quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

A crise e seu espetáculo

Como é possível um governo lambuzado em dezenas de casos de corrupção, e tendo o seu principal líder acusado de graves crimes, continuar agindo e dirigindo os negócios públicos como se o país vivesse em plena bonança econômica e respeito aos valores republicanos? Vivemos uma situação anômala.

O mais estranho é que os dias vão passando, as crises — pois são várias — vão se sucedendo e se aprofundando, mas nada muda. Nada no sentido da interrupção deste perverso processo. É como se estivéssemos condenados ao fogo eterno, cada vez mais quente e mais devastador.

A sucessão das denúncias e as condenações na operação Lava-Jato — quase uma centena, até agora — são recebidas como algo natural, parte intrínseca da política. Diversamente dos Estados Unidos, o nosso destino manifesto seria conviver com a corrupção.

Sempre teria sido assim — e sempre será assim. O que em outros países encerraria a carreira de um político aqui passou a ser entendido como um ato falho, de falta de esperteza.


Não é preciso ir muito longe na nossa história ou buscar formas metafóricas para tratar da conjuntura brasileira e de seus personagens. As acusações que pesam sobre Luiz Inácio Lula da Silva não encontram paralelo na nossa tradição e nem na contemporaneidade ocidental.

Isto porque, além dos indícios de ocultação de patrimônio denunciados pelo Ministério Público, são estabelecidas relações com o maior desvio de recursos de uma empresa pública da história, o petrolão. E que levaram a Petrobras a uma situação pré-falimentar.

Lula continua agindo como se vivesse em um país imaginário e que sobre ele não pesasse nenhuma acusação ou — o que é pior — fosse inimputável. Quando disse que era a alma mais honesta do Brasil, a afirmação foi recebida como chacota. Mas não: ele acredita que é intocável, como os nossos imperadores de acordo com a Constituição de 1824 — ressaltando, claro, que nenhum deles, Pedro I ou Pedro II, cometeram ilícitos da magnitude do petrolão.

Evidentemente que não imagino que Lula leu a Constituição Imperial. Qual o quê. Não leu nem a de 1988 — penso até em sugerir uma edição exclusiva para ele e, para deixar a árdua tarefa mais palatável, poderia colorir artigo por artigo.

Dilma considera que tudo vai bem. Ficou — ou fingiu? — indignada com a avaliação do FMI sobre a economia brasileira. Fala de um Brasil que não existe. As entrevistas com os jornalistas, às sextas-feiras, foram patéticas — patéticos também foram os jornalistas: alguns tiram selfies com a presidente.

Estamos na maior depressão econômica da nossa história, e Dilma age como se tivéssemos crescendo a ritmo chinês. A reunião do tal Conselhão — que não tem legalidade constitucional; o que há na Constituição é o Conselho da República, que nunca foi convocado por ela — foi mais um exemplo de dissociação entre o mundo imaginado pela presidente e o cenário de caos econômico que vivemos. O mais patético foram os representantes empresariais que compareceram e legitimaram a farsa.

Teremos um 2016 onde as crises ética e econômica vão se agravar. A Lava-Jato — e outras eventuais operações da Polícia Federal — deverão devassar ainda mais os crimes deste triste método de governança adotado desde 1º de janeiro de 2003.

Tudo indica que a economia deve ter um desempenho igual ou pior que 2015, ou seja, a recessão deve chegar a um resultado negativo do PIB próximo de 4%. É como se assistíssemos a um naufrágio de dentro do navio, com acesso aos botes salva-vidas, mas sem que façamos qualquer movimento, inertes, passivos, quase que um suicídio histórico.

O projeto criminoso de poder ainda tem muita lenha para queimar. E estão queimando. Destruíram a maior empresa brasileira. Atacaram com voracidade os fundos de pensão dos bancos e empresas estatais.

Agora, estão solapando as bases do FGTS com a complacência das centrais sindicais pelegas. Possuem uma ampla base de apoio que é sustentada pelo saque do Estado. A burguesia petista ainda tem os bancos e benesses oficiais como suas propriedades. Os sindicatos nunca tiveram tanto dinheiro, produto do famigerado imposto sindical.

Os tais movimentos sociais sobrevivem com generosas dotações governamentais sem que haja qualquer controle da utilização destes recursos. E são milhares de sindicatos e associações. Isto sem falar em outros setores, como os blogueiros e jornalistas amestrados, os artistas — em tempo: o que Chico Buarque acha do triplex e do sítio do Lula? São tenebrosas transações? Pseudointelectuais et caterva.

Estamos em meio a uma selva escura. E, pior, sem que um Virgílio nos conduza. Fazer o quê? Este é o paradoxo que vivemos. O projeto criminoso de poder nunca esteve tão debilitado, desmoralizado. Sobrevive porque não encontra obstáculos na estrutura legal do Estado — as instituições, diferentemente do que dizem as Polianas, não funcionam —, e inexiste uma oposição política digna deste nome.

Há esforços isolados, quando muito. Os líderes oposicionistas não estão à altura do momento histórico. São fracos, dispersivos. Não gostam de serem obrigados a ter de enfrentar o governo e seus asseclas. Preferem o ócio, a conciliação parlamentar. Acreditam que a Lava-Jato e a gravidade da crise econômica vão, por si só, derrotar a quadrilha que tomou conta do aparelho de Estado.

Não entenderam que, assim como o hábito não faz o monge, a crise pode não conduzir mecanicamente a uma queda imediata do petismo. Pode sim empurrar o Brasil para uma depressão econômico-social nunca vista na nossa história. E quando forem assumir o governo, só haverá ruínas.

Marco Antonio Villa

Macri e o samba-da-petista-doida

Parrilla
Um dia após assumir a presidência, Macri reuniu-se com candidatos que o enfrentaram nas eleições. Também fez um churrasco para 24 governadores. Excelente maneira de se fazer amigos. Ainda mais quando o corte é argentino. Isso mostra que ele sabe que, num momento de crise, é importante unir as forças políticas do país.

A culpa é deles!
Enquanto isso, o PT de Dilma, no Brasil, utiliza seu tempo de TV para atacar figuras da oposição. Seus defensores, verdadeiros buldogues do governismo, polarizam o debate político berrando insistentemente seus bordões de ódio. Ao invés do diálogo, o discurso de "nós contra eles".

Cobrar menos, arrecadar mais
Macri mostra que é possível fazer ajustes diminuindo impostos. Reduziu de 35% para 30% o imposto de exportação da soja e acabou com o mesmo imposto para carne, milho, trigo, girassol e para as chamadas "economias regionais". Em pouquíssimo tempo, o setor agrícola celebrou um aumento de 100% nas receitas.

Para compensar a diminuição de impostos, o presidente argentino corta gastos e dá exemplo. Cristina Kirchner e sua equipe sempre utilizaram carros importados de luxo. Macri os substituiu por modelos nacionais e mais modestos. Abriu mão de seu salário. O dinheiro será doado para um restaurante comunitário que serve 1.800 pessoas diariamente num bairro pobre de Buenos Aires. Sem cortar gastos, seria demagogia; cortando-os, vira um exemplo.

Menos exemplo, mais cobrança
Já a solução encontrada por Dilma Rousseff é aumentar os gastos e propor novos impostos. Apesar de ter se posicionado contra a CPMF antes das eleições, a presidente agora trata o imposto como uma espécie de panaceia. Felizmente ainda não tem votos para aprova-la. Em 2014, o governo Dilma bateu recorde em gastos secretos com cartões corporativos: R$ 8,7 milhões, o maior valor desde 2001. Neste ano, quase todos os Ministérios preveem aumento de custeio.

Crise para quem?
Em uma de suas idas a Nova York no ano passado, Dilma levou diversos ministros, secretários e até a filha. Todos ficaram num dos hotéis mais luxuosos da cidade. Quando a presidente foi a Paris para participar da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, torraram-se R$ 200 mil com hospedagem e R$ 90 mil com aluguel de carros.

Nem a coxinha ficou de fora do aumento de gastos da presidente. Neste ano, haverá um aumento de 40% nos gastos com pães, biscoitos e salgadinhos que abastecem o Palácio do Planalto. Repito uma das perguntas preferidas dos petistas: "Crise pra quem?".

Imprensa livre
Macri derrubou um dos símbolos da política kirchnerista, a lei contra a concentração dos meios de comunicação audiovisuais, que obrigava o principal veículo da imprensa, o Clarín, a diminuir seu investimento na área. Liberdade de imprensa.

Imprensa golpista!
No Brasil, vândalos depredaram a sede do grupo Abril, que edita a revista Veja. O ataque foi uma reação a uma matéria que denunciou que a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Lula "sabiam de tudo" em relação ao petrolão. Além disso, o governo insiste em querer regular a imprensa, ou, como líderes do PT dizem, "democratizar a mídia".

Hermanos decolando
O presidente argentino foi ao Fórum Econômico Mundial, em Davos. Viajou com sua equipe num avião comercial. Voltou de lá com a garantia do presidente da Coca-Cola de que a Argentina receberá um investimento de US$ 1 bilhão.

Discurso e cofres vazios
Dilma não foi ao encontro. No seu lugar, compareceu o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, que fez alguns discursos sobre "mudanças estruturais" que "precisam ser discutidas" e defendeu a recriação da CPMF. Voltou com tapinhas nas costas.

Nova liderança
O governo de Macri ajuda até o nosso pais. Recentemente, a Argentina chegou a um acordo com seus sócios (Brasil, Uruguai, Paraguai e inclusive Venezuela) para impulsionar as negociações com União Europeia, Japão, Canadá, Rússia e Índia.

Fala que eu te escuto
Macri também erra. Nomeou por decreto dois juízes da Corte Suprema, alegando que seria importante ocupar cadeiras vagas. A lei argentina permite, mas a democracia se ofende. Duramente criticado, voltou atrás. Erra e se corrige.

Tudo invenção dos golpistas
Já a nossa presidente, cujos erros são incontáveis, nunca recua. Prefere chamar seus críticos de "golpistas" e agir como se Brasil estivesse uma maravilha.

Amigos da Rainha
"Ah, mas esse mauricinho neoliberal com certeza tirou a comida da mesa dos pobres!". Será? Macri não mexeu em programas sociais e até aumentou valores repassados por alguns deles. No Brasil, também é possível fazer cortes substanciais sem cortar um centavo do Bolsa Família, que, apesar de toda a propaganda oficial, recebe muito menos recursos do que o Bolsa Empreiteira, o Bolsa Juros, o Bolsa BNDES e o Bolsa Amigos da Rainha.

Eficiente, não exótico
O presidente argentino defende a austeridade no discurso e, tudo indica, a pratica como política de governo. À diferença do uruguaio José Mujica, parece querer convencer pela eficiência, não pelo exotismo.

Meta aberta
Dilma, em seus discursos, defende um tal ajuste fiscal. Saúda a mandioca, lamenta não poder estocar vento e promete dobrar a meta indefinida. Na prática, vive uma vida de luxo e aprova a gastança generalizada de seus ministérios. A hipocrisia não a preocupa. É só passar a conta para o pagador de impostos.

Bolso esquerdo só tem peixe
Macri fez sua campanha dançando –e bem, diga-se. Dilma fez sua campanha mentindo. O que mais se aproxima da presidente no mundo da música é o funk ostentação. Sem a parte do "funk". E com o detalhe do uso de dinheiro público.

Dança
A Argentina é a terra do tango. Dramático. Trágico até. Macri parece preferir a alegria da cúmbia. No Brasil de Dilma, é carnaval o ano todo. O governo toca o samba-da-petista-doida. Nós dançamos.

Kim Kataguiri

'Só os deuses podem ver-se uns aos outros'

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Calígula reuniu a corte em torno de seu trono para informar que a deusa Lua havia descido do céu e naquele momento preparava-se para beijá-lo. Todos confirmaram e aplaudiram, menos um. O Imperador dos romanos mandou cortar-lhe a cabeça. Antes, indagou do já quase decapitado Vitélio porque não estava vendo o edificante episódio que todos viam. O cortesão salvou-se com a resposta: “só os deuses podem ver-se uns aos outros.”

Guardadas as proporções, repete-se a situação. O PT em peso inclina-se perante o Lula, aceitando sua versão de que não é dono de triplex nenhum, muito menos possui um sítio em Atibaia e nem recebeu propina de empreiteiras para conseguir contratos com governos estrangeiros.

Vitélio está chegando com a resposta na ponta da língua: receber de graça apartamentos triplex, sítios e propina é prerrogativa de ex-presidentes do PT, imperadores que os companheiros devem aplaudir com entusiasmo. É o beijo da deusa Lua, ou melhor, das empreiteiras...

Carlos Chagas

E no país do 'chutômetro'


Esse meu “chutômetro” não tem nada a ver com futebol, mas sim com as mentiras da presidente, que lamenta não poder ensacar vento e se rejubila pela conquista da mandioca, além de outras esquisitices do gênero. Penso que já passou da hora de escutarmos tanta “bestagem” sobre assuntos sérios e de vermos tamanha insensatez praticada pelo atual governo, sem uma reação correspondente do povo ou da parte do povo, que vê o país soçobrar pela incompetência e incapacidade civil de sua comandante.

Eu nunca fui favorável ao impeachment de Dona Dilma, porque sempre achei que seu caso é de interdição por incapacidade civil. Não a incapacidade civil de que trata o Código Civil em seu artigo 1.767. A incapacidade de que falo, na política, é declarada pelo Congresso Nacional, que se resolve no voto, sem pensar em curatela – pois seria necessário, no caso, a indicação de um curador, que poderia ser um pau-mandado do PT, o que significaria trocar seis por meia dúzia...

Uma presidente que não toma conhecimento de que o país está tomado por banqueiros, agiotas, ladrões de casaca – fora da Lava Jato –, que chegam a cobrar juros de 430% ao ano por utilização de cheque especial ou crédito rotativo, e, consequentemente não toma providência para prender essa gente por crime de usura e contravenção contra a economia popular, na forma da Lei 1.521/1951, não pode ser vereadora nem de “currutelas”, quanto mais presidente da República.

Porém, é assim que estamos vivendo, nós, brasileiros... Está ruim viver em um país como o nosso, que mais parece um carro velho, desgovernado pela quebra da barra de direção...

Compreendo, até certo ponto, a incapacidade da presidente para a vida pública, já que demonstrou essa inabilidade também na vida privada. Afinal, como se explicar que uma pessoa equilibrada, no fulgor de seus vinte anos, como no seu caso, tenha saído por aí de metralhadora em punho, para fazer valer seu sonho, possivelmente “robinhoodiano”, de viver numa Sherwood comunista?

Aquele que, estupidamente, se diz o homem mais honesto do mundo deve ter escolhido a candidata por um critério de exclusão, de forma a não deixar dúvida alguma de que foi ele, o tal “honesto em excesso”, que fez sozinho a presidente da República. Não podia ser alguém que se distinguisse na sociedade pela cultura, pelo procedimento, ou por qualquer atributo que pudesse, deixando essa dúvida ferir a vaidade pessoal de um analfabeto.

Digo à presidente o que muitos gostariam de dizer: chute o pau da barraca, assuma sua condição de mulher que precisa ser simples, reconheça suas dificuldades pessoais, peça perdão ao povo brasileiro por sua petulância em fazer o papel de presidente – o mais surpreendente: da República, que muitos acham que é das bananas –, e surpreenda seu criador, reconhecendo que os governos do PT acabaram com nosso orgulho natural de sermos nação de um povo feliz e altaneiro, sem ser pedante e metido a besta. Quebre esse galho pra nós, vai...

Cachaça não é água, não

O PT não nasceu em São Bernardo, São Paulo. Nasceu em Criciúma, Santa Catarina. Eu vi. Em 1978, o prefeito Walmor de Luca, líder estudantil, deputado federal de 1974 no levante eleitoral do MDB, realizou um seminário trabalhista nacional com os políticos que se reorganizavam lutando pela anistia e destacadas lideranças sindicais.

Lula estava lá. E também Olívio Dutra, o bigodudo gaúcho, bancário do Rio Grande do Sul, depois prefeito de Porto Alegre e governador gaúcho, Jacó Bittar, petroleiro de São Paulo e outros dirigentes sindicais do ABC paulista, Rio, Paraná, Santa Catarina, Minas, Bahia, Pernambuco.

Desde a primeira assembleia um assunto centralizou os debates: o movimento sindical devia ter partido político? As lideranças sindicais deviam entrar para partidos políticos já funcionando ou outros a nascerem?

Lula era totalmente contra. O argumento dele era que os sindicatos eram mais fortes do que os partidos políticos e a política descaracterizava o movimento sindical e desmobilizava os trabalhadores.

Discutimos dois dias. Estávamos lá um grupo de socialistas e trabalhistas (José Talarico, a brilhante advogada Rosa Cardoso, o exemplar João Vicente Goulart, eu, outros). Defendíamos a reorganização dos trabalhistas e socialistas em um só partido liderado pelo incansável Brizola, que saíra do exílio no Uruguai e articulava sua volta em Portugal.

Lula não queria partido nenhum. Mas houve tal pressão de líderes sindicais de outros Estados e Lula balançou. O argumento dele era que os sindicatos poderosos, como os de São Paulo, não precisavam de partidos. Mas, e os mais fracos, que eram mais de 90% no país? No último dia vimos Lula já quase mudando de posição. Afinal, em 10 de fevereiro de 1980, nascia o PT, marco da historia política brasileira. Walmor de Luca devia ter ganho carteirinha de padrinho.

Lembro-me bem de que lá em Criciúma já rouco de falar Lula pediu:

– Me dá minha água.

Veio uma garrafinha de água bem branquinha. Aquela “minha água” me chamou a atenção. Joguei um gole no meu copo. Era cachaça e da boa.

Lula continua o mesmo. Sempre misturando cachaça com água.

Em tempos de Carnaval, a marchinha é inesquecível:

– “Você pensa que cachaça é água/ Cachaça não é água não./ Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão”.

Lula é um passarinho do céu, como aqueles da Bíblia, que não fiam nem tecem. A casa de São Bernardo não é dele mas é nela que ele mora. O sitio de Atibaia não é dele mas é nele que ele passa os fins de semana e pesca. O triplex de Guarujá não é de ninguém mas quem pôs o elevador lá foi ele, quem fez a churrasqueira lá foi ele, quem construiu as suítes lá foi ele, quem toma os porres lá é ele, quem paga… quem paga tudo… ah, quem paga tudo é a Madrinha Odebrecht, a Titia OAS, o Vovô Teixeira.

Quando os idealistas se perdem

Olho para a foto de José Dirceu, na capa desta Folha no sábado, 30, cercado de policiais, ralos cabelos brancos, um esgar no rosto que parece um sorriso, ao ser conduzido para prestar depoimento ao juiz Sergio Moro. É réu. Volto quase meio século no tempo e vejo, num canto da memória, José Dirceu trepado a um poste da rua Maria Antônia, arengando à multidão de estudantes que protestava contra a ditadura. Era um subversivo idealista.

Olho para a foto do sítio de Atibaia, reformado por empreiteira para o conforto de Luiz Inácio Lula da Silva, frequentador confesso, talvez proprietário oculto. Um luxo só.

Volto outro tanto no tempo e a memória fotografa o estadinho da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, em que um Lula desalinhado e rude arengava à massa de operários em greve, um tanto por melhores salários, outro tanto contra a ditadura. Era um herói popular.

Fico pensando, no meu canto, em que momento o subversivo idealista se tornou um “profiteur” das amizades com poderosos e ricos a ponto de se tornar réu.

Fico tentando descobrir igualmente em que momento o herói popular dedicou-se a enriquecer a ponto de ter de prestar sucessivos depoimentos sobre imóveis em que empreiteiras puseram mais que um dedo para deixá-los ao gosto do novo rico. Um amigo jornalista me conta que frequentou o antigo sítio de Lula, Los Fubangos, às margens da Billings: “Era fuleiro, pior que o meu”.

Sei que os hidrófobos do antipetismo e do antilulismo dirão que não houve um momento de transformação. Eles sempre teriam sido assim, interessados apenas em arrumar-se na vida.

Não concordo. Se fossem desde sempre “profiteurs”, não teriam arriscado a vida, um no combate à ditadura, outro na luta sindical, sempre áspera e mais ainda em épocas autoritárias.

É verdade que Lula, mesmo antes de ser presidente, acomodou-se ao bem-bom ao aceitar morar de graça em casa de seu amigo, o advogado Roberto Teixeira.

Aí, sim, com alguma condescendência, poder-se-ia admitir que se tratava de um mimo de amigo que, talvez, não embutia a necessidade de retribuição futura.

Agora, não. Todo o mundo — e não só no Brasil – está cansado de saber que os negócios das empreiteiras com o poder público são turvos, para dizer o mínimo. Quase 100% dos escândalos que envolvem políticos mundo afora envolvem também empreiteiras de obras públicas.

No caso específico de Dirceu, tornar-se consultor de Carlos Slim, o bilionário mexicano, é desprezar o fato de que fazer fortuna no México (como em quase toda a América Latina) não é um esporte isento de irregularidades, para dizer o menos.

Não há, até agora, provas conclusivas contra Lula (ao contrário do caso de Dirceu, já condenado no mensalão e, agora, preso pelo petrolão). Mas essa é uma ressalva de caráter puramente jurídico.

Do ponto de vista do comportamento republicano, a promiscuidade comprovada com empreiteiras é um crime que ninguém deveria cometer, menos ainda um antigo herói popular.

O 'Concelhão' ausente

A Presidente Dilma convocou de volta um chamado Conselhão para ouvi-la e apoia-la e no máximo dar conselhos sobre as propostas de seu governo.

Segue o mesmo ritual de seu antecessor, que pelo menos começou a ouvir seu Conselhão ainda quando seu governo estava com popularidade elevada.

Ela repete a mesma experiência no momento em que seu governo demonstra fracasso quase absoluto, mergulhado em crises sob todas as frentes e na véspera da retomada de debate sobre seu impeachment.

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Claro que o Conselhão cai no vazio, todos sabendo que foi um golpe de marqueting que já não surte efeito.

Poderia ser diferente se no lugar do -"s" ela usasse o "c"; no lugar de ouvir falsos conselhos sobre o que ela já decidiu ou pensa decidir, tentasse construir um concerto sobre o que o País deseja e pensa.

Mas para isso teria que perder a arrogância, assumir as dificuldades, reconhecer seus erros, ouvir os críticos profundos e até mesmo representantes da oposição. Isto ela não quer; e sua base de apoio, começando com o PT, mas também os outros partidos aliados, também não quer.

É este "Concelhão" que muitos sugerem desde o dia de sua reeleição: pessoas que percebiam o desastre de um governo sem credibilidade, eleito por campanha mentirosa e com falsas promessas, mas com um mandato constitucional por mais quatro anos.

Só com diálogo seria possível criar um concerto que evitasse os riscos de impeachment e a certeza de desastre. Mas, a arrogância não deixou e no lugar de um concerto político de vontades nacionais, continuamos na busca de consertos usando marqueting, como se o problema fosse dar a impressão de que estamos tapando o furo em um pneu, quando nosso problema é mudar o rumo errado que o veículo insiste em seguir sob a condução de um governo perdido pela irresponsabilidade e incompetência, falta de visão de longo prazo, apego ao poder das mãos na direção, mesmo em um rumo errado; ou, ainda pior para o País, achando que o rumo está certo, quando a realidade mostra e todos percebem que estamos no rumo equivocado.

O Brasil precisa de um Conserto e não de falsos concertos pelo marqueting.
Cristovam Buarque

O inferno são os outros

São sempre os outros. Eles são os culpados. Para os jovens que abordaram Chico Buarque na saída de um restaurante, ele é “um merda”, pois apoia o PT. Os petistas são os outros. Para alguns petistas, os jovens supostamente de direita é que são os outros, são fascistas, pois xingaram Chico após um jantar privado com amigos. Sem dúvida, a atitude dos jovens é autoritária, desrespeitosa. Chico, que nem político é, sofreu injúrias num momento de lazer. Não dá. Não pode.

Mas não dá também para atribuir a quem é contrário ao PT exclusividade em atitudes desse tipo. Petistas às vezes agem de modo opressor e impositivo. Os eleitores de Marina Silva sabem bem. E, em 2014, o ministro Joaquim Barbosa foi hostilizado num bar. Cada caso é um caso: Chico não tem cargo político. Mas, por outro lado, defende sua posição partidária em público. O problema é que, quando os “nossos” fazem as mesmas coisas que os “outros”, não julgamos por um crivo igual. São dois pesos e duas medidas. Não dá. Não pode.

Importa pouco quem são os nossos e quem são os outros para entender o desafio político diante de todos. Importa mais perceber que a crítica está sempre voltada a só um dos grupos: o dos outros, claro. Diante do que ocorreu com Chico Buarque, apenas acusar os “playboys de direita” (se é que eles o são) não adianta. É preciso que os que não são playboys de direita possam identificar, também em si, atitudes similares. E que, isso feito, as repudiem não só nos outros.

Neste ponto, valeria desatrelar a política da moral. Não para desmoralizá-la pela corrupção de seu significado. Mas porque, no âmbito público, não se pode tratar os outros como se fossem o mal e os nossos como se fossem o bem. Isso é uma dualidade moral que diz respeito às intenções das pessoas. O jogo político é mais plural. Ele diz respeito às ações e às palavras. Não interessa o partido: quem age como se agiu com Chico é intrusivo e desrespeitoso com um cidadão.

Defender a vida democrática, nesse sentido, implica acolher a convivência com os outros, os que têm uma posição política diferente da nossa, sem que esses outros sejam considerados uns merdas, sem que eles sejam colocados do lado do mal. “Star Wars” é um ótimo filme, mas política mesmo não se faz apenas contra o lado negro da força. E nem tem jedi. Tem manipulação, interesse, corrupção. Tem briga contra isso, justiça, manifestação, disputa. Tem negociação.

Recentemente, todo mundo tem reclamado que o ódio impera na relação política entre as pessoas. Mas o tom da reclamação parece sempre imputar só ao outro esse ódio. Eu, não. Um pouco como ocorre com a corrupção: ela é sempre a do outro. Já a minha, esta é pequena, é sobrevivência, não tem jeito. O ódio é, ele também, sempre o do outro. Já o meu é justo; afinal, se dirige contra tudo que há de absurdo e errado. Novidade, minha gente: nem todo mundo concorda.

Vamos nos odiar por isso, dizer que os outros são uns merdas? Ou vamos suportar que a diferença institui a realidade democrática? Precisamos deixar de lado clichês, abandonar o gosto por escutar só o que já concordamos. Oposições de opinião não são xingamentos. Diálogo é falar e ouvir. Menos certeza faria bem ao ar político que respiramos. Menos ideologia, autoritarismo. De todos os lados. Política é a arte do dissenso — ao menos quando é democrática.

Pedro Duarte

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

clayton

Jatos de lava

O ex-presidente Lula acaba de entrar no raio das investigações sobre o tráfico de influências em favor de grupos de interesse privados que teriam corrompido decisões públicas durante seu governo... e além. Começa a sentir na própria nuca o bafo quente de investigadores independentes que acreditam no aperfeiçoamento institucional de nossa ordem jurídica e, por consequência, de nosso sistema político.

O que lhe parece impertinente perseguição política é na verdade a exigência de uma sociedade aberta ante as dimensões vulcânicas da corrupção sistêmica. Suas evidências são como jatos de lavas lançados sobre uma classe política que há tempos nos deve forma decente de tratar a coisa pública.

AUTO_pater
A erupção da Lava-Jato deve causar em 2016 muito calor, suor e lágrimas entre uma elite política que transformou o que deveria ser “presidencialismo de coalizão”, movido por princípios comuns de políticas públicas, em “presidencialismo de cooptação”, movido por propinas para apropriação indébita de recursos públicos.

Tem sido um enorme desafio a marcha institucional de saída do regime militar rumo à construção de uma sociedade aberta. Em meio a avanços e retrocessos, seguimos nesta trajetória de transição ainda incompleta.

Tudo foi deixado pela metade. Com a expansão ininterrupta dos gastos públicos como porcentagem do PIB, seguimos há décadas com o mais longo e socialmente desastroso programa de combate à inflação da história universal.

Com a escalada da inflação, dos juros, dos impostos e da taxa de desemprego, constatamos também a precariedade dos esforços de inclusão social que desconsiderem o aumento da produtividade da população por sua integração nas engrenagens da economia de mercado.

Somos prisioneiros dos limites cognitivos de uma obsoleta plataforma social-democrata. Perdemos nossa dinâmica de crescimento. Essa armadilha de baixo crescimento é o resultado da falta de sintonia de nossas lideranças políticas com as exigências da nova ordem global a uma democracia emergente.

Buscando apoio no oportunismo político de mercenários e nos interesses econômicos de maus empresários, essas despreparadas lideranças de inclinações “socialistas” acabaram transformando o “capitalismo de estado” do regime militar em um “capitalismo de quadrilha”.

O novo-rico ridículo com luxos de pequeno burguês arrogante

Atenção! Você, brasileiro médio, fica sem jeito por não entender o que é uma offshore? Encontra-se meio perdido quando a conversa trata de lobista, lobby e tal? A única coisa em que consegue pensar, no cotidiano de denúncias da roubalheira lulopetista, é que foi sempre assim? Disfarça que não compreende os nomes das fases da Lava Jato nem ela se chamar “a jato” durando quase dois anos? Tem patrimônio obtido com trabalho honesto e está em seu nome? Ora, seus problemas acabaram! Sim, agora, há um apartamento no rolo que o ajudará a entender que o jeca humilde é somente o álibi fajuto para que o jeca milionário leve uma vida de jeca milionário.

Mas, espere, não é só isso. Você também leva no lombo um sítio reformado e mantido pelos pagadores de propina! A humildade simulada foi útil e eficaz até ontem não só pelo fato de a grana vir de colossal roubalheira inédita, mas sobretudo porque nutria o mito de santidade protetor de um pecador miserável. Não é simples quem tem um tríplex, nem humilde quem se vale de um poder institucional para se favorecer pessoalmente porque isso é trapacear todos os brasileiros e se chama patrimonialismo; mais uma das doenças que sempre nos infelicitaram e que a súcia comandada pelo jeca agravou ou não triunfaria.


OK, o apartamento se chama tríplex, coisa não muito corriqueira para um brasileiro médio, mas continua sendo um apartamento com quarto, cozinha, sala e até um elevador privativo. Chique no último! Só que não: crime não é chique e é crime ocultar patrimônio, acusação que o Ministério Público faz ao jeca vitalizada pelas negativas vexaminosas de advogados e demais devotos. O fato de a OAS ter pagado tudo impõe a certeza: o tríplex de frente para aquele marzão besta tem vista para o petrolão.

Quem se escoraria numa figura dessas? Dilma Rousseff, o PT e a súcia inteira que buscou um projeto asqueroso pelo que foi bem paga. Também não é chique a arrogância da família em travar o elevador quando acompanhava as obras e a decoração, revoltando os outros moradores. Como presidente, a conduta seria outra demonstração da jequice no poder; sem ser presidente, ela demonstrou o poder da jequice. E aqui, a clareza solar do texto de J.R.Guzzo ilumina outro aspecto do retrocesso lá constatado: a crença mofada de uns poucos estarem acima de leis e regras a que nos submetemos na celebração do princípio que a todos iguala perante elas, e sem o qual a convivência civilizada se inviabiliza, também formata as relações cotidianas.

Esse mofo iguala gente autoritária de origem social diversa, convicta de que privilégios materiais ensejam os imateriais e que gentileza e respeito são obrigações de mão única; assim, considerar o direito alheio a destituiria da nobreza imaginária que, nobreza fosse, saberia mais conceder do que exigir. Para tristeza do jeca e dos devotos – nem elite, nem povo, mas apenas a escória – a Lava Jato desenha, para o tipo de brasileiro que Lula finge ser, o novo-rico ridículo com luxos de pequeno-burguês arrogante bancados pelo país que o farsante arruinou.

Direita esquerda, volver?

Não somos donos da nossa vida, não temos a liberdade desejada, não dispomos da nossa propriedade adquirida. Como vamos buscar a nossa felicidade?

Diziam que a ditadura militar era de direita. Dizem que o governo atual é de esquerda.

Vejam o que está ocorrendo no Brasil do PT, Dilma Rousseff repete todas as políticas adotadas pelo mais estatista, coletivista, socialista e intervencionista dos presidentes militares que o Brasil já teve, o Gal. Ernesto Geisel.

Alguém poderia chamá-lo de direita? Ou seria ele um representante da esquerda? Confuso, não é? Num caso ou noutro haveria uma polêmica superficial.

Não vamos saber o que cada um realmente representa se não polarizarmos, se usarmos conceitos vagos. Prefiro que sejamos mais claros: estatistas, coletivistas, socialistas ou intervencionistas, de um lado; livre-mercadistas, individualistas, capitalistas ou liberais, de outro. Desta forma, fica claro o que tivemos no passado e o que enfrentamos no presente.

O governo de Dilma Rousseff é tão estatista, coletivista, socialista e intervencionista quanto era o do Gal. Geisel. Ambos desrespeitaram nossos direitos, apropriando-se do que é nosso.

Lembro que em plena ditadura militar, o General Ernesto Geisel promulgou um decreto-lei, determinando que todo brasileiro, que quisesse viajar ao exterior, teria que fazer, antecipadamente, um empréstimo compulsório ao governo, sem o qual, não teria acesso legal à compra de passagens e dólares necessários para sua viagem.

Passados quase 40 anos, Dilma Rousseff, para cobrir o seu rombo federal, resolveu replicar algo semelhante, tributando, duplamente, a renda de quem gasta o seu dinheiro com turismo no exterior.

Exigir retenção de imposto sobre valor já tributado é o auge da desfaçatez.

Como o governo brasileiro não tem o direito de cobrar tributos sobre a renda de estrangeiros obtida no exterior, esse imposto retido na fonte não passa de cobrança em dobro, como se fosse substituição tributária.

Não apenas é ilegal. É absolutamente imoral.

Sugiro, a quem for viajar para fora, alegar para fins de isenção do imposto, que seus gastos com o turismo se enquadram nas exceções. A instrução normativa da Receita Federal prevê que, em viagens para fins de saúde e de educação, não haverá retenção.

Por que alegar tratamento de saúde? Porque sair do Brasil do PT, mesmo por poucos dias, é remédio contra a depressão.

Por que alegar que vai-se atrás de educação? Porque sair do Brasil do PT, mesmo por poucos dias, é curso de formação. Aprende-se, in loco, que existe civilização.

A zica do Planalto

Zica com “c” é uma gíria brasileira que significa mau agouro, azar, maldição, momento de baixo-astral, quando tudo dá errado. A origem da palavra não se sabe ao certo, mas há quem jure que seria uma contração da palavra ziquizira. Faz sentido. Não tem nada a ver com a zika, triste doença transmitida pelo mosquito Aedes aegypti.Triste porque infecta o cérebro de bebês no útero materno, triste porque atesta nossa incompetência de país subdesenvolvido diante do mosquito que também transmite a dengue, triste porque pode atingir 1,5 milhão de pessoas no Brasil neste ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Cada fala da presidente Dilma Rousseff sobre a zika vira uma festa para humoristas e um constrangimento para a maioria da população – não, claro, para os militantes dilmistas, que a perdoam sempre e atribuem esses lapsos à pressão da dieta argentina ou da “inquisição medieval” contra ela e contra Lula. Dilma já chamou o mosquito de vírus. Dilma já chamou a zika de vetor. Dilma já disse que a doença é transmitida por ovos infectados por vírus. Dilma já inventou um outro inseto que seria especializado em zika, e que não seria o mesmo da dengue.
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Dilma também disse que “o Brasil não parou e nem vai parar” – e não vai mesmo parar de piorar enquanto ela achar que o inferno são os outros. A microcefalia do Planalto não permite que criatura e criador caiam na real. Dilma e Lula estão juntos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Juntos no idioma maltratado. Juntos na solidariedade a Zé Dirceu, o consultor-modelo que mais voou em jatinhos de empreiteiros e lobistas, abastecidos por propinas. Juntos no discurso de perseguição da “mídia”, da Lava Jato e dos delatores premiados.

Pode continuar a trocar o ministro da Saúde, o ministro da Fazenda, o ministro do Planejamento, o ministro da Educação (aliás, por onde anda Aloizio Mercadante, qual será seu bloco escolar este ano?). De nada vai adiantar essa dança das cadeiras ministeriais para agradar a um ou outro partido. Não são eles os mosquitos vetores que contaminaram o Brasil com uma ziquizira da qual será muito difícil sair. O da Saúde, Marcelo Castro, formado em psiquiatria, depois de espalhar piadinhas de mau gosto com mulheres grávidas, cometeu o pecado fatal: foi sincero. Marcelo Castro disse que o Brasil “está perdendo feio” a guerra contra o mosquito – e isso é o fim da picada, não é, presidente?

Dilma não convive com a sinceridade. Seu governo não erra. Aliás, “se erra”, como admitiu há alguns meses, erra pouco e sem maldade – e tudo tem conserto. Erra porque foi vítima. Suas amigas, do gênero Erenice Guerra, também sempre acertam. Se erram, é por ingenuidade ou por falta de memória. A ex-ministra Erenice é ingênua, dá para sentir. E nem lembra quem pagou viagens aéreas dela. Dilma também já se esqueceu de muitas canetadas nessa roda-viva de Petrobras, Casa Civil, Presidência da República. Seu problema não foi o mosquito, mas a mosca azul.

Para a mosca azul não há antídoto nem vacina. A mosca, num passe de mágica, tira as contas do vermelho num gráfico ilusório, com a sua, a nossa ajuda. Uns bilhões do FGTS aqui, outros da CPMF ali, e pronto. O país fica cor-de-rosa, a cor dos programas eleitorais do PT. Só que não, a conta não fecha mesmo assim, porque o Estado brasileiro é voraz e gigantesco. Não há foco na redução do tamanho. Só no aumento de taxas, impostos e contas de serviços públicos. A dívida pública federal terminou 2015 em R$ 2,793 trilhões. A dívida – assim como o Brasil – não vai parar.

Diante do Conselhão de quase uma centena de empresários, empreendedores, banqueiros e autoridades – sem a presença incômoda da imprensa –, Dilma lançou um plano de sete medidas para liberar R$ 83 bilhões em crédito para habitação, agricultura, infraestrutura, pequenas e médias empresas. A maior parte desse dinheiro viria do FGTS. Crédito para um país em recessão, que não acredita na capacidade do governo para enfrentar a crise. Dilma disse que, para “a travessia a um porto seguro”, a CPMF é “a melhor solução disponível”.

Não existe nem espaço para o crédito moral, quando se vê Lula, o fiador de Dilma, acuado por delações que o envolvem em reformas milionárias e obscuras de imóveis como o tríplex do Guarujá ou o sítio de Atibaia – hoje amaldiçoados. Na vida real, os juros batem recorde e famílias endividadas precisam refinanciar seus débitos porque não podem lançar mão do dinheiro alheio. O Solaris não nasce para todos. A zica que contaminou o país tem origem na Capital.

Salário de fome

Sem falsa modéstia, R$ 120 mil (por mês) é irrisório
José Dirceu, portador de um "atestado de honestidade" da Receita Federal

A desunião nacional


O Congresso parou antes de iniciada a segunda quinzena de dezembro do ano passado. Só recomeça a trabalhar a 15 de fevereiro. Natal, Ano Novo, recesso e por último Carnaval imobilizaram as atividades parlamentares.

Enquanto isso, a crise avança, tanto política quanto econômica e social. As denúncias de corrupção seguem cada vez mais escandalosas, mas o Legislativo dá de ombros. E não apenas ele. O Judiciário comporta-se no mesmo ritmo de tempos atrás, sempre atrasado. O Executivo nada produziu em termos de combate ao desemprego galopante, o aumento de impostos, taxas e tarifas, além da vertiginosa elevação do custo de vida. Assim como da estagnação.

Indaga-se até onde poderá chegar a falência de nossas instituições, com cada poder da União sem curiosidade a respeito do que faz o outro, ou deveria fazer. Os presidentes do Congresso, da República e do Supremo Tribunal Federal deveriam reunir-se todas as semanas, conscientes de que são comuns os problemas a enfrentar. Não dialogam, não equacionam, muito menos se preocupam com as questões que obrigatoriamente precisariam enfrentar em conjunto. Praticam a desunião nacional.

Faz muito que os três Poderes deixaram de ser harmônicos e independentes. Até mesmo o Executivo legisla, o Judiciário executa e o Legislativo julga. O resultado é que nenhum cumpre o seu destino. No máximo perdem-se em tertúlias desimportantes, acusando-se muito mais do que cooperando. Com todo o respeito, Dilma Rousseff, Renan Calheiros e Ricardo Levandowski são competentes apenas porque competem e não chegam a lugar algum. Melhor seria saírem de cena, mas substituí-los por outros iguais, praticando o mesmo modelo, equivaleria a trocar seis por meia dúzia.

A hora seria de ampla reforma institucional, com uma Constituição capaz de recompor as funções dos três poderes, unidos e interligados, ainda que sem a predominância de um deles. No passado, Roma foi gerida por dois triunviratos, redundando em guerra civil e na prevalência do mais forte ou do mais esperto. Também já tivemos Juntas Militares, quando as forças armadas não conseguiam entender-se em torno de um general. Não deu certo, logo ocupando a chefia aquele que tivesse mais tanques.

Em suma, não sabemos por onde ir, mas conhecemos muito bem o contrário: sabemos por onde não ir. No caminho que hoje trilhamos..
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Carlos Chagas

Escandalização de denúncias prejudica imagem do país

Getúlio Vargas matou-se por causa de uma campanha anti-corrupção onde ele era o epicentro. Governou o Brasil por 15 anos e mais 4 no segundo Governo. Deixou de herança um apartamento de 3 quartos na Tijuca e 1/5 de uma fazenda em São Borja que herdou do pai, general Manoel Vargas.

Juscelino Kubtschek, construtor de Brasília, pintado pela mesma imprensa de hoje como a “7ª fortuna do mundo”, morreu e deixou a muito digna viúva dona Sarah com recursos mais que medianos, depois de certo tempo dona Sarah teve que vender quadros que estavam na parede do apartamento para se manter.


Mario Andreazza, poderoso ministro dos Transportes do Governo Militar, contratante de incontáveis obras de rodovias e pontes, era cantado em prosa e verso pela imprensa como multimilionário. Morreu e seu singelo enterro foi bancado por amigos. Andreazza, militar de carreira, não era só ministro dos Transportes, fazia parte do núcleo central de poder.

O hoje quase imortal Delfim Netto teve seus tempos de fama de corrupto, atacado por uma mídia ávida de escândalos em torno de um certo “relatório” onde se afirmava que ele cobrava 10% em obras. Hoje, o sábio ex-Ministro vive e sempre viveu uma modestíssima vida de classe média em São Paulo. Mandou nas finanças do Brasil como poucos e não enriqueceu, vilipendiado por décadas assim como Roberto Campos, outro que se foi desta vida legando um simples apartamento no Arpoador que já era dele há 40 anos e um Opala velho, mas sempre no visor das acusações da mídia inconsequente.

O Brasil e o Chile são os dois países de menor índice de corrupção na América Latina, não é frase de efeito.

Os 13 presidentes da República Velha, depois Getúlio, Dutra, Café Filho, Carlos Luz, Nereu Ramos, JK, Janio, Jango, Castelo, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo saíram do poder como entraram, alguns adquiriram bens mas nada fantástico, enquanto os presidentes do PRI mexicano saíam do governo com US$1 a 2 bilhões cada um, em um acordo tácito de cúpulas onde se permitia tal feito e parte do pacto era sair do México depois que deixassem a Presidência.

Na Argentina, Perón saiu com US$ 200 milhões, em moeda de hoje seriam bem mais que US$1 bilhão, no Paraguai Stroessner saiu multimilionário, Odria no Peru, Marcos Perez Gimenez na Venezuela, Somoza, Trujillo e os cubanos Gerardo Machado e Fulgencio Baptista, os dois Duvalier, por toda a América Latina o enriquecimento dos poderosos é a regra, no Brasil a tradição é bem mais modesta e muitos, incontáveis ministros poderosos, saíram como entraram.

Os filhos engenheiros do presidente Médici vivem de seu trabalho em empregos mais que médios, fui amigo de um digno militar, chefe do Estado Maior do Exército, vida simples em casa simples, é uma tradição do militar brasileiro, sinto dizer que é bem diferente no resto da América Latina.

O Brasil deveria se orgulhar do conjunto de seus homens públicos, mas hoje, graças à escandalização, estamos sendo apresentados ao mundo em termos de corrupção africana com grave prejuízo à imagem do País.

Lula trata os brasileiros como se fossem uns idiotas!

Sem despesas pessoais, pelo menos, durante os 8 anos em que governou o país, e tendo recebido rios de dinheiros de empreiteiras para fazer palestras e, desconfia-se, lobby, nada mais natural do que Lula dispor de renda suficiente para comprar um tríplex com vista para o mar na praia do Guarujá, e reformar seu sítio em Atibaia, interior de São Paulo.

Mas não é disso que se trata. Trata-se do que existe de escandaloso, de imoral, de agressão à ética pública em se aceitar “agrados” de empreiteiras fornecedoras do governo.

Vejam que nem falo da suspeita de que as reformas do seu apartamento no Guarujá e do sítio em Atibaia serviram para que a OAS e a Odebrecht o remunerassem por fora.

Caberá ao Ministério Público e, mais tarde à Justiça, dizer se a suspeita tinha cabimento ou não.

Um homem público não pode aceitar regalos de quem quer que seja, muito menos de quem está sujeito aos efeitos de suas possíveis decisões.

É por isso que mesmo um presidente da República, ou principalmente ele, é proibido de receber presentes que excedam determinado valor.

A condição de ex-presidente ou de ex qualquer coisa que dependa do voto, não libera ninguém da obrigação de se comportar com sobriedade, bom senso, e respeito ao que manda a lei ou o consenso social.

Lula não é um ex-homem público. Continua sendo um homem público. E costuma apresentar-se como a “alma viva mais honesta” do país.

Ou, num surto de modéstia incontida, como uma das almas vivas mais honestas. De resto, como ele mesmo admite, ainda poderá ser candidato à presidência da República. Seria a sexta vez.

Só um idiota acreditará na história de que a OAS gastou mais de um milhão de reais para reformar um tríplex que poderia ou não vir a interessar a Lula.

Ela o reformou, sim, para atender às exigências do casal Lula da Silva, que só renunciou ao mimo porque a maracutaia acabou descoberta.
Quanto ao sítio, onde a Odebrecht gastou, pagando com dinheiro vivo, mais de R$ 500 mil: certamente Lula dirá que não lhe pertence. Que está registrado em nome de dois sócios de um dos seus filhos.

Isso significa que a Odebrecht gastou uma boa nota com um sítio de terceiros só porque o ex-presidente, de vez em quando, lá se hospeda.

Quanta generosidade! Quanto cinismo!

Em respeito à inteligência coletiva, recomenda-se a Lula que invente outra desculpa para a reforma do sítio de Atibaia. A do tríplex não colou.


Existe lula pequena
lula média e até gigante;
e meu amigo, acredite
existe lula falante

Não é nada disso

Há coisas que, para entendermos, basta um pouco de lógica formal. Se o mundo se recupera, se até a Argentina volta a crescer e, além de nós, a Venezuela é o único país sul-americano a perigo, como a economia internacional pode ser considerada a exclusiva culpada pela nossa crise? E se a China é a vilã responsável pela nossa desgraça, por que permitimos que nossa economia, ao longo dos últimos anos, se tornasse tão dependente do que acontece por lá?

Em Lisboa, num certo fim de noite de algum vinho, um amigo meu, professor em universidade local, desabafou irritado me dizendo que não entendia por que os brasileiros viviam pondo a culpa nos portugueses pelo atraso do Brasil, quando nós somos independentes desde 1822. Fingi não ter ouvido, meu amigo estava até sendo gentil pois, na verdade, somos uma nação desde 1808, há mais de dois séculos.

Entre nós, o estrangeiro é sempre o culpado de tudo. Talvez porque precisamos vencer o trauma da incompetência, justificar nossa impotência, explicar sem culpa o nosso atraso. Primeiro foi o colonialismo português, depois as grandes nações europeias, finalmente o imperialismo americano. A estratégia não é original. Joseph Goebells, o marqueteiro de Hitler, já havia ensinado que, para unir um povo com agressividade em torno de uma mesma causa, nada como nomear um inimigo externo que seria o responsável por nossos males. Quando o nazismo botou a ideia em prática, ela gerou o Holocausto.

Esta semana, mandei para aquele professor lisboeta o número de janeiro da revista “Piauí”, recomendando a leitura de reportagem sobre um certo brasilianista americano que eu não conhecia. Tendo sido professor na Business School da Universidade de Nova York, o economista Nathaniel Leff dedicou parte de sua vida a estudar a história econômica do Brasil, tentando entender o mistério de nosso atraso crônico. Ele publicou o livro “Subdesenvolvimento e desenvolvimento no Brasil”, editado em 1982, com ensaios produzidos entre o final dos anos 1960 e o início dos 70.

Na primeira metade do século 19, o Brasil tinha um PIB próximo ao dos Estados Unidos, mas concentrado nas poucas mãos de fazendeiros extremamente conservadores. Segundo Leff, o país se tornou uma máquina de produzir gente “barata”, uma abundância de trabalhadores não qualificados que custavam pouco e consumiam nada. “Uma industrialização baseada no mercado interno”, diz ele com ironia, “precisa, como condição prévia, de um mercado interno”.

Desde 1862, com a aprovação do Homestead Act pelo Congresso americano, quem ocupasse terras sem dono por mais de cinco anos se tornava seu proprietário, fosse nascido nos Estados Unidos ou não (levas de imigrantes começavam a chegar ao país). No Brasil, no Império e na República, as terras sempre pertenceram ao Estado, que cobrava caro por elas, além de exigir pagamento à vista. Não tendo como comprá-las, os trabalhadores corriam ao fazendeiro mais próximo e vendiam por nada sua força de trabalho. “No caso brasileiro”, escreve Leff, “interesses de classe eram tão obviamente distintos que é razoável questionar a validade de se usar a ‘nação’ como unidade de análise”.

Leff aponta a passagem do século XIX para o XX quando, há algum tempo, o Brasil não era mais uma colônia, como o momento em que o país organiza, por sua própria conta, a síndrome de seu atraso. Ali, quando finalmente o país começa a fazer crescer sua malha de transporte (um dos principais motivos de nosso subdesenvolvimento era a falta de integração econômica, ocasionada pelos altos custos do transporte, num país imenso sem estradas ou ferrovias), ela é implementada para atender às necessidades exclusivas dos grandes proprietários de terra da época, os trogloditas do café.

Apesar de os números serem outros, não sei se Leff consideraria a situação de hoje muito diferente daquela. Os culpados pelo “desenvolvimento do atraso brasileiro” somos nós mesmos, submetidos ao poder dos poucos que disputam o resultado do butim nacional. Ninguém tem nada a ver com isso, somos nós os desinteressados pelo país.

Debret, o pintor da Missão Francesa do século XIX, registrou a metáfora desse desinteresse em célebre gravura saudada como singela ilustração da verve brasileira. Nela, um aristocrata nacional, protegido do sol pela sombrinha de um escravo, faz xixi na via pública contra um muro de rua, uma metáfora histórica de como os grandes tratavam o país. Hoje, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), sabemos que o Brasil só universalizará a coleta de esgoto em 2053. Se fosse vivo, Debret ainda poderia pintar muito xixi de poderosos.

Cacá Diegues

Os 15 desafios invisíveis que ameaçam a vida no planeta

Uma das ilhas artificiais criadas pela China recentemente.

Já nos alertaram no passado sobre o aceleradíssimo declínio da população de elefantes e rinocerontes nas mãos de caçadores furtivos, a legalização do uso de drogas recreativas ou o uso da genética para erradicar os mosquitos que transmitem doenças como a dengue ou o zika. Riscos – e oportunidades– emergentes que, como todos os anos, um painel de especialistas se encarrega de apontar para ajudar a identificar os fatores que podem ser decisivos para a vida no planeta. Fenômenos que hoje parecem estranhíssimos ou de ficção científica, mas que num futuro próximo podem acabar moldando o mundo.

Neste ano, também fizeram a lista dos 15 “problemas com relevância mundial e conhecimento limitado dentro da comunidade de cientistas, responsáveis políticos e profissionais dedicados à conservação e restauração da biodiversidade”, como resumem esses especialistas, coordenados por William Sutherland, professor da Universidade de Cambridge e presidente da British Ecological Society. Inteligência artificial, suplementos de testosterona, o novo cenário no Ártico provocado pelo aquecimento ou a energia azul estão entre os assuntos cujas consequências não devemos ignorar.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Descanse em paz

A zica e o zika

Ainda bem que o carnaval esta chegando. Faltam poucos dias. Vai dar para se acabar na folia. Rasgar a fantasia. Ignorar os problemas. Amortecer as desilusões. E, claro, ter uma boa desculpa para continuar convivendo com abusos sem resolvê-los.

Nos dias de hoje, carnaval não é mais celebração. É simplesmente desculpa para esquecer. Esquecer que não deu certo. Que o país tem se especializado em um atoleiro de coisas ruins, desentendimentos, problemas. Enfim, esquecer que deu zica.


O desafio de esquecer que deu zica, entretanto, parece ser o zika. É este vírus que prova o perigo de desejar além das possibilidades. O país do carnaval, sempre quis estar no centro da atenção mundial. Conseguiu. Só se fala no Brasil. Ou melhor, no zika no Brasil. Ou na zica em que ele se meteu.

Saímos da irrelevância para a qual caminhávamos em marcha batida. Saída, infelizmente, pela porta errada. Não foi por falta de tempo para prevenir ou resolver o problema. O tal do mosquito é nosso conhecido. Tao conhecido que poderíamos, faz muito tempo, tê-lo controlado. A zica, portanto, não era inevitável. E o zika não precisava se espalhar.

Não vale a pena flexionar o indicador para achar o culpado. Exceto claro, se o indicador estiver apontando para o espelho. A verdade, é que o zika e a zica são resultados da capacidade do cidadão em aturar abusos. Ou seja, da incapacidade de demandar cidadania. Ou o respeito a ela.

É assim que um país inteiro assistiu deitado ou não em berço esplendido, a festival de desastres e injurias. A editoria policial invadindo o noticiário politico. A economia derrete. O emprego mingua. A lama cobre e mata a natureza. E a população sofre com o Zika. E Com a Zica.

Mas ainda bem que a gente se guarda para quando o carnaval chegar. Não é qualquer povo que consegue dançar a beira do precipício. Muitos não teriam coragem para tanta ousadia. É lugar dinâmico. Que não se abala com a calamidade. Que sempre vira a pagina. Frequentemente para trás.

Eu, pecador, confesso

A Lava-Jato começa a unir o que o mensalão havia separado – Lula e José Dirceu. Uma vez descoberta a “sofisticada organização criminosa” que tentava se apoderar da máquina administrativa do Estado, Lula foi à televisão e disse ter sido traído, sem apontar, contudo, os traidores.

Em seguida, para driblar o risco de perder a sua, entregou a cabeça de Dirceu, o mais poderoso ministro do governo.

Na semana passada, a cabeça de Lula surgiu no radar do juiz Sérgio Moro. Pouco antes de interrogar Dirceu, preso e acusado de receber propinas de lobistas envolvidos com a roubalheira na Petrobras, Moro autorizara uma nova operação da Polícia Federal, desta vez para apurar a abertura de empresas off shores e contas no exterior destinadas a ocultar crimes de corrupção.

E Lula com isso?

Era uma vez uma cooperativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo, controlada pelo PT, que se aventurou a construir prédios de apartamentos. Não demorou a quebrar.

A pedido de Lula, então presidente da República, a construtora OAS, metida até o talo no saque à Petrobras, assumiu a construção do Condomínio Solaris na praia do Guarujá, em São Paulo.

Quem tem ou tinha ali um apartamento?

Lula citou o apartamento do Guarujá na sua declaração de bens de 2006. Dali a quatro anos, a Presidência da República confirmou que ele era, de fato, proprietário do tríplex 164-A do Condomínio Solaris.

Em dezembro de 2014, o Instituto Lula informou que Marisa Letícia, mulher de Lula, era quem possuía “uma cota do empreendimento”. Em agosto do ano passado, a assessoria de Lula revelou que era ele o dono da cota.

Com 297 m² e vista para o mar, avaliado, a preço de hoje, entre R$ 1,5 milhão e R$ 1,8 milhão, o tríplex está em nome da OAS. Reformá-lo por encomenda de Lula custou à construtora quase R$ 800 mil. E mais R$ 400 mil com mobília e eletrodomésticos.

Tudo foi acompanhado de perto por Lula e Marisa Letícia, que visitaram a obra várias vezes. Só que...

Só que Moro quer saber se o tríplex não foi o meio encontrado pela OAS para, digamos, retribuir favores prestados a ela por Lula quando governava.

Só que para escapar da encrenca, Lula passou a dizer agora que o apartamento jamais foi dele. Marisa Letícia é que teria comprado uma cota do condomínio por R$ 47 mil. Depois, desistiu do negócio e recebeu seu dinheiro de volta.

Ainda sujeita a retoques ou a mudanças bruscas de direção, fica assim a mais recente versão dos Silva para o que aconteceu com o tríplex 164-A: a OAS desembolsou porque quis cerca de R$ 1,2 milhão para reformar e equipar um apartamento que poderia vir a interessar ao casal Lula.

Marisa Letícia chegou a receber as chaves do imóvel e a participar de reunião de condomínio. Aí pensou melhor e renunciou à compra.

Não foi só a OAS que mimou os Silva.

O clã tem um sítio em Atibaia, interior de São Paulo, com 173 mil m², o equivalente a 24 campos de futebol. Registrado em nome de dois sócios de Fábio Luís da Silva, o Lulinha, o sítio foi reformado pela Odebrecht que gastou, ali, meio milhão de reais.

Moro quer saber se a gentileza feita pela construtora nada tem a ver com o que ela faturou na Petrobras.

Dirceu confessou a Moro o que o advogado dele chamou de “pecados”. Para não confessar os seus, Lula é capaz de entregar a mulher e os filhos à Justiça.

A banda podre

Sabem o que é nojento, o que é asqueroso, o que é abjeto? É ver que a maior quadrilha que já se apoderou da coisa pública mentindo, manietando, achacando e ameaçando começou enganando suas hordas de eleitores feitos de otários neste país. Da Bancoop à presidência de uma república de bananas, nada escapou da sanha pilantra dessa gente rameira, que vinha com a cartilha marxista debaixo do braço a brandir uma “justiça achada no lixo” mas que, na verdade, alimentavam mesmo é os seus sonhos pequeno-burgueses dos anos setenta, capitalizando a coisa com o capital alheio, como bem cunhou Reinaldo Azevedo.

A constatação de mais essa vigarice não é minha; é dos antagonistas. Mas salta aos olhos que esses canalhas “odeiam a classe média”, mas querem reproduzir sem o menor pudor os sonhos de consumo barato de todo rato que sobe na vida: em São Paulo, é ter “um apartamento no Guarujá e um sítio em Ibiúna ou adjacências”.
elvis

Me desculpem, amigos, mais isto é coisa de pobre. Milionário, mas pobre. Gente que pensa com a cabeça ancorada no século passado, como bem demonstrou a defesa inflamada da cartilha pilantra do socialismo, essa coisa idiota parida antes dos emergentes e muito antes do mundo digital, que escancara pra todo mundo ver do que é feito um pilantra dessa “catchiguria”.

Lulão e sua gangue foram desmascarados. Não vejo nas tevês aparelhadas até a medula, no jornal cheio de moscas ─ que finalmente teve de capitular e falar a verdade entalada em nove de cada dez brasileiros ─ algum “cientista político, antropólogo ou economista” a explicar, em sonoro e pusilânime bolivarianês, o significado estético de toda esse arquétipo carcamano. Parece que a casa caiu mesmo.

Não há o que justifique o que é roubo, apropriação indevida, desvio de dinheiro público e o apadrinhamento na qual vivia o séquito dos lula da silva e toda a sua quadrilha. Como chefe da seita picareta que dirigia, da camorra que pilotava, do bando que se lambuzava com o nosso dinheiro, lulão e suas malas de procedência duvidosa finalmente boiaram na lama pútrida que nos governa todos esses anos. Pois eu quero saber hoje como se sente um petralha, destes que queimam a VEJA em universidades públicas e saem em passeata por algum “benefício” ─ como andar de ônibus de graça às custas dos partidecos comunistas que abraçam a causa para subir na vida.

Não se enganem, bando de otários com bandeirinhas vermelhas enfiadas na cueca. Por trás de mais essa gratuidade, mais essa “bolsa-miséria”, mais esse mutirão de catarata, enconde-se a real natureza do socialismo; subir na vida com dinheiro dos outros, na lei do menor esforço. Quem não entendeu o significado do que está sendo denunciado pela imprensa hoje merece mesmo ficar levando bomba de gás lacrimogênio nos cornos, para ver se deixa de ser idiota. O tal de Vagner, aquele que “pegaria em armas” para defender essa mamulenga e seu séquito de pilantras pendurados nas tetas públicas, também tem o seu apartamento conseguido às custas dos otários.

A Bancoop tem cara de igreja neo-pentecostal, não é mesmo? Lá foi cimentada a barragem de rejeitos humanos que moldaram o PT e sua banda. O problema é que era muita lama para acomodar em pouca iniciativa privada.

Um dia, a coisa toda viria abaixo. Veio.

O patético fim de Lula


Onde quer que eu esteja, na rua ou à porta de um bar ou restaurante, quando saio pra fumar, as pessoas se aproximam e quase sempre fazem a mesma observação, em tom de desalento: “Esse negócio do Lula não vai dar em nada outra vez, né?” Os mais otimistas arriscam: “Acho que desta vez ele não escapa, né?” Nesse caso, não é necessário dizer o nome. Todo mundo sabe quem é “ele”.

Pois é… Ainda que Lula e seus advogados consigam encontrar uma explicação que possa ser abrigada pela lei para o imbróglio do tríplex no Guarujá, sobrou como a hipótese mais benigna para o “homem mais honesto do mundo” a versão de um político no qual ninguém mais confia.

E não deixa de ser irônico, já observei aqui, que o Lula que transitou e transita ainda em tão altas esferas tenha encontrado sua Waterloo num apartamento relativamente modesto, dada a fortuna que ele já amealhou. Só em palestras, como se sabe, faturou R$ 27 milhões.

A desconfiança dos brasileiros é justificada. Incrivelmente, Lula passou incólume pelo mensalão. Na sequência, veio o escândalo dos aloprados, com pessoas de sua inteira confiança metidas na lama. E nada! Agora, o petrolão. Delações premiadas o colocam no centro do escândalo envolvendo o grupo Schahin, o empréstimo de um dinheiro para o PT e um contrato bilionário para a operação de um navio-sonda da Petrobras. E nada de o Ministério Público pedir ao menos a abertura de inquérito.

No caso do apartamento, Lula só é formalmente investigado pelo Ministério Público Estadual. Na fase Triplo X da Lava-Jato, a cobertura que seria sua está entre os alvos, mas, para todos os efeitos, não se está apurando nada sobre o petista. A esta altura, a situação é de tal sorte ridícula que pouco importa saber se Janot prevarica ou está sendo tático. A lei e as evidências não podem abrigar comportamentos ambíguos. Não há nenhuma razão inteligível para Lula não ser um alvo de investigação da Lava-Jato.

De todo modo, o fim!

Nem os adversários mais ferozes de Lula imaginavam que seu fim seria tão patético. Quando eu era menino, para citar o apóstolo Paulo, e trotskista, pensava como menino e via no sindicalista um contrarrevolucionário com um pé da demagogia.

No meu delírio infanto-juvenil, eu o enxergava como um elemento que atrasava a revolução. Quando deixei de ser menino, identifiquei no ex-sindicalista a peça de propaganda de um partido político com vocação totalitária, que instrumentalizava a imagem do operário para impor goela abaixo da sociedade um projeto de poder que não podia ser devidamente compreendido pelo povo.

Vejo a situação de Lula hoje, perseguido por imóveis mal explicados; flagrado em proximidade incômoda, para dizer pouco, com empreiteiras investigadas; a bater no peito e a brandir uma honestidade que, atendendo a suas tendências megalômanas, tem de ser a “maior do mundo”… Não deixa de ser melancólico.

Ou por outra: as duas leituras que tive de Lula, em tempos distintos, não deixavam de ser generosas, não é mesmo? Uma e outra, ainda que negativas pra ele, emprestavam-lhe o papel de um agente político. Ainda que não fosse do agrado do garoto de extrema-esquerda ou do adulto liberal, eu o inscrevia como personagem da história.

A justa indagação que hoje está nas ruas o coloca num lugar rebaixado, bem aquém da minha hostilidade generosa: as pessoas querem saber se Lula vai pagar por aquilo que consideram seus crimes de político comum, vulgar, que se organiza para se locupletar e se dar bem. É a Justiça que vai dar a palavra final a respeito. O que a gente pode dizer com certeza é que as narrativas a que o petista tem de recorrer para explicar o inexplicável já viraram motivo de chacota nacional.

A defesa de Lula já vai adaptando as versões às circunstâncias. Agora admite que a família visitou o tríplex acompanhado do presidente da OAS, Léo Pinheiro, convertido, então, em corretor de imóveis. Mas não mais do que isso. Também o sítio de Atibaia, reformado pela Odebrecht e pela OAS segundo os gostos do companheiro, não lhe pertence.

Marisa, no entanto, pagou com dinheiro do próprio bolso por um barco de alumínio para ser usado no lago da propriedade. Ora, convenham, o que é que tem? É muito comum a gente comprar equipamentos para propriedades alheias, certo? Por si, isso não prova nada. Prova apenas que Marisa é generosa.

O PT diz que vai se dedicar agora à defesa de Lula. Parece que a campanha eleitoral deste ano terá como alvo a tentativa de recompor a imagem daquele que segue sendo o poderoso chefão do partido, o mandatário inconteste, o senhor absoluto da legenda. Por incrível que pareça, ele só não conhece as falcatruas da organização. Quando se trata de explicar a bandalheira, ele se torna um estranho no petismo.

Houve, sim, um tempo em que Lula posava de vítima, e milhões de pessoas de compadeciam. Esse tempo acabou. A realidade é outra. Hoje, os pessimistas dizem: “Esse negócio do Lula não vai dar em nada outra vez, né?” E os otimistas: “Acho que desta vez ele não escapa, né?”

Notem que são avaliações distintas que, no entanto, têm um diagnóstico comum.

Lula está acabado.

Reformas e reformas sempre contra o trabalhador

Em 1963, ao recuperar seus poderes de presidente da República, João Goulart desenvolveu intensa campanha pelas reformas de base, interrompida por sua deposição pelos militares. Naqueles idos, estimulado pelas esquerdas, era pelo que a maioria do país clamava: participação dos empregados no lucro das empresas, salário-família, estatização das indústrias ligadas ao desenvolvimento, reforma agrária com a extinção dos latifúndios, voto do analfabeto e dos subalternos das forças armadas, fim do ensino privado, limitação da remessa de lucros e outras iniciativas de caráter socializante. Nos meios de comunicação só se falava das reformas, que as elites engoliam, mesmo já conspirando contra o governo.

O vento mudou de rumo, as reformas foram para o espaço, conquistas sociais estabelecidas desde os tempos de Getúlio Vargas acabaram revogadas, como a estabilidade no emprego.
Pois não é que volta-se a cogitar das reformas? Só que de cabeça para baixo. Ao contrário, apesar de o rótulo permanecer. As elites querem completar sua obra, extinguindo o que sobrou do desmonte, ironicamente com o silêncio e até com apoio das massas. Ou de seus ditos representantes.

Vão reformar a Previdência Social, mas para reduzir pensões e aposentadorias, sob o argumento de que dão prejuízo. Aplicam o raciocínio de que tudo deve dar lucro e também vão revogar a indexação salarial, expediente adotado pelos governos militares para o povo não morrer de forme, ou seja, os salários vinham sendo corrigidos de acordo com a inflação. Não será mais assim. Pior para o assalariado. Também anunciam a flexibilização dos direitos do trabalhador, que significa poder o empregador ditar as regras de trabalho sem obrigações. Atuará de acordo com o mercado, podendo suprimir indenizações e pagando o que bem entender.

Convenhamos, existem reformas e reformas. Vivemos o período das maldades reformistas. E sob a égide de um governo pretensamente do Partido dos Trabalhadores, agora empenhado em aumentar e criar novos impostos, como se administração pública não se assemelhasse ao sistema dos vasos comunicantes que aprendíamos nas primeiras aulas de física. Se a Previdência Social dá prejuízo – e não dá – o Imposto de Renda dá lucro
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Vazio geral

Estamos em fevereiro e a grande expectativa nacional é que saia o resultado das escolas da Sapucaí na quarta-feira de cinzas para que o Brasil volte aos trilhos. Ou fique definitivamente fora dos trilhos, porque as opções continuam as piores. A nação evadiu-se da realidade, não cruzou a fronteira que a separa do improviso, da irresponsabilidade fiscal, do jogo político menor e inconsequente, jogado por um governo que não depõe as armas porque tem do outro lado uma oposição burra e errante, em algumas cabeças, e vendida, negociante de pequenas vantagens e agrados em outras. Uma merda de oposição, como diria com sinceridade minha mãe. Frouxa, panfletária, sem propostas e mal servida, sem uma visão articulada do Brasil, múltiplo e inteiro. Estamos perdidos e desamparados, alheios às dificuldades a cada dia mais consistentes, profundas e incontornáveis.
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Esperam-se medidas que façam a economia reagir para se estancar a demissão de assalariados e o pior, o cancelamento de vagas de trabalho pelas empresas empregadoras. Espera-se um ataque frontal à inflação que não seja pela simples elevação dos juros bancários, só admitidos no Brasil porque nossa justiça é cega, surda, muda e preguiçosa, recusando-se a decidir pela denúncia de agiotas, usurários travestidos de banqueiros que sem a menor cerimônia taxam o cheque especial e os rotativos dos cartões de crédito em 500% ao ano, numa inflação que oficialmente é de 10,5% e a taxa Selic marcada a 14,15% ao ano. Para os poucos que ainda não sabem, a taxa Selic é o percentual base para se estipular o custo do dinheiro que o Governo paga quando vai ao mercado tomar empréstimos. Aos bancos os governos pagam sorridentes, mas não sabem desses cobrar, ou saberiam mas criminosamente a esses se vendem pelas facilidades que delas desfrutam, pessoalmente. Bancos são grandes colaboradores nas campanhas e nas parcerias de conveniência.

O governo acostumou-se com o apedrejamento moral a que foi submetido nos últimos tempos; nada o afeta ou o constrange. Livre da ameaça do impeachment (perdeu-se a dimensão do que seria pior: com Dilma ou sem Dilma) o que de mais cintilante aconteceu em janeiro foi a primeira reunião do chamado “conselhão” um ajuntamento de banqueiros, industriais de São Paulo, artistas e dirigentes de entidades sindicais. Aberta a reunião pelo ministro Jacques Wagner, em seguida o primeiro orador foi o presidente do Bradesco, o senhor Luiz Carlos Trabuco, que sentenciou: “O que angustia a população brasileira neste momento é como tirar o país da recessão.” Vinda do dono do Bradesco essa constatação, comunico aos meus amigos que estou de mudança para Honolulu . Até.

Punga do bem público

Nem tem tanto tempo assim, uma das pragas brasileiras, nas grandes cidades, era o punguista. De longe mais perigoso do que o ladrão de galinha, outra modalidade que se perdeu com os anos passados. Não só por haver galinha por todo lado nos supermercados a bom preço. Também ninguém mais cria as bichinhas em casa.. Acabaram com as galinhas e os velhos quintais para criação e plantação de uma hortinha, de uns pezinhos de frutíferas. 

Tudo extinto: punguista, galinha e quintais.

Mas a modalidade de bater carteira progrediu, se modernizou, digamos que agora é viral. Não mais o punguista se embolando nos pontos de ônibus (e de lotações, outro extinto), nas ruas movimentadas.

O punguista de hoje tem crachá e mesmo diploma oficial, não vive nos subúrbios. Está mais do que bem instalado em casarão, com carro (muitos oficiais) e chofer.

Quem bate carteira nos tempos de agora está nos palácios, nos edifícios bilionários das empresas e dos bancos, sob o abrigos de sedes partidárias.

Quem está nos pontos de ônibus, hoje, tem é dos trombadinhas levarem celular, cordão. Com tanto dimenor à solta para ficar de olho atento sequer se dá conta de que quem está fazendo a punga, sugando seu bolso, está bem longe em edifício (ou palácio) com a ar condicionado.

Punguista hoje é credenciado, até mesmo empossado legalmente. A punga de ontem, pobre, para sobreviver, hoje é a punga para viver na boa, geral, institucionalizada, imune e impune.

Autoritarismo do bem

Quero dizer, se estou fadado a viver o hoje, só me resta lamentar por quem jamais teve tanta oportunidade para aprender com o passado e ainda assim se deixa levar por ensinamentos reconhecidamente falidos.
 
O pior de tudo, porém, é constatar uma tirania pré-absolvida pairando sobre nós, especialmente quando se tratam de inimigos do ideário vigente. Um rolo compressor amoral já desinibido, inequivocamente intolerante, capaz até mesmo de deturpar a democracia quando se trata de defender os seus.
Mario Vitor Rodrigues

O silêncio do Carnaval

Nesta época do ano costumo escrever sobre o carnaval, que é muito mais do que uma paixão que me vem do fundo da infância. É um patrimônio inestimável do povo brasileiro que atrai a nossos pífios aeroportos louros que querem ser mulatos, ricos que mitificam a pobreza, gente em busca de uma vida perdida em outra encarnação e que só reencarna nesse clima mágico em que tudo é permitido.

Quanto a nós, que crescemos neste país de loucos, passamos o ano chorando o luto por esperanças frustradas e, de repente, quando rompe fevereiro, mudamos de assunto. Um demônio ancestral, solto nas ruas, arrasta multidões, enfeita e enfeitiça a avenida.

É graça dada aos carnavalescos acreditar na fantasia, incorporar um personagem qualquer como uma dimensão real de sua vida. É graça dada a eles a pele colorida dos arlequins que, vestida na infância, cola na alma e resiste à banalidade dos dias, espargindo purpurina sobre nossas vidas.


Este ano, no entanto, há algo de diferente no ar. É carnaval, e os blocos saem às ruas ostentando uma alegria que não rima com o sofrimento que a incerteza presente e futura está trazendo aos brasileiros. Essa alegria é tingida de amargor. Talvez porque seja carnaval me vem à memória um verso de Menotti Del Picchia em seu poema “Máscaras” que, falando de pierrôs, colombinas e arlequins, define à perfeição o trágico da incerteza: “A incerteza que esvoaça desgraça muito mais do que a própria desgraça.”

Trata-se de um pierrô apaixonado em dúvida sobre o amor da volúvel colombina. Quer a verdade, por pior que seja, porque a incerteza guarda junto com o temor do desenlace um resto de esperança e o medo de que ela seja logo desmentida. Se as incertezas que pesam sobre nós são bem mais dramáticas, nem por isso o verso perde a pertinência. As certezas, por amargas que sejam, provocam um choque de realidade, reordenam prioridades, exigem providências, redefinem o que é de fato importante na vida de cada um. A incerteza é paralisante, engana e maltrata. Instalou-se em nossas vidas como uma hóspede inesperada que acorda conosco e que, ao que tudo indica, veio para ficar.

Os brasileiros vivem aflitos desde que uma enxurrada de lama e mentira varreu o país. Não sabemos a extensão do desastre que um mau governo possa ter causado à nação. Ficou a neblina. Cresce o medo do desemprego que já atinge nove milhões de pessoas. Aumenta o custo de vida que transborda de salários congelados. Vive-se agora sem saber se, sim ou não, haverá emprego e salário no fim do mês, e a aposentadoria contratada para o fim da vida. Quem trabalhou honestamente e nada tem a ver com os desmandos de quadrilhas várias vive essas ameaças com uma revolta surda.

A moeda pode se esfarelar? Quem sabe... A sangria que roubalheira e incompetência fizeram na economia e a subtração dos recursos que pagam escolas, universidades, saúde, saneamento e segurança já são, em si, desoladoras.

Movemo-nos em um cenário de ruínas. Os hospitais do Rio fecham no momento em que chega a epidemia de zika. Piora o fantasma da doença quando o socorro é improvável. A evidência de que o montante da rapina supera de muito o que foi gasto nas bolsas família acrescenta ao butim a esperança roubada dos eleitores. O descalabro é evidente, assim como o desgoverno.

E, no entanto, viver é preciso, e vivemos, numa estranha normalidade. Os ruídos do carnaval encobrem um silêncio assustador que não está sendo ouvido. Esse silêncio pode ser um grito surdo, pode conter um potencial explosivo. Talvez algum ouvido mais atento esteja ouvindo os barulhos do futuro. Quem sabe quem ou o que se esconde nesse poço de decepção e mágoa, nesse silencio?

Há quem explique a aparente inércia da sociedade pela ausência de lideranças. E se a ideia mesma de liderança, como encarnação das esperanças em um fulano qualquer, estiver agonizando, desmoralizada como os velhos condottieri?

O tempo passa e, enquanto nos desgovernam, há uma vida para viver, de vez em quando brincando carnaval, já que algum prazer é preciso. Mas o carnaval vai passar. O ano vai recomeçar. As previsões para a economia são as mais sombrias. Para a política, esse buraco negro, sequer há previsões. O que chamamos de crise é esse feixe de incertezas sobre o que vai acontecer no Brasil e na vida de cada um. Há uma só certeza: ou estas perguntas encontram resposta ou a crise, se tornará, ela mesma, incontrolável.

O carnaval é uma gigantesca máscara que encobre o rosto desta nação alegre, colorida de paetês verdes e amarelos. O rosto trágico do Brasil.