, vista na plataforma que entende, às horas que quer, e como quer. Os estudos reconhecem-no, por piores que estas noticias sejam para os seus principais utilizadores, que constitui toda a gama de intermediários que nasce no produtor e acaba no consumidor. Nunca como hoje fomos tão donos das nossas escolhas – com dinheiro, sem dinheiro, em espaço público ou privado – o que deve dar dores de cabeça a quem tem por obrigação vender-nos “coisas” em massa. Costumo dizer que o único lugar onde ainda me apanham a ver publicidade num ecrã é mesmo nas Caixas Multibanco, porque sou forçado a esperar pelas instruções do bonequinho...

Ainda assim, deve haver uns “chatos” profissionais cuja missão consiste em atazanar a cabeça dos publicitários, dos compradores de espaço, dos negociadores dos canais de TV, e que ainda não perceberam quão prejudicial pode ser a publicidade martelada para quem só aguarda pacientemente pelo bloco de notícias seguinte.

Falo por mim. Escolho os raros programas que me interessam nas TV’s generalistas e de cabo, e opto por gravar e ver mais tarde, ou agarrar-me ao comando a puxar “a fita” para trás (tão anos 80, não é?). Mas confesso que ainda sou um “viciado” em noticias e, além de um dos 3 telejornais dos canais generalistas (vou alternando, sem grande critério...), acabo por “perder” mais alguns bocados da noite no clássico zapping por entre os canais informativos especializados (incluindo a CMTV, não me envergonha dizê-lo...). Imagino que, desorientados e sem margem de manobra, os negociadores de espaço, depois do “discurso oficial” sobre os media, que não estão a saber adaptar-se ao digital (como se eles tivessem no bolso a chave do tesouro...), cedam ou convençam ou se convençam que chegam lá pela insistência.

O resultado é trágico: além de desligar o som quando sou apanhado na curva por um bloco publicitário de longuíssimos minutos, tenho um top de marcas e produtos que, de tantas vezes me chamarem atrasado mental, martelando na mesma mensagem e no mesmo discurso, como se tivesse cinco anos, estão riscados da lista de potencial cliente, mesmo que “de borla”. A memória é manhosa, mas nunca me verão tomar Memofante; talvez pague os mais caros seguros do automóvel do mundo, mas não me passa pela cabeça ligar à Tele-seguro; o nome Trivago causa-me urticária; recuso-me a entrar na Worten; só a tiro de caçadeira abrirei conta no Bankinyter; e fujo a sete pés das promoções da marca Finish. Não adianta falar de automóveis e de promoções do mundo das telecomunicações, porque a confusão e a tentativa de canibalizar mercados chegou ao ponto de já não distinguir um BMW de um Renault. Este conjunto pequeno daquilo a que chamo “marcas-melga” está a afastar-nos até dos produtos de que potencialmente seríamos compradores e a que ainda nos prendia alguma publicidade: a imaginação, a criatividade, a surpresa, o momento bem escolhido para entrar “no ar”. No desespero de vender um pouco mais pela insistência, pela martelada, pela falsa ideia de que somos moscas atrás do néon iluminado, causa repulsa e só consegue incomodar.

Nos (escassos) casos contrários, uma marca consegue criar empatia até com aqueles que a podem dispensar, por fazer efectivamente parte dos seus dias. Recordo agora – e é recente - a campanha que assinalou os 90 anos da cerveja Superbock. Os filmes históricos. Os vídeos virais. As edições com receitas antigas. As garrafas e os rótulos. Sem incomodar em demasia. Escolhendo os espaços e horários adequados.

É um excelente exemplo para responder a esta espécie de esquizofrenia que tomou conta dos bocadinhos em que ainda “nos apanham” a ver televisão. Ninguém quer pensar nisto? Ou preferem continuar a perder tempo a dizer que os media estão perdidos e, nestas circunstancias, o melhor é assobiar para o ar e subir o volume do som quando gritamos, como a Mafaldinha, “não me gritem!”.

Nota – Todas as referências a marcas, produtos, e a escolha final dos anúncios, é pessoal, sem qualquer interferência de empresas de qualquer espécie, e inteiramente assumida como integrante de uma filosofia de vida onde a publicidade faz parte da comunicação e da informação. Aliás, nenhuma destas marcas foi sequer por mim contactada (ou me contactou) no âmbito desta ou de outra matéria. Infelizmente, no hipermercado da blogoesfera é preciso fazer estes tipo de "disclaimer"...
Pedro Rolo Duarte

'Nossa terra': colonos judeus querem ocupar Faixa de Gaza

A poucos quilômetros da Faixa de Gaza, no meio do nada, um grupo de colonos israelenses dança, pula e canta em círculo; ao fundo, a artilharia israelense ressoa dentro do devastado território palestino, para onde os judeus ultranacionalistas exigem retornar sob a alegação de que a terra pertence a eles.

"Viemos aqui para dizer ao mundo que precisamos estar em Gaza e permanecer lá para sempre. Ela nos pertence e nós voltaremos para viver lá. É a única maneira de acabar com o Hamas", disse à agência de notícias EFE Yair Maoz, um colono que vive com a esposa e cinco filhos em um assentamento em Hebron, na Cisjordânia ocupada.

Assim como Maoz, muitas outras famílias de colonos e ultradireitistas israelenses não quiseram perder esse evento organizado na segunda-feira pela organização radical Nachala, liderada por Daniella Weiss, que promove a expansão dos assentamentos – ilegais de acordo com a lei internacional –, agora também em Gaza.
Daniella Weiss (centro) exibe mapa com plano de assentamentos em Gaza

A manifestação sob o lema "Retornando a Gaza" teve entre seus participantes membros do Likud, o partido do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, assim como integrantes de partidos e organizações que são a favor da colonização.

Um porta-voz do Likud deixou claro que o evento não era do Likud, mas sim uma "iniciativa local", como parte do festival religioso de Sukkot, ou Festa dos Tabernáculos.

O festival de peregrinação de uma semana comemora o êxodo bíblico do Egito. Uma das barracas temporárias erguidas para marcar o dia da festa trazia o nome do partido Likud.

"Vou dizer em alto e bom som: os palestinos perderam o direito de permanecer em Gaza depois do que fizeram conosco em 7 de outubro. Nenhum deles permanecerá na Faixa, estamos prontos para voltar o mais rápido possível", grita Weiss eufórica para uma plateia, formada em sua maioria por judeus ortodoxos, que aplaude cada palavra sua.

Muitos participantes carregam adesivos com o slogan "Gaza é nossa para a eternidade". A camiseta de um ativista trazia a frase "Gaza faz parte do Estado de Israel".

Weiss, ex-prefeita do assentamento de Kedumim, defende o retorno dos israelenses a Gaza com o argumento de que isso beneficiará os EUA e a Europa, pois, segundo ela, isso significará o fim do "demônio do Hamas na Faixa de Gaza" e "o fim do Hamas na Faixa de Gaza o mais rápido possível".

"Espero que todos vocês possam aproveitar as praias de Gaza muito em breve", acrescenta Weiss, que foi presa várias vezes por agredir a polícia israelense durante protestos.

Israel desmantelou 21 assentamentos israelenses dentro da Faixa de Gaza em 2005, a maioria deles em frente à praia, e forçou a saída de cerca de 8 mil residentes após o plano de retirada unilateral do então primeiro-ministro Ariel Sharon, que pôs fim a uma ocupação direta desde a Guerra dos Seis Dias de 1967.

O projeto que está sendo promovido pelo grupo de Weiss prevê a criação de seis assentamentos em diferentes pontos da Faixa de Gaza, que hoje abriga mais de 2 milhões de palestinos, a maioria deles deslocados após mais de um ano de guerra.

No mapa que a judia ultraortodoxa Orit Rosenfelder, de 23 anos, mostra à EFE, estão marcados esses seis assentamentos. "No norte, em Jabalia, meu primo está lutando contra o Hamas, e o que estamos vendo é que, enquanto continuarmos a permitir que os palestinos vivam lá, haverá mais terrorismo porque a maioria não quer a paz", diz.

"Estamos prontos para voltar a viver em Gaza assim que recebermos o sinal verde do Exército e eles nos disserem que é um lugar seguro. Voltaremos à nossa terra", afirma.

O próprio Netanyahu rejeita o retorno de civis judeus ao território palestino, mas alguns ministros radicais de seu governo não descartam essa possibilidade.

Em janeiro, em uma reunião em Jerusalém com a presença de até 12 ministros israelenses, os colonos declararam publicamente seus dois principais objetivos, repetidos nesta segunda-feira pelo ministro israelense de Segurança Nacional, Itamar Ben Gvir, líder do partido ultranacionalista Otzma Yehudit e um dos oradores da manifestação.

"Incentivar a imigração e os assentamentos judaicos em Gaza está em nossas mãos", disse Gvir no comício de segunda-feira, ele que é antiárabe e já foi condenado no passado por incitar o racismo e o vandalismo. "A verdade é que essa é a solução mais ética e mais correta”, disse ele, enquanto insiste que os palestinos não devem ser forçados a deixar a Faixa de Gaza.

"Sem os assentamentos não há segurança. Vamos nos estabelecer e fazer Gaza prosperar porque é a nossa terra", reiterou no pódio o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, líder da legenda de ultradireita Sionismo Religioso.

De acordo com o deputado do mesmo partido, Tzvi Sukkot, "retornar" a Gaza significa "fazer com que o Hamas pague um alto preço ideológico pela guerra que desencadeou contra nós".

"Eles devem entender que, nessa guerra, também perderão a Faixa de Gaza", disse ele à agência de notícias AFP.

Nem todos concordam. Ayala Metzger, uma das líderes dos protestos antigovernamentais e cujos sogros são reféns em Gaza, acredita que os discursos a favor da colonização do território "reduzem as chances de libertação" dos 97 reféns que ainda estão lá.

Outros, como Rohi Baruch, que ainda não recuperou o corpo de seu irmão Uriel, dizem que é preciso "retomar a Faixa de Gaza e preparar a instalação de civis" para trazer de volta os reféns.

A guerra em Gaza foi provocada pelo ataque sem precedentes do Hamas no sul de Israel em 7 de outubro de 2023, que resultou na morte de 1.206 pessoas, em sua maioria civis, segundo um levantamento baseado em cifras oficiais israelenses e que inclui os reféns mortos em cativeiro em Gaza.

Das 251 pessoas sequestradas durante o ataque, 97 permanecem em Gaza, das quais 34 foram declaradas mortas pelo Exército.

O ataque desencadeou a guerra em Gaza, que matou mais de 42,6 mil pessoas, em sua maioria civis. Os dados, embora tenham sejam fornecidos pelo Ministério da Saúde do território controlado pelo Hamas, são considerados pela ONU como confiáveis.
Deutsche Welle

Falsa democracia


Na falsa democracia mundial, o cidadão está à deriva, sem a oportunidade de intervir politicamente e mudar o mundo. Atualmente, somos seres impotentes diante de instituições democráticas das quais não conseguimos nem chegar perto
José Saramago, "As palavras de Saramago"

Globalização ou guerra

A globalização em seu formato atual é uma confirmação do provérbio “Se queres a paz, prepara-te para a guerra”. A frase do romano Flavius Vegetius, século IV D.C., encontra aplicação no braço forte militar e no soft power diplomático. Faz mais sentido ainda quando se trata da integração econômica global vigente (e suas vertentes cultural e política).

Acontece que a amplitude e a profundidade do cenário que hoje conhecemos como globalização foram pavimentadas pelo esforço militar norte americano, para se contrapor à expansão da União Soviética após a Segunda Guerra Mundial, no período chamado de Guerra Fria.

É o que afirma o estrategista geopolítico Peter Zeihan em “O Fim do Mundo É Só o Começo – Mapeando o Colapso da Globalização” (2024).

Ou seja, ao se prepararem militarmente para projetar poder em alcance global, os EUA construíram alianças nos cinco continentes, inclusive com seus ex-inimigos Alemanha e Japão. Para isso, usaram a onipresença dissuasória de sua marinha, alinhavando uma razoável paz mundial e a segurança do comércio em escala planetária.

O transporte oceânico de manufaturas e matérias primas existe há 500 anos, desde que os ibéricos inauguraram a navegação em águas profundas. Segundo Zeihan, que é consultor da CIA e das Forças Armadas dos Estados Unidos, a globalização prosperou plena enquanto o interesse norte americano na ‘pacificação’ dos mercados esteve elevado. Por tabela, metade da população mundial que se encontrava fora do jogo econômico também passou, bem ou mal, a ter acesso a empregos, bens, serviços e… paz.

Porém, ao final da Guerra Fria, com uma trégua nas tensões e a consolidação da supremacia norte americana, nota-se uma tendência de redução daquela presença direta das forças ianques em todos os cenários regionais.

Ao mesmo tempo, a capacidade industrial americana, somada às recentes descobertas de petróleo e gás de xisto na América do Norte, trouxe uma tranquilidade ao Tio Sam com relação ao que se pode chamar de Espaço Vital da nação. Inclua-se aí a disponibilidade de terras habitáveis e agricultáveis, abundância de hidrovias fluviais, acesso a dois oceanos e a juventude da população estadunidense.

O resultado dessa autossuficiência (segundo Zeihan, uma exclusividade geográfica norte americana) seria uma queda na motivação de continuar bancando os custos do seu “Destino Manifesto”. Os EUA estão deixando (em algumas regiões do globo) esse papel de “polícia do mundo” para subpotências navais, como o Japão, a França, a Inglaterra, a Austrália ou a Índia.

Quem sabe, isso explique uma aparente leniência dos americanos com as crises na Ucrânia, no Oriente Médio, em Taiwan, Coreia e Venezuela, parecendo apostar na capacidade dos atores regionais de limitarem os estragos, desde que o desequilíbrio local não contamine a geopolítica global e não encareça os fluxos de mercadorias. O raciocínio vale, principalmente, para os mercados de petróleo, alimentos, minerais, fertilizantes e novas fontes de energia.

Isso nos traz questões gerais, do tipo: Até onde será consentido a Israel atacar vizinhos como o Irã (entenda-se, instalações de petróleo e energia nuclear)? Qual será o futuro da velha Europa empurrada pela OTAN contra a Rússia? É possível haver globalização em um mundo conflagrado? A paz é viável em um mundo desglobalizado?

Para o Brasil, outras questões seriam: Para que servirão os BRICS? Quem será o Brasil na América do Sul? Qual é o futuro do País no mercado de alimentos, petróleo e minérios? Teremos autonomia alimentar, industrial e energética? Como prosperar nesse cenário, agravado pelas mudanças climáticas?

Líbano: 'Vizinhança inteira destruída' em ataque aéreo israelense

Quando o ataque aéreo ocorreu na segunda-feira à noite, Fouad Hassan, 74, estava sentado em sua varanda no bairro de Jnah, no sul de Beirute, lendo seu telefone.

Nenhuma ordem de evacuação foi dada pelo exército israelense antes que o foguete atingisse a casa de seus filhos e netos, a uma curta caminhada de distância.

“Quando o bombardeio aconteceu, eu desmaiei”, diz Fouad. “Fui levado para receber oxigênio devido à fumaça do ataque. Quando melhorei, percebi que o bairro inteiro estava devastado.”


Agora, uma pilha de aço e alvenaria mutilados jaz onde vários prédios residenciais ficavam muito próximos uns dos outros. Onde os prédios ainda estão de pé, os pertences das pessoas podem ser vistos lá dentro através de buracos abertos nas paredes.

Um escavador e cerca de 40 homens locais estão fazendo o trabalho lento de escavar e procurar corpos sob os escombros.

“Olhe para a destruição — um bairro inteiro destruído, as pessoas aqui mortas”, diz Fouad, gesticulando sobre o local da bomba. “Minha neta morreu aqui, e meu neto ainda está em coma. Ambos tinham 23 anos.”

Fouad é uma figura bem conhecida na comunidade. Ator e comediante, ele apareceu na televisão libanesa e é conhecido pelo nome artístico Zaghloul. Enquanto andamos pelo local da bomba, os moradores vêm apertar a mão de Fouad e oferecer palavras de condolências.

Tirando o telefone do bolso, Fouad nos mostra uma foto de sua neta, Alaa. Ela parece confiante, posando para a câmera e usando um elegante vestido dourado.

“Ela estava felizmente noiva, ansiosa para se casar em três meses”, diz Fouad. “Ela se candidatou para ser Miss Líbano e foi despedaçada. Por quê? Por que o mundo permite isso?”

Desde que Israel começou a intensificar seus ataques aéreos contra o Hezbollah em setembro , foguetes atingiram todo o comprimento e largura do país. É uma campanha militar que os líderes de Israel sentem que lhes trouxe grandes vitórias até agora - tendo tirado as vidas da liderança sênior do Hezbollah.

No entanto, também é uma campanha que tirou muitas vidas inocentes, com inúmeros relatos de famílias inteiras sendo mortas em greves por todo o país.

Mais de 1.900 libaneses foram mortos, de acordo com números do governo, desde que Israel intensificou os ataques aéreos. As estatísticas não diferenciam entre combatentes do Hezbollah e civis.

Apesar de não ter emitido nenhuma ordem de evacuação aos moradores com antecedência na noite de segunda-feira, o exército israelense posteriormente declarou que estava mirando um “alvo terrorista do Hezbollah”, mas não deu mais detalhes.

Os primeiros relatos vindos do local sugeriram que o complexo do hospital Rafik Hariri, o maior hospital público da capital, havia sido atingido, o que o exército israelense negou.

Os danos ao hospital são superficiais, mas do outro lado da rua, repleta de carros estacionados com as janelas quebradas, fica um bairro pobre que foi atingido.

O filho de Fouad, Ahmed, se junta a nós. Ele nos mostra uma foto de seu filho que está em tratamento intensivo no hospital, com o rosto enfaixado e ensanguentado.

“Esta era minha casa; ela se foi agora, assim como todo o resto. Não temos para onde ir e nem roupas. Isto é um massacre. Não temos base aqui, nem Hezbollah, não há nada”, Ahmed nos conta.

Não está claro por que seu exército decide emitir ordens de evacuação antes de alguns ataques com mísseis e não de outros - mas quando Israel ataca sem aviso em uma área residencial densa, o custo humano pode ser indiscriminado e alto.

Fouad nos conta que brincou com as crianças do bairro que foram mortas na greve.

“Sempre que eu entrava no bairro, eles gritavam: 'Vovô, vovô! O que você trouxe para nós?' Eu dava a eles doces, salgadinhos e pipoca. A perda deles me enche de tristeza; todos eles morreram. A mãe deles ainda está presa sob os escombros com um dos filhos.”

Quando começamos a deixar o local, um silêncio cai sobre os reunidos e vemos uma maca carregando um corpo embrulhado sendo levado pela escavadeira.

Disseram-nos que uma mãe foi encontrada ao lado de uma criança.

quinta-feira, 24 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


Sai o crime organizado, entra o legalizado

Cidades brasileiras com até 15 mil habitantes elegem nove vereadores. As que têm cerca de um milhão elegem 33. São Paulo, com seus mais de 11 milhões, elege 55. Tire a média e multiplique pelos, segundo o IBGE, 5.570 municípios do Brasil. A pergunta é: quantos dos quase 200 mil vereadores em exercício no país não fazem parte de alguma forma do crime organizado ou foram cooptados por ele?


A pergunta é irrespondível, porque nenhum deles se elege pelo PCC ou por seus satélites, mas por um dos 33 partidos legalmente constituídos, reconhecidos pela Justiça Eleitoral e com direito ao fundo partidário provido pela União para financiar suas campanhas. Os próprios cartolas dos partidos talvez nem desconfiem da ligação deste ou daquele de seus filiados com uma organização criminosa nem ele sobe ao palanque com o button da sua facção. Mas, assim que é eleito, já começa a trabalhar para os interesses do crime, propondo ou revogando leis, nomeando aliados ou facilitando o controle da polícia.

Para que serve um vereador infiltrado? Para o mesmo que um deputado estadual, federal ou senador, ou, se chegarmos a isso, um juiz, desembargador ou ministro —para a lenta costura interna do tecido jurídico, de modo a pôr o Estado a serviço do crime. Essa trama já começou há muito, com a diplomação anual de advogados saídos das facções e sua escalada a promotores ou defensores públicos.

Muitos candidatos a vereador a serviço delas terão sido eleitos há duas semanas, e talvez até alguns prefeitos. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral), presidido pela ministra Cármen Lúcia, formou um núcleo de especialistas do Ministério Público e da Polícia Federal para cruzar os pedidos de registro de candidaturas com um possível envolvimento com o crime. É uma nova e poderosa prática de varredura, mas ainda embrionária. Não impede que as facções apontem como candidatos seus membros recém-admitidos, ainda sem nódoa na ficha.

O submundo descobriu que é melhor trabalhar sem balbúrdia, execuções, tiros, balas perdidas e arranca-rabos entre eles. Sai o crime organizado, entra o crime legalizado.

O cerco

Tem o CV, Comando Vermelho, mais antigo. Tem o PCC, Primeiro Comando da Capital, de origem em São Paulo – estado que abriga também o Terceiro Comando Puro. Há ainda o Povo de Israel, especializado em falsos sequestros.

Na Paraíba, tem o Okaida. No Piauí, as subfacções Marotos e Brancos, em luta pra ver quem será o primeiro a ganhar a Bahia, que também já tem lá seus donos, com seus territórios preservados a ferro e fogo.

Mais forte, mais fraco, cada estado brasileiro tem um “comando” pra chamar de seu. Para somar ou para ganhar, as forças do Sudeste namoram o amplo território Norte/Nordeste. E segue o baile, que movimenta bilhões, muito de longe dos laços oficiais de controle do dinheiro circulante no país.


Todos os citados são grupos e facções de bandidos que tocam seus businesses, principalmente, das Cadeias – de segurança máxima ou não.

Seus negócios envolvem tráfico de drogas e de armas, construção civil, serviços, lotéricas e outros jogos de azar (agora, também Bets), além dos tradicionais golpes do falso sequestro, de retirada do cartão, das bitcoins e etc. Há quem jure que já avançam pelos ricos negócios do mundo encantado dos influencers.

Eles estão entre nós e não são de brincadeira. Têm força e violência das máfias. Estão bem organizados e cobram fidelidade canina dos seus. Não perdoam deslizes. Nem dão segunda chance.

Deu medo? Pois é pra ter mesmo. Estão e são cada vez mais próximos e atuantes no mundo nada encantado dos muitos males do capitalismo – exaurido, mas resistente, ainda gastando todas as formas de continuar se exercendo.

Não é muito diferente na parte da terra dita socialista raiz, tipo China, Rússia, que também somam suas máfias bem alimentadas pelas economias pujantes.

Fazer o quê? O punitivismo já mostrou seus horrores, fazendo das cadeias, violentamente indignas, escolas e centrais de crimes.

Assim, atrás, cercando e correndo na nossa direção, o crime. Ao lado, Igrejas, com falsos profetas e/ou influencers, a lá Pablo Marçal, oferecendo proteção, riqueza e o céu na terra. Também o fim de todas as desditas com um caminho muito curto para alcançá-lo: o generoso pagamento dos dízimos, de palestras e cursos.

Ó o cerco aí, gente.

'Vocês nos veem queimando, fiquem em silêncio'


Não há consciência. Não há humanidade. Há apenas líderes que observam e não agem.

É nisso que Ahmed al-Dalou acredita, enquanto as imagens de sua família queimando repetem em sua mente. Ele diz que sua vida se foi. Ele morreu no inferno do complexo de al-Aqsa com seus filhos e esposa nas primeiras horas de segunda-feira, 14 de outubro.

À sua frente, no chão, há uma mortalha envolvendo o corpo de Abdulrahman, 12 anos, seu filho mais novo.

A criança permaneceu em agonia por quatro dias após o incêndio, provocado por um ataque israelense. Um dia antes de morrer, Ahmed o viu no hospital e ele conseguiu dizer ao pai: “Não se preocupe, estou bem, pai... Estou bem. Não tenha medo.”

Ahmed está meio falando, meio chorando, enquanto fala sobre o que foi tirado dele.

“Três vezes tentei tirá-lo [Abdulrahman] do fogo, mas seu corpo caiu de volta nele.”

Seu irmão mais velho, Sha'aban, 19, e sua mãe, Alaa, 37, morreram na noite do incêndio.

Sha'aban se tornou um novo símbolo do terrível sofrimento de Gaza. Imagens dele se contorcendo em agonia enquanto queimava até a morte na tenda da família foram compartilhadas ao redor do mundo nas mídias sociais.

Há queimaduras por todo o rosto e mãos de Ahmed. O tom de sua voz é alto, um som agudo. Sobre o piloto anônimo que enviou o míssil e os líderes que lhe deram ordens, Ahmed disse: “Eles quebraram meu coração e quebraram meu espírito... Eu queria que o fogo tivesse me queimado.”

Ahmed al-Dalou é um homem com idade entre 30 e 40 anos, com uma barba curta e escura. Sua cabeça está enfaixada, e seu rosto mostra sinais de extensas queimaduras recentes na testa e no nariz.

Ahmed al-Dalou sobreviveu ao incêndio que destruiu tendas no complexo de al-Aqsa, mas sofreu queimaduras no rosto e nas mãos ao tentar resgatar sua família.

Quatro pessoas foram mortas imediatamente e dezenas de outras ficaram feridas, incluindo muitas com queimaduras graves. As Forças de Defesa de Israel disseram que estavam “revisando o incidente”.

Um porta-voz da Casa Branca disse à CBS News, parceira da BBC nos EUA, que as imagens do incêndio eram "profundamente perturbadoras" e pediu que Israel fizesse mais para proteger os civis.

“Israel tem a responsabilidade de fazer mais para evitar baixas civis - e o que aconteceu aqui é horrível - mesmo que o Hamas estivesse operando perto do hospital em uma tentativa de usar civis como escudos humanos.”

Os EUA e outras potências, incluindo a Grã-Bretanha, expressaram preocupação com as baixas civis desde os primeiros estágios da guerra.

Na maioria das vezes, as agonias da morte acontecem longe das câmeras. É a busca frenética por sobreviventes nos escombros, as cenas dramáticas em hospitais, o fluxo interminável de funerais, que são capturados pelas câmeras.

Mas a morte de Sha'aban al-Dalou foi diferente. Sua mão pode ser vista, saindo do inferno, uma figura envolta em chamas, se contorcendo e além do alcance de qualquer ajuda.

Nos dias seguintes à sua morte, surgiram os próprios vídeos e fotografias de Sha'aban. Ele era um adolescente típico de sua geração, ciente do poder das mídias sociais, adepto de registrar sua vida diária.

A figura em chamas da noite de fogo apareceu ao mundo como um adolescente articulado e inteligente, um estudante de engenharia de software, um jovem que cuidou de sua família planejando uma nova vida fora de Gaza. Ele se filmou doando sangue e encorajou outros a fazerem o mesmo.

“Vimos tantos feridos, muitas crianças precisam urgentemente de sangue… Tudo o que exigimos é um cessar-fogo e o fim desta tragédia.”

Só conseguimos contar a história da família al-Dalou por causa do nosso próprio jornalista local que foi ao encontro dos sobreviventes. Jornalistas internacionais de organizações de mídia, incluindo a BBC, não têm acesso independente a Gaza por Israel.

Em um vídeo gravado na tenda onde morreu, Sha'aban descreveu como sua família foi deslocada cinco vezes desde que a guerra começou, há um ano. Ele tinha duas irmãs e dois irmãos mais novos.

“Vivemos em circunstâncias muito difíceis”, ele disse. “Sofremos de várias coisas, como falta de moradia, comida limitada e remédios extremamente limitados.”

Ao fundo, enquanto ele fala, ouve-se o alto zumbido mecânico de um drone de observação israelense, uma constante na trilha sonora diária e noturna de Gaza.

O irmão sobrevivente de Sha'aban e Abdulrahman, Mohammed al-Dalou, disse à BBC que tentou entrar nas chamas para resgatar seu irmão mais velho.

Mas outras pessoas feridas o seguraram, temendo que ele também fosse morto. Mohammed não dormiu na tenda da família, mas do lado de fora, na rua, onde ele vigiava seus pertences empilhados.

“Eu estava gritando para alguém me soltar, mas em vão… A perna do meu irmão estava presa e ele não conseguia se soltar. Acho que você viu no vídeo. Ele estava levantando a mão.

"Esse era meu irmão. Ele era meu apoio neste mundo.”

Sha'aban vinha e o acordava para as orações da manhã com uma garrafa de água e dizia: "Eu trabalharei para você".

Mohammed lembrou como os irmãos montaram uma barraca nos portões do hospital vendendo comida preparada pela família.

“Nós conseguimos tudo com nosso trabalho duro. Tudo o que tínhamos era do nosso esforço. Nós recebíamos comida e bebida… então tudo se perdia.”

Ele viu os corpos queimados, mas só conseguiu identificar sua mãe. Embora seus restos mortais tivessem sido mutilados pelo fogo, ele reconheceu uma pulseira distinta.

“Sem ela, eu não saberia que ela era minha mãe. A mão dela estava separada do corpo, mas a pulseira ainda estava nela. Eu a tirei da mão dela.”

Esta é a única lembrança que ele tem da mulher que era “a gentileza em nosso lar”.

A família al-Dalou está em choque. Os sobreviventes lamentam os mortos. Nosso colega da BBC perguntou a Mohammed sobre o custo psicológico de ver seus entes queridos morrerem.

“Não consigo descrever. Não consigo descrever como me senti. Quero explicar para as pessoas, mas não consigo. Não consigo descrever. Vi meu irmão queimando na minha frente, e minha mãe também.”

Então, como se estivesse fazendo uma pergunta em nome dos mortos, ele pergunta: “O que mais vocês precisam, e ficam em silêncio? Vocês nos veem queimando, e ficam em silêncio.”

Poema pouco original do medo


O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos
Alexandre O'Neill, "Tempo de fantasmas"

O declínio da empatia é um risco democrático

Existe uma percepção generalizada de que assistimos a um declínio da empatia nas nossas sociedades. A capacidade para individualmente nos ligarmos com alguém que não partilha a nossa idade, religião, cultura, etnia ou condições socioeconómicas está a diminuir, enquanto crescem a desconfiança face ao outro e o individualismo, potenciando uma cultura de ressentimento e fomentando a polarização social. Não faltam manifestações concretas disto mesmo: do modo como a imigração se está a transformar no tema social central nas nossas sociedades, passando pelos fenômenos de bullying e as formas persistentes de humilhação institucional, até à cultura de ódio que grassa nas redes sociais.


O declínio da empatia não é uma tendência passageira, bem pelo contrário: trata-se de uma causa profunda para a desagregação social que afeta as democracias. Num discurso marcante, feito num encontro com estudantes em Istambul, em 2009, Barack Obama alertava que “o déficit de empatia é mais grave do que o déficit orçamental. Tornámo-nos tão cínicos que parece ingênuo acreditar que podemos compreender-nos uns aos outros ultrapassando o abismo da raça, classe ou religião”. Há muitas explicações para este declínio da empatia, mas nenhuma tão poderosa como a forma como o isolamento social é potenciado pelos desenvolvimentos tecnológicos.

Em todo o mundo ocidental a percentagem de agregados familiares unipessoais tem crescido e Portugal é mesmo um dos países onde a tendência é mais intensa: nos últimos censos, aumentou em 28% o número de pessoas que vivem sozinhas, perfazendo mais de um milhão – sendo que metade são idosos, o que faz de nós o 4º país da UE com maior percentagem de idosos isolados (onde já vai a nossa tradição familialística). A epidemia do isolamento social materializa-se também no decréscimo do número de amigos: por exemplo, num estudo recente, 12% dos norte-americanos reportavam não ter nenhum amigo próximo (há 20 anos o valor era residual, apenas 3%) e a percentagem que dizia ter mais de dez amigos próximos caiu de 33% para 13%. Esta propensão para o individualismo coexiste com a retração da participação em instituições que garantiam a pertença social: das igrejas aos sindicatos, passando pelos partidos.

Enquanto escasseiam os espaços de pertença coletiva, o tempo despendido nas redes sociais cresce brutalmente: em 2013, em média no mundo, cada indivíduo passava uma hora e meia por dia nas redes, em 2023, esse valor aumentou para quase duas horas e meia diárias. Enquanto os países da América do Sul e de África têm valores muito elevados, em Portugal a média é de hora e meia diária. Ao mesmo tempo, a pandemia promoveu o distanciamento social e acelerou transformações no mundo laboral, com o teletrabalho a prejudicar profundamente a forma como historicamente o trabalho foi um fator de integração social e, também, a esbater as fronteiras entre vida privada e trabalho.

Nascemos, é verdade, com uma propensão genética para a empatia, que radica nos neurónios-espelho, mas que está longe de ser suficiente para contrariar o solipsismo crescente. A recuperação de uma ideia de virtude partilhada dependerá da capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, o que acontece cada vez menos. Se coletivamente não o procurarmos, ficamos condenados a viver num crescendo de ressentimento social e com as fissuras sociais a acentuarem-se, no que é um risco para as democracias.

quarta-feira, 23 de outubro de 2024

Pensamento do Dia

 


O governo da lei e o poder dos costumes

Um período eleitoral repleto de agressões que põem em risco nossas hierarquias exprime a questão que ronda nosso espaço político: o conflito da lei com candidatos a um costumeiro mandonismo.

— O Estado Democrático de Direito é aquele em que o poder do Estado é limitado pelos direitos dos cidadãos. Sua finalidade é coibir abusos do aparato estatal para com os indivíduos.

Essa conceituação, roubada da internet, esquece o problema: os abusos político-jurídicos dos mandões-salvadores contra o Estado Democrático de Direito. Abusos abonados por tradicional esperteza (“agora é nossa vez!”) e por costumes consagrados no preceito:

— Aos amigos tudo; aos inimigos, a lei.

E no teorema de Oliveira Viana:

— Tenho coragem pra tudo, menos a coragem de negar o pedido de um amigo!


Desvios particularistas são simploriamente chamados de “jeitinho” porque seu objetivo é manipular a lei, não modificá-la. Sua prática reitera um conhecido paradoxo brasileiro: burlar sem romper a lei.

O “jeitinho” e o estridente e agressivo “você sabe com quem está falando?” demonstram a força dos costumes. Eles exibem a antipatia pela lei que iguala, com o costume que, no Brasil, hierarquiza e verticaliza. Quem está “em ou por cima” não pode ser “tratado” como quem está embaixo. A prática democrática esbarra na hierarquia. Tal movimento promove uma dialética de insegurança, minando a prática democrática porque, na maioria dos casos, o costume engloba a lei.

Leis têm motivos, data e nome. Max Weber as classifica como instrumentos de uma “dominação racional-burocrática”. Um estilo de dominação com assustadora autonomia porque — como uma “jaula de ferro” — ela, ao lado do mercado autorregulado, submete seus operadores. Em contraposição, hábitos e costumes sem autores ou história constituem a “dominação tradicional” ao lado da “carismática”, em que predominam o personalismo e o mítico.

A dominação legal-racional tem base na lei escrita e numa presumida racionalidade. Leis são promulgadas, costumes são rotinizados e vividos. Leis podem ter propósito e autoria. Costumes são coletivos e anônimos. São as tais coisas do povo, como faz prova o populismo que promete “cuidar do povo” promovendo seus cuidadores.

O confronto entre lei e costume produz uma rotina de reformas e explica nossas reviravoltas jurídicas e políticas. Experimentamos muitos regimes: Colônia, Império, República, Estado Novo, ditadura militar, parlamentarismo, democracia e democracia de coalizão. Todos esses regimes têm um fundo comum: um personagem capaz de aglutinar tendências ideológicas. A despeito disso, contudo, hábitos religiosos, vigentes na moralidade, só agora têm sido discutidos.

O resultado é a descoberta de que um Brasil republicano e universalista está em luta contra um resistente Brasil familista, populista e particularista. É o tumulto da “casa” contra a “rua”, e não da casa como complemento da rua, conforme mostrei no livro “A casa & a rua”, publicado em 1985.

Não é fácil romper hábitos e costumes hegemônicos da reciprocidade inscritos no aforismo “Aos amigos tudo, aos inimigos, a lei”; nem é tranquilo suprimir as hierarquias que dividiram nobres e plebeus, bispos e crentes e poderosos “donos” do povo.

Não é trivial relativizar as “regalias” com os “privilégios” e prerrogativas de cargos que usufruem isenção. Pois, caso seus ocupantes cometam um crime, são dele isentos ou julgados por leis apropriadas à sua condição.

Vale remarcar. Democracia é fácil de falar, mas difícil de fazer. Sobretudo num sistema em que a amizade, o companheirismo e a filiação podem relativizar a lei geral porque, até hoje, relativizamos pouco nossos costumes fincados em hierarquias e gradações.

Uma desconfiança da regra da lei paradoxalmente promovida pelo STF diz que é tempo de, com sensatez, harmonizar costumes e leis. E, se possível, de abandonar o axioma de Oliveira Viana, segundo o qual “tenho coragem para tudo, menos para negar o pedido de um amigo”. É de cortar o coração, mas é preciso tentar.