segunda-feira, 12 de agosto de 2024

A desordem está nas instituições

A democracia vive turbulências em toda a parte. A Revolução Digital trouxe benefícios jamais imaginados para a vida das pessoas, mas, ao mesmo tempo, transformou de modo radical as sociedades e as economias. Nas democracias o Poder ficou muito mais transparente e, com acesso a muito mais informação, a população multiplicou suas demandas ao Estado, colocando grandes pressões no sistema político.


Nas sociedades fechadas, governadas por regimes autoritários, sem competição política e sem liberdade de expressão, o mal-estar das pessoas não chega a se constituir em tensão social e o silêncio e o conformismo aparente dão a impressão de paz social e política. Além disso os governos são mais ativos, no sentido de que as políticas públicas são decididas sem discussão e a execução se faz sem intercorrências. São governos que podem fazer muito e podem também errar muito, e frequentemente erram, só que os erros são descobertos mais tarde.

As instituições políticas da democracia foram desenvolvidas há longo tempo, num ambiente muito diverso do que existe hoje. Confrontadas com a rapidez e a profundidade das mudanças provocadas pelas novas tecnologias da informação, as democracias estão sob duros ataques. O capitalismo sempre foi um sistema que produzia desigualdade, mas a Revolução Digital separou ainda mais as pessoas e, ao mesmo tempo, tornou estas desigualdades mais transparentes. Os governos submetidos aos processos democráticos de decidir e de executar políticas públicas são mais lentos e sujeitos a sérios impasses e paralisias. É natural que a grande maioria da população, além do temor das mudanças, se sinta desprotegida e desamparada pelo Estado. Daí para a tentação do populismo autoritário é um pulo.

Em tempos de normalidade as instituições democráticas são difíceis de reformar. O sistema partidário, o sistema eleitoral, o modo de funcionamento do Parlamento, os órgãos do Poder Judiciário, os benefícios e privilégios de toda a numerosa classe dirigente, do vereador e do juiz do pequeno município até às cúpulas dos Poderes, toda esta imensa máquina de poder sempre está confortável com o status quo e só em casos excepcionais deixa de reagir à mudanças que ponham em risco sua posição. Se essas instituições, no entanto, não forem profundamente reformadas, o antagonismo entre governo e população só tende a crescer, podendo um dia chegar a um ponto de ruptura.

Nas democracias mais amadurecidas os eleitores, ou se abstém em grande número ou têm mostrado insatisfação com os governos e uma grande dificuldade de formação de maiorias nítidas.

Á falta dessas maiorias e de consensos claros, os governos se arrastam na rotina e apelam para as polarizações estéreis que só servem para as disputas de poder e nada mais. Governos transformadores, com apoio social e capazes de compartilhar visões construtivas, estão cada vez mais raros. Sem eles as democracias deixam de funcionar.

Apesar da aparente serenidade, o Brasil é um país em crise. A economia cresce muito aquém do que seria necessário para sermos um país de uma grande maioria de classe média. Ainda por cima, vivemos no limite de uma crise fiscal e com perspectivas sombrias de crescimento futuro, em razão do declínio do investimento e do ambiente de insegurança causado por imprudências legislativas e por um Judiciário errático, para dizer o menos.

Em vários países as imperfeições da democracia em lidar com as mudanças tecnológicas e suas consequências têm provocado surtos de desordem entre a população. Entre nós a desordem provém principalmente das instituições, cujos membros distorcem as leis em seu proveito e vivem de capturar os recursos públicos em seu benefício, como demonstrou cabalmente o prof. Bruno Carazza, em seu livro recente “O país dos privilégios”.

As instituições da República, todas elas, tem funcionado de costas para o interesse público e despiedadas da maioria dos brasileiros. É preciso, no entanto, ter imaginação suficiente para que não morra em nós a esperança de que, mesmo aos poucos, essas realidades um dia serão transformadas.

O futuro da democracia

Seria, no mínimo imprudente, refletir sobre a democracia, em qualquer dimensão temporal, sem considerar, como ponto de partida, a notável lucidez do pensador e jusfilósofo Norberto Bobbio na obra seminal “O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo”, publicada em 1986, pela editora Paz e Terra.


Entre as premissas, ele destaca o termo “transformação” dos regimes democráticos, presente nos textos que constituem o livro, e explica: “Prefiro falar em transformação, e não de crise, porque ‘crise’ nos faz pensar num colapso iminente. A democracia não goza no mundo de ótima saúde, como de resto jamais gozou no passado, mas não está à beira do túmulo”.

Na sequência, relata a resposta que deu a um estudante sobre se os Estados Unidos não deveriam ser considerados o como o país do futuro. Firme, mas sem perder a elegância, respondeu: “como país do futuro a América não me diz respeito. O filósofo não se afina com profecias […] A filosofia ocupa-se daquilo que é eternamente, ou melhor, da razão o com isto já temos muito o que fazer”, concluiu, recorrendo a Max Weber diante de semelhante indagação em relação a Alemanha: “A cátedra não existe nem para os demagogos nem para os profetas”.

Atualíssimas e pertinentes, as considerações do ilustre mestre italiano. Os regimes democráticos têm uma especial característica: extrai do que aparenta ser sua debilidade – o choque de ideias, as divergências do pluralismo, a competição pelo voto, o barulho que emana do funcionamento de pesos e contrapesos, tudo que, em certos momentos, transmite a sensação de instabilidade e fraqueza, é a força da natureza da democracia. Já o despotismo é estático, sempre igual a si mesmo, rígido não suporta pressão, não é capaz vergar: quebra a coesão social e produz vítimas.

Observam-se, ao longo do tempo, movimentos pendulares sob forma de ondas: ora, democráticas e ora, autoritárias o que aprofunda as pesquisas e os estudos da ciência política em relação à resistência da democracia diante dos riscos da aventura autoritária.

No livro Publicado em 1994 (A Terceira Onda: a democratização no final do século XX. Ed. Atica) Samuel Huntington identificou a partir de 1828 ondas de democratização, ondas reversas e a terceira onda a partir de 1974. Atualmente, o tema assume interesse especial seja pelo aumento do confronto de realidades antagônicas seja pela estratégia de corrosão das instituições que dão suporte à sociedade democrática.

Tomando-se período de 1990-2015, é possível constatar uma grande contradição: foi o quarto de século mais democrático da história mundial e o período em que ocorreu, em escala significativa, o enfraquecimento e a tomada do poder democrático, mediante a estratégia, sutil e insidiosa, de corroer por dentro as instituições que garantem a solidez da construção democrática.

Não à toa, o sociólogo e pesquisador do fenômeno contemporâneo do funcionamento das democracias, Larry Diamond (1951), denomina de “recessão democrática”, não a quantidade de autocracias implantadas, mas o processo predador de governança que legitima a farsa do discurso populista e a obra posterior de desmonte de “tudo que está aí”: um sistema corrupto e ineficiente. A rupturas institucionais dispensam o espetáculo das armas no espaço democrático das ruas.

Atualmente, vasta literatura tem se ocupado do fenômeno com forte dose advertência. Destaco o best-seller “Como as democracias morrem” (Jorge Zahar Editor Ltda. Rio de janeiro, 2018) que revela com profundidade a crise do sistema político norte-americano. Sobre o Brasil, alertaram, em debates e entrevistas, quanto aos efeitos do populismo bolsonarista. Por aqui, o oito de janeiro não vingou. Por lá, Trump está de volta, sedento de revanche e, curiosamente, com o peso da idade/experiência.

Por sua vez, o turbulento percurso da democracia brasileira de 2013 a 2023 mereceu consistente análise dos cientistas sociais, professores e colunistas políticos, Marcus André Melo e Carlos Pereira, no livro “Por que a democracia brasileira não morreu?” (Editora Schwarcz – São Paulo, 2024). Sem perder densidade acadêmica, o texto é acessível ao leitor que se interessa pela política como elemento essencial da educação cívica.

Os autores reconhecem a inexistência de um arranjo institucional que funcione de forma ideal. No caso brasileiro, explicitam as disfuncionalidades que afetam, inclusive, o nível de confiança das pessoas nas instituições (as distorções na relação entre o Poderes da República, a fragmentação partidária e o “custo da governabilidade” atrelados às raízes do clientelismo e do patrimonialismo, por sua vez, fortalecidos pela individualização da representação parlamentar).

No entanto, defendem o Presidencialismo Multipartidário como “uma coalizão de sobrevivência: não foi desenhado para gerar eficiência, mas para incluir, mesmo de forma dissipativa, os mais variados interesses sociais no jogo político”.

De outra parte, os autores dão ênfase à atuação de instituições contramajoritárias (Ministério Público, Instrumentos de controle e responsabilização dos atores políticos) e, de modo mais amplo, imprensa livre e sociedade ativa.

Assumem, portanto, o destemor de ir contra a corrente, ao atribuir a uma rede de organizações e um sistema de vetos aos excessos do poder, a proteção e o respeito à Constituição.

Voltando para concluir: e o futuro? Não custa agregar à sabedoria de Bobbio, a frase de Adam Przeworski “ama a incerteza e serás democrático”; a prescrição Jane Addams (Nobel da Paz, 1931): “a cura de todos os males da democracia é mais democracia”; o título que encerra o livro, “o paradoxo: a torcida pode vaiar, mas o jogo continua”.

Os donos da nossa vontade

Um debate de que participei na terça (6), na Livraria da Travessa, com meus confrades Rosiska Darcy de Oliveira e Joaquim Falcão, da Academia Brasileira de Letras, e o jornalista Fernando Gabeira, tratou da ameaça que pende sobre a palavra escrita diante da inteligência artificial. Discutiu-se a diferença entre as medidas tomadas contra a palavra no decorrer da história —fechamento de gráficas, censura prévia, apreensão de livros e jornais, perseguição, prisão e até morte de escritores e jornalistas— e as atuais, incorpóreas, intangíveis e talvez inimputáveis.


A diferença é que aquelas medidas eram materiais, possíveis de ser enfrentadas. Hoje, não se trata mais de apagar a palavra, mas de nos induzir a usá-la contra nós mesmos. Uma simples consulta ao extrato bancário ou sobre qualquer assunto no celular permite aos algoritmos aprenderem instantaneamente tudo a nosso respeito e repassá-lo a um ente abstrato, que passa a decidir sobre o que queremos ou precisamos. O Google tornou-se dono da nossa vontade.

Em cerca de 400 a.C., Aristóteles codificou o silogismo, o processo em que duas premissas conduzem a um conhecimento lógico, à conclusão. Esses três elementos, as premissas e a conclusão, foram a base de tudo que fizemos até hoje. Ou até ontem porque, de repente, tornamo-nos meras extensões de um sistema binário que nos reduziu a um sim ou não, a um isto ou aquilo, sem as zonas de dúvida e de sombra que nos tornam humanos.

E o que dizer do mundo que agora cabe na palma da mão, ao alcance do dedo de uma criança, e faz com que as necessidades dessa criança sejam satisfeitas em 1 segundo, aviltando-a, dispensando-a da experiência do convívio e da socialização?

Não foi um debate exatamente otimista. Aventou-se a hipótese de termos sido invadidos por seres de outro planeta. Mas pode ser pior. Talvez eles já nos tenham roubado o planeta.

domingo, 11 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 

A gaiola de Maduro

Tempo biográfico de infância, interior nordestino. Bastava Seo Zezinho, o barbeiro local, estender a mão para que um passarinho, qualquer um, na rua ou no quintal, nela pousasse. Coisa bizarra, mas ninguém falava em poderes, nem o confundia com São Francisco. Era só a natureza de Seo Zezinho.

Mas existe segunda natureza. Nas autocracias sul-americanas é a bizarrice enganosa, manipulada pelo marketing político. Na Argentina, o presidente aconselha-se com um cachorro morto. Na Venezuela, um protoditador diz falar com um passarinho, suposta reencarnação do predecessor. Maduro, claro, autor do prodígio de vencer eleições antes do total apurado, bizarramente referendado por uma gaiola ideológica brasileira. Ideologia de asas curtas.


Lula tem conselheiro político de excelso saber, consta. Mas a força maior do vexame os deixa inermes. Por mais que se pretenda racional qualquer avaliação do momento sul-americano, é impossível separar o convencional do extravagante. O realismo mágico que imanta de forma encantatória a narrativa de um Gabriel Garcia Marques ganha vida real como folhetim de segunda classe, não em busca de leitores, mas de eleitores. O rito de calendário democrático, objeto tentativo da literatura especializada, é praticado como bufonaria autocrática.

À esquerda e à direita, finge-se que não vê. A primeira é geopolítica, ciosa da unidade subcontinental, nostálgica do tempo em que a Venezuela se aproximou de Cuba. Foi quando trocou a antiga classe dirigente pela "burguesia bolivariana", um empresariado mais disperso e mais includente de generais, sob o engana-olho de "revolução bolivariana", na verdade um slogan de golpismos anteriores. O líder era Chávez, hoje aquela pessoinha que come alpiste mediúnico na mão de Maduro.

A direita sempre assestou canhões contra Chávez, "suspeito" de socialismo. Leia-se um popularismo antenado ao estado psíquico dos marginalizados que respaldou o autoritarismo do regime, de brutal repressão a opositores e à independência dos Poderes. A democracia dos anos 70 degringolou junto com uma corrupta economia de cleptocratas, o desemprego virou onda imigratória, e o chavismo tornou-se espiritismo popular. Uma extrema direita, carnavalizada como esquerda.

Agora, como antiamericanismo de gogó não mata fome nem inspira respeito, os EUA logo proclamaram a vitória da oposição. Mas internamente cabe a generais, e não a votos, dar a última palavra. De qualquer forma, com mortos na plateia e milhares de prisões, o teatro burlesco da política fechou a cortina, palmas deram lugar a pedradas. Não são novidade, mas aumentaram de tamanho. Podem ter feito Chávez alçar voo: afinal, passarinho que come pedra sabe o rabicho que tem.

Mesa, escola e bola

O presidente Lula demonstra indignação com a realidade das famílias sem comida farta à mesa nem diploma universitário na parede. Daí sua ênfase no ProUni, nas cotas, no Fies, na abertura de universidades públicas e no apoio às particulares. Graças a ações como essas, o Brasil mudou o perfil racial e social da população com acesso ao ensino superior. Porém, a desigualdade educacional conforme a renda e o endereço do aluno não diminuiu. Apesar dos avanços na democratização da educação, aumentou a distância entre pobres e ricos quando comparamos a qualidade do ensino.

 Além da persistência do analfabetismo pleno ou funcional entre as pessoas de baixa renda e os afrodescendentes, a educação de base com excelência continua restrita aos alunos que podem pagar boas escolas ou aos poucos que conseguem matrícula em raras escolas públicas de qualidade, quase todas federais. Apesar do substancial aumento nas matrículas do ensino fundamental, o mesmo não ocorreu com a frequência, a assistência, a permanência e o aprendizado em si. Poucos terminam o ensino médio com o conhecimento necessário para pleitear ingresso no superior. Raríssimos obtêm vaga nos disputados cursos de boas universidades. A exclusão continua ao longo dos estudos e até mesmo depois de formados.


A desigualdade não desaparecerá enquanto o acesso a escolas de base com qualidade continuar restrito. Universidade para todos é uma ilusão demagógica se o sistema educacional não superar a divisão entre “escolas senzala”, para a maioria pobre, e “escolas casa-grande”, para a minoria rica. O entorno do presidente precisa perceber que os produtos da mesa são comprados, mas a educação universitária é conquista de cada indivíduo, desde que tenha acesso à escola pública de qualidade. A mudança necessária não está em políticas que aumentem as vagas para ingresso no ensino superior. Está em garantir a universalização do egresso oriundo de escolas com a máxima qualidade para todos.

O Brasil já fez esse movimento com o futebol: a bola redonda e as regras do jogo permitem que a elite futebolística não decorra do elitismo social; os craques chegam pelo talento, não pela renda da família. Mais do que vagas no ensino superior, o Brasil precisa “redondear” suas escolas: todas com a mesma qualidade suficiente para cada brasileiro ter o mapa que lhe permita buscar sua felicidade e as ferramentas que o ajudem na construção de um país melhor.

Aqueles que, por vocação, desejarem continuar poderão usar a persistência e o talento para levar o Brasil a um Prêmio Nobel, tanto quanto a bola redonda leva nossos melhores jogadores à Copa do Mundo. Quando isso acontecer, teremos produtividade para criar renda nacional suficiente e estrutura distributiva eficiente que permitam a cada família comprar o que precisa para a mesa. Até lá, felizmente temos bolsas, cotas e financiamentos como forma provisória de reduzir a penúria e evitar a condenação permanente do Brasil.

Ocorre que a maioria pobre, que jamais aceitaria ver seus filhos condenados a jogar com bolas quadradas e os filhos dos ricos com bolas redondas, aceita que as escolas com qualidade sejam reservadas aos que podem pagar. Talvez por isso, apesar de sua indignação diante da desigualdade social, o presidente Lula nunca tenha se convencido a definir uma estratégia para “redondear” as escolas.

Desigualdade social

Um morava na Rua do Meio.
O outro no meio da rua.
Jessier Quirino

A vida sobre o arame da especulação

É alta, esguia, bonita. Uma madeixa de cabelo escuro pende-lhe sobre os olhos azuis. Traz ao peito, num pano, um bebé pequeno, que mal se vê. E num carrinho uma menina loira. Com o dedo apontado sobre a vitrine vai pedindo um croissant com queijo brie e um bagel com salmão fumado. Ocorre-lhe, então, que talvez a filha não tenha apetite para tanto e que é melhor pedir um saco de papel para levar o que sobrar. Discorre sobre isso, num Inglês fluente e imaculado, sem se aperceber do ar de espanto que a recebe do lado de lá do balcão, enquanto acaba de pousar o bagel sobre o pires.

O rapaz olha-a, tentando decifrar o que lhe soará por certo a uma algaraviada. Abre muito os olhos. A rapariga põe-se, então, a explicar, sempre em Inglês (claro), que o saco é para o caso de sobrar comida. Não lhe ocorre que, do lado de lá, possa estar alguém que, ganhando um salário mínimo português, não entenda a língua de Shakespeare. “Ela quer um saco de papel para levar os restos”, digo, por fim. O rapaz abre-me um sorriso. Ela atira-me um “thank you” displicente, enquanto revira os olhos. “O meu Inglês não dá para tanto”, justifica-se-me ele, encolhendo os ombros. “Que saiba sequer falar Inglês já é impressionante”, digo-lhe eu, devolvendo um sorriso de cumplicidade.

A cena passa-se numa pastelaria onde o café é “de especialidade” e onde os ovos mexidos biológicos convivem com os pastéis de nata e os bolos de arroz que ainda resistem. Desapareceram para sempre as torradas cortadas em três, uma fatia sobre a outra, pingando manteiga sobre uma fina folha de guardanapo. E talvez um dia as meias de leite se convertam para sempre em cappuccinos. Se há ameaça de uma grande substituição que nos devia afligir é essa.

 


Ao final do dia, os pais juntam-se ali, com as crianças saídas da escola e a conversa vai parar quase sempre ao mesmo. “Está impossível viver em Lisboa”. Discutem-se os preços impraticáveis dos T2 e T3. Comenta-se a escola que está a recusar vagas aos pais portugueses do programa de creches pagas pelo Estado e a dar prioridade aos estrangeiros prontos a pagar sem olhar a custos. Há uma amiga que garante que no colégio do bairro já não se fala Português e uma história de uma escola privada que pede o CV a crianças de três anos. “Se os pais são os dois portugueses e não é bilíngue, não vai conseguir entrar”. Há quem pense em ir para o interior viver e quem não imagine deixar Lisboa. Mas ficar é uma história de resistência. Somos os que resistem. Até ver.

“Não há ninguém com uma arma apontada à minha cabeça a dizer-me para sair. Mas, economicamente, não tenho escolha”. A frase é dita por um rapaz de 25 anos que não vive em Lisboa. Está em Tenerife e fala numa reportagem do The Guardian sobre a pressão que o turismo está a pôr sobre a ilha, onde alugar um quarto chegou a custar-lhe 70% do rendimento antes de decidir voltar a viver com os pais.

Em Ibiza, uma notícia do ElDiario.es mostra uma família, com dois filhos pequenos a ser despejada. A mãe e as crianças choram descontroladamente, enquanto são arrastados. Ao fundo, desfocadas, estão mais famílias, empurradas como se uma maré as levasse em direção à lente que lhes capta o desespero. O naufrágio, explica o texto, é provocado pela descoberta de que o proprietário do terreno em que viviam alugava ilegalmente pequenas parcelas de terra por 400 euros, onde viviam em tendas ou caravanas 200 pessoas, que agora terão de ir para a rua. “Somos os trabalhadores que levantam a ilha”, grita-nos o título.

Num mundo de especulação desenfreada, viver torna-se num exercício de equilibrismo. O pedaço de terra que temos debaixo dos pés pode ser difícil de manter se a cobiça dos muito ricos o tiver na mira. Não temos uma arma apontada à cabeça, como diz o rapaz de Tenerife, mas não é difícil sentir que nos expulsam.

Não temos uma arma apontada à cabeça? Há quem a tenha. São os que “levantam as ilhas” onde uns poucos se podem deitar à sombra das bananeiras. Dormem em tendas em terrenos ilegais em Ibiza ou nas camaratas do Martim Moniz. E a esses não os expulsam para longe, a esses mantêm-nos por perto, acorrentados à fome e à ilegalidade que os tornará dóceis à exploração e baratos, como se quer.

Lições de sobrevivência

A julgar pela quantidade sempre renovada de filmes e livros sobre ETs de todos os tipos, fica óbvio que temos um fascínio inesgotável por essas criaturas imaginárias. Seres alienígenas habitam as profundezas do nosso inconsciente coletivo, espelhos do bem e do mal que somos capazes de fazer. Basta uma breve incursão na história do colonialismo, e, em particular, do embate entre os europeus e os nativos das Américas, da África e do Pacífico, para entender que, quando duas culturas colidem, a mais ingênua e desarmada perde feio. Somos nós os alienígenas. No decorrer da história, as representações ficcionais de seres extraterrestres refletem o que sabemos do mundo, o que sabemos de nós, os nossos medos e expectativas, as nossas esperanças e os nossos medos.
Existe, porém, algo que raramente consideramos em nossas reflexões sobre alienígenas. Não me refiro, aqui, aos tipos ficcionais que vivem nas páginas de nossos livros ou nas telas de cinema, mas aos que possivelmente existem em algum canto da nossa galáxia, ou de uma galáxia bem longe da nossa. Basta lembrar que nossa galáxia é uma dentre centenas de bilhões de outras espalhadas pela vastidão do espaço, cada qual contendo de dezenas de milhões a centenas de bilhões de estrelas. Portanto, a probabilidade de que inteligências extraterrestres existam é razoável, mesmo se nunca tivemos contato direto.

Se existem, e este é o ponto que nos interessa, como sobrevivem aos seus desafios sociais, políticos e econômicos? Mesmo especulando sobre a existência de civilizações extraterrestres, podemos aprender lições essenciais sobre alguns de nossos dilemas atuais mais desafiadores, incluindo a sobrevivência de nossa própria espécie. Ou seja, podemos aprender lições de sobrevivência planetária com os ETs, o que é cada vez mais essencial nos dias de hoje.


Antes disso, é bom rever algumas informações importantes, de modo a contextualizar nosso argumento. Como é o caso conosco aqui na Terra, os alienígenas vivem ou se originaram em algum planeta (ou lua) em órbita em torno de uma estrela. Para simplificar, vamos considerar apenas ETs com características gerais relativamente semelhantes às nossas: por exemplo, vida baseada em compostos de carbono e dependente de água. É possível que tenham evoluído muito além desses vínculos químicos, sendo mais máquinas do que carbono.

De qualquer forma, certamente tiveram uma origem bioquímica, mesmo que tenha ocorrido milhões de anos no passado. Sua sobrevivência, tal como a nossa aqui, depende crucialmente da quantidade de energia emitida pelo seu sol em forma de radiação, e de como essa radiação interage com a atmosfera do planeta (ou lua) onde habitam. No nosso caso, a Terra absorve cerca de 71% da energia total do Sol que chega aqui: em torno de 23% dessa energia é absorvida na atmosfera por vapor d'água, poeira e ozônio, e cerca de 48% na superfície.

São aproximadamente 160 watts por metro quadrado no solo. Imagine cobrir a superfície da Terra com lâmpadas de 160 watts a cada metro quadrado e tê-las iluminadas durante o Natal. Não seria um uso muito inteligente de energia, mas certamente uma imagem belíssima, se observada de altas altitudes. Para que um planeta possa acolher formas de vida por um tempo relativamente longo (no mínimo, milhões de anos), é essencial que seja relativamente estável: sua órbita em torno da estrela não pode ser errática; sua composição atmosférica não pode mudar radicalmente em períodos geológicos curtos (de milhões de anos); seu clima deve ser estável, com flutuações de temperatura dentro do que é permissível metabolicamente, ou seja, não muito mais do que 100 graus em torno de zero Celsius. (Ou seja, de -50ºC a 50ºC. Existem exceções, como os seres que vivem perto de ventas vulcânicas submarinas onde as temperaturas podem ser mais altas. Mesmo assim, existem limites para que a vida seja viável.)

O planeta precisa, também, receber enormes quantidades de energia, redistribuindo-a pela superfície através de processos climáticos e geológicos. Qualquer espécie alienígena que exista na nossa galáxia, principalmente se for inteligente, que é o que nos interessa aqui, precisará habitar um mundo que tenha propriedades gerais semelhantes a essas. Por que as formas de vida inteligente precisam de maior estabilidade? Porque, para que a vida possa evoluir a partir de formas rudimentares, os seres unicelulares, até seres multicelulares complexos e, destes, até seres inteligentes, são necessários muitos milhões de anos, se não bilhões. (Aqui na Terra, foram pelo menos 3,5 bilhões de anos.)

Da mesma forma que não dá para assistir à última cena de uma peça teatral com três horas de duração num teatro que pega fogo após uma hora, o palco em que ocorre a transformação da química inanimada em vida complexa, o planeta, tem que permitir que esse drama bioquímico evolua a passos lentos. E não há a menor garantia de que haverá um final feliz. (Se entendermos por felicidade a emergência de criaturas inteligentes.)

Nossa espécie existe há aproximadamente 200 mil anos, um tempo irrelevante quando comparado aos 4,5 bilhões de anos do nosso planeta. Num contexto cósmico, em que mesmo milhões de anos são um período efêmero, somos uma espécie ainda bebê, com muitos desafios a enfrentar pela frente, especialmente no que tange à nossa sobrevivência em longo prazo. É aqui que os ETs podem ser úteis. A primeira coisa que devemos notar, ao menos baseados na nossa história, é que duas ou mais espécies inteligentes não podem coexistir no mesmo planeta. (Note que existem vários modos de definir e quantificar inteligência. Estou interessado aqui em espécies com inteligência criativa capaz de desenvolver tecnologias avançadas.)

Dada a natureza combativa dos seres vivos, centrados, acima de tudo, na sobrevivência, outra espécie inteligente seria vista como uma ameaça, ao menos no início da corrida evolucionária. Aqui na Terra, os neandertais, que mostraram sinais de inteligência superior a outras espécies que os antecederam, foram parcialmente assimilados e, na maioria, aniquilados pelos nossos ancestrais.

A coexistência pacífica entre duas espécies que podem competir em pé de igualdade por recursos necessários para a sobrevivência é implausível, a menos que ambas tenham atingido um patamar moral extremamente elevado. Porém, até que isso ocorra, a partir do desenvolvimento de uma estrutura social estável e democrática onde a vida é respeitada acima de tudo, seria provavelmente tarde demais. (Mesmo numa mesma espécie, especialmente uma espécie inteligente com padrão moral inferior, valores culturais distintos e diferenças étnicas podem levar a conflitos sérios, do racismo a perseguições ideológicas, como vemos aqui todos os dias. Mas esse é um assunto para outro ensaio.)

Dada a dificuldade de coexistência entre duas espécies inteligentes, vamos, portanto, considerar seres alienígenas de uma mesma espécie, que, de alguma forma, encontraram os meios físicos e morais para sobreviver por milhões de anos. Quais os seus segredos? Antes de tudo, entenderam que uma relação predatória com o seu planeta e com outras formas de vida levaria, mais cedo ou mais tarde, à sua própria destruição. Entenderam, também, que o seu planeta, mesmo que muito grande e fértil, tem recursos limitados, e que uma exploração irracional dele iria transformá-lo num deserto. O exemplo doloroso da Ilha de Páscoa ilustra perfeitamente o que poderia ocorrer numa escala global com uma espécie que tem uma relação parasítica com a terra da qual depende.

Os alienígenas teriam aprendido a viver com – e não contra – o seu planeta, respeitando seus recursos e planejando cuidadosamente como explorá-los de forma sustentável. Teriam aprendido a otimizar e maximizar o uso da energia vinda de sua estrela, como estamos começando a fazer aqui com a energia solar e eólica. Se a estrela não emitisse energia necessária para suas necessidades, os alienígenas teriam desenvolvido espelhos e outras tecnologias capazes de focar e aumentar a quantidade de energia atingindo a superfície do planeta.

Os alienígenas teriam entendido a interconectividade de todas as criaturas vivas; saberiam que ocupar o topo da cadeia alimentar significa ter a responsabilidade de preservar a biosfera, de modo a estender o uso de seus recursos por período ilimitado. Teriam aprendido que, para viver, precisariam encontrar meios de respeitar a diversidade da vida. Isso só poderia ocorrer se houvessem redefinido sua relação com outras criaturas vivas, indo de predadores a protetores.

Os alienígenas teriam entendido que a disparidade financeira (se tivessem uma economia) e a manipulação cultural levam à pobreza e à instabilidade social, ambas as causas dominantes da predação planetária; e que, para garantir sua sobrevivência em longo prazo, precisariam erradicar a desigualdade social. Teriam, portanto, criado valores morais que garantissem a igualdade social, dividindo recursos naturais e econômicos de forma justa e equilibrada.

Por outro lado, não teriam erradicado a competição, por entenderem ser essencial para a inovação e a felicidade individual e coletiva; teriam, sim, criado mecanismos para assegurar que todos tivessem as mesmas oportunidades de atingir o sucesso. Saberiam que uma sociedade justa não precisa, ou não deve, ser estéril. Teriam entendido que essas metas socioeconômicas pedem o sacrifício dos que detêm mais recursos, mas saberiam, também, que esses sacrifícios seriam temporários, garantindo a sobrevivência de todos. Teriam criado, em longo prazo, uma sociedade com certo nível de disparidade – pois seus intelectuais já teriam entendido que a igualdade total leva a uma distopia – baseada na dignidade, no respeito e na justiça.

O resultado desse projeto alienígena de proteção de recursos naturais e justiça social em escala planetária seria revolucionário. Podemos chamá-lo de “socialismo natural”. Uma vez iniciado, produziria uma transição nos valores morais da espécie, apagando os últimos vestígios da brutalidade intrínseca oriunda das disparidades e impulsos evolucionários. Levaria a uma nova era, baseada numa relação moral superior com o planeta, os animais, e entre todos os membros da sociedade. Essa nova era celebraria, ao mesmo tempo, a diferença individual e a unidade que conecta os habitantes de uma mesma espécie, todos dividindo o planeta e seus recursos naturais. Esses alienígenas teriam sobrevivido por milhões de anos, criando uma sociedade que mal podemos imaginar.

Temos, aqui na Terra, nesse conturbado século XXI, muito trabalho pela frente.
Marcelo Gleiser, "O caldeirão azul"

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Os homens do subúrbio

Os que moram nos subúrbios trabalham no centro da cidade e recebem o pagamento no fim do dia. Pela manhã, quando chegam na praça, vêem sobre as bancas de madeira os peixes frescos e grandes que os caminhões trouxeram pela madrugada. Mas pela manhã ainda não trabalharam e não têm dinheiro. E eles passam o dia pensando nos peixes frescos e grandes estendidos sobre as bancas de madeira. À tarde, voltam com dinheiro e, quando se aproximam das bancas, sentem o mau cheiro: os peixes ficaram todo o dia ao sol e estragaram-se. Os homens dos subúrbios, então, levam para suas famílias outras coisas em vez de peixe fresco.

Oswaldo França Júnior, "As laranjas iguais"

ESG: o mercado salvará o mundo quando o G cuidar do S

Nesses tempos de mudança climática, nunca é demais falarmos sobre o ESG (Ambiental, Social, Governança), que representa as novas diretrizes estratégicas para os negócios. Em outras palavras, se o Ambiental e o Social não forem dirigidos por uma Governança consciente, corremos o risco de, em breve não restar empresas, nem acionistas, nem consumidores, e tampouco lucro, para contar a história.

Sobre o “E” do meio ambiente, já se fala bastante, especialmente a partir da cúpula climática Rio 92, que deu visibilidade ao problema. A descarbonização, a transição energética e a bioeconomia estão no centro das conferências e das tratativas multilaterais desde então.

Nesse contexto, o “G” tem demonstrado sensibilidade crescente para com o “E”, refletida na medida em que a governança superior das empresas e o setor financeiro têm alavancado o valor das ações de companhias ambientalmente responsáveis, como demonstram os resultados dos fundos baseados em ESG e os painéis das bolsas de valores dedicados a esse universo emergente.

Acontece que não bastará correr atrás do prejuízo ambiental enquanto os mercados e o Estado não pararem para cuidar igualmente do verdadeiro “pecado original” da humanidade, a desigualdade socioeconômica (o “S” da questão), que é o combustível de todos os desequilíbrios e descaminhos enfrentados pelo ser humano desde sempre (um custo jamais levado em conta na contabilidade empresarial).

Dito de outra forma, não será suficiente nos contentarmos com eufemismos já naturalizados na nossa linguagem, por exemplo, quando nos referimos às nações pobres como países em desenvolvimento (onde a desigualdade só aumenta), ou ao disfarçamos de empreendedorismo a “uberização” do trabalho, ou, ainda, quando classificamos a pobreza e a violência como vulnerabilidades.

Falando claramente, o ponto essencial sobre o futuro do mundo é a desigualdade social (a mesma questão política que tem definido a humanidade no passado e no presente). É aí que está o “S” e é aí que entra o potencial disruptivo do ESG. Trata-se de uma visão de mercado com capacidade de elevar ao andar das Diretorias Executivas e dos Conselhos de acionistas o reconhecimento de que o “S” significa Social, mas pode ser compreendido como Vida, em sentido amplo.

Não quer dizer que o Ambiental deva ficar em segundo plano. Muito pelo contrário, quer dizer que a devastação ambiental se dá em decorrência de uma distorção no ritmo dos mercados que leva a um acúmulo de riqueza por alguns em prejuízo do bem-estar da maioria. Ou seja, em meio a esse processo concentrador é que ocorre a degradação do meio ambiente de maneira geral.

O legado histórico do ESG (mais precisamente, da alta Governança dos mercados) no novo normal climático seria justamente reequilibrar essa balança social. Caso contrário, os vários setores de atividades – seja financeiro, agropecuário, mineral, energético industrial, tecnológico, serviços, transportes etc. etc. – poderão ser inviabilizados, cedo ou tarde, pelos extremos climáticos e ou pela convulsão social em larga escala. Levariam junto a soberania, a democracia e a segurança, em uma desarrumação caótica do que entendemos como Estado e sociedade, com final desconhecido.
Felipe Sampaio

Muito além da Venezuela

A crise em curso na Venezuela traz um grande desafio para o Brasil —maior até do que possa fazer por uma solução civilizada do conflito no país fronteiriço. Afinal, trata-se de definir o lugar que a defesa da democracia e da proteção aos direitos humanos ocupa na agenda externa nacional. A questão é a um só tempo antiga e enroscada.

Brasília de há muito se pauta pela não ingerência nos assuntos internos de outras nações ­­—atitude que deriva da aceitação da soberania como princípio ordenador das relações internacionais. Em consequência, como cada país se organiza politicamente e como os respectivos governos tratam seus cidadãos são realidades irrelevantes para orientar as ações do Itamaraty; relevante, mesmo crucial, é identificar aliados e os competidores, de quais deles se aproximar ou tomar distância.


Em um sistema internacional formado por Estados soberanos, mas desigualmente poderosos, apegar-se àquele princípio ­—de resto universalmente imperante— foi para o Brasil uma forma de proteger-se da ambição —e da interferência— das potências mundiais, em especial dos Estados Unidos.

Mas, já nas últimas décadas do século passado, direitos humanos e democracia foram deixando de ser assuntos apenas domésticos e ganharam relevância na agenda internacional. A criação de tribunais para julgar países e indivíduos responsáveis por genocídio e outros crimes contra a humanidade são parte dessa mudança.

O estabelecimento de cláusula democrática para ingresso na União Europeia; para pertencer à OEA (Organização dos Estados Americanos) ou ao Mercosul vão no mesmo rumo.

Sua existência implica reconhecer a legitimidade de pressões externas pelo advento de um regime que assegure liberdades básicas a seus cidadãos, garanta eleições livres e limpas e reconheça seus resultados.

O compromisso com a defesa da democracia e dos direitos humanos, inscrito na Constituição de 1988 no capítulo sobre política externa, não é, nem pode ser, o único valor a guiar a atuação internacional do Brasil, assim como não é em nenhuma das nações do Ocidente democrático. Mas tem crescente importância também porque fortalece o sistema de liberdades no país, que teria muito a perder com a ascensão de regimes autocráticos na vizinhança e no mundo.

A diplomacia profissional brasileira tem tudo para transformar esses valores em ações que contribuam para a dificílima transição do autoritarismo para a democracia na Venezuela. O que fará melhor se o presidente Lula abdicar dos improvisos e se o PT deixar de viver nos tempos da Guerra Fria —e finalmente desembarcar no século 21.

quarta-feira, 7 de agosto de 2024

É preciso mudar a política. Mas como?

Se um orador em qualquer auditório perguntar à plateia se acha necessário mudar a política, quase todos os braços se levantarão. De esquerda, centro e direita. Os dois ou três reticentes serão certamente de cientistas políticos “nefelibatas”, como diria Fernando Henrique Cardoso, que, de pronto, arguirão o óbvio — essa insatisfação é generalizada no mundo. O que não deveria, contudo, fazê-los desconhecer o diferencial de intensidade dos problemas daqui e ignorar os sinais do abismo à frente.

As disfunções do nosso sistema político são variadas. Por ora, foquemos de um lado no “presidencialismo esgotado”; de outro, na “representação sem fidúcia”, para os quais há diversos indicadores, mas por economia de espaço abordo apenas dois.


Abstraindo-se qualquer etiologia, examinemos o que denomino “taxa de sinistralidade” dos presidentes eleitos na 4ª e na 6ª Repúblicas — a do Pós-Guerra e a atual —, deixando-se de lado as demais por terem escassa ou nenhuma conformação democrática. E apenas dos titulares, valendo para a análise o período dos mandatos e eventuais ocorrências dele derivadas. Na primeira fase, dos quatro presidentes, dois exercícios foram encerrados dramaticamente: Getúlio Vargas (1954) suicidou-se, e Jânio Quadros (1961) renunciou. Cinquenta por cento de sinistralidade. Na Nova República, independentemente das reeleições, foram até agora cinco personagens, dos quais quatro amargaram problemas graves. Fernando Collor sofreu impeachment (1992); Dilma Rousseff também (2016); Lula foi preso (2018) e declarado inelegível (o que seria depois revertido); e Jair Bolsonaro foi tornado inelegível (2023) sem ainda ter sido preso. Quatro em cinco. A taxa sobe para 80%. A que montante queremos chegar?

Quanto à representação sem fidúcia, para prová-la basta um número. Axiomaticamente, confiança supõe conhecimento, mínimo que seja. Inexiste, se eu não me lembro sequer do representante que escolhi. Em setembro de 2023, menos de um ano depois da eleição dos atuais deputados federais, questionados pelo Ipec se lembravam o nome daquele/a em quem haviam votado, apenas 29% disseram que sim. E é legítimo supor que esse baixíssimo registro ainda diminuiria caso fosse indagado e conferido o candidato sufragam

Sendo inequívoco o impacto da governança que um sistema político propicia sobre a performance da sociedade, os dados que O GLOBO trouxe em editorial de 23/6/2024 são um veredito condenatório. Calculou quanto cresceu ao ano a renda per capita entre 2010 e 2023 — período interessante porque por ele passaram governos de todo o espectro ideológico —, chegando à cifra de 0,2%. E projetou o momento em que dobraríamos o padrão de vida, imprescindível para arrancar o país da pobreza que aflige grande parte da população. A conclusão, estarrecedora, é que isso se daria no distante ano de 2368.

Alguém lembrará que até aqui o Judiciário não foi citado. É verdade e é deliberado, independentemente da obviedade de que esse Poder também precisa mudar. Presidentes escolhem os juízes da Suprema Corte, que são confirmados ou não pelo Senado. Não é mudando o Judiciário que se muda o padrão de governação e de representação. O roteiro é o inverso.

E quais as mudanças possíveis? Quanto ao regime, um sem-número de vozes já diagnosticou a inevitabilidade de avançarmos na direção de um sistema misto. Mais francês ou mais português, o que seja. Entre nós, na ausência de um monarca, é enraizada a ideia da legitimação do poder pela escolha direta. Lá atrás, isso justificou as duas primeiras eleições nacionais — para a Regência Una (1835 e 1838). No século passado, essa preferência seria confirmada nos plebiscitos de 1963 e 1993. Não retrocedendo à captura do Orçamento pelo Parlamento, caberá adotar a convivência entre um presidente chefe de Estado e um chefe de governo escolhido pelo Congresso. Se é expressivo o agregado de líderes políticos e de intelectuais que apostam nisso, diminui bastante o daqueles que se ocupam do esforço de superação da representação sem fidúcia, que exige mudança no sistema eleitoral. Mas não será possível termos o primeiro-ministro e o gabinete parlamentar toleráveis aos olhos da sociedade com os partidos “hidropônicos” que temos hoje.

Não é bonito alguém na universidade ter medo de ler

"Transforma em um tuite ou não irei responder”

Foi isso que ouvi do presidente de uma organização da qual participei enquanto embaixador há alguns anos. Na época, precisei falar com ele sobre uma demanda séria e que simplesmente não poderia ser transformada em um texto com até 280 caracteres. Esta coluna mesmo, neste trecho, já possui mais caracteres.

Atualmente lidero o maior programa social de educação do Brasil. Tenho contato direto com milhares de jovens da rede pública de mais de 1.557 cidades do país e com estudantes e graduados de todas as universidades públicas do país.

Minha maior dor no trabalho hoje em dia é o fato de que, salvo exceções, as pessoas não estão lendo mais. Não me refiro a ler Machado de Assis ou obras literárias, mas sim a recados e instruções simples e diretas.

Anos atrás, isso era muito comum entre os jovens secundaristas com quem tenho contato. Eu entendia todo o contexto e a questão da idade, mas no pós-pandemia, houve um crescimento assustadoramente notável. E isso se tornou comum também entre nosso time voluntário e com membros das melhores instituições de ensino superior do país.

Já havia escrito uma coluna sobre este tema, já citei a problemática em outras oportunidades e agora estou aqui novamente, pois nada muda minha ideia de que o problema é grave.


Sei que hoje em dia as pessoas precisam lidar com inúmeras demandas diárias. Sei que muitas pessoas não têm quase nenhum tempo livre, para além do dedicado às obrigações básicas. Sei que o mundo é muito mais dinâmico e rápido. Sei que estamos nos acostumando com outros formatos de comunicação, com a predominância de vídeos curtos.

Sei de tudo isso, mas sejamos honestos: não é bonito alguém que está na universidade ou que se graduou em uma ter medo ou preguiça de ler instruções ou comunicados básicos.

Recortei o público entre os estudantes universitários e graduados por uma razão. Sou natural de um bairro da periferia e o primeiro da família que entrou na universidade. Minhas irmãs não tiveram o mesmo privilégio e nem meus pais. Minha mãe, vira e mexe, compartilha uma fake news acerca da morte de algum famoso nas redes sociais e há alguns dias atrás caiu em um golpe. Tudo isso por pura falta de atenção.

O ponto é que entendo que ela é de outra época e que não teve os mesmos privilégios que eu. Não só ela, mas milhões de outros brasileiros. Alguns textos e linguagens, sobretudo as mais formais, são de fato muito difíceis para que eles interpretem.

Agora, para uma pessoa privilegiada o bastante para estar no ensino superior ou ter concluído a graduação, sobretudo em universidade pública, é um grande problema ter medo de ler, ter preguiça e não dispor da atenção necessária para interpretar um comunicado.

Precisamos parar de romantizar, de banalizar ou de maquiar a problemática com argumentos pautados na correria dos dias de hoje.

Há alguns dias um amigo me contou uma história. Ele tem uma amiga médica que admitiu não saber fazer regra de três. Antes que alguém questione a relevância dessa informação, eu digo: ela é pediatra. É extremamente relevante que ela domine essa técnica para conseguir calcular as dosagens dos remédios. Segundo meu amigo, a médica se confortava com o fato de que havia uma tabela e que isso, inclusive, a desestimulou a tentar aprender. E, se um dia a tabela não estiver à mão, como ela vai se virar? Preocupante.

Há alguns dias, assisti a uma palestra online de 2018 do professor Miguel Nicolelis. um médico e cientista brasileiro de reconhecimento internacional e que atualmente integra o time de docentes da universidade de Duke, em Durham, nos EUA.

"Porque o cérebro é o camaleão que ele é, a nossa imersão no mundo digital, e a recompensa que isso traz, porque o cérebro está sempre calculando uma relação de custo benefício. Na verdade, estamos moldando nosso cérebro e muito provavelmente aparando os processos analógicos dele, para que ele se aproxime de uma máquina biológica digital, ou seja, a nossa imersão contínua em lógica digital está induzindo o cérebro a achar que esse é o caminho que deve ser seguido para receber as recompensas da vida cotidiana de todos nós”

Ele continua: "O efeito da hiperconectividade digital foi produzir milhões de tribos, ou seja: nós regredimos para os comportamentos sociais da origem da nossa espécie, mas todos os comportamentos sociais como empatia, interatividade, vocabulário parecem estar sendo contraídos. A dicotomia é muito interessante e o que vemos hoje em dia é que porque o cérebro é tão plástico e porque a função de recompensa mudou drasticamente. A sua transformação em um zumbi digital biológico é quase que uma necessidade de sobrevivência, mas estamos esquecendo que isso está afetando o cérebro e pode estar afetando de uma forma que não queremos”

Quando ingressamos em uma nova instituição, é comum nos sentirmos perdidos e nos depararmos com um cenário repleto de informações que demandam leitura. Isso é natural e faz parte da vida real e adulta. O que fazer nesses casos? Não ler? Desistir? Fazer um monte de perguntas aleatórias? Não é muito mais maduro e eficiente ler as informações com calma, quantas vezes for necessário, e depois tirar as dúvidas?

Sinto que estamos diante de um grande problema, mas a sociedade não apenas não está dando a devida importância, como também está banalizando e romantizando o tamanho do problema. Espero não ser tarde demais para que algo seja feito.

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


Efeito borboleta

"A gente se move facilmente no que é grande e distante / difícil é apreender o que é próximo e singular", ironiza um epigrama do austríaco Franz Grillparzer. É outra luz de compreensão para o momento político norte-americano, em que a candidatura de Kamala Harris parece avivar chamas da democracia em meio ao seu declínio incipiente na maior potência mundial. Para o escritor angolano João Melo, a eventual vitória de Harris será boa para a sociedade americana e para o mundo, não por qualquer razão geopolítica, mas pelo "efeito borboleta" nos demais países.


O raciocínio é vizinho ao do epigrama, pois se atém a uma singularidade, deixando na sombra o "grande e distante", isto é, a geopolítica imperial. Essa é a dimensão em que circula o slogan trumpista "Maga" ("torne a América novamente grande"), que só parece algo de novo quando se esquece que o mote de Reagan era"America is back again", ou seja, "a América está de volta". Mero delírio cinematográfico de conforto à nação fragilizada pela derrota no Vietnã, acompanhada à distância televisiva por um povo cujos filhos precisavam se drogar na cena de guerra para aceitar que estivessem morrendo por nada.

Mas um delírio autopublicitário, que obtém confiança paradoxal, "aquela que se dá a alguém em função de seu fracasso ou de sua ausência de qualidades" (Jean Baudrillard, em "América"). Nada de credibilidade real, e sim crença sectária nas profecias de um chefe qualquer. Desde Reagan, a América estaria atravessando o que Baudrillard chamou de "histeresia de potência", isto é, um efeito que continua depois que a causa desapareceu e se desenvolve por inércia. Trump, puro efeito de tevê, é imagem dessa potência mítica e publicitária, agora impulsionada por redes protofascistas.

Por trás dessa grande ilusão, está a realidade da aliança do complexo militar com o capitalismo financeiro. Se eleita, Harris nada poderá fazer para alterar o capitalismo bélico, assim como nada puderam Obama ou Biden. Pelo contrário, estimularam a simulação imperial, incrementando guerras e matando inimigos mundo afora. Foram, porém, operadores do "efeito borboleta", que é o percebido como próximo nos países às voltas com instabilidades democráticas.

Neles, o discurso democrata de Kamala Harris, por mais ambíguo que seja, ainda oferece o melhor da América, a sugestão de liberdade política, que faz a diferença entre o horror do grande e a normalidade do singular. Para quem vive em espírito público de qualidade negativa, movido a ódio e baixarias, é uma oferta confortável. Trump, claro, é a obscenidade da cena primitiva americana. Se eleito, não será apocalipse nenhum, mas um "flatus" desagradável da impotência moral da potência.
Muniz Sodré

Venezuela é um caso perdido para Lula

Quem quiser que se iluda: a não ser que haja uma grande rebelião popular, Nícolás Maduro se consolidará como ditador da Venezuela. Usará de todos os recursos institucionais de que dispõe para sua permanência no poder por mais seis anos, reprimirá duramente a oposição e contará com apoio internacional suficiente para sustentar essa posição. Ainda que enfrente grande reação no Ocidente democrático, liderada pelos Estados Unidos. Os esforços do Brasil, do México e da Colômbia para que o resultado das urnas seja respeitado fracassaram.

A Venezuela conta com forte apoio dos seus militares e do eixo euroasiático formado por Rússia, China, Coréia do Norte e Irã, além do apoio de Bolívia, Cuba, Honduras e Nicarágua. Esse sistema de alianças garantirá a sobrevivência do regime venezuelano, mesmo diante do bloqueio econômico que certamente sofrerá dos Estados Unidos e da União Europeia, além de Argentina, Chile, Costa Rica, Panamá, Peru, República Dominicana e Uruguai, países com os quais rompeu relações diplomáticas. Os esforços do Brasil e da Colômbia, que ainda tentam uma saída negociada para a crise venezuelana, estão fracassando.

É uma situação delicada para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que sofre grande desgaste interno em razão de suas relações históricas com o chavismo e uma posição que muitos consideram dúbia, por causa de declarações que contemporizam com Maduro e, de certa forma, teceram o roteiro que o venezuelano pretende seguir para se legitimar perante o Brasil. Lula havia dito que a oposição deve contestar os resultados oficiais na Justiça, como se houvesse independência do Legislativo e do Judiciário na Venezuela. Maduro agarrou a proposta com as duas mãos.


É uma espécie de feitiço contra o feiticeiro. O ativismo diplomático de natureza ideológica de Lula na América Latina, desde a posse, coleciona fracassos, porque não dá conta das contradições e diversidade política da região, ao contrário da nossa tradição de política externa pragmática e independente, que poderia ser mais bem sucedida sem esse viés esquerdista. Todos os setores democráticos que apoiaram Lula contra Jair Bolsonaro, em 2022, para interromper a deriva autoritária em que o país estava, agora cobram seu posicionamento contra a permanência de Maduro no poder. Não foi por falta de aviso.

A possibilidade de o Brasil, a Colômbia e o México serem fiadores de uma solução negociada do impasse subiu no telhado: Maduro precisaria reconhecer a derrota ou convocar novas eleições, sob supervisão internacional. Isso dependeria de uma escalada de endurecimento da posição dos Estados Unidos e de uma fissura interna nas Forças Armadas. Não parece ser o que vai acontecer.

A América Latina passa por uma curva da história, moldada pela presença crescente da China, com investimentos em infraestrutura e recursos vitais, que desafiam a influência dos Estados Unidos na região. A China é um parceiro valioso, principalmente para o Brasil, apesar dos riscos de dependência econômica.

Essa disputa com os Estados Unidos, porém, no caso da Venezuela, tem um ingrediente muito perigoso: o pacto militar com a Rússia, que fornece equipamentos bélicos às Forças Armadas venezuelanas. Os militares ganham mais força e poder durante o governo de Hugo Chávez, entre 1999 e 2013. Sua fidelidade ao governo sustenta-se no poder (ocupam cargos importantes), no dinheiro (controlam petróleo e minérios) e no medo (a dissidência não é tolerada).

A tensão entre Venezuela e Guiana sobre o território do Essequibo, por causa do petróleo, exacerba essa influência militar. A presença dos Estados Unidos na América Latina continua hegemônica, mas precisa oferecer alternativas aos investimentos chineses, manter o equilíbrio geopolítico e respeitar a soberania dos países da região. Diplomacia e cooperação precisam caminhar de mãos dadas com a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento sustentável.

Um ambiente de paz e equilíbrio na região depende muito do posicionamento do Brasil, que tem 1.987.000 militares na ativa, além de 84 milhões de reservistas. O Brasil possui 723 aviões, 255 helicópteros, 1.707 veículos terrestres, 180 lançadores de foguetes, 110 embarcações e cinco submarinos de combate. Em contraste, a Venezuela conta com 280 aviões, 104 helicópteros, 700 veículos terrestres, 52 lançadores de foguetes, 50 embarcações e dois submarinos.

Entretanto, por causa da Venezuela, crescem a instabilidade e o risco de confrontos na região. No caso da Guiana, a presença de ExxonMobil e as ameaças de anexação de Essequibo pela Venezuela farão com que os americanos queiram implantar uma base militar no país vizinho, uma ex-colônia britânica. O foco dos Estados Unidos na América Latina é a garantia dos seus interesses comerciais, políticos e geoestratégicos, e a consolidação de sua posição como liderança em todo o continente americano.

O Brasil precisa ser claro em relação à sua parceria com os Estados Unidos, um aliado estratégico regional para questões de segurança, como na Segunda Guerra Mundial, quando o país se juntou aos aliados no combate ao nazifascismo na Europa. Mas também como um parceiro comercial, pois é o principal destino de nossas exportações industriais, afora o potencial de parcerias nos campos do pré-sal.
Luiz Carlos Azedo

O governo da Venezuela é uma ditadura de esquerda

O governo da Venezuela é uma ditadura. Não importa que Lula, seu assessor Celso Amorim e o PT afirmem o contrário. O regime de Nicolás Maduro não preenche nenhum dos requisitos de uma democracia, a começar pelas eleições farsescas, como a realizada no domingo (28).

Além de se recusar a divulgar as atas do pleito, o governo interferiu na disputa ao impedir candidaturas da oposição e coagir eleitores.

Como em toda ditadura, o aparato policial do Estado persegue jornalistas e dissidentes. No Índice de Liberdade de Imprensa da ONG Repórteres sem Fronteiras, a Venezuela é a 159ª colocada entre 180 nações.


Estima-se que 125 pessoas foram mortas nos protestos de 2017. O Tribunal Penal Internacional levantou mais de 1.500 denúncias de abusos das forças de segurança, enquanto a ONU computou 122 casos de tortura e violência sexual.

O governo da Venezuela é de esquerda. Não importa que militantes e até parte da imprensa digam que não é —no caso dos jornalistas, solapar dados históricos e princípios básicos da economia e da ciência política desse modo é vergonhoso.

Maduro é cria do chavismo, uma ideologia populista passadista que se apoia no anticolonialismo de Simón Bolívar e no discurso socialista dos anos 1960, como a crítica ao livre mercado e ao imperialismo dos EUA. No Índice de Liberdade Econômica de 2023, a Venezuela está na posição 174 —à frente apenas de outras duas ditaduras de esquerda, Cuba e Coreia do Norte.

Diz-se que seria de direita pois é militarista, tem apoio de evangélicos, não legaliza o aborto, nem respeita homossexuais. Mas tal argumento é um disparate, já que o esquerdismo de Maduro é datado, relativo ao período da Guerra Fria, não o em voga identitário, focado nos costumes.

O governo da Venezuela é uma ditadura de esquerda. Os cerca de 8 milhões de refugiados do país, que escaparam da fome e da violência estatal, a sentiram na pele. Não importa o malabarismo conceitual do PT, da militância e de parte da imprensa.

A mentira voa, a verdade coxeia

Os episódios de violência baseados na difusão de falsidades não começaram agora. Há uma história longa de notícias falsas potenciarem movimentos de violência coletiva ou condenações judiciais infundadas, invariavelmente com o racismo e a xenofobia como panos de fundo. Os Protocolos dos Sábios de Sião, o caso Dreyfus ou o julgamento de George Edlji no Reino Unido são casos exemplares do início do século XX, todos sobejamente retratados, que vale a pena recordar por demonstrarem que as notícias falsas não nasceram hoje e têm consequências.

Sintomaticamente, Jonathan Swift, no século XVIII, alertava já que “uma mentira voa, enquanto a verdade vem a coxear atrás dela”. Mas, do mesmo modo que é errado olhar para a forma como a difusão de falsidades se traduz em violência como uma novidade histórica, é também equívoco desvalorizar a originalidade como isso acontece nos nossos dias.


Recordo isto depois de esta semana, no Reino Unido, um jovem de 17 anos ter assassinado três crianças — e ferido outras oito com gravidade — e ainda dois adultos, num ataque com uma faca durante uma aula de dança dedicada a Taylor Swift. A polícia britânica divulgou pouca informação sobre o ataque bárbaro, até porque o acusado é ele próprio menor. Entretanto, sempre foi assegurando que o crime não estava a ser investigado como ataque terrorista, e o The Guardian escreveu que terá sido motivado por perturbações mentais, enquanto a BBC avançou que o suspeito não tinha ligações a movimentos islâmicos radicais.

De pouco valeu esta informação de duas fontes credíveis ou os apelos dos familiares das vítimas para que o luto fosse respeitado. Nas redes sociais, em particular no X, figuras proeminentes da extrema-direita britânica logo se apressaram a sugerir que o atacante tinha chegado de barco ao Reino Unido e que aguardava resposta a um pedido de asilo. As palavras tiveram consequências: primeiro em Southport, depois por todo o Reino Unido um conjunto de motins levou à detenção de mais de cem pessoas, com 50 polícias feridos.

É natural que uma tragédia como a de Southport gere revolta, mas como é que se passa da justa indignação com a barbárie para motins de pendor racista? A resposta está num ecossistema sociopolítico disponível para acreditar em falsidades e na existência de mecanismos rápidos para a sua propagação.

São complexos os motivos pelos quais a ansiedade económica se transformou também em ódio face ao outro e, em particular, num poderoso movimento de islamofobia. A ambição securitária de regresso a sociedades culturalmente homogéneas (um passado mitificado que nunca existiu) é, hoje, uma alavanca política poderosa. Dir-me-ão, sempre foi: o racismo e a xenofobia estiveram na génese da maior barbaridade do século XX, o Holocausto. É um facto. Mas não secundarizemos o que é novo.

Ao contrário do passado, a inexistência de um movimento social organizado não impede a mobilização política. Pelo contrário, a fragmentação política até se revela vantajosa, pois acaba por se transformar em convergência na ação. Acima de tudo, as redes sociais transformaram a validade da centenária asserção de Jonathan Swift. Em particular o X, agora detido pelo entusiasta do trumpismo Elon Musk, funciona com cada vez menos regulação e promove um ciclo imparável: primeiro, contas anónimas difundem uma falsidade, que logo é amplificada por figuras proeminentes da extrema-direita, para depois ser transformada em ação política nas ruas.

As mentiras hoje voam à velocidade da luz, enquanto a verdade fica paralisada a assistir. Também aí radica o deslaçar político das nossas sociedades.

sexta-feira, 2 de agosto de 2024

Pensamento do Dia

 


A insurgência verde

Antes mesmo de se difundir o que vem sendo chamado de consciência ambiental, começavam a ter visibilidade, entre nós, manifestações populares espontâneas de outra variante dessa consciência. A que pode ser definida como consciência prática da relação homem-natureza, a consciência do vivido.

Migrantes vindos da roça, em recantos de favelas, na beira de riachos, nas sobras de terra urbana, semearam hortas e pomares, na tradição dos tempos coloniais das terras comunitárias. Acompanhei em São Paulo e no subúrbio a proliferação, nessa perspectiva, de versões populares do que Ernst Götsch, na Bahia, em seu notável experimento de regeneração produtiva do solo, chama de agrofloresta.



O antagônico da destruição decorrente da expansão da economia neoliberal, do capitalismo rentista, lucrativo no curto prazo e anticapitalista no tempo histórico. A desvalorização de tudo que não é imediatamente lucrativo, como tradições e pessoas.

Um senso comum de amadores da economia foi ocupando o lugar do que o pensador italiano Antonio Gramsci definiu como bom senso. A satanização de Gramsci pelos porta-vozes dessa modalidade de pobreza mental é bem expressão da visão redutiva de mundo dos patronos do lucro sem moral. Ou o que Thompson, em estudo célebre, define como economia moral, a que motivou a derrubada da Bastilha em 1789.

Coisa de gente tosca que se autodefine “de direita”, não porque saiba o que quer e o que pode, mas justamente porque não o sabe. Os que definem como de esquerda, supondo estigmatizá-los, quem e o que lhes revela as irracionalidades e a mentalidade do caos. Gente daquela melancólica reunião de governo de 22 de abril de 2020, quando o ministro da área ambiental sugeriu a possibilidade legal de, através de normas infralegais, contornar e violar as regras ambientais passando por baixo do arame farpado da lei.

Direita, como a brasileira, que não tem propriamente medo do comunismo, pois não sabe o que ele é. Tem, sim, medo do conhecimento cientificamente fundamentado que explica a realidade e suas tensões inovadoras. Tem medo do humanismo da tradição popular. Afirma-se conservadora, quando é apenas reacionária. Agarra-se ao presente de contradições e irracionalidades lucrativas porque tem medo das transformações sociais que emancipam e libertam as vítimas da injustiça econômica e da opressão social.

Basicamente, seus agentes sabem que não têm competência para construir o país do futuro nem para nele viver. Cospem no amanhã da pátria e no seu futuro histórico. É o escarro da sociedade do absurdo.

É justamente a concepção popular da questão ambiental, em países como o nosso, um dos refúgios da tradição conservadora, como expressão de um modo de vida excluído das relações econômicas dominantes. Último reduto dos grandes legados da história social e cultural, das pequenas maravilhas do saber dos simples.

Âmbito em que o ser humano se reconhece como ser totalizador e de totalidade em movimento. Isto é, como ser conectado com todos os domínios da vida na relação entre o homem e a natureza, o todo que propõe desafios e dá sentido à vida. Nessa perspectiva, as lutas sociais são lutas contra a vida sem sentido. Essa é a visão de mundo de esquerda. O resto é resto.

Quem é o protagonista desse mundo da liberdade, da superação, da humanização do homem e da transformação social? Teve momento em que os pensadores sociais demonstravam que o protagonista era a classe operária. Mas a sociedade capitalista sujeitou e fragilizou a classe trabalhadora ao minimizar o trabalho e transformar o próprio desemprego em fator de lucro e de lucratividade.

O sujeito da nova realidade possível é o homem simples, sujeito da contradição representada pelas vítimas incapturadas do desenvolvimento econômico socialmente excludente.

É nessa perspectiva que a questão ambiental não é apenas a questão do meio ambiente, mas a questão social da relação homem-natureza, a relação mediadora da necessidade de transformação social. A que propõe o homem de necessidades como autor das mudanças sociais. O homem não como produtor de coisas, de porcas e parafusos.

O homem dessa realidade é produtor do seu destino possível. Seu modo residual de ser, de viver e sobreviver e de pensar é fundamento da crítica de um modo capitalista de lucrar que já não coincide com um modo capitalista de participar nem mesmo na produção. Milhões de desempregados são disso o documento vivo.

No mundo inteiro, são muitíssimas as formas de insurgência contra a devastação da natureza e o negócio da destruição ambiental. O que com Lefebvre defino como insurgência da vida residual e insubmissa de resistência à alucinada economia da destruição lucrativa.
José de Souza Martins

Isolacionismo velho de guerra

Famílias sinti alemãs em frente a barracão
para isolá-las de r
Ravensburg,, em 1937

O radicalismo de direita está em ascensão na Europa. Temos que nos defender contra ele. Temos de educar os jovens!
Christian Pfeil,  sobrevivente sinti dos campos nazistas

A próxima guerra total

A cada dia cresce meu temor de estarmos caminhando para uma guerra total. Não mais “conflitos locais”; guerra sem limites, com múltiplas Hiroshimas e Nagasakis em todos os continentes.

Isso porque vejo escalarem os confrontos entre Ocidente x outras potências, assim como falas cada vez mais abertas de agentes da guerra afirmando a inevitabilidade de um confronto total. Chamo “agentes da guerra” àqueles ligados ao complexo industrial-militar-consumista, inclusive autoridades da OTAN e dos “inimigos” desta. Há, ainda, movimentos geopolíticos explicáveis como preparação da guerra total.

Analisando as próximas eleições nos EUA a revista The Economist afirmou recentemente (25/07/24): “O senhor Trump tem uma visão [equivocada] de magnata do ramo imobiliário, de que a força é simplesmente músculo; a força é ampliada quando enraizada em princípios”. Todos os agentes da guerra sabem muito bem que a força e a segurança nacional não se baseiam apenas em mais músculos, isto é, armas; é fundamental manter coerência com certos princípios. No entanto, insistem em fechar os olhos à frequência com que nações ocidentais quebram aquele que é, talvez, o mais fundamental de seus princípios fundadores e legitimadores: os direitos humanos! Assim procedendo, enfraquecem suas nações.


Interessante notar que a visão de mundo dos chineses se fundamenta na noção, que remonta à Confúcio, de “poder nacional abrangente”. Nesta, o “abrangente” explicita a necessidade de equilíbrio entre os vários pilares da força nacional, entre eles a educação, a ciência, a satisfação popular com sua vida etc. Neste último sustentáculo, as mais ricas nações ocidentais estão patinando ou regredindo desde os anos 1980, ao contrário da China!

Como ainda reivindicar o monopólio da defesa dos direitos humanos e continuar a enviar armas para Netanyahu tentar se manter no poder aniquilando palestinos e ampliando a guerra para outras frentes?

Quanto às falas, o último ministro da defesa do Reino Unido, ainda no cargo, disse ser inevitável a guerra total. Neste corrente julho de 24, um ex-secretário geral da OTAN, Lord George Robertson, recém nomeado para rever a política de defesa da Inglaterra, disse que “a Inglaterra e seus aliados enfrentam um quarteto mortal, composto por Rússia, China, Iran e Coréia do Norte, que agem em conjunto contra o Oeste, compartilhando armas, componentes e inteligência”. E não é verdade que a Inglaterra e seus aliados agem em conjunto contra aqueles quatro, também compartilhando armas, componentes e inteligência? Assim agindo, negando o princípio da coerência e da realidade, como a semelhança entre ações dos dois campos, não estão os “agentes da guerra” tentando nos preparar para o confronto total, desejado apenas por eles e seus sócios?

E não aprenderam ainda, esses agentes da guerra, após milhares de conflitos, que não existe vitória total e permanente baseada na força? No mundo pós-Hiroshima e Nagasaki, não é tempo de mentes menos obtusas assumirem o comando?

A banalização do mal e o fim da política

Enquanto peço o café, o olhar desvia-se para a televisão. Páro. Estremeço ao ver a notícia que ocupa o ecrã. Um homem, um avô, violou o neto de três anos. Sento-me e continuo a olhar, enojada. Em estúdio, o apresentador lança a discussão. “Este homem merecia o quê?”. Ouve-se, ainda fora do plano, alguém a responder “castração”. Os minutos seguintes são para uma psicóloga discorrer sobre como a castração química, por não impedir o desejo, pode tornar os abusos ainda mais perversos.


No dia a seguir, deixo as crianças na escola e, junto ao portão, tropeço no fim de uma conversa. Comenta-se a forma como algumas pessoas se recusam a dar prioridade a grávidas e bebés. Um pai, de ar plácido, reage perante um desses relatos, com uma voz que não denuncia sequer irritação. “Esse homem merecia a pena de morte”. Nenhuma reação.

Ponho os auscultadores e sigo pela rua, ouvindo um podcast. A reportagem do The New York Times é sobre o que será um Trump 2.0 e fala sobre a forma como o agora candidato à Casa Branca tem um plano para remover os obstáculos que refrearam o seu primeiro mandato.

O microfone vai para Ed Young, de Brick, New Jersey, que está num comício de Donald Trump. É 78.º comício de Trump a que vai. “Espero que quando for reeleito se acabe o Mr. Nice Guy. Espero que haja um acerto de contas”. E como? “Bem, sabe, esta é a minha fantasia, aquilo de que este país precisa mesmo. Quer dizer, não vai acontecer. Na minha fantasia aquilo de que precisamos é de um julgamento ao estilo de Nuremberga para este país. E que todos os eleitos democratas sejam julgados por traição. E, se forem condenados, que sejam castigados, tal e qual como os nazis em Nuremberga. Espero por Deus ver criminosos malvados e traidores como os democratas serem presos e condenados”.

A castração, a pena de morte, a prisão política. O desejo de aniquilação do outro, motivado por um suposto sentido de justiça. A forma como a racionalidade desapareceu de um discurso público inflamado por uma indignação contínua e estéril, está a ter efeitos profundos.

Pode dizer-se que são efeitos de linguagem. Talvez a comentadora que, em estúdio, fala na castração estivesse a agir sob o efeito da repulsa óbvia que o crime provoca. Talvez o apresentador não se tenha sequer questionado sobre os efeitos que a pergunta que lançou tem sobre quem acaba de ser confrontado com um ato tão abjeto. Certamente que o pai que conversava à porta da escola não pretendia matar quem recusa dar a vez a uma grávida. E o apoiante de Trump usa mesmo a expressão “fantasia” e tem o cuidado de afirmar que aquilo que deseja “não vai acontecer”. E, no entanto, esta forma de agir sobre o mundo com a vontade de aniquilar o outro é cada vez mais frequente, ao ponto de se tornar banal. É com a banalização do mal que estou preocupada.

Estamos perante o fim da política. Aniquilar aquele com quem não se concorda, de forma real ou simbólica, é renunciar à política. Quem nos instiga a indignação excitada, quem promove o ódio sobre o outro, quer verdadeiramente que renunciemos à política, deixando o campo aberto para que sejamos conduzidos sem reação para um mundo que promete lei e ordem, mas que se alimenta do caos necessário para que uma pequena elite reine incontestada sobre a turba oprimida e alienada.

Do que precisamos não é de indignação. É de pensamento crítico. Aquele que obriga a tudo o que está fora de moda. Ouvir, ler, refletir, atrasando a reação, aceitar o erro, mudar de ideias, abdicar de certezas. Seremos ainda capaz disso?