sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Lambuzados e otários

Não é estranho que alguns dias depois de ter dito que “o PT se lambuzou” o ministro Jacques Wagner apareça lambuzado em novas investigações da Operação Lava Jato?

Na verdade, nada parece estranho no modo petista de habitar ambientes subterrâneos de poder, e de construir ligações perigosas com todos os tipos imagináveis de heterodoxia no trato com a coisa pública.

Charge Super 05/01

A fala de Wagner, que segundo a versão luvas de pelica com que a imprensa trata as relações de poder, causou “mal estar” entre governo e PT, pretendia, no fundo, ser uma autocrítica higienizada do partido, mas como o que fica no imaginário popular são as palavras mais fortes, o ministro chefe da Casa Civil acabou puxando uma descarga mais barulhenta do que ele imaginava.

E explicação que Jacques Wagner desenvolveu para explicar o “lambuzado" é de uma inocência angelical. Na verdade, ele atravessou o samba e saiu do ritmo:

“O PT errou ao não ter feito a reforma política no primeiro ano do governo de Lula. Aí não mudou os métodos do exercício da política. Ficou usando as ferramentas que já eram usadas, do financiamento privado (para campanhas eleitorais). O resultado é que o PT, que não foi treinado para isso, (encarnou o ditado) “quem nunca comeu melado, quando come, se lambuza”.



Subestimar a inteligência alheia e tratar as pessoas como se elas tivessem dificuldades de discernimento é um dos maiores pecados da histórica soberba do PT. Somos otários, Jacques Wagner? Não, não somos.

O PT montou esquemas de assalto aos cofres da Petrobras (com a parceria dedicada do PMDB e do PP) por falta de reforma política? O mensalão e o petrolão existiram porque “o PT não foi treinado para isso”? (Imaginem a catástrofe que seria se o partido fosse treinado para isso…). A quem Jacques Wagner acha que está enganando?

Para azar do ministro-chefe da Casa Civil, o que ficou de sua narrativa fantasiosa foi só o high-light da manchete: o PT se lambuzou. O resto da digressão se perdeu na poeira das palavras ao vento.

Por isso ele foi repreendido por um petista mais cosmopolita, mais escolado do que o baiano em questões de uso cauteloso da linguagem. Tarso Genro, que passa por reformista e eterno candidato a “refundador” do partido, já escolado na tergiversação desde o asilo concedido ao terrorista e assassino italiano César Battisti, condenado em seu país por participação em quatro homicídios, puxou-lhe as orelhas:

“A declaração de Wagner foi profundamente infeliz e desrespeitosa, porque generaliza e não contextualiza. Ele faz coro com o antipetismo raivoso que anda em moda na direita e na extrema direita no País. Com a responsabilidade que ele tem, deveria ser menos metafórico e mais politizado em suas declarações".

A terceirização da culpa é outra das características do DNA petista. Atrás de qualquer fracasso, há sempre um culpado em quem descarregar a ira. E esse culpado nunca está entre eles.

Será difícil ao tergiversador Tarso Genro encontrar qualquer traço de direitismo, extremo ou não, nas palavras do professor Eugenio Bucci, petista histórico do tempo em que acreditava estar nadando em águas limpas. Ele escreveu no final de seu artigo desta semana, no Estadão:

“Por que a corrupção, que antes seria uma intercorrência, ganhou o estatuto de método? Como a corrupção submeteu o partido aos ditames do capital selvagem? Se querem mesmo falar de política, é disso que o PT e a presidente precisam falar. Mas eles não podem. Têm medo do inferno. E ardem”.

Tarso Genro pediria menos metáfora e mais politização?

Infinitamente capaz

A capacidade do governo em fazer o bem é limitada; a capacidade de fazer o mal é infinita
Ludwig von Mises

Propaganda estatal: o gasto mais inútil do mundo

O Rio de Janeiro passa por uma crise econômica sem precedentes. Maravilhados com o preço do petróleo e os royalties do ouro negro da Bacia de Campos, os governantes do Rio de Janeiro, mais especificamente do PMDB lulista, fizeram desses recursos uma receita ordinária para fins orçamentários, quando era claramente extraordinária e dependente do valor do preço do barril. Quando esse valor atingiu baixa recorde (ontem estava custando 35 dólares, o que é 5 dólares mais barato que o preço mínimo para se viabilizar economicamente a extração do pré-sal), o Estado passou a não ter como honrar compromissos inventados e inchados por uma política expansionista e perdulária de gastos públicos.

Nesse cenário, que atinge principalmente a saúde pública do Estado do Rio, o Governador Pezão anuncia um aumento das verbas de propaganda do Estado de R$ 14 milhões para R$ 53 milhões num ano, enquanto os jornais falam que o Estado não terá como honrar a folha de janeiro no mês de fevereiro.

Estamos falando aqui então em uma perspectiva crítica utilitária. Para o bem geral da população, se não há dinheiro no momento para nada, é de bom senso que todo o dinheiro que não esteja sendo gasto em finalidades básicas do Estado (aqui sem entrar no mérito de quais são essas finalidades ou se elas existem mesmo) sejam canalizadas justamente para o cumprimento desses objetivos fundamentais.



Indo mais fundo na crítica, agora para uma perspectiva crítica mais deontológica, para que serve propaganda pro Estado?

Se pegarmos uma definição clássica de Estado, Max Weber assim o define como “um aparato administrativo e político que detém o monopólio da violência”. Se o Estado é um monopólio e ninguém compete com ele por seus serviços de violência legítima, de onde vem essa necessidade de se autopropagandear?

A primeira resposta óbvia é que a propaganda não é para o Estado, afinal, não faz lá muito sentido se falar em propaganda da Polícia, da escola pública ou do hospital. De fato, se fôssemos pensar racionalmente, a propaganda estatal ideal para preservar os interesses do próprio Estado seria para que as pessoas não usassem esses produtos públicos, já que o Estado recolhe impostos independentemente do uso dos bens, mas tem os seus custos majorados quando ocorre a utilização.

Se não é uma propaganda para o Estado, então a segunda resposta óbvia é que essa propaganda é, na verdade, do Governo que se encontra acastelado momentaneamente na máquina pública. O que, em outras palavras, quer dizer que o grupo político detentor do poder usa do dinheiro público para fins privados. Propaganda estatal é um ato oficial de patrimonialismo, que é a característica de um Governo que não possui distinções entre os limites do público e os limites do privado.

Com isso, vemos que não há nenhuma justificativa para qualquer tipo de gasto estatal em propaganda, o que resta ainda mais grave em um cenário de completo caos administrativo e fiscal, quiça então o seu aumento, o que é um acinte para todo e qualquer cidadão minimamente consciente da sua própria cidadania.

Mais um dos inúmeros absurdos cometidos pelo PMDB petista, todos amplamente conhecidos e sem necessidade de propaganda para divulgá-los. Plim plim!

Das vacas de Amós

Indo de carro por uma estrada estreita, de mão única, pelo sertão da Paraíba, querendo chegar, o quanto antes, a Pernambuco, tinha que estar em Recife no mais tardar no começo da noite, minhas retinas, que nem as do poeta, já tão fatigadas, mais que flagraram, arquivando depressa na minha memória, a cena do homem sozinho e sua vaca.

Naquela vastidão de coisa nenhuma, de tudo seco, o homem puxava a sua vaca deixando livre o cabresto para que ela, farejando algum verde, não deixasse anoitecer a fome.

O carinho quase de irmão ou de pai com filha com que aquele paraibano, vacuns sapiens, diria a Dilma, conduzia pacientemente a sua vaca me fez pensar muito no quanto, pela estimação, chegamos a nos tornar dependentes de certos animais.

Então concluí, o quanto faz sentido aquela teimosia cearense que muitos nordestinos inebriados de telurismo ainda cantam mundo adentro – “enquanto a minha vaquinha tiver um courinho no osso (...) só deixo o meu Cariri no ultimo pau de arara”.

Não são poucos os bravos brasileiros que, pelo menos por enquanto, não pensam em ir se embora do País. A crise migratória que assola a Europa parece não incomodar muito os pouco mais de um milhão de patrícios que se aguentam por lá.

Mais de três milhões de brasileiros vivem espraiados por aí afora. Como se em Alagoas, por exemplo, só tivessem ficado as estatuas ou os túmulos de três dos Presidentes que o Estado, em sacrifício, doou ao do Brasil – Deodoro, Floriano e Collor.

Depois dos Estados Unidos, onde estão mais de um milhão e meio da nossa brava gente, a segunda Meca dos brasileiros, advinha, é o Paraguai.

Pouco antes do natal, num restaurante em São Paulo, éramos quatro numa mesa - o Belluzzo, sim, o economista e ex-Presidente do Palmeiras; o César Klouri, o advogado e professor de Direito e o Paulo Henrique, sim, o Amorim (olá, tudo bem?), quando sem mais nem menos se apresentou um jovem a nos mostrar o celular que, segundo ele, tem vendido muito para brasileiros, advinha onde, em suas lojas no Paraguai. Desceu a lenha nos governos do PT.

Quando caía a ultima ditadura, a Gal ameaçou ir se embora do Brasil se o Maluf fosse Presidente. O ACM mandou a sua tropa votar no Tancredo. E assim, a Bahia se livrou do vexame de ficar sem a Gal em pessoa. Por onde andará o Belchior, gente?

Em sua quase totalidade, a brava gente brasileira é assim. Não anda falando em ir se embora. Por mais que despenquem as desesperanças no logo mais e a credibilidade no Governo, não se intimida. Não pensa em desistir.

Nossa brava gente quer, sim, manter acesa essa luta contra os que se sustentam nos malfeitos, nas artes e manhas com os bilhões dos nossos impostos e na venda, em Brasília, dos votos da nossa representação politica, a qual em verdade em nada nunca nos representará.

Não me sai da memória aquela vaca e o seu compenetrado dono atrás de um verde na quase pedra que já foi lama antes da seca denigrir até o último dos mais resistentes mandacarus.

Entre os israelitas, conta-nos a Bíblia, os bois eram usados em trabalhos da agricultura lavrando a terra, pisoteando o trigo, puxando carros, enquanto as vacas eram poupadas porque tinham leite a dar, e leite com mel, ó meu, era a sublimação do manjar.

Uma vez exaustos, que nem o carioca no centro do Rio de Janeiro, um olho no pivete, o outro no trombadinha, os bois dos hebreus eram então levados para as liturgias dos sacrifícios e depois comidos lentamente, que nem a nossa brava gente hoje, sob os maus governos, embora não literalmente e nem necessariamente nessa ordem, pelos juros altos, pelo desemprego, pela inflação, pela falência total dos serviços públicos.

As vacas, ah as vacas, sim, podiam vaguear pelos campos. Como se escapassem de alguma comissão especial de deputados, eleita em chapa avulsa.

Há quem entre nós por estas plagas deplore o endeusamento das vacas na Índia. Há séculos que elas ali são tidas como sagradas, intocáveis, e até infalíveis. Há também quem ache que a sacralidade das vacas da Índia tenha, a partir de algum tempo, contaminado a concepção inerente a certas raças de vacas por aqui. Algumas se reencarnariam bípedes para então se acabarem atoladas no brejo.

É de lembrar o sonho do qual o Faraó despertou sobressaltado com a ideia daquelas sete vacas feias e magras devorando as sete vacas gordas e formosas, nutridas a financiamentos do BNDES ou, quem sabe, a propinas de superfaturamentos na Petrobrás.

É não desesperar. Depois das vacas magras, virão as vacas gordas. Não sem antes uma Constituinte exclusiva para as reformas politica e tributária, eis que aí é que estão os imbróglios que ninguém no poder se arrisca em desmanchar.

Pertinente esta conclamação de Amós, (4/1) - “Ouvi esta palavra, oh vacas de Basã, que estais no monte de Samaria, que oprimis os pobres, que esmagais os necessitados...”

Juros altos não derrubam inflação. Os dois juntos somam forças do mal que derrubam governos.
Edson Vidigal

Coelhos não passeiam ao luar

Jacques Wagner, chefe da Casa Civil, avisa que a população não deve esperar grandes notícias, em matéria de reformas econômicas. “Não tem coelho na cartola”, ele comenta, acrescentando que não haverá pacotes. As mudanças serão paulatinas, passo a passo na recuperação da confiança do empresariado e na criação de empregos.

O diabo é que o Lula exige mais. Quer a presidente Dilma anunciando medidas de impacto para o governo sair da crise, sugerindo a adoção de propostas como as constantes nos documentos do PMDB e do PT, voltadas para a retomada do crescimento econômico.

Fica difícil conciliar as duas paralelas, que parecem fluir em sentido oposto. Nem no infinito se encontrarão. Entre elas transita a presidente Dilma, ignorando-se para onde vai. Se depender do ex-presidente, para medidas imediatas de recuperação do otimismo e de sólida maioria parlamentar, de forma a dissolver a sombra do impeachment. Conforme o ex-governador da Bahia, lentamente, sem criar falsas expectativas nem realizar milagres.

O singular nesse confronto é que tanto o Lula quanto Wagner posicionam-se no quadro sucessório. O primeiro ocupando a pole-position na raia do PT, mesmo desgastado e às voltas com a queda de popularidade e especulações sobre o envolvimento de familiares, amigos e correligionários sob investigação da Polícia Federal e do Ministério Público. O outro como alternativa para o caso de afastamento do chefe.

Vale repetir que nem tudo depende do trio Lula-Dilma-Wagner e penduricalhos. A sorte da política econômica repousa em mãos do empresariado e dos trabalhadores, por enquanto situados em campos opostos, cada grupo defendendo seus interesses e opondo-se aos do adversário.

Faz tempo que a divisão envolve o PT, os demais partidos, as centrais sindicais, a Fiesp e variadas corporações. A receita do Lula continua a mesma, ou seja, que Dilma deve viajar mais pelo país, dar mais entrevistas, retomar o protagonismo da agenda política, anunciar mudanças na estratégia econômica e recompor sua base de apoio no Congresso. Também precisa evitar divisões no PT. O problema é que essas sugestões vem sendo dadas há meses, mas com pouca aceitação. O tal Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, composto pela empresariado e por lideranças sindicais, criado no governo dele, não se reúne há um ano, quando deveria estar sendo cooptado como forma de sensibilizar a opinião pública.

Em suma, nada de novo debaixo do sol, apesar de a noite parecer próxima, período em que será mais difícil encontrar coelhos passeando ao luar.

Nova tática de governo: criminalizar quem combate o crime

Um comando foi dado, pelo núcleo duro do PT (setor de mídia), nesse fim de semana, para militantes de ambientes virtuais e blogueiros alinhados com Dilma e Lula: viralizar, nas pautas, a ideia de que o Brasil já poderia ter saído da crise não fosse a Operação Lava Jato.

Segundo consultores ouvidos por esse blog, a nova pauta é muito simples: bipolarizar (mais uma vez) a situação. De um lado, petistas do bem querendo consertar o país. Do outro, opositores do mal postulando manter o Brasil “num clima de insegurança”.


Os pontos dessa nova agenda midiática se assentam sobre dois passos dados pelo governo no último mês.

O primeiro: a medida provisória assinada por Dilma, em 18 de dezembro, aquela que alterou as regras para acordos de leniência. A medida provisória regula os acordos de leniência firmados pelos órgãos do governo federal com as empresas investigadas por ilícitos contra a administração pública. O texto inclui o Ministério Público nos acordos e dá às empresas o direito de continuar participando de contratos com a administração pública, caso cumpram as penalidades impostas.

Daí o seguinte argumento: todos aqueles contrários a isso quereriam o “caos brasilis”. Entre eles, por exemplo, o o procurador da Lava Jato, Carlos Fernando dos Santos Lima, um dos que alega que o Brasil está “caminhando para trás” no combate à corrupção ao adotar esses acordos de leniência.

O segundo ponto: ao Dilma ter zerado as pedaladas fiscais, com o o depósito de 57 bilhões que pacificou a questão, teria dado o maior gesto possível de que quer estar em paz com a lei.

Mas a agenda da bipolaridade quer mais: pretende puxar dados da macro-economia e, ao fim e ao cabo, despejar uma pá de cal na Lava Jato como a grande propulsora do caos.

Alguns dados de macroeconomia: o Banco Mundial prevê retração de 2,5% no país neste ano. A projeção anterior era de crescimento de 1,1%. Outro: a queda do setor automotivo brasileiro divulgada pela Anfavea: comparando com o mesmo mês de 2014, o setor teve em dezembro queda de 30% na produção, acumulando em 2015 baixa de 22,8%, a 2,43 milhões de unidades.

Aí vem a grande questão: dar proporções maiúsculas à Lava Jato. E assim praticamente criminalizar quem combate o crime.

Para tanto, estão sendo extraídos dados do estudo da consultoria GO Associados. Em resumo, esse estudo atribui à Lava Jato os seguintes números armagedônicos: perdas de R$ 142,6 bilhões (o equivalente a 2,5% do PIB), redução de 1,9 milhão de empregos diretos e indiretos, queda de R$ 22,4 bilhões em salários e diminuição de R$ 9,4 bilhões em arrecadação de impostos.

Essa é a nova batalha bipolar no ar: criminalizar quem combate o crime. Diz algo, não ?

Ano novo? Só se for na folhinha

A cada dia que se desfolha no calendário, o brasileiro assiste ao replay do ano passado. Dizer que estamos em novo ano é apenas por uma questão de registro do tempo. 2015 não acabou e deve se prolongar bem mais do que se imaginava. Um autêntico ano que não terminou vai seguir calendário após calendário.

A renovação prometida pelo espoucar de fogos precisa de vontade que falta aos governantes e políticos. Fica-se apenas com um fiapo de esperança de que baixe um santo naquelas cabeças ocas para fazer mudanças. Mas como são caras de pau, o jeito será usar do porrete da manifestação para que o país não se arraste mais na fossa sem mudar o script.

Sob o reinado da mentira, a grande obra de Dilma, superando mesmo a desfaçatez de Lula, já se vê como vão rolar os demais dias na folhinha. 


Ano Novo requer vontade e esperança para realmente mudar e ser diferente. Não há vontade no governo e enorme desesperança no país. Tais ingredientes são bons numa queda do precipício.

Dilma, incorrigível e insuperável na mentira, logo neste inicinho de ano fez circular que haveria um coelho na cartola mágica governamental para sanar todos os males. Não há coelho agora segundo Jacques Wagner, da Casa Civil.

Estão de olho que surja ao menos um cisco para alardearem que encontraram um mamute salvador. É estratégia de contar com o ovinho para depois dizer que era de dinossauro e só eles viram.

Enquanto não aparece um fiapo para se agarrar no recesso do Congresso, Dilma vai levando no bico naquele peculiar jeito de empurrar com a barriga e confessando: os erros são os outros existirem.

Não se precisa de presidente para se fazer o que Dilma faz. Mesmo o mais boçal pode até fazer melhor papel criando um país de mentira. 

Resta saber até quando a folhinha vai aguentar carregar Dilma nas costas, porque o país está quase apeando.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Aviso aos navegantes

Isso é um alerta: ontem mesmo me deitei tendo 16 anos e hoje acordei com mais de 60. Quero dizer que a vida voa. Ah, se quando jovem eu soubesse que iria envelhecer e morrer, acredito que teria vivido de outra maneira. O que acabo de dizer é uma boutade, eu sei: mas, ao mesmo tempo, é certo que, com os anos, você chega a uma região, a da velhice e da Parca que ronda, que você nunca viu antes com verdadeira clareza. E então diz: ah, quanto tempo perdido. E não porque minha existência me desagrade, pelo contrário, acredito que foi e é muito intensa e que fiz tudo o que gostaria de fazer. Mas com que nervosismo, de que forma tão atormentada e tão confusa, quantas vezes vivi com o corpo aqui e a cabeça em outra parte. Por não falar da quantidade de tempo e de energia perdida em bobagens, como, por exemplo, achar que era feia aos 18 anos (quando era mais bonita do que nunca), e me angustiar temendo não estar à altura de algum trabalho. Por isso, repito: se eu soubesse que iria envelhecer e morrer, teria vivido de outra forma.

Tudo isso surge, é claro, pela mudança do ano. O calendário não é mais do que uma convenção, mas como mexe e como queima. Nessas datas é impossível não dedicar sequer um minuto a sentir o vento do tempo contra o rosto, a revisar superficialmente o passado, a se perguntar sobre seu futuro. Acabo de ler um livro extraordinário que acompanha bem essas angústias. É o livro Instrumental: memórias de música, medicina e loucura, de James Rhodes (Blackie Books, em espanhol). O britânico Rhodes tem uma biografia totalmente improvável. Por exemplo, é pianista, um bom concertista. Começou a estudar piano, entretanto, mal e tarde, e depois o largou por completo durante 10 anos até retomar a música com quase 30 anos. Não acredito que exista no mundo outro caso assim. Se você abandona um instrumento dessa forma, simplesmente não é possível ser um músico dessa qualidade. Mas ele é. Esse é seu primeiro milagre.


Nunca seremos tão jovens como hoje e a vida se conquista dia a dia

Tem vários outros, alguns pavorosos. O livro de Rhodes conta com uma crueza que eu nunca antes vi sobre a experiência de uma vítima de pedofilia. Quando tinha seis anos, James foi estuprado por seu professor de boxe do colégio. E o canalha continuou a fazê-lo durante cinco anos impune e sistematicamente, até que Rhodes mudou de escola. O garoto, ameaçado pelo pedófilo, envergonhado e amedrontado, nunca disse nada a ninguém; mas outros professores o viam chorar, o viam sair com as pernas sangrando da sala do monstro e não fizeram nada. O livro de Rhodes é um grito indignado contra essa passividade tão comum diante dos abusos infantis. Como as pequenas vítimas não se atrevem a denunciar, é muito cômodo ignorar um horror que fica escondido, como os malvados ogros dos contos, nos quartos escuros e nos pesadelos das crianças. E uma outra lição desse ótimo livro: os estupros deixam sequelas. Em primeiro lugar, graves sequelas físicas, porque é uma brutalização contínua de um corpo muito pequeno (o músico precisou ser operado várias vezes); e, certamente, uma enorme quantidade de catástrofes psicológicas. Prostituição na adolescência, um ano de internação em um hospital psiquiátrico, três tentativas de suicídio, cortes auto-infligidos com uma lâmina, drogas, fúria e dor. E esse é o segundo milagre: sobreviveu a tudo isso.

Terceiro milagre: James é a prova de que a arte e a beleza ajudam. No caso de James, a música acalmou sua fera interior. Todos podemos e devemos recorrer a isso: quanto mais beleza em nossas vidas, mais fora do tempo e da pena, mais imortais.

Mas ainda falta contar um quarto milagre. Ainda que a existência de Rhodes pareça enorme e atribulada, só tem 40 anos. Puxa, isso é viver depressa. Como dizia Lou Reed: meu dia equivale ao seu ano. Pois bem, no final o autor deposita sua confiança em sua segunda esposa, Hattie, e se atreve as dar conselhos para o bem-amar. Antes, ao ler o livro, Rhodes me pareceu um homem comovente e admirável, mas também furioso e ferido, intenso demais para permitir a proximidade. Mas nessas páginas finais fala da convivência com tanta modéstia, tamanha sabedoria que me deixou admirada. Como, por exemplo: “O que mais estraga uma relação é tentar sair ganhando”. Pequena grande verdade. É preciso viver muito e pensar muito para chegar a tão pouco. Ou seja, que é possível aprender, mesmo que venha com as feridas mais cruéis. Sempre é possível recomeçar. Aviso aos navegantes para evitar os obstáculos desse ano: lembremos que, como prova Rhodes, sempre existe futuro. Nunca seremos tão jovens como hoje e a vida se conquista dia a dia.
Rosa Montero

Pátria não é pizza


Pátria é a comunhão de esperanças, de sonhos comuns e a busca de um ideal; é a solidariedade sentimental de um povo, e não a confabulação de politiqueiros que medram a sua sombra
José Ingenieros

Misterioso 2016 para os países latino-americanos

Se a vida pública fosse vista como um filme ou um romance, o ano que começa está cheio de suspense para a América Latina. 2016 esclarecerá incógnitas de primeira magnitude. É como se o tempo, acelerado, estivesse prestes a desatar vários nós.
No Brasil, a moeda continua no ar. Enquanto os juízes investigam a corrupção generalizada na Petrobras, o Congresso decidirá se manda aos tribunais 40 legisladores envolvidos no escândalo. Entre eles estão os presidentes de ambas as câmaras. A própria Dilma Rousseff, cuja popularidade permanece na casa de um dígito, enfrenta um processo de impeachment por adulterar as contas públicas. A possibilidade de destituição é muito nebulosa. Mas a hipótese de que renuncie e entregue o Governo ao vice, Michel Temer, permanece aberta. O PT vê no funcionamento institucional uma confabulação golpista. A legitimidade está em discussão. Esse drama se desenrola na aridez de uma economia que encolheu 3,5% em 2015. E pode se retrair mais 2% em 2016. Dilma tentou a receita fiscalista de Joaquim Levy. Fracassou. Agora se refugiou na heterodoxia de Nelson Barbosa, o outro acrobata do ano. Como qualquer sociedade tomada pela corrupção e pelo ajuste, a brasileira reconfigura seu sistema partidário. O PT procura, sob a degradada liderança de Lula, reinventar-se numa frente de esquerda para as eleições de 2018.

A Argentina fez uma experiência extravagante, cujos resultados serão vistos nos próximos meses. A metade do eleitorado concedeu o poder a Mauricio Macri. O presidente tem que consolidar a aliança Cambiemos, formada pelo seu partido, o PRO, a União Cívica Radical e a Coalizão Cívica. A aliança recebeu o presente de grego de governar também a província de Buenos Aires, que esteve nas mãos do peronismo por quase 30 anos. A transição é turbulenta: a fuga de três traficantes de droga de uma prisão voltou as atenções ao temível espetáculo das máfias entrincheiradas no aparato carcerário e policial. A ausência de alternância incubou um sistema de cumplicidades entre o crime e a política. A ruptura desse acordo, como ensina o México, não é pacífica.

Chavistas queimam bandeira dos opositores
A minoria no Congresso obriga Macri a decretar medidas de emergência para sanear a economia. Alfonso Prat-Gay, o ministro da Fazenda, fez a operação mais delicada: liberou a compra de dólares e estabilizou o valor dessa moeda. Agora o Governo deve fazer grandes ajustes: reduzir subsídios, impedir a disparada da inflação e conseguir que no último trimestre o nível de emprego cresça. Para se estabilizar, Macri necessita ganhar as eleições legislativas de 2017, principalmente em Buenos Aires. Tem uma vantagem: o peronismo fora do poder é um peixe fora d’água., Encurralada por processos judiciais, Cristina Kirchner tenta bloquear a nova administração. Mas deve arrastar os pragmáticos governadores do seu partido que, necessitados de recursos, se tornam dialogistas. É outra charada: quem será o novo líder peronista.

A questão argentina se agiganta na Venezuela: como se passa da hegemonia ao pluralismo. O populismo resiste a qualquer tipo de controle. O chavismo foi ferido nessa essência: reduzido a um terço na Assembleia Nacional, o regime de Nicolás Maduro virou uma caricatura. Torna-se mais autoritário. Impugna legisladores, apoiado por um Tribunal Supremo inundado de magistrados facciosos para se blindar contra a oposição parlamentar que planeja sua substituição constitucional. O substituto de Diosdado Cabello à frente da Assembleia, Henry Ramos Allup, acaba de pedir a renúncia de Maduro. Na contraluz desse conflito reaparece um ator que, para seu próprio bem, os latino-americanos tinham esquecido: o Exército. A questão da legitimidade na Venezuela é inquietante.

Rafael Correa e Evo Morales sobreviverão ao degelo bolivariano? Morales pretende permitir sua reeleição no referendo de fevereiro. E Correa, que jura não forçar sua continuidade no poder, deve abençoar um sucessor: no Equador há eleições presidenciais no início do próximo ano.

2016 é, para a Colômbia, também uma caixa de Pandora. O processo de paz com as FARC avança em meio a um ríspido debate nacional. Em 16 de dezembro foi concluída uma etapa delicada, o acordo sobre a reparação às vítimas e a justiça nessa transição. O fato de que as penas sejam de cinco a oito anos de reclusão não carcerária desencadeou duríssimas denúncias contra a impunidade. Falta determinar os custos da reinserção dos guerrilheiros e da reparação de todos aqueles que sofreram com a guerrilha.

O ponto de fuga do quadro é o referendo sobre o formato da paz. Álvaro Uribe já começou a campanha pelo “não”. Juan Manuel Santos tem um aliado gravitando: o papa Francisco, que no Natal rezou pelo processo colombiano. No dia 28 de janeiro o Papa definirá com o bispo Luis Castro a data de sua visita à Colômbia, neste ano.

O calendário é parte de um jogo de xadrez regional do qual participam Barack Obama e Raúl Castro. O encontro entre os dois líderes, em Havana, previsto para março, é outra manifestação da metamorfose regional.

Brutti tempi, Eccellenza, tempi brutti! (Tomasi di Lampedusa)

O ano passado, no Brasil, terá sido o que a monarquia britânica qualifica como annus horribilis, pela impressionante combinação de crises de todos os gêneros. Não há razões, infelizmente, para presumir que 2016 venha a ser diferente.

Lá fora, um ambiente de muitas incertezas econômicas, com possibilidade de eclosão de episódios terroristas e conflagrações regionais.

Aqui, desemprego elevado, inflação alta, juros pesados, baixo crescimento econômico, dificuldades para superar a criminosa crise fiscal, corrupção sistêmica, degradação da prática política, sem falar da inépcia do Estado ante epidemias e desastres ambientais.

Na base de tudo, o aviltamento dos incipientes valores nacionais, para o qual concorrem governantes que designam seus atos deletérios como “um mero caixa dois”, e uma população com baixo nível educacional, maltratada por um ensino de péssima qualidade e pela insensatez das greves de professores, cujas vítimas, afinal de contas, são os alunos.

Uma mudança de rumos para superar as crises exigirá muitos sacrifícios e capacidade política para resolver conflitos e contradições.

Todos que estudam a previdência social brasileira têm claríssima convicção quanto à sua insolvência, em virtude dos sucessivos e crescentes déficits e da mudança do perfil etário da população.

De igual forma, temos uma obsoleta legislação trabalhista, que produz um patético e monumental contencioso judicial e leva à informalidade a grande maioria dos trabalhadores.

Teria, entretanto, o governo condições para implementar reformas previdenciária e trabalhista, contrariando sua base de apoio político, especialmente sindicatos presos a dogmas ultrapassados e linhas auxiliares de partidos políticos, financiadas por dinheiro público e, pretensiosamente, denominadas “movimentos sociais”? Presumo que não.

Temos uma população que, majoritariamente, não sabe ler, nem escrever. Por isso mesmo, os jovens, especialmente os que vivem nas periferias urbanas, frequentemente se entregam às drogas, ao crime ou ao subemprego.

O baixo nível da educação brasileira repercute, também, na carência de mão-de-obra qualificada que possibilite ganhos de produtividade na economia.

Mas como tratar de uma reforma educacional se os interlocutores são justamente os responsáveis pelo deplorável quadro da educação brasileira? A perspectiva não é boa.

Os serviços públicos da saúde à segurança pública, daí passando à mobilidade urbana e à infraestrutura, são um torneio de iniquidades.

Seu enfrentamento, contudo, reclama repensar as funções do Estado, conferir concretude ao princípio da eficiência no serviço público, dar um freio no poder das corporações. Quem se habilita?

É verdade que a Operação Lava Jato representou um extraordinário marco na luta contra a corrupção no País, tanto quanto as ações do Poder Público contra as chamadas pedaladas fiscais. É necessário, entretanto, construir um marco institucional para prevenir novas ocorrências.

Não temos sequer um mínimo consenso sobre a reforma tributária. Reúnam dez tributaristas e terão onze modelos de reforma tributária.

Ainda acreditamos que carga tributária decorre de tributos. Levaremos muito tempo para entendê-la como variável decorrente do tamanho do gasto público.

Tampouco sabemos que a partilha de receitas públicas, no âmbito da Federação, presume um mínimo conhecimento sobre uma repartição, jamais debatida, dos encargos públicos.

Apreciamos muito as reformas tributárias abrangentes, quase sempre meras reproduções de modelos estrangeiros, sem nenhuma criatividade e alheias às nossas circunstâncias. Ainda não aprendemos que as tentativas de reformas abrangentes resultam, invariavelmente, em impasses.

É muito trabalhoso identificar os problemas relevantes, encontrar soluções e desenvolver uma estratégia de implementação.

É possível reverter essas tendências? Sim, mas pouco provável no curto prazo, salvo se houver uma drástica mudança de rumos no governo ou se o inesperado comparecer à assembleia dos fatos. 

MEC tenta comprovar que, no Brasil,m o passado é imprevisível

Em brilhante artigo publicado na edição de O Globo, 5 de janeiro, o historiador Marco Antônio Villa ataca, com toda a razão, o projeto do Ministério da Educação de colocar em consulta pública um projeto que apresenta como voltado para estabelecer as bases de uma revolução cultural do país. Tomara, digo eu, que a consulta pública não seja um simples disfarce. Pois, uma vez realizada, lançará por terra a tentativa de reescrever a história.

Reescrever ignorando espaços de tempo essenciais, como a Historia Antiga, incluindo a Renascença, por exemplo, acentua Villa, na qual se integram Leonardo Da Vinci e Miguel Ângelo. O impulso do MEC parece ser o de tornar o passado imprevisível.

Não poderá ter êxito tal iniciativa, seria um desastre cultural completo. Sobretudo porque implica num esforço negativo de implantar tal reforma cultural nos primeiros e segundos graus. Ainda bem que fracassará. Nas somente a iniciativa desqualifica os autores de uma proposição dessa ordem. E destaca nitidamente a sensibilidade e a capacidade dos que recorreram ao laboratório produtor de tal ideia.

Omitir a cultura da Grécia antiga é romper com a própria Filosofia que, no fundo, de uma forma ou de outra, está presente no pensamento humano. Romper com o Império Romano, além de agredir a história, representa uma ruptura com o próprio cristianismo, uma vez que ele teve origem com a tragédia da crucificação. Consequência da invasão de Roma de Tibério na Judeia, a qual produziu a existência de dois governadores nomeados pelo imperador: Pôncio Pilatos e Herodes Antipas. Pilatos era romano. Herodes era judeu, representando a parte da população que aderiu ao invasor. O episódio guarda em si alguma semelhança com o que sucedeu na França de 1940, quando surgiu o governo de Vichy. Mas esta é outra questão.

O fato é que a tentativa de apagar o passado, fonte permanente e eterna de se procurar entender o presente, é simplesmente imbecil. Como ignorar as obras de arte que povoam o trilhar dos séculos. Veneza não é só conhecida por seu carnaval, mas também como cenário de Otelo, de alguém chamado William Shakespeare. O mesmo pensamento se aplica a Verona, palco de Romeu e Julieta. Inúmeros exemplos culturais podem ser acrescentados no plano das artes, dos milhares de períodos históricos. Somente a partir de Jesus Cristo são 16 anos além de dois milênios. Que dizer da divisão do tempo que rege a humanidade entre antes e depois do calvário?

O episódio denunciado por Marco Antônio Villa é uma comprovação a mais da trajetória da incapacidade e mesmo – por que não dizer? – da burrice em sua essência maior. Pois a existência humana, em sua aventura, é uma viagem através dos séculos, tanto assim que em nossos deslocamentos procuramos sempre encontrar o passado que se eterniza cada vez mais. A cada ano, portanto, torna-se mais antigo e proporciona redescobertas.

Na era do relato, buscamos decifrar a figura inultrapassável de Jesus Cristo. Na era do registro, de acordo com McLuhan, o nazismo, que figura entre as maiores tragédias a que o universo já assistiu. O MEC parece desconhecer tudo isso, na tentativa de recriar uma contracultura. De não saber que do alto da história 40 séculos nos contemplam. Para os judeus, 57 séculos. Para nós cristãos, 20 séculos.

Mas – citando Noel Rosa – para que falar com quem não entende nada de coisa alguma? Villa salvou a cultura de um desastre? Esperemos que sim.

Negociações entre a guilhotina e o pescoço


Do palácio do Planalto, más notícias: entrou em terreno de areia movediça o projeto de reformas econômicas destinadas a superar a crise e retomar o desenvolvimento, com o combate ao desemprego e a alta de impostos e do custo de vida. Acirra-se o eterno conflito entre o capital e o trabalho, porque as empresas exigem crédito mais fácil, desoneração fiscal, contenção salarial, desburocratização e livre negociação entre patrões e empregados. Já as centrais sindicais querem imposto sobre grandes fortunas e heranças, correção de salários, manutenção de direitos trabalhistas e garantia de emprego.

O choque é evidente, a ponto de levar o governo a arrefecer o ímpeto reformista e reduzir reformas que na teoria poderiam conduzir a mudanças de vulto na situação econômica. Se a montanha vai gerar um rato, os gatos continuarão soltos e o país não sairá do sufoco.

Tome-se a reforma da Previdência Social. Os custos de uma necessária redução de despesas cairão sobre os ombros dos aposentados e seus benefícios, a começar pelo tempo de idade dos que adquirem o direito de parar de trabalhar. Mas continuando a valer as atuais regras do jogo, logo a Previdência Social explodirá as contas públicas e levará o país à falência. Os dois lados permanecem irredutíveis. Se as coisas ficarem como estão, o inevitável aumento de impostos alimentará a inflação, o desemprego e a estagnação econômica, mas se a conta for canalizada para os assalariados, mais cruel se tornará a retomada do crescimento.

Dividir o sacrifício entre empresários e trabalhadores pode dar certo na teoria, mas seria preciso coragem e vontade política dos dois lados, bem como imaginação por parte do governo, produtos em falta nas prateleiras da política econômica. A presidente Dilma gira em círculos, importando menos se dá ouvidos a Joaquim Levy, a Nelson Barbosa ou a nenhum. Ambos são faces da mesma moeda, se não aparecer uma liderança capaz de enquadrá-los. Madame poderia exercer esse papel, mas tanto o empresariado quanto as centrais sindicais desconfiam dela. Até o PT mostra-se dividido.

Quando se fala em reforma trabalhista, leia-se a redução de direitos sociais substituídos pela livre negociação entre patrões e empregados. Na realidade, o diálogo entre a guilhotina e o pescoço.

Carlos Chagas

Democratizar ou popularizar?

Numa de minhas peregrinações pela Índia, assisti a uma apresentação de música clássica que durou a noite inteira, no bairro Mylapore, em Madras, que parecia o labirinto de uma favela. Rodamos horas num emaranhado de ruelas, deixamos o táxi e caminhamos até o local do concerto. “Não queremos que qualquer um descubra este lugar!”, me disse o diretor do Instituto de Música Carnática da Índia.

Lá, a música é como a oração num templo; não se vende ingresso. Uma cultura elitista? A palavra não se aplica. É a cultura da preservação como conceito, que não se baseia no consumismo.

Aqui, hoje, a música clássica parece uma arte em extinção, fora do nosso dia a dia — mesmo nas elites. Quem, no mais alto meio social, político e cultural, aceita dizer que desconhece Picasso? Mas não se tem pudor em afirmar que não conhece e não entende Stravinsky, Debussy... o que dirá Claudio Santoro!

A obra de arte, em sua manifestação pura — das artes cênicas ao cinema —, não traz garantia de retorno fácil e imediato. É um bem da humanidade. Quem abraça essa vertente é um escolhido, um predestinado. A música-arte sofre ainda mais porque não representa uma commodity e não é um objeto a ser vendido, exibido numa galeria, coleção pessoal ou museu. É usufruída como o ar que se respira, o alimento da alma. Quem tem a chance deste deleite é bem aventurado.


Por isso, devemos democratizar a arte sem popularizá-la. Democratizar é torná-la acessível ao maior número possível. Já popularizá-la implica apor uma nova roupagem — usando qualquer método para torná-la mais palatável? Deturpando–a?

Num país que enfoca prioritariamente a cultura de massa e o resultado rápido e populista, tudo o que não traz esse retorno vai sendo rotulado de “elitista”, perdendo seu lugar como arte e educação. Nossa cultura é diversificada, tem de ser encarada como tal — e nivelar por baixo não acrescenta nada.

A música clássica continua viva, embora pareça submergir como um Titanic. Fervilha, em sua existência como música-museu e também música-invenção. Matéria efêmera, necessita do intérprete para chegar ao ouvinte, alguém que acredite que a música, para continuar a ser uma arte viva, precisa ser continuamente criada. O intérprete não pode se tornar apenas um representante vivo de compositores mortos.

Estou investindo num inusitado formato: o projeto Desmistificando a Música Contemporânea. Passo minha experiência única e pessoal por meio de palavra, música, imagem cênica e vídeo. Estou alcançando crianças e espectadores de diversas camadas sociais e lugares diversos da cidade. Quero provocar a curiosidade do espectador e ampliar sua experiência perceptiva e cognitiva. Stravinsky e Cage para quem nunca os ouviu — isso é delirantemente bom de fazer!

Precisamos de espetáculos destinados não só ao deleite do público em geral mas que provoquem, instiguem, lembrando os audaciosos artistas que fizeram a arte avançar; que tragam à luz fatos desconhecidos, despertando a curiosidade pela música contemporânea. Há que enriquecer a cadeia de produção artística, acreditando na capacidade de ousar nas novas gerações. É isso — ou é ficar eternamente preso no círculo vicioso da arte popularizada e unicamente voltada para o consumo imediato.

Jocy de Oliveira

Canibalização da pobreza

O Brasil em crise, e os nossos zilionários calados. Quando a vida aperta, os pobres gritam, e os ricos se calam, diz um ditado. Escrevi algumas vezes que a tradição brasileira de “políticas públicas” inspirava-se na “caridade”. Numa virtude teologal que, ao lado da fé e da esperança, faz parte de um quadro religioso. O resultado é uma sociedade na qual cada qual e todos sabem o seu lugar e tanto os ricos quanto os ideologicamente iluminados continuam falando dos pobres, mas garantindo suas famílias.
 
A caridade tem sido implacavelmente canibalizada pela política do dar para receber. O resultado é uma enorme sociedade pelo governo. Nosso surto petrolífero não resultou na filantropia de uma Fundação Rockefeller ou Ford, mas numa ponte amigável entre políticos e operadores organizados para locupletarem-se, debaixo da velha fachada de remediar uma desigualdade que os programas do governo perpetuam.

Para 2016, um desafio: definir o limite de um adjetivo

O problema de 2015 parece complexo. Mas não. O grande arcano do ano em que o Brasil parou é a figura jurídica adjetivada.

Nossa democracia se esbate, convulsamente, pelos limites possíveis do que um adjetivo confere a um substantivo, em termos de extensão legal, ética, comercial, etc.

Antes de entrar no direito: vamos aos tantos e tamanhos problemas do que é adjetivar algo. Vejamos o termo “amigo do presidente”. Temos um blog homônimo, a defender Lula.

Aí depara-se com aquele lance de que ser amigo do presidente Lula pode gerar sinônimo de possibilidades ilimitadas. Lembremos do cartaz que Lula mandara afixar na portaria do Palácio do Planalto, dando acesso irrestrito a seu “amigo”, ora preso pela Lava Jato. “O sr. José Carlos Bumlai deverá ter prioridade de atendimento na portaria Principal do Palácio do Planalto, devendo ser encaminhado ao local de destino, após prévio contato telefônico, em qualquer tempo e qualquer circunstância”.

Que problemão complexo! Quais os limites de ser amigo de presidente? O Brasil ainda não respondeu.

Outro problema de adjetivação: delação premiada.

A lei 8.072 de 1990, é uma das varias leis que prevêem o dispositivo da delação premiada. Em seu artigo 8º, parágrafo único prevê que “o participante e o associado que denunciar à autoridade o bando ou quadrilha, possibilitando o seu desmantelamento, terá pena reduzida de um a dois terços”.

E se o delator premiado mentiu em uma dessas delações, ou omitiu fatos, que mais a frente trouxe? Como confiar nele?

Que problemão complexo! Quais os limites da delação premiada meia-confecção, feita de meias-verdades? O Brasil ainda não respondeu.

Vejamos outra coisa: outras duas figuras jurídicas adjetivadas, o chamado “crime continuado” e o “foro privilegiado”.

Vejamos: para solicitar a prisão do senador Delcídio Amaral ao STF, a Procuradoria-Geral da República argumentou que havia uma ação criminosa continuada do senador no sentido de obstruir as investigações da Lava Jato.

Mas o artigo 53 da Constituição, por exemplo, prevê que um parlamentar só pode ser preso se for pego em flagrante cometendo crime inafiançável – ou seja, para o qual não está prevista a possibilidade de pagamento de fiança para obter a liberdade.

Que problemão complexo! Quais os limites do “crime continuado” e do “foro privilegiado”? O Brasil ainda não respondeu.

Agora a meu ver o problemão maior, e que também leva adjetivo: o mandado de busca coletivo.

As autoridades que brilhantemente prendem ladrões na Lava Jato têm defendido o mandado de busca coletivo.

Digamos: um só serve para debulhar todas as propriedades do banqueiro André Esteves, por exemplo, preso na Lava Jato.

Vejamos: em 2014 fuzileiros navais fizeram buscas em residências cariocas em busca de drogas. A Justiça expediu mandados de busca e apreensão para fuzileiros vasculharem residências no Complexo da Maré, um conjunto de bairros populares do Rio de Janeiro.

Vejam um extrato que retirei da mídia:
“…fuzileiros navais já têm um mapeamento completo da Maré, incluindo as facções criminosas que atuam na região. Segundo ela, as tropas das Forças Armadas que vão atuar na ocupação das 15 comunidades do Complexo da Maré devem contar com o respaldo de mandados de busca e apreensão coletivos para permitir a localização de drogas e armas durante o cerco, previsto para ser colocado em prática no início de abril. A possível expedição pela Justiça Militar dos mandados coletivos, explicou a procuradora, deve-se à dificuldade de localizar endereços em meio ao aglomerado de casas erguidas em becos, sem numeração definida….”
Que problemão complexo! Quais os limites do mandado de busca coletivo? O Brasil ainda não respondeu.
Claudio Tognolli

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

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Sua excelência, a versão

Os fatos são os fatos, ou os “hechos son los hechos”, como costumam afirmar os espanhóis. Mas no governo Dilma Rousseff não é bem assim. Aliás, é inteiramente ao contrário. Os fatos não importam e sim a versão, galgada à condição de “sua excelência” pela estratégia do lulopetismo de não largar o osso, de se manter no poder a qualquer custo. Mesmo à custa da verdade.

Mal iniciamos o ano e tivemos duas pérolas de puro exercício de retórica, de contorcionismo mental: o artigo lavrado pela douta presidente, publicado em jornal Folha de S. Paulo, e a entrevista surreal do seu ministro da Casa Civil, Jaques Wagner.

Se fossem produto apenas da alienação da realidade, já seria preocupante. Afinal, estamos falando da primeira mandatária do país e do seu principal operador político, o homem escalado por Lula para tirar o governo da sinuca de bico em que se meteu.

Mas é algo muito mais grave. É um estratagema no qual Dilma e sua equipe propositadamente distorcem a realidade, mudam a versão dos fatos conforme o tempo vai passando, como se este apagasse tudo, inclusive a memória de um povo.

Não inventaram a roda, claro. Lula já usou deste expediente na época do mensalão. Primeiro foi à TV para se dizer indignado, traído por alguns companheiros. Depois reduziu o episódio a uma questão de Caixa 2, a “recursos não contabilizados”, para usar uma expressão do então tesoureiro do PT, Delúbio Soares. Quando se sentiu fortalecido, alardeou que tudo não passou de uma conspiração das elites e da mídia golpista.

Incrível a semelhança com os dias atuais.

Em seu artigo a presidente foi pela mesma linha, ao responsabilizar a oposição pela crise política que nasceu, cresceu e se realimenta no próprio Palácio do Planalto. A mesma ladainha foi recitada por seu Chefe da Casa Civil: “... O erro para mim é muito mais da oposição, que fez uma agenda do tapetão”.

De forma homeopática, o governo vem alterando seu discurso no sentido de torná-lo mais verossímil aos brasileiros. Afinal de contas, alguma satisfação há que ser dada para tanto desemprego, tanta queda do PIB e inflação. Isso sem falar da mega corrupção na Petrobrás.

Aquela versão da carochinha da campanha eleitoral, quando a candidata vendeu terreno na lua enquanto praticamente quebrava o país, não se sustentou uma semana após a apuração das urnas. A presidente, de forma envergonhada, teve de admitir a existência da crise econômica. Mas fez de conta que nada tinha a ver com isso, atribuindo tudo aos EUA, à União Europeia e a China.

Não colou. A água bateu no pescoço. Os feiticeiros palacianos inventaram então uma nova versão, a mais recente. Por meio de platitudes e generalidades, Dilma reconheceu genericamente que houve erros e acertos em seu governo. Quais? Mistério...

De fato, é difícil decifrar a linguagem hermética do ministro da Casa Civil, quando se vê na contingência de abordar tema tão espinhoso: “a impopularidade de Dilma é consequência de que a gente teve que consertar medidas tomadas em 2013 e 2014, que tiveram seu lado positivo e, como tudo na vida, também consequências negativas”.

Em matéria de eufemismo, Jaques Wagner superou sua superiora. Se Dilma contornava o vocabulário chamando corrupção de malfeitos, seu operador inovou ao chamar de notícia “não boa” a inflação, os juros altos. Impressionante a ginástica mental para reconhecer que a “foto do final do ano não é boa”.

E tudo isto para empurrar a responsabilidade pela crise nas costas de Guido Mantega, ministro da Fazenda em 2013 e 2014, e do mais recente “renegado”, o ex-ministro Joaquim Levy.

Lula, Dilma e companhia apostam na premissa de que política é a arte do embuste. Insistem na prática quotidiana do engodo. Até quando?

O presente que o PT me deu

O ano mal começou e lá vem a turma medonha de novo. É Shahin pra cá, Dirceu pra lá. É rolo com Andrade Gutierres, denúncias envolvendo até Aécio e Randolfe. Sérgio Moro ainda nem voltou de férias. Imagina quando reassumir o seu “birô” em Curitiba. Já no primeiro dia útil de 2016, foi pau pra todo lado. Continuou hoje e vai ser assim até que as operações Lava-Jato, Zelotes e Acrônimo revelem seus chefes, que serão provavelmente os mesmos.

A virada do ano não me prometeu nada. Parece um detalhe irrisório, mas não é. Não há promessas, não há esperanças, não existem indicadores que apontem o ano atual como algo que não seja trágico para o país. Pela primeira vez, não há luz. Há somente túnel, escuro e assustador. Após mais de 50 anos, brota a sensação de que o que está por vir será pior do que o que já veio.

Mas este não é o presente que o PT me deu. Foi algo bem pior.

Ter esperanças não é algo que me agrade. Talvez porque derive de “esperar” e eu não gosto de esperar. O PT não teria, contudo, o poder de me fazer perder as esperanças num país melhor. Eles mostraram que são capazes de piorar o Brasil, mas também já confirmaram que não são capazes de melhorá-lo. Por silogismo imediato, para o Brasil melhorar, temos que afastar o petismo do governo do país.

Mantida a fé na turma de Moro, do MP, da Polícia Federal e na crença de que tudo melhorará com o apeamento dos petistas, ainda assim me mantenho em desconforto. Descobri, com o passar dos anos mais recentes, que sou alguém um tanto diferente do que fui. Sei que sou um cara feliz, porque tenho saúde e minha família idem. Só o simples fato de valorizar este aspecto, já me sugere que posso não ter melhorado, mas também não piorei no que mais importa, que é a valorização e preservação da família. Sinto-me, entretanto, mais amargo, sisudo, sério e menos bem-humorado.

De vez em quando, me surpreendo ao me revelar com raiva de fatos, pessoas e fenômenos que, por não ter tido com eles convívio tão intenso no passado, não me alteravam tanto o ser, o agir e o pensar. Este foi o grande e nefasto presente que estes anos de PT me deram: Meu bom-humor e a minha tolerância estão em níveis mínimos, talvez derradeiros, tão comprometidos que estão que suspeito tenham me transformado para todo o sempre. Não gosto nada disso.

Depois de tantos anos abrindo jornais e me chocando com mentiras, roubalheiras, atos sequencias e repetidos de corrupção, depois de mais de uma década tendo de engolir falcatruas enormes em telejornais, rádios, sites e revistas, sou hoje menos brincalhão, mais estressado, menos gentil e mais carrancudo. Eu não era assim antes de Lula e de Dilma. Eles me pioraram e me encheram de rugas de expressão que não são fruto apenas do passar dos anos. Eu não gosto deles por vários motivos e incontáveis razões. Não é apenas porque nos tornamos ideologicamente incompatíveis. Não gosto deles porque são também mentirosos, coniventes com a roubalheira e com a erosão das almas de milhões de pessoas. Eu tenho asco de Dilma e de Lula porque roubaram parte considerável das minhas boas energias. Porque continuam drenando todo dia um bocado de minhas alegrias e do meu respeito pelo povo do meu país.

Lula e Dilma, por insistirem num projeto de poder inepto e vagabundo, me deixaram mais triste do que eu merecia.

Que presente que o PT me deu!

Deus há de me conservar para que eu possa, com multa e juros, retribuir.

Calendário

Mês 1. Ano 16, dos 2000. Bagagem nova para vida vivida de um dia atrás do outro como se corriqueiro isso não fosse. Mas é. E lá vem mais um carregado do mesmo. Algumas alegrias, euforias entremeadas de... ansiedades, esperanças, palpites acertados, desacertos arrumados. Ou desarrumados.

Palavras. Tantas gastas para dizer o mesmo a quantos que nem querem ouvir. Mas falar falando, escrevendo, fotografando... tantos e todos querem, em qualquer linguagem.


Comunicação de massa maciça. Online. Com som para cegos. Com letras para surdos. Em braile. O mundo fala de tudo. Mas em monólogos?

Comunicação de massa. Novidade única de tempos das distâncias curtas, comportamentos sem fronteiras – até nas fechadas, tudo é quase idêntico no pensar, no vestir, no falar igual em línguas diferentes.

Tudo amplo. Também restrito. Fora do padrão é rejeitado. Sair da caixinha é perigoso. Benção aos iguais. Maldição na diferença. Acesso a tudo. Ainda negado a muitos.

A caixinha – saiba - é caixão de defuntos vivos. Replicantes repetentes repetitivos. Tantos e em modo crescente.

Mas o ano é novo. Quem sabe renovado. Em tudo. Principalmente nas tantas certezas certas. Também nas incertas. Quem sabe dá bom no deu ruim.

Quem sabe escapamos de crises das crises. Quem sabe sorrimos mais e mordemos menos.

Quem sabe descobrimos saber pouco – de tudo. Quem sabe aprendemos mais a ser mais com menos.

Quem sabe escapamos do modelão, da exposição maciça e, na massa, desamarramos cabeça, tronco e membros. Quem sabe ampliamos, desamassamos. Desarmamos. Amamos. De novo. Mais uma vez.

Quem sabe aprumamos. Rearrumamos.

O calendário é novo. Viver é coisa tão antiga. A História é velha. Quem sabe ensina. Quem sabe aprendemos. Não repetimos. Nem rejeitamos – o novo, principalmente.

Quem sabe? Vai saber...

O Brasil onde Dilma se esconde é uma Alemanha com praia e carnaval

Que Pasárgada, que nada. O Brasil descrito por Dilma Rousseff no artigo que encomendou a algum subordinado, assinou e publicou na Folha de 1° de janeiro é uma espécie de Alemanha com praias sempre ensolaradas e carnaval ─ além de pronto para revidar aqueles 7 a 1 da Copa de 2014. A coisa estaria perto da perfeição se não fossem as apostas da oposição no quanto pior, melhor, o pessimismo dos pessimildos e a perseguição movida ao PT pela imprensa direitista.

No Brasil que só ela sabe onde fica, o crescimento econômico já começou, a inflação vai cair antes da Páscoa, os desempregados cabem numa van, a corrupção foi erradicada pelo PT, as reservas em dólares são de matar de inveja o governo chinês e a gastança acabou, fora o resto. O trem bala e a transposição das águas do São Francisco vão esperar mais um pouco, verdade. Mas a culpa é da herança maldita de FHC e das vinganças de Eduardo Cunha.

Em vez de confinar numa singela página de jornal tantas notícias extraordinariamente estimulantes, por que a presidente não tratou de divulgá-las aos berros num pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão? Porque a farsa acabou. O rebanho tapeado por 13 anos perdeu a paciência. Assim que aparecesse na telinha aquela carranca que funde presunção e ignorância, um gigantesco panelaço avisaria que o Brasil real está farto de vigarices e vigaristas.

Nem as vírgulas do artigo assinado pelo neurônio solitário são confiáveis. Ou aparecem no lugar errado ou somem de onde deveriam estar. Tudo somado, o texto só serviu para antecipar o que se deve esperar do governo enquanto Dilma permanecer no cargo que vem desonrando há cinco anos: muita mentira, muita incompetência ─ e nenhum sinal de vida inteligente. Além de muita saúva, pouca saúde ─ e nenhum vestígio de vergonha.

Um Brasil em desmanche

2015 foi o ano em que o Brasil Velho teve finalmente um duelo para valer com o século XXI. Todos estão cansados de saber que país é este. É o Brasil que desde a sua independência, 200 anos atrás, está aí para proteger, servir e enriquecer a minoria dos que dão ordens nos governos, os seus amigos e os que pagam para estar de bem com os que mandam. É o Brasil da corrupção como método de governo e objetivo da vida pública ─ um condomínio gerido por gangues políticas cujo único propósito é controlar a máquina do Estado. Não há ideias nesse Brasil; só há interesses. O primeiro mandamento do político “competente”, ou “do ramo”, é aplicar as melhores técnicas para enganar um eleitorado em grande parte ignorante, pobre, indiferente a seus direitos e desinteressado de questões públicas. Aqui, os donos das decisões tratam como um absurdo o princípio pelo qual a lei deve ser igual para todos. Estão convencidos de que o fato de ganhar eleições, em geral através da prática de estelionato aberto em suas campanhas milionárias, lhes dá o direito de fazer o que bem entendem com o aparelho da administração pública. O Brasil Velho, em suma, é o Brasil em guerra permanente com o progresso, a mudança e o bem-estar da maioria.

Em 2015, o Brasil Velho perdeu. Não vai desaparecer assim de uma hora para outra, é claro, porque nada que resiste há dois séculos desaparece de uma hora para outra. Mas as coisas não serão mais como têm sido até hoje na vida pública brasileira; o futuro do Brasil Velho acabou. Ele é representado hoje, de corpo, alma e mente, pelo ex-presidente Lula, pelo Partido dos Trabalhadores e por essa trágica Dilma Rousseff com seu governo em decomposição ─ junto com os amigos, os magnatas que se tornaram companheiros e as quadrilhas que vivem de assaltar o Erário. Lula e todos os intendentes que estão em seu redor não perceberam o temporal que vinha se formando havia anos e desabou sobre eles em 2015 ─ escândalo após escândalo, fracasso após fracasso, flagrante após flagrante de mentira, fraude e incompetência para governar. Acharam que seu problema estava nos outros: na “mídia” que publica notícias de corrupção, nos “pessimistas” que registram o naufrágio econômico do país, na “oposição”, na Justiça que investiga a roubalheira, nos que simplesmente discordam. Com sua casa caindo, jamais pensaram que pudessem ter errado em alguma coisa.

Imaginaram-se ameaçados por um “golpe”. Convenceram a si próprios de que as maiores manifestações de rua que o Brasil já viveu eram um capricho das “elites”, coisa de “terraço gourmet”, e outras assombrosas bobagens do mesmo tipo. Comandaram, diretamente ou através da sua usina de propaganda nos meios de comunicação, uma campanha a favor da corrupção como jamais se viu por aqui e provavelmente em nenhum outro lugar do planeta. Trataram como vítimas empreiteiros de obras que são réus confessos no pagamento de propinas, e festejaram como heróis (“guerreiros do povo brasileiro”) criminosos condenados por corrupção. Continuaram acreditando, com fé religiosa, no Brasil dos privilégios, onde a polícia não prende e a Justiça não condena. Meteram-se numa operação desesperada para salvar o couro de um presidente da Câmara dos Deputados que 80% dos brasileiros querem ver deposto e cassado; tudo o que conseguiram, no fim das contas, foi o exato oposto do que pretendiam ─ um processo de impeachment no lombo da presidente da República. Mais que um crime, o Brasil Velho cometeu um erro. Não entendeu até agora qual foi o confronto real de 2015: o que pôs uma porção decisiva da sociedade brasileira contra as forças aqui descritas ─ o coletivo que se chama “oligarquia” e que foi absorvido, habitado e comandado por Lula e pelo PT em seus treze anos no governo. Esse lado não podia continuar ganhando sempre.


É o que mostram os fatos. Muitos dos seus chefes, que até outro dia estavam aí dando ordens, nomeando gente para empregos públicos e armando negócios de bilhões com dinheiro público, vivem hoje apavorados com a possibilidade real de ir para a cadeia a bordo de um camburão da Polícia Federal. Há um senador preso, sem data para sair ─ e ele é simplesmente o líder do governo no Senado. Estão no xadrez ou acabaram de sair o presidente da empreiteira de obras públicas número 1 do Brasil, o presidente da empreiteira número 2 e um banqueiro descrito até outro dia como estrela em ascensão irresistível na alta finança brasileira ─ especialmente aquela que vive em concubinato com o governo. Estão na mesma situação ex-deputados, ex-diretores da Petrobras, um ex-ministro de Estado, um vi­ce-almirante da armada, o último tesoureiro do PT, executivos “top de linha” e por aí vamos. Não existe nessa turma toda um único preto ou pobre ─ é só elite, e dentro dela há uma alarmante coleção de cidadãos que faz anos convivem em intimidade com o ex-presidente Lula, sua família e sua vizinhança. Só na Operação Lava Jato, a maior ofensiva contra a corrupção jamais feita neste país, mais de 100 suspeitos já foram presos, mais de trinta foram condenados, alguns várias vezes, num total de penas que somam quase 700 anos de prisão, e mais de vinte continuam na cadeia. Outros esperam suas sentenças usando o equipamento-símbolo destes dias de desmanche do Brasil Velho ─ a tornozeleira eletrônica que os impede de fugir.

Quem seria capaz de imaginar que coisas assim iriam acontecer um dia? Também não dava para prever que o maior líder político do país acabaria perdendo a sua situação de imunidade perante a lei, como ocorreu com doutores e excelências que hoje fazem parte da população carcerária nacional. Lula, neste momento, é ao mesmo tempo candidato a presidente e candidato ao presídio. Não está sendo ameaçado por suas ações políticas; seu problema, caso a Justiça decida que há indícios bem fundamentados de sua participação em algum delito, é que terá de se submeter a um processo penal, como todos os demais cidadãos brasileiros. É uma novidade, igualmente, o fato de não bastar mais mandar no governo, nem utilizar sua máquina e seus cofres, para se safar da vida real. A ocupante da cadeira teoricamente mais poderosa da República está hoje reduzida a um pano de estopa como pessoa pública, arrastada daqui para lá por deputados, senadores e todo um mundo de aproveitadores que têm o poder real de decidir se ela fica no cargo ou é deposta. Dilma conseguiu decair ao nível de desmoralização de um Fernando Collor. A maior realização do seu governo será escapar de um processo de impeachment humilhante, e que já começa muito mal.

O regime velho, ao afundar pelos quatro lados em 2015, deixou à vista de todos o embuste sem limites que foi a sua marca principal durante a fase Lula-Dilma-PT. Há, com certeza, discordâncias sérias quanto a essa observação. Para muitos, a corrupção frenética dos últimos treze anos é imbatível na disputa pelo título de pior pecado da era lulista: quando se roubou mais do Tesouro Nacional? Outros tantos acham que o desastre número 1 é a sua incompetência sobrenatural para governar o país no dia a dia das coisas práticas: o que dizer de um governo que chegou ao fim do ano ameaçado de não ter dinheiro para pagar suas contas de luz? Todas essas escolhas são corretas, mas talvez nada tenha mostrado tão bem a alma do Brasil atrasado, decadente e maligno que o PT liderou de 2003 para cá quanto a escolha da trapaça, pura e direta, como lei suprema da ação política e administrativa do governo. O Brasil de hoje é o Brasil do trem-bala, da transposição das águas do São Francisco e da entrada na Opep, entre outras miragens. Aqui o cidadão chega à classe média ganhando um salário mínimo por mês. Os governos que juraram “defender a Petrobras” provaram ser os seus piores inimigos; a empresa está em ruínas, quem investiu em suas ações tem hoje um mico miserável, e só por conta do petrolão, segundo a última perícia criminal, ela foi roubada em mais de 40 bilhões de reais. O “momento mágico” da economia que Lula garantiu ter criado é o que se vê aí: 9 milhões de desempregados, inflação de 10%, juros de agiotagem, o caixa do governo na porta da vara de falências. É um manifesto contra quem não é rico.


A mãe de todas as trapaças é o “resgate de 40 milhões” de brasileiros da pobreza, ou sabe-se lá quantos. Dezenas de países apresentam resultados melhores que os do Brasil no combate à miséria ─ com a vantagem de não terem caído, como aqui, numa recessão de 3,5% em 2015, e talvez outro tanto em 2016, o que tira dos pobres tudo aquilo que os governos Lula-Dilma disseram ter dado. Que progresso social é esse que faz com que as coisas andem para trás? O fato é que não transferiram “renda” nenhuma ─ apenas distribuíram dinheiro que não tinham e tomaram emprestado a juros extorsivos. O resultado é essa dívida pública monstro que hoje caminha para os 3 trilhões de reais e rende bilhões para a elite da elite, os “rentistas” com sobra no bolso para emprestar ao governo. Foram remunerados com cerca de 500 bilhões de reais em juros pagos pelo Tesouro em 2015 ─ mais que o total de gastos com o Bolsa Família desde a sua criação. A aritmética é essa. Ela indica que Lula e Dilma fazem há treze anos seguidos o mais agressivo governo em favor da minoria já visto neste país; disfarçam isso com falatório de palanque, mas seu grande programa, na verdade, foi o “Concentra Brasil”.

Ambos tentam tudo, agora, para salvar o que podem da sua opção por 200 anos de atraso. Mas estão tocando a Marcha Fúnebre. Não haverá uma nova Dilma. E não haverá outro Lula depois desse.

'As instituições estão funcionando'

A frase vem sendo pronunciada por muita boca bem falante e mal pensante: "Está tudo sob controle, a democracia consolidada e as instituições funcionando". Sim, sim, claro. E eu quero saber onde caiu a minha chupeta que está na hora de nanar.

Não somos crianças. Falem sério! Está tudo sob controle de quem? Como ousam chamar democracia o ambiente onde agem essas pessoas que se acumpliciaram para dirigir a República? A única ideia correta na citação acima é a que se refere às instituições. Elas estão funcionando, mesmo. O Brasil que temos, vemos e padecemos é produto legítimo e acabado do seu funcionamento. Acionadas, produzem isso aí. Sem tirar nem pôr.

Eis o motivo pelo qual os figurões do governo frequentemente sacam de sua sacola de argumentos a afirmação de que as coisas sempre foram assim. De fato, embora não no grau superlativo alcançado nos últimos 13 anos, o modelo institucional republicano tornou crônicos os mesmos males. Em palestras, refiro-me a isso mediante uma analogia. Instituições, digo, são como sementes. Uma vez plantadas, germinam, ou seja, funcionam e produzem conforme determinado pela natureza da semente. É o nosso caso. À medida que a urbanização nos tornou sociedade de massa e o Estado empalmou o poder (vejam só!) de definir os valores, a verdade e o bem, decaiu o padrão cultural e moral médio, inclusive, claro, dos membros dos poderes de Estado. Eu assisti isso. Mas a sedução do modelo aos piores vícios, a destreza com que gera crises e a inaptidão para resolvê-las é exatamente a mesma ao longo do período republicano.

A ordem juspolítica engasgada pretende, agora, obrigar-nos a arrastar por mais três anos esse peso governamental insepulto como se fosse honorabilíssimo dever cívico. Graças a ele, o ministro Toffoli proclama que o STF, cada vez mais, se afirma como Poder Moderador. Credo, ministro! O topo do Poder Judiciário, sem voto e sem legitimidade, pretende usurpar vaga no topo do Poder Político? Bem, foi isso que se viu na deliberação sobre do rito do impeachment.

Precisamos, sim, de um Poder Moderador, que não se legitima com mero querer de um grupo bem suspeito de pessoas, mas com a separação consolidada na quase totalidade das democracias estáveis: o chefe de Estado (Poder Moderador) é uma pessoa e o chefe de governo é outra (que cai por mera perda de confiança). O impeachment, lembrava Brossard, nasceu na Inglaterra medieval e sumiu, substituído pelo voto de desconfiança dado pelo parlamento. Mas nós gostamos, mesmo, é de pagar caro por esse sistema travado e encrenqueiro que aí está.

Comida de rato

Os ratos adoram a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana
Clarice Lispector sobre Brasília

A crise, que era da porta para fora, agora é porta adentro

Todos sabem que a era Lula melhorou a vida das pessoas da porta para dentro. O consumo aumentou, milhões de brasileiros ascenderam de classe social, o desemprego caiu para patamares mínimos, e a inflação estava razoavelmente sob controle.

No entanto, em 2013, e às portas da reversão do cenário econômico, o Brasil foi às ruas por conta de episódios em São Paulo com o transporte público. Na sequência, as manifestações foram turbinadas por uma ampla e generalizada insatisfação com a corrupção, a baixa qualidade da educação, a ineficiência e a precariedade dos serviços públicos, entre outros temas.

Em junho de 2013 ainda não estavam presentes os dramáticos índices de recessão, inflação e desemprego, ora existentes. Mesmo assim, os brasileiros foram às ruas com um vigor e uma intensidade inusitados, com base em temas “porta para fora” na vida do cidadão.

Agora, vivemos uma crise que afeta tanto a vida fora das casas quanto a vida dentro delas. Continuamos a ter serviços públicos precários e controlados pelo perverso espírito corporativista. Temos governos estaduais quebrados e o país em crise fiscal.

A crise arrombou portas e janelas e está sendo percebida como um amargo adeus às conquistas da era Lula. Vejamos os índices: a inflação acumulada entre janeiro e outubro de 2015 é a maior desde 2003; o desemprego é o maior desde o início do século XXI; milhões de brasileiros podem sair da classe média e voltar para as classes D e E.

Muitos que estão sendo demitidos agora ainda vão ter alguns meses de seguro-desemprego pela frente. Depois, nada. Nem seguro, nem emprego. A inflação dos alimentos nos últimos 12 meses foi superior a 60% e continuará a castigar o consumidor. A combinação de recessão e inflação é, de longe, a mais perversa de todas para as classes populares.

Para o búlgaro Elias Cannetti, Prêmio Nobel de Literatura, a inflação causa um efeito perturbador tão grave quanto a guerra. Ele viveu o horror, ainda menino, da crise que devastou a Alemanha na década de 20. “Foi na época em que a inflação atingiu o auge; o salto diário que, afinal, chegou ao bilhão tinha consequências extremas para todos”, recordaria, anos mais tarde.

Entre 1974 e 1994, os brasileiros também viveram a amarga experiência da destruição do valor da moeda provocada pela superinflação. Foram 20 anos de guerra para que a consciência da sociedade derrotasse o pior inimigo que o país enfrentou em sua história.

Hoje percebemos, estarrecidos, que a lição não foi aprendida. Desde a eleição, o Brasil flerta com o perigo. Jogou no lixo a Lei de Responsabilidade Fiscal, mostra-se incapaz de cortar R$ 70 bilhões em um Orçamento de R$ 1,4 trilhão, perde aos poucos o controle sobre o câmbio e demora a atuar decisivamente para restabelecer a confiança na economia.

Fica claro que as condições que estão sendo criadas agora podem resultar em um 2016 de grande complexidade, já que os efeitos da conjuntura adversa ainda não são totalmente sentidos na sociedade e a saída da crise ainda não está sendo desenhada de forma clara.

A combinação das crises dentro e fora das casas prenuncia risco de convulsões sociais tão graves quanto as que ocorreram em 2013. Os ingredientes já estão na panela, e o fogo está alto. Tudo pode acontecer se não houver uma ação decisiva para que se estabilizem as expectativas com iniciativas concretas de ajuste fiscal e crescimento econômico.

Foi apenas um sonho...

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O ano de 2016 começou muito bem, após o impeachment da presidente Dilma. O novo presidente Michel Temer fechou um acordo com o PSDB, e Arminio Fraga assumiu a Fazenda, com Gustavo Franco no comando do Banco Central. Na mesma linha da Argentina de Macri, o Brasil começou a desfazer algumas das imensas trapalhadas socialistas, colocando o país novamente na rota do crescimento.

Bastou o choque de credibilidade perante os investidores e empresários para que os indicadores começassem a melhorar. Empresas retiraram os projetos de investimento da gaveta, sacudiram a poeira e foram ao trabalho, apesar de o ambiente ainda ser muito hostil aos negócios no Brasil. Estavam apostando no futuro, nas mudanças anunciadas, na qualidade dos novos técnicos.

O Ibovespa, após perder mais de dois terços de valor real na era Dilma, recuperou-se com uma alta de 70% no ano. Eram os ativos nacionais se valorizando, permitindo maior captação de recursos para investimentos produtivos. A inflação regressou para o centro da meta, de 4,5% ao ano. A atividade econômica, que caíra quase 4% em 2015 e estava prevista para cair mais uns 3% em 2016, caso Dilma continuasse no poder, acabou zerada no ano, com o terreno pronto para um crescimento razoável já em 2017.

Longe do ideal liberal e agindo mais por necessidade do que convicção, como foi no Plano Real, a nova coalização de centro partiu para reformas importantes, como a previdenciária, e retomou o plano de privatizações. A mais importante foi, sem dúvida, a Petrobras, o que acabou com a farra do “petrolão” e salvou a empresa de uma iminente falência.

O resultado foi incrível, como tinha sido antes na Vale, na Embraer, na Telebras. Mais empregos foram gerados, mais impostos foram recolhidos, pois mais lucro havia sido produzido por sócios interessados na sobrevivência da empresa sem muletas estatais. Os trabalhadores eficientes foram recompensados, e os que viviam apenas encostados na era estatal foram demitidos. Meritocracia era o novo lema. O Brasil deixaria de ter a gasolina mais cara do mundo em poucos anos.

A Operação Lava-Jato seguiu seu curso, e houve uma grande festa nacional quando o ex-presidente Lula foi preso. Milhões de pessoas saíram pacificamente às ruas para celebrar, famílias lotavam as principais avenidas, e o “exército de Stédile” nada pôde fazer. Os militantes da CUT, da UNE e do MST, sem mortadela e sem tetas estatais para mamar, abandonaram o PT. O clima era de união, não de intolerância, como aquele fomentado pela esquerda radical.

A derrota do PT tinha reacendido a chama da esperança nos brasileiros. O governo tampão não era perfeito, estava longe do ideal, de algo realmente novo. Mas era infinitamente melhor do que o lulopetismo, o que não é difícil. Não havia aquele DNA totalitário, a incompetência somada à arrogância, o fator ideológico dominando cada decisão. O Mercosul finalmente expulsou a Venezuela por não atender à cláusula democrática, e o foco passou a ser em acordos bilaterais de livre comércio.

A entrada da Fox News Brasil mexeu com a imprensa, pois os liberais e conservadores tinham mais voz agora, e o viés de esquerda da grande mídia ficava mais evidente para o público, antes refém de uma hegemonia “progressista”. Chico Buarque, defensor da ditadura cubana e do PT, descobriu não ser uma unanimidade, e vários pensadores cantaram “Cálice” para o sambista, terminando com um “apesar de você, amanhã há de ser outro dia”. A festa era contagiante e bem-humorada, sem espaço para o típico rancor socialista.

Ia tudo muito bem, quando uma dor de cabeça bateu forte. Ressaca? Talvez, mas o consumo de álcool não fora tão grande assim. Levei automaticamente a mão à cabeça, contraindo os músculos faciais. E abri os olhos, dando de cara com a claridade. Era dia 1º, e horror dos horrores: Dilma ainda era a presidente do Brasil. O duro choque de realidade chegou a machucar, a doer.

A economia ainda estava nas mãos da turma inflacionista da Unicamp, e Nelson Barbosa era o ministro. A destruição do Brasil continuaria em alta velocidade. A segregação do povo em “nós contra eles” continuaria com força total. A hipocrisia dos artistas e “intelectuais” que pregam mais “tolerância” enquanto aplaudem as ditaduras venezuelana e cubana, que perseguem seus opositores, continuaria impune.

Pobre país, ainda tomado por essa gente inescrupulosa, incompetente e corrupta. Acordar do sonho foi o verdadeiro pesadelo. Caberá a nós, brasileiros decentes, lutar para transformar o sonho em realidade...

Rodrigo Constantino

A fascinação da reportagem

Gay Talese, um dos fundadores do New Journalism (novo jornalismo), uma maneira de descrever a realidade com o cuidado, o talento e a beleza literária de quem escreve um romance, é um crítico do jornalismo sem alma e sem graça. Seu desapontamento com a qualidade de certa mídia pode parecer radical e ultrapassada. Mas não é. Na verdade, Talese é um enamorado do jornalismo de qualidade. E a boa informação, independentemente da plataforma, reclama competência, rigor e paixão.

Segundo Talese, a crise do jornalismo está intimamente relacionada com o declínio da reportagem clássica. “Acho que o jornalismo, e não o Times, está sendo ameaçado pela internet”, disse Talese. “E o principal motivo é que a internet faz o trabalho de um jornalista parecer fácil. Quando você liga o laptop na sua cozinha, ou em qualquer lugar, tem a sensação de que está conectado com o mundo. Em Pequim, Barcelona ou Nova York... Todos estão olhando para uma tela de alguns centímetros. Pensam que são jornalistas, mas estão ali sentados, e não na rua. O mundo deles está dentro de uma sala, a cabeça está numa pequena tela, e esse é o seu universo. Quando querem saber algo, perguntam ao Google. Estão comprometidos apenas com as perguntas que fazem. Não se chocam acidentalmente com nada que estimule a pensar ou a imaginar. Às vezes, em nossa profissão, você não precisa fazer perguntas. Basta ir às ruas e olhar as pessoas. É aí que você descobre a vida como ela realmente é vivida”, observa Talese.

A crítica de Gay Talese é um diagnóstico certeiro da crise do jornalismo. Os jornais perdem leitores em todo o mundo. Multiplicam-se as tentativas de interpretação do fenômeno. Seminários, encontros e relatórios, no exterior e aqui, procuram incessantemente bodes expiatórios. Televisão e internet são, de longe, os principais vilões. Será?

Os jornais, equivocadamente, pensam que são meio de comunicação de massa. E não o são. Daí derivam erros fatais: a inútil imitação da televisão, a incapacidade de dialogar com a geração dos blogs e dos videogames e o alinhamento acrítico com os modismos politicamente corretos. Esqueceram que os diários de sucesso são aqueles que sabem que o seu público, independentemente da faixa etária, é constituído por uma elite numerosa, mas cada vez mais órfã de produtos de qualidade. Num momento de ênfase no didatismo e na prestação de serviços – estratégias úteis e necessárias –, defendo a urgente necessidade de complicar as pautas. O leitor que precisamos conquistar não quer o que pode conseguir na internet. Ele quer qualidade informativa: o texto elegante, a matéria aprofundada, a análise que o ajude, efetivamente, a tomar decisões. Quer também mais rigor e menos alinhamento com unanimidades ideológicas.

A fórmula de Talese demanda forte qualificação profissional: “A minha concepção de jornalismo sempre foi a mesma. É descobrir as histórias que valem a pena ser contadas. O que é fora dos padrões e, portanto, desconhecido. E apresentar essa história de uma forma que nenhum blogueiro faz. A notícia tem de ser escrita como ficção, algo para ser lido com prazer. Jornalistas têm de escrever tão bem quanto romancistas”. Eis um magnífico roteiro e um baita desafio para a conquista de novos leitores: garra, elegância, rigor, relevância.

A revalorização da reportagem e o revigoramento do jornalismo analítico devem estar entre as prioridades estratégicas. É preciso encantar o leitor com matérias que rompam com a monotonia do jornalismo declaratório. Menos Brasil oficial e mais vida. Menos aspas e mais apuração. Menos frivolidade e mais consistência.

Perdemos a capacidade de sonhar e a coragem de investir em pautas criativas. É hora de proceder às oportunas retificações de rumo. Há espaço, e muito, para o jornalismo de qualidade. Basta cuidar do conteúdo. E redescobrir uma verdade constantemente negligenciada: o bom jornalismo é sempre um trabalho de garimpagem.

A todos, feliz 2016!

Carlos Alberto Di Franco