segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

'D' de depressão

Circula na praça do mercado uma versão da velha piada tétrica sobre a diferença entre recessão e depressão. Na recessão, seu vizinho perde o emprego. Na depressão, você também perde o emprego. Recuperação é quando a Dilma perde o emprego.

A aversão a Dilma Rousseff entre gente graúda de empresa e finança não é novidade, embora nem sempre tenha sido assim. A alergia grave espraiou-se de modo fulminante entre 2012 e 2013, ano em que o país quase inteiro descobriria que "era infeliz e não sabia", na frase do cientista político André Singer.


Nova é a conversa sobre depressão, espécie teratológica de recessão, que nem é o caso do Brasil, embora não exista definição geral desse desastre econômico. Mas a depressão dos ânimos de consumir e investir é profunda, se prolonga de modo raro e dificulta muito a saída do atoleiro. A desesperança abissal deve ser agravada neste 2016, em que a dor maior da crise vai chegar ao cidadão comum.

Os diversos índices que medem a confiança do consumidor divergem quanto ao registro de quando começou a tendência de baixa contínua dos ânimos: abril de 2012, fevereiro de 2013. Não há dúvida sobre a derrocada sem fim que começou com o choque da virada para 2015, quando, em palavras e atos, a presidente reeleita demonstrou que mentira na campanha (vieram alta de juros, notícia de arrocho, golpe da conta de luz etc.). Qualquer que seja a medida, é uma longa desesperança.

O empresário demonstra seu desânimo no fato de que o investimento produtivo recua desde a metade de 2013. São dois anos e meio de declínio, provavelmente três anos e meio ao fim de 2016, raridade histórica.

As estimativas de crescimento continuam a piorar rápido. No início de dezembro, previa-se recessão de 2% em 2016. No fim de janeiro, de 3%. Na sexta, os economistas do Itaú previam queda de 4% em 2016.

Caso se confirmem tais previsões, pode se estimar baixa de 10% no PIB per capita no triênio 2014-16, desastre menor apenas que o da ditadura, 1981-83. Pior que isso, agora a baixa do PIB vai escorrer pelas ruas, ressalte-se: maior desemprego em uma década, queda dolorosa da renda média, piora dos serviços públicos, de saúde em particular. O sofrimento ainda será maior por causa dos preços.

O aumento da inflação está associado às variações de ânimo do consumidor. Pouco antes de junho de 2013, a inflação de comida e bebida chegou a 14% (a inflação média, geral, era de 6,5%), derrubando a confiança, marcando o começo do fim da pacificação dos anos petistas. A inflação da comida em janeiro deste 2016 foi a quase 13%, embora a média geral seja agora de 11%, pressionada por itens mais essenciais, como energia e transporte.

Inflação, os indícios de colapso da atividade econômica em janeiro e a baixa do número de pessoas empregadas, que começou em outubro, nos assustam ainda mais.

O Brasil padece de doença econômica rara e muito grave, uma combinação de inflação alta, recessão profunda e descontrole da dívida pública, agravada por desprestígio presidencial de duração e tamanho recordes e falta de rumo de governo. Difícil chamar de depressão econômica. É certo que há depressão da esperança.

PT vive drama: Lula virou um fardo de si mesmo

No mês em que completa 36 anos, o PT vive um drama. Com a imagem estilhaçada, o partido já tinha perdido o recato, o discurso e o monopólio das ruas. A três anos de 2018, começa a perder também as esperanças de permanecer no poder federal depois de Dilma Rousseff. Lula, derradeiro trunfo da legenda, caiu do pedestal. Tombou sozinho, sem a ajuda da oposição.

Lula já foi imbatível. Em 2006, reelegeu-se nas pegadas do mensalão. Em 2010, carregou Dilma, seu poste, nos ombros. Em 2014, a despeito do estrago produzido pelos primeiros delatores da Lava Jato, Lula reeletrificou Dilma com a ajuda da marquetagem anabolizada de João Santana, que transformou a política em mais um ramo da publicidade. Desde então, Lula definha.


O petrolão caiu no colo de Dilma, mas a plateia notou que o óleo queimado que escorre da Petrobras teve origem na gestão de Lula. Percebeu também que a competência gerencial de Dilma é uma fábula 100% criada por Lula. Agora, o inferno imobiliário transformou Lula numa caricatura do “guerreiro do povo brasileiro”.

É como se o grande líder assumisse o papel de pardal dele próprio, esforçando-se para sujar a testa de sua estátua de bronze. Em litígio com o personagem que criou, Lula admite que desistiu de incorporar o triplex do Guarujá ao seu patrimônio depois que a revelação de que a OAS despejou mais de R$ 800 mil numa reforma fizera do imóvel um escândalo.

Lula admite também que frequenta como se fosse dono o sítio de Atibaia, um Éden reformado com esmero por um pool de empresas que inclui a OAS e a Odebrecht, estrelas da Operação Lava Jato. “É a coisa mais normal do mundo”, absolveu o amigo e ex-ministro petista Gilberto Carvalho, adicionando uma pitada de insensatez ao escárnio.

Não há ilegalidade nos procedimentos, alega o petismo, sem se dar conta de que o drama não é apenas jurídico. Dissemina-se entre os brasileiros a sensação de que aquela conversa toda, aquele idealismo, aquela vontade de servir à sociedade, aquela entrega altruísta ao bem público, tudo aquilo era impulsionado pelo dinheiro. Lula virou um fardo de si mesmo, eis o drama do aniversariante PT.

Nós versus eles

O Bolsa-Família é uma fusão de vários benefícios sociais e de distribuição de renda criados no governo FHC. Um deles era o Bolsa-Escola, que consistia na remuneração de mães pela presença de seus filhos – crianças e adolescentes - na escola. Se a criança fosse às aulas, o certificado de aproveitamento era o “cartão” do benefício que remunerava a família. Havia, portanto, um pressuposto nobre e altamente funcional: só fazia jus ao benefício os quecumpriam com suas metas. O Bolsa-Escola foi feito por “eles”. O Bolsa-Família, por “nós”.

Após ter derrotado a hiperinflação, um fenômeno socioeconômico terrível que assombrava a todos, o Plano Real foi seguido de uma austeridade fiscal tão necessária quanto vital. Foi adotado o tripé macroeconômico que, desde 1999, tem combinado um regime de metas de inflação, um regime de taxa de câmbio flutuante e metas de superávit fiscal primário. O governo do PT não acredita que a austeridade fiscal, o corte de gastos e a contenção da inflação possam gerar crescimento econômico. O tripé foi adotado por “eles”; as altas taxas de juros, a defasagem cambial e o desempenho econômico negativo ficou por “nossa” conta.

Em 1992, Collor era um presidente desgastado por causa de escândalos de corrupção. Surgiu a figura nada oculta de PC Farias (o equivalente ao Bumlai do Lula), que havia comprado uma Fiat Elba para “madame” Rosane (o equivalente ao tríplex no Guarujá). Também havia o irmão rancoroso (nada se comparado à dupla dinâmica Lulinha & Luleco) e poucos dólares no Uruguai (mixaria perto dos 57 milhões “por dentro” faturados pelo Instituto Lula). Tudo isso foi numa época em que o Brasil achava que merecia algo melhor do que o presidente Collor, logo após um governo horroroso de José Sarney, que ficou com o cargo depois da morte sofrida e traumática de Tancredo Neves. O povo foi agraciado com Tancredo, maltratado por Sarney e ludibriado por Collor. Não dava mais para errar pois, além do sofrimento, haveria de haver um brasileiro que prestasse. Dois nomes aceitaram o desafio: Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Era um tempo em que todos, de fato, ainda éramos “eles”.

Com a sedimentação dos princípios do tripé macroeconômico e o fortalecimento do Real, com a adoção de mecanismos que mantivessem a inflação sob controle e um maior profissionalismo na gestão pública, o Brasil começou a despontar no mercado internacional como uma nação séria, preocupada com suas contas e com o conservadorismo econômico vital para a perseguição do desenvolvimento. Trabalho longo feito por “eles”.

Eis que, em 2002, assume o primeiro Presidente da República que havia sido pobre, simples, um operário e líder sindical amado por milhões e incensado por artistas, intelectuais e lideranças de diversos matizes. Junto com seus parceiros José Dirceu, Delúbio Soares, Silvinho, Gushiken, Celso Daniel e outros tantos, declarou que o “PT não rouba nem deixa roubar”. Hoje, apesar dos erros cometidos às toneladas, o PT continua com Dilma (a de Pasadena, do fim da Petrobras e do desastre econômico que já dura 3 nos) e foge das ruas, das pessoas e da polícia todos os dias. Essa galerinha hoje compõe o “nós”.

Agora você já sabe quem é quem quando algum petista vir com o papo do “nós” versus “eles”. O “nós” são os que acabaram com o Brasil. E os “eles” serão os que terão de fazer a limpeza e começar tudo de novo...

Tristes trópicos

A nação irrompera no século 21 com motivos de sobra para andar de cabeça erguida. Um líder amado e representativo de sua gente fora eleito em pleito histórico, injetando gosto por democracia e apetite por cidadania aos redutos mais esquecidos do vasto território. O resto do continente olhava para esse Bric emergente com um misto de curiosidade, e que até mesmo Copa do Mundo abrigou!

Hoje orgulho e esperança se esfarelaram. “Estamos rumando para um Estado predador, onde uma elite poderosa, corrupta e demagoga de hienas políticas usa cada vez mais o Estado para enriquecer”, acusa um sindicalista histórico. “Estamos traindo os mais pobres, parece pacto com o diabo”, acrescenta outro companheiro.

Estamos falando da África do Sul, é claro.

Dias atrás, após anos de escandalosas tergiversações e delongas, o presidente Jacob Zuma achou prudente aceitar devolver pelo menos parte do dinheiro público que gastou na reforma de sua residência. Dessa forma ele tenta encerrar um processo judicial cuja audiência está marcada para esta terça-feira e que arrasta seu corrupto governo ladeira abaixo.

Charge que gerou processo de Zuma contra o The Sunday Times

No continente africano, abusar de fundos públicos para erigir mirabolantes domínios privados costumava fazer parte do receituário de cleptocratas ditatoriais como Jean-Bedel Bokassa ou Mobutu Sese Seko. “O Grande Leopardo” Mobutu, por exemplo, que reinou no antigo Zaire (hoje República Democrática do Congo) por 32 anos, tinha uma Versalhes privada na selva de Gbadolite com aeroporto capaz de receber aviões Concorde, um bunker nuclear para 500 pessoas, vários palácios e um elaborado complexo de pagodes construído por chineses.

Bokassa, o autoproclamado imperador da República Centro-Africana, cuja cerimônia de coroação foi tão extravagante que consumiu algo como um terço do orçamento do Estado, manteve-se no poder por 13 anos. Já o tirano-mor de Uganda Idi Amin, que enviava telegramas à rainha Elizabeth II da Inglaterra tratando-a de “Liz”, costumava chegar a reuniões de cúpula do Commonwealth em cima de um andor carregado por quatro esquálidos caucasianos.

Mas a África do Sul democrática do pós-apartheid que emergiu orgulhosa junto com seu fundador Nelson Mandela em 1994 tinha outros parâmetros e lições de retidão a dar ao continente. E de início assim foi. A erosão veio com o apego à máquina do poder pela elite do histórico Congresso Africano Nacional pós Mandela. Lambuzaram-se, diria o ministro Jacques Wagner. E o atual presidente Jacob Zuma, no poder desde 2009, está enterrando de vez o que resta da confiança tão duramente conquistada pelo país.

Não é de hoje que ele se vê enredado em acusações pesadas de corrupção, tráfico de influência, lotação de cargos para apadrinhados, estelionato e até mesmo um caso de estupro, dos quais sempre conseguiu escapulir. O que nunca sumiu da lupa da Defensora do Povo, cargo equivalente a um ombudsman dos cidadãos, foi a tal reforma “de segurança nacional” iniciada em sua residência particular pouco após tomar posse.

Foram adicionados um conjunto de edificações de estilos e formas variadas, uma piscina, um heliporto, um anfiteatro, um centro de recepção com cúpula, um estábulo para gado e um galinheiro — tudo em nome da segurança do chefe da nação e em meio à paisagem rural e paupérrima de Nkandla, sua terra natal, na província de KwaZulu-Natal, uma das mais desoladas do país. Ali, apenas 10 mil domicílios têm energia elétrica, 7 mil não têm água encanada e dos cerca de 120 mil habitantes da região mais de 40% estão desempregados.

O terreno agora ocupado por Zuma equivale a oito campos de futebol e a reforma engoliu o equivalente a 246 milhões de rands (equivalente a R$ 60 milhões), enquanto o upgrade do último governante branco do país, F. W. de Klerk, custara 236 mil rands uma década antes.

A primeira tentativa de fazê-lo responder a processo fracassara devido à imaginativa defesa das reformas encaminhada pelo ministério da Polícia. Um bombeiro chamado a depor afirmara que a piscina representava “a melhor fonte de água disponível para abastecer as bombas em caso de incêndio de grandes proporções”. O anfiteatro fora necessário para prevenir a erosão do solo por onde circulam os pesados veículos blindados, o centro de recepção poderia ser necessário para abrigar a grande família do presidente polígamo (ele tem 20 filhos) em caso de emergência, estábulo e galinheiro têm “valor espiritual”.

Só que a Defensora do Povo Thuli Madonsela manteve a pressão. Titular do cargo instituído pelo Artigo 181 da Constituição de 1996 e cuja indicação é feita pela Assembleia Nacional, ela se sabe amparada pela indignação popular. O relatório 2015 da Transparência Internacional com a rede Afrobarometer aponta a África do Sul, seguida de Gana e Nigéria, como o país africano em que a corrupção é citada como tendo piorado mais ao longo do último ano.

Jacob Zuma, o menino zulu que cuidava de rebanhos, frequentou a escola apenas por alguns anos e não recebeu nenhuma educação formal além do primário, engajou-se cedo na luta pela sua gente e tornou-se um competente líder do Partido Comunista sul-africano e do ANC. Não foi por acaso que penou dez anos na prisão de Robben Island ao lado de Nelson Mandela. Sempre teve sintonia fina com o homem do povo, em contraponto com seu antecessor mais austero, Thabo Mbki. Pena que tenha perdido o rumo quando o caminho ficou fácil.

No ano em que o movimento de libertação comemora 104 anos especula-se se o presidente de 73 anos conseguirá chegar ao término de seu segundo mandato, em 2019.

Uma declaração de Ronnie Kasrils, ex-ministro dos Serviços de Inteligência, ao jornal “The Guardian” dois anos atrás, diz tudo: “Mais importante do que o partido são as ideias do partido. São elas que devemos defender. Se o partido esquece essas ideias, vamos ficar do lado do povo que exige o que lhe prometemos a vida toda — uma vida melhor. Não podemos ficar calados quando vemos esses crimes de corrupção.”
Dorrit Harazim

O certo e o errado

Charge O Tempo 07/02

É urgente corrigir os desatinos fiscais do lulopetismo, desaparelhar o Estado, reconquistar a confiança da sociedade e retomar a agenda de reformas que o lulopetismo abandonou em favor de anabolizantes pró-crescimento que produziram medonhos efeitos colaterais para o país.
Há forças capazes de corrigir os desatinos cometidos. Para isso, é preciso que lideranças não comprometidas com o lulopetismo, apoiadas pelos grupos sociais que nunca se deixaram ou não se deixam mais seduzir pelo seu falso encanto, assumam a sua responsabilidade histórica, dentro da Constituição, para fazer o certo em benefício do povo e do país.

Os números da saúde não são ouvidos

Em 2015, o Ministério da Saúde sabia que os casos de dengue haviam chegado a 1,6 milhão. O estrago provocado pelo mosquito crescera em todas as regiões do país e dobrara no Centro-Oeste. Deu no que deu.

Os números da Saúde falam claro, mas quando são colocados em planilhas não são ouvidos, ou as respostas do governo vêm sob a forma de projeto marqueteiro. Sem ter nada a ver com o mosquito, sabe-se que o sistema de saúde privado brasileiro padece dos males de uma contabilidade de padaria, e a quebra dos planos Unimed está aí para expor o risco dessa conduta.

Elas devem R$ 1,2 bilhão à Viúva porque cobraram dos associados, mas não pagaram seus impostos. Os médicos receitam, os hospitais gastam, os planos pagam, e a conta explode no bolso do freguês.

Segundo estatísticas de 2013, a taxa de exames de ressonância magnética na rede do SUS é de 4,9 para cada 100 mil habitantes. No sistema de saúde privado é de 89,1. Tudo bem, SUS é coisa de pobre, quem tem plano privado deve ter melhor atendimento.

A porca torce o rabo quando se vê que a taxa brasileira só perde para a da medicina americana (97,7). Nos Estados Unidos os custos hospitalares são um dos principais itens da agenda nacional. No Brasil os burocratas fazem de conta que esse problema não existe. As ressonâncias estão na faixa dos exames caros e lucrativos do sistema.

A taxa de exames de ressonância do sistema privado brasileiro bate as dos 36 países membros da OCDE (46,3), do Canadá (46,7) e da Austrália (23,9).

Alguns fornecedores de aparelhos de ressonância vendem suas máquinas oferecendo aos hospitais plantéis de pacientes obtidos com operadoras que se comprometem a remetê-los para lá quando o médico credenciado achar necessário. Nisso não há só desperdício, há também roubalheiras.

Desse jeito, um dia os hospitais farão exames de ressonância nos familiares dos pacientes.

Elio Gaspari

E no país do 'chutômetro'

Esse meu “chutômetro” não tem nada a ver com futebol, mas sim com as mentiras da presidente, que lamenta não poder ensacar vento e se rejubila pela conquista da mandioca, além de outras esquisitices do gênero. Penso que já passou da hora de escutarmos tanta “bestagem” sobre assuntos sérios e de vermos tamanha insensatez praticada pelo atual governo, sem uma reação correspondente do povo ou da parte do povo, que vê o país soçobrar pela incompetência e incapacidade civil de sua comandante.

Eu nunca fui favorável ao impeachment de Dona Dilma, porque sempre achei que seu caso é de interdição por incapacidade civil. Não a incapacidade civil de que trata o Código Civil em seu artigo 1.767. A incapacidade de que falo, na política, é declarada pelo Congresso Nacional, que se resolve no voto, sem pensar em curatela – pois seria necessário, no caso, a indicação de um curador, que poderia ser um pau-mandado do PT, o que significaria trocar seis por meia dúzia... 


Uma presidente que não toma conhecimento de que o país está tomado por banqueiros, agiotas, ladrões de casaca – fora da Lava Jato –, que chegam a cobrar juros de 430% ao ano por utilização de cheque especial ou crédito rotativo, e, consequentemente não toma providência para prender essa gente por crime de usura e contravenção contra a economia popular, na forma da Lei 1.521/1951, não pode ser vereadora nem de “currutelas”, quanto mais presidente da República.
Porém, é assim que estamos vivendo, nós, brasileiros... Está ruim viver em um país como o nosso, que mais parece um carro velho, desgovernado pela quebra da barra de direção...

Compreendo, até certo ponto, a incapacidade da presidente para a vida pública, já que demonstrou essa inabilidade também na vida privada. Afinal, como se explicar que uma pessoa equilibrada, no fulgor de seus vinte anos, como no seu caso, tenha saído por aí de metralhadora em punho, para fazer valer seu sonho, possivelmente “robinhoodiano”, de viver numa Sherwood comunista?
Aquele que, estupidamente, se diz o homem mais honesto do mundo deve ter escolhido a candidata por um critério de exclusão, de forma a não deixar dúvida alguma de que foi ele, o tal “honesto em excesso”, que fez sozinho a presidente da República. Não podia ser alguém que se distinguisse na sociedade pela cultura, pelo procedimento, ou por qualquer atributo que pudesse, deixando essa dúvida ferir a vaidade pessoal de um analfabeto.

Digo à presidente o que muitos gostariam de dizer: chute o pau da barraca, assuma sua condição de mulher que precisa ser simples, reconheça suas dificuldades pessoais, peça perdão ao povo brasileiro por sua petulância em fazer o papel de presidente – o mais surpreendente: da República, que muitos acham que é das bananas –, e surpreenda seu criador, reconhecendo que os governos do PT acabaram com nosso orgulho natural de sermos nação de um povo feliz e altaneiro, sem ser pedante e metido a besta. Quebre esse galho pra nós, vai...

Denúncias sobre sítio e triplex ajudam a desconstruir mito Lula

No baralho do PT, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o ás, o rei e o valete. Quadro mais importante da legenda, puxador de votos e formador de sucessores no Planalto, o petista foi jogado nas últimas semanas no meio de um turbilhão das operações Lava Jato e Zelotes, que ameaçam torná-lo carta fora da disputa de 2018. Um sítio de amigos e um tríplex de luxo reformados por empreiteiras investigadas por participação no caso de corrupção da Petrobras colocaram o mito de Lula novamente em uma posição desfavorável. Vale lembrar que não é a primeira vez que o petista tem sua popularidade arranhada por escândalos no partido: apesar de sofrer desgaste durante o mensalão, o ex-presidente escapou quase ileso do episódio, e foi reeleito em 2006.

Mas agora, ao ter seu nome envolvido no que as autoridades acreditam ser um possível episódio de troca benesses – que incluiriam um elevador privativo no tríplex – por contratos com o Governo, a reputação do líder petista sentiu o abalo. Vale lembrar que todos os ex-presidentes, de José Sarney a Lula, passando pelo tucano Fernando Henrique Cardoso, e políticos de modo geral, são frequentemente cortejados com presentes, favores e agrados por parte do empresariado, em relações que muitas vezes se encontram na fronteira entre o imoral e o ilegal. "Não basta parecer sério, é preciso ser sério", diz o provérbio atribuído ao imperador romano Júlio César, referindo-se à sua ex-esposa Pompeia.

Se no passado outros políticos brasileiros tiveram 'agrados' questionados, agora é Lula quem está no centro das atenções, justamente quando sua sucessora está no poder, e quando seu partido tem declarado interesse nas eleições de 2018. Por isso, cabe a ele justificar que o que parece ser não é exatamente. Nos últimos dias a seriedade do ex-presidente foi posta à prova com a divulgação de um ofício do delegado da Polícia Federal Marlon Cajado, responsável pela Zelotes, no qual ele confirma a existência de um inquérito para apurar se o ex-presidente e outras pessoas participaram do esquema investigado ou se foram vítimas do mesmo. Assim, Lula entrou de vez nas duas operações da Polícia Federal: seu nome começou a ser atrelado à Lava Jato e já é investigado na Zelotes.

O reflexo da crise na imagem do petista se traduz em números. Pesquisa do instituto Ipsos divulgada nesta semana apontou que apenas 25% dos entrevistados consideram que o petista é honesto. Durante o escândalo do mensalão eram, 49% acreditavam na idoneidade do líder. E não é só: 68% das pessoas acham que Lula não tem moral para falar de ética, (ante 57% em 2005), e 67% disseram que a Lava Jato mostra que o ex-presidente é tão corrupto quanto outros políticos (no mensalão 49% tinham essa percepção). Soma-se a isso a péssima avaliação do Governo de Dilma Rousseff, o naufrágio ainda sem socorro da economia brasileira e a expectativa de mais um ano de martírio na relação do PT com o Congresso – sem contar o surto de doenças com o zika vírus –, e têm-se os ingredientes que podem jogar vinagre nas aspirações do ex-sindicalista de subir, pela terceira vez, a rampa do Palácio do Planalto.

Os números são influenciados fortemente pelo bombardeio sofrido pelo ex-presidente na imprensa, que colocou sob escrutínio seu patrimônio – e de seus amigos. Alguns veículos fizeram até mesmo o levantamento de quantas vezes Lula esteve no sítio de Atibaia (111 vezes), filmagens aéreas da região, e o cálculo do tamanho da propriedade: 173.000 metros quadrados ou 24 campos de futebol, como repetem diariamente os noticiários. É aí que mora o perigo, segundo alguns analistas. O brasileiro simples pode se perder dentro das notícias que falam sobre desvios de 100.000 reais ou 100 milhões. Mas ele entende perfeitamente a figura de linguagem que chegou agora para falar sobre as posses do ex-líder sindical. Ou sobre uma cozinha planejada adquirida para o triplex no Guarujá, pago por uma construtora.

“Quando você fala que o mensalão desviou milhões, bilhões, de reais, ou menciona compra de apoio parlamentar, isso não quer dizer nada para o ‘brasileiro médio”, diz Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília. “Agora quando você fala em elevador privativo e reformas no sítio pagas por empreiteiras, isso choca demais a população, que passa a ver o Lula como uma farsa. As pessoas tendem a se questionar: ‘esse era o presidente pai dos pobres?”. Segundo ele, nesse cenário o valor envolvido na reforma, por exemplo, não é o fundamental para provocar o desgaste da imagem do petista, mas sim a questão dos valores e da ética.

A vantagem que Lula sempre teve em relação a seus rivais desde que foi eleito em 2003, que é justamente o imaginário popular sobre o homem que saiu da pobreza para olhar pelos menos favorecidos, entra em curto-circuito neste momento em que o juiz Sergio Moro foi elevado a categoria de herói nacional. Vale lembrar, de qualquer forma, que o Guarujá é hoje uma praia de classe média mas está longe dos circuitos dos milionários, assim como a cidade de Atibaia, a uma hora da capital paulista.

A polícia investiga se o sítio seria efetivamente de Lula, embora esteja em nome de amigos, o que caracterizaria ocultação de propriedade. Para aliados do ex-presidente, que saiu do poder com 80% de aprovação, essa leitura é absurda. Em entrevista ao jornal O Globo,o prefeito de São Bernardo, Luiz Marinho, diz que qualquer pessoa poderia comprar um sítio ou casa na praia e emprestar a alguém. “Vamos imaginar que eu tenho uma casa na praia e disponibilize para você usar todo final de semana, alguém tem alguma coisa ver com isso? É o caso do sítio”, afirmou. “O problema é que não estão atrás da verdade. Estão atrás de encontrar um jeito de mostrar que o Lula está envolvido na Lava-Jato”, completou Marinho.

Se real ou apenas perseguição política, o fato é que já há quem duvide que o ex-presidente chegue com fôlego de concorrer à eleição em 2018. A empresa de consultoria política e de risco Eurasia Group, que costuma ser ponderada em suas avaliações políticas sobre o Brasil – nunca encampou a tese do impeachment de Dilma, por exemplo – chegou a cravar em um relatório que “Lula está fora da corrida presidencial de 2018”. Para justificar a análise, cita um estudo segundo o qual as chances de um presidente emplacar sucessor quando sua popularidade é menor do que 40% gira em torno de 6%. “A aprovação de Dilma gira em torno de 10% a 15%”, diz o relatório. Soma-se a isso “a profundidade com que o escândalo da Lava Jato já rebaixou Lula aos olhos de 70% da população”.

Caldas, da Universidade de Brasília, hesita em tirar Lula do páreo em 2018, em todo caso. “Prova disso é o mensalão. Todos davam ele como acabado em 2004, e no entanto em 2006 ele se reergueu e foi reeleito”, afirma o professor, que, no entanto, vê diferenças no tipo de escândalo que resvala no ex-presidente agora. O único cenário no qual o cientista político vê o fim das pretensões presidenciais do petista é caso ele seja condenado na Justiça.

O analista político Thiago de Aragão, da Arko Advice, concorda com a avaliação de Caldas. “É complicado colocá-lo como carta fora do baralho faltando dois anos para as eleições, principalmente no Brasil, onde a população tem uma enorme capacidade de perdão e esquecimento”, afirma. No entanto, ele faz uma ressalva com relação à diferença nos momentos econômicos vividos no país à época do mensalão e agora: “Quanto mais a economia cresce, mais a sociedade é tolerante com a política, e o contrário também é verdade. Os anos do mensalão foram de esperança, foi um momento positivo para a economia nacional”. Hoje, com a atual crise econômica e o aumento do desemprego, Aragão diz existir uma parcela da população que relaciona o “o petrolão com a crise”. “Um indivíduo que acabou de perder o emprego e está em casa assistindo TV vê uma reportagem com os números dos desvios na Petrobras, e faz essa associação. E no final, tudo isso é canalizado para o Lula e o PT”.

Até o momento o ex-presidente prestou depoimento no âmbito da operação Zelotes, que investiga a compra de Medidas Provisórias durante seu Governo e a venda de sentenças no Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. No entanto até o final do mês ele e sua mulher, Marisa Letícia, devem depor na condição de investigados. Para o Instituto Lula, "fracassaram todas as tentativas de envolver o nome do ex-presidente no processo da Lava Jato, apesar das expectativas criadas pela imprensa, pela oposição e por alguns agentes públicos partidarizados, ao longo dos últimos dois anos".

De acordo com a nota, tentativas do mesmo gênero feitas no âmbito da Zelotes também devem fracassar. Não há nenhum elemento que justifique a mudança do tratamento. Sobre o inquérito que irá apurar eventuais responsabilidades de Lula no caso de vendas de MPs, o advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin Martins, afirmou que o petista "foi ouvido no dia 6 de janeiro na condição de informante, sem a possibilidade de fazer uso das garantias constitucionais próprias dos investigados", e que "não há nenhum elemento que justifique a mudança do tratamento (de tratá-lo como investigado)".

A inveja, a crise e as trevas

“Eu matei Mozart!”, grita o invejoso Antonio Salieri criado por Milos Forman em Amadeus. Nada poderia ser mais distante da realidade. Salieri foi um músico extremamente bem-sucedido, suas obras foram aclamadas em vida e ele chegou a dar aulas para Beethoven, Schubert e Lizst, enquanto Mozart lutava para sobreviver. Mesmo assim, a ficção acabou colando em Salieri a pecha de um dos mais odiosos e ressentidos personagens da história, que terminou seus dias solitário e taciturno num manicômio.

Outro ícone da inveja é Iago, criado por William Shakespeare em Otelo. Iago convence o mouro da infidelidade da esposa Desdêmona por ter sido preterido numa promoção. O invejoso fabrica em sua mente perturbada uma injustiça irreal cometida por seu superior como forma de explicar a própria derrota. O final é trágico para todos.

Resultado de imagem para as trevas da crise
O maior de todos os invejosos, sem dúvida, é Satanás. Como descrito em Paraíso Perdido, de John Milton, Lúcifer é um líder protorrevolucionário que fomenta uma rebelião fracassada contra Deus. Sua maior arma é a astúcia, a persuasão, a mentira dissimulada e o carisma. Sua meta é corromper o espírito dos anjos por causa de sua própria sede de poder: “melhor reinar no Inferno do que servir no Céu”.

A inveja que envenena a alma do indivíduo é capaz de destruir um país. Alain Peyrefitte explica: “a sociedade de desconfiança é uma sociedade temerosa, ‘ganha-perde’: uma sociedade na qual a vida em comum é um jogo cujo resultado é nulo, ou até negativo; propícia à luta de classes, ao mal-viver nacional e internacional, à inveja social, ao fechamento, à agressividade da vigilância mútua. A sociedade de confiança é uma sociedade em expansão, ‘ganha-ganha’; sociedade de solidariedade, de projeto comum, de abertura, de intercâmbio, de comunicação”.

Em outubro último, num momento sintomático da miséria ideológica nacional, professores que faziam uma manifestação em São Paulo apedrejaram um carro de luxo, raríssimo no Brasil, pertencente a um desconhecido. O veículo apenas passava pelo local rebocado por um guincho. O que leva gente que vai formar as novas gerações de brasileiros a acreditar que o vandalismo bestial e invejoso fará algum bem a ele ou ao país? Como conseguiram corromper de tal forma suas almas?

O Brasil é uma sociedade de desconfiança, de “ganha-perde”. Muitos brasileiros já entenderam o papel deletério exercido pelo Estado hipertrofiado e tentacular em suas vidas, que obriga o país a trabalhar cinco meses por ano para sustentar sua máquina corrupta, inepta e perdulária. Pelo quinto ano seguido, o país ocupa o último lugar no ranking sobre retorno dos impostos.

Professores que apedrejam carros nas ruas são a face visível de uma doença social e moral muito mais grave e profunda. Eles agem como esbirros de uma engrenagem que há décadas envenena e racha o país, destruindo a capacidade de associação e colaboração dos brasileiros a partir das instituições sociais tradicionais como família, trabalho, escola, associações de bairro, igrejas e instituições filantrópicas, deixando apenas o Estado no lugar.

Uma sociedade em que o cidadão perde a confiança nela própria será sempre disfuncional. A confiança, com responsabilidade e liberdade, sem a intermediação autoritária, ineficaz e corrupta do poder estatal, é o pilar de relações sociais frutíferas e moralmente saudáveis.

Enquanto o Brasil não acabar com a onipresença sufocante do Estado e voltar a fomentar a liberdade, o empreendedorismo e a associação voluntária e mutuamente benéfica entre os cidadãos, estará sempre refém de governantes e burocratas que buscam arbitrar cada aspecto de suas vidas para pilhar seus recursos e consolidar o próprio reino de trevas, um objetivo em estágio já bastante avançado.

Alexandre Borges

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O Carnaval da política

Do jeito e no ritmo que as coisas andam no Brasil temos a impressão nítida de que esses tempos de modorra das festas momescas nada mais são do que a própria expressão de nossa experiência histórica. Como tudo foi sempre lento entre nós, os eventos se arrastam mais do que os seus congêneres em outras nações. Para além da tradição dos três dias, tanto do Carnevale veneziano como do Mardi Gras francês, nossa farra se estica por mais de uma semana obediente à tradição secular de indolência de enforcar os dias, senão os meses, como nos abusivos recessos dos poderes legislativo e judiciário. Temos sido sempre um dos últimos países, seja para declarar a independência, seja para abolir a escravidão. Ou mesmo para se constituir, se democratizar, industrializar, estabilizar a moeda, privatizar estatais ineficientes, abrir e internacionalizar a economia e agora, nosso maior desafio, para reformar as instituições políticas e moralizar a gestão pública. Pois, já era sem tempo! Diante da abertura comercial recém-pactuada entre países do Pacífico e reformas econômicas bem sucedidas de nossos vizinhos latino-americanos como México, Peru, Chile, e agora também da Argentina, ainda nos delongamos em discussões ideológicas anacrônicas ao pé do abismo esquerdista da Bolívia, Venezuela e Cuba. Como demoramos a passar as páginas da história!

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É lenta a formação de um consenso sobre a ingovernabilidade do país sob as rédeas de um partido desmoralizado pela opinião pública, abandonado pelos seus membros históricos e mais honrados e integralmente deslegitimado no poder pelas investigações da Lava-jato e suas conexões com o processo eleitoral. Como bem afirmou o deputado Raul Jungmann: “se a política não resolve a crise, a crise resolverá a política”. O que é mal, muito mal, por não sabermos o tamanho do prejuízo a ser assumido por todos os cidadãos brasileiros e seus pósteros. Quantas décadas de retrocesso teremos de experimentar, seja qual for o parâmetro de avaliação entre os países da comunidade mundial? O quanto vamos contribuir para jogar a economia mundial pra baixo, assumindo de vez a vanguarda do atraso entre todos os países submergentes? O quanto poderemos suportar com mais dois anos de depressão, dez milhões de desempregados e a inflação crescente, crise na saúde pública e na segurança a um só tempo? Quando então enfrentaremos a paralisia de nossa iniciativa política e emendaremos as marchinhas satíricas dos blocos de rua com as marchas de protesto contra políticos e magistrados irresponsáveis. O fato novo é que não estamos mais a achar graça na delinquência sanguinária da bandidagem comum assim como nas quadrilhas de colarinho branco de mensaleiros e petroleiros. Começa a cair a ficha de que a história esgotou a farsa de sua repetição e a tragédia em que nos metemos, enfim, nos empurrará para um destino, se não melhor, pelo menos diferente daquele de que estamos fartos de conhecer. Mas resta a pergunta: até onde pretendemos maníacamente destruir nossas realizações para mudar o rumo de nossa cultura política?

Na verdade vivemos em processo de expiação de uma grande culpa coletiva, na euforia do porre de cidadania pela recém-conquistada redemocratização dos anos oitenta, quando cometemos o irresponsável erro de ter mitificado um líder sindicalista como candidato a estadista nacional. Ou como “nosso guia” na irônica expressão do jornalista Elio Gaspari. Estamos em processo de catarse coletiva ou, para os mais folclóricos, em plena pajelança por termos todos nos enganado tanto. Se a vergonha da goleada da Copa foi um prenúncio do tombo nacional, o país ainda não caiu em si pelo desastre que se aproxima. Rebolamos na beira do precipício, atraídos pela mórbida adrenalina de despencar para a morte como preferiu Zumbi. Como nos ensina nosso livre-pensador Millôr Fernandes sobre o valor da liberdade: se não morremos por ela, a conspurcamos com a libertinagem. Pois só achamos que nossa liberdade começa quando acabamos com a do próximo.

Rompemos com a moral vigente do carnaval “estendido”, onde as pequenas transgressões do dia-a-dia não são cobradas pelo dever cívico que não aprendemos em casa ou na escola, para não enfrentar a grande ruptura política que a modernidade nos exige. Conquistamos nas últimas décadas excelências em todas as áreas da expressão cultural de um povo. Das artes, esportes, engenharias e medicinas. Mas numa única não avançamos nada: na cultura política que nos joga todos irremediavelmente pra baixo, derrubando todas nossas conquistas setoriais. Pois a política é a atividade de maior abrangência social do homem e tem o dom de contaminar todas as demais.

Se nos enganamos tão redondamente quando colocamos o Lula lá, talvez pela fantasia romântica de experimentar um novo paradigma da cultura política, chegou a hora de não mais estender esta lição que nos tem custado tão caro. Espero que tenhamos todos aprendido a não mais tentar a heterodoxia, não apenas na economia, mas sobretudo na política. Se Lula significou a esperança vencendo o medo, como lembrou de maneira magistral a ministra Cármen Lúcia no julgamento do mensalão: “não podemos permitir que o cinismo venha a vencer o medo, e agora o escárnio venha a vencer o cinismo”. Se não podemos contar com parte de nossas “elites” que persiste em corromper mandatos e agentes públicos, temos de apostar em parcelas cada vez maiores de cidadãos e cidadãs que resolveram se manifestar nas ruas, nas redes sociais e nas poucas brechas que lhes restam da grande mídia. Sobretudo por parte de jornalistas já cansados do noticiário repetitivo e sensacionalista da política profissional e mais esperançosos e dedicados ao jornalismo cívico. Se somos vinte milhões de cidadãos e cidadãs a recusar a cada uma das últimas eleições que a nobre arte da política seja corrompida pela tentação demagógica da marquetagem eleitoral, com certeza este capital da nova cultura política se compõe de dez a vinte por cento de formadores de opinião e mobilizadores sociais. Por isso é que há dois anos venho investindo no que temos identificado como Agentes de Cidadania, cidadãos e cidadãs que, embora ainda invisíveis na grande mídia, se dedicam em mais de três mil organizações sociais, movimentos e associações civis à árdua luta contra a corrupção, pela transparência da gestão pública e fiscalização de mandatos políticos, orçamentos e desempenho de instituições públicas. Assista a nosso vídeo de lançamento do programa em plena eclosão das manifestações de 2013.

E divirtam-se bastante neste carnaval da libertinagem política. Pois muito em breve teremos de trabalhar duro, os cidadãos engajados em libertar a política da delinquência dos políticos

Coação, coerção e delação


Qual é a cola semântica que junta mensalão, petrolão e delação? O mensalão foi concebido como um banco de mesadas para buscar apoios ao governo durante o primeiro mandato de Lula. O petrolão, considerado o maior escândalo de corrupção da atualidade, foi arquitetado para produzir e distribuir propinas no entorno da Petrobras. Pois bem, a resposta para a pergunta aponta para três substantivos também terminados em ão: cooptação, coação e coerção. O primeiro sugere a capacidade de convencimento de uma fonte (governante) para atrair, aliciar, buscar apoios junto a pessoas físicas ou jurídicas. A persuasão de interlocutores se dá por meio de recompensas, abrigando recursos financeiros, cargos em máquinas governamentais, concessão para realização de obras públicas etc. Acordados quanto ao volume e porte das trocas, fontes e receptores maximizam seus interesses e passam a agir como parceiros nos empreendimentos.

Esta modelagem explica a similaridade entre mensalão e petrolão, dois fenômenos que escancaram as relações promíscuas entre agentes da estrutura administrativa (governantes e burocratas), da representação popular (membros do Legislativo nas três instâncias da Federação) e os círculos de negócios privados. Já a delação se ampara mais na coação, aqui entendida como pressão moral para que delatores aceitem entrar no jogo. A recompensa, nesse caso, reúne formidável bagagem moral, a partir da fatura que se apresenta: atenuação de penas; liberdade em lugar de prisão ou prisão em regime semi-aberto.

Apesar de ser instrumento de nossa legislação criminal, a delação se desenvolve sob intensa pressão psicológica de indiciados, que acabam optando pela alternativa capaz de livrá-los do poder coercitivo do Estado. É o caso de indagar: da maneira como vendo sendo usada, a delação não resvalaria no terreno ético? Há quem veja razoável grau de desvirtuamento no abuso da delação. Deveria ser desaguadouro natural, espontâneo, do processo investigativo. Ocorre que os delatores se vêem diante de monumental barreira que os impede de optar de maneia espontânea por esta via. A barreira é o medo do poder coercitivo do Estado, apto a trancafiar por longos anos quem não se submeter àquela modalidade denunciatória. A família do indiciado, por sua vez, age como estrutura psicológica, induzindo o chefe de família a buscar a melhor alternativa para voltar o quanto antes ao seio familiar.

Os elos da cadeia coativa e coercitiva se juntam, prendendo os presos da Operação Lava Jato em um beco sem saída: ou delatam ou terão suas penas esticadas. Mas esse é o leit-motiv da delação, argumentam promotores e juízes. Trata-se de um sistema de recompensas – materiais, psicológicas – que o instrumento incorpora. Graças a ele, a Operação Mani Pulite, na Itália, foi bem sucedida. Começou com a prisão, em 1992, de Mario Chiesa, então diretor de instituição filantrópica de Milão (Pio Alberto Trivulzio). Dois anos após, 2.993 mandados de prisão haviam sido expedidos; 6.059 pessoas estavam sob investigação, incluindo 872 empresários, 1.978 administradores locais e 438 parlamentares, dos quais quatro haviam sido primeiros-ministros.

O juiz Sérgio Moro segue rigidamente a receita aplicada na Itália, o que inclui a cooptação da Opinião Pública, por meio da ampla visibilidade que a mídia oferece às ações da Operação Lava Jato. Os advogados criminais se queixam do uso (abusivo) da delação, enxergando o risco de consolidação de uma cultura denunciativa e punitiva no país, com desprezo ao rito da defesa. Levantam, por exemplo, a questão da presunção de inocência, uma das mais importantes garantias constitucionais. Por este meio, o acusado deixa de ser mero objeto do processo, passando a ser sujeito de direitos dentro da relação processual. Por essa prerrogativa, o acusado não pode ser considerado culpado até que a sentença penal condenatória transite em julgado. Ou seja, urge evitar uma sanção punitiva antes da decisão final. Diz a CF no artigo 5.°, inciso LVII: "ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória".

Outra pergunta que se coloca é: o que alimenta mazelas como mensalão e petrolão? Nossa cultura política e, esticando a resposta, nosso presidencialismo de coalizão. Que usa e abusa do poder da caneta: nomeia, demite, promove, faz favores, castiga. A relação de troca passa a ser medida do equilíbrio entre os Poderes Executivo e Legislativo. Ou seja, o presidencialismo de coalizão alimenta-se da base política e esta come do seu pasto para engordar. Para aprovar matérias de seu interesse, a (o) presidente tem usado todos os recur­sos à sua disposição, entre eles liberação de verbas do Orçamento e espaço na administração para partidos. Essa forma absolutista de governar deixa claro que poderia ser chamada também de presi­dencialismo de coação. A corrupção, nessa perspectiva, tem seu filão no interior do Estado. Pois a corrupção é um desvio institu­cional, ilegalidade praticada sob o abrigo da imoralidade. Isso ocorre quando as autoridades públicas deixam à margem seu dever e passam a subordinar seus papéis a demandas exógenas, como as de políticos em época de eleição. Sob essa cultura, a semente do presidencialismo imperial gera muitos frutos.

O presidente é o mandachuva. O chiste é conhecido: como o ato mais importante da partida de futebol, o pênalti deveria ser cobrado por quem? Pelo presidente. O culto à figura do presidente e, por extensão, a outros atores com forte poder de mando faz parte da glorificação em torno do Poder Executivo. Tronco do patrimonialismo ibérico. Herdamos da monarquia por­tuguesa os ritos da Corte: admiração, bajulação, respeito e mesuras, incluindo o beija-mão. Enquanto o poder central continuar com sua monumental capacidade de cooptar e coagir, continuaremos a ver amostras, aqui e ali, de mensalinhos e petrolões. Sob o reino da cooptação, coação, coerção e delação.

Pensando bem, solto ou preso é o de menos


“A mídia faz de Lula o judeu da década, como os nazis fizeram deles e comunas os alvos do seu ódio à democracia social.”
Tarso Genro

Que a repugnância provocada pelo petismo já ganhou ares de instituição não é novidade, entretanto as várias defesas de Lula serpenteadas via mídia e redes sociais conseguiram ultrapassar todos os limites da sem-vergonhice.

Digo, o descortinar de seu escuso envolvimento com a OAS Engenharia atesta o cerco cada vez mais estreito em seu entorno, o fato de estar sendo investigado pela Polícia Federal na esfera da Operação Zelotes nos faz sonhar, mas nada empana o assombro provocado por tamanha ousadia .

Dito isto, não vejo outra saída, é simplesmente mandatório enfrentar esta enésima tentativa de embaçar os fatos por parte de uma gente decidida a encastelar-se no poder.

Quero dizer, arrastam o país de volta para tempos remotos de insegurança, com índices de inflação e desemprego crescentes, propostas de taxação somente necessárias graças ao maior esquema de roubalheira na história da República por eles mesmos instaurado, e ainda por cima pretendem sair ilesos? Nada feito.

Verdade seja dita, trata-se de um fenômeno recente, impulsionado pelo bolso vazio e a falta de perspectivas, mas o brasileiro parece finalmente decidido a abandonar o PT.

E não deixa de ser irônico constatar, coube ao próprio Partido dos Trabalhadores estabelecer o grau de tenacidade que hoje em dia enfrenta. Basta olharmos para sua história, desde o início souberam muito bem martelar seus discursos como se mantras fossem, tanto para burilar a própria imagem quanto para demonizar adversários políticos e ludibriar a população.

De Genoíno a Dirceu, passando por Vaccari e Delcídio, sem falar em peões de menor gabarito histórico importantes para a engrenagem do sórdido projeto, os outrora defensores do povo estão em frangalhos e ainda sofrerão muito nas mãos da justiça. A boa nova é que este não é o maior de seus problemas.

Lamentavelmente, enquanto uma profunda reforma política permanecer no campo da mitologia, começando pelo fim do voto obrigatório sem falar no modelo de governo, nenhuma legenda deverá temer por sua existência, tampouco uma popular desde sua fundação.

Mas, como dizia, o verdadeiro pesadelo da nossa esquerda tupiniquim habituada ao papel de satélite petista, e claro, do próprio partido, na verdade é só um: a morte prematura da imagem de Lula como Padim Ciço da política nacional.

Não duvido nada, entre seus comparsas, até mesmo uma hipotética prisão passou a ser vista com outros olhos, agora que seu nome surge em toda sorte de escândalos.

Neste sentido, quem sabe, até considerem produtiva uma curta temporada de Luis Inácio na cadeia. Ora, se Dirceu e Genoíno foram tratados como “guerreiros do povo brasileiro”, não seria difícil impulsionar uma retórica parecida envolvendo o alcaide.

Assim como durante o debate sobre impeachment usaram a carta do golpismo, a estratégia atual busca alardear uma injusta perseguição ao pretenso defensor dos pobres. Vitimização esta nada criativa, torpe, mas que ainda deve colar entre muitos de seus eleitores.

Caso provas inequívocas resultem na prisão deste sujeito, sem sombra de dúvidas um dos maiores algozes do país, tanto melhor, mas o atual momento já é histórico. Dentro de uma cela ou fora dela, a pena de Lula já começou. Amém.

Lula, quem diria, foi parar...

A combinação carnaval e política tem o dom de disfarçar a gravidade das crises. Diverte milhões com fantasias e máscaras, letras originais ou paródias bem-humoradas - algumas engraçadíssimas. Que valem tanto ou mais do que enquetes ou pesquisas de opinião. Um termômetro adicional e preciso para medir quem goza ou não de prestígio popular. E que deve deixar a presidente Dilma Rousseff, o ex Lula, Cunhas, Renans, governadores e prefeitos às dúzias ansiando pela Quarta-feira de Cinzas.

Para muitos, o carnaval é uma pausa no desassossego do cotidiano. Mas os dias de brincadeira que já foram para desafogar mágoas - quase sempre de um amor perdido - servem hoje muito mais para não pensar no aluguel que vence amanhã, nos preços da feira, no emprego que deixou de existir. 

Está difícil até para os que querem esquecer tudo, ainda que temporariamente. Os preços da cerveja e da cachaça, itens inflacionados e que ganharam novas alíquotas de impostos, não deixam. Até a água está cara, o confete e a serpentina viraram artigos de luxo.

Criativo, o folião remodela a fantasia, pica papel, substitui a arquibancada da avenida – neste ano está sobrando ingresso no Sambódromo do Rio – pelos blocos de rua. Tira o pixuleco do armário, grita “Lula na cadeia” e “fora Dilma”.

Lula, que já perdera a santidade quando virou pixuleco nas manifestações pró-impeachment, volta à cena em diversas cidades, encarnado na fantasia de presidiário, como no desfile da Mocidade Unida da Glória, candidata ao bicampeonato do carnaval capixaba. A escola levantou a galera com críticas a políticos - "Será que a malandragem sumiu? Será que ela comanda o Brasil?" - e passistas mascarados de lulas e dilmas atrás das grades.

Herói do ano, o juiz Sérgio Moro, que comanda a Lava-Jato, não bateu o capa-preta dos mensaleiros, Joaquim Barbosa, cuja máscara fez sucesso em 2013. A figura mais popular é mesmo o agente Newton Ishii, chefe do Núcleo de Operações da Polícia Federal em Curitiba, “o japonês da Federal”, figura obrigatória na prisão de gente que já foi intocável.

O “Japonês da Federal” também virou marchinha - “Sou Trabalhador...Não sou lobista, senador ou deputado!”, ao lado do “Bar do Cunha”, “Marcha do tríplex”, “Guarde bem sua cartinha”, “Ela petralha e eu coxinha” e outras tantas. Odes à ironia e ao bom-humor do brasileiro, que, vítima da agudez da crise, apela ao riso e à galhofa. Como sempre.

Por trás da gargalhada está o repúdio à roubalheira. E sem perdão: deputado, senador, lobista, Lula e o tríplex, que já foi e não era dele, que era de sua mulher Marisa Letícia e não é mais.

Nem precisa ir muito além para apontar o estrago para Lula e o PT de o imbróglio do tríplex cair no popular, amplificado por uma marcha redondinha, que não para de tocar, animando a folia de Olinda.

É assim, e todo político sabe disso. O carnaval é a maior festa popular, para o bem e para o mal. Getúlio Vargas odiava ser chamado de velho, mas surfou no sucesso da marchinha “Retrato do velho” (Haroldo Lobo-Marino Pinto), que acabou virando jingle de sua campanha.

Com a sucessão de escândalos patrocinados pelo lulopetismo nos últimos 14 carnavais, a marcha do tríplex talvez caia no esquecimento. Mas sabe-se lá para dar lugar a que tipo de alegoria.

Foi-se o tempo em que “bloco de sujo” era comandado por inocentes batidas de lata no lugar do tamborim.

Minas vai à falência

Ícones da economia mineira como Vale, Samarco, Açominas (hoje Gerdau) e Acesita (hoje AcelorMittal), as construtoras Mendes Júnior e Andrade Gutierrez apresentam quedas de receitas que nunca foram imaginadas em suas longas trajetórias. Defrontam-se com quadros sombrios no curto prazo. A Fiat (agora FCA) amarga 50% de carros vendidos a menos que em 2012.

Se nesta altura as coisas são preocupantes, no andar de baixo, no cinturão de fornecedores e prestadores de serviços, os ventos já levam empresas embora como folhas secas no inverno.

A produção industrial de Minas precipitou em 12% até dezembro de 2015, um desastre que ainda se acelera. Em janeiro deste ano, o setor automotivo registrou um afundamento de 39,8% sobre janeiro de 2015, que foi um dos piores da história.

O Estado de Minas Gerais voltou a ter níveis de produção como os da década de 90, apesar de a população ter crescido 20% desde aquela gloriosa década.

Charge O Tempo 06/02

As sirenes já tocavam em 2014 durante a campanha presidencial, entretanto, no lugar que caberia a uma figura de ampla visão, a reeleita Dilma Rousseff deu as rédeas a Joaquim Levy, saudado pela imprensa especializada e pelo próprio PSDB como “um dos nossos”. Na realidade, um fracasso sem precedente que poderia ser considerado o cavalo de Troia que fez ruir a cidade petista. Ele está para o Brasil assim como o tsunami foi para a Tailândia ou a guerra de 1964 para o Vietnã.

Maior desgraça seria impossível. A economia nacional perdeu o rumo e aniquilou a competitividade. As contas públicas se esgarçaram.

Levy, enquanto tentava aumentar impostos para arrecadar mais R$ 50 bilhões, elevou os juros pagando R$ 501 bilhões a banqueiros. Para arrecadar R$ 50 bi a mais, aumentou o serviço da dívida em R$ 180 bilhões. Perdeu 5,6% de arrecadação. Um aprendiz faria melhor.

E Dilma pretende ainda a CPMF, o mais regressivo dos impostos, um golpe a ser pago pela economia popular e com mais desempregos. O que falta ao Brasil é cortar pela metade os cargos e os gastos do Legislativo e também o número de cargos de nomeação ampla. Implantar austeridade e respeito com o que se tira do contribuinte.

As culpas não são todas de Levy, mas ele se prestou a fazer apenas o interesse dos especuladores. Concedeu aos bancos os maiores lucros de todos os tempos, enquanto o Brasil se desgraçava e afundava. Isso, como criticado pelas melhores inteligências econômicas do planeta, devasta a economia. Neste momento dá-se ênfase ao crescimento econômico como solução para fugir da queda de arrecadação e da geração de desequilíbrios sociais. No Brasil, se asfixia exatamente a produção, que é como aumentar água na garganta de alguém que está se afogando.

A crise em Minas decretou 200 mil desempregados em 2015, e esse número catastrófico poderá se repetir já no primeiro trimestre de 2016 com mais uma quebra: a Usiminas.

Considerada a estrela da siderurgia brasileira, a empresa de Ipatinga, engasgada com dívidas e prejuízos bilionários, está para fechar as portas.

A deterioração da histórica siderúrgica de Minas determinou-se não apenas pela conjuntura adversa e nem pela briga entre sócios – de um lado, os nipônicos da Nippon Steel, e, do outro, os ítalo-argentinos da Ternium.

A Usiminas vinha se reestruturando com a gestão dos “argentinos”. As ações na Bovespa chegaram a seu melhor momento, R$ 14, e a credibilidade protegia a empresa. Entretanto, o acordo entre acionistas foi ruidosamente implodido pelos nipônicos, com acusações que até hoje não passam da ineptidão. O grupo Ternium, até pela falta de articulação política no Brasil, perdeu a queda de braço; os diretores saíram e, de lá pra cá, a empresa entrou em parafuso com ações não valendo um insignificante 5% do já que valeram há dois anos.

Joaquim Levy de fora e um grupo desastroso de dentro reduziram a geração de caixa em 18 vezes, até esvaziá-la; o saldo de liquidez hoje não cobre um dia de necessidades. A insolvência se dará a qualquer momento. Os bancos exigem um aporte de R$ 4 bi de capital dos acionistas para diminuir a exposição e ainda querem avaliar um plano de recuperação que não existe.

Como um barco que quebrou o leme, perdeu as velas e bateu num rochedo, a Usiminas está afundando. Os japoneses, conhecidos pela frieza e orgulho, parecem dispostos ao haraquiri antes de recuarem de suas posições.

Na Cidade Administrativa, na última sexta, o nervosismo estava no ápice. A Usiminas se perdeu e, por fim, perdeu também a credibilidade e o crédito. Sua avaliação internacional precipitou para CCC1. Quer dizer: empresa falida.

Que os japoneses percam aqui alguns bilhões, para eles pode não fazer diferença, mas para Minas será uma catástrofe de desemprego e perda de renda. O Vale do Aço, vermelho de lama da Samarco, pode se transformar num vale das lágrimas da Usiminas.

Agora o governo de Fernando Pimentel, que se queixa de ter encontrado as contas do Estado arrasadas e com R$ 7 bilhões de dívidas inadministráveis, mantidas “fantasiadas” ao longo do governo tucano, será testado. A falência da Usiminas vai exigir muito dele para evitar a perda de milhares de empregos e garantir uma arrecadação fundamental para o erário mineiro.

Campeões das reformas

Os políticos de esquerda costumam lutar por reformas –agrária, política, bancária, fiscal, urbana, universitária, administrativa– e pagar caro por isso. O status quo, por definição, não gosta de reformas, e combate os políticos que tentam promovê-las. O ex-presidente Lula também é partidário de reformas. Mas, cioso de seus amigos das elites, limita-se a reformas mais modestas. Uma delas, a do tríplex que ele diz não ter comprado no edifício Solaris, na praia das Astúrias, Guarujá (SP). Por que alguém faria reformas num apartamento que não lhe pertence é um mistério. E por que sua mulher, dona Marisa, vivia visitando o apê se nunca iriam morar lá só ela e Lula –por enquanto– sabem.

Pode haver coisa pior do que uma reforma? Começa-se trocando uma escada comum por outra em caracol e, de repente, já se quer instalar um elevador privativo, só para os bacanas. Um rodapé de madeira torna-se de porcelana e, num instante, o porcelanato toma também as paredes das salas de estar, jantar e TV. Dona Marisa fez tudo isso no tríplex que não é de Lula. Por sorte, os R$ 777 mil que a obra custou lhe saíram de graça, cortesia de uma gentil construtora.


Outra reforma pela qual Lula lutou foi a de um sítio de 173 mil metros quadrados em Atibaia, que também não lhe pertence, mas a sócios de seu filho. A obra envolveu construir ou ampliar um pavilhão, churrasqueira, piscina, campo de futebol e converter um lago em tanque de peixes –quase uma reforma agrária. E, que bom, ela também lhe foi oferecida pela construtora.

Igualmente campeão das reformas é o ex-ministro José Dirceu –no caso, a de seu próprio sítio em Vinhedo (SP), no valor de R$ 1, 8 milhão, pagos por um lobista. Dirceu nem precisou lançar mão da vaquinha que, um dia, seus correligionários fizeram para socorrê-lo, lembra-se?

'Deus' brasileiro



Todo mundo rouba, menos o camarada Stalin, porque ele é Deus e Deus não precisa roubar, é só pegar o que Ele quiser
Issac Bashevis Singer, Sombras sobre o rio Hudson

Ontem, hoje, amanhã

Não gosto de fazer previsões e não sou dada a exercícios de futurologia. Mas quando tento analisar uma situação, procuro ter em vista aonde quero chegar e quais podem ser os melhores caminhos para que o objetivo seja alcançado da forma mais eficiente e com o mínimo de perda. Ou seja, acredito em planejamento, não em profecia. Talvez até por causa da história de “Alice no País nas Maravilhas”, lida na infância. Quando a menina está perdida e pergunta ao Gato de Cheshire qual o caminho para sair dali, ouve a resposta lógica:

“Depende muito de para onde você quer ir...” Conselho que não custa nada seguir. Mas parece ser simplesmente ignorado quando quem devia agir com responsabilidade fica feito barata tonta, entre idas e vindas. E tem de pagar o preço por não ter olhado para a frente nem se preocupado com a conta que ia chegar.

Nestes dias pré-carnavalescos, passa na rua um bloco animado, cantando o refrão que Didi e Mestrinho imortalizaram há anos num desfile da União da Ilha. Primeiro, se pergunta: “Será que eu serei o dono dessa festa?” A resposta vem depois. Pode ser linda e poética no carnaval, mas é um desastre quando a administração de um país a adota como mote implícito, no vale-tudo de ignorar consequências: “É hoje o dia da alegria, e a tristeza nem pode pensar em chegar.”

No início da década de 1970, muitas vezes se citava como bordão a frase bíblica então trazida de novo à circulação pelo ministro da Fazenda, Mario Henrique Simonsen: “O futuro a Deus pertence.” Era uma maneira de recusar previsões econômicas deterministas. Por outro lado, anunciando também seus traços de futuro ministro do Planejamento, Simonsen se batia era pela formação de expectativas racionais. Como se, ao recusar a mera profecia ou a promessa, fizesse questão de clarear a necessidade de planejar.

Num governo, a economia e a administração de um país precisam olhar para o futuro. E se apoiar em análises racionais para traçar planos. Em meio a este festival de improvisos governamentais a que estamos assistindo, é preciso fazer um esforço para entender a realidade, o que acontece nela, e planejar o que se quer que ocorra.

Há pouco tempo o ministro Mantega garantia que quem apostasse na alta do dólar iria quebrar a cara. Amparada em Lula e Mercadante, Dilma apoiava seus conselhos. Chamou de rudimentar o plano de ajuste do ministro Paulo Bernardo, mesmo adjetivo que usara, quando na Casa Civil, sobre as propostas econômicas do ministro Palocci. Turbinou sua campanha com bravatas marqueteiras, ataques inescrupulosos às ideias diferentes das suas, e elogios à “nova matriz econômica”. Das duas, uma: ou mentia sem qualquer limite ou acreditava mesmo naquilo e atestava sua mais absoluta incompetência, como os fatos vieram a comprovar. Deixou Levy ser fritado vergonhosamente. Dá para ter qualquer esperança de que agora tenha subitamente aprendido algo e saiba do que está falando quando se manifesta sobre economia? Não imaginava que chegaria a hora de pagar a conta das teimosas decisões equivocadas? É hoje o dia. Da agonia.

Como se isso não bastasse, além de ser impossível ter total certeza a respeito do que os fatos vão nos trazer e do que tudo indica que será a consequência futura de causas passadas, ainda há o elemento realmente imprevisível, que sempre se manifesta. Alguns são súbitos, como o desastre de Mariana. Outros se constroem mais lentamente, correndo o risco de só serem detectados de forma tardia — como a expansão da microcefalia a partir do mosquito que está aí há um tempão. E há a crise da Previdência, prevista há anos, cuja reforma foi sempre detonada pelo PT. Agora se constata que ela ajuda a quebrar o país.

Há outros problemas graves a serem enfrentados já. Não há desculpa para a miopia em enxergar as questões ambientais. Pode ser conveniente jogar a culpa em El Niño ou reunir um Conselhão para uma foto. Mas não resolve. O meio ambiente pede socorro urgente. O mundo se afasta da primazia de petróleo e combustíveis fósseis. Nós vamos na contramão.

Como é que a esta altura a presidente veta investimentos em energias alternativas no plano plurianual? Não pensa no amanhã? A situação de nossas cidades, a falta de saneamento, o descontrole do desmatamento, tudo isso precisa ser analisado a fundo, para que se tenha um diagnóstico correto e se possam tomar medidas em direção a sua solução. Urgentes. Não se trata de ameaça ao planeta, ele sobreviverá. Se continuará como habitat da humanidade, é outra história. Nós é que estamos nos ameaçando.

Precisamos fazer algo, já, em vez de nos resignarmos ao mero blá-blá-blá, nos dando ao luxo de brincar de cabra-cega, ou docilmente seguirmos outro bloco que passa, cantando outro samba da União da Ilha: “Como será o amanhã? Responda quem puder. O que irá me acontecer? O meu destino será como Deus quiser.”

Ou como nós construirmos? Depende de onde queremos chegar.

Ana Maria Machado

Prevenção de pandemias custaria menos de 1 dólar por pessoa

Investindo menos de 0,72 dólar por pessoa anualmente faria com que o mundo fosse mais resistente doenças pandêmicas infecciosas potencialmente devastadoras, de acordo com um grupo de peritos em saúde global convocado durante a crise do Ebola.

Doenças pandêmicas custam ao mundo mais de 58 bilhões de dólares por ano, estimou relatório, ainda em comparação com outras ameaças de alto perfil, a preparação para pandemias é cronicamente subfinanciada.

“Poucos evetos globais correspondem à epidemias e pandemias em potencial para perturbar a segurança humana e infligir perda de vidas, danos econômicos e sociais”, disse Jeremy Farrar, diretor da empresa de caridade em saúde global Wellcome Trust. “Ainda por muitas décadas o mundo investiu muito menos em prevenir, preparar e obter respostas para essas ameaças em comparação com riscos à segurança internacional e financeira”.

A análise foi coordenada pela U.S. National Academy of Medicine durante o início da epidemia Ebola, que se espalhou por três países do oeste África no ano passado, matando mais de onze mil pessoas e causando estragos na esfera econômica e social.

Em entrevista em Londres, Farrar disse um fator crucial para se preparar para futuros surtos seria a criação de um centro forte e independente sob a supervisão da World Health Organization (WHO), que lideraria a preparação para sustos e respectivas respostas à estes.

O novo centro, que ele afirmou que poderia ser montado em um ano se ajudado pela WHO e seus 194 Estados membros, deveria ser uma parte permanente do sistema WHO e também ter “considerável independência operacional e orçamento sustentável”.

“O que nós precisamos ver agora são ações”, disse Farrar. “A liderança WHO e seus Estados membros devem fazer de 2016 o ano em que eles aprendem lições sobre epidemias e pandemias passadas e implementar essas medidas valiosas para construir sistema global de saúde mais resistente”.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O grande herói

Perdemos feio

Ao falar que o Brasil está “perdendo feio” a guerra contra a dengue, o ministro Marcelo Castro prestou um serviço, embora incompleto, porque essa não é nossa única “derrota feia”.

Perdemos a guerra contra a violência: o clima de guerra já se apossou tanto da sociedade, que nos acostumamos a fugir das ruas, trancafiarmo-nos em nossas casas, condomínios fechados, carros e shoppings. A tal ponto, que já não nos perguntamos como viver em paz, apenas como conseguir segurança prendendo menores e liberando porte de armas aos cidadãos.

Perdemos a guerra da educação. Com mais de 50 milhões de brasileiros adultos sem o ensino fundamental, ainda que um governo sério decida fazer a revolução na educação de base, as crianças já nascidas chegarão à idade adulta despreparadas para enfrentar o desafio da era do conhecimento; não serão capazes de levar o Brasil ao desenvolvimento que precisamos.

Perdemos feio a guerra contra a desigualdade social. Mesmo depois de 15 anos de Bolsa Escola/Família, continuamos campeões de desigualdade, e os resultados na luta contra a fome estão regredindo por causa da inflação.

Perdemos feio a guerra do desenvolvimento científico e tecnológico, da inovação e da competitividade. Em muitos setores, estamos atrás até mesmo de países pequenos e sem tradição de desenvolvidos. E nossa educação, nossas empresas, nossas universidades não estão preparadas para enfrentar este desafio.

Perdemos a guerra da saúde. Não a tratamos como uma questão sistêmica que cuide da água potável, do saneamento, do trânsito, da saúde primária e de hospitais eficientes servindo ao interesse do doente, e não de empresários, sindicatos ou políticos.

Perdemos momentaneamente a guerra contra a inflação, e há sério risco de que não seremos capazes de vencer esta guerra por não querermos tomar as decisões necessárias. Perdemos feio a guerra contra a dívida pública; além de perdemos também a guerra do endividamento das famílias e empresas.

Perdemos a guerra das cidades, transformadas em “monstrópoles”; violentas, feias, com trânsito atravancado, ruas inundadas e casas sem água. Perdemos também a batalha do transporte público.

Perdemos feio a batalha da gestão pública, com um Estado ineficiente, dependente dos vícios dos partidos por aparelhamento, dos empresários por subsídios e desonerações fiscais; entregue à voracidade corporativa dos sindicatos, desprezando-se eficiência e mérito.

Perdemos a guerra contra a corrupção. Apesar da Lava-Jato, a prática, continua generalizada e o crime impune. Perdemos feio a guerra da credibilidade na política e nos políticos, e nada será feito se esta guerra não for vencida.

Estamos próximos de perder a batalha da democracia: com um debate centrado no impeachment de uma presidente com mandato ou na conformação a um governo eleito com notória incompetência para vencer as guerras e conduzir o Brasil para o futuro.

Felizmente, ainda não perdemos a guerra da esperança.

O Carnaval do trá-trá-trá

Pode ser nossa última chance de brincar para valer ou de comer frango, que aumentou 36% em um ano e forçou o brasileiro a comprar só coxinha (sem trocadilho) e asinha. Por que, então, essa gente mal-humorada critica o Carnaval como se fosse o ópio do povo? E se for? Deixa o pessoal rir da maior queda na produção industrial em 13 anos. Puxa vida. Esta semana a gente esquece os “pobremas” e lava a jato para baixo da consciência todas as preocupações.

Vamos cantar a marchinha de um bloco de Olinda: Nesse triplex tem elevador/Dona Marisa foi quem decorou/A OAS também reformou/Se Lula não quer morar, eu vou (ô revisão, por favor não coloque acento em “triplex”, me dá um descanso, porque ninguém fala nem canta com acento no “i”, isso é palavra oxítona em prosa e verso). Vamos rir com o carro alegórico de uma escola de samba de Vitória, que mostrou Lula, Dilma e Cunha presos. O troféu mais cobiçado deste Carnaval serão as algemas de ouro. As tornozeleiras esgotaram.

Não deixe o samba morrer./Não deixe o samba acabar. Só nostálgicos têm saudade de quando a voz de Alcione nesse sambão era o “hit” do verão momesco, em vez dessa porcaria de estribilho trá-trá-trá, do “Paredão metralhadora”, com a Banda Vingadora, que saiu de Itabuna, na Bahia, para o mundo. Um fenômeno parecido com o da zika, produto de exportação que leva ao Primeiro Mundo a marca do Brasil e de sua absurda negligência com a vida.

O sucesso do trá-trá-trá tem tudo a ver com os novos tempos. “Tudo haver” – como se escreve nas redes sociais. Além de cair a produção industrial, cai de forma alarmante o nível do idioma e da música. Cai tudo, menos a inflação e o desemprego. Mas, gente, vamos esquecer tudo isso, caramba. Ô colunista, que tal sair nos blocos e cair na folia? Com pouca fantasia, claro, para entrar no clima de 2016. Este é o Carnaval dos acessórios. Ninguém tem dinheiro para comprar fantasia inteira. Igual ao frango, vamos nos contentar com partes.

Mas tem um Estado que se rebelou contra as festas: Sergipe! O presidente do Tribunal de Contas do Estado (TCE), Clóvis Barbosa, em pleno recesso, acatou a solicitação do procurador Eduardo Côrtes, do Ministério Público de Contas, e proibiu 53 municípios de festejar o Carnaval enquanto não pagarem aos professores, com salários atrasados desde outubro do ano passado.

Por que essa preocupação com os professores num país que desmoralizou a honestidade e o lema Pátria Educadora? Num país onde o mau exemplo vem de cima e cria máfias da merenda escolar. Num país em que a presidente Dilma Rousseff, em seu mais importante pronunciamento para o Congresso, não menciona a palavra Educação em nenhum momento.

Dilma pede “pacto” fazendo um coraçãozinho com as mãos. Pacto implica sacrifícios de ambos os lados. Implica confessar que mentiu tanto que poderia ser enquadrada em crime de “falsidade ideológica”, pior que o do branco que se passou por negro para entrar na universidade por sistema de cotas. Pior porque levou a população à beira do abismo.

“Apesar da alegada crise”, disse o procurador Côrtes, de Sergipe, “diversos municípios continuam a realizar festividades e despesas com publicidade desnecessárias, gastos não essenciais se comparados às obrigações com a educação”. E o município que desobedecer e programar festejos e propagandas terá de pagar multa de R$ 60 mil “por ocorrência”. Que desplante falar em educação em férias de 40 graus. Ou será que Sergipe é uma inspiração para o país anestesiado pela crise? Menos festa e mais trabalho.

O Tribunal de Contas sergipano deve ter lido a reportagem da revista britânica The Economist, intitulada “Festejando à beira do precipício”, dizendo que, depois do Carnaval, ninguém vai conseguir relaxar no Brasil – nem Dilma nem os congressistas. Isso é muito sério, seria inédito, porque a presidente parece sempre calma e otimista, vivendo do dinheiro público e alheio. “Quando os políticos retornarem aos trabalhos”, diz a revista, “podem se arrepender do tempo que passaram sem tentar resolver os problemas”. Zika, Saúde em frangalhos, desemprego, alta desabalada dos alimentos, crise econômica e política.

Assim me disse um apavorado dono de marcenaria, prestes a demitir e a falir: “Está pior que nos tempos do Collor. Porque a crise, desta vez, pegou todo mundo muito endividado. Mandaram o povão consumir, consumir, consumir, abriram o crédito, prometeram mundos e fundos, criaram um país de fantasia, um paraíso, e agora os altos juros pegaram as famílias de classe média, que não têm como saldar as dívidas. É uma reação em cadeia na economia. Um derruba o outro. Não sei para onde a gente vai”.

Ora, a gente vai para a avenida.

O Príncipe e o Sapo de Guarujá

As pessoas me param nas ruas, em bares, em restaurantes: “Será que desta vez pegam o homem?”. O “homem”, tratado como entidade mística, o que não quer dizer “benigna”, todos sabem, é Lula. Assim, é verossimilhante aquela conversa petista de que, desde sempre, o alvo da operação seria o chefão do PT, e a Lava Jato não descansaria enquanto não realizasse o seu intento. Verossímil, mas falso. Embora o falso, nesse caso, possa esconder o verdadeiro.

A Lava Jato não foi deflagrada para “pegar Lula”. Ainda está longe disso. No mês que vem, a operação completa dois anos. Os resultados são mais modestos do que parecem se você não é do tipo que saliva ao pensar num empreiteiro preso. A urdidura criminosa que se foi revelando só faz sentido se pensada à luz da consecução de um projeto de poder. Não estamos diante de um assalto ao Estado que repita um padrão ou que reforce as posições de mando dos poderosos de sempre.

Ninguém é ladrão por força da gravidade ou de escolhas que outros fizeram em seu nome. Rico ou pobre, pé de chinelo ou do colarinho-branco, é preciso que haja a disposição subjetiva para tanto, o exercício de um talento. As circunstâncias da Fortuna vão indicar se o sujeito será um Marcola ou o comandante de um aparelho que fará a máquina pública girar primeiro para alimentar os anseios desse ente e, secundariamente, para atender às demandas da sociedade. Ou por outra: é possível aplicar Maquiavel para entender tanto os Príncipes como os sapos.

Quando as pessoas, entre a indignação e o desalento, vêm perguntar se, “desta vez, pegam o homem”, expressam uma leitura bastante sóbria da realidade, instruída pela lógica comezinha, que organiza a vida. Dada a importância que ele tem no PT –nunca lhe faltou polegar para decidir quem vive e quem morre no partido–, como acreditar que esquemas de tal magnitude, mensalão e petrolão, pudessem ser erigidos ao arrepio de quem, na legenda ou fora dela, não esconde onisciência, onipresença e onipotência? Qualquer semelhança com o Altíssimo não é coincidência, mas parentesco.

O direito, na área penal, se alimenta das provas, e não será este escriba a contestar jamais esse fundamento. Ao contrário! Já cheguei a ser vítima de alguns espadachins da reputação alheia em razão do meu legalismo. Mas me parece evidente que a população, por sua conta –e isto leva o PT ao desespero– está chegando aonde a Lava Jato, até agora, não chegou. E não chegou, em alguns casos, porque ainda não pôde. Mas também porque não quis: é um escândalo autoexplicativo que Lula não seja um dos investigados no caso do empréstimo concedido ao PT, e jamais cobrado, pelo banco Schahin.

É verossímil que o PT acuse a pretensão de “pegar Lula” porque, de fato, essa voz está nas ruas. Mas é falso que tenha sido esse, desde sempre, o desiderato da operação. Ao proclamar tal falsidade, porém, o próprio partido revela aquilo que gostaria de esconder: se estão dizendo que o “ente petista” fez tudo isso, é claro que não havia como Lula não saber. É precisamente ao acusar a perseguição que o PT se revela e confessa.

Chega a ser quase anedótico, dado o tamanho do Império Petista, que Lula tenha se metido num emaranhado envolvendo um apartamento e um sítio mixurucas. Até agora, as explicações só contribuíram para desmoralizá-lo sempre um pouco mais.

O Príncipe da Nova Era ainda vai terminar seus dias como o Sapo de Guarujá.

Vertigem desumana

O homem não pode manter-se humano a esta velocidade, se viver como um autômato será aniquilado. A serenidade, uma certa lentidão, é tão inseparável da vida do homem como a sucessão das estações é inseparável das plantas, ou do nascimento das crianças. Estamos no caminho mas não a caminhar, estamos num veículo sobre o qual nos movemos incessantemente, como uma grande jangada ou como essas cidades satélites que dizem que haverá. E ninguém anda a passo de homem, por acaso algum de nós caminha devagar? Mas a vertigem não está só no exterior, assimilamo-la na nossa mente que não para de emitir imagens, como se também fizesse zapping; talvez a aceleração tenha chegado ao coração que já lateja num compasso de urgência para que tudo passe rapidamente e não permaneça. Este destino comum é a grande oportunidade, mas quem se atreve a saltar para fora? Já nem sequer sabemos rezar porque perdemos o silêncio e também o grito. 


Na vertigem tudo é temível e desaparece o diálogo entre as pessoas. O que nos dizemos são mais números do que palavras, contém mais informação do que novidade. A perda do diálogo afoga o compromisso que nasce entre as pessoas e que pode fazer do próprio medo um dinamismo que o vença e que lhes outurgue uma maior liberdade. Mas o grave problema é que nesta civilização doente não há só exploração e miséria, mas também uma correlativa miséria espiritual. A grande maioria não quer a liberdade, teme-a. O medo é um sintoma do nosso tempo. A tal extremo que, se rasparmos um pouco a superfície, poderemos verificar o pânico que está subjacente nas pessoas que vivem sob a exigência do trabalho nas grandes cidades. A exigência é tal que se vive automaticamente sem que um sim ou um não tenha precedido os atos.
Ernesto Sábato