quinta-feira, 6 de setembro de 2018

O Brasil que não desejo e o que eu quero

Nesta fase eleitoral é comum ver candidatos presidenciais a dizer o que querem para o Brasil, ainda que falando pouco de como vão fazer. Cidadãos também expressam a sua vontade, como nas séries A reconstrução do Brasil: o que é fundamental?, da TV Estadão, e O Brasil que eu quero, do Jornal Nacional.

Resolvi dar aqui minha opinião após perceber que amanhã é o 196.º aniversário da independência do Brasil, em 1822. Assim, o bicentenário virá no ano final do mandato do próximo presidente.

E daí? Explico. O Brasil está desde 2015 num buraco cavado por obra e desgraça da “ex-presidenta” Dilma. Na economia, ele se abriu com a forte queda de 7% do PIB no biênio 2015-2016. Em 2017 o PIB cresceu só 1%, este ano a taxa deve ficar em torno de 1,5% e, com isso, apenas rasteja rumo à superfície, sem sair do buraco. No social, o buraco se mostra pela duplicação do número de desempregados, para 13 milhões.


Ser desempregado dá uma tristeza de chorar, mas a crise também amedronta o povo em geral. Assim, o Brasil está triste e uma forma de mobilizá-lo para sair desse estado seria criar a perspectiva de um feliz bicentenário em 2022, com o PIB já na superfície e num aclive digno do nome. Assim, o que não desejo é o País no buraco e tão triste. O que quero é o Brasil bem feliz nesse bicentenário, e quatro anos é tempo suficiente para essa mudança de rumo.

Por trás dessa evidente crise há outra. Nas últimas três décadas, e principalmente na atual, o PIB cresceu a taxas bem abaixo das verificadas nas quatro décadas anteriores. Havia então um modelo de crescimento que funcionava, movido pela substituição de importações e alta proteção para empresas que se instalassem no País. E, ainda, pelo forte aumento da população e sua acelerada transferência de zonas rurais ou de pequenas cidades para outras maiores, onde passavam a ocupações na indústria e nos serviços, incluído o comércio, com maior produtividade ou valor da produção por pessoa. Lula foi um desses migrantes.

Esse modelo se esgotou. Hoje, sem desprezar o mercado interno, o País precisa é ampliar e substituir suas exportações, nessa expansão aumentando o conteúdo tecnológico, o valor adicionado e a produtividade, para ganhar mercados externos que demandam mais produtos industriais e de serviços, e não apenas as commodities agrícolas e minerais em que houve maior demanda, e ganhamos espaço por seguir um caminho inovador.

Esse outro caminho exigiria trabalhadores mais qualificados, mais produtivos e de maiores salários. Também é preciso desmontar a ilusão, típica do petismo, de que um país cresce pela expansão do consumo das famílias, o que exacerba o seu endividamento e trava o processo. Cabe pregar que a prosperidade pessoal, familiar e nacional vem de maior poupança adequadamente investida, de modo a gerar mais renda e para mais pessoas, assegurando a expansão sustentada do consumo.

Na busca desse novo modelo, o governo poderá dar diretrizes, mas sem atuar diretamente como empresário, pois é incompetente como tal. Tanto a crise atual como as décadas anteriores de fraco desempenho mostraram isso, e com gestões do governo como um todo se revelando várias vezes desastrosas, tanto ao gerir como por ampliar o Estado brasileiro.

O resultado: esse Estado é, como em outros países, o maior ente da economia, mas aqui exagera nesse papel. Comanda cerca de 40% do PIB, com carga tributária perto de 34% desse indicador, típica de países ricos, que conseguem suportá-la, o que não é o caso do Brasil. E toma emprestados mais uns 6% do PIB para se permitir mais despesas. Esses empréstimos absorvem poupança privada, que, desviada de investimentos produtivos, vai para um Estado que quase nada investe produtivamente e tem alta conta de juros a pagar, pois sua insaciável sede por recursos amplia muito sua dívida. Assim, o Estado faria bem se contivesse seus gastos, arrumasse suas contas, até mesmo via privatizações e concessões, e criasse um bom clima para negócios privados.

Aliás, pode-se comparar o Estado brasileiro a uma imensa sociedade anônima mal gerida. Em outubro haverá uma ou duas assembleias-gerais de acionistas-eleitores para escolher o novo presidente da empresa. Mas, embora seu principal executivo, ele não poderá atuar sozinho. As decisões mais importantes passam pelo conselho de administração da empresa, no caso, bicameral, o Congresso. Ela também tem conselho fiscal, o Tribunal de Contas da União (TCU), e há outro ente cujas decisões podem ter grande impacto orçamentário, o Supremo Tribunal Federal (STF), ao qual essa enorme empresa também se subordina.

Assim, os candidatos presidenciais deveriam dizer como vão lidar com essa estrutura de poder. Há os que afirmam que nos primeiros seis meses de seu mandato estariam abençoados para receber apoio do Congresso. É ver para crer. E como fariam no restante do mandato se sua popularidade se reduzisse?

Supondo que o eleito tenha de fato um programa bem estruturado e crível, ele também deveria recorrer a um ente pouco usado e pouco conhecido, o Conselho da República. Está na Constituição, é presidido pelo presidente da República e outros membros importantes são os presidentes da Câmara e do Senado e os líderes da maioria e da minoria nas mesmas Casas. Também deveriam ser convidados ou acrescentados o presidente do STF e o do TCU.

O objetivo seria expor o programa do Executivo e granjear apoio desses também mandões da República para acelerar decisões em favor do bem comum da população e, assim, eticamente sustentáveis, como ao evitar pautas-bomba orçamentárias e apoiar as reformas necessárias.

E que o presidente lembrasse a seus membros a responsabilidade de cada um pelo país. Se não a assumissem, seria o caso de receberem também a culpa pelos fracassos.

O que os números do PIB falam sobre o Brasil que o próximo presidente vai herdar

A economia brasileira mantém o ritmo em marcha lenta com que entrou em 2018. Divulgado na última sexta-feira, o PIB (Produto Interno Bruto) cresceu apenas 0,2% entre abril e junho em relação ao primeiro trimestre – quando a alta foi de 0,1% sobre os três meses anteriores, já descontados os efeitos da sazonalidade.

A greve dos caminhoneiros teve impacto negativo importante sobre a atividade, especialmente sobre a produção industrial, e foi responsável por uma série de revisões para o indicador que o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) divulgou.

Algumas projeções foram cortadas pela metade depois dos 11 dias de paralisação, que bloquearam estradas e causaram desabastecimento.

Além dessa questão circunstancial, contudo, os números do PIB são um retrato de uma retomada lenta, marcada pela dificuldade de gerar emprego e de estimular os investimentos – e deixam cada vez mais claros os desafios do próximo presidente.

A seguir, cinco diagnósticos que o principal indicador de atividade econômica dá sobre o país que os candidatos ao Executivo prometem transformar partir de 2019.

A construção ainda não reagiu

Desde que a recessão acabou – de acordo com o Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, da Fundação Getulio Vargas, no fim de 2016 –, a construção civil é o único setor que ainda não conseguiu se descolar dos números bastante negativos que marcaram os anos de crise.

Depois de ficar relativamente estável no fim do ano passado, a atividade no segmento voltou a contrair em 2018. Teve queda de 0,4% no primeiro trimestre e de 0,8% de abril a junho, na comparação com o período imediatamente anterior.

Hoje, seu nível é semelhante ao de 2009, o pior desempenho mostrado pelos dados do PIB.

"A construção atingiu o fundo do poço e não tem dado sinais de reação", avalia Sarah Bretones, da MCM Consultores.

O cenário é explicado, de um lado, pelo fato de este início de recuperação estar sendo puxado mais pelo consumo do que pelos investimentos.

A liberação de recursos das contas inativas do FGTS e o ganho de poder de compra proporcionado pela queda da inflação foram alguns dos fatores que, no ano passado, contribuíram para que o comércio avançasse 1,8% – quando a economia como um todo cresceu 1%.

Na contramão, a área de infraestrutura não teve o mesmo tipo de estímulo. Com o Orçamento do governo federal e dos Estados no vermelho, praticamente não houve construção de estradas, de moradias populares ou obras de saneamento por iniciativa do setor público.

Já o setor privado, que ainda digere dívidas do passado, segue desalentado pelo ambiente de crise política e de insegurança em relação ao futuro. A esse fator a economista da MCM acrescenta o impacto indireto da operação Lava Jato, que acabou afastando do mercado grandes empresas – parte das companhias acusadas de envolvimento nos escândalos de corrupção segue vetada de participar de licitações e muitas reduziram em mais da metade o quadro de funcionários.

A construção é um dos quatro setores que compõem a indústria dentro do PIB, ao lado do segmento de eletricidade, água e esgoto e das indústrias extrativa e de transformação.

Uma década de retrocesso dos investimentos

Esse quadro explica em parte o desempenho ruim dos investimentos. Chamados de Formação Bruta de Capital Fixo no PIB, eles despencaram cerca de 30% durante a crise e estão reagindo em ritmo muito mais lento do que se esperava.

"A construção e os investimentos andam muito juntos", pondera Igor Velecico, do Bradesco.

No ano passado, eles chegaram a esboçar uma reação, crescendo "até 8% em termos anualizados", mas a situação voltou a piorar em 2018. A retração de 1,8% entre abril e junho, em relação ao primeiro trimestre, é a primeira queda depois de um ano de resultados positivos.

Hoje, seu nível também é semelhante ao que o país registrava em 2009.

Especificamente no segundo trimestre, o resultado negativo dos investimentos foi influenciado pela indústria de transformação, que teve parte das atividades paralisadas em maio, por causa da greve dos caminhoneiros. Nesse segmento, o tombo foi de 0,8% (e de 0,6% na indústria como um todo).

Velecico calcula que a paralisação tirou 0,2 ponto percentual do PIB do segundo trimestre.

O cenário para o restante do ano tampouco é animador. As incertezas em relação à eleição, que têm feito muitas empresas segurarem os investimentos e deixarem os projetos na gaveta, se mantêm.

E se somam ao ciclo recente de desvalorização do real – o dólar caro eleva o custo da importação de maquinário e de tecnologia e também joga contra a Formação Bruta. Para o economista do Bradesco, os investimentos vão continuar encolhendo até o fim de 2018.

O que celebrar no Dia da Amazônia?

Comemoramos nessa quarta-feira, 5, o Dia da Amazônia. A celebração faz referência a 5 de setembro de 1850, data na qual Dom Pedro 2º decretou a criação da antiga Província do Amazonas. Mais do que celebrar esse conjunto inestimável de riquezas naturais e culturais, que representa 60% do território brasileiro, é preciso fazer desse dia um alerta contra as ameaças à maior biodiversidade do planeta.


O desmatamento da Amazônia está prestes a atingir um ponto a partir do qual regiões da floresta tropical podem passar por mudanças devastadoras irreversíveis, advertiram no início deste ano os pesquisadores Carlos Nobre (Instituto Nacional de Pesquisa Espacial, uma das maiores autoridades mundiais em mudanças climáticas) e Thomas Lovejoy (George Mason University). No último domingo, 2, parte imensurável de sua história foi destruída pelo incêndio que consumiu o Museu Nacional, reduzindo a cinza registros magníficos da presença dos povos originários da Amazônia. Não foi apenas uma tragédia em si, mas também o resultado de anos de negligência de um Estado e uma sociedade que não valorizam seu patrimônio histórico, natural, científico e cultural.

A floresta amazônica reúne mais de 14 mil espécies de plantas e cerca de 20% da fauna de todo o mundo. O Brasil, por sua vez, abriga a maior quantidade de seres vivos catalogados pela ciência, com potencial imenso para a inovação verde, da produção de medicamentos a cosméticos. Trata-se do maior capital natural de que se tem conhecimento.

Somente com o uso sustentável desse patrimônio podemos persistir como civilização. É possível gerar valor e criar emprego sem destruição, em um modelo de desenvolvimento que valoriza a floresta em pé e a sustentabilidade de suas comunidades, com a prática de negócios socialmente justos, ambientalmente corretos e economicamente viáveis. Para isso, é preciso compartilhar a riqueza produzida na região com quem vive da floresta, por meio da repartição de benefícios gerados.

Com um trabalho iniciado há quase duas décadas, a Natura usa 70 cadeias de ingredientes da biodiversidade, com 20 ativos de origem sustentável e certificada pela UEBT (União para o BioComércio Ético), provenientes de 34 comunidades e que geram desenvolvimento e renda para mais de 4 mil famílias somente na Amazônia. Entre esses ingredientes está a ucuuba, fruto de uma espécie que estava ameaçada de extinção pela exploração madeireira predatória para confecção de estacas e cabos de vassoura. Anos de pesquisa científica comprovaram o benefício altamente hidratante da semente, dando novo valor à ucuubeira. Hoje, as comunidades recebem a cada colheita de uma única árvore cerca de três vezes o valor equivalente ao seu tronco. É uma conta que faz sentido para toda a sociedade. Aprender a lidar com a biodiversidade será o principal diferencial competitivo do país, se soubermos ouvir as vozes da floresta.

Em 2011, lançamos o Programa Amazônia, com a meta de movimentar um valor acumulado de R$ 1 bilhão de reais na região, considerando todas as nossas iniciativas. Prevíamos atingir essa meta em 2020, mas a superamos no primeiro semestre de 2017. A presença da Natura na região ajuda a manter 257 mil hectares de floresta em pé, mas o crédito deve ser atribuído às famílias com quem nos relacionamos na região. Organizadas em torno de associações e cooperativas, elas pautam parte importante da agenda da Amazônia do século 21. Não por acaso, as comunidades mais prósperas têm mulheres em posições de liderança, pessoas como Adriana Lima, da Ilha de Cotijuba, e Josineide Malheiros, da Ilha das Cinzas, que desafiam a lógica dos ciclos de economia de exploração predatória da floresta.

Se não quisermos abreviar a nossa existência como espécie, precisamos amplificar a voz das comunidades e assumir responsabilidades compartilhadas em relação à Amazônia, na condição de cidadãos e consumidores, ao cobrar de governos e empresas compromissos para frear o desmatamento. Estamos em plena campanha eleitoral e isso deve entrar na pauta já, de todas as candidaturas.

Perseguir um modelo de desenvolvimento econômico sustentável e inclusivo não é mais uma opção, e a mudança está em nossas mãos. Afinal de contas, não existe floresta em pé se a gente ficar sentado.
João Paulo Ferreira, presidente da Natura

Imagem do Dia

Peder Mork Monsted 

O incêndio da Razão Comum

O Brasil ignora investimentos na proteção e promoção da sua memória há muito tempo. Tanto que até já esqueceu que precisa fazer isso. São necessárias catástrofes para lembrar. Ocorre que infelizmente se transformam em espetáculos midiáticos e raramente trazem mudanças.

O colapso do edifício Wilton Paes de Almeida no Centro de São Paulo trouxe à tona a situação de propriedade públicas e privadas ociosas nos centros urbanos, a luta pela moradia e o direito à urbanidade. Já esquecemos. Há um mês foi anunciada aumento do teto de uso do FGTS, passando para 1,5 milhão, para aquisição de imóveis novos. Este valor passa muito longe das necessidades da moradia social. Comemorou o setor imobiliário pela possibilidade de aquecimento do mercado. Mais prédios serão construídos em bairro novos e ermos nas cidades brasileiras. Nenhum prédio será reabilitado. Tão pouco seu reuso será para dar prioridade a quem precisa. O recurso público capitalizando poucos.

O Brasil é um prisioneiro feliz da modernidade. Deseja o novo, a utopia, a revolução e ignora o que as gerações anteriores lhe concederam como patrimônio, provavelmente porque estas eram imperfeitas aos olhos da elite intelectual, sedenta de novos lugares e territórios para aplicar suas ideologias.


Um dos cincos maiores museus de história natural do mundo, o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro pegou fogo no dia 2 de Setembro. Vinculado à UFRJ, o museu é um centro de pesquisas de arqueologia, antropologia, paleontologia, botânica e inúmeras outras áreas. É um centro de formação de conhecimento e de ampliação. Os prenúncios de uma catástrofe datam desde muito. Anos 80, anos 2000, 2015. São inúmeros os relatos. O incêndio é um evento cronologicamente arquitetado por décadas de confusão e ineficiência.

Infelizmente a UFRJ demonstra profunda incapacidade de gerir seu patrimônio imobiliário cuja grande parte é também de alto valor cultural. Já foi perdida a Capela de São Pedro de Alcantara em 2011, no campus da Praia Vermelha. Há décadas a antiga Escola de Eletrotécnica esfarela em praça pública. Literalmente. É vizinha da Praça da República no Centro do Rio. O prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, também conhecido como Reitoria, sofreu incêndio nos andares superiores em 2016. A biblioteca da FAU passaria por reforma. Ambos estão fechados até hoje. O prédio funciona precariamente. Do mesmo modo, vergonhosamente, segue fechado o Canecão. O Colégio de Altos Estudos funciona com maior parte ociosa e obras não concluídas, na Avenida Rui Barbosa. O IFCS funciona precariamente. Após décadas de abandono está em recuperação finalmente o Hospital São Francisco de Assis na Av. Presidente Vargas.

Não se trata de golpe, de estatismo, ou avanço sobre as conquistas progressistas. É somente a velha e conhecida incompetência.

As brasas do Museu Nacional aguardam o sopro da disputa eleitoral, mas o que evidenciam na verdade é o conturbado encerramento de um ciclo histórico e político onde falhamos todos e todas as matizes. Estamos incapazes de conjurar o século XXI para o Brasil. O pragmatismo político não conseguiu edificar um arranjo social capaz de avançar autonomamente. Do mesmo modo, a sociedade carrega ainda dentro si os embriões da ignorância que alimenta morais vacilantes. Exatamente onde poderia a memória, os centros históricos, os museus, a cultura promover a transfiguração, pela educação aplicada, pelo conhecimento ampliado, pelo respeito ao diferente, dando camada amorosa à cidadania utilitária, falhamos.

Cidades sem densidades, condomínios, favelas, grades, ilhas e isolamentos impedindo acesso à urbanidade, o fenômeno maior e gerador do bem público. O Rio sofre mais pois ele congrega os acervos da nação, os experimentos estéticos, as invenções sociais. A cidade descapitalizada é ainda fantasma de um sonho de nação aberta ao mundo. Isola-se o Brasil com a perda do Museu Nacional. Estamos desmemoriados na face da Terra.

O serviço público serve a si mesmo. O espaço público é loteado por empresas e ambulantes. Políticos não precisam entregar suas promessas. Teocracias governam, milícias fazem loteamento e ignorantes orgulhosos berram como candidatos à Presidência da República. Líderes populares presos por corrupção são beatificados. Privilégios são exibidos com toga. Leis não precisam cumpridas. Acervos não precisam ser apreciados.

Historiadores do futuro chamarão o incêndio do Museu Nacional como o fim da Nova Democracia Brasileira. Conseguiremos progredir?

Poderemos se a ideia de bem público para todos for destituída de signo ideológico, sendo o que simplesmente é: algo que pertence a todos, feita por todos e mantida por todos. Comunitariamente concebida e preservada. Como um acervo de identidade coletiva. Enquanto o bem comum for propriedade de um partido, de uma tônica, de um líder, ou uma fé, arderá a fagulha de novos incêndios absolutos sobre a razão.
Washington Fajardo

Mais um ano

Nada tenho a lhe pedir,
Futuro, paraíso do pobre.
Ainda visto as mesmas coisas.

Continuo vendo o mesmo problema
Pela mesma luz,
Comendo a mesma pedra.

E as agulhas do relógio ainda espetam sem entrar
.
W.S. Merwin

A história por trás do fogo

O mesmo fogo que queima também ilumina. O incêndio que destruiu o Museu Nacional iluminou histórias que viviam ocultas nas sombras.

A primeira: por que um museu deve depender de uma universidade? Nada contra as universidades, mas não é esse seu objetivo básico. Um museu exige muito – muita dedicação, muito estudo, muito dinheiro, administração própria. O Museu Nacional, sob a Universidade Federal do Rio de Janeiro, não tinha um contrato de manutenção elétrica – pelo menos não constava na prestação de contas da UFRJ. O Museu do Ipiranga faz parte da USP, Universidade de São Paulo. Seu prédio estava em condições tão precárias que foi fechado em 2013 para reformas, com reabertura prevista para 2022. Nove anos fechado.

Há pouco mais de 20 anos, o empresário Israel Klabin, ex-prefeito do Rio, conseguiu US$ 80 milhões do Banco Mundial para restaurar e modernizar o Museu Nacional. Só havia uma exigência: o Museu deveria ser autônomo. Ou fundação ou Organização Social, com conselho, compliance (compromisso de seguir as leis, com transparência) e governança. Um grupo de voluntários se formou para trabalhar num pré-projeto de reforma para apresentar ao Banco Mundial. Mas a UFRJ rejeitou a proposta: o Museu era dela e ponto final. Os R$ 600 mil anuais da manutenção foram sendo reduzidos desde 2014. A receita da UFRJ cresceu, a verba do Museu caiu. Detalhe: um secretário de Estado, Wagner Victer, previu em 2004 o incêndio, por falta de manutenção.



Não se trata, aqui, de apontar responsáveis pelo incêndio: isso é tarefa dos investigadores. Na nota acima, falou-se das estruturas administrativas inadequadas, que é preciso modificar. Aqui, sem culpar ninguém, o tema é outro: a unanimidade ideológica no comando de uma universidade pública.

O reitor, a vice-reitora, a pró-reitora de Extensão, o pró-reitor de Pessoal são simpáticos ao PSOL; o pró-reitor de Graduação é simpático ao PCB; o pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças é simpático ao PCdoB. Não existirá nenhum professor capaz de exercer algum desses cargos e não seja simpatizante de algum partido de extrema esquerda?

Haveria a possibilidade de que a UFRJ tenha sido entregue a esses partidos em um “acordo de governabilidade” com os governadores Sérgio Cabral e Pezão?
“Todos que por aqui passem protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir o seu próprio futuro”.
Era isso que estava escrito no chão, em frente ao Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro.

Cala-te, boca!

Este colunista ouviu, ninguém lhe disse: o ministro da Cultura, Sérgio de Sá Leitão, disse que a restauração do Museu se dará em várias fases, a última das quais é comprar o que for necessário para recompor o acervo que o fogo destruiu.

Claro, claro: é só ir às compras que, mesmo pagando mais caro, será simples comprar fósseis de plantas já extintas, o fóssil de Luzia – que, aliás, já estava velhinho, com 12 mil anos – e que levou o mundo inteiro a refazer as pesquisas sobre a chegada dos seres humanos à América; talvez, por que não?, outro trono, para substituir o perdido, do rei africano do Daomé, Adandozan, na hipótese ainda não comprovada de que ele tivesse duas bundas.

Já repor o acervo de múmias será simples. Basta promover um evento com determinadas autoridades e fechar as portas. A turma se sentirá em casa.

“Para liquidar os povos, começa-se por lhes tirar a memória. Destroem-se seus livros, sua cultura, sua história. E uma outra pessoa lhes escreve outros livros, lhes dá outra cultura e lhes inventa outra História.” Do escritor tcheco (naturalizado francês) Milan Kundera, O Livro do Riso e do Esquecimento.
Carlos Brickmann

Os talibãs brasileiros

No dia seguinte ao incêndio que destruiu o Museu Nacional no Rio de Janeiro, houve uma manifestação na Quinta da Boa Vista. Cerca de mil jovens compareceram, especialmente estudantes universitários. Reparei numa menina que segurava um cartaz que dizia: "Luzia sobreviveu 13 milênios na natureza, mas não sobreviveu meio século na mão do governo."

"Luzia" foi a primeira brasileira. Ossos humanos mais antigos que os dela nunca foram encontrados no continente americano. Agora, ela virou cinzas.

Com ela, queimaram "vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país". Assim a jornalista Eliane Brum, que testemunhou o incêndio, descreveu de forma poética e certeira a tragédia.


Achei especialmente significativa a destruição de milhares de objetos de povos indígenas, alguns deles já extintos. Entre os itens estava uma coleção visual com material fotográfico de centenas de tribos do Brasil, colhido ao longo de séculos. É como se esses povos tivessem sido extintos uma segunda vez.

Apenas 520 mil reais por ano teriam sido necessários para salvar tudo. A soma equivale:

- a 0,04% do custo da reforma do Maracanã;

- ao custo de um juiz federal por ano;

- ao custo da troca de carpete do Senado, três anos atrás;

- ao valor dos brincos de turmalina da coleção de joias do ex-governador do Rio, Sérgio Cabral.

O cálculo foi feito por um internauta que postou a lista no Twitter.

Aliás, a soma também equivale a 2,4% do custo da construção do Museu do Amanhã. Hoje, o Brasil tem um Museu do Amanhã, mas não tem mais passado.

Pode soar paradoxal, mas parece que a história do Brasil não tem valor no próprio país. Não foi uma coincidência o Museu Nacional ter pegado fogo. Foi negligência criminosa. Há 14 anos, o então secretário estadual de Energia, Indústria Naval e Petróleo e hoje secretário de Educação, Wagner Victer, descreveu assim a situação do museu: "Vai pegar fogo."

Nada foi feito. Nos últimos dez anos, incêndios destruíram ao menos oito prédios com tesouros culturais e científicos do país. Parece que o fogo virou normalidade.

Há algo por trás de tudo isso. A ignorância responde a uma lógica: a sistemática destruição do passado brasileiro como instrumento de poder. Este serve para reproduzir e legitimar uma ordem social perversa, classificada pelas Nações Unidas como uma das cinco mais desiguais do mundo.

A destruição do passado foi especialmente eficaz durante a escravidão. Os proprietários tiraram dos escravos seus nomes e suas línguas. Frequentemente, brasileiros brancos têm orgulho de ter raízes alemãs ou italianas, mas qual é o negro que tem sobrenome africano e sabe de onde na África vieram seus antepassados?

Nada lembra essas atrocidades. É possível visitar algumas das belas fazendas históricas de café no estado do Rio de Janeiro. Os visitantes admiram a vida luxuosa dos antigos e atuais donos. Mas sobre a senzala que criou a riqueza prefere-se não falar. É como se não tivesse existido.

Quase metade de todos os escravos que foram forçados a cruzar o Atlântico vieram para o Brasil – cerca de quatro milhões. A maioria deles chegou ao Rio. Mas quase não existe memória sobre um dos maiores crimes da humanidade. Há o minúsculo Memorial dos Pretos Novos, na Gamboa, que luta para sobreviver em meio à falta de recursos.

Há também o Cais do Valongo, o maior marco da escravidão do mundo. Em julho de 2017, o Valongo passou a ser considerado Patrimônio Histórico da Humanidade, para, apenas um anos depois, correr o risco de perder o título por a prefeitura de Marcelo Crivella não cumprir uma série de obrigações.

O mesmo Crivella que, depois do incêndio no Museu Nacional, falou: "Incêndios ocorrem." Crivella é um talibã brasileiro. No Afeganistão, os talibãs detonaram estátuas de Buda milenares. No Rio, eles deixam, simplesmente, que a história se deteriore. Ou acabam diretamente com ela.

O centro do Rio, por exemplo, poderia ter um dos núcleos históricos mais completos e bonitos da América Latina, comparável ao de cidades no México, em Cuba ou na Colômbia. Mas, ao longo das décadas, a máfia formada por setor imobiliário e política construiu torres sem identidade sobre a história do Rio.

Será que alguém se lembra da Aldeia Maracanã? O prédio ao lado do Maracanã foi construído pelo Duque de Saxe em 1862 e doado em 1910 ao Serviço de Proteção aos Índios, comandado pelo Marechal Rondon. A ideia era construir um espaço de preservação da cultura indígena brasileira,e o local abrigou o Museu do Índio, criado por Darcy Ribeiro.

Antes da Copa, o edifício histórico deveria ser derrubado. Dizia-se que precisavam de espaço para o estacionamento de um shopping. São essas as preferências dos talibãs brasileiros: estacionamento e shopping! Somente protestos persistentes conseguiram impedir a demolição,e a cidade prometeu cuidar do prédio. E hoje? Está desmoronando.

Da mesma forma ignorante como lida com a sua história indígena e afro-brasileira, o Brasil lida com a ditadura militar. Onde estão os locais que lembram a ditadura brasileira? Não existem. Em vez disso, um candidato presidencial enlouquecido percorre o país gritando: "Vamos fuzilar a petralhada!". Depois, ninguém poderá dizer que não sabia dos planos dele. É assim que o fascismo começa.

A extinção da história do Brasil não é coincidência. Para um povo sem memória, é possível vender tudo, até mesmo planos para fuzilá-lo e o congelamento por 20 anos dos gastos destinados à Educação e à Saúde. É claro que o incêndio no Museu Nacional não foi planejado, mas não aconteceu por acaso.
Philipp Lichterbeck

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

A morte de um museu

Como um museu pode morrer? Afinal museus têm muito de cemitérios: eles guardam relíquias, e espécimes embalsamados de fauna, flora e artefatos de sociedades tribais desaparecidas e obras de arte; além de livros – muitos livros que, fechados, jazem ao lado dos diários daqueles que passam a vida dentro deles para aprender o que existe do lado de fora. Ficam fora do mundo para vê-lo com suas doenças, traições, erros e sofrimento. Nesse sentido, um museu é um palácio de tesouros e de objetos sagrados. De artefatos deslocados no tempo e no espaço ininteligíveis aos olhos comuns.

Tal perspectiva me ajuda a elaborar a morte do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista no qual trabalhei como antropólogo social por cerca de três décadas.

Ao vê-lo ser impiedosamente lambido pelas chamas, pensei nos meus mentores – Luis de Castro Faria, Roberto Cardoso de Oliveira e David Maybury-Lewis – responsáveis pela transformação do Setor de Antropologia num dinâmico Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, que é hoje uma referência mundial.


O descaso é o resultado da mais absoluta ausência em nosso horizonte cultural do lugar do professor. O descaso é irmão da nossa aliança com a ignorância, o oportunismo e a esperteza
O que sentiriam esses fundadores ao ver a catástrofe anunciada pelo total descaso de múltiplos governos, partidos, posicionamentos e hipocrisias tão nacionais e tão isentas ao perigo de incêndio? O que diriam eles que, seja como pesquisadores, professores e administradores como, aliás, foi o meu caso, jamais perderam o rumo da honestidade intelectual para privilegiar suas preferências ideológicas e partidárias? Essa malvada dialética do ser isso ou aquilo vai suicidando o Brasil.

*

Em todas as minhas pesquisas entre os jê-timbira gaviões e apinajés, encontrei quem me tomasse por um disfarçado espertalhão que se apresentava como etnólogo, mas que, de fato, buscava pedras preciosas, ouro ou urânio naquele mato tomado dos índios e destruído para dar lucro. Para muitos, estudar índios era não apenas uma utilidade dos imbecis, mas uma malandragem inteligente para enricar. Até hoje ouço que pesquisar para compreender e não para tomar partido, é uma mitificação. É triste constatar que não temos neste Brasil, cada vez mais castrado por si mesmo, lugar para o professor, para o estudioso, para o investigador que sabe que não sabe e trabalha na esperança de acrescentar mais um pouco ao saber humano, mesmo seguro de que será inevitavelmente superado e esquecido.

O Museu Nacional não foi uma vítima somente do descaso. O descaso é o resultado da mais absoluta ausência em nosso horizonte cultural do lugar do professor. O descaso é irmão da nossa aliança com a ignorância, o oportunismo e a esperteza. Ele é filho dileto do abandono dos governos e de governantes orgulhosos de nunca terem lido um livro, mas que se concedem o direito de falar de tudo, sobretudo do que não entendem. Ele é fruto de uma cultura aristocrática, autoritária e beletrista que se compraz nos folguedos de poesia e pensa que contar casos é sabedoria. Um museu que morre por falta de apoio oficial é o que se colhe quando se elegem governantes ignorantes e burros, doutores narcisistas que pensam que entendem de tudo, quando não são meros ladrões patológicos dos bens coletivos. Dessa ópera trágica nacional na qual o papel de professor é nulo, nasce a indiferença muda que testemunha o assassinato dos museus. Fizemos estádios e reformamos o Maracanã ali ao lado do Museu Nacional, que nem sequer foi visitado por alguma autoridade. O Brasil é recordista em incêndios de museus ao lado de ser um fenômeno no que tange ao roubo do povo em seu próprio nome!

Um país no qual a luta pelo poder não tem limites acaba destruindo ideais, valores e a mais chã moralidade. Estudar, investigar e compreender para sondar o escuro e o terror que se esconde em cada um dos nossos corações é algo sem valor. Aí está, sem dúvida, o fósforo que toca fogo nos museus.


P.S.: Onde estão os milionários brasileiros – formados gratuitamente nas nossas universidades federais – para ajudar na reconstrução do museu? 

Moleque e molecagem

Está tudo pronto para o PT ficar de fora da eleição presidencial deste ano. Tudo pronto. Basta que Lula queira. Foram meses a fio de repetição por toda parte que Lula acabara preso porque se desejava impedir sua candidatura. Quem? Os golpistas, ora.

Não importa que ele tenha sido condenado a 12 anos de cadeia por corrupção e lavagem de dinheiro. E que lei assinada por Lula determine sem a menor margem de dúvida que um condenado por órgão colegiado não possa concorrer a cargo público.

Minta até cansar que sempre haverá gente para acreditar no que você diga. Funciona! Costuma funcionar. Não é também o que faz Jair Bolsonaro, deputado há quase 30 anos, ao se apresentar como não político? Ao dizer que tudo se revolve à bala?


Lula perdeu todos os recursos que impetrou para ser absolvido e solto. Simplesmente todos. E daí? É inocente. Mais inocente que nunca! E foi assim que, de dentro da cela, o encarcerado em Curitiba só fez crescer nas pesquisas de intenção de voto.

Ao desafiar a recente decisão da Justiça Eleitoral de negar registro à sua candidatura, que fez o PT às ordens de Lula? Continuou a fazer de conta no rádio e na tv que decisão final a respeito não havia. Então Lula para fazer o Brasil feliz de novo!

O tribunal reagiu punindo o partido com a retirada do ar de sua propaganda – que bom, mais uma prova da perseguição! Fernando Haddad, o falso candidato a vice de um partido sem candidato, foi denunciado por corrupção e lavagem de dinheiro.

Melhor ainda! A perseguição a Lula se estende agora ao seu substituto confirmando o discurso do PT. Uma vez que renuncie a lançar candidato à presidência, o PT escapará ao risco de não conseguir por Haddad no segundo turno.

Estará na oposição ao próximo governo seja quem for o presidente. E apostará no pior do pior para um dia voltar ao poder. Será assim se Lula preferir. Para que a romaria a Curitiba não cesse. Para que ele permaneça no comando.

Há saída que não seja o buraco?

A gente precisa achar outra maneira para a gente viver, um outro caminho para a civilização, porque o nosso é para o buraco
Fernando Meirelles

O trono de Adandozan, ou para que serve um museu

Agonglo, o oitavo rei do Daomé, governou o antigo reino africano por oito anos, de 1789 a 1797. Suas esposas lhe deram vários filhos, entre os quais Adanzan, ou Adandozan, que era seu herdeiro natural. Desde pequeno, porém, Adandozan se tornara conhecido pelo temperamento cruel e violento. Sentindo que sua vida chegava ao fim, o rei Agonglo perguntou ao oráculo de Fa se outro de seus filhos não seria melhor para governar o Daomé. O oráculo indicou Guezo, que era muito jovem para assumir o trono.

Pouco antes de falecer, Agonglo apareceu a seus súditos no mercado de Adjahito e anunciou sua vontade: enquanto o pequeno Guezo não chegasse à maioridade, Adandozan governaria como regente. Mal sabia o rei que, logo após sua morte, Adandozan daria início a um reinado sanguinário. Dentre as atrocidades que cometeu, destaca-se algo até então inédito na história do Daomé: a venda de seus compatriotas como escravos. Os daomeanos costumavam vender aos mercadores de escravos seus inimigos e prisioneiros de guerra, mas não seu próprio povo. Pois Adandozan, que era filho de outra mulher de Agonglo, vendeu como escravos a mãe de Guezo, Na Agontimé, e parte de sua família.

O reinado de Adandozan durou 22 anos, até ele ser destronado por Guezo com apoio da população insatisfeita. Uma das primeiras providências de Guezo foi enviar emissários ao Novo Mundo, em busca de sua mãe e de sua família. Um desses emissários, Dossuyévo, que falava português, foi até a Bahia e lá permaneceu três anos, sem conseguir encontrar Na Agontimé.

O Museu Histórico de Abomé guardou todos os tronos dos soberanos daomeanos. Todos, menos um: o de Adandozan. É provável que Guezo tenha feito represálias contra as atrocidades de seu meio-irmão, e uma delas talvez tenha sido se livrar de seu trono. Como um trono real tinha caráter sagrado, não era possível destruí-lo; mas era possível mandá-lo para bem longe. Para o outro lado do oceano, por exemplo.


Entre os 20 milhões de itens que integravam o acervo do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, um deles, classificado no inventário de 1844 com o número 6.000, era um “trono de régulo africano, de madeira esculpida”. Comparando as imagens desse trono com as peças do acervo do Museu Histórico de Abomé, não é difícil perceber que são praticamente idênticos. Será que Dossuyévo, embaixador do rei Guezo, trouxe o trono para o Brasil como um dos presentes destinados ao soberano brasileiro, como era praxe nas missões diplomáticas nessa época? É difícil ter certeza. É possível também que o trono tenha sido enviado pelo próprio Adandozan, já que uma carta dele a D. João VI, datada de 1811, faz menção ao envio de "uma das cadeiras da minha terra" como presente ao soberano português. Mas por que Adandozan enviaria seu próprio trono como presente? E, se não foi seu próprio trono mas apenas uma réplica, por que o trono de Adandozan é o único que está faltando no Museu Histórico de Abomé?

E qual teria sido o destino de Na Agontimé? Não se sabe ao certo, mas há pelo menos uma hipótese muito plausível. Na Casa das Minas, o terreiro mais antigo de São Luís, no Maranhão e um dos mais antigos do Brasil, venera-se a memória de sua fundadora, conhecida como Maria Jesuína. Ela foi a responsável pela introdução do culto às divindades da casa real do Daomé, divindades não encontradas em nenhum outro local no Novo Mundo. É muito provável que Na Agontimé e Maria Jesuína tenham sido a mesma pessoa.

Essas histórias, reconstruídas por Pierre Verger ao longo de muitos anos de pesquisa na África e no Brasil, nos levam a algumas perguntas inevitáveis no momento em que as cinzas do Museu Nacional mal terminaram de esfriar: quanto vale, para um país, conhecer sua própria história? Quanto vale, para um povo, saber de onde vieram seus antepassados, seus costumes, seu modo de vida? Quanto vale um objeto que condensa, em sua materialidade efêmera, todo esse conhecimento?

"Subdesenvolvimento não se improvisa, é obra de séculos", dizia Nelson Rodrigues. Diante da tragédia do Museu Nacional, mais uma vez o Brasil é forçado a se perguntar que país ele quer ser. Um país não se faz apenas com coisas que podem ser medidas e precificadas. Um país não se faz apenas com coisas cuja “utilidade” imediata pode ser objetivamente demonstrada. Um país não se faz apenas com o presente.

É comum entre os brasileiros, inclusive entre os integrantes da elite política e econômica, a ideia de que um país com problemas tão drásticos de saúde, educação e segurança não pode se dar ao luxo de gastar recursos com cultura e patrimônio cultural, com ciência e tecnologia, com meio ambiente. Vamos resolver os problemas realmente sérios e urgentes, diz essa visão, e depois, quando tivermos tempo e se sobrar dinheiro, cuidamos do resto. É uma visão equivocada porque não percebe, ou não quer perceber, que a solução para os problemas de saúde, educação e segurança passa necessariamente pela cultura, pelo patrimônio cultural, pela ciência e tecnologia e pelo meio ambiente. Tudo está interligado. Não haverá saúde sem pesquisa científica e sem a preservação do meio ambiente, não haverá educação sem museus e outros equipamentos culturais, não haverá segurança sem um entendimento mínimo de como chegamos até aqui como nação e o que fazer para não afundarmos ainda mais no atoleiro em que estamos.

Durante seis anos trabalhei no Museu Nacional e lá vivi alguns dos momentos mais importantes e felizes da minha vida. O incêndio que consumiu o trono do rei Adandozan e outros milhões de peças destruiu também um pedaço da minha vida e da vida de milhões de outros brasileiros. É muito difícil encontrar palavras para dar conta da dor, da tristeza e da sensação de fracasso. Que essas histórias sirvam para mostrar um pouco do que perdemos, do que continuaremos perdendo enquanto não tivermos coragem de ser outro país.
Gustavo Pacheco

Os donos do incêndio

A notícia continua a causar espanto: um incêndio destruiu no domingo passado a mais antiga instituição científica do País, o Museu Nacional, que, no semestre passado, comemorou seu bicentenário. Diante da tragédia absolutamente inadmissível, é preciso tentar entender as causas e as devidas responsabilidades. Tal descalabro com o patrimônio histórico e cultural não pode passar em branco, também para que não se repita com outras instituições.


O Museu Nacional está vinculado à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que por sua vez recebe recursos da União e tem autonomia para administrá-los como bem entender. A responsabilidade pela manutenção e conservação do Museu Nacional cabe, portanto, à UFRJ. Autonomia universitária implica responsabilidade e transparência – a população tem direito de saber como os recursos públicos são geridos e como o patrimônio público sob sua administração é preservado.

Houve quem tenha se apressado em culpar o ajuste fiscal do governo Temer pelas más condições do Museu Nacional. No entanto, não existe tal relação de causa e efeito. Por exemplo, entre 2014 e 2017, houve um aumento dos recursos da União destinados à UFRJ. Em 2014, a universidade recebeu R$ 2,6 bilhões. Em 2017, foram R$ 3,1 bilhões. O problema é que, nesse período, o valor gasto pela UFRJ com pagamento de pessoal saltou de R$ 2,1 bilhões para R$ 2,6 bilhões. O aumento de R$ 500 milhões foi para o funcionalismo.

Além da gestão no mínimo temerária do patrimônio público, chama a atenção na atual reitoria da UFRJ o seu aparelhamento político. O reitor da UFRJ, Roberto Leher, é filiado ao PSOL. A vice-reitora, Denise Fernandes Lopez Nascimento, também é filiada ao PSOL, assim como a pró-reitora de Extensão, Maria Mello de Malta, e o pró-reitor de Pessoal, Agnaldo Fernandes. Há também outros dois pró-reitores filiados ao PCdoB: o pró-reitor de Graduação, Eduardo Gonçalves, e o pró-reitor de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças, Roberto Antonio Gambine Moreira.

É um acinte que a administração da maior universidade federal do País seja controlada por dois partidos políticos que, como se sabe, difundem uma ideologia excludente, avessa ao diálogo e tantas vezes inimiga das liberdades e garantias fundamentais. Só num ambiente de pluralismo e de respeito à liberdade de pensamento e de expressão é que a universidade pode cumprir sua relevante função social. Ao mesmo tempo, não é mera casualidade que a tragédia do Museu Nacional tenha ocorrido na gestão dessas duas legendas, tão críticas da responsabilidade fiscal e de uma gestão profissional dos recursos públicos.

O incêndio do Museu Nacional deve ser um chamado à responsabilidade fiscal e administrativa. Certamente, há modos desastrosos de realizar um corte de gastos públicos, como, por exemplo, diminuir igualmente todos os valores do orçamento, sem distinguir entre o que é prioritário e o que é acessório. Isso não revoga urgente necessidade de um profundo ajuste fiscal. Basta ver que houve um aumento nas receitas gerais da UFRJ e, ao mesmo tempo, nos últimos anos, houve uma diminuição das verbas que a universidade, em sua autonomia administrativa, destinou para o Museu Nacional.

É preciso aprender a lição do Museu Nacional. Não é a austeridade na gestão dos gastos públicos que põe em risco a preservação do patrimônio histórico e cultural do País. O que produz graves perigos é antes a ideia de que os cofres públicos são copiosos a ponto de dispensar uma eficiente gestão dos recursos.

É politicamente fácil culpar o governo federal pelo incêndio ocorrido na Quinta da Boa Vista. Mas, além de não encontrar respaldo na realidade, essa atitude abre caminho para novas tragédias, já que não enfrenta as verdadeiras causas da lamentável situação do Museu Nacional e de tantos outros equipamentos públicos. O incêndio de domingo passado deixou uma mensagem clara: a irresponsabilidade com o dinheiro público sempre causa graves danos ao País.

A realidade não está na TV

Há na história da humanidade um certo número de acontecimentos que, graças aos jornais, ao rádio, à televisão, imediatamente dão a conhecer suas pretensões de pertencer à história. E, no entanto, tudo o que diz respeito a cada um de nós, condenados que somos, na maioria dos casos, ao anonimato histórico, tudo isso é também história. 



Os milhões de tele-espectadores que, confortavelmente afundados em suas poltronas, assistem a bombardeios, a sequestros de aviões, a congressos políticos, a concursos de beleza ou a jogos de futebol imaginam ingenuamente que estão vendo os acontecimentos mais importantes da vida da humanidade. 

Ora, basta que um desses telespectadores, sentido uma dor imprevista no coração, escorregue de sua poltrona, e compreenda que está morrendo, para que tal fato lhe pareça o mais importante, e não mais o que continua a desfilar na tela.
Ievguêni Ievtuchenko, "Os frutos selvagens da Sibéria"

No Brasil, ganha mais quem pressiona ou chantageia?

O presidente Michel Temer apoiou a proposta de aumento dos subsídios dos ministros do STF, que depende de aprovação do Congresso Nacional.

Com isso, além de os juízes passarem a ganhar mais, haverá elevação dos gastos dos outros Poderes, pois subirá automaticamente a régua que limita as remunerações mais altas do serviço público brasileiro.


Segundo a Constituição, o valor pago a cada ministro do STF é o teto dos vencimentos dos servidores.

Há dois pontos incômodos.

O primeiro é a total falta de clareza da política salarial que orienta o governo.

O país não está passando por grave crise fiscal que exige reformas como a da Previdência? E mesmo assim continua havendo espaço para gastar mais com pessoal?

Bem, talvez existam defasagens e desequilíbrios nas remunerações, mas será justamente o topo da pirâmide do serviço público que tem de ser atendido agora?

Como a política salarial pública é difícil de compreender, e não soa coerente, seu único critério parece ser o fato bruto do poder. No funcionalismo brasileiro, ganha mais quem pressiona ou chantageia?

Como o Judiciário convenceu o presidente para conseguir seu aumento?

O noticiário fala em barganha. Os juízes deixariam de receber o auxílio-moradia que obtiveram de modo precário com uma liminar do STF.

Isso evitaria o aumento de despesas, ao menos no orçamento do Judiciário. E a classe dos juízes trocaria a tese jurídica incerta, usada no pedido de liminar, por um aumento permanente.
O modo como as notícias correram provocou um segundo incômodo.

Sugeriu-se que alguém teria feito promessas quanto à futura decisão jurisdicional do STF sobre o auxílio-moradia. Não é crível, porém.

Ministros do STF têm tomado decisões polêmicas, algumas difíceis de entender ou aceitar, mas o colegiado jamais deu motivos para o país suspeitar da honestidade de seus membros.

Certo ou errado, o ministro Luiz Fux deu a liminar por haver se convencido da tese jurídica que lhe foi apresentada.

Nem ele nem os demais ministros, que ainda não se manifestaram, mudariam de ideia sobre a interpretação do direito em troca de vantagens para sua categoria. O STF pode ter seus problemas, mas é um tribunal sério.

Há uma forma honesta de implementar a troca.

O STF, usando sua prerrogativa de apresentar projetos de lei ao Congresso, pode propor a revogação da norma legal que previu o auxílio-moradia.

Com a aprovação dessa mudança na Lei Orgânica da Magistratura, a ação judicial perderia seu objeto.

Não por causa de interpretações de conveniência, mas porque o Legislativo, com seu poder democrático, terá encerrado o assunto.
Carlos Ari Sundfeld

Pensamento do Dia


Seu telefone nasceu sobre uma montanha de resíduos tóxicos

Daqui até 2020 haverá cerca de cinco bilhões de pessoas no mundo que usarão um smartphone (ou telefone inteligente). Cada dispositivo é fabricado com numerosos metais preciosos e muitas de suas principais funcionalidades não seriam possíveis sem eles. Alguns destes metais, como o ouro, são bem conhecidos, mas outros, como o térbio, parecem algo estranho.

A extração destes metais é uma atividade fundamental sobre a qual se baseia a economia mundial moderna. Mas o custo ambiental pode ser enorme, provavelmente muito maior do que imaginamos. Vamos examinar os principais metais empregados na fabricação de smartphones, o uso que eles têm e o custo ambiental de extraí-los do solo.

O ferro (20%), o alumínio (14%) e o cobre (7%) são os três metais mais comuns em um smartphone médio. O ferro é usado nos alto-falantes, nos microfones e nas carcaças de aço inoxidável. O alumínio é uma alternativa leve ao aço inoxidável e também aparece na fabricação do vidro resistente usado nas telas desses dispositivos. O cobre é empregado em circuitos elétricos.

No entanto, a extração destes metais da terra no processo de mineração produz enormes quantidades de resíduos sólidos e líquidos, que normalmente são armazenados em imensos reservatórios que podem abarcar superfícies de vários quilômetros quadrados. Os vazamentos desastrosos de resíduos de mineração ocorridos nos últimos anos evidenciam o perigo de se aplicar métodos de construção inadequados e métodos de supervisão frouxos.

O maior derramamento registrado ocorreu em novembro de 2015, quando, após o rompimento de uma barragem em uma mina de ferro no Estado de Minas Gerais, cerca de 33 milhões de metros cúbicos de resíduos de alto teor de ferro foram parar no rio Doce (o suficiente para encher 23.000 piscinas olímpicas). Os resíduos inundaram cidades vizinhas, provocaram a morte 19 pessoas e percorreram 650 quilômetros até chegar ao Oceano Atlântico 17 dias depois.

Esse foi um dos 40 vazamentos de resíduos da mineração nos últimos dez anos, e as consequências ecológicas e humanas a longo prazo ainda são amplamente desconhecidas. Em suma, o que é certo é que, à medida que aumenta nossa avidez por tecnologia, os reservatórios de resíduos de mineração crescem em número e tamanho e, portanto, o risco de rompimento também aumenta.

É frequente também o uso de ouro e estanho em smartphones. A extração desses metais é a causa de graves desastres ecológicos que se estendem desde a Amazônia peruana até as ilhas tropicais da Indonésia.

Nos telefones celulares, o ouro é usado principalmente para fabricar conectores e cabos. A mineração de ouro é uma das principais causas do desmatamento na Amazônia. Além disso, a extração de ouro gera resíduos de alto teor de cianeto e mercúrio, duas substâncias altamente tóxicas que podem contaminar a água potável e a pesca, o que tem sérias repercussões na saúde humana.

Na área eletrônica o estanho é usado na soldagem. O óxido de índio e estanho é usado para aplicar um revestimento fino, transparente e condutor às telas dos smartphones, responsável pela função de tela sensível ao toque. Os mares ao redor das ilhas Bangka e Belitung, na Indonésia, fornecem cerca de um terço da oferta mundial deste metal. No entanto, a dragagem em larga escala do fundo do mar para extrair terras de alto teor de estanho destruiu seu valioso ecossistema de recifes de coral, e o declínio do setor pesqueiro causou problemas econômicos e sociais.

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'Comando Vermelho' dá as cartas



O Brasil não é uma facção criminosa para ser comandado de dentro da cadeia
Jair Bolsonaro

Incêndio do Museu Nacional foi um crime

Os 20 milhões de itens expostos ao público, objetos de pesquisa e testemunhas à mão da memória e da História do Brasil ainda ardiam no incêndio que devastou o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, por não haver água nos hidrantes do prédio, e vários oportunistas já vinham à tona para se aproveitarem da tragédia.

O esqueleto de Luzia, a mulher mais antiga do continente, resistente a 12 mil anos de intempéries, era apenas uma imagem virtual quando os repórteres dos telejornais, enfrentando a desinformação absoluta com a necessidade de falar alguma coisa, noticiaram que a polícia terá de descobrir e revelar se o incêndio foi acidental ou criminoso. Truísmo é pouco para definir essa platitude. Minhas senhoras, meus senhores, o que se assistiu na noite de domingo passado foi ao assassinato sem piedade de milhares de anos da História do País e da humanidade pelas castas que dilapidam há séculos o patrimônio público. A documentação do registro da passagem do mamífero bípede, impropriamente definido como racional, e da identidade nacional de uma pretensa civilização, instalada nestes tristes trópicos em substituição à barbárie dos silvícolas, anterior a ela, virou cinzas molhadas pelos jatos impotentes de uma (!) escada de bombeiros jorrando água suficiente para apagar uma fogueira junina, se muito.

A primeira instituição científica nacional, fundada há 200 anos por dom João VI, o rei fujão de Portugal, sucumbiu a descaso, insensibilidade, estupidez, incompetência, desídia e rapina de sórdidas castas elitistas de políticos ambiciosos, gestores públicos irresponsáveis e intelectuais militantes.


Os acadêmicos José Sarney e Fernando Henrique, o breve Itamar Franco, os populistas Lula da Silva e Dilma Rousseff e os oportunistas Fernando Collor e Michel Temer não deram a museu algum um segundo de atenção, só usada para ludibriar eleitores e comprar congressistas para se reeleger ou escapar de impeachment, fugir de inquéritos ou prorrogar prerrogativa de foro.

Ora, direis, museu não dá voto. Aliás, é difícil encontrar algo de interesse público que dê votos a quem os disputa na arena cada vez menos ética da política brasileira. Votos se vendem e se compram com vil metal, empregos privilegiados na estroina e corrompida máquina pública nacional e também ideologias generosas somente na aparência. A gestão do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, por exemplo, cabe à Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cuja administração é compartilhada por partidos da extrema esquerda sem representatividade popular, PSOL e PCdoB, em aliança com representantes da elite partidária que dá as cartas na República, embora se denomine como “dos Trabalhadores”.

A cúpula dos três Poderes, a intelligentsia acadêmica e, pasme, os responsáveis diretos pela indigência da instituição que ardeu choram e se lamuriam pelo destino dela, como gângsteres que levam flores ao velório das vítimas de sua brutalidade. O presidente Temer divulgou nota oficial quando ainda faltava água para apagar o fogo: “Incalculável para o Brasil a perda do acervo do Museu Nacional. Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real durante o Império. É um dia triste para todos brasileiros”.

O ministro da Cultura, Sérgio de Sá Leitão, disse que “certamente a tragédia poderia ter sido evitada”, numa tentativa absurda de transferir apenas para os governos anteriores as causas do desastre, que, segundo Walter Neves, antropólogo que pesquisava o esqueleto de Luzia, foi “anunciado”. A culpa não é apenas do governo atual, é claro, mas é principalmente deste. Leitão age como um sujeito que cai do décimo andar, sai caminhando e pergunta aos transeuntes o que aconteceu. E ninguém foi demitido!

É inútil querer que os incendiários da Quinta da Boa Vista respondam pela omissão do Estado, que se negou a gastar caraminguás para dotar o mais antigo museu nacional de chuveirinhos automáticos e extintores de incêndio que a lei exige de qualquer boteco da periferia. Mas, já que não se dispuseram a abrir mão dos bilhões do Fundo Partidário para salvar o museu extinto, que nos poupem de sua hipocrisia. E sendo inútil exigir que façam algo para a tragédia não se repetir no Arquivo Nacional e na Biblioteca Nacional, podiam fazer o que sempre fizeram: esquecer o tema. E nada de reconstruir o prédio para as gerações futuras se esquecerem de sua participação no crime.

Os candidatos ao posto mais elevado, cujos currículos frustram os cidadãos carentes de um presidente que evite que a economia arda, sabotada pela corrupção do PT, de seus aliados, entre os quais o MDB, e dos falsos oponentes do PSDB, reduziriam o teor de cinismo de suas campanhas se não chorassem sobre a aguinha que não evitou que o incêndio se alastrasse.

A Universidade de São Paulo (USP) e o ex-governador do Estado Geraldo Alckmin devem explicações sobre o cupim que ameaça a integridade das paredes do Museu do Ipiranga, fechado à visitação desde 2015 e com obras a serem iniciadas no ano que vem. Ou quando, enfim, não chegarem as calendas gregas. Fernando Haddad, o estepe de Lula, não terá como explicar seu silêncio no governo do patrono, quando foi ministro de Educação, sobre a ominosa situação em que a memória nacional embolora, apodrece e arde, enquanto os chefões partidários enriquecem ilicitamente. Nenhum dos dois projetos assinados por Jair Bolsonaro e aprovados em seus 27 anos na Câmara diz respeito a esse assunto. A militância ecológica de Marina Silva não inclui uma denúncia da penúria dos museus, tema também excluído da enxúndia demagógica de Ciro Gomes.

Só restará como testemunho da inépcia deles Bendegó, meteorito que caiu perto de Canudos e resistiu ao fogo feroz.

Lula bate o pé e insiste com a farsa

Estelionato é “obter, para si ou para outro, vantagem ilícita, em prejuízo alheio, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil ou qualquer outro meio fraudulento”, segundo o Código Penal brasileiro. Pena: de um a cinco anos de reclusão.

Estelionato eleitoral é “um conceito da ciência política utilizada para descrever os casos de candidatos eleitos com uma plataforma ideológica que, após a eleição, adotam um programa de signo ideológico contrário”, segundo a Wikipédia. Pena: nenhuma.

Misture as duas definições, bata bem e não tenha dúvida: Lula é um estelionatário. Sua falsa candidatura a presidente da República foi o meio fraudulento encontrado por ele para se beneficiar e conferir vantagem ilícita a quem venha a substitui-lo.

Estelionato eleitoral só se configura depois que as urnas cantam seu resultado, que o eleito começa a governar e a fazer o contrário do que prometeu. A criatividade assaz louvada do brasileiro acaba de patentear o estelionato eleitoral que dispensa tudo isso.

A candidatura de Lula não existe, jamais existiu. Ele não poderia ser candidato, impedido por lei que carrega sua assinatura. Mas foi preciso que a mais alta corte da Justiça Eleitoral esfregasse tudo isso na cara dele e na nossa cara para que… Para quê o quê?

Para nada. Para que parte de nós continue acreditando, por devoção ou ignorância, que Lula será, sim, candidato – quem sabe, não é? Fernando Haddad voou ontem a Curitiba com a esperança de voltar de lá ungido pelo encarcerado ilustre.

Voltou dizendo que o candidato será Lula para sempre, ou até quando ele quiser, ou até que se esgote o prazo de 10 dias dado pela Justiça para que o PT indique outro candidato. Pobre do Haddad, que imagina estar cumprindo bem o seu papel de capacho.

E se Lula decidir no último minuto que o melhor para o PT (leia-se: o melhor para ele) seria não indicar ninguém, ficando de fora da eleição presidencial? Hipótese remota? Quem disse? Há gente no partido, não sei se muita ou pouca, que deseja isso.

As alianças nos Estados já foram feitas. Faltam apenas 34 dias para o primeiro turno. O cadáver de Lula seguiria sendo explorado por quem já o faz. O choro, o ranger de dentes, a denúncia de mais um golpe não perderiam seus efeitos dramáticos e eleitorais.

De resto, convenhamos, seria muito mais coerente. Por que disputar se o candidato líder de todas as pesquisas de intenção de votos foi vetado por uma justiça infame, a serviço dos golpistas, reles capitães do mato de poderosos interesses internacionais?

Lula nunca foi de dividir o palco com ninguém (não é verdade, José Dirceu? Não é verdade, Antônio Palocci ou Tarso Genro?). Deu um chega para lá em Ciro Gomes só para que ele não ganhasse os poucos segundos de televisão que o PSB tinha para lhe dar.

PT é o nome de fantasia do lulismo. Os que se reuniram em torno de Lula para fundar o partido ou já morreram de morte morrida ou perderam relevância. Alguns ainda vagam arrastando correntes que já não fazem mais barulho nem arrancam fagulhas do chão.

Não se duvide da ousadia de um sobrevivente, que é o que Lula é. Conta a história oficial que ele sobreviveu à seca do Nordeste, à miséria da periferia de São Paulo, à amputação de um dedo quando usava macacão e à perseguição militar como líder sindical.

Sobreviveu à desconfiança ao seu nome de tendências mais radicais da esquerda, a três derrotas como candidato a presidente, aos desafios de governar um país complicado, de eleger e reeleger sua sucessora e de enriquecer como jamais pensara. (Ufa! Basta!)

Só sucumbiu ao rigor do juiz Sérgio Moro. Desde então estrebucha na maca para fingir que ainda tem futuro como líder político. Futuro não tem. Diz a Lei da Ficha Limpa que o ficha suja fica inelegível por oito anos, além do tempo a que foi condenado.

No caso de Lula, ele pegou 12 anos de cadeia. Não importa que saia de lá antes do tempo previsto. Importa que estará com 93 anos de idade quando puder se candidatar de novo. Mesmo que viva tanto, é improvável que o Brasil de 2038 lhe dê ouvido.

Ricardo Noblat

Brasil vai pela porta de serviço


Puberdade democrática

Quanto vale a democracia para você? E para o seu candidato a presidente da República? Para mim ela é um valor absoluto, não passível de negociação, flexibilização, tergiversação ou relativização. O compromisso com ela tem de ser total. Questão de princípio. Um limite rígido, que separa o aceitável do inaceitável.

No Brasil, a democracia entra na puberdade. Como todo adolescente, se acha plena, invencível. Testa seus próprios limites correndo riscos tolos, bestas. Olha para o passado dos pais com desdém, como aquele passado embolorado que aconteceu com eles, porque são velhos, mas jamais se repetirá com ele, o jovem malandrão.


Nas democracias mais velhas, portanto menos fanfarronas, a institucionalidade é um bem, não a tia chata que você tem de driblar a toda hora para pegar o carro escondido.

É algo com que não se brinca, porque se sabe que qualquer quebra institucional, por aparentemente menor que seja, abre uma brecha para outras maiores e pode levar o barco a afundar.

No Brasil adolescente, um presidente da mais alta Corte da Justiça combina com o presidente do Senado de mudar nas coxas a lei que trata do impeachment e fica tudo por isso mesmo. Um partido força os limites das instituições até esgarçar seu tecido, insistindo na candidatura à Presidência da República de um preso, condenado em duas instâncias por crimes comuns (corrupção e lavagem de dinheiro), e tudo bem.

No Brasil adolescente, um candidato a presidente e seu filho, deputado federal, dizem que vão resolver os problemas do País “nem que seja a bala” e são aplaudidos por uma turba cada vez mais fanática e mais disposta ao tudo ou nada.

Este mesmo candidato diz que se tiverem de morrer “10, 20” para que se resolva um problema de segurança, “paciência”, numa confissão prévia de falência do Estado, e quem questiona isso – uma vez que as leis do País não preveem essa permissão – é perseguido como defensor do “politicamente correto” ou “de bandido”.

Nada disso. O que existe é lei. Estado. Constituição. Não se resolve a violência transigindo com a barbárie, sob pena de a democracia sucumbir. Simples assim. Sabem disso todos aqueles que têm na defesa das instituições um valor, e não um discurso de conveniência. Não há meio termo, pois se houver, foi cruzada a barreira que permite relativizar tudo o mais. E não se pode fazer isso.
Numa democracia que já tivesse superado a fase das espinhas purulentas, nunca uma Corte eleitoral – por si só uma excentricidade juvenil – se reuniria a portas fechadas depois de decidir que o preso de que se falou antes não pode, mesmo, ser candidato e seu partido não pode usar o horário eleitoral até que indique um candidato apto para, logo em seguida, fechar as portas e decidir que tudo bem, vai. É só por hoje. Amanhã a gente cumpre a decisão. Afinal, já ficou tarde.

Isso é coisa de moleque que pega o carro do pai escondido, não de gente que veste toga. Isso dá margem não para que o partido em questão se sinta contemplado, mas que teste ainda mais os limites das instituições, como vem fazendo sem reserva, não se furtando nem a falsear a História numa narrativa farsesca.
Toda essa abundância de molecagens, à esquerda, à direita, vindo dos próprios Poderes constituídos, numa confluência de irresponsabilidade com o aperfeiçoamento da democracia, tem consequências graves. Elas são diárias.

Aparecem na rápida corrosão do tecido social, que se pode notar na falta de educação geral nas redes sociais, na propensão de uma parcela grande do eleitorado a votar numa ideia fantasiosa de passado e de outra enorme a votar com o fígado.

Já passou da hora de o Brasil superar a adolescência. Sob pena de ficar senil sem nunca ter sido adulto.

O Brasil queimou - e não tinha água para apagar o fogo

O Brasil queimou – e não tinha água para apagar o fogo

Eu vim ao Rio para um evento no Museu do Amanhã. Então descobri que não tinha mais passado

Então descobri que não tinha mais passado.

Diante de mim, o Museu Nacional do Rio queimava.


O crânio de Luzia, a “primeira brasileira”, entre 12.500 e 13 mil anos, queimava. Uma das mais completas coleções de pterossauros do mundo queimava. Objetos que sobreviveram à destruição de Pompeia queimavam. A múmia do antigo Egito queimava. Milhares de artefatos dos povos indígenas do Brasil queimavam.

Vinte milhões de memória de alguma coisa tentando ser um país queimavam.

O Brasil perdeu a possibilidade da metáfora. Isso já sabíamos. O excesso de realidade nos joga no não tempo. No sem tempo. No fora do tempo.

O Museu Nacional em chamas. Um bombeiro esguichando água com uma mangueira um pouco maior do que a que eu tenho na minha casa. O Museu Nacional queimando. Sem água em parte dos hidrantes, depois de quatro horas de incêndio ainda chegavam caminhões-pipa com água potável. O Museu Nacional queimando. Uma equipe tentava tirar água do lago da Quinta da Boa Vista. O Museu Nacional queimando. A PM impedia as pessoas de avançar para tentar salvar alguma coisa. O Museu Nacional queimando. Outras pessoas tentavam furtar o celular e a carteira de quem tentava entrar para ajudar ou só estava imóvel diante dos portões tentando compreender como viver sem metáforas.

Brasil, é você. Não posso ser aquele que não é.

O Museu Nacional queimando.

O que há mais para dizer agora que as palavras já não dizem e a realidade se colocou além da interpretação?

Diante do Museu Nacional em chamas, de costas para o palácio, de frente para onde deveria estar o povo, Dom Pedro II em estátua. Sua família tinha tentado inventar um país e o fundaram sobre corpos humanos. Seu avô, Dom João VI, criou aquele museu no Palácio de São Cristóvão. Dom Pedro II está no centro, circunspecto, um homem feito de pedra, um imperador. Diante da parte esquerda do museu, indígenas de diferentes etnias observam as chamas como se mais uma vez fossem eles que estivessem queimando. Estão. É o maior acervo de línguas indígenas da América Latina, diz Urutau Guajajara. É a nossa memória que estão apagando. É o golpe, é o golpe. Poderiam ter salvo, e não salvaram, ele grita.

Nunca salvaram. Há 500 anos não salvam.

As costas de Pedro ferviam.

Quando soube que o museu queimava, eu dividi um táxi com um jornalista britânico e uma atriz brasileira com uma câmera na mão. “Não é só como se o British Museum estivesse queimando, é como se junto com ele estivesse também o Palácio de Buckingham”, disse Jonathan Watts. “Não há mais possibilidade de fazer documentário”, afirmou Gabriela Carneiro da Cunha. “A realidade é Science Fiction.”

Eu, que vivo com as palavras e das palavras, não consigo dizer. Sem passado, indo para o Museu do Amanhã, sou convertida em muda. Esvazio de memória como o Museu Nacional. Chamas dentro de todo ele, uma casca do lado de fora. Sou também eu. Uma casca que anda por um país sem país. Eu, sem Luzia, uma não mulher em lugar nenhum.

A frase ecoa em mim. E ecoa. Fere minhas paredes em carne viva.

“O Brasil é um construtor de ruínas. O Brasil constrói ruínas em dimensões continentais.”

A frase reverbera nos corredores vazios do meu corpo. Se a primeira brasileira incendiou-se, que brasileira posso ser eu?

O que poderia expressar melhor este momento? A história do Brasil queima. A matriz europeia que inventou um palácio e fez dele um museu. Os indígenas que choram do lado de fora porque suas línguas se incineram lá dentro. E eu preciso alcançar o Museu do Amanhã. Mas o Brasil já não é o país do futuro. O Brasil perdeu a possibilidade de imaginar um futuro. O Brasil está em chamas.

O Museu Nacional sem recursos do Governo federal. Os funcionários do Museu Nacional fazendo vaquinha na Internet para reabrir a sala principal. O Museu Nacional morrendo de abandono. O Museu Nacional sem manutenção. O Rio de Janeiro. Flagelado e roubado e arrancado Rio de Janeiro. Entre todos os Brasis, tinha que ser o Rio.

Ouço então um chefe de bombeiros dar uma coletiva diante do Museu Nacional, as labaredas lambem o cenário atrás dele. O bombeiro explica para as câmeras de TV que não tinha água, ele conta dos caminhões-pipa. E ele declara: “Está tudo sob controle”.

Eu quero gargalhar, me botar louca, queimar junto, ser aquela que ensandece para poder gritar para sempre a única frase lúcida que agora conheço: “O Museu Nacional está queimando! O Museu Nacional está queimando!”.

O Brasil está queimando.

E o meteoro estava dentro do museu.

Dano maior do que o incêndio

A destruição do Palácio de São Cristóvão não tem solução.

O preço que o Brasil pagou pela negligência de seu patrimônio cultural é enorme, uma triste metáfora de que a falta de atenção às instituições que formam a coluna vertebral de um país, e a cultura é uma delas, acaba provocando danos irreparáveis 
Editorial - El País

A cultura da reação

Falta dinheiro para tudo no serviço público, especialmente para ações preventivas, mas basta acontecer uma tragédia para as autoridades “constituídas” se desmancharem em prantos e se desdobrarem em público, achando recursos onde não havia, como se a emergência, após a casa arrombada pelo ladrão, obrasse milagres.

Foi assim com a Lei dos Crimes Hediondos, após o assassinato de uma atriz por um colega de trabalho e sua mulher enciumada. Está sendo assim agora, com o incêndio que consumiu o Museu Nacional e todo o seu acervo.


Não havia recursos para manutenção do museu. Até a Universidade Federal do Rio de Janeiro, dirigida por forças que se dizem amantes da cultura, reduziu de R$ 600 mil para R$ 300 mil os repasses ao bicentenário centro de cultura.

O Ministério da Cultura andou a passos de tartaruga para concluir processo de destinação de verbas para o museu, em junho deste ano, e continuou em câmera lenta para liberar o que foi aprovado, até que vieram as chamas e engoliram tudo. 

De repente, o presidente Michel Temer enfiou a mão na botija e arranjou R$ 15 milhões para recuperar o que foi destruído. Para impedir a destruição, não havia um centavo.

Predomina, no Estado brasileiro, a cultura da reação. Não há policiamento na rua, mas basta ocorrer um crime grave para o governo mobilizar um aparato policial para cuidar da cena do delito, como se aquele efetivo estivesse ali para impedir o descanso do morto.

Miguel Lucena