sexta-feira, 6 de setembro de 2024
Liberdade de expressão?
No tempo da ditadura, sinais de emissoras exóticas chegavam livremente aos rincões da pátria armada e fardada. Em ondas curtas, a Rádio Moscou ressoava com seu português escorreito em todo o território nacional, dos igapós amazônicos às roças de Nuporanga. E não era só ela. Junto, vinham também as locuções da Rádio Pequim, da Rádio Tirana e da Rádio Bulgária. Comunismo na carótida, calafrios na caserna. As autoridades se inquietavam: como bloquear a radiofrequência da Cortina de Ferro?
Não havia como. Veteranos da radiodifusão lembram até hoje que os militares tentavam usar engenhocas para atrapalhar o som das invasoras, ao menos nas regiões ditas estratégicas, mas a manobra não dava certo. Vetaram peças de teatro, canções de protesto, revistas de mulheres nuas, filmes sortidos, telenovelas picantes e romances de esquerda, mas fracassaram indigentemente no projeto de emudecer as estações alienígenas. Falta de vontade não foi.
Agora, o mundo é outro, já sabemos. Você quase não encontra mais aparelhos de rádio de ondas curtas, e, quando os encontra, não vê ninguém de ouvido colado na geringonça. Tudo ficou diferente. Só uma coisa não mudou: desafiando a lei da evolução natural das espécies, os apoiadores do golpe de 1964 ainda andam por aí, preservadíssimos, e não escondem de ninguém a saudade que sentem da ditadura, da tortura e da censura – ridícula, mas teimosa.
Essa turma andou alvoroçada ao longo da semana. Ao saber que a plataforma denominada X, antes conhecida como Twitter, foi banida de celulares e computadores por uma decisão judicial, voltou a enxergar fantasmas. As assombrações são as mesmas de antigamente, mas as aparições sobrenaturais vieram com os sinais trocados. Antes, o espectro do comunismo era externo, vinha de fora para dentro. Agora, é interno, vem da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) e se irradia mundo afora. Antes, a proteção da liberdade marchava de coturno sobre o mármore branco do Palácio da Alvorada. Agora, mora longe e atende pelo nome de Elon Musk. Ectoplasmas reencarnados e revirados.
Fantasmagorias reversas. Nas suas alucinações miasmáticas, as viúvas do AI-5 são tragadas por mirações aterrorizantes. Veem a magistratura dos nossos tempos perpetrando à luz do dia a malvadeza que a magistratura de meio século atrás não foi capaz de perpetrar na escuridão: bloquear de uma canetada a comunicação do adversário exógeno. Mas como assim? Os saudosistas não se conformam e se contorcem de inveja: “Como é que os poderes da democracia são mais efetivos que os nossos na tirania de 1970?”. Não engolem o desaforo histórico: “Deram no X o sumiço que a gente não conseguiu dar na Rádio Moscou!”.
Para não passar recibo de que tudo não passa de dor de cotovelo auriverde, a claque tardia da ditadura extinta inventou que seu problema não é ciúme, mas o compromisso raivoso que ela teria com a “liberdade de expressão”. É isto mesmo: estamos vendo a bandeira da “liberdade” ser desfraldada pelas forças que sempre a conspurcaram. Não que os apoiadores do arbítrio mudaram – apenas repaginaram a própria vaidade. Eles, que ontem só admitiam a crítica se fosse “construtiva”, hoje se declaram favoráveis à manifestação do pensamento e até do não-pensamento. Principalmente do segundo.
É curioso, antropologicamente curioso. Você nunca vai ver este pessoal respaldando a liberdade de expressão dos moradores de rua, das mulheres pró-aborto, da população trans, dos trabalhadores pobres, dos quilombolas e dos indígenas, pois, segundo denunciam energicamente, esses setores, além de preconceituosos e intolerantes, são uns ongueiros mancomunados com as potências que só querem roubar nosso nióbio e nosso grafeno. Não, os saudosistas não se deixam engrupir. Eles têm lado. Defendem a liberdade de gente desprotegida, das vítimas indefesas da brutalidade togada. Combativos, prestam sua solidariedade pungente ao estropiado mártir da democracia: Elon Musk, este, sim, um injustiçado.
Os nostálgicos do arbítrio se converteram em musketeiros aguerridos. São todos por Musk, e estão convencidos até o bolso de que Musk sempre será por todos eles. Embalados pelos pesadelos das mil e uma noites de aquecimento global, não se lembraram de acordar para os fatos e para a realidade. Fatos: o ex-Twitter saiu do ar porque se negou a cumprir uma decisão judicial – decisão ratificada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF. Realidade: nenhum Poder Judiciário, em nenhum país conhecido ou desconhecido, poderia ter tomado outra atitude. Era preciso resguardar a autoridade judicial de um país soberano. Fato e realidade: isso não teve nada que ver com ataque à “liberdade de expressão”.
No mais, você pode – e deve – criticar o STF. Há muito o que questionar na corte. Só o que não dá para dizer é que o que aconteceu com o Twitter foi mordaça. Não há ninguém censurado aí, nem o pobre perseguido Elon Musk, que segue discursando à vontade. Mais que discursando, segue abusando de seu poder econômico, mas isso é outra conversa.
Não havia como. Veteranos da radiodifusão lembram até hoje que os militares tentavam usar engenhocas para atrapalhar o som das invasoras, ao menos nas regiões ditas estratégicas, mas a manobra não dava certo. Vetaram peças de teatro, canções de protesto, revistas de mulheres nuas, filmes sortidos, telenovelas picantes e romances de esquerda, mas fracassaram indigentemente no projeto de emudecer as estações alienígenas. Falta de vontade não foi.
Agora, o mundo é outro, já sabemos. Você quase não encontra mais aparelhos de rádio de ondas curtas, e, quando os encontra, não vê ninguém de ouvido colado na geringonça. Tudo ficou diferente. Só uma coisa não mudou: desafiando a lei da evolução natural das espécies, os apoiadores do golpe de 1964 ainda andam por aí, preservadíssimos, e não escondem de ninguém a saudade que sentem da ditadura, da tortura e da censura – ridícula, mas teimosa.
Essa turma andou alvoroçada ao longo da semana. Ao saber que a plataforma denominada X, antes conhecida como Twitter, foi banida de celulares e computadores por uma decisão judicial, voltou a enxergar fantasmas. As assombrações são as mesmas de antigamente, mas as aparições sobrenaturais vieram com os sinais trocados. Antes, o espectro do comunismo era externo, vinha de fora para dentro. Agora, é interno, vem da sede do Supremo Tribunal Federal (STF) e se irradia mundo afora. Antes, a proteção da liberdade marchava de coturno sobre o mármore branco do Palácio da Alvorada. Agora, mora longe e atende pelo nome de Elon Musk. Ectoplasmas reencarnados e revirados.
Fantasmagorias reversas. Nas suas alucinações miasmáticas, as viúvas do AI-5 são tragadas por mirações aterrorizantes. Veem a magistratura dos nossos tempos perpetrando à luz do dia a malvadeza que a magistratura de meio século atrás não foi capaz de perpetrar na escuridão: bloquear de uma canetada a comunicação do adversário exógeno. Mas como assim? Os saudosistas não se conformam e se contorcem de inveja: “Como é que os poderes da democracia são mais efetivos que os nossos na tirania de 1970?”. Não engolem o desaforo histórico: “Deram no X o sumiço que a gente não conseguiu dar na Rádio Moscou!”.
Para não passar recibo de que tudo não passa de dor de cotovelo auriverde, a claque tardia da ditadura extinta inventou que seu problema não é ciúme, mas o compromisso raivoso que ela teria com a “liberdade de expressão”. É isto mesmo: estamos vendo a bandeira da “liberdade” ser desfraldada pelas forças que sempre a conspurcaram. Não que os apoiadores do arbítrio mudaram – apenas repaginaram a própria vaidade. Eles, que ontem só admitiam a crítica se fosse “construtiva”, hoje se declaram favoráveis à manifestação do pensamento e até do não-pensamento. Principalmente do segundo.
É curioso, antropologicamente curioso. Você nunca vai ver este pessoal respaldando a liberdade de expressão dos moradores de rua, das mulheres pró-aborto, da população trans, dos trabalhadores pobres, dos quilombolas e dos indígenas, pois, segundo denunciam energicamente, esses setores, além de preconceituosos e intolerantes, são uns ongueiros mancomunados com as potências que só querem roubar nosso nióbio e nosso grafeno. Não, os saudosistas não se deixam engrupir. Eles têm lado. Defendem a liberdade de gente desprotegida, das vítimas indefesas da brutalidade togada. Combativos, prestam sua solidariedade pungente ao estropiado mártir da democracia: Elon Musk, este, sim, um injustiçado.
Os nostálgicos do arbítrio se converteram em musketeiros aguerridos. São todos por Musk, e estão convencidos até o bolso de que Musk sempre será por todos eles. Embalados pelos pesadelos das mil e uma noites de aquecimento global, não se lembraram de acordar para os fatos e para a realidade. Fatos: o ex-Twitter saiu do ar porque se negou a cumprir uma decisão judicial – decisão ratificada, por unanimidade, pela Primeira Turma do STF. Realidade: nenhum Poder Judiciário, em nenhum país conhecido ou desconhecido, poderia ter tomado outra atitude. Era preciso resguardar a autoridade judicial de um país soberano. Fato e realidade: isso não teve nada que ver com ataque à “liberdade de expressão”.
No mais, você pode – e deve – criticar o STF. Há muito o que questionar na corte. Só o que não dá para dizer é que o que aconteceu com o Twitter foi mordaça. Não há ninguém censurado aí, nem o pobre perseguido Elon Musk, que segue discursando à vontade. Mais que discursando, segue abusando de seu poder econômico, mas isso é outra conversa.
O mundo dos admiradores de Deolanes e Marçais chega à política oficial
Talvez nunca antes tenhamos tido tanta informação a respeito de interesses e vontades mais gerais, do que se sabe agora por causa da voz do povo nas mídias sociais e dos meios de pesquisa de opinião nas redes. Sobre suas preferências quanto a políticas públicas ou programas socioeconômicos, continuamos a saber pouco. Porém, eventos ou ondas de mudanças sensacionais explodem nas nossas fuças e dizem algo de mudanças comportamentais e culturais.
Vide a maré de desgraça que vai sendo provocada por "bets", legais ou com a intenção de legalização: despesa bilionária, expansão do vício, oportunidades para o crime. Nesta quarta-feira, foi presa a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, 36, acusada ainda de modo opaco de associação a uma quadrilha que recorria a "bets" e firmas de publicidade, de câmbio etc. a fim de lavar dinheiro.
Como se diz por aí, Deolane é "puro suco de Brasil". Tem 20,7 milhões de seguidores no Instagram. O jovem decano dos influenciadores do Brasil, Felipe Neto, tem 17,3 milhões, embora seu universo fosse mais o X-Twitter — um presidente da República pode se eleger com 60 milhões de votos. A foto da carta manuscrita em que Deolane se diz "vítima de grande injustiça" (sua prisão) teve 1,6 milhão de curtidas até a noite desta quarta.
Sabe-se de seus amores com "famosos", participou de um reality show de TV aberta em 2022, foi rainha da bateria de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro em 2024. É admirada, recebe elogios e bênçãos na internet por expor sua riqueza, sua vida privada e seu corpo. A fama virtual facilita a criação de empresas no mundo real (muita vez de produtos de beleza, roupas, brinquedos, jogos e até bets). Estatísticas meio imprecisas dizem que haveria centenas de milhares de influencers profissionais no país. O sucesso virtual facilita colonização das mídias tradicionais (no entretenimento em especial).
A mudança religiosa, o avanço econômico e cultural do agro e do sertanejo, o prestígio de público de policiais e militares e a eficiência da ultradireita nas redes produzem efeitos político-eleitorais palpáveis faz uns 15 anos. Apesar da onda político-digital de 2018, o mundo influencer ainda não tem representação notável na política politiqueira. Por falar nisso, apesar de tantas novidades, o grosso da representação política é composto de homens dispostos a manter tudo como está (ou pior), o establishment mais rastaquera, negocista e fisiológico. Uma névoa de centrão cobre o país como fumaça das queimadas.
Esse mundo de influenciadores, no caso já com associações criminosas, tem agora ao menos um sério candidato ao poder, à Prefeitura de São Paulo. É, claro, Pablo Marçal, que encanta ultradireitistas, adeptos de seitas de prosperidade, aspirantes ao sucesso ou apenas a uma vida decente negada pela realidade socioeconômica; muitos são desencantados com governos, desesperados e niilistas populares em geral.
Por ora, a política costumeira fagocita esses (falsos ou não) "outsiders". Mas quem é capaz de conversa política racional com as pessoas que admiram influenciadores diversos, que vivem no mundo de Deolane e Marçais ou exemplares mais amenos da categoria? Esse mundo, "paralelo" na fantasia oficial e bem pensante, é a realidade brasileira.
Vide a maré de desgraça que vai sendo provocada por "bets", legais ou com a intenção de legalização: despesa bilionária, expansão do vício, oportunidades para o crime. Nesta quarta-feira, foi presa a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, 36, acusada ainda de modo opaco de associação a uma quadrilha que recorria a "bets" e firmas de publicidade, de câmbio etc. a fim de lavar dinheiro.
Como se diz por aí, Deolane é "puro suco de Brasil". Tem 20,7 milhões de seguidores no Instagram. O jovem decano dos influenciadores do Brasil, Felipe Neto, tem 17,3 milhões, embora seu universo fosse mais o X-Twitter — um presidente da República pode se eleger com 60 milhões de votos. A foto da carta manuscrita em que Deolane se diz "vítima de grande injustiça" (sua prisão) teve 1,6 milhão de curtidas até a noite desta quarta.
Sabe-se de seus amores com "famosos", participou de um reality show de TV aberta em 2022, foi rainha da bateria de uma grande escola de samba do Rio de Janeiro em 2024. É admirada, recebe elogios e bênçãos na internet por expor sua riqueza, sua vida privada e seu corpo. A fama virtual facilita a criação de empresas no mundo real (muita vez de produtos de beleza, roupas, brinquedos, jogos e até bets). Estatísticas meio imprecisas dizem que haveria centenas de milhares de influencers profissionais no país. O sucesso virtual facilita colonização das mídias tradicionais (no entretenimento em especial).
A mudança religiosa, o avanço econômico e cultural do agro e do sertanejo, o prestígio de público de policiais e militares e a eficiência da ultradireita nas redes produzem efeitos político-eleitorais palpáveis faz uns 15 anos. Apesar da onda político-digital de 2018, o mundo influencer ainda não tem representação notável na política politiqueira. Por falar nisso, apesar de tantas novidades, o grosso da representação política é composto de homens dispostos a manter tudo como está (ou pior), o establishment mais rastaquera, negocista e fisiológico. Uma névoa de centrão cobre o país como fumaça das queimadas.
Esse mundo de influenciadores, no caso já com associações criminosas, tem agora ao menos um sério candidato ao poder, à Prefeitura de São Paulo. É, claro, Pablo Marçal, que encanta ultradireitistas, adeptos de seitas de prosperidade, aspirantes ao sucesso ou apenas a uma vida decente negada pela realidade socioeconômica; muitos são desencantados com governos, desesperados e niilistas populares em geral.
Por ora, a política costumeira fagocita esses (falsos ou não) "outsiders". Mas quem é capaz de conversa política racional com as pessoas que admiram influenciadores diversos, que vivem no mundo de Deolane e Marçais ou exemplares mais amenos da categoria? Esse mundo, "paralelo" na fantasia oficial e bem pensante, é a realidade brasileira.
Pela boca morre o peixe
Os barões de Silicon Valley apoiam Trump, escreve o Expresso. São os multimilionários, que se mantêm na lista da Forbes — onde esta semana, em tempo real, o nome de Amancio Ortega, o fundador da espanhola Inditex, voltou a constar entre os dez mais ricos, e que promovem a liberdade de pensarmos e de dizermos o que quisermos, mesmo que sejam insultos e mentiras; que se escudam na liberdade e se recusam a ter responsabilidades ou obrigações.
Os governos acordaram tarde para os perigos e para a necessidade de haver regulamentação. Por um lado, tementes ao argumento da liberdade de expressão, de poderem ser acusados de quererem impor a censura; por outro lado, aproveitando toda esta onda de desinformação para criarem as suas próprias narrativas — é ver a forma como tantos políticos se apresentam, baseando o seu discurso em mentiras mais ou menos descaradas, recontando os factos à sua maneira, descredibilizando ainda mais uma classe, desrespeitando toda a sociedade.
Falta sermos, todos, responsabilizados por aquilo que dizemos e foi isso que vimos acontecer no Reino Unido, depois dos tumultos, motins e manifestações da extrema-direita, há semanas, com homens e mulheres a serem condenados a penas efetivas por coisas que disseram nas redes sociais. Nesta semana, no Brasil, uma socialite foi condenada a oito anos de prisão pelo que disse nas mesmas redes sociais sobre uma criança que, na altura, tinha quatro anos. Que boa notícia esta a de não haver contemplações para mensagens de ódio, para mensagens racistas, para mentiras.
“Pela boca morre o peixe”, diz o povo. Sempre impulsiva, em pequena, o meu pai repreendia-me e dizia que eu deveria andar com um botão na boca. Assim, sempre que pensasse dizer alguma coisa, tirava o botão sete vezes. Nunca o fiz. Mas em circunstâncias mais formais, penso muito antes de agir, de escrever, de falar. E, quando olho para as redes sociais, para as declarações de políticos, comentadores ou figuras públicas, penso no conselho do meu pai. Um botão. Sete vezes. Se o fizessem, quão diferente seria tudo o que lemos, ouvimos e fazemos.
Se todos agíssemos com ponderação, Natalia Stichova poderia não ter caído de uma altura de 80 metros e perdido a vida para fazer uma selfie. A princesa Diana talvez ainda estivesse viva — vem aí um novo documentário, mas também não seguiríamos com tanta curiosidade a vida de Camila, que esta semana nos conta como é que lida com dias piores, lendo: “Quando temos um dia de loucura e tudo corre mal, podemos sentar-nos, respirar fundo, pegar num livro e pronto ─ somos transportados para outro mundo.” Faço parte do clube de Camila.
Os governos acordaram tarde para os perigos e para a necessidade de haver regulamentação. Por um lado, tementes ao argumento da liberdade de expressão, de poderem ser acusados de quererem impor a censura; por outro lado, aproveitando toda esta onda de desinformação para criarem as suas próprias narrativas — é ver a forma como tantos políticos se apresentam, baseando o seu discurso em mentiras mais ou menos descaradas, recontando os factos à sua maneira, descredibilizando ainda mais uma classe, desrespeitando toda a sociedade.
Falta sermos, todos, responsabilizados por aquilo que dizemos e foi isso que vimos acontecer no Reino Unido, depois dos tumultos, motins e manifestações da extrema-direita, há semanas, com homens e mulheres a serem condenados a penas efetivas por coisas que disseram nas redes sociais. Nesta semana, no Brasil, uma socialite foi condenada a oito anos de prisão pelo que disse nas mesmas redes sociais sobre uma criança que, na altura, tinha quatro anos. Que boa notícia esta a de não haver contemplações para mensagens de ódio, para mensagens racistas, para mentiras.
“Pela boca morre o peixe”, diz o povo. Sempre impulsiva, em pequena, o meu pai repreendia-me e dizia que eu deveria andar com um botão na boca. Assim, sempre que pensasse dizer alguma coisa, tirava o botão sete vezes. Nunca o fiz. Mas em circunstâncias mais formais, penso muito antes de agir, de escrever, de falar. E, quando olho para as redes sociais, para as declarações de políticos, comentadores ou figuras públicas, penso no conselho do meu pai. Um botão. Sete vezes. Se o fizessem, quão diferente seria tudo o que lemos, ouvimos e fazemos.
Se todos agíssemos com ponderação, Natalia Stichova poderia não ter caído de uma altura de 80 metros e perdido a vida para fazer uma selfie. A princesa Diana talvez ainda estivesse viva — vem aí um novo documentário, mas também não seguiríamos com tanta curiosidade a vida de Camila, que esta semana nos conta como é que lida com dias piores, lendo: “Quando temos um dia de loucura e tudo corre mal, podemos sentar-nos, respirar fundo, pegar num livro e pronto ─ somos transportados para outro mundo.” Faço parte do clube de Camila.
Seca e ribeirinhos revelam fósseis de gigantes na Amazônia
Debaixo de um limoeiro, uma peça rara aguarda seu destino. É um pedaço das vértebras de um Purussaurus, o maior jacaré que pisou no planeta e viveu na Amazônia há mais de 10 milhões de anos. Gerimar do Nascimento guardou a relíquia a poucos metros de sua casa, às margens do rio Purus, no sul do Amazonas. Ela estava à mostra num barranco quando foi avistada pelo ribeirinho do seu barco durante um trajeto corriqueiro que percorre sempre quando vai para Boca do Acre, cidade mais próxima.
"Eu vi aquela parte de osso e sabia que não era do nosso tempo", conta Geri, como é conhecido na região.
No quintal de sua casa, ele acompanha atentamente a explicação de tudo o que a ciência feita na Amazônia já registrou sobre aquela espécie. Quem relata as descobertas científicas é Carlos D'Apólito, professor do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza da Universidade Federal do Acre (UFAC), que fez questão de ir até a comunidade resgatar o fóssil e compartilhar o conhecimento.
"São três vértebras articuladas. Não é comum achá-las assim, uma do lado da outra", diz D'Apólito sob o pé carregado de limão. "Isso pode ajudar a ciência a entender melhor a anatomia da espécie, entender em que parte da coluna vertebral ela estaria", continua.
Dali, a peça será transportada até o Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da UFAC, em Rio Branco, será estudada minuciosamente e pode ajudar no avanço do conhecimento. O nome de Geri agora vai aparecer junto com aquela parte do Purussaurus. Esse é um dos raros casos em que a identidade de quem localizou um fóssil é conhecida e documentada, diz o pesquisador.
"Existe uma parcela do trabalho de campo que acaba sendo feito por pessoas que não são formalmente paleontólogos, que ficam como invisíveis, e que, às vezes, não aparecem nem nos agradecimentos", afirma D'Apólito.
Feliz com o reconhecimento e especialista na navegação daquele trecho do Purus, Geri diz ter certeza de que há mais para ser revelado de onde ele retirou aquelas vértebras.
Perto do local, um grupo de sete pesquisadores concentra as buscas por vestígios de vidas passadas. Eles fazem parte da expedição liderada por D'Apólito e se surpreendem a cada remexida na terra.
A temporada seca na Amazônia é a época em que os paleontólogos deixam os laboratórios e saem para a coleta com boas chances de localizarem fósseis nas margens expostas. O nível do Purus nesta temporada está bem abaixo da média, dizem os barqueiros que transportavam a equipe durante os três dias de campo. O Brasil enfrenta atualmente a maior seca da história, segundo o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden).
Outras partes do jacaré gigante estão por ali: vértebras isoladas, crânio, dentes. A espécie, chamada de Purussaurus brasiliensis, o "réptil brasileiro do rio Purus", foi batizada pelo botânico João Barbosa Rodrigues, em 1892. Ele fez a descrição a partir de um pedaço de mandíbula encontrado nas barrancas, mas, até hoje, não se sabe bem em que circunstâncias o fóssil foi encontrado e sua localidade exata.
Os pesquisadores desta expedição sabem bem onde estão. As buscas acontecem perto de uma faixa de terra reivindicada pelo povo Apurinã. Acostumados a ver fósseis ali quando o rio baixa, os indígenas acreditam que são ossadas antigas despejadas por uma cobra gigante que devora animais e que se esconde no Purus.
Sentado no barranco, Edson Guilherme, professor da UFAC, se espanta com o que acaba de desenterrar. É o crânio de uma tartaruga com duas órbitas oculares, narina e mandíbula associada – uma espécie ainda desconhecida da ciência. "Somos os primeiros seres humanos a ver o crânio desta espécie no mundo. Isso é emocionante", diz Guilherme, embalando o fóssil com cuidado para que resista ao transporte.
Camila Inara Silva, aluna de mestrado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é a estreante da turma. As aulas em campo com os mais experientes fazem ela ter certeza de que a paleontologia é o caminho que quer seguir.
Portal para o tempo
O veterano Alceu Ranzi também se impressiona com o crânio inédito encontrado. Aposentado depois de atuar mais de trinta anos na UFAC, ele acompanha o grupo que reúne várias gerações de paleontólogos dedicados a decifrar as espécies extintas e soterradas debaixo da Floresta Amazônica.
O local onde Ranzi caminha é um afloramento de uma deposição do Mioceno, período geológico que a Terra viveu entre 23 milhões e 5 milhões de anos atrás. O planeta estava mais quente e esta região amazônica era um grande pantanal, com lagos imensos que abrigavam Purussaurus e outros gigantes. Com fragmentos fósseis na mão, Ranzi imagina o cenário em que esses animais conviviam – ou competiam. "Estamos caminhando no fundo de um grande lago. Aqui tinha uma fauna riquíssima: jacarés, tartarugas, preguiças, roedores, todos gigantes", diz Ranzi.
No Mioceno, os dinossauros tinham sido extintos há cerca de 40 milhões de anos. Os seres humanos ainda não existiam. Os crocodilos, que dividiram o terreno com os dinossauros e são parentes do Purussaurus, se adaptaram e sobreviveram, assim como os grandes mamíferos. A Floresta Amazônica exuberante, possivelmente, ainda não existia.
"Quando esta água dos grandes lagos drenou e os rios se formaram, se encaminharam descendo dos Andes até o Atlântico, esta área perdeu a umidade e a floresta cobriu tudo. Só ficou o caminho dos rios atuais", explica Ranzi.
Ele segura agora parte do fêmur de uma preguiça gigante. Ela pesava várias toneladas, caminhava pelo chão e era herbívora. Diversas espécies desses animais terrícolas gigantes existiram por milhões de anos, inclusive na época do Purussaurus.
"Ela possivelmente veio tomar água neste lago e um Purussaurus estava à espreita e a devorou. É por isso que aparecem fossilizadas dentro de um lago – porque esse não é o ambiente delas. Elas foram trazidas ou predadas aqui", imagina Ranzi.
De todas as preguiças conhecidas, a Eremotherium laurillardi foi a maior. Ela pesava cerca de cinco toneladas e media aproximadamente seis metros de comprimento. Em pé, alcançava quase cinco metros de altura. Essa espécie viveu num período mais "recente" da história da Terra, entre 2,6 milhões e 10 mil anos atrás.
São partes desse animal que D'Apólito recebe em caixas de papelão em Boca do Acre durante a expedição. Elas foram localizadas por um casal de idosos na comunidade de Maracaju 2, a cinco horas de barco da cidade na época seca. Eles encaminharam os fósseis para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), que guardou as peças até a chegada dos pesquisadores.
A tíbia bem conservada da Eremotherium laurillardi impressiona e intriga os moradores da cidade que assistem à cena da entrega às margens do Purus. D'Apólito explica à plateia curiosa que aquela preguiça gigante andou por ali e chegou a conviver com seres humanos. A reação em coro é: "Uau".
Desta vez, o pesquisador não consegue visitar os coletores desses fragmentos devido à distância, mas responde à curiosidade dos ribeirinhos. "É uma preguiça que estava aqui por volta de 20, 15, 10 mil anos atrás. E eles eram grandes, muito grandes. Muito obrigado pelos fósseis, pela coleta, nós recebemos o material", diz a mensagem de voz enviada ao casal ribeirinho.
Passado esclarecido para entender o futuro
Foram doações como essa que iniciaram a coleção que o laboratório da UFAC mantém desde meados dos anos de 1970. Muitas das atuais 10 mil peças foram recebidas por Jonas Pereira de Souza Filho, paleontólogo aposentado e ex-reitor da universidade.
Aluno de Ranzi, Souza Filho fez seu primeiro trabalho de campo em 1986 na fronteira com o Peru e teve uma grande estreia: encontrou o crânio de Purussaurus mais completo que se conhecia. O fóssil, hoje exposto no museu da universidade, foi retirado com ajuda das marteladas de Marinho, como o grupo chamava o barqueiro local que guiava a expedição.
"Até então, os fósseis na Amazônia eram explorados apenas por pessoas que vinham de fora, levavam as peças e não deixavam registros no local. Nós começamos a colocar a paleontologia da Amazônia no mapa do Brasil e do mundo", avalia o acreano Souza Filho, lembrando o trabalho pioneiro do professor Ranzi.
Na ânsia de decifrar a história da vida na Amazônia, os pesquisadores também conseguem compreender melhor o presente e até projetar o futuro. A ciência mostra, por exemplo, que mudanças climáticas ocorreram antes da presença do homem no planeta, mas nada se compara ao que tem acontecido na Terra desde a era industrial. A temperatura média global subiu 1,4°C nos últimos 200 anos e o clima está se alterando rápido demais.
"Não dá tempo de a natureza acompanhar a evolução e ir se adaptando. Aconteceu algo no tempo dos dinossauros tão grave que eles não conseguiram se adaptar. A mudança hoje é tão grande que tudo está sucumbindo. O perigo é de levar à extinção, e não à adaptação. E o que foi extinto não retorna mais", pontua Ranzi.
Em sua comunidade às margens do Purus, Geri se preocupa ao ver o rio tão seco, o calor excessivo e a fumaça constante das queimadas. Ele diz que a descoberta do fóssil do Purussaurus reacendeu nele o antigo desejo de estudar para entender como este passado se relaciona com o momento atual.
"É um sonho. Preciso fazer uma faculdade para me especializar na área. Terminei o ensino médio com mais de 30 anos e me sentia velho para fazer uma faculdade. Mas esse encontro fez eu voltar a ter esperanças", diz.
"Eu vi aquela parte de osso e sabia que não era do nosso tempo", conta Geri, como é conhecido na região.
No quintal de sua casa, ele acompanha atentamente a explicação de tudo o que a ciência feita na Amazônia já registrou sobre aquela espécie. Quem relata as descobertas científicas é Carlos D'Apólito, professor do Centro de Ciências Biológicas e da Natureza da Universidade Federal do Acre (UFAC), que fez questão de ir até a comunidade resgatar o fóssil e compartilhar o conhecimento.
"São três vértebras articuladas. Não é comum achá-las assim, uma do lado da outra", diz D'Apólito sob o pé carregado de limão. "Isso pode ajudar a ciência a entender melhor a anatomia da espécie, entender em que parte da coluna vertebral ela estaria", continua.
Dali, a peça será transportada até o Laboratório de Pesquisas Paleontológicas da UFAC, em Rio Branco, será estudada minuciosamente e pode ajudar no avanço do conhecimento. O nome de Geri agora vai aparecer junto com aquela parte do Purussaurus. Esse é um dos raros casos em que a identidade de quem localizou um fóssil é conhecida e documentada, diz o pesquisador.
"Existe uma parcela do trabalho de campo que acaba sendo feito por pessoas que não são formalmente paleontólogos, que ficam como invisíveis, e que, às vezes, não aparecem nem nos agradecimentos", afirma D'Apólito.
Feliz com o reconhecimento e especialista na navegação daquele trecho do Purus, Geri diz ter certeza de que há mais para ser revelado de onde ele retirou aquelas vértebras.
Perto do local, um grupo de sete pesquisadores concentra as buscas por vestígios de vidas passadas. Eles fazem parte da expedição liderada por D'Apólito e se surpreendem a cada remexida na terra.
A temporada seca na Amazônia é a época em que os paleontólogos deixam os laboratórios e saem para a coleta com boas chances de localizarem fósseis nas margens expostas. O nível do Purus nesta temporada está bem abaixo da média, dizem os barqueiros que transportavam a equipe durante os três dias de campo. O Brasil enfrenta atualmente a maior seca da história, segundo o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden).
Outras partes do jacaré gigante estão por ali: vértebras isoladas, crânio, dentes. A espécie, chamada de Purussaurus brasiliensis, o "réptil brasileiro do rio Purus", foi batizada pelo botânico João Barbosa Rodrigues, em 1892. Ele fez a descrição a partir de um pedaço de mandíbula encontrado nas barrancas, mas, até hoje, não se sabe bem em que circunstâncias o fóssil foi encontrado e sua localidade exata.
Os pesquisadores desta expedição sabem bem onde estão. As buscas acontecem perto de uma faixa de terra reivindicada pelo povo Apurinã. Acostumados a ver fósseis ali quando o rio baixa, os indígenas acreditam que são ossadas antigas despejadas por uma cobra gigante que devora animais e que se esconde no Purus.
Sentado no barranco, Edson Guilherme, professor da UFAC, se espanta com o que acaba de desenterrar. É o crânio de uma tartaruga com duas órbitas oculares, narina e mandíbula associada – uma espécie ainda desconhecida da ciência. "Somos os primeiros seres humanos a ver o crânio desta espécie no mundo. Isso é emocionante", diz Guilherme, embalando o fóssil com cuidado para que resista ao transporte.
Camila Inara Silva, aluna de mestrado da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), é a estreante da turma. As aulas em campo com os mais experientes fazem ela ter certeza de que a paleontologia é o caminho que quer seguir.
Portal para o tempo
O veterano Alceu Ranzi também se impressiona com o crânio inédito encontrado. Aposentado depois de atuar mais de trinta anos na UFAC, ele acompanha o grupo que reúne várias gerações de paleontólogos dedicados a decifrar as espécies extintas e soterradas debaixo da Floresta Amazônica.
O local onde Ranzi caminha é um afloramento de uma deposição do Mioceno, período geológico que a Terra viveu entre 23 milhões e 5 milhões de anos atrás. O planeta estava mais quente e esta região amazônica era um grande pantanal, com lagos imensos que abrigavam Purussaurus e outros gigantes. Com fragmentos fósseis na mão, Ranzi imagina o cenário em que esses animais conviviam – ou competiam. "Estamos caminhando no fundo de um grande lago. Aqui tinha uma fauna riquíssima: jacarés, tartarugas, preguiças, roedores, todos gigantes", diz Ranzi.
No Mioceno, os dinossauros tinham sido extintos há cerca de 40 milhões de anos. Os seres humanos ainda não existiam. Os crocodilos, que dividiram o terreno com os dinossauros e são parentes do Purussaurus, se adaptaram e sobreviveram, assim como os grandes mamíferos. A Floresta Amazônica exuberante, possivelmente, ainda não existia.
"Quando esta água dos grandes lagos drenou e os rios se formaram, se encaminharam descendo dos Andes até o Atlântico, esta área perdeu a umidade e a floresta cobriu tudo. Só ficou o caminho dos rios atuais", explica Ranzi.
Ele segura agora parte do fêmur de uma preguiça gigante. Ela pesava várias toneladas, caminhava pelo chão e era herbívora. Diversas espécies desses animais terrícolas gigantes existiram por milhões de anos, inclusive na época do Purussaurus.
"Ela possivelmente veio tomar água neste lago e um Purussaurus estava à espreita e a devorou. É por isso que aparecem fossilizadas dentro de um lago – porque esse não é o ambiente delas. Elas foram trazidas ou predadas aqui", imagina Ranzi.
De todas as preguiças conhecidas, a Eremotherium laurillardi foi a maior. Ela pesava cerca de cinco toneladas e media aproximadamente seis metros de comprimento. Em pé, alcançava quase cinco metros de altura. Essa espécie viveu num período mais "recente" da história da Terra, entre 2,6 milhões e 10 mil anos atrás.
São partes desse animal que D'Apólito recebe em caixas de papelão em Boca do Acre durante a expedição. Elas foram localizadas por um casal de idosos na comunidade de Maracaju 2, a cinco horas de barco da cidade na época seca. Eles encaminharam os fósseis para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio), que guardou as peças até a chegada dos pesquisadores.
A tíbia bem conservada da Eremotherium laurillardi impressiona e intriga os moradores da cidade que assistem à cena da entrega às margens do Purus. D'Apólito explica à plateia curiosa que aquela preguiça gigante andou por ali e chegou a conviver com seres humanos. A reação em coro é: "Uau".
Desta vez, o pesquisador não consegue visitar os coletores desses fragmentos devido à distância, mas responde à curiosidade dos ribeirinhos. "É uma preguiça que estava aqui por volta de 20, 15, 10 mil anos atrás. E eles eram grandes, muito grandes. Muito obrigado pelos fósseis, pela coleta, nós recebemos o material", diz a mensagem de voz enviada ao casal ribeirinho.
Passado esclarecido para entender o futuro
Foram doações como essa que iniciaram a coleção que o laboratório da UFAC mantém desde meados dos anos de 1970. Muitas das atuais 10 mil peças foram recebidas por Jonas Pereira de Souza Filho, paleontólogo aposentado e ex-reitor da universidade.
Aluno de Ranzi, Souza Filho fez seu primeiro trabalho de campo em 1986 na fronteira com o Peru e teve uma grande estreia: encontrou o crânio de Purussaurus mais completo que se conhecia. O fóssil, hoje exposto no museu da universidade, foi retirado com ajuda das marteladas de Marinho, como o grupo chamava o barqueiro local que guiava a expedição.
"Até então, os fósseis na Amazônia eram explorados apenas por pessoas que vinham de fora, levavam as peças e não deixavam registros no local. Nós começamos a colocar a paleontologia da Amazônia no mapa do Brasil e do mundo", avalia o acreano Souza Filho, lembrando o trabalho pioneiro do professor Ranzi.
Na ânsia de decifrar a história da vida na Amazônia, os pesquisadores também conseguem compreender melhor o presente e até projetar o futuro. A ciência mostra, por exemplo, que mudanças climáticas ocorreram antes da presença do homem no planeta, mas nada se compara ao que tem acontecido na Terra desde a era industrial. A temperatura média global subiu 1,4°C nos últimos 200 anos e o clima está se alterando rápido demais.
"Não dá tempo de a natureza acompanhar a evolução e ir se adaptando. Aconteceu algo no tempo dos dinossauros tão grave que eles não conseguiram se adaptar. A mudança hoje é tão grande que tudo está sucumbindo. O perigo é de levar à extinção, e não à adaptação. E o que foi extinto não retorna mais", pontua Ranzi.
Em sua comunidade às margens do Purus, Geri se preocupa ao ver o rio tão seco, o calor excessivo e a fumaça constante das queimadas. Ele diz que a descoberta do fóssil do Purussaurus reacendeu nele o antigo desejo de estudar para entender como este passado se relaciona com o momento atual.
"É um sonho. Preciso fazer uma faculdade para me especializar na área. Terminei o ensino médio com mais de 30 anos e me sentia velho para fazer uma faculdade. Mas esse encontro fez eu voltar a ter esperanças", diz.
quarta-feira, 4 de setembro de 2024
Linguagem e economia
No livro “Power”, publicado em 1938, o filósofo e matemático Bertrand Russel observou: “A economia como uma ciência separada é irrealista e enganosa, se tomada como um guia na prática. É um elemento - um elemento muito importante, é verdade - de um estudo mais amplo, a ciência do poder”.
Entre os poderes da economia, brilha de forma intensa o Poder Performático da Linguagem. Apoiado no linguista John Austen, Christian Marazzi em seu livro “Capitale e Linguaggio” cuida das marchas e contramarchas da finança dos últimos 40 anos. Marazzi sublinha a natureza performativa da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros, indicando que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve e muito menos “analisa objetivamente” um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente significados “reais”.
As comunicações entre os bancos centrais e os mercados financeiros são exemplos da “produção de realidade” pela linguagem. O domínio da finança, ou seja, o capitalismo reafirmado segundo sua “natureza” produziu o que Christian Marazzi chamou de “metamorfose antropológica do indivíduo pós-moderno”.
Diz Marazzi: é relativamente simples descrever o comportamento mimético-comunicativo das convenções coletivas típicas dos mercados financeiros. No capítulo XII da Teoria Geral, Keynes se vale dos concursos de beleza promovidos pelos jornais para descrever a formação de convenções nos mercados de ativos.
Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue ao participante cuja escolha esteja mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada um dos participantes, mas, sim de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião média dos participantes do torneio.
Keynes introduz, assim, na teoria econômica, as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução pelos indivíduos convencidos de sua autodeterminação, mas, de fato, enredados no comportamento de manada.
Keynes, na esteira de Freud, introduz as configurações subjetivas produzidas pelas interações dos indivíduos no ecúmeno social das “economias de mercado”. O afã de realizar sem perdas o valor dos ativos se esbate no fragor das insuspeitadas e caprichosas evoluções e involuções da opinião coletiva. Os fâmulos dos mercados passam da euforia à depressão. É implacável o constrangimento dos indivíduos dos mercados, sempre amestrados sob o guante da conversão de seus valores particulares em dinheiro, a forma geral da riqueza.
Nesse percurso, o comportamento mimético dá origem, em suas conjeturas imitativas, a situações nas quais a busca coletiva da liquidez culmina na decepção de todos. A âncora que sustenta precariamente as ariscas subjetividades atormentadas pela incerteza da liquidez está lançada nas areias movediças da peculiar “sociabilidade” do capitalismo financeiro.
No livro “Capitalisme et Pulsion de Mort”, Gilles Dostaler e Bernard Maris afirmam que nem Freud, nem Keynes acreditam na fábula da racionalidade do indivíduo, tão cara aos economistas. “O indivíduo está imerso na multidão inquieta, frustrada, insaciável, sobre a qual pesa essa imensa pressão cultural, esse movimento ilimitado da acumulação...”.
A metamorfose do indivíduo pós-moderno aludida por Marazzi é um “salto de qualidade” no comportamento mimético examinado por Keynes. Os “avanços” nas formas de comunicação promovidas pelo desenvolvimento da mídia de massas e o uso das tecnologias de informação tornaram mais rápida e eficazmente perigosa a linguagem do dinheiro.
“Avanços” nas formas de comunicação tornaram mais rápida e eficazmente perigosa a linguagem do dinheiro
Marazzi afirma que “a racionalidade econômica governa a sociedade. Ela se impõe às outras formas de pensamento, a todos os outros modos de vida possíveis e determina a forma política mais adequada para representá-la funcionalmente”.
Na mídia impressa e na eletrônica, as matérias de negócios e economia disseminam os fetiches dos mercados financeiros “eficientes” embuçados na linguagem do saber técnico e esotérico. Os comunicadores “falam” a língua articulada conforme as regras gramaticais dos mercados. Assim, o capitalismo investido em sua roupagem financeira cumpre a missão de “administrar” a constelação de significantes à procura de significados, submetendo os cidadãos-espectadores aos infortúnios da domesticação e da homogeneização, decretados pelo “coletivismo de mercado”.
Os mercados de ativos da economia destravada não obedecem a normas da “eficiência alocativa” fundada na hipótese das expectativas racionais. Permanentemente à beira dos abismos da iliquidez, os possuidores de riqueza entregam-se ao comportamento mimético, próprio dos movimentos da manada.
A Psicologia das Massas de Sigmund Freud é um guia valioso para quem pretende compreender a sociedades contemporâneas. “A massa é extraordinariamente influenciável e crédula; é desprovida de crítica; para ela, o improvável não existe. Ela pensa por imagens que se evocam associativamente umas às outras, tal como ocorre ao indivíduo nos estados do livre fantasiar, e nenhuma instância razoável afere sua correspondência com a realidade. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exagerados. Assim, a massa não conhece nem a dúvida nem a incerteza. Ela vai logo ao extremo; a suspeita manifestada logo se transforma em certeza irrefutável, um germe de antipatia se transforma em ódio selvagem”.
Um amigo sugeriu a leitura do Estouro da Boiada, abrigada em Os Sertões, obra prima de Euclides da Cunha. Aí vai um excerto:
“De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, traçam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura...”.
A boiada arranca.
Entre os poderes da economia, brilha de forma intensa o Poder Performático da Linguagem. Apoiado no linguista John Austen, Christian Marazzi em seu livro “Capitale e Linguaggio” cuida das marchas e contramarchas da finança dos últimos 40 anos. Marazzi sublinha a natureza performativa da linguagem do dinheiro e dos mercados financeiros, indicando que a linguagem dos mercados financeiros contemporâneos não descreve e muito menos “analisa objetivamente” um determinado estado de coisas, mas produz imediatamente significados “reais”.
As comunicações entre os bancos centrais e os mercados financeiros são exemplos da “produção de realidade” pela linguagem. O domínio da finança, ou seja, o capitalismo reafirmado segundo sua “natureza” produziu o que Christian Marazzi chamou de “metamorfose antropológica do indivíduo pós-moderno”.
Diz Marazzi: é relativamente simples descrever o comportamento mimético-comunicativo das convenções coletivas típicas dos mercados financeiros. No capítulo XII da Teoria Geral, Keynes se vale dos concursos de beleza promovidos pelos jornais para descrever a formação de convenções nos mercados de ativos.
Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue ao participante cuja escolha esteja mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada um dos participantes, mas, sim de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião média dos participantes do torneio.
Keynes introduz, assim, na teoria econômica, as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução pelos indivíduos convencidos de sua autodeterminação, mas, de fato, enredados no comportamento de manada.
Keynes, na esteira de Freud, introduz as configurações subjetivas produzidas pelas interações dos indivíduos no ecúmeno social das “economias de mercado”. O afã de realizar sem perdas o valor dos ativos se esbate no fragor das insuspeitadas e caprichosas evoluções e involuções da opinião coletiva. Os fâmulos dos mercados passam da euforia à depressão. É implacável o constrangimento dos indivíduos dos mercados, sempre amestrados sob o guante da conversão de seus valores particulares em dinheiro, a forma geral da riqueza.
Nesse percurso, o comportamento mimético dá origem, em suas conjeturas imitativas, a situações nas quais a busca coletiva da liquidez culmina na decepção de todos. A âncora que sustenta precariamente as ariscas subjetividades atormentadas pela incerteza da liquidez está lançada nas areias movediças da peculiar “sociabilidade” do capitalismo financeiro.
No livro “Capitalisme et Pulsion de Mort”, Gilles Dostaler e Bernard Maris afirmam que nem Freud, nem Keynes acreditam na fábula da racionalidade do indivíduo, tão cara aos economistas. “O indivíduo está imerso na multidão inquieta, frustrada, insaciável, sobre a qual pesa essa imensa pressão cultural, esse movimento ilimitado da acumulação...”.
A metamorfose do indivíduo pós-moderno aludida por Marazzi é um “salto de qualidade” no comportamento mimético examinado por Keynes. Os “avanços” nas formas de comunicação promovidas pelo desenvolvimento da mídia de massas e o uso das tecnologias de informação tornaram mais rápida e eficazmente perigosa a linguagem do dinheiro.
“Avanços” nas formas de comunicação tornaram mais rápida e eficazmente perigosa a linguagem do dinheiro
Marazzi afirma que “a racionalidade econômica governa a sociedade. Ela se impõe às outras formas de pensamento, a todos os outros modos de vida possíveis e determina a forma política mais adequada para representá-la funcionalmente”.
Na mídia impressa e na eletrônica, as matérias de negócios e economia disseminam os fetiches dos mercados financeiros “eficientes” embuçados na linguagem do saber técnico e esotérico. Os comunicadores “falam” a língua articulada conforme as regras gramaticais dos mercados. Assim, o capitalismo investido em sua roupagem financeira cumpre a missão de “administrar” a constelação de significantes à procura de significados, submetendo os cidadãos-espectadores aos infortúnios da domesticação e da homogeneização, decretados pelo “coletivismo de mercado”.
Os mercados de ativos da economia destravada não obedecem a normas da “eficiência alocativa” fundada na hipótese das expectativas racionais. Permanentemente à beira dos abismos da iliquidez, os possuidores de riqueza entregam-se ao comportamento mimético, próprio dos movimentos da manada.
A Psicologia das Massas de Sigmund Freud é um guia valioso para quem pretende compreender a sociedades contemporâneas. “A massa é extraordinariamente influenciável e crédula; é desprovida de crítica; para ela, o improvável não existe. Ela pensa por imagens que se evocam associativamente umas às outras, tal como ocorre ao indivíduo nos estados do livre fantasiar, e nenhuma instância razoável afere sua correspondência com a realidade. Os sentimentos da massa são sempre muito simples e muito exagerados. Assim, a massa não conhece nem a dúvida nem a incerteza. Ela vai logo ao extremo; a suspeita manifestada logo se transforma em certeza irrefutável, um germe de antipatia se transforma em ódio selvagem”.
Um amigo sugeriu a leitura do Estouro da Boiada, abrigada em Os Sertões, obra prima de Euclides da Cunha. Aí vai um excerto:
“De súbito, porém, ondula um frêmito sulcando, num estremeção repentino, aqueles centenares de dorsos luzidios. Há uma parada instantânea. Entrebatem-se, enredam-se, traçam-se e alteiam-se fisgando vivamente o espaço, e inclinam-se, embaralham-se milhares de chifres. Vibra uma trepidação no solo; e a boiada estoura...”.
A boiada arranca.
Os donos do planeta
O conflito entre o poder nacional brasileiro, representado por sua corte suprema, e o poder individual da empresa X (antigo Twitter) faz lembrar o capítulo “Os donos do planeta” no livro "A Cortina de Ouro: os sustos do final do século e um sonho para o próximo”, publicado há trinta anos. Nele está escrito:
“O século XX parecia fadado a inscrever-se na história como a era da descolonização. Todos os países colonizados iniciaram movimentos de independência das metrópoles. Mas o colonialismo reafirmou-se sob nova forma: a debilitação dos Estados nacionais e a universalização de uma metrópole sem nação, espalhada por todo o mundo e separada de todos os excluídos, independentemente do país onde estejam.”….
“Em lugar da esperada descolonização, no final do século XX descobre-se que a Terra foi apropriada por um reduzido grupo de donos do planeta que controlam a informática, os meios financeiros, a informação. A integração internacional e o papel do saber como elemento chave do processo produtivo contemporâneo fizeram com que um pequeno grupo de pessoas tivesse um poder que nunca antes, nenhum outro grupo tivera. Diariamente, em cadeia mundial, esse seleto grupo mobiliza trilhões de dólares, define o que será informado e quais interpretações dessas informações chegarão à totalidade dos habitantes do planeta. Eles controlam o dinheiro, controlam as mentes e o processo produtivo e continuarão a fazê-lo ao longo das próximas décadas. Para surpresa de todos, entre eles não há um único chefe de Estado ou de governo.”….
“Neste fim do século XX, os homens mais influentes do mundo são indivíduos que jamais se submeteram ao voto, que nunca legitimaram seu poder diante da população e, sobretudo, são pessoas cujo poder não se limita nem tem interesses coincidentes com nenhuma nação.
No começo do século XX, o poder dos Rockfeller e dos Ford, construído ao longo de vidas e mesmo gerações, ficava restrito a uma parte limitada da sociedade planetária e os seus impérios estavam de certa forma subordinados aos interesses nacionais de seus países. Para terem poder em uma parte do mundo, tinham que conquistar o poder político em seus países. Bem diferente é o cenário atual, em que os donos do planeta são jovens que em poucos anos estenderam o poder ao longo de um mundo que eles se acostumaram a tratar de forma integrada, sem necessidade de poder ou legitimidade políticos no âmbito dos Estados nacionais que já não conseguem incorporar conceitualmente grande parte dos novos problemas.”….
“Paralelamente ao pequeno grupo que se fez dono do planeta para além das fronteiras nacionais, dentro de cada país, políticos nacionais detêm o poder político específico de suas sociedades, incapazes de oferecer respostas globais mesmo quando têm o sentimento do mundo. O final do século XX descobriu o planeta, mas ficou prisioneiro dos interesses de uns poucos proprietários privados e da política de cada líder nacional em particular. Nenhum deles com sentimento, lógica, propósitos e instrumentos que captem a globalidade dos problemas e dos objetivos da civilização, que indiquem a complexidade da crise e o potencial das alternativas que se abrem diante da humanidade.”….
“No início desta década de 1990 o mundo viu a majestosa reunião da Eco92 no Rio de Janeiro. Mais de cem chefes de Estado e de governo se reuniram para discutir o futuro do planeta. Mas cada um deles estava limitado ao sentimento político nacional de sua respectiva nação. Embora talvez desejassem uma solução global para o planeta, seus eleitores eram somente os cidadãos dos países que representavam, e ainda que haja a percepção da crise, a lógica dos interesses de cada indivíduo e de cada país não capta a dimensão dos problemas globais que o final do século apresenta.”….
“Longe de destruir o colonialismo e criar uma sociedade planetária unificada, o fim do século XX mostra uma guerra de civilizações do ponto de vista econômico, entre a elite rica do mundo inteiro contra os pobres do mundo inteiro; do ponto de vista ideológico, entre a cultura ocidental e pensamentos autônomos ainda resistentes; do ponto de vista ecológico, entre os ricos proprietários de toda a Terra e os demais pobres deserdados que a habitam.”….
“Diante da força dos donos do planeta, o poder político de Estado ficou impotente ou mesmo arcaico e obsoleto. O secretário-geral das Nações Unidas definiu isso ao dizer: ‘A realidade do poder mundial escapa largamente aos Estados. A globalização implica a emergência de novos poderes que transcendem as estruturas estatais.’”….
“No lugar de um mundo descolonizado, os homens do fim do século XX e início do XXI testemunham assustados a reafirmação de um novo colonialismo, sem metrópole nacional, comandado por redes privadas, por máfias, pelos donos do planeta: pelos que dissolvem as nações.”….
Quando o livro A Cortina de Ouro foi publicado, em 1994, Elon Musk tinha 23 e Alexandre de Moraes 26 anos. O primeiro é hoje um dos donos do planeta e usa “drones e mísseis”, o outro nos representa tentando defender o Brasil usando “capa e espada”, em uma guerra que vai durar ainda mais tempo do que os trinta anos desde a publicação do “Cortina de Ouro”.
“O século XX parecia fadado a inscrever-se na história como a era da descolonização. Todos os países colonizados iniciaram movimentos de independência das metrópoles. Mas o colonialismo reafirmou-se sob nova forma: a debilitação dos Estados nacionais e a universalização de uma metrópole sem nação, espalhada por todo o mundo e separada de todos os excluídos, independentemente do país onde estejam.”….
“Neste fim do século XX, os homens mais influentes do mundo são indivíduos que jamais se submeteram ao voto, que nunca legitimaram seu poder diante da população e, sobretudo, são pessoas cujo poder não se limita nem tem interesses coincidentes com nenhuma nação.
No começo do século XX, o poder dos Rockfeller e dos Ford, construído ao longo de vidas e mesmo gerações, ficava restrito a uma parte limitada da sociedade planetária e os seus impérios estavam de certa forma subordinados aos interesses nacionais de seus países. Para terem poder em uma parte do mundo, tinham que conquistar o poder político em seus países. Bem diferente é o cenário atual, em que os donos do planeta são jovens que em poucos anos estenderam o poder ao longo de um mundo que eles se acostumaram a tratar de forma integrada, sem necessidade de poder ou legitimidade políticos no âmbito dos Estados nacionais que já não conseguem incorporar conceitualmente grande parte dos novos problemas.”….
“Paralelamente ao pequeno grupo que se fez dono do planeta para além das fronteiras nacionais, dentro de cada país, políticos nacionais detêm o poder político específico de suas sociedades, incapazes de oferecer respostas globais mesmo quando têm o sentimento do mundo. O final do século XX descobriu o planeta, mas ficou prisioneiro dos interesses de uns poucos proprietários privados e da política de cada líder nacional em particular. Nenhum deles com sentimento, lógica, propósitos e instrumentos que captem a globalidade dos problemas e dos objetivos da civilização, que indiquem a complexidade da crise e o potencial das alternativas que se abrem diante da humanidade.”….
“No início desta década de 1990 o mundo viu a majestosa reunião da Eco92 no Rio de Janeiro. Mais de cem chefes de Estado e de governo se reuniram para discutir o futuro do planeta. Mas cada um deles estava limitado ao sentimento político nacional de sua respectiva nação. Embora talvez desejassem uma solução global para o planeta, seus eleitores eram somente os cidadãos dos países que representavam, e ainda que haja a percepção da crise, a lógica dos interesses de cada indivíduo e de cada país não capta a dimensão dos problemas globais que o final do século apresenta.”….
“Longe de destruir o colonialismo e criar uma sociedade planetária unificada, o fim do século XX mostra uma guerra de civilizações do ponto de vista econômico, entre a elite rica do mundo inteiro contra os pobres do mundo inteiro; do ponto de vista ideológico, entre a cultura ocidental e pensamentos autônomos ainda resistentes; do ponto de vista ecológico, entre os ricos proprietários de toda a Terra e os demais pobres deserdados que a habitam.”….
“Diante da força dos donos do planeta, o poder político de Estado ficou impotente ou mesmo arcaico e obsoleto. O secretário-geral das Nações Unidas definiu isso ao dizer: ‘A realidade do poder mundial escapa largamente aos Estados. A globalização implica a emergência de novos poderes que transcendem as estruturas estatais.’”….
“No lugar de um mundo descolonizado, os homens do fim do século XX e início do XXI testemunham assustados a reafirmação de um novo colonialismo, sem metrópole nacional, comandado por redes privadas, por máfias, pelos donos do planeta: pelos que dissolvem as nações.”….
Quando o livro A Cortina de Ouro foi publicado, em 1994, Elon Musk tinha 23 e Alexandre de Moraes 26 anos. O primeiro é hoje um dos donos do planeta e usa “drones e mísseis”, o outro nos representa tentando defender o Brasil usando “capa e espada”, em uma guerra que vai durar ainda mais tempo do que os trinta anos desde a publicação do “Cortina de Ouro”.
República dos bananas
A dois meses das eleições norte-americanas, compõe-se o ramalhete de homens fortes interessados na vitória de Trump: Putin, Netanyahu, Modi, Orbán, Milei, Mohammed VI e o grandioso Elon Musk. É uma festa. Ainda assim, há quem consiga ter dúvidas sobre onde faria o “X” frente aos dois quadradinhos, Kamala ou Trump, como o líder parlamentar do PSD, Hugo Soares. É possível que estejam à espera da declaração de voto do Conde Drácula.
Mas falemos de outro “X”. Esta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil ditou a suspensão do antigo Twitter, depois de Elon Musk se ter recusado a cumprir uma ordem para nomear um representante legal da plataforma no país. O veredicto surge no quadro de uma investigação sobre distribuição de notícias falsas, em que o empresário é suspeito de crimes de obstrução à justiça, organização criminosa e incitação ao crime.
Nas palavras do juiz Alexandre de Moraes, Musk tem incorrido em “conscientes e voluntários descumprimentos das ordens judiciais”, ignorado as multas e o ordenamento jurídico brasileiro, procurando “instituir um ambiente de total impunidade e de terra sem lei”. Começa a ser o padrão.
Elon Musk é figura de proa de uma ideologia de direita-radical que, mascarada de progresso, visa trazer de volta o absolutismo do séc. XVII: o poder absoluto, concentrado num homem, para fazer o que lhe der na gana. Sem essa maçada que é o escrutínio, a lei, os tribunais, os valores, os direitos dos povos ou os códigos de ética. Declarou guerra à ONU, quando o diretor do Programa Alimentar, David Beasley, desafiou os bilionários a ajudar a acabar com a fome no mundo. Declarou guerra à Comissão Europeia, por implementar leis para responsabilizar as plataformas pela desinformação e proteger a privacidade dos cidadãos europeus. Declarou guerra ao Governo britânico, apoiando extremistas e incitando à guerra civil perante os motins e a violência de extrema-direita contra cidadãos imigrantes e muçulmanos no Reino Unido. Como um miúdo mimado, o homem mais rico do mundo chora e esperneia perante as regras.
Nos últimos anos, tornou-se mainstream um discurso anti-Estado que olha para a Lei como espartilho, para os impostos como fardo, para o vizinho como inimigo. É a dita direita radical, também os temos cá. Todos os homens do ramalhete dos horrores que citei o promovem, vale a pena repescar: Trump, Putin, Netanyahu, Modi, Orbán, Milei, Mohammed VI e o magnificente Musk. Eis um velho truque dos tiranos: bradar a liberdade como valor supremo, quando na verdade advogam a sua própria liberdade para esmagar os outros. Infelizmente, a lengalenga vende numa sociedade permeada pela moral neoliberal, de que o Estado oprime e os empresários salvam. Trump e os amiguinhos são a tacada final na destruição do ideal do Estado social, para repor o bom velho medievalismo disfarçado de futuro, desta vez com smartphones e robôs.
Mas ainda vamos a tempo. Pelo menos, a tempo de não sermos os patinhos desta história. Findas as férias, há que guardar as sandálias e abrir os olhos, que eles “andem” aí – em Portugal também. Prometem força e liberdade, mas só batem nos mais pobres e nos mais frágeis. É tempo de os por na ordem. Mão firme com os tiranetes, que isto não é a República dos bananas.
Mas falemos de outro “X”. Esta semana, o Supremo Tribunal Federal (STF) do Brasil ditou a suspensão do antigo Twitter, depois de Elon Musk se ter recusado a cumprir uma ordem para nomear um representante legal da plataforma no país. O veredicto surge no quadro de uma investigação sobre distribuição de notícias falsas, em que o empresário é suspeito de crimes de obstrução à justiça, organização criminosa e incitação ao crime.
Nas palavras do juiz Alexandre de Moraes, Musk tem incorrido em “conscientes e voluntários descumprimentos das ordens judiciais”, ignorado as multas e o ordenamento jurídico brasileiro, procurando “instituir um ambiente de total impunidade e de terra sem lei”. Começa a ser o padrão.
Elon Musk é figura de proa de uma ideologia de direita-radical que, mascarada de progresso, visa trazer de volta o absolutismo do séc. XVII: o poder absoluto, concentrado num homem, para fazer o que lhe der na gana. Sem essa maçada que é o escrutínio, a lei, os tribunais, os valores, os direitos dos povos ou os códigos de ética. Declarou guerra à ONU, quando o diretor do Programa Alimentar, David Beasley, desafiou os bilionários a ajudar a acabar com a fome no mundo. Declarou guerra à Comissão Europeia, por implementar leis para responsabilizar as plataformas pela desinformação e proteger a privacidade dos cidadãos europeus. Declarou guerra ao Governo britânico, apoiando extremistas e incitando à guerra civil perante os motins e a violência de extrema-direita contra cidadãos imigrantes e muçulmanos no Reino Unido. Como um miúdo mimado, o homem mais rico do mundo chora e esperneia perante as regras.
Nos últimos anos, tornou-se mainstream um discurso anti-Estado que olha para a Lei como espartilho, para os impostos como fardo, para o vizinho como inimigo. É a dita direita radical, também os temos cá. Todos os homens do ramalhete dos horrores que citei o promovem, vale a pena repescar: Trump, Putin, Netanyahu, Modi, Orbán, Milei, Mohammed VI e o magnificente Musk. Eis um velho truque dos tiranos: bradar a liberdade como valor supremo, quando na verdade advogam a sua própria liberdade para esmagar os outros. Infelizmente, a lengalenga vende numa sociedade permeada pela moral neoliberal, de que o Estado oprime e os empresários salvam. Trump e os amiguinhos são a tacada final na destruição do ideal do Estado social, para repor o bom velho medievalismo disfarçado de futuro, desta vez com smartphones e robôs.
Mas ainda vamos a tempo. Pelo menos, a tempo de não sermos os patinhos desta história. Findas as férias, há que guardar as sandálias e abrir os olhos, que eles “andem” aí – em Portugal também. Prometem força e liberdade, mas só batem nos mais pobres e nos mais frágeis. É tempo de os por na ordem. Mão firme com os tiranetes, que isto não é a República dos bananas.
Elon Musk é um míssil geopolítico descontrolado
Apesar de toda sua riqueza e inegável brilhantismo como engenheiro e empreendedor, Musk continuará sujeito à lei dos países nos quais opera. Isso explica a crescente fúria de seus ataques verbais contra o Brasil e qualquer outro que ouse ficar em seu caminho.
Grandes empresas e bilionários costumam ficar loge de controvérsias políticas. Se exercem o poder, preferem fazê-lo nas sombras. Elon Musk é diferente.
Nas últimas semanas, ele manifestou seu apoio a Donald Trump e fez uma entrevista em tom amigável com o ex-presidente dos EUA no X, a plataforma de relacionamento social on-line pertencente a Musk. Também está envolvido em uma briga pública com o Supremo Tribunal Federal do Brasil, que na semana passada suspendeu o X. Recentemente, ele sustentou que uma guerra civil no Reino Unido é inevitável e reagiu à prisão de Pavel Durov na França com a seguinte publicação: “POV [ponto de vista]: É 2030 na Europa e você está sendo executado por curtir um meme”.
Ser dono do X deu a Musk um gigantesco megafone para transmitir seus pontos de vista. No entanto, dar atenção apenas à plataforma social on-line de Musk obscurece a real extensão e a fonte de seu poder geopolítico.
É o controle da SpaceX, da Starlink e da Tesla que tem dado a Musk um papel central na guerra na Ucrânia e na crescente rivalidade entre EUA e China; assim como uma participação coadjuvante na guerra na Faixa de Gaza.
Nesses conflitos, o papel de Musk é mais ambíguo do que nas guerras culturais do Ocidente. Suas intervenções imprevisíveis — combinadas com seu imenso poder tecnológico e financeiro — fazem dele um míssil geopolítico descontrolado, cujos caprichos são capazes dar novas formas a assuntos mundiais.
Quando a Rússia lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, um de seus primeiros objetivos foi derrubar o acesso à internet no país. Ao fornecer à Ucrânia acesso à Starlink, o serviço de internet via satélite de Musk, ele manteve as Forças Armadas do país na luta durante um momento que foi crucial.
Tempos depois, porém, Musk optou por restringir o acesso ucraniano à Starlink — para impedir quaisquer tentativas de ataque às forças russas na Crimeia. Musk justificou-se mencionando o risco de uma terceira guerra mundial. A atitude — somada à promoção por Musk de um plano de paz que incorporava algumas exigências russas — o tornou bem menos popular em Kiev. A forma como ele via os riscos de uma terceira guerra mundial, contudo, não era muito diferente à do governo Biden.
A questão na qual Musk e o governo dos EUA realmente divergem é a China. A abertura de uma imensa fábrica da Tesla em Xangai em 2019 é vista em Washington como um grande revés ao objetivo americano de continuar à frente da China em tecnologias-chave do futuro. A China agora é o maior produtor mundial de veículos elétricos (VEs) e autoridades americanas acreditam que as montadoras chinesas aprenderam — e, também, roubaram — da Tesla.
O governo Biden tenta persuadir as principais empresas de tecnologia dos EUA a se diversificarem fora da China e ficou animado no início de 2024 quando Musk programou uma visita à Índia, com a ideia de abrir uma fábrica da Tesla no país. Mas Musk cancelou a visita e apareceu em Pequim. Na China, ele anunciou a intensificação das relações da Tesla com o país. A fábrica de Xangai agora produz mais da metade dos Teslas fabricados no mundo.
Membros do governo americano observam que o apoio de Musk à liberdade de expressão — e sua disposição para insultar líderes mundiais — não se aplica à China. O X está banido na China há tempos, mas Musk é meticulosamente respeitoso com Xi Jinping, o líder ditatorial da China.
Outro líder estrangeiro que parece ter entendido como lidar com Musk é Benjamin Netanyahu, de Israel. Musk já fora acusado de promover teorias conspiratórias antissemitas no X. No entanto, o que realmente alarmou o governo de Israel foi a proposta de Musk de fornecer os serviços da Starlink a organizações de ajuda humanitária na Faixa de Gaza — o que, segundo os israelenses, ajudaria o Hamas. Após uma visita ao país em 2023, Musk concordou que só operaria a Starlink na Faixa de Gaza com a aprovação de Israel.
O governo Biden sente inquietação com muitas das atividades de Musk. Mas as empresas dele têm capacidades tecnológicas que nem o governo dos EUA tem. Para manter a Ucrânia conectada, quando Musk hesitou, o Pentágono precisou contratar a Starlink. Quando a Nasa quer transportar astronautas para a Estação Espacial Internacional ou trazê-los de volta, é a SpaceX que faz isso acontecer.
Se Musk costuma falar e agir como se fosse mais poderoso do que qualquer governo, é possível que seja assim porque, em certos aspectos, isso é verdade.
Mas os governos mantêm um poder-chave que ainda escapa a Musk: a capacidade de fazer e aplicar a lei. Tanto o confronto entre o Brasil e o X quanto a prisão de Durov na França são sinais de que a era da impunidade nas plataformas sociais on-line está chegando ao fim no mundo democrático (algo que nunca existiu no mundo autoritário).
Há cada vez mais chances de as empresas do setor serem reguladas de forma mais parecida aos meios de comunicação tradicionais, e isso tem implicações de alto custo. Em 2023, a Fox News precisou pagar US$ 787,5 milhões de dólares à Dominion Voting Systems em um acordo para encerrar acusações de difamação contra a emissora por ter divulgado teorias conspiratórias a respeito da eleição presidencial de 2020.
O X está repleto de teorias da conspiração — algumas delas promovidas pelo próprio Musk. Apesar de toda sua riqueza e inegável brilhantismo como engenheiro e empreendedor, Musk continuará estando sujeito à lei dos países nos quais opera. O fato de estar percebendo isso cada vez mais pode explicar a crescente fúria de seus ataques verbais fulminantes contra o Brasil, o Reino Unido, a União Europeia e o Estado da Califórnia — e contra qualquer outro que ouse ficar em seu caminho.
O X não é a fonte do poder de Musk. Mas pode ser o ponto em que seu poder encontra limites.
Grandes empresas e bilionários costumam ficar loge de controvérsias políticas. Se exercem o poder, preferem fazê-lo nas sombras. Elon Musk é diferente.
Nas últimas semanas, ele manifestou seu apoio a Donald Trump e fez uma entrevista em tom amigável com o ex-presidente dos EUA no X, a plataforma de relacionamento social on-line pertencente a Musk. Também está envolvido em uma briga pública com o Supremo Tribunal Federal do Brasil, que na semana passada suspendeu o X. Recentemente, ele sustentou que uma guerra civil no Reino Unido é inevitável e reagiu à prisão de Pavel Durov na França com a seguinte publicação: “POV [ponto de vista]: É 2030 na Europa e você está sendo executado por curtir um meme”.
Ser dono do X deu a Musk um gigantesco megafone para transmitir seus pontos de vista. No entanto, dar atenção apenas à plataforma social on-line de Musk obscurece a real extensão e a fonte de seu poder geopolítico.
É o controle da SpaceX, da Starlink e da Tesla que tem dado a Musk um papel central na guerra na Ucrânia e na crescente rivalidade entre EUA e China; assim como uma participação coadjuvante na guerra na Faixa de Gaza.
Nesses conflitos, o papel de Musk é mais ambíguo do que nas guerras culturais do Ocidente. Suas intervenções imprevisíveis — combinadas com seu imenso poder tecnológico e financeiro — fazem dele um míssil geopolítico descontrolado, cujos caprichos são capazes dar novas formas a assuntos mundiais.
Quando a Rússia lançou sua invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, um de seus primeiros objetivos foi derrubar o acesso à internet no país. Ao fornecer à Ucrânia acesso à Starlink, o serviço de internet via satélite de Musk, ele manteve as Forças Armadas do país na luta durante um momento que foi crucial.
Tempos depois, porém, Musk optou por restringir o acesso ucraniano à Starlink — para impedir quaisquer tentativas de ataque às forças russas na Crimeia. Musk justificou-se mencionando o risco de uma terceira guerra mundial. A atitude — somada à promoção por Musk de um plano de paz que incorporava algumas exigências russas — o tornou bem menos popular em Kiev. A forma como ele via os riscos de uma terceira guerra mundial, contudo, não era muito diferente à do governo Biden.
A questão na qual Musk e o governo dos EUA realmente divergem é a China. A abertura de uma imensa fábrica da Tesla em Xangai em 2019 é vista em Washington como um grande revés ao objetivo americano de continuar à frente da China em tecnologias-chave do futuro. A China agora é o maior produtor mundial de veículos elétricos (VEs) e autoridades americanas acreditam que as montadoras chinesas aprenderam — e, também, roubaram — da Tesla.
O governo Biden tenta persuadir as principais empresas de tecnologia dos EUA a se diversificarem fora da China e ficou animado no início de 2024 quando Musk programou uma visita à Índia, com a ideia de abrir uma fábrica da Tesla no país. Mas Musk cancelou a visita e apareceu em Pequim. Na China, ele anunciou a intensificação das relações da Tesla com o país. A fábrica de Xangai agora produz mais da metade dos Teslas fabricados no mundo.
Membros do governo americano observam que o apoio de Musk à liberdade de expressão — e sua disposição para insultar líderes mundiais — não se aplica à China. O X está banido na China há tempos, mas Musk é meticulosamente respeitoso com Xi Jinping, o líder ditatorial da China.
Outro líder estrangeiro que parece ter entendido como lidar com Musk é Benjamin Netanyahu, de Israel. Musk já fora acusado de promover teorias conspiratórias antissemitas no X. No entanto, o que realmente alarmou o governo de Israel foi a proposta de Musk de fornecer os serviços da Starlink a organizações de ajuda humanitária na Faixa de Gaza — o que, segundo os israelenses, ajudaria o Hamas. Após uma visita ao país em 2023, Musk concordou que só operaria a Starlink na Faixa de Gaza com a aprovação de Israel.
O governo Biden sente inquietação com muitas das atividades de Musk. Mas as empresas dele têm capacidades tecnológicas que nem o governo dos EUA tem. Para manter a Ucrânia conectada, quando Musk hesitou, o Pentágono precisou contratar a Starlink. Quando a Nasa quer transportar astronautas para a Estação Espacial Internacional ou trazê-los de volta, é a SpaceX que faz isso acontecer.
Se Musk costuma falar e agir como se fosse mais poderoso do que qualquer governo, é possível que seja assim porque, em certos aspectos, isso é verdade.
Mas os governos mantêm um poder-chave que ainda escapa a Musk: a capacidade de fazer e aplicar a lei. Tanto o confronto entre o Brasil e o X quanto a prisão de Durov na França são sinais de que a era da impunidade nas plataformas sociais on-line está chegando ao fim no mundo democrático (algo que nunca existiu no mundo autoritário).
Há cada vez mais chances de as empresas do setor serem reguladas de forma mais parecida aos meios de comunicação tradicionais, e isso tem implicações de alto custo. Em 2023, a Fox News precisou pagar US$ 787,5 milhões de dólares à Dominion Voting Systems em um acordo para encerrar acusações de difamação contra a emissora por ter divulgado teorias conspiratórias a respeito da eleição presidencial de 2020.
O X está repleto de teorias da conspiração — algumas delas promovidas pelo próprio Musk. Apesar de toda sua riqueza e inegável brilhantismo como engenheiro e empreendedor, Musk continuará estando sujeito à lei dos países nos quais opera. O fato de estar percebendo isso cada vez mais pode explicar a crescente fúria de seus ataques verbais fulminantes contra o Brasil, o Reino Unido, a União Europeia e o Estado da Califórnia — e contra qualquer outro que ouse ficar em seu caminho.
O X não é a fonte do poder de Musk. Mas pode ser o ponto em que seu poder encontra limites.
terça-feira, 3 de setembro de 2024
Nem luz própria
Hoje estamos vivendo em um Brasil feio. Não gosto do Brasil em que vivo hoje. Um Brasil que só fala de números. O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e nós, o povo? Nós estamos bem? Estamos seguros, respeitados? Estamos dignamente humanos? Temos uma escola boa, uma saúde boa? Temos uma segurança boa? O Brasil vai bem porque a economia vai bem. Mas e eu não conto? Sou apenas um número? Estudei na física que o planeta não tem nem luz própria. Olha que coisa terrível morar em um planeta que não tem nem luz própria. Estamos em uma periferia do cão. E para ter o dia e a noite você nem precisa de uma estrela de primeira grandeza. Uma estrela de quinta grandeza, como o Sol, serve. Resolve isso numa boa. E ainda temos alguma verdade para dizer? É só a dúvida que nos une, que nos aproxima. É só disso que precisamos. Precisamos de amparo com a nossa dúvida. E a literatura nos ampara. Tenho muito medo da verdade. Não acredito que haja nada verdadeiro. Tive um professor de filosofia, o padre Henrique Vaz, para quem eu perguntei “o que era a fé”. Ele me respondeu que a fé é a dúvida. Tem dias que você tem muita, tem dias que tem pouca, tem dias que não tem nenhuma. Isso se chama fé, porque nos é possível somente a dúvida. Hoje, estamos com muita gente encontrando a verdade. Quando uma pessoa encontra a verdade, a única coisa que ela adquire é a impossibilidade de escutar o outro. Ela só fala, não escuta mais. Quem encontra a verdade só fala.
Bartolomeu Campos de Queirós
'A saúde privada é muito mais poderosa do que a gente imagina'
Recorde de reclamações dos consumidores, denúncias de pessoas vulneráveis alvos de corte ou cancelamento unilateral de contratos, judicialização, uma CPI passeando pelo Congresso, dívidas bilionárias com hospitais e o SUS. Ao mesmo tempo, fusões e um lucro líquido de R$ 3,3 bilhões no 1º trimestre de 2024. Mesmo com tantos problemas, a saúde privada no Brasil parece intocável.
Para o pesquisador Eduardo Magalhães Rodrigues, pós-doutor em economia política pela PUC-SP, o poder econômico se expressa como poder político. E a saúde privada exemplifica o cenário de concentração de riquezas no país. As 200 maiores empresas do Brasil controlam 63.5% do PIB (dados de 2019). Entre elas, dezesseis atuam na saúde – e sete delas formam um oligopólio, que Rodrigues chama de “as sete irmãs”: Rede D´Or, DASA, Eurofarma, Notre Dame, Amil, Aché e Hapvida.
“A base do capitalismo é a concorrência, a livre iniciativa, a propriedade privada dos meios de produção – o que chamamos de mercado. Meu estudo mostra que nada disso existe. Não existe concorrência, é um oligopólio. O poder político, portanto, é de quem tem o poder econômico e são poucos com esse poder. Nesse sentido, ameaça nossa democracia”, critica.
A concentração de poder e riqueza impede o controle adequado de órgãos como a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômico). “Elas têm um poder infinito, rompem contratos unilateralmente, oferecem a qualidade de serviço que querem”. Para o pesquisador, ambas entidades são impotentes e decorativas. Ele avalia que existe no Conselho Nacional de Saúde um esforço para limitar e regulamentar o poder do setor, afinal existe uma disputa entre SUS e saúde privada. “Imaginemos um cenário onde o SUS consegue oferecer qualidade máxima, o que ia acontecer com a saúde privada? Acabou. As sete irmãs da saúde privada querem um SUS cada vez mais debilitado para aumentar a sua participação no mercado”.
Os dados de sua pesquisa são de 2019. Ela afirma que esse processo continua e talvez hoje existam “cinco ou seis irmãs”. O Bradesco e a Rede D´Or se uniram para criar uma nova rede de hospitais, a Atlântica D´Or. A Amil e a Dasa anunciaram a fusão de suas operações hospitalares e criaram uma nova empresa, a Ímpar. Sobre o poder da Rede D´Or, seu estudo aponta que ela tem participações acionárias em mais de 140 empresas, até na produção de café. Faz parte do passado a ideia de uma família ou empresa dominando parte de um setor econômico. Esse poder está pulverizado por várias áreas.
Em maio deste ano, o presidente da Câmara dos Deputados se reuniu com representantes do setor e anunciou a suspensão dos cancelamentos unilaterais. Não houve um acordo formal nem há informações sobre resultados. Depois disso, o setor apresentou sugestões para o Projeto de Lei dos planos de saúde. Entretanto, como colidem com algumas propostas do relator Duarte Jr (PSB-MA), Lira avalia retirá-lo da função. “Houve essa reunião e não se resolveu nada. Lira parece um office-boy de luxo do setor”, dispara Magalhães
O pesquisador lembra que a CPI dos Planos está parada há meses apesar da quantidade necessária de assinaturas. “Eu vejo os Três Poderes subordinados ao poder gigantesco desses grupos, como acontece na saúde. Eu acredito que o governo federal gostaria de modificar isso. A ministra da saúde é uma pessoa de extrema competência e capacidade, O governo tem a vontade mas não tem poder. No Congresso há parlamentares comprometidos, mas no geral, não vejo nem poder nem vontade. Vai sobrar para o Dino?”, provoca
A saúde privada é um recorte de sua pesquisa com as 6. 235 maiores empresas do país. As análises tradicionais miram o faturamento, lucro, número de funcionários, dívidas, entre outras variáveis, para determinar a relevância de uma empresa no mercado. Rodrigues utiliza a metodologia de Análise de Redes Sociais, que considera, por exemplo, suas conexões acionárias.
“Eu sempre gosto do exemplo de uma festa com 100 pessoas. Dentro de qualquer rede ou festa, você tem uns grupinhos, as panelinhas. Se uma pessoa tem 80 amigos, ela vai ser uma pessoa bastante importante na rede. Se há dez subgrupos e uma pessoa com uma amizade em cada um deles, ela também vai ser relevante”
São duas medidas que marcam seu estudo. O grau de saída ponderado, que considera a quantidade de empresa e ações que uma empresas possuiu sobre outras. O grau de centralidade de intermediação identifica a posição estratégica de uma empresa na rede. Ou seja, uma empresa que serve como ponte entre outras. Em ambas, a liderança é da Rede D´or no setor da na saúde privada.
O estudo teve resultados surpreendentes. A primeira hipótese é que os bancos seriam os mais poderosos. Mas o setor de energia elétrica mostrou-se o mais importante. “E no caso, a empresa mais poderosa é a Eletrobras. Assim, não foi uma coincidência sua privatização”. O segundo grupo foi o bancário. E o terceiro grupo mais poderoso, é o de saúde privada, “pra mim também foi uma surpresa, ela é muito mais poderosa do que a gente imagina”.
Rodrigues aprofunda a análise sobre o grau de concentração. “As 200 maiores empresas do Brasil controlam 63.5% do PIB. Mas eu cheguei a conclusão que das 6.235 maiores empresas, 62, ou seja 1%, controlam 25% das coleções acionárias. Só que dentro dessa elite tem uma super-elite, que são 31 empresas. Dessas 31 empresas, 15 são da energia elétrica, Certo. 9 de finanças e 7 da saúde privada. Estamos vivendo uma plutocracia, que é o governo dos ricos. E não descarto a possibilidade de todos os setores se transformem em monopólios”, conclui.
Para o pesquisador Eduardo Magalhães Rodrigues, pós-doutor em economia política pela PUC-SP, o poder econômico se expressa como poder político. E a saúde privada exemplifica o cenário de concentração de riquezas no país. As 200 maiores empresas do Brasil controlam 63.5% do PIB (dados de 2019). Entre elas, dezesseis atuam na saúde – e sete delas formam um oligopólio, que Rodrigues chama de “as sete irmãs”: Rede D´Or, DASA, Eurofarma, Notre Dame, Amil, Aché e Hapvida.
“A base do capitalismo é a concorrência, a livre iniciativa, a propriedade privada dos meios de produção – o que chamamos de mercado. Meu estudo mostra que nada disso existe. Não existe concorrência, é um oligopólio. O poder político, portanto, é de quem tem o poder econômico e são poucos com esse poder. Nesse sentido, ameaça nossa democracia”, critica.
A concentração de poder e riqueza impede o controle adequado de órgãos como a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômico). “Elas têm um poder infinito, rompem contratos unilateralmente, oferecem a qualidade de serviço que querem”. Para o pesquisador, ambas entidades são impotentes e decorativas. Ele avalia que existe no Conselho Nacional de Saúde um esforço para limitar e regulamentar o poder do setor, afinal existe uma disputa entre SUS e saúde privada. “Imaginemos um cenário onde o SUS consegue oferecer qualidade máxima, o que ia acontecer com a saúde privada? Acabou. As sete irmãs da saúde privada querem um SUS cada vez mais debilitado para aumentar a sua participação no mercado”.
Os dados de sua pesquisa são de 2019. Ela afirma que esse processo continua e talvez hoje existam “cinco ou seis irmãs”. O Bradesco e a Rede D´Or se uniram para criar uma nova rede de hospitais, a Atlântica D´Or. A Amil e a Dasa anunciaram a fusão de suas operações hospitalares e criaram uma nova empresa, a Ímpar. Sobre o poder da Rede D´Or, seu estudo aponta que ela tem participações acionárias em mais de 140 empresas, até na produção de café. Faz parte do passado a ideia de uma família ou empresa dominando parte de um setor econômico. Esse poder está pulverizado por várias áreas.
Em maio deste ano, o presidente da Câmara dos Deputados se reuniu com representantes do setor e anunciou a suspensão dos cancelamentos unilaterais. Não houve um acordo formal nem há informações sobre resultados. Depois disso, o setor apresentou sugestões para o Projeto de Lei dos planos de saúde. Entretanto, como colidem com algumas propostas do relator Duarte Jr (PSB-MA), Lira avalia retirá-lo da função. “Houve essa reunião e não se resolveu nada. Lira parece um office-boy de luxo do setor”, dispara Magalhães
O pesquisador lembra que a CPI dos Planos está parada há meses apesar da quantidade necessária de assinaturas. “Eu vejo os Três Poderes subordinados ao poder gigantesco desses grupos, como acontece na saúde. Eu acredito que o governo federal gostaria de modificar isso. A ministra da saúde é uma pessoa de extrema competência e capacidade, O governo tem a vontade mas não tem poder. No Congresso há parlamentares comprometidos, mas no geral, não vejo nem poder nem vontade. Vai sobrar para o Dino?”, provoca
A saúde privada é um recorte de sua pesquisa com as 6. 235 maiores empresas do país. As análises tradicionais miram o faturamento, lucro, número de funcionários, dívidas, entre outras variáveis, para determinar a relevância de uma empresa no mercado. Rodrigues utiliza a metodologia de Análise de Redes Sociais, que considera, por exemplo, suas conexões acionárias.
“Eu sempre gosto do exemplo de uma festa com 100 pessoas. Dentro de qualquer rede ou festa, você tem uns grupinhos, as panelinhas. Se uma pessoa tem 80 amigos, ela vai ser uma pessoa bastante importante na rede. Se há dez subgrupos e uma pessoa com uma amizade em cada um deles, ela também vai ser relevante”
São duas medidas que marcam seu estudo. O grau de saída ponderado, que considera a quantidade de empresa e ações que uma empresas possuiu sobre outras. O grau de centralidade de intermediação identifica a posição estratégica de uma empresa na rede. Ou seja, uma empresa que serve como ponte entre outras. Em ambas, a liderança é da Rede D´or no setor da na saúde privada.
O estudo teve resultados surpreendentes. A primeira hipótese é que os bancos seriam os mais poderosos. Mas o setor de energia elétrica mostrou-se o mais importante. “E no caso, a empresa mais poderosa é a Eletrobras. Assim, não foi uma coincidência sua privatização”. O segundo grupo foi o bancário. E o terceiro grupo mais poderoso, é o de saúde privada, “pra mim também foi uma surpresa, ela é muito mais poderosa do que a gente imagina”.
Rodrigues aprofunda a análise sobre o grau de concentração. “As 200 maiores empresas do Brasil controlam 63.5% do PIB. Mas eu cheguei a conclusão que das 6.235 maiores empresas, 62, ou seja 1%, controlam 25% das coleções acionárias. Só que dentro dessa elite tem uma super-elite, que são 31 empresas. Dessas 31 empresas, 15 são da energia elétrica, Certo. 9 de finanças e 7 da saúde privada. Estamos vivendo uma plutocracia, que é o governo dos ricos. E não descarto a possibilidade de todos os setores se transformem em monopólios”, conclui.
segunda-feira, 2 de setembro de 2024
Extrema direita fabrica mito do passado glorioso para avançar agenda reacionária
"Ele é o leão da tribo de Judá", cantava a senhora com a mão direita ao alto e a mão esquerda no microfone. O animal aparecia no manto que ela carregava nos ombros, junto às bandeiras de Israel e do Brasil. "Oh, esperança de Israel", a mulher repetia, entoando os versos de uma canção carimbada nos cultos evangélicos.
Naquele domingo, a reunião não era religiosa. O canto da senhora enchia a esvaziada casa de eventos que abrigou a convenção municipal do PRTB em São Paulo, confirmando a pré-candidatura do influenciador, empresário e ex-coach Pablo Marçal à prefeitura da capital.
Sem o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Marçal ativou símbolos caros para a direita bolsonarista: Deus, família e os perigos do comunismo, das drogas e da "ideologia de gênero". Israel foi mais um deles.
Cinco meses antes, as bandeiras do país judaico haviam tomado as ruas da avenida Paulista, no centro da cidade, em manifestação em defesa de Bolsonaro. Do alto do carro de som, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pregou que política e religião devem, sim, se misturar, e anunciou que o povo brasileiro é cristão.
Terminou seu discurso com um recado ao Senhor: "Que tua verdadeira shalom esteja dentro dos muros de Israel. Nós abençoamos o Brasil. Nós abençoamos Israel. Em nome de Jesus, amém".
Lá embaixo, na avenida, três senhoras envoltas pela bandeira do país judaico gravaram uma entrevista que viralizaria nas redes. Questionadas por qual motivo usavam o adereço, uma delas respondeu: "Porque somos cristãs, assim como Israel".
A defesa fervorosa de Israel é reflexo da construção de uma gramática judaico-cristã, com o estabelecimento de uma origem em comum —um passado de glória compartilhado. É o que afirma Michel Gherman, professor de sociologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autor do livro "O Não Judeu Judeu: A Tentativa de Colonização do Judaísmo pelo Bolsonarismo".
A história mostra que movimentos fascistas se empenharam na construção do mito de um passado vitorioso para fortalecer a identidade nacional, alavancar valores reacionários e promover mudanças alinhadas com esses valores. No século 21, a extrema direita e a direita populista seguem a mesma estratégia –um de seus instrumentos é a adoração a Israel.
Segundo o professor, a construção deste mito ajuda a ativar alguns símbolos importantes para movimentos reacionários. Primeiro, a imaginada civilização judaico-cristã se afasta dos vínculos com a África. "É o Oriente Médio que se vê como europeu", diz.
Além disso, as referências aos reinos de Salomão e Davi exploram a violência como um elemento positivo, de resistência e reação ao inimigo. "Salomão e Davi como símbolos fundamentais da conquista e da expansão", afirma Gherman.
Ele também menciona o vínculo deste mito com o empreendedorismo, considerando que o reino é independente do Estado. "Tem uma leitura ultraliberal, no sentido da ausência do estado. Tem a presença do rei, que é o representante de Deus."
Mas se engana quem pensa que esse movimento de adoração a Israel é religioso, afirma Gherman. "Você pertence a uma comunidade política que já foi de vencedores. A religião é um detalhe. Não é um discurso religioso. É um discurso de pertencimento a um lugar que tem que ser resgatado", diz.
"A questão do reino de Salomão não é religiosa. É militar, política, expansionista. É um erro a gente achar que está falando de religião. A gente está falando de política."
Em 1922, no mesmo ano em que se tornou primeiro-ministro da Itália, Benito Mussolini discursava no congresso fascista em Nápoles: "Nós criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não precisa ser uma realidade. E a esse mito, a essa grandeza, nós subordinamos tudo".
Dois anos depois, na Alemanha, o principal ideólogo do nacional socialismo, Alfred Rosenberg, escrevia: "A compreensão e o respeito pelo nosso próprio passado mitológico e pela nossa própria história constituirão a primeira condição para ancorar mais firmemente a próxima geração no solo da pátria original da Europa".
As duas falas são lembradas no primeiro capítulo do livro "Como Funciona o Fascismo", de Jason Stanley, professor de filosofia na Universidade Yale (EUA). Nele, o autor argumenta que o fascismo tem um objetivo claro ao invocar o mito de um passado puro, que foi tragicamente destruído pelos progressistas, pelo liberalismo e pelo globalismo. É na criação desse sentimento de nostalgia que os fascistas vão tentar realizar seus ideais no tempo em que vivem.
"A cultura fascista está centrada em torno de alguns mitos, e o maior deles é o de um passado patriarcal, no qual a nação era ótima, e que agora está sendo destruído pelo liberalismo. Está sendo destruído pelo feminismo, pelas pessoas LGBTQ. [Grupos] que desafiam as bases dessa nação e dessa civilização", diz Stanley à Folha.
O professor defende que o nazismo estava fundamentado no que hoje se chama de teoria da Grande Substituição –a ideia conspiratória de que existe um plano das elites globais para substituir cidadãos brancos por imigrantes não brancos.
"[Para os nazistas] A Alemanha era ótima, mas então foi humilhada pela Primeira Guerra Mundial, e eles passaram a ser humilhados pela imigração. [A ideia nazista era que] Os judeus fizeram com que a Alemanha perdesse a Primeira Guerra. Que eles eram traidores que tinham esfaqueado a Alemanha pelas costas. E que passaram a abrir as fronteiras para trazer imigrantes e derrubar a raça branca, a raça ariana. [Para os nazistas] Então você precisava que Hitler parasse a destruição da nação", afirma Stanley.
Se no século 20 o fascismo acusava os judeus de terem destruído o passado de glória, nos tempos atuais ganha corpo entre a extrema direita um filossemitismo deturpado, que submete os judeus a um determinado passado mítico.
"O que acontecia no fascismo histórico é que tinha um grupo muito importante na Europa que não tinha passado, ou que o passado era não europeu. Um passado desconhecido, de traição, de não reconhecimento do verdadeiro Deus", diz Gherman.
Hoje, o professor continua, o passado ideal para a extrema direita não é mais, como no século 20, referente aos bárbaros arianos ou ao Império Romano. "A novidade é um elemento fundamentador desse passado: o reino de Salomão, o reino de Judá."
Agora, ele argumenta, cria-se a ideia de um passado compartilhado, uma origem comum entre cristãos e judeus em um reino glorioso, de grandes conquistas, anterior a Cristo, no território israelense.
"Em vez de você perseguir um judeu sem passado, o que você faz agora é impor aos judeus um passado: o passado do reino. Os judeus existem para dar à luz a esse passado do reino de Salomão", diz Gherman. "Esse modelo de passado vai ser compartilhado por todos da extrema direita. É isso que eu chamo de judeu imaginário."
Apesar da construção desse passado comum com os cristãos, nem todo judeu agrada ao grupo, afirma o professor. Apenas aquele visto como descendente do reino.
"Você nunca vai ver, por exemplo, nas lógicas desse judeu imaginário, o judeu moderno. Nunca vai ver um judeu secular, um judeu progressista", diz. "Não é que eles deixaram de ser antissemitas. Eles refundam o antissemitismo, que passa a ser vinculado a um tipo de judeu e não a todos os judeus."
Gherman faz uma analogia para explicar por que é efetiva a construção do passado mítico pela extrema direita. "Eu sempre brinco com a ideia de que todo mundo que vai fazer visita a vidas passadas acaba descobrindo que era rainha, rei, descendente de um grande assessor do rei. Ninguém é simplesmente um operário, um camponês", diz. "É mais ou menos isso que a extrema direita vende, que você é descendente de uma raça gloriosa."
O professor lembra que a moeda do fascismo para reunir seguidores era vender a ideia do pertencimento a um grupo que foi soberano no passado. "Se eu pudesse resumir o que a extrema direita pensa em relação ao presente, passado e futuro, é essa ideia de que no passado você tinha alguma coisa muito importante. E que o progresso e a expansão dos direitos destituíram você dessa importância."
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é um dos líderes da extrema direita mundial que entenderam e se aproveitam da utilidade do mito do passado glorioso.
Ele frequentemente se refere à bacia dos Cárpatos como uma terra de origem comum de todos os húngaros, dissolvida com o Tratado de Trianon, firmado após a derrota na Primeira Guerra. Mais de 100 anos depois, Orbán insufla na população o ressentimento com o tratado, que, segundo o governo, fez com que a Hungria perdesse dois terços de seu território e 3 milhões de habitantes.
Assim, o país sai como vítima de grandes potências do Ocidente. No passado, dos vencedores da guerra; hoje, da União Europeia, que alerta para o desmonte da democracia húngara e, por isso, é desafiada por Orbán.
As referências à bacia original do povo húngaro e às ameaças enfrentadas ao longo dos séculos sobre o território servem como sustentação para o nacionalismo cristão, ideologia que norteia as práticas do governo. Desde que assumiu em 2010 com uma maioria de dois terços do Parlamento, Orbán aprovou uma série de leis antiimigração e construiu um muro na fronteira com a Sérvia em 2015.
Em discurso em 2021, por exemplo, o primeiro-ministro afirmou que a missão dos húngaros por séculos foi defender a bacia dos Cárpatos contra a ocupação do Império Otomano, a superpotência muçulmana que durou mais de 500 anos.
Na ocasião, Orbán defendeu que a proteção do território e do cristianismo diante da ascensão do mundo muçulmano na Idade Média, da ocupação nazista, da ocupação soviética e da natureza anticristã dos anos de comunismo na Hungria se transformou em uma grande missão de importância nacional e europeia.
László Kövér, um deputado húngaro aliado do primeiro-ministro, foi mais direto ao relacionar o passado mítico com a defesa atual da ideologia nacionalista cristã. Segundo a Radio Free Europe, ao comparar o êxodo populacional pós-Trianon com a crise migratória contemporânea na Europa, Kover afirmou que houve um intercâmbio populacional planejado disfarçado de migração ilegal —acenando para a teoria conspiratória da Grande Substituição.
"Em 1920, nós, húngaros, fomos atacados por potências europeias e grupos de interesse fora da bacia dos Cárpatos. Mas, hoje em dia, potências estrangeiras e grupos de interesse fora do continente estão atacando e destruindo a Europa.... O que é isso, se não a Europa marchando em direção ao seu próprio Trianon?", disse ele.
Assim como fez a gestão Bolsonaro, com a qual firmou estreitos laços, o governo Orbán também adota uma visão sobre o gênero ligada a um passado patriarcal, prática central nas experiências fascistas.
No livro "Como Funciona o Fascismo", o professor Jason Stanley argumenta que a defesa do passado patriarcal também representa a defesa do conceito de hierarquia, necessário para a manutenção da própria forma de governo autoritária.
"Em uma sociedade fascista, o líder da nação é análogo ao pai na família patriarcal tradicional. O líder é o pai de sua nação, e sua força e seu poder são a fonte de sua autoridade legal, assim como a força e o poder do pai de família no patriarcado devem ser a fonte de sua autoridade moral máxima sobre seus filhos e esposa", escreve o professor. "Ao representar o passado da nação como um passado com uma estrutura familiar patriarcal, a política fascista conecta a nostalgia a uma estrutura autoritária hierárquica organizadora central."
Na Constituição aprovada a toque de caixa depois que Orbán chegou ao poder, o Parlamento governista determinou que o casamento é a união de um homem com uma mulher, e que a família é a base da sobrevivência de uma nação.
Em setembro de 2022, o governo Orbán baixou um decreto obrigando mulheres grávidas que buscam aborto a primeiro obter relatório de um médico dizendo que elas foram confrontadas de forma clara com sinais de vida do feto —ou seja, que ouviram o batimento cardíaco.
O governo também aprovou políticas públicas para encorajar as famílias heterossexuais a terem filhos.
Se no nazismo mulheres eram estimuladas a procriar para aumentar o que se entendia como a população ariana, na Hungria de Orbán esse incentivo se dá em meio à crise demográfica do país e receios de que os imigrantes possam substituir os brancos europeus como maioria da população.
"[A ideia da extrema direita é que] Imigrantes estão vindo e tornando o país não branco, no caso dos Estados Unidos, e não ariano, no caso da Alemanha [nazista]. Então as mulheres precisam ter mais bebês para restaurar a nação", afirma Stanley.
Os acenos ao passado glorioso funcionam especialmente em um momento global de crise democrática, com os percalços das democracias liberais e capitalistas que, encaradas como o modelo político ideal e definitivo após a queda do Muro de Berlim, hoje não conseguem responder aos anseios de boa parte dos cidadãos.
"Grande parte da população em países democráticos está pessimista em relação ao futuro", afirma à Folha Benjamin Teitelbaum, autor de "Guerra Pela Eternidade: O Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista". "Cada vez mais eles rejeitam a promessa da democracia liberal de que a vida vai melhorar, de que a passagem do tempo equivale a uma vida melhor. Muita gente não acredita mais nisso. Então é poderoso, politicamente, usar esse sentimento."
É desse sentimento que nasce o slogan do ex-presidente Donald Trump, o "Make America Great Again" (na tradução livre, algo como "Torne a América Grande Novamente"). "Essa frase pertence a uma visão reacionária do passado. É notável por quão pouco ela diz. A frase não diz o que é tão bom sobre a América. Não há conteúdo para o conceito de grandeza. O que importa é a filosofia do tempo que está embutida nessas quatro palavras", diz o autor.
Conselheiro número 1 de Trump, Steve Bannon tem uma visão singular sobre o passado, na qual Teitelbaum mergulhou para escrever seu livro. Após mais de 20 horas de gravação com Bannon, ele afirma que o estrategista político, como também Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo, é um seguidor do tradicionalismo.
Assim como os fascistas, os tradicionalistas condenam o presente. Há, porém, uma cisão importante entre os dois movimentos. Enquanto os primeiros acreditam que poderiam recuperar o passado e criar uma nova realidade ainda superior, os segundos avaliam que nada será melhor do que já foi.
"[Para os tradicionalistas] O caminho para retornar ao que era tão bom sobre o passado é por meio da destruição. Não é uma ideologia de criação, de futurismo. É mais sobre deixar a modernidade se esgotar, tentando derrubar todas as instituições da modernidade com a crença de que no seu lugar o passado dourado vai ressurgir", afirma Teitelbaum.
Outro movimento de franja de exaltação do passado é o localismo —uma visão antiglobalista, antiliberal e nostálgica que defende que as pessoas deveriam voltar a viver em comunidades pequenas e unidas, centradas nas famílias. Entre seus defensores, estão o escritor conservador e católico Rod Dreher, que vive na Hungria e é um grande entusiasta de Orbán, e o professor, também católico, Patrick Deneen, autor do livro "Por que o Liberalismo Fracassou".
Os dois já foram citados como influências intelectuais pelo senador J.D. Vance, escolhido para a vice de Trump, novamente em busca da Presidência.
A extrema direita e a direita populista sofreram reveses nos últimos anos, com derrotas importantes, como a de Trump em 2020 e a de Bolsonaro em 2022.
A vertente populista, porém, segue em cena —em junho, a ultradireita nacionalista teve avanços significativos no Parlamento Europeu e, no mês seguinte, assombrou a eleição na França, embora não tenha vencido. Em novembro, Trump tentará voltar à cadeira presidencial. Não só o presente ainda continuará em disputa: o passado também.
Ana Luiza Albuquerque
Naquele domingo, a reunião não era religiosa. O canto da senhora enchia a esvaziada casa de eventos que abrigou a convenção municipal do PRTB em São Paulo, confirmando a pré-candidatura do influenciador, empresário e ex-coach Pablo Marçal à prefeitura da capital.
Sem o apoio do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Marçal ativou símbolos caros para a direita bolsonarista: Deus, família e os perigos do comunismo, das drogas e da "ideologia de gênero". Israel foi mais um deles.
Cinco meses antes, as bandeiras do país judaico haviam tomado as ruas da avenida Paulista, no centro da cidade, em manifestação em defesa de Bolsonaro. Do alto do carro de som, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pregou que política e religião devem, sim, se misturar, e anunciou que o povo brasileiro é cristão.
Terminou seu discurso com um recado ao Senhor: "Que tua verdadeira shalom esteja dentro dos muros de Israel. Nós abençoamos o Brasil. Nós abençoamos Israel. Em nome de Jesus, amém".
Lá embaixo, na avenida, três senhoras envoltas pela bandeira do país judaico gravaram uma entrevista que viralizaria nas redes. Questionadas por qual motivo usavam o adereço, uma delas respondeu: "Porque somos cristãs, assim como Israel".
A defesa fervorosa de Israel é reflexo da construção de uma gramática judaico-cristã, com o estabelecimento de uma origem em comum —um passado de glória compartilhado. É o que afirma Michel Gherman, professor de sociologia na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e autor do livro "O Não Judeu Judeu: A Tentativa de Colonização do Judaísmo pelo Bolsonarismo".
A história mostra que movimentos fascistas se empenharam na construção do mito de um passado vitorioso para fortalecer a identidade nacional, alavancar valores reacionários e promover mudanças alinhadas com esses valores. No século 21, a extrema direita e a direita populista seguem a mesma estratégia –um de seus instrumentos é a adoração a Israel.
Segundo o professor, a construção deste mito ajuda a ativar alguns símbolos importantes para movimentos reacionários. Primeiro, a imaginada civilização judaico-cristã se afasta dos vínculos com a África. "É o Oriente Médio que se vê como europeu", diz.
Além disso, as referências aos reinos de Salomão e Davi exploram a violência como um elemento positivo, de resistência e reação ao inimigo. "Salomão e Davi como símbolos fundamentais da conquista e da expansão", afirma Gherman.
Ele também menciona o vínculo deste mito com o empreendedorismo, considerando que o reino é independente do Estado. "Tem uma leitura ultraliberal, no sentido da ausência do estado. Tem a presença do rei, que é o representante de Deus."
Mas se engana quem pensa que esse movimento de adoração a Israel é religioso, afirma Gherman. "Você pertence a uma comunidade política que já foi de vencedores. A religião é um detalhe. Não é um discurso religioso. É um discurso de pertencimento a um lugar que tem que ser resgatado", diz.
"A questão do reino de Salomão não é religiosa. É militar, política, expansionista. É um erro a gente achar que está falando de religião. A gente está falando de política."
Em 1922, no mesmo ano em que se tornou primeiro-ministro da Itália, Benito Mussolini discursava no congresso fascista em Nápoles: "Nós criamos o nosso mito. O mito é uma fé, uma paixão. Não precisa ser uma realidade. E a esse mito, a essa grandeza, nós subordinamos tudo".
Dois anos depois, na Alemanha, o principal ideólogo do nacional socialismo, Alfred Rosenberg, escrevia: "A compreensão e o respeito pelo nosso próprio passado mitológico e pela nossa própria história constituirão a primeira condição para ancorar mais firmemente a próxima geração no solo da pátria original da Europa".
As duas falas são lembradas no primeiro capítulo do livro "Como Funciona o Fascismo", de Jason Stanley, professor de filosofia na Universidade Yale (EUA). Nele, o autor argumenta que o fascismo tem um objetivo claro ao invocar o mito de um passado puro, que foi tragicamente destruído pelos progressistas, pelo liberalismo e pelo globalismo. É na criação desse sentimento de nostalgia que os fascistas vão tentar realizar seus ideais no tempo em que vivem.
"A cultura fascista está centrada em torno de alguns mitos, e o maior deles é o de um passado patriarcal, no qual a nação era ótima, e que agora está sendo destruído pelo liberalismo. Está sendo destruído pelo feminismo, pelas pessoas LGBTQ. [Grupos] que desafiam as bases dessa nação e dessa civilização", diz Stanley à Folha.
O professor defende que o nazismo estava fundamentado no que hoje se chama de teoria da Grande Substituição –a ideia conspiratória de que existe um plano das elites globais para substituir cidadãos brancos por imigrantes não brancos.
"[Para os nazistas] A Alemanha era ótima, mas então foi humilhada pela Primeira Guerra Mundial, e eles passaram a ser humilhados pela imigração. [A ideia nazista era que] Os judeus fizeram com que a Alemanha perdesse a Primeira Guerra. Que eles eram traidores que tinham esfaqueado a Alemanha pelas costas. E que passaram a abrir as fronteiras para trazer imigrantes e derrubar a raça branca, a raça ariana. [Para os nazistas] Então você precisava que Hitler parasse a destruição da nação", afirma Stanley.
Se no século 20 o fascismo acusava os judeus de terem destruído o passado de glória, nos tempos atuais ganha corpo entre a extrema direita um filossemitismo deturpado, que submete os judeus a um determinado passado mítico.
"O que acontecia no fascismo histórico é que tinha um grupo muito importante na Europa que não tinha passado, ou que o passado era não europeu. Um passado desconhecido, de traição, de não reconhecimento do verdadeiro Deus", diz Gherman.
Hoje, o professor continua, o passado ideal para a extrema direita não é mais, como no século 20, referente aos bárbaros arianos ou ao Império Romano. "A novidade é um elemento fundamentador desse passado: o reino de Salomão, o reino de Judá."
Agora, ele argumenta, cria-se a ideia de um passado compartilhado, uma origem comum entre cristãos e judeus em um reino glorioso, de grandes conquistas, anterior a Cristo, no território israelense.
"Em vez de você perseguir um judeu sem passado, o que você faz agora é impor aos judeus um passado: o passado do reino. Os judeus existem para dar à luz a esse passado do reino de Salomão", diz Gherman. "Esse modelo de passado vai ser compartilhado por todos da extrema direita. É isso que eu chamo de judeu imaginário."
Apesar da construção desse passado comum com os cristãos, nem todo judeu agrada ao grupo, afirma o professor. Apenas aquele visto como descendente do reino.
"Você nunca vai ver, por exemplo, nas lógicas desse judeu imaginário, o judeu moderno. Nunca vai ver um judeu secular, um judeu progressista", diz. "Não é que eles deixaram de ser antissemitas. Eles refundam o antissemitismo, que passa a ser vinculado a um tipo de judeu e não a todos os judeus."
Gherman faz uma analogia para explicar por que é efetiva a construção do passado mítico pela extrema direita. "Eu sempre brinco com a ideia de que todo mundo que vai fazer visita a vidas passadas acaba descobrindo que era rainha, rei, descendente de um grande assessor do rei. Ninguém é simplesmente um operário, um camponês", diz. "É mais ou menos isso que a extrema direita vende, que você é descendente de uma raça gloriosa."
O professor lembra que a moeda do fascismo para reunir seguidores era vender a ideia do pertencimento a um grupo que foi soberano no passado. "Se eu pudesse resumir o que a extrema direita pensa em relação ao presente, passado e futuro, é essa ideia de que no passado você tinha alguma coisa muito importante. E que o progresso e a expansão dos direitos destituíram você dessa importância."
O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, é um dos líderes da extrema direita mundial que entenderam e se aproveitam da utilidade do mito do passado glorioso.
Ele frequentemente se refere à bacia dos Cárpatos como uma terra de origem comum de todos os húngaros, dissolvida com o Tratado de Trianon, firmado após a derrota na Primeira Guerra. Mais de 100 anos depois, Orbán insufla na população o ressentimento com o tratado, que, segundo o governo, fez com que a Hungria perdesse dois terços de seu território e 3 milhões de habitantes.
Assim, o país sai como vítima de grandes potências do Ocidente. No passado, dos vencedores da guerra; hoje, da União Europeia, que alerta para o desmonte da democracia húngara e, por isso, é desafiada por Orbán.
As referências à bacia original do povo húngaro e às ameaças enfrentadas ao longo dos séculos sobre o território servem como sustentação para o nacionalismo cristão, ideologia que norteia as práticas do governo. Desde que assumiu em 2010 com uma maioria de dois terços do Parlamento, Orbán aprovou uma série de leis antiimigração e construiu um muro na fronteira com a Sérvia em 2015.
Em discurso em 2021, por exemplo, o primeiro-ministro afirmou que a missão dos húngaros por séculos foi defender a bacia dos Cárpatos contra a ocupação do Império Otomano, a superpotência muçulmana que durou mais de 500 anos.
Na ocasião, Orbán defendeu que a proteção do território e do cristianismo diante da ascensão do mundo muçulmano na Idade Média, da ocupação nazista, da ocupação soviética e da natureza anticristã dos anos de comunismo na Hungria se transformou em uma grande missão de importância nacional e europeia.
László Kövér, um deputado húngaro aliado do primeiro-ministro, foi mais direto ao relacionar o passado mítico com a defesa atual da ideologia nacionalista cristã. Segundo a Radio Free Europe, ao comparar o êxodo populacional pós-Trianon com a crise migratória contemporânea na Europa, Kover afirmou que houve um intercâmbio populacional planejado disfarçado de migração ilegal —acenando para a teoria conspiratória da Grande Substituição.
"Em 1920, nós, húngaros, fomos atacados por potências europeias e grupos de interesse fora da bacia dos Cárpatos. Mas, hoje em dia, potências estrangeiras e grupos de interesse fora do continente estão atacando e destruindo a Europa.... O que é isso, se não a Europa marchando em direção ao seu próprio Trianon?", disse ele.
Assim como fez a gestão Bolsonaro, com a qual firmou estreitos laços, o governo Orbán também adota uma visão sobre o gênero ligada a um passado patriarcal, prática central nas experiências fascistas.
No livro "Como Funciona o Fascismo", o professor Jason Stanley argumenta que a defesa do passado patriarcal também representa a defesa do conceito de hierarquia, necessário para a manutenção da própria forma de governo autoritária.
"Em uma sociedade fascista, o líder da nação é análogo ao pai na família patriarcal tradicional. O líder é o pai de sua nação, e sua força e seu poder são a fonte de sua autoridade legal, assim como a força e o poder do pai de família no patriarcado devem ser a fonte de sua autoridade moral máxima sobre seus filhos e esposa", escreve o professor. "Ao representar o passado da nação como um passado com uma estrutura familiar patriarcal, a política fascista conecta a nostalgia a uma estrutura autoritária hierárquica organizadora central."
Na Constituição aprovada a toque de caixa depois que Orbán chegou ao poder, o Parlamento governista determinou que o casamento é a união de um homem com uma mulher, e que a família é a base da sobrevivência de uma nação.
Em setembro de 2022, o governo Orbán baixou um decreto obrigando mulheres grávidas que buscam aborto a primeiro obter relatório de um médico dizendo que elas foram confrontadas de forma clara com sinais de vida do feto —ou seja, que ouviram o batimento cardíaco.
O governo também aprovou políticas públicas para encorajar as famílias heterossexuais a terem filhos.
Se no nazismo mulheres eram estimuladas a procriar para aumentar o que se entendia como a população ariana, na Hungria de Orbán esse incentivo se dá em meio à crise demográfica do país e receios de que os imigrantes possam substituir os brancos europeus como maioria da população.
"[A ideia da extrema direita é que] Imigrantes estão vindo e tornando o país não branco, no caso dos Estados Unidos, e não ariano, no caso da Alemanha [nazista]. Então as mulheres precisam ter mais bebês para restaurar a nação", afirma Stanley.
Os acenos ao passado glorioso funcionam especialmente em um momento global de crise democrática, com os percalços das democracias liberais e capitalistas que, encaradas como o modelo político ideal e definitivo após a queda do Muro de Berlim, hoje não conseguem responder aos anseios de boa parte dos cidadãos.
"Grande parte da população em países democráticos está pessimista em relação ao futuro", afirma à Folha Benjamin Teitelbaum, autor de "Guerra Pela Eternidade: O Retorno do Tradicionalismo e a Ascensão da Direita Populista". "Cada vez mais eles rejeitam a promessa da democracia liberal de que a vida vai melhorar, de que a passagem do tempo equivale a uma vida melhor. Muita gente não acredita mais nisso. Então é poderoso, politicamente, usar esse sentimento."
É desse sentimento que nasce o slogan do ex-presidente Donald Trump, o "Make America Great Again" (na tradução livre, algo como "Torne a América Grande Novamente"). "Essa frase pertence a uma visão reacionária do passado. É notável por quão pouco ela diz. A frase não diz o que é tão bom sobre a América. Não há conteúdo para o conceito de grandeza. O que importa é a filosofia do tempo que está embutida nessas quatro palavras", diz o autor.
Conselheiro número 1 de Trump, Steve Bannon tem uma visão singular sobre o passado, na qual Teitelbaum mergulhou para escrever seu livro. Após mais de 20 horas de gravação com Bannon, ele afirma que o estrategista político, como também Olavo de Carvalho, o guru do bolsonarismo, é um seguidor do tradicionalismo.
Assim como os fascistas, os tradicionalistas condenam o presente. Há, porém, uma cisão importante entre os dois movimentos. Enquanto os primeiros acreditam que poderiam recuperar o passado e criar uma nova realidade ainda superior, os segundos avaliam que nada será melhor do que já foi.
"[Para os tradicionalistas] O caminho para retornar ao que era tão bom sobre o passado é por meio da destruição. Não é uma ideologia de criação, de futurismo. É mais sobre deixar a modernidade se esgotar, tentando derrubar todas as instituições da modernidade com a crença de que no seu lugar o passado dourado vai ressurgir", afirma Teitelbaum.
Outro movimento de franja de exaltação do passado é o localismo —uma visão antiglobalista, antiliberal e nostálgica que defende que as pessoas deveriam voltar a viver em comunidades pequenas e unidas, centradas nas famílias. Entre seus defensores, estão o escritor conservador e católico Rod Dreher, que vive na Hungria e é um grande entusiasta de Orbán, e o professor, também católico, Patrick Deneen, autor do livro "Por que o Liberalismo Fracassou".
Os dois já foram citados como influências intelectuais pelo senador J.D. Vance, escolhido para a vice de Trump, novamente em busca da Presidência.
A extrema direita e a direita populista sofreram reveses nos últimos anos, com derrotas importantes, como a de Trump em 2020 e a de Bolsonaro em 2022.
A vertente populista, porém, segue em cena —em junho, a ultradireita nacionalista teve avanços significativos no Parlamento Europeu e, no mês seguinte, assombrou a eleição na França, embora não tenha vencido. Em novembro, Trump tentará voltar à cadeira presidencial. Não só o presente ainda continuará em disputa: o passado também.
Ana Luiza Albuquerque
Terra envenenada
Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra.
Já não há ar, só desar.
Já não há chuva, só chuva ácida.
Vista do crepúsculo no final do século
Já não há parques, só parkings.
Já não há sociedades, só sociedades anónimas.
Empresas em lugar de nações.
Consumidores em lugar de cidadãos.
Aglomerações em lugar de cidades.
Não há pessoas. Só públicos.
Não há visões. Só televisões.
Para elogiar uma flor, diz-se: "parece de plástico".
Já não há ar, só desar.
Já não há chuva, só chuva ácida.
Vista do crepúsculo no final do século
Já não há parques, só parkings.
Já não há sociedades, só sociedades anónimas.
Empresas em lugar de nações.
Consumidores em lugar de cidadãos.
Aglomerações em lugar de cidades.
Não há pessoas. Só públicos.
Não há visões. Só televisões.
Para elogiar uma flor, diz-se: "parece de plástico".
Eduardo Galeano
Fogo dá dinheiro
O proprietário faz a queimada, não é responsabilizado nas esferas civil e criminal e ainda consegue acesso a crédito rural a taxas mais baixas que as de mercado,.Thais Banwart, porta-voz de Florestas do Greenpeace Brasil
O futuro é idiota
Ao pedir desculpas por sua postura na campanha pela prefeitura da maior metrópole brasileira, Pablo Marçal oferece uma via de compreensão da atualidade política. Admite ter-se comportado como idiota com o objetivo, vitorioso, de subir nas pesquisas. Sua retratação não é mudança de atitude, mas retrato de uma estratégia: idiotia como caminho para o poder.
Não é demais remontar à origem da palavra. "Idiotes", na Polis grega, eram aqueles centrados em negócios privados, alheios à vida pública, que interessava aos "politikós". Os significados atuais das duas palavras derivam dessa oposição. Mas se tornou pesado o atributo de idiota, pois implica ignorância, estreiteza mental e desconexão com o mundo.
Entre nós, por semeadura de Bolsonaro ou fatalismo fonológico, a bilabial oclusiva "b" tem sido marca subliminar de palavras associadas ao destrambelho mental: bobo, besteirol, baixarias. Às vezes, na televisão, BBB, senão em pilares do atraso parlamentar, como Bala, Bíblia e Boi. O B de Bozo se esvaziou, perdeu eco, mas o oco fica à espera de que alguém o preencha. De idiotia renovada.
É que a mistificação idiotizada tem lógica própria: num determinado formato, o vazio de sentido é preenchido, como numa casca de noz, por significações secundárias, alheias ao original e, no entanto, funcionais. Acontece na propaganda, na tevê popularesca e no populismo das redes sociais. Quase uma segunda linguagem, de trânsito fácil na esfera dos "idiotes". Multidões participam à distância de um reality show.
Influenciador é um desdobramento desse infradiscurso. Agente de mídia com efeito na realidade, à cata de bode expiatório para a culpa inconsciente que cada um carrega, dispensa ideias, como um camelô de fantasias de imunidade a todos os males. Transposto para o vácuo da política, ele acena com o que chama de antissistema: esculacho dos políticos, transformação de defeitos em virtudes, liberdade de empreender, até o crime. Surpresos com a reação pública à sua "liberdade", os delinquentes do 8 de janeiro, civis e militares, julgavam-se empreendedores de patriotismo. De normalização do crime, na verdade.
Marçal garante que, com Deus, celular e rede social, todos podem empreender. Ficou conhecido ao vender a 30 pessoas um curso de como "superar a vida e tornar-se um vencedor": com ele à frente, escalariam o pico mais difícil da Mantiqueira. Terminaram, claro, resgatados às pressas por bombeiros. Mas, na retórica da xaropada, vexame é corda de alpinista na capitalização da idiotia. Dependurado, ele calcula que a Prefeitura de São Paulo seja o sopé de um novo pico, a Presidência da República. Um coach de inovadora ciência política: idoneidade não atrai eleitores, voto não é selo de verdade, o futuro é idiota.
Não é demais remontar à origem da palavra. "Idiotes", na Polis grega, eram aqueles centrados em negócios privados, alheios à vida pública, que interessava aos "politikós". Os significados atuais das duas palavras derivam dessa oposição. Mas se tornou pesado o atributo de idiota, pois implica ignorância, estreiteza mental e desconexão com o mundo.
Entre nós, por semeadura de Bolsonaro ou fatalismo fonológico, a bilabial oclusiva "b" tem sido marca subliminar de palavras associadas ao destrambelho mental: bobo, besteirol, baixarias. Às vezes, na televisão, BBB, senão em pilares do atraso parlamentar, como Bala, Bíblia e Boi. O B de Bozo se esvaziou, perdeu eco, mas o oco fica à espera de que alguém o preencha. De idiotia renovada.
É que a mistificação idiotizada tem lógica própria: num determinado formato, o vazio de sentido é preenchido, como numa casca de noz, por significações secundárias, alheias ao original e, no entanto, funcionais. Acontece na propaganda, na tevê popularesca e no populismo das redes sociais. Quase uma segunda linguagem, de trânsito fácil na esfera dos "idiotes". Multidões participam à distância de um reality show.
Influenciador é um desdobramento desse infradiscurso. Agente de mídia com efeito na realidade, à cata de bode expiatório para a culpa inconsciente que cada um carrega, dispensa ideias, como um camelô de fantasias de imunidade a todos os males. Transposto para o vácuo da política, ele acena com o que chama de antissistema: esculacho dos políticos, transformação de defeitos em virtudes, liberdade de empreender, até o crime. Surpresos com a reação pública à sua "liberdade", os delinquentes do 8 de janeiro, civis e militares, julgavam-se empreendedores de patriotismo. De normalização do crime, na verdade.
Marçal garante que, com Deus, celular e rede social, todos podem empreender. Ficou conhecido ao vender a 30 pessoas um curso de como "superar a vida e tornar-se um vencedor": com ele à frente, escalariam o pico mais difícil da Mantiqueira. Terminaram, claro, resgatados às pressas por bombeiros. Mas, na retórica da xaropada, vexame é corda de alpinista na capitalização da idiotia. Dependurado, ele calcula que a Prefeitura de São Paulo seja o sopé de um novo pico, a Presidência da República. Um coach de inovadora ciência política: idoneidade não atrai eleitores, voto não é selo de verdade, o futuro é idiota.
Entre a infância do brincar e do celular
Na era da informação abundante e veloz, a gente se sente quase que obrigado a ter opinião e falar sobre os mais diversificados e complexos temas. Uma tolice. Claro que há uma diferença conceitual entre informação e conhecimento. Mas, em qualquer hipótese, minha ignorância é tamanha que somente a curiosidade justifica escrever dois dedos de prosa.
No caso, foi o impacto da leitura “ansiosa” (sem pretensão de trocadilho) do livro de autoria do escritor, pesquisador, psicólogo social norte-americano, Jonathan Haidt , A geração ansiosa – Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (Companhia das Letras. Julho de 2024).
Haidt, autor de A mente moralista (2020) e A hipótese da felicidade: encontrando a verdade moderna na sabedoria antiga (2022) diz, na introdução Crescendo em Marte: “Este livro conta a história da geração nascida depois de 1995, popularmente conhecida como geração Z, aquela que se segue aos millennials (nascidos entre 1981 e 1995)”.
Embora reconheça as divergências dos recortes temporais (ele próprio admite 1996 e menciona referências, segundo as quais, crianças nascidas depois de 2010 já fazem parte da geração alfa), o autor utiliza o critério das mudanças tecnológicas ao afirmar: “As pessoas mais velhas da geração Z entraram na puberdade por volta de 2009 quando várias tendências tecnológicas convergiram: a rápida expansão da banda larga na década de 2000, a chegada do iPhone em 2007 e a nova era de redes hiperviralizadas – iniciada em 2009 com os botões de ‘curtir’, e ‘compartilhar (ou ‘retuitar’) que transformaram a dinâmica social do mundo online”.
Mais adiante, acrescenta que a geração Z passou pela puberdade com um portal no bolso “que os afastava das pessoas próximas e os atraía para um universo alternativo empolgante, viciante, instável e – como vou mostrar – inadequado a crianças e adolescentes”. A partir dessa constatação, o autor se reporta aos dois conceitos centrais da sua obra: “a infância baseada no brincar” que, no fim dos anos 1980, transitou para uma “infância baseada no celular”, transição concluída em meados da década de 2010.
Curiosamente, o projeto original do livro tinha como objetivo avaliar os efeitos nocivos das redes sociais à democracia nos Estado Unidos. No entanto, Haidt percebeu que estava diante de desafio muito maior do que uma história das redes sociais, mas “uma história da transformação radical da infância em algo não humano: uma existência baseada no celular”.
Neste sentido, o livro está dividido em quatro partes: I. A onda gigante; II. O pano de fundo: o declínio da infância baseada no brincar; III. A grande reconfiguração: a ascensão da infância baseada no celular; IV. Ações coletivas para uma infância mais saudável.
A obra percorre um caminho longo, denso, ancorado em pesquisas, na abordagem teórica de cientista social, professor e na condição de pai de dois adolescentes, condição esta que levou o autor assumir o papel de expor a alarmante progressão dos transtornos mentais em meninos e meninas bem como assumir o risco de defender propostas para enfrentar a gravidade do problema.
De modo a caber nos estreitos limites de um artigo, segue-se o esforço de síntese pautado nos quatro prejuízos fundamentais por conta do uso desmedido das redes sociais pela geração Z: privação social, privação de sono, atenção fragmentada e vício. Os dados referentes à crescente tendência dos transtornos mentais (ansiedade, depressão, TDAH, bipolaridade, anorexia, abuso de substâncias viciantes, esquizofrenia), em universitários americanos (FONTE; American College Health Association), é assustadora.
Porém, não se trata de um fenômeno localizado. Está disseminado mundo afora e dentro de nossas famílias. Mesmo reconhecendo controvérsias e erros, o autor propõe “quatro reformas tão importantes e em que tenho tamanha confiança que vou chamá-las de fundamentais: nada de smartphone antes do nono ano, dando aos filhos apenas celulares básicos; nada de redes sociais antes dos dezesseis; nada de celular na escola, durante todo período de aula, desde o ensino fundamental até o médio; muito mais brincar não supervisionado e independência na infância”.
O que parece simples diante de um desafio tão complexo não levaria o autor a um erro tão primário até porque a base das reformas é uma construção coletiva e solidária. Então como pôr em prática essas medidas? “Encerro com duas sugestões: fale e junte-se, propõe Haidt, acrescentando: se você acha que a infância baseada no celular é ruim para as crianças e quer o retorno da infância baseada no brincar, diga isso […] se você é pai ou mãe, junte-se a outros […] Há muitas organizações excelentes que unem pais em torno dessa causa”.
De fato, a dimensão do livro vai além de famílias, escolas, instituições que cuidam de crianças ou se importam com elas na certeira definição do próprio autor: “Geração ansiosa é sobre restabelecer uma vida humana para os seres humanos de todas as gerações”.
Gustavo Krause
No caso, foi o impacto da leitura “ansiosa” (sem pretensão de trocadilho) do livro de autoria do escritor, pesquisador, psicólogo social norte-americano, Jonathan Haidt , A geração ansiosa – Como a infância hiperconectada está causando uma epidemia de transtornos mentais (Companhia das Letras. Julho de 2024).
Haidt, autor de A mente moralista (2020) e A hipótese da felicidade: encontrando a verdade moderna na sabedoria antiga (2022) diz, na introdução Crescendo em Marte: “Este livro conta a história da geração nascida depois de 1995, popularmente conhecida como geração Z, aquela que se segue aos millennials (nascidos entre 1981 e 1995)”.
Embora reconheça as divergências dos recortes temporais (ele próprio admite 1996 e menciona referências, segundo as quais, crianças nascidas depois de 2010 já fazem parte da geração alfa), o autor utiliza o critério das mudanças tecnológicas ao afirmar: “As pessoas mais velhas da geração Z entraram na puberdade por volta de 2009 quando várias tendências tecnológicas convergiram: a rápida expansão da banda larga na década de 2000, a chegada do iPhone em 2007 e a nova era de redes hiperviralizadas – iniciada em 2009 com os botões de ‘curtir’, e ‘compartilhar (ou ‘retuitar’) que transformaram a dinâmica social do mundo online”.
Mais adiante, acrescenta que a geração Z passou pela puberdade com um portal no bolso “que os afastava das pessoas próximas e os atraía para um universo alternativo empolgante, viciante, instável e – como vou mostrar – inadequado a crianças e adolescentes”. A partir dessa constatação, o autor se reporta aos dois conceitos centrais da sua obra: “a infância baseada no brincar” que, no fim dos anos 1980, transitou para uma “infância baseada no celular”, transição concluída em meados da década de 2010.
Curiosamente, o projeto original do livro tinha como objetivo avaliar os efeitos nocivos das redes sociais à democracia nos Estado Unidos. No entanto, Haidt percebeu que estava diante de desafio muito maior do que uma história das redes sociais, mas “uma história da transformação radical da infância em algo não humano: uma existência baseada no celular”.
Neste sentido, o livro está dividido em quatro partes: I. A onda gigante; II. O pano de fundo: o declínio da infância baseada no brincar; III. A grande reconfiguração: a ascensão da infância baseada no celular; IV. Ações coletivas para uma infância mais saudável.
A obra percorre um caminho longo, denso, ancorado em pesquisas, na abordagem teórica de cientista social, professor e na condição de pai de dois adolescentes, condição esta que levou o autor assumir o papel de expor a alarmante progressão dos transtornos mentais em meninos e meninas bem como assumir o risco de defender propostas para enfrentar a gravidade do problema.
De modo a caber nos estreitos limites de um artigo, segue-se o esforço de síntese pautado nos quatro prejuízos fundamentais por conta do uso desmedido das redes sociais pela geração Z: privação social, privação de sono, atenção fragmentada e vício. Os dados referentes à crescente tendência dos transtornos mentais (ansiedade, depressão, TDAH, bipolaridade, anorexia, abuso de substâncias viciantes, esquizofrenia), em universitários americanos (FONTE; American College Health Association), é assustadora.
Porém, não se trata de um fenômeno localizado. Está disseminado mundo afora e dentro de nossas famílias. Mesmo reconhecendo controvérsias e erros, o autor propõe “quatro reformas tão importantes e em que tenho tamanha confiança que vou chamá-las de fundamentais: nada de smartphone antes do nono ano, dando aos filhos apenas celulares básicos; nada de redes sociais antes dos dezesseis; nada de celular na escola, durante todo período de aula, desde o ensino fundamental até o médio; muito mais brincar não supervisionado e independência na infância”.
O que parece simples diante de um desafio tão complexo não levaria o autor a um erro tão primário até porque a base das reformas é uma construção coletiva e solidária. Então como pôr em prática essas medidas? “Encerro com duas sugestões: fale e junte-se, propõe Haidt, acrescentando: se você acha que a infância baseada no celular é ruim para as crianças e quer o retorno da infância baseada no brincar, diga isso […] se você é pai ou mãe, junte-se a outros […] Há muitas organizações excelentes que unem pais em torno dessa causa”.
De fato, a dimensão do livro vai além de famílias, escolas, instituições que cuidam de crianças ou se importam com elas na certeira definição do próprio autor: “Geração ansiosa é sobre restabelecer uma vida humana para os seres humanos de todas as gerações”.
Gustavo Krause
domingo, 1 de setembro de 2024
As plataformas para o inferno
Em todo o lado e por diversos meios – livros, jornais, revistas, documentários, ficções narrativas e, como não podia deixar de ser, no médium de todos os media, a rede das redes digitais, a Internet – circula um discurso que se dedica, com a ajuda de muita psicologia e sociologia, ao diagnóstico de uma doença, de uma epidemia como nunca houve outra na história da humanidade, adotando muitas vezes um tom apocalíptico que tem sempre o dom do fascínio: o discurso sobre os malefícios da rede, das plataformas, de tudo o que elas oferecem e suscitam sem ser preciso mais do que um telefone inteligente munido de um ecrã, um smartphone, que do ponto de vista de uma arqueologia dos media (atenção: não é o mesmo que uma história) é um condensado de computador, telégrafo, ecrã de televisão, aparelho de rádio, câmara fotográfica, gravador de som, calculadora e muitas outras coisas.
Distúrbios mentais (especialmente da atenção), dependência que pode atingir o grau de uma autêntica escravatura sem que o escravizado se dê conta, ansiedade, depressão, anorexia, esquizofrenia, suicídio, declínio do desejo sexual pelo corpo não virtual de outrem, episódios de histeria colectiva (leia-se, por exemplo, no jornal inglês The Guardian a história emocionante de uma jovem youtuber que suscitou uma reacção histérica e paranóica dos seus muitos milhares de fãs), difusão em larga escala de notícias falsas que incitam a passagem ao acto de multidões alienadas, aumento da polarização política e ideológica: a lista das “doenças” sociais e individuais diagnosticadas é extensa e tão diversa quanto as funções do computador e do smartphone. O medo de ficar sem acesso ao celular, de ficar “desconectado”, como se diz hoje, já engendrou um neologismo, em inglês, para designar esse estado de privação: nomophobia, isto é, no mobile phone phobia. Um documentário americano realizado por Jeff Orlowski, The Social Dilemma, elevou o grau da ameaça até este nível: “É um xeque mate à humanidade.” Nem o mais moderado destes diagnósticos fica aquém de uma transformação antropológica na evolução da humanidade.
Esta nova condição civilizacional gerou um paradoxo: a hiperprotecção das crianças e jovens (pelos pais e pelas medidas biopolíticas dos governos), que lhes retira as prerrogativas da socialização e da autonomia, vai a par da complacência e alguma inconsciência perante os perigos a que eles estão expostos quando se isolam no quarto com o smartphone ou o computador. Há pouco tempo, a apresentadora de uma televisão britânica, Kristie Alsopp, foi ameaçada pelos serviços sociais de perder a custódia do filho de 15 anos por ter permitido que ele fizesse uma viagem de Interrail, pela Europa (ela própria tinha divulgado no Facebook a sua decisão). Em seu auxílio, chegou o parecer de Jonathan Haidt, o psicólogo social da Universidade de Nova Iorque, autor de um livro já traduzido em Portugal, A Geração Ansiosa, que veio lembrar que um jovem munido de um smartphone corre riscos muito maiores em casa do que ao viajar por Paris, Berlim, Munique, etc.
Esta visão de um desastre em curso e de uma doença planetária induzida e sem remédio (tão irremediável como o pecado original: o computador não é um simples utensílio, é uma versão do Deus Ordinator da teologia medieval) torna bastante surpreendente a notícia de que em França, ao aterrar no seu jacto privado, foi detido o patrão da uma grande plataforma social chamada Telegram, o russo Pavel Durov, acusado de promover a fraude, o tráfico de droga, o terrorismo e o cyberbullying. Em suma: nada de que as empresas tentaculares do capitalismo digital, geralmente designadas pelo acrónimo GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), estejam isentas, sem contarmos com os malefícios maiores de difusão de patologias que levam um entrevistado do referido documentário a esta sucinta conclusão: “Estamos tramados.”
É fácil aderir a este discurso apocalíptico, sempre rentável e de fácil recepção. Ele produz diagnósticos verossímeis, à luz da nossa experiência atual, nos seus aspectos essenciais. Mas é preciso confrontá-los com outras análises e estudos mais complexos, perante os quais eles se revelam marcados por alguma simplificação ou até pela demagogia. Uma arqueologia do nosso futuro introduz aqui alguma complexidade em falta e que deverá, por exemplo, levar a questões como esta: devemos acreditar na eficácia da proibição do uso dos smartphones na sala de aula? Não será o mesmo que querer restituir a virgindade a quem a perdeu?
Distúrbios mentais (especialmente da atenção), dependência que pode atingir o grau de uma autêntica escravatura sem que o escravizado se dê conta, ansiedade, depressão, anorexia, esquizofrenia, suicídio, declínio do desejo sexual pelo corpo não virtual de outrem, episódios de histeria colectiva (leia-se, por exemplo, no jornal inglês The Guardian a história emocionante de uma jovem youtuber que suscitou uma reacção histérica e paranóica dos seus muitos milhares de fãs), difusão em larga escala de notícias falsas que incitam a passagem ao acto de multidões alienadas, aumento da polarização política e ideológica: a lista das “doenças” sociais e individuais diagnosticadas é extensa e tão diversa quanto as funções do computador e do smartphone. O medo de ficar sem acesso ao celular, de ficar “desconectado”, como se diz hoje, já engendrou um neologismo, em inglês, para designar esse estado de privação: nomophobia, isto é, no mobile phone phobia. Um documentário americano realizado por Jeff Orlowski, The Social Dilemma, elevou o grau da ameaça até este nível: “É um xeque mate à humanidade.” Nem o mais moderado destes diagnósticos fica aquém de uma transformação antropológica na evolução da humanidade.
Esta nova condição civilizacional gerou um paradoxo: a hiperprotecção das crianças e jovens (pelos pais e pelas medidas biopolíticas dos governos), que lhes retira as prerrogativas da socialização e da autonomia, vai a par da complacência e alguma inconsciência perante os perigos a que eles estão expostos quando se isolam no quarto com o smartphone ou o computador. Há pouco tempo, a apresentadora de uma televisão britânica, Kristie Alsopp, foi ameaçada pelos serviços sociais de perder a custódia do filho de 15 anos por ter permitido que ele fizesse uma viagem de Interrail, pela Europa (ela própria tinha divulgado no Facebook a sua decisão). Em seu auxílio, chegou o parecer de Jonathan Haidt, o psicólogo social da Universidade de Nova Iorque, autor de um livro já traduzido em Portugal, A Geração Ansiosa, que veio lembrar que um jovem munido de um smartphone corre riscos muito maiores em casa do que ao viajar por Paris, Berlim, Munique, etc.
Esta visão de um desastre em curso e de uma doença planetária induzida e sem remédio (tão irremediável como o pecado original: o computador não é um simples utensílio, é uma versão do Deus Ordinator da teologia medieval) torna bastante surpreendente a notícia de que em França, ao aterrar no seu jacto privado, foi detido o patrão da uma grande plataforma social chamada Telegram, o russo Pavel Durov, acusado de promover a fraude, o tráfico de droga, o terrorismo e o cyberbullying. Em suma: nada de que as empresas tentaculares do capitalismo digital, geralmente designadas pelo acrónimo GAFAM (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft), estejam isentas, sem contarmos com os malefícios maiores de difusão de patologias que levam um entrevistado do referido documentário a esta sucinta conclusão: “Estamos tramados.”
É fácil aderir a este discurso apocalíptico, sempre rentável e de fácil recepção. Ele produz diagnósticos verossímeis, à luz da nossa experiência atual, nos seus aspectos essenciais. Mas é preciso confrontá-los com outras análises e estudos mais complexos, perante os quais eles se revelam marcados por alguma simplificação ou até pela demagogia. Uma arqueologia do nosso futuro introduz aqui alguma complexidade em falta e que deverá, por exemplo, levar a questões como esta: devemos acreditar na eficácia da proibição do uso dos smartphones na sala de aula? Não será o mesmo que querer restituir a virgindade a quem a perdeu?
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