sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Bolsonaro usará Lula para 'reanimar' o antipetismo
Suprema ironia: Dez meses depois da posse de um presidente da República que se elegeu enrolado na bandeira da Lava Jato, o Supremo Tribunal Federal impôs ao esforço anticorrupção um duro revés. Noutros tempos, Jair Bolsonaro subiria no caixote do Twitter para criticar a Suprema Corte. Hoje, o capitão celebra em silêncio a oportunidade de utilizar a saída de Lula da cadeia para reconquistar o pedaço do eleitorado antipetista que foge dele nas pesquisas.
Na expressão de um ministro, Bolsonaro "quer transformar o 'Lula livre' numa espécie de 'risco Lula' ". A ideia é recriar aos poucos a atmosfera de polarização que marcou o segundo turno da disputa presidencial de 2018. Um ambiente em que o voto dos eleitores de Bolsonaro foi vitaminado pelos eleitores que não desejavam votar de jeito nenhum no adversário dele, o petista Fernando Haddad.
O antipetismo não nasceu em 2018. Mas parte dele se refugiava em candidaturas ditas de centro, sobretudo do PSDB. Bolsonaro consolidou-se como uma opção à direita. À medida que o governo foi avançando, o novo presidente perdeu densidade nesse núcleo. O apoio à sua atuação caiu. Sua taxa de aprovação passou a girar na casa dos 30%.
Ao contrário do que insinuam as aparências, a paulada desferida pelo Supremo na Lava Jato interessava a Bousonaro. Ela veio nas pegadas de decisões do presidente que destoaram dos seus compromissos de campanha. Rebatizou o Coaf de UIF, Unidade de Inteligência Financeira, empurrando o órgão para os fundões do Banco Central.
O Coaf foi sedado dias depois de uma decisão inusitada do presidente do Supremo, Dias Toffoli. Aproveitando-se de um recurso do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), investigado no Rio de Janeiro por suspeita de peculato e lavagem de dinheiro, Toffoli suspendeu todos os processos judiciais do país municiados com informações detalhadas obtidas do Coaf sem autorização judicial. O despacho alterou uma rotina que vigorava no Coaf havia duas décadas.<
Está marcado para 21 de novembro, no plenário do Senado, o julgamento da liminar de Toffoli que favoreceu o Zero Um. Se a decisão for cassada pela maioria dos ministros do Supremo, a investigação que envolve o primogênito do presidente e o amigo Fabrício Queiroz terá de ser retomada. Mas se tudo der errado no futuro, o risco de cadeia será bem menor.
A mentira como instrumento de poder
Ao fim do conflito, um esforço internacional se concretizou na criação de uma estrutura que tentaria impedir que aquela tragédia voltasse a ocorrer. O projeto ganhou sede em Genebra, recursos e milhares de horas de reuniões. Mas a Liga das Nações fracassaria alguns anos depois.
Um outro fenômeno ainda mais revelador, porém, foi notado nos anos que se seguiram ao fim do conflito. Cientistas de diversas áreas, profundamente machucados pela perda de alguns ou de todos os seus filhos nas trincheiras, passaram a recorrer a médiuns para que pudessem entrar em contato com os mortos.
Desesperados, sem razão para viver ou acreditar, muitas daquelas mentes optaram por colocar a ciência de lado e simplesmente acreditar que poderiam falar com seus filhos.
A história comovente é contada por Jay Winter, em seu livro Sites of Memory, Sites of Mourning. Feridos em suas almas, alguns deles deixaram suas convicções científicas na busca incerta por uma solução para sua dor.
Diante de um mundo repleto de incertezas e do questionamento constante da suposta normalidade, não é de se estranhar que aqueles desconfortáveis com o aparente mal-estar saiam em busca de promessas, certezas e de garantias, ainda que fabricadas e mentirosas. E nada mais confortável do que ler apenas o que queremos acreditar. Sem contraditório, sem desconstrução.
Minada profundamente em seu orgulho, com um exército de desempregados, corrupção, 60 mil assassinatos e descobrindo que não existe um atalho para o desenvolvimento, uma parte da sociedade brasileira optou por apenas consumir o que possa confirmar as teses sobre as quais está construída. Infelizmente, muitas delas são racistas e autoritárias.
E um grupo no poder descobriu rapidamente que, com atalhos intelectuais, poderia sequestrar essa massa a seu favor e operar em um terreno fértil.
A desinformação não é uma novidade de nossa era. Governos mantiveram por décadas operações de enormes proporções para censurar e manipular a opinião pública. Desta vez, seus artífices possuíam um enorme arsenal tecnológico, com um poder inimaginável há apenas poucos anos.
Assim, nesse contexto, prosperaram pseudonotícias como a do "Kit Gay", a ameaça comunista iminente, a tese de que os termômetros estão nos locais errados, o poder ilimitado do Foro de São Paulo, o questionamento do formato do planeta e mesmo ideias conspiratórias de um astrólogo de rede social. A última dessas peças de desinformação foi transmita em rede nacional e dentro do próprio parlamento quando um blogueiro citou um suposto esquema de troca de armas nucleares entre Brasil e Cuba.
Sobre a enxurrada de elementos tóxicos, acompanham discursos de líderes charlatões especializados na venda de ilusões. Contam meias-verdades, apresentam falsas soluções simplistas e deixam uma brecha de silêncio suficiente para que aquelas populações preencham os vazios com seus preconceitos, temores e angústias.
Com um exército de contas falsas em redes sociais e uma milícia real pelo mundo digital, a receita está pronta para transformar aquela versão dos fatos na verdade chancelada para a manipulação.
Uma vez mais, nada de novo. Basta ver as estratégias adotadas pela Stasi ou da KGB para fazer implodir grupos de resistência com base na mentira, na divulgação de falsos informes e na destruição de reputações.
No século 21, essas informações fabricadas de forma deliberada vieram seguidas por um ataque diário contra os meios de comunicação, numa estratégia orquestrada de deslegitimar qualquer questionamento.
Constrói-se a legitimidade de canais paralelos da realidade, enquanto pilares da democracia são abalados numa estratégia por parte de um grupo que sabia que encontraria terreno fértil.
A mentira, portanto, passa a ser um instrumento de poder. E não é por acaso que, a cada quatro dias, o presidente Jair Bolsonaro dá uma declaração falsa ou imprecisa, segundo um levantamento do jornal Folha de S.Paulo. Não são deslizes. É um método.
Ela serve a várias funções: desviar a atenção das massas e da imprensa para evitar temas estruturais, recriar o passado para justificar decisões futuras ou simplesmente confundir atores que não ousariam cruzar essa linha.
A luta contra a desinformação certamente passa por uma questão de tecnologia e de Justiça. Mas o uso deliberado da angústia de uma população e o grau de aceitação de tais “notícias” devem servir de alerta para que se compreenda a dimensão dos problemas que se enfrenta.
Não bastará fechar um site e punir um difusor de desinformação se temos, ao mesmo tempo, um dos filhos do presidente, Carlos, confortavelmente publicando uma foto armado: de uma pistola e de um computador.
O antídoto terá de passar por uma sólida reação das instituições, por respostas sociais, pelo diálogo, pela aceitação das regras do jogo democrático e por um modelo que mostre que um caminho sustentável exige um longo trabalho. Também passa por uma educação que ensine a pensar, criticar e desconstruir. Não apenas a ser "útil" para o mercado de trabalho.
Uma verdadeira insurreição das mentes numa sociedade dividida e fragilizada não será construída da noite para o dia. No fundo, terá de ser permanente. Enfrentar a realidade da manipulação exigirá lidar com a dor, aceitar o contraditório, questionar as autoridades e construir uma sociedade em que líderes defendam os direitos de todos. Inclusive de seus adversários.
Desmontar o atual Zeitgeist será um missão tão penosa quanto necessária. Mas a busca não poderá ser por um novo partido no poder ou pela troca – uma vez mais – de ideologia. Mas uma busca pela civilização.
O debate sobre desinformação, portanto, não é sobre tecnologia. É sobre sociedade e democracia. E vai exigir muito mais que um debate na Câmara dos Deputados, regado a meias-verdades e muitas mentiras.Jamil Chade
A violência destrói o poder
Quando o deputado Eduardo Bolsonaro deixa-se se fotografar com uma arma na cintura e com outras de maior calibre, não exibe poder nem autoridade, mas sua negação, falta de conhecimento sobre o país e incapacidade para cumprir as funções para as quais foi eleito. Além de se abrigar atrás de meios bélicos, o 03 integra a turma dos que acreditam que ganha a parada quem grita mais alto.
Nunca esqueci conselho dado pelo reitor da faculdade de Direito onde estudei quando nos ouvia discutindo política aos berros:” não gritem, pois quem ouvir pode pensar que vocês têm razão.” Mas é outra a percepção do clã Bolsonaro, que não possui a sabedoria do velho reitor, que era padre, nem discernimento ,formação e competência para desempenhar seus papéis no governo e no Legislativo.Só sabem gritar, propagar mentiras, acusar e ofender atrás de um teclado, sem oferecer nada de bom e produtivo para construir um país melhor, mais justo e igual.
A última valentia dos 03 foi ameaçar com a reedição do infame AI5 caso ocorram manifestações das esquerdas, existentes apenas na sua mente sombria. Diante das reações, exceto do Presidente do STF, Dias Toffoli, e do PGR, Augusto Aras, que fizeram ar de paisagem, Eduardo Bolsonaro fingiu arrependimento e pediu desculpas. Não convenceu porque este é seu pensamento, tantas vezes declarado em alto e bom som.
Enquanto lideranças políticas e parlamentares repudiavam sua declaração, teve a desfaçatez de divulgar vídeo em que seu papai, então deputado federal, exalta o coronel Brilhante Ustra, condenado por tortura e um dos símbolos da repressão da ditadura militar.
Seu pedido de desculpas representa apenas uma tentativa de se render a ritos formais, que não incluem arrependimento. É uma estratégia usualmente adotada pela família e no mundo político para escapar de alguma penalidade, que não deve acontecer porque o papai, sempre protetor dos rebentos, vai colocar suas tropas de choque na Câmara dos Deputados para livrá-lo de qualquer, digamos, contratempo.
Suas desculpas soaram como propaganda em que o reconhecimento de culpa é usado na tribuna para proclamar falsos sentimentos de pesar pelos seus erros. Eduardo é reincidente. Utiliza esse método como instrumento para manter uma falsa imagem de democrata, tudo o que ele não é. Nas situações extremas, repete o script. Quem não se lembra de seu pedido de desculpas pelo twitter quando disse que bastava um soldado e um cabo para fecharem o Supremo Tribunal?
Este jogo de morde e sopra já virou padrão quando investigações policiais em curso aproximam-se do clã. O truque também é utilizado para medir até onde devem ir com seus rompantes autoritários, para aumentar ou reduzir o tom em função de suas estratégias políticas. Como todo ser humano, os Bolsonaros interpretam o mundo através do que são, pensam e conhecem. Como são toscos e não possuem as competências necessárias, seja para exercer um mandato parlamentar ou liderar o país, não conseguem perceber corretamente sua realidade, negando problemas, crises e dificuldades que afetam a vida dos brasileiros.
Em 1999, os psicólogos da Universidade de Cornell, Justino Kruger e David Dunning ,publicaram estudos onde avaliaram esse tipo de gente sem cultura, que passa longe dos livros.Concluíram que quando uma pessoa nada sabe a respeito de determinados assuntos, ocorrem dois problemas: primeiro ,chega a conclusões erradas e toma decisões desastradas devido à sua própria ignorância; segundo,sua ignorância e incompetência roubam sua capacidade de metacognição, de se dar conta quanto despreparada é para o exercício do cargo que ocupa.É o que nos governa no momento.
Quem paga a conta
Não há como continuar no rumo do progresso que mantém pobreza, desigualdade, corrupção, mudanças climáticas, degradação de serviços públicos, violência urbana, desemprego. Não é mais possível seguir destruindo a natureza com seus efeitos catastróficos; nem usar o Estado sem sacrificar a moeda, endividar as gerações futuras e prejudicar os serviços essenciais.
Dificilmente os que vão às ruas se unirão em torno de propostas que permitam enfrentar os desequilíbrios sacrificando benefícios adquiridos graças ao adiamento das medidas necessárias à sustentabilidade. Todos querem um meio ambiente limpo e equilibrado, mas não aceitam pagar o preço de consumir menos.
O Chile equilibrou sua Previdência jogando o custo sobre os aposentados, mas quem está disposto a pagar a conta da sustentabilidade: os jovens ativos, aumentando suas contribuições, os muito ricos, com fortes cortes em suas rendas, consumo e investimento, as classes médias, com sacrifício de gastos em serviços públicos, aceitando a falsa moeda da inflação?
Muitos estão contra a privatização de serviços públicos, mas quantos aceitam pagar o custo dos serviços estatais com sustentabilidade fiscal ou com o desvio de recursos da educação, da saúde, dos salários dos servidores, ou com aumento de impostos? Sobretudo quando se tem a desculpa de saber que esse dinheiro pode terminar nos bolsos de políticos corruptos.
As manifestações no Brasil, em 2013, no Chile, em 2019, e em quase todas as partes foram iniciadas por causa do aumento no preço de tarifas do transporte coletivo ou aumento no preço dos combustíveis. Todos são unânimes contra os reajustes. Mas quem aceita pagar o custo do subsídio necessário aos que usam o transporte, garantindo sustentabilidade necessária às finanças públicas e à continuação dos programas de subsídios?
O descontentamento é geral porque o modelo insustentável se esgotou e ninguém quer pagar o sacrifício necessário para lhe dar sustentabilidade. Além disso, e a internet facilita as mobilizações, ninguém confia nos políticos e não há filósofos com imaginação para propor um novo paradigma social, nem estadistas capazes de convencer o povo a pagar o custo para construir um futuro sustentável.
Notável nos pobres
Deus pôs a complacência ao lado do desespero como se fosse o remédio ao lado da doençaAlbert Camus, "O primeiro homem"
Nova York gasta 89 milhões de dólares para 'exportar' sem-teto para o resto dos EUA
O polêmico programa chamado Assistência Especial Única (SOTA, na sigla em inglês) está subordinado ao Departamento de Serviços a Pessoas sem-teto (DHS). De acordo com a informação revelada pela imprensa local, a cidade destinou 89 milhões de dólares (363,5 milhões de reais) para cobrir o transporte, o aluguel de um ano e os móveis de 12.482 pessoas que se mudaram da cidade. Isso equivale a 5.070 famílias desde que o programa foi lançado, em agosto de 2017.
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| Sem-teto nova-iorquino |
Newark, no outro lado do rio Hudson, em Nova Jersey, identificou 1.200 famílias que fazem parte deste programa. Agora se dispõe a adotar uma ordem municipal para proibir que sua vizinha continue lhe enviando sem-teto através do SOTA. André Wallace, prefeito de Mount Vermont, no condado de Westchester, também exige que Bill de Blasio se encarregue das pessoas que lhe enviou.
A Coalizão para as pessoas em situação de rua quantifica em 63.840 os indivíduos nessa situação na cidade de Nova York, numa contagem feita sempre nos meses de janeiro. As cifras, segundo a organização, não pararam de crescer desde que De Blasio assumiu. No caso dos homens adultos, o número duplicou durante os últimos 10 anos, superando os 18.000. As famílias passaram de 9.600 para 15.000 nesse período.
Legalidade duvidosa
Algumas das pessoas atendidas pelo programa foram parar em Honolulu, no Havaí, a quase 5.000 quilômetros de Nova York. O democrata John Mizuno, que preside o comitê de Saúde Pública do Senado havaiano, escreveu ao secretário de Justiça dos EUA pedindo que revise a legalidade da política adotada por Nova York. Considera que o programa “não garante a segurança, o bem-estar e o apoio que necessitam” essas pessoas deslocadas. “É uma receita para o desastre”, afirma. O Havaí conta com um programa semelhante.
As autoridades de Irvington, em Nova Jersey, lamentam por sua vez a falta de coordenação e supervisão. Tony Vauss, seu prefeito, insiste em que as pessoas sem casa são “cidadãos vulneráveis” que precisam de atenção permanente. Quando a ajuda desaparece, são os lugares de acolhida que precisam se encarregar deles. Como a prefeita de Torrington, em Connecticut, que ficou sabendo do programa nova-iorquino pela imprensa.
A gravidade da crise, diz a coalizão, “não é uma surpresa”. Pode-se comprová-la passando em frente ao albergue masculino administrado pela ONG Basic Housing no bairro do Upper West Side. É um fervedouro de gente que entra e sai do prédio. Há alguns anos, ali havia apartamentos para aluguel turístico, que foram incorporados ao sistema para responder ao aumento da população de pessoas "sem-teto".
Os especialistas do Manhattan Institute dizem que o programa reflete o “desespero” por tratar de reduzir o censo das pessoas em situação de ria. E embora levá-los a outras cidades com moradia mais barata possa ser útil, a Coalizão de Pessoas Sem-Teto adverte que não se trata de uma opção realista para pessoas que não puderem ser autossuficientes quando o subsídio expirar.
Economia para o contribuinte
“É injusto que a maior cidade dos EUA aborde o problema das pessoas sem-teto enviando-as a outras comunidades sem avisá-las”, lamenta o prefeito de Yonkers, Mike Spano. Essa localidade nos subúrbios de Nova York já recebeu mais de 130 famílias, embora nunca tenha tido uma notificação oficial. A solução, concordam os prefeitos, não é enviar essas pessoas a outras cidades.
O DHS nega estar “exportando” as famílias e insiste em que o programa foi concebido para ajudar os beneficiários a encontrarem uma moradia onde possam iniciar uma nova vida. Para justificá-lo, explica que acolher os sem-teto nos albergues municipais custa até 70.000 dólares (285.880 reais) para uma família com filhos, enquanto que pagar-lhes um aluguel em outra cidade ronda os 17.500 dólares (71.470 reais).
O argumento da economia para o contribuinte, entretanto, é questionável, e não só porque se transfere o custo a outras cidades. Comprovou-se que 35% dos beneficiários do programa de assistência se mudaram para dentro dos limites da área metropolitana, onde os aluguéis são mais altos. E muitos, além disso, acabam voltando em poucos meses aos albergues de Nova York, por causa das más condições das suas moradias.
O Senado do Estado de Nova York está investigando o programa de assistência por causa dos numerosos protestos dos prefeitos. A própria Prefeitura, depois de detectar “vulnerabilidades severas” em sua execução e nas responsabilidades assumidas pelos proprietários dos imóveis de acolhida, também está analisando a questão.
Férias para todos
É fato: no tempo em que uma atendente do McDonald’s brasileiro serve um cliente, uma americana atende quatro. O mesmo nas caixas de supermercados e check-ins de aeroportos. Na burocracia oficial. Um precioso tempo das nossas vidas, que poderíamos usar para descansar ou nos divertir, mas foi roubado.
Produtividade é o nome do jogo, fazer o melhor uso do tempo para produzir mais e melhor, é a distancia entre o progresso e o atraso.
No Brasil, são os que ganham os maiores salários do serviço público que querem o dobro do tempo de férias que têm os contribuintes que lhes pagam os salários, como defende o procurador-geral da República, chefe de uma instituição que existe para defender a ordem jurídica e os direitos do cidadão. Querem o tempo e o dinheiro.
O chefe diz que os procuradores merecem 60 dias de férias porque seu trabalho é exaustivo, estressante e até desumano. E quantos meses de férias deveria ter um médico da emergência de hospital público? E uma enfermeira? E um motorista de ambulância? Juntos, eles ganham uma fração do salário de um procurador. E deles depende a vida das pessoas.
Como dizia o imortal Stanislaw Ponte Preta, ou restaure-se a moralidade ou locupletemo-nos todos. Se os procuradores têm direito, os juízes e os servidores da Justiça têm, os congressistas, os vereadores, os professores têm, todas as categorias com lobbies fortes têm, todo mundo quer dois meses de férias — uma jabuticaba de que nenhuma categoria profissional desfruta em qualquer país desenvolvido e mais rico do que nós.
E o deboche de chamar de “recesso” o ócio remunerado é como Bolsonaro chamando a censura de “filtro”.
Nelson Motta
quinta-feira, 7 de novembro de 2019
Enquanto há tempo
Imagine-se jogando uma partida de xadrez. Você joga com as peças brancas ou as pretas. Seu adversário é o Poder.
Você é um bom jogador. Pratica há anos. Leu os livros dos grandes mestres. Participa de torneios. E costuma sair-se bem.
Mas enquanto você respeita as regras do jogo, o Poder, não. Seu Bispo só se move na diagonal. O do Poder, como ele quer.
Seus peões só avançam uma casa de cada vez. Os do Poder avançam quantas casas ele quiser, podem recuar ou andar de lado.
Ah, a Rainha – a peça mais importante no tabuleiro! Você joga com uma. O Poder joga com duas desde o início da partida.
Impossível que você vença. Simplesmente impossível. A não ser que o Poder cometa um erro estúpido, indigno de um iniciante.
Talvez com algum exagero, é o que acontece no confronto desigual entre a imprensa e o Poder que desrespeita as regras do jogo.
Jornalista não pode mentir. Pode errar – e se erra, é obrigado a reconhecer que errou e a pedir desculpas.
O Poder mente, mente muito, mente descaradamente. E se flagrado mentindo, joga a culpa na imprensa. Diz que foi mal interpretado.
Pergunte a um governante sobre seus erros. Ele gagueja e, quando admite ter errado, cita os erros mais irrelevantes.
É mais fácil lidar com um governo ditatorial do que com um governante eleito que usa a mentira como a sua maior arma.
Você é um bom jogador. Pratica há anos. Leu os livros dos grandes mestres. Participa de torneios. E costuma sair-se bem.
Mas enquanto você respeita as regras do jogo, o Poder, não. Seu Bispo só se move na diagonal. O do Poder, como ele quer.
Seus peões só avançam uma casa de cada vez. Os do Poder avançam quantas casas ele quiser, podem recuar ou andar de lado.

Ah, a Rainha – a peça mais importante no tabuleiro! Você joga com uma. O Poder joga com duas desde o início da partida.
Impossível que você vença. Simplesmente impossível. A não ser que o Poder cometa um erro estúpido, indigno de um iniciante.
Talvez com algum exagero, é o que acontece no confronto desigual entre a imprensa e o Poder que desrespeita as regras do jogo.
Jornalista não pode mentir. Pode errar – e se erra, é obrigado a reconhecer que errou e a pedir desculpas.
O Poder mente, mente muito, mente descaradamente. E se flagrado mentindo, joga a culpa na imprensa. Diz que foi mal interpretado.
Pergunte a um governante sobre seus erros. Ele gagueja e, quando admite ter errado, cita os erros mais irrelevantes.
É mais fácil lidar com um governo ditatorial do que com um governante eleito que usa a mentira como a sua maior arma.
A ditadura diz o que pode e o que não pode ser publicado – e, quando nada, ficamos sabendo das coisas que ela quer esconder.
O governante mentiroso é mais letal porque mente para esconder, mas mente também para enganar os que acreditam nele.
O objetivo de um governante mentiroso é desmoralizar a imprensa para enfraquecê-la, e assim alargar os limites do próprio poder.
Onde existe democracia sem uma imprensa livre e robusta? Onde? Uma imprensa castrada é antessala da ditadura.
O que pretende um governante que por hábito ataca a imprensa como instituição, agride repórteres com desaforos, corta assinaturas de jornais e ameaça os seus anunciantes?
Tudo, menos respeitar o Estado de Direito sob o qual foi eleito. Ao fim e ao cabo, por mais que não confesse, quer destruí-lo para poder jogar sozinho.</p>
Se a oposição, por fraqueza ou temor, não o incomoda, ele precisa de outros supostos adversários para se bater e derrotar.
O confronto é a vitamina que o faz sentir-se vivo, e forte, e indestrutível, e capaz de alcançar o que almeja.
Pouco se lhe dá se a maioria dos governados discorda dos seus propósitos. Basta-lhe uma fração aguerrida de devotos e ... O silêncio.
O silêncio dos inocentes. O silêncio dos culpados. O silêncio dos omissos. O silêncio dos que se negam a enxergar. O silêncio dos oportunistas. O silêncio dos covardes.
O silêncio é o principal aliado de um governante com vocação de ditador. E, se um dia, o silêncio vier a se quebrar, poderá mesmo assim ser muito tarde.
Então dará lugar ao choro dos arrependidos e à euforia dos insensatos.
Promiscuidade

No estranho condomínio, Batman e o Coringa são quase vizinhos. Quem se espanta com a presença do suposto assassino da Marielle morando tão perto de um presidente da República vai se espantar ainda mais com a revelação de que as armas – sobre as quais nunca mais se ouviu falar – tinham chegado para a milícia da zona, via Sedex, e recebidas pelo porteiro do condomínio. Mais tarde o porteiro diria que vira o tamanho dos pacotes e as pontas de ferro aparecendo e concluíra que eram patinetes.
Lá estão Zorro e o Capitão Garcia, lá estão Eliot Ness e Al Capone, lá estão Tom e Jerry morando na mesma casa, mas em eterna briga pelo uso da piscina. Lá estão desafetos históricos vivendo numa promiscuidade improvável da qual ninguém tinha ideia. Sherlock Holmes e o dr. Moriarty!
A intervalos, há trégua entre os vizinhos para tentar diminuir a tensão causada pela promiscuidade insana. Os Montecchios e os Capuletos, que ocupam lados opostos do condomínio e vivem em constantes choques dos quais nunca ficamos sabendo, unem-se para fazer uma macarronada comunitária. A ideia original era fazer um churrasco, mas os espetos acabariam fatalmente transformados em espadas. O banho de sangue seria inevitável.
Resenha do terror
Nunca todos viram, ouviram e sofreram tantos absurdos – abusos, deboches, expressão de preconceitos, agressões, deselegâncias, provocações, mentiras – perpetradas pelo núcleo central do poder político no Brasil.
O presidente, filhos e ministros estão à vontade. Como se tivessem certeza certa: nada acontecerá qualquer que seja a barbaridade feita ou proferida por eles. Com a vitória nas eleições ganharam um reinado absolutista, independente e superior ao poder de outros órgãos do Estado.
Não é samba do reinado louco. É funk da má intenção. Pesadão. Não são tontos, nem burros ou insanos. São mal-intencionados. E, parece, suas exibições de perversidade ativa levam ao corner os outros poderes que, ora mordem, ora assopram, mas não exercem sua obrigatória autoridade. Comportam-se como se manietados estivessem. Isso assusta tanto quanto o desvario dos desinibidos autocráticos em exercício.
Produzem uma bomba atrás da outra ... às vezes, duas/três ao dia. Mas, em proposital e cínico jogo do contrário, alardeiam perseguição. Como fez o comandante-em-chefe na semana passada: “O tempo todo infernizando a minha vida, porra!” (É textual, parte do live, feito na Arábia Saudita, pelo descontrolado PR, pai da trupe). Aos costumes, finesse zero.
Foram 15 minutos de impropérios e ameaças – à imprensa, ao governador do Rio. Seria a resenha da semana, que foi punk, um tom acima do habitual descaso pelo cargo pela população que governa. Teve mais.
O príncipe Eduardo, ameaçou com reedição do AI5 – o ato institucional que, em 1968, escancarou a ditadura militar no país. Para amenizar, papai-em-chefe garantiu: Não passa de “um sonho” do garoto.
Sonho deles, pesadelo nosso – cada vez mais medonho, por tudo e tanto que temos assistido. Aí incluindo a condescendência do SuperMoro que, depois das desculpas do garoto Eduardo pela ameaça à democracia, assim, em passant, decretou: Caso encerado.
Para o Ministro da Justiça em exercício ameaça à democracia é coisa que se resolve com um pedido de desculpas. É isso mesmo? É.
Mas a semana ainda teve mais dos mesmos, atuando no modo diarreia verbal. Em nova live presidencial, a propósito de eventual contaminação óleo derramado em terra e mar, o Secretário da Pesca, Seif Júnior, tranquilizou: “O peixe é um bicho inteligente. Quando ele vê uma manta de óleo ali, capitão, ele foge, ele tem medo. Então, obviamente que você pode consumir seu peixinho sem problema nenhum. Lagosta, camarão, tudo perfeitamente sano.
Essa engasgou até capitão-presidente, que tossiu e, tossindo, tentou consertar: “Obviamente, de vez em quando, fica ali uma tartaruga na mancha de óleo...
um golfinho pode ficar... pra não dizer que ninguém fica, né? Mas tudo bem...
Para o peixe inteligente?
Para o líder indígena Paulo Paulino Guajajara, do grupo Guardiões da Floresta, que foi emboscado e assassinado na Terra Indígena Arariboia, no Maranhão?
Para os seis generais que pegaram o quepe e deixaram o Planalto, pedindo demissão?
Para o porteiro do Condomínio Vivendas da Barra?
Para os que temem o pior que ainda está por vir?
Tânia Fusco
Miséria cresce, mas continua à margem do debate
Desde 2014, houve um salto de 50% no número de miseráveis. Isso significa que 4,5 milhões de brasileiros foram empurrados para a base da pirâmide social. É a face mais perversa da crise, que reduziu os empregos e a renda de quem ainda tem trabalho.
O economista Marcelo Neri, da FGV Social, diz que o arrocho agravou as dificuldades de quem luta pela sobrevivência. “O país resolveu economizar às custas dos mais pobres. Só que isso não gerou uma economia expressiva e ainda aumentou a miséria”, explica.
Em tempos de crise, é esperado que o Estado reforce a rede de proteção social. No Brasil dos últimos anos, deu-se o contrário. “O país recolheu a rede quando mais precisa dela”, resume o professor.
A Síntese de Indicadores Sociais revela outras faces do nosso abismo. Em 2018, o percentual de empregados com carteira assinada caiu para 47,4%, menor índice já registrado pelo IBGE. Isso ocorreu um ano após a aprovação da reforma trabalhista, vendida como panaceia por governo e entidades patronais.
O estudo divulgado ontem lembra que a precarização eleva a desigualdade. Sem vínculo formal, os trabalhadores perdem direitos básicos como salário mínimo, aposentadoria e licenças remuneradas.
O sabor da Excelência
Cozinheiros da Toscana estão atentos ao aperfeiçoamento do paladar da meninada. E antes que as crianças sejam abduzidas pelos sanduíches produzidos em série, tomaram uma iniciativa genial. Voluntários estão montando mesas nas praças das pequenas cidades e convidando as famílias e suas crianças para animadas degustações gastronômicas.
Dessa forma, os chefs vão mantendo a cultura de seus tataravós e – mais importante – cuidam da saúde dessa geração, mostrando a diferença colossal entre alimentos de qualidade, saudáveis e nutritivos, e porcarias feitas em série. É um padrão da excelência.
“A mente que se abre a uma nova ideia jamais volta ao seu tamanho anterior”. Popular na internet, a frase é atribuída a Einstein, mas há controvérsias. Na mesma época, o poeta e catedrático Sir Oliver Wendell Holmes disse algo idêntico: “A mente humana, uma vez ampliada por uma nova consciência, jamais retorna à sua dimensão original”.
Não importa quem foi o autor da frase; ambos já tinham percebido a essência da Excelência, com letra maiúscula.

O ser humano só se transforma por essa via do “ótimo” superando o “bom”; do “novo” superando o “velho”. E padrões melhores não se restringem à cozinha. Estão aí, a toda hora, apontando caminhos para a evolução, a saúde, o convívio, a realização profissional, a gestão pública, o prazer de fazer bem feito – a sabedoria, enfim.
Valorizá-los é uma tarefa urgente da educação num país como o nosso, em casa e nas escolas. As asneiras correm fácil. Bastam alguns minutos de TV ou internet para perceber que os exemplos do mal e do pior atacam incansáveis pelos flancos – nos comportamentos, nas artes, na glamourização do grotesco.
Engraçado: lembrei-me do exemplo dos cozinheiros italianos ao ouvir as novas propostas econômicas para o país. Show de bola, é a materialização do mote “mais Brasil e menos Brasília” do ministro Guedes.
A descentralização do poder não é novidade, faz parte da estrutura de nações que deram certo. Além dos efeitos positivos na gestão, com ela despencam também cabides dos coronéis, dos lobistas; alguns esquemas asquerosos que vinham atrasando o país como bolas de ferro nos pés de presidiários.
Que venha o novo, o melhor, o diferente – que têm, como inimigos, os partidários do atraso, os vampiros da miséria que perdem seus discursos apocalípticos e seus votos.
Hoje à tarde, o STF dará um passo com repercussões profundas. A imagem desses senhores não anda lá essas coisas, porém valerá a lei; tal decisão terá efeitos práticos no comportamento geral dos cidadãos.
Usando a costumeira verborragia e as firulas incompreensíveis aos mortais, o Supremo terá que definir se: a) a lei é igual para humildes e poderosos ou b) a balança continuará pendendo para o lado mais rico.
Só isso, fim de papo. Ou vamos em frente, ou a velha senhora Justiça permanecerá refém dos donos da grana e de seus advogados de luxo.
O que será posto hoje na mesa também envolve a diferença entre o bom e o ruim. Ainda que aquelas Excelências tentem revestir o malfeito com sabores artificiais e rebuscados, não conseguirão enganar nosso paladar. O brasileiro já está sentindo um pouco do novo sabor da excelência.
Convite às autoridades: passem o mês com R$ 145
Há no Brasil 13,5 milhões de estômagos que sobrevivem com menos de R$ 145 por mês. Isso equivale a R$ 36,25 por semana. Ou R$ 4,83 por dia. Um Big Mac sai por R$ 16,90. Ou seja, um sanduíche consome a renda de três dias desses estômagos, alojados no organismo dos brasileiros que o IBGE chama de extremamente pobres. Os dados são de 2018. Atrasando o relógio, verifica-se que o contingente vem aumentando desde 2014, quando Dilma Rousseff arruinou a economia do país.
Para esses brasileiros que trazem um espaço baldio entre o esôfago e o duodeno, o debate sobre direita e esquerda, políticas liberais versus políticas sociais é uma inutilidade indigesta. Se Deus tiver que aparecer no pesadelo dessa gente, não será na forma de Bolsonaro ou Dilma. O Todo-Poderoso não se atreveria a surgir em outra forma que não fosse a de um prato de comida.
Em entrevista publicada há quatro dias, na "Folha", o ministro Paulo Guedes lamentou que não tenha prosperado sua proposta sobre o regime previdenciário de capitalização. Declarou que esse modelo "educaria financeiramente as famílias mais pobres". Como assim? "Um menino, desde cedo, sabe que ele é um ser de responsabilidade quando tem de poupar. Os ricos capitalizam seus recursos. Os pobres consomem tudo". O IBGE esclarece que os mais pobres consomem nada.
A economia começa a reagir. Mas a reação é demasiado lenta. E o estômago que vive além das fronteiras da pobreza não dispõe de tempo para esperar pelo dia em que conseguirá educar-se financeiramente a ponto de poupar, como deseja Paulo Guedes. O mundo desses estômagos cabe no intervalo entre uma refeição e outra. Seu relógio biológico só tem tempo para certas horas: a hora do café, a hora do almoço, a hora do jantar... Nessa rotina, a hora da poupança não se encaixa.
Certas autoridades deveriam passar um mês com R$ 145. Chegariam ao final da experiência com uma fome de ministro —ou de presidente da República. Dessas que o sujeito resolve abrindo uma geladeira bem abastecida. Talvez percebessem que as reformas liberais não precisam ser adotadas em detrimento das políticas sociais. Afinal, para que serve o equilíbrio fiscal senão para resolver o drama social de forma consistente?
Um governo instalado há apenas dez meses tem o legítimo direito de colocar em prática as ideias que prevaleceram nas urnas recém-abertas. Seria uma tolice questionar esse direito. Admita-se, para efeito de raciocínio, que as providências encaminhadas pela atual administração serão um sucesso. Ainda assim, a prosperidade não virá instantaneamente.
Convém abrir os olhos para os extremamente pobres. Tratá-los como seres invisíveis é vergonhoso e desumano. Criticar os governos anteriores não resolve o problema dos estômagos em cujas paredes ardem os jatos de suco gástrico. Melhor buscar maneiras de atenuar o drama da transição entre a fome e a bonança que produzirá hipotéticos excedentes para a poupança.
Harari contra o ultranacionalismo
Para responder a essa pergunta devemos primeiro dissipar um mito muito difundido. Ao contrário do que diz o senso comum, o nacionalismo não é inato à psique humana e não tem raízes biológicas. É verdade que os humanos são animais integralmente sociais, e a lealdade ao grupo está impressa em seus genes. No entanto, por centenas de milhares de anos o Homo sapiens e seus ancestrais hominídeos viveram em comunidades pequenas e íntimas, com não mais que algumas dezenas de pessoas. Humanos desenvolvem facilmente lealdade a grupos pequenos e íntimos como a tribo, um batalhão de infantaria ou um negócio familiar, mas a lealdade a milhões de pessoas totalmente estranhas não é natural para humanos. Essas lealdades em massa só apareceram nos últimos poucos milhares de anos — em termos evolutivos, ontem de manhã — e exigem imensos esforços de construção social.

As pessoas se deram ao trabalho de construir coletividades nacionais porque se confrontavam com desafios que não podiam ser resolvidos por uma única tribo. Tomem‐se, por exemplo, as antigas tribos que viviam ao longo do rio Nilo milhares de anos atrás. O rio era sua força vital. Ele irrigava os campos e transportava o comércio. Mas era um aliado imprevisível. Se havia pouca chuva, as pessoas morriam de fome; se havia chuva demais, o rio transbordava e destruía aldeias inteiras. Nenhuma tribo poderia resolver sozinha seus problemas, porque cada tribo só dominava uma pequena seção do rio e não poderia mobilizar mais do que poucas centenas de trabalhadores. Somente um esforço comum para construir enormes barragens e cavar centenas de quilômetros de canais poderia conter e controlar o poderoso rio. Esse foi um dos motivos pelos quais as tribos aos poucos coalesceram numa única nação que teve o poder de construir barragens e canais, regular o fluxo do rio, construir reservatórios de grãos para os anos magros e estabelecer um sistema de transporte e comunicação abrangendo todo o país.
Apesar dessas vantagens, transformar tribos e clãs em uma única nação nunca foi fácil, em tempos passados ou hoje em dia. Para se dar conta de como é difícil identificar‐se com essa nação, você só precisa se perguntar: “Eu conheço essas pessoas?”. Sei o nome de minhas duas irmãs e de meus onze primos, e sou capaz de falar um dia inteiro sobre suas personalidades, seus caprichos e seus relacionamentos. Não sei o nome das 8 milhões de pessoas que compartilham comigo a cidadania israelense, nunca me encontrei com a maioria delas, e é muito pouco provável que as encontre no futuro. Minha capacidade de, apesar disso, sentir que sou leal a essa massa nebulosa não é um legado de meus ancestrais caçadores‐coletores, e sim um milagre da história recente. Um biólogo marciano que conhecesse apenas a anatomia e a evolução do Homo sapiens seria incapaz de adivinhar que esses macacos são capazes de desenvolver laços comunitários com milhões de estranhos. Para convencer‐me a ser leal a “Israel” e seus 8 milhões de habitantes, o movimento sionista e o Estado israelense tiveram de criar um gigantesco aparelho de educação, propaganda e patriotismo, assim como sistemas nacionais de segurança, saúde e bem‐estar social.
Isso não quer dizer que haja algo de errado com vínculos nacionais. Sistemas imensos não são capazes de funcionar sem lealdades de massa, e expandir o círculo de empatia humana tem seus méritos. As formas mais amenas de patriotismo têm estado entre as mais benevolentes criações humanas. Acreditar que minha nação é única, que ela merece minha lealdade e que eu tenho obrigações especiais com seus membros inspira‐me a me importar com os outros e a fazer sacrifícios por eles. É perigoso acreditar que sem nacionalismos estaríamos todos vivendo em paraísos liberais. Mais provavelmente, estaríamos vivendo num caos tribal. Países pacíficos, prósperos e liberais, como a Suécia, a Alemanha e a Suíça, cultivam todos um forte senso de nacionalismo. A lista de países aos quais faltam ligações nacionais robustas inclui o Afeganistão, a Somália, o Congo e muitos outros Estados falidos.
O problema começa quando o patriotismo benigno se transforma em ultranacionalismo chauvinista. Em vez de acreditar que minha nação é única — o que é verdadeiro para todas as nações —, eu poderia começar a sentir que minha nação é suprema, que devo a ela toda a minha lealdade e que não tenho obrigações relevantes com mais ninguém. Esse é um terreno fértil para conflitos violentos. Durante gerações a crítica mais básica ao nacionalismo era que ele levava à guerra. Mas a constatação de que havia relação entre nacionalismo e violência dificilmente era capaz de conter os excessos nacionalistas, particularmente quando toda nação justificava sua própria expansão militar alegando a necessidade de se proteger contra as armações de seus vizinhos. Enquanto a nação provia a maior parte de seus cidadãos com níveis inéditos de segurança e prosperidade, eles estavam dispostos a pagar o preço com sangue. No século XIX e início do século XX esse compromisso nacionalista ainda parecia muito atraente. Embora o nacionalismo estivesse levando a terríveis conflitos numa escala sem precedente, os Estados‐nação modernos também construíam sistemas robustos de saúde, educação e bem‐estar social. Os serviços nacionais de saúde faziam com que as batalhas de Ipres e de Verdun parecessem ter valido a pena.
Tudo mudou em 1945. A invenção de armas nucleares abalou fortemente o equilíbrio do arranjo nacionalista. Depois de Hiroshima, as pessoas não temiam que o nacionalismo pudesse levar meramente à guerra — começaram a temer que levaria a uma guerra nuclear. A aniquilação total serviu para aguçar a mente das pessoas, e graças, não em pequena medida, à bomba atômica, o impossível aconteceu e o gênio do nacionalismo foi espremido, ao menos em parte, de volta para sua garrafa. Assim como os antigos aldeões da bacia do Nilo redirecionaram parte de sua lealdade dos clãs locais para um reino muito maior capaz de conter o perigoso rio, na era nuclear uma comunidade global aos poucos se desenvolveu além e acima das várias nações, porque somente uma comunidade desse tipo seria capaz de conter o demônio nuclear.
Na campanha presidencial de 1964, Lyndon B. Johnson pôs no ar o famoso “anúncio da margarida”, uma das mais bem‐sucedidas peças de propaganda nos anais da televisão. O anúncio começa com uma garotinha colhendo e contando as pétalas de uma margarida, mas quando chega a dez uma voz metálica assume a contagem regressiva, de dez a zero, como num lançamento de míssil. Ao chegar a zero o clarão de uma explosão nuclear enche a tela, e o candidato Johnson dirige‐se ao público americano e diz: “É isto que está em jogo. Criar um mundo no qual todos os filhos de Deus podem viver ou entrar na escuridão. Devemos ou amar uns aos outros ou morrer”. Tendemos a associar o mote “faça amor, não faça guerra” à contracultura do final da década de 1960, mas na verdade já em 1964 era consenso até mesmo entre políticos durões como Johnson.
Consequentemente, durante a Guerra Fria o nacionalismo cedeu lugar a uma abordagem mais global da política internacional, e quando a Guerra Fria acabou a globalização parecia ser a irresistível onda do futuro. Esperava‐se que o gênero humano abandonasse a política nacionalista, como se fosse uma relíquia de tempos mais primitivos que atrairia no máximo os mal informados habitantes de alguns países subdesenvolvidos. Acontecimentos em anos recentes provaram, no entanto, que o nacionalismo ainda é capaz de seduzir até mesmo cidadãos da Europa e dos Estados Unidos, mais ainda da Rússia, da Índia e da China. Alienadas pelas forças impessoais do capitalismo global, e temendo pelo destino de seus sistemas nacionais de saúde, educação e bem‐estar social, pessoas em todo o mundo vão buscar conforto e sentido no seio da nação.
Porém a questão levantada por Johnson no anúncio da margarida é ainda mais pertinente hoje em dia do que em 1964. Vamos criar um mundo no qual todos os humanos possam viver juntos ou vamos entrar na escuridão? Donald Trump, Theresa May, Vladimir Putin, Narendra Modi e seus colegas serão capazes de salvar o mundo apelando para nossos sentimentos nacionais, ou será a atual torrente nacionalista uma forma de evadir o intratável problema global que enfrentamos?
Yuval Noah Harari, "21 lições para o século 21"
Cuidado com o efeito Orlofff
As manifestações recentes no Chile sublinham o tamanho do problema. No Brasil, com pobreza extrema, é ainda pior. Não se atenua a pobreza e a desigualdade sem um estado atuante. É preciso ter redes de proteção social fortes. O mercado não resolve sozinho, como já foi mostrado de todo jeito. O Paulo Guedes está preso nos anos 70 do Chile e dos “Chicago boys”. Além disso, ele nunca foi um formulador de políticas públicas, nem precisou de um entendimento mais profundo de políticas públicas sobre a dinâmica da pobreza na vida das pessoas. O Chile passa por uma convulsão pela ausência de bem estar social a despeito de todas as reformasMonica De Bolle
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